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NOVA 1 Dezembro - 2007

NNOOVVAA EE--ZZIINNEE DDEE FFIICCÇÇÃÃOO CCIIEENNTTÍÍFFIICCAA EE FFAANNTTÁÁSSTTIICCOO

Índice

Editorial………………………… 2

Corvos no Fio, Csilla Kleinheincz… 3

Herói da Causa, Telmo Marçal…….12

Apêndice para Obra Desconhecida, Luís

Filipe Silva……………………… 32

Origami, Santiago Eximeno……… 37

Sobre os autores………………….44

Todos os direitos são pertença dos autores. Proibida a reprodução de qualquer texto sem autorização expressa do respectivo autor.

Imagens de erlebnis, kenket e beccapark.

NOVA – e-zine de Ficção Científica e Fantástico, número 2, Dezembro de 2007 Email: thanabur@gmail.com Site: nova-ezine.farvista.net

Editorial

Esta edição é eclética em termos de géneros. Pese embora tenha iniciado o projecto tentando ter contos de FC da linha hard acabei, por força das várias circunstâncias, por optar pela diversificação. Tenho, desta forma, para si, caro leitor, uma mescla de sobrenatural, horror e FC.

E antes de apresentar o conteúdo desta edição uma palavra de

agradecimento, mais uma vez, ao Tiago Gama, editor do Phantastes, que me enviou textos de dois autores estrangeiros para minha apreciação. Um dos autores, Csilla Kleinheincz, foi seleccionado e o conto Corvos no Fio surge vertido para o nosso idioma naquela que é a

segunda publicação desta jovem escritora em terras portuguesas.

Telmo Marçal volta a marcar presença no NOVA com Herói da Causa, um conto onde a velha máxima “quem não quer ser Lobo não lhe veste a pele” tem superior expressividade.

Já anteriormente publicado online e no estrangeiro, Luís Filipe Silva

dá-nos Apêndice Para Obra Desconhecida, onde sob a forma de notas temos um vislumbre dum futuro que pode estar ao virar da esquina.

Santiago Eximeno oferece-nos um conto de horror com laivos de Clive Barker dos tempos áureos de Books of Blood. Um homem de 3.ª idade encontra num jovem um companheiro para a solidão mas que verá o jovem nele? O conto venceu o prémio Ignotus de 2003.

Esta é também a edição onde opto, talvez definitivamente, por um formato A4, disponibilizando-o como PDF já que o anterior formato não foi do absoluto agrado de todos.

Estou muito satisfeito com a qualidade desta edição e espero que esta satisfação perpasse para si, caro leitor, que em última análise é a razão de ser da existência deste projecto.

O Editor

Outubro/Novembro, 2007

CC OO RR VV OO SS

NN OO

FF II OO

CCssiillllaa KKlleeiinnhheeiinncczz

- NÃO ME ESTÁS A DAR a devida atenção. - disse Roárk.

A esposa não respondeu, manteve-se sentada na árvore, e o seu olhar brilhava no entrelaçado dos ramos.

- Nunca me dás atenção. É má educação um corvo

não levar o corpo quando voa para longe. Estás a ouvir? E estou a arriscar a minha vida por ti. Porque é

que me casei contigo?

Krá não respondeu, só eriçou as penas na parte de trás do pescoço.

- Quem vai procurar o jantar? - perguntou Roárk, e inchou o peito. - Vou eu! E quem vai enxotar as pombas? Vou eu! E tu ficas aí agachada, sempre

Estás a olhar para o quê,

sentada a olhar hã?

- Oh, cala-te. - disse Krá, e virou-se para o marido. Os olhos estavam molhados. - Tu não sabes nada. Só sabes crocitar, é só o que sabes.

- Ingrata, - replicou Roárk, mas não lhe tocou. - Mas quando os nossos filhos

a olhar

Os olhos de Krá faiscaram e Roárk deu um salto para trás.

Caiu o silêncio. As penas eriçadas de Krá alisaram, mas as garras continuavam cravadas bem fundo na casca do ramo. Por cima deles, os habitantes dos céus voavam, pretos, cinzentos, as vozes misturavam-se com o barulho da cidade.

As rodas dos carros guinchavam, a música vinda dos cafés e dos telhados, os sons faziam vibrar os fios esticados. E isso irritava Krá. Havia demasiado som no ar. Na floresta, entre os picos verdes das montanhas era diferente.

- Então, estavas a olhar para onde? - perguntou Roárk.

Krá apontou para a praça com o bico. - Aquele ali. Está lá todos os dias.

- São todos iguais.

- Não acho.

Ambos olharam por entre os ramos entrelaçados para a praça. Do lado oposto, no banco desgastado, estava sentado um rapaz de casaco preto, com uma prancha de desenho nos joelhos. O cabelo caía-lhe nos olhos, as mãos agitavam-se ao longo do papel como um insecto branco. Ao desenhar mordia os lábios.

- Que tem? - perguntou Roárk.

- Estou curiosa por ele estar sempre ali.

- E isso interessa? É um humano.

Roárk começou a limpar as penas. Krá continuou a observar o rapaz. O casaco preto e o cabelo escuro despenteado faziam-lhe lembrar penas arrepiadas. Como se tivesse apanhado uma chuvada, estava tudo agarrado a ele. Fazia-lhe lembrar qualquer coisa, talvez um sonho, ou uma história de corvos. Reflectindo, encrespou as penas.

Roárk pigarreou. - Vens jantar?

Krá olhou para ele, abanou os ombros, e com as asas bem abertas voou até aos caixotes do lixo. Espantaram todos os outros pássaros. Quando se tratava de comer não havia amizade, nem entre eles partilhavam as migalhas.

Mais tarde, quando o céu começou a ficar bordado pelas estrelas e os barulhos acalmaram, Roárk falou de novo:

- Porque é que estavas a observar aquele homem?

Krá não respondeu. O corpo negro formava uma figura esbelta na escuridão alaranjada pela luz dos candeeiros. Por cima deles, mensagens invisíveis zumbiam no ar.

- Bem, - disse Roárk pigarreando, - seja como for, ele já foi para casa. Vamos dormir.

- Sim, vamos dormir.

Roárk tocou nas asas da esposa. - Para toda a vida, Krá.

- Para toda a vida, Roárk. - repetiu a esposa sem

prestar atenção. Continuava presa ao pensamento que a tinha assaltado enquanto observava o rapaz.

*

No dia seguinte, o asfalto da praça estava branco resplandecente, até os charcos escuros estavam iluminados pelo ar gelado. As sombras dos grandes

prédios cinzentos projectavam-se nas árvores despidas, os escorregas desertos e os baloiços sem assentos.

Krá observava a praça com a cabeça inclinada de lado. Roárk andava algures à procura de comida, ou a discutir com outros corvos, mas apesar do frio ela sentia-se primaveril. Krá debruçou-se entre os ramos e observou o homem de preto no banco de jardim. Nas mãos segurava o bloco, como de costume.

Krá esticou-se, bateu as asas e voou. O ar elevou-a, e pousou suavemente nas costas do banco. O rapaz não deu por ela; abanou um pouco a cabeça, e continuou a desenhar.

Krá olhou para o bloco, sentiu-se como se tivesse sido atingida por uma pedra, só que o impacto não a magoou. Na folha branca de desenho sobressaíam linhas pretas entrelaçadas umas nas outras

estendendo-se para os lados. Corvos e ossos, penas e órbitas oculares, para sempre captadas na superfície

de papel. Numa das páginas havia uma humana com

cara de pássaro sentada num ramo, pelas dobras da saia comprida não se percebia se eram pregas ou um

grupo de penas. E os olhos

ressaltava do papel. Os olhos de Krá.

Krá não sabia qual era a sua imagem, mas no

íntimo não tinha dúvida que era ela na folha de papel.

O rapaz roubou-lhe a alma, transformou-a e tornou-a

semi-humana. Quem mais poderia ser?

um ponto de luz

Quem é este rapaz? De um salto nas costas do banco, aproximou-se e inclinou-se por cima dos ombros dele. Na folha, os esqueletos desenvolveram asas lentamente. Krá, pestanejando, observava a

caneta a rolar por toda a folha, e de repente levantou voo tocando no rosto do rapaz, que olhou para cima perplexo.

- Já sei! - gritou Krá, e desapareceu por entre os fios que zumbiam. - Roárk, já sei!

- O que é que já sabes, mulher? - perguntou Roárk e esvoaçou lá de cima até junto da esposa.

- Já sei quem é este rapaz!

Roárk resmungou. - Foi por isso que me chamaste?

- Esvoaçavam no ar, à volta um do outro, as asas criando um remoinho por cima das chaminés.

replicou Krá zangada.

-

Eu não

te chamei!

- Vá lá, diz-me e vai-te embora, tenho coisas para fazer!

- Coisas de corvos! - atirou-lhe Krá com desprezo.

- De que sabes genuíno!

Krá tentou bicá-lo, mas falhou. Lá do alto os pombos insolentes gritaram-lhes: - O que se passa, Roárk? A senhora está nervosa?

Repentinamente Krá virou-se e desceu. Pensou que Roárk a iria seguir, mas não ouviu o bater das asas atrás dela. Voltou rapidamente para a praça e aconchegou-se no alto dum baloiço. O coração ainda batia pesadamente. Quis atingir, ferir Roárk sem saber por quê, mas nos seus ossos, nas suas penas havia a paixão quente dos últimos anos, do último Verão, dos jovens passarinhos

De repente os ombros de Krá afrouxaram e parou de crocitar. - Sou eu. Roárk tem razão, há qualquer coisa errada comigo.

tu? Nem sequer és um corvo

Observava silenciosamente o rapaz enquanto ele desenhava até ficar com os dedos dormentes. Depois levantou-se, arrumou o bloco, e com os ombros curvados afastou-se no meio das casas, o cabelo nos olhos.

- Sei quem tu foste, - disse Krá nas costas dele, e

de repente sentiu vontade de rir e chorar. Era uma sensação estranha, como se quisesse morrer, mas não era isso.

Como

não

conseguia

nem

rir

nem

chorar,

encolheu os ombros e olhou para a árvore.

*

- Roárk? - perguntou Krá enquanto olhava as pessoas apressadas na rua. Pelas portas do teatro saía a luz e o público, saltos altos a tamborilar, as portas dos carros a bater asperamente. A lua espreitava-os detrás de uma antena.

correrem

apressadas, rindo e abanava a cabeça. - Roárk?

Krá

observava

as

pessoas na

rua,

a

-

Sim?

-

O que se passa comigo?

Silêncio, e depois a voz rouca de Roárk soou. - Não se passa nada contigo. Não penses nisso.

Krá, agradecida, aconchegou-se a ele. Precisava do calor. As penas das asas estavam a tremer ao ritmo do coração.

- Tens demasiadas expectativas. Tens de te limitar

ao corvo que és.

ombros de Roárk eram

- macios e quentes.

- Vais-te sentir melhor quando chegar a Primavera. Só precisas de um par de filhotes, e

Krá voou para longe, os olhos amarelos brilhando despeitosamente no escuro.

- Sim! Com certeza! O que queres de mim, Roárk?

O que sou eu para ti?

companheira,

Roárk

- silenciosamente. - Para toda a vida.

Eu bem

queria. - Os

A

minha

-

disse

Krá lastimou-se.

- Sei disso! Sei disso, Roárk!

As asas tocavam ao de leve nos ramos, alvoroçava

as penas ao debater-se nos padrões entrelaçados dos

galhos, mas não parou. Acabou por sair da copa nua e lançou-se na noite de índigo diluído.

Sobrevoou os candeeiros das ruas, através das iluminações de Natal que transformavam a rua na Via Láctea. Misturou-se no barulho, os sons estridentes dos travões dos carros, as sirenes das ambulâncias e a música que saía dos bares. Janelas escuras e iluminadas passavam rente a ela, até que chegou à rua principal, onde as árvores estavam cheias de lâmpadas em vez de folhas, e aí pousou no pavimento.

À sua volta ouvia-se o roçar dos casacos e o bater dos sapatos. Quando uns saltos altos vermelhos passaram por ela, deu meia volta e foi atrás deles.

“Se ele conseguiu, eu também consigo”, pensou, e recordou o rapaz quando deixou a praça com as costas curvas e a cabeça baixa, com o casaco pendurado como duas asas fechadas. “Eu também consigo ”

Sentiu comichão nos pés. Começou a crescer, joelhos, ancas e ombros surgiam-lhe perante os olhos, que se fixavam em frente, captando o olhar de outro ser humano. O homem afastou repentinamente o olhar, mas não foi isso que fez estremecer Krá. Baixou os olhos para si. Saia preta, mãos brancas, sapatos pretos com atacadores. Olhou para cima, e mirou-se numa das montras. Rosto branco, olhos amarelo-âmbar e caracóis negros-azeviche.

Perdeu o equilíbrio, e por momentos sentiu um medo desconhecido, medo de se ter perdido a si própria. Mas depois reconheceu-se nos olhos reflectidos na montra.

Sorriu, hesitante, virou-se e lançou-se à mole de pessoas.

Lentamente a intranquilidade e o medo desapareceram, e a felicidade instalou-se. Gostava de ser alta e de poder ver as cores - a luz dourada dos candeeiros inundou-lhe os olhos e lavou-lhe os pensamentos. O vermelho era como o calor de uma

chaminé, e o verde como gotas de chuva nas penas.

O azul? Era como flutuar no ar, o bater das asas.

As outras pessoas mal reparavam nela, era igual a eles, e Krá banhava-se nos olhares que por vezes lhe lançavam.

“Sou um ser humano,” pensou, e parou. Deixou os retardatários passarem por ela observando as roupas,

as caras e as vozes. Sentiu-se leve, a insatisfação que a invadira interiormente desaparecendo. Finalmente sentia que pertencia algures.

*

Quando voou de volta à árvore, como corvo, tentou não fazer barulho para não acordar Roárk. Com cuidado aninhou-se ao lado do marido e enfiou o bico entre as asas.

- a voz de Roárk era profunda e desperta,

sem sinais de sonolência ou de estar a sonhar.

- Sim? - respondeu Krá com voz amorosa. Agora já

conseguia ser simpática. Fora humana até as ruas ficarem vazias, e até o seu coração se encher de cores. Estava cheia de verdes, vermelhos e laranjas.

o que é que tenho de mal? - perguntou

Roárk.

preciosamente

guardadas desvaneceram-se.

- Krá

- Diz-me

No

coração

de

Krá,

as

cores

- Tens de mal?

- Eu esforço-me por ser um bom marido. Enxoto

os outros pássaros, alimento-te quando precisas de ser alimentada e estou contigo. Dizem que sou forte.

- E és. - disse Krá com sentimento de culpa na

voz.

- No entanto não o sou suficientemente para ti.

Krá não respondeu, apenas baixou a cabeça.

- Então falta alguma coisa. Os filhotes?

- Não quero filhotes. - murmurou Krá, mas as palavras saíram sem força.

- Não te compreendo.

- Creio que é exactamente esse o problema.

- disse Roárk suavemente, e os olhos -

brilharam

compreendes.

Nevou durante a madrugada e a praça estava coberta de branco. Só o vermelho do banco

sobressaía, tal como um

compará-lo. As cores ainda eram novidade para ela.

Estava em pé atrás da árvore, de vestido preto, com o chapéu a tapar a cara e o casaco aberto. Aguentava o frio, como todos os pássaros. Pôs as mãos no tronco e observou o trilho que atravessava a praça - as pessoas que vieram passear os cães já tinham quebrado a cobertura branca. Gostava do facto de poder agarras as coisas e de poder virar o pulso. A falta das asas incomodava-a um pouco, mas havia tantas coisas que compensavam! A cor vermelha só por si, sim, só isso bastava, pensou, e decidiu que ia arranjar qualquer coisa vermelha. Aos olhos dos pássaros tudo é branco, cinzento ou preto - e já estava farta disso.

como

te

- Mas Krá

no

escuro,

tu

também

não

Krá

não

sabia

Não reparou no rapaz imediatamente porque estava a olhar para as cores, e o casaco preto misturava-se nos entrançados dos arbustos. Vinha a andar com a cabeça inclinada para a frente, com o cabelo colado à cara, e nas mãos segurava desesperadamente o bloco e a prancha de desenho.

Krá lançou-se de detrás da árvore e correu para ele.

