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A

PROFECIA

DE

ISAÍAS

\

\

%

PROFECIA

DE

ISAIAS

CAPÍTULOS

40-66

TEXTO, EXEGESE

E

EXPOSIÇÃO

A .

R.

VOLUME n

C R A B T R E E ,

A .

B.,

1.* E D IÇ Ã O

D. B-,

1967

CASA

PUBLICADORA

BATISTA

Caixa

Postal

320 - ZC - OO

Rio de Janeiro — Gb.

Th. D.

Capa de: PAULO

DAMÁZIO

Composto e Impresso nas Oficinas da

CASA

PUBLICADORA

BATISTA

Rua Silva Val«i 781 — Tomás Coelho — GB

OUTRAS OBRAS DO AUTOR

M Esperança Messiânica

História dos Batistas no Brasil, I Parte Introdução ao Nôvo Testamento

Sintaxe do Hebraico do Velho Testamento Arqueologia Biblica

A

Doutrina Biblica do Ministério

Teologia do Velho Testamento

O

Livro de Amós

O

Livro de Oséias

Dicionário

Hebraico-Português (inédito )

A Profecia de Isaías, Capítulos 1-39

(Vol.

Prefácio

Êste Comentário sôbre a segunda parte do Livro de Isaías representa o' mais profundo estudo bíblico do au­ tor nos seus longos anos de trabalho como pastor, pro­ fessor e esci’itor. Completando hoje 75 anos de idade, aumentou-se a sua profunda gratidão pelas ricas bên­ çãos recebidas no serviço do Senhor. Ficou ainda mais intensa a sua gratidão ào receber do Rio de Janeiro as generosas cartas de lembrança da Casa Publicadora, do Seminário Teológico, da Igreja da Tijuca, e a mensagem telegráfica do Pastor Osvaldo Ronis. Qualquer estudante cuidadoso desta profecia ficará convencido de que esta é a obra suprema do Velho Tes­ tamento. É monumento literário igual ou superior ao Livro de Jó. E na exposição das verdades eternas da revelação divina, êste grande mensageiro do Senhor vai além de todos os profetas e escritores do Velho Testa­ mento. A sua exposição compreensiva da doutrina de Deus como o Criador do universo, e o Condutor da his­ tória humana, corresponde neste sentido aos ensinos do Apóstolo Paulo. O seu ensino sôbre a Pessoa e a obra do Servo Sofredor do Senhor foi cumprido perfeitamen­ te na Pessoa e no sacrifício vicário de Jesus Cristo na cruz do' Calvário. Há numerosos manuscritos do Grego do Nôvo Tes­ tamento, e uma variedade de outros documentos que ajudam na verificação do melhor texto da língua origi­ nal, mas existem apenas três manuscritos antigos do Ve­ lho' Testamento, e o mais antigo dêstes é datado do ano

8

A. R. CRABTREE

895. Mas entre os numerosos fragmentos de manuscri­

tos hebraicos descobertos nas cavernas nos outeiros do lado ocidental do Mar Morto desde 1947, todos os livros do Velho Testamento, com a exceção de Ester, são repre­ sentados. Èstes são datados do primeiro século cristão’, ou do último século antes de Cristo. O mais importante de todos êstes manuscritos é a cópia quase completa do Livro de Isaías, suplemento de valor ao Texto Massoré- tico desta profecia.

0 texto hebraico do Velho Testamento, editado por Rudolf Kittel, com notas críticas, é reconhecido como o melhor. Apresentamos a nossa tradução dêsse texto, com poucas modificações, segundo a Septuaginta Grega. Em mais de uma dúzia de casos preferimos o texto do Rôlo do Mar morto, nas suas poucas variações do Texto Massorético.

Procuramos preservar em

nossa

tradução,

tanto

quanto possível, a forma poética do hebraico, e dar sen* tido mais exato do pensamento do profeta do que se en­ contra nas versões mais literárias da Bíblia em portu­ guês ou inglês. Êste profeta é gênio literário no uso da linguagem figurativa e poética de ritmo, aliteração, pa­ ralelismo, onomatopéia, paronomásia, e de várias outras 4formas da «poesia hebraica. É um tanto difícil, ou até timpossível, preservar a fôrça e a beleza da sua lingua- •em musical na tradução das línguas ocidentais. É no­ tável o seu modo de repetir ou combinar belas palavras. Combina freqüentemente os pronomes eu e tu para ex­ pressar o profundo significado da relação entre o Senhor e o seu povo de Israel. Êste mensageiro do Senhor en­ tendeu e explicou mais claramente do que qualquer ou­ tro^profeta o eterno propósito de Deus na eleição de Is­ rael. Assim, a teologia dêste profundo pensador, inspi­ rado pòr Dtíus, é mais importante do que a beleza da sua linguagem.

A PROFECIA DE ISAÍAS

9

Aceitamos os capítulos 40-66 como a obra

um só

autor, não obstante a diferença no estilo literário de al­

gumas partes dos capítulos 56-66, devida à mudança das circunstâncias históricas do povo de Israel quando esta última parte da profecia foi escrita. Estudante por muitos anos da profecia do Velho Testamentcf, o autor dedicou um ano intéfto de trabalho ao preparo desta obra. Aproveitou o estudo dos melho­ res comentários sôbre esta profecia, mas a tradução e a exegese do texto representam a sua própria interpreta­ ção que segue o princípio de permitir ao profeta expres­ sar os seus próprios pensamentos, e não os de alguns co­ mentaristas. Variam consideravelmente as interpretações de muitas passagens desta profecia. O autor não dá mui­ to espaço na citação destas várias interpretações, algu­ mas das quais agora são abandonadas. Tem havido gran­ de progresso nos últimos 40 anos no estudo das línguas semiticas, o que ajuda na explicação de algumas passa­ gens difíceis do' Velho Testamento, como o autor mos­ trou no seu livro Arqueologia Bíblica. O escritor dêste Comentário especializou-se no estu­ do do hebraico dos livros de Jó e Isaías no seu curso de Doutor em Teologia, e por muitos anos ensinou com prazer esta língua de Sião aos seus estudiosos alunos do Seminário Teológico Batista do Rio de Janeiro. Deseja que esta obra, preparada no serviço de amor, seja um auxilio agradável para Os pastores e outros estudantes da Bíblia hebraica no Brasil e em Portugal. Esta é uma profecia evangélica, a obra suprema do Velho Testamen­ to, que dá ênfase especial ao propósito de Deus na cria­ ção do universo, e na direção da história humana.

A.

Roanoke, Virgínia — 11 de agôsto de 1964

í

*1.

ÍNDICE

Página

P refá cio Introdução

O Livro de Isaías (Capítulo 40 — 66):

I. A Libertação Divina do Povo do Senhor

A.

Prólogo,

oPregador ea SuaM ensagem

7

1. O Confôrto doAmor deD eu s

2. A Promessa de Deus Permanece Imutável para Sem pre

3. O Poder e o Cuidado do Bom Pastor

B. Javé, o Deus Incomparável

1. A Infinidade do Criador do Universo

2. O Deus Incom parável

3. Javé, o Deus Sempiterno

C. O Deus da História

das Nações

1. A Soberania do Senhor

2. Israel É o Servo Escolhido do S en h or

3. Senhor É o Redentor de Isra el

4. Deserto Se Tornará em Lucar F é r til

5. Comparação entre os Deuses da Babilônia e o Senhor J a v é

O

O

D . O Servo Escolhido do Senhor e a Sua Missão

1.

O Caráter

e a Missão

do

S e rv o

2. A Nova Idade no Propósito do Senhor

3. O Nôvo Cântico de Redenção

4.

5. Israel, o Servo do Senhor, É Cego e Surdo

O Senhor Contra os Seus In im igos

E. Javé, o Criador de Israel, É Também dentor

o Seu Re­

15 -

- 43

43

44

50

52

54

54

56

61

64

65

69

73

74

76

80

81

84

89

91

93

97

1. O Senhor Ajudará os Seus Filhos desde as Es-

tremidades da T e r r a

98

2. Javé Ê o único Deus, e Fora dÊle Não Há Sal­

vador

3. A Queda da Babilônia e a Restauração de Is­ rael

4.

A

Cegueira de Israel e a Graça

Salvadora de

J a vé

5. Pelo Derramamento do Seu Espírito, o Senhor Abençoará o Seu P o v o

6. Além de Javé Não Há Deus, e Israel É a Teste­

munha d Ê le

7. A Estultícia da Idolatria

101

104

107

111

113

115

F.

Javé £ o Poderoso Criador, Ciro £ o Seu Instru­ mento

1. A Comissão de C iro

2. Ai dAquele Que Contende com o Seu Criador

3. O

Fracasso das Religiões P a g ã s

4. O Mundo Inteiro Reconhecerá o Deus de Israel

o

Salvador

G

. O Deus Que Carrega os Deuses Que Têm

Carregados

de Ser

120

124

128

130

132

137

1. O Contraste entre os Deuses da Babilônia e o Deus de Is r a e l

2. O Testemunho da História e da Profecia

138

142

145

146

149

3. A Destruição Iminente dos Caldèus Cruéis

4. A Confiança no Poder Salvador dos Astrólogos 153

2. A Senhora dos Reinos Perde o Seu Poder

H. O Orgulho e a Humilhação da Babilônia

1. A Desgraça da Virgem, Babilôn ia

151

 

I

. O Propósito do Senhor ha História e na Profecia

156

1. O Profeta Defende o Modo e o Propósito da Re­ ’

velação do Senhor

158

2. Nos Versículos 12-16, o Profeta Explica as Cousas

Novas do Versículo 6

164

3. Os Versículos 17-19 Falam da Maravilhosa Com-

'

paixão do Senhor para

com Is r a e l

167

4. O Cântico de Vitória dêste

P ro fe ta

168

.

A

Redenção de Is ra e l

169

A.

O

Livramento

e a Consolação de Is ra e l

170

1.

O Servo do Senhor Remirá e Trará os Preserva­ dos de Jacó ao Seu D e u s

171

2.

O Futuro Mais Brilhante para Israel

176

3.

Sião Será Povoada de Nôvo e os Seus Lugares .Desolados Serão Restabelecidos

180

4.

As nações Trarão os Filhos de Sião para a Sua

T

e rra

183

5.

O Salvador, Redentor e Poderoso de Jacó

185

6.

A Relação do Senhor com o Seu Povo, Segundo Concêrto

187

B.

“O Getsêmane do Servo”

190

C

. Os Israelitas Fiéis Recebem a Promessa deSalvação

196

1. Não Temais, Está Chegando o Dia da Salvação

2. Um Apêlo ao Senhor, Criador e Redentor

198

204

x

3. Não Temais, Eu Sou o Vosso Consolador

206

D.

O Reino do Senhor em a Nova Época de Jerusalém 1, Sião Já Bebeu Bastante do Cálice de Atordoa­

209

 

2. Adoma-te dos Teus Vestidos Formosos, ó Jeru­ salém

213

3. O Retômo do Senhor a S i ã o

 

217

E.O

Sacrifício e a

Glória do Servo do Senhor

221 .

1. A Obra

e

a

Exaltação do Servo

 

222

2. Homem de

D o re s

224

3. O Sofrimento Expiatório do S ervo

* 227

4. O Servo Inocente Submete-se Voluntariamente

 

à

Morte Ignominiosa

 

232

 

5. A Realização do Propósito do SenhQ£„no Sacri­ fício do S e rvo

235

F.

A Felicidade de Sião Reunida com o Senhor por um Concêrto E terno

239

1. O Aumento dos Filhos de S iã o

 

241

2. A Nova Jerusalém

 

247

C . A Salvação pela Graça de Deus

251

1. O Povo Convidado a Receber as Bênçãos da Gra­ ça de D eu s

251

2. Arrependei-vos, Porque Está Próximo o Reino de D eu s

256

III.

Admoestações, Esperanças e Promessas

261

A. Oráculo sôbre a Obediência da L e i

263

B. Denúncia de Governadores Cegos e do Culto Cor­ rompido

268

1. As Bêstas São Convidadas a Devorar o Rebanho Desprotegido

269

2. Os Cães Gu losos

 

:

271

3. Os Justos Perecem, e os Apóstatas Não Têm En­ tendimento

273

4. Repreensão dos Apóstatas

 

274

5. A Imoralidade e a Corrução dos Israelitas

276

6. A Devoção dos Israelitas aos Deuses da Ferti­ lidade

277

7. Os Ritos Corrutos no Culto dos Cananeus

278

8. A Futilidade de Abandonar o Senhor e Confiar

 

em Íd o lo s

 

280

 

C. A Graça do Senhor na Redenção do Seu Povo

281

D. A Prática da Jejum e a Observação do Sábadol

286

E. A Intervenção do Senhor na Vida de Israel

"297

1. A Separação entre Deus e a Comunidade de Is r a e l

-

299

2. A Comunidade Deseja Ficar Livre e Confessa o Seu Pecado

303

F.

A Glória, a Grandeza e a Felicidade de Sião

310

 

1. A

Glória da Nova

Jerusalém

312

2. A Proclamação de Boas-novas a S i ã o

323

3. O

Povo Messiânico

332

 

G . O Dia de Vingança e o Ano da Redenção

1.

O Conquistador dos Inimigos de I s r a e l

343

344

2.

O Dia da Vingança do Senhor

346

H.

A Oração do Profeta em Favor do Seu Povo De- sam inado

348

1. Recordação das Bênçãos do Senhor sôbre o Povo

 

^

Isrsid

,,

,,

349

 

2. No Período de Angústia o Povo Se Lembra dos Dias Antigos

352

3. O Apêlo Dirigido ao Pai e Rendentor de Israel

4. O Profeta Pede uma Teofania Universal

354

358

5. O Deus Que Trabalha pára Aquêles Que nÉle Es­ peram

359

6. Os Efeitos do Pecado na Vida de Is r a e l

360

[

.O Nôvo Céu e a Novai Terra .

364

 

1. O Contraste entre os Servos do Senhor e os Após­ tatas

365

2. O Profeta Apresenta um Contraste entre os Servos do Senhor e os Apóstatas

373

3. Deus Está Criando Novos Céus e uma Nova Terra

374

4. As Bênçãos da Vida do Povo na Comunidade Mes­ siânica

376

5. A Idade de Paz, até no Mundo A n im a l

378

J.

A Felicidade Eterna do Verdadeiro Israel e o Des­ tino dos Apóstatas

379

1. A Humildade e a Sensibilidade do Espirito no Culto

381

2. A Corrução do Culto no Sistema de Sacrifícios

383

 

i

3. SalvagMb para os fiéis, Julgamento para os Após-

V

tatas

384

I

4. O Povoamento Repentino da Nova Jerusalém

386

15.0

Regozijo com as Bênç&os da Nova Jerusalém

387

 

6. A Promessa de Prosperidade a Jerusalém e aos

 

Seus Habitantes

388

7. O

Senhor Julgará o M un d o

390

 

8. Cerimônias de Purificação dos Povos Vizinhos de

 

Israel

391

 

9. Anúncio do Conhecimento e da Glória do Senhor

 

' ‘

entre as Nações

392

10. A Permanência da Nova Comunidade Que o Se-

INTRODUÇÃO,

CAPÍTULOS

40-66

O Livro de Isaías é comptísto de 66 capítulos. É o livro inteiro a obra de um só autor, Isaías de Jerusa­ lém? Antes do estudo moderno dos autores e do fun­ do histórico das obras do Velho Testamento, os 66 ca­ pítulos foram aceitos normalmente como a obra de Isaías de Jerusalém. No décimo segundo século Ibn Ezra levantou dúvidas de que os capítulos 40-66 fôssem escritos por Isaías, o autor dos capítulos 1-30. Em 1775 Johan Christoph formulou e defendeu a hipótese de que os capítulos 40-66 foram escritos anos depois da pro­ dução da primeira parte do livro por um grande poeta, que apresenta, na sua própria obra, as circunstâncias históricas da sua época. Baseando-se no fato evidente de que os profetas di­ rigiram as suas mensagens aos seus .contemporâneos, os estudantes eruditos dos tempos modernos aceitam, sem mais argumentação, a evidência de que o autor dos ca­ pítulos 40-66 viveu e escreveu no período histórico de 598-540 a. C. Isaías de Jerusalém teve a sua visão do Senhor no ano da morte do rei Uzias em 742 a . C ., um século e meio antes do período histórico' apresentado nos capítulos 40-66. Os profetas dirigiram as suas mensa­ gens aos seus contemporâneos, apresentando-lhes verda­ des eternas da revelação divina que receberam do Se­ nhor para o seu próprio povo. Por exemplei, não se le­ vantam dúvidas sôbre o período histórico do profètà

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Amós, que apresentou ao povo de Israel a verdade eter­ na da justiça divina, justamente como Oséias apresentou aos seus cdntemporâneos a verdade eterna do amor imu­ tável, do Senhor Há três argumentos, geralmente reconhecidos agora como irrefutáveis, de que o profeta Isaias de Jerusalém não escreveu os capítulos 40-66 do livro intitulado Isaías no texto Hebraico e nas versões modernas.

A .

