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Filosofia

Disciplina na modalidade a distância

Filosofia Disciplina na modalidade a distância
Filosofia Disciplina na modalidade a distância
Créditos Uniarp – Universidade Alto Vale do Rio do Peixe EaD Uniarp – Educação Superior

Créditos

Uniarp – Universidade Alto Vale do Rio do Peixe EaD Uniarp – Educação Superior a Distância

UNIARP Universidade Alto Vale do Rio do

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Coordenação EaD Rafael Francisco Thibes

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Tecnologia

Adriano Slongo Sonia Fátima Gonçalves

Mário Seibel

FILOSOFIA

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FILOSOFIA

Joel Haroldo Baade

Filosofia

Livro Didático

EaD

Caçador

UNIARP

2013

FILOSOFIA Joel Haroldo Baade Filosofia Livro Didático EaD Caçador UNIARP 2013 5

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Copyright © Uniarp 2013 Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer meio sem

Copyright © Uniarp 2013 Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer meio sem a prévia autorização desta instituição

Edição – Livro Didático

Professor Conteudista Joel Haroldo Baade

Design Instrucional Cinara Gambirage Inês Maria Gugel

Projeto Gráfico, Capa e Ilustração Marcelo Wollmann Figueiró

Diagramação André Leonardo Melo Marlon Pretenko de Lara Manoelle da Silva

Revisão Sandra Mara Bragagnolo

B111f

Baade, Joel Haroldo Filosofia: livro didático / Joel Haroldo Baade. Caçador (SC): UNIARP, 2013. 210 p.: il.; 28 cm

Inclui bibliografia

ISBN 978-85-98641-43-0

1. Filosofia. I. Título.

CDD: 100

Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Universitária da UNIARP

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FILOSOFIA

Sumário

Sumário O Autor 9 Apresentação 11 Capítulo 1 – Contexto Histórico do Surgimento da Filosofia Introdução

O Autor

9

Apresentação

11

Capítulo 1 – Contexto Histórico do Surgimento da Filosofia Introdução

15

1.1 Periodização da História e da Filosofia Grega

17

1.2 Fatores que Contribuíram para o Surgimento da Filosofia

18

1.3 Do Mito à Razão

26

Resumo

29

Atividade de Fixação

30

Leitura de Aprofundamento

31

Referências

32

Gabarito

33

Capítulo 2 – Filósofos Gregos Pré-Socráticos, Socráticos e Pós-Socráticos Introdução

37

2.1 O Período Pré-Socrático

39

2.2 O Período Socrático ou Clássico

41

2.3 O Período Pós-Socrático

51

Resumo

54

Atividade de Fixação

55

Leitura de Aprofundamento

57

Referências

58

Gabarito

59

Capítulo 3 – Filosofia na Idade Média Introdução

63

3.1 Filosofia na Alta Idade Média: Patrística

65

3.2 Filosofia na Baixa Idade Média: Escolástica

68

Resumo

74

Atividade de Fixação

75

Leitura de Aprofundamento

77

Referências

80

Gabarito

81

Capítulo 4 – Contexto Histórico do Século XVI e o seu Significado Para a Filosofia Introdução

85

4.1 Contexto

87

4.2 Revolução Científica

90

4.3 As Reformas Religiosas

92

4.4 A Mudança de Mentalidade

92

Resumo

94

Atividade de Fixação

95

Leitura de Aprofundamento

97

Referências

99

Gabarito

100

Capítulo 5 – Filósofos e Temas na Modernidade Introdução

103

5.1 O Pensamento Político de Nicolau Maquiavel

105

5.2 A Teoria do Conhecimento

109

5.3 Racionalismo e Empirismo: O Que é Mais Importante?

119

Resumo

120

Atividade de Fixação

121

Leitura de Aprofundamento

122

FILOSOFIA

7

Referências 123 Gabarito 124 Capítulo 6 – Iluminismo e Idealismo Introdução 127 6.1 Contexto

Referências

123

Gabarito

124

Capítulo 6 – Iluminismo e Idealismo Introdução

127

6.1 Contexto Histórico do Iluminismo

129

6.2 Características do Iluminismo e Idealismo

130

6.3 François Marie Arouet (Voltaire)

131

6.4 Jean-Jacques Rousseau e Charles-Louis De Secondat (Montesquieu)

132

6.5 Immanuel Kant

134

6.6 A Revolução Francesa

136

Resumo

140

Atividade de Fixação

141

Leitura de Aprofundamento

142

Referências

146

Gabarito

147

Capítulo 7 – Filosofia nos Séculos XIX e XX Introdução

151

7.1 A Filosofia no Século XIX

153

7.2 Filosofia no Século XX

161

Resumo

171

Atividade de Fixação

172

Leitura de Aprofundamento

173

Referências

175

Gabarito

176

Capítulo 8 – Temas da Filosofia na Atualidade Introdução

179

8.1 A Teoria da Ação Comunicativa de Jürgen Habermas

181

8.2 A Filosofia nas Diferentes Esferas da Vida

182

Resumo

196

Atividade de Fixação

198

Leitura de Aprofundamento

199

Referências

204

Gabarito

206

Considerações Finais

8

207

FILOSOFIA

O Autor

O Professor Joel Haroldo Baade possui graduação em Teologia pela Escola Superior de Teologia (Faculdades EST) de São Leopoldo (2005); Mestrado e Doutorado, com concentração na área de História e Teologia pela Faculdades EST (2011); Especialização em Administração Escolar, Supervisão e Orientação, pela Uniasselvi de Indaial (2012); graduação em andamento em Administração, pela Universidade do Contestado (UNC); formação em planejamento e condução de cursos online (2008). Tem experiência em educação, gestão e pesquisa no ensino superior.

Cumprimentos do Professor

Olá, Caro Estudante,

superior. Cumprimentos do Professor Olá, Caro Estudante, É uma grande alegria poder contribuir na sua formação
superior. Cumprimentos do Professor Olá, Caro Estudante, É uma grande alegria poder contribuir na sua formação

É uma grande alegria poder contribuir na sua formação acadêmica.

A formação de bons profissionais excede muito a mera capacitação técnica. Por isso, disciplinas como a Filosofia fazem parte do seu currículo. Mais do que conhecimentos específicos, a disciplina quer contribuir para a construção de um olhar mais abrangente sobre a vida. Faço votos de que você alcance este objetivo durante o estudo que segue.

Pronto para começar? Vamos ao que interessa!

FILOSOFIA

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Apresentação

Seja bem-vindo(a) à disciplina de Filosofia.

Apresentação Seja bem-vindo(a) à disciplina de Filosofia. A elaboração desse livro tem por objetivo a aprendizagem

A elaboração desse livro tem por objetivo a aprendizagem de forma diferenciada, fazendo com que você adquira conhecimento através do ensino a distância.

Vale lembrar que você fará uso do conhecimento de forma independente e, para que, ocorra facilidade nesse processo de ensino-aprendizagem, o material aqui destinado é constituído de uma linguagem simplificada, facilitando nos seus estudos.

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se precisar de auxílio, contamos com uma equipe de Tutoria

específica para o EaD UNIARP, constam no manual do aluno todas as formas de contato.

Estamos prontos a auxiliá-lo, caso seja necessário.

Lembre-se de que

Bom estudo e sucesso!

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Filosofia

Capítulo 1

Prof° Joel Haroldo Baade

CONTEXTO HISTÓRICO DO SURGIMENTO DA FILOSOFIA

Objetivos de Aprendizagem:

Compreender a periodização da filosofia grega;

Analisar os fatores que favoreceram o surgimento da filosofia;

Entender a relação entre mito e filosofia.

grega; Analisar os fatores que favoreceram o surgimento da filosofia; Entender a relação entre mito e
grega; Analisar os fatores que favoreceram o surgimento da filosofia; Entender a relação entre mito e

Introdução

Introdução “A filosofia é filha da cidade!” (VERNANT apud TRIGO, 2009, p. 15). Esta afirmação é

“A filosofia é filha da cidade!” (VERNANT apud TRIGO, 2009, p. 15). Esta afirmação é muito importante para compreendermos o porquê de a Grécia ser considerada o berço da filosofia e não outro lugar, como o Egito, Índia ou China. Trigo (2009, p. 15) descreve a relação do surgimento da filosofia com o advento das cidades com as seguintes palavras:

[ ]
[
]
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

Antes, porém, de nos ocuparmos com os diversos fatores que contribuíram para o advento da filosofia, é importante termos uma noção dos principais períodos da história grega para, em seguida, analisar em que momento surge a filosofia.

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 1: Contexto Histórico do surgimento da Filosofia

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1.1 Periodização da História e da Filosofia Grega A história grega é normalmente estruturada em

1.1 Periodização da História e da Filosofia Grega

A história grega é normalmente estruturada em cinco períodos, cada um com as

suas peculiaridades: civilização micênica, tempos homéricos, período arcaico, período clássico e período helenístico (ARANHA; MARTINS, 2003). É importante lembrar que não se trata de períodos da filosofia, sobre os quais falaremos em nosso segundo capítulo, mas sobre períodos da história. História da Grécia e Filosofia, portanto, são distintas. Aranha e Martins (2003) caracterizam da seguinte forma os períodos da história grega:

Período da civilização micênica

O período da civilização micênica se estende do séc. XX ao séc. XII a.C. O nome

do período se deve à importância da cidade de Micenas, de onde partiram Agamemnon,

Aquiles e Ulisses para conquistar a cidade de Troia, em torno de 1250 a.C.

Período homérico

O período homérico compreende os séculos XII a VII a.C., em que teria vivido o poeta Homero. A época se caracteriza pela transição de uma sociedade primordialmente rural e pelo surgimento das primeiras cidades. A sociedade é comandada por uma elite aristocrática, que detém a posse das terras. O sistema favorece uma intensificação do sistema escravista.

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 1: Contexto Histórico do surgimento da Filosofia

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Período arcaico Este período é marcado pelo advento das cidades-estado gregas (pólis) e por transformações

Período arcaico

Este período é marcado pelo advento das cidades-estado gregas (pólis) e por transformações em todas as esferas da sociedade. Entre as mudanças mais significativas está a expansão do comércio e o aprofundamento da colonização grega. O período se estende do séc. VIII ao séc. VI a.C.

Período clássico

O período clássico é o auge da civilização grega. Ele compreende os séculos V e IV

a.C. Na esfera política, a democracia ateniense vive o seu apogeu; também ocorre grande desenvolvimento na filosofia, literatura e artes. É neste período que vivem os filósofos Sócrates, Platão, Aristóteles e os sofistas. Falaremos sobre todos eles no segundo capítulo da nossa disciplina.

Período helenístico

No período helenístico ocorre a decadência da política e a conquista da Grécia pelo Império Romano. Do ponto de vista da cultura, acontece uma significativa influência das civilizações orientais. O período vai do séc. III ao séc. II a.C.

Agora, vejamos os fatores que contribuíram para o surgimento da filosofia.

1.2 Fatores que contribuíram para o surgimento da Filosofia

O surgimento das primeiras cidades na Grécia Antiga levará ao surgimento de

uma série de demandas que precisarão ser atendidas para que a vida de tantas pessoas num mesmo lugar seja possível. A busca da satisfação dessas necessidades foi fundamental para o surgimento da filosofia. Por outro lado, a cidade também acaba se tornando fruto da reflexão empreendida pelos filósofos. Dessa forma, filosofia e cidade andam de mãos dadas. Não é também semelhante a relação entre cidade e conhecimento nos dias de hoje? As grandes faculdades e centros de pesquisa não estão justamente nas maiores cidades? Mas este é um assunto para discutir em outro momento, vamos ver primeiro uma breve descrição dos fatores relacionados com o desenvolvimento das cidades na Grécia Antiga e de que forma eles contribuíram para o surgimento da filosofia. Alguns dos fatores abordados abaixo foram analisados também por Marilena Chaui (2008) em seu livro Convite à Filosofia.

O desenvolvimento das navegações

Conforme as sociedades humanas vão se desenvolvendo, passando a conviver cada vez mais em aglomerados que darão origem às cidades, surge, por exemplo, a necessidade de se proteger das invasões e ataques empreendidos por povos vizinhos. Surgem formas

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de organização social, governo, leis, agricultura para produzir mais alimento para todos, e assim por

de organização social, governo, leis, agricultura para produzir mais alimento para todos, e assim por diante. Enfim, o desenvolvimento da cidade leva à expansão da sociedade. Como o número de pessoas é muito grande, e aumenta a cada ano que passa, foi preciso ir cada vez mais longe para buscar alimento. Para ir mais longe, surge a necessidade de desenvolvimento dos meios de transporte, que na Grécia Antiga era basicamente a navegação.

Veja o mapa e reflita: por que a navegação foi o principal meio de transporte

Veja o mapa e reflita: por que a navegação foi o principal meio de transporte na Grécia Antiga?

foi o principal meio de transporte na Grécia Antiga? Fonte: Google Maps. Disponível em:

Fonte: Google Maps. Disponível em: <http://goo.gl/maps/PFxMB>. Acesso em 29 ago 2012.

E então, você já descobriu por que a navegação foi tão importante na Grécia Antiga? Se você respondeu que a navegação foi importante porque a Grécia é rodeada por água, você acertou. A região é totalmente envolvida pelo Mar Mediterrâneo e ainda possui diversas ilhas. Nessas condições, a pesca também é uma importante fonte de alimento para a população. Por isso, ter bons barcos e de maior capacidade se tornou cada vez mais importante. Para realizar boas pescarias foi preciso ir cada vez mais longe. O comércio também era em boa medida realizado via oceano.

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FILOSOFIA - Capítulo 1: Contexto Histórico do surgimento da Filosofia

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Mas o que isso representou para o advento da filosofia? Bom, vejamos. Na mentalidade da

Mas o que isso representou para o advento da filosofia? Bom, vejamos. Na

mentalidade da antiguidade, a terra não era redonda, de modo que, se você andasse na mesma direção, voltaria exatamente ao lugar de onde partiu. Para as sociedades antigas,

a terra era plana, com uma massa de terra no centro, rodeada de água. Em algum lugar do

horizonte, a terra simplesmente acabava; havia um grande abismo. Chamamos a visão de mundo de uma determinada sociedade de mentalidade, cosmologia ou ainda imaginário. Os navegantes tinham medo de avançar muito no oceano com os seus barcos, pois poderiam cair no grande abismo.

Quando os barcos se tornaram maiores e melhores, eles também transmitiam mais segurança aos seus ocupantes, que puderam ir cada vez mais longe. Eles caíram no abismo? Não! Mas descobriram que depois do horizonte também havia porções de terra habitadas por pessoas iguais ou muito parecidas com elas mesmas. Não havia seres sobrenaturais, monstros marinhos, ciclopes e outras criaturas que povoavam as narrativas míticas. Mais abaixo, no ponto 1.3 deste capítulo, vamos falar mais sobre os mitos.

Dessa forma, o desenvolvimento da navegação contribuiu para uma mudança de mentalidade e no imaginário das pessoas. Se antes elas pensavam que o mundo era de um jeito, com as descobertas possibilitadas pela navegação, a sua visão de mundo mudou. O

mundo passa a ser visto cada vez menos como um lugar habitado por seres sobrenaturais. O mundo vai sendo descoberto e a única coisa que se encontra nesses novos lugares são outras pessoas. A mentalidade das pessoas assim é deslocada para o cotidiano, para o dia a dia. Descobre-se que o mundo é diferente da forma como é retratado nos mitos. A filosofia

é o pensamento sobre este cotidiano; sobre o mundo a nossa volta. Marilena Chaui (2008, p. 37) diz o seguinte sobre as viagens marítimas:

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

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Vejamos, no ponto seguinte, como também a agricultura contribuiu para essa mudança. A agricultura e

Vejamos, no ponto seguinte, como também a agricultura contribuiu para essa mudança.

A agricultura e o surgimento do calendário

O aumento da população também gerou a necessidade de aumento da produção de alimentos. Como o número de pessoas crescia significativamente a cada ano e estas pessoas viviam cada vez mais concentradas em determinadas regiões, a obtenção do alimento de modo extrativista não satisfazia mais a demanda. A população consumia muito mais do que o ambiente poderia produzir naturalmente.

Dessa demanda surge a agricultura e a ela associada vem a necessidade de se saber o tempo certo para o plantio, de modo que se obtivesse a maior produção possível. Decorre desse desenvolvimento a criação do calendário, como forma de:

calcular o tempo segundo as estações do ano, as horas do dia, os fatos importantes que se repetem, revelando, com isso, uma capacidade de abstração nova ou uma percepção do tempo como algo natural e não como uma força divina incompreensível. (CHAUI, 2008, p. 37).

Dessa forma, também o desenvolvimento da agricultura contribuiu para uma mudança de mentalidade na sociedade grega, contribuindo significativamente para o surgimento da filosofia.

As preocupações das pessoas foram gradativamente deslocadas da esfera sobrenatural para o mundo do cotidiano, do momento, do aqui e do agora. É importante salientar que essa mudança não ocorre da noite para o dia, mas é resultado de um longo processo histórico. As mudanças de mentalidade em uma sociedade sempre são muito lentas.

Também na nossa sociedade, apesar de os avanços tecnológicos sofrerem modificações constantes e muito rápidas, os nossos comportamentos e, principalmente, os nossos modos de pensar se modificam de forma muito mais lenta. Contudo, antes de prosseguirmos com esta reflexão, vamos ver outros fatores que contribuíram para o surgimento da filosofia, tais como o comércio e o surgimento da moeda.

O comércio e o surgimento da moeda

Antes do surgimento das cidades e de haver um número maior de pessoas vivendo reunidas num mesmo lugar, quando as pessoas viviam espalhadas e afastadas umas das outras, era comum cada grupo familiar ou clã produzir o necessário para a sua sobrevivência. Quando a população cresceu, não havia mais terras suficientes para que cada um pudesse produzir o suficiente para a manutenção da vida. As pessoas começaram então a trocar os

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FILOSOFIA - Capítulo 1: Contexto Histórico do surgimento da Filosofia

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produtos entre si, ocasionando o surgimento do comércio. Esta dinâmica é viável quando a população

produtos entre si, ocasionando o surgimento do comércio. Esta dinâmica é viável quando

a população não é excessivamente numerosa. Quem produzia trigo, mas precisava de algodão, procurava alguém que tinha interesse de trocar algodão por trigo.

Com a expansão social e a existência de uma variedade muito maior de pessoas

e produtos por elas produzidos, a troca destes produtos por outros produtos ficou mais

difícil. Numa sociedade maior, já era mais complicado encontrar alguém que estivesse disposto a trocar o trigo por algodão; a busca poderia se tornar bem difícil em alguns casos, dependendo do que se tinha para oferecer e do que se procurava.

Diante dessa necessidade, surgiu a moeda que, segundo Marilena Chaui (2008, p.

37),

permitiu uma forma de troca que não se realiza como escambo ou em espécie (isto é, coisas trocadas por outras coisas) e sim uma troca abstrata, uma troca feita pelo cálculo do valor semelhante das coisas diferentes, revelando, portanto, uma nova capacidade de abstração e de generalização.

Com a moeda, quem possuía trigo de sobra e precisasse de algodão não precisava mais sair à procura de alguém disposto a trocar trigo por algodão. Bastava encontrar alguém com necessidade de trigo, entregando-lhe a mercadoria em troca de algumas unidades monetárias. Depois, bastava procurar alguém que estivesse vendendo algodão

e adquirir o produto em troca de dinheiro recebido de outras transações financeiras.

Dessa prática desenvolveu-se um comércio mais elaborado, que exigia maior emprego da capacidade racional nas transações efetuadas. Exigiu-se, de um número maior de pessoas,

maior capacidade de raciocínio abstrato, ou seja, que fossem capazes de entender que um determinado volume de mercadoria poderia de alguma forma equivaler a um punhado de moedas.

Também este desenvolvimento foi fundamental para o surgimento da filosofia,

pois ajudou a predispor os indivíduos a usarem cada vez mais suas capacidades racionais.

À medida em que as transações comerciais se tornavam mais intensas, era preciso controle

sobre elas; a mentalidade das pessoas, assim como ocorre através dos outros fatores, é gradualmente deslocada para a esfera do cotidiano.

As construções

A arquitetura grega se desenvolveu no segundo e no primeiro milênio a.C., mas as suas principais realizações estão entre os séculos VII e IV a.C. Um símbolo das construções gregas é o Partenon, que era um templo dedicado à deusa Atena.

