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BALLESTEROS, Jesús. Pós-Modernidade: decadência ou resistência. 2ª Ed. Madri, Tecnos, 2000

PRÓLOGO

Nem ao que muito colheu sobrou; nem ao que pouco colheu faltou.” 2 Cor. 8,15

“A concentração é o único bem, enquanto que a dissipação é o único mal.EMERSON.

O presente ensaio está ordenado em torno de vários eixos centrais:

A) A época histórica conhecida de modo praticamente unânime como “Tempos Modernos” havia se constituído a partir dos meados do século XV, sob a marca da primazia do “mercado”, mas havia mantido uma certa autonomia em relação à esfera política (na qual havia se desenvolvido a ideia dos direitos humanos) e à esfera cultural (que havia conduzido finalmente à tese da arte pela arte). A realidade da autonomia de cada uma dessas dimensões sociais vinha dada por sua diferente fundamentação epistemológica e antropológica e sua diferente organização.

a) A modernização econômica perceberia o ser humano como um ser que

e

potencializaria o visual, o quantitativo e o disjuntivo. Seu lema havia sido perfeitamente descrito por Guizot na França de Luís Felipe de Orleans:

“Eriquecei!” O mercado seria a única instituição social que merecia ser defendida energicamente.

b) A Modernidade política a partir do século XVIII iria encarar o homem fundamentalmente como citoyen, e suas armas fundamentais seriam a liberdade de opinião e o direito de crítica. Al limite, a Modernidade política, nas suas posturas mais radicais, pretenderia sujeitar a economia à opinião coletiva, fazendo-a mais tranparente e igualitária, o que equivaleria, em última análise, a acabar com o capitalismo.

c) O Modernismo cultural, surgido no começo do século XIX, mostra ria uma clara postura de hostilidade à Modernização, ao defender a supremacia das qualidades secundárias, da sensualismo 1 , e dos impulsos inconscientes, contra o predomínio da racionalidade geométrica. O lema de TeophileGauthier, l’artpourl’art, estava direcionado precisamente contra o slogan de Guizot, assim como a o que disse Oscar Wilde: “Cabe saber o preço de tudo, e não conhecer o valor de nada.” Essa hostilidade entre Modernização econômica e Modernismo cultural se faz patente na simultaneidade da defesa do progresso linear de Spencer,

troca

mercadorias,

preocupado

somente

com

seu

lucro

individual,

1 Crianças, não pensem bobagem, tá? É da corrente sensualista da teoria estética que trata-se aqui. (N.T.)

representante por antonomásia do homo oeconomicus, enquanto que Baudelaire e Verlaine propagam o decadentismo da época.

B) Esta autonomia de esferas sociais está desaparecendo no presente, na medida em que a economia- mundo estende cada vez mais seu poder. A política abandona toda a pretensão de dominar a esfera mercantil, e vai recolhendo mimeticamente seus procedimentos, de tal forma que importa muito mais a marca (ou logotipo) que a ideologia. À medida que a democracia se degenera em democrature 2 , avançam os estudos da “análise econômica do direito e da política”. A cultura e a arte, por sua vez, estão se convertendo em mais um objeto de consumo, em algo fragmentado e prazeroso que se justapõe ao analítico e tedioso, próprio do tempo da produção.

C) O avanço do economicismo como interpretação hegemônica da realidade humana e social surge acompanhado no plano da realidade fática da degradação do meio ambiente, da pobreza nos terceiro e quarto mundo 3 , do aumento do risco de uma guerra nuclear e da generalização da anomia e da alienação. O êxito do capitalismo no mundo é o mais contribuiu para arruinar a tese do progresso necessário como postulado fundamental da Filosofia da História. O que fracassou, ou está fracassando no capitalismo é, precisamen te, seu clamoroso êxito, o que foi muito bem compreendido por Wallerstein 4 .

D) Todavia, o fracasso da ideologia do progresso inevitável, eixo da Modernização tecnocrática, é afrontado hoje em dia de um modo bem diverso e ambíguo. É o que quer sublinhar a presença no título tanto do decadente quanto do resistente. Efetivamente, o que o próprio sistema hegemônico da economia- mundo se empenha em apresentar como única forma de pós-modernidade, o pós- estruturalismo francês e o significativamente chamado pensierodebole 5 , não é outra coisa que simples decadentismo, abandono da racionalidade, da comunicação, e ainda da mesma ideia de homem.

E) Frente à evidência do fracasso da ideia de progresso como necessidade histórica, existe, não obstante, outra postura bem distinta daquela do decadentismo. A que se empenha em resistir contra a injustiça, desumanidade e cretinice crescente de nosso mundo coloca como metas fundamentais a luta em favor da paz e contra os blocos militares, a defesa da frugalidade ecológica

2 Não podia deixar essa de fora: segundo a Wikipedia, atribui -se essa expressão ao cantor de reggae Alpha Blondy, da Costa do Marfim, que “inventou a palavra "democrature" (a qual se pode traduzir como "democradura", combinação de democracia e ditadura) para qualificar alguns governos africanos lol. (brilhante N. do T., que, por um acaso, sou eu). 3 Como diria o Juarez Freita s, está defasado. Também, né? Foi escrito em 1989. (N. do T.) 4 Immanuel Maurice Wallerstein (1930) é um sociólogo norte-americano, mais conhecido pela sua contribuição fundadora para a teoria do sistema-mundo. Seus comentários bimensais sobre questões globais são distribuídos pela Agence Global para publicações como Le Monde Diplomatique e The Nation. (N. do T.) 5 Também pensei WTF? Significa, sugestivamente, “pensamento débil”, termo cunhado pelo italiano Gianni Vattimo, que o próprio define assim: “Frente a uma lógica férrea e unívoca, necessidade de dar livre opção à interpretação; frente a uma política monolítica e vertical do partido, necessidade de apoiar os movimentos sociais transversais; frente à soberba da vanguarda artística, recuperação de uma arte popular e plural; frente a uma Europa etnocêntrica, uma visão mundial das alturas.”. Enfim, como diria o Guto, que hocuspocus mágico é esse? (N. do T.).

contra o esbanjamento consumista e da solidariedade ecumênica contra a indiferença individualista. Nessa pós- modernidade como resistência segue- se acreditando na razão, no progresso e na democracia. Uma razão integral e ampliada que se apoia no interdisciplinar e trata de satisfazer as necessidades humanas fundamentais, do biológico ao simbólico, como já cedo observou Capograssi. Um progresso como fruto do esforço da liberdade humana, que parte da convicção de que os grandes problemas do nosso tempo não são técnicos, mas éticos, e competem ao homo qua homo 6 . Uma democracia que, longe do etnocentrismo e do relativismo, busca antes de tudo o respeito ao inalienável à pessoa tanto frente ao Estado como frente ao mercado. *** Agradeço aos meus companheiros do Departamento de Filosofia do Direito, Moral e Política BLABLABLA, a diligência com que supriu minhas deficiências no uso do ordenador 7 . Valencia, junho de 1988

PRIMEIRA PARTE DA MODERNIZAÇÃO TECNOCRÁTICA

1.

ASPECTOS EPISTEMOLÓGICOS: O VISUAL, O QUANTITATIVO, O EXATO, O DISJUNTIVO

Desde a aparição do termo, o “moderno” tem estado intimamente unido à exigência de exatidão, de medida rigorosa. Essa exigência vai acompanhar a Modernidade ao longo dos séculos, constituindo - se na chave do seu horizonte epistemológico. Efetivamente, a expressão “moderno” aparece pela primeira vez – como destavaPanofsky 8 - na obra do grande pintor e historiador da arte, Giorgio Vasari (1511-1574) para designar a nova maneira de pintar, representada paradigmaticamente por León Battista Alberti (1404-1472) e por Leonardo da Vinci (1452-1519), caracterizada por sua cientificidade, frente à maniera ântica dos clássicos, e à vecchia dos bizantinos. A Modernidade surge na Florença dos Médicis com o descobrimento de Brunelleschi, por volta de 1420, da perspectiva, chamada por ele costruzione legitima. A Modernidade aparece ali onde a exigência de exatidão, presente no mundo da arte, vai ser imediatamente copiada pelo mundo científico e vai se oferecer em seguida como paradigma de toda forma de conhecimento. A geometrização (euclidização) da arte que se introduz com a perspectiva terá profundas consequências no âmbito do pensamento geral, tratando de desvalorizar progressivamente o oral em favor do visual, o qualitativo em favor do quantitativo, o analógico em favor do disjuntivo. A cada um destes processos corresponde uma figura destacada: respectivamente, Leonardo, Galileu e Descartes. É o que veremos à continuação. Previamente, analisaremos o que a

