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Os Desafios da Integração Sul-Americana: autonomia e desenvolvimento Ingrid Sarti José Renato Vieira Martins Mônica

Os Desafios da Integração Sul-Americana:

autonomia e desenvolvimento

Ingrid Sarti José Renato Vieira Martins Mônica Leite Lessa Glauber Cardoso Carvalho (organizadores)

e desenvolvimento Ingrid Sarti José Renato Vieira Martins Mônica Leite Lessa Glauber Cardoso Carvalho (organizadores) 2

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Copyright©2014 by Os autores e Fórum Universitário do Mercosul – FoMerco

É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem a devida citação

Capa e Diagramação: Letra e Imagem Editora Imagem da capa: Torres Garcia

Esta é uma obra coletiva composta por artigos de autoria de participantes do XIV Congresso Internacional do Fórum Universitário Mercosul – FoMerco, realizado entre 23 e 25 de outubro de 2013, e por depoimentos dos participantes no decorrer da realização do Congresso à repórter Marilu Cabañas (Rádio Brasil Atual), gentilmente cedidos ao FoMerco. Os direitos e responsabilidades sobre os artigos e suas opiniões são dos autores que os enviaram para publicação.

D441 Os desafios da integração sul-americana: autonomia e desenvolvimento. [livro eletrônico] –

Organização: Ingrid Sarti

[et al.] – Rio de Janeiro: Folio Digital / Fomerco, 2014.

3429k(PDF)

ISBN: 978-85-61012-38-0

1. Integração regional. 2. América do Sul. 3. Autonomia. 4. Desenvolvimento. 5. FoMerco. I. Sarti, Ingrid. II. Martins, José Renato Vieira. III Lessa, Mônica Leite. IV. Carvalho, Glauber. V. Título CDU 332.135

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Sumário

APRESENTAÇÃO

Integração sul-americana, os desafios de um projeto estratégico

Ingrid Sarti

I. Panorama da Integração da América do Sul

DEPOIMENTOS*

Ennio Candotti

Ivan Ramalho

ARTIGOS Integração regional e acordos de livre comércio

Samuel Pinheiro Guimarães

La integración regional como proyecto estratégico y la participación popular

Mariana Vázquez

II. Desenvolvimento, industrialização, recursos naturais e a nova arquitetura financeira da integração no Século XXI

INTRODUÇÃO Desenvolvimento, industrialização, recursos naturais e arquitetura financeira

Raphael Padula

DEPOIMENTO

Ricardo Canese

ARTIGOS Sobre a arquitetura da integração no século XXI

André Calixtre

Desenvolvimento dos recursos naturais como eixo dinâmico da Integração regional

José Carlos de Assis

Por una integración que integre, por un desarrollo que libere

José Felix Rivas

A construção da teoria do subdesenvolvimento: um exame comparativo das contribuições de Nurske, Rostow, Myrdal e Furtado

Vera Alves Cepêda e Rafael Gumiero

III. Cooperação internacional, direitos e produção do conhecimento

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INTRODUÇÃO A integração sul-americana: cooperação, redes e produção do conhecimento

Glauber Cardoso Carvalho

ARTIGOS Tecnología e Innovación para la Inclusión Social: reflexiones sobre energías renovables y agricultura familiar

Hernán Thomas, Santiago Garrido, Mariano Fressoli, Paula Juarez e Lucas Becerra

Integração, defesa e outros desafios da Amazônia

Alexandre Fuccille

Pensar la cooperación, integración y producción del conocimiento desde perspectivas no hegemónicas

Anibal Oruê Pozzo

Institucionalidad pública para la protección y promoción de los Derechos Humanos en el Mercosur

Paula Rodriguez Patrinós

IV. Desafios da Democracia: desigualdades, teoria e prática

INTRODUÇÃO Desafios da Democracia, desigualdades, teoria e prática

Flávia Guerra Cavalcanti

DEPOIMENTO

Williams Gonçalves

ARTIGOS Integração regional e democracia: processos entrecruzados na América do Sul (?)

Aragon Érico Dasso Junior

Eleições para parlamentos regionais e percepção sobre a integração

Karina Pasquariello Mariano

Migraciones e integración regional: el caso argentino

Susana Novick

Conjuntura e mobilizações no Brasil: direitos, centavos, fumaça e vinagre

Gisálio Cerqueira Filho

V. Cultura Contemporânea na América Latina

INTRODUÇÃO Cultura Contemporânea na América Latina

Leonardo Valente

DEPOIMENTO

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Cultura e transição: como enfrentar o neoliberalismo**

Antonio Albino Canelas Rubim

ARTIGOS Creatividad para la inclusión social en Argentina, en torno a la cuestión de los derechos culturales

Ana Wortman

Punição, cultura religiosa e Direitos Humanos

Gizlene Neder

De Antonio Mamerto a Gauchito Gil: estrategias de control y formas de resistencia popular en una región de frontera entre Argentina y Brasil

José Renato Vieira Martins

Imagens da identidade na perspectiva da integração

Maria Luiza Franco Busse

Acordos globais e existências regionais: a inserção da cultura brasileira no Mercosul, 2010-2014

Mônica Leite Lessa

Programa do XIII Congresso

Ficha Técnica

Colaboradores

* Depoimentos. Extratos de entrevistas concedidas à repórter Marilu Cabañas, Rádio Brasil Atual, no decorrer do XIV FoMerco e disponíveis em www.fomerco.com.br

**Transcrição de fala do autor durante Simpósio no XIV FoMerco

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APRESENTAÇÃO

Integração sul-americana, os desafios de um projeto estratégico

Este livro reúne uma seleção de textos e depoimentos que buscam analisar as implicações, os problemas e os avanços do processo de integração da América do Sul no século XXI. Foram extraídos dos simpósios e painéis realizados durante o XIV Congresso Internacional do Fórum Universitário Mercosul – FoMerco, em 2013, na Universidade Federal de Tocantins, em Palmas, 1 e agora se somam à produção originada no âmbito dos sete últimos Congressos Internacionais do Fórum Universitário

Mercosul – FoMerco. 2 Intelectuais e pesquisadores oriundos de diferentes instituições e nacionalidades muitas vezes divergem nas avaliações do processo da integração sul-americana vigente. Contudo, há um ponto de partida conceitual comum à literatura desenvolvida pelos colaboradores do FoMerco. Trata-se do reconhecimento de que se inaugura um ciclo virtuoso na política do continente, como estratégia de inserção soberana da região e condição de superação do tradicional papel subalterno de periferia do capitalismo a que foi relegada desde seus primórdios, quando se elege a autonomia da política externa associada ao propósito do desenvolvimento econômico-social. Em suma, um marco conceitual de integração que se apoia sobre uma noção de autonomia dada pela afirmação dos blocos regionais e pela recusa dos acordos de livre-comércio bilaterais, principalmente com as potências hegemônicas. A autonomia entendida como condição de possibilidade de desenvolvimento autônomo e soberano através da construção “de um bloco econômico e político na América do Sul, próspero, democrático e soberano”, como descreve Samuel Pinheiro Guimarães. 3

É certo, e convém manter em perspectiva, que um longo processo de integração na prolongada

busca por emancipação do continente antecedeu o projeto vigente em distintas etapas. 4 Contudo, o que se destaca, é que desde sua posta em prática por governos eleitos no início dos 2000, quando se traçam as diretrizes de um projeto político cujas metas e policies se alinham a um campo socialista e democrático disposto a enfrentar e superar a hegemonia do mercado, a integração como política pública passa a ser um divisor de águas na história do continente. 5 Um dos marcos dessa renovação política regional foi a 4ª Cúpula das Américas, realizada em 2005 com apoio expressivo das organizações sociais e partidos políticos, que refutou a Área de Livre Comércio das Américas - Alca, projeto neocolonizador que pretendia consolidar o “novo regionalismo” aberto aos mercados mediante a realização de acordos de livre-comércio bilaterais que fortaleceriam o vínculo de dependência da região à potência hegemônica.

A pretensão da Alca foi derrotada porque o Mercosul enfatizou sua proposta de superação da

dimensão estritamente comercial com a ampliação da pauta e do território da integração. Porque revelou-se prioridade o desenvolvimento econômico e social com ênfase na inclusão social, na redução das assimetrias e desigualdades sociais e culturais em cada país e no âmbito das relações regionais. Essa proposta expressa também a vontade política que enseja a plena conversão da política externa soberana dos países sul-americanos à multipolaridade nas relações internacionais, impulsionada pela dupla estratégia de formação do bloco regional e aproximação a outros países emergentes da Ásia e da África. E esse traço identificatório desse modelo de integração sul-americana foi uma constante reiterada pelo representante do Itamaraty, Reinaldo Salgado, e pelos ex-chanceleres do Uruguai, Roberto Conde, e do Paraguai, Jorge Lara Castro, integrantes do painel de abertura do XIV

Congresso coordenado por Geronimo de Sierra. 6 Já em sua concepção, esse projeto de integração aponta alguns importantes desafios para responder à crise capitalista que se manifesta no centro hegemônico desde 2008 e para simultaneamente assegurar uma presença marcante da região no cenário internacional. Vejamos

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alguns deles, que serão retomados nas análises dos autores deste livro, a seguir. Numa região profundamente assimétrica, assume-se a necessidade de criação de um polo de integração de todo o continente reafirmando-se que Estado algum teria condições de, por si só, alcançar um desenvolvimento econômico igualitário e sustentável – o que tanto se aplica ao Brasil, potência emergente no mundo, como à Venezuela com sua riqueza petroleira. O desafio consiste em preservar a meta da redução das assimetrias no contexto de responsabilidades e atribuições distintas e desiguais, de acordo com as necessidades e os recursos assimétricos de cada Estado. Nesse marco inovador, levando-se em conta a fragilidade da institucionalidade da integração no continente, as divergências de interesses intranações requerem um constante diálogo político a ser viabilizado pelo exercício permanente da diplomacia presidencial. É, portanto, um modelo que, sem negar os conflitos

potenciais, se reconhece no presidencialismo característico dos regimes políticos da região e como tal

se declara vinculado a um projeto político de desenvolvimento da nação intrinsicamente ligado ao da

região, como já observou Emerson (2014). O segundo desafio remete à importância atribuída à participação social, interna e regionalmente, em um processo de criação de mecanismos institucionais democráticos no que tange todo o processo de tomada de decisão de políticas públicas e sociais na região. No âmbito dos debates do FoMerco, sua relevância tem sido sistematicamente enfatizada por Luiz Dulci, ex-ministro da Secretaria Geral da Presidência da República (2003 a 2010), em suas iniciativas institucionais de participação social, dentre

as quais o Mercosul Social e o Conselho de Participação Social do Mercosul. 7 Aqui, em seus textos,

autores como Mariana Vázquez, e em seu depoimento, Ivan Ramalho, também destacam o caráter estratégico de políticas sociais ancoradas na participação popular para o êxito da integração soberana

e democrática. Sobre as políticas sociais em sua institucionalização no âmbito do Mercosul, 8

destacam-se também a acurada análise do processo de migrações de Susana Novick e o relato de Paula Rodriguez Patrinós sobre o mais recente empenho ao tratamento do tema dos Direitos Humanos. Os avanços obtidos nessas áreas, contudo, contrastam com as deficiências do desempenho do Parlamento do Mercosul - Parlasul, descritas por Karina Pasquariello Mariano, e com a morosidade das políticas de combate à violência e proteção à juventude frente à virulência do crime organizado, apontada por Gisálio Cerqueira Filho. Outra característica que ressalta a observação da integração sul-americana consiste na necessidade de articulação da variedade de blocos existentes desde sua origem, que será expandida com a criação de novos blocos, todos relevantes e atuantes em “processos entrecruzados”, como analisa Aragon Érico Dasso Jr. Note-se que enquanto o Mercosul completou 20 anos em 2011, a União das Nações

Sul-Americanas - Unasul foi criada só em 2008. 9 E, posteriormente, a Comunidade dos Estados Latino- americanos e Caribenhos - Celac, em 2010. Mais importante, entretanto, e que configura um terceiro desafio e problema que põe em xeque a autonomia da integração em marcha é a coexistência de Estados cujas práticas políticas de cooperação internacional privilegiam a realização de tratados comerciais bilaterais com a potência hegemônica, como é o caso de Chile, Colômbia e Peru. Note-se, porém, que esses mesmos Estados convergem com a integração sul-americana em outros aspectos também relevantes, como a defesa do continente com a construção estratégica de uma infraestrutura financeira, de energia e de transportes na América do Sul. O tema da infraestrutura regional também tem sido objeto de pesquisas dos colaboradores do FoMerco, 10 como em simpósio coordenado por Frederico Katz e relatado por Raphael Padula. Interrogando-se sobre as escolhas dos modelos de desenvolvimento no contexto de crise internacional

e a sobre a busca de políticas alternativas na região, as questões referentes ao planejamento dos

recursos naturais e às condições de construção da arquitetura financeira e de consolidação da infraestrutura foram submetidas à uma discussão aprofundada por André Calixtre, Ricardo Canese, José Carlos de Assis e José Felix Rivas. Sempre lembrada, a decisiva herança intelectual de Celso Furtado volta reiterada em texto de Vera Alves Cepêda e Rafael Gumiero.

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Das questões das políticas de defesa contidas na agenda do desenvolvimento integrado debatidas em painel coordenado por Thomas Heye, fica o registro crítico de Alexandre Fuccille que aguarda os efeitos do Conselho de Defesa na Unasul na expectativa de um avanço expressivo nas políticas que contemplam segurança e defesa nacionais na Amazônia. 11 Ennio Candotti avalia as dificuldades na Amazônia e enfatiza a pobreza como questão estratégica premente também para o avanço da defesa, à medida que esta não permite a seus habitantes sequer operar equipamentos de comunicação: “não é defensável, não há exército que consiga defender uma terra que é habitada por gente muito pobre”.

A trajetória combativa de Ennio Candotti revela-se uma vez mais em suas observações sobre o

significado e a importância das tecnologias sociais: “são as que permitem não só aliviar a fadiga humana, mas que possibilitam a inclusão no mercado de trabalho e na geração de rendas para o nosso povo.” Na mesma linha, a criatividade da equipe de pesquisadores da Universidad Nacional de Quilmes (Buenos Aires) sobre a inovação do conhecimento e as relações entre desenvolvimento tecnológico e inclusão social, liderada por Hernán Thomas e composta por Lucas Becerra, Mariano

Fressoli, Paula Juarez e Santiago Garrido, retorna ao FoMerco 12 para apresentar a análise crítica de um estudo no campo das energias renováveis e da agricultura familiar que questiona as estratégias de políticas baseadas na suposta “transferência de tecnologia” implantadas sem o conhecimento e o diálogo com as populações-alvo. Igualmente atentos para a importância da participação da sociedade civil nos estudos e projetos sobre desenvolvimento tecnológico, o painel sobre “Tecnologias sociais, cooperação internacional e produção do conhecimento” coordenado por Gonzalo Berrón e relatado por Glauber Cardoso Carvalho reiterou a relevância de um tema que se constitui no quarto desafio posto à integração sul- americana: a necessidade de criação de uma dinâmica de construção coletiva do conhecimento entre a comunidade acadêmica, os formuladores de políticas e os usuários de novas tecnologias, em um processo de aprendizagem e reflexão coletivo. Pensar a cooperação, a integração e a produção do conhecimento de uma perspectiva geopolítica requer conhecermo-nos mais e melhor, concordam os integrantes desse painel quando discutem os avanços no campo da educação com a criação de novas universidades – como a da Integração Latino- Americana – Unila – e refletem sobre os inúmeros gargalos a serem solucionados. Anibal Oruê Pozzo, Daniela Perrotta e Geronimo de Sierra são alguns dos participantes que enfaticamente reiteram

a importância de se sistematizar um pensamento crítico integracionista – o que o Presidente Lula denominaria de “uma doutrina da integração” para o continente. As relações de cooperação internacional, a mobilidade de alunos e professores de acordo com as especificidades de cada universidade, uma inovação da gestão universitária e o amplo reconhecimento dos diplomas são

alguns dos temas de política educacional de nível superior que ainda devem ser revistos passo a passo para que as metas aspiradas sejam colimadas. Questionam-se, particularmente, os critérios de avaliação da produção científica baseados no paradigma quantitativo-competitivo de produtividade que - apesar de todas as transformações ocorridas na primeira década da integração - ainda submetem

a produção do conhecimento justamente aos padrões hegemônicos que a integração repudia. Refém

desses critérios, a Universidade ainda está por superar as marcas de sua etapa neoliberal para poder

promover os valores e as práticas da democracia.

A ênfase na produção do conhecimento como instrumento de mobilização da juventude no

marco da integração foi também destaque no Simpósio “Desafios da Democracia: desigualdades, teoria e prática”. Encontrar novas formas de diálogo com o movimento social urbano no contexto atual de descrédito da política e, particularmente, dos partidos políticos, é mais um desafio – o quinto

– que se impõe para um processo civilizatório que tem na integração um instrumento de consolidação democrática. Williams Gonçalves, ao mesmo tempo em que chama a atenção para a importância do trabalho intelectual de pesquisa para entender e propor políticas de integração que aprofundem a democracia no continente, aponta a distância entre os formuladores de políticas e os povos. O

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Simpósio, tal como registrado no relato de Flávia Guerra Cavalcanti, uma vez mais enfatizou a necessidade de novos canais de participação e divulgação da integração regional por aqueles que a promovem. Uma integração que pretende superar a dimensão estritamente econômica e ampliar sua pauta e

seu território já nasce destinada a enfrentar os temas relativos não só à produção mas à divulgação do conhecimento, tão caros à autonomia de seus povos e ao projeto de soberania em um mundo marcado por desiguais avanços científicos e tecnológicos. Em suma, enfrentar a fragmentação do conhecimento

e buscar a multidisciplinaridade continuam sendo desafios para a cooperação regional em tempos de

extraordinária inovação dos meios de comunicação. Mais do que transversal, o tema da cultura se impõe com relevância pois é o que nos identifica na diversidade e se deveria revelar na produção do conhecimento. No entanto, como no Simpósio de Abertura do XIV Congresso, coordenado por Mônica Leite Lessa e relatado por Leonardo Valente, constata-se que o debate sobre pensamento latino-americano e as expressões culturais do continente continuam pautados pelo poder midiático hegemônico. O papel da cultura como fator de integração regional foi resgatado desde suas versões

históricas de luta por direitos, nas análises de Gizlene Neder, passando por dimensões religiosas, como a narrativa do Gauchito Gil, aqui apresentada por José Renato Vieira Martins, até as mais recentes manifestações de busca de identidade social tanto na imagem do poder, segundo Maria Luiza

Franco Busse, como nas manifestações criativas de gestão e resistência cultural dos “barrios” argentinos na fatura de Ana Wortman, ou nas políticas e ações culturais estabelecidas nos marcos da integração, segundo Mônica Lessa. Se saber é poder, a América do Sul tem uma batalha a travar em muitas frentes para resistir à mídia monopolista que se perpetua na assimetria mundial em plena Era do Conhecimento. A luta pela regulamentação do poder midiático debatida com frequência nos Congressos do FoMerco (Sel, 2013)

e a busca de alternativas culturais a essa hegemonia são condições de um êxito possível de cada

sociedade e de todas integradas no continente sul-americano. Intelectual especialista nas relações entre poder e mídia da Universidade Federal da Bahia, atualmente Secretário de Cultura do governo da Bahia, Antonio Albino Canelas Rubim sublinha o papel estratégico da dimensão cultural na superação do neoliberalismo e revisita a trajetória bem sucedida dos governos progressistas, apontando também seus gargalos. Enfatiza a necessidade de promoção de políticas públicas que assegurem “um intercâmbio e cooperação bem mais intensos que os atuais, através de uma pluralidade de instituições, movimentos e dispositivos, que inclusive tornem mais conhecido e compartilhado o enfrentamento que tem se dado no campo cultural em cada um desses países.” À guisa de conclusão de dois dias de intensos debates, cabe observar que a trajetória recente da América do Sul revela um continente que, em plena crise do capitalismo global, se converteu em um dos pilares da autonomia e do revigoramento das instituições democráticas, do desenvolvimento econômico e da diminuição da pobreza. A integração foi a estratégia política adotada em concepção simultaneamente, econômica, política, social e cultural, que busca enfrentar e superar as assimetrias que constrangem o continente. Afirma-se a relevância das políticas sociais e se busca promover o avanço da educação, da ciência e da tecnologia em novas formas de produção do conhecimento. Contudo, a integração sul-americana, tal como concebida neste milênio, é um processo em construção

e

imensos desafios permanecem nesse continente ainda marcado por profundas desigualdades sociais

e

em contexto internacional de crise que se distancia de uma multipolaridade de fato. No âmbito do

Mercosul e da Unasul, a despeito de uma vasta produção analítica, anda não dispomos de uma sistematização do conhecimento que permita o levantamento dos recursos naturais, industriais, científicos e culturais de nosso continente e propicie o diagnóstico de gargalos existentes para uma formulação de políticas mais adequada. Embora ainda incipiente, a formação de redes como o Fórum Universitário Mercosul - FoMerco, é uma pequena demonstração de que é possível refletir e propor alternativas às políticas que visam efetivamente às mudanças profundas e que requerem o avanço da integração de nossos Estados, nossos povos e culturas. O que aqui se destaca, portanto, é o imperativo

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de uma reflexão aprofundada sobre as políticas de integração na América do Sul, cuja especificidade é chave para o debate político, público e democrático. Constata-se que, com estilos e recursos próprios – e a despeito das diversidades de cada Estado, como sugere o desenho assimétrico da geopolítica continental – em linhas gerais, na última década foram privilegiadas as políticas de inclusão social e mantida a meta da autonomia no cenário internacional impulsionada pela dupla estratégia de formação do bloco regional e aproximação a outros países emergentes de Ásia e África. Os trabalhos aqui apresentados dedicam-se a pesquisar e refletir sobre esse processo ousado que requer uma sólida e entusiasta vontade política e uma permanente renovação de suas diretrizes para que elas sejam traduzidas em políticas e planejamento de governo voltadas para a realização das metas desejadas. Inegáveis avanços que confirmam a escolha do rumo certo não escondem, contudo, o quanto ainda há que caminhar. Afinal, se hace camino al andar. Agradecemos a inestimável colaboração da jornalista Marilu Cabañas e à Rádio Brasil Atual a gravação e ampla divulgação de todos os depoimentos prestados pelos participantes do XIV Congresso do FoMerco, disponíveis em ambos os sítios. 13 Agradecemos em especial ao apoio institucional e à solidariedade de Gonzalo Berron, Rosa Freire de Aguiar e Moira Paz Estensoro, representantes, respectivamente, da Friedrich Ebert Stiftung, do Centro Internacional Celso Furtado e do Banco de Desenvolvimento da América Latina - CAF. Nas pessoas do Reitor Marcio Silva e da professora Mônica Aparecida da Rocha e Silva, agradecemos a acolhida e a colaboração dos docentes e técnicos da Universidade Federal de Tocantins - UFT. O XIV Congresso do FoMerco não teria ocorrido sem o suporte das instituições públicas brasileiras de apoio à Ciência, Tecnologia e Ensino Superior – as federais CNPq e Capes e as estaduais Faperj e Fapesp –, cuja confiança agradecemos e valorizamos como reconhecimento ao trabalho que o FoMerco vem desenvolvendo há bem mais de uma década.

Referências

Ingrid Sarti Rio de Janeiro, Junho de 2014

CODAS, G. O Brasil nas relações Sul-Sul e na integração regional da América do Sul: uma agenda de estudo e debate. São Paulo: Friedrich Ebert Stiftung, 2013.

Paraguay, 22 de Junio de 2012: un golpe contra la integración regional de América del Sur. In: Por uma integração ampliada da América do Sul no século XXI. op.cit., 2013.

COSTA, D. A América do Sul: o destino do Brasil. In: Por uma integração ampliada da América do Sul no século XXI. op.cit., 2013.

EMERSON, G. Strong Presidentialism and the limits of foreign policy success: explaining cooperation between Brazil and Venezuela. International Studies Perspectives, 2014: 1–16.

EQUIT. Rethinking regionalisms in times of crisis: a collection of activists´perspectives from Latin America, Asia, Africa and Europe. Rio de Janeiro: Equit Institute, 2013.

FORTI, A. Cooperación hacia dentro y disuasión hacia fuera: la Defensa y los recursos naturales en Suramérica. In: “Foro de la Unión de Naciones Suramericanas sobre Ciencia, Tecnología, Innovación

11

e Industrialización en América del Sur”, Rio de Janeiro, 2013 (no prelo).

LIMA, M. R. S. Inserção Internacional e Política Externa do Governo Lula. In: ROQUE, BITTENCOURT E COSTA (org.). Pensando uma agenda para o Brasil: desafios e perspectivas. Brasília: Inesc, 2007.

MARTINS, J. R. ALBUQUERQUE, C. E GOMENSORO, F. Mercosul social e participativo: a ampliação da esfera pública regional. In: CAETANO, G. (org.). Mercosur 20 años. Montevidéu: Cefir, 2011.

QUIJANO, A. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, E. (org.). A colonialidade do saber, eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: Clacso, 2005.

GUIMARÃES, S. P. Desafios Brasileiros na Era dos Gigantes. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006.

MELLO, C. Integração, democracia e tecnologias de inclusão social. In: Por uma integração ampliada da América do Sul no século XXI. op.cit., 2013.

THOMAS, H.; BECERRA, L.; FRESSOLI, M. Y BORTZ, G. Ciencia y tecnología para la inclusión y el desarrollo: opciones de política pública para Argentina y Brasil, 2013. In: Por uma integração ampliada da América do Sul no século XXI. op.cit., 2013.

DIAS, R. Tecnologias sociais no Brasil: análise do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC). In: Por uma integração da América do Sul no século XXI. op.cit., 2013.

SEL, S. La comunicación en el Mercosur. Entre políticas nacionales y la integración regional. In: Por uma integração ampliada da América do Sul no século XXI. op.cit., 2013.

A arquitetura política e os desafios da institucionalidade na integração sul-americana. In:

Cerqueira Filho, G. (org). Sulamérica, comunidade imaginada: emancipação e integração. Niterói:

EdUFF, 2011.

SARTI, I.

L´architecture politique de l´intégration sud-americaine: le rôle du Brésil. In: DUFRESNE & MAGGI-GERMAIN (ed.). Les transformations des relations professionnelles en Europe et en Amérique Latine. Presses Universitaires de Rennes, 2014.

VIGEVANI, T. E CEPALUNI, G. A política externa de Lula da Silva: a estratégia da autonomia pela diversificação. Contexto Internacional, vol. 29, nº 2, Rio de Janeiro, PUC-RJ, 2007.

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I.

Panorama da Integração da América do Sul

DEPOIMENTOS*

Ennio Candotti

Ivan Ramalho

ARTIGOS

Integração regional e acordos de livre comércio Samuel Pinheiro Guimarães

La integración regional como proyecto estratégico y la participación popular Mariana Vázquez

* Depoimentos. Extratos de entrevistas concedidas à repórter Marilu Cabañas, Rádio Brasil Atual, no decorrer do XIV FoMerco e disponíveis em www.fomerco.com.br

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DEPOIMENTO

Ennio Candotti

Professor, eu gostaria que o senhor falasse a respeito da sua explanação de hoje. O senhor estava chamando a atenção de alguns professores sobre o quanto o mercado da China está sendo agressivo também. Eu parti de duas premissas: uma foi a conclusão do painel de abertura de ontem a noite em que tanto o Roberto Conde, senador do Uruguai, como o Samuel Pinheiro Guimarães insistiram que precisamos da integração latino-americana para fazer frente aos desafios da economia mundial e, sobretudo, ter uma presença marcante no cenário de intercâmbios comerciais. Acrescentei a isso o quanto a América Latina integrada representa: um mercado de 300 milhões de almas e de uma grande extensão territorial com recursos naturais importantes. Então é o mercado interno da América do Sul que está em jogo. Daí eu retirei da Folha de hoje, quinta-feira, 24/10/13, a notícia de que há em São Paulo uma exposição de produtos têxteis chineses que tem sido muito contestada pelos sindicatos que estão fazendo uma manifestação pacífica mas bastante incisiva lembrando que nos últimos cinco anos a indústria de manufaturados têxteis no Brasil reduziu o emprego de três milhões para um milhão e 300 mil trabalhadores na área. Ou seja, se perderam por conta das importações chinesas cerca de 1 milhão e 700 mil empregos. Isso é um desastre, isso é terrível. Como conciliar isto? Obviamente devemos enfrentar a China não apenas como um parceiro comprador de matérias-primas brasileiras, mas como um rival na ocupação do mercado interno brasileiro. Devemos então melhorar nossa competitividade? Devemos, mas também devemos encontrar instrumentos de governo e planejamento capazes de dar competitividade aos produtos brasileiros. Os sindicalistas e os manifestantes mostravam na manifestação que as empresas chinesas gozam de benefícios, incentivos fiscais e incentivos de governo muito superiores aos nossos, e que dessa forma os nossos não podem competir nem mesmo se zerassem o lucro e cobrassem apenas a soma dos salários, mesmo que reduzidos, e das matérias-primas.

O senhor usou o termo “inimigo” Sim, sim, um adversário respeitável! Estamos em uma situação de guerra comercial; uma guerra boa para estreitar os laços entre os produtores e para chamar a atenção do nosso governo e dos nossos parceiros na América Latina que fora da união e da colaboração não há salvação. É uma guerra comercial e a devemos enfrentar. Se não são produtos chineses, são os produtos americanos. Ontem mesmo o Samuel Pinheiro Guimarães disse que os EUA, para sair da crise, emitiram moeda e desvalorizaram o dólar e com isso tornaram seus produtos competitivos nos mercados do Sul com um artifício, que em princípio os próprios EUA e a Organização Mundial do Comércio condenam, se chama dumping. Estamos sim numa guerra comercial e nela os chineses ocupam uma posição ambígua. Por vezes são vistos como aliados na exploração das matérias-primas e são grandes parceiros comerciais na compra de minérios, mas são rivais, competidores na venda de manufaturados, usam práticas comerciais agressivas para ocupar os mercados sul-americanos. Tanto o mercado argentino no Brasil como o mercado brasileiro na Argentina. O Brasil era o principal parceiro comercial da Argentina e o principal exportador para a Argentina, e a Argentina para o Brasil. Essa posição agora está passando para a China. Isso deveria preocupar muito, não podemos ceder os nossos mercados aos chineses. Então devemos nos preparar para essa disputa comercial; amigos sim, aliados, mas os interesses nacionais devem prevalecer para preservar os empregos e o nosso desenvolvimento, senão daqui a pouco estaremos de pires na mão mendigando como um país africano abandonado por Deus e

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pelos agentes econômicos. Então, esse era o ponto de partida. Agora, como enfrentar isso? Obviamente estávamos falando em uma mesa-redonda que tinha como título “Tecnologias sociais e a geração de conhecimento”. Então precisamos entender o que significam as tecnologias sociais: são as que permitem não só aliviar a fadiga humana, mas que possibilitam a inclusão no mercado de trabalho

e na geração de rendas para o nosso povo. Não basta dizer que milhões de brasileiros foram incluídos

na sociedade de consumo, é preciso incluí-los na sociedade de trabalho para que esse consumo e trabalho sejam estáveis e possam crescer e ser melhor remunerado. Isso, então, exige a produção de tecnologias específicas para esse fim. Eu poderia dizer: “eu vivo na Amazônia e faltam-nos geradores de energia capazes de funcionar com biomassa, ou produção de biocombustíveis a partir da biomassa da floresta que não deixe resíduos tóxicos”. O problema é um desafio tecnológico complexo, mas que poderia mobilizar nossos melhores laboratórios tecnológicos para resolvê-lo. Por que isso? Porque a economia de todo o povo que vive ao longo dos rios depende da pesca, dos peixes. As comunidades

de pescadores estão distantes centenas de quilômetros dos centros urbanos e precisam de refrigeração,

e refrigeração depende de energia. Hoje, essa refrigeração é fornecida por geradores que funcionam a

diesel e gasolina. O diesel e a gasolina custam três, quatro vezes mais por litro lá no interior do que nos centros urbanos. Ou seja, são preços proibitivos para povoados e gentes que vivem muito modestamente, que vivem quase de troca, de pesca, banana e mandioca. Pescam, plantam e têm uma renda monetária muito pequena. Então a geração de energia barata representa muito, não só para o bem-estar dessas gentes, mas para a própria segurança da Amazônia. Em geral, se fala das dificuldades de defesa da Amazônia. O nosso grande desafio é que uma Amazônia ocupada por gente pobre, sem condições de operar equipamentos de comunicação, não é defensável, não há exército que consiga defender uma terra que é habitada por gente muito pobre. Então, é uma questão estratégica. É mais importante dar ao povo da Amazônia – e aí vale para a Pan-Amazônia, a Amazônia que abrange os países vizinhos, Peru, Guianas, Colômbia, Venezuela e Bolívia –, mais vale dar a eles as condições de gerar renda do que comprar os aviões Grispen ou Mirage que dificilmente vão nos ajudar na defesa da

Amazônia.

