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QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987 coordenação Distrital de Beja, Ministério da Educação e Cultura Direcção-Geral da Educação de Adultos. (Beja, Julho de 1987, pedido pelo professor Abílio Teixeira da DGEA do concelho de Beja, Beja ao professor Abílio Perpétua Raposo, da DGEA do distrito de Beja).

DÉCIMAS POPULARES in Literatura Popular do Distrito de Beja DGEA 1987
DÉCIMAS POPULARES
in
Literatura Popular
do Distrito de Beja
DGEA
1987

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar

Separata organizada por JRG

MAPA dos CONCELHOS do DISTRITO DE BEJA

MAPA dos CONCELHOS do DISTRITO DE BEJA Aljustrel - Almodôvar - Alvito - Barrancos - Beja

Aljustrel - Almodôvar - Alvito - Barrancos - Beja - Castro Verde - Cuba - Ferreira do Alentejo - Mértola - Moura - Odemira - Ourique - Serpa - Vidigueira

MAPA das FREGEUSIAS do CONCELHO de BEJA

Albernoa – Baleizão – Beringel - Cabeça Gorda - Mombeja – Nossa Senhora das Neves

Albernoa Baleizão Beringel - Cabeça Gorda - Mombeja Nossa Senhora das Neves Quintos - Salvada Beja (Salvador) Santa Clara de Louredo Beja (Santa Maria da Feira) Santa Vitória Beja (Santiago Maior) São Brissos Beja (São João Baptista) São Matias Trindade Trigaches.

Baptista) – São Matias – Trindade – Trigaches. Outra obra (complementar, tb com data de 1987,

Outra obra (complementar, tb com data de 1987, mas só publicada em 1989) esta de BEJA Concelho revista e ampliada com mais Poetas de Albernoa pode ser consultada e transferida em:

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QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987 coordenação Distrital de Beja, Ministério da Educação e Cultura Direcção-Geral da Educação de Adultos. (Beja, Julho de 1987, pedido pelo professor Abílio Teixeira da DGEA do concelho de Beja, Beja ao professor Abílio Perpétua Raposo, da DGEA do distrito de Beja).

DÉCIMAS POPULARES in Literatura Popular do Distrito de Beja DGEA 1987
DÉCIMAS POPULARES
in
Literatura Popular
do Distrito de Beja
DGEA
1987

Digitalização e organização de José Rabaça Gaspar

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FICHA TÉCNICA:

Separata organizada por JRG

Título:

QUADRAS / DÉCIMAS in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

Créditos: Direcção-Geral da Educação de Adultos. (Beja, Julho de 1987)

Separata digitalizada e organizada por: José Rabaça Gaspar

Data: 2015 07

Local: Corroios / Seixal

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QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

DEDICATÓRIA

Uma homenagem aos Poetas Populares

muitos considerados ‘analfabetos’!

dedicados a todos os que ainda se podem interessar

pela recolha, estudo, divulgação e implementação

dos Valores Culturais

marcas de uma identidade de um Povo e de uma Região…

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QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

APRESENTAÇÃO

Da NOTA PRÉVIA de Abílio Perpétua Raposo, em 1986coordenador na Distrital de Beja, da Direcção-Geral da Educação de Adultos, Ministério da Educação e Cultura. As notas e coordenação dos textos por M. Viegas Guerreiro r António Machado Guerreiro

«É a cultura um atributo exclusivo das sociedades humanas. É obrigatoriamente dinâmica, inovadora, criativa. Mas é também repositório de valores do passado distante ou próximo com reflexo no presente e no futuro.

Neste trabalho preocupámo-nos com aquela cultura que radica directamente no povo. Tal cultura traduz-se em formas e linguagem adequadas à sensibilidade daqueles a quem se destina. Daí que constitua um bom veiculo de formação e informação, não só porque possui forte carga motivadora dada a natureza dos temas que aborda, mas sobretudo pelas formas em que se consubstancia. E porque assim é - parece-nos - a Literatura Popular bem se enquadra no percurso da Educação de Adultos, já pelo estilo linguístico utilizado, que é o da nossa gente, já pela humanização que põe nos acontecimentos.

É ainda forma de libertação do homem, de manifestação das suas aspirações, de encontro com as suas raízes. Por outro lado, e se entre os homens há muitas mais coisas de comum que de diferente, pese embora a diversificação de condições socioeconómicas, a Literatura Popular é ainda modo de convivência humana.

Valeu, portanto, a pena ,uma tal recolha, cujo conteúdo não é rico, nem pobre, é nosso. E regionalista.

Poesias, contos, anedotas, lendas, provérbios e ditos, cantigas, adivinhas e pensamentos, costumes e jogos tradicionais, rezas e crendices populares estiveram no espírito deste levantamento.

Tal pesquisa exigiu tempo e muitas boas vontades ligadas e até estranhas às estruturas da Coordenação Distrital.»

Na mesma altura, Abílio Teixeira era o coordenador da Concelhia da DGAEE (Direcção-Geral de Apoio e Extensão Educativa) e organizou uma recolha dos Poetas Populares do Concelho de Bejade que resultou uma publicação, que apareceu com a mesma data, mas só publicada em 1989A grande maioria dos poemas dos Poetas Populares das doze (das 18) freguesias do Concelho de Beja são DÉCIMAS e podem ser consultadas, como já está mencionado, em:

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Conteúdo

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Da introdução às QUADRAS, p. 85 a 124

11

O que existe além da morte

13

António Ruas, Messejana,

13

Ó homem que vais passando:

14

 

António Ruas, Messejana, 1979

14

Eu olhei, no cemitério,

15

António Ruas, Messejana,

15

É tão triste envelhecer

16

António Ruas, Messejana

16

Vi

a minha Mãe rezando,

17

António Ruas, Messejana, 13/12/79

17

Quem tiver filhas no mundo

18

António Ruas, Messejana, 5/5/1982

18

Certas viúvas discretas,

19

 

António Ruas, Messejana,

19

Ó

Portugal! Ó Portugal!

20

António Ruas, Messejana, 1977

20

Décimas

À

PAZ

 

21

 

Maria Guiomar Rodeia Peneque,

21

não posso ser contente,

22

Quadra que o Manuel de Castro, da Cuba, fez ao poeta António Hilário,

22

Existia uma ave

23

Francisco Augusto Galrito, Castro

23

Em tudo sinto a poesia,

24

Manuel António de Castro, Cuba

24

O

cordeiro imaculado,

25

Manuel António Castro, Cuba, 1960

25

Sino, coração

de aldeia,

 

26

 

Manuel de Castro, Cuba, Setembro, 1960

26

Estou prestes a ser

chamado

27

Manuel António de Castro, Cuba

27

Varejai, varejadores;

28

Manuel António Castro, Cuba, 1951

28

Fui nova, cortante enxada ()

29

Manuel António Castro, Cuba, 1960

29

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QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

É rica, tem nome

30

Manuel António Castro, Cuba, 1967 (?)

30

Ó tu, que vais passando,

31

Cecília Maria Pereira, Alfundão

31

Pus um pé na sepultura,

32

Cecília Maria Pereira, Alfundão

32

Fiz agora oitenta anos,

33

Alfundão

33

Dizem que a Terra que gira

34

José Caro Sorneto, Amareleja

34

Também me leva a crer:

35

Póvoa de S. Miguel

35

Com a noção de subir,

36

Póvoa de S. Miguel

36

Da terra onde nasci

37

Póvoa de S.

37

As ilhas e os continentes

38

Póvoa de S. Miguel

38

Morrem as avens voando,

39

Agostinho, Santo

39

DUETO ENTRE A SOBREIRA E A OLIVEIRA

40

Eu sou a nobre sobreira,

40

O

teu valor, sobreira,

41

Jacinto Passarinho, Santo

41

Trabalhar no campo é duro

42

Póvoa de S.

42

Na barragem do Guadiana

43

Póvoa de S.

43

A

22 de Fevereiro ()

44

Autor: Hilário de Matos,

44

Morreu. Chorem, portugueses,

45

Autor: Hilário de Matos,

45

Eu fui fazer 'ma visita

46

Colos

46

As pulgas do Vale da Casca,

47

Colos

47

Que grande felicidade

48

Manuel Morais, 51 anos, Pias

48

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Numa vida há muita vida,

49

Francisco Carlos Bentes, Pedrógão do Alentejo

49

O que serve à morte o pranto

50

Francisco Carlos Bentes, Pedrógão do

50

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QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

Da introdução às QUADRAS, p. 85 a 124

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA 1987

«Por todo o Baixo Alentejo chamam-se quadras aos poemas constituídos por um mote de quatro versos glosado em quatro estrofes de dez versos, cada uma destas, terminada por um dos versos do mote. Apesar da grande difusão destas composições (Algarve, Alentejo, Estremadura, Ribatejo, Brasil), a poesia culta entende que não merece a pena preocupar-se com elas. No Dicionário das Literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira, por exemplo, não há referência a esta poesia, embora se diga que durante o século XVII, com a designação de espinela, era frequente a décima com o esquema ABBAACCDDC -- exactamente o das actuais quadras. Mas não se trata do mesmo tipo de composições, visto que as décimas não se subordinavam obrigatoriamente, como hoje as quadras, aos versos do mote que as terminam e as originaram.