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Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró É característico da arquitetura grega o emprego de colunas e
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

É característico da arquitetura grega o emprego de colunas e a simetria das

edificações, revelando grande capacidade e preocupação com a racionalidade. Nesse sentido, as construções contribuíram também para o desenvolvimento da filosofia, pois levaram ao surgimento de novos desafios nas áreas de física e matemática. Assim como os outros fatores que estamos estudando, também a arquitetura teve o seu papel para a mudança de mentalidade que seria fundamental para o advento da filosofia na Grécia Antiga.

O desenvolvimento da escrita

O surgimento da escrita em si não foi o fator decisivo para o desenvolvimento

filosófico, pois formas de simbolização foram encontradas em muitas sociedades humanas muito antes do advento da filosofia. As formas mais primitivas de escrita sempre estiveram muito associadas à religião, tanto que a palavra hieróglifo, que era a forma de escrita egípcia, significa literalmente “sinais divinos” (ARANHA; MARTINS, 2003, p. 81).

Por essa razão também, a escrita permaneceu por muito tempo limitada à classes privilegiadas da sociedade. Entre os gregos, antes de a escrita se desvincular da esfera do sagrado, ela era ferramenta restrita aos escribas, “que exerciam funções administrativas de interesse da aristocracia palaciana” (ARANHA; MARTINS, 2003, p. 81). Quando a Grécia sofreu violentas invasões, no séc. XII a.C., esta forma de emprego da escrita desapareceu juntamente com a civilização micênica (veja mais acima a periodização da história grega).

A escrita reaparece na Grécia entre os séculos IX e VIII a.C., por influência dos

fenícios, mas assume uma função diferente. Ela não está mais tão vinculada à religião, a preocupações esotéricas e tampouco limitada a uma classe em particular da sociedade. A escrita nesse novo momento histórico deixa de ser algo limitado àquelas pessoas que detém o poder e passa a ser uma ferramenta para a divulgação das ideias dos cidadãos da cidade na praça pública. Diferente da escrita empregada no âmbito religioso, agora ela é passível de ser criticada e reformulada.

Evidentemente que uma grande maioria da população continuou analfabeta,

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FILOSOFIA - Capítulo 1: Contexto Histórico do surgimento da Filosofia

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mas o que fica evidente é que a escrita sofreu um processo de dessacralização, ou

mas o que fica evidente é que a escrita sofreu um processo de dessacralização, ou seja, um desligamento do sagrado. Segundo Aranha e Martins (2003), a escrita gerou uma nova idade mental na sociedade grega, pois passou a exigir de quem escreve uma postura diferente daquele que apenas fala.

Caro estudante, antes de prosseguir com a leitura, reflita sobre as diferenças da linguagem falada

Caro estudante, antes de prosseguir com a leitura, reflita sobre as diferenças da linguagem falada e da linguagem escrita. Que diferença há entre fazer uma fala, por exemplo, em sala de aula, e elaborar um texto para ser entregue ao professor? Quais as diferenças no preparo de cada uma dessas atividades?

Escreva abaixo as principais características de cada tipo de linguagem.

Linguagem falada :

Linguagem escrita:

Além disso, Marilena Chaui (2003) chama a atenção para as diferenças da escrita que se desenvolveu na Grécia Antiga em relação à escrita de outras sociedades da época. Na escrita de outras sociedades, como a egípcia (hieróglifos) e a chinesa (ideogramas), os signos representam as coisas assinaladas e é comum a atribuição de um caráter mágico a estes sinais. Já na sociedade grega, emprega-se a escrita alfabética, na qual a palavra designa uma coisa e exprime uma ideia. Essa forma de escrita necessita de um número muito menor de signos, que podem ser combinados de múltiplas formas para expressar novas ideias. A linguagem alfabética simplificou o aprendizado da escrita e passou a exigir maior capacidade criativa e racional do indivíduo que a emprega.

A vida nas cidades e a lei

O florescimento da vida na cidade fez surgir uma nova classe de pessoas interessadas

em defender os seus interesses e influenciar o restante da sociedade em seu favor, a classe de comerciantes ricos. A antiga aristocracia baseava o seu prestígio na posse de terras e na linhagem de sangue. Os mitos foram criados por essa elite e para que ela se mantivesse no poder. Assim, a nova classe rica precisava basear o seu prestígio em outros elementos, destacando-se as artes, as técnicas e o conhecimento, “favorecendo um ambiente onde a Filosofia poderia surgir.” (CHAUI, 2008, p. 37).

A vida na cidade, que reúne um número maior de pessoas num ambiente reduzido,

também torna a vida mais complexa. Muitas pessoas vivendo num espaço geográfico

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limitado exige um esforço para que a vida seja viável. Ocorre uma mútua invasão de

limitado exige um esforço para que a vida seja viável. Ocorre uma mútua invasão de espaços individuais, resultando daí a necessidade de regular essa vida, de criar leis que a organizem. Dessa necessidade surge a lei da pólis. As pólis são as cidades-Estado gregas. Da vida nas pólis, surgiu a política, como forma de as pessoas residentes na cidade organizarem a sua vida ao lado de muitas outras pessoas. Segundo Chaui (2008, p. 37-38),

A Invenção da Política

] [

introduz três aspectos novos e decisivos para o nascimento da filosofia:

1. A ideia da lei como expressão da vontade de uma coletividade humana

que decide por si mesma o que é melhor para si e como ela definirá suas relações internas. O aspecto legislado e regulado da cidade – da pólis – servirá de modelo para a Filosofia propor o aspecto legislado, regulado e ordenado do mundo como um mundo racional.

2. O surgimento de um espaço público, que faz aparecer um novo tipo de

palavra ou de discurso, diferente daquele que era proferido pelo mito. Neste, um

poeta-vidente, que recebia das deusas ligadas à memória (a deusa Mnemosyne, mãe das Musas, que guiava o poeta), uma iluminação misteriosa ou uma revelação sobrenatural, dizia aos homens quais eram as decisões dos deuses a que eles deveriam obedecer.

Agora, com a pólis, isto é, a cidade política, surge a palavra como direito de cada cidadão de emitir em público sua opinião, discuti-la com os outros, persuadi- los a tomar uma decisão proposta por ele, de tal modo que surge o discurso político como palavra humana compartilhada, como diálogo, discussão e deliberação humana, isto é, como decisão racional e exposição dos motivos ou das razões para fazer ou não fazer alguma coisa.

A política, ao valorizar o humano, o pensamento, a discussão, a persuasão e a decisão racional, valorizou o pensamento racional e criou condições para que surgisse o discurso ou a palavra filosófica.

3. A política estimula um pensamento e um discurso que não procuram

ser formulados por seitas secretas dos iniciados em mistérios sagrados, mas que

procuram, ao contrário, ser públicos, ensinados, transmitidos, comunicados e discutidos. A ideia de um pensamento que todos podem compreender e discutir, que todos podem comunicar e transmitir, é fundamental para a Filosofia. [sic] [grifado no original]

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FILOSOFIA - Capítulo 1: Contexto Histórico do surgimento da Filosofia

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Conforme Aranha e Martins (2003), essa mudança na organização da cidade também provocou uma alteração

Conforme Aranha e Martins (2003), essa mudança na organização da cidade também provocou uma alteração na forma de relação entre os indivíduos, que é definida pelo conceito de isonomia. Isonomia é a ideia de uma “igual participação de todos os cidadãos no exercício do poder” (ARANHA; MARTINS, 2003, p. 82). A participação dos cidadãos nas decisões referentes à vida na cidade ocorria através do debate na ágora, a praça pública. Surge com isso um novo ideal de justiça, que não diz respeito somente ao indivíduo, mas está vinculada à atuação dele na comunidade. Com isso são assentadas as bases do que viria ser a democracia.

Uma observação importante: na Grécia Antiga somente os homens brancos de posses eram considerados cidadãs. Hoje, todas as pessoas são consideradas cidadãs e, idealmente, participam das decisões da vida em sociedade.

Na Grécia Antiga a participação dos cidadãos ocorria através do debate na praça pública, onde

Na Grécia Antiga a participação dos cidadãos ocorria através do debate na praça pública, onde cada um manifestava as suas opiniões e colaborava para que fossem tomadas as melhores decisões para a vida da sociedade. E hoje, na nossa sociedade, de que forma e em que lugares ocorre a participação dos cidadãos nas discussões sobre a vida em sociedade?

Portanto, caro estudante, podemos concluir que o surgimento das cidades na Grécia Antiga foi absolutamente fundamental para o surgimento da filosofia e da mentalidade segundo a qual organizamos o nosso mundo hoje. Pelo fato de a cidade e as condições nela reunidas serem tão importantes, é que iniciamos este capítulo com a afirmação de Vernant (apud TRIGO, 2009), segundo a qual a filosofia é filha da cidade.

Esta mudança de pensamento que caracteriza o surgimento da filosofia também pode ser descrita como uma passagem da mentalidade mítica para uma mentalidade fundada na razão.

1.3 Do Mito à Razão

Antes do surgimento da filosofia e da escrita, os conhecimentos da sociedade eram transmitidos oralmente através dos mitos, diálogos, canções e ditados. Eles eram recitados em praça pública por poetas e cantores, mas não havia uma preocupação com a sua autoria. Depois da invenção da escrita, essas histórias eram repassadas pelas poesias, relatos, contos e provérbios (TRIGO, 2009). A criação e transmissão dos mitos, portanto, é fruto em boa

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FILOSOFIA

medida de uma atividade coletiva e anônima (ARANHA; MARTINS, 2003). Duas personalidades conhecidas na produção

medida de uma atividade coletiva e anônima (ARANHA; MARTINS, 2003).

Duas personalidades conhecidas na produção mitológica grega são Homero e Hesíodo. A Homero são atribuídos dois poemas épicos, as epopeias Ilíada e Odisseia. A Ilíada conta a história da guerra de Troia e a Odisseia narra a volta de Ulisses a Ítaca. Outro poeta grego conhecido é Hesíodo, que teria vivido no final do séc. VIII a.C. Na sua obra Teogonia, retrata a origem dos deuses. Embora o poema ainda reflita o interesse pela mentalidade mítica, já aparecem alguns interesses novos, como a valorização do trabalho e da justiça. Essa alteração é indício do período arcaico e de que a sociedade já apresenta os sinais de mudança que serão fundamentais para o surgimento da filosofia.

Qual a importância do mito para a sociedade onde ele surge e o que o

Qual a importância do mito para a sociedade onde ele surge e o que o mito representa para a nossa sociedade que se considera civilizada?

O mito é fundamental para a sociedade que o cria, pois ele ajuda a explicar a realidade, dando-lhe uma forma coerente. Ele auxilia a apaziguar a inquietação humana diante do desconhecido e do caos que o mundo pode representar. Diante do temor da morte, por exemplo, ele oferece uma perspectiva que permite o cultivo da esperança. Da mesma forma, o mito oferece explicações para práticas do cotidiano e, desse modo, ajuda a fixar tais práticas, seja na forma de ritos religiosos ou, então, ensinando modos considerados ideais para, por exemplo, cultivar a terra.

Por essa razão, o mito não é sinônimo de mentira, mas evidencia apenas que há formas diferentes de explicar o mundo em que vivemos e todas elas são igualmente importantes. Quando um casal apaixonado começa a conversar e um dos dois pergunta ao outro: por que você me ama? Você já se perguntou, caro estudante, qual é a resposta para esta questão? Do ponto de vista racional, seria preciso explicar sob o aspecto biológico quais são os processos químicos que ocorrem dentro de um indivíduo quando se encontra na situação de apaixonado. Mas certamente não é esta a resposta esperada pela pessoa amada. Ela não quer saber o que ocorre dentro de nossos organismos quando estamos apaixonados. Portanto, nessa situação, uma resposta racional não satisfaz as reais necessidades de quem fez a pergunta. Por outro lado, a formulação de uma resposta objetiva também não é viável, porque, possivelmente, ela não pode ser elaborada. Por que amamos alguém, falando objetivamente?

Não temos uma resposta para a pergunta feita no final do parágrafo anterior. Por essa razão, somente uma resposta com características de mito pode satisfazer as necessidades do momento. Podemos dizer que: “Eu te amo porque, cada vez que estou ao seu lado, sinto-me como se houvesse borboletas voando em meu estômago”. Pode haver borboletas voando dentro de nós? Não, é claro que não. Mas, através dessa expressão, conseguimos transmitir à outra pessoa o que se passa em nossos corações, o que sentimos naquele momento. Assim, o mito continua presente em nosso meio, ajudando a responder a situações das quais outras formas de pensar não podem responder.

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FILOSOFIA - Capítulo 1: Contexto Histórico do surgimento da Filosofia

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Outrossim, devido às mudanças na sociedade grega, surgiram novas necessidades, que exigiram novos tipos de

Outrossim, devido às mudanças na sociedade grega, surgiram novas necessidades, que exigiram novos tipos de resposta. Dessa forma, o pensamento filosófico surge como uma nova forma de pensar e como um novo modo de organizar o mundo. A partir disso, segundo Aranha e Martins (2003, p. 80):

A racionalidade crítica resultou de processo muito lento, preparado pelo passado mítico, cujas características não desapareceram “como por encanto” na nova

a filosofia na Grécia não é fruto de um salto,

do “milagre” realizado por um povo privilegiado, mas é a culminação do processo gestado através dos tempos e que, portanto, tem sua dívida com o passado mítico.

abordagem filosófica do mundo. [

]

Mas o surgimento da filosofia não fez desaparecer a mentalidade mítica, muito pelo contrário, a mentalidade mítica continuou a existir ao lado das novas formas de organizar o mundo. Teria sido o filósofo Pitágoras (séc. VI a.C.), que também era matemático, o primeiro a usar a palavra “filosofia” (“philos-sophia”), que quer dizer “amor à sabedoria”. Dessa forma, podemos perceber que já entre os primeiros filósofos tinha-se a compreensão de que a filosofia não era a pura razão, mas era uma busca amorosa da verdade (ARANHA; MARTINS,

2003).

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FILOSOFIA

Resumo

Resumo Caro estudante, vimos neste primeiro capítulo os períodos da história grega e em que momento

Caro estudante, vimos neste primeiro capítulo os períodos da história grega e em que momento histórico surgiu a filosofia. Da mesma forma, estudamos importantes fatores que contribuíram para o surgimento do pensamento filosófico. Por fim, analisamos a passagem do pensamento mítico para o pensamento filosófico e ressaltamos que esta passagem não implicou o desaparecimento do mito, mas vimos que mito e filosofia continuaram existindo lado a lado. Também nos dias de hoje continuamos a ter mitos, pois sempre teremos necessidades e perguntas que não podem ser satisfeitas por respostas puramente racionais, tais como as relacionadas à morte e ao amor.

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FILOSOFIA - Capítulo 1: Contexto Histórico do surgimento da Filosofia

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Atividade de Fixação* Com base no estudo feito nesse capítulo, faça os seguintes exercícios: 1.
Atividade de Fixação* Com base no estudo feito nesse capítulo, faça os seguintes exercícios: 1.
Atividade de Fixação*
Com base no estudo feito nesse capítulo, faça os seguintes exercícios:
1. Cite e comente quais foram os fatores que contribuíram para o
surgimento da filosofia na Grécia Antiga.
2. Mito é diferente de mentira ou inverdade. Caracterize o que é mito em
perspectiva filosófica.

(*) Os exercícios contidos nesta apostila são somente para fixação de conteúdo, não é necessária a entrega dos mesmos.

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Leitura de Aprofundamento O texto a seguir, de Cremonese (2008, p. 73-74) [sic] oferece uma

Leitura de Aprofundamento

O texto a seguir, de Cremonese (2008, p. 73-74) [sic] oferece uma breve introdução à relação entre filosofia e política. Lembre, caro estudante, que a política teve origem na pólis (cidade) grega.

A Filosofia é “Filha” da Pólis

O homem grego abandonou, aos poucos, a explicação mitológica (religião) e passou a dar justificação racional para os problemas de ordem cosmológica (origem do mundo) e antropológica (origem do homem).

Os filósofos fundamentavam suas idéias em conceitos universais. Por exemplo, o conceito de justiça deveria contemplar a justiça a todos os homens e não apenas a interesse de grupos, como defendiam os sofistas. Os filósofos trouxeram importantes contribuições para o pensamento político. Críticos dos costumes e da sociedade do seu tempo, foram também adversários do regime democrático, por entenderem que a sua base não era o saber verdadeiro, pois permitia que a falsidade e a incompetência, desde que apoiadas na vontade da maioria, se impusesse.

Pesou também, na sua oposição à democracia, a existência de concepções elitistasacercadanaturezahumana:elesnãoacreditavamnaigualdadefundamental entre os seres humanos. Aristóteles, por exemplo, defendia a escravidão e o predomínio masculino como uma decorrência da própria natureza: há pessoas que, por natureza, tendem para o mando; outras para obedecer – entre estas últimas coloca os escravos. Essa visão negativa acerca da democracia perdurou entre os intelectuais até por volta do século 17. Nesse sentido é correto afirmar que política e Filosofia nasceram na mesma época. Por serem contemporâneas, diz-se que “a Filosofia é filha da pólis” e muitos dos primeiros filósofos (os chamados pré- socráticos) foram chefes políticos e legisladores de suas cidades. Por sua origem, a Filosofia não cessou de refletir sobre o fenômeno político, elaborando teorias para explicar sua origem, sua finalidade e suas formas.

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FILOSOFIA - Capítulo 1: Contexto Histórico do surgimento da Filosofia

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Referências ARANHA, Maria Lúcia Arruda et al. Filosofando : introdução à filosofia. 3. ed. São

Referências

ARANHA, Maria Lúcia Arruda et al. Filosofando: introdução à filosofia. 3. ed. São Paulo:

Editora Moderna, 2003.

CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2008.

CREMONESE, Dejalma. Teoria política. Ijuí: Unijuí, 2008.

TRIGO, Luiz Gonzaga Godoi. Pensamento filosófico: um enfoque educacional. São Paulo:

IBPEX, 2009.

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Gabarito 1) Resposta: Espera-se como resposta os seis fatores arrolados no item 1.2 deste capítulo:

Gabarito

1) Resposta: Espera-se como resposta os seis fatores arrolados no item 1.2 deste capítulo: navegações, agricultura e calendário, comércio, construções, escrita e o desenvolvimento das cidades. Espera-se, ainda, uma breve explicação de cada um desses fatores.

2) Resposta: Esta questão está desenvolvida no item 1.3 do capítulo. Diferentemente da verdade científica, o mito diz respeito às verdades intuitivas, que são outra forma de conhecimento. O mito é outra forma de apreensão da realidade e, por isso, não pode ser caracterizado simplesmente como mentira.

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 1: Contexto Histórico do surgimento da Filosofia

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Filosofia

Capítulo 2

Prof° Joel Haroldo Baade

FILÓSOFOS GREGOS PRÉ- SOCRÁTICOS, SOCRÁTICOS E PÓS-SOCRÁTICOS

Objetivos de Aprendizagem:

Compreender o período pré-socrático da filosofia grega;

Analisar o pensamento filosófico clássico de Sócrates, Platão e Aristóteles;

Entender a reflexão no período pós- socrático da filosofia grega.

FILOSOFIA - Capítulo 2: Filósofos Gregos Pré-Socráticos, Socráticos e Pós-Socráticos

socrático da filosofia grega. FILOSOFIA - Capítulo 2: Filósofos Gregos Pré-Socráticos, Socráticos e Pós-Socráticos
socrático da filosofia grega. FILOSOFIA - Capítulo 2: Filósofos Gregos Pré-Socráticos, Socráticos e Pós-Socráticos

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

Introdução

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró Introdução Sócrates é figura central para a filosofia! Não é por

Sócrates é figura central para a filosofia! Não é por acaso, então, que a filosofia grega seja comumente dividida em três períodos, definidos justamente a partir da atuação de Sócrates: o período pré-socrático; o período socrático ou clássico; e o período pós-socrático (ARANHA; MARTINS, 2003). Neste capítulo, nós veremos os três períodos da filosofia grega juntamente com os seus principais representantes.

grega juntamente com os seus principais representantes. FILOSOFIA FILOSOFIA - Capítulo 2: Filósofos Gregos

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 2: Filósofos Gregos Pré-Socráticos, Socráticos e Pós-Socráticos

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2.1 O Período Pré-Socrático A classificação de “filósofos pré-socráticos” é recente e decorre da importância

2.1 O Período Pré-Socrático

A classificação de “filósofos pré-socráticos” é recente e decorre da importância central que o filósofo Sócrates ocupa dentro da história da filosofia no ocidente.

