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Contexto atual da prática odontológica

Lana Bleicher1

Dentistas.

Durante as últimas décadas do século XX e início do século XXI, a profissão


odontológica tem sofrido profundas transformações, quer de natureza quantitativa,
quer qualitativa. No Brasil, o número de profissionais cresceu significativamente em
poucas décadas: de 40.929 em 1975 (Cordón, 1986) para 223.310 em 2009 (CFO,
2009). Somado a isto, percebe-se que, de uma profissão predominantemente liberal,
vem se tornando crescentemente assalariada, havendo uma perda gradativa de sua
autonomia e um declínio do poder aquisitivo médio. É importante registrar o caráter
processual de tais mudanças: essa transição ainda não se deu por completo, há que
se salientar que o modelo tradicional ainda é predominante. As modificações do
mercado de trabalho odontológico ainda não foram suficientemente descritas e
analisadas. Moysés (2004) relata que mais de 40% dos dentistas brasileiros
declaram exercer uma jornada igual ou maior de 44 horas semanais, 37% admitem
duplo vínculo empregatício, e mais de 48% admitem uma renda familiar máxima
mensal de R$3.600,00.

O dentista e suas origens

A origem dos cirurgiões-dentistas remonta aos barbeiros-cirurgiões: homens que


além de fazer barba e cortar cabelo, também tinham a perícia de realizar sangrias,
aplicar sanguessugas, e extrair dentes. Havia na Europa medieval uma gama de
trabalhadores da saúde: os médicos – ou físicos – herdeiros da tradição hipocrática,
ocupavam-se da clínica, da prescrição de medicamentos, uma prática mais refinada
e mais nobre que a lide com o sangue, vísceras e ossos. Tal tarefa pertencia aos
barbeiros, parteiras, cirurgiões. Essas ocupações tinham seus próprios círculos de
formação, corporações à maneira dos demais trabalhadores livres de então. A
separação entre as práticas clínica e cirúrgica adentrou o Renascimento, não tendo
a primeira sofrido grandes alterações até o século XVIII. A segunda, por sua vez,
apresentou desenvolvimento significativo, perdendo gradualmente seu estigma de
intervenção manual para revestir-se de um estatuto de cientificidade. Desta forma,
os cirurgiões se diferenciaram dos demais práticos, procurando igualar o status dos
médicos. A especialização desta prática levou ao surgimento do “cirurgião-dentista”,
termo cunhado por Pierre Fauchard no século XVIII, considerado o fundador da
Odontologia moderna. Contudo, é nos Estados Unidos que esta surge como uma
1
Texto elaborado para a disciplina Odontologia em Saúde Coletiva III, da Universidade
Federal da Bahia. Fevereiro de 2009.
http://odentistaeomundodotrabalho.blogspot.com/
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profissão separada da Medicina, com a inauguração da primeira escola odontológica


em 1840 (Novaes, 1998).

Os primeiros cirurgiões-dentistas, bem como seus antecessores barbeiros,


compunham uma fração dos trabalhadores livres junto a artesãos, pequenos
comerciantes, e pequenos fabricantes. Não tinham sua força de trabalho vendida em
parcelas. Eram donos de seus instrumentos, controlavam o processo de trabalho,
fixavam livremente seus honorários e integravam as corporações de ofício. A maior
parte das corporações foi subsumida ao capital e sofreu um processo de
proletarização. Já a Odontologia, como a Medicina, entre outras ocupações, tornou-
se o que Freidson denomina profissão. O conceito de profissão para este autor é um
tanto diferente daquilo que estabelece o senso comum. Profissão, segundo Freidson
apud Carvalho (2006) é aquele grupo ocupacional que detem a) o poder de
determinar quem é qualificado para realizar um determinado conjunto de tarefas; b)
o poder de impedir que os demais realizem seu trabalho; c) o poder de controlar os
critérios para avaliar seu trabalho profissional.

Ou seja, os profissionais continuaram com uma certa autonomia sobre seus


processos de trabalho, constituindo uma fração da pequena burguesia. Quanto às
demais ocupações, muitas foram extintas ou se transformaram profundamente, e
grande parte passou a compor a classe operária. Cumpre detalhar tal processo.