O sr. mencionou o papel dos indígenas na defesa do Vietnam e na derrota do exército dos EUA em 1970 Sim, aí eu lembrei, o Vietnam derrotou os EUA e impôs uma derrota humilhante graças à participação do povo que vive nos seus igarapés, nos seus rios, no interior, que se envolveu na guerra como protagonista, não apenas como soldado, mas abrindo uma rede de cumplicidade na floresta que permitiu aos exércitos vietnamitas se mover “como peixes na água” e tornaram um inferno a vida dos soldados americanos. É um exemplo magnífico para mostrar que guerras às vezes se vencem com conhecimento dos ambientes de batalha e que as bicicletas e fuzis podem vencer bombardeiros e canhões que na floresta se revelaram pouco eficientes. Basta andar na floresta para saber disso. Se essas são as premissas, quais são as soluções? Eu vejo no nosso horizonte alguns projetos que estão em sintonia com a integração política dos países amazônicos. Por exemplo, nós deveríamos ter cem mil estudantes dos países latino-americanos envolvidos nesse projeto de integração latino-americana. Que sejam brasileiros em países vizinhos, ou que sejam estudantes bolivianos, peruanos, venezuelanos, argentinos, chilenos, uruguaios, que venham ao Brasil. Então o “Ciência Sem Fronteiras”, que é uma das pérolas da coroa, poderia ser estendido, com igual escala, para os estudantes latino-americanos. Por quê? Está-se mandando os jovens para estudar engenharia lá fora para melhorar a competitividade da nossa indústria, para internacionalizar a juventude. E, com isso, pelo que dissemos antes, vemos que não bastará ser mais competitivos, precisaremos alargar, dar novas dimensões ao nosso universo cultural, científico e tecnológico para que ele seja respeitado no cenário internacional. Se nós queremos de fato ocupar uma posição de destaque entre os Brics, um Brasil com 200 milhões é ainda pequeno, mas se juntarmos os países da América Latina, chegamos a 400 milhões, um mercado de porte respeitável.

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O sr. chegou a falar de recursos hídricos Sim. Devemos pensar em viabilizar o que foi apresentado pelo Roberto Conde ontem a noite. Que se fabrique parte de determinados equipamentos no Uruguai, parte no Brasil, parte na Argentina, que se montem no Paraguai, que a construção seja comum. Na Europa se faz assim. Uma coisa é feita na Alemanha, outra na França; os aviões da Airbus se fazem em três ou quatro lugares. Por que nós não poderíamos pensar em um sistema desses, a ser implementado em prazos longos. Devemos, para isso, unificar a formação dos recursos humanos? Há projetos desse tipo, mas são tímidos, e não podem se limitar à formação de gente, há também grande necessidade de conhecer melhor a nossa terra. Por quê? O conhecimento que temos até agora é o conhecimento funcional a um desenvolvimento da economia de mercado assim como ela está, uma economia que admite grandes bolsões de pobreza e que não foi capaz de reduzi-los até agora por meios de mercado; se eles foram reduzidos foram por específicas decisões de governo. É preciso conhecer mais e melhor o nosso povo, não só o brasileiro, o venezuelano, o boliviano, o peruano, o equatoriano. Se conhecemos pouco da Amazônia brasileira, se incluirmos a Amazônia dos outros países, a cartografia social que conhecemos é muito pobre. É

muito difícil promover uma integração de territórios e comunidades mal conhecidas. Há desafios para os cientistas sociais, para os planejadores, para os políticos, para os programas multidisciplinares de ciências, para dar resposta a essas questões. Não só nas áreas humanas, desconhecemos grande parte do patrimônio genético da Amazônia, para não falar de outros biomas como o cerrado, pantanal etc. – que são compartilhados com outros países. Conhecer mais deve ser nosso propósito de integração sul- americana. É fácil explorar os recursos naturais, minerais e hídricos, mas difícil evitar a predação e melhorar o IDH regional. Um navio de ferro vale um pouco mais que uma mala de chips, ou vale o mesmo que um pequeno frasco de veneno de jararaca. Criar cobra para tirar veneno. Por que não? Os indianos fazem isso. Há um mercado de toxinas, fungos especiais que poderia ser muito bem

explorado, mas é preciso investir, é preciso conhecer mais, se dedicar a isso. Os minérios

e deixa um buraco. No caso dos recursos naturais

podemos explorá-los de maneira inteligente, cautelosa, cuidadosa, e ter rendas muito superiores. O futuro depende de maior conhecimento para oferecer recursos naturais ao nosso povo para que ele possa extrair renda. Para criar aranhas e cobras é preciso ter muita habilidade, e essa habilidade nossos ribeirinhos têm de sobra. Quem não tem somos nós ou os planejadores de Brasília, que nem imaginam como se poderia entrar ou sair da floresta. Outra questão é a dos recursos hídricos. Um dos sistemas

geológicos mais aglutinadores do Mercosul, hoje, é o aquífero Guarani, que tem sido estudado com cuidado e hoje se encontra razoavelmente mapeado. Mas se eu disser a você que embaixo da Amazônia toda tem um aquífero maior que o Guarani e que envolve Bolívia, Peru, Venezuela, etc., você vai dizer que nem sabe disso. Isso é o que espanta. Um dos grandes tesouros de reserva de água doce do planeta não é conhecido, não está mapeado. De Belém até Manaus temos o aquífero Alter do Chão, de Manaus até os Andes, temos o aquífero Amazonas, que se estima ser maior do que o Guarani. Não se trata de um poço ou um tanque subterrâneo de água, trata-se de rochas esponjosas impregnadas de água. Parece que ele é o responsável pela regularidade do fluxo de águas da bacia amazônica entre as épocas de seca e cheia. Então, é uma questão com importância climática e social muito grande, porque, por incrível que pareça, as comunidades ribeirinhas têm carência de água potável, uma vez que a água do rio não se pode beber, pois é contaminada por material orgânico. Não necessariamente material orgânico de origem antrópica, mas de micro-organismos que vivem e se reproduzem na água e tornam essa água imprópria para beber. É possível filtrar, mas os filtros não estão sempre disponíveis. Enfim, se pudéssemos fazer um poço e extrair água para as comunidades, vilas etc., isso seria muito importante. Então tecnologias sociais para a integração, para o desenvolvimento, para a dignidade humana. Essas são as propostas. Outra proposta que mencionei, e que também está ao nosso alcance, é ampliar de um fator pelo menos por dez os programas de divulgação científica, de popularização da ciência: semanas da ciência, programas de jardins botânicos e museus, enfim, lugares onde o povo possa ir e aprender mais, perder aquele temor que

cavando, bota num navio e manda embora

a gente vai

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tem pela ciência como um instrumento de dominação, de expropriação da paz e das poucas riquezas ao alcance de todos. Poderíamos multiplicar os programas de intercâmbio latino-americanos – existe hoje a Rede de Popularização da Ciência na América Latina, a Red Pop, inclusive dirigida pela brasileira Luisa Massarani –, que poderiam ajudar nesse projeto de integração da América Latina e da inclusão social e da mobilização não só de dez ou vinte milhões de pessoas atentas ao que acontece no mundo da ciência, mas cem, duzentos milhões que estejam atentos e mobilizados nos avanços e uso popular da ciência e da técnica. Isso é importante porque faz com que os adultos vejam com simpatia o interesse das crianças pelos avanços da ciência, por estudar, para conhecer e ser eles mesmos estudiosos da natureza, e reduzir o impacto dessas feiras de ignorância que se espalham pelas nossas vilas e comunidades mais carentes, em que vendem salvação eterna em troca de uma perseverante ignorância dos e temor perante os fenômenos naturais. Então, esse foi o segundo ponto; eram quatro:

eu acho que mencionei o Ciência Sem Fronteiras para a integração latino-americana, a divulgação e popularização da ciência, a cartografia social necessária e o aumento de conhecimento sobre os recursos naturais não entendidos apenas como os recursos minerais e hídricos, mas incluindo neles toxinas micro-organismos fitoterápicos e outros possíveis. Esses eram os principais pontos.

17

DEPOIMENTO

Ivan Ramalho

Nós estamos em um momento de ampliação em função do ingresso de novos sócios. Com o ingresso da Venezuela, nós demos início a uma mudança importante no mapa geopolítico do Mercosul. Como vocês sabem, há cerca de vinte anos atrás, quando o Mercosul foi criado, ele estava concentrado naturalmente no Cone Sul: Argentina, Uruguai, Paraguai e principalmente as regiões Sul e Sudeste do Brasil, que estavam mais próximas desses países, e que naturalmente participaram mais desse processo de integração. Ora, agora com a entrada da Venezuela, a região Norte brasileira passa a ter como vizinha também um Estado membro, e depois disso nós já tivemos também a confirmação da Bolívia; a decisão política da Bolívia ingressar como Estado Membro do Mercosul já foi tomada e hoje nós temos um grupo trabalhando já nas questões normativas. Naturalmente que há todo um cronograma, aprovação ainda dos parlamentos e tudo o mais. Além desses dois, há também uma perspectiva grande do Equador ingressar. Tivemos a associação também, agora recente, do Suriname e da Guiana. Todos são países vizinhos da região Norte. Então, eu tenho comigo que existe uma importância muito grande principalmente para a região Norte brasileira. Para a região Centro-Oeste também, que já era vizinha do Paraguai, agora também da Bolívia. Eu acredito que isso deve levar a uma ampliação tanto do comércio como da troca de investimentos. Isso vai ter um reflexo também nas questões sociais, nas iniciativas sociais do Mercosul, que são muitas. A gente tem que lembrar sempre que o Mercosul começou como um mercado, começou com foco principalmente na questão do comércio, mas o Mercosul tem uma agenda social, uma agenda de cidadania muito grande, muito importante e que eu acho que nós devemos sempre pedir às pessoas que conheçam mais, por exemplo, o Plano Estratégico de Ação Social; o Instituto Social do Mercosul, que tem atividades importantes, com sede em Assunção; o Instituto de Direitos Humanos, que com sede em Buenos Aires, que tem uma diretora que está participando aqui, hoje. Ou seja, são muitas as decisões, atribuições e iniciativas que existem no Mercosul, que não se restringem à questão apenas comercial, apenas de negócios.

Na América do Sul, quanto representa do PIB o comércio feito pelo Mercosul? O PIB do Mercosul como um todo, que é o Produto Interno Bruto dos cinco países membros, hoje soma três trilhões e trezentos bilhões de dólares. Isso corresponde a 83% do PIB de toda a América do Sul. Mas nós não estamos ainda computando, evidentemente, a Bolívia, assim como outros países que poderão ser também Estados membros, acredito que no futuro relativamente próximo.

Na sua intervenção, o senhor falou sobre dados do crescimento do Mercosul, não é? Do comércio também. Quando foi criado, nós tínhamos um comércio “intrazona”, ou seja, entre os países do Mercosul, de cinco bilhões de dólares; no ano passado, foi de 60 bilhões de dólares, ou seja, multiplicou por doze. No mesmo período, o comércio mundial, como um todo, cresceu seis vezes. Portanto, o comércio “intrabloco” dos países do Mercosul cresceu o dobro do que cresceu o comércio mundial como um todo, o que é uma prova indiscutível, do meu ponto de vista, de que a integração trouxe um benefício bastante grande da perspectiva comercial, com muitas repercussões positivas para todas as pessoas, as pessoas que trabalham, que produzem. Esse crescimento muito grande do comércio também fez com que aumentasse a troca de investimentos. Indiscutivelmente, ajudou bastante em tudo o que veio depois, principalmente da agenda social de mobilidade das pessoas, da própria mobilidade acadêmica, que as pessoas podem trabalhar em outros países, a contagem para a aposentadoria, por exemplo, se a senhora trabalha em outro país, conta tempo para se aposentar no

18

Brasil, e vice-versa, entre muitas outras: eliminação de visto, eliminação de passaporte para o trânsito das pessoas. Eu digo sempre isso para enfatizar que o Mercosul não é só um acordo de comércio, como existem muitos no mundo. O Mercosul tem propostas e objetivos muito mais profundos no que diz respeito às pessoas e particularmente de ação social.

19

ARTIGO

Integração regional e acordos de livre comércio

Samuel Pinheiro Guimarães

A conveniência da participação do Brasil em esquemas de integração regional e da negociação de

acordos de “livre comércio” com países altamente desenvolvidos, e altamente competitivos na área industrial, somente pode ser avaliada a partir da situação real da economia mundial e da economia brasileira que se caracteriza hoje por quatro fatos principais:

1.

estratégia dos países desenvolvidos de procurar sair da crise através de políticas agressivas de abertura de mercados de terceiros países, de proteção de sua produção doméstica e de manipulação cambial, que desvaloriza suas moedas;

a

2.

política chinesa de expansão de suas exportações de produtos industriais e de abertura de mercados para seus produtos e para seus investimentos, em especial para a produção de commodities (produtos primários);

a

3.

importância do comércio intrafirma que chega a atingir 60% do comércio mundial, o que torna limitada e bastante retórica o conceito de livre comércio;

a

4.

a

presença avassaladora de megaempresas multinacionais, e de empresas estrangeiras de

menor porte, na economia brasileira, não só no setor industrial, mas crescentemente no setor de serviços, tais como educação e saúde.

A alternativa estratégica, para os países subdesenvolvidos como o Brasil, a uma política de inserção

plena e irrestrita na economia mundial é a participação em esquemas de integração.

Esta participação pode ocorrer:

1. em esquemas em que se encontram países desenvolvidos e países subdesenvolvidos, como é

o caso do Nafta – North America Free Trade Agreement, que inclui os Estados Unidos, o

Canadá e o México;

2. ou em esquemas em que se encontram somente países subdesenvolvidos, como é o caso do Mercosul, de que participam a Argentina, o Brasil, o Paraguai, o Uruguai e a Venezuela;

3. ou através de acordos de “livre comércio” bilaterais, como o tratado de livre comércio entre o

Chile e os Estados Unidos.

No primeiro caso, a economia dos países subdesenvolvidos (e sua política econômica interna e sua política externa) se torna altamente dependente da economia e das políticas praticadas pelo sócio desenvolvido e sobre as quais não tem influência maior por não participar de seu sistema político/administrativo e, portanto, das decisões de política econômica que são adotadas pelo Governo do país desenvolvido. No segundo caso, os países subdesenvolvidos podem formar:

1. uma zona de livre comércio em que os países eliminam os obstáculos tarifários e não tarifários ao comércio intrazona enquanto mantém suas tarifas aduaneiras nacionais em relação às exportações de empresas situadas em terceiros países extrazona;

2. uma união aduaneira em que os países eliminam os obstáculos tarifários e não tarifários ao comércio intrazona e estabelecem uma tarifa aduaneira comum em relação às importações

20

provenientes de empresas situadas em países extrazona;

3. uma união econômica (e eventualmente monetária) em que os países integrantes da união aduaneira também estabelecem políticas econômicas (cambial, tributária, trabalhista, creditícia, etc.) comuns.

O Mercosul

O Mercosul é uma união aduaneira, denominada de imperfeita, devido à dupla cobrança de impostos de importação, à exclusão de setores, às extensas listas de exceções, etc. Desde que o Mercosul foi criado, em 1991, foram os seguintes os seus principais resultados:

1. o comércio entre os países do Mercosul aumentou mais de onze vezes desde 1991 enquanto que o comércio mundial cresceu apenas cinco vezes;

2. a expansão dos investimentos das empresas privadas nacionais dos países participantes em outras economias do Mercosul;

3. o grande influxo de investimentos diretos provenientes de países altamente desenvolvidos, com excedente de capital, e da China, dirigido aos países do Mercosul;

4. o financiamento de obras de infraestrutura nos países do bloco por entidades financeiras de países do Mercosul;

5. a criação de um fundo, o Focem - Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul, com contribuições diferenciadas (97% do Brasil e da Argentina) para, através de recursos não reembolsáveis, permitir a realização de obras de infraestrutura, em especial no Paraguai e no Uruguai, que recebem 80% dos recursos, com o objetivo de reduzir assimetrias entre os países membros do Mercosul e criar melhores condições para o desenvolvimento;

6. o aumento da mobilidade da mão de obra através da assinatura de acordos de residência e de previdência social;

7. a coordenação e o intercâmbio de experiências em programas sociais, em especial no campo de combate à pobreza;

8. a defesa e a consolidação da democracia.

Para o Brasil, foram os seguintes os principais resultados da sua participação no Mercosul:

1. o comércio do Brasil com o Mercosul aumentou dez vezes entre 1991 e 2012 enquanto o comércio do Brasil com o mundo aumentou oito vezes;

2. 84% por cento das exportações do Brasil para os países do Mercosul são produtos manufaturados enquanto apenas 53% de suas exportações para os Estados Unidos, 36% de suas exportações para a União Europeia e 4% de suas exportações para a China são produtos manufaturados;

3. os países do Mercosul, em especial a Argentina, absorveram 21% das exportações totais de manufaturados brasileiros;

4. o Brasil teve superávits comerciais com todos os países do Mercosul nos últimos dez anos enquanto tem tido déficit, nos últimos anos, com os países altamente desenvolvidos;

5. em 2013, o saldo comercial do Brasil com o Mercosul foi mais do que o dobro do saldo total brasileiro, compensando os déficits comerciais com os Estados Unidos de 11 bilhões de dólares e com a União Europeia, de 3 bilhões de dólares;

6. as empresas de capital brasileiro realizaram investimentos importantes nos países do Mercosul, que constituem sua área natural de expansão inicial para o exterior;

21

7.

os empréstimos feitos pelo BNDES para a realização de obras de infraestrutura em países do Mercosul resultam em contratos com empresas brasileiras de engenharia e na exportação de bens e serviços pelo Brasil;

8. parte importante dos investimentos diretos estrangeiros que se realizam no Brasil tem como objetivo exportar para o conjunto de países que constituem o Mercosul;

9. a participação do Brasil no Mercosul permitiu contribuir para a consolidação e defesa da democracia na região e, portanto, para a estabilidade em nossa vizinhança imediata.

Apesar de todos os seus êxitos, o Mercosul é criticado diariamente pela mídia que logrou construir, em amplos setores da opinião pública, uma imagem negativa do Mercosul como sendo um acordo e uma organização fracassados, que prejudicam os interesses brasileiros, e de uma associação “inconveniente” para o Brasil com países como a Argentina e a Venezuela. Este antagonismo das grandes redes de televisão, dos jornais e das revistas de grande circulação decorre não de um exame dos fatos concretos, mas sim de uma posição ideológica que tem os seguintes fundamentos:

1. o Brasil deve dar prioridade em suas relações internacionais aos países desenvolvidos por serem eles grandes mercados, grandes fontes de capital e principais geradores de tecnologia;

2. o Brasil deve se associar aos países altamente desenvolvidos por serem estes democracias estáveis e defensores dos direitos humanos;

3. o Brasil deve se associar aos países desenvolvidos por razões de identidade cultural e afinidade ideológica.

Em contraste, os países subdesenvolvidos, nesse grupo incluídos os Estados da América do Sul, seriam pequenos mercados, sem capacidade de investir e sem dinamismo tecnológico; seriam Estados politicamente instáveis, periodicamente ditatoriais e violadores dos direitos humanos; seriam sociedades cultural e ideologicamente distintas da sociedade brasileira. Assim, no campo econômico, o Brasil não deveria participar de organismos como o Mercosul ou

de grupos de países tais como os Brics e o Ibas (Fórum Índia, Brasil e África do Sul). No campo comercial, os órgãos da grande mídia diariamente argumentam que:

1. o Brasil deve se associar a esquemas como a Aliança do Pacífico que reuniria economias bem sucedidas e dinâmicas;

2. o Brasil tem de se integrar, com urgência, nas cadeias produtivas mundiais;

3. o Brasil está arriscado a ficar “isolado” dos grandes processos de negociação internacional em curso, tais como a TransPacific Partnership e o acordo de livre comércio entre os Estados Unidos e a União Europeia;

4. o Brasil deve assinar acordos de livre comércio com os países altamente desenvolvidos ainda que para tal tenha de abandonar o Mercosul ou tenha de adotar uma estratégia de diferentes velocidades, omitindo que isto acarretaria o abandono, na prática, do Mercosul.

A Aliança do Pacífico é constituída por quatro Estados que tem acordos de “livre comércio” com os

Estados Unidos, quais sejam o México, a Colômbia, o Peru e o Chile. Cada um desses quatro países assinou acordos de livre comércio com dezenas de outros Estados ou blocos de Estados, tais como a União Europeia e a China, uma decorrência quase que necessária de terem negociado acordos com os Estados Unidos. O comércio entre os países da Aliança do Pacifico é de pequena importância, inclusive por não terem esses países uma oferta exportável diversificada, já que não possuem parques industriais

22

significativos (exceto o México, ainda que com características especiais decorrentes da presença das maquiladoras) e por serem competidores entre si no mercado internacional em muitos itens, em especial minérios. Apesar de terem exibido taxas de crescimento relativamente altas nos últimos anos isto não significou desenvolvimento econômico propriamente dito, pois não se diversificaram suas estruturas produtivas e nem melhoraram os seus índices de concentração de renda e de riqueza. Após assinar os acordos de “livre comércio” com os Estados Unidos, as importações do Chile, do Peru e da Colômbia, provenientes dos Estados Unidos, aumentaram muito mais do que suas exportações para os Estados Unidos e essas exportações, ao contrário do que se argumentava para defender a celebração desses acordos, continuaram concentradas nos mesmos produtos tradicionais e não se diversificaram. Ao contrário do que a grande mídia parece ignorar, voluntária ou involuntariamente, o Mercosul (e, portanto, o Brasil) tem acordos de livre comércio com o Chile, o Peru e a Colômbia em consequência dos quais já ocorreu a redução a zero da maior parte das tarifas bilaterais e, em 2019, o comércio entre o Mercosul (e o Brasil) e cada um desses países da Aliança do Pacifico será totalmente livre. Quanto à integração na economia internacional e nas cadeias produtivas mundiais, o fato de o comércio exterior brasileiro ter crescido de 108 bilhões de dólares em 2002 para alcançar 466 bilhões de dólares em 2012 e de o fluxo de investimentos diretos estrangeiros ter crescido de 26 bilhões de dólares em 2002 para alcançar 84 bilhões de dólares em 2012 revela que a economia brasileira está longe de estar isolada ou não integrada na economia mundial. Por outro lado, cerca de 40% do comércio exterior brasileiro, em especial de produtos manufaturados, é um comércio intrafirma o que significa integração do parque industrial instalado no Brasil em cadeias produtivas mundiais das megaempresas multinacionais. No caso dos produtos primários, como a soja e o minério de ferro, o Brasil se encontra integrado em cadeias produtivas ainda que isto ocorra na extremidade de menor valor agregado dos produtos finais dessas cadeias, isto é, o Brasil exporta produtos primários que são processados em países altamente desenvolvidos e o resultado deste processamento muitas vezes são produtos que vem a ser importados pelo Brasil, como é o caso de produtos siderúrgicos importados pelo Brasil da China. A integração do Brasil em cadeias produtivas globais decorre de decisões das megaempresas multinacionais que alocam diferentes etapas ou segmentos dos processos produtivos de certos produtos em diferentes países devido a diferenças de custo de insumos, inclusive trabalho, de impostos e da existência de vantagens relativas de crédito, de tributação, etc., e de localização geográfica, como é o caso do México em relação aos Estados Unidos e dos países da Europa Oriental em relação à Alemanha. Certamente, o Brasil não poderia competir com outros países, em especial asiáticos, em termos de custos do trabalho, de benefícios tributários ou de legislação ambiental a não ser que fosse promovido um extraordinário retrocesso da legislação trabalhista e da legislação ambiental, para o que não há nenhuma possibilidade de apoio político na sociedade brasileira. Não há dúvida de que os eventuais resultados das negociações entre Estados Unidos e União Europeia e das negociações da Transpacific Partnership virão a afetar o Brasil. Porém, o fato inarredável de o Brasil não ter litoral no Oceano Pacífico torna extremamente difícil reivindicar sua participação nas negociações da TransPacific Partnership enquanto que não sendo o Brasil membro da União Europeia (nem podendo ser por não estar situado naquele Continente) nem sendo parte dos Estados Unidos torna impossível participar das negociações entre a União Europeia e os Estados Unidos, para o que, aliás, ninguém pensou em convidá-lo.

23

Um acordo entre a União Europeia e o Mercosul

Finalmente, a mídia, organizações empresariais e economistas defendem a negociação de um acordo entre a União Europeia e o Mercosul como indispensável a uma melhor inserção do Brasil na economia internacional, o que, segundo esses advogados, permitiria a retomada de altas taxas de crescimento. Seria interessante examinar as prováveis consequências de um acordo entre a União Europeia e o Mercosul:

1.

como a tarifa média para produtos industriais, cerca de 4%, na União Europeia é muito mais baixa do que a tarifa média aplicada no Mercosul, que é de cerca de 12%, a União Europeia teria no caso da eliminação recíproca da maior parte, digamos 90%, das tarifas muito maior

vantagem do que o Brasil e o atual déficit brasileiro no comércio de produtos industriais com

a

Europa, que já é significativo e crônico, se agravaria ainda mais; o fato de o período de

desgravação ser de quinze anos não afeta este argumento;

2.

a

redução e a eventual eliminação das tarifas de importação do Mercosul (inclusive do Brasil)

não teria efeito positivo sobre o nível tecnológico atual da indústria instalada no Brasil pois, de forma geral, a importação de bens de capital já está livre de direitos quando não há similar nacional. As empresas produtoras de bens de capital, nacionais ou estrangeiras instaladas no Brasil, no caso de total liberalização do comércio sofreriam forte impacto e talvez

desaparecessem;

3.

como o nível tecnológico médio da indústria brasileira é inferior ao nível médio da indústria na União Europeia, aquela não teria condições de concorrer nos mercados europeus nem nos mercados do próprio Mercosul com os produtos exportados pela indústria europeia, agora livres de direitos aduaneiros;

4.

um dos estímulos para os investimentos diretos industriais europeus nos países do Mercosul, que é “saltar a barreira tarifária” para produzir e competir no mercado interno do bloco, deixaria de existir;

5.

em consequência, o fluxo de investimentos diretos estrangeiros para a indústria no Mercosul (principalmente para o Brasil e a Argentina) diminuiria, com efeitos negativos para o emprego e para o próprio equilíbrio do balanço de pagamentos;

6.

uma das consequências da eliminação de tarifas sobre as importações de produtos industriais europeus é que seria, possivelmente em muitos casos, melhor exportar para o mercado brasileiro do que continuar a produzir aqui e assim os investimentos produtivos hoje existentes poderiam regressar para seus países de origem ou não aumentar sua capacidade instalada no Mercosul;

7.

as regras relativas a investimentos estrangeiros, propriedade intelectual, comércio de serviços, compras governamentais, defesa comercial se tornariam ainda mais favoráveis às megaempresas multinacionais do que se tornaram em decorrência da Rodada Uruguai, concluída em 1994, que levou à criação da Organização Mundial do Comércio;

8.

a

possibilidade dos Governos do Mercosul de implementarem, nacional ou regionalmente,

políticas industriais, comerciais e tecnológicas se tornaria ainda menor, devido, como dizem os economistas, à redução ainda maior do policy space (espaço legal para a execução de

políticas) em decorrência dos compromissos assumidos no eventual acordo;

9.

possibilidade de implementar políticas nacionais e regionais preferenciais para as empresas instaladas nos países do Mercosul nos setores de serviços, compras governamentais e outros deixaria de existir;

a

10.

a eliminação das tarifas industriais decorrentes de um acordo União Europeia/Mercosul

24

eliminaria a preferência de que gozam hoje as empresas situadas no Mercosul em relação às empresas situadas fora do Mercosul e, portanto, para as empresas da União Europeia, o Mercosul, cuja essência é a tarifa externa comum, deixaria de existir;

11.

a

assinatura de um acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, ao

privilegiar as empresas europeias no comércio com o Mercosul (e com o Brasil) acarretaria imediatamente solicitações de nossos principais parceiros comerciais, isto é, a China, os Estados Unidos, o Japão para que negociássemos com eles acordos semelhantes, o que seria praticamente impossível de recusar;

12.

a

tarifa externa comum, essência de uma união aduaneira, que já teria deixado de existir para

as empresas da União Europeia, deixaria de existir para os Estados Unidos, para o Japão, para

a

China e para outros países o que significaria o fim do Mercosul, como união aduaneira e

como instrumento de desenvolvimento;

13.

possibilidade de desenvolvimento industrial brasileiro a partir de empresas nacionais e estrangeiras instaladas no Brasil deixaria igualmente de existir;

a

14.

os efeitos sobre o emprego seriam significativos, com sérias consequências sociais para países de elevado nível de urbanização, como a Argentina e o Brasil, já que o salário médio por trabalhador na indústria é várias vezes superior ao salário médio do trabalhador na agricultura e na mineração;

15.

no que diz respeito ao comércio de produtos agrícolas, altamente regulamentado na União Europeia, que considera a proteção à sua agricultura uma questão estratégica, o acordo não levaria a uma liberalização geral do comércio e do acesso dos produtos agrícolas do Mercosul (e brasileiros) aos mercados europeus;

16.

a

União Europeia estaria disposta a conceder ao Mercosul tão somente quotas de importação,

livres de direitos, para determinados produtos agrícolas, o que não significa necessariamente

um aumento das receitas brasileiras (e dos outros países do Mercosul) com a exportação desses produtos;

17.

segundo a informação disponível, o volume de cada uma dessas quotas oferecidas pela União Europeia poderia ser, inclusive, inferior ao volume atualmente exportado pelos países do Mercosul;

18.

esta oferta europeia beneficiaria em princípio não o Estado brasileiro em termos de aumento das receitas de exportação, pois não aumentariam os volumes exportados enquanto que os exportadores de produtos agrícolas se beneficiariam apenas na hipótese de serem mantidos os preços pagos pelos importadores.

A eventual assinatura de um acordo entre a União Europeia e o Mercosul tornaria impossíveis

negociações futuras para a ampliação das quotas de importação eventualmente concedidas pela Europa já que a União Europeia já teria atingido, ao obter a eliminação de tarifas para 90% das posições tarifárias industriais, o seu objetivo estratégico que é a abertura do mercado brasileiro (e do Mercosul) para suas exportações, e ao mesmo tempo manter sua política agrícola protecionista e a sobrevivência de sua agricultura subsidiada e ineficiente. O desenvolvimento econômico e social brasileiro depende do fortalecimento de seu setor industrial enquanto que a defesa dos interesses brasileiros, políticos e econômicos, na esfera internacional, cada vez mais competitiva e conflituosa, dependem do fortalecimento do Mercosul, etapa indispensável para a integração da América do Sul. O eventual acordo União Europeia/Mercosul será o início do fim do Mercosul e o fim da possibilidade de desenvolvimento autônomo e soberano brasileiro e do objetivo estratégico brasileiro

de construir um bloco econômico e político na América do Sul, próspero, democrático e soberano.

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ARTIGO

La integración regional como proyecto estratégico y la participación popular

Mariana Vázquez

La idea de unidad ha estado presente en América Latina a lo largo de los 200 años de cada uno de nuestros bicentenarios. Esta idea, en su potencia más emancipatoria, ha estado vinculada siempre a los objetivos del desarrollo, la autonomía e independencia política de nuestra región. Es en este marco, pensamos, en el cual nos parece preciso instalar en este nuevo Encuentro del FoMerco, el debate sobre la participación popular en el Mercosur y en la integración regional: en el marco de un proyecto emancipatorio, integración regional, soberanía popular y participación social están irrenunciablemente ligadas. Es decir, la participación popular no es relevante para cualquier proyecto de integración. Ahora bien, en qué contexto estamos debatiendo sobre ello; cuál es la foto o, al menos, los elementos que nos gustaría destacar de esta foto. He organizado esta presentación en tres partes. En primer lugar, me gustaría compartir unas breves reflexiones sobre el contexto global en el cual pensamos nuestra integración. En segundo lugar, haré referencia a la trayectoria del Mercosur, introduciendo el interrogante acerca de si el cambio de ciclo político ha dado forma a una integración de nuevo tipo. Y, en tercer lugar, al momento actual y a algunos de sus desafíos.

Contexto global / El mundo

Quisiera destacar algunos de sus elementos, significativos a la hora de reflexionar sobre la integración sudamericana:

En primer lugar, la crisis, que potencialmente puede ser civilizatoria, y sus diversos componentes más o menos articulados entre sí: el económico-financiero, es decir, la crisis de un modo de acumulación basado en la especulación financiera a escala planetaria; el social; y, por último, la crisis de las formas tradicionales de la democracia, tanto en los países desarrollados como en su esquema de integración por excelencia, la Unión Europea.a la hora de reflexionar sobre la integración sudamericana: En segundo lugar, la transición hacia una

En segundo lugar, la transición hacia una nueva configuración de las relaciones de poder en el escenario mundial: esta transición se caracterizaría por el ascenso de nuevos poderes, del sur y del este, con China como principal protagonista. Ahora bien, esa transformación en curso no se ha visto reflejada, y entra en tensión, con las organizaciones multilaterales (OMC, FMI, ONU) que congelan el mapa de la segunda posguerra y las relaciones asimétricas, siempre asimétricas, que lo caracterizaron.esquema de integración por excelencia, la Unión Europea. En tercer lugar, el traslado de los centros

En tercer lugar, el traslado de los centros dinámicos del capitalismo global: esta reconfiguración está anclada fundamentalmente en el dinamismo de estas economías, particularmente de China, que desplazan a EEUU y a la UE, no casualmente los dos últimos epicentros de la crisis y, no casualmente tampoco, protagonistas en estos días de diversos intentos de reconfiguración del mapa regulatorio del comercio mundial. Estos intentos se expresan en la negociación o profundización de nuevos acuerdos de este tipo. Me refiero,congelan el mapa de la segunda posguerra y las relaciones asimétricas, siempre asimétricas, que lo caracterizaron.

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particularmente, al acuerdo de asociación trans-pacífico (TPP), al acuerdo de libre comercio entre la Unión Europea y Japón, al acuerdo transatlántico sobre comercio e inversión entre los EEUU y la Unión Europea (TTIP); y al acuerdo de asociación económica integral regional (RCEP).