6 Uma expressão pouco comum até que quer dizer “o homem como/enquanto homem”, sabem? Um negócio meio Alcebíades.

7 Mais umas vez, encarecidamente, não pensem bobagens.

8 Erwin PANOFSKY. El significado em lãs artes visuales.

perspectiva implica não tanto para a História da Arte 9 , mas para a história do pensamento e da concepção do mundo. Como escreve Panofsky, tanto em seu livro sobre a perspectiva como no seu livro sobre o Renascimento, a dimensão da perspectiva implica na crença em um espaço infinito e homogênea ao mesmo tempo. “A infinidade – escreve Panofsky no segundo dos livros citados está implícita no fato de que qualquer conjunto de linhas paralelas, independentemente de sua localização ou direção, converge para um ponto de fuga.” Se tratava do novo conce ito de espaço que havia sido introduzido por Nicolás de Cusa e que será desenvolvido por Descartes. A exigência da perspectiva, ou, o que é a mesma coisa, a exigência de exatidão, tendia a desvalorizar a dimensão qualitativa dos objetos, seu valor simbólico, em favor da exclusiva consideração da distância. Como observou muito agudamente Mumford em seu excelente livro Técnica y civilización : “O espaço de hierarquia de valores foi substituído pelo sistema de magnitudes [ ] A dimensão não significa já importância divina ou humana, mas distância.” Essa depreciação do sibólico e do qualitativo é o que explica que possa aparecer em primeiro plano um grupo no quadro de VelázquezA rendição de Breda 10 , algo impensável no mundo pré- moderno. A esta desvalorização do qualitativo espacial se une a redução do temporal ao instantâneo, devido à coincidência entre exatidão e instantaneidade. Como assinala Ortega 11 , “Velázquez resolve fixar despoticamente o ponto de vista. Todo o quadro nascerá de um só ato de visão e as coisas haverão de esforçar-se para chegar como possam ao raio de visão.” Essa instantaneidade é o resultado da radical cisão entre sujeito e objeto, que produz igualmente a perda do contato direto com a coisa. Essa desvalorização do objeto está igualmente patente na obra de Velázquez, como bem destacou Maravall no seu livro sobre Velázquez y La Modernidad, construído a partir da intuição de Ortega há pouco assinalada. A perspectiva única estava baseada na redução euclidiana da geometria, fundamento da modernidade ocidental. Não é, por isso, estranho que as perspectivas múltiplas voltem a pintura com a aparição das novas geometrias não euclidianas no fim do século passado. Mas vamos nos deter agora em continuar expondo as consequências da exigência da exatidão no pensar moderno. Isso comporta, em primeiro lugar, o deslocamento do oral para o visual.

Tal deslocamento encontra lugar privilegiado no pensamento de Leonardo da Vinci (1452-1519), o mais genial dos artistas em diferentes dimensões do desenho: pintura, escultura e arquitetura. “O olho – descreve no Aforismo 326

9 O que não descaracteriza o fato de este ser um curso fabuloso, bem mais sério que o direito.

11 José ORTEGA Y GASSET. Sobre El punto de vista em las artes (que, entre nós, só a gente sabe que é a vista de um ponto, porque, né, só o professor Cezar que dá essa aula)Maalz :P. De modo semelhante a Ortega se expressa M. HEIDEGER em seu importante ensaio “A época da imagem do mundo”: “Ser moderno equivale a ver o mundo como imagem, o que é equivalente à aparição do homem como subjectum dentro do existente” e “ser subjectum significa tanto quanto ser capaz de deobjetivizar, isto é, de visualizar objetivamente, de quantificar com exatidão, de calcular, já que a liberdade moderna da subjetividade serve integralmente à objetividade que lhe é inerente.”

é o mais digno dos sentidos”, por ser aquele que capta com mais exatidão os objetos, enquanto o ouvido é muito inferior, por sua maior imprecisão. Leonardo entra na velha questão introduzida por Simô nides de Ceos e Horácio sobre a hierarquia entre poesia e pintura, ressaltando monotonamente a superioridade da segunda sobre a primeira, porque somente a pintura é ciência. A poesia é fugaz como são as sensações auditivas, enquanto não o seriam para ele as sensações visuais.

Essa hegemonia das artes do desenho, que se encarregaria de unificar o mesmo inventor da palavra “moderno”, Vasari, como aponta Kristeller, seria a responsável pelo desencanto do mundo, que acompanha a modernidade desde as suas origens (se for compreendida em suas raízes mais profundas) e que só aparece em seu ocaso (se resta esta penetração radical). De fato, o sagrado em sua revelação está associado ao sentido da audição, já que Deus nunca pode ser visto, mas, sim, ouvido. A racionalização da visão como forma exclusiva de

conhecimento conduz à profanação do real: tudo pode ser visto e, portanto, nada é sagrado, com dirá acertadamente Weber em seu WissenschaftalsBeruf : “Tudo pode ser dominado com o cálculo e com a previsão”. Desde a primazia da visão,

se perde

a conexão profunda silêncio-canto-encanto-adoração- mistério.

Um passo a mais neste processo de modernização se deu na obra de Galileu (1564- 1642), no qual há uma transição do qualitativo para o quantitativo, o que acelera a ho mogeneização da realidade. Tal como ressalta em sua obra II saggiatore, é necessário estabelecer uma separação radical entre a realidade objetiva, suscetível de ser conhecida com exatidão como os números, as figuras,

a magnitude, a posição e o movimento, e aquilo que só se pode conhecer

subjetiva e aproximadamente: os sons, os sabores, os odores. Insistindo na tese

de Leonardo, ele enfatiza que a audição, o tato e o paladar não podem proporcionar conhecimentos rigorosos, mas apenas conhecimentos confusos e ambíguos, que não podem ser considerados como científicos.

Em seu breve e excelente artigo Do mundo da imprecisão ao horizonte da exatidão”, o grande historiador da ciência, Alexandre Koyré chamou a atenção sobre a importância que nesse processo representam os descobrimentos técnicos, tais como a descoberta dos relógios mecânicos, que possibilitam a medição exata do tempo; a invenção do telescópio, assim como o uso difundido dos números arábicos e da álgebra, devido a impossibilidade de se realizar cálculos exatos por meio dos números romanos em função de sua complexidade.

Todo esse processo de modernização culminará, sem dúvida, na obra do filósofo francês, René Descartes (1596-1650), que sistematiza e explicita toda a evolução anterior. Sua “ideia clara e distinta” não é outra coisa que a dimensão da exatidão que vinha sendo buscada desde a Florença dos Médicis. Nele aparece a noção do subjetctum com sua pretensão de certeza e vontade de domínio, mas, indissoluvelmente unido a ele, em sua dilaceração interna. De

fato, a exigência de exatidão conduz tão somente à aceitação dos conceitos unívocos e à eliminação dos analógicos. De tal forma que o mesmo sujeito aparece fundamentalmente dividido em dois, como res extensa, submetida ao espaço e a geometria, e como res cogitans, ou autoconsciência fora do espaço e do tempo. “Eu sou uma coisa que pensa ou uma substância, cuja essência é o pensar e não possui extensão. Tenho um corpo que é uma coisa extensa que não pensa. Assim, a minha alma é completamente distinta do meu corpo e pode

existir sem ele”. A realidade mais imediata e íntima, a unidade psicossomática

da pessoa humana, é um impasse insuperável na obra de Descartes, a partir do

pensar disjuntivo e exato, que nega a analogia. Descartes, de fato, viu-se obrigado a resolvê- la, bem recorrendo a explicação sobrenatural segundo a qual

a alma e corpo seriam como dois relógios que seriam manipulados

simultaneamente por Deus; mesmo que, todavia, contradiga o resto de sua filosofia, aconselhando, concretamente a princesa Elisabeth de Bohéme, em sua carta de 28 de junho de 1643, dedicar a maior parte do tempo a conversar e descansar, pois o pensamento seria capaz tão somente de advertir a oposição alma-corpo, mas de forma alguma sua relação.

O pensar unívoco (não ambíguo) e a exclusão da analogia serão responsáveis

a partir de então e, ao longo do século, por cisões insuperáveis para os homens e o mundo. De fato, a rejeição da analogia entis e o puro pensar em termos de identidade oposição que conduzirá historicamente bem a negação da entidade

do homem diante Deus (Nominalismo, Lutero), bem como a negação de Deus

diante da realidade humana (Marx, Nietzsche, ateísmo postulatório) e assim sucessivamente com as falsas separações entre o indivíduo e a sociedade, origem

do deslocamento, individualismo ou coletivismo; entre o dever ou a felicidade,

que divide puritanos e hedonistas

Este deslocamento do mundo, do pensar em termos de identidade-oposição e não em termos de diferença- “complementariedade ”, é precisamente o que no plano epistemológico demonstra na obsolescência da Modernidade. De fato, tal

abordagem está superada desde que Niels Bohr acabou com o dilema, motivo de embate entre os físicos modernos, sobre a compreensão da luz como onda ou corpúsculo. Mas falaremos dele na quarta parte deste livro. Trataremos agora de analisar as consequências da visão moderna do mundo baseada na exclusividade

do exato e na negação da analogia.

2.

A IDEOLOGIA

MEGA-MÁQUINA

DO

CRESCIMENTO

INDEFINIDO: CREMATÍSTICA E

A transição do oral para o visual, do qualitativo para o quantitativo e do analógico ao disjuntivo conduz a desvalorização dos aspectos relacionados a cultura e a política em favor dos aspectos estritamente econômicos, que passam

a ser considerados como base da civilização. É o que pode ser mostrado ao se analisar a inversão que dentro da modernidade foi feita nas relações humanas tal como haviam sido estudadas por Aristóteles na Ética a Nicômaco e na Política. Nossa intenção não é propor nenhum retorno a Aristóteles, mas mostrar o empobrecimento das relações humanas decorrente da Modernidade econômica.