O mundo do trabalho – século XX

Boa parte daquilo que nos vem à mente quando pensamos em fábricas é uma
herança de Taylor (1856 – 1915) e de Ford (1863 – 1947). Taylor introduziu o
controle dos tempos e movimentos e Ford consolidou a produção em série. Quando
falamos em fordismo estamos nos referindo a uma forma de organizar o trabalho,
pautada pelo parcelamento do trabalho, pela fragmentação das funções e pela
extrema especialização do trabalhador (Antunes, 2000). Chaplin retratou este
processo de trabalho no filme Tempos Modernos (1936).

Muito tempo depois das formulações de Taylor e Ford para o trabalho industrial,
houve uma tentativa de apropriação deste referencial pela Odontologia. Nos anos 70
e 80 do século XX diversos estudos sobre os tempos e movimentos do trabalho
odontológico foram realizados. A chamada Odontologia Simplificada procurou
eliminar tudo o que fosse supérfluo e contra-produtivo, maximizando a produtividade
do dentista. O parcelamento do trabalho também foi intensificado, havendo uma
delegação de algumas funções do dentista para o então Técnico em Higiene Dental
(atual Técnico em Saúde Bucal) e para o antigo Atendente de Consultório Dentário
(hoje Auxiliar em Saúde Bucal). Entretanto, o trabalho em saúde não é tão
facilmente fragmentado como ocorre na fábrica. Ou seja, aquilo que faz de uma
ocupação uma profissão de acordo com Freidson – o controle sob seu trabalho, a
autonomia – permanecia.

A época do florescimento do fordismo foi também a era do surgimento dos Estados


de Bem-Estar2 e de predomínio do keynesianismo 3. Do pós-guerra ao início da crise
de petróleo, a predominância foi da “produção em larga escala, a existência de
2
O Estado de Bem Estar Social consiste em um conjunto de políticas públicas – saúde,
educação, previdência, etc. – que protegem todo e qualquer cidadão.
3

unidades fabris concentradas e verticalizadas e [da] constituição do operário-massa”


(Antunes, 2002, p. 25). Foram décadas de prosperidade econômica, e a classe
trabalhadora organizou-se e conseguiu arrancar conquistas como os direitos
trabalhistas, sistemas de seguridade, etc. O fato de tudo isto ocorrer durante a
guerra fria também contribui para explicar essas vitórias, pois havia um forte temor
entre os países capitalistas em relação ao avanço do socialismo.

Esse contexto de crescimento foi extremamente vantajoso para os cirurgiões-


dentistas. Zanetti, em suas reflexões sobre o mercado de trabalho odontológico
ilustra desta maneira o cenário:

Na família do futuro CDc [Cirurgião-dentista de consultório], o maior


sonho dos pais era ver o filho(a) formado(a), bem como provido(a), na
forma de presente de formatura, de um “consultório particular
completo”. Concluído o “rito de passagem” para o mundo profissional,
cabia aos CDc recém-formados, casar, constituir família e assumir
compromissos de prover seus filhos, provavelmente futuros CDc, das
mesmas oportunidades tradicionais (...). Entretanto, a crise expulsou
os CDc do “paraíso” das classes médias. (Zanetti, 1999, p. 16)

Esta crise referida por Zanetti não foi sentida apenas pelos dentistas. O ciclo de
prosperidade econômica foi interrompido com a crise do petróleo nos anos 70. No
campo político, foi este o fértil terreno para o avanço do neoliberalismo. No campo
da organização do trabalho, outras formas foram pensadas para superar o fordismo:
eis que surge o toyotismo.

Enquanto o fordismo procurava produzir em série e em massa, no toyotismo a


produção é conduzida pela demanda: trabalha-se com um estoque mínimo, a
produção é flexível para atender às flutuações e exigências individualizadas do
mercado no menor tempo possível. O trabalhador deve ser desespecializado, há de
ser polivalente, o que lhe exige maior qualificação. O trabalho não ocorre mais em
série, mas em equipes: cada uma delas responsável por um sistema de máquinas
automatizadas. Por outro lado, o intenso uso da robótica faz com que menos
operários trabalhem em cada fábrica (Antunes, 2000).

Ocorre, com frequência, um aumento da taxa de desemprego, ainda que a produção


se mantenha alta. Alves (1999) entende que é exatamente o desenvolvimento da
produtividade do trabalho que impulsiona o crescimento das massas de
desempregados e subproletários.