A partir do que já estudamos anteriormente, Trigo (2008, p. 12-13) afirma que:

O desenvolvimento intelectual da civilização grega possibilitou a discussão de suas comunidades sobre problemas mais abrangentes, denominados cósmicos. Para os antigos gregos, o mundo era o cosmos, uma palavra que significa “ordem”,

“beleza”, “harmonia”, em oposição ao caos, a desordem que existia antes da criação

nasce nesse contexto repleto de mudanças. Os filósofos,

assim chamados por seguirem a postura de se relacionarem intensamente com o conhecimento, eram os “amantes da sabedoria”, esta constituindo o objetivo final desses grandes pensadores. [grifos do autor]

do mundo. E a filosofia [

]

Conforme Chaui (2008, p. 39), o trabalho dos pré-socráticos:

É uma explicação racional e sistemática sobre a origem, ordem e transformação da natureza, da qual os seres humanos fazem parte, de modo que, ao explicar a natureza, a Filosofia também explica a origem e as mudanças dos seres humanos.

Assim, por exemplo, podemos citar os filósofos Heráclito e Parmênides. Estes dois pensadores elaboraram duas diferentes concepções de cosmologia, ou seja, tentaram explicar, cada um a seu modo, qual a ordem fundamental e constitutiva do universo. Eles não se preocuparam em descrever o que ocorre do ponto de vista histórico, mas quiseram achar a arché, entendido aqui como o fundamento do ser. Segundo Aranha e Martins (2003, p. 83).

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“buscar a arché é explicar qual é o elemento constitutivo de todas as coisas”. Ilustrado
“buscar a arché é explicar qual é o elemento constitutivo de todas as coisas”. Ilustrado
“buscar a arché é
explicar qual é o
elemento constitutivo de
todas as coisas”.
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

Ele nasceu em Éfeso, na Jônia, que nos

dias atuais é a Turquia. A sua grande preocupação foi entender a multiplicidade do real. Ao olhar o mundo, percebia que ele não era uniforme, mas que tudo estava em constante transformação. Heráclito não rejeita as contradições do mundo e procura entendê-lo em sua dimensão de mudança ou no seu devir. Aquilo que está diante de nossos olhos em determinado momento é algo diferente do que foi no dia anterior, mesmo que muitas vezes as mudanças não sejam perceptíveis aos nossos olhos. Por essa razão, Heráclito afirmava que “nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio”. Ele tinha a convicção de que todas as coisas têm em si o germe da transformação; cada coisa possui contradições internas que levam à contínua mudança. A harmonia no mundo brota da síntese desses contrários. Mais tarde, quando estudarmos o pensamento de Hegel no século XIX sobre a lógica dialética, veremos que muitas destas ideias serão retomadas. O mesmo acontecerá com Karl Marx, que enfatizará as lutas e as contradições de classe (ARANHA; MARTINS, 2003).

Heráclito viveu entre os anos 544 e 484 a.C

Já o filósofo Parmênides acentuará em sua filosofia a imobilidade do ser. Parmênides viveu entre 540 e 470 a.C. em Eleia, uma cidade ao sul da região que então era chamada de Magna Grécia e que hoje forma a Itália. Ele é o principal representante da denominada escola eleática. Segundo seu pensamento filosófico, era absurda a ideia de Heráclito segundo a qual todas as coisas possuem em si o embrião da contradição e da mudança. Parmênides não conseguia entender como algo poderia “ser” e “não ser” ao mesmo tempo. Por isso, ele contrapõe à filosofia heraclitiana a imobilidade do ser.

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Devido às suas convicções, Parmênides postula que o ser é único, imóvel, imutável e infinito.

Devido às suas convicções, Parmênides postula que o ser é único, imóvel, imutável

e infinito. A essência de todas as coisas é sempre a mesma, apenas na aparência é que percebemos a mudança. As diferenças são percebidas apenas no mundo sensível que,

segundo este filósofo, é falso, pois a percepção pelos sentidos é ilusória. Parmênides estava convicto de que somente o mundo inteligível é verdadeiro e que o pensamento corresponde

à realidade. Esta correspondência entre pensamento e realidade será chamada na filosofia

de princípio da identidade (ARANHA; MARTINS, 2003). Mais tarde, no século XVI, esta ideia será retomada por René Descartes, quando este acentuar o papel da razão na construção do conhecimento, mas isto é assunto para o quinto capítulo deste estudo.

Outros filósofos pré-socráticos ainda disseram que o fundamento de todas as coisas

estava na água (Tales), no ar (Anaxímenes), no átomo (Demócrito) ou nos quatro elementos

– terra, ar, água e fogo (Empédocles) (ARANHA; MARTINS, 2003). O trabalho dos filósofos

pré-socráticos é distinto das narrativas mitológicas, pois discutem de maneira racional sobre

a natureza e de que forma ela está organizada.

2.2 O Período Socrático ou Clássico

O período socrático ou clássico da filosofia grega se caracteriza pela atuação dos três

principais nomes do pensamento filosófico da antiguidade: Sócrates, Platão e Aristóteles. Neste mesmo período, surgiram na Grécia os sofistas, que trouxeram um elemento novo

para a filosofia, a retórica. Vamos falar deles ao final deste capítulo.

Sofistas

A atuação dos sofistas destoa bastante da reflexão dos filósofos pré-socráticos. Isto

se deve em boa medida porque os seus interesses são distintos. A atuação dos chamados

sofistas ocorre no período áureo da cultura grega, no século V a.C. Em Atenas existe uma

intensa atividade artística e cultural nesse período, que também se caracteriza pelo auge da democracia. Ainda que as questões da natureza apareçam nas reflexões filosóficas, o foco

se torna cada vez mais o próprio ser humano, ou seja, a filosofia assume gradativamente

um enfoque antropológico, envolvendo questões de ordem moral e política (ARANHA; MARTINS, 2003).

Os sofistas surgem em resposta aos novos desafios que o desenvolvimento das cidades e do comércio na Grécia geraram. Antes, a sociedade era regida por uma elite proprietária de terras e do poder militar. Esta classe baseava a educação dos seus filhos no modelo dos heróis mitológicos, especificamente dos guerreiros belos e bons. A beleza se caracterizava pelo corpo escultural formado pelos exercícios físicos, pela ginástica, pela dança e pelos jogos de guerra. O ser bom era definido a partir das leituras e Homero e Hesíodo, por exemplo, que descreviam as características dos heróis, cujas virtudes eram admiradas pelos deuses, sendo a principal delas a coragem diante da morte na guerra. A coragem aparece como importante elemento na luta de Heitor e Aquiles, contada por Homero e retratada no cinema através do filme “Troia”. Conforme Chaui (2008, p. 40), “a virtude era a aretê (palavra grega que significa ‘excelência e superioridade’), própria dos melhores, ou, em grego, dos aristoi.” Daí deriva a palavra aristocracia, que quer dizer o governo dos melhores.

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FILOSOFIA - Capítulo 2: Filósofos Gregos Pré-Socráticos, Socráticos e Pós-Socráticos

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Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró Quando se desenvolveram as cidades e o comércio, surgiu também uma

Quando se desenvolveram as cidades e o comércio, surgiu também uma nova classe social rica que estava igualmente interessada em ter influência política. Assim, desenvolveu-se a democracia grega, pela qual essa participação se tornou possível. As decisões concernentes à vida na cidade passaram a ser tomadas na praça pública, a Ágora. Das reuniões na praça pública participavam todos os cidadãos, expondo as suas ideias de modo a convencer os demais dos seus pontos de vista.

de modo a convencer os demais dos seus pontos de vista. O modelo de educação aristocrático

O modelo de educação aristocrático já não atendia mais às novas necessidades, por isso surgiu um novo modelo de educação, protagonizado pelos sofistas. Os sofistas eram membros da nova classe social que procuram ampliar a sua influência política, que poderia ser concretizada a partir dos debates na praça pública. Era preciso que houvesse conhecimento e argumentos para estas discussões. Assim, os sofistas se tornam os primeiros educadores, pois contribuíram para a sistematização dos conhecimentos de tal forma que pudessem formar o cidadão que faz a sua voz ser ouvida na Ágora. Eles dão uma contribuição fundamental para a sistematização do ensino ao formarem um currículo de estudos: gramática, retórica, dialética, aritmética, geometria, astronomia e música (CHAUI,

2008).

gramática, retórica, dialética, aritmética, geometria, astronomia e música (CHAUI, 2008). 4 2 42 FILOSOFIA

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Os sofistas se tornaram especialistas em retórica, que é a arte da argumentação. Na medida

Os sofistas se tornaram especialistas em retórica, que é a arte da argumentação. Na medida em que se dispõe a ensinar os filhos da nova classe rica, os sofistas iniciam os jovens na arte da retórica. Ao mesmo tempo, considerando o aspecto bastante prático de sua reflexão, ou seja, a preocupação com as discussões na praça pública, eles acabam por elaborar o ideal teórico da democracia. Os cidadãos da nova classe rica têm especial interesse neste assunto, pois ele se contrapõe diretamente aos interesses da velha aristocracia rural (ARANHA; MARTINS, 2003).

Através de sua atuação, os sofistas contribuíram ainda para a profissionalização da educação, pois muitos deles cobravam pelos serviços prestados. Essa prática lhes rendeu muitas críticas, como as feitas, por exemplo, por Sócrates, que os acusava de “prostituição”. Segundo o filósofo, o conhecimento não poderia ser vendido. Mas, conforme alertam Aranha e Martins (2003), mesmo que alguns sofistas fossem chamados de “mercenários do saber”, isto, de modo algum, pode ser aplicado a todos eles. Os sofistas deixaram uma contribuição muito valiosa para a filosofia posterior e, certamente, podem ser considerados entre os precursores dos modernos estudos da linguagem, que incluem a linguística, jornalismo, marketing e outros.

Sócrates

Como já vimos no ponto anterior, Sócrates não simpatizava com os sofistas. Em primeiro lugar, pelo fato de eles cobrarem pelo ensino que ministravam, mas também porque Sócrates não aceitava a possibilidade de se defender qualquer ideia somente para que se pudesse ganhar um debate em praça pública. O filósofo estava convicto de que somente a verdade deveria ser defendida. E, antes de querer convencer os outros de alguma ideia, cada um deveria primeiro conhecer a si mesmo. Por outro lado, Sócrates concordava com os sofistas quando eles afirmavam que a educação aristocrática já não atendia mais às necessidades da cidade. Era preciso, portanto, que se criasse um novo modelo educacional, mais adequado aos novos tempos (CHAUI, 2008).

Mas quem foi Sócrates e quais foram as suas principais ideias filosóficas?

Sócrates viveu aproximadamente entre os anos 470 e 399 a.C. em Atenas e não deixou nenhum testemunho escrito. Tudo o que se sabe sobre ele é transmitido por dois de seus discípulos, Xenofontes e Platão. Platão apresenta Sócrates como um homem que andava pelas ruas de Atenas fazendo perguntas às pessoas, principalmente àquelas que discursavam em praça pública. Ele perguntava sobre os valores que os gregos consideravam fundamentais para a sua sociedade, tais como a coragem, a virtude, o amor, a honestidade, a amizade e a verdade. Para a sua surpresa, as pessoas sempre lhe respondiam com exemplos, ao que retrucava dizendo que não estava interessado nos exemplos, e sim queria saber o que é o amor, a amizade etc. A atitude de Sócrates causava embaraço, as pessoas se sentiam constrangidas e percebiam que não tinham as respostas para as perguntas do filósofo (CHAUI, 2008).

Aranha e Martins (2003) ressaltam que, ao adotar esses procedimentos, Sócrates lança mão de um método próprio de reflexão filosófica, que chamam de ironia e maiêutica. Ironia é um verbo grego usado para “perguntar” e maiêutica significa “parto”. O método

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FILOSOFIA - Capítulo 2: Filósofos Gregos Pré-Socráticos, Socráticos e Pós-Socráticos

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socrático teria sido assim denominado em homenagem à mãe de Sócrates, que era parteira. Ou

socrático teria sido assim denominado em homenagem à mãe de Sócrates, que era parteira. Ou seja, enquanto ela ajudava as pessoas a vir à luz, o filho era um parteiro de ideias.

O pensamento Socrático é muitas vezes identificado com a famosa afirmação “Só sei que nada sei”. Em outras palavras, isto quer dizer que Sócrates não se considerava uma pessoa arrogante, pois tinha consciência de que não era possível conhecer tudo. Essencial para a reflexão filosófica é a capacidade de perguntar, de querer saber coisas novas. Quando alguém pensa que já sabe tudo, que já está pronta, então não há mais necessidade de aprendizado e também de reflexão, muitos menos de filosofia. Portanto, o filósofo considerava a humildade como elemento essencial da pessoa que quer ser sábia. O sábio sabe reconhecer os seus próprios limites e não hesita em admitir que não é dono da verdade, que não possui todas as respostas. Quando Sócrates fazia perguntas às pessoas até lhes mostrar que aquilo que acreditavam ser a verdade não era realmente algo consistente, não queria dizer que ele mesmo possuía todas as respostas.

Sócrates introduziu na filosofia a necessidade de se fazer uma diferença entre aquilo que se apresenta aos nossos olhos, aquilo que assimilamos através dos nossos sentidos, e as essências das coisas. Ele não queria apenas saber a opinião dos cidadãos de Atenas sobre determinado assunto, mas estava disposto a procurar o conceito que oferecesse o acesso à própria verdade. Essa busca pela verdade tem uma enorme força social e política, pois faz as pessoas perguntarem pelo real sentido do que está a sua volta. Por essa razão, Sócrates logo passou a ser visto como um perigo pelos poderosos de Atenas e considerado alguém que estava corrompendo a juventude com as suas ideias. Ele foi levado perante a assembleia da cidade e foi julgado culpado, sendo obrigado a tomar veneno, a cicuta. Sócrates não se defendeu das acusações, dizendo que não as aceitava. Também não abriria mão de suas ideias e da liberdade de pensar e, dessa forma, preferiria a morte (CHAUI, 2003).

Platão

Platão foi discípulo de Sócrates, como já referido acima, e desenvolveu o pensamento do seu mestre. Muitas vezes, é difícil saber onde termina o pensamento de Sócrates e em que ponto começa o de Platão. Platão viveu em Atenas entre os anos de 428 e 347 a.C., onde fundou uma escola chamada Academia. O pensamento de Platão, pode ser mais bem compreendido a partir de uma análise do seu famoso “mito da caverna”. Vamos ler este trecho da obra de Platão, no livro VII de “A República”. Platão narra este mito como se fosse um diálogo entre Sócrates e alguém chamado Glauco:

Pense em homens encerrados numa caverna, dotada de

uma abertura que permite a entrada de luz em toda a sua extensão da parede maior. Encerrados nela desde a infância, acorrentados por grilhões nas pernas e no pescoço que os obrigam a ficar imóveis, podem olhar para frente, porquanto as correntes no pescoço os impedem de virar a cabeça. Atrás e por sobre eles, brilha, a distância, uma chama. Entre esta e os prisioneiros delineia-se uma estrada em

Sócrates – [

]

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aclive, ao longo da qual existe um pequeno muro, parecido com os tabiques que os

aclive, ao longo da qual existe um pequeno muro, parecido com os tabiques que os saltimbancos utilizam para mostrar ao público suas artes.

Glauco – Estou imaginando tudo isso.

S. – Suponha ainda, ao longo daquele pequeno muro, homens que

carregam todo tipo de objetos que aparecem por sobre o muro, figuras de animais e de homens de pedra, de madeira, de todos os tipos de formas. Alguns dentre os homens que as carregam, como é natural, falam, enquanto outros ficam calados.

G.

– Que visão estranha e que estranhos prisioneiros!

S.

– Malgrado isso, são semelhantes a nós. Pense bem! Em primeiro lugar,

deles mesmos e de seus companheiros poderiam ver algo mais do que sombras

projetadas pela chama na parede da caverna diante deles?

cabeça.

G.

– Impossível, se foram obrigados a ficar por toda a vida sem mover a

S.

– E não se encontram na mesma situação no tocante aos objetos que

desfilam perante eles?

G.

– Certamente.

S.

– Supondo que pudessem falar, você não acha que considerariam reais

as figuras que estão vendo?

G.

– Sem dúvida alguma.

S.

– E se a parede oposta da caverna fizesse eco? Quando um dos que

passam se pusesse a falar, você não acha que eles haveriam de atribuir aquelas palavras a sua sombra?

G.

– Claro, por Zeus!

S.

– Então para esses homens a realidade consistiria somente nas sombras

dos objetos.

G.

– Obviamente haveria de ser assim.

S.

– Vamos ver agora o que poderia significar para eles a eventual libertação

das correntes e da ignorância. Um prisioneiro que fosse libertado e obrigado a se levantar, virar a cabeça, a caminhar e a erguer os olhos para a luz, haveria de sofrer

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 2: Filósofos Gregos Pré-Socráticos, Socráticos e Pós-Socráticos

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ao tentar fazer tudo isso, ficaria aturdido e seria incapaz de discernir aquilo de que

ao tentar fazer tudo isso, ficaria aturdido e seria incapaz de discernir aquilo de que antes só via a sombra. Se a ele se dissesse que antes via somente as aparências e que agora poderia ver melhor porque seu olhar está mais próximo da realidade e voltado para objetos bem reais; se lhe fosse mostrado cada um dos objetos que desfilam e se fosse obrigado com algumas perguntas a responder o que era isso, como você acha que ele haveria de se comportar? Você não acha que ficaria atordoado e haveria de considerar as coisas que via antes mais verdadeiras do que aquelas que são mostradas agora?

G. – Sem dúvida, muito mais verdadeiras.

Sócrates – Se fosse obrigado a olhar extremamente para a luz, não haveria de sentir os olhos doloridos e não tentaria de desviá-los e dirigi-los para o que pode ver? Não haveria de acreditar que isto seria na realidade mais verdadeiro do que agora se quer mostrar a ele?

Glauco – Certamente.

S. – E se alguém o tirasse à força dali, fazendo-o subir pela áspera e

íngreme subida, libertando-o somente depois de tê-lo levado à luz do sol, o prisioneiro não sentiria dor e ao mesmo tempo raiva por ser assim arrastado? Uma vez fora, à luz do dia, por acaso não é verdade que, com seus olhos cegados pelos raios do sol, não conseguiria contemplar sequer um só dos objetos que agora nós consideramos reais?

G.

– Sim, pelo menos não de imediato.

S.

– Acho que precisaria de tempo para habituar-se a contemplar essas

realidades superiores. Primeiramente, haveria de ver com a maior facilidade as sombras, depois as figuras humanas e todas as outras refletidas na água e, por último, poderia vê-las como são na realidade. Após isso, seria capaz de filtrar os olhos nas constelações e contemplaria o próprio céu à noite, à luz das estrelas e da lua, mais facilmente que durante o dia, sob o esplendor do sol.

G.

– Sem sombra de dúvida.

S.

– Acho que, por fim, haveria de contemplar o sol, não sua imagem

refletida na água ou em qualquer outra superfície, mas em sua realidade, assim como realmente é, em seu próprio lugar.

G. – Perfeito.

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S. – Depois passaria a refletir que é o sol que produz as estações e

S. – Depois passaria a refletir que é o sol que produz as estações e os

anos, que governa todos os fenômenos do mundo visível e que, de algum modo,

é ele a verdadeira causa daquilo que os prisioneiros viam.

G. – Evidentemente que refletindo assim chegaria gradualmente a essas

conclusões.

S. – E depois? Lembrando-se de sua antiga morada, da ideia de sabedoria

que lá imperava e de seus velhos companheiros de prisão, não se consideraria afortunado pela mudança efetuada e não sentiria compaixão por eles?

G.

– Obviamente.

S.

– Se aqueles da caverna inventassem atribuir honras, elogios e prêmios

a quem melhor visse a passagem das sombras e se recordasse com maior exatidão

quais passavam primeiros, quais por último e quais passavam juntas e, com base nisso, adivinhasse com grande habilidade aquelas que passavam em cada preciso momento, você acha que ele ficaria com desejo e com inveja de suas honras e de seu poder ou se haveria de encontrar na condição do herói homérico e preferiria ardentemente “trabalhar como assalariado a serviço de um pobre camponês”

e sofrer qualquer privação, antes que dividir as opiniões deles e voltar a viver à maneira deles?

G. – Sim, acho que aceitaria sofrer qualquer tipo de privação, antes de

retornar a viver daquela maneira.

S. – Mais um ponto a ser considerado. Se aquele homem tivesse de

descer novamente e retomar seu lugar, não haveria de sentir os olhos doloridos

por causa da escuridão, vindo inopinadamente do sol?

G.

– Certamente.

S.

– Se, enquanto tivesse a vista confusa pelo tempo que se passaria antes

que os olhos se acostumassem novamente com a obscuridade, devesse avaliar novamente aquelas sombras e apostasse com aqueles eternos prisioneiros, você

não acha que passaria por ridículo e dele diriam que sua saída lhe havia arruinado

a vista e que sequer valia a pena enfrentar essa subida? Não haveria de ser morto aquele que tentasse libertar e fazer subir os outros, bastando para isso que o tivessem entre as mãos para matar?