[El tránsito de lo oral a lo visual, de lo cualitativo a lo cuantitativo y de lo analógico a lo disyuntivo conduce a la devaluación de los aspectos relacionados con la cultura y la política en favor de los estrictamente económicos, que pasan a ser considerados como la base de la civilización. Es lo que puede ser mostrado analizando la inversión que dentro de la Modernidad se ha predicado de las relaciones humanas tal como habían sido estudiadas por Aristóteles en la Etic a a Nicómaco y la Política. Nuestra intención no es proponer ningún retorno a Aristóteles, sino señalar el empobrecimiento de la tipología de las relaciones humanas que va a implicar la Modernidad económico. ]

Aristóteles hierarquizava as necessidades humanas segundo sua importância e duração, e disso surgiu a distinção entre a política e a economia. A primeira se relacionada com as necessidades mais elevadas, as que tratam do bom viver e que afetam a necessidade que o homem tem de reconhecimento, de imortalidade, de permanecer na memória. Tais necessidades só são alcançadas com o exercício da palavra, já que o homem é o único animal que pode disfrutar dela.

[Aristóteles jerarquizaba las necesidades humanas, según su importancia y duración, dando origen a la distinción entre política y economía. La primera hacía referencia a las necesidades más elevadas, las que se relacionan con el “buen vivir” y que afectan a la necesidad que el hombre tiene de reconocimiento, de inmortalidad, de permanencia en el recuerdo. Tales necesidades suelen alcanzarse con el ejercicio de la palabra, ya que el hombre es el único animal que puede disfrutar de ella.]

A economia, cuja raiz etimológica Aristóteles enfatiza, faz referência ao nomos do oikós, do lar, e tem por objeto prioritário as relações entre pessoa e coisa em prol das relações entre os homens. Também aqui o que conta é a satisfação de necessidades humanas básicas, de caráter estritamente biológico e efêmero (de todos os dias) como o alimento, ou algo mais cultural e estável, como o vestido e a moradia. A atividade básica que caracteriza a economia é a utilização ou o uso (criar), e o que Aristóteles pondera nesses efeitos é essencialmente a administração, a governação; por isso que o econômico aparece aqui tão claramente unido ao ecológico, ao reto uso das coisas para a satisfação das necessidades. De igual modo, a economia assim entendida aparece como pressuposto para a política. Sem um mínimo de bens, é impossível a prática da virtude. Sem recursos no âmbito da alimentação, das vestimentas, da habitação, não cabe pensar em reconhecimento, em ficar na memória, senão por vias não adequadas.

[La economía, cuya raíz etimológica Aristóteles subraya, hace referencia al nómos del oikós, del hogar, y tiene por objeto prioritar io no tanto las relaciones entre los hombres, cuanto las relaciones entre persona y cosa. También aquí lo que cuenta es la satisfacción de las necesidades humanas básicas, en este caso, de índole más estrictamente biológica y efímera (de todos los días), como el alimento, o algo más cultural y estable, como el vestido y la vivienda. La actividad básica que caracteriza la economía es la utilización o el uso (crea), y lo que Aristóteles pondera en estos efectos es esencialmente el cuidado, la buena administración; de ahí que lo económico aparezca aquí tan claramente unido a lo ecológico, al recto uso de las cosas para la satisfacción de las necesidades. De igual modo, la economía así entedidaaprece como presupuesto para la política. Sin un mínimo de bienes es imposible la práctica de la virtud. Sin recursos en el ámbito de la alimentación, el vestido y la vivienda, no cabe pensar en el reconocimiento, en la aspiración al recuerdo, sino por vías no adecuadas. ]

Totalmente distinta da política e da economia é a atividade crematística(que advém das idéias de khréma e atos - busca incessante da produção e do açambarcamento das riquezas por prazer), que tem por objeto a aquisição e possível acumulação de bens através do comércio. Diferentemente do que ocorria no caso anterior, o conceito fundamental não é o valor de uso, o que a coisa vale em si para satisfazer as necessidades do homem, mas o valor de troca, o poder de compra que uma coisa possui para se adquirir outras. Aristóteles distingue a crematística de varejo, que pode ser justificada para se buscar os bens necessários à sobrevivência e a crematística de atacado, que aparece quando a pretensão de incremento de bens e dinheiro é maior do que a necessária para a satisfação das necessidades básicas.

[Totalmente d istinta de la política y la economía es la actividad crematística, que tien por objeto de la adquisición y posible acumulación de bienes a través del comercio. A diferencia de lo que ocurría en el caso anterior, el concepto fundamental no es el valor de us o, lo que la cosa vale en sí para satisfacer necesidades del hombre, sino el valor de cambio, el poder de comprar que una cosa posee para adquirir otras. Aristóteltes distingue entre la crematística al por menor, que puede resultar justificada para hacer frente a los bienes necesarios para la supervivencia, y la crematística al por mayor, que aparece cuando la pretensión de incremento de bienes y dinero se ha desbocado respecto a las necesidades básicas.]

A crematística assim concebida deixaria a porta aberta a hybris, ao conceder mais importância ao valor de troca (único valor que tem o dinheiro) sobre o valor de uso. Estaríamos ante uma autêntica perversão. Tal perversão chegaria ao máximo quando o dinheiro, já supervalorizado, deixasse de ser um meio de troca para se converter em um criador de mais dinheiro (daí o nome romano de pecúnia). Para Aristóteles, isso é uma dupla desnaturalização: “De todas as classes de comércio, este é o mais artificial”.

[La crematístrica así concebida dejaría la puerta abier ta a la hybres, al conceder más importancia al valor de cambio (único que tiene el dinero) sobre el valor de uso. Estaríamos ante una auténtica perversión. Tal perversión llegaría al máximo cuando el dinero, ya supervalorado, deje de ser un mero medio de cambio para convertirse en creador de más dinero (de ahí el nombre romano de pecunia). Tal es la función del préstamo usuario, que constituye para Aristóteles una doble desnaturalización: “De todas las clases de tráfico es éste el más antinatural”.]

A alteração introduzida na modernidade não pode ser mais radical. Com toda a razão, foi designada por Karl Polanyi como a grande transformação. A mesma esta relacionada com a hegemonia que o mercado adquire como instituição central da sociedade. O mercado surgiu como atividade marginal de pobres e vagabundos nas periferias das cidades, foris burgos (fauborg), desde o século XI, mas as normas que o regiam eram externas ao próprio mercado, baseadas na ética, especialmente na teoria do preço justo. A grande transform ação só surge no século XVI com a total independência do mundo do mercado face a dimensão ético-social. Este seria o resultado da utilização de novas ferramentas jurídicas, como a letra de cambio, que apareceu para evitar sanções canônicas contra os crimes de usura.

[El cambio que introduce en este punto la Modernidad no puede ser más radical. Con toda razón ha podido ser designado precisamente por Karl PolanyiThe Great Transformation. Tal transformación va unida a la hegemonía que el mercado adquiere como institución central de la sociedad. El mercado había ido surgiendo como actividad marginal de pobres y vagabundos en las afueras de las ciudades, foris burgos (faubourg) desde el siglo XI, pero las normas que lo regían seguían siendo externas al mercado mi smo, basadas en la ética, especialmente la teoría del precio justo. La gran transformación sólo se produce en el siglo XVI con la total independencia del mundo de mercado respecto al horizonte ético-social. Ello sería el resultado de la utilización de nuevas herramientas jurídicas, como la letra de cambio, aparecida para eludir las penas canónicas contra los delitos de usura.]

Esta independência do mercado em relação à ética constitui precisamente o fundamento da moderna ciencia da economía política, nome redescoberto por Antoine de Montchrétien no século XVII, pero de utilização inadequada, já que, de fato, a “nova ciencia” não é otra coisa que teoría do comercio e do dinheiro, simples crematística. Seu método será o aritmético, tal qual designa o título da importante obra de Sir William Patty (1623-1687), PoliticalArithmetic: somente conta o que é visual e quantitativo, o que se pode medir e contar; o resto é repudiado.

Essequantitativismo implica importantes consequênciasnavisão do homem e nasrelaçõescom a natureza.

Este cuantitativismo implica importantes consecuencias en la visión del hombre y en las relaciones con la naturaleza.

a) A negação de diferenças e hierarquias entre as necesidades humanasconduz à confusão entre verdadeiranecessidade e desjo desmedido. Ele origina a aparição do homo oeconomicus. O que conta é o enriquecimento indefinido dos individuos, abstratamente considerados, já que dele será gerado o bem-estar geral, graças à famosa “mãoinvisível”, da qualfalaramsemcessar os economistas burgueses desde Adam Smith (1723-1790), que não é outracoisa que a utilização ideológica e profana da ideia de Providênciacristã, a fim de desarraigar o sentimento de compaixão frente à miseria circundante. Ao faltar a hierarquia entre as necesidades humanas, e aonão valorar mais que o visível, a acumulação se converte no instrumento para lutar contra a norte, para alcançarumaimpossível e patética imortalidade: “O homem moderno não pode suportar a igualdade económica porque nãotemfénatranscendência de si próprio, nos símbolos da imortalidade espiritual; somente o valor físico visível pode lheoferecer a libertação da morte” 12 . Maisclaramente ainda a acumulaçãoaparecia como remédio para o reconhecimento. Como advertiu irónicamente Quevedo, “poderoso cavaleiro é don Dinheiro”.