Por último, la crisis de la Unión Europea: como proyecto económico, político y social y, sin ninguna duda, como poder normativo global, es decir, como pretendido modelo de integración para otras regiones. No tenemos mucho tiempo para desarrollarlo aquí, pero quisiera destacar que lo que entra en crisis es un modelo de integración de mercado, es decir, un modelo en el cual la política, como práctica política y como política pública orientada a una redistribución equitativa de la riqueza dentro y entre las naciones, está completamente ausente. En un mundo en transición, dónde es más que pertinente volver a hacernos una y otra vez la pregunta acerca de cuál deseamos que sea el lugar de nuestra región y cuál es el papel de nuestra integración en función de nuestros objetivos más ambiciosos.

El Mercosur

El Mercosur nació en un período de hegemonía del paradigma neoliberal, base del Consenso de Washington. Se trata del conjunto de ideas que parten de la premisa de que el mercado, por sí solo, funciona adecuadamente. Esta premisa, hace tiempo ya, ha sido definida por Polanyi como “la falacia más eficaz nunca inventada”. En la práctica, responde a intereses bien concretos: los del capitalismo más concentrado, violento y predatorio. En el sur de América dio lugar, también, a una integración de mercado. El que podríamos llamar “Consenso de Asunción”, reflejado en parte en el tratado que dio origen al bloque y, fundamentalmente, en qué de él implementado (programa de liberalización), fue un instrumento para anclar en un acuerdo internacional y en estructuras regionales, las políticas de apertura y liberalización indiscriminadas encaminadas, en aquellos tiempos, en las arenas nacionales. Las consecuencias de estas políticas, en términos de exclusión, pobreza, miseria, desigualdad, profundización de las asimetrías entre los países, deslegitimación de la democracia y de la política como herramienta de transformación y, por último, de pérdida de dignidad en el concierto de naciones, son conocidas ampliamente. Desde fines del siglo XX en Sudamérica y, concretamente, en el Mercosur, desde 2003, asistimos a un cambio importante en el ciclo político regional. Una expresión sin duda central de esta nueva etapa es la firma del Consenso de Buenos Aires, por Kirchner y Lula: este mes se han cumplido 10 años de aquel acuerdo programático que daría cuenta de los nuevos objetivos políticos, destacando en su primer punto el derecho de los pueblos al desarrollo. Cada una de las afirmaciones de aquel documento se plasmará, en el transcurso de los años, en acuerdos políticos y conceptuales y en políticas concretas de una integración de nuevo tipo. Me gusta caracterizar esta nueva etapa del Mercosur a través de los siguientes elementos:

La incorporación, en las políticas del bloque, de todo aquello que podría englobarse en los conceptos de “agregación de valor”, “ampliación de derechos” e “inclusión”. Políticas sociales, agricultura familiar, cooperativismo, integración productiva, políticas tendientes a disminuir las asimetrías entre los Estados y en el interior de sus territorios, estaban ausentes en la etapa previa y sólo aparecen en la agenda del bloque a partir de 2003-2004.etapa del Mercosur a través de los siguientes elementos: La transformación de los objetivos políticos de

La transformación de los objetivos políticos de viejas agendas (socio laboral, educación) desde una visión de mercado a una visión de ampliación de derechos;de sus territorios, estaban ausentes en la etapa previa y sólo aparecen en la agenda del

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La creación de una nueva institucionalidad, que busca dar cuenta de estas transformaciones (Instituto Social del Mercosur, Instituto de Políticas Públicas de Derechos Humanos del Mercosur, etc.);El cambio en el posicionamiento del bloque en una negociación tan trascendente como la del

El cambio en el posicionamiento del bloque en una negociación tan trascendente como la del Alca, cambio que será la condición de posibilidad del fortalecimiento del nuevo Mercosur y de la creación de la Unasur.Públicas de Derechos Humanos del Mercosur, etc.); La puesta en valor histórico por parte del liderazgo

La puesta en valor histórico por parte del liderazgo regional, nuevamente, de la idea de la unidad.del nuevo Mercosur y de la creación de la Unasur. El Mercosur hoy, en una nueva

El Mercosur hoy, en una nueva encrucijada histórica

El Consenso de Buenos Aires fue el símbolo del cambio de época, es decir, el símbolo de una etapa bisagra, en la cual lo viejo comenzaba a morir y lo nuevo comenzaba a nacer. La etapa actual, una década después, requiere un nuevo Consenso. Por un lado, para consolidar las conquistas de la última década. Y, por otro lado, para profundizar las transformaciones. La entrada de la República Bolivariana de Venezuela al Mercosur es, a la vez, la continuidad de este cambio de época y una nueva etapa, en la cual el bloque se potencia y asume un nuevo estatus internacional. Con la entrada de este país, el Mercosur adquiere una nueva dimensión geopolítica y geoeconómica. El bloque pasa a ser la quinta economía mundial (luego de EEUU, China, Alemania y Japón); concentra ahora el 59% del PBI de América Latina y, con 275 millones de habitantes, representa el 47% de la población total de la región. La incorporación de Venezuela convirtió al Mercosur en una potencia alimentaria y energética. Venezuela posee la primera reserva comprobada de petróleo del mundo (297 millones de barriles en 2010). ¿Cuáles son los desafíos de esta nueva etapa?

Enfrentar un proceso de transición y crisis en el sistema internacional;en 2010). ¿Cuáles son los desafíos de esta nueva etapa? Enfrentar el desafío de una ampliación

Enfrentar el desafío de una ampliación virtuosa;proceso de transición y crisis en el sistema internacional; Considerar y contemplar los diversos proyectos nacionales

Considerar y contemplar los diversos proyectos nacionales de desarrollo en pos de su convergencia con equidad;Enfrentar el desafío de una ampliación virtuosa; Lograr articular con sentido colectivo el bien público que

Lograr articular con sentido colectivo el bien público que constituye la nueva situación geopolítica y geoeconómica del Mercosur;de desarrollo en pos de su convergencia con equidad; Fortalecer y cuidad a nuestra América del

Fortalecer y cuidad a nuestra América del Sur como un espacio de democracia y paz, rechazando toda presencia neocolonial y/o militarizada en la región;nueva situación geopolítica y geoeconómica del Mercosur; Construir un nuevo pensamiento, basado en las tradiciones

Construir un nuevo pensamiento, basado en las tradiciones más nobles del ideario y teorías emancipatorias de la región, que dé cuenta de lo hecho y aporte reflexiones para los nuevos tiempos. Es lo que el ex presidente Lula ha llamado “la doctrina de la integración” y la presidenta Fernandez el “nuevo Consenso del Sur”.toda presencia neocolonial y/o militarizada en la región; Es complejo intentar responder al interrogante acerca de

Es complejo intentar responder al interrogante acerca de si el cambio político ha dado nacimiento a una integración de nuevo tipo. En el Mercosur actual, lo viejo y lo nuevo coexisten. En las dimensiones no comerciales, la integración se ha profundizado y ampliado, generando un esquema de gran densidad. Importantes acuerdos políticos, instituciones y acciones coordinadas dan cuenta de ello. Sin embargo, la hegemonía de la dimensión comercial, plasmada en una estructura institucional y una lógica negociadora que no han sido modificadas sustancialmente, diluye en gran parte la fuerza de la dinámica transformadora. Sin un cambio profundo de esta herencia, se bloquean importantes avances en pos de una integración de los pueblos.

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Es aquí, tal vez, donde más cobra sentido todo esfuerzo que promueva un mayor protagonismo popular. En la tensión entre política, democracia y burocracia, por un lado; o, por otro, la tensión entre poder popular y poderes fácticos, el protagonismo popular hace la diferencia. El fortalecimiento de los mecanismos de participación debe ser, con certeza, uno de los componentes de ese nuevo consenso. Aunque mucho se ha avanzado, en esta etapa que llamaría de “post-resistencia”, mucho nos falta a la hora de encontrar los caminos más efectivos para hacerlo. Debemos encontrar nuevas formas, instrumentos y articulaciones. Salir de las estructuras y formatos de viejas épocas, que no han resultado suficientes. Ésta reflexión es una responsabilidad conjunta de gobiernos, fuerzas políticas y movimientos sociales. El desafío más importante es crear y, sobre todo, crear juntos. Porque lo mejor que el Mercosur puede darle al mundo en esta crisis civilizatoria es mostrar una región del planeta en la cual la inclusión, la paz, el respeto a la diversidad, el respeto al derecho internacional y al Estado de derecho, a los derechos humanos, así como el rechazo a cualquier forma de dominación, abuse y neocolonialismo, son posibles. Este Mercosur sólo puede construirse con mayor participación popular.

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II.

Desenvolvimento, industrialização, recursos naturais e a nova arquitetura financeira da integração no século XXI

INTRODUÇÃO

Desenvolvimento, industrialização, recursos naturais e arquitetura financeira Raphael Padula

DEPOIMENTO

Ricardo Canese

ARTIGOS

Sobre a arquitetura da integração no século XXI André Calixtre

Desenvolvimento dos recursos naturais como eixo dinâmico da Integração regional José Carlos de Assis

Por una integración que integre, por un desarrollo que libere José Felix Rivas

A construção da teoria do subdesenvolvimento: um exame comparativo das contribuições de Nurske, Rostow, Myrdal e Furtado Vera Alves Cepêda e Rafael Gumiero

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INTRODUÇÃO

Desenvolvimento, industrialização, recursos naturais e arquitetura financeira

Raphael Padula

A independência formal dos países da América do Sul não mudou a sua forma subordinada de

inserção política e econômica no sistema internacional. Ao buscar manter sua riqueza e sua posição política privilegiada, suas elites políticas e econômicas se atrelaram aos interesses políticos e econômicos de potências externas expansivas, que desejavam manter uma relação econômica e política privilegiada e assimétrica com os nossos países, tendo acesso facilitado aos seus recursos

naturais e mercados. Assim, nasceram Estados independentes com baixa influência política nas regras

e decisões políticas do sistema internacional, e economias exportadoras de bens de baixo valor

agregado (commodities), sem qualquer projeto político para mudar tal condição. Isso fez com que se formasse uma região politicamente e economicamente fragmentada, com países de costas uns para os

outros, sem buscar uma articulação política e econômica robusta e consistente, mas buscando

proximidade com países centrais, o que abre espaço para a projeção político-militar, econômica e ideológico-cultural destes últimos.

A partir dos anos 1970, o sistema interestatal presenciou um ciclo geopolítico de aceleração de sua

permanente competição entre Estados pelo controle e acesso privilegiado a territórios que contenham recursos estratégicos ou que sejam importantes rotas para a comercialização eficiente e segura destes recursos. São recursos que em termos globais são relativamente escassos e/ou concentrados em alguns territórios, predominantemente nos países de menor grau de desenvolvimento socioeconômico e poder militar, e que ao mesmo tempo são críticos para a expansão industrial e do poder militar de países ricos e militarmente fortes, com maior influência no sistema internacional. A recente aceleração

se deve a uma perda relativa de poder ou “crise de hegemonia” por parte dos Estados Unidos, com a

crise do padrão dólar-ouro, a necessidade de enquadrar possíveis rivais e vencer a Guerra Fria – especialmente após a invasão soviética ao Afeganistão e à revolução iraniana. Nesse período, os EUA abandonam sua “hegemonia benevolente” e retraçam sua estratégia expansiva. Ainda, no pós Guerra Fria, as potências emergentes da Ásia – com grandes populações e crescentemente demandantes de recursos – principalmente China e Índia, a retomada de uma política nacionalista da Rússia nos anos

2000, e o desejo de potências tradicionais de manter suas posições, pressionam ainda mais essa corrida dentro da dinâmica inerente do sistema estatal, onde as potências tradicionais buscam manter o status quo e um grupo de Estados almeja ascender na hierarquia política e econômica internacional.

A América do Sul encerra significativos recursos estratégicos, tanto no continente quanto no seu

entorno marítimo - em sua plataforma continental (mar territorial), em áreas internacionais, e alcançando a costa ocidental da África. No continente temos terras férteis e encontramos minerais

mais comuns e mais raros, biodiversidade, reservas de água doce, potencial hidráulico, hidrocarbonetos (gás e petróleo), entre outros recursos de grande valia. No entorno marítimo, além de petróleo e gás, no leito marinho encontramos minerais, em crostas cobaltíferas, nódulos e sulfetos polimetálicos. Nesse sentido, podemos destacar sub-regiões no continente cujas condições geográficas levam a implicações geopolíticas: a Amazônia, a Bacia do Prata e o litoral Pacífico – além

do Atlântico Sul. São áreas que despertam interesses políticos e econômicos e onde se constatam cada

vez mais a intensa atuação das grandes potências e de potências emergentes de fora da região. O Brasil possui uma posição estratégica em relação a todas as áreas geopolíticas citadas, exceto o litoral pacífico, área com a qual busca maior contato e acesso facilitado. As regiões ricas em recursos

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estratégicos tendem a ser crescentemente incorporadas como fronteiras geopolíticas da expansão capitalista, sofrendo assédio de grandes potências e suas grandes empresas (privadas e estatais). São áreas que contém recursos estratégicos para o funcionamento da economia e para o desenvolvimento econômico e militar das potências tradicionais e emergentes.

Nos anos 1960 e 70, a experiência de integração da Alalc fracassou em levar adiante a integração na América Latina, tanto pela rigidez e ousadia presentes em suas regras e metas entre países desiguais, na busca de formação de uma área de livre comércio regional, quanto pelas estratégias individuais adotadas pelos governos dos países, deixando para segundo plano a esfera da integração. Assim, a Aladi substituiu a Alalc, buscando uma integração mais gradual e flexível, através de acordos parciais, que levariam no longo prazo à integração de toda região. De um ponto de vista econômico, Raúl Prebisch, em documento publicado pela Cepal em 1959, fez uma ampla reflexão sobre as possibilidades de industrialização conjunta e redução de vulnerabilidade externa dos países periféricos latino-americanos, mudando sua condição no comércio internacional e sua dependência da dinâmica do mercado internacional. O autor observa os limites de estratégias individuais e a importância da formação de um amplo mercado regional, necessário para viabilizar a implantação de indústrias tecnologicamente mais avançadas e cada vez mais complexas, que deveriam ser planejadamente distribuídas pelos países da região, formando uma divisão regional do trabalho baseada na produção e comércio de bens industriais. Para Prebisch, os países economicamente mais avançados da região deveriam ter um papel diferenciado:

especializando-se na produção de bens de capital, favorecendo e financiando as exportações dos demais países da região (menos avançados) de bens manufaturados finais, para que haja ganhos recíprocos, e tendo um papel especial no financiamento do desenvolvimento dos países de menor grau de avanço. Assim, as vantagens da integração não se concentrariam em um pequeno grupo de países. No entanto, a retomada do processo de integração na América do Sul, nos anos 1980 e 1990, acabou sendo apropriada pela ideologia neoliberal, e não pela proposta de Prebisch. Apoiada na força política dos Estados centrais e também na ideologia neoliberal que prometia uma globalização homogeneizadora conduzida pelo mercado, as políticas de desregulação econômica chegaram com força na América Latina, especialmente através das recomendações do Consenso de Washington. Tal entendimento logo atingiu a concepção sobre a integração regional. Vários acordos regionais foram firmados na região sob o manto neoliberal, com viés mais comercialista, onde se destacam o Mercosul

e a Comunidade Andina de Nações - CAN. A concepção do regionalismo aberto, apoiada no

economicismo cepalino dos anos 1990, tornou-se a visão dominante sobre integração na América Latina. Promovendo uma integração voltada para o objetivo de formar áreas de livre comércio regionais e, consequentemente, blocos políticos com capacidade de negociar de forma mais eficiente a

integração econômica global, essa visão se coadunava às reformas de mercado levadas pelos Estados

da região. Ao colocar a política a serviço da economia, buscava colocar os recursos naturais da região

à disposição dos mercados e cadeias produtivas globais – dominadas por grandes empresas

transnacionais com matrizes nos Estados centrais – aprofundando a competitividade dos países na produção e exportação de commodities de baixo valor agregado e baixa intensidade e tecnológica. Ainda, o novo regionalismo pregado pelo BID, enfatizou a importância de arranjos de integração entre países do hemisfério Sul, abundantes em mão de obra barata e recursos naturais (e oportunidades de explorá-los) mas carentes de capitais, e países do hemisfério Norte, bem-dotados de tecnologias e capitais, mas carentes de recursos. No entanto, as políticas neoliberais não trouxeram os resultados socioeconômicos esperados às populações dos países sul-americanos. Com isso, nos anos 2000, ascenderam ao poder governos mais progressistas críticos ao neoliberalismo, de diferentes matizes, que estabeleceram novas demandas à agenda regional e, sem eliminar as propostas de regionalismo aberto, impulsionaram um revisionismo aos processos de integração originados sob esta concepção – apoiada por potências de fora da região e

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por interesses de grupos específicos dentro da região. A Unasul, fruto desta tendência revisionista, ensaiou uma aproximação entre Mercosul e Comunidade Andina de Nações - CAN no campo econômico, ainda que inviável no atual contexto de diferentes perspectivas de integração. Trata-se mais de uma iniciativa política na qual os países avançam e colocam diálogos em pauta sobre temas relevantes, e que mostrou papel importante em contextos de instabilidade interna e atentado à democracia em alguns países (Bolívia e Equador). Com a constituição da Unasul, abriram-se novas possibilidades de tratamento de temas que já vinham ganhando espaço na ampliação da agenda integracionista nos anos 2000. Entre os temas tratados, merecem destaque: a complementaridade produtiva; a resolução de assimetrias; a soberania sobre os recursos naturais e sua utilização de forma racional e favorável ao desenvolvimento das economias e à qualidade de vida das sociedades dos países da região; a integração de infraestrutura – energia, transportes e comunicações –; e o desenvolvimento conjunto dos países de forma equilibrada. Os conselhos setoriais da Unasul foram criados para tratar de temas de fundamental importância no âmbito da integração, muitos desses que vinham sendo colocados em pauta ao longo dos anos 2000. O Conselho Sul-Americano de Economia e Finanças apresenta entre seus objetivos gerais: o desenvolvimento socioeconômico igualitário entre os países da região, combatendo assimetrias, mediante mecanismos concretos e efetivos para promover a complementaridade produtiva; avançar na cooperação econômica, comercial e setorial; e desenvolver propostas orientadas para pequenas e medias empresas e iniciativas de desenvolvimento local. Na esfera macroeconômica e financeira, o conselho deve promover a integração financeira – mediante a adoção de mecanismos compatíveis com as políticas econômicas e fiscais dos Estados Membros –, impulsionar o uso de moedas locais e regionais em transações comerciais intrarregionais, possibilitar a cooperação para gerar um mecanismo regional de garantias que facilite o acesso a diferentes formas de financiamento, promover estratégias e aprofundar a cooperação entre bancos centrais e a administração de reservas internacionais, desenvolver políticas e mecanismos de monitoramento de fluxos de capitais e de cooperação em caso de crises de balanço de pagamentos, e promover mecanismos de coordenação de políticas macroeconômicas. Em uma região que contenha recursos estratégicos e potenciais energéticos, são urgentes políticas que almejem o desenvolvimento e o domínio político e econômico dos recursos, buscando promover a autonomia estratégica regional. Os países devem considerar uma política conjunta de planejamento energético que leve em conta as ofertas e suas necessidades internas, separadamente e em conjunto, com suas diferentes matrizes (fontes) energéticas. Em todos os projetos energéticos, além da cooperação tecnológica, o compartilhamento do financiamento e de riscos é um fator importante. A oferta e autossuficiência energéticas são necessárias não só por motivos socioeconômicos, mas para aumentar a independência e a influência política. A energia é fator fundamental para as possibilidades de desenvolvimento socioeconômico, através de uma maior disponibilidade de energia para projetos industriais de maior valor agregado, geradores de emprego e renda. Apesar da abundância de recursos energéticos, a América do Sul apresenta uma distribuição não homogênea e um subaproveitamento de seus recursos potenciais. A região é rica em potencial energético hídrico, com grande potencial inexplorado nas áreas da Amazônia e da Bacia do Prata, com significativas possibilidades de projetos conjuntos entre países. Olhando para a região como um todo, encontramos poucas interconexões elétricas e divididas basicamente em dois grupos isolados: um envolvendo os países do Cone Sul da região e outro mais ao norte entre envolvendo Equador- Colômbia-Venezuela. A ainda rarefeita malha de gasodutos da região se concentra no Cone Sul. Em razão disso, vários países, especialmente no Cone Sul do continente – Argentina, Chile e Uruguai –, possuem problemas recorrentes de abastecimento energético. A razão para isso está tanto na falta de investimentos na exploração de recursos energéticos quanto na ausência da construção de uma infraestrutura de interconexão energética que integre países produtores e consumidores, enquanto o tema é tratado predominantemente a partir de uma perspectiva nacional. Sobretudo, há uma falta de

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visão supranacional (regional) e de esquemas de integração energética regional. Iniciativas de integração energética na região tem um caráter mais bilateral, partindo da iniciativa direta e negociações dos governos, enquanto a IIRSA estabeleceu uma lógica baseada no mercado e nas privatizações ao longo dos anos 2000. O Conselho de Energia e o Conselho de Infraestrutura e Planejamento - Cosiplan, embora constituídos para mudar esta concepção, com a intenção de atribuir um caráter estratégico e um controle político dos projetos de integração de infraestrutura, promovendo a integração energética, ainda não apresentaram resultados efetivos nesse sentido, e a capacidade de alavancar e criar fórmulas de financiamento para os projetos seguem identificadas como fatores limitadores. O Conselho de Energia da Unasul vem se dedicando a traçar uma proposta de planejamento e integração energética pela autonomia dos países da região. O potencial energético não explorado e a heterogeneidade entre as matrizes energéticas e os regimes sazonais entre os países, revelam um enorme potencial na integração de infraestrutura energética regional para resolver os problemas de abastecimentos dos países da região. O processo de integração energética da região não está livre de atritos, como os interesses de potências externas em ter acesso privilegiado a recursos energéticos da região, a oposição de organizações ambientalistas (com apoio externo) a grandes projetos, a posição política de grupos mais voltados a uma visão nacional individual e a própria crise econômica internacional. A difusão da visão de que a segurança energética é estratégica, em termos socioeconômicos e de segurança militar, pode ajudar a criar prioridades e superar tais entraves no âmbito regional. Através do Conselho de Defesa Sul-Americano - CDS e do Cosiplan, ambos frutos da iniciativa brasileira, o Brasil vem tentando promover uma agenda autônoma regional, mas enfrenta tanto a influência de agendas e visões provenientes de potências externas que encontram ressonância na região, quanto suas limitações de capacidade e vontade política. O Cosiplan apresenta em seu discurso, princípios e objetivos, uma tentativa de responder às principais críticas vinculadas à IIRSA nos anos 2000. Busca, assim: aproximar os governos e dar maior respaldo político aos projetos de infraestrutura; a partir disso, ganhar maior capacidade de mobilização e alavancagem de recursos, especialmente de agregar os mais diversos tipos de instituições e mecanismos de financiamento, incluindo novas engenharias financeiras adaptadas e agentes como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES, do Brasil, e o Banco do Sul (em fase de criação); não se concentrar somente nos projetos mais “maduros” e fragmentados, incluindo a variável político-estratégica, buscando privilegiar projetos de maior impacto regional, estruturantes, e com maior coerência lógica e sinergia na sua sequência de financiamentos/investimentos, como demonstra a construção dos agrupamentos de projetos estruturantes (não projetos fragmentados e dispersos); articular os projetos com a integração produtiva e com o combate às assimetrias regionais; buscar o diálogo com comunidades envolvidas, uma maior aproximação e apoio das sociedades dos países, e considerar variáveis socioambientais nos empreendimentos. Em 2011, o Cosiplan criou três Grupos de Trabalho - GT que funcionarão como instâncias de apoio ao Conselho em suas respectivas áreas temáticas, um deles sobre Mecanismos de Financiamento e Garantias. Enfrentar os problemas de financiamento e garantias não resolvidos pela IIRSA é um dos desafios centrais do Cosiplan para avançar na execução de projetos de infraestrutura. O GT de Financiamento e Garantias tem como meta definir este desafio para viabilizar os projetos da Agenda Prioritária - API do Conselho, com o apoio dos bancos de desenvolvimento nacionais e regionais, trabalhando com organismos internacionais e também com as receitas de cada um dos países. Assim, empenha-se na busca de engenharias financeiras adaptadas aos empreendimentos da API e da Carteira de Projetos da IIRSA. Assim, o Cosiplan inclui temas importantes na agenda e busca mudanças, mas ainda sem resultados efetivos e de forma limitada, pois ainda não conseguiu implantar uma visão e planejamento regional supranacional sobre a integração de infraestrutura e enfrenta dificuldades para viabilizar o

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financiamento de suas obras prioritárias de um ponto de vista político-estratégico. Um dos principais obstáculos tem sido a presença de atores que seguem privilegiando a lógica da IIRSA, do regionalismo aberto e do papel o mercado e da iniciativa privada. Possivelmente, a constituição do Banco do Sul, como ator financeiro regional, de caráter democrático e distributivo, facilitará a capacidade e autonomia de atuação dos governos da região no longo prazo, suprindo lacunas que a atuação do BNDES não alcança. O Focem tem se mostrado uma alternativa a ser aproveitada no Mercosul, com enorme potencial e recursos tem alcançado níveis consideráveis (em relação ao tamanho das economias menores envolvidas), embora seu desembolso ainda não tenha alcançado dinâmica satisfatória.

O tema da segurança na região tem importante conexão com a soberania sobre recursos naturais e

a industrialização dos países. O Conselho de Defesa - CDS da Unasul busca uma maior colaboração regional e multilateralizar temas condizentes com a realidade dos países e de interesse dos governos da região, além de criar maior transparência e confiança mútua em relação aos temas militares, para criar uma zona de paz e cooperação regional.

O tema do narcotráfico e de crimes transnacionais se faz presente nas agendas de segurança dos

países a região. Os EUA, como maior potência global e com interesse estratégico na América do Sul, busca difundir uma agenda de segurança hemisférica utilizando não só ações bilaterais mas também a

Organização dos Estados Americanos - OEA. Tal agenda busca proliferar a noção de que as verdadeiras ameaças à segurança dos países da região provêm unicamente de “inimigos internos”, as chamadas “novas ameaças” – como narcoterrorismo, crimes transfronteiriços e eventuais desastres naturais. Assim, as forças de segurança desses países (seu tamanho e funções) deveriam ser reduzidas e se dedicar e adequar a esses temas. Nesse sentido, o combate a qualquer eventual ameaça externa que possa surgir em um mundo supostamente pacífico e globalizado, ficaria a cargo da maior potência global e de organizações multilaterais (como a Otan), que usariam seu poder como guardiões da ordem e da paz internacional. Não só o narcoterrorismo, as ameaças ambientais e à democracia, mas também supostas células terroristas e principalmente ameaças de potências externas que quisessem ameaçar a soberania sobre recursos naturais dos países da região, deveriam ser combatidas através da cooperação internacional, sob a tutela da maior potência que, nesse discurso, agiria de forma benevolente e desinteressada. Obviamente, tal agenda cria uma vulnerabilidade e dependência militar e política para os países da América do Sul.

A criação do CDS abre espaço para articulações que busquem um esquema de segurança

autônomo para os países da região. No entanto, parte de interesses já estabelecidos e busca interagir com a agenda dominante no âmbito internacional propagada a partir dos EUA. Sem dúvida, o narcotráfico e sua ligação com atividades ilícitas, financeiras e de comércio ilegal de bens e armas, são questões fundamentais de segurança interna para vários países da região e devem figurar na sua agenda

política nacional e, consequentemente, na agenda regional. No entanto, não são as únicas questões e se forem tratados internacionalmente dentro das fronteiras nacionais dos países, podem ensejar ingerências externas e oportunismos. 14 Em outubro de 2012, o ministro da defesa do Brasil, Celso Amorim fez um discurso na Bolívia (no aeroporto de Santa Cruz), na ocasião da entrega de um dos quatro helicópteros H-1H a serem doados para a luta contra o narcotráfico, no qual pregou a necessidade da América do Sul possuir uma política de cooperação dissuasiva para proteger seus recursos naturais de forças adversas de fora da região. O ministro enfatizou que em meio às crises alimentar, energética e ambiental no mundo, os países da região devem estar preparados para dissuadir a forças adversas que pretendam desconhecer a soberania das nações para acessar esse patrimônio natural e que as estratégias nacionais de defesa serão mais eficazes quando possam contar com uma articulação a nível sul-americano. 15 Uma resolução do CDS, aprovada em reunião extraordinária em novembro de 2009, trata do problema do narcotráfico e da atuação de grupos ilegais na região, mas colocando como causa e responsabilidade do problema não

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somente os fenômenos e a postura dos governos da região, mas também os países consumidores:

Considerando la incidencia del problema mundial de las drogas y la corresponsabilidad de países productores y consumidores sobre la seguridad regional”. Posteriormente, em novembro de 2012, foi criado o Conselho Sul-Americano em matéria de Segurança Cidadã, Justiça e Coordenação de Ações contra a Delinquência Organizada Transnacional. Além de sua capacidade econômico-financeira para sustentar possíveis conflitos, a força militar de um país depende de sua base industrial de defesa e de sua tecnologia, de onde provém sua autonomia estratégica militar nos campos produtivo e tecnológico. Ao mesmo tempo, a base industrial de defesa tem papel importante não somente na força militar de um país, mas também socioeconômico, pois gera tecnologias que podem se espalhar e são aproveitadas para uso civil, aproveitadas por empresas (gerando competitividade) e pela população como um todo. De forma geral, em todo mundo, e especialmente nas grandes potências, é o Estado que comanda – diretamente ou indiretamente – a produção de armamentos, por ser considerado um setor estratégico. Analisando as importações de armas dos países da América do Sul encontramos o predomínio de países de fora da região: Rússia, Estados Unidos e Israel estão nas primeiras posições, respectivamente (dados de 2010). O Brasil é o único país sul-americano que aparece neste ranking, em oitavo lugar, com vendas inferiores à metade do terceiro colocado, representando menos de um quarto do segundo colocado, EUA, e menos de um quinto do primeiro colocado, Rússia. 16 O CDS apresenta a possibilidade de se trabalhar na construção de uma base industrial de defesa sul-americana, um complexo acadêmico-industrial-militar envolvendo os países, com um mercado e encomenda estatais dos países partícipes, com participação de suas empresas na geração de produção física e tecnológica. As encomendas e o apoio do Estado garantem que o setor de defesa possa ser um bom negócio e gerar tecnologias e produção próprias (nacionais) neste setor sensível e estratégico. Uma política de exigência de maior participação de conteúdo de empresas sul-americanas nas encomendas contratadas junto às empresas estrangeiras pode impulsionar inicialmente mudanças importantes. Isto deve ser combinado a uma política de incentivos para que empresas sul-americanas sejam implantadas e/ou desenvolvidas tecnologicamente. O Brasil vem trabalhando para estimular a

participação dos países da América do Sul no CDS (inclusive Guiana e Suriname), que deve ser o canal

e centro irradiador de uma agenda autônoma de segurança e defesa regional. Para tanto, o Brasil deve

apoiar em alguma medida à modernização da estrutura de defesa dos países da região que estejam em sintonia com um projeto de integração que promova a autonomia estratégica dos países da região. Iniciativas importantes são as de formação e treinamento militar, intercâmbio de conhecimentos, ação conjunta nas fronteiras e revitalização de equipamentos militares. Além dos recursos estratégicos no interior do continente, na Amazônia e na Bacia do Prata, que demandam políticas de industrialização e de segurança, os países da América do Sul devem atentar também para o seu entorno marítimo. A importância do Atlântico Sul compreende fatores de ordem global que afetam a segurança e o desenvolvimento dos países que compartilham seu espaço e a América do Sul. O Atlântico Sul tem importância para as rotas comerciais globais e seus recursos nos

fundos marinhos despertam interesses e disputa entre as grandes potências. O controle britânico sobre

o “cordão de ilhas” – que interconecta a América do Sul e a África – e o contencioso na plataforma

continental argentina e o arrendamento da Ilha de Ascensão por parte dos EUA, podem representar uma ameaça aos países do Atlântico Sul e da América do Sul, especialmente os atlânticos. Não podemos esquecer temas como a exploração de áreas marítimas internacionais, no Atlântico e no Pacífico, e a projeção para a Antártica. Assim, as manobras e a presença militar de grandes potências representam ameaças nas áreas atlântica e pacífica. São questões que ultrapassam interesses econômicos e militares imediatos e regionais, e podem ser encaradas do ponto de vista da disputa de poder e da dinâmica expansiva (violadora de soberanias e em busca de relações assimétricas) das potências tradicionais e emergentes no âmbito global, da discussão sobre a geopolítica dos mares e da jurisdição das águas internacionais, assim como da atuação de outros países na África e na América do

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Sul, que podem resultar em um quadro desfavorável. Para cuidar do Atlântico Sul, os países sul-americanos devem, além de fortalecer sua capacidade militar dissuasória, atuar em organismos internacionais e dialogar com grandes potências tradicionais e emergentes, além de se articular no âmbito regional, não só na esfera da cooperação econômica, mas principalmente no campo da segurança-militar. Tal arranjo deve envolver os países da África Subsaariana e da América do Sul. O Atlântico Sul se apresenta como um espaço em que ressurgem

contenciosos associados a disputas por soberania, propostas de extensão da plataforma continental, crescente fluxo comercial, crescentes atividades científicas e de exploração de recursos (inclusive de empresas de países de fora da região), e atividades no campo militar e da segurança. Assim, é um espaço em que também passam a repercutir divergências originadas no campo geopolítico global ou em outras regiões, protagonizadas por potências tradicionais e potências emergentes. Atualmente, o Conselho de Defesa Sul-Americano e Zopacas (ou ZPACAS, Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul) são os instrumentos adequados para a promoção da cooperação regional pela paz, segurança, desenvolvimento de capacidades militares e soberania territorial e de recursos no Atlântico Sul. Ao mesmo tempo, a Bacia do Pacífico vem se destacando como espaço mais dinâmico na economia global, onde se situam e projetam as economias que mais crescem desde o fim o século XX, registrando crescentes fluxos de comércio, investimentos e acordos internacionais, originados e ligados às economias da Ásia-Pacífico, incluindo a maior potência global, os EUA.