- Eu também consegui! - gritou ao rapaz, que

estremeceu e olhou para cima. Os olhos eram grandes e azuis. Um azul comovente.

- O quê? - perguntou o rapaz.

Krá sorriu-lhe.

- Eu sei como fizeste. Há semanas que te tenho observado, sabes?

- Semanas? - O rapaz olhou-a embaraçado.

Krá apontou para as árvores.

- Era ali que eu estava sentada a observar-te

enquanto desenhavas. Vi o que conseguiste fazer. Por

isso achei que também conseguia

e tinha razão.

- Não sei de que é que estás a falar.

- Não faz mal. Não é urgente que compreendas para já.

Krá observava o rapaz, e o rapaz a ela. Fez-se silêncio, só se ouvia um chilrear de pássaros ao longe. Por fim, o rapaz pigarreou e virou-se, abanando a cabeça silenciosamente ao mesmo tempo.

- Bem, prazer em conhecer-te. Adeus!

O coração de Krá desfaleceu.

- Não vais desenhar?

- Está frio.

O rapaz começou a trilhar a neve estaladiça na direcção de onde tinha vindo, o casaco esvoaçando atrás dele.

embora! - Krá correu atrás dele,

agarrando-lhe as asas - o casaco.

Ele virou-se e olhou-a por entre o cabelo. - Não és um pouquinho estranha?

- Sou. E tu também. - replicou Krá asperamente, e depois perguntou:

- Não

te vás

- Posso ir contigo?

Ele encolheu os ombros, mas abrandou para que Krá o conseguisse acompanhar.

- Todos me acham estranha - continuou, Krá. - Já

estou acostumada. Ainda bem que reparei em ti. Desde aí que me sinto muito mais eu, embora tudo

a maneira como sinto o

seja novidade. As cores

meu corpo

Sim, estou feliz por ter reparado em ti

no passeio lamacento à medida que eles espreitavam

no banco.

por baixo da saia.

- Estás a falar a sério? - o rapaz olhou para ela e parou ao lado do passeio.

- O quê?

- Que me estiveste a observar?

- Com certeza. Não te disse já?

Atravessaram a passadeira de peões, seguindo a luz verde.

- Sempre observei as pessoas, - disse Krá. Sentia-se

feliz por poder falar. - Sempre me interessaram. Sempre tiveram um sentido de determinação, e ao mesmo tempo é como se a alimentação e a procriação não fossem os únicos objectivos, mas também muitas outras coisas, coisas pelas quais vale a pena viver

que são as pessoas? -

perguntou ele.

- Foi assim que as vi. E tu também não comes corvos 1 .

- É

assim

que pensas

Ele riu-se.

- Sim, lá isso é verdade.

- Provavelmente foi por isso que escolheste o mesmo

- O quê?

- Estar com eles.

Um relâmpago azulado faiscou. Oh, aqueles olhos.

- Eu não escolhi.

Krá ficou silenciosa. Sentia que alguma coisa desagradava ao rapaz, por isso caminhava de cabeça baixa ao lado dele, olhando os sapatos de atacadores

1 Expressão idiomática de origem desconhecida. Quase todas as fontes citam um incidente ocorrido durante as tréguas da guerra norte-americana de 1812. Segundo as fontes um oficial britânico desarmado encontrou um caçador norte-americano perto do rio Niágara, apoderou-se do mosquete deste e forçou-o a comer um corvo que ele próprio tinha acabado de alvejar. N. E.

- disse ela finalmente. - Há muito

tempo que eu esperava por qualquer coisa depois vi-te, e percebi que tinha de partir.

Falou com ar sério e pensativo. Sentiu que precisava de ser cuidadosa: as palavras ora saíam com fluência ora ficavam presas na garganta. Nunca tinha falado tanto assim com Roárk. Como se a cada frase fosse mudando um pouco, retirando uma pedra da calçada atrás dela.

- E depois? - perguntou ele e parou em frente dum

quarteirão de casas. Meteu a mão ao bolso e puxou

um molho de chaves tilintantes.

e

- Parti por tua causa. - disse Krá suavemente, fechou os olhos.

mas

- Desejei fugir

- Por minha causa?

- Não me queres?

- Meu Deus, eu

Krá olhou para cima e franziu o sobrolho zangada.

- Sei o que estou a dizer. Quero-te. Deixas-me entrar?

-

Não.

-

Porquê? – o coração soçobrando.

-

Porque és louca. - disse o rapaz sem olhar para

ela.

Krá respirou fundo.

- Então deixa-me falar contigo.

Ele

riu-se

nervosamente.

- completamente louca, sabias? - resmungou, mas abriu a porta. Enquanto subiam as escadas até ao segundo andar, as palavras afluíam-lhe aos lábios. - És

bem.

És

fez

um

movimento

Está

impaciente

Vamos

e

Pronto.

falar

absolutamente incrível

não me conheces. Estavas a

falar a sério? As raparigas não costumam oferecer-se. Nem mesmo as loucas. Estavas só a brincar ou era mesmo a sério?

- Absolutamente a sério, - exclamou Krá, - sempre.

O rapaz riu-se, mas a voz começou a mudar, a

hesitação desapareceu. Quando chegou à porta, e o molho de chaves tilintou de novo, estava totalmente confiante.

- Está bem, então entra!

O apartamento estava cheio de imagens, posters

com corvos, gralhas, esqueletos e pessoas com olhos de gato. Havia roupas espalhadas pelo chão, mas nem

o rapaz, nem Krá se importaram com a desarrumação do quarto.

- Não há cores, - declarou Krá. Todo aquele preto

e cinzento pareceram-lhe fastidiosamente familiares.

- Não gosto delas. Habituei-me ao preto. Humm queres beber alguma coisa?

- Bebo quando tiver sede.

Indicou

a

Krá

um

colchão

para

se

sentar

e

instalou-se numa almofada velha em frente a ela.

- Então

Krá encolheu os ombros.

- De muitas coisas. Deixei o meu marido, sabes.

- Não sabia.

de que queres falar?

- Por tua causa. Fiquei a observar-te enquanto

- Krá olhou para as paredes e suspirou. -

Depois disso, nada me satisfazia. É possível que já

faltasse qualquer coisa antes, mas não me tinha apercebido.

- cautelosamente e ligeiramente corado. Não olhava directamente para Krá, só pelos cantos dos olhos, como os pássaros.

Gostaste deles? - perguntou o rapaz

desenhavas

Krá sorriu-lhe.

- Muito. - Levantou-se e aproximou-se do rapaz. - Obrigada.

Por um momento ele não proferiu palavra, depois perguntou com hesitação:

- E ainda não desististe da ideia, pois não? O teu marido sabe?

- Não, - disse Krá e olhou de perto os olhos azuis

do rapaz. Veios índigo escuros estendiam-se a partir das pupilas.

- Espero que não haja problema. Olha, tu és muito

isto nunca me aconteceu antes, -

sussurrou. - E foste tu que quiseste. Ainda queres?

- Eu escolhi-te, - disse Krá à vontade. - Os corvos

são monógamos, mas já não sou um corvo, - e riu-se com um tom de amargura. -Não quero saber do que

o meu marido vai dizer.

- Não te posso prometer nada, compreendes? Vamos apenas beijar-nos, abraçar-nos, estar juntos não te conheço. Digamos que

- Aprendeste a falar assim tanto com as pessoas? - perguntou Krá e agarrou o rapaz pelos ombros.

A seguir ficaram em silêncio por algum tempo.

Ambos eram desajeitados, mas Krá não desistiu da intenção, insistiu, decidiu que ficaria satisfeita porque tinha optado por esta solução, e enganar-se-ia a si própria se não ficasse satisfeita. O espaço que estava fechado dentro de si abriu-se, e estava a preenchê-lo com sensações. Se lhe sabia bem não era importante,

gira, mas

o importante era que Roárk já não existia. Para toda a vida? A voz interior gritou, e riu-se sem emitir um som. Aí tens!

Ela mudou, o rapaz fora o catalisador, o homem no banco de jardim, e Krá puxava-o impiedosamente, acariciando-o, esperando que a transição continuasse, que o velho eu se extinguisse e se tornasse quem ela queria ser.

Por fim virou-se de costas e olhou o tecto, ainda ofegante.

voz

trémula.

- Estranho. Agora consigo sentir. - disse igualmente Krá com uma voz vinda de longe, como

fumo soprado na cara, como se não fosse sequer dela. - Quando aconteceu pela primeira vez, não senti nada. Roárk simplesmente saltou para cima de mim, e foi só isso. Mas evidentemente era assim que devia

ser. Isto é diferente maneira?

- Penso que sim, - arquejou o rapaz no pescoço

dela.

eram três. Quentes e

às pintas, e soube logo que era a coisa mais importante que me podia acontecer. Adorava-os. -

calou-se de repente. - Quando eles saíram das cascas, eu estava por cima deles. Não os ajudei, mas cuidei

Então veio

uma tempestade, e o ninho soltou-se, foi-se desfazendo em bocados até já não nos aguentar

- De que raio estás tu a falar? - perguntou o rapaz, saindo do seu estado febril.

- Caíram no chão. - Krá olhou para o tecto. -

Pesados, tal como gotas de chuva. Quando finalmente consegui lá chegar não restava nada, apenas um monte de galhos vazio. - Olhou para o rapaz, mas não viu qualquer sentimento no espelho azul, apenas ressentimento. - Muitos de nós perdemos os filhos. Ninguém sente a falta deles. Haverá outra Primavera, dizem. Só eu sofria, só eu sentia o lugar vazio dos ovos. E não havia nada ali.

- Estás a falar de quê? - Sentou-se. - Acreditas mesmo que és um pássaro?

deles. Estavam nus e olhavam para mim

todos o fazem da mesma

- Meu Deus

-

disse ele junto

a

ela,

com

- Quando pus os ovos, senti

- Sou um ser humano, - Krá sentou-se também. - Mas já fui um corvo. Tal como tu.

de repente o rosto

entristeceu.

- Compreendo agora. Ouve corvo. Nunca.

Krá olhou para ele e compreendeu. Estava sozinha.

- Não importa, - disse ela, mas não conseguiu ouvir a própria voz. - No fundo estou feliz por te ter conhecido.

Vestiu-se lentamente. O rapaz não a deteve, nem se mexeu em direcção a ela, continuou sentado no chão, atordoado, e os seus olhos apenas reflectiam pesar. Krá sorriu-lhe debilmente.

eu nunca fui um

Ele

abanou

a

cabeça

e

- Não faz mal. Não me importo.

E assim saiu pela porta, seguindo em direcção ao telhado.

Voou com a saia espadanando, até ver os outros pássaros. Os pombos estavam pousados no fio uns ao lado dos outros, observando o lixo no chão. Agachado no meio deles estava um grande corvo preto.

- Então? Vens para ficar? - perguntou Roárk quando Krá se instalou ao lado dele no fio que zumbia, e brincou com ela. O casaco esvoaçava no ar, tal e qual uma cauda de penas.

- Penso que não. Lamento, Roárk.

Não olharam um para o outro.

- É melhor ser humano?

Krá olhou rua afora, as antenas a chegar bem alto no céu.

mais

conveniente.

- Não,

não

é

melhor.

Mas

o

vazio

é

- Queres dizer, a fome?

Krá sorriu tristemente.

- Sim, Roárk. Deixei de ter fome.

- Eu sabia que não eras um corvo genuíno, - Roárk abanou a cabeça e crocitou silenciosamente.

Ficaram pousados no fio, a humana e o corvo, a observar a cidade, de saia preta ondulante e casaco de penas lustroso, enquanto a noite se estendia sobre a cidade.

Tradução de Isabel Martins

de penas lustroso, enquanto a noite se estendia sobre a cidade. Tradução de Isabel Martins NOVA

HHEERRÓÓII DDAA CCAAUUSSAA

TT EE LL MM OO

- ESPERA AÍ, NÃO LHE ARREIES mais! O gajo desmaiou outra vez.

O zeloso funcionário pousa o bastão na bancada

dos apetrechos, deixa escapar um suspiro cavado,

limpa o suor da testa com as costas da luva.

- Uff! Ainda bem, aproveito para fazer uma pausa.

Vê se consegues acordar o malandro, acho que está a fingir-se de morto outra vez. Eu vou lá acima apanhar ar. Volto já!

O auxiliar é um puto novo, graduado há menos de

seis meses, mas já tem familiaridade suficiente com o superior para se armar em engraçado.

- Vê lá! Não te distraias pelo caminho…

Os colegas nas boxes contíguas da sala de interrogatórios acham piada à advertência. A fraqueza de Jamus Orundos, Inquiridor Principal, é por demais conhecida.

Fazendo jus à pilhéria, ao entrar no elevador Jamus não pressiona os códigos do piso térreo. Fica-se pelo patamar seguinte. Para sair nesse destino tem de descalçar as luvas, aplicar ambos os polegares aos sensores da porta e dizer qualquer coisa em voz alta, não importa o quê…

- Foda-se para isto!

MM AA RR ÇÇ AA LL

A

sua autorização de segurança é reconhecida.

O

colega na sala em baixo dá uma espreitadela por

cima do ombro para confirmar no painel a posição do

elevador.

- Eu não dizia? É matemático, o homem não consegue resistir…

O edifício sede do Serviço de Informações está

enterrado na rocha. Quatro grandes salões circulares sobrepostos, servidos por dois poços de elevador. O arrojado delírio de fibra e ligas sinterizadas à superfície, como um chapéu de cogumelo distorcido, serve apenas para as relações públicas.

As confissões são obtidas no piso mais profundo.

A sala está dividida por tabiques em nove gomos

distintos, abertos para um átrio central. Quatro das

boxes destinam-se aos interrogatórios, as outras acolhem serviços de apoio: arrumos, autópsias, bloco

de

reanimação assistida, registo de depoimentos, zona

de

repouso com bar.

O piso favorito de Jamus, segundo a contar de

baixo, está dividido em compartimentos idênticos. Lá se recolhem os acusados seleccionados para as sessões com os interrogadores. A abertura das boxes para o átrio tem grades metálicas. Existem ainda acomodações destinadas aos serventes, uma unidade para processamento de refeições, zona de desinfecção e sanitários.

A entrada do Inquiridor no recinto, deserto àquela

hora morta do meio da tarde, é saudada pelo intensificar das luzes no tecto.

- Toca a acordar, malandragem! Vou começar a

vistoria. Deixem lá de esfregar os olhos e venham cá para a frente. Quero vê-los todos bem encostadinhos

às grades.

O funcionário faz um périplo com passos teatralmente lentos. A ponta do bastão telescópico a matraquear os ferros. Os mais molengões provam-lhe a ponta eléctrica, que distende automaticamente até aos confins da jaula para aplicar o castigo.

- Agora virem-se de costas para mim e levantem as batas. Quero apreciar esses rabiosques.

A ordem é clara mas inusual, por isso custa a ser

entendida. Só graças ao bastão maldoso, manejado com perícia, se garante o êxito da operação. Começa então a fase mais delicada do ritual: exercer o privilégio de escolha, seleccionar o melhor entre duas dezenas. Pode levar o seu tempo, mas quando Jamus Orundos avança é porque está seguro de ter feito a única escolha acertada.

Hoje está mais virado para as mulheres. Por entre

os ferros lança a mão ao ombro da preferida e, sob

ameaça do instrumento de castigo, ordena aos demais

ocupantes do cubículo que ajoelhem junto à parede

do fundo.

- Quietos e calados!

Todos os sacrifícios para merecer as listas de

Inquiridor Principal são amplamente recompensados.

A inteligência autónoma que controla os ferrolhos,

luxo tecnológico importado, obedece-lhe aos mínimos desejos. Os serventes do piso não se atrevem a pôr o nariz de fora, com receio do seu cultivado mau humor. Jamus marca os códigos, insulta os transdutores para que lhe reconheçam a

voz, entra na jaula e puxa a rapariga para fora. Quanto mais ela berra mais ele se excita.

- Não te preocupes, ainda não é a tua vez de ires lá para baixo. Está na hora da farra…

As contorções da vítima são aproveitadas para lhe

algemar facilmente os punhos no gradeamento, à altura da cintura. Quando a tem em posição dá um passo atrás, livra-se do avental ensanguentado, desaperta o macacão e avança entusiasticamente. Arranca a bata à moça, dobra-lhe a espinha e empina- lhe o traseiro. Enquanto a estupra no ânus procura o olhar dos respectivos companheiros de cela, ainda a

recuperar dos arrepios eléctricos. Aproveita uma momentânea pausa na gritaria da parceira para lhes voltar a recomendar:

- Não se atrevam sequer a pestanejar! O primeiro

que eu veja a mexer faço-lhe o mesmo. Tenho tusa que chegue para vocês todos.