É precisamente nestes poemas, ignorados pela literatura culta (ou pelo menos quase ignorados), que o povo do Sul (em particular) exprime em verso tudo o que lhe afecta a alma e os sentidos. Há até poetas populares que, de tão habituados ao esquema, são capazes de fazer de improviso uma quadra, ou de entrar num desafio em quadras, com a mesma facilidade com que por todo o país se dizem ou cantam, ao desafio ou à desgarrada, as vulgares quadras de quatro versos septissilábicos de rima ABCB ou ABAB.

Nas quadras glosadas, que pela função poderão ser os descendentes últimos dos romances metrificados, dizem-nos, os poetas, todas as preocupações, anseios e dúvidas das suas vidas. E ver, nas que aqui se inserem, como se foca o destino das pessoas (fatalidade determinista), a crença no juízo final, as interrogações acerca do que se passará no Além -- o mistério impenetrável e indecifrável do após vida --; são as referências à velhice, com o depauperamento do corpo e a saudade dos tempos passados; é o que se refere à viuvez desanimada; é Jesus o tema duma quadra; é a mãe comparada a uma santa. Há também a compaixão pela mulher perdida. Há a crítica social (aos engenheiros da barragem. às viúvas ledas, à diferença de nomenclatura que se aplica a funções idênticas consoante são praticadas por ricas ou por pobres); também não falta a crítica política, nem esqueceu a paz, a emigração, e há ainda um bom conselho de prudência naquilo que se diz.

Encontramos uma comparação do sino (que avisa o que se passa no exterior) com o coração (este a avisar o que se passa no mais intimo da pessoa). Há, muito curiosamente, a declaração dum camponês afirmando que sente poesia em tudo quanto o rodeia. Como se entende que não podia deixar de ser, há os poetas que cantam o trabalho rural, duro; há o varejo, há a história do mineral que foi enxada e agora é parte dum instrumento de morte; e há o dueto dos préstimos da oliveira e da sobreira, onde esta, apesar da riqueza que proporciona, perde o pleito em favor da outra, que fornece alimento e, no dizer do poeta, sem ela não se pode passar.

Há uma descrença na ciência dos homens mas também há uma admiração e confiança nessa mesma ciência; há louvores aos pioneiros dos descobrimentos, há louvores à terra natal, e o elogio póstumo de três aviadores que pereceram num desastre aéreo (em particular a um deles). Encontramos ainda, num mesmo poeta, a fantasia trocista da epidemia de pulgas que apareceu num monte e a fantasia curiosa duma viagem ao Céu, para ver a família que ali repousava.

Parece-nos suficiente a menção a este acervo de temas para podermos dizer que a quadra, no Sul, é o grande veículo da transmissão do acontecimento (ou da fantasia), escrito e versificado.

Os 38 textos publicados foram escolhidos entre muitos mais que se recolheram, e com eles estão representados nove dos catorze concelhos do distrito. Por motivos Óbvios, alguns tiveram que ser preteridos; acrescentaremos apenas que é imensa a quantidade de quadras que se pode recolher, dado que se trata duma espécie perfeitamente actual, a que se pode acrescentar o antigo e se irá acrescentando o futuro.»

Abílio Perpétua Raposo (Notas e coordenação dos textos: M. Viegas Guerreiro r António Machado Guerreiro)

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QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

Mote (alheio) 1

O que existe além da morte Ninguém diz, ninguém dirá. Tantos que têm morrido, Ainda ninguém voltou cá.

I

Começou o Mundo assim:

Uns nascendo, outros morrendo,

E outros que vão vivendo

Até lhes chegar o fim. Às vezes, penso para mim Que o destino é tão forte,

Que nos traz este transporte Que é impossível prever. Ninguém nos pode dizer

O

que existe além da morte.

II

Há pessoas inspiradas, Pensando na outra vida; Com uma certa medida

Não diz coisas acertadas. Tudo são coisas falhadas,

É o que se ouve por cá.

Minha ideia não é má Em pensar desta maneira:

Uma palavra certeira Ninguém diz, ninguém dirá.

III

Se formos ao cimitério Vemos muita cruz erguida, Indicando o fim da vida Que para nós é um mistério. Se formos pensar a sério, Quais 2 (2) perdemos o sentido. Nunca se tem conseguido

Trazer à luz a verdade.

E uma realidade

Tantos que têm morrido.

IV

Depois da morte, a sepultura;

É isso que vamos vendo.

Eu continuo dizendo:

Nem mais se vê a criatura, Só nos fica a gravura Desse ente que foi par lá.

Mas eu posso dizer já, Com uma certa firmeza:

Para nos falar com clareza Ainda ninguém voltou cá.

António Ruas, Messejana, 1979.

1 Conhecemos a quadra num folheto do primeiro quartel deste século: «O que existe para além da morte

/ Ninguém disse nem dirá. / De todos que têm morrido / Inda nenhum voltou cá.» 2 Leia-se «quase», que, na pronúncia do autor, soaria Quais.

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Mote

Ó homem que vais passando:

Volta atrás e vem me ver. Como tu és já eu fui, Como eu sou, há-des tu ser.

Não passes despercebido,

Presta um pouco de atenção, Olha que a vil ilusão Tem-nos às vezes perdido. Eu talvez tivesse sido Como tu não estás julgando, Mas o tempo vai passando, Muito e muito prometeu.

O

mundo não é só teu,

Ó

homem que vais passando

II

A

humanidade errante,

Muitas vezes apressada, Caminha para a retaguarda Julgando que vai para diante. Olha o teu semelhante, Que é somente o teu dever Fazeres o que puder ser Em auxílio da velhice. Olha-me com certa meiguice, Volta atrás e vem-me ver.

III

Eu, na minha mocidade,

Passei bem a juventude; Tive alegria e saúde

E alguma capacidade.

Agora, é muita a idade,

O tempo tudo destrui.

É ele que contribui

Para a gente envelhecer. Eu não me posso esquecer:

Como tu és já eu fui!

IV

De dores atormentado,

Corpo com pouca acção, Num pequeno trambulhão

Lá vou desequilibrado,

De todo desamparado Sem que me possa deter. Tenho sempre que dizer, Dizendo aquilo que sinto. Com certeza que não minto:

Como eu sou há-des tu ser.

António Ruas, Messejana, 1979

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in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

Mote

Eu olhei, no cemitério, O. cipreste altivo e forte Como tenho reparado

E

sentinela da morte.

I

Entrei no campo sagrado Com cautela e precaução Para não pisar o chão De algum corpo já mirrado. Caminhando com cuidado, Pus-me a olhar a sério Para desvendar o mistério Com uma certa atenção.

Com profunda comoção

Eu

olhei no cemitério.

II

Eu

vi nas campas sagradas

Muitas flores naturais,

Vi outras arteficiais,

Algumas já desmaiadas, Parte delas debotadas, Batidas do vento norte,

Que só tinham por suporte Aquela árvore sombria, Fazendo-lhe companhia:

O

cipreste altivo e forte.

III

É

somente de saudade

O

quadro que ali se estampa:

A

vida finda na campa,

Desce ali a humanidade.

É uma realidade

Que a todos tem tocado; Quando o tempo terminado, Todos temos que abalar. Ninguém pode cá ficar, Como eu tenho reparado.

IV

Eu

vi, dentro da ervagem,

Muitas covas e covais, De centenas de mortais Que fizeram na vida passagem. Prestando a minha homenagem Segui no mesmo transporte, Olhando bem para o porte

Dessa árvore secular:

Sempre no mesmo lugar,

É sintinela da morte!

António Ruas, Messejana, 3/12/1982.

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Mote

É tão triste envelhecer No último quartel da vida!

E ver-se desamparado,

Sem agasalho e sem guarida!

I

Começa na mocidade Uma vida cheia de esperança, Tudo o que deseja alcança Até à maioridade. Depois vem a vontade Para que o lar possa ter; Com alegria e prazer Vai vendo a vida sorrir.

Depois disto possuir,

E

tão triste envelhecer!