A mesma ideia do homo oeconomicus impede toda a possibilidade de justiça distributiva, já que é o ritmo da produção que garante a adequada organização da sociedade. Assim se explica o desejo de eliminar os bens comunais de uso público, a propriedade comum, já que só é avaliável economicamente o que entra no trifico do mercado. O uso não tem valor, só a troca. Daí o desejo de privatizar os bens, e fazê-los disponíveis, quando o privado teria originariamente um sentido restritivo a respeito do comunal.

b) Pelo que se refere à relação com a natureza, há de se dizer que a

opinião geral dos economistas modernos tem sido a despreocupação ecológica, devido à crença no caráter ilimitado dos rec ursos naturais,

enquanto submetidos ao trabalho humano. Desde esta perspectiva, a noção clássica do cuidado cede ante a exploração pura e simples. Ainda em Petty e nos fisiocratas se reconhece a importância da terra ao afirmar- se que o trabalho é o pai do valor, e que a mãe é a terra. Entretanto, a

partir de Smith e Ricardo,

riqueza passa a situar-se

exclusivamente no trabalho humano, o que conduz à desvaloriza ção do cuidado, como a boa administração e conservação dos recursos. Como assinala com precisão Otto Brunner, a economia moderna não tem nada

que ver com o cuidado da clássica.

a

fonte

da

12 Ernest BECKER,

La lucha contra el mal, FCE, México, 1975, p. 145.

Esta crença no caráter ilimitado dos recursos naturais justificava a ideia

de crescimento indefinido, crescimento que pode ser considerado a

mesma chave da modernização, como observou Peter Berguer. Se partia

da tese da não degradação da energia, tese defendida por von Mayer,

porém desmentida categoricamente ao fim do século XIX por Carnot e Clausius, com sua formulação da lei da entropia. Existia a hipótese do

limite do crescimento econômico, o “estado estacionário”, já desde Smith, porém como algo demasiado distante passa a ser inquietante.

A carência de consciência do qualitativo, pela atenção única ao

quantitativo, definitivamente impedia se descobrir a diferença entre recursos renováveis e não-renováveis, dado que só importava seu valor monetário. Se a renda per capita, expoente do crescimento no plano individual, não levava em conta a realidade efetiva da distribuição dos bens, o Produto Nacional Bruto, por sua vez, estava calculado sem atender ao custo ecológico, em muitos casos, irreversível, que o crescimento daquele havia comportado.

A desconsideração da ideia moderna de crescimento pela pessoa e pela natureza fez com que se tenha chegado recentemente a contrap ô- lo ao desenvolvimento, falando-se com razão de crescimento sem desenvolvimento¨ (Celso Furtado). Como foi dito, esta desconsideração pela ecologia tem sido notada comumente por economistas burgueses e marxistas. Assim, de fato, para Marx a natureza não seria outra coisa além da matéria-prima. Igualmente aos individualistas, tudo fica confinado ao incremento da produção, neste caso planificada e não mercantil. Por isso, ainda que não incorra na bruta confusão burguesa de valor com o valor de troca (sua

isso

obra O Capital é uma alegação

mesmoeconomicista, já que não conhece o valor do oikós, de cuidado, e ainda menos o valor da política. Muito mais lúcido que os economistas modernos no seu conjunto

se mostrava o chefe índio Twamish-SuquamishSeatle em sua carta de 1854 ao presidente Franklin Pierce ao advertir como o crescimento econômico, tal como era entendido pelo homem branco, não era outra coisa que a desertificação em aumento. Não parece que exagerara.

contra

ele),

não

por

c) A ideologia do crescimento exige, por sua vez, um modo de organização social, que segue tomando a exatidão como modelo. O lema

do organizador moderno é que a sociedade funcione com a precisão de

um relógio. Daí que, como escreveu Schumacher, "o ideal da Modernização industrial seria eliminar o vivo, incluindo o humano, e transferir o processo produtivo para as máquinas, já que estas podem trabalhar com mais precisão e se pode programá- las inteiramente, o que não se pode fazer com o homem." Porém, enquanto se tiver que seguir contando com o trabalho humano, este deve estar o mais regulamentado possível. Daí a agude z de Chesterton de que "o planejador moderno só se

ocupa do trabalhador como dos relógios: quando param". Bem entendido que a preocupaçãose limita ao desemprego voluntário ou a greve, e não ao desemprego forçado ou desocupação, já que este é visto cada vez mais

como uma exigência do mesmo sistema para evitar maioresdisfuncionalidades. A exatidão, condição do crescimento, gera, junto à concentração do capital, a dilaceração do homem. Ele pode ser observado especialmente em dois âmbitos: no de ruptura do equilíbrio entre ciência e arte, entre trabalho e ócio, assim como entre produção e consumo. A respeito do primeiro ponto resulta exemplar, junto à obra de Adam Smith, a le itura da obra de Claude Henri de Sait- Simon (1760 - 1825), protótipo de organizador tecnocrático. Em seus diferentes escritos, e especialmente em Sistema industrial, Saint-Simon contrapõe o trabalho útil de cientistas, engenheiros, banqueiros e industriários, que incrementam a riqueza, servindo diretamente para a satisfação dos interesses econômicos, e o trabalho inútil de zangões como filósofos, teólogos ou juristas, que está somente orientado por sentimentos e que se limita a reproduzir a riqueza, sem incrementá- la. Assim, enquanto que os primeiros servem a algo claro e preciso, os outros se perdem em vacuidades. Saint-Simon propõe conceder o poder aos engenheiros e banqueiros, para que lutem pela erradicação de toda atividade inútil, impondo a obrigatoriedade do trabalho produtivo. Seu mandado será benéfico porque seus interesses coincidem com os interesses gerais. O que se trata é que com seu estímulo façam da sociedade uma autêntica megamáquina dedicada à produção. Ele suporá o incremento da divisão do trabalho, prescrita desde Snith e o incremento do calendário dos trabalhadores, de um modo realmente sensível. Como recorda Mumford, “até o século XVI, mais da metade dos dias do ano eram de festa”. A outra dilaceração se produzirá entre o mode lo do produtor e o modelo do consumidor. Ele já fora intuído por De Jouvenel e desenvolvido por Alvin Töffler. “A mesma pessoa que como produtor era instruída pela família,pela escola e pelo chefe a renunciar à gratificaćão, a ser disciplinada, controlada, moderada, obediente, a ser membro de uma equipe, era igualmente ensinada, como consumidor, a buscar a gratificaćão imediata, a prescindir da disciplina, a perseguir seu prazer individual, em resumo, a ser uma classe totalmente diferente de pessoa".

3.

ETNOCENTRISMO

A

IDEOLOGIA

DO

PROGRESSO

LINEAR:

GEOMETRIA

E

Ao referir- se à ideia de progresso para a Modernização, há de se advertir

que o específico desta com relação àquela em seu caráter pretendidamente linear, irreversível e necessário. O pensamento cristão havia defendida ideia de

progresso. Assim, Tomás de Aquino ao advertir q ue "é natural para a razão avançar gradualmentedo imperfeito para o perfeito". Porém havia concebido sempre o progresso como reversível, dependendo do exercício da liberdade humana. (Neste mesmo sentido falará depois Vico sobre a possibilidade dos corsi e recorsi na história.)

A ideologia do progresso científico assim entendido como linear e

irreversível é a variável político-cultural da ideologia de crescimento indefinido,

da qual basicamente depende. É certo que nesta aparece em primeiro plano a relação homem- natureza, enquanto que na ideia de progresso, a relação com o tempo e o outro é o mais importante. É precisamente a consequência desta

dependência com respeito à

crescimento econômico peloq ue se

justifica incluir seu estudo nesta seção dedicada à Modernização econômica.

noção de

A chave da Modernidade é a certeza de que o futuro será melhor que o passado e que o presente, a certeza de que o futuro mais ou menos longínquo coincide com a plenitude. Como escreveu recentemente I. Sotelo: "O futuro é a categoria fundamental que introduz a Modernidade: tudo o que está por vir se considera melhor do que o já acontecido, suporto que se deduz da ideia de progresso. Com esta certeza, o fututo, que é tudo, pouco importa; seja qual for, sempre será melhor que o presente. O progressista vive aberto ao futuro, sem preocupar-se realmente com ele."

Com a ideia de progresso necessário não se trivializa somente a dimensão do futuro, mas também a realidade da violência, ao mesmo tempo em que se homogeiniza a sociedade. A trivialidade - ou, o que é ainda pior, a justificação - da violência se desprende do caráter necessáriodo progresso histórico. Se tudo que ocorr e na história tem uma justificaç ão, também a violência a tem. Vejamos mais cuidadosamente.

Esta visão da História como progresso necessário, reconhecendo sua continuidade com a tradição que remonta a Joaquín de Fiore, atravessa ao longo da Idade Moderna duas diferentes fases:

a) A da Ilustração e do Idealismo alemão, em que se toma como base do progresso humano a realidade histórica da Revolução Francesa e a generalização entusiasta da consciência do citoyen, que se concretiza na exigência da liberdade de opinião.

b) A do positivismo de Saint-Simon e Comte, assim como da Era Vitoriana, singularmente Herbert Spencer (1820-1903), em que o que é mitificado é a Revolução Industrial e, definitivamente, a bourgeois. Dentro desde momento seria de se incluir também autores como S. Maine o Tönnies.