Matos (2006) relata sua experiência pessoal de como tal cenário afetou e afeta a
prática odontológica:

Exercendo a Odontologia em clínica privada desde 1982, eu


testemunhei alguns dos efeitos dessa conjuntura como prestadora
3
O keynesianismo é uma teoria econômica que, em oposição ao liberalismo, defende a
intervenção do Estado na Economia, objetivando o pleno emprego.
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de assistência odontológica, por meio de planos de saúde a


empregados (e seus dependentes) de várias empresas. A partir do
início da década de 1990 vivi, junto com muitos profissionais, o
drama de várias famílias de trabalhadores do Pólo Petroquímico e
de empresas públicas privatizadas, pais e mães de família que
viviam a ansiedade e o medo do desemprego. Muitos deles
transformaram a minha cadeira em verdadeiro divã, lamentando-se
e sofrendo com a expectativa de serem os próximos nas imensas
listas de demissões. (...)

Muitos dos que perdiam o emprego retornavam ao mundo do


trabalho, muitas vezes para a mesma empresa, mas sem vínculo
empregatício, mediante contratos temporários de prestação de
serviço, sentindo-se derrotados e humilhados com a nova e precária
condição que envolvia, além de perdas salariais, perdas de direitos
políticos e sociais. Dentre esses, a assistência médico-odontológica.

Como uma bola de neve, essa mudança no mundo do trabalho,


associada à crise econômica há muito enfrentada pelo país, atingiu
a Odontologia. Com os trabalhadores perdendo os seus empregos e
o acesso aos serviços odontológicos por meio dos seus convênios,
os profissionais foram, aos poucos, assistindo ao esvaziamento dos
consultórios; culminando, junto com as políticas de educação, com o
estimulo à abertura de novos cursos e conseqüente aumento de
mão-de-obra profissional, na crise de mercado que vive hoje a
profissão. (Matos, 2006, p. 51)

Tendências atuais do mundo do trabalho

Estas transformações no mundo do trabalho, conhecidas como acumulação flexível,


ao passo em que geram um grande nível de desemprego produzem também uma
nova subjetividade. Afloram conceitos como “empregabilidade”, “empreendedorismo”
e tantos outros. Bourdieu, citado por Druck e Borges (2002) alerta para a gestão
irracional da insegurança que marca os dias atuais.

O mundo do trabalho atual é multifacetado: é possível encontrarmos formas mais


taylorizadas de organização do trabalho coexistindo com outras mais toyotizadas.
Ainda assim, algumas tendências podem ser notadas, como reportam Antunes e
Alves (2004):

• Diminui o proletariado industrial, ao passo que crescem as formas


desregulamentadas de trabalho;
• Aumenta o número de terceirizados e trabalhadores de tempo parcial;
• Há um aumento significativo do trabalho feminino, entretanto as mulheres são as
que mais ocupam os postos de trabalho precarizados e têm níveis de remuneração
inferiores;
• Cresceu o número de assalariados médios no “setor serviços” e aumentou a taxa
de sindicalização neste setor;
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• Jovens e idosos vêem-se cada vez mais excluídos do mercado de trabalho.


Entretanto, em diversos países, utiliza-se criminosamente da mão de obra infantil
como forma de minorar os custos.

Algumas questões que merecem detalhamento:

 Trabalho e gênero

Mesmo constatando-se um aumento da mão de obra feminina no mercado de


trabalho, permanece a desigualdade entre os gêneros no que diz respeito à
qualidade dos postos de trabalho, remuneração e posição de mando. Diversos
estudos apontam: são as mulheres as mais atingidas pela precarização, pelo
trabalho de tempo parcial ou temporário, desregulamentado. São funcionais à
exploração capitalista a noção de que o trabalho feminino é “complementar” no
orçamento doméstico e a premissa de que a mulher “prefere dedicar-se à família,
não à carreira”. Importa salientar que esta ideologia oprime não apenas a mulher,
mas também o homem – ao menos aquele que vive de seu próprio trabalho, pois ao
precarizar o trabalho feminino introduz também a cunha para a precarização do
trabalho masculino. Não é o homem trabalhador quem se beneficia das piores
condições das mulheres, mas o capital – e o capital não tem gênero.