No andar em baixo não há pausas para divertimentos. Cumprindo as instruções do chefe, o Inquiridor Auxiliar procura reanimar a vítima. Garante o sucesso da incumbência atirando-lhe uma baldada de água pela cabeça abaixo. Um piscar de olhos reflexo, ao contacto do líquido gelado, permitem-lhe desmascarar o pantomineiro.

- Então, meu cabrão! Pensas que isto é algum hotel? Não estás aqui para dormir… É só esperar que venha o Senhor Inquiridor e já continuamos. Entretanto bebe isto para recuperares forças. Não queremos que te apagues sem bufar tudo o que sabes.

A verdade é que o Auxiliar está estafado e

desanimado. O dia começou muito mal. O primeiro paciente, um rapazote de onze ou doze anos, vinha encharcado em químicos inibidores da dor. Disfarçava tão bem que nem o experiente Jamus

Orundos desconfiou. A tortura parecia surtir efeito, o sujeito estava prestes a quebrar, apenas um pouco mais de insistência… Ao fim de meia hora o puto conseguia fazer-se matar, deixando os Inquiridores com cara de parvos. Agora aquele teimoso, preso à maca desde o meio da manhã, sem dizer uma palavra.

A dupla de profissionais está na iminência de

terminar o dia de trabalho sem nada relevante para apontar no relatório, além de um falecimento por

inépcia e talvez outro por despeito.

O Inquiridor, mesmo sem o beneplácito do seu

superior, resolve mimar o paciente com uma injecção

de vitaminas e outra de antibióticos.

- E agora o que é que tu queres mais, meu cabrão! Falas ou não falas?

O discernimento do supliciado anda à deriva em

neblina pastosa. Com um esforço considerável do

instinto consegue romper o manto entorpecente e atilar os pensamentos. As últimas horas, as piores da

sua vida, são perspectivadas.

Encaixou no lombo bátegas de socos e pontapés. Tem as costas sulcadas pela chibata, o peito e os braços marcados a ferro em brasa. Faltam-lhe duas unhas num pé e a cabeça do dedo indicador na mão direita. O último desmaio nem sequer fora fingido.

O prisioneiro pondera as suas opções. Talvez seja

suficiente, talvez já possa pôr fim ao martírio. Ele está familiarizado com as rotinas meticulosas dos Inquiridores. Perante nova recusa em colaborar vem a fase das brocas ferrugentas, a trabalhar nos dentes e gengivas.

- Eu não posso… está bem, eu digo tudo. Não façam mais… - balbucia.

- Ahh sim? – surpreende-se o Inquiridor. – Pois agora temos de aguentar, o meu chefe está

provavelmente a enrabar um colega teu. Mas vamos começar já a pôr-te jeitoso.

Jamus vai ter com eles à sala das gravações. O suspeito, confortavelmente sentado numa cadeira-de- rodas, lavado e pensado nos golpes do rosto e da cabeça, está a postos para debitar o depoimento. As duas Testemunhas de turno acabam de tomar os respectivos lugares. O Inquiridor Auxiliar, inchado de justificado orgulho, murmura ao ouvido do superior:

- Consegui dobrá-lo! Vai contar tudo o que sabe.

Jamus Orundos pigarreia e, em duas passadas, toma o centro do compartimento. Com um aceno de cabeça cumprimenta as Testemunhas instaladas ao fundo. Assenta as manápulas descalças na secretária, mira de relance o Memorando irrepreensivelmente preparado pelo ajudante, procura o olhar mortiço da vítima e debita para as câmaras, microfones e assistência:

- Interrogatório oficial ao suspeito Ornatus Ludiv

Retorta, processo número 342-F, conduzido pelo Inquiridor Principal Jamus Orundos e pelo Inquiridor Auxiliar Ananias Filopo. O sujeito deu entrada nesta instituição no dia 20 do corrente, sob custódia da Polícia Civil. Consta dos autos que é suspeito de integrar movimentos criminosos subversivos, havendo fortes indícios de ter tendências Simpáticas.

O orador interrompe e relanceia em volta, à procura de algo. O solícito Ananias adivinha a necessidade, pega numa cadeira próxima e oferece- lha. Jamus ajeita-se no assento e vira algumas páginas ao documento processual.

- Muito bem! Vamos continuar.

“O suspeito foi denunciado, em circunstâncias diferentes e autónomas, por dois informadores registados, com as credenciais actualizadas. De acordo com a lei em vigor, ser objecto de duas

denúncias independentes e formais, no espaço de um mês, implica uma investigação aprofundada. A referida investigação foi levada a cabo e os resultados, embora reservados, indiciam a confirmação das suspeitas. Por esse motivo foi agendada a presente detenção para interrogatório. As fases preliminares encontram-se concluídas e o senhor Ornatus Ludiv mostrou-se disposto a apresentar voluntariamente a sua declaração.”

O interrogado, visivelmente débil, fala em frases

desgarradas, entrecortadas por grandes silêncios. Por várias vezes tem de ser animado a prosseguir. Os preparados de arribar que lhe administram pelas veias e pela boca ainda empastelam mais as ideias. Quatro minutos de esforço e volta a desmaiar. É suficiente para se dissiparem todas as dúvidas. A recusa do suspeito em adiantar qualquer informação útil para desmantelar a rede terrorista prova irrefutavelmente a sua culpabilidade. Merece a pena máxima aplicável ao delito. O Auto de Condenação é de seguida elaborado, assinado, carimbado e registado.

O vivaço ajudante usa o intercomunicador para

pedir a presença do pessoal de apoio. Já enfada a demora quando os madraços finalmente se apresentam. Jamus franze-lhes um sobrolho ameaçador.

- Pedimos desculpas, senhor Inquiridor – protesta

o mais afoito. – Mas é que tivemos de levar a rapariga, o senhor sabe, aquela que…

- Não quero ouvir desculpas! Quero que se despachem, que este já não aguenta muito. Levem-no

ao Doutor e digam que o ponha fino. Por hoje já me chega de mortos.

O servente acena em concordância, todavia sente-

se na obrigação de esclarecer o graduado.

- Certo! Imediatamente! Mas olhe que se calhar não

vai ter sorte com isso dos mortos. Sabe, a rapariga,

aquela que o senhor… estava mais para lá do que para cá.

Os serventes empurram a cadeira-de-rodas com o ocupante desfalecido até ao elevador. Um rasto de sangue fresco junta-se às manchas já secas deixadas pelos antecessores. Sobem ao terceiro piso, segundo a contar de cima, onde estão instalados alguns serviços de apoio, entre os quais uma belíssima clínica. É necessária para corrigir qualquer asneira ou precipitação que possa ocorrer durante as inquirições. No átrio, sob a vigilância da Polícia Civil, alguns indiciados aguardam ansiosos pelo desfecho das averiguações preliminares. Logo saberão se retornam à superfície ou afundam mais no edifício. Os de consciência pesada invejam o prisioneiro que passa. Para ele o pior já passou.

Ornatus Ludiv Retorta é deixado à porta do gabinete médico. Antes de regressarem aos seus afazeres os serventes carregam no botão de aviso e colocam a papelada no cesto a tal destinado.

- Cuidadinho com esse! – graceja um, para o polícia mais próximo. – É muito perigoso, não lhe tirem os olhos de cima. Senão ainda se levanta e desata a correr daqui para fora.

A porta do consultório entreabre-se. Uma mulher

com bata empurra a cadeira rolante para o interior.

A equipa médica está concentrada em recompor as

mazelas do supliciado. Já lá vão quase duas horas de intervenção, os sinais vitais permitem algum optimismo, a descontracção começa a instalar-se. O suficiente para cirurgiões e enfermeiros trocarem algumas frases de pura cavaqueira enquanto trabalham. O homem que está do outro lado da parede envidraçada, a observar tudo desde o princípio, decide que é o momento de intervir. Abre a porta do bloco e fecha-a atrás de si. Não se anuncia,

limita-se a ficar imóvel, pernas ligeiramente afastadas e mãos cruzadas sobre a cintura. O primeiro enfermeiro a dar por ele apanha um susto, cuja expressão sonora chama a atenção dos outros.

– exclama o chefe da equipa. – Mas

que merda vem a ser esta? O que está aqui a fazer este

gajo? Tirem-no daqui, chamem os guardas…

- Calma doutor, eu explico! Sei que não estou desinfectado nem vestido apropriadamente, por isso não me vou aproximar mais. Chegue-se o doutor aqui para ver as minhas credenciais.

Quando o atónito cirurgião pousa o que tem em mãos, dá as necessárias instruções e se abeira do recém-chegado, este segreda-lhe ao ouvido:

- Sou lá de cima, do piso -1, agente especial das

Operações. Limite-se a fazer o seu trabalho. Só estou aqui para ajudar nalguma coisa que venha a ser preciso.

O clínico roda nos calcanhares, debruça-se sobre o

paciente e completa os procedimentos, limitando as observações à estrita comunicação funcional. Mais meia hora e Ornatus é despachado para o compartimento da enfermaria, contido em talas, cosido, entrapado e sedado, mas de boa saúde. O agente abelhudo acompanha-o até ao destino e depois reúne-se ao coordenador dos serviços médicos, para uma troca de impressões descontraída.

- O suspeito que a sua gente acaba de operar estava mal, hein doutor?!

- Que raio

?!

O interpelado corrige, polidamente.

- Perdão, não é um suspeito mas sim um

condenado. Condenado à pena máxima. Tenho aqui cópia do Auto. Se fosse há três meses, antes das novas regras, era logo recambiado para uma jaula. Ou recuperava ou morria. Mas agora passámos a ser uns corações de manteiga. Tratamento de primeira para

estes animais. Têm de chegar ao redil incólumes, sem um arranhão, penteados e a cheirar a rosas.

- Pois! Para surtir efeito é melhor assim…

O bom doutor indigna-se.

- Melhor assim? Nós aqui esmiframos os tostões,

meu caro. Melhor assim? Vá dizer isso às pessoas lá fora. Os nossos recursos, esta clínica, custam caro à nação. São a salvaguarda dos inocentes, que vão parar lá abaixo quando vocês metem a pata na poça. Não devem ser desperdiçados com terroristas. Surtir efeito! Bah! Estou-me borrifando para as politiquices e as vossas manobras psicológicas. Por isso é que a sublevação se espalha como uma epidemia. Sou

contra as falinhas mansas e os paninhos quentes. Cidadãos são cidadãos e bandidos são bandidos.

Ao Operacional agrada a legítima ira do interlocutor. Nem se ofende com os injustos remoques implícitos no comentário. Afinal de contas, qualquer Cidadão, mesmo um quadro da hierarquia, com elevadíssima classificação de segurança, tem direito à sua opinião. Sente, contudo, que é melhor levantar uma ponta do pano, não vá a conversa descambar num azedume a raiar a sedição.

- Este tipo é especial! É para lhe dizer isso que estou aqui. Não podemos deixar que morra. Recupere-o. Faça tudo o que estiver ao seu alcance. Quanto estiver arribado, antes de seguir para o redil, mande chamar-me. Depois transmito-lhe o resto das instruções. Deste piso para baixo só você sabe que o tipo é especial. Mais ninguém pode sequer desconfiar.

O médico engole seco e maldiz em silêncio a sua

grande língua. Quando retoma a palavra procura mudar o tom.

- Não se preocupe, pode contar comigo. O rapaz é

dos rijos. Parece pior porque está encharcado em

químicos e em estado de choque. Dê-me uma semana

e vai ver. Entrego-lho como novo.

Antes de sair o Operacional deixa uma última

recomendação:

- Ainda bem que fala em químicos. Quero que tenha o máximo de cuidado com os preparados. O tipo não me serve de nada se ficar tolinho da cabeça.

Na verdade Ornatus Ludiv não passa de um agente infiltrado. O melhor, o mais corajoso e determinado que foi possível encontrar nas fileiras. Quem desconfiará agora, depois de um dia tão preenchido às mãos dos algozes, que a sua culpabilidade é forjada? Que as suas tendências Simpáticas são mera

artimanha?

Tanus Ordicus, mentor e artífice de toda a operação, receia que o seu homem, fanático da perfeição como é, tenha levado as coisas longe de mais. Mesmo depois de ouvir os prognósticos

optimistas ainda está apreensivo. Era uma chatice se o infiltrado morresse simplesmente, sem proveito para

a nação nem direito a glória póstuma.

Há dois dias que Ornatus está completamente desperto e ainda ninguém deu por nada. O homem é um génio da simulação. Mudam-lhe a fralda com merda, enfiam-lhe papas pela goela, lavam-no com uma esponja, sem conseguirem perceber que o coma terminou. Na enfermaria está acamada apenas mais uma colega. A tipa parece que desconfia de qualquer coisa, a julgar pela conversa em surdina quando ficam sozinhos.

- Ei! Consegues ouvir-me, não consegues? Se

conseguires faz qualquer coisa. Abana um dedo, mexe

o braço…

Pela primeira vez o agente infiltrado decide cooperar. Oscila muito debilmente o pé, que está suspenso em roldanas e fios dentro de uma forma de plástico.

- Eu sabia, estavas só a disfarçar, não era? Para eles

não te poderem bater mais. Olha, meu amigo, bem vejo que já sofreste muito, mas não podes desistir agora. Foste condenado, já nada de pior te pode acontecer. Tens de lutar pela causa até ao fim. Para que todo o sofrimento não tenha sido em vão. Atenção, parece que eles vêm aí!

A enfermaria tem quatro catres, apenas dois estão ocupados de momento. Está isolada do consultório por uma pesada cortina, que se abre para dar passagem ao clínico de serviço e a Tanus Ordicus.

- É este o seu rapaz? Ainda não acordou. Estou a pensar mandá-lo para o redil tal como está. Precisamos das camas, sabe…

- Compreendo… E quem é a moça?

- A namoradinha de um dos vossos Inquiridores. A

besta partiu-lhe os dois pulsos e rebentou-lhe o buraco do cu. Está quase recuperada.

- Durante o interrogatório?

- Não! Antes disso, numa sessão privada. Tivemos

de a pôr minimamente capaz. Segue ainda hoje lá para

baixo, para ser interrogada.

- Compreendo… Bem, vamos fazer como você

aconselha. Se o condenado não acordar digam-me, que eu trato de o retirar. Mas dêem-lhe mais dois dias. Não há aqui falta nenhuma de camas. Sabe que temos muitos olhos em cima de nós, nem toda a gente

compreende a necessidade de rigor. Preferimos não o tirar daqui neste estado.

- Pfff! A merda das relações públicas. E depois ainda se queixam…

convalescente

recomeça a lengalenga.

- Ouviste? Vão mandar-me outra vez para as jaulas.

Não há tempo a perder. Daqui a pouco vou morrer. Não posso correr o risco de ser interrogada, está muita coisa em jogo. Mas tu tens ainda uma tarefa a cumprir. Sei que foste condenado à pena máxima. Perdeste todos os direitos de cidadania. Vão vender- te, para seres processado como suplemento proteico. Não acreditas? Segues para o matadouro na próxima leva. Estás a ouvir-me?

Ornatus opta por manter a discrição, limitando-se a balançar um pouco a perna suspensa.

- Óptimo! Contamos contigo. Sei que não vais

falhar. Só tens de transmitir uma mensagem muito simples. Quando estiveres no redil procura o Natan Querin. Percebeste? Natan Querin. Diz-lhe que aguente firme até ao dia do transporte. Só isso. Que não faça nada e aguente firme. Ele vai compreender.

O agente pressente que só tira nabos aproveitáveis daquela púcara se for mais interventivo. Resolve começar a acordar.

- Onde…, como? Onde estou eu? Quem está a falar?

- Estás na enfermaria do edifício das Informações,

no covil do inimigo. Foste sujeito a tortura e condenado por Simpatia. Depois fizeram-te várias operações e tratamentos, para disfarçarem o estado em que te deixaram. Eu também sou Simpática. Responsável regional da organização. Estava precisamente a preparar uma operação para resgatar condenados quando fui capturada. Não posso ser interrogada. Preciso que leves uma mensagem para o redil. Diz-lhes que estejam preparados para o resgate. É no dia do transporte. Quando começar a confusão têm de dar luta. Diz-lhes isso.