As circunstâncias históricas apresentadas nos ca­

pítulos 40-66 são claramente diferentes do período his­ tórico de Isaías de Jerusalém. Começando as suas ativi­ dades proféticas no ano da morte do rei Uzias em 742 a. C., Isaías exerceu o seu ministério durante os reina­ dos de Jotão, Acaz e Ezequias de Judá, e possivelmente por alguns anos no reinado de Manassés. Êle fala de Peca, rei de Israel, e de Rezim, rei da Síria, e também de Sargão e Sénaqueribe, reis da Assiria. O profeta fala da politicagem e da infidelidade religiosa do rei Acaz, e descreve também as suas experiências e a influência do seu apêlo dirigido ao rei Ezequias no tempo do sítio de Jerusalém por Senaqueribe. Fala das campanhas mili­ tares da Assíria e da sua prática de genocídio, a extermi- nação de grupos nacionais que conquistou. Isaias é ge­ ralmente reconhecido como estadista que entendeu me­ lhor do qi|e os reis de Judá e Israel os problemas políti- tcos e os nfbvimentos históricos do seu tempo. Exerceu |b seu ministério nò período do declínio nacional de Judá. |Has êste grande homem de Deus transmitiu a sua firme esperança no poder e no triunfo final do reino do Se­ nhor sôbre as nações e povos do mundof.

O autor dos capítulos 40-66 exerceu o seu ministério na última parte do período dò exilio dos judeus na Ba- bilQniç. Não sé fala mais, nestes capítulos, sôbre a As­ siria, o poder dominante do Oriente Próximo no período de Isaías de Jerusalém. O reino de Israel não existe mais.

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PROFECIA

DE

ISAIAS

17

Jüdá e Jerusalém haviam caido no poder do ex^gcito de Nábuccdonosor, e a melhor pai te de seus habitantes se achava na Babilônia. Jerusalém e a Palestina jaziam em ruinas (44;26, 28).

Logo no princípio do capítulo 40 o profeta começa

a sua mensagem com palavras de consolação e de en­

corajamento do seu povo, e continua coin"â descrição da nova manifestação da glória do Senhor. O pensamento

e as atividades dêste profeta relacionam-se normalmente

com as circunstâncias históricas do seu povo que se acha­ va no cativeirtí, e à luz do nôvo movimento da história. Os impérios semíticos estavam chegando ao fim do seu domínio com a decadência e a conquista iminente de Ba­ bilônia por Ciro, o grande estadista que já estava intro­ duzindo os grandes ideais da nova civilização. O profe­ ta se mostra bem informado sôbre as campanhas mili­ tares de Ciro e do seu govêrno benéfico dos povos que estava libertando da tirania dos seus dominadores. O profeta reconheceu Ciro como o homem destinado, na providência divina, para libertar os israelitas do cativei­ ro, e restaurá-los para a sua própria terra. Êle mencio­ na o nome de Ciro duas vêzes (44:28; 45:1), e fala dêle

como o ungido do Senhor.

“ Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro,

a quem tomo pela mão direita,

para abater nações ante a sua face;

e descingir os lombos dos reis,

para abrir diante dêle as portas, para que entradas não sejam fechadas.”

Assim o profeta tem certeza de que Ciro dará liber­ dade aos israelitas cativos, e que êstes cumprirão a sua missão sacerdotal de acôrdo com o eterno propósito do Senhdr. Esta descrição tão clara!dás circunstâncias his­ tóricas dêste mensageiro do Senhor, entre 598 e 540

18

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R. CRABTREE

a. C., não pode ser aplicada ao período histórico de Isaías de Jerusalém.

B .

Outro argumento de que Isaias de Jerusalém não os capítulos 40-66 do L ivro de Isaías baseia-se

escreveu

no estilo literário da segunda parte que é claramente di­ ferente dos característicos literários da primeira parte.

Enquanto êste argumento não tem a fôrça dos fatos his­ tóricos já apresentados, é bastante importante para o estudante cuidadoso dos característicos literários que são muito diferentes nas duas partes do livro.

Isaías de Jerusalém era um grande estadista, um gênio intelectual que d Senhor levantou para guiar e orientar o seu povo através do período crítico da sua história. Êle tinha que enfrentar os maiores problemas políticos e religiosos da história do seu povo. O seu esti­ lo literário' é característico do seu gênio, e adapta-se às circunstâncias daqueles que precisavam receber as suas mensagens sôbre a infidelidade política e religiosa dos dirigentes do povo.

O seu estilo é geralmente conciso, sólido e freqüen­ temente austero, com o movimento maj estático e im­ ponente dos seus períodds retóricos. Sabia caracterizar com poucas palavras os homens e os reis fracos e ar­ rogantes. Peca, o rei de Israel, e Rezim, rei da Síria,

A parábola da

"tinha do Sehhlor é uma obra-prima desta qualidade de

literatura.

são dois pçdaços de tições fumegantes.

* O autor dos capítulos 40-55 era poeta lírico. A sua

linguagem é mais fluente, mais apaixonada, xjiais emocio­ nal, mais alegre e mais exuberante do que a linguagem forte de Isaías, que se sentiu impelido a criticar, admoes­ tar e até ameaçar o seu povo freqüentemente com o cas­ tigo Mlivino. No tempo do cativeiro, o povo de Israel

tinha sofrido o castigo dos seus pecados, e na sua humi­

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PROFECIA

DE

ISAfAS

lhação e desânimo, precisava

solação e de encorajamento. Assim, o profeta desperta

ouvir a mensagem, dp con­

e

inspira os exilados com a certeza do seu livramento,

e

a promessa divina de que êles ainda vão cumprir a sua

nobre missão entre as nações do mundo. Não há muita diferença no vocabulário das duas partes do livro', mas há uma grande diferença no uso das palaxyas. O autor dos capítulos 40-56, como jà notamos, é poeta lirico, e mostra interêsse e destreza em repetir e combinar pa­ lavras para produzir sons poéticós e musicais. Entre todos os escritores do Velho Testamento, êle é o mestre supremo no uso da língua hebraica.

C. Há também

uma diferença considerável entre

os pensamentos e os ensinos teológicos dos capítulos

1-39 e 40-56.

Como se notam afinidades de linguagem,

há também semelhanças na teologia, mas as diferenças são mais notáveis do que as similaridades. O autor dos capítulos 40-56 apresenta um retrato do Senhor como o Criador, o Redentor e o Condutor da história. Assim êle não só aperfeiçoa a mais profunda filosofia da his­ tória, como apresenta também o mais perfeito entendi­ mento de Deus como Criador e Redentor. (Êle tem tam­ bém o mais claro entendimento do eterno propósito do Se­ nhor. O seu retrato' de Deus como Criador e Redentor não tem paralelo na profecia de Isaías. Êste mensageiro da Senhor era mestre da teologia, bem como da língua he­ braica , Há uma diferença interessante entre o Messias de Isaias, 9:1-6 e 11:1-9, e o retrato do Servo Sofredor do Senhor nas quatro passagens nds capítulos 40-55. E’ inuito difícil acreditar que o mesmo escritor apresentas­ se estas duas figuras maravilhosas que não se identifi­ cam em qualquer parte do Velho Testamento, mas se combinam perfeitamente na Pessoa e no ministério de Jesus de Nazaré.

20

A.

R. CRABTREE

São mui poucos agora os estudantes do Livro de Isaías que tentam provar que os capítulos 40-56 repre­ sentam a projeção da vista profética de Isaías no futuro para entender e interpretar eventos históricos que acon­ teceram 150 anos depois da sua morte. Como se pode ex­ plicar que Isaías conheceu o nome de Ciro, o agente un­ gido do Senhor, que nasceu mais de cem anos depois da morte do profeta? Ninguém pode negar que os profetas de Deus podiam fazer predições sôbre a operação das verdades eternas da justiça e do amor do Senhor na his­ tória humana. Isto, porém, não significa que o profeta sabia predizer os pormenores da história de homens e nações do futuro. O mensageiro do Senhor divigiu os seus ensinos diretamente ads seus contemporâneos. En­ contram-se nos capítulos 40-56 vários ensinos que Isaías

e

outros profetas já tinham apresentado. As afinidades

e

relações entre os capítulos 1-39 e 40-66 talvez indiquem

razão por que as duas profecias foram publicadas no mesmo rôlo ou livro. I- A Integridade dos Capítulos 40-66 Bernard Duhm apresentou dois argumentos para provar que os capítulos 56-66 não foram escritos pelo autor dos capítulos 40-55. Êle argumentou que os últi­ mos capítulos foram escritos em Jerusalém alguns anos depois da volta do cativeiro. Diz êle que as formas de .culto, e especialmente a ênfase na observação do sábado je no costume de jejuar, representam uma religião de çerimonialismo diferente da religião espiritual apresen­ tada nos capítulos 40-55. Um grupo de críticos concor­

a

da com êle, e diz que as práticas e os costumes religiosos do povo apresentados nesta seção indicam um período mais além. Declara também que a cegueira dos diri­ gentes da vida religiosa nos capítulos 56:9-57:13 indica

o período do desenvolvimento do cerimonialismo reli­

gioso depois da reconstrução do Templo.

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DE

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Mas quando consideramos o idealismo religioso apre­ sentado tão brilhantemente pelo profeta nos seui? apelos aos cativos em contraste com as dúvidas dèstes, pode­ mos entender que as lutas entre as facções e as práticas religiosas que existiam no tempo de Esdras e Neemias começaram ou existiram entre um grupo de israelitas desde a volta do cativeiro'. Quando voltaram do cativeiro encontraram condir ções econômicas e políticas mais difíceis do que espera­ vam. 0 mensageiro dos capítulos 40-55, contemplando o significado da restauração para o futuro' do povo de Deus, apresentou na linguagem poética, e nas imagens li­ terárias, a grandeza e a glória do evento. Èste mensa­ geiro do Senhor, no seu profundo entendimento do eter­ no propósito do Senhor na escolha de Israel, estava pen­ sando evidentemente no grande significado dêste even­ to, não somente para o pequeno grupo que ia voltar à sua própria terra, maravilhosa que fôsse aquela expe­ riência. Com os seus predecessores, mas com entendi­ mento mais profundo', êste mensageiro do Senhor enten­ deu os problemas que êstes homens tinham que enfrentar no cumprimento da sua missão como o povo' escolhido do Senhor. No cativeiro com êles, oi profeta lhes inter­ pretou a eterna importância da sua restauração. Depois da volta para a sua terra, o mensageiro do Senhor pre­ cisava encorajar e orientar êstes israelitas no restabele­ cimento difícil na terra que jazia em ruínas. Tinha que repreender em linguagem forte as suas falhas e os seus pecados (56:9-57:13). Ao mesmo tempo êle sabia enco­ rajá-los de nôvo com a linguagem poética e brilhante que tinha usado no princípio para despertá-los do seu desânimo e letargia (Cp. 57:14-21 e caps. 60-62). Na linguagem e no estilo literário, êstes capítulos 56-66 são muito mais semelhantes à seção 40-55 do que alguns críticos querem reconhecer. Os primeiros oito

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versiculos do capitulo 56 ligam-se diretamente com a se­ ção anterior. No estudo cuidadoso dos capítulos 56-66, entende-se cada vez mais claramente a relação da vitória dos res­ taurados sôbre os problemas difíceis que venceram com

a glcíriosa visão profética que se apresenta nos capítulos

40-55. Não há nada no estilo literário, nem nas circuns­ tâncias históricas dos capítulos 56-66, que prove positi­ vamente que êstes capítulos não podiam ser escritos pelo autor dos capítulos 40-55.

Considerando o gênio dêste homem de Deus, o seu conhecimento do povo de Israel e a sua rica experiência espiritual com o Senhor, torna-se evidente que êle sabia orientar e dirigir os israelitas restaurados, com todos os problemas e lutas, no seu restabelecimento na Palestina,

e na nova fundação da obra do Senhor no Monte Sião. Não obstante o fato de que alguns críticos concor­ dam com os argumentos de Duhm, há uma tendência entre os críticos modernos de reconhecer que os capítu­ los 40-66 podem ser o produto de um só escritor. Dizem alguns que as condições refletidas nestes capí­ tulos pertencem ao período de Esdras e Neemias, e que

o autor está condenando os pecados e a idolatria dos cis-

máticos samaritanos, mas não há qualquer prova desta interpretação. Felizmente, a diferença entre os pontos

de vista sQbre esta questão não tem muita importância ha interprerlição dêstes capitulos.

f I I . Alguns Característicos Gerais dos Capítulos 40-56

Alguns estudantes dos capitulos 40-66 observam três divisões desta parte do livro, com nove capítulos em cada divisão. Citam também certos preceitos litúrgicos que caracterizam cada uma destas divisões. vTi K . Cheyne e outros afirmam dogmaticamente que os capitulos 49-55 não foram escritos pelo,autor dos

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caps. 40-48. Basearam os seus argumentos no fato de qué novas teses são desenvolvidas na segunda Iffvisão, <e que o nome de Ciro não é mencionado nestes capítu­ los. Estas diferenças se explicam facilmente pelas cir­ cunstâncias diferentes dei escritor. As semelhanças nq «estilo literário e nas teses das duas partes, bem como o desenvolvimento das poesias e do pensamento do autor, são mais notáveis e mais importantes do qife as diferen­ ças apropriadas. A. A Unidade dos Capítulos 40-55 Há um grupo de escritores, críticos da forma lite­ rária, que dá muita ênfase ao tipo e ao estilo literário des­ ta profecia, como Hugo Gressman, Ludvig Kõhler e Mowinckel. (Êles argumentam que os capítulos 40-55 são compostos de um grande número de pequenas poe­ sias que não se relacionam logicamente umas com as ou­ tras. Não concordam quanto ao número de tais poesias, mas dizem que cada uma delas existe independente de tôdas as outras. Mas esta análise mecânica da obra não concorda com os fatos evidentes para o leitor cuidadoso da obra, pois, não obstante a variedade de tipos, formas e imagens literárias apresentadas na obra, é perfeitamen­ te claro para o leitor estudioso que há uma continuidade lógica no pensamento do profeta, e uma relação clara entre as imagens literárias, bem como o desenvolvimen­ to da mensagem profética de acôrdo com as necessidades religiosas do seu povo. O profeta não escreveu simples­ mente para demonstrar o seu poder poético. Considerando as teses predominantes dêstes capítu­ los, podemos reconhecer a lógica e o propósito dêste grande mensageiro do Senhor. Na mudança das circuns­ tâncias históricas do seu povo, o' profeta persiste no desenvolvimento das verdades eternas da reve­ lação divina. É teólogo profundo no reconhecimen­ to do Senhor Javé como o Criador de tôdas as

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cousas e o Condutor supremo da história humana. Portanto, os seus propósitos e cis seus planos são infalí­ veis. No Concêrto do Senhor com Abraão, e no Concêr­ to ulterior com Israel, o Senhor revelou o séu eterno pro­ pósito na vida e na missão do povo da sua escolha. O profeta dá muita ênfase à glorificação do Senhor no li­ vramento de Israel do cativeiro' para cumprir a sua mis­ são sacerdotal, um evento histórico de profunda signifi­ cação para a humanidade inteira.

O profeta reconhece que êste pequeno grupo de is­

raelitas desanimados e desesperados não tinha o poder de libertar-se a si mesmo, mas será libertado pelo' braço forte do Senhor, e será divinamente guiado na volta para a sua terra, e no seu restabelecimento no Monte Sião. Não obstante a variação nas circunstâncias do profeta, e a mudança nos seus sentimentos poéticos, êle persiste nos seus ensinos principais. 0 seu ensino sôbre Deus como o Criador e o Condutor da história humana é funda­ mental em todos os seus ensinos. O Senhor Javé será

glorificado entre as nações dô mundo pela redenção de Israel. O eterno propósito do Senhor se estende a tôdas as nações do mundo e será finalmente realizado por in­ termédio do seu Servo Sofredor. O profeta reconhece que o caminho do' Senhor é freqüentemente misterioso, mas é sempre o caminho de triunfo e vitória.

, Êste ntftpsageiro do Senhor é o mais profundo teólo-

fcò do Velho Testamento. É de profunda significação a iontinuidade do séu pensamento' sôbre o propósito e as atividades do Senhor. A glória do Senhor se revelará a todos os povos. O Senhor virá como o Conquistador dos inimigos do seu polvo. Virá como o Rei Supremo e esta­ belecerá o sèu reino de justiça. Estabelecerá a sua obra criadora no mundo. Israel é o seu servo, o povo da sua escolha^ o povo do seu Concêrto, o portador das boas novas do Senhor para todos os povos.

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Mas Israel tinha fracassado no cumprimento- 4a sua missão, tornandò-se cego e mudo. As calamidades his­ tóricas que haviam caido sôbre Israel, com o seu sofri­ mento no cativeiro eram conseqüências da sua cegueira e.da sua infidelidade. Mas o Senhor não abandonará o seu propósito na eleição de Israel. No seu amor imutá­ vel e na sua graça redentdra, o Senhor já havia cumpri­ do o primeiro grande passo na redenção de Israel. Na sua grande e misteriosa providência, o Senhor tinha le­ vantado Ciro como o agente para libertar Israel do cati­ veiro (Cap. 44:24-45:13). Mas o Senhor conseguirá a salvação espiritual de Israel por intermédio do seu Ser­ vo Sofredor (Caps. 42:1-4; 49:1-6; 50:4-10; 52:13-53:12) .

B. O Estilo Literário do Profeta

Muitos estudantes da poesia dêste profeta ficam en­ cantados com a beleza da sua linguagem. É verdadeira­ mente uma obra-prima da literatura semitica. A relação de sons com o sentido das palavras é característica da poesia hebraica, e êste profeta demonstra o seu gênio como mestre da poesia no uso da linguagem figurativa, desenhos técnicos, imagens literárias e cânticos líricos. No sentido preeminente êle é poeta bem como profeta. Como os demais profetas, era proclamador fiel da men­ sagem do Senhor, mas apresentou a mensagem do Se­ nhor nas mais lindas formas da poesia.