G. – Não há dúvida alguma.

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 2: Filósofos Gregos Pré-Socráticos, Socráticos e Pós-Socráticos

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No mito, Platão faz uma diferença entre o mundo sensível, aquele que era percebido pelos

No mito, Platão faz uma diferença entre o mundo sensível, aquele que era percebido pelos sentidos dos prisioneiros como sombras refletidas na parede. A realidade, para aquelas pessoas que nunca havia experimentado algo diferente, era um mundo de sombras e de ecos. Imaginar outro mundo, onde houvesse outras condições de luminosidade, de cores, de cheiros e formas era algo que poderia ser comparado à loucura. Quem ousasse mencionar algo assim poderia ser ridicularizado.

A principal característica do pensamento de Platão é a dualidade entre o mundo

ideal, ou das ideias, e o mundo sensível. O seu esforço maior foi o de tentar realizar a síntese

entre os pensamentos opostos de Parmênides e Heráclito. O primeiro, como estudamos no ponto sobre os filósofos pré-socráticos, defendia a imutabilidade do ser; enquanto o segundo ressaltava a existência de um mundo em constante transformação.

Para Platão, as conclusões de Heráclito decorriam da experiência que fazemos com

os nossos sentidos, mas que seriam enganosos. O filósofo ilustra isso no mito da caverna ao ressaltar que a vivência em diferentes ambientes leva à formação de diferentes concepções da realidade. A vivência na prisão da caverna durante toda a vida levou aquelas pessoas

a acreditarem que o seu mundo, a realidade, era o que estava diante dos seus olhos. A

verdade eram as sombras que eram projetadas na parede. A possibilidade de sair daquele lugar e experimentar a existência de outras formas de realidade provoca uma mudança na concepção de mundo. Os sentidos nos oferecem novos parâmetros para a compreensão do mundo. Mas o que Platão quer justamente mostrar é que não há garantia de que, o que vemos, corresponde efetivamente à realidade. Portanto, segundo Platão, os nossos sentidos nos enganam e a verdade deveria residir em outra esfera, que não a do mundo sensível. Assim, tanto o pensamento socrático como o de Platão ressaltam que o verdadeiro conhecimento não está na experiência sensível, mas na essência das coisas, que pode ser

alcançada mediante o uso da inteligência. O mundo inteligível, da razão, é o que corresponde

à verdade.

Portanto, Sócrates e Platão foram sérios críticos dos sofistas, que aceitavam como verdadeiros os conhecimentos formados pela experiência sensível. Segundo os filósofos, estas formam a mera opinião, ou dóxa em grego, que poderia variar de pessoa para pessoa, conforme cada circunstância particular. A preocupação da filosofia, por sua vez, deveria ser com o conhecimento verdadeiro, alcançável unicamente pelo pensamento (CHAUI, 2008).

Vejamos, agora, como o pensamento de Sócrates e Platão foi desenvolvido pelo filósofo Aristóteles.

Aristóteles

O tempo de atuação de Aristóteles é caracterizado na história da filosofia como

período sistemático. Isso se deve ao fato de que o filósofo tem um papel fundamental na organização e sistematização do pensamento filosófico desenvolvido até então e, ainda, ao seu aprofundamento. Devemos a Aristóteles a organização do pensamento lógico através do qual elabora uma explicação da realidade a partir do princípio de causalidade, ou seja, para ele, todas as coisas têm uma causa, que pode ser estudada e compreendida.

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FILOSOFIA

Aristóteles viveu entre os anos de 384 e 322 a.C. Ele frequentou a academia de

Aristóteles viveu entre os anos de 384 e 322 a.C. Ele frequentou a academia de Platão e a sua fidelidade ao mestre é relativa. O filósofo desenvolveu o pensamento de Platão e o aprofundou, mas também foi divergente em muitos aspectos. Entre os principais aspectos críticos estava a compreensão de um mundo separado das ideias. Aristóteles não achava que seria possível conceber a realidade em duas esferas completamente distintas, independentes uma da outra. Se Platão apenas tentou realizar a síntese entre os pensamentos de Parmênides e Heráclito, Aristóteles funde definitivamente essas duas grandes proposições filosóficas num único sistema. Para superar a dicotomia platônica, a teoria aristotélica está fundamentada em três distinções fundamentais: substância-essência- acidente; ato-potência; forma-matéria (ARANHA; MARTINS, 2003).

Vejamos a seguir de que forma Aristóteles propôs uma nova explicação da realidade

a partir desses conceitos.

Segundo Aristóteles, toda a realidade é composta de substância, pois esta dá a

dimensão de concreticidade à realidade. Para ele, a substância é “aquilo que é em si mesmo”. Toda substância, por sua vez, possui atributos, que podem ser ou não essenciais. Se os atributos da substância não são essenciais, então eles podem ser chamados de acidentais.

Se os atributos essenciais faltam a uma determinada substância, ela não poderia ser

considerada o que é. Vamos pensar em um exemplo para tornar a distinção de substância, essência e acidente feita por Aristóteles mais compreensível.

Aranha e Martins (2003) propõem que imaginemos um ser humano, que podemos

Ser humano, substância racional

considerar como sendo uma substância individual. Para que possamos considerar essa substância um ser humano
considerar como sendo uma substância individual. Para
que possamos considerar essa substância um ser
humano e não outra coisa qualquer, é preciso que
a
substância tenha alguns atributos essenciais. Na
história da filosofia, a característica essencial
do ser humano sempre foi considerada
a
racionalidade.
Então,
se
não
houver
racionalidade, não podemos considerar uma
substância como um ser humano. Por outro
lado, há vários atributos no ser humano
que não são essenciais para que ele seja
considerado como tal. Se uma pessoa for
velha, nova, obesa ou magra, ou então
tiver cabelos longos ou nem sequer tiver
cabelo, isso não faz com que ela deixe
de ser um ser humano.
49 49
FILOSOFIA - Capítulo 2: Filósofos Gregos Pré-Socráticos, Socráticos e Pós-Socráticos
FILOSOFIA
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró
Contudo, com a distinção acima, ainda não é possível resolver o problema das transformações dos

Contudo, com a distinção acima, ainda não é possível resolver o problema das transformações dos seres e explicar a origem das diferenças. De que modo os seres humanos se tornaram diferentes uns dos outros? Para resolver a este problema, Aristóteles recorre às noções de matéria e forma. A matéria é aquilo de que todas as coisas são feitas. Esse conceito é muito próximo à concepção que a física moderna tem de matéria. A característica da matéria é a indeterminação. Desse modo, um amontoado de células não constitui um ser humano; tampouco uma porção de granito pode ser considerada uma estátua. Para que a matéria seja considerada algo, é preciso que ela adquira forma. A matéria tem a forma apenas potencialmente. Várias células podem tornar-se um ser humano, mas não necessariamente. Do mesmo modo, uma semente possui a forma de árvore como potencial, assim como uma pedra pode vir a ser uma estátua.

A matéria é a parte constante e imutável da realidade e, nesse sentido, engloba as conclusões a que chegou Parmênides, de que o mundo é imutável. Já com a noção de forma, Aristóteles nos remete ao pensamento de Heráclito, que privilegiou a mudança como elemento constitutivo da realidade e do mundo.

Contudo, ainda é preciso entender como Aristóteles concebia a transformação da matéria para que ela viesse a adquirir uma forma determinada. Segundo o filósofo, como já nos referimos acima, toda a matéria tem a forma em potência. Quando a matéria adquiriu uma forma determinada, então ele dizia que se havia chegado ao ato (ARANHA; MARTINS, 2003). O ato é a forma adquirida. No exemplo do ser humano que tomamos acima, a matéria são as células logo após a fecundação do óvulo pelo espermatozoide. Estas células têm a forma humana somente em potencial. O ato é o ser humano formado.

Há uma discussão muito séria atualmente sobre qual seria o momento em que o óvulo

Há uma discussão muito séria atualmente sobre qual seria o momento em que o óvulo passa a ser um ser humano. Esta polêmica normalmente está associada à discussão sobre o aborto. Então, caro estudante, quando ocorre a passagem da simples matéria para a vida humana? Pense a respeito.

Segundo Aranha e Martins (2003), para explicar o movimento de passagem da potência ao ato, Aristóteles recorre à teoria das quatro causas:

a) A causa material: é aquilo de que uma coisa é feita. Ela é determinante, pois de um monte de pedras não se pode esperar um ser humano. Mas as pedras podem ser transformadas em uma estátua.

b) A causa eficiente: é aquilo com que a coisa é feita. Para que as pedras virem esculturas, é preciso que haja um escultor.

c) A causa formal: é aquilo que a coisa vai ser. No caso das pedras, a estátua é a causa formal, especificamente a imagem feita na mente do escultor. Quando ele vê a pedra, ele já é capaz de imaginar em seu lugar a estátua pronta.

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FILOSOFIA

d) A causa final: é aquilo para que a coisa é feita. A estátua pode

d) A causa final: é aquilo para que a coisa é feita. A estátua pode ter a finalidade de servir de decoração ou homenagear alguma pessoa importante.

Desse modo, com uma única teoria, Aristóteles foi capaz de reunir os pensamentos de Parmênides e Heráclito e superar o mundo separado das ideias proposto por Platão. O sistema aristotélico contempla ao mesmo tempo a imutabilidade do mundo e as mudanças. Com Aristóteles, concretiza-se definitivamente a mudança na mentalidade da antiguidade de uma esfera sobrenatural e mítica para uma mentalidade racional e orientada exclusivamente

para a esfera imanente. Não era mais necessária a recorrência à transcendência para explicar

o cotidiano.

Ainda assim, o divino não se tornou completamente desnecessário para explicar

a realidade como um todo. Ele não era mais essencial para entender a realidade presente,

mas continuou a existir como princípio que deu origem a todo o universo. Por isso, Aranha e

Martins (2003, p. 124) dizem que “toda a estrutura teórica da filosofia aristotélica desemboca no divino.” Vejamos: se todas as coisas tem uma causa, como propôs Aristóteles, então nos restam duas possibilidade para explicar a origem do universo. Ou ele é infinito, de modo que não haja uma origem, mas cuja ideia é difícil de ser apreendida pela razão humana; ou então ele é finito e, nesse caso, é preciso que haja um princípio gerador. Como princípio primeiro,

é preciso que seja diferente de todas as outras coisas, pois não pode ser fruto de uma causa anterior. Aranha e Martins (2003, p. 124) dizem a respeito:

Ou seja, todo ser contingente foi produzido por outro ser, que também é contingente e assim por diante. Para não ir ao infinito na seqüência das causas, é preciso admitir uma primeira causa, por sua vez incausada, um ser necessário (e não contingente). Esse Primeiro Motor (imóvel, por não ser movido por nenhum outro) é também um puro ato (sem nenhuma potência). Chamamos Deus ao Primeiro Motor Imóvel, Ato Puro, Ser Necessário, Causa Primeira de todo existente. [sic]

Podemos ver, então, que o pensamento aristotélico tem grande profundidade

e capacidade de explicação da realidade em que vivemos. Não será por acaso que ele se

tornou modelo para toda a ciência ocidental até a atualidade. Vamos aprofundar isso ao

longo dos próximos tópicos.

2.3 O Período Pós-Socrático

O contexto histórico posterior ao período clássico da filosofia grega sofreu grandes

mudanças. A filosofia posterior a Platão e Aristóteles se desenvolveu em um ambiente político muito diferente daquele dos primeiros filósofos. Foi um período em que Atenas perdeu a sua autonomia política. A partir da segunda metade do século IV a.C., Atenas foi conquistada, primeiro por Tebas e depois pelos macedônios. Todas as tentativas de libertação fracassaram

e terminaram em grande derramamento de sangue. Embora a dominação macedônica

tenha durado pouco, as pretensões de independência da Grécia não duraram, pois logo caiu sob o domínio do Império Romano (MONDIN, 1981).

Por outro lado, segundo Mondin (1981) o pensamento e a cultura grega se expandiram para todo o mundo da antiguidade e o marcaram para toda a história

FILOSOFIA - Capítulo 2: Filósofos Gregos Pré-Socráticos, Socráticos e Pós-Socráticos

FILOSOFIA

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subsequente. Esse fenômeno de expansão da língua e da cultura grega é chamado de helenismo.

subsequente. Esse fenômeno de expansão da língua e da cultura grega é chamado de helenismo. A palavra helenismo provém de Hélade, que era o nome da Grécia na antiguidade. Com o helenismo, surgiram alguns centros intelectuais de destaque, tais como Pérgamo, Antioquia e Alexandria.

Na época do helenístico surgiram poucas ideias novas. De algum modo, tinha-se a impressão de que todas as grandes teorias a respeito do universo, de sua origem e de seu fundamento, já tinham sido formuladas no período clássico da filosofia. Assim, para muitos restavaaadesãoaalgumadessasteoriaseasuarepetição,quemsabeaoseuaprofundamento. Mesmo assim, pode-se experimentar um desenvolvimento significativo dos conhecimentos específicos, tais como a matemática, a geometria, a astronomia, a geografia, as ciências naturais, a medicina e a história. Esse desenvolvimento das áreas específicas ocorreu em função da preocupação com o ensino da cultura grega. Para que pudesse ser ensinado, o conhecimento dos filósofos precisava ser organizado em disciplinas específicas.

Quando a sociedade perdeu a sua autonomia, as preocupações se voltaram gradativamente para o indivíduo. A antiga cidade grega, na qual se debatiam os interesses em praça pública, tinha deixado de existir. A vida coletiva estava sob a condução dos conquistadores e, portanto, não oferecia mais grandes possibilidades para a reflexão filosófica. Por isso, no período helenístico, progressivamente, a filosofia voltou as suas atenções para questões de ordem moral e ética. Diante das novas questões, especialmente a pergunta pelo Sumo Bem, ou o bem supremo, desenvolveram-se quatros tipos de respostas:

estoicismo, epicurismo, ceticismo e ecletismo.

Estoicismo: para os estoicos, o sumo bem consiste na eliminação de todas as paixões. Toda dimensão corporal é identificado com o mal e com o afastamento do bem. O estoicismo teve uma atitude de pessimismo em relação à realidade, pois a sociedade estava dominada e era comandada por povos estrangeiros.

Epicurismo: já os epicuristas acentuam, ao contrário dos estoicos, que o sumo bem está justamente no prazer e na ausência de preocupações e perturbações. O sentido da vida, nessa perspectiva, consistia em aproveitar ao máximo aquilo que se tinha ao alcance, ignorando o restante.

Ceticismo: os céticos, por sua vez, não se satisfizeram com as soluções dos estoicos e dos epicuristas. Isso levou a um sentimento de desconfiança diante de qualquer solução filosófica. A pessoa cética é aquela que desconfia de tudo. Em contextos políticos de instabilidade, é comum encontrarmos esse tipo de pessoa. Também em nossa sociedade, sempre que há eleições, há muitas pessoas que anulam os seus votos, pois não acreditam mais em candidato algum. Os céticos têm uma postura de apatia diante da realidade em que vivem.

Ecletismo: por fim, ainda houve os pensadores que julgavam que todas as soluções deveriam ser reunidas para ajudar a resolver os problemas com os quais o ser humano se deparava. Eles diziam que, diante de problemas de difícil resolução, seria recomendável conjugar as diversas teorias filosóficas. Estes pensadores foram chamados de ecléticos (MONDIN, 1981, p. 109).

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FILOSOFIA

Podemos perceber, a partir dessa breve caracterização do período helenístico, como a realidade social, econômica

Podemos perceber, a partir dessa breve caracterização do período helenístico, como a realidade social, econômica e política influenciaram diretamente nas maneiras de pensar de pessoas e, dessa forma, contribuíram para o surgimento de novas reflexões filosóficas. Se, por um lado, a filosofia pretende contribuir para a mudança da realidade social; ela é, ao mesmo tempo, determinada por esta realidade que almeja alterar.

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FILOSOFIA - Capítulo 2: Filósofos Gregos Pré-Socráticos, Socráticos e Pós-Socráticos

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Resumo Estudamos neste capítulo os períodos e principais representantes da filosofia na Grécia Antiga. Vimos

Resumo

Estudamos neste capítulo os períodos e principais representantes da filosofia na Grécia Antiga.

Vimos que os primeiros filósofos, chamados de pré-socráticos, estavam preocupados em achar uma explicação para a constituição do mundo, buscando entender e explicar como ele funciona. As duas principais tendências filosóficas nesse período foram as teorias de Heráclito e Parmênides. O primeiro dizia que tudo está em constante transformação ou que “tudo flui”. O segundo, por sua vez, afirmava que a essência de todas as coisas é a imutabilidade, ou seja, nada muda.

Depois, falamos de Sócrates, que é considerado o pai da filosofia. A sua preocupação

já não era a explicação das essências do mundo, mas concentrou os seus esforços em questões

de ordem ética e moral. Ele polemizou contra os sofistas, que colocaram o conhecimento a

serviço dos interesses da burguesia de Atenas. Por outro lado, os sofistas contribuíram para

o desenvolvimento das ciências específicas ao sistematizarem o conhecimento a fim de que

ele pudesse ser ensinado para os jovens. Como queriam ensinar aos jovens a arte do discurso na praça pública, deram importante contribuição para o desenvolvimento da retórica.

O principal discípulo de Sócrates foi Platão, que deu continuidade ao pensamento filosófico do mestre. Se não fosse Platão, não saberíamos nada sobre Sócrates, pois este não deixou escrito algum. O principal trabalho de Platão foi tentar reunir numa única teoria filosófica os pensamentos de Heráclito e Parmênides. Para isso, disse que a realidade é formada pelo mundo sensível, que nos dá a impressão de mundo, e pelo mundo das ideias, que não muda nunca. Platão valoriza mais o mundo das ideias, e o seu pensamento tem como consequência a dualidade entre mente e corpo.

Aristóteles, por seu turno, que era discípulo de Platão, criticou enfaticamente a separação entre mundo das ideias e mundo sensível. Para ele, não havia essa separação, pois a realidade era consequência de algo anterior, ou seja, tinha uma causa, e não reflexo de um mundo das ideias, perfeito, que mais parecia com um mundo dos deuses da mitologia.

Por fim, vimos que, no período posterior da história da filosofia na Grécia, a principal característica do pensamento é moldada pela perda de autonomia política do Estado. A Grécia invadida está sujeita a outros povos, mas conquista o mundo pela sua cultura. Esse tempo é chamado de helenismo.

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FILOSOFIA

Atividade de Fixação* Com base no estudo feito nesse capítulo, faça os seguintes exercícios: 1.
Atividade de Fixação* Com base no estudo feito nesse capítulo, faça os seguintes exercícios: 1.
Atividade de Fixação*
Com base no estudo feito nesse capítulo, faça os seguintes exercícios:
1. Faça uma síntese do pensamento de Sócrates, Platão e Aristóteles.
2. Sobre o período pré-socrático da filosofia grega, é correto afirmar:
I) Heráclito e Parmênides são importantes representantes desse período
da filosofia grega. O seu interesse é descrever a essência do mundo.
O
primeiro dizia que tudo está em constante mudança, enquanto o
segundo dizia que a essência do mundo é a imutabilidade, ou seja, nada
muda.
II)
Os pré-socráticos surgiram em resposta aos novos desafios que o
desenvolvimento das cidades e do comércio na Grécia geraram. O seu
pensamento foi fundamental para o desenvolvimento da retórica.
III)
A principal preocupação dos filósofos pré-socráticos foi com questões
de
ordem moral e ética.
Assinale a alternativa CORRETA:
a)
(
) Todas estão corretas.
b)
(
) Apenas II está correta.
c)
(
) I e III estão corretas.
d)
(
) Apenas I está correta.
3.
Considere a seguinte afirmação: Segundo Aristóteles, toda a realidade
é composta de substância, pois esta dá a dimensão de concreticidade
à realidade. Para ele, a substância é “aquilo que é em si mesmo”. Toda
substância, por sua vez, possui atributos, que podem ser ou não
essenciais. Se os atributos da substância não são essenciais, então eles
podem ser chamados de acidentais. Se os atributos essenciais faltam a
uma determinada substância, ela não poderia ser considerada o que é.
Levando em consideração a teoria aristotélica sobre a substância da
realidade, avalie as afirmações abaixo.
I)
A cor do cabelo pode ser considerada um atributo acidental da

(*) Os exercícios contidos nesta apostila são somente para fixação de conteúdo, não é necessária a entrega dos mesmos.

