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Guerra Fria

Por L. Lothar C. Hein

A história das relações internacionais dos últimos quarenta anos, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, foi ditada no contexto do “confronto nunca direto de dois grandes blocos políticos e econômicos”. Confronto este considerado por Hobsbawm como a terceira grande guerra mundial do século XX. Enquanto os conflitos internacionais anteriores relacionavam-se a um centro europeu e podiam ainda guardar relação e continuidade com o século XIX (aqueles que contrapunham potências desejosas de controlar política e economicamente mercados e territórios), a Guerra Fria: 1) estabilizou o “equilíbrio de poder” internacional, deslocando as esferas de choque para a oposição entre os dois sistemas, conformando os conflitos e rivalidades da política mundial; 2) forjou um novo sistema internacional, cuja lógica articulou as relações entre as nações; 3) constitui-se num conflito ideológico que, propagando-se através da mídia, atingiu culturalmente a sociedade e sua conduta; 4) forçou uma corrida armamentista, que criou um complexo industrial militar continuamente produtivo, que tendeu a buscar mercados nos conflitos convencionais localizados do Terceiro Mundo; 5) conseqüentemente, serviu como elemento incentivador de tais conflitos; e 6) inaugurou a era nuclear e a possibilidade de destruição global da humanidade. Muito embora conheçamos bem as conseqüências da Guerra Fria, a questão a respeito de sua natureza continua em debate. Qual o significado da Guerra Fria?

1. Projeto e ordem internacional

Em certo sentido, pensar a Guerra Fria é também reconsiderar a própria produção teórica no campo das Relações Internacionais, a formulação dos seus paradigmas. Em primeiro lugar, o próprio processo de enfrentamento bipolar fornecia um modelo contundente que foi tomado, por alguns teóricos, como regra geral da história das relações entre as potências. Tornou-se o caso mais geral, eclipsando alternativas. Mais que isso, a teoria teria atendido à demanda da política, justificando posições. Neste sentido, Fred Halliday 1 acredita que um relativo silêncio caracterizou a apreciação do conflito bipolar, em seus primeiros anos, pelos especialistas da área. Este silêncio teria brotado da crença de que não havia substancialmente qualquer novidade ou

1 HALLIDAY, F. “A Guerra Fria e seu Fim: Conseqüências para a Teoria das Relações Internacionais”. In:

Contexto Internacional, Rio de Janeiro, v. 16, n° 1, jun. 94.

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qualquer particularidade que o diferisse da história anterior. O equívoco, apontado por Halliday, provinha dos próprios princípios do argumento dos autores, no período considerado. A reflexão teórica nas Relações Internacionais após a Segunda Guerra Mundial procurou justificar a conduta de contenção. O meio para tornar legítimo o enfrentamento foi tomá-lo como universal. Seria da própria natureza das relações internacionais o confronto irrestrito e inevitável entre as potências; a formação do equilíbrio, o único meio de atingir a estabilidade.

“Um dos paradoxos ilusórios das RIs [Relações Internacionais] é que, ao mesmo tempo em que o realismo servia para legitimar uma prática internacional que dominou o mundo pós-guerra - ou seja, o mundo da Guerra Fria e de outras mobilizações de Estados e recursos -, o termo “Guerra Fria” quase não era submetido a análises teóricas, sob a alegação de que não continha nada de

particularmente novo.” [

“A Segunda Guerra Mundial, e a Guerra Fria que a ela se seguiu, marcou o domínio do realismo, que se mantém ainda como paradigma dominante na área. Os trabalhos de Carr, Niebuhr e Morgenthau não surgiram simplesmente de reflexões feitas no interior de bibliotecas.” 2

]

Mas isso não é tudo. Os paradigmas, uma vez criados, formaram um foco de referência, permearam os debates, formando um cânon de temas privilegiados. Estes temas estiveram na mente de cada um dos debatedores, exigindo suas respostas. Subjacente à discussão, ficou oculta uma noção de ordem internacional. A reflexão acadêmica de maior prestígio sublinhou a necessidade desta ordem. É o fato da associação subjacente entre a prática política e a teoria que nos leva a esclarecer as raízes da reflexão nas Relações Internacionais. Partimos, portanto, das bases do pensamento nas Relações Internacionais, suas discussões clássicas. O problema central parece ser o da ordem. Na consideração do problema da ordem internacional, salta aos olhos que esta deveria ser constituída numa comunidade de unidades soberanas (no caso, os Estados Nacionais) que não sofrem restrições senão aquelas que elas mesmas determinam 3 . Se, no ambiente interno dos Estados, a noção de autoridade fundamenta a ordem, o propriamente internacional deve estabelecer uma ordem sem autoridade. É a igualdade das unidades que repele a hierarquia: as passagens entre o jurídico e o político, entre a lei e o poder são, portanto, ambíguas no sistema internacional. É o que determina a dificuldade de solução de conflitos, a fragilidade dos mecanismos multilaterais, as formas agressivas das disputas econômicas contemporâneas e a persistência da situação de injustiça. “No contexto internacional, a soberania do Estado significa na realidade que ele não está sujeito a leis que lhe sejam impostas por uma autoridade supra-estabelecida, dotada do monopólio da força; significa, por outras palavras, a existência de uma situação anárquica.” 4 No realismo clássico, o acento recai sobre a dimensão anárquica, onde os Estados controlam-se mutuamente através do mecanismo de poder. O enfrentamento natural entre as unidades seria contrabalançado pelo equilíbrio de poder que impediria a fragmentação deste mundo. A própria comunidade impediria a possibilidade de uma nação sobrepor-se

2 HALLIDAY, F. Op. Cit., p. 54.

3 Sobre a questão da ordem internacional Cf. PISTONE, Sérgio. “Relações Internacionais”. In: BOBBIO, Norberto. et alii. Dicionário de Política. Brasília, Editora da UnB, 1981, pp. 1089-1099; também:

FONSECA Jr., Gelson. “Notas sobre a questão da ordem internacional” In: Contexto Internacional. n° 6, ano 3, jul/dez. 1987 (11-35).

4 PISTONE, S. Op. Cit., p. 1089.

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às demais, construindo alianças que levassem a compensações de intensidade. O maior valor é a preservação do Estado; sua sobrevivência é o guia da ação. É o chamado “paradigma clássico” ou “realismo clássico”. Um segundo paradigma, o “racionalismo”, compreende este ambiente anárquico num processo de aperfeiçoamento contínuo, onde os Estados cooperam, auto-contendo seus pulsos expansionistas. A cooperação seria uma tendência palpável e terminaria por formar uma comunidade auto-regulada. Uma perspectiva consideravelmente mais otimista. Recuperando a perspectiva clássica, o “realismo” ganhou respeitabilidade nos anos que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial. Seus autores mais conhecidos foram Hans Morgenthau 5 , Walter Lippman (“U.S. Foreign Policy”, 1943) e George Kennan (“American Diplomacy”, 1951; “Realities of American Foreign Policy”, 1954). Partindo da centralidade do Estado, é a perspectiva de abordagem das relações internacionais segundo a qual estas devem necessariamente orientar-se segundo estritos interesses, excluindo questões de natureza ética. Esses interesses são dirigidos ao plano internacional, de acordo com o poder de coerção de cada nação frente às demais, sem qualquer consideração da possibilidade de mediação. O Realismo considera que o antagonismo entre os Estados é inevitável e necessário. O próprio Estado é um valor a se preservar: é uma solução natural para o problema da organização humana; ele incorpora os valores culturais da nação e garante a segurança da população ante os conflitos internacionais. De fato, todos os instrumentos devem ser utilizados para preservá-lo. A construção de uma autoridade acima dos Estados não é possível nem desejável: os pulsos éticos e religiosos são fracos demais, o direito não tem capacidade coercitiva sobre os soberanos, na ausência de uma autoridade supra nacional. No ambiente competitivo, o Estado deve contar apenas com suas próprias energias e potencialidades para sobreviver. Nada deve limitar o uso do poder, nem mesmo pressupostos éticos. De fato, o realismo é a construção de uma ética paralela. Na concepção realista do sistema internacional, o Estado é necessariamente expansionista. É o próprio sentido do jogo de poder que leva a este comportamento. Seja por motivos respaldados na natureza humana – a paixão pelo poder –, ou depreendido da política interna – a ameaça externa como fator de preservação do poder –, ou, ainda, a própria natureza conflituosa do sistema internacional, conforme o mencionado jogo de poder. Os Estados são naturalmente expansionistas, e qualquer tentativa de limitar tal tendência seria maléfica ao sistema. O cálculo de ação construído sobre a noção de oportunidade é o que distingue a ação do dirigente. A obrigação diante dos tratados somente terá validade no interior da lógica de custo e benefício do cumprimento deles. O cálculo é o determinante e a norma convencional é vazia, prevalecendo o jogo político. A racionalidade não é de fins, mas de meios. Tudo é permitido, inclusive a injustiça. Entretanto, o expansionismo não é uma força incontrolável; o cálculo lhe impõe limites. Mas é o próprio Estado quem oferece a contenção. Descontrolado, o expansionismo é um risco, pois um Estado considerado como ameaça criaria um clima adverso, teria que enfrentar a aliança dos demais. Neste sentido, o expansionismo torna-se um fator de contenção da ordem internacional. A ordem internacional nasce da generalização do cálculo. A balança de poder surge dos processos de interação entre Estados, com possibilidade de ações desiguais. Todos podem se manter assim,