II

Depois de o lar construído, Já tendo mulher e filhos, Caminha por outros trilhos Por onde não tinha seguido. Já não é rapaz, é marido Da sua mulher querida. Ela, toda enternecida, Lá vai os filhos criando,

E assim vão caminhando

No último quartel da vida.

III

Num momento, sem esperar, Vem a morte traiçoeira

E leva-lhe a companheira, Quem o podia amparar. Leva os dias a pensar,

Bem triste, bem magoado, Qual será o seu estado, Caminhando para o além Sem carinho de ninguém

E ver-se desamparado.

IV

Um dia vai visitar Um daqueles filhos que tem:

Se por favor ou por bem

Lhe arranja algum lugar Para que possa habitar, Comer da mesma comida. Mas, com a voz atrevida,

O filho diz-lhe que não.

Lá abala, ao trambulhão, Sem agasalho e sem guarida

António Ruas, Messejana

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QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

Mote (alheio)

Vi a minha Mãe rezando, Aos pés da Virgem Maria:

Era uma Santa escutando

O

que a outra Santa dizia.

I

Fui um dia visitar

O

belo templo sagrado.

Vi

um corpo ajoelhado

Olhando para o altar.

E

pus-me a observar

O

que se estava passando,

Reparei que estava orando

Essa boa criatura.

Fui olhar para a figura,

Vi

a minha Mãe rezando.

II

Em ferverosa oração, Com o mais fervente ardor, Com carinho e com amor,

Na mais pura devoção.

O seu belo coração

Com certeza não mentia. Alguma coisa pedia No aspecto de bondade,

Na mais perfeita humildade, Aos pés da Virgem Maria.

III

Eu, durante a minha vida, Nunca vi quadro mais belo; Tão simples e tão singelo, Nunca vi coisa parecida.

Com a alma enternecida Eu me fui aproximando; Fui então contemplando, Na mais pura comoção, Com a maior atenção:

Era uma Santa escutando.

IV

Pareceu-me ver na imagem

Um olhar surpreendido,

Parecendo prestar sentido Aquela simples romagem.

A sua bela mensagem

Todo o respeito merecia.

Com amor e simpatia Eu olhei o belo par:

Era uma Santa a escutar

O que a outra Santa dizia.

António Ruas, Messejana, 13/12/79

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Mote (alheio)

Quem tiver filhas no mundo Não fale das desgraçadas:

Essas filhas da desgraça

Também nasceram honradas 3

I

Tem havido muitos pais Que dão um tanto à tramela:

Tem que haver muita cautela

E não se falar demais.

Certas palavras banais, Que às vezes chegam ao fundo. Há primeiro e há segundo, Como eu tenho reparado. Precisa muito cuidado Quem tiver filhas no mundo.

II

Deve haver precaução Às falas que vai dizer,

Porque às vezes pode ser Cair em contradição. Há uma vara de condão Que às vezes nos dá pancadas, Das falas exageradas Que temos pronunciado. Não é preciso avisado, Não fale das desgraçadas.

III

Olhar pra elas com dó

E dever da pessoa séria.

A tristeza e a miséria

Nunca vêm pra elas só. Com paciência de Jó,

É assim que a vida passa.

Eu não distingo a raça:

São todas seres humanos. SÓ viveram de enganos Essas filhas da desgraça.

IV

Nunca trates com desdém Se vires as mulheres perdidas As mulheres prostituídas Foram honestas também. Mas o destino, porém,

E que as marcou malfadadas, Da sorte desamparadas, Sem amor, sem um carinho As que vão nesse caminho Também nasceram honradas.

Separata organizada por JRG

António Ruas, Messejana, 5/5/1982

3 N'O Livro das Cortesãs, de A. Forjaz de Sampaio, Lisboa, 1916, vem esta quadra: «Quem tiver filhas no mundo / Não fale das malfadadas / Porque as filhas da desgraça / Também nasceram honradas». F. de Sampaio colhera-a no Cancioneiro de Teófilo Braga.

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QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

Mote

Certas viúvas discretas, De pesado luto em cima, Fazem lembrar cachos de uvas

A

pedir nova vindima.

I

Como a vida é diferente! Tantos defeitos que tem! Quem nela reparar bem Não pode ficar contente, Porque se vê, no presente, Tantas pessoas espertas, Tantas frases indirectas Que se ouvem dia-a-dia

Falam, em demasia,

Certas viúvas discretas.

II

À

mulher morre o marido:

Grande desgosto, afinal; Não deve de haver igual Que moia tanto o sentido. Lá vê o futuro perdido, Será o que Deus destina. Mas há uma estrela divina

Que outro rumo as faz tomar

A gente vê-as passar

De pesado luto em cima.

III

Se está no meio da idade

E

tem alguma figura,

Ç

desgosto pouco dura,

E

uma realidade.

Vivendo mais à vontade, Usa meias, usa peúgas, Até manda tirar as rugas Para se tornar mais bela. Quando se assoma à janela

Fazem lembrar cachos de uvas

IV

Em lhe passando a paixão, Lá vai tratar do cabelo. Depois, soma-se ao espelho,

Já tem outra condição,

Tomou outra posição. Será isto a sua sina? Até se torna mais fina,

Mais amadurecida.

Torna-se mais apetecida,

A pedir nova vindima.

António Ruas, Messejana, 13/12/1982.

19
19

Mote

Ó Portugal! Ó Portugal!

E bem triste a tua sina!

Com tantas evoluções, Hão-de levar-te à ruína.

I

Tiveste um passado feliz Em tempos que já ia vão, Foste uma grande nação, Segundo a História nos diz. Agora és infeliz, Só caminhas para o mal, Vais perdendo o ideal, Todo o bem que possuías.

Estás cheio de hipocrisias,

O

Portugal, Portugal!

II

Se os homens de antigamente, Se pudessem cá voltar, Haviam de observar Como és incompetente. Vais num caminho diferente, Vais seguindo outra rotina.

A tua estreia divina,

Que sempre te acompanhou, Como eia te abandonou,

E

bem triste a tua sina.

III

Assim não podes viver, Com esta norma de vida, Sem ordem e sem medida, Isto assim não pode ser.

Quem tenha olhos para ver Vai perdendo as condições Com tantas contradições Que aparecem dia-a-dia. Caminhas para a agonia Com estas evoluções.

IV

Há tanto dia perdido Que se passa a discutir, Sem nada se produzir, Isto não forma sentido. Vais para um ponto falido. Será o que Deus destina.

Estrela que te ilumina Tomou outra direcção, Mas, com esta condição, Caminhas para a ruína.

António Ruas, Messejana, 1977

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QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

Décimas À PAZ Mote

«Já a pomba não me traz um raminho de oliveira; Já no mundo não há paz nem ninguém que bem me queira.

I

Os grandes tratam de guerra

Com falsas Ioas de paz, tendo um arsenal capaz

de destruir toda a terra! Só esta ideia me aterra

e a minha esp'rança desfaz:

calma

Abro a porta do pombal, espero, e um bom sinal «já a pomba não me traz».

II

sou incapaz.

Pombabranca: vai voando, Voa, voa até ao céu

e leva um recado meu

a quem me está esperando.

Diz-lhe que eu fico lutando

sem tréguas e sem canseira p’la humanidade inteira.

E por ti à espera fico,

pra que me tragas, no bico, «um raminho de oliveira».

III

Ó

Divino Espírito Santo,

em pomba representado:

Vede

causando horrores e espanto;

drogados, por todo o canto, que matar, tanto lhes fazl

A roda anda pra trás,

voltam Abel e Caim, estamos perto do fim:

«já no mundo não há paz».

IV

Eu sei que sou censurada por andar de terra em terra

Há tanto desgraçado

e

por falar contra a guerra

e

estar na paz empenhada

mas não me sinto abalada:

sou como a águia altaneira, não caio por uma rasteira. E, mesmo sozinha, prossigo, se não tiver um amigo «nem ninguém que bem me queira»

Maria Guiomar Rodeia Peneque, Beja. (Obra apresentada no 3. ° Encontro de Poetas Populares realizado na vila de Fronteira em Julho / 1983).

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Mote

Já não posso ser contente, Tenho a esperança perdida Ando perdido entre a gente, Não morro nem tenho vida.

I

Quebrou-se o laço à era,

O meu enlevo de viver,

Quero e não posso esquecer

A dor que me dilacera.

Passa doce a Primavera, Para mim é-me indiferente; Minha alma já não sente Perfumes dessa beleza. Galvanizou-se a tristeza,

não posso ser contente.