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 2: Filósofos Gregos Pré-Socráticos, Socráticos e Pós-Socráticos

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substância humana. II) A racionalidade é um atributo essencial da humanidade. III) Os atributos acidentais

substância humana.

II)

A racionalidade é um atributo essencial da humanidade.

III) Os atributos acidentais fazem com que uma coisa deixe de ser o que ela é. A partir deles reconhecemos que alguém é um ser humano e não um animal qualquer.

IV) Os atributos essenciais nos permitem diferenciar um indivíduo do outro, mas ainda assim conseguimos reconhecê-los como parte de um mesmo grupo. Graças a eles, por exemplo, diferenciamos entre cães de diferentes raças, contudo, não deixamos de identificá-los como cães.

Assinale a alternativa correta:

a) ) Todas estão corretas.

(

b) ) II e III estão corretas.

(

c) ) I e II estão corretas.

(

d) ) I e IV estão corretas.

(

Leitura de Aprofundamento

Leitura de Aprofundamento A seguir, caro estudante, você tem um trecho do artigo de Cruz (2008,

A seguir, caro estudante, você tem um trecho do artigo de Cruz (2008, p. 1037-1038), intitulado “Processo de ensino-aprendizagem na sociedade da informação”, no qual o autor reflete sobre as novas características do saber. Esse texto o ajudará a entender que, desde os primeiros filósofos que atuaram na Grécia Antiga, muitas mudanças ocorreram na forma do ensino e da aprendizagem até chegarmos aos dias atuais.

Aprender na era da informação passou a depender, em grande parte,

da capacidade ativa e dinâmica de professores e alunos. Assim, o que temos que aprender na e da vida não é propriamente a resolver problemas, mas a administrá-

Por tudo isso, o conceito de aprendizagem precisa ser

ampliado, numa direção que articule objetividade e subjetividade, respeitando não só os conhecimentos prévios dos alunos como também outros aspectos ou processos psicológicos que agem como mediadores entre o ensino e os resultados da aprendizagem.

los com inteligência. [

]

Podemos dizer que, na sociedade da informação, aprende melhor quem descobre mais e mais profundos padrões. A aprendizagem está, principalmente, na habilidade de estabelecer conexões, revê-las e refazê-las. Com isso, a aprendizagem deixa de ser algo passivo para tornar-se uma obra de reconstrução permanente, dinâmica entre sujeitos que se influenciam mutuamente. É fundamental saber ler a realidade com acuidade, para nela saber intervir com autonomia. Em síntese, compreende-se que a aprendizagem na era das novas tecnologias da informação exige uma política de produção de si e do mundo.

Tudo isso mostra que a construção do saber na era da internet é uma prática de bricolagem em meio a um contexto rizomático, já que o processo de aprendizagem acontece graças à construção de link que se pode realizar entre as diversas fontes de informação e de saber, o que, naturalmente, viabiliza novos modos de construção de saber e de aprender. Portanto, pode-se destacar que a não- hierarquização, a descentralidade e a desterritorialidade do saber e da informação são características marcantes no processo de ensino-aprendizagem da sociedade da informação.

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 2: Filósofos Gregos Pré-Socráticos, Socráticos e Pós-Socráticos

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Referências ARANHA, Maria Lúcia Arruda et al. Filosofando : introdução à filosofia. 3. ed. São

Referências

ARANHA, Maria Lúcia Arruda et al. Filosofando: introdução à filosofia. 3. ed. São Paulo:

Editora Moderna, 2003.

CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2008.

CRUZ, José Marcos de Oliveira. Processo de ensino-aprendizagem na sociedade da informação. Educação e Sociedade, vol.29, n.105, p. 1023-1042, 2008.

MONDIN, Batista. Curso de Filosofia. São Paulo: Paulus, 1981. V.2.

TRIGO, Luiz Gonzaga Godoi. Pensamento filosófico: um enfoque educacional. São Paulo:

IBPEX, 2009.

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FILOSOFIA

Gabarito

Gabarito 1) Resposta: Sintetizar os pontos 2.2.2 (Sócrates), 2.2.3 (Platão) e 2.2.4 (Aristóteles). 2) Resposta: A

1) Resposta: Sintetizar os pontos 2.2.2 (Sócrates), 2.2.3 (Platão) e 2.2.4 (Aristóteles).

2) Resposta: A alternativa correta é a letra d, apenas I está correta. Ou seja, Heráclito e Parmênides são importantes representantes do período pré-socrático da filosofia grega. O seu interesse era descrever a essência do mundo. O primeiro dizia que tudo está em constante mudança, enquanto o segundo dizia que a essência do mundo é a imutabilidade, ou seja, nada muda.

3) Resposta: Alternativa c, I e II estão corretas. Ou seja, a cor do cabelo pode ser considerada um atributo acidental da substância humana; e a racionalidade é um atributo essencial da humanidade. A afirmação III está incorreta, pois os atributos acidentais são opcionais e não essenciais. Já a afirmação IV descreve os atributos acidentais.

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 2: Filósofos Gregos Pré-Socráticos, Socráticos e Pós-Socráticos

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Filosofia

Capítulo 3

Prof° Joel Haroldo Baade

FILOSOFIA NA IDADE MÉDIA

Objetivos de Aprendizagem:

Compreender a reflexão filosófica durante a Idade Média a partir das mudanças na sociedade;

Analisar o pensamento de Agostinho e Boécio na Alta Idade Média;

Estudar a filosofia escolástica e as suas críticas na Baixa Idade Média.

de Agostinho e Boécio na Alta Idade Média; Estudar a filosofia escolástica e as suas críticas
de Agostinho e Boécio na Alta Idade Média; Estudar a filosofia escolástica e as suas críticas

Introdução

Introdução A Idade Média compreende um período histórico de mais de mil anos, estendendo- se desde

A Idade Média compreende um período histórico de mais de mil anos, estendendo- se desde a queda do Império Romano no século V até o século XV, com as expansões turcas. Durante esse longo período, o interesse da filosofia, que se desenvolveu estreitamente ligada à religião, teve o seu interesse voltado para o além, para o céu, para o divino.

Ainda durante o Império Romano, o cristianismo já experimentou um crescimento bastante significativo, embora fosse uma religião perseguida durante quase três séculos, até

o ano 313, quando o imperador Constantino o tornou uma religião legal. Em 390, ele se tornou

a religião oficial do Império. Antes disso, porém, era visto como uma ameaça, pois os cristãos se recusavam a prestar o culto ao imperador, que era sinal de fidelidade ao Estado. Esta realidade de perseguição, martírio e morte fez com que se desenvolvesse uma mentalidade muito particular, quase totalmente voltada para o além. O cotidiano dos cristãos no Império Romano não oferecia grandes perspectivas e as esperanças dessas pessoas foram sendo depositadas progressivamente para uma vida depois da morte, no paraíso.

Saiba Mais!
Saiba Mais!

Dica de Filme: Santo Agostinho – O declínio do Império Romano

Dois movimentos filosóficos caracterizam a Idade Média, um no início, a Patrística;

e outro no final, a Escolástica. Vejamos a seguir cada um deles.

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 3: Filosofia na Idade Média

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3.1 Filosofia na Alta Idade Média: Patrística A Patrística desenvolveu-se no período de decadência do

3.1 Filosofia na Alta Idade Média:

Patrística

A Patrística desenvolveu-se no período de decadência do Império Romano, no segundo século da era cristã. Nessa época, o cristianismo experimentou uma grande expansão e a preocupação desses cristãos foi a defesa da fé cristã diante das heresias. Esses defensores da fé são também chamados de Pais da Igreja e a sua forma de usar a filosofia

é conhecida como apologética. Durante toda a Idade Média, aliás, a razão foi subordinada

à fé; ela foi feita uma auxiliar da fé cristã. Segundo Aranha e Martins (2003), disso decorre a expressão de Agostinho “Credo ut intelligam”, que significa “Creio para que possa entender”, ou seja, a fé vem antes do conhecimento e da razão.

Santo Agostinho

O principal expoente da Patrística é Santo Agostinho, que viveu entre os anos 354

e 430, na cidade de Hipona, no norte da África (atual Argélia), onde foi bispo. A principal

característica do pensamento dos pais da igreja é a síntese entre o pensamento filosófico grego e a doutrina cristã. Nesse sentido, o pensamento que mais parecia adaptável à fé cristã era a teoria platônica do mundo sensível e do mundo das ideias, sobre a qual falamos acima. A única alteração que Agostinho propôs foi a substituição do mundo das ideias pelo mundo das ideias divinas. Para Agostinho, a verdade está no recebimento das ideias divinas; somente Deus poderia oferecer o verdadeiro conhecimento e apenas a fé seria a garantia do

pensar correto. Esta teoria ficou conhecida como teoria da iluminação (ARANHA; MARTINS,

2003).

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 3: Filosofia na Idade Média

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Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró A síntese feita pelos pais da igreja entre a fé e
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró A síntese feita pelos pais da igreja entre a fé e

A síntese feita pelos pais da igreja entre a fé e a filosofia levou a um afastamento profundo entre a razão e a realidade social e cotidiana. Desenvolveu-se, nesse contexto, um pensamento filosófico distante da vida, totalmente voltado para uma esfera sobrenatural. A preocupação desses pensadores era atingir a essência de Deus; explicar como ele é e como funciona. Este esforço é visível, por exemplo, na obra “A Trindade” de Santo Agostinho. Neste livro, Agostinho expõe a doutrina da trindade, procurando demonstrar logicamente como ela pode ser observada ao longo dos relatos da bíblia. A reflexão em “A trindade” é totalmente desvinculada da realidade social.

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Livro - “A Trindade” de Santo Agostinho

Outro expoente da primeira fase da Idade Média é Severino Boécio

Severino Boécio

Boécio é o último representante do pensamento clássico. Depois que o Império Romano caiu em 476, também a cultura e a filosofia gradualmente perderam o seu esplendor.

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FILOSOFIA

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró Entre as principais contribuições de Boécio para o pensamento no ocidente

Entre as principais contribuições de Boécio para o pensamento no ocidente estão as muitas traduções que fez para o latim dos clássicos da filosofia, entre as quais encontramos obras de Platão e Aristóteles.

entre as quais encontramos obras de Platão e Aristóteles. Na sua reflexão filosófica, Boécio deixou valiosas

Na sua reflexão filosófica, Boécio deixou valiosas contribuições para a teologia que

o sucederia. Ele propôs inúmeras distinções de conceitos filosóficos que contribuíram para

a estruturação da teoria do conhecimento nos séculos seguintes. É nele que encontramos

a ideia de que Deus é diferente das criaturas em diversos sentidos. Desse modo, segundo

Boécio, seria necessário empregar conceitos filosóficos distintos para descrever Deus e os seres humanos e o mundo em que vivem.

A sua principal obra é “Sobre o consolo pela filosofia”, na qual discute a pergunta sobre a Providência divina. A pergunta a partir da qual desenvolve a sua reflexão é “como admitir a providência divina se os maus são premiados e os bons, punidos?”(MONDIN, 1981, p. 153).

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Segundo o dicionário (http://www.dicio.com.br), providência significa:

Prevenção, disposição prévia dos meios necessários para conseguir um fim, para evitar um mal ou para remediar alguma necessidade. Teologia: A suprema sabedoria atribuída a Deus, com que ele governa todas as coisas. (Nesta acepção, grafa-se com inicial maiúscula.) Acontecimento feliz.

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 3: Filosofia na Idade Média

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Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró Com seus trabalhos, Boécio foi fundamental para ligar a fé cristã

Com seus trabalhos, Boécio foi fundamental para ligar a fé cristã e a filosofia, mas sempre pôs a fé em primeiro lugar, assemelhando-se a Agostinho neste ponto.

A tendência da filosofia desenvolvida na Alta Idade Média foi aprofundada pelo

movimento filosófico que se sucedeu, ou seja, a escolástica, sobre a qual falaremos no próximo ponto desse capítulo.

3.2 Filosofia na Baixa Idade Média:

Escolástica

Prezado estudante, como vimos no ponto anterior, a primeira parte da Idade Média, conhecida como Alta Idade Média, foi caracterizada pelo pensamento neoplatônico- agostiniano. Na segunda parte da Idade Média, ou na Baixa Idade Média, pode-se destacar a influência da filosofia de Aristóteles na reflexão cristã. O que permanece inalterado nos dois períodos é a tentativa de conciliar a filosofia clássica com a fé cristã.

É importante ressaltar que, durante a Idade Média, o saber foi confinado aos

mosteiros e somente os religiosos tinham acesso a ele. Depois que o Império Romano se esfacelou, as cidades gradualmente se tornaram um local de insegurança, miséria e fome; o comércio decresceu e, gradativamente, a população espalhou-se pelo território. Houve, assim, uma ruralização da população. Nesse contexto, os mosteiros se tornaram os únicos lugares onde se conservavam livros e onde havia educação. As cidades voltariam a crescer somente a partir do século XI e, com elas, a vida cultural e intelectual sofreria novos impulsos. Entre essas inovações, está a retomada do pensamento de Aristóteles.

sofreria novos impulsos. Entre essas inovações, está a retomada do pensamento de Aristóteles. 6 8 68

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FILOSOFIA

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró Santo Tomás de Aquino e a Escolástica Por um longo período,

Santo Tomás de Aquino e a Escolástica

Wollmann Figueiró Santo Tomás de Aquino e a Escolástica Por um longo período, Aristóteles foi visto

Por um longo período, Aristóteles foi visto com desconfiança pelos filósofos cristãos, pois as suas ideias lhes pareciam pouco adaptáveis à fé cristã. Foi Santo Tomás de Aquino, que viveu de 1225 a 1274, quem resgatou o pensamento aristotélico e o combinou com a reflexão cristã (TRIGO, 2009). O trabalho desse filósofo cristão consistiu em boa medida na aplicação da lógica aristotélica às teorizações sobre a fé, o que levou à construção de uma doutrina cristã extremamente complexa. Entre as vantagens do seu trabalho está a construção de um sistema lógico e argumentativo muito consistente; por outro lado, a lógica aristotélica reserva pouco ou nenhum espaço para a inovação. O pensamento tomista será reproduzido principalmente por padres dominicanos e jesuítas, que serão duramente criticados nos períodos posteriores pela sua intransigência e adversidade à inovação científica (ARANHA; MARTINS, 2003). Este, contudo, é um assunto para o próximo capítulo.

A grande contribuição do pensamento de Tomás de Aquino para a reflexão filosófica e, posteriormente, para o pensamento científico, está no rigor que ele exige da pessoa que se dispõe a filosofar. Assim, embora as suas conclusões não sejam o foco de análise da filosofia posterior, o seu método servirá de referência e ponto de partida para toda a construção científica posterior. Tomás de Aquino estabeleceu um novo paradigma para o fazer filosófico, qual seja, o de que toda afirmação precisa ser analisada nos mínimos detalhes.

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 3: Filosofia na Idade Média

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A questão dos universais No final da Idade Média, teve lugar uma discussão que diz

A questão dos universais

No final da Idade Média, teve lugar uma discussão que diz respeito à validade dos conceitos universais (CHAUI, 2008). Até então, partia-se do pressuposto de que todos os conceitos correspondiam exatamente aos objetos que pretendiam descrever. Vamos

analisar alguns exemplos para entender melhor a problemática. A palavra “ser humano”, por exemplo, é um conceito universal, pois pretende descrever uma coletividade de sujeitos

individuais. Então, o que existe são as individualidades (O João, a Maria, o José existe o objeto “ser humano”; este é apenas uma forma de representação.

), mas não

Essa discussão foi iniciada pelo filósofo Boécio, que traduziu a lógica de Aristóteles

no século VI, mas a polêmica sobre a questão dos universais foi mais acentuada nos séculos

XI

e XII.

Outroexemplosãoasdesignaçõesdegêneroeespécie.Aespécie,comoporexemplo,

“o

cão” ou então o gênero como “os animais” têm realidade ou são apenas palavras? A partir

dessa discussão, surge a dúvida de quais conceitos correspondiam a objetos propriamente ditos e quais eram apenas construções conceituais empregadas pelo ser humano para dar uma forma para a realidade. Na tentativa de responder a estas questões, surgiram três respostas distintas: o realismo, o nominalismo e o conceptualismo.

Realismo

Os realistas acreditavam que os conceitos universais têm uma existência objetiva, são realidade. Ou seja, os conceitos universais são coisas mesmo e não meros conceitos de nossas mentes. Alguns representantes dessa tendência são Santo Anselmo, no século XI, e Guilherme de Champeaux, no século XII. Nessa corrente de pensamento, é bastante forte a influência da teoria de Platão

sobre o mundo das ideias. Santo Tomás de Aquino é adepto desta tendência, embora tenha uma postura mais moderada. Segundo ele, os conceitos universais só existem formalmente no espírito, ou seja, na mente humana, mas tem fundamento nas coisas concretas. Os realistas são adeptos da tradição e da igreja. Insistir na concreticidade das ideias significava assegurar a natureza concreta do próprio Deus. E, por outro lado, aceitar que os conceitos eram apenas produtos das nossas ideias, era a mesma coisa que admitir que Deus pudesse ser produto da mente humana. Por isso, insistiam com vigor na existência

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

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FILOSOFIA

concreta dos conceitos formulados pela filosofia, que, naquele momento histórico, era serva da fé e

concreta dos conceitos formulados pela filosofia, que, naquele momento histórico, era serva da fé e da teologia (ARANHA; MARTINS, 2003).

Contudo, muitos pensadores não aceitaram a concepção realista. A oposição foi feita pelo nominalismo.

Nominalismo

Para os nominalistas, os conceitos universais são apenas a expressão em nomes de conteúdos da nossa mente. Desse modo, eles são apenas palavras, que não possuem nenhuma realidade correspondente no mundo concreto. Um adepto

desta tendência é, por exemplo, o filósofo Roscelino, no século XI. Os nominalistas encarnam as novas tendências do pensamento humano, que começaram

a ganhar força a partir do século XI, quando também as cidades europeias voltaram a crescer. É uma

mentalidade mais racional e burguesa, que ganhará força nos séculos seguintes e passará a ser dominante na modernidade. Para esta nova tendência, o mundo individual é mais real, o indivíduo torna-se o centro da preocupação filosófica. Tudo aquilo que se refere

a verdades universais e eternas perde importância.

Como vimos no ponto anterior, os universais estão mais identificados com a fé e com a igreja, que fundamentam a sua autoridade na tradição. Para

os nominalistas, não existe verdade eterna, apenas

o indivíduo é responsável pelo mundo em que vive (ARANHA; MARTINS, 2003).

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

O realismo e o nominalismo foram duas posturas opostas, marcadas pelo radicalismo.

Houve também quem preferisse uma posição mais ponderada, como os conceptualistas.

Conceptualismo

O conceptualismo foi uma posição intermediária entre o nominalismo e o realismo.

Um dos representantes desta corrente filosófica foi Pedro Abelardo, que viveu no século XII. Para os conceptualistas, os universais são conceitos, como entidades mentais.

FILOSOFIA - Capítulo 3: Filosofia na Idade Média

FILOSOFIA

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Saiba Mais! Filme : Em nome de Deus O filme conta a história do religioso
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Filme: Em nome de Deus

O filme conta a história do religioso Pedro Abelardo e de uma jovem chamada Heloisa, por quem ele se apaixona. A história se passa no século XII.

As tendências nominalistas do século XI reapareceram na filosofia no século XIV com o pensador inglês Guilherme de Ockam.

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Em alguns livros o nome de Guilherme de Ockam aparece como “Occam”.

Guilherme de Ockam

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

Guilherme de Ockam é considerado o último grande filósofo da Idade Média e, ao mesmo tempo, é o precursor do pensamento filosófico da modernidade, sobre o qual falaremos no próximo capítulo desta disciplina. Através da sua obra, abalou os fundamentos da filosofia medieval, pois recusou o valor universal do conhecimento humano e também criticou a harmonia entre fé e razão.

Para Ockam (apud MONDIN, 1981, p. 202),

Real é somente o que existe, e existe só o que é individualmente distinto, e é individualmente distinto somente o que é fisicamente separável.

Com essa afirmação, ele inicia também a contestação da lógica aristotélica, que era o critério de verdade aceito por toda a Idade Média. Verdade era, até então, o que era logicamente estruturado e coerente, mas que não dependia de uma comprovação física. Para Ockam, por sua vez, a verdade passa a depender da experiência física.

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FILOSOFIA

Ockam também deixou algumas contribuições para a reflexão política. Segundo Mondin (1981, p. 202). Em

Ockam também deixou algumas contribuições para a reflexão política. Segundo Mondin (1981, p. 202).