No entendimento do espirito desanimado de Israel, êste profeta, em plena comunhão com ó Senhor, sabia usar os seus dons poéticos na transmissão da mensagem do amor de Deus ao seu povo. Na expressão da intensi­ dade do seu pensamento, e dos sentimentos do seu co­ ração, êle demonstra os ricos recursos dos seus dons; li­ terários. Contemplando a glória do Senhor como o Ctínquistador das fôrças do mal, na realização dos seus eternos propósitos, o profeta levanta a sua voz em cân­

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ticos exuberantes de louvor e gratidão (42:10-13; 44:23; 45:8; 49:13). Louva ao Senhor em cânticos de alegria pela redenção de Israel.

Rompei em júbilo, exultai juntamente, vós lugares desertos de Jerusalém; porque o Senhcir confortou o seu povo, remiu a Jerusalém (52:9) •

Êle se regozija nas maravilhas da criação; louva e glorifica ao Senhor pela graça poderosa na redenção ide Israel. Participando na compaixão do Senhor, êle pro­ duz algumas das mais lindas poesias de tôdas as Escri­ turas Sagradas (43:1-4; 44:21-22; 48:18-19; 49:14-16; 54:6-8). No exercício dos seus dons literários, o profe­ ta revela o seu profundo entendimento das atividades do Senhor na história de Israel, bem como o eterno propó­ sito divino na direção da história humana. Na lingua­ gem dramática, êle dâ ênfase aos temas principais da sua mensagem, a criação, a história e a redenção. O Senhor Javé, na sua própria Pessoa, na sua autoridade suprema,

e na sua sabedoria e poder, determinará o destino de Is­ rael no cumprimento do propósito da sua escolha como

o portador da revelação divina a todos os povos do mun­

do. Na transformação dos seus pensamentos teológicos em imagens visíveis, o profeta se apresenta como o mais profundo tê&logo do Velho Testamento.

1 Lendo esta profecia em voz alta, fica-se cada vez

nfais enlevado com a técnica e a beleza da poesia do au­ tor. É mestre no uso de paralelismos, na arte de metri- ficação e na combinação de palavras e sons para produ­ zir a poesia musical. Estudantes da profecia mencio­ nam os numero'sos característicos poéticos da linguagem:

Onomatopéia, 40:1a; 42:14; 47:2a; 53:4-6; Paronomá* sia, 40:11; 41:5a; 53rl0b; Aliteração, 40:6; 47:1; Ritmo,

é característico da obra inteira, mas veja 40:6-8; Com­

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binação de palavras com o mesmo som, 40:12ab; .|l :lab;

54:1.

É também notável o estilo dramático do profeta. Mais do que qualquer outro escritor bíblico, êste mensa­ geiro do Senhor acentua as formas dramáticas da ati­ vidade de Deus na história. Dá ênfase também ao pro­ pósito e à vontade do Senhor em relação' com o espírito revoltoso de Israel, e as fôrças de iniqüidade que operam contra os planos e os propósitos divinos nos vários pe­ ríodos da história. Há várias cenas dramáticas na pro­ fecia, como o' conselho no céu (40:1-11); o julgamento das nações (41:1-42:4); o êxodo dos deuses da Babilô­ nia (46:1-13); a queda da Babilônia (47:1-15); a vinda do Senhor Javé como Rei (52:7-10).

Deus é a personagem central em tôda parte da pro­ fecia. É o Criador, o Condutor da história e o Redentor. Tôdas as nações ficam subordinadas à sua autoridade suprema. A vida e o destino' de Israel envolvem-se nas atividades providenciais do Senhor no controle da his­ tória humana.

Nas suas arrojadas figuras poéticas, o profeta apre­ senta o Senhor nas suas atividades como homem de guerra, um grande Conquistador preparado para entrar na batalha (42:13); como mulher de partd, dando gri­ tos de dor (42:14); como destruidor de montes e outei­ ros (42:15) ; como guia dos cegos no caminho que êles não conhecem (42:16); Como Rei do Seu povo (43:15); como Juiz de povos e nações (41:1-42:4; 43:8-13; 48:14- 16); como Marido do seu povo (54:5); como Pai de Is­ rael (50:1); o Criador e Formador do universo e de Is­ rael (40:22-28; 43:1).

Deve-se estudar esta profecia à luz da história de Israel como o povo escolhido do Senhor, e a história do Oriente Próximo. O profeta trata da história do MQ

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povo à luz da chamada divina de Abraão, e do Coticêrto do Senhor com Israel.

C . A Situação Histórica do Povo de Israel Êste profeta relaciona a sua mensagem à história de Israel desde a chamada de Abraão. Êle formulou mais claramente do que qualquer outro profeta uma fi­ losofia da história. Assim, interpreta as atividades do Senhor, não sòmente na história dfe Israel, mas também na história das nações do mundo'. A sua interpretação da história de Israel e das nações é especialmente inte­ ressante à luz das circunstâncias tristes da sua própria nação. Depois da morte do rei Josias em 608 a. C., a pe­ quena nação de Judá ia se enfraquecendo e caindo como nação, sob o govêrno de reis fracos e irresponsáveis. Em 597 a.C. Nabucodonozor deportôu um grupo de judeus,

e deixou Zedequias como o governador da pequena co­

lônia i Mas, por causa das intrigas políticas de Zedequias,

o poderoso rei da Babilônia voltou, sitiou a cidade de

Jerusalém em 587 a.C., e no ano seguinte capturou e destruiu a cidade e o Templo. Êste terrível desastre eclipsou por algum tempo a história do povo de Israel, bem conlo as suas práticas tradicionais da religião. O exército da Babilônia levou no exílio os mais im­ portantes hqhitantes de Jerusalém, bem como os homens tfe maior influência social de Judá, mas permitiu ao plofeta Jeremias o privilégio de ficar à vontade nas ruí- nfs da sua terra. Mais tarde, êle profetizou a restaura­ ção dos exilados (Jer. 29:10), e a conquista da Babi­ lônia pelos medos (51:11). Por uns 40 anos depois da queda de Jerusalém ha­ via poucas indicações da restauraçãd dos exilados. O número, dos judeus levados no exílio nas três deporta­ ções, segundo as referências de Jeremias, era de 4.600. Êles fririram alguma liberdade na Babilônia, e alguns

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prosperaram e edificaram as suas próprias casas^Jer. 29:5), e tinham permissão de se reunirem na vida social (Ez. 8:1; 14:1; 20:1). No correr dos anos, a nova gera­

ção ia se adaptando às condições no estrangeiro, e perdeu

o interesse e a esperança de voltar para a sua terra.

Mas havia um grupo que mantinha o ardente desejo de realizar o sonho de restabelecer-se em Jerusalém, a cida­ de do Senhor. Entre êste grupo o Senhor levantou o seu grande mensageiro para despertar e encorajar o povo no preparo para a sua restauração, de acôrdo com o pro­ pósito eterno na direção da história de Israel e das nações

do mundo (40:55).

Em 550 a. C . começou a carreira do grande estadista Ciro, que tomou ràpidamente o controle dos reinos dos medos e persas. Para o profeta, êste nôvo movimento histórico, com a queda dos impérios semíticos e o estabe­ lecimento de governos liberais, significava a operação do Senhor Javé na história, que havia de resultar no liber­ tamente de Israel do cativeiro para cumprir a sua missão sacerdotal, de acôrdo com o eterno propósito de Deus.

D. A Teologia de Segundo Isaías

Êste profeta é o mais profundo teólogo do Velho Tes­ tamento. Èle não apresenta um sistema teológico, mas

o' seu ensino sôbre a Pessoa e as atividades do Senhor na

história de Israel e das nações do mundo é o elemento fundamental da sua mensagem. Como Isaías de Jerusalém, era homem da sua época histórica, e interpretou as ati­ vidades de Deus na grande crise da história do povo de Israel. Os profetas anteriores eram monoteístas, mas êste autor entendeu e interpretou mais claramente do que êles a glória de Deus na Criação e no controle dos eventos da história. A mensagem do profeta relaciona-se com a nova época da história. Israel está ainda no cativeiro, mas em o nôvo movimento da história, será libertado para cum-

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prir a sua missão determinada pelo Condutor dos even­ tos da história. Êste profeta declara logo no princípio da sua mensa­ gem o que Deus é na sua Pessoa (40:12-2&). Acentua re­ petidamente a incomparabilidade de Deus. A quem, pois, fareis semelhante a Deus? Êle dá ênfase às obras da cria­ ção. Quem é Aquêle que mediu as águas na concavidade- da mão, e marcou os limites dos céus com « palma? Quem recolheu numa medida o pó da terra, e pesou os montes com um pêso? Levantai ao alto os vossos olhos, e vêde:

quem criou êstes? Aquêle que faz sair por número o seu exército, chamando todos êles por nome; pela grandeza das suas fôrças, e pela fortaleza do seu poder, nem um só vem a faltar. Em comparação com o poder do Criador da terra e dos céus, e o Condutor do movimento de tôdas as estréias, quão insignificantes são todos os sêres fini­ tos ! As nações são como uma gôta dum balde, e nenhuma combinação dos podêres políticos do mundo pode impedir

a realização dos propósitos eternos de Deus. Se qualquer combinação dos homens é impotente pe­ rante o Senhor, que se pode dizer sôbre o poder dos deu­ ses feitos pelas mãos dos homens? No's versos 18-20 des­ creve-se o processo de fabricar ídolos que não têm vida

e não podem fazer cousa alguma. Tôdas as atividades do Senhor relacionam-se ao fato , de que !Êle*£ o Criador. O Criador entra na história para tefetuar a redenção. Para êste teólogo, as atividades divi- Inas na direção dos eventos da história são' inseparáveis 'da obra da criação. O Redentor de Israel e dos povos do mundo é o Criador. Para descrever as atividades do Se­ nhor na direção da história de Israel e dos povos do mun­ do', o profeta visa as palavras formar e criar. Êle usa a

muitas vêzes para descrever as atividades

criadoras de Deus, « a realização do seu propósito nos mo­

palavra

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p r o f e c ia

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43:1, 7, 15; 45:7, 8, 12, 18; 48:7; 54:16). Deus se.#evela a si mesmo na obra da criação. No seu poder cósmico, Êle triunfa sôbre os deuses pagãos, e os podêres políticos de homens e «ações que querem usurpar o seu poder A propósito do Senhor na salvação de Israel e do mundo inteiro relaciona-se à obra da criação. Javé fêz

o mundo para ser habitado (45:12, 18). 0"'Senhor não

ebándonOu e nunca abandonará o mundo que criou. Não fiz o inundo para ser um caos (45:18). Êle se apresenta em tôdas as épocas da história, e vai chatmando as gera­ ções desde o princípio (41:4 ). A criação é o ato inicial ãd Senhor, a obra final é a salvação. Juntamente com esta atividade constante de Javé na vida dos homens, Êle tem conhecimento do futuro, e visa ao triunfo'final do seu eterno propósito como Criador, Redentor e Condutor da história humana. Nenhum outro escritor do Velho Tes­ tamento dá tanta ênfase ao propósito de Deus em tôdas as suas atividades como êste mensageiro divino. O eterno propósito divino relaciona-se diretamente com a santida­ de, a justiça e o amor imutável do Criador.

Êste profeta relaciona a sua mensagem com o Deus Eterno, . O Senhor é o Deus sempiterno, o

t

**

Criador dos fins da terra. Êle não desfalece, nem se cansa,

o seu entendimento é inescrutável (40:28). Javé era co­

nhecido como o Deus eterno, mas êste é o primeiro men­ sageiro do Senhor que relaciona a criação com a eterni­ dade . Deus é o Senhor do tempo, bem como das obras da criação. Êle é o primeiro e o último (44:6). O Senhor VSÍ cumprindo o seu eterno propósito nos períodos su- , cessivos de tempo (42:21; 44:28; 46:10; 53:10; 55:10-11).

O Senhor Javé sempre se apresenta nesta profecia COlno o único e o verdadeiro Deus.'Eu sou o Senhor, e nfio há outro; além de mim não há Deus (45:5, 6, 21; Cp. 41:26-27). Eu sou file, o único Deus verdadeiro (41:

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4; 13:15; 46:4; 48:12), O propósito de Deus se manifesta em todos os movimentos da história, desde o princípio até

ao fim,

mas também vai criando eventois no correr da história, de acordo com o seu eterno propósito. Outras nações fabricam os seus deuses que não po­ dem fazer cousa alguma. Mas o Senhor, o Criador do universo, no seü poder supremo, sustenta e conserva as obras da criação. Na sua sabedoria inescrutável, e no seu conhecimento inesgotável, o Criador controla e diri­ ge o trânsito das obras do seu universo, incluindo' até o movimento das estrelas. Outras religiões têm os seus mistérios, os seus tabus, mas a santidade é a verdadeira natureza do Senhor.

O leitor cuidadoso desta profecia fica impressionado com os títulos do Senhor que indicam o seu caráter, o seu poder e as suas numerosas atividades. Todos êstes

têrmos, Juiz, Rei, Salvador, Consolador e Mestre, aplicam-

se ao Criador, e indicam a sua onipotência.

O Senhor Javé é o Juiz supremo em todo o domínio da história de Jerusalém e Israel, e das nações, Assíria, Babilônia, Egito, Etiópia, Seba, e até os confins da terra (43:3 ). Israel é designado como instrumento de julga­ mento, mas também será julgado juntamente com as ou­ tras nações do mundo. O julgamento é a função do Rei.

A nova i^pde será inaugurada pela declaração do govêr-

no universal de Deus (40:10; 52:7) . Todos os povos verão a vinda do Senhor em tôda a sua glória (52:7-10). O Se­ nhor é Rei de Israel num sentido especial. É também o Santo, oi Redentor, o Poderoso, o Criador de Israel (44:6).

Javé c o único Salvador, o único que tem o poder de salvar. Fora de mim não há Salvador (43:11; 45:21; 46;

2, 4, 13; 47:13, 15). A salvação do Senhor é eterna (45:

17*; 51:6, 8), e se manifesta não sòmente no livramento do poder político, tãcf significativo para a pequena nação de

Êle não sòmente entende e explica a história,

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Israel. É também a salvação espiritual que pode-sçp con­ seguida sòmente pelo poder, pela justiça, pela santidade e peia graça de Javé, o verdadeiro Salvador. Êste grande mensageiro do Senhor visa também à salvação das na­ ções no reconhecimento de Javé como o verdadeiro’ Deus de todos os povos do mundo (51:4-6; 52:10).

Êste profeta dá muita ênfase à compaixão do Senhor nu sua relação com tí povo de Israel. Javé é o grande Con­ solador de Israel na sua aflição e sofrimento, ó tu, aflito, tempestuosamente arrojado, e não consolado, eis que eu porei as tuas pedras com antimônio, e lançarei os teus alicerces com safiras. Logo no princípio desta profecia, Deus promete consolar o seu povo, e êste tema recebe ên­ fase em tôda parte da profecia (Cp. 40:1; 49:13; 51:3, 12, 19; 54:11; 57:18; 61:2; 66:13).

O Senhor se apresenta também como o Instrutor do «eu povo. Deus instruirá todos os seus filheis no caminho da justiça. Eu sou o Senhor, o teu Deus, que te ensina o que é útil, e te guia pelo caminho em que deves andar (48:17). Javé deu a Israel a Lei, m in , a Revelação

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Divina, com a incumbência de transmiti-la às nações do mundo.

Deus se revela na sua Palavra e no cumprimento das •uas promessas. Em tôda parte da sua mensagem o pro­ feta declara a sua fé inabalável na revelação de Deus, • na certeza de que o Senhor dos Exércitos cumprirá o MU eterno propósito na redenção de Israel, e na salvação ê u nações do mundo. A Palavra do nosso Deus (40:5) pwmanece eternamente (40:8) . (Êle concorda ctím os ou­ tros profetas na certeza de que o Senhor cumprirá os MUft eternos propósitos, mas tem uma compreensão mais Olara dos eternos propósitos de Deus concernente à mis- •lo de Israel, e o triunfo divintí na salvação das naçõe»

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do mundo (40:5,8; 55: 10-11). A Palavra de Javé, ntTP-rD5^ • l freqüentemente significa a Revelação do S«- nhor que abrange o eterno propósito de Deus na criação na história, em tôdas as complexidades de povos e nações no tempo e no espaço (45:18, 19).