5 Autor do livro Politics among nations, the Struggle of Power and Peace (1948), que consolidou esta visão entre acadêmicos e políticos nos Estados Unidos.

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independentes e autônomos. A ordem pressupõe o funcionamento da balança de poder; esta garante o funcionamento das instituições internacionais. A ordem identifica-se com a preservação dos Estados enquanto territoriedade e unidade política numa comunidade de Estados. Sob fluidez territorial, haveria um estado de desordem generalizada. Num âmbito assim, as alianças são, por definição - e não importando ideologias -, temporárias. A ordem do realismo pressupõe flexibilidade de alianças e aceitação das mesmas noções sobre o poder político, o cálculo como base da racionalidade. A ordem realista é uma seqüência de ordens provisórias que não excluem a

tensão ou o conflito. Dos Estados, exige-se a atenção permanente às variações de poder entre eles e o contínuo preparo militar. O direito é arbitrário, correspondendo a situações de poder, decidindo de acordo com o princípio de oportunidade e não sendo aperfeiçoável. Para os realistas, o Estado, ator privilegiado no âmbito das relações internacionais,

é dominante e a cooperação, problemática. Neste sentido, a ordem internacional é uma imposição hegemônica das grandes potências. É uma percepção hobbesiana da comunidade internacional, onde prevalece o irracional e o caótico. O que contém a tendência à expansão apresentada pelos Estados é apenas a ação dos Estados concorrentes. A busca pela ampliação dos recursos de poder é a chave mestra deste paradigma. Sua busca

é pela autonomia e ascensão na estratificação internacional. Seus objetivos, de acordo com

os recursos políticos-militares disponíveis, podem ser consolidar a hegemonia regional e, eventualmente, atingir a supremacia mundial. Portanto, a única forma de equilíbrio para o Realismo é a formação de balanças de poder, uma associação entre Estados, no sentido de

evitar a guerra total.

ator, ao procurar maximizar a sua influência sobre o universo de que participa, é levado a

criar obstáculos à expansão da influência dos demais. Num jogo de que fazem parte vários

contendores, há normalmente a possibilidade de alianças, o que reduz a probabilidade de aparecimento de um contendor hegemônico. Resultaria daí um certo impasse de forças que se não é conducente à paz - no seu sentido mais profundo - serve muitas vezes para evitar a eclosão de conflitos abertos e, sobretudo, para preservar a autonomia dos atores. Cria-se, assim, o que um autor chamou com propriedade de um ‘equilíbrio dos egoísmos’. Isso explicaria o grande apreço que muitos analistas interessados na preservação da ordem geral prevalecente demonstraram e continuam

a demonstrar por esse modelo, especialmente em sua forma clássica, da Europa do Século XIX.” 6

“ cada

Embora tenha se tornado alvo da crítica acadêmica, o paradigma demonstrou ter uma enorme capacidade de influência. Alguns de seus pressupostos estiveram presentes no interior de propostas alternativas de teorias das Relações Internacionais, inclusive determinando as opções que tentavam se apresentar como uma resposta do Terceiro Mundo. A centralidade do Estado, por exemplo, esteve presente no interior dos postulados dependeístas e neutralistas, assim como a necessidade de agregar recursos econômicos podia ser vista como acúmulo de poder. Para os limites deste trabalho, outro paradigma merece destaque. Considerados por muitos autores como uma correspondência do realismo liberal no Terceiro Mundo 7 , os diversos nacionalismos desenvolvimentistas representam outro modelo que igualmente imprimiu influência sobre o campo de debate em consideração. A Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), desde a década de 50, trabalhou um

6 AMORIM, Celso Luiz Nunes. Alguns Problemas de Metodologia no Estudo das Relações Internacionais. Editora da Universidade de Brasília, 1982, p. 8. 7 Em especial, os liberais norte-americanos.

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novo paradigma, centrada nas idéias de Raul Prebisch 8 . Foi o marco inicial de um pensamento latino-americano sobre o desenvolvimento. Em seu principal foco, dirigia-se à investigação das causas do atraso latino- americano. De acordo com a perspectiva cepalina, haveria entraves ao desenvolvimento, criados pelo regime de trocas desiguais entre o centro capitalista e as economias periféricas. A principal razão estaria no fato de as economias periféricas estarem baseadas na exportação de produtos primários, com pouco desenvolvimento das estruturas industriais e tecnológicas. O subdesenvolvimento depende da estrutura interna dos países periféricos (caraterizada pela produção agrícola primário-exportadora, com baixa integração entre os setores produtivos) e das relações comerciais com o centro, onde se verificaria uma decadência dos preços. A conseqüência do sistema era criar um fluxo de renda da periferia para o centro.

É o que está no âmago da definição de Theotônio dos Santos:

“Uma relação de interdependência (

capazes de se expandir através do auto-impulso, enquanto outros ( reflexo da expansão dos países dominantes.” 9

)

torna-se uma relação dependente quando alguns países são

)

podem expandir-se como

Largadas à própria sorte, ou mantidas sob a lógica do livre mercado, as economias periféricas estariam fadadas ao fracasso. O receituário da CEPAL recomendava a industrialização como meio de garantir o desenvolvimento interno, através do aumento da renda nacional e da produtividade, superando, assim, a deterioração do intercâmbio. A chave está na intervenção estatal na Economia. Como é difícil mobilizar os capitais privados para o incremento da economia, o Estado nacional deveria se pôr à frente do processo, construindo infra-estrutura e buscando financiamento. Este último deveria vir preferencialmente de capitais públicos, isto é, de empréstimos de governo a governo. O desenvolvimento toma um colorido nacionalista, na medida em que rejeita o controle imperialista das economias periféricas e propõe um modelo protecionista de substituição de exportações. O modelo realista e o desenvolvimentismo nacionalista serão permanentemente referidos nos debates sobre as relações Norte-Sul. Gelson Fonseca Jr. opõe o realismo ao racionalismo (ou utopismo) que busca os pontos de convergência entre os Estados, onde os comportamentos estáveis, instituições e regras, possam estar fundados. Os Estados teriam, em certas circunstâncias, interesse em cooperar e estabelecer regras limitadoras do seu comportamento, sem necessidade do Estado supra-nacional. A premissa expansionista, embora presente, será reconsiderada. O sistema internacional é passível de aperfeiçoamento, pois seus elementos são mutáveis: a natureza humana não se resume aos instintos de dominação, os regimes democráticos induzem a um comportamento pacífico entre os países e, quanto maior for a interação entre os Estados, a tendência à violência diminuirá. Os Estados não se ligam ao sistema internacional exclusivamente pelas preocupações com a segurança. Pelo contrário, os esquemas de cooperação, quando são irrestritos e amplos, permitem vantagens mútuas. A universalização garante a

8 Principalmente no livro Estudio Económico de America latina. New York, CEPAL, Nações Unidas, 1951. 9 SANTOS, Theotonio dos. “The structure of Dependence” Apud. Merquior, José Guilherme. “Dependência.” In: BOTTOMORE, T. Dicionário do Pensamento Social do Século XX. Rio de Janeiro, Editora Jorge Zahar, 1996, pp. 187-189.