II

Em permanente tormento

Noites e dias palpito, Descreio, não acredito No fim do meu sofrimento; Se me vem ao pensamento

A doce imagem querida,

Mais aumenta a dor sentida

Da crescente nostalgia:

Não posso ter alegria, Tenho a esperança perdida.

III

Taciturno, entristecido,

Cabisbaixo, torturado, Ruminando amargurado, Vagueando, compungido, Sem caminho definido, Sem rota nem oriente,

Enfadado, inconsciente, Sem amparo e sem desejo, Alheio a tudo o que vejo Ando perdido entre a gente.

IV

Não há nada no mundo

Que console a minha alma;

O

martírio desceu à palma

O

meu desgosto profundo.

Sou errante vagabundo, Sem conforto, sem guarida, Vivendo da dor vertida Sem poder rir nem chorar;

Enquanto por cá andar Nem morro nem tenho vida.

Separata organizada por JRG

Quadra que o Manuel de Castro, da Cuba, fez ao poeta António Hilário, quando lhe faleceu a muIher». Informador: António Isabel, de Penedo Gordo, 46 anos de idade; profissão: fiel de armazém; habilitações literárias; 4ª classe de Instrução Primária

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QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

Mote

Existia uma ave Que há anos eu ouvia,

Bem cantava, em tom suave. Era linda a cotovia!

I

Despertava o pastor

Que dormia ao pé do gado; Mesmo em sono pesado Nunca se ouvia um clamor. Ele a tratava com amor, Toda a gente disso sabe. Para ele não era entrave. Adorava-a, do coração. Nessas horas de solidão Existia uma ave.

II

Mas a maldade felina Dos grandes passarinheiros,

Que lá iam, sorrateiros, Às quatro horas da matina Era essa a sua sina. Inda mal amanhecia, Já lá nos campos havia As célebres ratoeirinhas Para caçar as avezinhas Que há anos eu ouvia.

III

As bonitas cotovias, Era olhar os astros e vê-las! Lá quase junto às estrelas, Cantando suas melodias. Mesmo em manhãs muito frias, Toda a gente do campo sabe, Não faltou aquela ave,

Mesmo em grandes nevões, A transmitir suas canções. Bem cantava, em tom grave 4 .

IV

Em muitas casas burguesas, As gaiolas penduradas, Com as aves encarceradas Pra animar suas altezas Comiam as miudezas

Do trigo que lá havia E cantavam todo o dia, Num movimento insano, Para alegrar o humano. Era linda a cotovia!

Francisco Augusto Galrito, Castro Verde.

4 Assim está no original, e respeitou-se. Mas, como se vê, no mote lê-se, e parece-nos que melhor, «Bem cantava, em tom suave».

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23

Mote

Em tudo sinto a poesia, Desde o Insecto à planta. Tudo me diz sinfonia, Tudo me prende e encanta

I

Um cardo seco que seja,

Um pedinte esfarrapado, Qualquer pária abandonado, Um réptil que rasteja,

A

borboleta que adeja,

O

gavião que assobia,

O

pintainho que pia

lmplorando à galinha, Por simples tendência minha

Em tudo sinto a poesia.

II

Uma flor que murchou, Outra mais que floriu, Uma abelha que zumbiu, Um veículo que passou; Um insecto que saltou,

Um rebanho que se espanta,

O eco de uma garganta,

Um apito, um som disperso, Tudo diz o mesmo verso, Desde o insecto à planta.

III

A

água que corre nas fontes,

Os arroios graciosos,

Os regatos caprichosos,

A imponência dos montes,

Os extensos horizontes,

A brilhante Iuz do dia,

A contínua melodia Das vozes da criação,

E tudo a mesma canção,

Tudo me diz sinfonia.

IV

A

majestade da serra,

Os aromosos perfumes, Os sotaques, os costumes, Dos habitantes da terra;

O

cordeirinho que berra,

O

passarinho que canta,

A

caça que se levanta,

A

fugir, espavorida,

Tudo poemas da vida, Tudo me prende e encanta.

Manuel António de Castro, Cuba

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24

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QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

Mote

O cordeiro imaculado,

O doce e meigo Jesus,

Depois de martirizado

Morreu pregado na Cruz.

I

Logo que Judas traidor

Deu o seu Mestre à prisão, Principiou a paixão Do divino redentor; Pilatos, o governador, De nada o achou culpado:

Pecou em ter entregado Jesus à falsa fé, ( 5 )

E

assim entregou à morte

O

cordeiro imaculado.

II

Foi em tribunal falsário, Prejúrio e inclemente,

Que castiga o inocente

A ir morrer ao calvário.

Contra meigo adversário Falsidade reproduz.

Ele alicia e induz Os errados fariseus

Na morte ao filho de Deus,

O

doce e meigo Jesus.

III

Levaram-no ao pretório, Aonde foi escarnecido, Horrivelmente ferido Por selvático auditório. Em vez de ter oratório, Foi de espinhos coroado, Ingratamente afrontado

Até ir prò crucifixo,

E lá vai para o suplixo

Depois de martirizado.

IV

Cumpriram-se as escrituras Escureceu-se o horizonte, Há trovões, treme o monte, Estalaram-se as pedras duras, Abriam-se as sepulturas,

O astro-rei perde a luz.

Essa malta que o conduz Abalou espavorida, E Jesus Cristo deixa a vida

Morreu pregado na cruz.

Manuel António Castro, Cuba, 1960

5 Há um lapso de revisão no original: este verso devia rimar com o imediato, por qualquer palavra terminada em orte. (jrg: por exemplo: forte, sorte, corte, coorte, côrte, norte…)

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25

Mote

Sino, coração de aldeia, Coração, sino da gente:

Um a sentir quando bate,

Outro a bater quando sente

I

Na humilde solidão

Dum burgo da serrania,

O tradicional meio-dia

Dá vida e animação Em contínua pulsação.

Ouve-se o quarto e a meia, Marcando as horas da ceia,

E todas do giro diário,

No alto do campanácio. Sino, coração de aldeia.

II

Deixa o cérebro de pensar,

A vista recolhe ao leito.

Só o prisioneiro do peito Não deixa de trabalhar; Pode às vezes alterar

O seu bater paciente,

Mas o perigo é iminente, Avisa e dá sinal,

Mesmo sem ser de metal,

Coração, sino da gente.

III

São órgãos de vida intensa Um coração e um sino, São bem iguais no destino Mas diferem na presença. Um leva à distância imensa Os ecos do seu rebate, Entoa como o quilate

Das matérias empregadas, Actua, a dar badaladas, Um a sentir quando bate.

IV

Essa víscera principal, No seu batalhar insano Vai regendo o corpo humano No seu giro natural. , Conhece o bem e o mal, Do passado e do presente, No futuro é qual vidente, Dá conselhos bem precisos, Não dá horas, mas avisos, Outro a bater quando sente.

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Manuel de Castro, Cuba, Setembro, 1960

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26

QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

Mote

Estou prestes a ser chamado Ao infalível Juiz, Para ser sentenciado Do bem ou mal que cá fiz.

I

Não é porque a minha idade Seja bastante avançada;

É a depressão causada

Por teimosa enfermidade. Falta-me a vitalidade,

Sinto o coração cansado,

E outras vezes alterado,

Num bater irregular. Não tenho que duvidar,

Estou prestes a ser chamado

II

As minhas pernas cansadas

Levam-me, sem direcção, Rojando os pés pelo chão, Doridas, atormentadas. Ando de forças quebradas,

Já torto como um arquiz.

A depressão do nariz,

Falta de vista e surdez,

Vão-me mandar, desta vez, Ao infalível Juiz.

III

O

meu corpo não resiste,

Quer-se juntar à matéria; Mas a alma solta-se, etérea, Porque eternamente existe. No corpo não subsiste Lembranças do passado,

Por isso não é chamado. Vem a alma, em seu lugar, No dia que Deus marcar Para ser sentenciado.

IV

Lê um anjo acusador

As faltas e agravantes

E linhas atenuantes.

Ao pôr outro defensor,

Deduzirá o Senhor

Do que um diz e outro diz.

E a minha alma, infeliz,

Espera a sua presença Até ouvir a sentença Do bem ou mal que cá fiz.

Manuel António de Castro, Cuba

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27

Mote

Varejai, varejadores; Apanhai, apanhadeiras. Apanhai os bagos de ouro Que caem das oliveiras.

I

As oliveiras estão Pendendo ao peso do fruto, Valioso contributo Que no Outono nos dão Bela satisfação, Rejubilando de amores. Por isso, trabalhadores, Tende cuidado com elas! Com as possíveis cautelas Varejai, varejadores.