Mais claramente do que qualquer outro profeta, êste mensageiro do Senhor entendeu e interpretou a missão de Israel, como o povo escolhido de Deus. Em palavras solenes, Deus revela o' seu eterno propósito na direção da história de Israel, o pdvo da sua escolha. Agora, pois, ouve, ó Jacó, servo meu, e tu ó Israel, a quem escolhi. No uso freqüente dos pronomes Eu e tu revela-se o significa­ do da relação tão importante entre o Senhor e o seu povo. Deus fala freqüentemente na primeira pessoa EU na men­ sagem íntima que dirige a tu, Israel. Eu sou o teu Santo;

Eu sou q teu Redentor; Eu te criei;

sustento; Eu sou o teu Rei; Eu sou o teu Salvador; Eu te consolarei Êste profeta apresenta a mais profunda interpreta­ ção do Concêrto do Senhor cdm o povo de Israel. Como o Senhor guiou o povo de Israel até Sinai, o monte do concêrto, e depois na longa e difícil viagem até à terra da Promessa, assim, na nova idade, Êle libertará o seu povo do exílio, e guiá-lo-á até ao Monte Sião. Israel reconhe­ cerá fimimente o propósito de Deus na sua eleição, que foi escolhido, não por causa de qualquer mérito da sua parte, mas ünicamente por causa do’ amor do Senhor (Deut. 7:7-8), e para servir na realização do eterno pro­ pósito de Deus (Deut. 9:4-6). A eleição significava para Israel, não sòmente um glorioso privilégio, mas também ilmai nobre responsabilidade. Êste grande mensageiro do Senhor explica que a eleição de Israel se relaciona dire­ tamente com o' eterno propósito de Deus de oferecer a graça da salvação divina a todos os povos do mundo. Êle

Eu te ajudoj; Eu te

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apela diretamente ao Concêrto do Senhor com -Qavi (II Sam. 7:3-17), mas êste se relaciona com os concertos divinos com Noé, Abraão e Moisés (Gên, 9:8-17; 12:3; Êx. 19:6). Finalmente, Israel será a nação sacerdotal (55:1,3-5). Em 43:8-13, o Senhor declara a Israel: Vós sois as minhas testemunhas, e o meu servo, a quem es­ colhi . Israel tem também o privilégio e a incumbência de louvar e glorificar a Deus, cantando-lhe hinos de alegria

e de regozijo. Cantai de alegria, ó céus, e exultai, ó terra;

e vós, ó montes, rompei em cânticos; pois o Senhor con­ solou o seu povo, e se compadecerá dos seus aflitos (49:13; Cp. 44:23; 51:3; 52:9; 55:12).

E.

O Servo Sofredor do Senhor, 42:1-4; 49:1-6; 50:4-9; 52:13-53:12

Aparentemente, nenhum outro assunto é mais discuti­ do! pelos comentaristas do Velho Testamento do que o Servo do Senhor que se apresenta nestas passagens. Sem entrarmos na discussão das muitas interpretações dos co­ mentaristas, incluindo as suas opiniões a respeito do esco­ po e da integridade das passagens, que tratam do Servo do Senhor, limitamos a nossa explicação às poesias que falam diretamente da figura e da missão' do Servo. Não bbstante a similaridade de algumas declarações sôbre Is­ rael como o servo do Senhor e a missão do Servo Sofre­ dor, segundo estas passagens, há certamente uma distin­ ção clara entre Israel como nação e a Pessoa do Servo do Senhor. Os característicos pessoais do Servo do Senhor apresentam um contraste enfático com a comunidade de Israel. Israel, como o' Servo do Senhor, é fraco, vacilante, freqüentemente infiel, e tem que ser admoestado e enco­ rajado para abandonar as suas dúvidas e a sua infidelida­ de, e confiar no socorro do Senhor (40:27; 41:8-14.; 44:

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l-»2, 21), ao passo que o Servo do Senhor triunfa logo sôbre qualquer desânimo momentâneo, com a fé inaba­ lável no Senhor (49:4; 50:7-9). Êle é perfeitamente livre, de culpa e do pecado (50:5; 53:4-6, 12). O servo Israel é pecador desde o nascimento, ou desde a sua origem como povo (48:4-5; Cp. 43:27). Israel tinha que sofrer no exilio por causa dos seus pecados (42:18-25; 43:22-28; 47:6; 50:1; 54:7). O Servo do Senhor sofre voluntaria­ mente, tomando sôbre si os pecadds de Israel (52:13-

53:12).

Notemos ós característicos principais do caráter e da missão do Servo do Senhor, especialmente na sua relação com o povo de Israel.

1. Êle foi escolhido e chamado por Deus para cum­

prir a sua gloriosa missão pessdal. Foi dotado com o po­

der do Espírito do Senhor para desempenhar-se da sua incumbência divina (42:1-4; 49:1-5; 53:4-10).

2. A missão do Servo é dupla. Acha-se encarregado

de trazer Israel, o povo escolhido, mais perto do Senhor,

no reconhecimento da sua missão (49:5; 53:1-6).

bém o Servo transmitirá a verdadeira religião aos povos

do mundo (42:1, 4; 49:6; 52:15; 53:12).

Tam­

3. O Servo é o mensageiro ideal do Senhor. Escondi­

do na nt$o de Deus, tem a bôca de uma espada aguda, e o ouvido para Ouvir como erudito. Assim, é divinamente preparado para ouvir, entender e transmitir a Palavra

do Senhor (49:2; 50:4). Apresenta a mensagem divina no espírito de gentileza, ternura e compaixão.

4. Por algum tempo o Servo era uma figura obscura,

homem de dores e conhecedor de tristezas e aflições (49:

4: 50:6; 53:3-7). Mas co'm a certeza da sua grande voca­

ção, e do seu destino como o Servo do Senhor (49:5, 6), êle resolve enfrentar inimizade, perseguição e qualquer

A

PROFECIA

DE

ISAÍAS

37

outro sofrimento no cumprimento da sua majestosa mis­ são. Mal entendido e desprezado’, o Servo sabia que o so­ frimento vicário é o caminho da glória (50:6-10; 53:

7-12).

5. Os contemporâneos que tinham desprezado o Ser­

vo nas suas atividades como o mensageiro do Senhor até à morte, finalmente ficaram profundamente impressio­ nados com a nobreza da sua fidelidade, nas circunstâncias da injustiça que ó matou. (Êles reconheceram a inocência do Servo, e chegaram a entender que os seus sofrimentos não merecidos eram verdadeiramente a expiação vicária dos próprios pecados dêles. Verdadeiramente êle tomou sôbre si as nossas enfermidades, e carregou as nossas do­ res; mas nós o reputamos por aflito, ferido de Deus, e

oprimido (53:1-6).

6. Assim, a carreira do Servo foi ricamente abençoa­

da nos maravilhosos resultados dos seus sofrimentos vi-

cários. Foi coroado de glória e honra perante os reis

e os povos do mundo (52:13-15). Surge uma questão interessante sôbre a identificação do Servo Sofredor e o Messias Davídico. Alguns intér­

pretes procuram mostrar que o Servo do Senhor se iden­ tifica com o Messias em alguns dos Salmos e outras escri­ turas do Velho Testamento. Mas os intérpretes mais cri­ teriosos declaram que não se encontra qualquer evidência lias Escrituras do Velho Testamento para justificar esta conclusão. Alguns descobrem característicos do Servo nan referências ao Messias em passagem como Lam. 4:

20; Salmos 8; 18; 89; 118:5-7, mas isto não significa que

O Messias se identifica com o Servo de Isaías 53. De fato,

üfttí qualquer evidência de que as duas personagens se

Identificaram antes da Era Cristã. Os escritores do Nôvo Testamento, à luz da morte e dtt ressurreição de Jesus, reconheceram na sua pessoa e

A.

R. CRABTREE

no seu ministério, a identificação do Messias Davídico com o Servo Sofredor, Mas os próprios discípulos de Je­ sus rejeitaram os seus ensinos sôbre a necessidade da sua morte até depois da ressurreição. W . Wheeler Ro- binson faz a seguinte observação sôbre a identificação do' Messias com o Servo' do Senhor por Jesus: “ Não é exa-

gêro dizer que esta é a mais original e a mâis ousada de tôdas as feições características dos ensinos de Jesus, e que resultou no elemento mais importante da sua obra. Não tem havido nenhum êxito, em todos os esforços de achar identificação' prévia ou contemporânea do Messias com

o Servo Sofredor de Javé.” 1

Os escritores do Nôvo Testamento reconhecem Jesus como o Messias da profecia, mas descrevem a sua Pes­ soa e o seu ministério em harmonia especial com as pro­ fecias sôbre o Servo' do Senhor no Livro de Isaías. O tema

do Evangelho de Marcos, por exemplo, baseia-se nas pro­ fecias sôbre o Servo. Pois o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos (10:45). É claro que o' Evangelho de Marcos identifica o Filho do Homem como o Servo Sofredor de Isaías 53. A declaração de Mat. 17:5 e Mar. 9:7; Luc. 9:35, a voz da nuvem na Transfiguração, Êste

é meu Filho amado, ouvi-o, refere-se claramente à Pessoa

do Servo em Isaías 42:1. É clara e significativa a decla­ ração Jesus em Lucas 22:37: Pois vos digo que impor­ ta que se cumpra em mim o que está escrito: Êle foi con­ tado com os malfeitores (Is. 53:12). O Apóstolo Paulo não faz referência ao Servo do Senhor, mas declara: Cris­

to morreu por nossos pecados segundo as Escrituras (I Cor. 15:3). Quando Filipe pregou o Evangelho ao eunu- co, êle começou com a explicação de Isaías 53:7-8, e as­ sim lhe anunciou Jesus (Atos 8:26-39) . A verdade é que *

^

A

PROFECIA

DE

ISAÍAS

30

■a pregação do Evangelho em tôda parte do Nôv%Testa- jnçnto, Jesus Cristo se apresenta como o Servo Sofredor que. consegue a salvação de pecadores pela sua morte vi- cária na cruz do Calvário.

íF. O Autor de Isaías 40-66

(Consideramos todos êstes capítulos como a obra de um só autor. O nome dêste maior profeta do Velho Tes­ tamento é desconhecido. Êle é geralmente conhecido como Segundo Isaías, porque a sua profecia faz parte do Livro de Isaías, e a sua mensagem se relaciona freqüen­ temente com os ensinos de Isaías de Jerusalém. Não sa­ bemos nada da família dêle, nem onde êle nasceu. É pro­ vável que estivesse no cativeiro com o seu povo, voltando com êle na restauração. Êle revela muito conhecimento du história do seu povo, e mais do que qualquer outro mensageiro do Senhor, êle entendeu e interpretou a im­ portância da escolha de Israel para sua missão especial entre os povos do mundo. É provável, como' alguns pensam, que êle era o con­ selheiro espiritual dos judeus no cativeiro, e que talvez fôsse o fundador da sinagoga. É certo que pregou pode­ rosamente aos exilados a mensagem de consolação, enco­ rajamento e esperança. Como' já observamos, êle era um profundo teólogo, e interpretou a história do seu povo, e a história das nações do mundo, à luz do eterno propósito do Senhor na criação do universd, e nas atividades divi­ nas nos eventos históricos de todos os povos da terra. As Divisões Principais dos Capítulos 40:66

A Libertação Divina do Povo do Senhor, 40:l-48i22

: I;

A. Prólogo,

o Pregador e sua Mensagem, 40:1-11

B. Javé, o Deus Incomparável, 40:12-31

C. O Deus da História das Nações, 41:1-29

D. O Servo Escolhido do Senhor e a Sua Missão, 42:

40

A.

R. CRABTREE

E.

Javé, o Criador e Redentor de Israel, 43:1-44:23

F .

Javé É o Poderoso Criador, Ciro É o Seu Instru­ mento, 44:24-45:25

G.

O Deus Que Carrega o Seu Povo, os Deuses Que> São Carregados pelo Povo, 46:1-13

H.

O Orgulho e a Humilhação da Babilônia, 47:1-15

I.

O Propósito do Senhor na História e na Profecia,

48:1-22

II.

A Redenção de Israel, 49:1-55:13

A. A Libertação e a Consolação de Israel, 49:1-50:3

B. O Getsêmane do Servo do Senhor, 50:4-11

C. Os Israelitas Fiéis Recebem a Promessa de Sal­

vação, 51:1-16 D . O Reino do' Senhor na Nova Época de Jerusalém,

 

51:17-52:12

 

E. O Sacrifício e a Glória do' Servo do Senhor, 52:

 

13-53:12

 

F. A Felicidade de Sião Reunida com o Senhor por um Concêrto Eterno, 54:1-17

G. A Salvação pela Graça de Deus, 55:1-13

III.

Admoestações, Esperanças e Promessas, 56:1-66:24

A.

Oráculo sôbre a Obediência da Lei, 56:1-8

B

Denúncia

de Governadores Cegos e do Culto Cor­

C .

rompido, 56:9-57:13 A Graça do Senhor na Redenção do Seu Pov

 

14-21

 

D.

A Prática do Jejum e a Observação do Sábado,

 

58:1-14

 

E.

A Intervenção do Senhor na Vida de Israel, 59:

 

1-21

>

'

F.

A Glória, a Grandeza e a Felicidade de Sião, 60:

A

PROFECIA

DE

ISAÍAS

41

G. O Dia de Vingança e o Ano de Redenção^-ôS:1-6

H. A Oração do Profeta em Favor do Seu Povo Desa­ nimado, 63:7-64:12

I. O Nôvo Concêrto e a Nova Terra, 65:1-25

J. A Felicidade Eterna da Verdadeira Israel, 66:1-24

Bibliografia Selecionada

The Interpreteis Bible, V ol. 5, The Book of Isaiah, Chap- ters 40-66 Introduction and Exegesis, by James Muilenburg Exposition, by Henry Sloane Coffin, Abingdon Press, 1956 Skinner, John, The Book of the Prophet Isaiah, Vol. II Rev. Edition Cambridge Bible, Cambridge Univer- sity Press, 1960 Sinith, George Adam, The Book of Isaiah, Vol II, Rev. Edition, 1927 Doubleday, Doran & Company, Inc., New York Leslie, Elmer A., Isaiah, Abingdon Press, 1963 Kittcl, Rudolf, Bíblia Hebraica, American Bible Society,

1951

Dclitzsch, Franz, The Prophecies of Isaiah, Vol II, Trans- lation S. R. Driver

T. & T. Clark, Edinburgh Eichrodt, Walther, Theology of the Old Testament, Vol. I. 1960 Translation J. A. Baker, The Westminster Press Bewer, Julius A ., The Literature of the Old Testament, Srd Edition, Columbia University Press, 1960 Xnudson, Albert C., The Rei. Teaching of the Old Tes­ tament, Abingdon Press, 1918 nobinson, T. H ., Prophecy and the Prophets in Ancient Israel. Charles Scribner’s, 1923

Rowlev, H. H ., The

Old Testament and Modern Study,

Longman, Green & Co, 1930

42

A.

R. CRABTREE

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Torrey, C.C., The Second Isaiah, Charles Scribner’s, 1928

Isaiah, Chapters 40-55, British Academy,

London, 1944 North, Christopher, R ., The Suffering Servant in Deutero- Isaiah, Oxford Press, 1948 Rowley, H. H., O Servo Sofredor e o Messias Davídico,

Smith, Sidney,

Revista Teológica, Julho, 1954

Tradução do Inglês, Lutterwórth Press, London, A .R . Crabtree

O

LIVRO

DE

ISAÍAS

Capítulo 40-66

Texto, Exegese e Exposição

I. A Libertação Divina do Povo do Senhor, 40:1-48:22

A. Prólogo, o Pregador e a Sua Mensagem, 40:1-11

'

1.

Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus.

2. Falai ao coração de Jerusalém,

e proclamai-lhe :

que já se terminou o tempo do seu duro serviço,

que a sua iniqüidade está perdoada; que já recebeu da mão do Senhor

o dòbro por todos os seus pecados.

O lema central da primeira divisão desta profecia é a libertação do povo de Judá do cativeiro babilônico, e as conseqüências dêste maravilhoso evento. A restaura­ ção dos exilados para a sua própria terra, com ênfase na sua missão mundial, será uma nova manifestação do po­ der e da glória .do Senhdr, 40:5, 10, 11. O autor identi­ fica-se com os exilados na Babilônia, e se regozija pelo significado histórico da providência de Deus no cuidado dò povo da sua escolha, o povo que cumprirá a sua nobre missão de levar a tôdas as nações do mundo a mensagem desta nova revelação do Senhor. Esta mensagem não surge simplesmente dentro do espirito do profeta, mas lhe vem.de fora. Êle está cônscio da jsua incapacidade de compreender plenamente a pa-> íçyra divina, mas tem a certeza inabalável da sua cha*

44

A.

R. CRABTREE

mada e da glória do Senhor que lhe fala. Êste nôvo mensageiro do Senhdr é também do grupo dos profetas nobres e fiéis que tinham proclamado o propósito de Deus na escolha de Israel, e a operação da sua eterna providên­ cia na direção da história humana. Por muito tempo, profetas como Amós, Isaías, Joel, Miquéias e outros tinham proclamado o julgamento di­ vino sôbre a infidelidade dos filhos de Israel, visando sem­ pre ao despertamento, à disciplina e à redenção do seu povo. Êste profeta representa um nôvo movimento na providência de Deus que revela o desenvolvimento do pro­ pósito' do amor e da graça do Senhor na direção do seu povo. O Deus Soberano triunfará sôbre todos os movi­ mentos históricos que operam contra o seu eterno pro­ pósito na orientação da história humana. 0 profeta sabia do afastamento' do seu povo da pre­ sença do Senhor (Os. 1:9); e sabia também do poder da compaixão divina na restauração dos infiéis para assim fazer dêles um povo fiel no serviço do seu reino (Os.

2:23).

1. O Conforto do Amor de Deus, 40:1, 2

No' prólogo, palavra introdutória da mensagem pro­ fética, ouviinos apenas vozes que proclamam o término do longo periodo do castigo do povo do Senhor no cati­ veiro. Ntts primeiros dois versículos as vozes dirigem-se aos cativos, ou talvez ao profeta que deve transmitir a mensagem de confôrto aos exilados. Mas no versículo nove as vozes são dirigidas a Jerusalém, chamada para proclamar as boas novas ao seu povo, longe da pátria amada. Está terminando período da servidão de Jerusalém,

E orque ela sofrerá já a plena punição por tôdas as suas •aàsgressões. Proclama-se nestes versículos a promessa

de perdão e do livramento do povo exilado no estrangeiro.