Quando

se

retiram

a

suspeita

- Mas para quê? Vão estar todos estúpidos…

- Não te preocupes, o braço da Simpatia tem um longo alcance.

Tanus Ordicus insiste numa última entrevista antes do seu pupilo ser lançado às feras. O encontro tem lugar num cubículo do piso que fica imediatamente antes da superfície. Quase se sente o cheiro da luz do sol.

- Parabéns! Os meus mais sinceros cumprimentos.

Não há muitos homens com a sua fibra. O sucesso foi absoluto, ninguém tem a mínima suspeita. Você foi condenado, passou ao nível de besta. Vai ser contido no redil da cidade até lhe ser designado um destino. Insistirei, no relatório que vou enviar ao responsável pelo gado, para que o vendam como alimento. Vou justificar a proposta com cópias dos

relatórios médicos. Você ficou tão mal tratado que dificilmente lhe arranjarão qualquer outra utilidade. Mas a verdadeira razão é outra. O próximo transporte

de cabeças vivas para o matadouro é só daqui a três

dias. Vai haver tempo suficiente para recolher informações preciosas junto dos condenados. Continue o bom trabalho. Não tarda a terminar a missão e ir para casa descansar. Aguente-se firme, boa sorte!

«Esta é a plataforma logística do sistema de eliminação e encaminhamento de degredados. Há

também quem lhe chame o sifão da nossa bela cidade.

A merda concentra-se toda aqui e depois sai. Não

volta e não deixa cheiro.»

É assim, de uma forma grosseira, que o redil dos condenados é apresentado aos turistas. O guia leva-os de elevador lá acima, em grupos pequenos, à plataforma de vigia mais alta. Conta-lhes umas

patranhas sobre a excessiva brandura do sistema para

com tão grandes patifes e anedotas macabras sobre tentativas de fuga infrutíferas. Todos os visitantes, apesar de pouco distinguirem a tanta altitude, dão o seu tempo por bem empregue. É emocionante contar que se esteve no mais emblemático estabelecimento

do afamado sistema de purificação social.

O redil é apenas um enorme cercado em terra batida, nos arrabaldes da metrópole. Tem a forma rectangular, duas centenas de metros no lado mais comprido e metade disso à largura. Cada vértice é ocupado por uma torre em estrutura metálica,

recheada na base com a necessária maquinaria, encimada por acomodações para vigilantes. A torre mais alta, com mais do dobro das outras três, também

é utilizada para prevenir movimentações suspeitas

naquele lado do perímetro urbano. A sua plataforma

é partilhada entre a Polícia Civil e elementos do

Exército, que se movimentam no varandim superior.

O que lhe fica imediatamente abaixo está aberto aos

visitantes.

As delimitações entre torres, a “cerca” propriamente dita, resume-se a feixes energéticos de sinalização. Os acumuladores só descarregam, em campos magnéticos orientados e quase maciços, quando algo suspeito, com massa suficiente para poder ser uma pessoa, se interpõe entre os sensores. Tecnologia importada da mais elevada sofisticação.

«Lá em baixo podem encontrar de tudo – afiança o desenvolto guia turístico. -Mercenários desertores, emigrantes clandestinos, criminosos de delitos comuns, refugo dos depósitos de excedentes, terroristas e subversivos. Uma vez lá dentro não se distinguem. Para todos os efeitos legais não passam de animais. Neste caso domésticos, porque o proprietário tem a obrigação de os alimentar. Para evitar que se desfaçam uns aos outros levam injecções

de inibidores da agressividade. Ficam embrutecidos e lerdos. Por isso também lhes costumamos chamar “os estúpidos”. A vantagem é que assim não é necessário manter uma força de segurança apreciável dentro do redil. Basta alguém que saiba apascentar gado.»

Ornatus desce às instalações subterrâneas, por baixo do redil, pelo seu próprio pé. Com um toque de bastão o polícia da escolta indica-lhe que deve atravessar o átrio, dirigindo-se directamente para a galeria principal, onde uma funcionária os aguarda atrás da secretária, para dar as boas-vindas.

- Aqui damos abrigo a animais das mais diversas raças. Temos cá de tudo, cada um com a sua história para contar. Pff! Isso era se os deixássemos falar. Regra número um: aqui só falam os guardas. As bestas não falam. Nem com as pessoas, nem umas com as outras. Abrem o pio… buraco com eles. Esta regra serve para evitar confusões.

“A regra número dois serve para manter o gado saudável: barriga cheia e exercício físico. Quem trabalha come duas refeições por dia. Quem não trabalha come só uma, não precisa de mais. Aqui há muitos tipos de trabalho. Dá para todos andarem entretidos. Todas as manhãs, quando toca a sirene, quem quiser trabalhar apresenta-se na pedreira.”

“Há só mais uma regra, a número três. Serve para manter a disciplina. Quem faz asneira é deitado ao buraco. Não se habituem à boa vida, ninguém fica aqui hospedado muito tempo. Agora é só seguir por esse túnel. Quando o condenado chegar ao redil deve escolher um lugar para dormir. A próxima refeição é ao cair da noite.”

Ornatus avança no sentido que lhe indicam, a coxear, os passos algo renitentes. A recepcionista

a

papelada oficial:

- Este não passa de amanhã! Pffff! Menos um a comer à conta.

No trajecto existem alguns escolhos não anunciados. Zonas onde se preparam os escolhidos para a sua nova e breve vida. As instruções são dadas por altifalantes autoritários. A obediência não é facultativa. A escolta segue os acontecimentos a poucos passos de distância, bastões a postos, meio distendidos.

“Atenção, parar! Tirar a roupa. Deixá-la ficar no chão juntamente com todos os pertences trazidos.”

comenta

para

a

escolta,

enquanto

preenche

Após a chuva de detergente e água segue-se uma nuvem de pó avermelhado que adere à pele húmida e queima.

“Avançar depressa até à próxima zona.”

O ardor extingue-se com as bátegas de água fria que lavam a pasta. A secagem é assegurada por um ciclone morno. Na paragem seguinte o bufo recebe ordem para envergar a libré do lugar. Calça e túnica cor de areia, chapéu largo em fibra forte, botas castanhas de plástico moldado.

“Cada prateleira tem uma farda completa. Tamanho grande, médio e pequeno. Vestir a que for mais adequada. O tempo disponível para esta operação é de dois minutos.”

É quanto basta.

“Terminou o tempo! Avançar imediatamente. No próximo posto será feita uma inspecção. Qualquer não conformidade será severamente punida.”

À boca do túnel sombrio estão dois polícias protegidos com armadura. Não são muito minuciosos na inspecção, limitam-se a mirá-lo de alto a baixo. Um deles usa o chicote para incentivar Ornatus a

subir a escadaria que conduz à única entrada do redil. A poucos metros começam as filas dos abrigos.

Os abrigos são paralelepípedos estanques, em compósito rígido, translúcido, presos ao chão por espigões chumbados nos cantos. Lá dentro um homem alto apenas pode ficar de joelhos. Estirados ao comprido, em cima da palha, cabem à vontade oito condenados. Como nada obriga a respeitar os locais de pernoitar, a ocupação de um módulo pode variar entre vazio e abarrotado. Há vinte paralelepípedos alinhados em duas filas no topo norte do redil.

As opções de Ornatus estão muito condicionadas pela debilidade física, por isso escolhe o abrigo mais próximo. Confirma que está deserto, aninha-se na palha a curtir a última pontada de febre e adormece, faltando à chamada para o repasto ao fim da tarde. Com o anoitecer chega companhia à barraca, mas ele nem os pressente.

A buzina do despertar guincha como um porco em

apuros. O reconforto de uma noite bem dormida, aliado aos apoios medicamentosos ministrados no último momento, retemperaram o ânimo ao espião. Pela primeira vez em vários dias sente-se perfeitamente lúcido e sem dores. Espreguiça-se prazenteiramente.

Um condenado entra de rompante pela cortina às tiras que protege a abertura do abrigo e aterra-lhe em cima. Prende Ornatus num abraço rude e sussurra-lhe com os lábios encostados ao ouvido:

- Não te descuides! Não podes falar. Eles vão

provocar-te, dar-te ordens, fazer perguntas… não abras a boca. Eu tomo conta de ti. Eu tomo conta de todos. Aqui todos têm o cérebro queimado, menos eu. Não te preocupes! Faz o que te mandam e não

faças sons, não cantes, não assobies. Não há nada pior que o buraco. O buraco é o fim…

O bom conselheiro larga bruscamente Ornatus e avança de gatas até ao lado oposto. Remexe no monte de palha, descobre uma mulher que continua adormecida. Pega-lhe na mão e arregaça a manga à altura do cotovelo. A prisioneira abre os olhos a custo, prostrada pela moléstia. O visitante mune-se de um caco de vidro e corta-lhe o polegar. Quando passa por Ornatus, na fuga, acena-lhe com o apêndice e murmura:

- Carne! Isto é o que nos dá forças para continuar a lutar pela causa.

A mutilada, aterrada pela certeza do castigo,

contém-se sem soltar um lamento. Ornatus sai para a luz do sol e estuga o passo na direcção que vê tomada

pelos demais companheiros.

No extremo sul do perímetro há um monte de grandes pedregulhos e vários montículos de elementos pétreos mais modestos. Junto a um grupo de polícias nasce uma linha de condenados perfilados que o bufo acrescenta, conforme vê os outros fazer. Mal se posiciona um dos prisioneiros abandona o respectivo lugar para se enfiar a seu lado, à custa de empurrar o parceiro. Trata-se do prático conselheiro que ainda há pouco tomou a iniciativa de se apresentar. Sorri para Ornatus deixando antever, entre dentes, o petisco que mastiga.

Os guardiães interrompem finalmente a cavaqueira

para se ocupar dos voluntários. O oficial mais graduado é uma megera alta, enrugada e esquálida. Fez-se mestre no manejo do chicote, pois não perde qualquer oportunidade de praticar a sua arte. Termina todos os comentários com uma torção hábil do pulso direito, que leva a ponta castigadora à parte do corpo que antecipadamente seleccionou como alvo. Nas raras ocasiões em que falha repete a frase e o

exercício, as vezes necessárias até o dar como perfeito. É ela que elucida os predispostos à labuta acerca das tarefas do dia.

- Hoje vamos partir pedra!

Voouuuchh! Tchháá! Remata o chicote no ombro do primeiro prisioneiro da fila. A anfitriã enceta um passeio vagaroso, ao longo da comprida linha de rostos inexpressivos.

- Sei que não é novidade. Partimos pedra todos os

dias… Este, este e este! Vão mudar a palha das barracas. Perceberam cabeças de burro? Mu-dar. Pa- lha. Sabem onde fica o telheiro da palha? Toca a correr!

O chicote falha um dos escolhidos que,

apressando-se como ordenado, consegue escapar ileso. A oficial suspira sonhadoramente pela agilidade

que a juventude levou, mas logo recompõe a compostura.

- Vocês quatro – Vouuchh! –, vão espalhar brita

nos regos. Ali ao fundo o piso está uma desgraça. Levem o carro-de-mão e ferramentas. Estes aqui vão passar revista aos barracos e tirar os mortos para fora,

se

houver. E por hoje é tudo quanto a trabalhos leves.

O

resto fica a partir pedra. Bem tenho choramingado,

não pensem que não tenho… mas ninguém me arranja nada útil para vocês fazerem durante a estadia… Tu e tu… vão buscar a panela da água.

Um dos chibatados dá imediatamente meia volta,

para cumprir a ordem. O outro acusa o toque do cabo do chicote, com um uivo contido, mas mantém- se imóvel, em sentido, cabeça baixa e ombros descaídos. Avançam dois diligentes subordinados para impor o respeito. A velha graduada desfere novo golpe, de baixo para cima, fazendo o condenado cair de costas desamparado. Quando lhe aprecia a expressão apática, olhar mortiço focado no infinito,

espuma a nascer entre os lábios, refreia os impulsos dos acólitos.

- Deixem estar… o gajo teve um curto-circuito. Tem bom cabedal, serve para partir pedra.

Ornatus até treme com ânsias, ao ver aproximar a panela da água. Tenta manter-se calmo ao sorver, não vá deixar escapar algum precioso líquido pelos cantos da boca.

O valoroso espião é integrado num pequeno grupo

de três condenados, com instruções para avançar até ao barracão metálico e brilhante onde se guardam as ferramentas. Cabe-lhe em sorte o carro-de-mão. Os parceiros, munidos respectivamente de pá e picareta, são duas mulheres. Não se juntam ao colectivo na frente de britagem, recebem ordens mais específicas.

- Vocês vão abrir uma cova. Sigam em frente até

encontraram as marcações no chão. É já ali! Hoje o buraco tem de ficar pela altura da minha cintura. Já lá vou para ver se estão a trabalhar ou a preguiçar.

A duas dezenas de metros na direcção indicada

distinguem-se realmente uns traços raspados na terra.

Ornatus, que segue na frente, é o primeiro a encontrá-los. Faz sinal às companheiras e aguarda que se aproximem.

A mulher da picareta é relativamente nova e desenvolta. Ainda lhe resta algum viço na passada, carne e músculo em cima do esqueleto. Sem grande convicção lá começa a picar os torrões, dobrando a espinha ritmadamente.

A detentora da pá chega-se perto e fica imóvel,

apoiada ao cabo da ferramenta, completamente absorta nos seus pensamentos. Veste uniforme de cor diferente, mais claro, uma peça única a envolver pernas, tronco e braços. Um largo capuz cai-lhe sobre as costas. Antes estivesse no devido lugar, cobrindo a

hedionda cabeça. Uma visão de pesadelo. Tufos de cabelo cinzento a despontarem ao acaso no couro calvo e seboso, sulcado por veias enegrecidas, salientes e palpitantes. O olho esquerdo foi esvaziado com pouca perícia, as peles da órbita repuxadas para cobrir o vazio. Carne, sobrancelhas e pestanas amalgamadas no caminho dos pontos, ainda sanguinolentos, com que concluíram a cirurgia. O resto da face espelha o sofrimento latente, em derme de tom esverdeado. Na parte visível do pescoço, logo abaixo do queixo, inicia uma papada escamosa, o verde ainda mais carregado, que se esconde para lá do decote.

Indeciso face ao meio de trabalho atribuído, Ornatus ainda não encetou qualquer actividade produtiva. O carro-de-mão servirá eventualmente para transportar terra. Mas de onde para onde? Após breve reflexão opta por lançar-se ao trabalho principal de escavação, usando as mãos nuas à falta de melhor utensílio. Quando é acometido por uma vontade imperiosa de aliviar a bexiga não interrompe o serviço, com receio de desagradar. Desenrasca-se ali mesmo, pelas calças abaixo.

A condenada asquerosa, quando repara nele encharcado em mijo, desata numa risota inopinada. Logo em seguida retoma a seriedade para anunciar uma súbita decisão.

- Que se foda! – profere num volume próximo do berro. - A mim não me metem medo.

Com as forças restantes tenta arremessar longe a pesada pá. O gesto sai frustrado, a ferramenta quase lhe cai aos pés, mas fica simbolicamente marcado o protesto. Depois enverga o capuz, deita-se ao comprido sobre a terra e fecha os olhos. Para ali fica, sem se calar um minuto, sempre a cantarolar músicas parvas. Tamanha desfaçatez desmotiva os parceiros. Ornatus esgadanha sem brio, a mulher da picareta

abranda a níveis letárgicos, o ferro quase não descola dos torrões.

Aproxima-se um polícia, em inspecção de rotina, passada que está metade da manhã. O agente infiltrado teme pelo êxito da missão. À velha repelente estão reservadas as famosas agruras do buraco. E ao resto da equipa? Sem um palmo de terra cavado a direito para mostrar…

O polícia corre para a prevaricadora mal se apercebe da situação. Ajoelha-se e puxa da garrafa com água que trás à cinta. Amparando-a com a mão esquerda, emborca-lhe o conteúdo goela abaixo, até a desmiolada se engasgar. Quando a vê aos arrancos de tosse parece ficar mais aliviado.