II

Essa seiva exuberante

E vida da nossa vida;

Cada pernada partida Causa um crime flagrante. Tratai-as com fé constante,

Das mais suaves maneiras, Vendo que são mensageiras Da mesa do Criador,

E, com creçuado amor,

Apanhai, apanhadeiras.

III

Ao frio de martirizar Não se acham bem vestidas; Mesmo mal retribuídas Apanhai, sempre a cantar. Não deixem por lá ficar Um só bago do tesouro.

Se lá fica, fica ouro.

Tem pena do rico e do pobre.

A vossa missão é nobre:

Apanhai os bagos de ouro.

IV

Apanhai, pensando em quem? Não distribui o destino

O recto Juiz Divino,

Mais sabedor que ninguém? Ele sabe muito bem Escolher as pioneiras, Almas simples, verdadeiras, Limpas para o seu maná,

As promessas que nos dá Que caem das oliveiras.

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Manuel António Castro, Cuba, 1951 (?).

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28

QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

Mote

Fui nova, cortante enxada ( 6 ) Desbravei, cavei o chão, Fui sucata abandonada, Ando agora num canhão.

I

Quase me lembro de ser

A

pedra de mineral,

E

lembro a luta fatal

Do braço para me colher. Levaram-me a derreter, Fui em ferro transformada, Fui depois, à martelada, Numa bigorna estendida, Deram-me a força devida, Fui nova, cortante enxada.

II

Comprou-me um moço possante, Pôs-me um cabo de madeira,

E lá vou na segunda-feira

Nos braços desse gigante. Desde esse dia em diante Foi a minha profissão

Desbravar terras de pão, Relvas, vinhas, olivais. Vinte anos, talvez mais,

Desbravei, cavei o chão.

III

Começava de manhã, Sempre em luta vigorosa, Mesmo em terra pedregosa Cada vez com mais afã. Resisti, enquanto sã,

A poder ser concertada.

Já rasinha e dilatada,

Deixei de ser ferramenta, Fui para o canto, ferrugenta, Fui sucata abandonada.

IV

Passei anos sem valor, Com velhos ferros como eu, Até que um dia apareceu Lá por casa um comprador. Meteram-me num vapor, Fui a nova fundição. Por meu destino ou condão Nunca mais cavei na terra; Mandaram-me para a guerra,

Ando agora num canhão.

Manuel António Castro, Cuba, 1960 (?).

6 Esta quadra e as glosas foram também recolhidas em Casével, ditas por Manuel Silvestre Rosa, que atribuía a autoria a Manuel António Castro.

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Mote (alheio) ( 7 )

É rica, tem nome fino.

É

pobre, tem nome grosso

É

rica, teve um menino.

É

pobre, pariu um moço.

I

Não sabes quem é aquela

Que além vem, pé-ante-pé?

E a menina Cadé,

Vem da vivenda Quintela,

E a outra que vem com ela

E a Dália Tolentino. Andam ensaiando um hino

À

da ( 8 ) Didi Serafim.

E

a seguir, é sempre assim:

E

rica, tem nome fino.

II

Não vês aquela sopeira?

E a Antónia Bucharca,

Vive à da Ana Macaca,

A da Zefa Cadeireira.

Foi lá que o António Lameira

Lhe deitou a mão ao troço. Houve até um alvoroço,

A Brites veio ao postigo.

O mote diz como eu digo:

É

pobre, tem nome grosso.

III

Aquelas, pelos salões, Trajando à última moda, Ouvindo à alta roda Desusados palavrões. Todas têm emoções, Todas vão ao seu destino.

Um galã, um dançarino

E

ei-las na maternidade.

E

depois, com suavidade,

É

rica, teve um menino.

IV

As outras, pelos passeios, Nas ruas e nos mercados Têm com os namorados lnflamados paleios. Um pequeno toque nos seios, Mais dois dedinhos no troço,

Um toque, um pequeno esboço,

E ei-las de barriga inchada

E, a seguir, diz a gajada:

É pobre, pariu um moço.

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Manuel António Castro, Cuba, 1967 (?)

7 É quadra de António Aleixo.

8 É expressão muito usada no Baixo Alentejo: «à da» = em casa da.

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30

QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

Mote (alheio)

Ó tu, que vais passando, Repara bem como eu estou Como tu és já eu fui

E

tu serás como eu sou.

I

No estado em que me vês

Pensa bem, ó criatura, Que eu também já fui figura Com a tua robustez. Do maltrapilha ao burguês Tudo aqui se ira finando. Quem assim está falando

É um mortal que morreu:

Não te faças mais do que eu,

Ó

tu, que vais passando.

II

Nesse mundo há diferença,

Problemas raciais, Aqui todos são iguais, Para uns não há mais crença Olha que a minha presença Pode ser o teu avô.

A morte tudo findou:

Vingança, orgulho e vaidade. No campo da igualdade Repara bem como eu estou.

III

Na vida fui um senhor

De posição altaneira;

Hoje, porém, sou caveira Que a todos meto terror. Ódio, maldade e amor

A terra tudo destrui;

Mesmo o que dinheiro possui Nunca vencerá a morte. És homem robusto e forte? Como tu és já eu fui.

IV

O

teu fim será igual,

Embora sejas honrado, Ao mesmo fim do malvado, Que só praticou o mal.

Todos, na hora final,

A quem a terra criou,

Ela própria devorou Sem nenhuma devoção.

Já fui, como tu, barão,

E tu serás como eu sou.

Cecília Maria Pereira, Alfundão

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31

Mote (alheio)

Pus um pé na sepultura, Uma voz me respondeu:

Tira o pé que estás pisando Um amor que já foi teu.

I

Meu amor deixei morrer

E foi lá para onde está;

Como eia se encontra lá Eu quis um dia saber. Fui ao cemitério ver, Numa noite bem escura, Mas eu acho que é loucura Descobrir um tal segredo, E, com muito receio e medo,

Pus um pé na sepultura.

II

Senhor do Omnipotente

Que vive lá nos altos céus, Peço à Virgem e peço a Deus Que descances eternamente. Eu já não posso ser contente Quem um grande amor perdeu Só tenho sofrido, eu, E, por ti chorado tanto. Às mágoas e ao meu pranto Uma voz me respondeu:

III

«Não chores a minha sorte,

Que tudo isto é o destino

Que nos dá o poder divino,

A todos o mesmo corte.

Todos os dias para a morte Também tu vais caminhando.

Em essa hora chegando Vem morrer aqui comigo. Mas, agora, ainda te digo:

Tira o pé que estás pisando».

IV

Amor do meu coração:

Já não podes mais falar. Adeus, vai descansar

E espera a ocasião,

Que eu venho num caixão Como a ti aconteceu. Esse amor que já morreu Ainda há-de ressuscitar,

Para que tu possas amar Um amor que já foi teu.

Cecília Maria Pereira, Alfundão

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32

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QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

Mote

Fiz agora oitenta anos, Sinto-me velho e cansado,

Mas eu hoje estou contente

A

esta idade ter chegado.

I

Quando me vem ao sentido

O tempo que por mim passou.

Quem eu era, quem eu sou! Fico muito desmorecido. Tenho gozado e sofrido,

A vida é feita de enganos.

Acabaram-se os meus planos,

Futuro nenhum descubro.

Hoje, trinta de Outubro, Fiz agora oitenta anos.

II

Quase tudo já morreu, Os amigos que eu conheci, Mas ainda tenho por aí Alguns mais velhos do que eu

A saúde que Deus me deu

Para estes anos ter contado!

Olhando ao meu passado,

Que já de tão longe eu venho,

E, com a idade que tenho,

Sinto-me velho e cansado.

III

Mas agora vou pensar

que( 9 ) tenho alegria.

Em fazer

Eu quero a este dia Em minha casa festejar. Quero o bicho conservar, Com bolos e aguardente,

E dar também à outra gente,

Quem sabe se será o resto.

E verdade que já não presto,

Mas eu hoje estou contente.

IV

Eu fui lá à da Lisete Buscar meio litro dela:

Deu-me um copo, e da bela,

No ano de setenta e sete.

Se mais uns anos se repete, Ou se estou já arrumado,

É por Deus determinado,

Que eu não fujo à sua lei. Eu é que nunca pensei

A esta idade ter chegado.

Alfundão

9 «Em fazer que» é expressão corrente que significa «Em fingir que».

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33

Mote

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Dizem que a Terra que gira

E que o Sol está parado. Pela água do Oceano Está o caso explicado.

I

Mas quem tirou a experiência Por esse modo falar? Eu não posso acreditar, Enquanto nova a ciência. Se eu vir uma aparência, Como a Terra se vira Até parece mentira

O que ensinam os professores!

Mas todos os inventores

Dizem que a Terra que gira.