Em ambos os casos, a inevitabilidade do progresso histórico conduz ao desvanecimento da distinção entre o bem e o mal como qualidades da ação humana. O que conta é o resultado do processo. O mal, enquanto necessário historicamente, se converte em bem. É o papel da "astúcia da razão", secularização da ideia de Providência, na que se desvirtua totalmente seu sentido. Ao negar-se o mistério do mal, e crer-se em uma situação privilegiada de conhecimento da realidade (a história como espetáculo íntegro, como analisado por Griewank e Arendt), a violência e a guerra não podem ser julgadas, como adverte Bobbio, uma vez que são sim mal justificadas.

Junto à justificação da violência, a filosofia progressista da história, com

a

racionalidade atua em cada momento através de determinados sujeitos, sem que estes estejam conscientes da missão que realizam. Estes sujeitos podem ser a

no

exceç ão

de

Kant,

está

embasada

etnocentrismo,

ao

afirmar

que

nação, como em Hegel, a classe em Marx e nos burgueses, a raça em Gobineau

Porém, em qualquer caso, o protagonismo pertence sempre ao mundo ocidental,

o "único

exploração do resto do mundo, que terá seu ápice na Conferência de Berlin, de

1885, em que se levou a cabo a divisão do "magnífico pastel africano", para usar

os "jocosos" termos de Leopoldo II da Bélgica. Apesar desta importante coincidência, as diferenças entre os autores são notórias. A justificação da violência em Hegel é completa: só ela per mite o

acesso ao reconhecimento entre indivíduos e entre Estados. Enquanto que, por outro lado, para Kant a violência tenderá a desaparecer na fase da história em que se alcance o império universal do direito e a discussão pública. Igualmente em Spencer a justificação da violência seria conjuntural, já que cessaria com a generalização dos ideais burgueses.

A mentalidade imperialista encontra pleno apoio na filosofia de Hegel

(1770- 1831), uma vez que a liberdade era possível somente na Europa. A África não possui interesse histórico, já que seus membros vivem na barbárie e de

modo selvagem, sem fornecer nenhum ingrediente para a civilização. Por isso que, segundo ele, os africanos saíram ganhando ao converterem-se em escravos dos europeus, já que para eles nem a vida nem o homem possuem algum valor.

Já a Ásia, estaria demasiadamente fechada em si mesma, favorecendo o seu

despotismo. A América mostraria sua inferioridade tanto em seus homens como

em seus animais. Em Hegel, a defesa do imperialismo, como chave do progresso, vem unida ao feito de que só um povoé o portador do espírito universal em cada

época da histórica, porque o espírito dos restantes povos carece de direitos frente

a ele. Este domínio de uma nação sobre as demais guarda grande relação com o

valor militar, pois o fundamento do mundo moderno tem proporcionado ao valor militar seu aspecto mais elevado, Na medida em que sua expressão aparece já

enquanto membro de uma totalidade contra outra totalidade, e é, portanto, o valor militar o fundamento mesmo do reconhecimento jurídico da hegemonia:

As guerras constituem o instante, que através do reconhecimento proporciona um sentido para a história.

A visão civilizadora da guerra servia a Hegel para justificar a política

anexionista de Frederico II da Prússia com respeito aSilesia ou Polônia: Quanto

a totalidade, a saber, o Estado, foi convertido em potência (ou superpotência) e

se projeta para o exterior, a guerra interna se transforma em guerra de conquista.

Hoje em dia, a defesa de tal caráter civilizador da guerra tem feito arruinar a mesma ideia de progresso, tal como reconhece Bobbio, com a aparição das armas nucleares, que podem levar a destruição total do planeta. A ideia hegeliana de progresso, condizente com a sacralização do presente, tem se demonstrado falsa. Igualmente se tem arrumado outras formas

de conceber o progresso. Assim, em sentido aparentemente inverso ao hegeliano,

imaginava Herbert Spencer ao assinalar como lei necessária do mesmo o passo

do militar ao burguês, como consequência do desenvolvimento industrial. A base do progresso estaria aqui intimamente ligada a Revolução Industrial e equivaleria ao passo do homogêneo ao heterogêneo.

O progressismo de Spencer era tão falso como o lema do premier

vitorianoDisraeli (1804-87): paz e abundância, com o povo morrendo de fome e

o mundo em armas. Em efeito, a pretendida heterogeneidade burguesa não foi

mais que uma eliminação do sagrado, facilidade para o negócio dos ricos, e

e

civilizado".

O

que

conduz

inevitavelmente

à

marginalização

enterro dos pobres, assim como a exaltação do imperialismo inglês na África:

rightorwrong, my country. A época progressista é a época do imperialismo.

uma

De outro

lado, o pretendido pacifismo burguês

não passa de

transferência do militarismo da metrópole às colônias, tal como havia observado H. Arendt: o Industrialis mo, longe de produzir a redução do Estado e da guerra, conduzirá, poucos anos após a morte de Spencer e do final da Era Vitoriana, à

maior guerra jamais vivida na história. Em última análise, em Spencer, da mesma forma que em Darwin, o progresso humano é confiado à sobrevivência dos mais aptos. E mais, Darwin não fará nenhum reparo ao referir-se às raças inferiores para descrever aquelas raças em que falta o espírito de competência e dominam as qualidades femininas de intuição e cooperação. Pelo que chegará a dizer que seria preferível descender de um pequeno e heroico macaco que das raças inferiores. Este modo concreto de levantar as relações com os outros implica um retrocesso a respeito da abordagem religiosa dos séculos precedentes. Como tem demonstrado Toynbee em Estudio de la historia, não há maior grau de desumanidade do que

considerar os outros como raças

irreversivelmente a condição humana das outras raças. Isto não ocorria nas considerações anteriores de outros povos, como os pagãos, os bárbaros ou mesmo nativos, já que cabia certa redenção ou conversão através da fé, a cultura ou o desenvolvimento econômico. [ou já que a cultura e o desenvolvimento econômico dependiam de certa redenção ou conversão através da fé]. Estes tipos de pensamentos é o que condicionará a justificativa para o tráfico de negros, feito intimamente ligado a modernização. Começa de fato em 1517, a petição do frei Bartolomeu de las Casas, para evitar os abusos impostos aos índios da Espanhola (Haiti), e desaparece em 1880, cinco anos antes da vergonhosa Conferência de Berlim. Portanto, pode dizer-se sem exagero algum que a África foi o continente majoritariamente sacrificado pela Modernidade europeia. Por este motivo compreende-se a sua atual divisão territorial, que está baseada na mais estrita razão geométrica, recorrendo à régua e ao compasso e esquecendo o respeito mais elementar referente a geografia e a cultura dos diferentes países.” A política colonial, dirá Jules Ferry, em 1882, é filha da prática industrial”. Ele pretenderá justificar-se recorrendo a argumentos, como os esboçados por Hegel, de constituir vantagens à colônia, uma vez que a mesma era muito atrasada. Assim, escreve Paul Leroy Beaulieu em seu livro La colonización de lospueblos modernos : “O dever dos povos modernos não é abandonar a metade do mundo a homens ignorantes e impotentes”. Tal dever se consolida na exigência de “ensinar a divisão social do trabalho, e o emprego de capitais, abrindo passo não só às mercadorias da metrópole, mas também a seus capitais e a suas poupanças, a seus engenheiros e a seus capatazes”. A forma mais valiosa do progressismo é sem dúvida a que representa Kant (1724-1804), ao condenar explicitamente o colonialismo e os exércitos permanentes. Infelizmente, seu pacifismo, excessivamente confiado ao poder da instituição, quebrou da mesma forma. Seu entusiasmo pelo triunfo do direito se refletirá historicamente na Sociedade das Nações. O fracasso desta, ao não poder impedir o excesso de violência desencadeado por Hitler carrega consigo o fracasso da ideia de progresso irreversível, que Kant acreditou intuir da ideia de cidadão (citoyen). A paz é possível com o esforço individual e coletivo pela mesma, acompanhado da consciência da falsidade da dialética. Disso falaremos

negam

inferiores,

que

assim

no capítulo 9. É necessário agora que analisemos a realidade da marginalização como exemplo eloquente da quimera da modernização.

4. MARGINALIZAÇÃO CARENCIAL E MARGINALIZAÇÃO ANÔMICA

Dois pontos centrais da Modernização, como estamos vendo, são o

individualismo e o quantitativismo. Ambas as questões impedem que se lute adequadamente contra a realidade da marginalização, apesar das afirmações a favor da igualdade na participação, que não passam do plano meramente teórico.