A geopolítica do Pacífico representa um enorme desafio à consolidação de um projeto regional

coeso envolvendo todos os países sul-americanos, e principalmente a um projeto que impulsione a plena utilização dos recursos naturais em favor de um desenvolvimento industrial conjunto e equilibrado. A Aliança do Pacífico – envolvendo Chile, Colômbia, Peru e México – leva a uma fragmentação entre projetos de integração regional na América do Sul, ao promover uma integração aberta e principalmente conveniente ao interesse dos EUA na região, e posteriormente das demais potências do Pacífico. Esses países da costa do Pacífico têm sido espaços de influência e servem como plataformas para a penetração de potências externas, não só os EUA, já que vêm firmando TLCs com vários países, incluindo a China. Esta é uma iniciativa entre economias neoliberais sul-americanas que não possuem complementaridades e tampouco políticas para estimulá-las, seus territórios não são integrados internamente e suas economias voltadas para exportações contam com um peso econômico significativo do setor exportador de commodities nos seus respectivos PIBs. Das

exportações totais destes países, é significativa a participação das exportações de bens primários: 89,2% no Chile (onde pouco mais de 60% das exportações totais são de minérios), 82,5% na Colômbia, e 89,3% no Peru (60% das exportações totais são de minérios). Seus principais mercados se encontram na região da Ásia-Pacífico. O Chile exporta principalmente cobre (quase 40% das exportações), a Colômbia exporta principalmente combustíveis minerais (66%) – petróleo e carvão – e o Peru exporta principalmente minérios (29%), pedras e metais preciosos (22%) e combustíveis minerais (12%) – ouro, cobre e outros minérios estão entre seus principais produtos exportados. A Colômbia é um aliado estratégico dos Estados Unidos na região que recebe ajuda comercial (ATPDEA) e militar (Plano Colômbia). O México está atrelado aos EUA pelo Nafta. Assim, tais países vêm aproveitando o recente período de alta do crescimento dos preços e volumes das exportações de commodities para impulsionar o crescimento de suas economias, mas não vêm utilizando suas divisas para promover mudanças estruturais, e sim aprofundando sua dependência em relação às exportações de baixo valor agregado e baixa intensidade tecnológica (commodities), dependente da demanda de marcados externos.

A Aliança do Pacífico é mais uma amostra que o pós-neoliberalismo não está consolidado na

região (assim como os debates dentro de instituições regionais mostram). Ainda, revela-se um projeto menor dentro do projeto mais amplo dos EUA para projetar sua influência no Pacífico e na América do Sul, onde a Trans-Pacific Partnership - TPP é o seu principal instrumento. O TPP é a pedra angular da política econômica do governo Obama na Ásia-Pacífico, atendendo os interesses de suas grandes

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empresas. É um projeto liderado pelos EUA para projetar seu poder, conter a China, conter o Brasil e deslocar suas iniciativas regionais, e fazer valer os interesses estratégicos estadunidenses e de suas empresas competitivas globalmente, explorando recursos naturais e atuando em ramos de maior valor agregado e intensidade tecnológica.

A China é sedenta por recursos naturais e pelas commodities presentes na América do Sul, como

produtos agrícolas (especialmente soja), minério de ferro, cobre e petróleo. A crescente presença econômica da China na região – através de investimentos, financiamentos, acordos e transações comerciais, e de suas empresas estatais –, buscando garantir o abastecimento dos recursos naturais necessários para a sustentação de sua estratégia de crescimento, urbanização, industrialização e aumento de seu poder militar, também representam enorme desafio à integração regional. Seguindo a estratégia de going global presente no décimo plano quinquenal (2001-2005) chinês, que encorajou as suas empresas estatais a investir no exterior, os investimentos chineses na América do Sul vão principalmente para setores de recursos naturais como cobre, soja, minério de ferro e petróleo. Importante notar que a China vem utilizando como instrumento a oferta de financiamento barato em

troca do acesso assegurado e de longo prazo a recursos estratégicos – conhecido como oil for loan. A crescente presença da China na região aprofunda o padrão de inserção dos países como economias voltadas para fora, produtoras e exportadoras de bens de baixo valor agregado e baixa intensidade tecnológica, e desconectadas entre si, dependentes e vulneráveis às oscilações da economia internacional.

O Mercosul vem passando por mudanças ao longo dos anos 2000, incluindo crescentemente na

sua agenda as dimensões social e produtiva, e tratando do tema das assimetrias entre os seus países membros. A criação do Fundo para Convergência Estrutural - Focem, em 2006, começa a tratar do combate às assimetrias, e o Programa de Integração Produtiva - PIP, criado em 2008, busca contribuir para o fortalecimento da complementaridade produtiva da região e especialmente das cadeias produtivas das Pequenas e Médias Empresas regionais e das empresas dos países de menor tamanho relativo da região. O Mercosul também vem se ampliando geograficamente. O Cone Sul representa o espaço mais desenvolvido e integrado da América do Sul e o ingresso da Venezuela pode contribuir para uma desconcentração do desenvolvimento e da integração regional, e para uma maior atenção para países e áreas de menor desenvolvimento socioeconômico, no norte da região, incluindo a região amazônica. Apesar de muitas iniciativas ainda não terem mostrado resultados efetivos, a ampliação geográfica do Mercosul e a inclusão dos temas sociais, produtivos e de assimetrias, dão vitalidade ao bloco e o colocam como um projeto contrário às iniciativas partidárias do regionalismo aberto e, sobretudo, ao projeto liderado pelos EUA na região. Negociando de forma articulada em organizações internacionais, com blocos e potências externas, os países da América do Sul podem auferir maior poder de barganha e maiores vantagens, inclusive

abrindo espaço para uma política pendular entre os diferentes interesses na região. A plena utilização dos recursos naturais da região em favor do desenvolvimento de seus países é a melhor forma de afastar cobiças externas e assegurar a soberania sobre tais recursos. Para isso, além de um projeto de industrialização conjunto, formando cadeias produtivas intrarregionais de maior valor agregado, também é importante uma adequada oferta e infraestrutura e financiamento. Não se deve perder de vista que há a necessidade de se fazer um verdadeiro inventario de recursos (continentais e marítimos) e de planejar e incentivar a industrialização conjunta levando em conta as assimetrias entre os países da região e o potencial de um mercado regional. Mas isso é sobretudo um projeto político, que depende da continuidade na política externa dos Estados, algo que não tem sido registrado com as mudanças de governos na região.

O Brasil, devido ao seu peso econômico e político, deve ter um papel especial promovendo uma

maior coesão política e o desenvolvimento econômico conjunto na América do Sul. O governo brasileiro tem apresentado um discurso condizente, colocado em pauta temas importantes e liderado iniciativas condizentes com tais tarefas. No entanto, ao longo dos anos 2000 o Brasil desenvolveu um

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comércio cada vez mais assimétrico, do ponto de vista quantitativo e qualitativo, com os demais países da região, sendo superavitário com todos os países (exceto a Bolívia, por conta do comércio de gás). O governo brasileiro tem feito um discurso em favor de um comércio mais equilibrado e buscado compensar o desequilíbrio atual com outras iniciativas, por exemplo, através de financiamentos do BNDES e, no caso do Mercosul, através de suas contribuições ao Focem. Embora utilize um sistema de risco e juros diferenciados para os países da região, a atuação via BNDES enfrente limites, visto que o estatuto do banco só permite que este financie bens e serviços de empresas brasileiras, e que este não adota nenhum critério político-estratégico na concessão de financiamento, por exemplo, se os projetos são favoráveis à integração regional ou ao desenvolvimento conjunto dos países. Para fomentar o comércio entre os países da região, devem ser intensificados a utilização do Convênio de Créditos Recíprocos - CCR da Aladi e o comércio em moedas locais, livrando a restrição do dólar e diminuindo custos de transação. O processo de integração, especialmente entre países periféricos, deve formar um amplo mercado regional assegurado e interconectado por um eficiente sistema de infraestrutura (comunicações, energia e transportes). Assim, será possível um maior aproveitamento das potencialidades geográficas (especialmente os recursos naturais) em favor do desenvolvimento socioeconômico dos países da região. Objetivos comuns podem cimentar um projeto político de integração: a soberania e utilização dos recursos naturais para industrialização conjunta, melhora da qualidade de vida das populações, e projeção de poder no sistema internacional. Isso passa pelo domínio espacial e pela exploração racional dos recursos e potenciais geográficos da região, o que por sua vez demanda um sistema de infraestrutura para dar suporte à exploração de recursos, domínio dos espaços e formação cadeias produtivas e de um mercado – interligado de forma eficiente. Por fim, o processo de integração na região permite tanto interpretações mais otimistas quanto mais pessimistas. As mais otimistas devem considerar o avanço no diálogo e na inédita aproximação entre países da região, colocando importantes temas em pauta e construindo uma institucionalização do processo de integração regional. As visões mais pessimistas partem da constatação de que atualmente há um processo de desintegração na região e sua divisão em duas agendas básicas. A razão desta fragmentação encontra-se na combinação entre: resultados assimétricos da maior integração entre o Brasil e os demais países nos anos 2000, a projeção de potências externas, e a postura liberal de países exportadores de commodities que, na ausência de um líder regional capaz de promover seu desenvolvimento, tendem a se alinhar com os interesses de potências externas, como mostra a iniciativa do Arco do Pacífico. A projeção destas potências externas se dá através de uma política externa coerente com seus objetivos estratégicos, mesmo que custos e obrigações tenham que ser assumidos pela sua consecução; enquanto a política externa brasileira não consegue ter a mesma coerência e nem pode perseguir um projeto nacional claro, pois este inexiste. As consequências não são de ordem puramente econômica, mas sobretudo de ordem político-estratégica. Se o Brasil não for capaz de promover uma agenda de integração e desenvolvimento para os países da região, assim como uma agenda de segurança para o seu entorno estratégico, a tendência à fragmentação de projetos de integração na América do Sul persistirá, abrindo espaço para a penetração de potências externas. Países que se encontram atualmente no Mercosul podem optar pela negociação de TLCs com EUA e China e ingressar na Aliança do Pacífico, como já sinalizaram Uruguai e Paraguai através de seu ingresso na condição de membros observadores. Ao mesmo tempo, o Brasil tem mostrado capacidade de manter um eixo sólido de parceria estratégica na região, com Argentina e Venezuela – envolvendo as maiores economias da região –, de ampliar o tratamento de temas na agenda regional e de promover a institucionalização da integração regional, através de suas iniciativas. Essas questões foram o foco do Simpósio 2 do XIV Congresso Internacional do FoMerco, intitulado “Desenvolvimento, industrialização, recursos naturais e a nova arquitetura financeira da integração no Século XXI”, coordenado por Frederico Katz. De forma ampla, o Simpósio

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debateu sobre as questões que interrogam as escolhas dos modelos de desenvolvimento no contexto de crise internacional e a busca de políticas alternativas na região, incluindo a polêmica primarização versus industrialização, a noção de desenvolvimentismo no mundo globalizado e as escolhas possíveis de utilização dos recursos naturais para o desenvolvimento integral. Ainda, o debate abordou a avaliação dos avanços e obstáculos na tentativa de criação de um sistema de financiamento do desenvolvimento integrado e consideração de novas propostas para o financiamento e o aproveitamento dos recursos energéticos como condição para a integração.

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DEPOIMENTO

Ricardo Canese

Los recursos naturales son fundamentales, son el futuro. Estamos viviendo en una sociedad de consumo que está acelerando el uso de todo tipo de recursos, bajo un modelo absolutamente insostenible. Este modelo está causando conflictos en todo el mundo, particularmente en el Medio Oriente, aunque también en todos los países que cuentan con recursos que hoy son cada vez más escasos y valiosos. El rol de los recursos naturales será cada vez mayor. América Latina tiene la suerte de tener una gran cantidad de agua dulce, energía, minerales, tierra fértil, biodiversidad y, en fin, todo tipo de recursos naturales de gran envergadura, potencial y sustentabilidad. Con la perspectiva cada vez más conflictiva en un futuro próximo, es importante que los recursos naturales se preserven, que se usen racionalmente, que no se estén exportando – saqueando – a bajo precio, sino que se busque agregar la mayor cantidad de valor posible, en el marco de un proceso de industrialización, de agregación de tecnología, incluso de desarrollo de tecnología propia y, de esa manera, entonces, convertir a toda nuestra región, América Latina, de unos veinte millones de kilómetros cuadrados y de 600 millones de habitantes, en una región verdaderamente integrada, apuntando a ese objetivo futuro, a ese futuro donde los recursos naturales van a ser fundamentales, a fin de tener capacidad de agregar valor, generar riqueza y distribuirla correctamente con gran equidad. Para que esto último sea posible, reforzar la soberanía de los pueblos sobre sus recursos naturales, en un marco de integración, va a ser fundamental.

En este punto, ¿cómo está la cuestión política y la situación de todos los recursos naturales en el Paraguay con el nuevo – no sé si le llamo – gobierno, pero, en fin, cómo está la cosa y también como está la participación internacional en Paraguay? Nos preocupa esta situación. Sí, preocupa. De hecho, el golpe de Estado del 22 de junio del 2012 fue dado por los sectores más oligarcas del Paraguay. Es cierto, ligados a transnacionales, al Imperio, desde donde conducen, precisamente, la política inversa a la de soberanía e integración aquí manifestada. Es decir, de extraer riqueza, no de generar valor agregado, no de generar empleo de calidad, no de generar condiciones de desarrollo, sino todo lo contrario. El actual Presidente Cartes ha sido uno de los principales gestores del golpe de Estado. Él asumió hace unos dos meses (agosto del 2013) y no solamente mantiene esa línea (que ya se implementó después del golpe de Estado durante el gobierno usurpador de Franco), sino que busca profundizarla. Hay una discusión, una ley de privatización muy dura, una ley neoliberal que busca privatizar todo, menos el aire; es el agua, son los ríos, las escuelas, los hospitales, las cárceles, la energía eléctrica, las telecomunicaciones, los puertos, los aeropuertos, los ferrocarriles y todo, absolutamente todo. Donde el país, el Paraguay, dejaría de controlar, dejaría de tener la capacidad de manejar soberanamente sus recursos naturales y donde el futuro no sería nuestro, sino de las transnacionales (el proyecto de ley en discusión en ese momento, en octubre del 2013, fue promulgado, en términos incluso más duros a los entonces en discusión, en noviembre del 2013, como Ley N° 5.102/2013). Justamente es lo que expresé en esta exposición. Es el modelo que hay que superar. Desde luego, lo que plantea ahora Carter está generando una reacción muy fuerte de los sectores sociales y democráticos. Hay una huelga nacional que está convocada para el 28 de octubre (del 2013) cuando la Cámara de Diputados trate la aprobación de esta ley de privatización, llamada de “alianza público privada” (huelga que se llevó a cabo con 50.000 personas en la calle; luego se hizo el 26 de marzo del 2014 otro huelga general, de aún mayor acatamiento en todo el país). Esto también es positivo, que la ciudadanía está reaccionando para que no se remate ni se malvenda todo lo que hay de

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valioso en nuestro país y que el Paraguay vuelva al proceso de integración con las demás naciones de América Latina. En ese sentido, es fundamental preservar los recursos naturales y también con una sustentabilidad ambiental y social.

Entonces, ¿el Paraguay hoy es una excepción si comparamos con Brasil, Argentina, Venezuela? Así es y para eso dieron el golpe de Estado, desplazándole al presidente Fernando Lugo en forma ilegal, para introducir una cuña en el proceso de integración, para introducir un portaviones en un proceso de integración, para dificultar ese proceso de integración. Nosotros, como pueblo paraguayo, vamos a seguir luchando y lo importante – lo positivo – es que la mayoría del pueblo se está dando cuenta. Hay muchas manifestaciones y, finalmente, va a volver a venir un cambio democrático popular en el Paraguay de aquí a poco.

¿Usted ha logrado vencer en las elecciones? Sí, fui electo parlamentario del Mercosur. En la lista del Parlasur del Frente Guasu tuvimos una votación muy buena, casi el doble de los votos que obtuvimos la vez pasada que fui electo en el 2008 y faltaron pocos votos para conseguir el doble de parlamentarios del Frente en el Parlasur. De hecho, los grupos progresistas han más que duplicado los votos (y porcentaje) que obtuvimos en listas legislativas cuando elegimos a Fernando Lugo. En el 2008, como grupo progresistas tuvimos menos del trece por ciento (13%) en la votación para el senado (3 senadores electos), en tanto que, en estas elecciones del 2013 tuvimos más del veintiocho por ciento (28%) para las mismas listas del senado; hemos más que duplicado la votación y tenemos hoy 11 senadores (5 del Frente Guasu, 6 de otros tres sectores progresistas), casi el cuádruple de parlamentarios de lo que obtuvimos en el 2008, aunque es claro que con 28 por ciento y 11 senadores (sobre 45 senadores) no se tiene mayoría, pero tenemos una base muy importante a partir de la cual crecer y llegar a un cambio en poco tiempo más en el Paraguay.

Entonces, ¿cuál es tu precisión en relación a Paraguay y el Mercosur sobre la cuestión de Venezuela? Sí, bueno, ¿qué hará el presidente Cartes? Es una incógnita, porque él, de hecho, responde a ese golpe de Estado que se dio para beneficiar a los intereses de Estados Unidos y de las transnacionales, que son contrarios a un proceso de integración de los pueblos, contrarios a preservar los intereses de los pueblos – como son los recursos naturales – y están en contra de un proceso de integración social. Nosotros, los sectores populares, progresistas y democráticos dentro del Paraguay, vamos a luchar por contrapesar y hasta impedir que se atente contra el proceso de integración y soberanía. De hecho, el pueblo está manifestándose en las calles, estamos exigiendo que se respeten los derechos humanos, los derechos sociales y que el Paraguay vuelva al Mercosur plenamente integrado (lo que se concretó en diciembre del 2013). Estamos apoyando un proceso de integración para beneficio de los pueblos.

¿No es un poco difícil? Es un poco difícil, claro, pero nosotros estamos luchando y ya hemos luchado muchas veces. Ahora, con más convicción, estamos seguros que esta vez el pueblo finalmente va a triunfar, tenemos esa convicción. Hemos crecido como izquierda en Paraguay, donde siempre fuimos débiles. Hay que entender que en el 2008 ganamos con Fernando Lugo, pero con una alianza con el Partido Liberal y una izquierda muy débil y totalmente desunida. Hoy sí, ya tenemos mucha más fuerza, como indicamos y, bueno, estamos acumulando fuerza para que se produzca el cambio en Paraguay, a favor de la soberanía de nuestros recursos naturales y una integración que genere riqueza en todos nuestros pueblos, en poco tiempo más.

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ARTIGO

Sobre a arquitetura da integração no século XXI

André Calixtre

Inicialmente observo que é diferente a forma de investimento que a China faz com a América Latina e

com a África, e o que ela faz com o Leste Asiático. Neste último, há acordos de preferência comercial com baixíssimo grau de institucionalização regional e há uma dinâmica de expansão da China completamente distinta da expansão para as outras regiões. A China expande-se para o Leste Asiático com déficit comercial e espraiamento de cadeias produtivas, enquanto, para a América Latina, o que

se observa é um aumento da corrente de comércio – aumento de exportação e importação ao mesmo tempo – e do investimento externo, sem espraiamento de cadeias produtivas.

A Europa era tida como nosso caso clássico, o objetivo de integração antes da crise, mas essa

comparação sempre foi uma pista falsa. Pois a dinâmica da integração europeia tem um elemento que é fundamental que se manifesta de forma completamente distinta na integração latino-americana: a questão da soberania. A dinâmica da integração europeia é de compartilhamento de soberanias; sob liderança da Alemanha, mas um processo de compartilhamento. Isso é totalmente diferente do processo latino-americano, cujo processo é de constituição de soberanias. Então, como pode uma coisa ser comparável a outra? Eu nunca consegui entender isso.

A América Latina tem uma dinâmica própria porque está marcada pela especificidade do

subdesenvolvimento, tal como formulado na década de 1950 e implementado na década de 1960, desde as primeiras instituições latino-americanas. Nessa perspectiva, o subdesenvolvimento não seria autossuperável por um país só, sendo inevitável uma integração regional para se criar as escalas

mínimas e conseguir superar a questão tecnológica imposta pelo capitalismo central. Não se faz isso numa só nação. No entanto, as economias regionais pouco se integraram ao longo do período compreendido pelo nacional-desenvolvimentismo, ou seja, a estratégia histórica de superação do subdesenvolvimento por meio da industrialização dirigida pelo Estado ante um projeto nacional e a constituição de núcleos tipicamente capitalistas no interior das economias agrário-exportadoras em crise durante as grandes mudanças globais promovidas pelas Grandes Guerras. Qual foi a contradição dessa integração latino-americana nas décadas de 1960, 1970 e 1980? É que

ao mesmo tempo em que se construiu o discurso de que a superação do subdesenvolvimento só seria possível com a integração regional, o nacional-desenvolvimentismo é uma dinâmica de acumulação dentro das fronteiras nacionais, não está além das fronteiras. Então, ao mesmo tempo, o discurso fortemente integracionista convivia com a dinâmica de acumulação de capital desintegradora das economias, porque estavam se constituindo em planos nacionais, não em planos regionais. Esse modelo de integração dos anos 1960, 1970 e 1980 – que simbolicamente é o modelo da Alalc/Aladi – entra em crise no fim dos anos 1980 porque é o fim do modelo de acumulação do nacional- desenvolvimentismo. Essa crise do modelo nacional-desenvolvimentista também é uma crise da forma de acumulação nacional nos países subdesenvolvidos. A introdução da necessidade, pela acumulação de capital, de criar mercados regionais como pré-condição de inserção internacional é um motor que, no plano econômico, impulsionou a integração latino-americana nos anos 1990, mesmo sob o neoliberalismo.

O que os presidentes da década de 1990 falavam toda hora? “Nós precisamos fazer a Alca, a Alca é

inevitável, mas antes temos que integrar nosso mercado regional”, como se fosse uma etapa, o que é exatamente a teoria da geopolítica da globalização, da contradição entre globalização e regionalização, da globalização financeira e regionalização de mercados; é exatamente a condensação

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disso numa experiência concreta que formou, por exemplo, o Mercosul. Não é por menos que por essa lógica de mercados regionais vai-se da discussão latino- americanista para o sul-americanismo, por uma questão de proximidade, de vantagens comparativas. Ou seja, cada vez mais a lógica dos negócios vai impregnando o processo de integração e essa foi a máquina dos anos 1990, porque de fato havia uma mudança na dinâmica de acumulação do capitalismo periférico pós anos 1980, pós crise do modelo do nacional-desenvolvimentismo. Esse

novo modelo, de integração liderada pelo capital, e não mais de integração liderada pela política – grosseiramente falando – de 1990 para cá, pelo menos até a crise do neoliberalismo, foi um modelo basicamente de abertura de mercados, de criação de mercados regionais, porque isso seria a condição para a integração hemisférica.

A questão é que o modelo neoliberal não foi desintegrador, ele foi um modelo integrador, esse é o

grande paradoxo dos anos 1990. Por quê? Primeiro porque todo mundo adotava a mesma política macroeconômica; era uma péssima política macroeconômica, mas todo mundo tinha a mesma. Todo mundo tinha âncora cambial, controle da inflação, restrição monetária, era uma beleza. Os preços relativos estavam dolarizados, isso criou um horizonte de cálculo para o capital que facilitou muito o processo de integração. O problema disso tudo foi termos uma integração totalmente voltada para a dinâmica do mercado, ou seja, um processo, em essência, gerador de desigualdades. Portanto, eu não concordo com a ideia de que a América Latina, ou melhor, a América do Sul tenha-se desintegrado nos anos 1990, em termos econômicos não foi isso que aconteceu. Essa integração mudou profundamente sua dinâmica nos anos 2000, e aqui está uma nova contradição: a todo momento as instituições que foram montadas mesmo durante o período neoliberal são instituições, como o Mercosul, que constituíram soberanias, e não relativizam soberanias, pela própria estrutura de decisão, a estrutura de negociação e a dinâmica de funcionamento dessas instituições – que não tem nada a ver com a Europa, nada a ver com a história europeia. A estrutura sul-americanista sobreviveu à crise do neoliberalismo, mas é totalmente ressignificada. Por exemplo, o que é uma união aduaneira nos anos 1990 acaba tendo um significado nos anos 2000 completamente diferente, mas é a mesma união aduaneira. Uma união aduaneira nos anos 1990 consistia nos passos da integração: para se chegar ao mercado comum era preciso ter uma união aduaneira com uma tarifa externa comum, e assim por diante, aquele procedimento de manual

porque é preciso liberalizar os mercados para criar o mercado regional. A união aduaneira nos anos 2000 significava criar um espaço comum de crescimento, o avanço da acumulação, regular esse processo e, mais recentemente – principalmente depois da crise de 2008 –, consolidar uma união aduaneira no Mercosul significa construir um instrumento regional de regulação comercial. Por quê? Porque ao unificar as listas de exceções, ao unificar a tarifa externa comum, ao unificar as arrecadações aduaneiras, consegue-se criar um mercado regional capaz de proteger-se da concorrência internacional.

A mesma coisa sobre o financiamento. Foi pensado o Banco do Mercosul, aí vira o Focem - Fundo

de Convergência Estrutural, e hoje a convergência estrutural não basta, é preciso ter um banco de fomento do investimento, daí a necessidade de criar o Banco do Sul, que é uma instituição que ainda não está em operação, inclusive falta a ratificação do Brasil, mas que foi criada como uma forma de avançar na integração do mercado. São as instituições neoliberais que estão avançando? Não. São as instituições dos anos 1990. O sentido delas é que está sendo alterado. É totalmente diferente usar o Mercosul nos anos 2000 do Mercosul nos anos 1990. Entender essas diferenças para mim é fundamental, porque uma coisa é fazer a discussão da integração regional no começo dos anos 2000, quando se está numa crise do neoliberalismo, numa mudança de valores; hoje é o sucesso da década de 2000 que nos desafia, e não mais o fracasso da década de 1990. No meu entender, esse é um horizonte de pesquisa muito profícuo, principalmente para quem está no governo e se quiser fazer uma discussão consequente da política

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externa brasileira em relação à integração regional.

ARTIGO

Desenvolvimento dos recursos naturais como eixo dinâmico da integração regional

José Carlos de Assis

Uma estratégia de desenvolvimento industrial dos recursos naturais na América do Sul, desde a extração até a comercialização, deve levar necessariamente em conta quatro estágios específicos, a saber:

1. Exploração dos recursos primários;

2. Transporte/logística para os centros de exportação ou processamento;

3. Industrialização na própria região;

4. Comercialização interna e externa.

Desses quatro estágios, três – 1, 3 e 4 – são autofinanciáveis. Um deles, porém, fundamental – infraestrutura de transporte – implica financiamento público a fundo perdido já que, como ocorreu e ainda ocorre em todos os países industrializados avançados, redes de transporte básico constituem, em quase sua totalidade, encargos do setor público, e funcionam como agentes estruturantes do desenvolvimento dos demais setores econômicos e sociais. Em face disso, este texto trata, inicialmente, de uma proposição para o financiamento público do setor logístico regional para, posteriormente, abordar as sugestões para os outros três estágios assinalados.

O problema crucial no financiamento do desenvolvimento de uma infraestrutura regional é a

enorme assimetria econômica entre os países da América do Sul, o que se reflete em sua estrutura tributária grandemente diversificada. Em outras palavras, para a maioria dos países da região, é baixa a capacidade de geração de poupança interna para financiar o desenvolvimento, sobretudo a partir do setor público. É que, mesmo que haja possibilidade de financiamentos de projetos privados na medida

em que tenham razoável taxa interna de retorno, no setor público não há como alavancar grandes financiamentos para investimentos de infraestrutura pois eles requerem confiabilidade a longo prazo na redução de riscos e na efetiva capacidade de pagamento dos Estados. Em razão disso, estamos sugerindo que os países da América do Sul adotem um modelo de financiamento da infraestrutura regional que provou sua eficácia e viabilidade no Brasil, nos Estados Unidos e em vários países da Europa. Trata-se de um tributo sobre a comercialização de combustíveis vinculado ao financiamento da infraestrutura de transportes. Esse tributo, no Brasil, recebeu o nome de Cide - Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, sucedendo outros que historicamente incidiram sobre a mesma base e com os mesmos propósitos, e maior eficácia. O imposto vinculado ao investimento de infraestrutura de transportes, se aplicado em toda a América do Sul, seria a base de uma revolução na infraestrutura de transportes da região e no próprio desenvolvimento econômico.

É importante considerar que, não obstante a imensa necessidade e as grandes perspectivas que

decorrem da instituição do Banco do Sul, ele terá pouca relevância no financiamento da área estratégica de infraestrutura de transportes públicos sem uma base de garantia que transcenda os orçamentos nacionais gerais. É que os orçamentos são disputados por múltiplas áreas, e tornam-se

inconfiáveis para empréstimos bancários de longo prazo. Nesse sentido, a Cide regional funcionaria, trazida a valor presente, como uma garantia de poupança permanente facilitando as decisões de liberação de empréstimos pelo Banco.

A instituição desse imposto vinculado, a nosso ver, deveria partir de uma recomendação superior

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da Unasul a todas as nações dela integrantes. O estímulo para a adesão poderia vir – e esta é uma recomendação de nosso Instituto, sem consulta ao Governo brasileiro – de um esquema de financiamento dos projetos que implicasse um subsídio direto aos países menos desenvolvidos da região. Nesse caso, poderia ser criada uma regra pela qual, por exemplo, a participação nacional no financiamento de cada projeto seria proporcional ao PIB de cada país, e não à extensão do projeto em território nacional. Com isso, os países mais pobres seriam altamente beneficiários de todo o esquema em contrapartida da criação do imposto e seriam estimulados a adotá-lo. Uma vez equacionada, dessa forma, a estrutura de financiamento da logística regional (rodovias, ferrovias e hidrovias), seria dada continuidade à revisão da IIRSA no âmbito da Secretaria Geral da Unasul de forma a definir as ligações prioritárias na região. O objetivo último seria o desenvolvimento regional dos recursos naturais, podendo, porém, por período limitado de tempo e para efeito de capitalização dos empreendimentos, admitir uma limitada porcentagem de exportação in natura sobretudo por parte dos países mais pobres, desde que essa exportação esteja vinculada a projetos de industrialização a médio prazo. A projetada infraestrutura de transportes seria articulada aos projetos de industrialização que vierem a ser definidos a partir do mapeamento dos recursos naturais. Esse mapeamento deveria ser realizado em três níveis. Primeiro, a partir de informações já existentes que possibilitassem a realização de projetos imediatos de exploração. Segundo, mediante coleta de informações mais detalhadas que ampliem o conhecimento e uma quantificação primária dos recursos existentes. E terceiro, um levantamento pormenorizado, levando ao mapeamento dos recursos, cubagem das reservas, teor, etc., com vistas ao desenvolvimento a médio e longo prazo desses recursos. Sugere-se que, para tornar irreversível a agenda que foi aprovada pelos presidentes, ainda na gestão do atual Secretário-Geral, Alí Rodríguez, seja realizado o mapeamento no primeiro nível, indicando possíveis empreendimentos em torno dos quais se pudesse iniciar negociações de caráter prático. Uma vez definidos, conceitualmente, o empreendimento e a logística, seria proposto ao país sede do empreendimento um modelo empresarial para seu desenvolvimento articulado no âmbito do Secretariado-Geral da Unasul. Tratando-se de industrialização de recursos naturais, pode-se explorar a possibilidade de um acordo guarda-chuva estratégico com a China no sentido de atrair sua participação no capital e no fornecimento, em parte, da tecnologia industrial, em contrapartida de compromisso de importação dos produtos industrializados. A possibilidade concreta de um tal acordo se baseia na intenção já percebida da China de reduzir a expansão doméstica de transformação de produtos naturais por razões ecológicas e de consumo energético, o que deverá ser compensado por importações. A América do Sul, por seu lado, tem imensa folga na produção de energia, desde os recursos energéticos fósseis aos renováveis. Resumindo os elementos básicos dessa sugestão, teríamos: 1. Identificação e criação de projetos de industrialização de recursos naturais para consumo interno e exportação; 2. Desenvolvimento articulado ao item 1 de um grande programa de infraestrutura de transportes nos três modais (rodoviário, ferroviário e hidroviário); 3. Para financiar a infraestrutura de transportes, criação de um imposto vinculado ao consumo da gasolina e outros combustíveis nos países da América do Sul interessados em participar do programa; 4) para financiar o programa de industrialização, mobilizar a poupança privada regional e fazer um acordo estratégico com a China, vinculando participação de capital nos projetos a compromissos de longo prazo de importação. Esse programa deveria seguir rigorosamente as premissas de sustentabilidade ambiental e social. Nesse último caso, as empresas dele participantes teriam de responsabilizar-se pela qualificação da mão de obra necessária seja no período de construção, seja no período de operação. O custo de cada projeto deverá incluir todas as despesas com deslocamento ou prejuízos a populações locais ou bens públicos atingidos na fase de construção e de operação. O objetivo final seria reduzir as margens de atrito entre empreendedores, populações locais, trabalhadores e sociedade civil em geral.