II

Quem é que foi o valente,

Seja dum ou doutro sexo, Que verificou esse eixo Por onde a Terra engerente? Isso será, certamente, Porque está «escriturado». Deve ser planeado,

O que ninguém tem a certeza.

Quem é que viu, com clareza, Que o Sol está parado?

III

Eu gostava de saber

Quem é que chegou ao fundo,

A ver o eixo do mundo,

Para nos vir cá dizer.

Eu, como nada sei ler, Considero um engano,

Porque não há nenhum corpo humano Que ao pé do eixo estivesse.

E

só porque sobe e desce

A

água do Oceano.

IV

Como ateimar não é crime,

E eu não quero que seja assim,

Mas quero que algum me diga a mim

Onde está esse eixo firme. Há tanta gente que afirme, Jura não estar enganado. Como este mundo está formado Já sabe quase todo o povo. Até estamos dentro do globo, Está o caso explicado.

José Caro Sorneto, Amareleja.

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QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

Mote

Também me leva a crer:

Se na Lua houver gases, Ninguém pode prever

O

que os homens são capazes

I

Para justiça perfeita,

O que tem mais importância

E olharmos para a distância Que separa os planetas.

Quem nisto pensar às direitas Até pode enlouquecer. Mas o que eu quero dizer

E que, afinal de contas,

Que isto um dia chegue às pontas Também eu me leva a crer.

II

Para que possa ser intensa

A sua navegação,

Vão fazer uma estação Que fica no ar suspensa.

E têm bem na presença

O projecto dessas fases;

É um novo tipo de pazes,

Chamado planta-forma. Todo o mundo se transforma Se na Lua houver gases.

III

Quem levou a sua avante Foi o divino Mestre:

Fez o globo terrestre, Pôs nele o seu semelhante, Acendeu-lhe a estrela brilhante

Mas deixou a luz a tremer,

O que dá a entender

Que já tremia de cansado.

O que deixou determinado

Ninguém pode prever.

IV

se aproximou a era

De o ser humano poder Artificialmente viver Fora da atmosfera. Qual a sorte que me espera? Ser esse composto de gases De elementos eficazes

Indispensáveis à vida?

Também tem peso e medida

O que os homens são capazes.

Póvoa de S. Miguel

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35

Mote

Com a noção de subir,

A ciência de baixar,

Creio que vão descobrir

Todo o sistema solar.

I

Eu tenho visto a imagem Dos homens astronautas:

São uns super «acrobatas» No percurso da viagem.

E preciso haver coragem

Para esse caminho seguir! Ninguém pode desmentir Epopeia tão importante:

Deu a ciência um passo gigante Com a noção de subir.

II

Havia mais de cem anos Que andavam os cientistas Empenhados nessa conquista Que coube aos americanos. Mas lá estão os oceanos Outras naves a «mariar». Para poderem regressar

Acudiu-lhes essa vantagem:

Está no projecto «amaragem»

A

ciência de baixar.

III

Julgo dizer nestes versos

O caminho da verdade:

Teve grande habilidade

O autor do universo.

Com tanto corpo disperso

No firmamento a luzir, Os homens tentam lá ir Para desvendar o mistério. Embora custe um império, Creio que vão descobrir.

IV

Há quem chame disparate

A Lua ser conquistada;

Pois já está projectada Uma expedição a Marte. Com muito engenho e arte Vão conseguir chegar, Na esperança de encontrar

Melhor civilização, Para melhor exploração De todo o sistema solar.

Póvoa de S. Miguel

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36

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QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

Mote

Da terra onde nasci Nunca hei-de dizer mal. Seja lá conforme for,

É a minha terra natal.

I

Passou-me pela ideia, Já que pude escolher o tema, De fazer este poema Dedicado à minha aldeia. Ela para mim não é feia,

E não fica por aqui.

Foi onde eu cresci

E aprendi a trabalhar.

Tenho, portanto, orgulho em falar Da terra onde nasci

II

Sou neto do meu avô

E sou da Póvoa de Moura.

Valha-me a Nossa Senhora Que já descobri quem sou. Mas quem é que me mandou Dizer de onde sou natural?

Não devia ter feito tal,

Só agora reconheço. Da terra que me serviu de berço Nunca hei-de dizer mal.

III

A

Póvoa é uma freguesia

Que tem à beira do Guadiana Uma Estrela alentejana ( 10 ) Que brilha de noite e dia; Já minha avó me dizia,

E também o senhor prior,

Que devemos ter fé e amor

E dar a alma e a vida

Por a nossa terra querida,

Seja lá conforme for.

IV

Está muito bem situada,

E a igreja é muito linda, Mas o que não tem ainda

E água canalizada.

Não é porque seja culpada

A Câmara Municipal;

É lá do poder central,

Por causa das finanças locais. Mas eu não posso dizer mais:

É a minha terra natal.

Póvoa de S. Miguel.

10 É uma povoação chamada Estrela, é um lugar desta freguesia

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37

Mote

As ilhas e os continentes No meio do abismo envolvidos, Até faz cismar a gente, Esses heróis destemidos.

I

Com a bússola e o austrolabo, Primitivos instrumentos, Com fadigas e tormentos Levaram a proeza a cabo. As vezes com o mar bravo

E tempestades impertinentes.

O caminho era para a frente,

Nunca para trás voltaram.

Foi assim que desencantaram As ilhas e os continentes.

II

Depois de vencido o mar

E que surgiu a nação

Com a nova geração Que pôs os olhos no ar.

A

custa de muito estudar

E

muito valor despendido

E

que têm conseguido

Realizar estes seus sonhos De irem a lugares medonhos

No meio do abismo envolvidos.

III

Com certa dificuldade, Lá estudaram a maneira De ultrapassar a barreira Da acção da gravidade. Com grande velocidade,

Nesses engenhos potentes, Com aparelhos competentes Para todas as temperaturas, Nos confins dessas alturas Até faz cismar a gente.

IV

Os primeiros navegadores, Quer no mar, quer no vazio, Todos do mesmo elogio Creio que são mercedores. Pergunto aos homens autores, Aqueles mais entendidos, Se estão ou não convencidos

Para que se guarde respeito Aos gloriosos feitos Desses heróis destemidos.

Póvoa de S. Miguel

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38

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QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

Mote

Morrem as avens voando, Morre o cantor a cantar, Morrem os ricos gozando, Morre o pobre a trabalhar.

l

Morrem as plantas viventes, Morre tudo o que é nascido, Da morte nada é esquecido:

Morrem fracos e valentes, Morrem homens e semelhantes Em os seus dias finando. Em a morte chegando Morrem sábios e doutores.

A frente dos caçadores

Morrem as avens voando.

II

Na guerra morre o guerreiro, Nos prados morrem pastores, Nos jardins morrem as flores, Também morre o jardineiro. Na moagem, o moleiro. Morre o padre no altar, Morre o marinheiro no mar, Nas suas embarcações. Para distrair paixões Morre o cantor a cantar.

III

Na mina morre o mineiro, Descobrindo os menerais; Morrem primos, irmãos, pais, Morre todo o cavalheiro. Na loja morre o caixeiro

E o pintor morre pintando. Morre o chofer, guiando Automóveis na corrida. No lindo jardim da vida

Morrem os ricos gozando.

IV

Na tropa morre o soldado, No trabalho morre o artista,

O mais fino guitarrista

Morre à guitarra abraçado. Morre o rico, encostado,

E o escravo morre a cavar. Morre o aviador, no ar,

E acaba assim a grandeza.

Cheio de miséria e tristeza Morre o pobre a trabalhar.

Agostinho, Santo Amador.

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DUETO ENTRE A SOBREIRA 11 E A OLIVEIRA

DIZ A SOBREIRA:

Eu sou a nobre sobreira,

E sou das árvores principais

E diz-me lá tu, oliveira, Qual de nós valerá mais.

I

Eu sou na terra criada

E como tu és, igualmente;

Dou produto a muita gente

E tu pouco lhe dás ou nada. Há muita gente elevada, Por mim alvora bandeira,

Por esta relação inteira,

E eu rendo muitos milhões.

Tenho fama nas demais nações

E

eu sou a nobre sobreira.

II

Mil fábricas têm feito

Em vilas, aldeias e cidades. Dou para comprar propriedades

E faço do torto direito;

Famílias de respeito Por mim arranjam cabedais;

Eu dou sustento aos animais

E o meu fruto é de valor;

Eu dou a amêndoa ao lavrador

E

sou das árvores principais.

III

Eu dou cortiça de valia; Da minha casca se faz tinta.

Sou das árvores mais distintas Que se encontram hoje em dia. Logo, para maior garantia,

E há muita gente estrangeira, Fazem da minha madeira Móveis para os seus bens.