A realidade da marginalização é um caso muito complexo que pode delimitar-se

pela falta de reconhecimento dos direitos básicos de determinados grupos sociais, que caem, portanto, em estados de carência de diversos tipos. Embora Goffmann não o utilize como definição, seria muito adequado considerar o marginalizado como “aquele que, estando presente, é tratado como ausente”. O que caracteriza melhor a realidade da marginalização é a exclusão da comunicação social e a participação política, consequência do papel ou status em que se encontra. O marginalizado é um ser que não consegue ter reconhecidos plenamente seus direitos fundamentais e, portanto, satisfeitas suas necessidades básicas, que aqueles (os direitos) salvaguardam (protegem). Em

algumas ocasiões, se trata de falta de reconhecimento dos direitos civis ou de participação política: é o que poderia classificar como repressão ou violência política. Em outros casos, serão os direitos ao alimento, à roupa e à moradia que não serão satisfeitos: seria o caso da exploração econômica, ou da miséria.

diferentes tipos de

marginalização, e que se demonstra imprescindível para não se perder em um tema tão delicado, é a que pode se estabelecer entre heteromarginalização, ou marginalização propriamente dita, e automarginalização. No primeiro caso, a marginalização se produz

sem que se observe nenhum tipo de ação por parte do marginalizado que justifique de alguma maneira a marginalização por parte dos outros. Trataria-se, portanto, de

marginações sem nenhum tipo de responsabilidade por parte dos marginalizados. Este seria o caso das crianças, dos anciãos, dos enfermos, das minorias étnicas ou dos carentes de recursos econômicos. Todos eles constituem a marginalização propriamente dita, a heteromarginalização. Frente a eles se situaria a realidade daqueles que praticam atos antissociais, atos que poderiam ao menos explicar suas marginalizações perante os outros: Neste quadro se encaixariam os delinquentes em suas diferentes formas.

A dificuldade fundamental em que se encontra o modelo modernizador para

lutar contra a marginalização procede da impossibilidade de aceitar, desde suas primeiras suposições, a distinção que acabamos de realizar. Por conseguinte, o individualismo moderno não pode distinguir entre heteromarginalização e automarginalização: devido ao imperativo do êxito e a licitude da indiferença em relação para com o outro, o único responsável da marginalização em todos os casos, sem exceção, seria sempre o próprio marginalizado.

A

distinção

mais

fundamental

a

realizar

entre

os

Desde nossa discrepância com a moral hegemônica, podemos classificar os

acordo com as variantes do individualismo,

supostos de heteromarginalização, de segundo o esquema seguinte:

ATITUDEMARGINALIZANTE

SUJEITO MARGINALIZADO

a) Homo ethnocentricus

Minorias étnicas

b) Homo

oeconomicus

Carentes de recursos

c) Homo

labilis

Incapazes de cuidarem de si mesmos

a) A primeira hipótese de heteromarginalização seria o das minorias étnicas tanto no interior de cada Estado como no âmbito das relações internacionais. O responsável fundamental de tal tipo de marginalização é o que poderíamos denominar de homo et hnocentricus. Neste caso, a indiferença que se encontra na origem de todas as formas de marginalização pode chegar a degenerar inclusivea hostilidade e a rejeição violenta. Em sua gênese psicológica, poderia se ver aqui um traço permanente do inconsciente humano, a xenofoia, o que Freud designou como o “medo ao estranho”, ao desconhecido. Porém na Modernização, esta característica arcaica e arqueológica é racionalizada, substituindo o medo aos outrospelo desprezo para com aqueles que não seguem thebestonewa y, os terceiro- mundistas, expressão que hoje em dia apresenta em muitos casos traços parecidos aos do racismo. Não se trata, portanto, de um tipo de marginalização com raízes somente inconscientes, mas sim uma marginalização que tem sido alimentada com o cálculo e o desejo de domínio sobre os pior situados no Terceiro e Quarto Mundos. Como tem advertido Wallerstein, o racismo modernizador é algo distinto à xenofobia: “Se tem afirmado que aqueles que estão econômica e politicamente oprimidos são culturalmente inferiores.”

b) A segunda hipótese de heteromarginalização, muito ligada a anterior, seria a dos carentes de recursos mínimos de caráter econômico, indispensáveis para alcançar um nível digno de pessoa humana. Também aqui a Modernização, apesar de suas declarações em favor da igualdade, se encontra com uma dificuldade de fundo para conseguir desestruturar este tipo de marginalização: a realidade do homo oeconomicus, isto é, a concepção da vida humana como algo que tem sentido apenas como projeto pa ra a realização individual do lucro crematístico. Como escreveu muito oportunamente Péguy:“Hoje só se fala de igualdade. Mas vivemos na mais monstruosa desigualdade econômica que nunca foi vista na história do mundo”.

Esta contradição do “mundo moderno” se deve a sua incapacidade de distinção entre duas realidades de aparências similares, embora com verdades extremamente díspares, como a pobreza e a miséria. Esta distinção tem sido elaborada com incomparável vigor pelo próprio Péguy em sua obra “De Jean Coste”. A pobreza, casadacom a paupertas de Horacio, seria o estado em que ele se disporiado necessário para viver, sem luxos, mas com decência. É uma espécie de purgatório, que leva ao homem compreender seus limites e se abrir ao amor e à atenção pelos demais. A miséria, casada A miséria, relacionada com a egestas de Horácio, é, no entanto, um verdadeiro inferno, no qual se vive verdadeiro desespero pelo amanhã, e do qual é urgente livrar o homem.

A modernização não pode compreender tal distinção, devido ao seu caráter qualitativo, baseado no critério da “suficiência” na satisfação das necessidades. Só pode distinguir entre o ter muito, a riqueza, como modelo a seguir, e o ter pouco, a pobreza, como modelo a evitar. Esta desdiferenciação entre pobreza e miséria impede lutar contra as raízes da principal marginalização econômica atual: o desemprego, já que se opõe a ver tal problema como resultado da falta de solidariedade e da injusta distribuição tanto das rendas como do tempo de trabalho. Deste modo as novas tecnologias servem para aumentar a riqueza dos titulares das empresas competitivas, ao mesmo tempo

que aumentam a miséria daqueles que não podem contribuir mais que “com o trabalho do corpo”, que é desprezado como desnecessário.

c-) O terceiro suposto de heteromarginalização afeta as pessoas que não podem cuidar de si mesmas, como as crianças, os idosos e os doentes. Também aqui os princípios da modernização se encontram com dificuldades conceituais e práticas para lutar contra a mesma.

A dificuldade conceitual procederia do próprio economicismo, tão logo tende a reduzir a dimensão deficiente ao âmbito dos recursos econômicos. Para compreender tal tipo de marginalização é indispensável superar estes esquemas economicistas e recuperar o conceito integral de indigência, que se encontra na obra de Juan Luis Vives: “Todo aquele que necessita da ajuda do outro é merecedor de misericórdia, que em grego se diz esmolas, a qual não consiste só em distribuir dinheiro, como o povo pensa, mas em qualquer atitude que tenha por fim socorrer a miséria humana”.

A dificuldade prática de lutar contra a mesma tem sua origem na desvalorização, que de acordo com a prioridade moderna de considerações financeiras, se tem produzido da dimensão do cuidado. Isso está intimamente ligado com o que tem sido chamado de “sexismo”: a desconsideração das tarefas historicamente atribuídas à mulher. Tais tarefas estão diretamente relacionadas com a configuração e proteção do humano em suas dimensões de maior indigência, e portanto seriam de importância radical, porém por sua falta de valor de troca haveriam sido consideradas inferiores. “No capitalismo histórico – escreve Wallerstein- tem havido uma constante desvalorização do trabalho das mulheres e uma paralela ênfase no trabalho do homem adulto, devido ao fato de estar retribuído com um salário.” O trabalho da mulher em casa deixa de ser considerado corretamente tal, razão pela qual tem sido qualificado ironicamente como “trabalho fantasma”.

Na desvalorização do cuidado e, por conseq uência, na proliferação deste tipo de marginalização influencia principalmente a concepção do homem como homo habilis: a tendência a não ver na vida outra coisa além de uma ocasião de prazer imediato, fugindo, portanto, como meio de autonegação, entrega o u sacrifício por outro. Este hedonismo, junto com a mentalidade crematística (arte de produzir riqueza), favoreceria, no melhor dos casos, a burocratização de tal cuidado, fechando-os em guetos mais ou menos confortáveis, que deixam fora da visibilidade social a radical indigência da condição humana em suas situações limite.

A heteromarginalização descrita agora é basicamente carência de recursos, de cuidado e de reconhecimento de pessoas que não têm realizado nenhum tipo de ação anti social. Diferente é o pressuposto do que poderíamos chamar “auto marginalização”. Nela, o elemento fundamental passa a ser a

realidade da “anarquia”, a falta do projeto ou do sentido da existência, que no pior dos casos pode chegar até a violência.

O conceito de anarquia, que se reduz à obra do grande sociólogo francês

Emile Durkheim (1858-1917), está conectado desde suas origens com a “desmoralização” produzida como efeito secundário pela industrialização. Já em sua obra de 1893, Da divisão social do trabalho, denuncia a ausência de critérios morais para fazer frente à nova situação criada, na qua l o econômico parece ocupar o centro da sociedade.

Porém sem dúvida tem sido a investigação do sociólogo norte-americano Robert King Merton a que melhor tem esclarecido e desenvolvido as virtudes implícitas na noção de anarquia. Esta aparece como resultado do desequilíbrio entre os objetivos prescritos socialmente e os meios institucionais habilitados para a realização daqueles. Segundo Merton, a sociedade moderna, com sua ética do êxito crematístico, gera anarquia de forma abundante, já que os meios institucionais reconhecidos não são adequados nem suficientes para que todos os membros da sociedade alcancem os direitos prescritos socialmente.