Em política, Occam foi um tenaz defensor da independência do Estado em relação à Igreja. Atacou o absolutismo do Papa, afirmando que a autoridade imperial não vem do Papa, mas dos eleitores, os quais representam o povo, no qual reside a autoridade. A autoridade política vem de Deus através do povo. Por isso, para a eleição do imperador não é necessária nem mesmo a confirmação do Papa.

Prezado estudante, imagine os impactos de tal afirmação num contexto social e político em que a igreja era considerada a única detentora da verdade. Ockam, nesse sentido, expôs conceitos revolucionários para a sua época.

No próximo capítulo, veremos como ideias semelhantes às de Guilherme de Ockam ganharam maior força e levaram a uma completa reestruturação da filosofia.

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FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 3: Filosofia na Idade Média

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Resumo Neste capítulo, estudamos as principais tendências da filosofia durante a Idade Média. Vimos, inicialmente,

Resumo

Neste capítulo, estudamos as principais tendências da filosofia durante a Idade Média. Vimos, inicialmente, que o contexto histórico do Império Romano e, especialmente, o seu declínio representaram grande influência no modo de pensar das pessoas. Durante esse período, houve um gradativo deslocamento das mentalidades para uma esfera sobrenatural. Nesse sentido, a fé se sobrepôs à filosofia, tornando esta a sua serva.

Vimos ainda que a Idade Média pode ser dividida em dois períodos distintos,

a Alta Idade Média e a Baixa Idade Média. Na Alta Idade Média, destacaram-se filósofos

cristãos como Santo Agostinho e Boécio. Cada uma deixou contribuições muito valiosas, principalmente para a teologia. Eles foram fundamentais para que a relação entre fé e razão se consolidasse. O pensamento de Agostinho e Boécio foi bastante marcado pela filosofia de Platão, embora Boécio também tenha sofrido influências de Aristóteles. Boécio fez muitas traduções dos filósofos clássicos, tornando-os acessíveis para os pensadores da Idade Média que o sucederiam.

Na Baixa Idade Média, por sua vez, foi maior a influência do pensamento de Aristóteles. O principal pensador do período foi Tomás de Aquino, que fez amplo uso da lógica de Aristóteles e a aplicou à fé cristã. O trabalho de Tomás de Aquino ficou conhecido como escolástica, que é a exposição de todos os conteúdos da fé cristã dentro dos princípios da lógica.

Vimos também que uma importante discussão no final da Idade Média disse respeito à validade dos conceitos universais. Nesse sentido, foram três as respostas que

seu deu ao problema. Os realistas, representantes da igreja e da tradição, acentuaram que os conceitos universais têm existência real, pois consideravam que a própria existência de Deus dependia disso. Os nominalistas, ao contrário, encarnando as novas tendências do pensamento humano, acentuavam que os universais são apenas conceitos em nossa mente

e não têm realidade alguma. Os conceptualistas, por sua vez, procuraram traçar um caminho intermediário.

Marcando o final do pensamento característico da Idade Média, podemos mencionar

o nome do filósofo Guilherme de Ockam. Ele faz críticas ao pensamento de Tomás de Aquino

e já apresenta traços que valorizam muito mais a participação do indivíduo na concepção do conhecimento. Este é cada vez menos algo pronto, determinado por um ser sobrenatural, para se tornar algo concebido pelo próprio ser humano.

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FILOSOFIA

Atividade de Fixação* Com base no estudo feito nesse capítulo, faça os seguintes exercícios: 1.
Atividade de Fixação* Com base no estudo feito nesse capítulo, faça os seguintes exercícios: 1.
Atividade de Fixação*
Com base no estudo feito nesse capítulo, faça os seguintes exercícios:
1. Caracterize o contexto histórico do início da Idade Média.
2. O pensamento filosófico da Idade Média se caracterizou pela união entre
fé e razão. Nos diferentes períodos da Idade Média, foram empregados
distintas teorias filosóficas clássicas. Nesse sentido, considere as
afirmações abaixo:
I)
A
filosofia
de
Santo
Agostinho
foi
inteiramente
norteado
pelo
pensamento lógico de Aristóteles.
II)
Inicialmente, foi considerado que a filosofia de Platão era mais adaptável
à fé cristã. Nesse sentido, Agostinho vai identificar o mundo das ideias de
Platão com o mundo das ideias divinas.
III)
Tomás de Aquino pode ser considerado um filósofo neoplatônico.
IV) Guilherme de Ockam foi discípulo de Aristóteles e contribuiu para a
disseminação do pensamento filosófico do seu mestre.
V)
O pensamento de Guilherme de Ockam marca o final da Idade Média e
é caracterizado por acentuada oposição ao pensamento tomista.
Assinale a alternativa CORRETA:
a)
(
) I, II, IV e V estão corretas.
b)
(
) II e V estão corretas.
c)
(
) Todas estão corretas.
d)
(
) Nenhuma está correta.
3.
Caracterize as três tendências filosóficas que surgiram em resposta à
pergunta sobre os conceitos universais.

(*) Os exercícios contidos nesta apostila são somente para fixação de conteúdo, não é necessária a entrega dos mesmos.

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 3: Filosofia na Idade Média

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Leitura de Aprofundamento

Leitura de Aprofundamento Como leitura de aprofundamento para este capítulo, sugerimos o texto do professor Márcio

Como leitura de aprofundamento para este capítulo, sugerimos o texto do professor Márcio Ferrari (2012), publicado no Portal Nova Escola.

Tomás de Aquino - O Pregador da Razão e da Prudência

Márcio Ferrari

Depoisdeoitoséculosmarcadosporumafilosofiavoltadaparaaresignação, a intuição e a revelação divina, a Idade Média cristã chegou a um ponto de tensão ideológica que levou à inversão quase total desses princípios. O personagem-chave da reviravolta foi São Tomás de Aquino (1224/5-1274), o grande nome da filosofia escolástica, cujo pensamento privilegiou a atividade, a razão e a vontade humana.

Numa época em que a Igreja ainda buscava em Santo Agostinho (354- 430) e seus seguidores grande parte da sustentação doutrinária, Tomás de Aquino formulou um amplo sistema filosófico que conciliava a fé cristã com o pensamento do grego Aristóteles (384-322 a. C.) - algo que parecia impossível, até herético, para boa parte dos teólogos da época. Não se tratava apenas de adotar princípios opostos aos dos agostinianos - que se inspiravam no idealismo de Platão (427- 347 a. C.) e não no realismo aristotélico - mas de trazer para dentro da Igreja um pensador que não concebia um Deus criador nem a vida após a morte.

A porção mais influente da obra de Aristóteles havia desaparecido das bibliotecas da Europa, embora tivesse sido preservada no Oriente Médio. Ela só começou a reaparecer no século 12, principalmente por meio de comentadores árabes, conquistando grande repercussão nos círculos intelectuais. As ideias de Aristóteles respondiam melhor aos novos tempos do que o neoplatonismo. Vivia- se o período final da Idade Média e a transição de uma sociedade agrária para um modo de produção mais orientado para as cidades e a atividade comercial. Avanços tecnológicos, principalmente relacionados aos instrumentos de trabalho, começavam a influir na vida das pessoas comuns e os trabalhadores urbanos se organizavam em corporações (guildas).

Valorização da matéria

Aristóteles, em sua obra, punha a razão e a investigação intelectual em primeiro plano. A realidade material era considerada a fonte primordial de conhecimento científico e mesmo de satisfação pessoal. “Tomás afirma que há

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 3: Filosofia na Idade Média

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no ser humano uma alma única, intrinsecamente unida ao corpo”, diz Luiz Jean Lauand, professor

no ser humano uma alma única, intrinsecamente unida ao corpo”, diz Luiz Jean Lauand, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. “Era uma ideia revolucionária para uma época marcada pelo espiritualismo de Santo Agostinho, que trazia consigo certo desprezo pela matéria.”

Tomás de Aquino realizou um trabalho monumental numa vida relativamente curta. Sua obra mais importante, apesar de não concluída, é a Suma Teológica, na qual revê a teologia cristã sob a nova ótica, seguindo o princípio

aristotélico de que cabe à razão ordenar e classificar o mundo para entendê-lo. Eis

o princípio operacional do tomismo, como é chamada a filosofia inaugurada por Tomás de Aquino.

A relação entre razão e fé está no centro dos interesses do filósofo. Para ele, embora esteja subordinada à fé, a razão funciona por si mesma, segundo as próprias leis. Ou seja, o conhecimento não depende da fé nem da presença de uma verdade divina no interior do indivíduo, mas é um instrumento para se aproximar de Deus. “Segundo Tomás, a inteligência é uma potência espiritual”, afirma Lauand.

Essência a desenvolver

De acordo com o filósofo, há dois tipos de conhecimento: o sensível, captado pelos sentidos, e o intelectivo, que se alcança pela razão. Pelo primeiro tipo, só se pode conhecer a realidade com a qual se tem contato direto. Pelo

segundo, pode-se abstrair, agrupar, fazer relações e, finalmente, alcançar a essência das coisas, que é o objeto da ciência. O processo de abstração que vai da realidade concreta até a essência universal das coisas é um exemplo da dualidade entre ato

e potência, princípio fundamental tanto para Aristóteles quanto para a filosofia escolástica.

Para extrair das coisas sua essência, é necessário transformar em ato algo que elas têm em potência. Disso se encarrega o que Tomás de Aquino chama de inteligência ativa - em complementação a uma inteligência passiva, com a qual cada um pode formar os próprios conceitos. A ideia, transportada para a educação, introduz um princípio pedagógico moderno e revolucionário para seu tempo: o de que o conhecimento é construído pelo estudante e não simplesmente transmitido pelo professor. “Tomás nos lega uma filosofia cuja característica principal é uma abertura para o conhecimento e para o aluno”, diz Lauand.

Como o filósofo vê em todo ser a potência e o ato (apenas Deus está acima da

dicotomia, sendo“ato puro”), a noção de transformação por meio do conhecimento

é fundamental em sua teoria. Cada ser humano, segundo ele, tem uma essência

particular, à espera de ser desenvolvida, e os instrumentos fundamentais para isso

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FILOSOFIA

são a razão e a prudência - esse, para Tomás de Aquino, era o caminho

são a razão e a prudência - esse, para Tomás de Aquino, era o caminho da felicidade

e também da conduta eticamente correta.

“A direção da vida é competência da pessoa e Tomás mostra que não há receitas para agir bem, porque a prudência versa sobre atos situados no aqui e agora”, declara Lauand.

Cidades ganham importância e novas escolas

Com sua teoria do conhecimento, que“convoca”a vontade e a iniciativa de cada um na direção do aperfeiçoamento, São Tomás de Aquino legou à educação sobretudo a ideia de autodisciplina. Foi essa a marca do ensino cristão, que alcançaria sua máxima eficiência, em termos de doutrinação, com os jesuítas, já no século 16. Embora a obra de Tomás de Aquino apontasse para o autoaprendizado,

a ideia não foi abraçada pelas rígidas hierarquias da Igreja Católica. No período em

que o filósofo viveu, a religião seguia sendo a principal fonte de instrução, como em toda a Idade Média. Sobreviviam as escolas monásticas em mosteiros afastados da cidade, que inicialmente visavam a formação de monges, mas depois também de leigos das classes proprietárias. Com o surgimento da economia mercantil nas cidades, aparecem também as escolas episcopais, urbanas, destinadas a formar o clero secular (aquele que participava da vida social) e leigos. A palavra latina schola ganhou, nessa época, o significado de centro de encontro e de estudos. Vem daí o adjetivo escolástico, relativo à filosofia da época.

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 3: Filosofia na Idade Média

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Referências ARANHA, Maria Lúcia Arruda et al. Filosofando: introdução à filosofia. 3. ed. São Paulo:

Referências

ARANHA, Maria Lúcia Arruda et al. Filosofando: introdução à filosofia. 3. ed. São Paulo:

Editora Moderna, 2003.

CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2008.

FERRARI, Márcio. Tomás de Aquino - o pregador da razão e da prudência. Disponível em:

<http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-pedagogica/tomas-aquino-428112.

shtml?page=0>. Acesso em 31 out. 2012.

MONDIN, Batista. Curso de Filosofia. São Paulo: Paulus, 1981. V.2.

TRIGO, Luiz Gonzaga Godoi. Pensamento filosófico: um enfoque educacional. São Paulo:

IBPEX, 2009.

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FILOSOFIA

Gabarito

Gabarito 1) Resposta: Elaborar uma síntese a partir do item 3.1. 2) Resposta: Alternativa b. 3)

1) Resposta: Elaborar uma síntese a partir do item 3.1.

2) Resposta: Alternativa b.

3) Resposta:

Realismo: Os realistas acreditavam que os conceitos universais têm uma existência objetiva, são realidade. Ou seja, os conceitos universais são coisas mesmo e não meros conceitos de nossas mentes;

Nominalismo: Para os nominalistas, os conceitos universais são apenas a expressão em nomes de conteúdos da nossa mente. Desse modo, eles são apenas palavras, que não possuem nenhuma realidade correspondente no mundo concreto;

Conceptualismo: Foi uma posição intermediária entre o nominalismo e o realismo. Para os conceptualistas, os universais são conceitos, como entidades mentais.

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FILOSOFIA - Capítulo 3: Filosofia na Idade Média

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Filosofia

Capítulo 4

Prof° Joel Haroldo Baade

CONTEXTO HISTÓRICO DO SÉCULO XVI E O SEU SIGNIFICADO PARA A FILOSOFIA

Objetivos de Aprendizagem:

Compreender o contexto histórico do século XVI e a sua importância para a filosofia;

Analisar a revolução científica e as reformas religiosas e a suas implicações para a reflexão filosófica;

Entender a mudança de mentalidade ocorrida no século XVI.

e a suas implicações para a reflexão filosófica; Entender a mudança de mentalidade ocorrida no século
e a suas implicações para a reflexão filosófica; Entender a mudança de mentalidade ocorrida no século

Introdução

Introdução O século XVI representou uma reviravolta na história do ocidente em praticamente todas as esferas

O século XVI representou uma reviravolta na história do ocidente em praticamente todas as esferas do pensamento. Foi um período de profundas transformações, de quebra de paradigmas, de descobertas, de inovação, enfim, foi um tempo de muitas e significativas mudanças. Embora todas as épocas da história sejam marcadas pela mudança, o século XVI se sobressai devido ao impacto profundo que as transformações do período têm para a organização da vida humana nos períodos posteriores.

Contudo, essas mudanças não aconteceram de modo repentino. Nesse sentido, conforme Trigo (2009, p. 126), o contexto histórico do século XVI não resulta do acaso e tampouco representa uma mudança ocorrida da noite para o dia:

A modernidade não aparece de repente da história como um portal que se

abre repentinamente para novos mundos e estilos de vida. É um processo lento que se inicia com o desenvolvimento da técnica das navegações, do comércio, do aperfeiçoamento dos métodos de construção civil, do cálculo matemático

e, principalmente, da experimentação. O sentido da experiência foi um dos

grandes saltos entre o mundo medieval e o mundo moderno. Está aí a origem do pensamento científico.

As palavras “moderno” e “modernidade” têm muitas significações e são empregadas das mais variadas formas. Aqui, vamos usá-las para nos referirmos ao período histórico em torno do século XVI, que trouxe grandes mudanças para todas as esferas do conhecimento humano. Ao longo deste tópico, vamos nos ocupar com estas mudanças e perguntar o que elas representaram e ainda representam para o pensamento filosófico e sociológico.

Para compreender o período, vamos iniciar com uma breve análise do contexto histórico do século XVI e ver quais foram as mudanças mais significativas desse período, ressaltando aquelas que foram decisivas para o surgimentos de novas formas de pensar. Veremos que muitos dos fatores que contribuíram para o surgimento da filosofia lá na Grécia antiga irão se repetir na modernidade. Uma das características da modernidade é a recuperação da antiguidade grega, por isso o período também é chamado de Renascença.

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 4: Filosofia na Modernidade e Iluminismo

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4.1 Contexto Uma das grandes mudanças ocorridas nesse momento histórico da humanidade foi a transformação

4.1 Contexto

Uma das grandes mudanças ocorridas nesse momento histórico da humanidade foi a transformação da cosmologia.

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Saiba Mais!

A Cosmologia é a ciência que pesquisa o nascimento, o progresso e a disposição estrutural do Universo, sempre com base no método teórico-experimental, próprio da Ciência. Esta expressão vem do grego cosmos, ordem, mundo, e logos, discurso, estudo. Ela procura compreender o Cosmos no seu todo, englobando um campo semelhante ao observado pela Astrofísica, que pertence à esfera da Astronomia e estuda o Universo a partir das teorias físicas (SANTANA, 2008).

Até aquele momento histórico, a visão dominante que se tinha do universo era a de que o mundo era plano e que, no oceano, além da linha do horizonte, ele acabaria num grande abismo. Além disso, achava-se que a Terra era o centro do universo. No século XVI, com as grandes navegações e com as novas descobertas das ciências que estão nascendo, comprovou-se que a Terra é uma esfera e que ela, na realidade, ocupa lugar periférico e quase insignificante diante da vastidão do universo.

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 4: Filosofia na Modernidade e Iluminismo

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Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró As navegações transoceânicas, longe da costa, onde não havia referência
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró As navegações transoceânicas, longe da costa, onde não havia referência
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró As navegações transoceânicas, longe da costa, onde não havia referência
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

As navegações transoceânicas, longe da costa, onde não havia referência para que os barcos não se perdessem, exigiram métodos mais sofisticados de navegação. Consequentemente, houve a necessidade de cálculos matemáticos mais precisos a fim de garantir a chegada ao destino planejado. Além disso, ao enfrentarem águas desconhecidas e, muitas vezes, turbulentas, os novos barcos precisaram ter estruturas e incorporar técnicas de construção melhores (TRIGO, 2009). As navegações ajudaram a comprovar através da experiência o que as ciências afirmavam na teoria.

O século XVI foi a época das grandes navegações, que levaram à ocupação dos territórios antes povoados somente por populações indígenas. É o tempo da “descoberta” das Américas, de Cristóvão Colombo, de Vasco da Gama, de Américo Vespúcio e outros. Eles foram navegadores que se lançaram em direção ao desconhecido, contribuindo decisivamente para que se chegasse a uma nova visão de mundo.

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FILOSOFIA

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Saiba Mais!
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Se você deseja saber mais sobre o período das grandes navegações, há uma boa dica de filme, trata-se da obra “1492 - A Conquista do Paraíso”.

Outro fator importante responsável pelas mudanças de mentalidade no século

XVI foi a invenção da imprensa por Gutemberg. Até aquele momento histórico, todo

conhecimento era preservado em livros copiados de modo manual. Durante a Idade Média,

esse trabalho de cópia era realizado por religiosos nos mosteiros. O processo de cópia manual

era lento e suscetível a muitos erros. A solução proposta por Gutemberg foi a montagem das páginas para impressão sobre uma forma empregando tipos móveis. Os tipos móveis eram pequenos cubos de metal com os símbolos a serem impressos em alto relevo em um dos lados. Após montados sobre a forma e impregnados com tinta, a folha de papel era posta

sobre eles e aplicava-se pressão, imprimindo a página no papel (RIBEIRO, 2008).

pressão, imprimindo a página no papel (RIBEIRO, 2008). FILOSOFIA FILOSOFIA - Capítulo 4: Filosofia na Modernidade
pressão, imprimindo a página no papel (RIBEIRO, 2008). FILOSOFIA FILOSOFIA - Capítulo 4: Filosofia na Modernidade
pressão, imprimindo a página no papel (RIBEIRO, 2008). FILOSOFIA FILOSOFIA - Capítulo 4: Filosofia na Modernidade

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 4: Filosofia na Modernidade e Iluminismo

a página no papel (RIBEIRO, 2008). FILOSOFIA FILOSOFIA - Capítulo 4: Filosofia na Modernidade e Iluminismo
a página no papel (RIBEIRO, 2008). FILOSOFIA FILOSOFIA - Capítulo 4: Filosofia na Modernidade e Iluminismo

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A nova técnica de reprodução permitiu um enorme ganho de agilidade. Uma página, após os

A nova técnica de reprodução permitiu um enorme ganho de agilidade. Uma

página, após os tipos móveis terem sido montados sobre a forma, demandava apenas alguns segundos para ser produzida.