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domesticação do Estado de natureza. O direito internacional, assim, pode ser justo e não arbitrário, quando se estabelece sobre a sociabilidade do homem, sentido oposto ao instinto de dominação do realismo. A conveniência que ensina os homens a trabalharem com regras

jurídicas é a primeira expressão do direito natural. A sociabilidade dá condições de estipular o que é legal e o que é ilegal, definindo os atos em relação à razão. É a construção de um critério aceitável e consensual. O preceito que estabelece o estado ideal entre as nações é o da vantagem para todos, com base numa noção de comércio eqüitativa. Embora possa parecer excesso de otimismo, Celso Fonseca Jr. não considera que o paradigma venha a se relacionar a postulados utópicos. Na busca pelo convencimento das nações, existem dois caminhos: o da sociabilidade e o dos instrumentos da ordem. A reflexão kantiana disposta nas obras “A paz Perpétua” e “A idéia de história universal de um ponto de vista cosmopolita” trabalha com os pressupostos da sociabilidade natural dos seres humanos. Parte-se de três teses: a capacidade de agregação e desagregação dos seres humanos retira-os da letargia e conduz ao progresso, ao aperfeiçoamento das regras e condutas; conforme as interações entre os Estados, expandem-se, em especial, as relações econômicas e a sociabilidade se reforça; e, por fim, na medida em que as decisões de Estado sofrem a interferência dos seus cidadãos,

a política deixa de ser arbitrária, dando espaço à paz. Portanto, a ordem internacional poderia resultar de esforços políticos que levassem à montagem de instituições de controle que permitiriam definir o certo e o errado no comportamento dos Estados. É um problema histórico, pois é uma ordem em progresso. Os conflitos internacionais, portanto, admitiriam uma solução racional: a construção de um ponto de equilíbrio entre vontades opostas com base no consenso. Os organismos multilaterais internacionais implicam a criação de formas de controle de conflitos, através de procedimentos institucionalizados de prevenção e ajuste de diferenças, movidos pela vontade deliberada dos Estados.

2. O pensamento sobre a Guerra Fria

Fica patente, portanto, que a compreensão da Guerra Fria não importou apenas ao meio acadêmico, mas pertence ao foro político das próprias nações. Uma noção de Guerra Fria deveria ser construída pelas chancelarias, na formulação de sua política externa. Esta obrigatoriedade foi mais do que uma mera aceitação de um estado de coisas, no ambiente internacional. A projeção diplomática é construída na consideração de motivações internas

e externas: estas dão forma à identidade internacional dos países. Por um lado, uma noção de Guerra Fria deveria ser moldada pelas próprias forças em conflito. De fato, a doutrina almejando a legitimidade, num ambiente com poucos elementos reguladores como o internacional, deve ser bem equacionada, embora obedecendo a padrões de forças. O discurso foi articulado de forma a justificar as opções e atitudes, mecanismos foram criados e articulados em nome do argumento, nada se fez sem explicitação de objetivos. Por outro lado, o conflito moldou o sistema internacional 10 e criou linhas mestras que canalizaram comportamentos. Uma a uma, as nações foram chamadas a tomar partido. Com o acúmulo de efeitos complicadores, a produção intelectual sobre a Guerra Fria, como veremos abaixo, foi grande, variada e problemática.

10 O sistema internacional constitui-se nas relações entre os Estados, sua estrutura de poder e cooperação.

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A intelectualidade aliada aos governos envolvidos encarregou-se de definir as

responsabilidades pela situação internacional, numa lógica sempre maniqueísta (tarefa para a qual o realismo prestou-se muito bem). Diversos institutos de pesquisa especializados na sociedade soviética, movidos pelos pressupostos realistas, foram, assim, fundados nos Estados Unidos, nas décadas que se seguiram ao pós-guerra. Da mesma forma, do lado soviético, falava-se na agressão do imperialismo capitalista. A propaganda, neste contexto, que visava principalmente atingir o público interno, não deve ser subestimada enquanto fator de criação de uma cultura da Guerra Fria. Textos de caráter jornalístico, escritos diante da ação imediata e sempre calcados sobre o discurso de participantes e autoridades, também foram abundantes. Ajudaram a criar mitos a respeito da Guerra Fria e influenciaram interpretações posteriores, apesar de sua superficialidade. Gerson Moura, em seu estudo sobre a historiografia das relações internacionais nos Estados Unidos 11 , nota quatro grandes formulações na explicação das relações internacionais sob efeito do conflito bipolar. No imediato pós-Segunda Guerra Mundial, quando a memória do conflito com o eixo e a colaboração com a União Soviética ainda é recente, temos dois modelos: o Consensualismo e o Realismo. Nestes, o fundamento teórico recairia sobre uma pressuposta essência agressiva e expansionista, inerente à própria sociedade russa, que estaria em ação desde os tempos do Tzarismo. Constituiria-se num desafio às democracias do mundo. A esses, dois outros modelos são somados. Como resultado dos movimentos sociais e seus questionamentos, e advindos da crítica marxista na década de sessenta, surgem apreensões críticas aos modelos anteriores: o Revisionismo e o Pós-Revisionismo. Nestes, a participação dos Estados Unidos no conflito é destacada e criticada. O primeiro modelo, o Consensualismo, aceitou as motivações e alegações do seu governo, centrando-se na necessidade da reconstrução diplomática do mundo. Na verdade, extremamente conservador, seu principal objeto seria o próprio caráter norte-americano, cujos elementos preponderantes teriam sido a continuidade e a permanência. Embora voltados para “valores internos”, estes eram usados na explicação da política externa, como manifestação de uma vontade americana. Neste quadro, a intervenção no palco europeu é legítima e desejável. Constituiu-se num corpo teórico pouco interessante e sem maiores desdobramentos. Neste paradigma, os autores que trataram principalmente do pós-guerra foram Robert Divine (“Roosevelt and World War II”) e Robert Dallek (“Franklin Roosevelt and American Foreign Policy”).

“A Primeira Guerra Mundial produziu as RIs como disciplina acadêmica e gerou um campo de trabalho teórico, o mal-afamado “utopismo” [um exemplo possível da atitude racionalista], que reinou nos anos entreguerras. A Segunda Guerra Mundial, e a Guerra Fria que a ela se seguiu, marcou o domínio do realismo, que se mantém ainda como paradigma dominante na área.” 12

A reflexão teórica dos realistas, já comentada em seus aspectos mais gerais, está

profundamente ligada à situação de bipolaridade da Guerra Fria. O conflito de sistemas

alimentou sua perspectiva de embate de forças descontroladas. Atentos à sua época, condicionaram-se a seus problemas.

11 MOURA, Gerson. “Historiografia e Relações Internacionais” In: Contexto Internacional, Rio de Janeiro, n°10, jul/dez 1989, pp. 7-42. 12 HALLIDAY, F. Op. Cit., p. 55.

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Críticos em relação aos consensualistas, estes autores culparam o idealismo das administrações de Roosevelt e Truman e sua excessiva condescendência para com os soviéticos. Dentro do pressuposto realista de que o interesse nacional deve prevalecer, os poderes econômico e militar tornaram-se instrumentos diplomáticos por excelência. A política externa norte-americana, portanto, deveria guiar-se pela construção de sua hegemonia e pelo bloqueio da ameaça soviética. Para tal propósito, toda prática é justa e legítima.