Esta é também uma realidade para a Odontologia. Estudos apontam (Silva, Morais,
Nuto, 1998; Moimaz, Saliba, Blanco, 2003) para uma crescente feminização da força
de trabalho e a inserção da mulher no mercado de trabalho odontológico se faz sob
piores condições. Moimaz, Saliba e Blanco (2003) encontraram em Araçatuba que
44% das cirurgiãs-dentistas entrevistadas afirmavam que a renda obtida pelo
exercício profissional não era suficiente para suas necessidades, embora a
metodologia empregada não tivesse por objetivo comparar com a situação dos
dentistas do sexo masculino. Também foi constatado que 37% das profissionais que
tinham filhos haviam reduzido a carga de trabalho após o nascimento deles,
sugerindo correspondência com as observações de Hirata e Préteceille (2002) de
que o trabalho em tempo parcial é desempenhado majoritariamente por mulheres.
As autoras chamam a atenção para o fato de que esta modalidade de trabalho
“induz uma forte precariedade quanto à carreira, aos rendimentos, às perspectivas
de formação e às possibilidades de representação” (Hirata, Préteceille, 2002, p. 64).

Silva, Morais e Nuto (1998), ao estudar o mercado de trabalho odontológico na


Região Metropolitana de Fortaleza, observaram que são as mulheres que ocupam a
maior parte dos postos de trabalho sem vínculo empregatício: 72% dos postos de
trabalho em empresas privadas da Região Metropolitana de Fortaleza eram
ocupados por mulheres, sendo que nas empresas privadas 93% dos postos de
trabalho eram sem vínculo empregatício. As menores variações de salários, ou seja,
as menores possibilidades de ascensão financeira foram encontradas nas empresas
privadas e prefeituras da RMF – as instituições onde o predomínio de mulheres era
mais acentuado. As únicas instituições nas quais o gênero masculino predominava
eram as instituições de ensino e militares –exatamente aquelas que proporcionavam
as maiores possibilidades de ascensão financeira e que gozam de maior prestígio,
sugerindo que a profissão reproduz os valores de uma sociedade na qual são
destinadas aos homens as posições de mando.
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 Precarização

Druck e Borges afirmam que os indicadores apontam, a partir do início dos anos 90,
um processo de quádrupla precarização: do trabalho, da saúde, do emprego e dos
sindicatos. Em relação à organização do trabalho (este texto não aprofundará as
demais dimensões do processo), a principal política tem sido a terceirização que
consiste no repasse ou a transferência de uma atividade a um ‘terceiro’, a um ‘outro’,
que deve(ria) se responsabilizar pela relação empregatícia e, portanto, pelos
encargos e direitos trabalhistas (Druck; Borges, 2007, p. 3. Grifos no original).

Dentre as tradicionais modalidades de terceirização, podemos destacar: a) trabalho


doméstico (trabalho em domicílio, a ser explicado mais adiante); b) empresas que
fornecem peças às empresas “primeiras”, como ocorre na indústria automobilística;
c) serviços de apoio, tais como limpeza e vigilância (Druck; Borges, 2006).
Entretanto, diversas novas modalidades têm surgido. No interior dos serviços
públicos de saúde tem sido frequente a contratação de “cooperativas” de
profissionais para prestação direta de serviços à população, em lugar da contratação
via serviço público. Ora, cooperativa, segundo Rios (1987) é uma “associação
voluntária com fins econômicos, podendo ingressar os que exercem uma mesma
atividade”. Ao contrário das empresas, cooperativas são geridas por aqueles que
nelas trabalham (“um membro, um voto”) e o excedente produzido é dividido entre
os cooperados. A terceirização de cooperativas em geral tem servido como forma do
contratador desobrigar-se das responsabilidades trabalhistas, pois, em tese, os
cooperados não são empregados, mas de “donos de um negócio”. Teixeira (2000),
ao estudar três cooperativas de profissionais de saúde no município do Rio de
Janeiro, destacou:

(...) observações que não vão de acordo com os princípios


cooperativas: diferença de normas estabelecidas entre estatuto e
regimento interno e gestores das cooperativas; grande influência do
tomador de serviço na criação da cooperativa, na seleção dos
cooperados e no estabelecimento de valor fixo de produção
cooperativista; implementação de benefícios que se aproximam de
benefícios celetistas e características semelhantes da relação
empregado - empregador (admissão, seleção, entrevistas, vaga nos
postos de trabalho). (Teixeira, 2000, p.79)