R. K. Merton apresente em sua obra uma tipologia quíntupla das relações entre objetivos ou fins culturalmente relevantes e práticas ou meios institucionalizados que manifesta a extensão deste fenômeno da marginalização anárquica. Os dois primeiros tipos de relação têm menor interesse para nós, já que implicam sempre a aceitação das práticas ou meios institucionalizados, com maior confiança no alcance dos objetivos sociais (suposto da integração ou conformidade) ou com um maior ceticismo a tal efeito (suposto do ritualismo).

Os dois supostos que aqui nos interessam especialmente são os do retraimento ou inibição, o que a gora chamaríamos “passadismo”, em que se produz uma rejeição tanto dos objetivos sociais como dos meios institucionais, o que conduz a um estado de apatia ou passividade; assim como o de aceitação dos projetos sociais, com rejeição dos meios institucionais, o que leva diretamente para a delinqüência, como modo mais eficaz e rápido de obter o enriquecimento. Um e outro suposto constituíram os casos típicos do que temos chamado “auto marginalização” e se encontrariam, por outro lado, muito diretamente conectados entre si, dado que a inibição ou retraimento não ignore alguns ingredientes, como as drogas, que só podem conseguir-se em tais estágios recorrendo à delinquência.

O quinto membro da tipologia de Merton, o rebelde, seria aquele que não

se limita a repudiar os objetivos sociais e as práticas institucionais existentes,

senão que propõe objetivos e meios alternativos. Este tipo de comportamento não mereceria para nós o nome de marginal, nem hetero nem auto marginal, senão que representaria o protótipo do que temos chamado “pós modernidade como resistência” da que falaremos na 4ª parte deste livro.

Porém continuando com os supostos corretamente tais de auto marginalização, mesmo já fora das contribuições de Merton, parece certo que sua proliferação em nosso tempo denota uma autêntica “crise de civilização”, tal como advertiu entre outros Toynbee, ao analisar a figura do deracinéou proletariado interior, como sintoma de descomposição e decandência de uma civilização.

As características da personalidade auto mar ginalizada, tais como o desenraizamento, a ausência de sentido de projeto e de comunidade e a momentaneidade, com a exclusão de todo tipo de relação duradoura e estável com os demais, se dariam conjuntamente nas áreas geográficas e humanos que tem sido cha madas“sub culturas da miséria”, como no que poderia chamar - se “sub cultura de opulência”. Naturalmente, este nível de decaimento ou decadência moral apresenta em ambos os casos um grau de responsabilidade bem distintos. No primeiro caso, a auto marginalização é a consequência final de uma grande seria de heteromarginalizações e carências de todo tipo, e portanto em sua gestação a sociedade em seu conjunto é a principal e, em ocasiões extremas, talvez única culpável. No segundo caso, quando o desenraizemento e a momentaneidade surgem sem carências e heteromarginalizações, o responsável principal é naturalmente o indivíduo e ao extremo pode ser considerado o único responsável.

Em qualquer caso, o que parece claro é que a marginalização, tanto em seu aspecto deficiente como anárquico, não pode ser considerada como algo específico do modo capitalista de produção, senão que acompanha à modernização, tanto no Oeste como no Leste. Sobre a marginalização neste segundo mundo podem servir de testemunhas, entre tantos outros, os já clássicos Voslensky, ou Volkoff. Por outro lado, a própria obra de Marx apresente também sérias limitações para combater o problema da marginalização, como tende hoje a reconhecer-se desde posições não partidárias de defender o capitalismo, como O. Lewis:“Nos escritos de Marx e Engels sobre o Lumpenproletariat se desumaniza esta gente, pois os veem somente através do ponto de vista de suas potencialidades políticas”.

4. OS DIREITOS HUMANOS COMO DIREITOS SUBJETIVOS

A conquista fundamental dos tempos modernos se encontra sem dúvida no âmbito do Direito e consiste no reconhecimento da existência de uma esfera reservado ao indivíduo na que não cabe interferência alguma por parte da autoridade ou das outras pessoas, sem consentimento do indivíduo. É justamente o que se conhece, desde a famosa conferência de 1819 do doutrinário francês Benjamim Constant (1767-1830), como “liberdade dos modernos”, em oposição à “liberdade dos antigos”, cuja característica fundamental seria a participação política.

O núcleo de tal liberdade dos modernos havia sido previamente anunciado por Kant, em seu panfleto “em torno do tema: isto pode ser verdadeiro em teoria, porém não na prática”, de 1793, nestas condições:

“ninguém pode obrigar- me a ser feliz a seu modo (tal como ele se imagina o bem-estar de outros homens), senão que é lícito a cada um buscar sua felicidade pelo caminho que melhor lhe pareça, sempre e quando não cause prejuízo à liberdade dos demais para buscar um fim semelhante, liberdade pode coexistir com a liberdade de todos segundo uma possível lei universal”. Tal princípio implicava a eliminação do governo paternalista (imperiumpaternale), “no que os assuntos como crianças menores de idade, incapazes de distinguir o que lhes é verdadeiramente benéfico ou prejudicial se veem obrigados a comportar- se aguardando do julgamento do chefe de Estado de como devem ser felizes e esperando simplesmente de sua bondade que este também queira que o sejam”.

Deste núcleo, derivariam com toda sua justificação direitos tais como o da liberdade de pensamento, inviolabilidade de domicílio ou correspondência, isto é, o que tem sido chamado de direito à privacidade, à discrição, o direito a não ser visto e a usar com caráter exclusivo determinados bens; assim como a liberdade de expressão de pensamento, a liberdade de imprensa cujo caráter inalienável destaca o próprio Kant, em clara oposição a Hobbes -, assim como a liberdade de movimento dentro e fora do próprio Estado.

Este âmbito de liberdade tem sido designado por I. Berlin, em um escrito muito difundido, como “liberdade negativa”, enquanto sua característica fundamental resultaria na exclusão de toda interferência alheia. Parece que seria melhor qualifica- la como “liberdade reservada” ou “exclusiva”, porque pode implicar uma importante atividade por parte do sujeito da mesma.

A limitação ideológica da “liberdade dos modernos” está ligada à elevação da propriedade privada, como capacidade de disposição exclusiva e ilimitada dos objetos de fundamento e modelo dos direitos humanos. Isso gera diferentes consequências, algumas das quais seguem subsistindo hoje, como veremos.

a) No que se refere à tipologia dos direitos: igualação de projetos e recursos,

o que implica a dificuldade de reconhecimento da justiça distributiva.

b) No que se refere ao sujeito de direito, igualação entre o possuidor de bens

e o menor de idade.

c) No que se refere aos escritos dos direitos, seu caráter fundamentalmente

alienável (apesar das proclamações retóricas de forma contrária) e antiecológico.

A visão dos direitos humanos como direitos de propriedade aparece pela primeira vez de for ma clara neste parágrafo de “Tratado do Governo Civil” de Locke (1632-1704): “Todo homem tem a propriedade como sua própria pessoa.

Nada fora dele tem direito algum sobre ela. O trabalho de seu corpo e a obra de suas mãos são propriamente seus.”

Locke não apenas vê a totalidade dos direitos como propriedade, mas eleva a obra das mãos sobre o trabalho do corpo. Aquela é superior a este(o homo fabersuperior ao animal laborans) porque no primeiro caso se cria algo novo e diferente devido às necessidades humanas cotidianas, que pode conservar-se e converter-se em dinheiro, sendo assim a base da acumulação. O trabalho do corpo se limita a satisfazer necessidades huma nas básicas sem deixar algo, de forma que o titular, o animal laborans, limita-se a sobreviver, mas não é capaz de criar, dado que se vê obrigado a viver no instante. Pelo contrário, o titular da obra, o homo faber, ao ser capaz de acumular, seria capaz também de projetar e pensar, e por isso deve serum cidadão com plenitude de direitos civis e políticos.

A capacidade de possuir e trocar bens aparece, para Smith como a característica distintiva do homem frente ao animal. O que leva a ver a “propriedade do trabalho e a habilidade das mãos como o mais sagrado e inviolável dos direitos”. A liberdade de troca e livre disposição resultaria na mais sublime manifestação da razão humana, aspecto queimplicariauma rupturada modernidadeem comparação aoutras épocas.

A) A primeira conseqüênciada elevaçãoda propriedadepara modelo de direitos humanos era, como dizíamos, a igualação entre os diferentes tipos de direitos. Isso aparececlaramente naenumeração de “liberdades dos modernos”, realizada por Benjamin Constant em sua famosa conferência:

1. O direito de não estar sujeitoapenas às leis, não poder der detido, nem preso, nem morto, nem maltratado de maneira alguma por efeito da vontade arbitrária de um ou muitos indivíduos.

2. O direito de dizer sua opinião.

3. O direito de escolher sua indústria, dirigi- la, dispor de sua propriedade e ainda abusar dela, se quiser.

4. O direito de ir e vir a qualquer lugar sem necessidade de permissão, nem de prestar contas a ninguém quanto a seus motivos.

5. O direito de reunir-se com outros indivíduos, seja para falar sobre seus interesses, seja para preencher seus dias ou horas da maneira como preferir.

6. O direito de participar da administração do governo e da nomeação de alguns ou de todos os funcionários, por representação, por pedidos ou por consultas que a autoridade esteja mais ou menos obrigada a levar em consideração.