Muito embora Gerson Moura circunscreva o realismo ao período do imediato pós- guerra até os anos sessenta, este paradigma tem, na verdade, uma notável resistência. Desdobramentos de seus argumentos permanecem até hoje nas considerações sobre o ambiente internacional. Tanto é assim, que a crítica ao Realismo encontrou pouco eco até a década de sessenta, quando o início dos protestos contra a guerra do Vietnã fez ver que a construção da potência não era um valor em si. A contestação social da ordem de poderes entre os Estados foi a origem do paradigma Revisionista e de sua crítica ao modelo de Morgenthau. Tomando um ponto de partida no marxismo, os revisionistas vincularam-se ao trabalho de Willam A. Williams, cujo livro “The Tragedy of American Diplomacy” (1959) foi um marco inicial no movimento da crítica ao comportamento externo norte-americano, no período da Guerra Fria. A vinculação de responsabilidade dos Estados Unidos com o conflito bipolar repousou sobre diversos argumentos. Gar Alperovitz (“Atomic Diplomacy”) e David Horowitz (“The Free World Colossus”), que foram as maiores lideranças do grupo revisionista, colocaram ênfase na quebra de cooperação entre os aliados, localizando-a já no final da Guerra. Para Horowitz, o verdadeiro marco da descontinuidade na cooperação entre Estados Unidos e URSS teria sido o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima, mostrando projetos de concorrência no plano internacional. Em bases muito próximas, Alperovitz argumentou que os Estados Unidos teriam ignorado as necessidades de segurança da União Soviética na região do leste europeu, precipitando o conflito. No âmbito da ação política, a crítica dos grupos pacifistas teve poder de difusão suficiente para influir na opinião pública americana. A partir da década de setenta, a necessidade da política de contenção já não era tão clara. A consciência da possibilidade de destruição e morte, aberta pelos arsenais nucleares que se formaram na corrida armamentista com certeza auxiliou na perda de prestígio do Estado americano. Para Gabriel e Joyce Kolko, (“The Roots of American Foreign Policy”; “The Limits of Power”), foram determinantes os objetivos políticos e econômicos dos líderes norte-americanos e o modo pelo qual compreendiam as relações internacionais. Seu projeto não visava a uma formulação de segurança do ocidente, mas constituía-se na exportação das relações estruturais que assegurassem os ganhos da classe dominante americana. Para os autores revisionistas (Williams, Alperovitz, Horowitz e Kolko), a Guerra Fria seria o produto do expansionismo capitalista, mas a conjuntura não estaria determinada, apresentando ainda possibilidades e alternativas de ação. Gerson Moura chama a atenção para o fato de que o grupo revisionista cai numa visão autocentrada, que se constituía no principal erro dos analistas mais tradicionais do entreguerras 13 . Nesta perspectiva, sob uma ótica negativa, desta vez, a atuação norte-

13 Ver MOURA, Gerson. Op. Cit., pp. 67-68.

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americana é sobrevalorizada, negando-se à própria dinâmica do sistema internacional ou, ainda, à ação de outras potências. Por fim, John Gaddis (“The United States and the Origins of Cold War, 1941- 1947”; “Long Peace: Inquiries Into the History of the Cold War”; “Strategies of Containment : A Critical Appraisal of Postwar American National Security”; “We Now Know : Rethinking Cold War History”), George Herring (“Aid to Russia, 1941-1946; Strategy, Diplomacy, Origins of the Cold War”), Walter La Feber (“America, Russia and the Cold War”) e Thomas Paterson (“Soviet-American Confrontation”; “Postwar Reconstruction and the Origins of the Cold War”) constituíram-se no grupo que viria a ser chamado de pós-revisionistas. Eles insistiram numa responsabilidade compartilhada entre Estados Unidos e URSS, na evolução do conflito bipolar. Antes de considerar o comportamento dos dirigentes e das conformações macro-estruturais econômicas, esses analistas voltaram-se para formulações políticas e estratégicas concernentes a cada potência. Ora acentuando o comportamento de uma, ora de outra, na condução do processo. Fred Halliday 14 , atendo-se à própria questão da Guerra Fria, procurou classificar os estudos na matéria, dividindo-os em quatro grandes grupos, de acordo com a sua própria abordagem do fenômeno. Seriam estes: os estudos de cunho realista, que compreenderam as relações entre os Estados, como ditadas por questões estratégico-militar; os de cunho liberal, que pensaram o processo num quadro dicotômico entre democracia e totalitarismo; aqueles que tenderam a ver no conflito uma “homologia” de propósitos que atenderia a necessidades estritamente internas a cada potência; e, por último, os estudos, como o do próprio Halliday, que consideraram o conflito como intersistêmico, ou seja, aqueles que entenderam a Guerra Fria como expressão da rivalidade entre dois sistemas sociais, econômica e politicamente diferentes e dicotômicos. Edward Thompson 15 , que na visão de Halliday pertenceria à escola “homológica”, defendeu a idéia de que o conflito guarda uma relativa independência de seus suportes ideológicos, estruturando-se em ambas as sociedades conflitantes, com as mesmas formas e funções. Muito embora ele tenha considerado o papel da ideologia, ponderando:

É a ideologia, ainda mais que as pressões militares-industriais, a força motriz da Guerra Fria

como se

gerada e não estando mais sujeita a qualquer controle de auto-interesse racional.16

É

a ideologia se tivesse libertado da matriz sócio-econômica existencial na qual foi

A Guerra Fria teria sido um jogo de opostos na origem, que acabou por criar um

único sistema: uma dinâmica auto-reprodutora com regras próprias. A idéia de origem comum remete a uma reciprocidade de intenções em ambas as potências do conflito. Sua origem está em forças militares-sociais internas em ambos os blocos, que constroem o conflito como o seu próprio objeto. Esta é a garantia da estase da guerra, nunca levada a termo.

Esta interação recíproca das sociedades em consideração, através do conflito e de seus impulsos, as aproxima numa relação de reciprocidade, regrada por suas estratégias de construção de hegemonia, em suas respectivas áreas de influência.

14 HALLIDAY, Fred. Op. Cit.

15 THOMPSON, Edward. “Os fins da Guerra Fria: uma resposta”. In: BLACKBURN, Robin. (org.) Depois da Queda. Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1993, 2 ª edição, pp. 73-85.

16 HALLIDAY, Fred. The heavy dancers. Apud. THOMPSON, Edward. “Os fins da

” Op. Cit., p. 77.

Guerra Fria: Conceitos e Problemas

Fred Halliday 17 propõe, como princípio de análise, a consideração do conflito como intersistêmico.