Mas qual é o valor que tens?

E diz-me lá, ó oliveira.

IV

Farei o que me dizes,

Que eu tenho mais para te dizer;

O

teu valor não dá para ter,

E

mais do que eu, homem felizes.

Eu não quero que me escandalizes As palavras que me dais, Se contra mim te levantais

E a repetir falas me obrigas.

Mas eu só quero que tu me digas Qual de nós valerá mais.

11 Sobreira é a designação vulgar, no Sul do Alentejo, da árvore que a Botânica e a linguagem oficial conhecem por sobreiro. Mas, na mesma região, também se usa o nome de sobreiro: é a árvore delgada, relativamente e nova, que toma o nome de sobreira depois de lhe ter sido tirada a primeira cortiça.

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QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

AGORA RESPONDE A OLIVERIA:

O teu valor, sobreira, Ainda se pode acabar. Sem ti todos passam bem, Sem mim não podem passar.

I

Tu, que desejas saber

O valor que me vigora,

Escuta-me um pouco agora, Que em breve te faço ver. Porém, te dou a saber

Que sou árvore verdadeira:

O meu nome é oliveira,

Sustento luz ao mortal.

Ao pé de mim nada vale

Esse teu valor, sobreira.

II

Por toda a parte se descobre

O meu saboroso fruto;

Até serve de «conduto» Em casa de gente pobre; Até na mesa do nobre

O meu fruto serve de manjar.

Não é para te comparares

Como nada ao pé de mim.

E o valor que encerro em ti Ainda se pode acabar.

IV

em mim não pode ser

Perder o valor que tenho, Porque todos fazem empenho Deste meu fruto comer; Até serve para se espremer Em fábricas e em Iagares,

Depois de o sumo deitar,

E fazer o azeite puro.

Mas por isso eu digo e juro:

Sem mim não podem passar.

IV

Se tens valor elevado, Corresponde a faces minhas:

Qual era o valor que tinhas Aqui há tempo atrasado? Embora tu tenhas dado Ao lavrador algum vintém, Deves calcular também Que em ti não há sigurança. Mas, havendo guerra ou vingança, Sem ti todos passam bem.

Jacinto Passarinho, Santo Aleixo.

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41

Mote

Trabalhar no campo é duro

E é por muitos censurado;

Sempre com pouco futuro Passa-se a vida arrastado.

I

Quem nasceu para cavar Nasceu para sofrer; Nem come como deve ser,

Para a comida não faltar. Eu, às vezes, a pensar No meu passado obscuro, Falo sozinho e murmuro,

E até digo disparate,

Por saber que em toda a parte Trabalhar no campo é duro.

II

Ora ao frio ora ao calor, Com pesada ferramenta, Só para quem experimenta

É que lhe dá o valor.

Se porventura é lavrador, Tem que manejar o arado, Muitas vezes mal calçado,

Sem se poder firmar nos pés, E, se à noite vai aos cafés,

E

por muitos censurado.

III

Se é guardador de gado, Faz uma triste figura; Se faz horticultura Dá-lhe o mesmo resultado. Anda sujo e mal enroupado,

Sempre vivendo em apuro. Mas ainda o último furo

É a pá e o picareto:

Deteriora-lhe o esqueleto

E sempre com pouco futuro.

IV

Somos os produtores principais Do alimento e matéria-prima; Depois, ainda por cima

Nos chamam os rurais,

E alguns chamam-nos mais:

Malandros e mal educados. Mas, enquanto esses estão parados,

Cultivamos nós os campos. Pra dar de comer a tantos Passa-se a vida arrastado.

Póvoa de S. Miguel.

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Separata organizada por JRG

QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

Mote

Na barragem do Guadiana Dizem que há projectos errados. Olha que linda figura Que fazem os homens formados!

I

Já custou muito suor, Perda de tempo e material Mas para além do capital Houve outra perda maior,

E de todas a pior,

Que foi uma vida humana, Naquela tarde tirana:

Um operário da Vaz-Guedes,

Ao betomar umas paredes, Na barragem do Guadiana.

II

Pondo marcos, marcando pontos, Fazendo furos e sondagem,

O estudo desta barragem

Custou muitos milhares de contos

Depois de estarem prontos

E muito bem rectificados,

Estão para ser anulados Uns trabalhos tão morosos. Só porque uns mentirosos

Dizem que há projectos errados.

III

Então não são os engenheiros Os que sabem disso tudo?

A não ser que o primeiro estudo

Fosse feito por sapateiros Dizem que não há dinheiros

Pra obras de envergadura, Mas tem que haver para a factura Da compra de electricidade, Sem haver necessidade Olha que linda figura!

IV

O

que a engenharia trabalha,

Fazem uns, desmancham outros. São como os gafanhotos, Saltam para onde calha. Pois se a matemática não falha, Porque é que os mesmos dados Vieram a dar resultados

A cada uns de suas maneiras?

Está visto que são asneiras Que fazem os homens formados.

Póvoa de S. Miguel.

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A 22 de Fevereiro ( 12 ) Chocaram os dois aviões Como dizem os jornais Nas suas informações.

I

Os aviões levantaram,

Com os seus aviadores, Que deram força aos motores; Subiram e caminharam. Os dois aparelhos chocaram, No seu andamento ligeiro. Ainda no mundo inteiro Não houve desgraça igual Como se deu em Portugal Em 22 de Fevereiro.

II

Os dois aviões partiram, Tomando a direcção

Da serra do Algueirão,

Ponto a que se dirigiram. Para Amadora seguiram

O tenente-coronel e capitões.

As suas grandes aptidões Não lhe serviram de nada,

Pois numa manobra errada

Chocaram os dois aviões.

III

Fevereiro, a vinte e dois do mês, Deu a alma ao criador

O primeiro aviador

Do país português. Tantas viagens que fez As colónias nacionais!

O tenente-coronel Brito Pais,

Para nos ficar de memória, Deixou o nome na história, Como dizem os jornais.

IV

Meteu horror a quem viu Um aparelho queimado

E o outro inutilizado

Sobre o muro onde caiu, Desastre este que consumiu

As medalhas e os galões, Roubando aos três cidadões Uma vida de delícias, Como publicou o «Notícias» Nas suas informações.

Autor: Hilário de Matos, Colos.

Separata organizada por JRG

CONCELHO DE ODEMIRA

12 O desastre que vitimou os três oficiais aviadores deu-se em 22 de Fevereiro de 1934. Poucos dias depois o velho Hilário de Matos, trabalhador rural enquanto as forças lhe permitiram trazia à venda um folheto com esta quadra e a que se lhe segue.

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QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

Mote

Morreu. Chorem, portugueses, Pelo Brito Pais Falcão,

A primeira inteligência

Cá da nossa aviação.

I

Era de Colos natural ( 13 )

O grande herói ilustrado.

Foi em Colos baptizado, Era a sua terra natal. Residia na capital Mas ali vinha muitas vezes. Esteve em França muitos meses, Pela guerra da Alemanha, Onde praticou tanta façanha. Morreu. Chorem, portugueses.

II

Foi um herói sem egoísmo, Nas ciências avançado,

Um coração bem formado, Cheio de patriotismo.

Fez sempre acções de heroísmo

E de grande admiração.

Tinha amor à sua nação

E ao seu país deu produto.

Portugueses: vistamos de luto Pelo Brito Pais Falcão.

III

Rodrigues Alves e Andrade Morreram os dois queimados. Os seus corpos, carbonizados, Metiam dó e piedade. Morreram dessa infelicidade Os pilotos de mais ciência Que seguiam, com urgência,

Por baixo da atmosfera,

Mas Brito Pais é que era

A

primeira inteligência.

IV

Pra defender a bandeira

E o país, com segurança,

Brigou em África e na França

E na ilha da Madeira.

Fez de Lisboa a carreira Para Macau, num avião. Entre os astros e o chão Tinha teoria e prática, Foi um «ás» de aeronáutica

Cá da nossa aviação

Autor: Hilário de Matos, Colos.

13 Há um lapso do poeta. Brito Pais Falcão, embora tido como filho de Colos, por quase toda a gente do sítio, nasceu na freguesia do Vale de Santiago; está sepultado de facto no cemitério de Colos, em jazigo de família.

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Eu fui fazer 'ma visita

-- Ó moços, vou-lhe contar, Um dia desta semana,

Eu

fui ao Céu passear.

I

Eu di( 14 ) em ter saudade

Lá da minha descendência,

Fui ao Céu, com paciência,

Para ver minha irmandade. Estavam numa sociedade, Numa saia tão catita, Ouvi uma carta escrita,

Que eu escrevi há muitos anos Para ver primos e manos

Eu

fui fazer 'ma visita.