Tampa a garrafa, ainda com líquido, e atira-a intencionalmente na direcção de Ornatus, que a agarra num acto reflexo. Nem que fosse veneno! A sede é tanta que o recipiente é esvaziado num trago.

A preguiçosa desfigurada é forçada a erguer-se um

pouco para o homem da lei lhe avaliar a condição. Este sacode-a levemente, resmunga, e ampara-a de volta à posição horizontal. Depois abeira-se de Ornatus em duas passadas bruscas, arranca-lhe o recipiente vazio das mãos e dá meia volta, regressando para donde veio.

cabrões! – sugere ele, à

despedida.

A subversiva retoma as cantilenas sem pés nem cabeça.

- Trabalhem,

seus

O tempo arrasta-se na mesma toada de pasmaceira

até soar a buzina, simultaneamente nas quatro torres. A mulher mais nova põe a ferramenta ao ombro e encaminha-se para a zona dos abrigos e demais instalações de apoio. A outra levanta-se e segue-a um

pouco atrás. O bufo fecha a marcha, com a roda do seu inútil carro de mão a guinchar ritmadamente.

Como só os bons trabalhadores são merecedores de almoço, Ornatus não sabe o que esperar quando chega a sua vez frente ao panelão. Integrou uma equipa que nada de útil produziu em toda a manhã. Contudo a falta passa sem castigo: o degredado de serviço passa-lhe para as mãos uma tigela a transbordar. Sopa de aveia com soja e lentilhas. Na orgulhosa nação, há muitos cidadãos impolutos com repastos bem menos substanciais, que o servido no redil. No fim da tigelada cada condenado ainda tem direito a uma barra vitamínica, empurrada por generosas goladas de água limpa.

O grupo original é mandado de volta ao local de trabalho designado. Retemperado pela pausa, Ornatus não hesita em lançar mãos mais diligentes à terra dura. Não aproveita a pá abandonada pelo monstro, por desconhecimento das regras aplicáveis à permuta de utensílios. A fiel depositária da ferramenta anda para ali às voltas, como uma tonta, sem se afastar em demasia. A outra fêmea, mais discreta, vai fingindo que trabalha. Sem que nada o fizesse prever atreve-se a quebrar a regra da incomunicabilidade.

- És um bom filho da puta! – afirma entre dentes. - Há bocado bebeste a água toda que o polícia te deu. Estás aqui por ser Simpático, meu cabrão! Daqui já não passas. Este não é o lugar mais indicado para esquecermos o principal motivo da nossa luta. Lembras-te? A solidariedade com os nossos semelhantes.

Ornatus apanha um compreensível susto. Mais uma vez vê-se envolvido sem querer numa grave ofensa aos preceitos. Não admira que a vida dos insurrectos em cativeiro seja curta. Nem face ao castigo mostram o mínimo respeito pela disciplina.

A atrapalhação não passa despercebida à fora-da-

lei, embora a interprete erradamente.

- Estás com vergonha? Pensavas que por estares num redil te devias portar como um animal? Não vês que é exactamente isso que eles querem? Não respondas, se estás assim tão borrado de medo. Eu já dei todas as palestras de doutrinação que tinha a dar. Agora só quero chegar ao fim de cabeça erguida. Mas ainda estou capaz de tratar os traidores e os cobardes como eles merecem.

Como o visado nada contrapõe a conversa morre por ali. Mas fica no ar uma questão pertinente: como é possível a um condenado manter presença de espírito bastante para remoques tão acutilantes?

O degredado que engraçou com Ornatus consegue

de novo um lugar contíguo na fila para o jantar. Os condescendentes polícias autorizam o gado a ajoelhar ou acocorar para fazer as honras ao petisco. Quando

a vigilância abranda o canibal murmura:

- Assim mesmo camarada! Já conseguiste sobreviver um dia. Eu vou continuar a proteger-te. Não comas o cubo de amido que deram para a sobremesa. É a tua contribuição para a resistência. À noite vou ter contigo para mo dares, depois falamos melhor.

Aproxima-se um grupo acabado de sair do alçapão por onde se acede ao redil. O primeiro polícia a reparar dá sinal à superiora.

- Vem lá gente! Devem ser mais condenados.

- Se pensam que ainda vêm encher a pança

enganam-se. Vocês aí, recolham as panelas! – dispõe a previdente mandante, rasgando carne à chicotada.

As divisas e a postura do mais adiantado entre os recém-chegados fazem os polícias gelar no lugar. A

responsável

pelo

campo

executa

rigidamente

a

saudação marcial.

 

- Meu comandante…

 

- À

vontade!

Vimos

à

procura

da

cobaia

do

laboratório.

- Temos vários ao nosso cargo nessas condições, meu comandante…

acompanham

conhecem perfeitamente o seu objecto de estudo.

- É aquela, comandante. Tragam-na cá que nós tratamos de tudo.

Dois subordinados lançam-se sobre a tenebrosa mulher do olho cosido.

- Segurem-na bem! – pede o técnico. - É só tirar uma amostra de sangue e de pele.

Completado o exímio trabalho da seringa e do bisturi, a comitiva faz tenção de se retirar de imediato. Mas antes uma pergunta tem de ser colocada:

chefe

Os

civis

que

o

grande

- Meu comandante, o que fazemos à cobaia?

- aproveitamento. Pode ser eliminada de imediato. Eu deixo a informação no sistema, à saída.

qualquer

Está

imprópria,

não

tem

Quando desfaz a continência, a guardiã do redil relanceia em volta à procura dos semblantes menos imbecilizados.

- Este e este!

Voa a ponta do chicote, certeira.

- Levem o animal para o buraco. Um que esteja vazio, não quero misturas de micróbios.

Ao sentir-se agarrada a condenada desata aos coices. Um dos acompanhantes, dolorosamente atingido entre pernas, indigna-se e dá-lhe um murro nas costas. Ao outro resta tão pouco tino que começa a gritar.

- Mata essa puta! Dá-lhe com força. Arrebenta-lhe a barriga…

uma

pancada de bastão no alto da cabeça. Quando a vítima toca o chão repete a dose.

- Se estiver vivo vai para o buraco. Se estiver morto

enterra-se. – decide a perspicaz patroa, ainda antes da poeira assentar.

A cobaia aproveita a distracção geral para se lançar

em corrida. A poucos metros desaparece subitamente

de vista com um uivo lúgubre.

- Caiu num buraco. – constata o polícia que se adiantou para a perseguir.

- Antes assim! – considera a chefe. – Mandem-lhe

com este imbecil em cima. Quero lá saber dos micróbios… Quando estiver a cheirar muito mal tapamos tudo com terra. E agora acabou o circo. Depois de mijarem e cagarem quero todos a dormir.

O polícia

melhor

colocado

apaga-o

com

Ornatus arrasta-se até ao abrigo, aconchega a palha e aninha-se. A cortina volta a abrir, o lusco-fusco ainda permite distinguir a entrada de um casal de condenados. Tomam o canto oposto do cubículo sem proferir palavra. O sono do bufo chega logo em seguida e vem pesado, mas não lhe é permitido durar muito.

- Passa para cá o cubo. Ouviste? Sou o líder da

resistência aqui no campo. Tens de me obedecer.

Vamos, novato, acorda!

As frases são em surdina, quase inaudíveis, mas os

safanões produzem efeito. Ornatus emerge dos sonhos um pouco descontrolado. O suficiente para se

insurgir irreflectidamente.

- Larga-me, larga-me. Não tenho cubo nenhum. Tenho é fome.

O inoportuno já lhe está escarranchado em cima.

- Estás a desafiar-me, meu cabrão? Não te ensinaram o que é a disciplina? Hoje vais ficar sem a ponta da orelha. Hé, hé! Amanhã, não te atrevas a comer a contribuição. Senão ficas sem caralho.

Ornatus arrisca elevar a voz para pedir apoio aos companheiros do abrigo.

- Socorro, ajudem!

Os dois continuam a roncar como porcos que são.

Ouvem-se as tiras da cortina afastar para deixar passar mais uma sombra falante.

- Sabia que te encontraria aqui, pulha. A massacrar o novato.

- descorçoado, a meio de se engasgar.

- Desta vez não escapas. Sabemos muito bem que

és um bufo, a soldo dos agentes de investigação. Tiveste azar em te meter com um herói da causa. Vais morrer como um cão.

O pescoço que o energúmeno escolhe para torcer não é o de Ornatus, mas sim o do seu atacante, opção que muito surpreende o agente infiltrado.

- Já está! – anuncia o desenrascado cadastrado,

quando o corpo do canibal pende inerte para o lado. – Agora transmite a tua mensagem, companheiro. Sabemos que és um herói, pelo que aguentaste na tortura. Sabemos também que estiveste com a Irina Malgovia. O que disse ela? Trazes alguma mensagem?

canibal,

Natan

Querin…

-

proferiu

o

Embora ainda esteja a tentar orientar-se por entre a sucessão de equívocos, as instruções da Simpática violada ocorrem à memória do bufo.

- No dia do transporte. Devem estar preparados para dar luta… No dia do transporte…

- Porra! – reclama o operacional subversivo. – O

transporte é amanhã. Não vamos a tempo de preparar tudo.

Ornatus fica de novo sozinho. O par de imbecis ressonadores e o cadáver do malogrado suspeito de chibo não contam como companhia. O instinto treinado compele-o a sair para a luz fria da lua, em busca de mais segurança. Entra às apalpadelas no abrigo em frente e enfia-se por entre os ocupantes que gozam o imerecido repouso. Não consegue adormecer logo. A raiva e o terror queimam-lhe no peito. Cada vez compreende melhor a importância vital da sua missão. Os insurrectos estão por todo o lado. Superiormente organizados, detentores de recursos impensáveis, uma infecção que se propaga velozmente e à qual nenhuma estrutura da sociedade parece estar imune. Todo o seu reconhecimento e admiração vão para Tanus Ordicus, o leal agente que compreende a dimensão da ameaça e se dispõe a dar- lhe combate à altura.

O novo dia nasce acinzentado, ameaça choviscar, ameaça acontecimentos escabrosos a desfavor dos justos e inocentes. No redil, os voluntariosos já estão perfilados. Quanta daquela mansidão é um mero embuste? Quantos daqueles espíritos só pretensamente estão adormecidos, a fervilhar em ânsias pelo deleite da maldade? A ríspida gestora afaga o cabo do chicote e comenta para si própria:

“Porra, que merda de dia!”

Mal ela sabe…

Lancinantes guinchos metálicos rasgam a falsa paz. Os olhares a quem sobram lampejos de lucidez concentram-se num único ponto. A grande torre como que soçobra, agoniza sobre um dos pilares em aparente liquefacção.

delírio

intoxicado…

Ilusão

de

óptica,

alucinação

colectiva,

As altas plataformas estão instáveis, entornam coisas e figurinhas a esbracejar. O registo do guincho baixa a rangido, e logo depois a estrondo, quando a sobranceira estrutura se desfaz no solo. A extremidade superior arrasa boa parte dos abrigos. Na base da torre rebenta uma tempestade de faíscas, arcos eléctricos de halos azulados, projecções direccionadas de fumo negro que rasgam a poeira levantada. Os feixes delimitadores do perímetro inexpugnável também são vítimas do desastre. O redil torna-se campo aberto.

Ainda ecoam os últimos harmónicos do estertor e já a lúcida mentora projecta o vozeirão.

- Isto é que é um caralho duma porra! Não sei que merda é esta, mas daqui não foge nenhum animal vivo. Mexam-se! Corram lá abaixo buscar armas. É disparar à vontade, disparar à vontade…

O automatismo da obediência sobrepõe-se ao pasmo. Vários guardiães partem em busca do utensílio recomendado, o único apropriado à circunstância. Outros, à ordem da chefe, permanecem no local para conter o potencial de desgraça. Os chicotes distendidos começam a rasgar carne indiscriminadamente, como medida preventiva.

Nos mesmos cinco minutos o impossível volta a acontecer. Eleva-se de entre os desmiolados uma voz de comando rival, em projecção sonora e clarividência estratégica.

- Agora! Saltem em cima deles. Sirvam-se das ferramentas. Matem esses cabrões… - incita Natan Querin.

Torna-se evidente que aqueles rebaixados estão bem fornecidos de antídoto. Vários deles, notoriamente aliviados do embrutecimento químico, começam a agir de forma coordenada e violenta.

Que podem simples chicotes, e um ou outro bastão telescópico, contra a solidez de picaretas e enxadas, à razão de dez para um?

- Traição! – resume numa amarga constatação, a destronada líder do rebanho.

O massacre dura três ou quatro minutos de empenho desesperado, dor e urros. Sobrevém-lhe um instante de absoluta calmaria. Os irremediavelmente “fundidos” permanecem sensivelmente onde estavam quando começou a sucessão de tragédias, erectos ou cambados consoante as bordoadas que encaixaram. Os colegas de pensamento mais vivo detêm-se a contemplar o cenário de vitória. Todos os polícias jazem desfalecidos, mortos ou a cumprir o último estertor.

Ornatus não se encaixa em nenhum dos grupos. Está acocorado, cabeça protegida entre os braços, respiração ofegante, coração a reverberar de angústia. Sabe que a missão por que tanto se sacrificou está em perigo, que tudo depende de tomar decisões acertadas. Não consegue escolher nenhuma.

A coberto da breve dança do caos, dois expeditos

conspiradores correm para lá das habitações amalgamadas, directos à zona dos buracos terminais. Junto à cavidade escolhida, um ajoelha na terra, outro desenrola a escada de corda que transporta.

A escassas dezenas de metros, brotam do alçapão

os primeiros polícias equipados a rigor, com armadura, capacete e armas letais. O plano terrorista previa essa possibilidade. Natan Querin evita que as suas hostes destrocem, arenga-lhes de novo para que não se percam em debandadas anárquicas, espicaçados pelo pavor às represálias.

- Por aqui! Depressa. Há um transporte preparado para nos levar a todos. Venham comigo, rápido…

Consegue que a maior parte dos desmiolados o sigam, direitinhos ao centro do campo. A mais idiota das trajectórias de fuga, mas a melhor direcção para intersectar os reforços da lei.

Mais longe, nas colinas, evolui um rasto de poeira que se aproxima rapidamente. Em breve a viatura de resgate irrompe pelo desclassificado redil. Mantêm-se paralela aos destroços da torre, invisível tanto das forças da lei como da maralha já adiantada. É um belo transporte. Seis rodados salientes, prestáveis em todos os pisos, cabina blindada com torre de metralhadora no topo, motor de combustão interna incrivelmente generoso. Como conseguirão os celerados colocar tais meios à disposição?

O veículo não se dirige ao grupo de amotinados.

Aliás, nem espalmados caberiam metade. Esses encontram pela frente a linha das forças da lei, pés bem assentes no chão, esgar vingativo nos lábios, canos negros a descarregar metralha.

O condutor procura as duas figuras agachadas, que

puxam um terceiro da cova terminal. É junto a esse grupo que o transporte imobiliza. O tempo necessário ao embarque é concedido pelo artilheiro da torre, que

impede os reforços policiais de evoluírem naquela direcção. Quando o trio fica a salvo os motores roncam em direcção ao centro da confusão. Natan Querin, premeditadamente posicionado na retaguarda das suas hostes, corre ao encontro dos salvadores. Num intrépido salto agarra-se às pegas da cabina.

O líder Simpático grita qualquer coisa para dentro

da viatura. O rugido motorizado altera a trajectória,

detendo-se à beira de Ornatus, ainda plantado no meio dos mortos.

Anda! Para ti há lugar. Não importa o que te fizeram. Podemos tratar-te…

A indecisão é um caldo cada vez mais espesso,

tolhe o discernimento e a atitude. Que oportunidade

-

para cavar fundo nas raízes da insurreição! Mas sem um cabo para se manter ligado aos seus, como evitar naufragar no lodaçal?

Providencialmente o bufo é aliviado do pesado fardo do livre arbítrio. Uma fibra entrançada envolve- lhe o pescoço, puxa-o para trás com força até ao desequilíbrio. Na queda Ornatus dá meia volta sobre si próprio, para não se estatelar de costas, sem escapar ao aperto. Aterra em cima da legítima líder do redil, destronada e ressuscitada, que o enlaça a partir do chão. A velha tem feridas debilitantes, ficou alheada do real por uns tempos, mas tornou à consciência determinada a reconduzir os acontecimentos.

- Daqui não escapas, cão tinhoso!