“A teoria intersistêmica argumentava que a Guerra Fria, mesmo apostando nos elementos de conflito das grandes potências, era mais que isso e tinha a ver com bem mais que isso. Ela negava que o conflito fosse apenas o resultado de uma percepção errônea. Reconhecia a importância dos fatores endógenos, mas sugeria que cada lado estava lutando por alguma coisa, embora dentro de limites, e que a Guerra Fria só poderia terminar quando um dos lados prevalecesse. Foi exatamente o que aconteceu.” 18

De seu ponto de vista, Thompson (e no dos demais autores da suposta escola

“homológica”) subestima as rivalidades entre os sistemas. Na visão de Halliday, para esses

não se tratava de nenhuma disputa, mas de um mecanismo

de que dispunham os grupos dominantes em cada bloco para controlar as populações que lhe estavam sujeitas e seus clientes.” 19 Ele insiste na visão de que as duas sociedades são inconciliáveis, enquanto formas distintas de economia e política. Neste conflito, o comportamento militar-industrial teria um papel predominante, mas não essencial. Para Halliday, a prova cabal deste princípio é o fim das rivalidades, com o termo do Socialismo Real na Europa, em fins da década de oitenta e início da de noventa. O objetivo e o fim da Guerra Fria, que no caso se confundem, seriam o de acabar com a heterogeneidade, integrando ambas as sociedades sob um só sistema prevalecente. É o que explicaria o fato de as instituições de um lado se fortalecerem em detrimento das do outro. Não obstante, como considera Thompson, ambas as posições, separadas na classificação de Halliday, podem estar estreitamente relacionadas. Muito embora haja um conflito de sistemas, e este seja fundamental na definição da Guerra Fria, considerá-lo meramente como essência de todo o processo pode esgotar a análise. A Guerra Fria teria sido um jogo de opostos na origem, que acabou por criar um único sistema: uma dinâmica auto-reprodutora com regras próprias. A idéia de origem comum remete à reciprocidade de intenções, em ambas as potências no conflito. Que processos podem ser disparados durante o conflito, que o alimentem para além dos interesses estruturais? A resposta cultural é uma delas. Embora tenha origem neste mesmo princípio, torna-se independente dele, ao mesmo tempo que o alimenta. Quanto ao pretendido fechamento da Guerra Fria, Thompson responde: “Em uma lógica de interação recíproca, a retirada de um lado pode afetar profundamente o outro, assim como pode cair o lutador que repentinamente se vê sem seu antagonista.” 20 Se existe de fato uma interação recíproca entre as partes conflitantes, o aniquilamento de uma delas desorganiza seu oponente. Mais do que defender um ponto de vista diante de seu oposto, a insistência de Halliday em negar a reciprocidade do processo das nações em conflito revela, antes de tudo, uma classificação espúria da historiografia. O quadro das escolas de Halliday é simplesmente insuficiente. Pensar a Guerra Fria como conflito intersistêmico, sem

autores, a situação bipolar: “

17 HALLIDAY, Fred "Resposta a Edward Thompson" In: BLACKBURN, Robin. Depois da Queda. Op. Cit. p. 86.

18 HALLIDAY, Fred. “A Guerra Fria e seu Fim

19 Idem, p. 62. Neste artigo, em particular, a “escola” é chamada “internalista”, uma vez que as motivações do

conflito estariam no plano interno.

20 THOMPSON, Edward Op. Cit., p. 76.

” Op. Cit., p. 63.

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considerar o processo histórico da construção do conflito, constitui-se numa simplificação que obscurece a compreensão de aspectos envolvidos, que não estão ligados diretamente ao problema dos sistemas.

O debate entre Thompson e Halliday, portanto, abre perspectivas para a

importância dos fatores alheios ao conflito intersistêmico, no seu próprio desenvolvimento:

questões de cunho cultural e político, que concernem muito mais a aspectos internos aos Estados envolvidos e a seus coligados.

3. Os fatores internos e o anticomunismo

Para Eric Hobsbawm, a consideração destes fatores, na análise do período, parece ser mesmo uma necessidade. Em verdade, este conflito bilateral surge como um embate de forças ideológicas, mas acaba por gerar outras forças e regras próprias independentes daquelas. Sua abordagem à Guerra Fria, no livro “Era dos Extremos” 21 , procura considerar as suas origens tanto num quadro de situações políticas e culturais internas às nações envolvidas, quanto no exame de suas políticas externas.

De acordo com Hobsbawm, contrariando o que poderia ser esperado, o quadro

internacional tendia à estabilidade após o confronto da Segunda Guerra Mundial. As nações européias estavam esgotadas e as disputas que existiam entre elas foram abafadas. As novas potências emergentes no fim da Guerra respeitavam as áreas de influência de seus

respectivos oponentes, de acordo com os tratados de Yalta. Moscou não apresentava sinais de expansionismo 22 , mesmo porque tinha sua economia de tempos de paz em frangalhos e temia uma população pouco comprometida com o seu regime. Ainda que a situação fora da Europa fosse menos definida, onde as linhas de influência eram mais ambíguas e, conseqüentemente, abrissem espaço a uma maior concorrência entre as potências, estas respeitavam a divisão do mundo e tentavam resolver os conflitos sem maiores choques. A questão dos mísseis cubanos de 1962 foi resolvida com a preocupação, de ambos os lados, de que as ações tomadas não fossem interpretadas como atos de guerra. A URSS não chegou a intervir diretamente na Coréia ou no Vietnã, tanto que os 150 aviões MIG com pilotos russos que lutaram na Coréia foram mantidos em segredo, mesmo por Washington. Os Estados Unidos também, apesar do “histrionismo radiofônico”, mantiveram-se distantes da área de influência Soviética. Portanto, se o sistema internacional tenderia a ser estável, a questão, segundo Hobsbawm, seria: como explicar 40 anos de conflitos?

De fato, Moscou preocupava-se com a sua segurança e situação precária frente à

incontestável hegemonia internacional americana. Para sua defesa como potência, apenas restava não fazer qualquer concessão ou acordo diante de pressões externas. De outro lado, ainda que preponderante, o poderio americano evidentemente tinha limites, assim como o

21 HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos, o breve século XX: 1914-1991, São Paulo , Companhia das Letras,

1995.

22 Contra as advertências de intelectuais norte-americanos preocupados com o messianismo leninista: "nas áreas em que Moscou controlava seus regimes clientes e movimentos comunistas, estes se achavam especificadamente comprometidos a não erguer Estados segundo o modelo da URSS mas economias mistas

sob democracias parlamentares multipartidárias, distintas da 'ditadura do proletariado' e, 'mais ainda; de

(os únicos

partido único. Eram descritos em documentos partidários como 'nem úteis nem necessários [

regimes comunistas que se recusaram a seguir essa linha foram aqueles cujas revoluções, ativamente desencorajadas por Stalin, escaparam ao controle de Moscou - por exemplo a Iugoslávia)" Idem, p. 229.

]

Guerra Fria: Conceitos e Problemas

seu poder de comando mundial. Temia-se um possível futuro avanço da URSS. Como conseqüência, instalou-se uma política de intransigência mútua e rivalidades que transcendiam a relativa solidez das áreas de influência. Para além da política de potências, porém, a Guerra Fria baseava-se na crença infundada dos governos de que a situação internacional permaneceria tensa e competitiva, como nos moldes anteriores, e que os países estariam igualmente envolvidos em instabilidade econômica, como no entreguerras. Tendo restado duas grandes potências, e não havendo homogeneidade entre seus propósitos, o conflito seria inevitável. Existem alguns problemas básicos na análise de Hobsbawm. No esforço de consideração da causalidade interna (a necessidade de criação de um terror socialista externo), as relações de poder que são construídas no pós-guerra, em especial aquela que media o conflito Norte-Sul (potências industriais e nações subdesenvolvidas exportadoras de matérias-primas), são esquecidas. Para Hobsbawm, a Guerra Fria parece um conflito inócuo que surgiu como um espantalho, utilizado pelos políticos ocidentais para consumo de seus eleitores. A URSS, como regime forte, não teria tido necessidade deste recurso 23 . Sua visão do sistema internacional bipolar está comprometida com a percepção das potências. O conflito se remeteria mais às questões de segurança mundial, mesmo que, como no caso de Hobsbawm, fosse um falso problema. Não esteve em seu horizonte o sistema bipolar estruturando o sistema internacional, solidificando relações de poder. Mas, de fato, as preocupações das populações ocidentais sobre um possível perigo comunista não podem ser negligenciadas. O século XX pode ser considerado como moldado em suas grandes linhas pela Revolução Russa de 1917 e suas conseqüências. Nas nações ocidentais, os Estados e as classes dominantes jamais deixaram de temer e respeitar este permanente ponto de referência e alternativa política para suas populações. Como lembra Hobsbawm,

percepção ocidental de uma União Soviética prestes a invadir ou bombardear o ‘mundo

livre’ com armas nucleares de um momento a outro nunca teve base na realidade: apenas comprova o quão profundo era o medo do comunismo. Durante mais de setenta anos, a política internacional

foi empreendida [

esta “

]

como uma cruzada, uma guerra fria da religião

24

No período de entreguerras, a economia planificada soviética apresentava-se funcional e eficiente, num mundo entregue a contínuas crises econômicas. No roldão do desaquecimento econômico internacional, onde todas as economias nacionais preocupavam-se em se preservar das ameaças externas, a poupança interna se esvaía, o desemprego atingia escala sem precedentes e surgiam diversos regimes de caráter autoritário no mundo (o nazismo entre eles). De fato, ocorreu um efetivo recuo do liberalismo. O New Deal americano, em certa medida, inspirava-se nas economias planificadas, como forma de contornar os problemas do capitalismo e conter as massas famintas da década de trinta. Observadores ocidentais foram enviados à União Soviética e retornaram impressionados com os seus resultados. A planificação ganhava prestígio: a estratégia do New Deal era preservar estas populações frente às crises, com políticas de