II

Vi

a minha avó, também,

Ai, com o meu avô ao lado; Meu pai estava assentado,

Perto estava a minha mãe. Inda lá vi mais alguém Que me ajudou a criar. Anjinhos, tudo a cantar! Quem pra lá vai é feliz! Duma jornada que eu fiz,

--

Ó moços, vou-Iha contar.

III

Quando eu no Céu entri( 15 ),

Vi o que eu fazia empenho:

Três anjinhos que eu lá tenho Foram-nos primeiros que eu vi

Com o meu tio m'encontri( 16 ), Minha tia já me açana.

Lá deixi( 17 ) a minha mana,

Com muito gosto e prazer.

Fui a minha gente ver, Um dia desta semana.

IV

Os meus ouvidos ouviram:

«Deixa entrar, que é um pai meu» Logo S. Pedro se ergueu, As portas do Céu se abriram, Os meus ouvidos ouviram:

«Tens que vir pra cá morar».

Tudo isso é o meu pensar, Meu primo também lá está. Coisa mai linda não há!

Eu fui ao Céu passear.

Colos.

14 di = dei --

15 entrei.

16 encontrei.

17 deixei.

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Separata organizada por JRG

QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

Mote

As pulgas do Vale da Casca, Eh, que grande colecção! Não se pode estar ò monte,

Que fará quando vindo o Verão!

I

Há pulgas na arramada, Há pulgas lá no palheiro, E não posso ir lá ò chequeiro, Que apanhei lá uma camada.

Há pulgas em qualquer chapada, Que me fazem andar à rasca. Debaixo duma folharasca

Vi eu uma com dez dentes!

Ai, que bichos tão valentes,

As pulgas do Vale da Casca!

II

Ele há pulgas lá à porta, Há pulgas lá à jenela,

Estão pulgas de sintenela, E até há pulgas lá na horta. Ele a brincadeira está torta. Há pulgas na casa do hortelão:

Já não faço lá serão,

Que elas até pregam berros!

Há pulgas na casa dos ferros, Eh, que grande colecção!

III

Há pulgas lá no celeiro, Há pulgas lá no casinha, Há pulgas na casa da farinha,

Até há pulgas no monte inteiro. Ele uma fugiu lá pro cerro. Ele há pulgas lá à fonte!

Já não há ninguém que as conte,

Mas deviam de as contar. Aquilo vão a família espiar, Não se pode estar ò monte!

IV

Há pulgas lá à sobreira, Há pulgas pl'aquele farjal, Há pulgas lá ò pé do pial( 18 ). Ele há pulgas lá na eira! Há pulgas lá na 'strumeira, Na cavalariça a maior pção( 19 ), Há pulgas lá no casão Olha, aquilo é um Enferno. Não se espera no Envemo,

Que fará quando vindo o Verão.

Colos

18 Poial.

19 porção.

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Mote

Que grande felicidade Nas mulheres de Portugal:

Desde que os homens emigram, Não lhes falta o capital.

I

A

mulher que é camponesa,

Sempre na vida sofrendo, Agora está conhecendo Uma tremenda riqueza. Já não temem à despesa, Compram tudo à vontade.

A respeito de vaidade

Também pregam bem a peça Assim, dirão em conversa:

Que grande felicidade!

II

No tempo mais atrasado, Na própria mercearia

O

merceeiro tremia

com medo do fiado.

Ele não era culpado Do desemprego geral. De momento, afinal,

Houve uma grande mudança:

Já têm mais esperança

Nas mulheres de Portugal.

III

Um ourives ouvi eu Estar na rua dizendo:

Tempo como está correndo

Ainda não se conheceu.

O que mais favoreceu,

No campo tanto não brigam.

Eles é que se castigam, Trabalhando ardentemente; Para elas é diferente

Desde que os homens emigram

IV

Estão em jardins de recreio,

Como rosas plantadas, Que estão sendo regadas Com os vales de correio. Até fazem galanteio Ao pé do outro pessoal. Quando, atrás, viviam mal, Faziam gasto em segredo; Agora, compram sem medo, Não lhes falta o capital.

Manuel Morais, 51 anos, Pias.

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Separata organizada por JRG

CONSELHO DE SERPA AS MULHERES DOS EMIGRANTES

QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

Mote

Numa vida há muita vida, Diz o mais velho ditado. Quando nasce uma pessoa Traz o destino marcado.

I

Muitos vão para zagais Depois da escola primária,

É a lição secundária

Ser tratador de animais. Essa lição, para os quais Nasce um ponto de partida, Vai uma estrada seguida, Que a natureza traçou:

Desde que o mundo se formou Numa vida há muita vida

II

Tantos filhos de riqueza No meio de tanto prazer, Que mais tarde se vão ver Dentro da maior pobreza. Grande miséria e tristeza Por vezes têm alcançado.

Junta-se a sorte ao seu lado,

A fortuna às mãos lhes vem,

Mas ninguém diga «eu estou bem»

Diz o mais velho ditado.

III

Há tantos exemplares Que se vêem dia a dia Muitos perdem a valia,

E todos os seus familiares Ajoelham-se aos altares,

Pedindo à divina coroa Que lhes dê a vida boa. Não lhe acode o ser divino, Porque traz logo o destino Quando nasce uma pessoa.

IV

A

terra tem movimentos,

Nós, dentro deste balanço, Até à paz e descanso, Há prazeres e sofrimentos, Alegrias e tormentos Que não se têm julgado. Ninguém tem adivinhado

Os termos da sua cruz. Quando a mãe o dá à luz, Traz o destino marcado.

Francisco Carlos Bentes, Pedrógão do Alentejo

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Mote

O que serve à morte o pranto

E os sinais por quem morreu,

Se a morte traz o descanso

Pra tudo quanto nasceu?

I

A

terra tudo reduz

A

cinza, pó e matéria,

A

toda a alma finéria

Que no mundo perde a luz.

O que é infame seduz.

Não há um lamento santo Que proteja, com o seu manto, Pra do Inferno salvar.

E

tudo lhe vai constatar

O

que serve à morte o pranto.

II

A

grande fatalidade

Vem vindo, de quando em quando, Ela tudo vai levando Para aquela eternidade.

Talhando na igualdade, Idade nunca escolheu; Ela não obedeceu Ao mais triste lamentar. Que não vale a pena tocar

Os sinais por quem morreu.

III

Ela traz a paz ao mundo, O infinito repouso, Leva o mais generoso Para ò pé de um vagabundo. Nesse descansar profundo

Sinto mais um balanço. Nada impede o seu avanço. Sem escutar ais nem lamentos Pra todos os sofrimentos

A

morte traz o descanso.

IV

Alta civilização! Não vale a pena estudar Porque quando ela chegar Finda-nos toda a lição. Não há culpas nem razão, Funda-nos em critério seu. Ela tudo recolheu, lnfame potência forte,

E traz ela a mais pouca sorte Pra tudo quanto nasceu.

Separata organizada por JRG

Francisco Carlos Bentes, Pedrógão do Alentejo.

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QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

trabalho realizado por @ JORAGA Vale de Milhaços, Corroios, Seixal 2015 JULHO

JORAGA
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Separata organizada por JRG

QUADRAS / DÉCIMAS

in «LITERATURA POPULAR DO DISTRITO DE BEJA -- 1987

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Separata organizada por JRG

9 DOS 14 CONCELHOS DO DISTRITO DE BEJA

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Poetas (9 homens; 2 são mulheres)

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TEXTOS

António Ruas, Messejana -- 8 textos

Maria Guiomar Rodeia Peneque, Beja

Manuel António de Castro, Cuba 8 textos

Francisco Augusto Galrito, Castro Verde

Cecília Maria Pereira, Alfundão 2 textos

Alfundão

José Caro Sorneto, Amareleja

Póvoa de S. Miguel. 6 textos

José Caro Sorneto, Amareleja Póvoa de S. Miguel. 6 textos Agostinho, Santo Amador Concelhos do Distrito

Agostinho, Santo Amador

Concelhos do Distrito

Aljustrel

Almodôvar

Alvito

Barrancos Beja Castro Verde Cuba Ferreira do Alentejo Mértola

Moura

Odemira

Ourique

Serpa

Vidigueira

Jacinto Passarinho. Santo Aleixo 2 textos (Sobreira / Oliveira)

Hilário de Matos, Colos

Colos, mais 2 textos

Manuel Morais, Pias

Francisco Carlos Bentes, Pedrógão do Alentejo 2 textos

Mencionado: António Hilário numa décima de Manuel de Castro…

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