O agente especial Ornatus Ludiv desce às

catacumbas atado pelo pescoço, como um animal de companhia. A partir da maca onde é transportada, a chefe dos polícias não larga o cabo do lendário chicote, agora transformado em trela. Percorrem os corredores por entre a azáfama até ao hospital de campanha, montado para a funesta ocasião no exterior do perímetro. A dedicada oficial é observada pelos técnicos de saúde, uma primeira despistagem de mazelas e aplicação de curativos. Ninguém se impõe ao seu mau feitio para dar caminho adequado ao condenado. Já está na fila da ambulância, prestes a embarcar, quando lhe fazem a primeira proposta aceitável.

- Pode largar! A partir daqui fica ao meu cuidado.

Vinda de um superior hierárquico, a ordem é prontamente obedecida, com um suspiro de alívio pelo dever cumprido.

O alto responsável também aproveita a trela

improvisada para conter a presa. Acompanham-no

um homem corpulento e uma mulher franzina, com uniformes em couro, aos quais confessa, pesaroso:

- Esta cabeça é tudo o que nos resta. Como já

expliquei, estamos a braços com graves problemas. Tem sido uma manhã terrível! Por imperativos de segurança, o gado foi todo abatido. A rapaziada entusiasmou-se em demasia, acho eu! Suponho que não estejam interessados em carcaças…

O grande macho adianta-se a responder.

- Está a brincar comigo? Imobilizei a caravana

junto à via principal. Esvaziei um camião, trouxe-o até aqui por esses caminhos de cabras que vocês chamam estradas. Um desvio de mais de cinquenta quilómetros. Tenho espaço no transporte para trinta cabeças. E agora você diz que só tem isto para entregar?

A mulher, numa toada mais contida e formal, corrobora na indignação.

- O meu Navegador tem razão. A Companhia

encomendou vinte cabeças. Trago comigo o vosso documento de confirmação. Não podemos absorver os custos da demora, do desvio e da falta da mercadoria. Terá de haver lugar a uma indemnização, não é verdade?

O desconsolado oficial insurge-se mentalmente contra a má sorte. Que péssima altura para chegar o transporte do matadouro, precisamente a meio da maior crise jamais vivida pelo estabelecimento prisional. Tenta contemporizar, embora consciente que a causa está perdida.

- Sabe, Condutora, a bem ver não temos qualquer

responsabilidade nesta situação. Tanto quanto sei é tudo obra dessas bestas, esses anti-sociais, assassinos

e cobardes. Estamos todos solidariamente envolvidos em dar-lhes combate, é um problema da civilização,

pelo que os azares… enfim, a todos dizem respeito, não é verdade?

- Olha-me este gajo! – comenta o enfadado

Navegador, preparando-se para expressar a sua opinião pessoal, assaz negativa, sobre a dita solidariedade.

- Vamos com calma! – exige-lhe a chefe da

caravana. – Estes assuntos tratam-se noutros locais, por outra gente. A nossa responsabilidade é apenas

recolher, transportar e entregar a mercadoria no destino. Aqui nada mais temos a fazer, vamos embora. Diz-me que esse é o único exemplar vivo? Passe-o para cá, fica já abatido na conta que o fretador não deixará de apresentar. Está bem assim?

Tudo para que os inoportunos desamparem a loja o mais depressa possível, com os seus camiões carregados de gado vivo e malcheiroso, defendidos por artilheiros de dedo leve.

- Pois, claro! Aqui o tem.

Quem não gosta do que ouve é Ornatus, que perante o desenrolar dos acontecimentos decide clarificar a respectiva posição.

- Oiçam lá…

- Mas o que vem a ser isto? – rebenta o Navegador. - Ele nem sequer está inibido? Nunca vi tamanha incompetência!

ingrato papel de

comerciante, reage mal ao orgulho ferido. Quando eleva a voz, esta sai-lhe demasiado fina e estridente.

- Olhe que não é bem assim! Somos agentes da lei,

lidamos com criminosos desesperados, cheios de manhas, capazes de tudo. Pensa que isto é alguma quinta? Que estes tipos são gado pachorrento, tratado geneticamente, operado, castrado? Não temos cá disso. Guarde lá as impertinências para quando estiver a falar com vendilhões da sua laia.

O

oficial

da

polícia,

no

A Condutora da caravana toca no antebraço do seu

adjunto para lhe impor contenção e remata:

- O que eu reparei é que vocês, os soldadinhos,

fazem um trabalho de merda. Navegador, não dês mais conversa a este tipo. Vamos embora, traz o animal para o camião.

O bufo insiste em expor o seu ponto de vista.

- Esperem, estão completamente enganados, eu sou…

- Nem mais um pio, grande cabrão!

O corpulento Navegador deita o braço esquerdo

ao pescoço de Ornatus e puxa-o para si, num forte aperto. Leva a mão livre ao bolso lateral do uniforme,

onde se mune com uma seringa abastecida. Encosta a ferramenta ao ombro da presa, prime o gatilho, aguenta o abraço durante cinco segundos e depois afrouxa. O agente infiltrado está irrevogavelmente reduzido à condição cerebral de “fundido”, a única autorizada pelas normas da firma no transporte de gado vivo. As pernas por pouco não vacilam, os braços pendem inertes, o rosto perdeu toda a expressão.

Esbaforido, o agente operacional Tanus Ordicus chega em passo corrida, um instante antes do grupo se desfazer. Vem angustiado com o pressentimento de ser demasiado tarde. Atrasou-se a discutir, exibir credenciais, implorar e ameaçar, nos postos de controlo atabalhoadamente montados na sequência da aparatosa fuga.

esse homem! É meu, pertence às

Operações.

O iluminado estratega depõe as provas da sua

peculiar afirmação nas mãos do oficial da polícia, que se enfronha imediatamente na leitura das miudezas impressas.

- Larguem

A Condutora da frota foi talhada para rodar livre

nas grandes vias, não para sustentar discussões estéreis em cenários de caos, cabeça descoberta a receber os primeiros pingos de chuva. Indiferente ao recém-chegado, completa a anunciada retirada.

O seu segundo-em-comando, madurão vivido e

coscuvilheiro, ao adivinhar chatices deixa-se estar, com a presa entre as manápulas.

Enquanto retoma o fôlego, Tanus repara na inacção do pupilo. Nasce-lhe no espírito uma dúvida gelada, que o leva a questionar:

- Deu-lhe alguma coisa?

- FZ345, claro! – responde o empregado graduado da companhia transportadora. – É o que usamos sempre, normas da casa.

Então não se pode fazer nada…

- Ahh

- Fazer o quê?

Tanus Ordicus sente calafrios, sabe que está a um passo de comprometer toda a operação.

- Bem…, quer dizer…

Entretanto

por

esclarecido e decide retornar à acção.

- Ora, ora! Parece que temos aqui um caso bicudo.

Este menino é então especial… E nós sem saber nada, a fazer figura de parvos. O resultado está à vista, à pois está.

O agente das operações sente-se cada vez mais

desconfortável. O esquema que engendrou foi desvirtuado por imponderáveis, falhou redondamente, mas tal não é impeditivo de novas tentativas. O pior foi ter-se precipitado, desvendando segredos a um homem desesperadamente necessitado de arrastar outros no abismo do fracasso.

É à firmeza das suas convicções que Tanus vai

buscar presença de espírito para voltar à mó de cima.

o

graduado

da

polícia

dá-se

- Que é que está para aí a dizer? Venho aqui

precisamente alertar para uma tenebrosa conspiração. Infelizmente parece que não chego a tempo, os passarinhos já voaram da gaiola. Bem, ao menos apanharam este. Penso que seja o cabecilha. Esses documentos, onde se diz que está ao nosso serviço, são forjados. É a prova de que esta escumalha está organizada ao mais alto nível, e por certo fortemente apoiada pelos nossos inimigos externos.

O oficial faz parte da cadeia de responsabilidade na maior falha de segurança de que há memória, e sabe-o bem. Agarra a oportunidade que lhe é oferecida de bandeja para uma escapatória airosa.

- Compreendo, compreendo… uma conspiração desse gabarito explica muita coisa!

- Eu é que não compreendo nada. – declara o

abelhudo Navegador, com indiferença, já à laia de

despedida.

Tanus Ordicus lança-se então numa tirada de patacoadas herméticas, acerca de níveis de segurança e segredos de Estado. Mais do que suficiente para deixar o polícia de boca calada para todo o sempre, com pavor à caverna das confissões. Após terminar despede-se formalmente e regressa ao local onde deixou a viatura.

Ainda por ali está o grande camião de transporte, com dois pisos de jaulas quase vazias. O veículo ligeiro de escolta já se posicionou na dianteira para abrir caminho, os motores roncam a anunciar a iminente partida.

Inconscientemente o operacional aproxima-se. Espreita por entre os gradeamentos, observa os poucos imbecis malcheirosos até encontrar o rosto que tão bem conhece. O seu pupilo e amigo está no andar de cima. Mãos enclavinhadas sobre as barras, olhos duros a procurarem os de Tanus.

- Cab…, cabr… - balbucia ele, incoerentemente.

“Pobre coitado, está mesmo tontinho. Ser abatido é o melhor que lhe pode acontecer.” – consola-se o leal estratega, destruindo no íntimo quaisquer tentações fragilizantes da má consciência.

AAPPÊÊNNDDIICCEE PPAARRAA OOBBRRAA DDEESSCCOONNHHEECCIIDDAA

LL

UU

ÍÍ

SS

FF

II

LL

II

(O SEGUINTE CONJUNTO DE ANOTAÇÕES foi encontrado no disco rígido do único computador sobrevivente à destruição do edifício Coral; o ficheiro estava marcado como backup e referia-se a um outro ficheiro – presumivelmente a obra principal -, o qual não se conseguiu encontrar, quer sob o nome referenciado quer sob qualquer outro; o autor deste texto é desconhecido e embora a maioria das referências citadas sejam verídicas, nem a teoria a que se refere o texto nem o presumível professor que lhe terá dado autoria existem nas bases de dados académicas do mundo inteiro; aferiu-se no entanto que o software em que foi escrito estava registado sob pertença da universidade situada no edifício; pela falta de evidências concretas e a possibilidade forte de se tratar de ficção, conclui-se que deve existir pouca probabilidade de ligação deste documento com o atentado.)

CAP. I – Conspiração sobre a Teoria da Conspiração

( 1 ) professor emeritus da UPC (Barcelona) onde leccionou sobre os novos modelos políticos de 7PCI a 13PCI; de acordo com o seu blog, desenvolveu aí os fundamentos que dariam origem à teoria dos poderes invisíveis «inspirado pela organização dos diversos departamentos, um padrão de atitudes e procedimentos que surgia da sua interligação electrónica, e ao qual se obedecia sem grande crítica;

PP

EE

SS

II

LL

VV

AA

era como se fossemos governados por uma vontade maior, invisível mas a que não se podia fugir ( )» (lectures.bhamasi.caltech.edu, 12.05.17PCI).

( 2 ) uma segunda versão do artigo, um resumo com cariz mais técnico, surgiu na revista-papel La Nouveaux Ordre Mondial com o título «Est-il possible de voir les puissances invisibles?» (Quebéc,

16.03.17PCI).

( 3 ) alcunha espirituosa com que Hamasi costumava referir-se ao colégio de consultores académicos composto por autoridades provenientes de diversas universidades mundiais, cuja função é pronunciar-se anualmente sobre a validade das novas teorias culturais e sociais, e que reflectia a sua opinião do mesmo; derivado da lenda de Procrustes.

( 4 ) M. Tensih não seria tão delicado em privado:

em discussão com os restantes membros do colégio, afirmava que não tinha «tempo a perder com mais uma teoria da conspiração, inventada por mais um livre-pensante, daqueles que se põem a analisar o tráfego da rede e descobrem fantasmas e esquemas

ocultos

matemática dúbia e interpretação

imberbe» (Mailing-list 3453.google, 31.10.16PCI).

( 5 ) o corpo estava em elevado estado de decomposição, depois de uma semana na água; o despiste genético não conseguiu provar a 100% que se tratava de Hamasi (relatório do médico-legista,

20.05.17PCI).

( 6 ) nome de solteira da mãe; Hamasi, pela lei de Singapura, não estaria a apresentar um nome falso mas a desenvolver uma segunda identidade (a alteração voluntária de identidade é um direito

(

)

protegido por vários países da orla do Pacífico desde 5PCI). Contudo, como apenas utilizou essa identidade durante o tratamento psiquiátrico, a imprensa e a comunidade internacional concluiriam apressadamente que Hamasi tinha tentado esconder a verdade sobre a sua condição mental.

( 7 ) segundo o Rig Veda, Varuna guarda as almas de quem morre por afogamento.

( 8 ) Esta espantosa evidência é difícil de compilar, mas pode ser obtida nas bases de dados dos serviços de necrologia das universidades dos diversos países; alguns, nomeadamente os africanos, irão requerer autenticação por parte da academia que suporta o estudo; outros poderão requerer o uso de meios menos oficiais – aconselha-se o investigador a ter o espírito aberto no que toca a questões éticas, entender os costumes de cada país e concentrar-se nos resultados. Eu própria não teria perseguido esta questão se não tivesse querido falar pessoalmente com alguns dos membros do comité.

( 9 ) Dvorak pertenceu ao comité de Janeiro a Setembro de 16PCI, tendo tido acesso ao corpo da teoria mas nunca chegando a manifestar a sua opinião.

( 10 ) Segundo a caixa preta do avião, esta mensagem teria sido enviada pelo co-piloto às 20.35; contudo, este, dos poucos ocupantes a terem sobrevivido, negou a existência de tal mensagem, bem como de que houvesse o problema relatado a bordo. Não foi possível prosseguir a investigação porque o co-piloto morreria passadas algumas horas pela administração fatal de insulina, derivada da troca incorrecta de etiquetagem dos medicamentos no serviço do hospital (relatório da comissão de investigação do desastre do vôo New Pan-American 0743,

30.03.20PCI).

( 11 ) o computador de Tensih foi encontrado nos destroços, mas irrecuperável.

( 12 ) vi-lhe ainda o rosto, pois a entrada da estação onde tínhamos combinado fica a cinquenta metros do cruzamento; o carro dele voou literalmente na minha frente ao ser projectado para fora do viaduto. Não cheguei a prestar atenção ao outro carro.

( 13 ) escrita à mão numa letra muito miudinha; a primeira ex-mulher de Dvorak, que encontrei no velório, ajudou-me a decifrá-la; quando terminou, mudou de atitude e pediu-me para desaparecer da cerimónia e não voltar a contactá-la.

( 14 ) A lista inclui ainda técnicos de software, analistas demográficos, juristas, cirurgiões, membros de organismos de segurança social, técnicos políticos, legisladores, as respectivas datas e locais de óbito e o tipo de acidente envolvido.

CAP. II – Uma Nova Camada de Pele

( 1 ) inicialmente, apenas a partir dos dez anos, mas a lei tem baixado a idade mínima legal para a adesão à derme, situando-se na maior parte da Europa e Estados Católicos Americanos nos quatro anos, cinco para os Estados Árabes Americanos e Alemanha, e quinze para o Brasil (por ventura do conflito entre as várias culturas de dermes - v. cap. III).

( 2 ) espátula impregnada de nanócitos-gm com que se raspa as gengivas do recém-nascido.

( 3 ) cf. Construindo Cibersacerdotes: A Adesão da Derme como Processo Iniciático na Cultura Protestante, A. Brahm e S. Bram (Londres, 3PCI).

( 4 ) Madagáscar é a excepção à regra; a Tanzânia, pelo contrário, sobrevive com uma das dermes mais atrasadas do planeta, depois da catástrofe da erupção

África

Século XXII.