23 Noam Chosmky concorda com Hobsbawm quanto à questão do consumo interno do conflito, mas acredita que haveria motivações soviéticas: a consolidação das elites burocráticas no poder. Cf. CHOSMKY, Noam. O que Tio Sam realmente quer. Brasília, Editora da UnB, 2 ª edição, 1999.

24 HOBSBAWM, E. "Adeus a tudo aquilo" In: BLACKBURN, Robin. (org.).Depois da Queda. op. cit., p. 93.

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pleno emprego e de previdência social. O Keynesianismo associou capital e trabalho, sob a assistência do Governo. Os movimentos trabalhistas organizados tornavam-se a alternativa democrática para assegurar a lealdade da classe operária. Estava inaugurada a fase do Estado de Bem Estar, que surgiu nesta conjuntura de medo ao socialismo e como tentativa de responder à crise internacional. Portanto, sem a crise do entreguerras, é provável que o socialismo não fosse encarado como um adversário sério no cenário internacional. Após a Segunda Guerra, muito embora existissem expectativas quanto às possibilidades e custos da recuperação da economia de tempo de paz, ocorreu um surto econômico ocidental. Estava eliminada a possibilidade da revolução social na Europa, graças especialmente à ajuda financeira de Washington. O “perigo comunista” transferiu-se para o terceiro mundo, onde os antigos impérios coloniais se desfaziam. A União Soviética deixou a Segunda Grande Guerra arrasada, tendo que passar por um período de crise e de recuperação da economia civil, logo apresentando sinais de vigor invejável aos ocidentais. Ainda não era evidente que o socialismo caminhasse para sérios problemas. Assim, sendo o conflito entre potências inevitável, a este veio somar-se a luta contra “a escalada do comunismo no mundo”, retórica “apocalíptica” que passou a ser assumida pelo Departamento de Estado Norte-Americano. Em princípio, este era muito mais um problema interno e nem tanto uma política de Estado: existia uma outra categoria de crença além daquela concernente à análise dos intelectuais do Governo americano. Afinal, o anticomunismo era popular nos Estados Unidos 25 . Embora estivesse presente em todos os Estados Ocidentais, nos EUA pertencia à pauta de discussão dos governos, e presidentes eram eleitos com o objetivo de combater o avanço comunista em suas plataformas. Na verdade, a democracia abriu espaço à penetração deste discurso no Estado Americano. É o que leva William E. Leuchtenburg a afirmar que:

“Os economistas falaram do ‘efeito soviético’, querendo com isso significar a forma como as compulsivas reações americanas às ações russas acabaram por justificar tudo, desde os crescentes gastos em pesquisa e programas de desenvolvimento até a construção do Canal do St. Lawrence e ao impulso dado à ajuda federal no campo da educação.” 26

Hobsbawm 27 também acredita que o medo do confronto entre as potências seja a força geradora da Guerra Fria, porém destaca o fato de que a inserção do conflito ideológico nas relações internacionais, que logo a seguir tomou o caráter de uma cruzada contra o comunismo, foi conduzida por Washington. Esta cruzada, na verdade, esteve na origem de um discurso “apocalíptico” dirigido muito mais ao consumo do público interno americano, e somente depois (como resposta às suas conseqüências), servindo de justificativa à sua política externa. O discurso pela luta contra o comunismo foi sustentado e propagado pelos Estados Unidos onde quer que fosse necessário defender seus interesses. Ainda que se considere que, desde a Revolução Russa, o anticomunismo tornou-se uma

25 É obrigatório lembrar que a perseguição política nos Estados Unidos durante o período do macarthismo não partiu do governo. Embora a presença de movimentos socialistas fosse insignificante, a denúncia e caça em massa de supostos adeptos serviam aos propósitos eleitoreiros de políticos oportunistas.

26 LEUCHTENBURG, William E. "Cultura de Consumo e Guerra Fria", In: LEUCHTENBURG, William E. (org.) O século inacabado: a América desde 1900. Rio de Janeiro, Ed Zahar, 1976, pp. 705-6.

27 HOBSBAWM, Eric. "A Guerra Fria" In: Era dos Extremos. o breve século XX, 1914-1991. São Paulo, Ed. Companhia das Letras, 1995, pp. 223 à 252.

Guerra Fria: Conceitos e Problemas

opção política alternativa no mundo - muito embora de caráter negativo -, é estranho pensar no movimento que foi capaz de gerar entre os americanos. Luciano Bonet 28 , ao analisar a história do anticomunismo, vê uma

complementaridade nas políticas internas e externas dos Estados. Portanto, tanto a “política de contenção” quanto a “coexistência pacifica” pertenceriam a este tipo específico de cultura política que, por fim, integra o sistema e a sociedade. No Ocidente, este tipo de conduta preveniu e isolou a ação dos grupos comunistas (ou referidos ao marxismo) nos Estados. Como política externa, foi o fator difusor da idéia da necessidade de contenção da expansão dos Estados Socialistas e do controle das políticas internas de cada país, no sentido de prevenir possíveis avanços daqueles. Na perspectiva de muitos historiadores da Guerra Fria, o anticomunismo norte- americano é apenas uma justificativa interna para a expansão da sua hegemonia no mundo. Mas, considerando que anticomunismo e política anti-soviética não significam a mesma coisa, observamos novamente uma situação mais complexa do que o conflito intersistemas.

A China Popular manteve durante muitos anos uma atitude anti-soviética e, de outro lado,

Estados árabes e africanos, apesar de sua cultura política difícil de se conciliar com o

comunismo, mantiveram relações estreitas com a URSS. Na verdade, a consideração da Guerra Fria, tanto como um conflito ideológico entre comunismo e anticomunismo quanto como um conflito entre superpotências, altera consideravelmente o quadro da análise. Portanto, uma explicação viável para a Guerra Fria é a de que ela parte de um complexo de razões, nas quais se inserem, principalmente, o conflito entre dois blocos

políticos e econômicos antagônicos, a luta pela manutenção de suas áreas de influência, a estruturação deste mesmo conflito dentro dos interesses internos das nações em consideração e, igualmente, a formação de uma cultura que lhe é própria. Portanto, o conflito bipolar criou um sistema articulado que engendra seus próprios eventos e formas

de conduta.

A contribuição dos aspectos culturais que ajudaram a alimentar e a dar forma ao conflito, porém, muito raramente é considerada no estudo do fenômeno. Sua compreensão, não obstante, é fundamental ao entendimento das tomadas de decisão, até mesmo no que tange à história recente. Eminentemente, sua forma foi a do anticomunismo. Os norte-americanos acreditavam-se, tal qual os soviéticos, detentores de uma utopia para o mundo. Suas crenças eram as de um mundo construído sobre uma extensa classe média de pequenos proprietários, capaz de manter os valores do individualismo competitivo. Para estes, o comunismo encarnado no Estado Soviético representava a negação de sua utopia, numa imagem da queda do mundo - no sentido em que as religiões emprestam à palavra. Em certo sentido, a história da inserção da URSS no quadro internacional, desde o seu início, deu-se num contexto de uma guerra religiosa. No plano imaginário do povo americano, era assim que surgia a luta contra o comunismo. Togliatti, na contingência de definir o anticomunista, afirmou que significava: “Dividir categorialmente a humanidade

como o campo daqueles que já não são

homens por haverem renegado e postergado os valores fundamentais da civilização

em dois campos e considerar

a dos comunistas

28 “Anticomunismo". In: BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco (orgs). Dicionário de Política. Brasília, UnB, 1986, pp. 34-35.