Druck e Borges (2006) trazem ao debate outras modalidades de terceirização: o


trabalho a domicílio e a “empresa do eu sozinho”. O primeiro, também chamado
teletrabalho, é realizado à distância, geralmente através de computadores. O
segundo, de maior interesse aos dentistas, caracteriza-se pelo necessário registro
de uma empresa em nome do trabalhador, a qual assume todos os encargos e se
torna uma empresa individual terceirizada. As autoras avaliam: “A motivação para tal
modalidade é óbvia, abole-se a relação empregatícia, bem como todos seus custos
econômicos, sociais e políticos, ou seja, todos os direitos trabalhistas, passando o
novo trabalhador-empresa a ser tratado de ‘igual para igual’ ” (Druck, Borges, 2006,
p. 7, grifos no orginal). Diversos planos odontológicos estabelecem como critério
para o convênio que o cirurgião-dentista registre uma empresa em seu nome, que
tenham sua própria “empresa do eu sozinho”.
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Para compreender a Odontologia

A primeira tarefa necessária ao estudo das relações do dentista no mercado de


trabalho é encontrar uma tipologia que auxilie a categorizar as diferentes
modalidades de inserção. Para tanto, são de extrema utilidade as categorias
utilizadas por Donnangelo (1975), em seu trabalho pioneiro sobre o mercado de
trabalho médico. A autora toma três critérios para identificar a posição que o
profissional ocupa no mercado: o controle sobre a clientela, a posse dos meios
de produção e a liberdade de fixação do preço do trabalho. Em função disso,
descreve três formas “puras” e duas atípicas de inserção. O autônomo típico é dono
de seus instrumentos e espaço de trabalho, tem liberdade para definir “honorários” e
planos de tratamento diretamente com o paciente. O assalariado não detém os
meios materiais de trabalho nem negocia seus serviços diretamente com o
consumidor, sobre o qual não tem controle. O proprietário atende aos três critérios
estabelecidos e é empregador de um conjunto de assalariados.

Donnangelo (1975) identifica a situação de autonomia atípica, na qual o


profissional é proprietário do espaço e instrumentos de trabalho, porém é alienado
da negociação direta com o consumidor, não podendo fixar valores de remuneração.
Por fim, cumpre registrar a existência de formas cooperadas, nas quais o controle
sobre as condições de venda é do conjunto de profissionais, havendo uma
apropriação coletiva da renda.

Uma extensa gama de formas anômalas pode ser acrescentada à tipologia original:
do trabalho por porcentagem ao aluguel de turnos em consultórios pertencentes a
outros; das “falsas” cooperativas, que consistem tão somente em intermediação de
mão de obra, às empresas do “eu sozinho” - situação em que o trabalhador se vê
obrigado a assumir personalidade jurídica para prestar serviços a empresas; e,
ainda diversas outras formas de terceirização.

Objetivando conhecer melhor a inserção do cirurgião-dentista no mercado de


trabalho em Salvador, realizamos um estudo de caráter exploratório, transversal e
descritivo. Um grupo de 20 estudantes de odontologia foi capacitado para realizar a
coleta de dados, transcorrida durante a realização do XIV Congresso Internacional
de Odontologia, de 27 a 31 de outubro de 2006. Somente foram convidados a
participar da pesquisa profissionais formados que atuam em Salvador. Garantiu-se o
direito de recusa e anonimato. Todos os participantes preencheram o termo de
consentimento livre e esclarecido. Os questionários foram tabulados e processados
fazendo-se uso de programas estatísticos. Reconhecemos que existem diversas
limitações metodológicas na pesquisa (amostra não aleatória e por conveniência), e
que seus resultados não são generalizáveis, podendo ser tomados somente como
tendências, mas ainda assim nos ajudaram a delinear o problema.