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ARTIGO

Por una integración que integre, por un desarrollo que libere 17

José Félix Rivas Alvarado

El proceso de integración en América Latina enfrenta un escenario complejo que combina, por un lado, la consolidación de tendencias en la economía mundial las cuales configuran cambios estructurales importantes; y por otro, el reacomodo de las propuestas basadas en el libre comercio,

que cuentan con el apoyo de las instituciones financieras internacionales – IFI, que lejos de perder influencia con la crisis económica mundial, salieron fortalecidas.

La viabilidad de las alternativas de integración progresistas que promueven grados de desconexión

con la arquitectura económica y política dominante, basadas en la cooperación y en la consolidación de un polo de poder regional, enfrenta una contrarrevolución conservadora que ha renovado su discurso para continuar justificando su acoplamiento subordinado con la integración dependiente.

En estos momentos, es fundamental profundizar la discusión sobre cuatro temas estrechamente

relacionados: el modelo de desarrollo, la industrialización, el papel de los recursos naturales y la

integración regional. Esta discusión es de gran utilidad para la orientación de los procesos sociopolíticos que reivindican el derecho de trazar un camino independiente y soberano.

El debate sobre la integración regional nos conduce inevitablemente a contrastar las diferentes

opciones de desarrollo, y el debate sobre el desarrollo nos lleva a la discusión crítica sobre el tipo de

matriz productiva y el papel del manejo de los recursos naturales y de la integración financiera en esa estrategia. Actualmente en América Latina, las opciones de “desarrollo” conforman un collage de visiones, que van desde aquellas que se alinean con el paradigma dominante impuesto por las IFI, hasta las propuestas que plantean cambios radicales en el modo de vida que ha impuesto el capitalismo en nuestros países. En esta última perspectiva, podemos ubicar las experiencias que rescatan la opción por el socialismo y aquellas propuestas del buen vivir/vivir bien 18 . Por supuesto, entre estos dos polos existen matices, como la propuesta de “integración productiva regional” basada en la reafirmación de la reprimarización como una tendencia “natural”, es decir inevitable, de la actual división internacional del trabajo. En este último nicho, se ubican algunos enfoques, entre los cuales destacan: el resucitado “regionalismo abierto”, las propuestas neodesarrollistas y el énfasis que han tenido recientemente los planteamientos que promueven la inserción eficiente en las cadenas de valor internacional.

A pesar de que el paradigma oficial de desarrollo, difundido por las IFI, todavía es el

predominante; y aunque este enfoque de desarrollo capitalista demuestra una gran capacidad para mutar y adaptarse a las circunstancias críticas de la economía-mundo, muy a pesar de eso, América Latina ha tenido una década donde la esperanza renació para ella y, desde ella, para todo el mundo. América Latina se convirtió en resistencia ante la hegemonía neoliberal construyendo rutas de liberación. Las lecciones de esta historia reciente nos ayudan a discernir entre la restauración del

pensamiento único o la continuidad del legado independentista.

El mapa actual: transformaciones en la economía mundial

Todo parece indicar que estamos ante un proceso de reacomodo del sistema económico mundial, que asentará una división internacional del trabajo funcional a las necesidades actuales de la acumulación

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de capital a escala planetaria. Estamos en la transición hacia un mundo donde se empezará a hacer énfasis en la re-organización mundial de la producción. El capitalismo necesita una huida hacia adelante, para garantizar su supervivencia y la consolidación de su economía mundial. Es una nueva fase del ciclo Kondratieff (MARTINS, 2013), en la cual los costos laborales y el acceso a la materia prima son determinantes, y el momento productivo se impone frente al momento financiero y especulativo. Luego de mostrarse la actual fase de la crisis capitalista mundial, los países centrales han logrado profundizar una tendencia a la reducción de las remuneraciones laborales. El ajuste fiscal, llamado eufemísticamente “consolidación fiscal”, ha logrado disminuir la participación de los ingresos al trabajo en las economías centrales en la Unión Europea, Asia y Estados Unidos. Por ejemplo, en este último país la remuneración al trabajo se colocaba por encima del 75% en los años setenta, mientras que Japón exhibía una participación laboral en torno a 80%. Durante los últimos 35 años, los trabajadores tendieron a disminuir su peso en la distribución factorial del ingreso. En 2010, se muestra como los pagos laborales, de ambas economías, mermaron su participación al ubicarse alrededor de 65%. Este mismo patrón de comportamiento lo registró Alemania, resaltando los años en los que la crisis económica mostró su mayor intensidad. Las remuneraciones al trabajo, de esa economía, padecieron la participación más baja en los últimos 40 años.

Gráfico 1. Participación ajustada del trabajo en la renta en economías desarrolladas. Alemania, Estados Unidos y Japón 1970-2010.

desarrolladas. Alemania, Estados Unidos y Japón 1970-2010. Gráfico 2. Tendencias en el crecimiento de los salarios

Gráfico 2. Tendencias en el crecimiento de los salarios promedio y la productividad laboral en economías desarrolladas (Índice: 1999=100)

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La comparación entre los ingresos salariales y la productividad laboral en las economías de la

La comparación entre los ingresos salariales y la productividad laboral en las economías de la tríada, representada por países desarrollados más grandes (Estados Unidos, Japón y Alemania), muestra un proceso de ampliación de la brecha entre ambos indicadores desde comienzos del presente siglo (BCV, 2013a). Es decir, el ajuste en los mercados laborales de estas economías traza un comportamiento altamente regresivo. Los trabajadores de los centros capitalistas más desarrollados retroceden, cada vez más, en la distribución de la torta que ellos contribuyen a producir. El capitalismo mundial, muestra claramente su propensión a la desigualdad en el mismo seno de las economías dominantes, y alcanza eficientemente su meta de abaratar el costo laboral. El progreso de aquellas economías que son tomadas como “ejemplo a seguir” del desarrollo capitalista, está acompañado de un sesgo altamente regresivo contra los auténticos creadores de riqueza La crisis económica mundial, develada en 2006, consolida una tendencia que muestra un progresivo rezago del crecimiento de los ingresos de origen salarial con respecto al crecimiento de la productividad laboral. Una de las principales premisas sobre la cual descansa la concepción de equilibrio neoclásico, es desnudada con la crudeza de la realidad capitalista: los incrementos salariales no acompañan, con la misma intensidad, al crecimiento de la productividad de los trabajadores. En lo que va del presente siglo, en las principales economías industrializadas, la brecha entre la compensación salarial y la productividad laboral se ha ensanchado, especialmente durante la crisis en la cual los sueldos y salarios se han estancado. Según la OIT, los salarios han aumentado a una velocidad muy pobre, lo que explica la alta conflictividad social. Este proceso acentuado de regresividad en la distribución del ingreso significa un abaratamiento de los costos laborales en los centros. Por otro lado, los precios internacionales de los alimentos y de los commodities que sirven de materias primas, han mostrado una tendencia creciente, especialmente, por la influencia de la financiarización en la fijación especulativa del precio de estos productos. Esto significa que los centros tienen que aprovechar la ventaja que implica la reducción de los costos laborales en sus territorios, y a su vez, garantizar el acceso a las materias primas, particularmente, aquellas vinculadas con el funcionamiento vital del “gran autómata”, tal como definió Carlos Marx el aparato productivo-industrial desplegado en la geografía mundial. Nos referimos en este último caso, a los productos energéticos como el petróleo y a insumos fundamentales para las industrias de alto valor agregado tecnológico, en este último caso destacan los

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minerales estratégicos (BRUCKMANN, 2013).

Gráfico 3. Índice de precios de alimentos de la FAO. (Anual)

3. Índice de precios de alimentos de la FAO. (Anual) Gráfico 4. Precio del Petróleo, Plata

Gráfico 4. Precio del Petróleo, Plata y Oro

FAO. (Anual) Gráfico 4. Precio del Petróleo, Plata y Oro Ciertamente, ante el estancamiento de la

Ciertamente, ante el estancamiento de la economía mundial, sobre todo de Estados Unidos como la principal potencia; las limitaciones que está enfrentando la opción bélica liderada por el complejo industrial-militar; los límites de la estrategia de financiarización y el predominio del capital financiero parasitario, se impone una posible salida para impulsar el crecimiento sobre la base del comercio mundial. Pero el campo de batalla del comercio es, en el fondo, la expresión de los cambios en el

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núcleo principal del sistema, la lucha por el predomino comercial presupone que lo fundamental son las transformaciones en el ámbito de la organización de la producción a escala planetaria. Para consolidar este reacomodo en la división internacional del trabajo, el sistema capitalista requiere hacer un aprovechamiento creciente y acelerado de los recursos distribuidos espacialmente en el globo terráqueo y, al mismo tiempo, asegurar la acumulación de excedentes en los centros (BCV,

2013b).

En los principales ejes de los centros del sistema, se consolidan tres grandes concentraciones de capital y progreso tecnológico: Estados Unidos, Unión Europea y Japón. Mientras que en la semiperiferia, esta concentración refleja grados menores de agregación. La CEPAL identifica estos ejes como “grandes fábricas” que lideran la organización de la producción de mercancías a escala mundial (CEPAL, 2013). Si incluimos a China en estas zonas de agregación como una semiperiferia de alto escalón (DOMÍNGUEZ, 2012) y, por tanto, de gran influencia en Asia y en el mundo, tenemos cuatro núcleos fundamentales del proceso mundial de acumulación de capital y concentración del progreso técnico. A partir de esa base, se estructuran lo que se ha denominado “las cadenas globales de valor” – CGV que recorren todo el planeta enlazando los centros con las periferias y las semiperiferias. En esta relación de dependencia sistémica, destaca el protagonismo de las corporaciones transnacionales, quienes comandan este proceso, donde las cadenas globales de valor constituyen un sistema productivo internacional organizado para optimizar la producción, así como el mercadeo y la innovación, “[…] localizando productos, procesos y funciones en diferentes países, buscando beneficios por diferencias de costo, tecnología y logística, entre otras variables” (PITTALUGA, 2013). Este sistema busca por tanto, compatibilizar, junto con la concentración de capital y tecnología, la provisión de materias primas, energía y mano de obra. La organización productiva del mundo, basada en las CGV, va a tener una influencia definitiva en los procesos políticos de integración regional y en las propuestas de desarrollo de los países involucrados. En el seno de los esquemas de integración, como Unasur, se empiezan a imponer propuestas de “integración productiva”, basadas en una visión subordinada, asumiendo pasivamente la necesidad de adecuación a esas cadenas globales de valor. Esta concepción “porteriana” 19 de la integración al comercio internacional, tiene como base una razón pragmática, en virtud de que -en el mundo real- las grandes negociaciones de acuerdos, comerciales y de inversión, se desarrollan sobre la base de la inserción en las cadenas de valor. Los protagonistas principales de estas negociaciones son las grandes corporaciones transnacionales que ejercen su lobby directamente o a través de los representantes comerciales y de inversión de los Estados en los que se concentra la propiedad del capital de estas empresas. La integración económica regional se consolida como un coto de caza de las compañías transnacionales cuya planificación corporativa, basada en las CGV, se impone sobre la estrategia nacional de los Estados nacionales involucrados en los esquemas de integración. La transformación del patrón de acumulación mundial se corresponde con algunas tendencias que se han gestado en los últimos años en América Latina: la reprimarización; la propensión crónica y perniciosa a la exportación neta de dólares; el debilitamiento de los aparatos industriales/productivos; y la persistencia de la desigualdad (RIVAS, 2011) que acompañan a los modelos de desarrollo exógenos sustentados en patrones de acumulación basados en “impulso de ganancias” (BHADURI, 2009). Es una prioridad analizar los impactos en la periferia (y en la semiperiferia) de estas transformaciones en la división internacional del trabajo. Entre estos cambios estructurales, en nuestras realidades latinoamericanas, destaca la consolidación de una tendencia expresada en economías donde se consolida el monocultivo exportador a gran escala, construyendo sociedades basadas en la producción y distribución de una renta de la tierra, que se acompaña de patrones de consumo que configuran modelos soja-shopping u oil-shopping. Igualmente, desde el punto de vista de los marcos macroeconómicos, al basar su crecimiento en

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este modelo de desarrollo, las economías latinoamericanas terminan en una carrera por acumular reservas internacionales, que constituyéndose en una ventaja para enfrentar las fases adversas de la actual crisis mundial, paradójicamente alimentan la vulnerabilidad de sus economías, en la medida en que son presas de la volatilidad de un mercado de productos primarios altamente financiarizado. Esta ruta conduce al retorno de esquemas de política económica regresivos, basados en la atracción de la inversión extranjera directa, es decir, políticas monetarias sustentadas en altas tasas de interés para atraer los flujos de capitales externos. Lo anterior se constituye en un “cepo cambiario”, que afianza modelos de desarrollo en los cuales la política económica entroniza mecanismos de conexión subordinados y dependientes con los centros capitalistas. Lo que le ha deparado a aquellos países de América Latina que, obedientemente han seguido la fórmula mágica de las Instituciones Financieras Internacionales (crecimiento = comercio + inversión extranjera directa + endeudamiento externo) es una bonanza exportadora basada en un dependencia primaria y el aumento de las brechas de desigualdad y pobreza.

Los retos de la integración y el desarrollo en América Latina y el Caribe

En esa nueva realidad, la región tiene que enfrentar las formas de inserción a esa economía-mundo que está en pleno proceso de mutación. Si esta inserción profundiza la dependencia o, por el

contrario, abre una ventana de oportunidades para consolidar los procesos nacionales de desarrollo y

la conformación de un bloque de poder (a través de la integración regional), con mayores grados de

autonomía, dependerá de las opciones político-estratégicas de los modelos políticos y de desarrollo planteados por los diversos países que conforman la región. En este contexto, el multilateralismo que desplegó su predominio desde los noventa, con el deseo de convertir al mundo en un gran mercado, libremente controlado por las reglas de la OMC, parece mostrase ineficiente e inútil. Se abre el espacio para el bilateralismo, para los acuerdos comerciales entre países o entre regiones, imponiendo sus propias reglas de libre comercio. Los Tratados de Libre Comercio - TLC germinaron y brotaron en la superficie regional,

acelerando el proceso que, bajo el anterior esquema y ante procesos de integración previos, se resistía

a cambiar. Este es el mundo y el tiempo de los acuerdos transpacífico y transatlántico, y el posible

acuerdo entre Estados Unidos y la Unión Europea. Ya no es el tablero que enfrentó Chávez, Kirchner y Lula cuando derrotaron al Alca en Mar del Plata en el año 2005. La Unasur tiene un camino menos despejado, en relación con el momento de su nacimiento. A pesar de que, junto con la Celac, ha demostrado el poder de la soberanía de los pueblos, neutralizando las tensiones políticas producidas por la injerencia de las potencias extranjeras, la contrarrevolución imperial se ha encargado de minar la Unión, y colocó pequeñas Alcas - TLC y ahora está intentando hacer una detonación en cadena. Por tanto, los retos de los esquemas de integración emergentes tienen que ver con el manejo de las contradicciones involucradas en las diferentes visiones o modelos que representan a los gobiernos participantes. Dentro de la región, esta confrontación de modelos se expresa, en forma vital, de la siguiente manera:

modelos se expresa, en forma vital, de la siguiente manera: A las propuestas progresistas de procesos

A las propuestas progresistas de procesos de complementación productiva que apoyen las políticas nacionales de desarrollo sobre la base de una integración regional, se les oponen los procesos de inserción internacional dependiente. Basados en el desarrollo de cadenas de valor globales, que apuntan a desvalorizar la capacidad productiva nacional en la medida en que se alejan de opciones que promuevan la diversificación, independencia, y una mayor autonomía del dólar y la arquitectura financiera internacional dominante;

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De este modo, el modelo de desarrollo dependiente privilegia al capital global sobre las políticas nacionales de desarrollo e industrialización; es decir, enfrenta al Capital Global con el Estado nacional;Desde la perspectiva neoliberal de la integración, el mercado externo subordina al mercado interno; la

Desde la perspectiva neoliberal de la integración, el mercado externo subordina al mercado interno; la planificación trasnacional acorrala a la planificación nacional y la somete a sus exigencias;es decir, enfrenta al Capital Global con el Estado nacional; Esta última contradicción, la planificación de

Esta última contradicción, la planificación de las transnacionales por encima de la planificación nacional, aunque se da mayoritariamente entre una empresa extranjera y el Estado nacional, también puede ocurrir con los actores institucionalmente definidos como “nacionales”. La empresa corporativa encargada de la actividad minera o petrolera, puede adquirir gran autonomía del Estado nacional y enfrenta su estrategia como una “corporación mundial” distanciándose del interés nacional;a la planificación nacional y la somete a sus exigencias; La integración tiene que enfrentar la

La integración tiene que enfrentar la contradicción entre desarrollo y medio ambiente, que en el fondo es la contradicción entre capital y naturaleza. El modelo de desarrollo promovido por las IFI, al dar un protagonismo principal a las empresas transnacionales, cumple con la función de someter la extracción y comercialización de los recursos naturales a los objetivos de la acumulación de capital a escala mundial, en menoscabo de los objetivos de reproducir la vida humana y conservar la naturaleza;mundial” distanciándose del interés nacional; En este contexto, los defensores de los modelos de

En este contexto, los defensores de los modelos de integración subordinados, apoyados por la burocracia de las instituciones financieras regionales, suelen presentar a la inversión en infraestructura, como una necesidad neutra a estos intereses transnacionales. Sin embargo, los grandes proyectos de inversión en infraestructura, deben responder una pregunta clave:de reproducir la vida humana y conservar la naturaleza; ¿están diseñados para satisfacer las necesidades de

¿están diseñados para satisfacer las necesidades de los pueblos (incluyendo la defensa del medio ambiente) o las necesidades de las cadenas de valor trasnacional?;

El diseño de la arquitectura financiera regional e internacional existente está orientada a favorecer, principalmente, los intereses del capital, y especialmente del capital financiero parasitario y especulativo, lo cual se encubre con la concepción de desarrollo que predomina en estos organismos regionales (Banco Interamericano de Desarrollo, Corporación Andina de Fomento). Uno de los obstáculos a superar, tiene que ver con un cambio sustancial en la orientación las estas instituciones regionales que adquirieron una gran autonomía con respecto a sus socios principales, al mismo tiempo que se subordinaron a la colonización impuesta por la corriente principal del pensamiento del desarrollo económico.o las necesidades de las cadenas de valor trasnacional?; Estas contradicciones se verán reflejadas en las

Estas contradicciones se verán reflejadas en las diferentes opciones que se encuentran – y enfrentan – en los diversos espacios de integración.

La década de la esperanza: diez lecciones de nuestro caminar

La comprensión de los cambios estructurales en la economía mundial, su impacto en nuestra región y las contradicciones en el seno de los procesos emergentes de integración, son aspectos fundamentales para vislumbrar las posibles rutas de la integración y el desarrollo. Sin embargo, es necesario complementar esta visión integral con un balance de la experiencia acumulada en estos últimos años por la corriente progresista y antineoliberal. A finales del siglo pasado, el neoliberalismo predominaba como paradigma. En los discursos de los candidatos presidenciales, los presidentes y en nuestras universidades, la hegemonía del pensamiento neoclásico del desarrollo era abrumadora. Cuando muchos pensaban que todo estaba perdido, surgieron gobiernos que se plantearon una

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estrategia en contracorriente al neoliberalismo; los movimientos populares experimentaron un auge que se hizo notar en la región. Gobiernos populares, nacionalistas y movimientos sociales antisistémicos proporcionaron aliento a la construcción de otra realidad. Hay elementos comunes en los cuales podemos resumir las lecciones de estas experiencias. Al tomar como referencia principal el caso venezolano, podemos distinguir algunas lecciones:

Lección 1: Recuperación del control soberano del recurso natural. Lo primero que se distingue de la experiencia venezolana es una política de recuperación del control soberano del recurso natural, en este caso el petróleo. La generación y la distribución de la renta estaban comandadas por sectores dominantes de origen nacional y extranjero. Se inicia una serie de reformas que logran la recuperación de la fiscalidad por parte del Estado. La estrategia neoliberal de apertura petrolera había reducido al mínimo el aporte fiscal del sector y había establecido un plan de inversiones que profundizaba la dependencia y la desnacionalización. El sabotaje petrolero, en el año 2002, permite la toma del control de PDVSA a favor de los intereses nacionales y populares. A través de ello, se profundiza la política petrolera internacional que permitió fortalecer el poder de negociación de los productores mundiales de petróleo agrupados en la OPEP. El control soberano del recurso natural y la confrontación por la renta que genera, es una de las dinámicas fundamentales del proceso de cambio.

Lección 2: Reorientar el destino de la renta hacia los sectores populares, los proyectos de infraestructura y los proyectos socioproductivos. La denominada “distribución popular de la renta” ha sido el principal esfuerzo de los primeros 14 años del presente gobierno. Esto ha permitido una mejora sustancial de los indicadores sociales. Una parte mayoritaria de la población que históricamente había tenido la peor parte de la distribución del ingreso, se convirtió en objeto y sujeto principal de las políticas socioeconómicas. Igualmente, se hace un gran esfuerzo de inversión en infraestructura social, productiva y de transporte.

Lección 3: Promover un modelo democrático-participativo, donde la participación activa de la gente se convierte en el objetivo y el medio de la propuesta de desarrollo. En el caso venezolano se hereda la institucionalidad de la IV República basada en la democracia representativa y el secuestro del poder político en un pacto de élites (empresarios, burocracia sindical, partidos pro-capitalistas, Iglesia y militares) que se conoce como el Pacto de Punto Fijo.

Lección 4: Orientar la estrategia económica hacia el fortalecimiento de los mercados internos. Este constituye uno de los principales retos de las propuestas transformadoras en la región. Se trata de la asunción de diversas políticas económicas heterodoxas y antineoliberales que se orientan a fortalecer la matriz productiva y, al mismo tiempo, apuntalar la capacidad de compra de los sectores populares. Destacan políticas que intentan proteger y relanzar los sectores productivos con una visión en la que se combina el fortalecimiento de la economía nacional y la integración regional; los esfuerzos por reorganizar los mecanismos de distribución de bienes-salarios, para quebrar la red oligopólica que controla la reproducción de la fuerza de trabajo. Estas orientaciones contracorriente tienen diferente intensidad y son minoritarias en la región. Además de estar amenazadas por el poder del capital financiero y las tendencias que se consolidan con la reorganización de la división internacional del trabajo, como por ejemplo la creciente reprimarización y desindustrialización.

Lección 5: Promover y apoyar experiencias productivas diversas y heterogéneas, en una búsqueda permanente de un sistema socioproductivo. En el caso venezolano, encontramos una diversidad de experiencias que van desde la producción agroecológica, las experiencias del movimiento

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cooperativo, las fábricas recuperadas y socializadas, las empresas de producción social, hasta el complejo industrial de Guayana proyectado originariamente para el desarrollo dependiente y exógeno, basado en la extracción primaria exportadora. Dando por sentada la explotación petrolera como herencia histórica de nuestro modo de articulación, desde el primer tercio del siglo XX, con el sistema capitalista mundial.

Lección 6: Promover el proceso de integración regional bajo criterios diferentes a la integración tradicional. Con la derrota del Alca, surgió el Alba y se promovió la Unión como concepto superior a la Integración. Un conjunto de iniciativas conforman una red de experiencias, entre las cuales encontramos Petrocaribe, la Unasur, la Celac, el Banco del Sur, que no sólo eran inexistentes a principios de este siglo, sino que sonaban quiméricas.

Lección 7: Enfrentar el poder mediático del capital nacional y trasnacional. Para avanzar en la transformación política y económica, se encuentran resistiendo el inmenso poder de los medios de comunicación privado, que secuestraron y privatizaron la idea de democracia, para convertirse en un ejército colonizador que ejerce una guerra de cuarta generación contra los gobiernos que están a favor de los intereses populares.

Lección 8: La defensa y valoración de la diversidad cultural. La defensa de la historia. Contra el lenguaje dominante/dominador involucrado en el término “desarrollo”; contra la carga etnocéntrica y modernizadora con que nació el concepto de desarrollo; contra la vieja y la nueva colonización que logró el control de nuestras mentes 20 , surgen opciones que parten de la herencia cultural de los pueblos originarios, como la propuesta del buen vivir/vivir bien, y otras propuestas vinculadas con una continuidad de la corriente histórica-social, heredada de las luchas de resistencia indígena y de la gesta independentista de Bolívar y otros héroes de la primera independencia, tal como se representa en el socialismo venezolano, bolivariano y chavista.

Lección 9: La existencia y acción de los movimientos sociales que cada vez tienen una influencia determinante en las “altas decisiones” que afectan al pueblo.

Lección 10: No hay receta única y general del “camino a seguir”. Cada experiencia, asume la construcción de sus alternativas sobre la base de su particularidad estructural, histórica, política y cultural. La convicción de seguir caminos trazados por nuestros propios ojos, más allá de constituir un acto de identidad, nos compromete a buscar propuestas que se alejen de los “modelos a seguir” impuestos por el poder del capital financiero y las instituciones internacionales financieras y de “desarrollo”. No ser ni calco ni copia de las miradas etnocéntricas de los dominadores. Las salidas deben ser la “creación heroica” de acuerdo con Mariátegui, el “inventamos o erramos” de Simón Rodríguez. Los asesores externos seguirán siendo foráneos porque su cosmovisión, sus deseos y sus intereses son ajenos a los deseos de nuestros pueblos y a la necesaria superación de capitalismo. Ante la crisis del pensamiento económico dominante (y dominador), urge rescatar el legado del pensamiento crítico latinoamericano.

La lucha por la independencia integral pasa por enfrentar y superar el colonialismo cultural. La búsqueda de referencias conceptuales y teóricas es una tarea permanente: no podemos hablar de un modelo, y eso es lo interesante que esta experiencia no puede ser encasillada en el laboratorio de un investigador ni en las clasificaciones inflexibles de los taxonomistas económicos. Es una tarea pendiente hacer un balance y sistematizar estas lecciones. En el caso venezolano hay algunas peculiaridades propias de su estructura económica, su historia política y del hecho especial, de que el presidente Chávez declaró el carácter socialista del proceso

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político en 2006. Dentro de este contexto, resalta la unidad Fuerza Armada-Pueblo-Gobierno. En lo que atañe a la particularidad relacionada con su estructura económica, la formación económica-social venezolana nos refiere a las economías capitalistas periféricas y dependientes, que cuentan con la captura de una renta internacional, en este caso particular, proveniente de la principal actividad productiva que la conecta con la economía mundial: la producción y la exportación de petróleo.

La presencia del petróleo, en el presente modo de articulación histórico con la economía mundial,

crea un problema estructural de mayor envergadura. Solo para ilustrar, lo que representa el petróleo en la economía venezolana, siendo apenas el 13% del PIB, aporta el 97% de las exportaciones petroleras y el 50% de los impuestos. La acumulación de capital en Venezuela se ha basado en la explotación capitalista, vale decir, en la apropiación privada de plusvalor, pero además cuenta con una renta internacional, capturada cada vez que se exporta el petróleo. Eso significa que la captura y privatización de la renta petrolera, por parte de los grupos capitalistas dominantes, se convierte en el centro principal del conflicto de poder y en grandes condicionamientos

en la estructura productiva. El interés del Capital representado en el poder de las empresas transnacionales entra en confrontación con el interés nacional y popular de desarrollo independiente. En el caso de Venezuela, a pesar de haber sido nacionalizada la industria petrolera en los años setenta, momento en el cual surgió PDVSA, 20 años más tarde, en la década en la que reinó el neoliberalismo, la estructura gerencial de esa época definió a PDVSA como una “corporación global” con objetivos propios. Esta perspectiva corporativa, justificaba una estrategia nacional

desnacionalizante y una política internacional subordinada con los intereses del capital trasnacional.

A escala nacional, apoyaba una política de apertura a la inversión extranjera, llamada en ese

momento la “apertura petrolera”, que de facto entregaba la empresa nacionalizada a los intereses transnacionales. En lo que respecta a la política petrolera internacional, la gerencia antinacional de PDVSA favorecía la estrategia de los países desarrollados, consistente en debilitar la capacidad de los productores para intervenir en la fijación de los precios petroleros. La experiencia histórica reciente de Venezuela, reafirma la convicción de que el cambio estructural no puede eludir la confrontación sociopolítica entre gobiernos que han optado por ser leales al pueblo y los representantes de los poderes fácticos nacionales e internacionales. Esto explica por qué, en 2002, la alta gerencia de la PDVSA controlada por los intereses del capital trasnacional, se unió al proceso de sabotaje económico y político del gobierno de Chávez. Al final, la contraofensiva chavista hizo posible que se tomara el control nacional de la empresa petrolera.

Nueva arquitectura financiera para un nuevo modelo de desarrollo

Así como en el pasado se criticó el sesgo comercial (mercadista) en que quedó atrapada la integración, actualmente hay que advertir sobre el sesgo meramente financiero. La arquitectura financiera es un soporte de la base real, productiva, no puede ser un fin en sí misma. Ciertamente, empezar a erigir las bases para el financiamiento del desarrollo, y lograr grados de autonomía frente al decadente dólar, es fundamental. Puede ser un comienzo, pero se debe tener presente que lo sustantivo es la producción y reproducción de la vida. Por consiguiente, discutir la Nueva Arquitectura Financiera - NAF, nos debe llevar a analizar el Nuevo Modelo de Desarrollo o el Nuevo Estilo de Desarrollo, o pensar el “otro desarrollo”. Desde sus inicios, la integración fue justificada como una herramienta para el desarrollo nacional. Tanto para la integración europea como la propuesta de la primera Cepal, la Cepal de la postguerra, era estratégico fortalecer los Estados nacionales a partir de complementariedades regionales. En el discurso de Raúl Prebisch, la integración regional surgía como un cuarto componente

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complementario con la estrategia de industrialización, la modernización de la agricultura y la mejora en las condiciones sociales. Partimos de la discusión sobre los posibles caminos que los países de América Latina tienen planteados para responder la interrogante sobre el modelo de desarrollo que orientará su estrategia política. En este sentido, la primera década del siglo XXI fue testigo de experiencias diversas, acotadas a los países que lideraron una corriente integracionista, que se diferenciaba de las anteriores en su mayor grado de autonomía. Sin embargo, es evidente que el paradigma neoliberal sigue teniendo un fuerte posicionamiento. En el caso de Venezuela, hay una voluntad política inequívoca que opta por el socialismo como salida. Sin embargo, esta opción “a la venezolana” no deja de compartir con el resto de América Latina algunas interrogantes vinculadas al modelo productivo. Entre estas interrogantes es fundamental pensar en: ¿cómo revertir el patrón de inserción internacional primario-exportador, que se profundizó durante el reinado del paradigma neoliberal, y que heredamos de los modos históricos de articulación con la economía-mundo? 21 Una respuesta tradicional al problema de la poca diversificación y la vulnerabilidad, es la industrialización. Entonces, ¿qué tipo de industrialización se llevará a cabo?; ¿es posible una industrialización “nacional”?; ¿es posible una industrialización verde?; ¿qué escalas de producción debe tener esta industria nacional? Estas interrogantes nos llevan a la opción de la integración regional, como necesidad de plantear proyectos nacionales enmarcados en estrategias regionales y mundiales. Pero, optando por la opción de promover la integración, es pertinente poner en duda el significado mismo de lo que entendemos como “integración”: ¿cuál integración?; ¿cómo se diferenciaría de la integración que ha desintegrado nuestra América Latina y el Caribe? Si la propuesta productiva es base de una opción más integral, que pone a los cambios políticos como prioridad. ¿Cómo se involucran o se incluyen los determinantes culturales e históricos en el desarrollo?; ¿cuáles son las formas de participación, propiedad y gestión del sector laboral y las comunidades?; ¿Cuáles son las estrategias, las políticas y los instrumentos para canalizar gran parte del ingreso nacional hacia los sectores sociales protagonistas del cambio?; ¿Cuál ha sido la experiencia de los gobiernos progresistas y los gobiernos radicales en este sentido?; ¿Cómo incidimos en revertir las tendencias regresivas en la distribución primaria de la riqueza y la renta?; ¿Cuál es el Estado que debe apuntalar esta transformación?; y, ¿Cuál es el sistema político? Desde el punto de vista de un gobierno radical: ¿cuáles son las políticas económicas, macroeconómicas y sectoriales que deben apoyar la transición hacia el socialismo? Consideramos que estas son algunas de las interrogantes claves que deben ser respondidas, no sólo desde el punto de vista académico sino desde la perspectiva de los movimientos populares y los gobiernos. Para resolver estos planteamientos necesitamos no sólo la praxis sino el pensamiento crítico, propositivo, es decir el pensamiento transformador. El pensamiento dominante está en una severa crisis de credibilidad, no solo porque se demuestra su incapacidad por interpretar la realidad sino además por su escasa capacidad para ofrecer soluciones. Nuestra academia fue colonizada por ese pensamiento dominante, y tiene el reto de su descolonización. En las escuelas de economía los alumnos suelen tener bajo el brazo manuales que no sólo ignoran nuestras realidades, sino que son incapaces de dar respuesta a lo que ocurre en la realidad de la periferia capitalista. La actual crisis económica se ha visto acompañada de una crisis en los paradigmas dominantes, apologetas del capitalismo como el único sistema posible en las etapas

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avanzadas de la humanidad. Aprovechemos ese cisma en la religión o en la ciencia-ficción dominante (HERRERA, 2012) para retomar la herencia del pensamiento crítico latinoamericano. Pero no sólo el pensamiento económico del desarrollo está en crisis, si fuera una crisis del pensamiento tendría una gran relevancia pero la discusión se limitaría al ámbito académico. Al analizar los hechos, también lo acontecido en las economías capitalistas que suelen venderse como “ejemplos a seguir”, demuestran que los mismos son un gran fraude mundial. Lo que está bajo escrutinio del pensamiento crítico es el modelo de desarrollo de la sociedad del “alto consumo” como la definía el etapista Walt W. Rostow; es que las sociedades y las economías que hasta ahora se vendían como la principal imagen a seguir, ese modelo de desarrollo de ellos, definitivamente no resuelve los problemas fundamentales de concentración de la riqueza y empobrecimiento generalizado. Un reciente estudio sobre la pobreza en Estados Unidos, muestra que entre 1993 y 2012, cómo el 1% más rico incrementó su ingreso en 86,6%, mientras que el 99% restante escaló 6,6%. Esto significó que el top 1%, capturó 68% del incremento que se dio en el ingreso. Pero, lo más sorprendente son los resultados después de la fase más recesiva de la crisis, de 2009 a 2012, el top del 1% incrementó su ingreso en 31,4%, mientras que el resto del 99%, apenas aumentó en 0,6%. Esto significó que el top 1%, aumentó su capacidad de captura de la mejora del ingreso en un 95%. El pensamiento dominante está en crisis, y la realidad demuestra descarnadamente como, el promocionado “modelo a seguir”, conduce a una sociedad cínica donde conviven funcionalmente la opulencia con la pobreza. América Latina tiene una ventaja para buscar caminos frente a la disyuntiva, tiene una herencia en el pensamiento latinoamericano y tiene la voluntad política de transformar la realidad. Solo así tomamos conciencia de que este tipo de foro (FoMerco), en el que se encuentran y se reconocen sectores dedicados al pensamiento, constituye uno de los espacios estratégicos para la construcción de ese futuro. La lucha por ese futuro, es una confrontación donde participan los gobiernos progresistas, el pueblo organizado, y, además, se decide a escala superestructural, en los espacios de la conciencia, en cada día de clase, en cada esfuerzo de investigación y en la defensa del pensamiento crítico latinoamericano.