A

PROFECIA

DE

ISAÍAS

45

Há três palavras importantes na interpretação dejta no­ tável mensagem: consolai, falai, proclamai.

Consolai, consolai o meu povo. A repetição da pri­ meira palavra de uma nova mensagem é característica do estilo dêste profeta (43:11, 25; 48:11, 15; 51:9, 12, 17; 52:1, 11). As traduções geralmente têm consolai-vos, mas não se pode identificar logo o grupo que'~à palavra vos significa. Parece que a palavra de confôrto é dirigida a todos que têm ouvidos para ouvir a Palavra de Deus sôbre o nôvo mcívimento da providência divina na história. É verdadeiramente uma nova palavra na profecia. É a mensagem da ternura e do amor do Senhor que vai ser demonstrada nas bênçãos do seu povo, e nas conseqüên­ cias históricas da restauração dos exilados na Babilônia para a sua própria terra.

Alguns comentaristas, sem a mínima prova, fazem um esfôrço para relaciònar a linguagem desta profecia sôbre o plano de Deus na história com as festas babilô- nicas do nôvo ano.

O vosso Deus está dizendo, Consolai o meu povo. Nas palavras o meu povo o profeta recdnhece claramen­ te o eterno concêrto, rYHS, do amor imutável do Senhor

t

para o povo da sua escolha (Gên. 12:3; 'Êx. 19:1-6; II

Sam. 7:5-29). O verbo "Ü2ÍO é incompleto e represen­

ta ação1incipiente ou repetida (Cp. 1:11,18; 33:10; 40:25; 41:21; 46:9). A forma do verbo hebraico representa ape­ nas a qualidade de ação; o seu tempo é sempre determina­ do pelo contexto. 1 O tempo presente cabe melhor neste contexto. Assim, o profeta declara que Deus está dizen­ do repetidamente* que já terminou o período de servidão dura do seu povo na Babilônia.

1. A. R. Crabtree, Sintaxe do Hebraico do Velho Testamento» P*J&<

46

A.

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Os primeiros cativos de Judá foram levados à Babi* lônia em 598, e desde 587 os habitantes mais importantes de Judá e Jerusalém foram exilados pelos conquistado­

res,

e choravam quando se lembravam de Sião (Sal. 137:4).

Mas finalmente lhes vem a palavra de animação, de con­ fôrto e de esperança. É nestas circunstâncias que o men­ sageiro do Senhor fica encantado com a gloriosa restau­ ração dos exilados.

Falai ao coração de Jerusalém. Falar ao coração significa falar com ternura, acariciar, confortar, expres­ sar o sentimento de carinho e amor (Gên. 34:3; Juizes 19:3; II Sam. 19:7; Os. 2:14; Rute 2:13). Na psicologia hebraica atribuíram-se ao coração' tôdas as funções inte­ lectuais que nós atribuímos ao cérebro. Mas nós falamos ainda das funções e dos poderes do espírito.

Pelas águas da Babilônia os cativos se assentavam

No sentimento do profeta, Jerusalém é personificada como a comunidade do povo de Deus no cativeiro, sub­ jugada e sem defesa. A cidade em ruínas assim se identi­ fica co'm os seus habitantes na Babilônia, como Sião no v. 9; e Cap. 49:14-16; 51:16, 17; 52:1, 2. Já é findo o tempo da sua malícia, ou melhor: Já se terminou o tem­ po do seu duro serviço. Em Jó 7:1, a palavra fcOX , ma-

T

T

lícia ou tempo de serviço, é paralela com a frase os dias

do jornajçiro. 0 têrmo se usa também no sentido do pe­

ríodo do serviço militar, e figurativamente como qual­ quer tempo de trabalho duro e opressivo que o servo de­ seja ardentemente terminar (Jó 14:14).

A sua iniqüidade está perdoada. A palavra n^"l2

V

*

é passiva, e é usada num sentido peculiar nesta declara­ ção . Encontra-se a forma ativa do verbo no sentidò de

cqinprir o dever de guardar o sábado (L ev. 26:34, 41, 43;

A

PROFECIA

DE

ISAÍAS

dos exilados é paga totalmente. A palavra grega ' ±£kvrai tem o mesmo sentido de remissão do pecado.

Assim, a nova idade dêste povo começará com o seu pecado' perdoado (40:25; 44:22; 48:9) . Em contraste com o povo em geral, os profetas nunca pensaram no cativei­ ro de Judá como o resultado das suas atividades políti­ cas, ou ás suas intrigas com nações mais poüerosas. Atrás de todos os seus movimenteis políticos era sempre o pe­ cado de infidelidade ao Senhor, e a rebelião contra a von­ tade do seu Deus revelada aos profetas.

A declaração de que o povo tinha recebido da mão do Senhor o dôbro por todos os seus pecados perturba alguns leitores. Esta declaração não pode ser interpreta­ da teologicamente no sentido de que o próprio Senhor havia castigado diretamente os exilados o dôbro por to­ dos os seus pecadós. Sabemos, à luz das Escrituras (E z. 33:11), que Deus não tem prazer no castigo inevitável dos revoltosos contra as leis da justiça. Na linguagem figurativa o profeta declara apenas que o povo de Judá tinha sofrido suficientemente. 0 problema do sofrimen- tei é complicado, e na livre vontade de pessoas e de na­ ções os inocentes sofrem, às vêzes, com os culpados, e al­ guns membros dos grupos e das nações sofrem mais do que merecem. Os dois reinos dos israelitas tinham que sofrer o julgamento do Senhor por causa da sua infideli­ dade, mas alguns sofreram mais do que mereciam no po­ der dos conquistadores cruéis. Mas apesar de todos os inimigos da justiça divina, e as injustiças que o povo de Deus têm que sofrer nas guerras e nas intrigas interna­ cionais, o Senhor vai realizando o seu eterno propósito na longa e ctímplicada história da humanidade. Êste pro­ feta também decora que o Servo Sofredor do Senhor levou sôbre si, nos seus sofrimentos não merecidos, o cas­ tigo dos pecados do seu povo (Cp. 53).

A

R. CRABTREE

3. Ouça! A voz do que está clamando:

Preparai no deserto o caminho do Senhor;

endireitai

no êrmo

a veneda para o nos*#

4. Todo vale será levantado,

Deus.

e todo monte e outeiro será abaixado;

a terra

desigual será

nivelada,

e os lugares escabrosos, aplanados

Õ Profeta ouve uma voz que egtá clamando, H H p • O hebraico não diz, a voz qUe clama no deserto,

segundo as versões em português. A palavra voz em decla­ rações como esta, freqüentemente tem o sentido de uma interjeição, ouça ou escute. Aparentemente, a voz vem de um ministro angélico, e não do' próprio Senhor, e talvez se dirija a servos celestiais. Preparai no deserto, entre a Babilônia e a Palestina, o caminho que os exilados vão se­ guir, dentro em breve, na volta pará a sua terra amada. As palavras HllV e T IT l, o caminho do Senhor, encon­

tram-se freqüentemente nesta profecia (42:16; 43:16, 19; 48:17; 49:11; 51:10). O profeta Ezequiel declara que o Espirito do Senhor acompanhou os cativos de Jerusalém até a Caldéia (11:22-25). A glória do Senhor tinha aban- donado a cidade de Jerusalém e acompanhado os seus ha­ bitantes, o verdadeiro Jerusalém, até à Babilônia. Agora está chegando o tempo da sua volta triunfante quando levará consigo os seus desterrados. A volta dps judeus do cati^iro babilônio, sob a direção do Senhor, o seu Deus, é um evento histórico profundamente signiíicaüvo, como a libertação dos seus antepassados da escravidão do Egito. É um ato do Senhor dos Exércitos no cumprimen­ to do seu eterno propósito na história da humanidade.

Preparai no deserto o caminho do Senhor (C p. Gên. 24:31; Lev. 14:36; Sal. 80:9). Esta figura baseia-se no costume de preparar a estrada para a procissão do rei no Oriente. Ma» há outros obstáculos, como' problemas po­

A

PROFECIA

DE

ISAÍAS

líticos, que serão removidos pelo Senhor no prepa^p para

a restauração do seu povo. Segundo o versículo 4, os exilados voltarão pelo ca­

minho direto através do deserto entre a Babilônia e a Pa­ lestina, acompanhados e dirigidos pelo Senhor. Haverá também uma transformação no espírito’ dos cativos. Os tímidos e desanimados serão' encorajados. «Qs orgulhosos e arrogantes se torrtarão humildes na presença do poder

e da glória do seu Libertador. Os que haviam sido rebel­

des e infiéis ficarão submissos ao amor imutável do Se­

nhor dos Exércitos.

As

palavras

I

DpJÍH JTffi não dizem o

T V

T T t

tortuoso será retificado, segundo algumas versões. A tra­ dução melhor é a seguinte:: A terra desigual, ou A colina íngreme se tornará em planície.

5.

B

a glória

■e tôda a carne a verá; pois a bôca do Senhor tem falado.

do Senhor será revelada,

Será revelada a glória do Senhor. iFoi certamente re­ velada a glória do Senhor na restauração dos judeus exi­ lados. É evidente que muitos dos velhos que foram le­ vados à Babilônia já tinham morrido, mas alguns dêstes tiveram o privilégio de voltar para a sua terra. Alguns dêstes velhos choraram quando viram as ruínas de Je­ rusalém, mas outros levantaram as vozes com júbilo e com alegria (Esd. 3:12). fc certo que o homem não pode ver o Senhor Deus com a vista física, mas há ocasiões quando pode testemu­ nhar as manifestações das obras do Senhor na natureza fisica, na história humana, e acima de tudo na experiên­ cia do poder e da glória de Deus no seu espírito (Ver Êx, 33:17-23). Quantas vezes a fé do povo de Deus é con­ firmada e fortalecida pelos fatos da história. A eterna significação de certos fatos históricos não se manifestai

50

A.

R. CRABTREE

nem se pode manifestar ao entendimento humano logo na ocasião. Quem podia ter calculado na ocasião o signifi­ cado do livramento' do pequeno grupo dos hebreus escra­ vos do poder do Egito, ou a salvação dè Jerusalém do po­ der do exército poderoso de Senaqueribe, ou do triunfo de Jesus Cristo' sôbre a morte, ou da proclamação das .eternas verdades do evangelho? Como diz Sir George Adam Smith: “ A glória de Javé será revelada, e vê-la-á tôda á carne juntamente, Como é que o nosso coração não’ pode deixar de levantar-se do confôrto da graça de Deus, e da nossa vitória sôbre êste mundo, e a nossa certeza do céu mesmo? A história tem que tomar o seu lugar ao lado da fé, quando os homens obedecerão' à segunda, bem como à primeira destas vo­ zes.” 2 O Deus eterno, o Rei dos reis, acompanha e dirige êste grupo de desterrados para a sua terra, porque êstes homens fiéis dependem a preservação das Escrituras, do Velho Testamento e o triunfo final do amor do Senhor na vida humana, pois a bôca de Deus assim tem dito.

2. A Promessa; de Deus Permanece Imutável para Sem­ pre, 6-8

Ou$a!

6. Alguém e»tá dizendo: Clama.

 

E

eu diaae, Que hei

de clamar ?

Tôda

a

 

carne 6 erva, a *ua fllória como a flor

tôda

da erva.

7. Seca-se a erva, «

cai

a flor,

quando eopra nela o hálito do Senhor;

verdadeiramente o povo é erva.

8. Seca-se a erva, •

cai

a flor,

mas a palavra do nosso Deus permanecerá eternamente.

Nestes versículos o profeta está ouvindo de nôvo uma vóz celestial. Esta segunda voz está chamando o homem para proclamar a palavra do Senhor. A voz especifica â~_t

S. Sir George Adam

Smith, Th* Bóok of Isaiah, Vol. IX, 'p.

81

- :

A • PROFECIA

DE

ISAÍAS

51

duas verdades que o profeta deve pregar. A glória4 ° ho­ mem é passageira como a erva do campo. A palavra do nosso Deus permanecerá eternamente.

A Vulgata, a Setenta, e o Rôlo do Mar Morto, têm.:

E eu disse, ou Eu perguntei em vez de Alguém disse do

Texto Massorético. Fòra do prólogo êste profeta não fala da sua própria pessoa. Mas na explicação da»sua chama­ da para pregar a mensagem de Deus, é muito natural a sua declaração. E eu disse. E com o desejo de entender

claramente a ordem que está recebendo da voz, o profe­

ta pergunta, Que hei de pregar? (Cp. Is. 6).

como a

flor da erva.

beleza, mas não tem êste sentido em qualquer outro lu­ gar. Esta palavra é uma das mais ricas, na sua significa­ ção, do Velho Testamento. Usa-se principalmente no sen­ tido' do amor firme, eterno, imutável, inabalável, benigno de Deus para com o seu povo do Concêrto (Êx. 15:13; Sal. 21:8 (H eb.); 33:22; 103:4; Miq. 7:20; Jer. 32:18; Is. 63:7). A palavra se refere também à bondade dos ho­ mens fiéis do Senhor (I Sam. 20:15; Os. 6:6; Is. 16:5; Jó 6:14; Prov. 3:3).

Todo

homem é erva,

A palavra

e

táida a

sua glória

1CH significa aqui glória ou

A palavra rTTi significa vento e espírito. Neste ver­

sículo sete a palavra significa o vento quente, o siroco. Omite-se êste versículo na Vulgata e na LXX, mas consta nò Rôlo do Mar- Morto. O versículo cabe bem no contexto. Surgem opiniões diferentes sôbre o significado da frase o povo é erva. Alguns pensam que profeta não se refere ao povo de Israel, mas aos inimigos de Israel. Cer­ tamente ó profeta não ensina em qualquer outro lugar que ò povò de Israel é meramente erva, pois êste é o povo escolhido. É o povo do eternò concêrto do Senhor, ó núcleo de fiéis quç está cumprindo o eterno propósito

52

A.

R.

CRABTREE

de Deus, objeto nesta profecia do amor imutável do Se­

nhor. A palavra,

i,j velada aos profetas, sinônimo aqui de Torah, (Tora) a revelação divina. Esta revelação do propósito eterno do' Senhor opera constantemente nos movimentos da histó­ ria. Os inimigos de Deus se levantam é passam, de geração em geração, cdmo a erva do campo. As predições de cas­ tigo dos infiéis pelos profetas anteriores já se cumpriram. Mas esta nova promessa de conforto, permanecerá eterna­ mente, e os fiéis de todos os séculos futuros experimenta­ rão as bênçãos desta promessa de confôrto.

"DH do nosso Deusí é a mensagem re-

t

t

3. O Poder e o Cuidado do Bom Pastor, 9-11

9.

Sebe a um monte alto,

ô

Sião, mensageiro d« boas novas;

levanta a tua voz fortemente, Õ Jerusalém, mensageiro da boas noticias,

levanta-a, não temàs; dize As cidades de Juda:

Eis o vosso Deu»!

Outra versão gramaticalmente correta:

Sobe a um monte alto,

0 tu que, anuncias boas novas a Silo;

levanta a tua voz fortemente,

0 tu que anuncias boas novas a Jerusalém,

levanta-a, não temas; dize As cidades de Judá:

Eis o vosso Deus!

Os intérpretes modernos, na grande maioria, prefe­ rem a nossa primeira tradução do versículo nove. Ainda alguns preferem a segunda versão que também é grama­ ticalmente correta. A procissão dos restaurados do cativeiro', na visão do profeta, está chegando aos arrabaldes de Jerusalém. São as cidades de Judá que vão receber a mensagem do' men­ sageiro de boas notícias. É q proclamador das boas novas a cidade de Jerusalém, ou aos habitantes de Sião. Sião

A'

PROFECIA

DE

ISAfAS

53

geralmente designa a pequena cidade que Davi-Jpmou dos jebuseus (II Sam. 5:7), apenas a parte sueste de Je­ rusalém. Mas os dois nomes usam-se como' sinônimos nos paralelismos poéticos. O monte alto é provávelmente o Monte das Oliveiras, de onde Sião, o arauto, levantará poderosamente a voz na proclamação das boas novas às cidades de Judá. Da palavra , boas novas ou boas

T

l

notícias, originou-se o têrmo Evangelho do Nôvo Testa­ mento. Assim, a cidade de Deus recebe a chamada, a in­ cumbência de proclamar às cidades devastadas de Judá, sem qualquer mêdo da Babilônia, o princípio do' nôvo dia para o povo escolhido do Senhor.

10. Eis que o Senhor Javé vem com poder,

e o seu braço governará por êVe;

eis que o s«u garladão está com Sle,

e diante dile a sua recompensa.

11. Como pastor apascentará o seu rebanho, entre os seus braços recolherá os cordeirinhos, os levará no seu regaço; as que amamentam, éle guiará mansamente.