( 5 ) nos ECA, por motivos práticos (necessidade de pagar apenas um acto religioso por parte das famílias), o baptismo e a activação da derme começam a juntar- se num só acto, realizado pela figura sacerdotal, que se encontra devidamente certificada pelo Gabinete de Gestão da Plataforma Comum de Comunicação – o que acaba por ter interessantes consequências políticas (cf. ob. cit, A. Brahm e S. Bram, pp. 170- 185). Pela natureza da religião, esta tendência é menos forte nos EAA, mas houve estudos que verificaram a intensidade de actuação da derme durante o Salat (cf. «Variação da actividade na nano-derme na rotina diária de dez indivíduos», T. Borme, T. Shackra & F. Lampreia, Nova Deli, 23PCI).

do

Kilimanjaro

provocada

pelo

projecto

( 6 ) a tendência tem vindo a propagar-se pelas culturas orientais, onde a dimensão e densidade populacional explica a quantidade de medidas de controlo do nível de saúde geral da população, as quais têm sido alvo de críticas a nível mundial. Segundo Deerk (Antuérpia, 12PCI), «contra a

democracia fala a higiene, ou o que passa por higiene, de um povo ou uma cidade ou um estado; defensável? Veja-se o caso de Hong-Kong, onde os monitores individuais de saude estão em constante vigilância pelo Estado e sintomas que possam indicar uma das doenças colocadas em lista negra, obrigam o indivíduo a apresentar-se para check-up imediato e iniciar o tratamento, podendo ser preso caso recuse e mantido sob custódia até terminar o processo de cura.» Ou como diz Silverberg (Bagdad, 16PCI), «o corpo deixa de ser pertença do indivíduo e é pertença do Estado - o indivíduo é neste caso ocupante

indesejável e por vezes incomodativo (

)

a cura, e

logo estar vivo, torna-se uma sentença (

).»

( 7 ) designação pela qual a imprensa designou o Primeiro Colapso da Internet durante os primeiros meses após o evento e que seria ocasionalmente utilizada em publicações anteriores ao Segundo.

a versão 3.3 apenas monitoriza o nível de

serotonina, não é capaz de o influenciar.

( 9 ) R. G. Martin ratifica a sua perspectiva contraditória numa entrevista posterior: «a alucinação colectiva a que me referi anteriormente poderá ser explicada, em grande parte, pela adaptação de uma população a uma nova forma tecnológica de

comunicação (

estudos

convenceram-me que prosseguia por uma

argumentação errada (

8.9.3PCI, dois meses depois da tentativa de rapto do filho mais novo).

( 10 ) cf. Efeitos da Exposição Prolongada de Fetos da Cobaia à Acção da NanoDerme, por H. Simmons, Cambridge, 22PCI.

( 11 ) comparem a citação mencionada com a seguinte, retirada de um jornal-papel publicado na época: «segundo Herbert Simmons, investigador e obstetra no Bristol General Hospital, “apesar das protecções anunciadas, é expectável que um nível mínimo da nanoderme da mãe ultrapasse a barreira da

(44534US.visual.google,

nível biológico e mental (

a derme é sem dúvida inofensiva a

( 8 )

)

)

novos

placenta, transportada no sangue; não me pronuncio sobre o nível de intervenção que terá a nível do feto, uma vez que a programação é estritamente controlada

os

testes normais não incidem sobre a presença de nano- derme.”» (Bristol Sun, 12.2.23PCI). A citação surge apenas nesta publicação; a entrada do blog foi refeita sete meses mais tarde e não surge sequer no Internet Archive.

e poderá não representar qualquer ameaça (

)

CAP. III – Ordem Mundial, ou Desordem Organizada?

( 1 ) utilizamos o conceito tal como descrito por P. Morris (Nova Iorque, 15PCI): «De tal forma complexo e interligado se tornaram os aparelhos que

a humanidade inventou para a ajudar a dominar o

meio ambiente e proporcionar melhores e crescentes níveis de qualidade de vida, de tal forma dependem as nossas vidas - inclusivé literalmente, em certas doenças - da continuação e crescimento deste status quo mecânico e electrónico, e de tal forma esses mesmos mecanismos se tornaram autónomos, capazes de decidir, escolher e evoluir sem intervenção humana, que a denominação arcaica de “tecnologia” deverá também evoluir para uma “tecno-ecologia”, em tudo semelhante, como conceito, à da Natureza. Na verdade, uma Natureza-2, ficando a Natureza-1 como designação base do mundo biológico terrestre como sempre o conhecemos.»

( 2 ) a citação não provêm de Kemp, mas é adaptada de uma conclusão do ensaio de Hamasi: «[a disseminação indiscriminada de informação] provoca

o surgimento de nódulos auto-reguladores que são

capazes de produzir informação contraditória que anula o efeito da primeira, e sobre este pano neutral

inscrever a sua própria interpretação» e ainda «quem tenha os instrumentos correctos é capaz de

) roubar

identidades falsas, obter senhas e contra-senhas e efectuar espionagem de informação de forma barata e

imediata.»

( 3 ) da mesma forma que a Argélia se tornou nação- escrava em 19PCI perante o consórcio germano- turco com uma dívida combinada de 1500 milhões de euros.

determinar o comportamento dos nódulos (

( 4 ) de acordo com a mesma reportagem, são na ordem dos trinta mil, em Zanzibar, concentrados na zona sul da ilha. Os bebés são mergulhados à

nascença durante dois dias num líquido inibidor – que

é na verdade uma derme de versão mais antiga com a

qual a residente encontra incompatibilidades de actualização e logo não se sobrepõe. Embora desta

forma estes residentes, que se recusam a aceitar a situação de nação-escrava por questões culturais, consigam fugir ao escrutínio da África do Sul, existe o perigo de submeterem crianças tão novas à actuação de uma derme antiga; o resultado tem-se manifestado na decrescente taxa de natalidade, que não pode ser considerada apenas como efeito natural no fluxo da população. Os habitantes aguardam pacientemente «pelo dia em que a dívida esteja paga e possam voltar

a ser os donos da terra.»

( 5 ) os números do Banco Mundial (relatórios anuais de 20-23PCI) revelam 60% de insucesso nas iniciativas de adesão de tecnologia moderna por parte dos «Países a Vapor», atribuídas a causas tão diversas como mau planeamento, condições ambientais, instabilidade política, falta de financiamento, falta de competências nos recursos humanos, dificuldades logísticas. Interessante é o facto de nos 40% restantes, existir consistente e coerentemente controlo e financiamento de países e entidades ocidentais, que reservam para si os direitos subsequentes de exploração e pesquisa durante o primeiro século.

( 6 ) cf. Kropotkin às Avessas, S. Biergenstein e Unidade Pan-Europeia: Tecnocracia com Pernas, M. Holder (ambos Nova Iorque, 19PCI).

CAP. IV – É possível ver os Poderes Invisíveis?

( 1 ) compare-se no controlo evidenciado nas estatísticas das aprovações de natalidade na China nos últimos dez anos com o crescimento do volume de abortos espontâneos da Pan-Europa e ECA (relatórios do Banco Mundial).

( 2 ) o processo não é perfeito, senão Dvorak teria tido, mais cedo, um possível destino igual aos dos restantes membros do comité, antes que eu própria o conseguisse contactar (obviamente que esta frase não é comprovável cientificamente).

( 3 ) embora Hamasi se referisse à citação como estando no blog, não consegui encontrá-la, o que aumenta a necessidade de reproduzir o email na íntegra: «Vou ao limite de crer numa conspiração que me acerca, que tudo conspira contra mim, desde o mais singelo meio de transporte aos mecanismos no meu lar, que vão um a um deixando de me obedecer. A que extremo se torna a perspicácia em paranóia? Recuperar o equilíbrio é essencial, mas como ter a certeza do que sou? Um alvo genuíno? Não um louco convicto? Apenas um acumular de evidências que tento negar mas que me procuram, como o facto de tudo se encontrar na normalidade quando estou acompanhado mas começar a funcionar mal quando estou só. Ontem entretive dois professores em casa

a situação estava normal e só não consegui mostrar- lhes os gráficos de evolução das doenças menores porque o ecrã não funcionava (o que é recorrente

quando sairam

a luz começou a piscar intermitentemente, o teclado

não

consigo alugar carros, o sistema fica avariado quando

como é que

posso convencer alguém? É um berdadeio jofo do

gato w rato escccvr + ”

( 4 ) os padrões surgem quando menos esperamos:

ao comparar as iniciais das primeiras seis frases do capítulo IV das versões francesa, inglesa, espanhola e norueguesa do manual de instruções da Plataforma Financeira Comum, utilizado por estes países, chegamos também à designação Varuna. Por sinal, se juntarmos as iniciais dos relatórios do Banco Mundial, dos livros mencionados neste ensaio, e em grande parte dos textos oficiais, encontramos constantemente esta designação. Manipulação? Ou estará esta assinatura digital já impregnada no nosso pensamento, impedindo que [ficheiro corrompido e irrecuperável]

percberam konteud d maill nao consg

entro e volta a funcionar quando saio

não respondia, a água saía fria e depois suja

quando tento apresentar evidências)

saio não respondia, a água saía fria e depois suja quando tento apresentar evidências) NOVA 36

OORRIIGGAAMMII

SS AA NN TT II AA GG OO

Perante a iminência da morte

a cigarra torna-se mais melodiosa

no Outono

Shiki Masaoka

1

VI-O PELA PRIMEIRA VEZ NUM PEQUENO parque do outro lado da rua, junto ao edifício cinzento e murcho onde passei os dois últimos anos da minha vida. Era um parque de relva verde e baloiços coloridos, com bancos por baixo de árvores frondosas e uma fonte de pedra com seis tubos por onde saía um ténue fio de água não potável.

Naquela tarde esperava a chegada do meu filho. Desde a morte de Yolanda, a mãe, a regularidade das visitas alterou-se e há vários meses que não vinha visitar-me ao lar. O tempo tudo cura, dizem. Na nossa família aquele lugar-comum parecia não funcionar. Enquanto a noite caía sobre a cidade e se tornava mais evidente a cada minuto que não viria, decidi atravessar a cerca e dar um breve passeio pelo parque.

Uma cancela ferrugenta chiou quando tentei abri- la. O estado de degradação da cancela era evidente,

EE XX II MM EE NN OO

coberta de ferrugem e verdete em partes iguais. Umas letras apagadas pela lama e sujidade acumulada durante anos mostravam o nome do parque. Tentei ler o que diziam, mas esquecera-me dos óculos na residência pelo que me foi impossível. O parque permanecia num silêncio mágico, envolvente. Decidi seguir por um dos caminhos de terra que se embrenhavam pelas encostas de relva e iam dar à fonte ornamental.

Caminhava absorto nos meus pensamentos

quando algo passou a voar junto à minha cabeça, roçando a orelha. Mal pude vê-lo, brilhante e rápido, e confundi-o com um pássaro. Sobressaltado, cobri o rosto com um braço e emiti um grito abafado impróprio de um homem maduro. Das sombras surgiu um jovem. Vestia umas jeans pretas e uma camisola sem mangas da mesma cor e tinha o cabelo comprido e descuidado agarrado com um elástico. Ao passar ao meu lado parou um instante e exibiu um sorriso de anúncio televisivo.

- Desculpe. - sussurrou. - Pensei que não havia ninguém.

Sobressaltado, devolvi-lhe o sorriso. O jovem agachou-se e apanhou um diminuto avião de papel, construído em cores brilhantes, e dedicou-me outro dos seus encantadores sorrisos, talvez demasiado forçado. O avião agitou-se nas suas mãos, movido por alguma corrente inesperada e o jovem apressou- se a enfiá-lo numa caixa transparente que levava no bolso das calças.

e

desapareceu por entre as árvores.

Prossegui o meu caminho até à fonte e sentei-me num dos bancos de pedra a contemplá-la. Duas horas mais tarde despertei sobressaltado, sem saber o motivo. Hirto de frio, com uma sensação amarga na boca e uma terrível dor de cabeça, arrastei-me até ao meu quarto acanhado naquela prisão para anciãos lamentando em silêncio mais um mês de solidão.

- Origami,

sabe.

-

disse

com

voz

grave

2

O tempo passa muito devagar quando na vida nada

tem sentido. Permiti que a rotina do lar me envolvesse e durante meses limitei-me a comer, dormir e ver televisão na sala de convívio. À minha volta formavam-se grupos de amigos que organizavam partidas de cartas ou dominó com apostas ínfimas para não arruinar a pensão a ninguém. Um par de vezes convidaram-me a juntar- me a eles e recusei com cortesia. Preferia enterrar-me num dos cadeirões e permanecer umas horas vendo qualquer coisa que emitissem. As discussões com a escolha do canal tornaram-se tão aborrecidas que quando alguém se dirigia a mim para perguntar a minha opinião, premiava-o com um sorriso idiota, improvisava uma desculpa e subia ao meu quarto para dormir.

Na residência tínhamos uma pequena biblioteca, um quarto diminuto de paredes cinzentas e descascadas com várias estantes de metal, nas quais se empilhavam caoticamente todo o tipo de exemplares manuseados e estragados pelo tempo. Um dia decidi pegar num par de livros e preencher as minhas noites de insónia, que não eram poucas, com eles. As enfermeiras percorriam os corredores à noite, dizendo-nos que apagássemos as luzes como se

fossemos miúdos pequenos. Eu, obediente, apagava o candeeiro da minha mesinha, e quando a enfermeira de guarda voltava à sua guarita, dedicava-me a devorar uma daquelas obras. Depressa compreendi que pouco poderia tirar daquela colecção, limitada a obras de Cela, Gala ou Pérez-Reverte. No entanto, na secção de hobbies encontrei um livro com uma capa curiosa, um passarito de papel colorido. Falava de dobragem de papel, claro. Falava de origami.

3

Numa manhã como qualquer outra, decidi voltar ao parque. À luz do Sol tudo parecia diferente. Onde antes encontrava mistério e sedução, agora florescia a vulgaridade. Uma multidão de crianças inundava o local, correndo de um lado para o outro, deslizando nos tobogãs, brincando nos baloiços, perseguindo-se,

rindo, brigando

abandonar o caminho de terra para permitir que uma mulher passasse com um carrinho-de-bebé. Não, não era esta a imagem que eu recordava, nem a que procurava.

Voltei ao lar e comi em silêncio, numa mesa afastada. Serviam-se sempre dois pratos, primeiro um leve e variado e um segundo forte, mas baixo em gorduras, para cuidar da nossa dieta. O vinho era permitido, mas só um copo por refeição. Eu comia sempre com água, e só provava um bocado se o primeiro prato fosse uma sopa e o segundo peixe grelhado, como costumavam servir-nos todos os dias da semana menos às quintas-feiras. Uma das enfermeiras aproximou-se de uma das mesas mais afastadas e ajudou uma mulher a sentar-se. Observei a cena distante, como se não pertencesse a este lugar. Auto-sugestão, chamam-lhe.

Em duas ocasiões tive que

A tarde decorreu com indolência, sentado frente ao

televisor sem sequer prestar atenção ao écran, acompanhado pelo sussurro constante das peças de dominó resvalando sobre uma das mesas próximas. Aproveitei um dos intervalos da programação para ir à casa-de-banho, e tive que esperar vários minutos que um dos abandonados terminasse. Recordo que aquele adjectivo, abandonados, surgiu de um dos guardas de segurança num daqueles longínquos dias de festa, quando ninguém se preocupava com os copos de vinho que consumíamos às refeições. Não voltámos a vê-lo, mas a palavra ficou associada a todos aqueles que entre nós nunca recebiam visitas,

nem de familiares, nem de amigos. Agora eu fazia parte do grupo.

À noite, como de costume, instaram-nos a

recolhermos aos nossos quartos. Depois de vários minutos de discussão com a enfermeira da recepção, que repetidas vezes aludiu à minha propensão a ter um enfarte, aos meus problemas da próstata e ao meu cansaço e preguiça habitual, consegui que me dessem uma chave que me permitia sair para dar um breve passeio. A palavra breve foi reforçada com insistência.

O parque destilava silêncio na penumbra do

anoitecer. Quebrei o encanto arrastando os sapatos pelo chão de terra. Levava um fato de treino azul e sapatos, a imagem típica do velho decrépito. Mas também não me importava demasiado com o que os outros pensavam de mim, para ser sincero. Caminhei um pouco, olhando para um lado e para o outro,

esperando com o coração nas mãos. Quando envelhecemos restam poucos momentos de verdadeiro prazer. Este era um deles: o prazer da espera, a sensação de que ia acontecer um momento mágico.

E aconteceu.

O jovem apareceu por um dos caminhos laterais, dançando alegremente atrás de um enorme avião de papel. O avião balanceou um par de vezes, desviou- se, e finalmente o peso da cabeça levou-o a estatelar- se contra o solo, a uns centímetros do meus pés. Nervoso, agachei-me e segurei aquele papel dobrado entre as mãos. Notei, admirado, que parecia estar quente e palpitar na minha mão.