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ARTIGO

A construção da teoria do subdesenvolvimento: um exame comparativo das contribuições de Nurske, Rostow, Myrdal e Furtado

Vera Alves Cepêda Rafael Gumiero

Introdução

Após a Segunda Guerra Mundial, um grupo pioneiro de teóricos, especialmente ligados ao campo da teoria econômica, se dedicou a interpretar a questão do subdesenvolvimento. Em situação similar ao papel desempenhado pela obra de Adam Smith em Inquirições acerca da origem da riqueza das nações, que expressou um momento de inflexão na compreensão da vida econômica (a dinâmica da moderna economia industrial, capaz da novidade da riqueza enquanto processo sistêmico, muito distante do anterior patamar da pobreza que caracterizou as economias tradicionais), o esforço disseminado internacionalmente, na primeira metade do século XX 22 sobre a estrutura e ratio do subdesenvolvimento pode ser entendido, também, como uma inflexão no conjunto da teoria econômica. O momento histórico que se abre com o fim das energias do modelo colonial (e sua sustentação via vocações primário-exportadoras para as colônias), com a reconfiguração da economia mundial via efeitos da II Revolução Industrial e surgimento de novos atores e interesses, com a emergência de inúmeras nações novas e independentes, lidaria com um problema econômico inédito:

as diversas situações estruturais no capitalismo mundial, como a pobreza, o subdesenvolvimento e o desenvolvimento. A experiência concreta, que demonstrava sem sombra de dúvidas, as diferenças de resultados do desenvolvimento capitalista (a divisão do progresso técnico, como apontado por Ricardo) impôs um tema de reflexão iniludível: a riqueza seria apenas a saída de uma economia pré-capitalista para uma economia complexa de mercado? Ou, a adoção da fórmula capitalista levaria – sempre – ao alcance do progresso e da riqueza? A realidade histórica, vivida em especial nas regiões econômicas afastadas do centro dinâmico do capitalismo, demonstrava que não. Haveria, então, mais elementos dentro da engenharia do capitalismo responsáveis pela produção de sistemas econômicos ricos (nos termos originais propostos por Smith, o liberalismo clássico e mesmo a resposta dinâmica e com crises dos neoclássicos) e um cenário pontuado por pobreza inamovível (como círculo de ferro) e situações intermediárias como o subdesenvolvimento? A resposta a esta nova inquirição exigiria um retorno aos elementos centrais da teoria econômica moderna, revendo sua lógica funcional e gerando uma revolução interpretativa. A aposta intelectual deste trabalho apoia-se nessa hipótese preliminar: da significativa mudança interpretativa provocada pelas variadas teses explicativas do subdesenvolvimento. Um segundo elemento importante do contexto deste trabalho é que no grande amplexo das teorias do subdesenvolvimento subsistem muitas distinções, embora um marco teórico comum. A identidade reside na aceitação do argumento de que o capitalismo pode se desenvolver sob uma forma assimétrica e que o atraso ou incompletude do desenvolvimento não é uma fase, mas uma situação funcional no sistema (sendo, portanto, um modus operandi e não um acidente de percurso). As diferenças aparecem nas inclinações das teses de autores, correntes e escolas, ora mais afeitas à explicação da “teoria da modernização”, ao estruturalismo mais centrado na estrutura econômica ou à

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incursão ao mix entre economia e instituições políticas (entre outras diferenciações subjacentes a esta ampla disputa teórica). Um último elemento importante na definição do argumento deste trabalho é que as distinções podem ser observadas como elementos estanques (que separam os autores, mesmo que estabelecendo nexos dialogais profundos), mas também podem ser analisadas como processo, como um leito comum de evolução e robustecimento do corpus mais amplo da teoria do subdesenvolvimento. Com este cenário de fundo, este trabalho pretende examinar os nexos estabelecidos entre um conjunto expressivo de autores na formulação da teoria do subdesenvolvimento: Walt W. Rostow, Ragnar Nurkse, Gunnar Myrdal e Celso Furtado. As teses desses teóricos foram formuladas em um clima de intenso trânsito de ideias entre os teóricos do centro capitalista (Estados Unidos, países da Europa) e da periferia (Brasil), o que permitiu não somente a difusão e recepção, mas também as transformações que a aplicação das teses geradas no centro capitalista gerou no contacto com a experiência e teorização nos países periféricos. Temos aqui como primeira hipótese condutora que a interpretação do subdesenvolvimento sofreu mudanças significativas segundo seu contexto de origem. Formamos, para efeito de comparação, dois blocos de autores: o primeiro com os três autores citados (Rostow, Nurkse e Myrdal) e um segundo bloco com a tese de Furtado. A justificativa para este agrupamento é da recepção das teses da tríade R/N/M na obra de Furtado, estabelecendo o leito e a filiação comum ao campo da teoria do subdesenvolvimento, mas que foi ressignificada fortemente por Furtado mediante o ajuste ao contexto histórico da periferia representada pelo Brasil na divisão internacional do trabalho na primeira metade do século XX. Pesam na diferenciação entre a obra de Furtado e da tríade R/N/M a maior ou menor proximidade com as teses da modernização, centradas nas condições econômicas, e a utilização da argumentação política (como explicação do subdesenvolvimento e estratégia de desenvolvimento). Outros elementos justificam a análise comparativa entre estes autores, aparecendo ao longo deste trabalho.

A circulação internacional das teses sobre o subdesenvolvimento

As teses de Rostow, Nurkse e Myrdal são praticamente coetâneas e foram produzidas em países centrais ou mais desenvolvidos entre a década de 1930 e 1960. O princípio que as rege é que o subdesenvolvimento é uma situação de estagnação econômica e que a superação desse fenômeno somente pode ocorrer pela via da industrialização – o take off teria ocorrido, mas estaria travado, impedindo a consecução da modernização econômica. Seriam importantes e fundamentais um conjunto de ações e medidas que impulsionariam as economias subdesenvolvidas em direção ao desenvolvimento. Estes autores, economistas que falam de instituições pertencentes aos países desenvolvidos, foram pioneiros na interpretação do atraso e dos obstáculos ao desenvolvimento de países não centrais. A tese comum apontava para disfunções no processo de transformação de economias que sofreram uma modernização parcial (como o efeito da forma capitalista primário- exportadora e a industrialização limitada da substituição de importações) em uma modernização completa. Itens como insuficiência ou incapacidade de investimento, limites na modernização do mercado interno, óbices na diferenciação e complexificação do sistema produtivo e mesmo o papel das instituições e estrutura social nesse processo foram apontados como dados explicativos de um capitalismo que não ocorreria natural e espontaneamente como fora o caso previsto como fórmula teórica original. O impacto dessas concepções e seu ajuste aos dilemas reais das economias periféricas (da América Latina, Ásia, África e Leste Europeu) abriu um caminho inédito para se pensar o processo de modernização fora das leis férreas do laissez faire liberal. Uma das consequências foi a interpretação da problemática do subdesenvolvimento e do avanço do capitalismo moderno na América Latina e no Caribe realizada pelo pensamento da Comissão

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Econômica para América Latina e Caribe - Cepal. Tal literatura aponta como fundamento o método histórico-estrutural evidenciando as particularidades do desenvolvimento latino-americano, ou o subdesenvolvimento, através da formação e reprodução de suas estruturas vis-à-vis à dos países desenvolvidos. Nessa frente de interpretação destacou-se Celso Furtado, que observando a economia brasileira apresentou uma refinada síntese do subdesenvolvimento na periferia.

A questão do subdesenvolvimento é posta como central na produção bibliográfica dos teóricos do

centro e da periferia em período muito próximo, e, com certeza, com altíssimo nível de circulação e recepção. Partimos da premissa do diálogo entre o grupo de teóricos do centro formado por Rostow, Nurkse e Myrdal e Furtado. A análise comparativa entre esses teóricos não é simples e exige algumas premissas. O balanço entre as teses de Rostow, Nurkse e Myrdal podem ser compreendidas no sentido de complementação ou de discordância entre as suas respectivas interpretações sobre o subdesenvolvimento, porém as suas ideias são conduzidas em um mesmo eixo analítico, ou seja, há consenso entre elas de que as mudanças econômicas desencadeiam um movimento linear que modifica a estrutura política e social e exige que elas sejam adequadas conforme as mudanças

materiais. A ideia de causalidade está impressa nessa relação de determinismo de decisões econômicas condicionarem o movimento das ações políticas, nas instituições. Na teoria furtadiana essa situação ocorre de forma diferente, as mudanças econômicas são consequências da decisão política implementada em instituições. A teoria do desenvolvimento surge da política, da conscientização das autoridades e instituições capacitadas para implementar uma política que parte do diagnóstico do subdesenvolvimento de cada país.

A análise comparativa das teses do subdesenvolvimento de Rostow, Nurkse e Myrdal com a teoria

do subdesenvolvimento (e de sua teoria do desenvolvimento) de Furtado permite que seja compreendido, a partir do diálogo e de seus resultados, um desdobrar explicativo com crescente valorização das decisões e instituições políticas na superação do subdesenvolvimento. Em conjunto e de forma comparada, é visível que a argumentação desloca-se das energias postas no campo/estruturas econômicas e passam, no caso de Furtado, a uma sobrevalorização das estratégias e impactos políticos 23 . As obras dos teóricos do centro que foram trabalhadas nesse artigo foram Etapas do crescimento econômico 24 (ROSTOW, 1960), Problemas de Formação de Capital em Países Subdesenvolvidos (NURKSE, 1953) e Teoria Econômica e Regiões Subdesenvolvidas (MYRDAL, 1956). Podemos afirmar que essas obras foram produzidas pelos seus respectivos autores balizadas por dois movimentos: o do diagnóstico do subdesenvolvimento e o do prognóstico para a superação desse fenômeno. A opção pela escolha desses teóricos do centro se justifica, em primeiro lugar, pela produção das suas teses como uma recusa aos postulados da teoria econômica clássica. Em segundo, inovam o repertório da interpretação da pobreza nos países marginalizados pela divisão internacional do trabalho distanciando dos postulados do laissez-faire. No balanço entre as teses desses teóricos, podem ser destacadas as suas interpretações sobre o subdesenvolvimento de acordo com os seus pontos de vista. Rostow apresentou a ideia de esquema faseológico histórico do desenvolvimento econômico, partiu da premissa de que a etapa de decolagem (take-off) na economia permitiria os países em atraso econômico dar o salto para a modernização da sua economia e, subjacente a esse movimento, as instituições acompanhariam as mudanças na esfera econômica. Nurkse sistematizou os conceitos de círculo vicioso da pobreza e o efeito de demonstração, o subdesenvolvimento para o referido teórico está encerrado a um sistema de causalidades, ou seja, a baixa produtividade na economia gera baixa renda para os trabalhadores, o que não permite a expansão do mercado interno, enquanto o efeito de demonstração influencia o padrão de consumo da elite na periferia a seguir o mimetismo do padrão de consumo das elites de países centrais, a impedindo de promover investimentos no setor de transformação, os seus lucros são direcionados para consumo de bens de luxo. Myrdal produziu a sua tese amparada pelo seu método da causação

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circular cumulativa e foi o primeiro autor a inserir a ideia de democracia como valor no repertório do prognóstico para o desenvolvimento. Diferentemente de Nurkse, Myrdal compreende que o círculo vicioso da pobreza pode produzir efeitos regressivos e progressivos em uma economia. A ideia geral em sua tese é a de que investimentos setoriais podem desencadear efeitos progressivos em uma economia, retirando as economias da estagnação ao espraiar a sinergia do crescimento econômico de uma região para outra. A relevância destes teóricos é a de que, antes dos anos 50, nenhum teórico no campo da economia dos países centrais 25 havia formulado, sistematicamente, uma tese do subdesenvolvimento. Nesse sentido, podemos afirmar que apesar das teses de Rostow, Nurkse e Myrdal apresentarem lacunas sobre a interpretação do subdesenvolvimento, juntas elas se complementam e apresentam importantíssima inovações e contribuições sobre a questão. Pela amplitude do pensamento de Celso Furtado e sua vasta produção sobre os temas subdesenvolvimento e desenvolvimento, este texto atém-se ao período de 1954 a 1967, à chamada primeira fase do seu pensamento 26 . As suas obras selecionadas foram: Formação econômica do Brasil (1959), Desenvolvimento e subdesenvolvimento (1961), A pré-revolução brasileira (1962), A dialética do desenvolvimento (1964) e Teoria política do desenvolvimento econômico (1967) 27 . Como contribuições centrais deste autor podemos destacar a diferença entre a formação do subdesenvolvimento e os obstáculos ao desenvolvimento e o papel da política na teoria política do desenvolvimento econômico (título de um dos mais importantes textos de Furtado).

O diálogo estabelecido entre esses teóricos do centro e Furtado obedecem a dois movimentos, que

podem ser compreendidos como justificativa pela escolha de Celso Furtado. O primeiro é a recepção dessas teses por Furtado, que se apropriando do esquema geral (dialogando ou divergindo dele), elabora um diagnóstico do subdesenvolvimento brasileiro. No segundo movimento, Furtado compreende que o subdesenvolvimento no Brasil possui características que permitem classificá-lo

como singular, tendo que, por exigência da análise, afastar-se bastante dos modelos de Nurske, Rostow e Myrdal, produzindo uma tese específica. Além da introdução e da apresentação geral, esse artigo está dividido em três seções. A primeira seção apresenta a análise das teses do subdesenvolvimento de Rostow, Nurkse e Myrdal. Na segunda seção apresentamos a inovação produzida pela teoria furtadiana sobre a questão do subdesenvolvimento. Finalmente, na última seção apresentamos a ressignificação produzida pela teoria do desenvolvimento de Furtado em relação ao discurso sobre o subdesenvolvimento interpretado pelos teóricos do centro capitalista (Rostow, Nurkse e Myrdal).

A emergência da tese do subdesenvolvimento: as contribuições pioneiras de Rostow, Nurkse e Myrdal

Uma leitura comparada e circunstanciada das teses de Rostow, Nurkse e Myrdal permitem apresentar alguns pontos de proximidade e de discordância sobre a interpretação do subdesenvolvimento.

A tese de Rostow (1960) foi elaborada pelo esquema faseológico do crescimento econômico, ou

seja, a trajetória para o crescimento econômico é única, deve necessariamente passar pelas cinco etapas do crescimento econômico: a) a primeira fase é a sociedade tradicional; b) seguida pela fase das pré-condições para a decolagem; c) a terceira fase é a decolagem (take-off); d) posteriormente, é a fase da maturidade e, e) finalmente, fase da era do consumo. O significado do conceito de subdesenvolvimento na tese deste autor apoia-se em uma ideia de atraso econômico como manifestação de uma situação ou estrutura de sociedade/economia de tipo tradicional (pré- capitalismo e comunidade). A sua concepção de atraso está colada à noção de especialização da economia dos países na agricultura, situação agravada pelas deficiências técnicas dos profissionais, pelos equipamentos obsoletos empregados na produção agrícola, pelo baixo rendimento auferido pelo produtor em sua colheita. O seu conceito de atraso é o estado de estagnação de economia pré-

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capitalista ou de subcapitalismo.

O conceito de decolagem (take-off) de Rostow é o eixo da sua tese e é caracterizado pela passagem

da economia da sociedade tradicional para a modernização das suas atividades econômicas, balizada pela industrialização em setores estratégicos da economia. Nesse sentido, é possível afirmar que

Rostow formulou a sua tese ancorada no esquema faseológico determinado por dois aspectos fundamentais: 1) no modelo de modernização centrado no padrão norte-americano, evidenciada nas etapas de decolagem, seguida pela etapa da maturidade da economia, movimento capacitado pelas inovações tecnológicas e pela etapa do consumismo de massa; 2) a economia assumiu posição privilegiada em sua tese, a mudança é projetada na sociedade por essa dimensão, inserida em uma

lógica reformadora conservadora, ou seja, dentro do status quo, renovação das elites no poder e das instituições com ausência de transformação na base da sociedade.

O conceito de decolagem de Rostow se remete metaforicamente a ideia de um avião que está

prestes a levantar voo, portanto, há pré-requisitos que antecedem esse movimento. Na tese do teórico norte-americano não é diferente, a passagem da etapa das pré-condições para a da decolagem deve ser

precedida pelo aumento da produtividade, amparada pela instalação da industrialização em setores estratégicos da economia e pelos investimentos externos como fonte de financiamento. O projeto de industrialização aposta em investimentos em setores estratégicos da economia, capazes de promover sinergia do crescimento destes setores para outros da economia (ROSTOW, 1960).

A tese de Rostow idealiza a industrialização como prognóstico para a saída dos países em atraso

econômico subjacente a implementação de um modelo de modernização arquitetado sob a batuta do Estado em setores estratégicos da economia. O crescimento da economia é a força catalisadora das mudanças na sociedade, exigindo concomitantemente renovação das instituições políticas de acordo com o movimento produzido pela economia. É a ideia da política se ajustar às transformações propaladas no campo da economia, compreendida como um processo de causalidade. Apesar do elegante modelo de fases produzido por Rostow, a sua tese foi a que se manteve mais próxima da teoria neoclássica da economia, se comparado às teses de Nurkse e Myrdal. Na interpretação do teórico referido os países apresentam como ponto de partida a sociedade tradicional como uma condição circunstancial, ou seja, o atraso não é resultado das suas estruturas econômicas, produzidas no processo de formação do país. O receituário para os países saírem do atraso são os investimentos setoriais na industrialização e a modernização das suas instituições. Rostow parte do pressuposto de que todos os países devam seguir as orientações oferecidas pelo seu modelo

faseologico, é a ideia de um caminho pré-moldado para o desenvolvimento. Para Rostow o capitalismo produz um único modelo de modernização, ficando fragilizado os diferentes processos e estruturas específicas do capitalismo em países subdesenvolvidos e desenvolvidos. As evidências que vão surgindo ao longo do processo de industrialização travada dos países periféricos irão reforçando o peso das peculiaridades e das diferenças entre estes dois grupos de países e exigindo o desenvolvimento de estratégias políticas e econômicas de acordo com a estrutura de cada país e não de maneira pré-moldada.

A tese de Nurkse (1957) aparece mais alinhada e próxima à realidade econômica e social dos países

subdesenvolvidos do que a de Rostow. Em seu diagnóstico os principais entraves para os países subdesenvolvidos são as desigualdades geradas pelo intercâmbio comercial e o problema de formação de poupança. O subdesenvolvimento é determinado pelo “círculo vicioso da pobreza” que é resultado da dificuldade em formar poupança e da especialização da economia na atividade agrária, que coloca

os trabalhadores em péssimas condições de emprego, os incapacitando de adquirir renda e formar poupança. Nesse sentido, o subdesenvolvimento está enclausurado em um sistema econômico que o retroalimenta, impedindo que esse círculo seja quebrado. O “efeito de demonstração” impede a formação de poupança e influencia o consumo da população em países subdesenvolvidos a seguir o padrão desempenhado em países centrais. Essa situação determina o aumento de consumo da população e os lucros dos empresários capitalistas são

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destinados a esse fim, o que dificulta os seus investimentos na modernização dos equipamentos para ampliar a produtividade (NURKSE, 1957). Diferentemente de Rostow que apresentou uma fórmula “acabada” para o crescimento econômico (as fases sucessivas e cumulativas), Nurkse (1957) avança nessa sistematização ao apresentar dois modelos de subdesenvolvimento, o dos países superpopulados e o dos subpovoados. Inaugura-se, assim, uma leitura mais complexa sobre vias do capitalismo em sua situação histórica real. Apesar desses dois modelos de subdesenvolvimento proposto por Nurkse apresentarem diferenças, elas possuem nuanças que permitem enunciar algumas características que colaboram para definir economias subdesenvolvidas. O círculo vicioso da pobreza é resultado da baixa renda da população e concentrada a mão de obra na produção agrícola. A especialização da economia em um único setor produtivo e a ausência de poupança da população revela o mercado interno reduzido. O efeito de demonstração dificulta os investimentos da elite na modernização da produtividade e na promoção da indústria, pois capta os seus lucros para direcioná-los ao consumo de bens de luxo. Nos países superpovoados, o subdesenvolvimento é caracterizado pelo “desemprego disfarçado”, que é um fenômeno de massa inserido em economias predominantemente agrárias e superpovoadas, o que resulta na poupança oculta. É um fenômeno determinado pela especialização da economia no setor agrário e inexistência do setor de transformação, poderia aumentar a oferta de mão de obra para descongestionar o seu volume no setor agrário. O desemprego disfarçado rural apresenta muitos aspectos diferentes ao desemprego industrial, o mais evidente é que não pode ser absorvido por meio da expansão monetária, torna-se ineficaz por causa da inelasticidade da produção agrícola. A poupança oculta se manifesta em países superpovoados, dada a concentração de trabalhadores nas atividades agrárias e que produz um efeito deletério nas condições de trabalho (baixos salários e desemprego dos trabalhadores), e na produtividade (a produção permanece imutável independentemente do número de trabalhadores) que não possui equipamentos modernos em sua cadeia produtiva. Nos países com escassez de população e especializados na agricultura o subdesenvolvimento é manifestado pela escassez na formação de capital, que é resultado da baixa produtividade de produtos agrícolas. O aperfeiçoamento das técnicas e dos métodos da produção agrícola promoveria condições para aumentar a produtividade e desocupar a mão de obra desse setor para ocupar postos de trabalhos nos setores de transformação e de serviços. O prognóstico de Nurkse (1957) para a saída do subdesenvolvimento é a industrialização. Diferentemente da estratégia setorial adotada por Rostow para o projeto de industrialização, Nurkse defende a tese do crescimento equilibrado como estratégia para ampliar o mercado interno e incentivar a produtividade (por meio do investimento estrangeiro) nos países subdesenvolvidos. O teórico supracitado prioriza como medida de superação do subdesenvolvimento a formação de capital e o planejamento orientado pelo Estado na economia. Já as teses que aparecem na obra de Gunnar Myrdal apresentam em seu repertório uma concepção sociológica e política do desenvolvimento econômico que nos permite classificá-lo em relação a Rostow e Nurkse, como aquele teórico que inovou o repertório sobre a interpretação do subdesenvolvimento. O método de “causação circular (acumulativa)” na tese de Myrdal concilia variáveis econômicas e não-econômicas na elaboração do seu diagnóstico sobre o subdesenvolvimento. Myrdal avançou na sistematização do conceito de círculo vicioso, utilizado por Nurkse, ao enfatizar que esse conceito não se limita a desencadear apenas efeitos negativos na economia. O círculo vicioso é um conceito que pode gerar “efeitos progressivos”, partindo dos investimentos setoriais estratégicos na economia o princípio metodológico da causação circular cumulativa promove uma espiral ascendente para o crescimento em outros setores intermediários da indústria. A indústria siderúrgica é um exemplo de setor estratégico que pode difundir sinergias para os setores intermediários dessa indústria. Myrdal assim como Rostow é um signatário da tese do crescimento setorial. De acordo com o

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método de causação circular cumulativa de Myrdal pode haver geração dos efeitos progressivos para os outros setores desta economia, bem como efeitos regressivos na economia, resultado do baixo dinamismo e da débil integração nacional. A interpretação de Myrdal sobre o subdesenvolvimento representou importante avanço se comparada com as teses de Rostow e Nurkse. O subdesenvolvimento pode proporcionar desigualdades regionais em um mesmo país. Por conta desse diagnóstico, a integração nacional assume prioridade em sua tese como medida de superação para as assimetrias regionais. A ausência da integração nacional pode desencadear um crescimento desequilibrado, concentrando os investimentos na região do país que estiver preparada com infraestrutura e indústrias instaladas, ou seja, imperaria as vantagens de locação para os investimentos. O desequilíbrio geraria duas situações em um país, o crescimento acelerado de uma região em contraste à estagnação econômica de outra. A integração do mercado interno assume importância central na tese de Myrdal (1957) e o Estado deve assumir a tarefa de providenciá-la por intermédio do planejamento políticas econômicas para a integração nacional. A democracia é um valor determinante para o desenvolvimento na tese de Myrdal. O autor associa a ausência de democracia como privação dos direitos à liberdade dos indivíduos. Desse modo, um país deve conciliar crescimento econômico com democracia. A sua tese pode ser classificada, entre as teses de Rostow e Nurkse, como aquela que inseriu a questão política na interpretação do subdesenvolvimento. Myrdal incorpora, além da renda per capita, aumento da produtividade industrial e do produto interno bruto (PIB), a democracia como elemento necessário ao cálculo do desenvolvimento. Dessa forma, os subsídios oferecidos por Rostow, Nurkse e Myrdal ampliaram o repertório sobre a interpretação do subdesenvolvimento. O balanço entre essas teses do subdesenvolvimento produzidas no centro, de maneira gradual, ilustra como as mudanças no campo da teoria do desenvolvimento avança, progressivamente, do campo de uma economia de movimento único (Rostow), para as determinações de situação histórico-econômica (Nurske) e para a incorporação de novos itens na agenda do desenvolvimento (a democracia e suas instituições em Myrdal). Estes autores são fundamentais para compreendermos o amplo processo de expansão, recepção, legitimação e aplicação de políticas contra o subdesenvolvimento (os projetos desenvolvimentistas que surgem em sua esteira) 28 , que explodiram no mundo após os anos de 1930/1940. As suas respectivas teses foram balizadas pelo diagnóstico e prognóstico de países subdesenvolvidos e abriram caminho para outras importantes contribuições que permitiram compreender esse fenômeno não apenas pelo campo da economia, mas da política. Porém, a produção teórica de Celso Furtado, no mesmo campo, abriria uma nova frente de compreensão e geraria um acréscimo teórico importante ao afastar-se, em definitivo, da percepção de que as mudanças econômicas gerariam alterações sociais e políticas (típicas da teoria da modernização), introduzindo o argumento político como parte essencial da superação do subdesenvolvimento.

As inovações teóricas de Furtado: entre a economia e a política

Uma primeira contribuição à compreensão das teses de Furtado versa sobre a definição de dois conceitos, interligados, porém distintos: o subdesenvolvimento e o desenvolvimentismo. O primeiro termo refere-se ao processo de formação e integração das economias coloniais à órbita e dinâmica da economia capitalista. Dada a natureza de sua feição mercantilista, a formação colonial obedeceria (como também exposto por Caio Prado Jr.) à função primário-exportadora (em especial após a revolução industrial). O subdesenvolvimento é um processo histórico, causador de uma situação econômica e social reflexa, assimétrica e periférica. As ferramentas teóricas capazes de interpretar (e esta é a chave deste conceito) o subdesenvolvimento são a teoria econômica não neoclássica e a

67

história (eixos do estruturalismo cepalino). Já o desenvolvimentismo é uma leitura das sociedades subdesenvolvidas em estágio de brecha histórica, organizando tanto a interpretação desse momento quanto desenvolvendo ferramentas conceituais e operacionais de sua superação. O desenvolvimentismo, em especial no caso do Brasil analisado por Furtado, é uma resposta à uma industrialização obstruída pelos variados entraves herdados do modelo primário-exportador. As ferramentas do desenvolvimentismo são uma teoria econômica própria (ajustada e adaptada às condições especiais do subdesenvolvimento de grau superior – Furtado, 1967) e um brutal recurso ao campo político: quer seja via ação do Estado, quer seja pelo compromisso nacional, quer seja (e muito especificamente) pela defesa da democracia enquanto elemento do menu de estratégias de superação da industrialização obstaculizada. A leitura sobre o lugar da política na interpretação do subdesenvolvimento e no projeto do planejamento desenvolvimentista é bastante visível na perspectiva que toma a política (nação) como um resultado a ser alcançado pela via de alteração dos processos econômicos. Porém, uma investigação mais meticulosa revela uma outra relação entre economia e política subjacente à lógica que orienta a “produção artificial do desenvolvimento”: a de causação política para um efeito econômico. Ao combinarmos a leitura de três trabalhos de Furtado – A pré-revolução brasileira (1962), Dialética do desenvolvimento (1964) e Teoria e Política do desenvolvimento econômico (1967) – questões como regime aberto (democracia), participação política e conflito passam a ser fundamentais, não como efeito do desenvolvimento da estrutura econômica, mas, ao contrário, como condicionantes desse próprio desenvolvimento. Em situação subdesenvolvida, a dimensão política alcançaria um papel equivalente ao de fator estratégico do crescimento econômico – estando assim, antes e não depois do processo, funcionando como causa e não consequência. Na hipótese de interpretação que propomos, este movimento implicaria em duas rotações profundas da teoria furtadiana em relação ao debate inter pares de sua época: um afastamento radical dos pressupostos da teoria da modernização 29 e a conformação de uma arquitetura singular para o funcionamento lógico da economia do subdesenvolvimento. Para a análise do entrelaçamento entre estes dois campos na tese furtadiana é necessário lembrar os elementos que permitiram, na década de 1950, o take off desenvolvimentista:

1.

a

diferenciação da estrutura econômica nacional, cindida entre o setor mercantil-exportador

a alternativa do setor industrial - o primeiro em declínio pela depauperação inevitável dos ciclos econômicos primário-exportadores e o segundo em ascensão, porém paralisado pelos gargalos estruturais na passagem para a etapa de industrialização pesada;

e

2.

a

tensão entre a dinâmica da economia reflexa (exportadora) e a diminuta autonomia dada

pela dinâmica de consumo gerado no mercado interno;

3.

a

modernização dos atores e setores ligados ao processo produtivo, notadamente a massa que

se formava de trabalhadores urbano-industriais e a geração de laços de interesse entre os setores industriais urbanos e demais setores produtivos voltados para mercado interno (indústrias complementares da cadeia, comércio, serviços e setor agrícola consumo interno);

4.

a

existência de um arsenal político - teórico e ideológico - que explicava com clareza o atraso

e apontava soluções factíveis para a transformação do futuro. Compõe este acervo a tese do subdesenvolvimento e a proposta de planejamento econômico, particularmente a produção intelectual de lavra furtadiana iniciada em Formação Econômica do Brasil. Sobre esta obra assinalamos a sua importância como um “trabalho de consolidação da consciência desenvolvimentista brasileira, que ele fundamentou com uma bem constituída argumentação histórica” (BIELSCHOWSKY, 1988: 193).