Responderam o questionário 214 cirurgiões-dentistas, dos quais 149 (69,63%) do


sexo feminino e 65 (30,37%) masculino, o que sugere uma confirmação de estudos
anteriores que atestam a feminilização da categoria.
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Na tabela 01 pode-se verificar a distribuição dos cirurgiões dentistas nas diversas


modalidades de inserção no mercado de trabalho. As perguntas foram estruturadas
de modo que um mesmo dentista pudesse responder sim a mais de uma
modalidade, situação bastante comum. Percebe-se que a grande maioria ainda
exerce a prática autônoma típica (87,38%), porém a autonomia atípica,
consubstanciada no atendimento a planos e convênios também é majoritária
(61,21%). Outras formas atípicas, embora minoritárias, apresentaram percentuais
significativos, como o aluguel de turno em consultório de propriedade de outra
pessoa (13,08%) e o trabalho por porcentagem (24,30%). Embora isoladamente o
percentual de empregados no setor privado (17,76%) e no setor público (46,73%)
não supere os 50%, é relevante mencionar que 117 dentistas (54,67%) são
assalariados em pelo menos um destes setores, corroborando as observações de
que ocorre um crescente assalariamento da categoria. A participação em
cooperativas encontrada foi extremamente baixa (5,61%). A condição de proprietário
de empresa odontológica, embora minoritária, atingiu um percentual considerável
(28,04%). Contudo, o formato da pesquisa não foi dimensionado para averiguar se,
neste caso, o dentista atuava como empregador de outro(s) dentista(s) ou se apenas
constiutía-se formalmente como pessoa jurídica, assunto que merecer ser estudado
com maior profundidade posteriormente.

Embora 38 dentistas tenham afirmado serem empregados no setor privado, somente


37 responderam sobre seu vínculo empregatício: CLT 23 (60,52%) e sem vínculo 14
(36,84%) e 2,63% não responderam. Dos 100 dentistas que responderam trabalhar
no setor público, 94 responderam sobre seu vínculo: 57 em regime estatutário, 20
pela CLT, 17 sem vínculo empregatício e 6 não responderam.
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Tabela 01. Modalidades de inserção dos cirurgiões-dentistas participantes da


pesquisa, Salvador-BA, 2006.

Condição Sim Não Não respondeu Total


n % n % n %
Exerce a prática autônoma, 187 87,38 26 12,15 1 0,47 214
como profissional liberal,
realizando atendimento
particular?
Atua no consultório 131 61,21 81 37,85 2 0,93 214
atendendo a planos e
convênios?
Aluga turno em 28 13,08 184 85,98 2 0,93 214
consultório/clínica de
propriedade de outra
pessoa?
Trabalha por porcentagem 52 24,30 158 73,83 4 1,87 214
em consultório/clínica de
propriedade de outra
pessoa?
É empregado no setor 38 17,76 172 80,37 4 1,87 214
privado?
É empregado no setor 100 46,73 112 52,34 2 0,93 214
público?
Participa de cooperativa? 12 5,61 196 91,59 6 2,80 214
É proprietário ou sócio de 60 28,04 149 69,63 5 2,34 214
empresa de serviço
odontológico?

No tocante à renda mensal, observa-se que 10,28% informou receber renda mensal
de até 5 salários mínimos. A maioria dos dentistas (66,35%) declarou auferir no
máximo 15 SM. De acordo com o DIEESE, o salário mínimo necessário em outubro
de 2006 era R$ 1.510,00, embora este valor não tenha sido definido como ponto de
corte na categorização.

Tabela 02. Distribuição dos cirurgiões-dentistas de


participantes da pesquisa, de acordo com a renda
mensal, 2006.

Faixa de renda N.º % % acumulada


Até R$ 1.050 (3 SM) 13 6,07 6,07
De R$ 1.051 a R$ 1.750 (3 a 5 SM) 9 4,21 10,28
De R$ 1.751 a R$ 3.500 (5 a10 SM) 54 25,23 35,51
De R$ 3.501 a R$ 5.250 (10 a 15 SM) 66 30,84 66,35
De R$ 5.251 a R$ 7.000 (15 a 20 SM) 42 19,63 85,98
Acima de R$ 7.000 (> 20 SM) 26 12,15 98,13
Não responderam 4 1,87 100,00
Total 214 100,00
Obs.: O salário mínimo em vigor durante a coleta de dados era R$350,00.
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A última pergunta constante no questionário tinha por enunciado: “Opinião sobre


mercado de trabalho odontológico” Optou-se pela não utilização de respostas pré-
formuladas, permitindo que o entrevistado pudesse expressar livremente sua opinião
para que os temas emergentes neste ponto possam ser melhor explorados em
pesquisas qualitativas em outra oportunidade. Mais de uma resposta era possível.
Procedeu-se à leitura das respostas e sua categorização. A esta questão, 8,41% dos
entrevistados deram respostas que foram agrupadas sob o conceito “Bom”, 4,67%
como “Regular”, 47,2% como “Saturado” e 13,08% como “Ruim”. Dentre os
entrevistados 22,43% apontaram os planos de saúde como explicação para a
situação do mercado de trabalho e 14,95% indicaram saídas de ordem individual, tal
como especializar-se, manter-se atualizado ou realizar atendimento humanizado.