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humana.” 29 É o sinal de impureza que contamina o ser humano, retirando-lhe o que lhe é próprio.

Somente a total aniquilação do inimigo, afinal, poderia ser considerada. O motivo disto não é gerado pelo conflito intersistemas, mas, antes, pelo fato de que as forças inseridas no confronto permaneceriam ainda em atuação por inércia, como é próprio dos comportamentos culturais que persistem pretéritos, apesar das transformações sociais. Neste sentido, devemos entender as motivações internas do conflito.

4. A cultura da Guerra Fria

Os fatores internos teriam um peso mais acentuado no período da assim chamada Segunda Guerra Fria, que levou ao mundo o “Projeto Guerra nas Estrelas” e acirrou o conflito. Na década de oitenta, segundo Hobsbawm, os Estados Unidos buscaram afastar-se da humilhação advinda da derrota na política internacional e do recuo na economia, com base numa demonstração de força 30 . Desde o período da “Coexistência Pacífica”, a ordem político-econômica do pós- guerra e a primazia americana foram postas em xeque, num processo contínuo de distribuição de poder. Aumentou o poder de negação, isto é, o poder de países de se contraporem à conduta de outros, incompatível com seus interesses; e o poder positivo no sistema internacional, ou seja, a capacidade das grandes potências de imporem comportamentos e obterem determinados resultados de acordo com seus valores e interesses, tendeu a diminuir. O processo de descolonização na Ásia e na África inseriu um novo conjunto de nações que desequilibraram a ordem mundial, colocando um novo conjunto de questões na pauta dos organismos de cooperação internacional, que se democratizavam (embora com uma correlativa perda de poder de pressão efetivo). O desenvolvimento e os insumos de capital e tecnologia recolocaram a ênfase na diplomacia, diluindo os confrontos ideológicos da Guerra Fria. O conceito de segurança, por exemplo, deixou de ser qualificado em termos estritos de guerra e paz, para englobar outros valores, tais como bem-estar econômico social e autonomia política. Portanto, a cruzada contra o “Império do Mal”, mais que uma tentativa de se restabelecer o equilíbrio mundial, assumia a face de uma terapia para a perda de terreno na política exterior e para os problemas internos norte-americanos. Foi uma luta contra o Estado de Bem-Estar da era de Roosevelt e de seus custos sociais.

Não é de outra forma, portanto, que Hobsbawm poderia ver o fim da Guerra Fria:

“A verdadeira Guerra Fria, como podemos ver com facilidade em retrospecto, acabou na conferência de cúpula de Washington em 1987, mas não pode ser universalmente reconhecida

como encerrada até a URSS deixar visivelmente de ser uma superpotência, ou na verdade qualquer tipo de potência. Quarenta anos de medo e suspeita, de semear e colher obstáculos industrial

militares, não podiam ser tão facilmente revertidos. [

1989, a desintegração e dissolução da própria URSS em 1989-91 que tornaram impossível fingir, quanto mais acreditar, que nada tinha mudado.” 31

Foi o colapso do Império Soviético em

]

29 Citado em BONET, Luciano. Op. Cit., p. 34.

30 Diversos foram seus gestos militares, por exemplo: o ataque aéreo à Líbia, em 1986; as invasões de Granada e do Panamá, em 1989.

31 HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos, o breve século XX: 1914-1991, Op. cit., p. 248.

Guerra Fria: Conceitos e Problemas

Este período do fim da Guerra Fria não significou simplesmente a aniquilação de um adversário na disputa bipolar, deixando a um só império a herança da hegemonia do mundo (como pretendeu os EUA, em princípios de 1991, quando se desenhou a Estratégia da Lagosta 32 ). Quem acabou com a cruzada que unia nações em torno do conflito e, por isso mesmo, não foi possível justificar a hegemonia americana a partir de sua preponderância militar. Mesmo ao tentar substituir a luta contra o comunismo pela defesa da democracia em todos os espaços do globo, a ausência de um inimigo político direto, que confrontasse o Bloco Ocidental como um todo, tornou decrépita a legitimação da hegemonia americana com base em seu poder de fogo. A tendência à integração de mercados, que já se tornava flagrante, encontrou a possibilidade de globalizar a economia. Portanto, a Guerra Fria é um conflito envolvendo potências, mas é um conflito que gerou uma cultura política particular, cuja tendência é alimentar este próprio conflito. Entretanto, é interessante notar como as nações do mundo são chamadas a participar, lado a lado, do conflito. A inserção no conflito passa a fazer parte da definição da identidade internacional destas nações. O trajeto dessas nações não foi a mera repetição dos mandamentos externos. Se não conseguiram subverter sua lógica, as nações do Terceiro Mundo a interpretaram ao seu modo e, a partir daí, procuraram novas formas de agir.

5. Os limites impostos aos autores: a autonomia e o sistema internacional bipolar

O marco do sistema internacional no período considerado foi, portanto, a bipolaridade. Foi o determinante da estrutura, o que imprimiu os padrões básicos de relação entre os Estados. Considerar a viabilidade da autonomia neste contexto internacional como base analítica é considerar os limites que a polarização ofereceu 33 . A articulação entre os pólos de poder estabelece as possibilidades de autonomia regional e as situações de dependência 34 . A polarização impõe-se como a primeira categoria de reflexão sobre a política externa brasileira. Foi o que trouxe inteligibilidade ao comportamento norte-americano. Nos sistemas bipolares, a tendência é as nações agregarem-se em blocos rígidos. Os blocos de poder, embora não tenham estrutura formal, fundamentam-se numa ordem de fato. Sua estabilidade, componente essencial de poder para as superpotências, provém da rigidez nos papéis dos vários membros, criando um conjunto de expectativas que não são frustadas. Esta situação é sustentada sobre estruturas de relações hierárquicas: o conjunto dos Estados organiza-se como bloco por sua integração econômica, por posição militar, homogeneidade política, comunicação cultural, etc. A estratificação é fundamental na determinação das possibilidades de cada Estado, no marco de sua categoria e, ao mesmo tempo, na definição das condições gerais de funcionamento do sistema. Foi o que criou uma rede de integração entre diversos Estados. A dinâmica global de interação entre esses estratos definirá os limites da ordem e as condições gerais de

32 Tal como expressa no documento "Defence Planing Guidance", apresentado ao congresso Norte-americano para o ano fiscal de 1991. Cf. O mundo hoje/93. São Paulo, Ed. Ensaio, 2 ª ed.

33 Um estudo ainda inédito e muito interessante sobre este tema é “A percepção da política externa dos EUA e do Brasil por diplomatas brasileiros” do Prof. Dr. José Augusto Guilhon Albuquerque (em fase de elaboração).

34 FONSECA Jr., Gelson. “Anotações sobre as condições do sistema internacional no limiar do século XX: a distribuição dos pólos de poder e a inserção internacional do Brasil”. In: Política Externa, vol. 7 (4), março de 1999.