Anteriormente apontamos o nacional-desenvolvimentismo como um pacto nacional, orientado pelo

68

esforço social global de resolução dos limites da soberania e evolução da sociedade brasileira. A forte aceitação das teses do planejamento, que como ressalta Bielschowsky (1988) incluía setores ideológicos diversos do pensamento econômico, pode ser observada pela agregação de atores “à direita, centro e esquerda” em um movimento macrossocial que reformatou o papel e a ação do Estado e de seus operadores, fechando o ciclo iniciado com a Revolução de 1930. A fase posterior à implementação do Plano Salte (1948) era, definitivamente, industrialista e planejadora, independente das oscilações e desdobramentos posteriores que ocorreram dentro deste mesmo campo. Na década de 1950 completa-se a gestação de uma intelligentsia que possuía, pela primeira vez, simultaneamente uma tese, um projeto, um pacto social e instrumentos para planificação da mudança social. É nestes termos que se coloca a questão de entender que naquele momento histórico específico estava à disposição da sociedade brasileira mais de um projeto político, albergado ipso facto, no grande bloco histórico desenvolvimentista. Também nesta direção é que a produção furtadiana reluz, portadora de uma arquitetura interna complexa e completa, originando-se no argumento econômico (grande consenso sócio-político à época para compreensão do atraso) e avançando, coerentemente, nas fronteiras das questões social e política. Há, no conjunto de suas obras, uma fidelidade a uma maneira de entender e mudar o processo social pautada em uma análise teórica rigorosa que subverte a relação entre o lugar da economia e o lugar da política nesse processo. A função estratégica da política na dinâmica do desenvolvimento econômico será analisada, na síntese das obras selecionadas (Dialética, Pré-revolução e Teoria e Política), em duas perspectivas: i) a organização dos trabalhadores e sua capacidade de demandar a realização de seus interesses específicos; e, ii) o marco democrático como mecanismo de superação da persistência de nichos de anacronismo, ligados aos interesses do modelo agrário-exportador e latifundista, capaz de impedir a consecução plena do desenvolvimento social. Na avaliação dos obstáculos ao desenvolvimento, Furtado assinala como óbices perigosos a baixa capacidade de investimento, em especial nos segmentos de bens de capital 30 , o consumo suntuoso das elites (com propensão ao consumo externo), o mimetismo do efeito demonstração no consumo interno, o déficit tecnológico e, principalmente, o diminuto tamanho do mercado interno (fonte de toda dinâmica industrial internalizada, de contínua diferenciação e sofisticação da malha produtiva e caminho necessário para aumento da produção e da acumulação). Somente através da vitalidade deste último é que a ausência de capacidade de investimento poderia ser solucionada definitivamente, desonerando no longo prazo o Estado da tarefa de investimento estratégico. Em Teoria e Política do Desenvolvimento Econômico (1967) Furtado trabalha com a demonstração da tendência deletéria do empresariado nacional, não por deliberação e sim por consequência de sua racionalidade estreita e de curto prazo na definição de seus investimentos. Dada a irracionalidade dos agentes econômicos privados que orientam seus recursos para o gasto pessoal ou para setores mais imediatamente rentáveis - exatamente aqueles que aceleram o gargalo estrutural do sistema econômico - apenas o Estado pode, com sua racionalidade acima do mercado e do interesse privado, modificar, através de políticas públicas corretivas e/ou ação produtiva direta, a lógica e inércia desse processo. Este é um argumento importante em Furtado: a situação de aquecimento do mercado interno pós final da Primeira Guerra Mundial foi indutora da dinâmica industrial, que se volta ao abastecimento doméstico. No entanto, quanto mais a produção industrial “leve” aumenta, maior a pressão sobre o consumo de bens de produção “pesado”: capitais, tecnologia, matérias-primas, infraestrutura e insumos estratégicos como energia. Exatamente o que custa mais caro, tem retorno (em termos de lucratividade) de prazo muito mais longo e exige maior imobilização de capital. Os atores econômicos, por sua racionalidade miúda, preferem continuar investindo em uma produção de menor custo e lucro rápido, impactando no aumento da pressão sobre os gargalos estruturais, desorganizando a economia e impedindo a passagem para uma etapa mais avançada de industrialização bancada pelo investimento e recursos privados. Sem adentrar ao tema da dúvida política sobre a capacidade da burguesia nacional na promoção do desenvolvimento, Furtado duvida,

69

de maneira muito mais grave, da capacidade virtuosa da ação desse setor na própria dimensão econômica. Para este autor, os limites da economia autorregulada em situação subdesenvolvida implicam em uma ação mais deletéria dos empresários em relação a seus próprios interesses – mais que os danos causados pela incerteza (motor da crise nas economias centrais conforme Keynes). Na periferia o travamento do desenvolvimento ocorreria pelo risco decisório imposto ao empresário em cenário de gargalos estruturais. Assim, a regulação seria aqui invocada por outra forma de desajuste intestino à racionalidade econômica privada. No entanto, esta política interventora, corretora e planejadora só

será eficiente se conseguir alterar a ratio anterior, produzindo novas lógicas, demandas e interesses que modifiquem estruturalmente a complexa interface entre o mundo da produção e o sistema social. Esta

é, aliás, exatamente a essência do termo desenvolvimentismo: alteração profunda, racional e planejada

de uma dada estrutura econômica viciosa. É somente nessa acepção que o termo “desenvolvimentismo” (mudança qualitativa e sistêmica) pode ser diferenciado de crescimento (mudança quantitativa e possivelmente setorial), tornando-se um projeto econômico-social de forte alcance político.

A aposta furtadiana elege como elemento capaz dessa metamorfose profunda as demandas dos

trabalhadores no processo de luta pela distribuição de renda e repartição dos ganhos da riqueza social.

A livre organização dos trabalhadores, bastando começar por aqueles ligados ao assalariamento

promovido pela cadeia urbano-industrial, teria como efeito diminuir a concentração de renda que permitia aos empresários o gasto luxuoso, convertendo essa massa monetária em salário, consumo e aumento da demanda por bens manufaturados. O impulso para aumento da produção geraria um

novo ciclo virtuoso da produção industrial que utilizaria mais matérias-primas, capitais e trabalho, ampliando o gasto intercapitalistas, expandindo o mercado de trabalho e o tamanho da demanda global interna. O deslocamento da dinâmica para o centro-interno de decisão, pautado pelo mercado

e indústrias domésticos, poderia então deslanchar em um movimento contínuo, ascendente e

retroalimentado. Outro resultado poderoso do aumento dos salários seria o de impulsionar os empresários à geração do lucro via produção e inovação tecnológica, impedindo-os da utilização do velho e danoso recurso de acumulação via espoliação dos salários. Impossibilitados de repassar aos trabalhadores, na forma de redução de salário, qualquer queda na taxa de lucros, o caminho inevitável seria o de investir no aumento de produtividade, através da renovação tecnológica. No caso de economias subdesenvolvidas, com acesso a mecanismos extraordinários de obtenção de lucro (como baixos salários derivados do amplo exército industrial de reserva e das restrições dadas por um mercado com baixa concorrência de preços), o ciclo virtuoso schumpeteriano da destruição criadora e do empresário inovador estariam estruturalmente impedidos. Furtado assinala que a solução poderia ser dada pela mudança na estrutura de salário e renda, deflagradora de uma alteração geral do sistema econômico.

A função econômica da luta pelo salário é facilmente compreensível na tese furtadiana. No

entanto, o que apontamos aqui é que o disparador do movimento virtuoso da economia precisa ser dado fora do sistema produtivo, no âmbito da política:

A formação de capital segue assim por um canal previamente aberto, tropeçando apenas com obstáculos institucionais decorrentes dos ajustamentos insuficientes ou atrasados do marco institucional que disciplina os distintos fluxos econômicos. Os principais desses obstáculos refletem a persistência de formas anacrônicas de distribuição da renda, que se traduzem em insuficiente vigor na demanda final para consumo ou

investimento (FURTADO, 1964: 32)

Questões como engenharia institucional e de direitos são as que definem a possibilidade de livre organização, expressão e luta de interesses organizados da sociedade, no marco da democracia representativa. Assim, superar o subdesenvolvimento pressupõe a participação política e a garantia de instâncias de expressão dessa participação 31 . Ao contrário da tese clássica da teoria da modernização,

70

como encontrada em Rostow, Nurske e (menos, mas ainda) em Myrdal, na perspectiva furtadiana a dimensão institucional é que desata o nó górdio dos obstáculos ao desenvolvimento econômico.

A perspectiva sobre a função política ex-ante os efeitos do desenvolvimento encontra-se na sua

capacidade de superação dos resquícios do atraso. A herança colonial não havia apenas deslocado surtos cíclicos mercantil-exportadores ao longo do território brasileiro, caracterizados pela baixa capacidade de retenção da riqueza produzida nesses movimentos no sistema local, mas também definira um hibridismo social grave, ancorado no insulamento de produção em estruturas regionais autônomas e incomunicáveis. O legado do dualismo estrutural geraria um problema forte para a questão nacional, dada a impossibilidade de um compromisso federativo. Paralelo a um surto modernizante provocado pelos picos de produtividade primário-exportadora, elites regionais formaram-se dotadas de alta capacidade de apropriação de capitais sociais e políticos poderosos. No Nordeste, a permanência do latifúndio, da prática do coronelismo no controle dos grupos dominantes sobre os recursos de representação política (bolsões eleitorais) e do controle do aparelho do Estado atravessou séculos, chegando na etapa nacional-desenvolvimentista articulada a ponto de produzir o efeito perverso da “indústria da seca”. No Sudeste, a articulação das elites cafeicultoras no controle direto do Estado durante a Primeira República é um exemplo similar. Dois grupos políticos fortes, originados de momentos diferentes na longa tradição primário exportadora, perpetuavam o passado e agiam contrariamente a passagem para industrialização: as oligarquias mercantil-exportadoras do sudeste e as elites latifundistas nordestinas. Em conjunto, mesmo no ambiente do planejamento estatal dos anos de 1950/60, estes atores conseguiam manter (via controles eleitorais e apropriação de segmentos operacionais dentro do aparelho de Estado)

importantes parcelas de controle político 32 via: a) absorção dos investimentos estatais, b) barrando mudanças estruturais radicais em temas como a estrutura fundiária, políticas macroeconômicas (monetária, cambial, fiscal e tributária), bem como aqueles temas ligados aos direitos trabalhistas e sociais e a distribuição do bem-estar. Minar a força dessas elites, destruindo os focos de anacronismos herdados da colônia, era uma necessidade para garantir a construção do Brasil Moderno. Para Furtado, a democracia carregaria essa possibilidade já que o específico do Estado democrático não seria a eliminação dos grupos – que, ao contrário poderiam nela “crescer e conservar seu poder”, mas na tendência à “eliminação daqueles privilégios que entorpecem o desenvolvimento das forças produtivas " (FURTADO, 1964: 45).

A única via para a realização dessa outra frente na tarefa histórica de superar o atraso e o

subdesenvolvimento era fortalecer o marco legal democrático que através da expansão e da mudança representativa e cultural das bases sociais e territoriais do colégio eleitoral, bem como pela poderosa

pressão da opinião pública (cada vez mais educada no processo de participação eleitoral) poderia completar o ciclo da transformação social brasileira. Esta análise de Furtado fecha um importante marco no trajeto das teorias sobre o fenômeno do subdesenvolvimento. Das seminais contribuições das obras de Rostow, Nurkse e Myrdal, que tiveram ampla circulação e repercussão no ambiente intelectual latino-americano 33 , até a lavra furtadiana observam-se quatro características importantes: a primeira é que no diálogo sobre os fundamentos do subdesenvolvimento há como um processo de complexificação explicativa, e as obras/autores vão sofisticando progressivamente os elementos e a lógica de sua análise; a segunda é um deslocamento também progressivo da proximidade e apoio em argumentos de tipo clássicos e neoclássicos até a ruptura desenvolvimentista de cunho keynesiana radical; na mesma toada, o terceiro elemento seria o afastamento progressivo dos fundamentos da teoria da modernização (em que mudança econômica geraria correlatas mudanças políticas) e a inversão desse binômio na valorização e sobrevalorização da dimensão política. O movimento de transformação e reposicionamento das filiações teóricas obedece exatamente a ordem dos autores aqui apresentados, sendo a mais moderada interpretação do subdesenvolvimento aquela produzida por Rostow e a mais radical a de autoria de Celso Furtado.

71

A guisa de conclusão

O objetivo deste trabalho não foi o de estabelecer um quadro de valores que detectasse quem estava mais certo acerca do que seja desenvolvimento. Longe de uma tentativa de hierarquizar e valorar os autores, o exercício da comparação pretendia demonstrar como a circulação das ideias e das teses sobre o subdesenvolvimento podem apresentar diferenças e, ao mesmo tempo, filiar-se a um campo comum. Também procuramos destacar a importância que, no emaranhado dos temas do subdesenvolvimento, desenvolvimento e desenvolvimentismo, o lugar e a função atribuídos à dimensão política podem significar. Esta comparação poderia recorrer a um conjunto maior de autores, como Singh, Agarwala, Lewis, entre outras importantes referências ao debate latino- americano. A escolha por Rostow, Nurske e Myrdal forma uma primeira investida no campo da análise comparativa e, se houver fôlego dos pesquisadores, será ampliada no futuro. Terminamos esta comunicação com a apresentação de alguns quadros, analisando alguns dos principais conceitos dos autores não periféricos – Rostow, Nurske e Myrdal – contrastados com os elementos da tese furtadiana.

Quadro Comparativo 1. Conceitos centrais nas teses de Rostow e de Furtado

Rostow

Furtado

Eixo explicativo do subdesenvolvimento

Eixo explicativo do subdesenvolvimento

Vinculado à primeira etapa do crescimento econômico – a sociedade tradicional (feudal)

Subdesenvolvimento é um produto moderno, herdeiro das relações econômicas coloniais (primário-exportadora). É uma assimetria interna ao capitalismo. Pode também ser classificado em três níveis de complexidade18

Papel do crescimento econômico

Papel do crescimento econômico

Apoia-se na tese da decolagem:

aumento da taxa de investimento produtivo; desenvolvimento de um ou mais setores manufaturados; a necessidade de instituições que absorvam as benfeitorias do crescimento econômico.

Duas percepções: a) crescimento é menos que desenvolvimento (mudança qualitativa global de toda estrutura produtiva e social); b) para haver crescimento econômico (sustentado) e/ou desenvolvimento é preciso superar os limites do livre mercado – através do artificialismo do planejamento.

e/ou desenvolvimento é preciso superar os limites do livre mercado – através do artificialismo do planejamento.
Papel do comércio exterior

Papel do comércio exterior

– através do artificialismo do planejamento. Papel do comércio exterior Importante (benéfico aos setores diretamente

Importante (benéfico aos setores diretamente

72

Fundamental, pois tem importante papel para o impulso da decolagem, por meio do capital proveniente do comércio exterior.

ligados ao comércio exterior), mas incapaz de, por si só, gerar o desenvolvimento. Desenvolvimento, estará sempre ligado às capacidades do mercado interno (internalização dos centros de decisão e produção)

Assimetrias centro periferia

Assimetrias centro periferia

Não reconhece: a tese do crescimento econômico é amparada por um modelo único de crescimento, não considera a diferença que há nas estruturas dos países desenvolvidos e nos subdesenvolvidos.

É central na explicação. O subdesenvolvimento é um fenômeno da formação histórica e pela posição de cada um no mercado internacional. A vocação primário-exportadora define e condena os sistemas periféricos a sua permanente subalternidade.

Presença do Estado na economia

Presença do Estado na economia

Somente em um contexto de crises econômicas do capitalismo ou de guerra o Estado deve ser invocado para providenciar investimentos em um setor estratégico da economia.

Protagonista na construção e consecução do desenvolvimento.

Quadro Comparativo 2. Conceitos centrais nas teses de Nurkse e de Furtado

Nurkse

Furtado

Eixo explicativo do subdesenvolvimento

Eixo explicativo do subdesenvolvimento

Baseado na dificuldade de formação de capital em países subdesenvolvidos, que estão envolvidos pelo círculo vicioso da pobreza.

Formação de capital é drenado na etapa primário exportadora pela deterioração dos termos de troca. Na etapa de brecha histórica (substitutiva de importações) a estrutura do subdesenvolvimento gera um ciclo de disfunções: a) a tendência à imitação de padrões de consumo externo b) queima poupança, c) impele, na busca do lucro rápido, a alocação de recursos na produção substitutiva (inflacionários), d) impedindo o investimento privado nos segmentos de infraestrutura (gargalos

73

estruturais)

Comércio exterior

Reprime a política isolacionista, priorizando para tanto, a integração do país subdesenvolvido ao comércio internacional.

Concorda. A expansão do comércio exterior não é causa suficiente para o desenvolvimento, mas pode ser uma condição necessária para que o mesmo efetive-se. O aumento da produtividade pelo comércio exterior apenas providenciará lucros para poucos, que estarão propensos a seguir o padrão do consumo dos países desenvolvidos.

Desenvolvimento econômico

Crescimento equilibrado

Crescimento equilibrado, com papel importante para distribuição da renda internamente.

Quadro Comparativo 3. Conceitos centrais nas teses de Myrdal e de Furtado

Myrdal

Furtado

Eixo explicativo do subdesenvolvimento

Discorda. Subdivide-se em três diferentes níveis de

complexidade: predominam as atividades de

subsistência e é reduzido o fluxo monetário; as atividades são diretamente ligadas ao comércio exterior; prendem-se ao mercado interno de produtos manufaturados de consumo geral.

processo acumulativo propõe que

O

o

está inserido em países subdesenvolvidos, reproduz os chamados efeitos regressivos.

círculo vicioso da pobreza, que

Relação de dependência países subdesenvolvidos versus países desenvolvidos

Dependência das colônias em relação às metrópoles, repercutindo na transferência de ideias, cultura e principalmente das políticas de desenvolvimento econômico.

Discorda.O conceito de dependência dos países subdesenvolvidos com os desenvolvidos está associado a um primeiro momento à dependência de cunho econômica. Posteriormente esta dependência assume um caráter cultural. O padrão de consumo da minoria nos países

74

desenvolvimento econômico.

desenvolvimento econômico. Primordial. A ausência do Estado na economia poderia acarretar intensificação do

Primordial. A ausência do Estado na economia poderia acarretar intensificação do desenvolvimento desequilibrado, resulta nas desigualdades regionais.

subdesenvolvidos é igual ao padrão exercido nos países desenvolvidos.

Atuação do Estado

Concorda. Acentua que é preciso reformar administrativas, em conjunto com a ação do Estado em formular políticas econômicas.

Desenvolvimento econômico

Desenvolvimento econômico

Desenvolvimento setorial. Os “efeitos propulsores” em conjunto com a atuação do Estado, por meio de políticas econômicas. Conciliando a democracia com o desenvolvimento econômico.

Discorda. Propõe o crescimento equilibrado.

Políticas para a integração nacional

Políticas para a integração nacional

Firmada entre os países pobres aumenta o poder de barganha desses com os países ricos e a fortificação dessa integração pode chegar a tal ponto, que passaria a ser interessante para os países ricos estabelecerem relações frutíferas com os países pobres.

Discorda. É a etapa superior da teoria do desenvolvimento, uma forma avançada de política de desenvolvimento. O planejamento de integração surge como uma forma mais complexa de coordenação das decisões econômicas. Para as economias subdesenvolvidas, a integração não planificada tende a gerar os desequilíbrios regionais.

Quadro Comparativo 4. As diferenças de métodos em Rostow, Nurkse, Myrdal e Furtado

Autor

Modelo de análise

Rostow

Universalista. Movimento único subdividido em fases crescentes em direção ao desenvolvimento.

75

Nurske

Reúne a teoria do comércio e do desenvolvimento em sua abordagem.

Myrdal

A causação circular dos processos acumulativos

Furtado

Análise histórico-estrutural. Há mais de um modelo de modernização capitalista, gerando estágios assimétricos e funcionalmente determinados (centro versus periferia)

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76

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III.

Cooperação internacional, direitos

e produção do conhecimento

INTRODUÇÃO

A integração sul-americana: cooperação, redes e produção do conhecimento Glauber Cardoso Carvalho

ARTIGOS

Tecnología e Innovación para la Inclusión Social: reflexiones sobre energías renovables y agricultura familiar Hernán Thomas, Santiago Garrido, Mariano Fressoli, Paula Juarez e Lucas Becerra

Integração, defesa e outros desafios da Amazônia Alexandre Fuccille

Pensar la cooperación, integración y producción del conocimiento desde perspectivas no hegemónicas Anibal Oruê Pozzo

Institucionalidad pública para la protección y promoción de los Derechos Humanos en el Mercosur Paula Rodriguez Patrinós

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INTRODUÇÃO

A integração sul-americana: cooperação, redes e produção do conhecimento

Glauber Cardoso Carvalho

“Buscamos la solidaridad no como un fin sino como un medio encaminado a lograr que nuestra América cumpla su misión universal”.

José Martí

A América do Sul tem vivido uma época de transformações relevantes em sua sociedade e no seu fazer político. Apesar da tendência em tratar a região de forma homogênea, é compreensível que em cada país a primeira década do século XXI atingiu de forma distinta seus governos e seus cidadãos.

A evolução da integração regional foi, nesse contexto, fomentada pela subida ao poder na região

de governos atentos à questão, tanto quanto atentos à necessidade de inclusão de parte da população que vinha sendo excluída dos processos de desenvolvimento. Esses governos, chamados então de progressistas, deram início a um plano mais ambicioso de revigorar também suas políticas externa e internacional, passando a se ver como uma entidade de poder autônoma das decisões dos centros hegemônicos externos.

A autonomia está, dessa forma, no centro de uma discussão longe de estar terminada, de

condições e limites de se realizar um ciclo de desenvolvimento com capacidade duradoura para gerar crescimento econômico, mas também para melhorar a vida de todos, dando oportunidade a que todos tenham possibilidade de participar ativamente e de forma plena dos processos econômicos, políticos, sociais e culturais.

Assim, é certo que um fator de extrema importância na formação de uma consciência de autonomia está na produção e divulgação de conhecimento. Esse debate deve ser realizado de forma

ininterrupta pela sociedade que pretende formar cidadãos com capacidade de analisar criticamente as informações que hoje estão pulverizadas, mas que ao mesmo tempo são de fácil acesso por diversos canais de comunicação.

A ciência e a tecnologia apresentam parte decisiva nessa empreitada e possuem um papel chave na

integração da região. O estímulo à produção de alternativas de cooperação internacional nessa área, que abrange, sobretudo, o fazer universitário e os centros de pesquisa, deve ser visto como fator possibilitador e difusor das políticas públicas para o desenvolvimento regional.

O painel Tecnologias sociais, cooperação internacional e produção do conhecimento que discutiu este

tema do XIV Congresso Internacional do Fórum Universitário do Mercosul - FoMerco, ocorrido entre 23 e 25 de outubro de 2013, na Universidade Federal de Palmas, Estado do Tocantins, no Brasil, do qual este texto é uma livre síntese com incorporação de outras referências, atingiu de forma contundente temas que são caros à integração aos quais me deterei mais longamente nas próximas páginas, sublinhando as questões de organização da integração, que guardam relação com a evolução do Mercosul e da Unasul, o uso e difusão da ciência e da tecnologia na região, a atuação das redes de conhecimento, a cooperação interuniversitária e a questão da educação para a integração. Os participantes do debate serão aqui diretamente mencionados.

A importância de uma reconstrução plural e crítica da região

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Há uma constatação de que o projeto integracionista faz parte do acervo histórico consolidado das relações internacionais sul-americanas. Isso, porém, não deve ocultar as características e graus distintos que distinguem a longa travessia composta de diferentes concepções de desenvolvimento e de autonomia nas estratégias de política internacional do continente.

Se é possível perceber que a autonomia do conhecimento se viu limitada primeiro pela ditadura

militar e depois pela ditadura do mercado, com incrível tendência a individualização a

compartimentalização, como comentou Daniela Perrotta, também é possível entender que o quadro começou a se transformar diante da conjuntura das retomadas democráticas na América do Sul, quando, a despeito da manutenção da importância da abertura comercial, os governos conferiram prioridade à formação de grandes blocos econômicos no projeto de integração.

A formação do Mercosul, com a aproximação entre Argentina e Brasil se enquadra nesse

momento no qual se privilegiou a aproximação comercial, embora, no caso do Cone Sul, as definições geopolíticas em torno da Bacia do Prata e a cooperação em matéria nuclear também tenham exercido forte influência no que tange à nova inserção internacional da região. No eixo do Cone Sul as políticas nacionais buscaram atualizar as agendas e agir de forma a atender ao novo cenário internacional, ascender ao rol dos chamados desenvolvidos e eliminar o seu caráter, visto como pejorativo de “Terceiro Mundo”. Assim, a estratégia de inserção internacional passou pela tentativa de aumento da credibilidade econômica com a renegociação da dívida externa e a adesão aos princípios internacionais ditados desde as potências, como a adesão aos regimes multilaterais, especialmente os de controle de tecnologia sensível, de direitos humanos, comércio e meio-ambiente, consolidando o processo democrático. (HIRST; PINHEIRO, 1995)

No eixo andino, os países que já haviam buscado a integração a partir da formação do Grupo Andino, de 1969, continuavam na dependência das exportações de commodities às economias desenvolvidas. Assim também ocorreu com a Venezuela e o petróleo no processo de utilização da farta entrada de divisas dessa commodity como indutora de um desenvolvimento, o que ao mesmo tempo dificultou a diversificação produtiva e facilitou a concentração de renda no setor (MEDEIROS, 2008). Cabe constatar que por toda a América Latina o pensamento neoliberal foi transformador e se associou a uma nova formulação teórica da Comissão Econômica para a América Latina - Cepal, órgão da Organização das Nações Unidas – ONU – sobre os processos de regionalismo (considerado “aberto”) e fortaleceu o arraso dos projetos desenvolvimentistas. Contudo, o modelo cepalino do regionalismo aberto escolhido pelos sul-americanos manteve-se nos marcos da redução do Estado e de sua soberania, promovendo a integração comercial centrada na liberalização crescente de tarifas, mercadorias e do capital, tal como recomendava a cartilha neoliberal dos noventa. À crise e à falência do modelo neoliberal se adiciona “o esgotamento de forma de organização estatal, dominação social, baixa inclusão político-social e monopólio partidário” (SILVA, 2011: 265) No início deste século, porém, é possível pensar que houve uma saturação da situação vigente e um novo desabrochar da consciência popular. Esse momento marcou a região tanto nos contextos nacionais quanto no contexto internacional. Nos âmbitos nacionais, as forças das mudanças propagadas pela distorção dos anos de políticas neoliberais no conjunto das sociedades aproximaram os Estados em sua concepção de futuro. No campo internacional, fatores como a melhoria dos preços das commodities, um ajuste na estratégia da política externa norte-americana, assim como as potencialidades de novos jogadores na arena internacional contribuíram para favorecer o ânimo dos países.

O reordenamento das relações internacionais da região a partir das renovadas concepções de

integração e desenvolvimento, e que acrescentavam a questão da autonomia, ganhou o impulso regional necessário com a chegada ao poder de governos que possuíam como interesse o fortalecimento regional e comum. Eles estipularam um novo consenso e novas formas e temas de

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atuação, incluindo a esfera institucional, com bases outras que apenas o econômico-comercial. A ampliação do rol de itens em debate nos organismos do processo integrativo sul-americano foi um dos fatores mais importantes. O foco que os novos governos da região conferiram à cooperação setorial extracomercial foi condizente com os discursos que ressaltavam a necessidade do entendimento e do

fortalecimento social. Nesse contexto está a ampliação de ações para articulação de novos atores que tinham como circunstância a formatação de condições para a produção de conhecimento regional voltado para o aprofundamento integração.

A perspectiva foi a reconstrução da região para que passasse a representar de forma efetiva a sua

pluralidade e originalidade. Essa questão, dada pelos temas culturais e educacionais, os quais incluem produção, formação, difusão, conscientização e criação de novos saberes, também giram em torno de questões como as garantias para as liberdades fundamentais e a possibilidade de uma gestão democrática do conhecimento.

Desde sur y para sur: as redes para um conhecimento continental

De acordo com Daniela Perrotta, a América Latina tomou parte da internacionalização das ciências nos anos sessenta e se consolidou como produtora de conhecimento em sua condição periférica, criando epicentros de irradiação como o caso do Chile. Para a pesquisadora, devemos reconhecer que estamos vivendo novos tempo que exigem, por sua vez, a ampliação da visão de uma nova região e de uma nova forma de produzir conhecimento. Perrotta indaga quais são as condições para a produção

desse conhecimento, que tipo de conhecimento é esse e como ele é criado de fato. Essa provocação, sem o intuito de esgotar o tema, encontrou no painel algumas pistas de respostas. Nosso momento histórico tem exigido o repensar da região e a sua reconstrução a partir de marcos sociopolíticos e culturais diferentes. O campo do conhecimento exige, portanto, múltiplas visões que só podem ser criadas pelo incentivo de um ambiente plural. As universidades e centros de pesquisa, focos de excelência desse projeto de criação de saberes, apresentam idiossincrasias quando se analisa o ambiente nacional e quando se amplia a visão para o nível regional. Cita-se de um modo prático, por exemplo, a burocratização como um dos fatores determinantes em que um pesquisador consome seu tempo. Soma-se a isso um velado nivelamento ou uniformização de atividades quando da liberação de financiamentos para determinadas atividades, que, quando ocorre, segue com uma densa prestação de contas. O incentivo à pesquisa é um item que também assume importância no contexto dos desenvolvimentos nacionais, mas que em diversos momentos parece negligenciado e, novamente, altamente burocratizado para sua efetivação, sendo necessário suplantar essas questões para avançarmos em uma efetiva cooperação interuniversitária.

O tipo de conhecimento que se propõe criar quando se trata da integração regional é algo que

consiga conjugar uma visão plural e ao mesmo tempo única e continental. É importante salientar que já houve diversos pensadores em distintos momentos da história com esse tipo de visão, entretanto, como o tema sempre surgiu como ondas recorrentes, o problema foi que na maioria das vezes as

questões encontravam pouco eco nas sociedades. Para Geronimo de Sierra, em algumas oportunidades essa visão teve maior abrangência, com produção de conhecimento que se voltava na formação de quadros para a integração, como no Instituto Latino-americano y del Caribe de Planificación Económica y Social - Ilpes, da Cepal. Para De Sierra, o marco deve ser a educação para a região, ou seja, a construção de um horizonte de reflexão, mas também de ação, de problemas da região e de soluções para a região por meio da educação.

A percepção de que apesar do tema ser recorrente, ele não conseguiu se consolidar, ou se

aprofundar de forma prática, demonstra tanto sua complexidade quanto a dificuldade de pensar a região como uma unidade. A construção desse conhecimento continental, subcontinental, regional,

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se bem deve passar pelo saber formal acadêmico, tem sido beneficiada pelas novas tecnologias. Como explicam Hernán Thomas et alii - a seguir - quando nos relatam experiências de campo na aplicação de tecnologias sociais, percebe-se que há questões que ultrapassam o mero formalismo científico e que devem ser aprofundadas com o contato com o público alvo. Os autores advogam,

assim, a necessidade de construção coletiva do conhecimento entre a comunidade acadêmico- científica e os atores locais, que serão os beneficiados da aplicação tecnológica, uma vez que estes possuem demandas específicas e contam com um know-how local. Assim, o processo de desenvolvimento de tecnologias apropriadas e cuja aplicação será bem-sucedida passa, certamente, pelo que propôs o próprio congresso do FoMerco, a necessidade de realização da ampliação do conhecimento e vivência cultural regional. Destacam-se nesse tema, as redes de cooperação, universitárias e de pesquisa, que não são fenômenos de todo novos, mas mudaram sua intensidade, abrangência e alcance. Para Perrota, falta para os pesquisadores atuais a realização de um núcleo dinamizador de conhecimento crítico como foi o Chile nos anos sessenta.

A pulverização das redes simplesmente baseada no crescente uso da internet, embora tenha a

capacidade de ampliar a discussão em termos quantitativos, pode não ser capaz de aprofundar propostas concretas. Para a pesquisadora, as redes podem ser temáticas, generalistas, e estar ligadas a

universidades ou não, mas dois itens importantes devem ser levados em conta quando pensamos nesse assunto, primeiro é que os princípios que estão presentes em qualquer rede são a solidariedade, a construção de conhecimento e o apoio mútuo de pesquisa; segundo, que uma rede sobre integração

regional deverá considerar as assimetrias na educação superior dos participantes e agir para a sua superação.

A demonstração das assimetrias regionais foi uma questão recorrente nas apresentações do painel.

Perrotta indica três formas das assimetrias que definem as diferenças entre os países do Mercosul:

estruturais, regulatórias e culturais. Para ela, é muito visível a questão estrutural uma vez analisado o tamanho dos sistemas universitários, por exemplo, entre o Brasil que possui 6 milhões de estudantes de ensino superior, contra 131 mil do Uruguai. Em termos regulatórios, ao contrário, a maioria dos estudantes brasileiros está em universidades privadas e no Uruguai na universidade pública, na única existente. O que gera uma importante discussão sobre se as pesquisas acadêmicas e sua destinação social: o conhecimento é público ou pode ser privatizado?

A terceira questão assimétrica são as diferentes culturas e sobretudo, as culturas acadêmicas.

Levando-se em consideração as características próprias de cada país e de cada centro acadêmico, é importante verificar, por exemplo, que as universidades brasileiras são do século XX, enquanto em outros países há universidades ainda da época da colonização, assim, fica claro que a cooperação de universidades em termos intrazona são favorecidas pelos acordos regionais que levam em conta as

assimetrias e tentam compatibilizá-las. Ao mesmo tempo, torna-se um passo importante a tentativa de fazer com que a academia escape de tensões políticas entre países e a qualquer movimento pendular de suas políticas externas, fortalecendo, por intermédio da integração dos saberes, laços mais profundos e duradouros.

A percepção não é que não se tenha avançado na tomada consciência na região, mas que todo

processo educacional tem em seu cerne uma tensão, entre a universalização do saber e do conhecimento e a elitização, o privilégio de saber. Por isso os temas se assemelham e se repetem neste e em outros foros, como observou De Sierra.