«

O Senhor Javé vem com poder, demonstrando na restauração dos exilados de Judá o mesmo poder que li­ bertou o seu povo da escravidão no Egito. O seu braço é sempre o símbolo de poder e autoridade (48:14; 51 ;5, 9; 52:10; 53:1). O galardão, a recompensa do Senhor é o seu povo libertado da Babilônia para cumprir a sua mis­ são divina, com a proteção e as bênçãos do seu Deus (Cp. Jer. 31:15-17). Como o Bom Pastor, o Senhor vai na frente das suas ovelhas, guiando-as com a voz de carinho, em vez de an­ dar atrás delas para dirigi-las à fôrça. É u’a mensagem que encanta os viandantes com beleza, alegra o seu es­ pírito com esperança, e desperta de nôvo o' amor para com o seu vitorioso Libertador.

54

A.

R. CRABTREE

A linguagem também sugere um general vitorioso, à frente, não dè prisitíneiros capturados nà guerra, mas de uma companhia de exilados que êle tinha libertado. Alguns dêstes estão velhos e cansados; outros são mulhe­ res e crianças. Êste Comandante é o Todo-Poderoso, e ao mesmo tempo 6 Bom Pastor que cuida carinhosamente de tôdas as suas ovelhas, levando os cordeirinhos entre os braços, e guiando mansamente os que amamentam. O seu amor carinhoso alcança o mais humilde, e o mais ne­ cessitado do seu rebanho,

B. Javé, o Deus Incomparável, 40:12-31

1. A Infinidade do Criador do Universo, 12-14

12. Quem mediu •• águas na concavidade da mão,

e marcou

os limites dos céus com

*

palma ?

Quem reoolheu numa medida o pó da terra,

e

pesou os montes com um pôso

e

os outeiros na balanga ?

13. Quem dirigiu o Espirito do Senhor, ou, como o. seu conselheiro, o instruiu ?

14. Com quem tomou êle conselho, para que lhe desse compreensão? Quem o instruiu na vereda da justiça, ■ e lhe ensinou conhecimento,

« lhe mostrou o caminho de entendimento?

(Êstes versículos apresentam perguntas retóricas sô­ bre a infinidade de Deus. O profeta assim desperta os exi­ lados de^inimados para contemplar a verdadeira nature-

Senhor

~3mgêT perguntas sôbre as obras de Deus, com o propósi­ to de humilhar o Orgulho dn homem. A qualidade literária desta profecia, bem como a súa teologia, é clara e brilhante nas descrições, profunda nos pensamentos e majestosa nas figuras poéticas. O en­ tendimento moderno dò universo assombra a imaginação, exencanta o nossó orgulho. O conhecimento dos hebreus antigos sôbre a vastidão do universo, com as numerosas

zã e poder de Deus . No Livro de Jó (38:5-41) o

A

PROFECIA

DE

I SAIAS

55

constelações, foi muito limitado. Mas é fato profunda­ mente significativo que as descrições das maravilhas das obras de Deus nas Escrituras Sagradas sempre acompa­ nham o progresso do conhecimento científico do univer­ so. “ Nenhuma descoberta de astro físico pode superar a descrição desta passagem, ou de Jó 38. Pode-se dizer também com certeza que nenhuma poesia iriais magnífi­ ca jamais será escrita sôbre o Incomparável?” 8

No versículo doze o profeta apresenta ilustrações da magnitude das obras de Deus como Criador. Quem me­ diu as águas na concavidade da mão? A resposta é clara­ mente subentendida: Ninguém, senão o Senhor Javé, o Criador. O Deus que revela a mua glória"nns~exilados e os liberta do podefr^a Ttahilônin / n-T-ri/trtnr dêste-^asto

universo.

mente O Criador dos maf ps, dos rnrpns roloatinis » -ria

terra; éjam bém o Governador e Dominador de tôdas as obras que~cnou. ETünbém o Soberano e o Guia dos po­ vos e das nações (Jó 26:5-14; Sal. 104). O Rôlo do Mar Morto tem as águas do mar em vez de as águas. Marcou os limites dos céus com a .palma, mi a mão estendida do dedo pequeno até o polegar. Quem re­ colheu numa medida, , a têrça parte da efa, o pó

da terra. Há duas concepções neste versículo a respeito da criação do universo. A primeira refere-se à ordem, ao acôrdo e às proporções nas obras da natureza física, in­ dicando' a inteligência suprema que governou a obra da criaçãd. Mas o pensamento mais importante do profeta é o poder infinito do Senhor, que dirige constantemente as operações tão vastas no govêrno das obras da criação. É fato interessante para algumas pessoas que os escritorès bíblicos nunca apresentam argumentos para provar a exis­ tência de Deus. Nunca pensaram que pudessem desco-

O Deus dêstes judeus desanimados não é SÒ-

56

A.

R. CRABTREE

brir a Deus com os seus podêres intélectuais. Conheceram ao Senhor sòmente à médida da capacidade intelectual e espiritual de reconhecer e receber a revelação divina. No versículo treze o profeta discute a infinita sabe­

doria do Senhor.

troloyjJ>u marcou Q« Hinítes dn Espirito do Senhor—fl Es-

Í iírito do SenKõraqui não tem o sentjdo do EspíritoSan- o em o IMOvo Testamento. A LXX tem J'Qüèm conhece a mente do Senhor?” Esta versão é citada em Rom. 11:34

e I Cor.

Senhor. Quem fiscalizou a inteligência do Senhor* ou ser­ viu como o seu conselheiro? O Espírito do Senhor pene­ tra, vivifica e sustenta o espirito dos servos fiéis de Deus, bem como as obras da criação'.

Nos versículos 13 e 14 pergunta-se: “ Quem instruiu ao Senhor, ou de quem tomou conselho ou recebeu en­

tendimento?” O conselho, a sabedoria, a compreensão,

o conhecimento, o entendimento e a Justiça, pertencem ao

Senhor no sentido absoluto.

no sentido de retidão e justiça humana, mas significa aqui o juízo do Senhor, que é a justiça absoluta. A LXX não tem esta pergunta, mas não razão para duvidar da sua

autenticidade.

dêstes versos. A palavra

Quem dirigiu

fiscalizou,

jegulou,-eon-

.2:16. O profeta está pensando na inteligência do

A palavra

DStifà T * • é usada

É rico e profundo o sentido dos sinônimos

nJWFl i

significa entendimento,

r í discernimíhto intelectual, prudência, sabedoria e inteli- Igência.

* 2. O Deus Incomparável, 15-26

15. Eis que a » nações são como uma flôta dum balde, e consideradas como pó na balança;

eis que êle

levanta aa ilhas como pó fino.

16; Nem o Libano é suficiente para queimar,

nem os seus animais para um holocausto.

’l7.'.Tôdas

as nagôes são como nada perante êle;

18.

A

A

PROFECIA

DE

ISAIAS

quem, pois, compararei* a Deus, ou que figura fareis semelhante a êle 7

<&■ r

57

Depois de considerar a revelação do poder e da sabe­

doria do-Griador na ordena nas-proporções e na coordena-,

ção das Obras da natureza, n prnfpta felarn

võs è ãs nações são insignificantes em comparação com Deus. São tão insignificantes como' uma gôia de água que ctfh_dnna.-,halde. ou um grão de pó na halanqa. O Se- nhoMévanta as ilhas como po fino. Êste profeta refere- se doze vêzes às ilhas, designando provàvelmente as ter­ ras habitadas no Mar Mediterrâneo.

O Deus dêstes exilados é o Controlador dos eventos

da história (Amós 1:1-2:16; 4:6-12). As fôrças militares das poderosas nações do mundo, como a Babilônia, são insignificantes em comparação com o propósito e a obra de Deus na história humana. A comparação' neste versí­ culo quinze dá ênfase ao poder supremo do Senhor, e à

certeza do cumprimento do seu propósito na libertação do seu povo. Temos que aprender do interêsse e do pro- pósittí do Senhor concernentes às nações de outros ensi­ nos dêste profeta (Cps. 42:5-9; 49:5-7; 53:1-12).

Se tôdas as florestas do Líbano fôssem queimadas no holocausto de todos os seus animads^laLjofeiia. seria ina­ dequada para honrar ao Senhor (v. 17) •

ryiif» nt p/i.

A teologia dêste mensageiro do Senhor liga-se direta­

mente com o Criador do universo. O poder soberano na criação é o poder soberano na história. As obras da cria­

ção constituem o' palco sôbre o qual se cumpre o eterno propósito do Senhor na história humana (44:21-28; 45:

12-15; 51:9-10).

A quem, pois, comparareis a Deus, ou que figura fa­

reis semelhante a êle? O Senhòr Javé é o único e o verda- deiro Deus, e não pode haver outt-o. É verdadeiramente

E humanamente impossível entender o

$T fncompáf&vjíl

58

A

R. CRABTREE

maravilhoso mistério do Espírito do Senhor. Enquanto

o poeta, nos versos 12 a 17, descreve as atividades do Se­

nhor em têrmos das atividades humanas, estas descrições exaltam o poder supremo do' Criador. O homem, criado à imagem de Deus, participa com Êle nos podêres de pensar

e planejar. O Criador, porém, tem êstes podêres à medida

infinita. Assim sabemos que o Criador é Deus, e que não há Deus fora dÊle.

19.

O ídolo! o artífice o funde,

e o ourives o cobre

de ouro,

e forja

para êle cadeias de prata.

20.

O empobrecido escolhe madeira que não se apodrece;

/''"e

busca um artífice

perito

para esculpir uma imagem

r

que nio oscilará.

O

profeta explica nos versos 18 a 20 a estultícia da

idolatria. H*) provável que os judeus exilado's ficaraxn im- pressionados e a # fà^mã7l5§T por algum tempo, com as”'

pomnas da idolatria dos bãEiíònios. Mas com as prega- õés dos profetas è novas e preciosas experiências com Javé dos Exércitos, o Deus de Israel, muitos foram com­ pletamente curados das tendências de cair na idola­ tria. O profeta expõe a tolice de pensar que o Senhor Deus pode ser representado por ídolos fabricados pelas próprias mãos dos homens. É interessante que alguns comentaristas se esforçam para provar que o' profeta não está condenando o culto ao Senhor Deus por imagens. Por que, então, o profeta condena tão severamente a in­

^D B íd olo, imagem?

sensatez de fabricar ou esculpir o

(V erÊ x.

20:4, 5; Juí.

18:31; Deut.

4:16, 23, 25; Hab.

2:18; Is. 42:17; 44:10; Jer. 10:14; 51:17; Is. 44:15, 17; 45:20), Se é tão' absurdo fabricar imagens, é muito mais absurdo o esfôrço de adorar ao Senhor por meio delas.

O hebraico do versículo 20 apresenta dificuldades.

Alguns levantam dúvidas sôbre o significado da palavra

A

PROFECIA

DE

ISAÍAS

59

, mas é geralmente considerada como o Par.tigípio

Pual do verbo J3D ficar pobre, empobrecido de oblação.

T

n í^ lF l Mas a tradução não fica satisfatória no contex- • Ti''

to, com a palavra oblação. 0 idólatra é. ferv©Fesff~1io

seu

çulto.

Escolhe á árvore ffiíe nao apodrece.-madei­

En­

ra que permanece firme e sólida por longos ano®.

tão busca o mais perito entalhador que prepara uma fi­ gura que não oscilará ou cairá (Cp. I Sam. 5:3, 4). A imagem coberta de ouro será mais durável e mais digna, e merecerá mais .kmyor e-adefacão.

r------------

21. Não sabeis?

Não tendes ouvido?

Não vos tem sido anunciado desde o principio? Não tendes entendido desde as fundações da terra?

,

22.

Êle é o que está assentado sôbre o círculo da terra, cujos moradores são como gafanhotos; é êle quem estende os céus como cortina, e os desenrola como tenda para nèles habitar;

23. é êle quem reduz a nada os principes, e torna em cousa vã os juizes da terra.

Havendo ridicularizado o encantamento dos ídolos para os judeus na Babilônia, o profeta procede, nos ver­ sículos 21 a 26, a mostrar como o Senhor Javé se revela nas suas obras e na sua palavra como o Criador e Guia do universo. Começa no versículo 21 com uma série de perguntas. Não sabeis? Não tendes ouvido? “ As duas avenidas pelas quais o conhecimento de Deus alranç& a mente são a reflexão sôbre os fatos da Natureza p. Histó­

ria e o testemunho’ externo .” 4 O testemunho externo é a - palavra <Ie Deus revelada aos seus mensageiros, os profe­

tas.

bem constantemente o testemunho da grandeza e da gló­ ria de Deus nas obras da criação (Sal. 19:1; Jó 12:9). O

Não somente os judeus, mas todos os povos rece­

60

A

R.

CRABTREE

profeta reconhece, o fato' lamentável de que os homens em geral não se interessam nas maravilhas da natureza que testificam a sabedoria e o poder de Deus. Nos versículos 22 e 23 o profeta fala de nôvo sôbre a majestade do Senhor revelada nas suas atividades pro­ videnciais. Na linguagem poética é êie <jue está assentado sôbre o círculo ou a redondeza da terra, onde se encon­ tram os céus e a terra (Prov. 8:27; Jó .22:14). Nesta abó­ bada, ou firmamento, Deus colocou os dois grandes lu­ zeiros para alumíar a terra. E fêz também as estréias e as colocou no firmamento. O astronauta teve o privilé­ gio' de apreciar esta linda descrição bíblica do firmamento (Cp. Jó 26:10; Sal. 113:5; Prov. 8:27).

O Condutor da história reduz a nada e torna em cou- sa vâ os príncipes arrogantes e opressores, como Sena- queribe e Nabucodonosor, e os juizes injustos que vendem os direitos dos pobres (Amós 2:6).

24.

Apenas foram

plantados, apenas semeados,

.

.

apenas se arraigou na terra o seu tronco, quando sopra sêbre êles, e secam-se; e uma tempestade os leva embora como pãlha.

25.

A

quem, pois, ms comparareis,

que eu lhe seja semelhante ? diz o Santo.

26.

Levantai ao alto os vossos othos, e vêde :

quftflp criou tetes 1

l

Aquêle que faz sair por número o seu exército,

I

chamando todos êlss por nome ;

7

pela grandeza das suas fôrças,

'

e pela fortaleza do seu poder,

r>em um sé vem

a faltar.

O versículo 24 continua com o pensamento do ver­ sículo anterior. Não há qualquer autoridade, nem qual­ quer outro poder no mundo, tão alto ou tão impregnável que Deus não possa reduzir à cousa vã. No período dos grandes profetas hebraicos, impérios se levantaram e caí­

A

PROFECIA

DE

ISAIAS

61

ram. Ditadores militares usurparam poder e oprimiram o' seu povo, mas por pouco tempo, porque o seu desfiJtb estava na mão do Senhor. Êles se secaram como a erva

perante o siroco quando o hálito do Senhor soprou nêles

(v.

7).

A quem, pois, me comparareis? É a repetição do pen­ samento do' versículo 18. Diz o Santo. A palavra hebrai­

ca tgfflp não tem artigo. O Santo aqui não é atributo,

T

W

é jijm nnmn prnpi4*>~(Tp Hah 3-3; .Tr>

delt&o é um dos atributos de Deus; é a sua própria natu- rêzT (Lev. l *H2; Jos. 24:19; I Sam. 2:2; Is. 1:4; 5:16; 10:17; 31:1; Sal. 22:8; 99:1-9). Deus sempre se revelá como Santo. A religião do Velho Testamento sê distingue

A Santida-

TlasToutras religiões antigas,

Hp

rpm á -n m a

reli-

fliâjn tU

sanfirigfTp~

Levantai ao alto os vossos olhos e vêde o exército ce­

lestial (Juizes 5:20).

sair por número. Esta palavra criar, X“f i , encontra-se

Quem criou êstes, e quem os faz

T

T

quinze vêzes nos capítulos 40:45, e mais cinco vêzes nos outros capitulos. A doutrina da criação é o âmago da teo­ logia biblica. Javé é o criador das estréias, deuses que os babilônios adoravam. O Criador conhece por nome cada um dos membros do seu exército celestial. Êle os conduz tão perfeitamente que em todos os seus movimen­ tos nem um só dêles vem a faltar.

3. Javé, o Deus Sempitemo, 27-31

27.

Por que

dizes, £ Jacó,

e falas, 6 Israel,

O meu caminho está escondido ao Senhor, e o meu direito passa desatendido por meu Deus ?

28. Não sabes ? Não tendes ouvido ?

O Senhor é o Deus sempiterno,

o Criador dos fins da terra.

£le não desfalece, nem se cansa,

62

A.

R. CRABTREE

29. Êle dá fôrça ao fatigado,

• aumenta as fôrgás daquele que não teifl vigor.

30. Os jovens se oansam e se fatigam,

s os manoebos caem exaustos;

31. mas os que esperam no Senhor renovarão a sua fôrça, subirão com asas como águias» correrão e não se cansarão; caminharão, e não se fatigarão.

Êstes versículos apresentam verdades preciosas para os exilados. Havendo explicado com destreza os seus en­

sinos sôbre a majestade e o podçr absoluto do Senhor Javé,

O profeta apresenta ao seu povo abatido e desanimado a

esperança e o apêlo que se encerram nestas verdades di­ vinas .

Quando ouviram estas descrições encantadoras do poder criador do Senhor, e das suas atividades providen­ ciais na redução a nada os poderosos impérios e os opres­

sores do povo, os exilados ainda se achavam na Babilônia,

e aparentemente sem qualquer evidência histórica da sua libertação.