Além disso, os estudos científicos do período foram determinantes para essa mudança de compreensão do
Além disso, os estudos científicos do período foram determinantes para essa
mudança de compreensão do universo.
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

4.2 Revolução Científica

O modelo de Universo que coloca a Terra em seu centro pode ser adequado à

religião e à teologia, mas sugere uma série de problemas matemáticos difíceis de serem resolvidos. Diante dessas questões, por exemplo, Nicolau Copérnico sugeriu que o centro do Universo era o Sol e que os planetas giravam ao seu redor em órbitas circulares e uniformes. Copérnico era monge e sabia que a sua teoria representaria um escândalo para a igreja. O problema não residia na teoria propriamente dita, mas ela implicava uma discussão sobre a autoridade. Ou seja, admitir que a teoria heliocêntrica, que coloca o Sol no centro do universo, estava correta e não as afirmações feitas até então pela igreja, representava também a aceitação de outro princípio de verdade, alheio à igreja. A religião afirmava que a verdade estava única e exclusivamente com ela. Por essa razão, Copérnico publicou os seus estudos somente à beira da morte (TRIGO, 2009).

Para Trigo (2009), outra contribuição decisiva para a consolidação da teoria heliocêntrica foram os estudos dos astrônomos Tycho Brahe (1546-1601) e Johannes Kepler (1571-1630). Os dois viveram e trabalharam em Praga, capital da atual República Tcheca. A importância do primeiro está na geração de uma enorme quantidade de dados a respeito

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Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró da localização de estrelas, lua e planetas ao longo de um

da localização de estrelas, lua e planetas ao longo de um extenso período de tempo. Ele passava noites em claro anotando a localização dos astros em tabelas.

em claro anotando a localização dos astros em tabelas. O sextante foi o instrumento usado por

O sextante foi o instrumento usado por Brahe para a compilação das suas coleções de dados. Ele também era usado pelos navegantes para determinar a sua localização em meio ao oceano.

Johannes Kepler, por sua vez, utilizou os dados de Brahe e determinou que os planetas viajavam ao redor do Sol em rotas elípticas e não circulares como havia afirmado Copérnico. As teorias de Brahe e Kepler também ajudaram a mostrar que o Universo não é tão ordenado, preciso e harmônico quanto se imaginava.

Duas outras contribuições determinantes para a consolidação da teoria heliocêntrica foram os estudos de Galileu Galilei e Isaac Newton. Além dos movimentos dos planetas e da centralidade do Sol, Galileu (1564-1642) estabeleceu ainda que a Terra gira em torno do próprio eixo. Por causa dos seus estudos, ele foi duramente perseguido, julgado e condenado pela Santa Inquisição. Para preservar a própria vida, negou as suas teorias e comprometeu- se a nunca mais afirmá-las. Mesmo assim, as teorias de Galileu se espalharam rapidamente e acharam grande número de leitores.

Personalidade ainda mais conhecida na história da ciência é Isaac Newton (1642- 1727). O desafio que ele se propôs a resolver foi determinar qual seria a força que mantém a unidade do universo. Nesse contexto, é famosa a história do pomar de maçãs, no qual um fruto teria caído na cabeça de Newton, levando-o a elaborar, anos mais tarde, a teoria da gravidade. Perguntava-se ele: por que as maçãs caem para baixo, e não para cima ou para os lados? Newton revisou as teorias dos seus antecessores e, desse modo, ofereceu

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 4: Filosofia na Modernidade e Iluminismo

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contribuição decisiva para a invenção do cálculo, em suas bases primordiais matemáticas; criou um sistema

contribuição decisiva para a invenção do cálculo, em suas bases primordiais matemáticas; criou um sistema de física matemática e traçou um quadro preciso do sistema solar na obra Principia, de 1687 (TRIGO, 2009).

Mas não foi somente no âmbito das ciências que o século XVI representou uma mudança radical. No âmbito da própria igreja cristã, as novas formas de pensar, as descobertas das ciências e as mudanças sociais e políticas levaram à formulação de novas perspectivas.

4.3 As Reformas Religiosas

Os movimentos de reforma da igreja no século XVI mostram que igualmente a

religião passou por profundas transformações.Também aqui a pergunta que se colocou disse respeito à autoridade: com quem está a verdade? Os reformados, tais como Lutero, Calvino, Melanchton

e outros afirmavam que a verdade está nos textos sagrados, e não com a tradição eclesiástica.

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

Na medida em que colocam a autoridade no que concerne aos assuntos da fé no próprio texto da bíblia, suscitaram a pergunta pela interpretação. Se o texto bíblico era apenas um, e nele estava a verdade, de que modo poderiam existir diferentes compreensões sobre a fé? Desse modo, debruçaram-

se sobre a hermenêutica, a ciência da interpretação, parachegaràafirmaçãodenovasverdades.Aomesmo tempo em que colocam a interpretação na pauta das discussões teológicas, deslocam o problema da teologia, que até então estava colocado fora do ser humano, diretamente para o seu interior. Ou seja,

a compreensão dos textos sagrados dependia dos

indivíduos que o liam. As perguntas da nova teologia

não eram mais sobre a essência de Deus, mas de que forma o ser humano contribuía para chegar a Deus ou para a sua salvação.

4.4 A Mudança de Mentalidade

Podemos perceber, a partir disso, caro estudante, que a mentalidade humana sofre profunda transformação no século XVI. Passa-se, com a modernidade, de uma mentalidade

teocêntrica para uma mentalidade antropocêntrica. Esta mudança é comum, tanto para a religião como para as ciências. É o ser humano que passa a ocupar o centro do Universo

e das preocupações. Isso até parece irônico, em vista das descobertas que colocam

gradativamente o planeta Terra em posição periférica diante da vastidão do Universo. Veja, então, quão importante é o século XVI e as mudanças que ali acharam lugar.

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FILOSOFIA

Esta centralidade do ser humano nas novas formas de pensar foi representada por Leonardo Da

Esta centralidade do ser humano nas novas formas de pensar foi representada por Leonardo Da Vinci através de uma figura, O Homem Vitruviano.

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

Veja, caro estudante, que o centro absoluto da imagem é o umbigo humano. Os quatro braços e pernas representam o movimento e a liberdade humana. Com o círculo e o quadrado, quer-se expressar que tudo pode ser calculado e descrito pelo uso da razão humana.

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FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 4: Filosofia na Modernidade e Iluminismo

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Resumo Prezado estudante, neste capítulo nos ocupamos com o contexto histórico do século XVI e

Resumo

Prezado estudante, neste capítulo nos ocupamos com o contexto histórico do século XVI e com as principais características que foram relevantes para o desenvolvimento do pensamento filosófico na modernidade. Podemos perceber que muitos traços são análogos ao surgimento da filosofia na Grécia Antiga, tais como o desenvolvimento das cidades, do comércio e as grandes navegações.

A complexidade da vida nas cidades exigiu do ser humano, nos diferentes momentos históricos, respostas novas. A cidade coloca as pessoas diante da necessidade de otimizar a vida em sociedade. Esse esforço de organização levou, no século XVI, ao surgimento de novas perspectivas políticas, científicas e religiosas, que serão abordadas mais detalhadamente na próximo capítulo.

O século XVI foi marcado principalmente pela revolução científica e pelas reformas religiosas. As novas descobertas da ciência provocaram o surgimento de uma nova cosmologia, ou seja, uma nova visão do mundo, a teoria heliocêntrica. Por um lado, o ser humano passa a ser o centro das preocupações científicas. Na questão do conhecimento, quer-se saber de que forma o ser humano participa na sua gestação. Houve também avanço na medicina, que aperfeiçoou o seu conhecimento do corpo humano.

No âmbito da religião, igualmente, há uma mudança de perspectiva completa. Antes, as atenções da teologia estavam voltadas para o além, para o sobrenatural. A partir do século XVI, cada vez mais, a atenção da teologia voltou-se para a caracterização do lugar do ser humano na sua relação com o sobrenatural.

Percebe-se, portanto, que no século XVI todas as áreas do conhecimento colocam o ser humano no centro das atenções. A representação do Homem Vitruviano de Leonardo Da Vinci expressa essa centralidade do ser humano.

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FILOSOFIA

Atividade de Fixação* Com base no estudo feito nesse capítulo, faça os seguintes exercícios: 1.
Atividade de Fixação* Com base no estudo feito nesse capítulo, faça os seguintes exercícios: 1.
Atividade de Fixação*
Com base no estudo feito nesse capítulo, faça os seguintes exercícios:
1.
Sobre a revolução científica no século XVI é INCORRETO afirmar:
I) As contribuições de Tycho Brahe (1546-1601) e Johannes Kepler (1571-
1630) foram decisivas para a consolidação da teoria heliocêntrica. A
importância do primeiro está na geração de uma enorme quantidade de
dados a respeito da localização de estrelas, lua e planetas ao longo de
um extenso período de tempo. O segundo utilizou os dados de Brahe e
determinou que os planetas viajavam ao redor do Sol em rotas elípticas e
não circulares como havia afirmado Copérnico.
II)
Embora sejam muito conhecidas, as teorias de Galileu Galilei pouco
contribuíram para o avanço da ciência moderna. Ele propôs a teoria da
gravidade como força que mantém a unidade do Universo.
III) Isaac Newton (1642-1727) é o responsável pela elaboração da teoria
da gravidade.
IV) Admitir que a teoria heliocêntrica, que coloca o sol no centro do
universo, estava correta, e não as afirmações feitas até então pela igreja,
representava também a aceitação de outro princípio de verdade, alheio
à igreja.
Considerando as afirmações acima, assinale a alternativa certa:
a)
(
) I e II estão INCORRETAS.
b)
(
) II e III estão INCORRETAS.
c)
(
) Apenas II está INCORRETA.
d)
(
) Nenhuma das alternativas.
2.
De que modo as grandes navegações contribuíram para uma mudança
de mentalidade no século XVI?
3.
De que forma a representação do Homem Vitruviano de Leonardo Da
Vinci expressa a mentalidade do século XVI?

(*) Os exercícios contidos nesta apostila são somente para fixação de conteúdo, não é necessária a entrega dos mesmos.

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 4: Filosofia na Modernidade e Iluminismo

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Leitura de Aprofundamento

Leitura de Aprofundamento O surgimento da ciência moderna levou a uma discussão sobre a relação entre

O surgimento da ciência moderna levou a uma discussão sobre a relação entre o conhecimento cotidiano e o saber científico. Em outras palavras, colocou-se como desafio a correta articulação entre ciência e senso comum. Nesse sentido, reproduzimos abaixo um breve trecho da obra Introdução à Filosofia da Ciência, de Inês Lacerda Araújo (2003, p. 21- 23), para que também você, caro estudante, reflita sobre esta relação.

Ciência e Senso Comum

Como muitas ciências provieram de necessidades práticas, há quem

proponha que elas sejam o senso comum organizado. Ora, a organização existente na ciência em tudo difere da organização que se encontra no nosso cotidiano, como

a existente em uma biblioteca ou em um acervo. Por mais organizada que seja uma

biblioteca, nem por isso sua rigorosa e coerente organização tem cunho científico. Para o senso comum não há necessidade de explicar os princípios que estão por detrás de suas descobertas. A roda foi utilizada sem que precisássemos conhecer

“provém do

certos princípios da física, como o atrito, por exemplo. A ciência [

desejo de encontrar explicações controláveis e sistemáticas sobre os fatos.” Nela,

a classificação serve às explicações que são enunciadas acerca das condições sob

as quais se dão os fenômenos. A ciência toma a forma de um sistema dedutivo, no qual, através de poucas proposições, podemos dar conta de numerosos fenômenos.

]

O senso comum pode produzir conhecimentos que funcionam e que têm um certo grau de exatidão, mas ele não tem consciência de seus limites e validade. Já a ciência busca a completude em suas explicações. Se o senso comum sabe da utilidade dos fertilizantes na agricultura, desconhece a sua constituição química

]. [

Na presença de poucos fatores e quando eles permanecem inalterados, o

senso comum é eficiente. A ciência procura a completude, por isso, na presença de juízos contraditórios, ela se vê estimulada e desafiada a encontrar explicações

que equacionem aqueles juízos. O senso comum pode permanecer na contradição

e incompletude, pois seu objetivo não é o de fornecer explicações; estas, quanto mais são detalhadas pelo cientista, são tanto mais sujeitas à revisão.

Na linguagem científica, os termos só podem ser introduzidos mediante uma definição que leve em conta um significado atado a um preciso recorte da realidade e a um preciso uso na teoria. Como o ideal de explicação completa, coerente e sistemática só é alcançado provisoriamente, já que novas explicações mais completas, coerentes e sistemáticas são sempre possíveis e desejáveis – a instabilidade das leis e teoria é sempre alta. Enquanto isto, as crenças do senso comum podem permanecer inalteradas por muito tempo.

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 4: Filosofia na Modernidade e Iluminismo

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o traço frequente e apropriado para caracterizar a ciência em relação ao senso comum reside

o traço frequente e apropriado para caracterizar a ciência em

relação ao senso comum reside no caráter metódico daquela. Não que o método forneça regras para a descoberta, mesmo porque não há tais regras. O método

tampouco garante contra os erros. Na prática, o método científico possibilita uma crítica permanente dos enunciados através de procedimentos que se mostraram confiáveis na obtenção de elementos de juízo “e para avaliar a força probatória

desses elementos de juízo sobre os quais se baseiam as conclusões” [

palavras, valem na ciência aqueles enunciados obtidos no confronto das teorias

Em outras

Mas [

]

].

ou hipóteses entre si e com a realidade empírica, que melhor deem conta do fenômeno analisado.

Aliás, a adoção de uma metodologia pluralista que compare teorias entre si e não apenas levante dados ou fatos, pois não há dados ou fatos puros ou que falem por si, deveria servir para conduzir até às últimas consequências, inclusive aquelas teorias que, à primeira vista, se revelam inadequadas. Deste modo, as hipóteses se enriquecerão. Feyerabend leva este procedimento ao extremo, quando propõe que as fontes para a ciência podem ser mitos antigos ou preconceitos modernos, lembranças ou fantasias, de modo a evitar uma separação entre a história da ciência (isto é, o que a provoca e alimenta), sua filosofia e a ciência mesma, pois estas são zonas do saber não estanques.

Ciência, afirma Feyerabend, nesse contexto, “significa não apenas um método específico, mas todos os resultados que o método até então produziu. O incompatível com esses resultados deve ser eliminado.”

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FILOSOFIA

Referências ARAÚJO, Inês Lacerda. Introdução à Filosofia da Ciência . Curitiba: UFPR, 2003. RIBEIRO, Wliane

Referências

ARAÚJO, Inês Lacerda. Introdução à Filosofia da Ciência. Curitiba: UFPR, 2003.

RIBEIRO, Wliane da Silva. Práticas de leitura no mundo ocidental. Revista Ágora, Salgueiro- PE, v. 3, n. 1, p. 34-46, nov. 2008. Disponível em: <http://www.iseseduca.com.br/pdf/revista3/ arquivo35.pdf>. Acesso em: 05 nov. 2012.

SANTANA, Ana Lucia. Cosmologia. 22 set. 2008. Disponível em: <http://www.infoescola. com/astronomia/cosmologia/>. Acesso em: 01 nov. 2012.

TRIGO, Luiz Gonzaga Godoi. Pensamento filosófico: um enfoque educacional. São Paulo:

IBPEX, 2009.

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FILOSOFIA - Capítulo 4: Filosofia na Modernidade e Iluminismo

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Gabarito 1) Resposta: Alternativa c. 2) Resposta: As navegações transoceânicas, longe da costa, onde não

Gabarito

1) Resposta: Alternativa c.

2) Resposta: As navegações transoceânicas, longe da costa, onde não havia referência para que os barcos não se perdessem, exigiram métodos mais sofisticados de navegação. Consequentemente, houve a necessidade de cálculos matemáticos mais precisos a fim de garantir a chegada ao destino planejado. Além disso, ao enfrentarem águas desconhecidas e, muitas vezes, turbulentas, os novos barcos precisaram ter estruturas e incorporar técnicas de construção melhores (TRIGO, 2009). As navegações ajudaram a comprovar através da experiência o que as ciências afirmavam na teoria.

3) Resposta: Espera-se que o estudante busque fontes além da apostila para desenvolver a esta questão, tais como livros e internet. A questão principal diz respeito à simetria e à centralidade do ser humano na representação.

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FILOSOFIA

Filosofia

Capítulo 5

Prof° Joel Haroldo Baade

FILÓSOFOS E TEMAS NA MODERNIDADE

Objetivos de Aprendizagem:

Estudar a filosofia na modernidade, especialmente o pensamento político de Nicolau Maquiavel;

Analisar o pensamento racionalista de René Descartes e o empirismo de Bacon, Hume e Locke;

Compreender a relação entre os movimentos racionalista e empirista.

Descartes e o empirismo de Bacon, Hume e Locke; Compreender a relação entre os movimentos racionalista
Descartes e o empirismo de Bacon, Hume e Locke; Compreender a relação entre os movimentos racionalista

Introdução

Introdução Neste quinto capítulo, caro estudante, continuaremos a falar sobre a modernidade, mas concentraremos os

Neste quinto capítulo, caro estudante, continuaremos a falar sobre a modernidade, mas concentraremos os nossos esforços para compreender algumas das principais correntes de pensamento da época. Para isso, analisaremos primeiramente o pensamento político de Nicolau Maquiavel e, depois, a teoria do conhecimento que ganhou expressão em duas correntes opostas, o racionalismo e o empirismo.

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 5: Filósofos e Temas na Modernidade

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Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró 5.1 O Pensamento Político de Nicolau Maquiavel Nicolau Maquiavel (1469-1527)

5.1 O Pensamento Político de Nicolau Maquiavel

Nicolau Maquiavel (1469-1527) focou as suas pesquisas na esfera política. Dizia ele que as determinações éticas e religiosas, que até então eram fundamentais para a organização política dos Estados, deveriam ser substituídos pelo pragmatismo político. Com isso, Maquiavel lançou os fundamentos sobre os quais seriam fundamentadas mudanças sociais muito profundas nos séculos seguintes. (TRIGO, 2009).

muito profundas nos séculos seguintes. (TRIGO, 2009). FILOSOFIA FILOSOFIA - Capítulo 5: Filósofos e Temas na

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 5: Filósofos e Temas na Modernidade

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Por toda a Idade Média, a centralização do poder na igreja católica impedia que algum

Por toda a Idade Média, a centralização do poder na igreja católica impedia que algum Estado se tornasse realmente soberano. Tudo era subordinado à igreja, inclusive os reis, que temiam a excomunhão caso contrariassem os preceitos religiosos. A excomunhão, naquela época, representava a retirada da bênção de Deus e, assim, aquela pessoa poderia ser morta. A partir do ganho de poder dos Estados, surgiu uma nova pergunta de ordem político-filosófica: de que forma a nova configuração de sociedade e especialmente a direção desses Estados deveriam organizar-se para que a sociedade se desenvolvesse essa da melhor forma? Maquiavel procurou responder. Ele queria saber especialmente como era possível alcançar uma unidade nacional, um Estado forte e eficaz, sem que fosse necessário recorrer à igreja.

Maquiavel viveu em uma Itália que procurava se libertar das amarras da igreja, mas, ao mesmo tempo, fazia isso de forma desarticulada. Cada governante local buscava concretizar as suas próprias ideias, formando os seus próprios exércitos. Por um tempo, Maquiavel foi um homem com grande circulação e influência política, mas, após algumas reviravoltas políticas que recolocaram a família Medici no poder na Itália, recolheu-se para escrever as suas obras (ARANHA; MARTINS, 2003).

Algumas obras de Maquiavel são:

Saiba Mais!
Saiba Mais!

Segundo Chaui (2008), O Príncipe é o livro que inaugura o pensamento político moderno.

Maquiavel também escreveu peças de teatro, como a renomada comédia Mandrágora, poesia e ensaios diversos. Ainda é conhecido o Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio. (ARANHA; MARTINS, 2003).

Por muito tempo e, às vezes, ainda hoje, Maquiavel é muito mal interpretado. Esse engano normalmente decorre de uma leitura irrefletida de sua obra. O objetivo deste ponto da aula é que você, prezado estudante, encontre os subsídios para entender Maquiavel sem reproduzir o “mito do maquiavelismo”. Aranha e Martins (2003, p. 234) nos ajudam a entender melhor o que venha a ser o mito relacionado à filosofia de Maquiavel:

Na linguagem comum, chamamos pejorativamente de maquiavélica a pessoa sem escrúpulos, traiçoeira, astuciosa que, para atingir seus fins, usa de mentira e má-fé, e nos engana com tanta sutileza, que pensamos estar agindo livremente quando na verdade somos por ela manipulados. Como expressão dessa amoralidade, costuma-se vulgarmente atribuir a Maquiavel a famosa máxima (que ele nunca escreveu): “Os fins justificam os meios”.

