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QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO

BOOMSOARES/ESTÚDIOBETO

Trabalhador omnilateral

Controle rigoroso e fragmentação de tarefas não são boas alternativas

Mário César Ferreirae fragmentação de tarefas não são boas alternativas Apesar da emergência de novos mo- delos de

Apesar da emergência de novos mo- delos de gestão do trabalho, que buscam romper com formas arcaicas de produ- ção, e do espaço cada vez maior das no- vas tecnologias da informação e da co- municação, o “chão de fábrica” das cor- porações brasileiras permanece operan- do hegemonicamente com velhos para- digmas. O mais clássico desses paradigmas, com efeitos nocivos para o bem-estar no trabalho, é a separação rígida e ortodo- xa entre planejamento e execução, re- sultando em uma clivagem do tipo: nas organizações há os que pensam e os que executam. Isto faz lembrar uma máxi- ma atribuída ao engenheiro mecânico Frederick Winslow Taylor: “O operário ideal é aquele que, quando chega à fá- brica, deixa o cérebro no vestiário”. Essa separação entre o pensar e o fa- zer não consiste apenas em um pragma- tismo típico da chamada racionalidade científica do trabalho; é também um modo de exercício do poder nas cor- porações. É uma forma prática de divi- são do trabalho e, sobretudo, de controle sobre o fazer e os resultados que dele nascem. Esse controle se torna agora mais sofisticado, preciso e rigoroso com o suporte das novas tecnologias da in- formação. A vigilância eletrônica com vo- cação persecutória tem sido, segundo pesquisas, fonte crescente de mal-estar no trabalho. “Me sinto fortemente con- trolada, vigiada por máquinas e câmeras. Isto me faz muito mal”, afirma uma tra- balhadora de central de teleatendimen- to. Para os que se interessam em promo- ver uma Qualidade de Vida no Trabalho de natureza preventiva e sustentável, é fundamental se perguntar que concep- ção de ser humano e de trabalho encon- tram-se subjacentes ao paradigma ge- rencial da divisão entre plane-

ao paradigma ge- rencial da divisão entre plane- Mário César Ferreira - Pós-doutor em Ergonomia Aplicada

Mário César Ferreira - Pós-doutor em Ergonomia Aplicada à Qualidade de Vida no Trabalho pela Universidade Paris 1 Sorbonne (França) e professor associado no Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da UnB. mcesar@unb.br www.ergopublic.com.br

de Psicologia da UnB. mcesar@unb.br www.ergopublic.com.br jamento e execução. Paradigma atual e presente nas

jamento e execução. Paradigma atual e presente nas corporações, embora nas úl- timas décadas as novas tecnologias de gestão do trabalho (ex. adoção da poliva- lência funcional) venham tentando reciclá-lo via transferência aos trabalha- dores de novas responsabilidades sob a batuta de uma autonomia vigiada e res- trita.

EMEMEMEMEM MIGALHASMIGALHASMIGALHASMIGALHASMIGALHAS Ao transformar o cotidiano das corpo- rações com base em dois mundos (os do que pensam e dos que executam) não é apenas o trabalho que se transforma em migalhas para seus executores, como lem- bra a obra de Georges Friedmann, “O tra- balho em migalhas”. Os trabalhadores também se transformam em migalhas.

O trabalho fragmentado, repartido e

distribuído também “fragmenta” o criador

da obra. Ele tende a transformar em pe-

quena porção, parte ínfima, coisa nenhu- ma ou nada o sujeito da ação: o trabalha- dor. Nessa lógica de gestão, o trabalhador se transforma em “apertador de parafu- sos”, “batedor de carimbos”, “repetidor de scripts”.

O desenho de tarefas de ciclos curtos,

repetitivas, com solicitação cognitiva li- mitada e intensa veicula uma concepção de ser humano empobrecida, minguada e alienante. O trabalho se processa de modo que produza coisas que imediatamente são separadas dos interesses e do alcance de quem as produziu. Isto tende a ocultar ou falsificar a ligação de modo que apare- ça o processo (e seus produtos) como in-

diferente, independente ou superior aos homens, seus criadores. Os modelos de gestão do trabalho que operam nessa lógica de produção só in- teressam, de fato, nos trabalhadores co- mo pernas, braços, corpo e automatismos cognitivos. A promoção da QVT requer um novo paradigma sobre a concepção de ser humano que supere o fenômeno das migalhas.

OMNILAOMNILAOMNILAOMNILAOMNILATERALIDADETERALIDADETERALIDADETERALIDADETERALIDADE O trabalhador e o trabalho na ótica de QVT de viés preventivo requer pensar e conceber o homem como ser completo nos moldes do que preconizou a cultura clássica greco-romana. Ou seja, um ser omnilateral (do latim omnis: tudo, todo), com todas as lateralidades da vida hu- mana. Que lateralidades são estas? Elas dizem respeito às dimensões físicas, psi- cológicas e sociais do ser humano que, por natureza, requerem pleno desenvol- vimento. A política e os programas de QVT devem, portanto, estar em sintonia com uma perspectiva do trabalhador omnilateral. Do ponto de vista físico, é fundamen- tal respeitar os limites e as característi- cas do funcionamento do corpo huma- no, prevenindo, por exemplo, as tarefas repetitivas e a solicitação intensiva e prolongada de musculaturas. O trabalho que harmoniza e desenvolve o corpo é fator de saúde e longevidade. Do ponto de vista cognitivo, o trabalho deve ser, sobretudo, momento de criação, execu- ção com zelo e autonomia. O fazer cria- tivo é sinônimo de desenvolvimento in- telectual e também um forte antídoto da monotonia geradora de adoecimento. Do ponto de vista social, o trabalho deve ser gerador de harmonia e de cooperação permanentes. Dessa forma, ele forja o crescimento individual e coletivo e, so- bretudo, facilita às práticas de reco- nhecimento de seus protagonistas. Uma Qualidade de Vida no Trabalho que se oriente pela perspectiva da omni- lateralidade coloca o trabalho no devido lugar: modo de se fazer história e fonte promotora de bem-estar.

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REVISTA PROTEÇÃO

NOVEMBRO / 2011