O verso 27 descreve a primeira reação dos ouvintes às promessas proféticas de libertação. O profeta pergun­ ta: Por que dizes, 6 Jacó, no espirito de desespêro? E por

que declaras: O meu caminho está escondido ao Senhor? Israel julgava que o Senhor não se interessava na liherta- çãõ" dcís êxodos áã opressão e do sofrimento. Sabe Deus

Í i-iiussa coíidlyfiu angustiosa? (Faz Êlé caso de nós? O eu direito passa desatendido por meu Deus. Não obs- nte a infidelidade e a culpa dos exilados perante o Se­ nhor, êles pensavam que o direito estava com êles contra os opressores. Nos versículos 28-31 o profeta responde às dúvidas do povo desencorajado. Deve-se lembrar das suas experiên­ cia^ còm o Senhor através dos anos da história. As na­ ções opressoras iam caindo enquanto o Senhor cuidava

A

PROFECIA

DE

ISAÍAS

«a

de Israel. Assim, o profeta dirige a mensagem ao poyo como Jacó-Israel cuja relação com o Senhor havia sido tão significativa. Nota-se um tom de censura nas pala­ vras do profeta no versículo 27. Israel revela pena de si mesmo, e assim se cega em parte ao pleno entendimento da promessa de libertação. O profeta lhes declara que não há no Senhor a fraqueza e a vacilação que caracterizam os homens. A fôrça do homem pode decrescer, e êle pode perder o seu vigor. Não é possível que o Senhor se es­ queça daqueles que prometeu salvar; como não é possí­ vel a diminuição do seu poder, ou a mudança do seu eter­ no propósito. E a mensagem vai crescendo em beleza e poder. Não sabe o exilado que Javé é o Deus imutável, sempiterno, o Criador dos fins da terra ? Não obstante

a fraqueza e a vacilação dos homens, aquêle que espera

no Senhor adquirirá novas fjôrças (Cp. Sal. 103:5). O vôo da águia é uma linda figura do poder da fé . O verbo

na LXX significa criar asas, Ou pôr-se ai voar. A Yulgata

é semelhante ao grego assument pennas. Os que esperam

no Senhor renovarão a sua fôrça. Terão uma nova quali­ dade de vida de união com Deus, e, portanto, cheia de vi­ gor, de fé e de esperança.

O profeta antecipa a vitória da Pérsia na conquista

da Babilônia, e a providência de Deus que promete a volta de Israel para a sua terra, onde receberá as maravi­ lhosas bênçãos do Senhor no cumprimento da sua gloriosa missão.

Correrão e não se cansarão; caminharão, e não se f atigarão. Alguns críticos opinam que esta declaração

uma conclusão fraca da grande mensagem do profeta, e deve ser eliminada como interpolação. Mas Sir George Adam Smith, numa exposição clássica da passagem, es­ creveu: “ É um climax natural e verdadeiro, subindo do mais fácil para o mais difícil, do ideal para o real, do so­ nho para o dever, de uma das raras ocasiões da vida para

é

64

A.

R.

CRABTREE

que deve ser a experiência comum e permanente. A his­ tória seguiu êste curso.” 6

C . O Deus da História das Nações, 11 :l-29

Uma das funções do profeta do Velho Testamento foi a interpretação dos sinais da história contemporânea. Da sua perspectiva, como mensageiro do Senhor, êle in­ terpretava o significado dos movimentos da história das nações em relação ao propósito de Deus concernente à missão do povo de Israel. Isto não quer dizer que eram historiadores no sentido moderno da palavra. É notável, porém, que êles sempre entenderam mais claramente do que os reis contemporâneos os sinais dos tempos. Êste profeta testemunhava grandes transições na his­ tória dás nações da sua época. A Babilônia, o poderoso conquistador de nações e povos, estava perdendo ràpida- mente o poder e a autoridade sôbre os povos que havia subjugado.- E êle entendeu e interpretou para o seu povo

a decadência da Babilônia e o levantamento do nôvo im­

pério da Pérsia em relação com o propósito do Senhor.

O

chefe dêste nôvo império era Ciro, o príncipe de Ansã,

o

pequeno estado' entre Elão e a Pérsia, ao norte da Babi­

lônia, mas já estava demonstrando a sua visão e o seu poder como estadista. Havia conquistado a Média em 550. Yenceu Creso da Lídia em 546. Em 539, pouco tem-

,

po depois*^ proclamação da mensagem do profeta no' ca-

i

pitulo 41, Ciro conquistou a Babilônia.

f

Êste profeta é o pregador da redenção de Israel pelo

Criador e o Condutor da história. Êle interpreta a histó­

ria de acôrdo coím o propósito do Senhor na criação. Êste

profeta reconhece o povo de Israel como o servo escolhido do Senhor, e como o mensageiro da autoridade da justiça de Javé sôbre as nações.

5.

Th«

Book of

Isaiah, Vol. II,

p.

105

A

PROFECIA

DE

ISAIAS

65

Deus opera dentro do' seu processo histórico nas-gli- vidades de povos e nações. Êle é o Controlador da histó­ ria (11:21-24). De acôrdo com o plano de Deus na obra da criação, o levantamento de Ciro, e o dèsenvolvimento do' seu império faz parte do propósito compreensivo do Senhor Javé (41:25-29). Ciro apresenta-se como con­ quistador benévolo, e o libertador de povos oprimidos. Governou com clemência os povos que subjugou. Foi êle quem autorizou a volta dos judèus cativos para recons­ truir o Templo de Jerusalém (II Crôn. 36:22, 23; Esd. 1:1-8). O profeta fala dêle como “ pastor de Javé” (44:

28) e como “ tí ungido do Senhor” (45:1). Embora não haja evidência de que Ciro aceitou Javé como seu Deus, 0 profeta reconhece que Deus utilizou-se da benevolência dêle na realização do seu propósito na restauração dos judeus do cativeiro. Quando as nações antigas sofriam derrotas na guer­ ra, êles julgavam sempre que tais desgraças foram devi­ das à fraqueza dos seus deuses em comparação com os deuses dos seus conquistadores. Em contraste com êste modo de pensar, é fato notável que os profetas de Israel Interpretavam os desastres e as calamidades do seu povo como a punição justa da sua infidelidade ao seu Deus, como o domínio da Assíria (Is. 10:5-15) e o cativeiro

por Nabucodonosor

(Jer.

.25:9). Quando terminou o cas­

tigo merecido no cativeiro, Deus levantou Ciro para os 1libertar e os restaurar na sua terra, como tinha levantado |Moisés, séculos antes, para tis libertar da escravidão do

1. A Soberania do Senhor, 41 :l-7

1, Calai-vos perante mim, ó ilhas, e renovem os povos a sua fôrça;

* cheguem-se, e então falem; cheguemo-nos a julgamento.

66

A.

R.

CRABTREE

2. Quem suscitou do oriente aquêle cujos passos segue a vitória ?

Quem faz que as nações se lhe submetam,

e que êle calque aos pés os reis,

e com a sua espada os transforme em pó,

e em palha arrebatada com o seu arco ?

Como o Condutor da história, Javé determina os des­ tinos de tôdas as nações. E neste primeiro versículo Êle convoca as nações para ouvir a sua palavra: Calai-vos pe­ rante mim, ó ilhas. Escutai silenciosamente a minha pa­ lavra. A palavra ilhas significa aqui, como em 40:15, não somente as ilhas, mas também tôdas as terras na costa do Mediterrâneo, o litoral (40:15; 42:10, 12; 49:1; 51:5). As nações estão convocadas perante o tribunal da lei. O Senhor Javé, o Deus do povo' do seu concêrto, tem uma controvérsia com os deuses das nações. Não obstante o fato de que o Senhor é uma das partidas na controvérsia, Êle também, na sua justiça absoluta, é o Juiz, não somen­

te

do seu próprio povo do concêrto, mas também de todos

os

povòs do' mundo. As nações são convidadas para re­

novar as suas fôrças, aproximar-se e falar e unir-se com o tribunal no julgamento.

Quem suscitou êste poderoso conquistador que vai

subjugando as nações do oriente e do norte, esmagando

os reis? O profeta refere-se claramente a Ciro, e não a

Abraão éltno dizem Calvino e outros. Ciro, filho de Cam- bises, estava intimamente relacionado com a casa real da Média, segundo! referências antigas. Média ficava ao nor­

te, e a Pérsia ao leste da Babilônia. Havendo subjugado

os países ao leste e ao norte, estava bem preparado para

conquistar a Babilônia.

difícil, mas o sentido genérico é claro. Alguns traduzem

O hebraico do versículo dois é

a frase

^

v

:

-

s

t

i

*

v

V

justo do oriente aos seus pés, suscitou a justiça do oriente.

, Quem suscitou o homem

Quem

Outros preferem Quem a

como servo; ou

A

PROFECIA

DE

ISAÍAS

67

justiça encontra em todos os passos. É muito claro que

o profeta reconhece Ciro como instrumento na ríão do

Senhor para libertar os exilados da Babilônia. E que êle calque aos pés os reis, com pequena mudança de vocali­ zação, pode ser traduzido, que êle subjuga, ou humilha

os reis.

3. Persegue-os e passa adiante em segurança, '**i por uma vereda que os seus pós não haviam trilhado.

A segunda parte do versículo 3 pode significar que o conquistador está trilhando uma vereda nova. Mas al­ guns pensam que o profeta está dizendo na linguagem poética que Ciro, na sua velocidade meteórica, não trilhou

a vereda com os pés.

4. Quem fiz e executou -isto, chamando as geragSes desde o princípio ? Eu, o Senhor, o primeiro,

«

com os últimos; Eu sou file.

Pergunta-se no versículo 4, Quem consegue executar

eventos tão maravilhosos, chamando as gerações dos ho­ mens desde o princípio da história humana? A resposta é claramente, O Senhor. Desde o principio da história humana, o' Senhor Deus tem chamado tôdas as gerações

à existência. Na sua essência divina, Deus é o mesmo

através de tôda a eternidade (Cp. Sal. 90:3; Is. 37:16; 43:10-13; 46:4; 48:12). No período da agressão da As­ síria, cujo poder cruel parecia invencível, o profeta Isaías

declarou repetidamente a imutabilidade de Deus na sua infinita sabedoria, e no seu eterno propósito na direção da história dos povos e das nações (14:14-27; 22:11; 28:

23-29; 29:14; 31:2; 37:26).

5

Os países do mar vêem e têm mêdo; os fins da terra tremem; Aproximam-se e vêm.

6.

Cada um ajuda ao seu próximo, e diz ao seu irmão: Esforça-te !

1

68

7.

A.

R. CRABTREE

E o artífice anima ae ourives,

e

o

que alisa com

e

dizendo da soldadura:

martelo, ao que bate Está bem feita.

na bigorna,

Então o segura com pregos para que não oscile.

Não é muito claro o sentido dêstes versículos. A

sugestão de alguns intérpretes de que os versículos 6

e

7 devem seguir 40:1’9, complica em vez de esclarecer

o

significado da passagem.

Para esclarecer esta com­

plicação êles eliminam o versículo cinco, sem justifica­ ção. O seíitidb da passagem é que as nações, na sua consternação por causa do levantamento de Ciro, dedi­ cam-se dilígêntemente ao plano de fabricar mais e me­ lhores ídolos para garantir, tanto quanto possível, a sua

segurança contra o invasor.

Os países do mar traduz mèlhor aqui, e em 40:15, o

Observando o

progresso rápido de Ciro nas suas ctínqüistas, os povos têm mêdo, e os fins da terra tremem. O Rôlo do Mar Mortti? tem juntos em vez de tremem. O versículo cinco descreve a réaçSo das nações contra o apêlo do profeta no versícüío primeiro. Òs versículos seis e sete descrevem as fraquezas das nâçõès, è zombam dos seus ídolos, nos quais os povos confiam como os seus deuses. Na sua confusão, os po­ lvos se èsfilçam na produção de imagens mais fortes, mais bonitas e mais preciosas. Cooperam fervorosamen- |s, cada um ajudando o próximo', e dizendo ao irmão:

Esforça-te. O artífice, tí^in , que funde a iinagem, enco-

sentido da palavra NthQ do que ilhas.

T

T

raja ao ourives, «pj? , que cobre a imagem de ouro e

forja para ela cadeias de prata (40:19). Não está muito ciarei a significação da cláusula, o que alisa com o mar­ telo, ao que baite na bigorna, mas evidentemente êstes faziam os últimos retoques nas imagens e forjavam na

A

PROFECIA

DE

ISAÍAS

69'

bigorna pregos para segurar a imagem no seu lugar pfêra que não oscilasse ou caísse. Mas a veemência e o fa­ natismo dos idólatras não têm valor. Chegou a hora do- Senhor Javé, o Deus de Israel.

2. Israel É o Servo Escolhido do Senhor, 41:8-13

8. Mas tu, Israel, servo meu, Jacó, a quem escolhi, descendente de Abraão, meu amigo;

9. tu a quem tomei das extremidades da terra, e chamei dos seus cantos mais remotos,

e te disse:

Tu

és o meu ®ervo,

eu

te

escolhi e não te

rejeitei;

10. não temas, porque eu sou contigo, não te desanimes, porque sou o teu Deus ; eu te fortalecerei, eu te ajudarei, eu te sustentarei com a destra da minha justiça.

Nestes versículos o profeta dirige-se a Israel como o servo do Senhor, escolhido e chamado de todos os povos sôbre a face da terra para ser um povo santo ao Senhor, e uma nação sacerdotal, Êx. 19:6. Deus nunca abandonará o povo do seu Concêrto,1 rTH.3 » e nunca

x

renunciará o seu propósito na eleição de Israel (Cp.

Jer.

O Livro de Gênesis conta como' o Senhor limitou gradualmente o povo escolhido; primeiro aos descenden­ tes de Sem (Gên. 10:21; 11:10); então a Tera (11:27); a Abraão e Isaque (21:12) e, finalmente, aos descenden­ tes de Jacó. 2 Israel, servo meu. A palavra servo freqüentemente significa escravo, porém o servo do rei, ou do nobre,

30:10, 11;

46:27, 28; Ez.

28:25, 26 ; 37:25).

ocupou uma posição de honra.

Mas Israel, o servo es^-

1. Esta palavra não significa aqui pacto, nem aliança. Ver a Teologia»

do autor,

p. 20

70

A.

R. CRABTREE

colhido do Senhor, ocupa uma posição especial de honra entre as nações. Muito feliz também a vida de qual­ quer homem que é um verdadeiro servo do Senhor,

como Abraão, meu amigo. A palavra , traduzida

t

amigo, significa literalmente aquêle que eu amo. Gên. 15:18 fala do Concêrto do Senhor.com Abrão.

O propósito dó Senhor na eleição de Israel especifi­

ca-se repetidamente nas Escrituras do Velho Testamen­

to. É uma doutrina complicada nas suas ramificações, mas é simplesmente mencionada nesta passagem, junta­ mente com a promessa de que o Senhor sempre ajuda­

rá o seu povo no cumprimento da sua grandiosa missão. As nações, com o's seus deuses impotentes, acham- se constantemente atormentadas pelo mêdo, enquanto

o povo do Senhor vive pela fé no amor imutável do Se­

nhor e na sua graça não merecida. Êste profeta dá ên­ fase especial à escolha irrevogável de Israel, e ao pro­ pósito divino na sua separação como o povo santo para

o serviço particular do seu Deus (Cp. Deut. 6:8; 7:7, 8; 14:2, 21; 26:19; Êx. 19:6).

A eleição originou com a chamada, a fé, a obediên­

cia e a missão' de Abraão, e com a promessa de Deus: “ Na tua descendência serão benditas tôdas as familias da .terra” (Gê%, 12:1-3). Nestes versos 8-10, o profeta dá Welêvo à escolha irrevogável de Israel, e no uso das pa­

lavras eu, , e tu, nfiN , põe ênfase na relação pe-

V

•-*

T

-

culiar entre Deus e o povo da sua escolha.

A

quem tomei, ptpl , agarrei, segurei das extremi-

- T

dades da terra. É significativo que o ato do Senhor na eleiçãQ de Israel nunca deixou de ser uma grande e inex­ plicável maravilha para os nobres profetas de Israel. Pela eleição Israel pertencia ao Senhor de acôrdo com o eterno Concêrto que o próprio Deus fêz com o seu

A

PROFECIA

DE

ISAÍAS

71

povo. A religião de Israel firmava-se na certeza h*£tba- lável da sua eleição divina. Nos períodos perigosos da história de Israel, os profetas encorajavam o seu povo, dando ênfase ao Concêrto com as promessas divinas. Não temas, porque Eu Sou, , contigo. Não te desa*

•■t

nimes, porque EU SOU o' teu Deus; EU SOU.„te fortale­ cerei; EU SOU te ajudarei; EU SOU te sustentarei com

a destra da minha justiça. Ver

(Êx.

3:14).

V

t

V

11. Eis que serão envergonhados « confundidos todos os indignados contra ti; serão reduzidos a nada e perecerão os que pelejam contra ti.

12. Buscarás os que contendem contigo, mas não os achar&s; os que fazem guerra contra ti serão como nada e cousa de nenhum valor.

13. Pois eu, o Senhor teu Deus, estou segurando a tua mão direita; sou eu que estou dizendo a ti: Não temas, eu te ajudarei.