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abertura do sistema. Em ordem decrescente da capacidade de autodeterminação, temos:

supremacia geral (da qual somente as superpotências foram capazes), supremacia regional, autonomia (setorial e regional) e dependência. Fica claro que, uma vez que a flutuação nos territórios de influência simboliza a perda de poder estratégico e de prestígio, a lealdade tornou-se um componente essencial no jogo de articulações entre os Estados. No período da Guerra Fria, o comportamento dos diversos membros foi constantemente monitorado, sendo a estratégia do pólo hegemônico, a intimidação e a dissuasão. A prática da dissuasão dirige-se numa ameaça que visa à abstenção de comportamentos diferentes dos desejados. Assim, a vinculação ocidental, embora não subordine os objetivos da política

externa, estabelece os limites nos quais os objetivos podem variar em relação aos objetivos do bloco, especialmente em relação às percepções específicas da potência hegemônica. O alinhamento é um limite estreito, mas as variações conjunturais podem apresentar possibilidades de ganhos de poder por parte de seus membros. Além da dissuasão, a negociação esteve presente, em especial, nos momentos nos quais as unidades soberanas apresentaram variação de conduta nas zonas de disputa - abria-se campo para a troca e balanço de propósitos.

É o que explica a repercussão relativa da Política Externa Independente. No

contexto geográfico regional, a América Latina viveu, no início dos anos sessenta, um período de conjuntura fortuita. A Revolução Cubana acentuou as prioridades estratégicas locais e levou os Estados Unidos, durante a administração Kennedy, a olharem com mais

atenção os reclames de ajuda econômica por parte dos países latino-americanos.

Portanto, existem margens suficientemente largas para a manifestação de posições autônomas.

O movimento neutralista, ou mais especificadamente, o movimento não-alinhado,

tentou estabelecer uma política de eqüidistância em relação às superpotências. Caudatária

do movimento de descolonização, o neutralismo tomou forma e conteúdo com a “Conferência de Bandung” (Indonésia, 1955), que promoveu uma ampla articulação de nações da Ásia e da África em torno do anticolonialismo. Sua atitude em relação ao conflito bipolar foi de total descomprometimento. Os principias temas do neutralismo foram o anticolonialismo e o não-alinhamento. Este último evoluiu no sentido de construir uma “terceira posição” no sistema internacional.

O movimento (como formulado na Conferência de Belgrado) rejeitou o conceito

da inevitabilidade da Guerra Fria, afirmou o princípio da coexistência entre sistemas diferentes e da autodeterminação dos povos, de independência e de livre escolha. A proposta vai claramente contra os propósitos e justificativas da bipolaridade. Ela afirmava ainda que a única alternativa à destrutividade da Guerra Fria seria o alargamento do não- alinhamento, com a abolição de todas as formas de colonialismo e exploração.

"O primeiro critério para definir a política de Não-alinhamento é aquele através do qual podem ser considerados não comprometidos aqueles países que dentro de uma coerência perseguem uma política independente, inspirada nos princípios da coexistência ativa e pacífica e da colaboração com todos os países na base de igualdade, prescindindo das diferenças existentes nos respectivos ordenamentos sociais. O segundo critério é o de que cada país não alinhado deve, com coerência e constância, apoiar e contribuir ativamente para a luta pela independência nacional e pela completa libertação de todos os povos. Os outros três critérios dizem respeito à questão da não adesão a alianças militares multilaterais e a outros tratados que se apresentam como instrumentos do antago-

Guerra Fria: Conceitos e Problemas

nismos dos blocos, à questão das alianças defensivas regionais convenientes e à posição dos países que permitiram a instalação de bases em seu próprio território a potências estrangeiras." 35

Sua estratégia foi a de tentar desempenhar um papel de mediação no conflito entre as superpotências. O comportamento deste grupo de países parece ter exercido influência fundamental sobre os teóricos das Relações Internacionais (pelo menos sobre aqueles que se preocupavam com a questão dos países subdesenvolvidos). O neutralismo teve influência sobre os teóricos do ISEB. No entender de Hélio Jaguaribe 36 , duas condições ditam a possibilidade da autonomia (que ele define como os meios para impor penalidades materiais e morais a um possível agressor e como ampla margem de autodeterminação na condução dos negócios internos): em primeiro lugar, a viabilidade nacional (o mínimo de recursos humanos e naturais condicionado pelo nível tecnológico e pela integração sociocultural); e, em segundo lugar, o grau de abertura do sistema internacional. Para ele, a autonomia, no ambiente bipolar, manifesta-se pela capacidade de optar diante dos constrangimentos, evitando ambos os lados, tomando um caminho não-alinhado. As soluções diplomáticas para a opção universalizadora, tais como a ampliação das relações com os socialistas, a aliança com os subdesenvolvidos (projeção para a África e a Ásia), encontram limites, que surgem da combinação de bloqueios pelos interesses do ator hegemônico ou da falta de meios reais de projeção de poder. Foram condições necessárias, na sustentação conceitual da independência, a universalização de relações e a construção de uma doutrina de contraste, isto é, um conjunto de posições doutrinárias diferenciadoras da ideologia hegemônica. O alinhamento ficou permanentemente implícito no discurso, mesmo no discurso “independente”. Uma resposta não formal a um campo necessário de relacionamento. A afirmação de uma Política Externa Independente no Brasil reclamou necessariamente uma justificação perante a política de alinhamento. É interessante notar que, embora tenha recusado a participar do Movimento Não-Alinhado, suas posições foram muito semelhantes às dos países pertencentes àquele grupo. Não obstante, a polarização esteve sempre presente, predeterminando opções e imprimindo significados sobre outros campos. Ela cobriu as relações privilegiadas do sistema mundial. O próprio Movimento Não-Alinhado, que se constituía numa tentativa de resposta ao sistema, terminou por cingir-se em grupos, com propostas que se qualificavam em relação ao conflito bipolar: os “amigos da paz” (liderado pela Iugoslávia) e o “não- alinhamento antiimperialista” (comandado por Cuba). A busca por espaço de manobra é um fator fundamental na compreensão das atitudes neutralistas. Roberto Campos 37 divide tal atitude em dois tipos: o neutralismo ideológico e o neutralismo tático. O primeiro somente seria procedente, caso a nação não tivesse uma posição político-social clara, ou seja, seria próprio de nações que estivessem em “disponibilidade” institucional; já, no segundo caso, o neutralismo estaria a serviço de uma política de desenvolvimento. Não obstante o efeito harmonizador do envolvimento

35 Conferência do Cairo (junho de 1961), Apud. OSTELLINO, Piero. “Não-Alinhamento”. In: BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. (orgs). Op. Cit., pp. 812-814.

36 “Autonomia periférica e hegemonia cêntrica”. In: Novo cenário internacional. Rio de Janeiro, Editora Guanabara, 1986, pp. 33 a 82.

37 “Sobre o conceito de neutralismo” In: Revista Brasileira de Política Internacional. Vol. IV, n° 15, set.

1961.

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ideológico, existe um efetivo conflito entre as potências centrais e os interesses dos países produtores de matérias primas. Toda a questão reside em estabelecer reais condições de competitividade entres tais nações. A diversificação de mercados proporciona potencial de barganha frente aos países centrais (e, aqui, Campos lembra que a proposição brasileira de oposição ao colonialismo guarda sentido, neste respeito, aos efeitos da competitividade, à produção de gêneros primários, que sob aquelas condições teriam o barateamento como conseqüência). A primeira posição, no entender de Campos, jamais teria tido possibilidade de aplicação num país como o Brasil. A constituição vincula-se às tradições e valores ocidentais (democracia e livre empresa), não abrindo espaço para atitudes pendulares entre os dois pólos do sistema internacional (no caso da Índia e do Egito, estes não estariam compromissados com o capitalismo e nem convencidos da eficácia do socialismo). A segunda posição, entretanto, seria perfeitamente possível. Os países de “vanguarda” dariam ênfase aos problemas de segurança e acentuariam como prioridade as relações entre os países ricos do Norte. O neutralismo tático acentua a luta pelo desenvolvimento e se propõe a retirar ganhos práticos dos conflitos entre os blocos. A percepção de Campos põe em relevo a compreensão pragmática do neutralismo, não obstante as posições ideológicas de seus membros, e traz embutida a tentativa de obter espaço de manobra frente aos propósitos do alinhamento.