Conclusão

Pode-se afirmar que o modelo para o qual gerações de cirurgiões-dentistas foram


formadas – a esfera privada centrada em procedimentos curativos – encontra-se em
retração. A parcela da população a que se destinam tais serviços tem sua
capacidade de pagamento comprometida. Mesmo as mudanças no perfil
epidemiológico desta população fazem com que não se sustente mais uma profissão
erigida sobre as conseqüências de uma única doença. Embora a autonomia típica
tradicional ainda seja predominante, ela convive com diversas outras modalidades
de inserção no mercado de trabalho, sejam as formas assalariadas típicas, seja a
autonomia atípica.

Por outro lado, o número de profissionais atuando cresceu exponencialmente. O


grande capital voltou-se para o próspero filão do ensino superior e a “mão invisível”
do mercado mostrou sua incapacidade para bem regular a oferta de cursos,
inclusive os de Odontologia. Enquanto em 1981 existiam 67 cursos de odontologia,
dos quais 39% eram particulares (Cordón, 1988), em 2005 este número saltou para
174 cursos, dos quais 69% particulares. Ecoaram protestos e lamúrias da categoria
odontológica alegando a já perceptível pletora profissional (vide percentual de
entrevistados que responderam “saturado” em nossa pesquisa), entretanto, falta-lhe
a percepção de que as mudanças que sente em seu dia-a-dia inserem-se em um
quadro muito maior de transformações do mundo do trabalho.

A formação de um grande “exército de reserva” enseja formas mais aprofundadas de


submissão ao capital. Paixão, já em 1979, ao estudar o mercado de trabalho
odontológico, afirmava: “o trabalho liberal, por não representar a relação de trabalho
própria do capitalismo, embora ainda exista, tende a diminuir, principalmente num
processo onde o capital já se introduziu.” (Paixão, 1979, p. 94). Isto se observa
empiricamente com o crescimento vertiginoso do setor da assistência médica
supletiva. No setor médico, este fenômeno se iniciou anteriormente, levando a uma
situação atual em que grandes empresas dominam o setor. Já os planos
odontológicos surgiram mais tardiamente e ainda não se completou a concentração
dos serviços na mão de poucos prestadores. Atualmente existem 40 milhões de
vínculos de beneficiários da assistência supletiva no país, dos quais 84% são de
planos de assistência médica com ou sem odontologia e 16% são de planos
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odontológicos (Brasil, 2006). As insatisfações por parte dos dentistas em relação a


esta situação vão desde a baixa remuneração à perda de autonomia.

Lançamos a hipótese de que, enquanto grande parte da classe trabalhadora vive um


momento de retração de um padrão amparado por leis trabalhistas e vivencia um
aumento das relações de trabalho flexibilizadas e precarizadas, para os dentistas o
fenômeno ocorreu de forma diversa. O dentista vive o assalariamento de forma
tardia e já não encontra a relação de trabalho protegida como padrão. Acreditamos
que o que Donnangelo chama de autonomia atípica pode também ser visto como um
assalariamento atípico: um mecanismo de venda de força de trabalho, porém regido
por normas diferentes do tradicional emprego com carteira assinada. Significa que
grande parte dos cirurgiões-dentistas migra da tradicional profissão liberal para
formas mais ou menos precarizadas sem necessariamente ter passado pelo
assalariamento típico.

Cabe salientar que estamos tratando de um processo em andamento, que não


atingiu por completo o conjunto de dentistas – estamos salientando uma tendência.
O que tentamos demonstrar ao longo deste trabalho é que esta tendência não
decorre apenas em virtude de questões internas à Odontologia. As saídas para a
alardeada “crise da Odontologia” deverão ser coletivas.

Referências

ALVES, Giovanni. Trabalho e Mundialização do capital - A Nova Degradação do


Trabalho na Era da Globalização. Londrina: Editora Praxis, 1999.
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