Nos versículos 11 a 13 o profeta proclama a vitória de Israel sôbre os inimigos. O castigo dos que pelejam contra Israel será a vergonha e a humilhação, mas o povo escolhido estará perfeitamente seguro no’ poder do seu Deus, o Senhor. De acôrdo com o eterno plano do Senhor, o exér­ cito da Pérsia está em marcha vitoriosa, sob o coman­ do de Ciro, e vai calcando os reis inimigos do povo do Senhor. Assim, o eterno plano de Deus está sendo rea­ lizado na situação’ histórica e política do mundo. Ciro vai conquistando, não muito ràpidamente, mas com fôr­ ça irresistível as nações que se indignam contra o povo de Israel. Ciro não sabia que estava sendo usado na realização do propósito eterno do Todo-Poderoso que visava ao estabelecimento do seu império espiritual en-

72

A

R. CRABTREE

'tre tôdas as famílias da terra. O conquistador de nações não entendeu a intenção do amor imutável do Senhor

110 livramento

daquele pequeno grupo de homens sub­

jugados no estrangeiro, longe da sua pequena terra.

Neste capítulo 0 mensageiro do Senhor vai muito além da promessa de confôrto divino para o povo que vacilava na esperança e na confiança no socorro do seu Deus. “ Eu, Javé, te chamo em justiça, tomei-te pela mão e te guardei. Eu te dei como concêrto do povo, para luz dos gentios” (42:6). Deus não escolheu a Israel por qualquer mérito de fidelidade ou do amor ao' seu Cria­ dor e Protetor. À vista do Senhor, Israel, em si mesmo, não é mais do que um bichinho (v. 14). Enquanto o povo escolhido exultava de felicidade no socorro e nas bênçãos do Santo de Israel, devia reconhecer, ao mesmo tempo, que foi eleito como servo de Deus, para fazer com Deus o que êle está sempre fazendo. O povo de Deus tem que batalhar contra tôdas as fôrças do mal, tem que esmagar as montanhas de iniqüidade que impedem o progresso do Salvador (41:14-16).

O profeta proclama o julgamento divino contra

três classes de inimigos do povo de Deus: todos que es­ tão indignados ou inflamados contra ti; os que conten­ dem ou lutem contigo; os que fazem guerra ou pelejam contrai ti. Â^ronúncia do julgamento divino começa com

.29;

8:11). Os têrmos

i<íe julgamento descrevem a violência crescente dos ini­ migos contra o povo de Deus. O profeta simpatiza com

o seu povo ainda subjugado' pelo inimigo, mas explica

claramente a impotência dos adversários do povo de Deus. iÊste profeta fortalece a sua mensagem de con-

fôrtò pela repetição freqüente das promessas do Senhor,

o Deus*de Israel. O Senhor está segurando' a mão di-

â palavra Eis, observa, olha atentamente (Cp.

® . 3:1; 8:7; 10:33; Amós 2:13; 6:11;

v.

A

PROFECIA

DE

ISAÍAS

73

reita dò seu servo, dizendo-lhe: Não temas, Eu te aju­ darei.

3. O Senhor É o Redentor de Israel, 41:14-16

14. Não temas, tu verme, Jao6, vós, homens de Israel I

Eu te ajudarei, diz o Senhor;

o teu Redentor é o Santo de Israel.

15. Eis que farei de ti um trilho ctebulhador, agudo, nôvo, e armado de dentes; trilharás e esmagarás os montes,

e reduzirás os outeiros à palha.

16. Tu os padejarás e o vento os levará,

e a tempestade os espalhará.

Tu te regozijarás no Senhor,

e te gloriarás no 8anto de Israel.

Y'

Êstes versículos, com a frase introdutória, Não fe*

mas, relacionam-se com o parágrafo anterior. O profe­

ta faz um contraste interessante entre a fraqueza de Is-

i-ael na sujeiçãtí, e o grande poder que o Senhor vai fa­

zer dêle. O profeta apresenta o contraste entre a fraque­

za atual e o poder futuro de Israel nas figuras de verme

e trilho debulhador. Seria difícil fazer uma compara­ ção mais impressionante entre o pequeno grupo de ju­ deus na humilhação e desânimo no cativeiro, e no po­ der mundial que o Redentor vai fazer dêle.

Alguns comentaristas exageram o contraste, tradu­ zindo a palavra por têrmos como gusano ou pio­

lho. Mas o contexto indica que o profeta emprega a pa­ lavra no sentido comum de verme ou bichinho, como<

têrmo de carinho.

mens de Israel, ou povozinho de Israel, concorda com;

A palavra Vltt no paralelismo, ho~. "

4* *

o sentimento carinhoso do profeta.

A bela linguagem

figurativa que descreve o poder que Israel receberá do>

74

A

R. CRABTREE

Senhor para cumprir a sua missão sacerdotal é mais

do que nas várias

traduções. Thomas Oliver escreveu no seu belo hino: Êle diz que o verme é seu amigo, e declara que êle mesmo é o seu Deus. Não temas, povozinho de Israel, Eu te aju­ darei, diz o Senhor: o teu Redentor é o Santo de Israel. Nestas palavras o profeta expressa pela primeira vez o profundo pensamento de que o Santo de Israel é o Reden­

tor, ^ 3 , do seu povo (43:1, 4; 44:6, 23, 24; 47:4; 48:

brilhante e expressiva no hebraico

17, 20; 49:7, 26; 52:3, 9; 54:5, 8; 60:16; 63:9, 16).

O sen­

tido desta palavra aqui é uma das muitas ilustrações do fato de que a Bíblia aprofunda a significação vulgar de palavras. O goel, entre os hebreus, tinha a responsabili­ dade social e a obrigação moral de comprar ou redimir a propriedade do parente mais chegado (Rute 4:1-10). O Senhor Javé é o Redentor do seu povo. Como instrumento do julgamento divino, Israel é 0 trilho debulhador, bem armado para esmagar os mon­ tes e reduzir os outeiros a palha. Os montes e os outeiros são símbolos dos adversários de Israel. Êste pequeno povo redimido pela graça de Deus triunfará gloriosamen­ te no cumprimento da sua honrosa missão. Depois de -cumprir a uua obra de julgamento, o povo escolhido se regozijará, e se gloriará no Santo de Israel.

1 4 . 0 Deserto Se Tornará em Lugar Fértil, 41:17-20

17.

Quando os pobres e necessitados buscam água, e não há,

e

a sua língua

»a

teca

de sède,

Eu, o Senhor, os atenderei, Eu, o Deus de Israel, não os desampararei.

18.

Abrirei rios nos altos desnudos,

^

' e fontes no meio dos vales ; tornarei o deserto em açudes de água,

e a terra sêca em mananciais.

A

PROFECIA

DE

ISAIAS

19. Porei no deserto o cedro,

a acácia, a murta e a oliveira;

colocarei no êrmo o cipreste,

o olmeiro e o buxo juntos;

75

20. para que os homens vejam e saibam, considerem e juntamente .entendam, que a mão do Senhor féz isto,

e o Santo de Israel o criou.

Como o servo do Senhor, Israel tinha que representar o seu Deus, e assim lutar contra tôdas as fôrças do mal que pudessem impedir a obra salvadora do seu Senhor. Mas nesta incumbência, impotente de lutar nos altos mon­ tes da iniqüidade, Deus não o desamparará. Êle respon­ derá a tôdas as suas necessidades. Êle dará ao seu ser­ vo água abundante para refrescar a língua sêca, abrindo rios, fontes e mananciais nos montes, nos vales e no de­ serto. O Senhor plantará várias qualidades de árvores no deserto para a proteção do povo contra o calor do sol. Êste poeta fala freqüentemente sôbre a transformação da natureza física que acompanhará as bênçãos espiri­ tuais de Israel na volta do cativeiro (43:18-21; 48:21; 49:

9-11; 55:12, 13). Êste profeta fala freqüentemente sôbre as atividades do Senhor nas obras da criação, e nestes versículos, especialmente no v. 20, êle associa a fertili­ dade miraculosa da terra com a obra criadora do Senhor. Alguns perguntam se êstes versículos devem ser interpre­ tados literalmente ou figurativamente. Eu diria que esta passagem, juntamente com Jer. 4:23-26, deve ser inter­ pretada poèticamente.

Há sentimentos do espírito humano que não se po­ dem descrever na linguagem puramente científica, como o amor da mãe para com os filhos, o amor conjugal e o amor imutável de Deus. Há certas experiências huma­ nas que se podem descrever, em parte, por têrmos cientí­ ficos, mas a sua mais profunda significação tem que ser interpretada, tanto quanto possível, em linguagem poética.

76

A

R. CRABTREE

Nesta passagem (vers. 17-20) o profeta está respon­ dendo, aparentemente, às dúvidas e aos problemas que os «exilados enfrentavam nos seus pensamentos sôbre a vol­

ta do cativeiro para a sua terra (Caps. 35; 43:18-21; 49:

B - ll). O povo, sem

dúvida, estava pensando nos proble­

mas e nos sofrimentos que tinha que enfrentar na longa viagem através do' deserto desde a Babilônia até à Pales­ tina. Pensava no cansaço dos velhos, no sofrimento das crianças, na sêde e na fome de todos. O povo buscará água no deserto sem achá-la, e a sua língua se secará de sêde.

Por outro lado, o mensageiro' inspirado do Senhor interpreta o significado da restauração dêste povo esco­ lhido, como nação sacerdotal, para cumprir a sua missão de importância eterna no plano de Deus. Apresenta um retrato dote exilados, como se já tivessem iniciado a via­ gem de volta para a Palestina. “ Quando os pobres e ne­

cessitados buscam água,

Eu,

o Senhor, os atenderei,

Eu, o Deus de Israel, não os desampararei.” Na jornada dé Israel do Egito para a terra de Canaã, o Senhor trou­ xe água da rocha para o seu povo no deserto (48:21; Êx. 17:1-7; Núm. 20:1-13). Deus cuidará da mesma ma­ neira do seu povo na volta para a sua terra a fim de cumprir a sua missão. “ Abrirei rios nos altos desnudos;

tornarei o deserto em açudes de água.” Para o profeta, tÔ(da a natureza física se regozijaria com êste miraculoso ■etento. “ Porei no deserto o cedro, a acácia, a murta e

a çliveira.” “ Saireis, pois,

•conduzidos; os montes e os outeiros romperão em cânti­ cos diante de vós, e tôdas as árvores do campo baterão palmas” (55:12).

com alegria e em paz sereis

3 . Comparação entre os Deuses da Babilônia e o Senhor Javé, 41:21-29

x

-

.21. Apresentai a vossa eauta, diz o Senhor;

22.

A

PROFECIA

DE

ISAÍAS

Produzam e nos façam conhecer o que acontecerá. Declarai-nos as cousas anteriores, quais são, para que as consideremos, e saibamos o fim delas; ou declarai-nos as cousas vindouras.

77

'<«>"

23. Anunciai-nos as cousas que ainda hão de vir, para que saibamos que vós sois deuses; fazei bem, ou fazei mal, para que fiquemos assombrados e aterrorizados.

24. Eis que vós sois de nada, e a vossa obra 6 de nada; uma abominação 6 quem vos escolhe.

Havendo falado do Senhor Javé como o Criador de tôdas as cousas, e o Condutor da história das nações, o profeta declara nestes versículos que o Rei de Jacó, o Rei de Israel, é o Verdadeiro Deus que conhece o fim de tôdas as cousas desde o princípio. Êste conhecimento do futuro é a prova final da divindade. Assim, o profeta se dirige aos ídolos, não às nações, desafiando-os para de­ monstrarem o seu conhecimento do futurei, ou mostrarem o seu poder de fazer qualquer cousa, bem ou mal. Nos ver­ sículos 21-24, o profeta apresenta o' Senhor Javé como o Único e o Verdadeiro Deus. Nos versículos 25-29, êle de­ clara que o Senhor levantou Ciro para punir as nações, e, como o seu servo, para libertar os judeus exilados na Ba­ bilônia, e permitir a sua volta para a Palestina, onde êles pudessem cumprir a sua missãó sacerdotal.

Apresentai a vossa causa, diz o Senhor. A palavra causa, y “l f significa aqui um processo ou litígio perante

o tribunal da justiça (Cp. Miq. 6:1; Os. 2:4). As provas, os argumentos e as razões em favor dos ídolos podem ser apresentados perante o tribunal, diz o Rei de Jacó. Para provar a sua divindade, os ídolos devem conhecer e expli­ car as cousas ou os eventos históricos que já aconteceram, e devem demonstrar o seu poder de declarar cousas vin­ douras, ou explicar o significado e o fim da história. Por outro lado, o' Senhor Javé, o Deus de Israel, por intermé­

78

A.

R.

CRABTREE

dio dos seus mensageiros, os profetas, manifesta o seu pleno conhecimento das cousas vindouras. O Deus de Is­ rael revela ao seu povo que está libertando os exilados do cativeiro para que êles possam cumprir a incumbência de transmitir a tôdas as nações a revelação do eterno plano do Senhor concernente aos povos da terra.

25. Suscitei um do norte, • êle veio, desde o nascimento do soi, èle invocará o meu nome; pieará magistrados como lõdo, como o oleiro pisa o barro.

26. Quem o declarou desde o princípio, pára que saibamos,

ou de antem&o, para que digamos :

É justo ?

N io houve quem o declarou, nem quem o proclamou, nem ainda quem ouviu as vossas palavras.

27. Eu *ou o que primeiro o declarou a Sião : Eis ! ei-los !

e dou a Jerusalém

um arauto de boas notfcias.

28. Mas quando eu olho, não hâ ninguém;

e entre Astes nio há conselheiro

quam, quando eu pergunto, dê resposta.

29. Eis que todo» êles sio nada; as suas obras são cousa nenhuma;

•a

tuas imagens fundidas são vento e caos.

Os versículos 25-29 explicam como' o Senhor levan­ tou a Ciro explicitamente para libertar o povo de Israel do poder da Babilônia. Suscitei um do norte. O sentido do verbo hebraico é vigoroso: despertei, provoquei, in­ citei, impeli. Javé declara que havia despertado' um do norte. Um ato norte significa claramente Ciro. Êle veio da Média e do Elão. 0 império de Ciro já se estendia ao nd^te e ao leste da Babilônia. Assim, êle veio do norte, e também do nascimento do sol, ou do* leste. Êle invocará o meu nome. Esta declaração significa que Ciro reconhecerá ao Senhor Javé como Deus. É fato que Ciro reconheceu Marduque como o' deus da Babilô­ nia (Cp. 45:4, 5) 3, mas isto não nega a declaração do profeiá ile que êle reconheceu o Senhor de Israel como

3. A . R . Grabtree, Arqueologia Bíblica,

p.

282

A

PROFECIA

DE

ISAÍAS

79

Deus. Enquanto seja claro que Ciro não tinha conhecido

a Javé, declara-se também em 45:3 a

para que saibas que eu sou o Senhor, o Deus de Israel, que te chama pelo teu nome. Na fé monoteísta tôdas as

atividades históricas são subservientes ao eterno propósi­

to do Senhor. Ciro era servo de Deus, embora não tives­

se consciência do' pleno significado da sua benevolência para com os judeus (Cp. Mal. 1:11; Jer. 25:9* Rom. 8:

28). O profeta está pensando no movimento histórico ini­ ciado por Ciro que resultou na restauração dos judeus para a sua terra, o seu restabelecimento em Jerusalém,

e a preservação das Escrituras da Revelação Divina por

intermédio dos profetas que interpretaram o eterno pro­ pósito do Senhor na história de Israel, o povo escolhido

do Senhor. Pisará magistrados como lôdo. O texto massorético

respeito de Q ro:

íO '

T

diz virá sôbre os magistrados, segundo a versão de

Almeida, mas a pequena emenda

\ T

é geralmente acei-

ta

porque cabe melhor no paralelismo, como o oleiro pisa

o

barro (Cp. 41:2; 63:6). A palavra, governado-

T I

res, magistrados óu sátrapas, é da língua da Assíria (Jer. 51:37; Neem. 2:16; Ez. 23:6, 12, 23). Quem o declarou desde o princípio para que saiba­ mos? Os deuses das nações não podiam dizer cousa al­ guma sôbre o futuro. Se tivessem profetas que pudes­ sem anunciar de antemão eventos futuros, o povo do Se­ nhor diria, , Direito, justo, certo. Por outro lado,

êste profeta acentua em tôda parte da sua mensagem

o

conhecimento e o poder do Senhor Javé, a onisciência

e

a onipotência de Deus. O texto do v. 27 é difícil. A LXX, versão grega, diz,

Darei a Sião um comêço, e confortarei a Jerusalém no

80

A

R. CRABTREE

caminho. O hebraico diz: Primeiro a Sião. Eis! ei-Io! Ver as versões em português, que lutaram com esta dificul­

A emenda do texto concorda melhor com

o paralelismo. Assim, o Senhor foi o primeiro que anun­ ciou a restauração dos exilados, e Êle dá a Jerusalém um anunciador de btías notícias (Cp. 40í9-ll; 42:,v); 48:6).

Quando eu olho, não há ninguém. í) profeta fala aqui, não mais dos ídolos, mas daqueles que adoram as ima­ gens dos seus deuses. O profeta nãò ppdia achar entre êstes qualquer conselheiro que pudesse explicar a signifi­ cação de qualquer cousa que tinha acontecido, ou dizer alguma cousa sôbre os eventos vindouros.

dade do texto.

O versículo 29 apresenta a conclusão do argumento do profeta. Todos êles, os ídolos e os que adoravam os ídolos, não são nada. As imagens dos deuses que os ho­ mens fizeram com as próprias mãos, e as belas imagens fundidas são apenas vento e caos.

D. O Servo Escolhido do Senhor e a Sua Missão,

1.

42:1-25

Eis

o mau aarvo, ■quem

austenhe,

o