Experiências e políticas públicas: ações e expectativas na produção de um conhecimento autônomo

As mudanças políticas e sociais que ocorreram desde o início do século XXI demonstraram que

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também o pensamento em torno da região foi modificado. Os processos de integração foram acelerados, aprofundados, multiplicados, mas, especialmente, alterados. Segundo Paula Rodriguez Patrinós (texto a seguir), é sim um novo modelo o que temos agora. Antes, o regionalismo aberto não implicava a melhoria de vida das populações, as próprias instituições eram frágeis para lidar como o que se propunha. Há, portanto, uma nova característica que é a concretização de uma agenda positiva da integração, com a criação de instituições e políticas públicas comuns, em âmbitos que não são somente os econômicos. A incorporação da dimensão social no processo trouxe para a pauta temáticas relegadas a segundo plano como a pobreza, as desigualdades materiais, a exclusão social. No primeiro momento, essa nova mirada demandou a construção e compartilhamento de novos conhecimentos e uma redefinição do próprio Mercosul como um projeto político-estratégico. Uma ação voltada para desenvolvimento regional que já não seria pensado como um atributo compensatório de um baixo crescimento econômico, mas o desenvolvimento em sua forma integral, um desenvolvimento humano. Ennio Candotti (depoimento no capítulo I) afirma que a integração passa a ser realizada com o objetivo de lutar pelos próprios povos, logo, uma atitude de resistência e de capacidade de confronto com os interesses externos. Para isso, o caminho é a formação de pessoas. Uma formação, porém, que tente abranger uma completa inclusão, que passa pela ampliação com qualidade e acesso à educação formal, geração de emprego qualificado, incentivo à pesquisa científica e tecnológica, sua difusão, e a manutenção de “cérebros” em nossa região. Um planejamento deste tipo se faz necessário de implementação por meio de políticas públicas ativas, mas não será possível lograr sem o autoconhecimento. Ao definir seus espaços de atuação, o Estado consciente de sua região, deve ser capaz de avaliar onde sua ação induz de forma mais efetiva a realização do seu projeto de desenvolvimento. Cabe fazer menção de um debate realizado em 1990 com uma reflexão muito contundente ao explicar que existia a necessidade de examinar “quem se integra, para que se integra e no que se integra; há que lembrar o objetivo maior da democratização da educação” (LUCE, 1990: 266). Se naquele momento a proposição oficial era “que os problemas sociais e econômicos devem ser resolvidos com menos Estado e mais mercado, com desregulação e privatização”, para Luce, isso seria uma afronta ao nosso próprio processo civilizatório e nossa formação social, “por isso, justifica-se o destaque à questão do papel do Estado quando se procura a reflexão problematizadora sobre a educação na integração latino-americana” (Idem). Lido nos dias atuais, essa necessidade ainda se faz presente e é renovada pelos desejos dos especialistas em ver no campo educacional e científico o caminho mais adequado para a gestação de um novo tempo. De acordo com Patrinós, o enfoque renovado da integração se torna visível, por exemplo, no Mercosul Social, um conjunto de ações que se cristalizam no Instituto Social do Mercosul - ISM e que relacionam a cidadania com o processo de integração, que cria novos espaços de diálogo, que fortalece a solidariedade e incorpora atores da sociedade civil, enfim, que busca dar conta do compromisso do Mercosul com políticas de direitos integradas, como exemplo para a formação de uma identidade de região. Em termos educacionais, é possível verificar análises de especialistas que indicam que os avanços obtidos na educação superior, no setor educacional do Mercosul ainda são tímidos. O Mercosul educacional carece, ainda, de maior institucionalidade e de mecanismos que garantam um aprofundamento das ações implementadas (BARRETOJUNIOR, 2011). Além disso, é necessário avançar em

da legislação competente ao

questões

reconhecimento de diplomas superiores entre os países. (MUNIZ, 2013) Em termos concretos, é consenso apresentar a Universidade da Integração Latino-Americana - Unila, do governo brasileiro, como o exemplo, ainda em construção, de “um espaço para construção de conhecimento e diálogo entre os principais intelectuais latino-americanos, dispostos a

básicas

como

a

compatibilização

ou

destravamento

83

compartilhar suas ideias, pesquisas e projetos para uma integração aberta e construtiva da América Latina.” (ROSEVICS; CARVALHO, 2013: 234)

Para De Sierra, que foi um dos acadêmicos convidados para a concepção do projeto inicial da Unila, a instituição é uma ação concreta, brasileira, mas que tem como vocação sua orientação para a integração e o intercâmbio de forma horizontal e democrática do conhecimento. Ela atende a uma visão especifica da geopolítica do ensino que responde a questões como “o que se ensina” e “para quem se ensina”, além de ter sido estrategicamente colocada na região de tríplice fronteira. Assim, apesar da existência de receio com relação ao tamanho e à influência do Brasil, a estrutura da universidade é inovadora ao determinar que metade dos alunos sejam latino-americanos, que facilitou a contratação de professores estrangeiros, de que todas as bancas de professores também têm que ter componentes estrangeiros no julgamento e ainda permite que o vice-reitor seja estrangeiro. Essa construção de um espaço para pensar os problemas comuns também é evocada na formação de redes, do qual o próprio FoMerco em seus catorze anos é grande incentivador. Formado em 2000, o Fórum tem buscado “o intercâmbio entre as instituições e estudiosos através de atividades de cooperação que contribuam para o aperfeiçoamento do ensino e da pesquisa em relação aos temas que formam a agenda do Mercosul”, com o objetivo de “promover e divulgar a pesquisa e o debate

acerca da atuação conjunta das nações sul-americanas [

não apenas em termos de estratégia de

inserção regional autônoma na nova ordem global, mas, sobretudo, como construção de alternativa emancipatória de um processo contra-hegemônico” (SARTI, 2013: 650). Com seus congressos persegue a construção de pontes com as políticas públicas, e é sempre renovada a percepção de que essa construção tende a se consolidar com a incorporação nos debates de agentes públicos, de organizações dos governos, diplomatas e políticos. O aprofundamento da integração e dos debates em torno da ampliação da agenda social e educacional ocorreu em contexto de afinidades políticas a partir de visões progressistas e que possuíam novas estratégias de desenvolvimento. Essas questões, entretanto, superaram a especificidade da região do Cone Sul e se estenderam para o continente de forma real na formação da União de Nações Sul-Americanas - Unasul. Esta, ainda que possua diversos mecanismos a serem construídos, conta com o campo educacional como um dos seus múltiplos eixos e tem debatido em torno de temas como qualidade e equidade, integração social, cidadania e direitos (CARVALHO, 2013:

121).

Como pensamento final e proposta de ação ficam as diferentes proposições em torno das quais as tecnologias sociais devem acrescentar autoconhecimento à integração, e que sejam usadas para a verdadeira construção de um mapa de atores que auxilie na descoberta de quem são e para quem se dirigem as políticas integracionistas que debatemos. Para De Sierra, há que se mudar a forma elitizada de criação e disseminação de conhecimento, assim como traçar afinidade cultural entre todos os grupos sociais, sejam acadêmicos, políticos, sindicais ou militares. A educação superior, que tem sido crescentemente vista com importância estratégica para o desenvolvimento socioeconômico e tecnológico dos países da região, deve ser aprimorada por meio da cooperação internacional. Uma internacionalização que sirva para nos conhecermos e fortalecermos o pensamento integracionista crítico latino-americano. Certos de que as discussões não devem estar fechadas sempre em nós mesmos, devemos incorporar a necessidade de unir agendas com as experiências de todo o Sul, um aprofundamento do conhecimento do Sul de uma forma global.

]

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84

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85

ARTIGO

Tecnología e innovación para la inclusión social: reflexiones sobre energías renovables y agricultura familiar 34

Hernán Thomas

Santiago Garrido

Mariano Fressoli

Paula Juarez

Lucas Becerra

Introducción

Durante la última década, la relación entre el desarrollo tecnológico y la inclusión social comenzó a adquirir una nueva relevancia en varios países en desarrollo. En especial, la cuestión sobre cómo producir conocimientos, impulsar aprendizajes y orientar la innovación hacia procesos de desarrollo inclusivo se ha visto revitalizada en su dimensión analítica y política. Centros de investigación, redes de investigadores y financiadores internacionales han definido como áreas prioritarias de sus agendas, el análisis y la generación de conceptos como "inclusive innovation", "social innovation", "tecnologías sociales", "grassroots innovation" o "base de la pirámide". En el mismo sentido, agencias y órganos gubernamentales de diferente nivel (ministerios,

secretarías, institutos y empresas públicas 35 ) están orientado sus actividades hacia políticas de diseño, producción e implementación de “soluciones tecnológicas” a problemas sociales.

Si bien los países en desarrollo han mostrado tasas de crecimiento económico sostenidas en los

últimos 20 años, las estrategias basadas en la incorporación de capital (nacional o transnacional) en áreas intensivas en recursos naturales han fallado en promover y estimular procesos inclusivos más profundos. Y, en este sentido, la principal estrategia de “inclusión social” en la región de América Latina continúa siendo el aumento del empleo industrial asalariado y los beneficios asociados al empleo formal (THOMAS; BECERRA, 2012; THOMAS, et alli 2013). Por lo tanto, la cuestión de las Tecnologías para

la Inclusión Social - TSI 36 emerge en estas dos agendas (de discusión teórica y de política pública) como un vacío a llenar por nuevos insumos conceptuales y prácticos a los fines de superar los enfoques tradicionales sobre la relación entre tecnología y desarrollo.

En la actualidad, es posible identificar una diversidad de nuevos conceptos, enfoques e iniciativas

de desarrollo tecnológico orientado a la inclusión social. Así, el rango de opciones se constituye desde

las viejas tecnologías apropiadas e intermedias; nuevas concepciones de tecnologías para la mitigación de la pobreza mediante el impulso al emprededorismo (GUPTA et alli., 2003) o la participación activa de empresas multinacionales (PRAHALAD, 2010); o inclusive enfoques basados en los desarrollos de Laboratorios Públicos de Medicamentos (BECERRA; SANTOS, 2013); hasta la mirada de la economía solidaria (THOMAS; BECERRA, 2014).

A pesar de la diversidad de conceptos y modelos, aún no está claro cómo evitar fallas de

experiencias previas en el desarrollo de TIS. Por ejemplo, la mayoría de estos enfoques parece enfrentar tensiones entre los requerimientos locales y la necesidad de aumento de escala, entre el financiamiento de corto plazo y la oportunidad de crear formas más profundas de empoderamiento y cambio social, entre otras (SMITH, et alli, 2013).

En términos de este trabajo, se busca poner la atención sobre dos tipos de fracasos o problemas

comunes que se observan en las experiencias de TIS en Argentina y en la región: i) los problemas de

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orden teórico; y ii) los problemas de la esfera del diseño y la implementación de las políticas públicas. El primer tipo está principalmente basado en el uso de modelos lineales de innovación y viejas concepciones sobre transferencia de tecnología que tienden a reducir la pobreza y la exclusión social a un problema técnico. El segundo, está asociado con el problema de falta de recursos humanos adecuados, la discontinuidad del financiamiento y la incapacidad de las instituciones de desarrollo social para concebir o sostener estrategias de largo plazo basas en mejoras vía aprendizaje. Si bien, en términos generales los enfoques de TIS destacan el rol de los conocimientos locales o tradicionales, así como que la capacidad de innovación de los usuarios finales de las soluciones tecnológicas debe ser tenida en cuenta, y que la incorporación de conocimiento local o tradicional en el proceso de innovación conlleva el empoderamiento de los actores (véase GUPTA, 1997; GUPTA et al., 2003; PRAHALAD, 2010); lo que se observa en la práctica no siempre cumple con esos objetivos. Gran parte de los proyectos de desarrollo tecnológico para la inclusión social continúan siendo dominados por marcos de transferencia de tecnología (LEACH; SCOONES, 2006; THOMAS, 2009 y 2012; FERNÁNDEZ-BALDOR; HUESO; BONI, 2012) y formas de racionalidad técnica (SCHÖN, 1983). En este sentido, es posible encontrar innumerables ejemplos de experiencias de desarrollo de las así llamadas “tecnologías apropiadas” que implicaron la implementación de soluciones tecnológicas pre-definidas que no lograron el compromiso de los usuarios y no obtuvieron los resultados previstos (THOMAS, 2012; MONTAÑA, 2010; JUAREZ, 2011). Por lo tanto, a pesar de tener como premisa la generación de procesos de inclusión y empoderamiento, estas iniciativas no necesariamente lo consiguen. Es más, el propio marco de referencia de estos enfoques, en general consideran de manera pasiva a los usuarios, ignorando sus capacidades y las posibilidades de aprendizaje mutuo 37 . Siguiendo esta línea argumental, el presente trabajo se aboca al análisis de dos estudios de caso de experiencias de Tecnologías para la Inclusión Social - TIS en Argentina. El primero en el campo de las energías renovables y el segundo en relación con políticas públicas para la pequeña agricultura familiar. Ambas reflexiones de base empírica se orientan a: i) comprender qué tipos de problemas teóricos enfrentan los practitioners, ii) cómo reconocen las limitaciones y disfuncionalidades emergentes en sus procesos de diseño, desarrollo e implementación de sus estrategias y prácticas concretas, y iii) qué tipo de modificaciones en sus estrategias tratan de introducir en orden a superar los inconvenientes y desafíos que encuentran. Así, el lector encontrará en las siguientes páginas una primera sección donde se exponen las herramientas analíticas utilizadas. Luego se abordan los estudios empíricos de dos casos de desarrollo de TIS para condesar los diferentes aprendizajes que surgieron a partir de la reflexión sobre la práctica en una tercera sección.

Cuestiones preliminares

Entre los grupos de I+D implicados en el desarrollo de tecnologías orientadas a favorecer procesos de inclusión social, frecuentemente se concibe que la adopción de los sistemas y dispositivos por parte de los usuarios se encuentra al final de un proceso de “transferencia de tecnologías”. En la práctica, muchos de estos grupos encuentran serios inconvenientes para implementar sus proyectos. En el marco teórico-metodológico de la transferencia de tecnologías, los espacios de producción de conocimientos están estrictamente separados. Los ingenieros/científicos construyen el problema en base a ciertos supuestos e inputs, y luego diseñan una solución en el laboratorio. La transferencia de tecnología a los usuarios se limita a la implementación del artefacto y la capacitación sobre su uso. Es una forma instrumental y determinista que crea espacios asimétricos de producción de conocimientos y por lo tanto reduce las posibilidades de aprendizajes por interacción entre los diferentes actores que

participan del proyecto (véase LEACH; SCOONES, 2006; THOMAS, 2009; FERNÁNDEZ-BALDOR; HUESO; BONI, 2012).

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Como veremos más adelante en los casos analizados, a partir de los cuestionamientos que recibieron sus proyectos, los grupos de trabajo debieron modificar diversos elementos que estructuraban la forma de construir el problema y las alianzas con los demás actores y materiales. Con el objeto de analizar estos procesos se utilizan los conceptos de "relaciones problema-solución" y "alianzas socio-técnicas". Se denomina relaciones problema-solución a la forma en que los actores establecen cuál es el problema que debe resolverse y cuál es en consecuencia la solución potencial. Concebidas de esta manera, las relaciones problema-solución son articulaciones socio-técnicas históricamente situadas e históricamente construidas que dependen de la participación en una o varios marcos de producción de conocimientos 38 . A partir de determinadas lógicas problema-solución es posible considerar si los artefactos son adecuados o inadecuados, funcionan o no funcionan (véase CALLON, 2006, SCHÖN, 1983). Por su parte, las alianzas socio-técnicas son coaliciones de elementos heterogéneos, implicados en el proceso de construcción de funcionamiento/no-funcionamiento de una tecnología. Las alianzas se constituyen dinámicamente, en términos de movimientos de alineamiento y coordinación de artefactos, ideologías, regulaciones, conocimientos, instituciones, actores sociales, recursos económicos, condiciones ambientales, materiales, etc., que viabilizan o impiden la estabilización de la adecuación socio-técnica de una tecnología y la asignación de sentido de funcionamiento/no- funcionamiento (THOMAS, 2012).

Dos estudios de caso sobre TIS en Argentina: Aprendizajes sobre experiencias en energías renovables y alimentos para la pequeña agricultura familiar

Las experiencias presentadas en este capítulo han sido seleccionadas de un relevamiento más general que tuvo como resultado un mapa, a escala nacional y regional, de distintas experiencias y políticas públicas que se han llevado a cabo en áreas relacionados con TIS: energía, salud, alimentos, agua y vivienda. Los casos han sido seleccionados debido a su capacidad para señalar cuestiones clave sobre la concepción teórica que nutre las políticas y acciones individuales y colectivas en el campo de las TIS. El primer caso refiere a una experiencia de resolución "déficits" en servicios básicos (provisión de energía) allí donde los sistemas de provisión tecnológicos convencionales son considerados inadecuados o "ineficientes"; mientras que el segundo caso es un programa de fomento a la pequeña agricultura familiar de alcance nacional. Por lo que, en primer lugar, es posible contemplar dentro del análisis dos tipos de alcance: i) con relación al tipo de problema; y ii) con relación al territorio sobre el que la acción pretende operar. En segundo lugar, ambos casos muestran en diferente grado un conjunto de características iniciales compartidas que se convirtieron en un problema para el logro de los objetivos de inclusión de las iniciativas: i) se encuentra basadas en marcos conceptuales de transferencia tecnológica; ii) suponen una jerarquía del conocimiento técnico por sobre otras formas de conocimiento; iii) se configuran como soluciones puntuales y no sistémicas; y iv) se diseñan y producen como soluciones apropiadas para los pobres. El primer caso se trata de un proyecto de transferencia y capacitación en energías renovables en la provincia de Mendoza desarrollado a partir de 2008 por integrantes del Grupo Cliope de la Universidad Tecnológica Nacional –Facultad Regional Mendoza – UTN-FRM. En el segundo caso, se trabajan el Programa Nacional para la Pequeña Agricultura Familiar – PNPAF – y el Centro de Investigación y Desarrollo para la Pequeña Agricultura Familiar – Cipaf – del Instituto Nacional de Tecnología Agropecuaria - Inta. En esta sección se realizará una descripción de las experiencias intentando resaltar los problemas que enfrentaron los actores y los cambios que debieron realizar en

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sus proyectos.

Energía solar, agua potable e inclusión social: Dispositivos solares en el Secano de Lavalle

El departamento de Lavalle, en el noreste de la provincia, es un ejemplo de lo que se conoce como la Mendoza del Desierto (ANASTASI, 1991). Este departamento repite la configuración espacial de la provincia al contar sólo con un 3% de su territorio bajo irrigación. El 97% restante sufre, en términos generales, las mismas dificultades de las zonas de secano existentes en la provincia. La fertilidad de la tierra en esta región es muy pobre debido a la erosión, la falta de agua y los altos contenidos de sal 39 . El acceso al agua es el problema más grave que enfrentan los pobladores que habitan el desierto de Lavalle. La población vive en asentamientos conformados por casas de adobe, los llamados “puestos”, que se distribuyen de forma dispersa a lo largo de todo el territorio. La principal actividad económica es la cría de cabras, los caminos son deficientes y no hay acceso a la red de energía eléctrica. Frente a este diagnóstico de situación, los investigadores creyeron relevante desarrollar la construcción y transferencia de dispositivos solares (hornos, secaderos y destiladores solares 40 ). Durante el transcurso del proyecto, esta experiencia presentó diversos cambios e inconvenientes – como así también ajustes- que obligaron al grupo ejecutor a generar diferentes estrategias que pueden ser definidas a partir de particulares dinámicas problema-solución y de la conformación de distintas alianzas socio-técnicas desarrolladas por este grupo.

PrimeraFase

La primera etapa del proyecto consistió en el desarrollo de los prototipos a ser utilizados en la experiencia en el predio del Observatorio (lugar de trabajo del grupo Cliope). Estos dispositivos fueron construidos, evaluados y ajustados por los becarios vinculados luego de un proceso de capacitación interna. La estrategia planteada para esta primera etapa se planteó en dos direcciones:

1. Trabajar con docentes y alumnos en las escuelas (del secano) con materiales didácticos referentes a las energías renovables, promover su inclusión en la currícula y montar talleres de construcción de los dispositivos con los alumnos de los años superiores.

2. Trabajar en talleres comunitarios constructivos, donde se capacitara en el montaje y uso de los dispositivos a las familias de diferentes comunidades.

En un primer momento se planteó la necesidad de establecer un acuerdo con actores considerados estratégicos como la Dirección General de Escuelas (DGE) de Mendoza y de los técnicos del Municipio de Lavalle para favorecer el proceso de implementación, pero no se logró cumplir con la capacitación del personal del municipio de Lavalle en los tiempos y plazos necesarios para el proyecto. Ante el fracaso de esta alianza, los miembros el grupo Cliope decidieron llevar adelante el proyecto de una manera diferente y el grupo se concentró en el trabajo directo con las familias receptoras de los dispositivos por etapas. En esta etapa se realizó un trabajo de identificación y selección de los potenciales receptores junto con técnicos del Instituto Nacional de Tecnología Agropecuaria – Inta – y el Programa Social Agropecuario – PSA – que trabajan junto con el Municipio de Lavalle. Los investigadores definieron una nueva estrategia basada en la instalación de lo que denominaron “prototipos de campo” y la selección de familias socias. De esta manera, siguieron experimentando

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con los dispositivos pero articulando su trabajo con los usuarios. Durante este proceso pudieron identificar, en conjunto con los usuarios, nuevos problemas y procuraron su resolución. Frente a las complicaciones experimentadas durante la primera fase también redefinieron sus alianzas.

A partir de este momento, el personal del grupo Cliope se acercó al campo acordando con las

familias receptoras el proceso de transferencia de los dispositivos y la capacitación para su uso, con el compromiso de los usuarios de realizar una evaluación de su funcionamiento. Durante esta fase se instalaron destiladores solares en cinco puestos ubicados en la zona de San

José y Lagunas, al norte del Departamento de Lavalle 41 . Así, el proyecto permitió generar una primera serie de resultados considerados positivos vinculados a la medición del rendimiento de los destiladores solares construidos y la aceptación por parte de los usuarios (aunque su rol seguía siendo relativamente pasivo). Las familias socias recibían los destiladores y aportaban su evaluación del rendimiento de los mismos, pero el poder de decisión respecto de las eventuales modificaciones, en el

diseño del artefacto, seguía concentrado en los investigadores En el proceso de instalación y uso de los destiladores en los puestos se identificó un nuevo problema que no había sido dimensionado lo suficiente, el agua no tenía índices muy altos de arsénico, pero sí altos niveles de conductividad (salinidad). Para cualquiera de los dos problemas, los destiladores solares representaban una respuesta adecuada. Sin embargo, en uno de los puestos se produjo una situación particular por la que una vecina rechazó el destilador solar. Para la usuaria, el sabor del agua producida en el destilador resultaba desagradable. A pesar de la evaluación positiva atribuida por el grupo de investigación, el destinatario del artefacto impuso su percepción, determinando en este caso su no funcionamiento. Por otro lado, los análisis bacteriológicos de las muestras de agua obtenidas de los destiladores mostraron otro problema relacionado a con la presencia de un alto porcentaje de patógenos en el agua destilada. Frente a esta evidencia, los investigadores observaron detalladamente el procedimiento seguido por los usuarios y concluyeron que la causa era la falta de adopción de medidas higiénicas. Los campesinos, en su gran mayoría, viven en permanente contacto con las cabras que crían. De este modo, el no funcionamiento de la tecnología aplicada fue construido por las prácticas socio- económicas de la población.

A partir de esta fase del proyecto en el que se logró instalar una serie de dispositivos con cierto

nivel de resultados positivos, el grupo de investigación decidió replantearse la estrategia para una segunda fase en la que intentarían instalar un nuevo grupo de 10 destiladores más.

SegundaFase

En la estrategia planteada para la segunda fase del proyecto, algunos técnicos de la Secretaría de Ambiente de Mendoza, sugirió que los integrantes del grupo Cliope se contactaran con las autoridades

de las comunidades originarias Huarpes para esta nueva etapa 42 . La visita realizada a la casa Huarpe presentó dificultades inesperadas para el grupo. En la reunión, las autoridades Huarpes cuestionaron la metodología desarrollada por los investigadores hasta ese momento al haber instalado dispositivos en puestos pertenecientes a familias miembros de sus comunidades sin haber consultado previamente a sus presidentes.

A pesar de este reclamo, se logró acordar con tres presidentes de las comunidades Huarpes la

instalación de dispositivos en sus comunidades. En esta nueva etapa, estos presidentes pre-definieron usuarios acorde a las necesidades socio ambientales, pero fundamentalmente con capacidad de trabajo y de asociatividad en las tareas a emprender. De este modo se identifica una nueva dinámica problema-solución, en la que las autoridades Huarpes ocuparon un rol central, generando un nuevo proceso de resignificación de las tecnologías. En esta fase se produjo una efectiva participación de la comunidad receptora de los dispositivos en

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la toma de decisiones relacionadas al proyecto. Esto quedó evidenciado en la participación de las autoridades de las comunidades huarpes en la planificación de prioridades y necesidades al mismo tiempo que se fue ajustando la metodología de intervención a las prácticas culturales propias de estas poblaciones. De esta manera, La segunda fase del proyecto estuvo basada en una estrategia que implicaba la incorporación de nuevos socios estratégicos en la alianza socio-técnica: los presidentes de las comunidades Huarpe, quienes dieron nuevo dinamismo al proyecto en la medida en que con su colaboración reforzaban su posición al interior de sus comunidades. Además, el proyecto les ofrecía nuevos elementos en el proceso de lucha que están llevando adelante por su identidad étnica, sus tierras y su calidad de vida. Sin embargo, los integrantes del grupo de investigación reconocen que todavía falta profundizar la participación de estos usuarios en el diseño y ajustes en los dispositivos, aunque se puede observar un aumento en la experimentación en el uso de los hornos solares y la elaboración de recetarios locales.

Auto producción de alimentos y políticas públicas de ciencia y tecnología: Desarrollo de la pequeña agricultura familiar a nivel nacional

Después de la crisis social, económica e institucional del año 2001, algunos actores dentro del Instituto Nacional de Tecnología Agropecuaria – Inta – buscaron constituir una nueva política social de ciencia

y tecnología superadora de las anteriores que se cristalizaron en el Programa Nacional para la Pequeña Agricultura Familiar – PNPAF – y el Centro de Investigación y Desarrollo para la Pequeña Agricultura Familiar – Cipaf. Aquí se analiza la evolución de los componentes de esta nueva política de ciencia y tecnología, a

los fines de explicar la trayectoria socio-técnica del Cipaf y los Ipaf (durante el periodo de los años 2004

a 2009). Esta trayectoria se estructura en torno a la modificación de las estrategias desplegadas, y la secuencia queda definida de la siguiente manera:

la primera (diciembre 2004- agosto 2005), refiere al proceso de negociación y de formulación de la política de ciencia y tecnología; los elementos de la toma de decisión y los arreglos institucionales que co-construyen los significados asignados en la concepción de la política;y la secuencia queda definida de la siguiente manera: la segunda (agosto 2005 – diciembre 2007),

la segunda (agosto 2005 – diciembre 2007), abarca los procesos de construcción del diseño y puesta en marcha de la política para la Agricultura Familiar en el Inta, especialmente: la conceptualización del usuario-beneficiario, la elaboración de la agenda de investigación, y las estrategias generadas para priorizar ciertas líneas de trabajo;significados asignados en la concepción de la política; mientras la tercera (enero 2008 – diciembre 2009)

mientras la tercera (enero 2008 – diciembre 2009) se corresponde con la implementación de proyectos específicos y diversas intervenciones que fueron parte de la configuración de la institucionalización y especialización científico-tecnológica de los institutos regionales.generadas para priorizar ciertas líneas de trabajo; Analizar el desarrollo de las fases permite observar

Analizar el desarrollo de las fases permite observar funcionamiento/no-funcionamiento de la política, las dinámicas de negociación de sentidos entre diferentes grupos sociales relevantes y la reconfiguraciones de las alianzas socio-técnicas.

PrimeraFase

En diciembre de 2004, el Inta aprobó el nuevo Plan Estratégico Institucional 2005-2015 (PEI) que señalo la equidad social y la “innovación para la inclusión social” como ejes centrales de la nueva estrategia institucional (INTA, 2005). En ese escenario, el Presidente y el Director Nacional del Inta 43 respectivamente, decidieron

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impulsar una nueva política social y convocaron a una comisión de trabajo ad-hoc. Esta comisión ad hoc fue integrada por referentes de la Institución, estos eran: el Gerente de Extensión del Inta, el Director del "Programa de Autoproducción de Alimentos” - Inta-UNMP, el Director del Centro Regional Buenos Aires Norte, un asistente Regional de Extensión de la Dirección del Centro Regional Buenos Aires Sur, y un representante del Centro de Investigaciones en Ciencias Veterinarias y Agronómicas del Inta. Varios de ellos con experiencia y participación en políticas sociales agrarias. En la construcción de la iniciativa, fueron surgiendo una conjunto de cuestiones que la comisión ad hoc juzgó importantes incluir en el debate: la Agricultura Familiar como usuario y forma productiva, la construcción colectiva de conocimiento, la utilización de know-how local, la construcción de demandas desde los actores sociales, el desarrollo de “tecnologías apropiadas”, el incentivo a la producción orgánica y/o agroecológica, entre otras temáticas. Esos materiales y consultas comenzaron a definir el problema para los Directivos Inta y la comisión ad hoc en torno a dos opciones sobre cómo trabajar con el usuario “Agricultura Familiar” y generar procesos de desarrollo territorial: a) ¿ajustar conocimientos y paquetes existentes en el Inta? o b) ¿diseñar y “transferir paquetes tecnológicos hechos a medida” (localistas)? La primera opción de política implicaba redireccionar algunas capacidades del Inta hacia los grupos sociales vulnerables. Los actores juzgaron que esa opción era inadecuada dado que la Institución había tenido experiencias fallidas en materia de adaptación de la producción de conocimiento científico y tecnológico de grandes productores a pequeños. La segunda opción, era el desarrollo científico-tecnológico localista, e implicaba crear nuevas instituciones con nuevas capacidades. Esta alternativa suscitó algunos cuestionamientos entorno a la escala de investigación y los recursos disponibles (humanos y financieros) para la nueva política. Sobre el problema de la escala, a partir de los objetivos del nuevo Plan Estratégico del Inta, la comisión consideró que el “enfoque territorial de desarrollo” marcaba la necesidad de generar conocimientos y capacidades que refirieran a los territorios 44 como “cuadro de vida”. En este caso, la comisión ad hoc concluyó que era posible elaborar soluciones tecno-productivas para la agricultura familiar trabajando a escala regional. En cuanto el problema de recursos, la recuperación financiera del Inta permitió pensar un escenario favorable para una nueva estrategia social regionalizada. Finalmente, los distintos actores intervinientes convergieron en el diagnóstico de los problemas y aquello que se deseaban evitar en la nueva política. Después de esta primera etapa de consultas, la comisión ad hoc decidió utilizar algunos conceptos y herramientas metodológicas disponibles en los debates y documentos de Procisur y el PEI-Inta, como “agricultura familiar”, “tecnologías apropiadas” e “investigación acción participativa”. Estas nociones se vieron plasmadas en el Documento de Base del Programa Nacional de Investigación y Desarrollo para la Pequeña Agricultura Familiar (2005). El objetivo general del programa era “generar, adaptar y validar tecnologías apropiadas para el desarrollo sostenible” y trabajar “generando tecnologías apropiadas, a través de la investigación acción participativa, bajo la concepción de Seguridad y Soberanía Alimentaria y Desarrollo Territorial Sustentable, con la idea de que no hay desarrollo posible sin actores que sean activos del mismo (empoderamiento de los actores), y no hay innovación tecnológica duradera sin reconocimiento y valorización social”. En el diseño organizacional, el Documento de Base creó el Programa Nacional de Investigación y Desarrollo para la Pequeña Agricultura Familiar – PNPAF – y se propuso una serie de instituciones para la implementación del Programa: un centro y tres institutos regionales. Durante esta fase, el problema de desarrollar I+D para la Agricultura Familiar estuvo asociado a la inadecuación de las capacidades cognitivas disponibles en el Inta, tanto en los mecanismos como en las formas sistemáticas de construir conocimiento e intervención técnica. Esto implicó pensar una solución integral, una nueva política de ciencia y tecnología social: nuevas instituciones, equipos transdisciplinarios, orientado a problemas regionales, diferentes capacidades y formas de aprendizaje, nuevas relaciones usuario-productor, nuevas formas de construcción de conocimiento, entre otras

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cuestiones. Esta forma de pensar la relación problema-solución habilitó la opción de crear nuevas instituciones. En la medida en que la Dirección Nacional y la comisión ad hoc del Inta coordinaron adecuadamente la alianza socio-técnica, esta consiguió estabilizarse. Sin embargo, el funcionamiento

que los decisores políticos construyeron para la aprobación de la política, es retorico. La realidad es que la aprobación de la política fue posible sin que se materializaran algunas de las relaciones que sostenían la alianza socio-técnica.

El criterio de los decisores políticos rigió todo el proceso de concepción de la política, desde la

selección de los actores y grupos consultados hasta la definición de temáticas a considerar para el texto programático. Los grupos sociales del Inta que podían estar en contra o a favor de la política de forma taxativa fueron priorizados en las consultas, tanto para integrarlos a las redes de como para disminuir los potenciales conflictos. En esta fase, la agricultura familiar estuvo presente retóricamente en la decisión de aprobar la política, pero como actor social no tuvo un espacio particular de participación ni voz en la toma de

decisiones sobre el contenido y el modelo de gestión. La política fue pensada desde el lado del Inta como productor de conocimiento científico y tecnológico con una dinámica top down (jerárquica) que priorizó los arreglos institucionales y los conocimientos técnicos y políticos antes que aquellos de los usuarios agricultura familiar. Los diferentes arreglos institucionales que fueron negociándose para la aprobación y puesta en marcha de la política no llegaron a materializarse en todos los casos. Las promesas políticas de los gobiernos provinciales de aportar recursos como terrenos e infraestructura se cumplieron en el caso del Ipaf NOA, no así en el caso de Ipaf pampeano y noreste que, al menos hasta el año 2009, no contaban con espacios propios de trabajo.

A su vez, el texto del programa y la construcción retórica de la relación entre el programa y los

institutos (Cipaf e Ipaf) fue importante para la aprobación de la política, sin embargo, el Programa Nacional de Investigación y Desarrollo para la Pequeña Agricultura Familiar nunca fue instrumentado. Como se verá en el siguiente apartado, el programa fue parte del proceso de

institucionalización de la política pero no fue utilizado para solicitar financiamientos o proyectos.

A su vez, la amplia flexibilidad interpretativa no siempre jugó a favor de la política. En el

Documento de Base se agregaron una serie de posiciones políticas y tecno-productivas que son contradictorias entre sí. Por ejemplo, la idea de agregar las nociones d