De fato, os parágrafos 1, 2, 4, 5 e 6 referem-se à dimensão dos projetos e mostra de forma inquestionável o reconhecimento da liberdade sem

interferência. O parágrafo 3 refere-se a recursos, e deveria ter outro

significado bem diferente. Igualar o direito de liberdade de opinião ou de inviolabilidade de domicílio com o abuso da propriedade é totalmente inadequado. Tal confusão estaria na origem do neoliberalismo atual, que tem como intenção elevar a propriedade ao âmbito da privacy e de representar a fiscalização do emprego de recursos como intromissão

bolso. Paradigma dessa postura é a obra de

paternalista na intimidade

Nozick, que considera os impostos como confisco e ataque aos direitos naturais.

do

B) A segunda consequência da elevação da propriedade a direito modelo consiste na igualação dos não proprietários aos menores de idade. Tal igualação se encontra no pensamento do ideólogo da primeira fase da Revolução Francesa, Sieyès, ao estabe lecer a distinção entre “cidadãos ativos”, que dispõem de rendas e que merecem votar, e “cidadãos passivos”, que não dispõem de rendas e não merecem votar; mas é especialmenteKantque,nas pegadas deSieyès, se torna objeto de uma discussão mais longa.

Em diferentes passagens de sua obra, Kant desenvolve como princípios da organização jurídica e política os dois primeiros elementos do tríptico revolucionário: a liberdade e a igualdade, mas não menciona para nada afraternidade, já que, segundo seu comentaris ta e continuador Ebbinghaus, levaria à socialização dos bens produtivos e a substitui pela “autonomia da vontade”, a que se refere nestes termos:

“a única qualidade exigida para o direito ao voto, excetuando a qualidade natural (não ser criança ou mulher) é esta: que se seja seu próprio senhor (sui iuris) e que tenha alguma propriedade que o mantenha, é dizer, que nas coisas em que se precisa ganhar a vida pelos outros, faça pela venda do que é seu (iusdisponendi de re sua ). De acordo com tal princípio, e em fidelidade com o que dizia Locke, o homo faber conserva sua personalidade civil porque vende algo que está fora dele, mas não assim o faz o animal laborans, o arrendatário de serviços, porque vende seu próprio tempo. Ele evidencia os limites do inaliená vel e a concepção moderna de direitos humanos, do que depois nos ocuparemos. Assim, deixou sem personalidade jurídica plena as mulheres, as crianças e os funcionários.

As mulheres e os funcionários terão posteriormente personalidade civil e política, com o reconhecimento do sufrágio universal, porém, sem superar sua marginalização e/ou exploração. Pior será, ainda, a situação das crianças, dos idosos e dos enfermos. O princípio kantiano da “autonomia da vontade” como fundamento da dignidade humana segue deixando sem

proteção jurídica os “não autônomos”, os incapazes de escolha, com a admissibilidade crescente do aborto, eutanásia e infanticídio.

C) A elevação da propriedade a modelo dos direitos humanos se opõe frontalmente ao caráter inalienável dos mesmos, proclamado tanto pelos autores modernos como pelas diferentes declarações de direitos, desde a Declaração de Independência de 1776 ou a “Declaration de droits de I’hommeetlecitoyen”, considerada por Hauriou como o “Evangelho da Modernidade” Tentou-se resolver tal contradição com a seguinte tríplice:

1. A distinção entre a vida e o tempo da vida

2. A distinção entre a condição do sui iuris e a do sui dominus.

3. A distinção entre as responsabilidades consigo mesmo e com as coisas, variante do acima.

Na primeira das três distinções insiste especialmente Locke, quem reforça o caráter inalienável do direito à vida mesmo pelo titular da mesma, excluindo o suicídio -e o direito às manifestações desta mesma vida, como o “tempo vital”, que seria, em vez, alienável sem mais problemas. Com isso Locke pretende deixar bem claro a legitimidade da condição do animal laborans, que deve vender seu “tempo de trabalho” para poder subsistir. Mas essa distinção, aparentemente tão fina e sutil, foi derrubada por um grande estudioso e crítico de Locke, Macpherson, com estas palavras: “Locke não se deu conta de que a alienação do trabalho pelo salário de mera subsistência é na realidade uma mera alienaç ão da vida e da liberdade.”

Não mais satisfatória é a argumentação a favor da distinção entre a condição de sui iuris e a de sui dominus, ainda que sejam mais satisfatórios os resultados. De fato, o que se trata agora de conseguir é a declaração da legitimidade do suicídio, projeto sem dúvida muito positivo, mas que dificilmente pode ser defendido desde a admissão do princípio dado como inquestionável, tanto por Locke como por Kant da autonomia da vontade e especialmente do aforismo volenti non fit injuria.

Por outro lado, a argumentação kantiana a favor de tal diferença levanta, por sua vez, dificuldades adicionais de outra ordem, procedentes de sua nula preocupação ecológica. De fato, Kant distingue entre o domínio das coisas, respeito às quais não existe nenhum dever (gegen die mankeineVerbinchkeithat), domínio que constitui ao homem em sui iuris, e o domínio que existe sobre si mesmo, do que não pode dispor livremente porque se sua pessoa é responsável frente a toda a humanidade. Essa disponibilidade ilimitada e incondicionada dos recursos é outros dos

aspectos impossíveis de assumir hoje, do pensar moderno e, neste caso, concretamente kantiano.

A elevação da propriedade a protótipo dos direitos humanos, conceito- chave ilustrado dos direitos, concerte-se em doutrina comum dos juristas, através da elaboração da noção de direito subjetivo por parte dos escritores da Escola Histórica e a Pandectística.

Savigny (1779-1861) e Windscheid (1817-1892) são os dois autores principais a esse respeito, suas formulações vão servir de fonte de inspiração dos Códigos civis da época. Um e outro se encontram notavelmente influenciados pelo dominiocentrismo kantiano. Para o primeiro dos dois, responsável pela sistematização dos estudos jurídicos, que chega ainda aos nossos dias, a noção de direito subjetivo, entendida como poder de disposição e alienação, é a noção central do sistema jurídico. Entre os direitos subjetivos destaca por sua importância o direito de propriedade como “senhorio ilimitado e exclusivo de uma pessoa sobre uma coisa. Isso tem como efeito a possibilidade de riqueza e de pobreza, uma e outra sem limites”. Do mesmo modo que em Kant, o direito por antonomásia é o direito privado, emque regem o exercíciodo valor de troca, enquanto que o direito público tem somente um valor secundário e derivado, protetor do anterior.

Ao dar ênfase na assimilação entre direito e poder de disposição, tanto Savigny como Windscheid não podem perceber a importância dos direitos da personalidade, começando pelo direito à vida, já que proclamar um direito equivale para isso a proclamar basicamente seu poder de disposição ilimitada e isso não pode ser feito sem incluir imediatamente o direito ao suicídio.

Por outro lado, ao destacar a vontade como fonte e origem dos direitos, a aproximação desses autores, similarmente a Kant, excluem da condição de sujeitos de direito aqueles que não estão em condições de exercer por si mesmo seus direitos.

A identificação dos direitos humanos com os direitos de propriedade ou de livre disposição e alienação em terminologia técnico-jurídica, direitos subjetivos - justifica, ou ao menos explica, a parte da crítica que lhes foi dirigida desde abordagens não individualistas.

Tal seria a abordagem de Marx em “A questão judia” ou de Comte em “O catecis mo positivista”. Para aquele, os direitos humanos seriam o puro reflexo da sociedade burguesa e se apoiariam na separação do indivíduo em relação à coletividade. Para este, seriam uma mostra de irresponsabilidade, já que o único direito que cabe admitir é o direito de cumprir com o dever.

Na mesma confusão entre direitos humanos e direitos subjetivos, o de

livre disposição e alienação construiria a crítica de autores mais recentes, e inspirados ideologicamente no aristotelismo, como Villey ou MacIntyre, que veem nos direitos humanos o risco de opção de pressupostos morais opostos e a permissão da eutanásia e do aborto.

Por isso que, como teremos ocasião de ver no último capítulo deste livro, os autores mais lúcidos trataram de remediar as limitações do pensar moderno, negando que a propriedade (ou poder de disposição) seja o protótipo dos direitos, mas longe de negar a existência dos direitos humanos, como fizeram os autores antes citados, afirmaram-nos com base na fraternidade e na solidariedade, que servem de complemento à liberdade, dimensão enfatizada pelos “modernos” no ponto da questão dos direitos.

O condicionamento individualista e economicista das chamadas

“liberdades dos modernos” não pode, contudo, fazer esquecer seu valor irreversível e perene no que se refere à defesa da privacy e da liberdade de pensamento.

Há outro ponto também, ao qual não temos feito ainda referência, que

constitui igualmente uma contribuição de singular importância para a história dos direitos humanos e que se encontra dentro do mais estrito espírito da modernidade. Trata-se da dimensão da proteção jurisdicional dos direitos, isto é, seu conceito de reivindicações verdadeiras.

Não é por acaso que os direitos proclamados com maior rigor desde as primeiras constituições sejam aqueles que protegem jurisdicionalmente a liberdade, a inocência e o direito a ser ouvido.

Esta lucidez dos modernos na proteção jurisdicional dos direitos estaria, em última análise, relacionada com sua consciência da limitação e separação de poderes, mas isso nos leva para o campo da Modernidade política.