- Boa noite. - disse o jovem, estendendo a mão e

apertando torpemente a minha enquanto tentava não deixar cair o avião. - Não pensei voltar a vê-lo por aqui.

Sorri. O facto dele se lembrar de mim encheu-me de alegria. Abri mais o sorriso e devolvi-lhe o brinquedo.

- Chamo-me Eduardo. – disse. - Conhece o Ken Blackburn?

Neguei com a cabeça enquanto rebuscava nos bolsos do meu fato de treino de forma dissimulada. Há muito tempo que esperava este encontro e queria mostrar àquele jovem estranho os meus próprios progressos. No fundo temia que se risse de mim, mas ao menos devia tentar. Por fim tirei do bolso direito um pequeno modelo de avião feito com uma folha quadrada do bloco de notas que repousava na minha mesinha.

- Fiz isto. - murmurei, envergonhado.

Eduardo sorriu abertamente e pegou-lhe. Não deixou de sorrir embora os olhos mostrassem outra coisa. Notei, curioso, um gesto inesperado de repulsa quando o tomou nas mãos. Depois retocou com cuidado os airelons e lançou-o em direcção a um dos bancos de pedra. O avião planou uns segundos, apenas quatro ou cinco, e aterrou sem contratempos sobre o banco.

- Bravo, foi um grande voo. - disse, e acrescentou,

- O senhor pode vir amanhã? Ensinar-lhe-ia algumas outras coisas, de certeza que lhe interessariam.

- Francisco, mas todos me chamam Paco.

- Paco. Perfeito. Então, amanhã espero-o aqui à mesma hora. - e despediu-se com um gesto.

Durante mais uns minutos passeei pelo parque, desfrutando da solidão. Depois regressei ao lar. Enquanto caminhava, trauteei uma velha canção de escola que me veio à cabeça. Só quando cheguei ao quarto e me deitei é que me lembrei que me tinha esquecido do avião no banco de pedra.

meu nome é

Claro. Com

certeza. Sim.

E

o

4

Que sabem eles?

Dobram e dobram e dobram, mas sentimento? - dizia Eduardo.

Eu escutava e assentia, assentia e escutava. Às vezes fazia uma pergunta e ele respondia-me sem em nenhum momento deixar de sorrir, com aquele sorriso carente de alegria que nunca abandonava o rosto. Falava de aviões, de pássaros, de dobragens básicas, de tipos de papel, dos movimentos e dos gestos. Também falava da vida, da morte, das sensações. Era um erudito e eu, um homem sem cultura, escutava encantado a única pessoa que parecia saber que eu existia.

o

- Yoshizawa, Nakano, Kaway

e

a vida?

E

Encontrávamo-nos sempre no parque ao anoitecer, como dois namorados. As horas no lar decorriam com tédio até chegar o momento de nos vermos. As enfermeiras tinham notado o aumento dos meus passeios nocturnos, mas parecia que tal não as preocupava demasiado. Melhor, não me agradava a ideia de ter que justificar as minhas andanças na

minha idade. Quando o sol se ocultava, pegava no casaco e numa caixa de sapatos onde guardava as minhas criações e caminhava até ao banco de pedra que tínhamos tacitamente acordado como local de encontro. Eduardo chegava sempre uns minutos mais tarde, a maioria das vezes precedido por um dos seus

aviões. Sorria, sentava-se a meu lado, e fingia espanto

- com um considerável bom coração - pelo que

denominava “os meus fabulosos progressos”. Mentia,

mas fazia-o com tanto carinho que não me importava. Era incapaz de criar modelos complexos, as minhas mãos eram demasiado torpes e a vista faltava-me nos momentos críticos. Apesar disso, tentei várias vezes um modelo de elefante que Eduardo considerava muito bonito, e acabei com o

bloco de notas antes de conseguir terminá-lo.

Em certas noites, Eduardo mostrava-me as suas obras. Trazia-as em caixinhas de plástico transparente. Uma vez trouxe uma girafa realmente excelente. Outra, um chinesinho que agitava a cabeça em jeito de saudação. Alguns insectos, modelos de aviões que não podiam voar. Uma vez chegou a trazer uma máscara muito bonita, mas não permitiu que eu a pusesse. Na realidade, não permitia que ninguém tocasse nas suas criações. Mantinha-as dentro de caixas, fechadas, e eu observava-as durante

horas tentando adivinhar como as teria dobrado. Não me importava de não lhes poder pegar com as mãos, pois provavelmente seria incapaz de compreender a complexidade da sua construção. Mas é verdade que me doía essa falta de confiança, e uma noite censurei-

o amavelmente.

- Copiá-las, Paco? - e explodiu numa gargalhada. -

Não, amigo, não se trata disso. É

não sei, não

consigo explicar-lhe de forma fácil. Simplesmente,

assim que as termino, ninguém deve tocá-las. Ninguém, nem mesmo eu. Entendes?

O seu rosto adquiria então um tom sombrio, como se manipular aquelas criações de papel implicasse algum tipo de perigo indefinido. Não, não o entendia, mas não tinha importância. Nenhuma importância.

5

Quatro dias depois o meu filho veio visitar-me.

Caía uma chuva fina que ensopava a roupa e resfriava a pele. O meu filho chegou num carro desportivo novo e brilhante, acompanhado por uma esbelta jovem de olhos grandes e pernas esguias enfiadas numas jeans justas, que eu nunca tinha visto antes. Correram debaixo da chuva desde o estacionamento até à entrada, onde uma das enfermeiras e eu esperávamos em silêncio. Ambos exibiam sorrisos despreocupados, e não pararam de falar enquanto percorríamos o lar. Falaram da casa, do carro, do trabalho. Falaram do tempo, de política, dos planos de casamento.

- Por que vieste, Jorge? - perguntei, aproveitando um instante em que ficámos sós.

A jovem dançou atrás da enfermeira em direcção à cozinha, provavelmente com a intenção de saber que tipo de veneno de acção lenta nos serviam diariamente. Eu e o Jorge ficámos junto à porta da sala de convívio. Entretanto acendeu um cigarro e olhou-me de alto a abaixo.

- Aqui é proibido fumar. - censurei-o.

- Não me fodas com a tua algaraviada, pai. - disse,

dando uma puxada. - Sabes por que vim. Andas a comportar-te como um velho louco fodido, saindo às noites sabe Deus aonde

Falou durante vários minutos, recriminando a minha vida. Não respondi. Escutei em silêncio, consciente de que as minhas palavras não teriam

nenhum valor para ele. Alguém ligou a televisão e o barulho do aparelho terminou a nossa conversação.

Partiram como vieram, correndo debaixo da chuva. Nunca voltei a vê-los, e no fundo do coração não o

lamentei. A partir daquele momento a vigilância sobre

os meus movimentos furtivos a altas horas da noite

apertou-se. Duas enfermeiras patrulhavam o corredor

como se fossem dois cães de caça, e um segurança permanecia a postos junto da porta da entrada durante toda a noite. No fundo divertia-me com a

perspectiva de aumentar a despesa da residência, mas

a impossibilidade de me reunir com Eduardo destroçava-me por dentro.

Voltei à rotina, absorto nos meus próprios pensamentos. Se antes só me relacionava com os internos, agora resumia-me a um estado de silêncio e incomunicação absoluto. Recolhia-me ao quarto e deixava passar as horas deitado na cama, olhando o vazio. Uns dias abria a janela e observava a rua, mas dali não podia ver o parque e depressa me assaltava a tristeza.

Os dias passaram como folhas de Outono, e tornou-se evidente que o meu estado depressivo não beneficiava nada com o ambiente do lar. Uma manhã especialmente triste, com nuvens cinzentas inundando o céu, a enfermeira-chefe chamou-me ao seu gabinete e teve uma grande conversa privada comigo. Não narrarei os pormenores, direi apenas que depois de mais de duas horas de discussão, concedeu-me uma licença para sair uma noite por mês, sempre regressando antes da madrugada. Recordo que aquele dia não era quinta-feira, e creio que foi a única vez que acabei os dois pratos. Depois subi ao meu quarto, e com traço firme e seguro, marquei com uma cruz a quadrícula do dia doze de Novembro no calendário que tinha pendurado na parede.

6

Eduardo estava sentado no banco de pedra, uma gárgula na obscuridade. Quando pousei a mão no ombro dele, deu um safanão e levantou-se de um salto. Retrocedi assustado. Tinha os olhos vermelhos, injectados de sangue, e a cara pálida como se estivesse há vários dias sem dormir, num estado de extrema tensão.

- Voltou, Paço. - disse, a voz era débil, apagada. -

Estive à sua espera vários dias. Preciso de que me

ajude, que venha comigo.

Algo nos seus gestos e na maneira de falar induziu- me a desconfiar. Senti temor, pois a atitude era muito diferente da de tantas outras noites. Enquanto pensava nele, Eduardo agitava as mãos e depositava o peso primeiro num pé e depois no outro. Aquele jovem provavelmente era a única pessoa no mundo a quem podia chamar amigo sem medo de me enganar, por isso não me fiz rogado e anuí com a cabeça.

- Estupendo! - gritou, tentando esboçar um sorriso.

- Estupendo! Venha comigo, e eles compreendê-lo- ão. Vai explicar-lhes e eles vão entender. Qualquer um pode ter um dia mau, não é, Paco? Qualquer um! Ainda por cima nós, que não temos uma vida fácil. Oh, sim, e eles sabem perdoar

E continuou falando e falando sem parar durante todo o trajecto até à sua casa. As ruas giravam, retorciam-se, giravam e terminavam numa outra rua mais ampla. Os semáforos sucediam-se uns atrás dos outros. Não vimos carros, apenas um ou dois. Não nos cruzámos com ninguém. Enquanto nos internávamos na cidade tentei memorizar o caminho de volta, porque devia regressar sozinho. Não

consegui, e lamentei não possuir um sentido de

orientação mais desenvolvido.

- Às vezes é difícil, Paco, sabe. - disse-me Eduardo enquanto caminhávamos pelas ruas obscuras e as

primeiras gotas de chuva caíam sobre nós. - Muito difícil. Algumas noites não param de se mexer, de se agitar. Não consigo dormir. Passo noites inteiras acordado, noites inteiras ouvindo as vozes… E eles pedem-me… exigem-me que continue com o

trabalho

Não sou como o meu pai.

Chegámos até um portão iluminado. Subimos umas escadas sem nos olharmos e entrámos no edifício. Esperámos a chegada do elevador em silêncio. Eduardo mordia as unhas como se tivesse quinze ou vinte anos menos. Os seus olhos não paravam de observar à volta, como se temesse que alguém se lançasse sobre nós de um momento para o outro. Ao chegar à porta do apartamento, Eduardo pareceu recuperar um pouco a presença de espírito e dedicou-me um sorriso fraco, apenas uma sombra do habitual.

Mas eu não pedi isto, Paco. Eu não pedi.

- Agora, Paco, deve falar-lhes, deve explicar-lhes o

que aconteceu

Mas

Nunca quis fazer-lhe

mal. - disse com lágrimas nos olhos, enquanto abria a porta do apartamento.

No interior fazia calor, talvez demasiado para a época do ano. Contudo, quando notei como a porta se fechava atrás de mim, senti um calafrio. Olhei à minha volta com a boca aberta. A casa era em si mesma uma única divisão. Quatro paredes. E do chão ao tecto, as paredes estavam repletas daquelas caixinhas transparentes, aquelas pequenas celas de plástico. No interior de cada caixa, uma criatura - sim, criaturas, não poderia denominá-las de outra maneira

nunca quis fazer-lhe mal, juro

Fui fraco, permiti que os meus

sentimentos mais indignos me dominassem

- debatia-se contra as paredes. Consegui ouvir as

vozes, os gritos enquanto batiam uma e outra vez nos muros das prisões. E todas elas se agitavam e moviam

à vez, seguindo um ritmo inexplicável, uma ladainha inumana de papel dobrado.

Reparei sem querer num pedaço de papel no chão. Tinha sido cortado uma vez, e outra, e outra, com a

ajuda de uma tesoura. A beleza do elefante tinha sido mutilada, a vida ceifada por umas mãos vingativas e rancorosas. Ainda se moviam as patas numa agonia eterna de cortes sem sentido. A caixa de plástico que

o tinha guardado jazia alguns centímetros mais além,

queimada nas bordas, mais um sinal da alma torturada

e desfeita que tinha feito aquilo. As vozes reclamavam justiça. As vozes reclamavam vingança.

As criaturas das paredes saltavam e uivavam como

possessas. Peixes, árvores, aviões, leões, máscaras,

Todos

passaritos, andróides, homens, portas

sentiam a perda, todos sentiam a dor. As vozes

enchiam-me a cabeça, gritavam na minha alma.

Apanhei a tesoura.

- Compreende agora? - gritou Eduardo atrás de mim, dificilmente audível naquela cacofonia.

Senti a sua dor, senti a sua perda. Eles falavam comigo, precisavam de mim. Os gritos de Eduardo não afogavam as suas súplicas. Cravei uma e outra vez, uma e outra vez, deixando que eles guiassem as minhas mãos. Quando deixou de gritar, a divisão ficou num silêncio absoluto. Todos se calaram, e apesar da maioria não ter olhos, senti que me olhavam, e à minha alma chegou um murmúrio suave de aprovação.

Depois sentei-me no chão e chorei.

7

Umas horas depois deixaram-me partir, mas tive que lhes prometer que voltaria. Eduardo cuidou deles durante os últimos anos, e precisavam que alguém continuasse a cuidar. Compreenderam que não poderia passar muito tempo ali, as responsabilidades da minha vida num lar limitavam-me bastante. Por isso prometeram ajudar-me.

Cheguei tarde ao lar, e a enfermeira do turno aproveitou a oportunidade para me repreender. Escutei-a em silêncio, com um sorriso no rosto. Ofendida, afastou-se não sem antes dizer-me que notificaria a enfermeira-chefe. Quando fechei a porta, tirei de um dos bolsos do casaco uma caixinha de plástico transparente. No interior uma minúscula criatura agitava-se, nervosa.

Prometeram ajudar-me.

Esta noite, o farão.

Tradução de Isabel Martins

agitava-se, nervosa. Prometeram ajudar-me. Esta noite, o farão. Tradução de Isabel Martins NOVA 43 Dezembro -

Sobre os autores

Csilla Kleinheincz é uma jovem escritora húngaro-vietnamita de 28 anos de idade. Traduziu clássicos do género fantástico tais como as obras de Peter S. Beagle, trabalha como editora na Delta Vision um dos maiores editores húngaros de Fantasia. A sua primeira novela, publicada em 2005, e muitos dos contos são parte da literatura slipstream húngara.

Visite o blogue dela em <http://kleinheinczcsilla.deltavision.hu/wordpress/>.

Telmo Marçal é autor de contos de FC que misturam um certo tom kafkiano com uma ironia mordaz muito própria. Recentemente o conto O Pico de Hubert surgiu na antologia Por Universos Nunca Dantes Navegados. Consulte o primeiro número do NOVA para uma bibliografia.

Luís Filipe Silva recebeu em 1991 o prémio Caminho Ficção Científica pela colectânea O Futuro à Janela, agora disponível em e-book no site que mantém em <http://www.tecnofantasia.com/>. É autor do ciclo GalxMente, composto de duas novelas, Cidade da Carne e Vinganças e co-escritor com João Barreiros do vasto romance Terrarium. O conto aqui publicado surgiu originalmente em castelhano na revista argentina Axxón e foi seleccionado para representar Portugal na antologia Creatures of Glass and Light: New European Stories of the Fantastic, livro publicado por ocasião da Eurocon 2007. O mais recente trabalho é a noveleta Aquele que Repousa na Eternidade inserida na colectânea A Sombra sobre Lisboa: Contos Lovecraftianos na Cidade das Sete Colinas. Recentemente foi também editor da antologia Por Universos Nunca Dantes Navegados.

Santiago Eximeno nasceu em Madrid em 1973 e é um prolífico autor publicado em diversas antologias e várias vezes premiado. Já traduzido para inglês, francês, búlgaro, japonês e agora, pela primeira vez, para português. Já recebeu o prémio Ignotus da Associação Espanhola de Fantasia, Ficção Científica e Terror < http://www.aefcft.com/> por duas vezes e o prémio Xatafi-Cyberdark. Pode visitar o site do autor em < http://www.eximeno.com/>.