As interpretações equivocadas de Maquiavel geralmente decorrem da leitura apressada de trechos como “É necessário a um príncipe, para se manter, que aprenda a

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FILOSOFIA

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró poder ser mau e que se valha ou deixe de valer-se

poder ser mau e que se valha ou deixe de valer-se disso segundo a necessidade”, que pode ser encontrada em O príncipe. Segundo Aranha e Martins (2003), Rousseau, sobre quem falaremos mais adiante, dizia que esse livro não pode ser entendido de modo isolado, pois a sua chave de interpretação está no conjunto da obra do filósofo. Nessa perspectiva, Rousseau entende que O príncipe é, na realidade, uma sátira. O propósito real de Maquiavel seria mostrar às pessoas como as coisas estavam acontecendo e produzir a indignação e vontade de mudança social e política.

a indignação e vontade de mudança social e política. Atualmente, contudo, Aranha e Martins (2003) afirmam

Atualmente, contudo, Aranha e Martins (2003) afirmam que a obra de Maquiavel é interpretada de modo distinto daquele sugerido por Rousseau. Acredita-se que Maquiavel fazia distinção de duas circunstâncias específicas da ação política: primeiramente, seria justificável assumir o poder pela força, usando o poder absoluto, para, em seguida, implantar progressivamente a república. Neste segundo momento, o governante deveria buscar sempre mais o apoio do povo.

No próximo capítulo, abordaremos o tema da Revolução Francesa e veremos como muitas das ideias de Maquiavel foram empregadas pelos iluministas naquele contexto. Poderemos observar que a consolidação da república na França tem justamente esses dois momentos caracterizados por Maquiavel no livro O Príncipe, um primeiro momento do poder absoluto e da força para que, somente mais tarde, o governo se tornasse republicano e democrático. Mas isto é assunto para o próximo capítulo.

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 5: Filósofos e Temas na Modernidade

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Em traços gerais, Maquiavel lançou a semente da ideia que viria a se tornar absolutamente

Em traços gerais, Maquiavel lançou a semente da ideia que viria a se tornar absolutamente central na teoria política moderna, que é o consenso. Antes, a organização e

a ação dos Estados eram determinadas pela ética e moral cristã. Todo o restante a ela estava subordinado, fizessem as medidas bem ou mal à coletividade. O que Maquiavel propõe

é uma nova ética que mede as ações pelas suas consequências. Algo é bom ou ruim se promove o bem da coletividade ou não.

Maquiavel não defende todo e qualquer tipo de violência. Por isso, ele faz uma diferença entre o governante que é virtuoso e aquele que é tirano. Segundo Aranha e Martins

(2003), o príncipe virtuoso é compreendido de modo distinto da pessoa com a virtude cristã, que prega a justiça e a bondade. Para Maquiavel, a virtude é a capacidade do governante de entender o jogo e as forças políticas e empreender todas os esforços para conquistar e manter o poder. O príncipe age de modo enérgico a fim de garantir o bem da comunidade

a qualquer custo. Já o tirano é aquele governante que somente age por capricho e por vontade própria.

Na busca dos fins coletivos nunca haverá unanimidade, sempre haverá pessoas com características e interesses distintos compondo a mesma sociedade. Maquiavel prevê isto e

afirma que, por essa razão, é inerente a qualquer sistema político a existência do conflito.

O conflito não é entendido aqui como acontecimento de violência, mas a coexistência de

indivíduos diferentes entre si, cada qual com as próprias ideias e convicções.

Acho que não! Acho que sim! Talvez! Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró
Acho que não!
Acho que sim!
Talvez!
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

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Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró Maquiavel inaugura uma nova forma de refletir sobre a realidade, diferente

Maquiavel inaugura uma nova forma de refletir sobre a realidade, diferente daquela herdada da Idade Média e também utilizada pelos seus contemporâneos. Estes recorriam aos antigos autores gregos e latinos para fundamentarem as suas teorias. Buscavam nas antigas democracias grega e romana os modelos para a nova sociedade que pretendiam construir. Maquiavel, por sua vez, não procura na antiguidade os elementos para a construção do seu modelo político, mas o funda na própria experiência que tivera enquanto homem político (CHAUI, 2008).

Por essa razão, a filosofia política de Maquiavel nada tem de maquiavélica, mas

lança os fundamentos para um novo tipo de ética, que privilegia o bem da coletividade; e a incorporação do conflito ou das diferenças como algo inerente às sociedades humanas. Estas devem ser asseguradas para que se garanta a liberdade dos indivíduos de defenderem

as próprias ideias.

Além da política, a modernidade foi palco da discussão sobre a ciência e sobre a produção do conhecimento. É este o tema do próximo ponto desse capítulo.

5.2 A Teoria do Conhecimento

Como já estudamos anteriormente, a sociedade mudou muito durante a modernidade. As mudanças em todas as esferas da sociedade durante o período da modernidade e especialmente a revolução científica empreendida nos mais variados campos

do conhecimento quebraram o modelo de inteligibilidade baseado na filosofia aristotélica.

O modelo explicativo baseado na lógica dedutiva não era mais suficiente para dar conta

das novas descobertas científicas. Diante dessa nova realidade, surgiu a pergunta ou, mais precisamente, o receio de que haveria a possibilidade de se cair em novos enganos. Por essa razão, uma pergunta chave para a filosofia na modernidade assentou-se sobre a questão do método, ou seja, “como” seria possível a construção de conhecimentos e de novas teorias e “como” garantir a sua autenticidade. Em última análise, a grande dúvida continua sendo a questão da verdade, que sempre foi o alvo da filosofia.

VERDADE
VERDADE

FILOSOFIA

FILOSOFIA - Capítulo 5: Filósofos e Temas na Modernidade

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No período anterior, na Idade Média, o critério da verdade era a sua exposição segundo

No período anterior, na Idade Média, o critério da verdade era a sua exposição segundo a lógica de Aristóteles. Se todos os critérios do silogismo fossem atendidos, então o argumento era verdadeiro. Nessa perspectiva, nunca se colocou realmente em questão a correspondência entre pensamento e realidade/objeto. As exposições teológicas de Agostinho e Tomás de Aquino eram avaliadas pela lógica argumentativa, sem que se perguntasse se as conclusões realmente correspondiam à verdade, mesmo que nenhuma experiência pudesse ser feita em relação a elas. Nesse sentido, a atenção dos filósofos anteriores à modernidade estava completamente pautada sobre os objetos que se propuseram analisar. Citamos, como exemplo disso, o trabalho de Agostinho na obra “A Trindade”, analisado no capítulo 3 desta disciplina.

Na modernidade aconteceu uma inversão com a pergunta pelas garantias de correspondência entre o pensamento do filósofo e a realidade do mundo. Assim como nos outros âmbitos, também na filosofia a preocupação volta-se para o ser humano, que é o sujeito do conhecimento. O objetivo da ciência não é mais dizer o que é e como são as coisas, mas descobrir um meio seguro de se chegar a elas. Como o ser humano aprende? Como os novos conhecimentos se formam em nossa mente? Que garantias nós, seres humanos, e também você, caro estudante, temos que assegurem a relevância e autenticidade do seu pensamento? Como podemos ter a certeza de que o nosso pensamento é válido e não simplesmente um sonho ou uma ilusão?

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

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FILOSOFIA

Com o propósito de responder a estas perguntas, surgiram duas linhas filosóficas concorrentes: o racionalismo

Com o propósito de responder a estas perguntas, surgiram duas linhas filosóficas

concorrentes: o racionalismo de René Descartes e o empirismo de Francis Bacon, John Locke

e David Hume.

O Racionalismo de René Descartes

O principal expoente do racionalismo é o filósofo René Descartes (1596-1650). Ele

também é conhecido pelo seu nome latino, que é Cartesius, razão pela qual também se chama

o seu pensamento de “cartesiano”. Escrevemos o nome “Descartes”, mas ele é pronunciado

como se não houvesse o “s”, ou seja, “Decartes”. Dos seus estudos de matemática deriva o plano cartesiano.

A preocupação de Descartes foi encontrar uma verdade inicial, que não pudesse ser

posta em dúvida e sobre a qual todos os demais conhecimentos poderiam ser assentados. Como partiu do pressuposto de que tudo poderia, em princípio, ser posto em dúvida, fez da própria dúvida o seu método investigativo. Descartes “começa duvidando de tudo, das afirmações do senso comum, dos argumentos da autoridade, do testemunho dos sentidos, das informações da consciência, das verdades deduzidas pelo raciocínio, da realidade do mundo exterior e da realidade do seu próprio corpo” (ARANHA; MARTINS, 2003, p. 131).

Segundo esse raciocínio, praticamente tudo podia ser posto em dúvida, pois para nada havia garantias que assegurassem a realidade do que se apresentava. Após gigantesco esforço intelectual, Descartes concluiu que havia uma única coisa da qual não se podia duvidar. A seguir, temos um breve trecho da obra “Discurso do método” de Descartes, onde discute esta questão:

Não sei se deva falar-vos das primeiras meditações que aí realizei; pois são tão metafísicas e tão pouco comuns, que não serão, talvez, do gosto de todo mundo. E, todavia, a fim de que se possa julgar se os fundamentos que escolhi são bastante firmes, vejo-me, de alguma forma, compelido a falar-vos delas. De há muito observara que, quanto aos costumes, é necessário às vezes seguir opiniões, que sabemos serem muito incertas, tal como se fossem indubitáveis, como já foi dito acima; mas, por desejar então ocupar-me somente com a pesquisa da verdade, pensei que era necessário agir exatamente ao contrário, e rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver se, após isso, não restaria algo em meu crédito, que fosse inteiramente indubitável. Assim, porque os nossos sentidos nos enganam às vezes, quis supor que não havia coisa alguma que fosse tal como eles nos fazem imaginar. E, porque há homens que se equivocam ao raciocinar, mesmo no tocante às mais simples matérias de geometria, e cometem aí paralogismos, rejeitei como falsas, julgando que estava sujeito a falhar como qualquer outro, todas as razões que eu tomara até então por demonstrações. E enfim, considerando que todos os mesmos pensamentos que temos quando despertos nos podem também ocorrer quando dormimos, sem que haja nenhum, nesse caso, que seja verdadeiro, resolvi fazer de

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conta que todas as coisas que até então haviam entrado no meu espírito não eram

conta que todas as coisas que até então haviam entrado no meu espírito não eram mais verdadeiras que as ilusões de meus sonhos. Mas, logo em seguida, adverti que, enquanto eu queria assim pensar que tudo era falso, cumpria necessariamente que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, notando que esta verdade: eu penso, logo existo, era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de a abalar, julguei que podia aceitá-la, sem escrúpulo, como o primeiro princípio da filosofia que procurava (DESCARTES, 1973, p. 54).

Como você pode perceber, caro estudante, Descartes chegou à conclusão de que apenas não podemos duvidar de que estamos aqui fazendo estes questionamentos. Portanto, o indivíduo que duvida é o ponto de partida da filosofia. Daí vem a afirmação de Descartes segundo a qual “penso, logo existo”. Em latim ela é escrita da seguinte forma:

“Cogito, ergo sum”. Ou seja, o ser que pensa é verdadeiro, caso contrário, toda a existência perde a sua consistência, nada faria sentido.

Essa primeira constatação foi denominada de “intuição primeira”. A partir dela,

Descartes distinguiu várias ideias, selecionando aquelas que eram duvidosas de outro grupo, que chamou de ideias inatas. Segundo o pensador, as ideias inatas são tão confiáveis quanto a certeza do ser que pensa. Uma dessas ideias é o que denominou cogito, ou racionalidade.

O ser humano tem a racionalidade/razão através da qual pode pensar sobre o mundo em

que vive. Também seriam ideias inatas a infinitude e a perfeição de Deus, bem como as ideias de extensão e movimento, que são constitutivas do mundo físico (ARANHA; MARTINS,

2003).

Contudo, até esse momento, Descartes não conseguiu a garantia de que o seu pensamento efetivamente correspondesse à realidade. Ele se perguntava de que modo poderíamos ter certeza de que a nossa vida e o mundo como um topo não seriam apenas

um sonho. O que garante que o nosso raciocínio correspondesse à realidade ou que as coisas de nossa mente têm existência e não são mera imaginação? Para resolver a este problema

e provar que o mundo tem realidade, lançou mão do que ficou conhecido como “prova ontológica da existência de Deus”.

Saiba Mais!
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Caro estudante, procure em dicionários e/ou na internet o que significa ontologia!

Como Descartes queria demonstrar que a razão humana tem uma capacidade gigantesca, propôs-se a provar com ela a existência de Deus, que seria a coisa mais difícil de ser provada. Se pudesse provar que Deus existe com o uso da simples razão, então todas as outras coisas poderiam ser explicadas com a razão da mesma forma. A prova ontológica da existência de Deus segue o seguinte raciocínio:

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O pensamento deste objeto – Deus – é a idéia de um ser perfeito; se

O pensamento deste objeto – Deus – é a idéia de um ser perfeito; se um ser é perfeito, deve ter a perfeição da existência, senão lhe faltaria algo para ser perfeito. Portanto, ele existe. Se Deus existe e é infinitamente perfeito, não me engana. A existência de Deus é a garantia de que os objetos pensados por idéias claras e distintas são reais. Portanto, o mundo tem realidade. E, dentre as coisas do mundo, o meu próprio corpo existe [sic] (ARANHA; MARTINS, 2003, p. 131).

Como se pode perceber, a partir de Descartes, há uma gigantesca valorização da razão. A partir dela, pode-se entender e explicar a realidade e, portanto, não se precisa mais de crenças sobrenaturais. A filosofia cartesiana deixou duas heranças fundamentais para o pensamento posterior: o ideal matemático; e o dualismo psicofísico.

O ideal matemático: a partir da centralidade da razão estabelecida por Descartes,

muitos pensadores se lançaram a explicar o mundo a partir dos princípios matemáticos. O objetivo era descobrir as leis que organizavam toda a realidade. Este princípio foi adotado

por grande parte dos cientistas da modernidade. Posteriormente, também o positivismo adotou este princípio na sua teoria da sociedade, mas este é um assunto do capítulo 7.

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

O dualismo psicofísico: outra consequência da filosofia cartesiana é o dualismo

entre mente e corpo. O corpo é uma realidade física e fisiológica e estaria limitado a todas as leis deterministas da natureza. A mente, por sua vez, não estaria sujeita a estas leis. Não

há limites para as atividades da mente, tais como recordar, raciocinar, conhecer e querer. Portanto, a mente passa a ser cada vez mais identificada como o âmbito em que se usufrui a liberdade. Não será por acaso que nos séculos seguintes as profissões intelectuais serão mais valorizadas do que aquelas que exigem a atividade física. Também as chamadas ciências

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Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró exatas serão vista como mais valiosas do que aquelas que têm

exatas serão vista como mais valiosas do que aquelas que têm caráter mais subjetivo, pois o pensamento racional, nessa perspectiva, era mais seguro do que outras formas de pensamento.

era mais seguro do que outras formas de pensamento. Contudo, a teoria cartesiana não foi unanimemente

Contudo, a teoria cartesiana não foi unanimemente aceita pela intelectualidade da modernidade. Muito pelo contrário, houve vozes extremamente críticas ao pensamento de Descartes, que devemos analisar no próximo ponto deste capítulo.

O Empirismo de Francis Bacon, John Locke e David Hume

No empirismo, os filósofos ressaltaram o valor da experiência como ponto de partida do pensamento e elemento essencial na formação do conhecimento. A valorização da experiência para a constituição do conhecimento era algo radicalmente novo, pois até então ela era vista com maus olhos, principalmente pela igreja e teologia mais tradicionais. Nesse sentido, segundo Trigo (2009, p. 127): “experimentar podia significar duvidar e a dúvida era a porta de entrada da heresia, do pecado e da condenação pelos tribunais civis e religiosos da época.” Para a teologia da Idade Média, todas as verdades já haviam sido reveladas pela Bíblia e, por isso, não havia necessidade de experimentos para fazer novas descobertas. Também o dualismo psicofísico resultante da teoria cartesiana via a experiência feita pelos sentidos do corpo com ressalvas, pois elas poderiam ser enganosas.

Vamos analisar brevemente o pensamento dos três principais representantes do empirismo: Francis Bacon, John Locke e David Hume.

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Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró Francis Bacon Francis Bacon viveu entre 1561 e 1626 e
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró
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Francis Bacon

Francis Bacon viveu entre 1561 e 1626 e valorizava o saber instrumental, que, segundo ele, possibilitava a dominação da natureza. Também ele, assim como Descartes, estava interessado no método da ciência. O seu pensamento se caracterizava por uma forte crítica à lógica aristotélica, pois a considerava extremamente limitante para a investigação científica. Lembrando que na lógica aristotélica as conclusões nunca poderiam extrapolar os termos do argumento, ou seja, não havia espaço para inovação. Por isso, enfatizou em sua obra o valor da indução como método científico válido. Na indução, permitia-se a generalização a partir de estudos determinados (ARANHA; MARTINS, 2003). Para entender melhor as teorias de Bacon, vamos pensar em dois exemplos:

Exemplo 1: No âmbito da medicina, constantemente são descobertas novas técnicas de tratamento de doenças, novos procedimentos cirúrgicos e novos medicamentos. Segundo a ciência embasada na lógica aristotélica, os novos procedimentos poderiam ser considerados válidos somente depois de testados em todos os humanos da face da terra, pois, do contrário, as conclusões estariam extrapolando os pressupostos. Não é o que acontece, na área da saúde é empregado o método indutivo, ou seja, depois de desenvolvido um novo procedimento, ele é testado em um conjunto limitado de indivíduos e, tendo-se sucesso em percentual significativo, ele passa a ser adotado como método de tratamento válido.

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Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró Exemplo 2: Nas áreas de gestão e marketing, é comum o
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró Exemplo 2: Nas áreas de gestão e marketing, é comum o

Exemplo 2: Nas áreas de gestão e marketing, é comum o uso de pesquisas de mercado antes da introdução de um novo produto no mercado. Estas pesquisas não contemplam todas as pessoas que podem ser potenciais compradores do novo produto, mas faz-se uma estimativa a partir de entrevista com uma amostra da população. A partir dos resultados obtidos através da amostra, induz-se que o restante da população irá se comportar de forma parecida.

Criou-se, assim, com o método indutivo, uma possibilidade enorme para a ciência que estava se desenvolvendo. Por outro lado, a indução é menos precisa do que a dedução. Sempre haverá uma possibilidade de a solução não ser eficaz para alguns indivíduos. A partir do desenvolvimento do método indutivo, desenvolveu-se o ramo da ciência conhecimento como análise estatística.

Outro empirista conhecido foi John Locke, sobre quem falaremos no próximo ponto deste capítulo.

John Locke

John Locke (1632-1704) ressaltou o valor da experiência para a formação do

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conhecimento seguindo uma via mais psicológica. Ele distinguiu duas fontes possíveis para a formação das

conhecimento seguindo uma via mais psicológica. Ele distinguiu duas fontes possíveis para a formação das ideias no ser humano: a sensação e a reflexão. A sensação resulta das transformações que ocorrem em nossa mente a partir da experiência dos sentidos. Quando estamos em contato com a realidade do mundo, de alguma forma, essas imagens são gravadas em nossa mente na forma de ideias simples. Assim, através da sensação, forma-se no indivíduo um leque considerável de ideias simples.

A reflexão, por sua vez, consiste na associação de ideias simples que fazemos em nossas mentes, formando ideias complexas. As ideias complexas, conforme Locke, não possuem uma existência e validade objetiva. “São nomes de que nos servimos para denominar e ordenar as coisas” (ARANHA; MARTINS, 2003, p. 133). Locke comparava a mente humana a uma tábula rasa, uma tábua sem inscrições, tal como uma forma de cera sem impressões. Poderíamos falar também num livro em branco. Quando o ser humano começa a experimentar a realidade do mundo, este vai sendo impresso dentro dele.

Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

Também foi característica de John Locke a crítica a Descartes. Ele não aceitava a teoria das ideias inatas, afirmando que, se elas existissem, as crianças já as teriam. Além disso, refuta a prova ontológica da existência de Deus do pensamento cartesiano, pois, segundo Locke, a ideia de Deus não está presente em todas as sociedades, ou pelo menos não a ideia de um deus perfeito (ARANHA; MARTINS, 2003).

Assim, a contribuição de John Locke para a teoria do conhecimento consiste na teoria de que o ser humano, acumulando ideias simples em sua mente a partir da experiência concreta, procede a uma associação destas para a formação de ideias complexas. Portanto, quanto maior o número de ideias simples acumuladas, tanto maior é a probabilidade de se formarem ideias complexas em nossas mentes.

Por fim, vamos analisar o pensamento do empirista David Hume.

David Hume

David Hume (1711-1776) aprofundou as teorias de Francis Bacon e John Locke. Hume aceita o princípio de Locke de que, a partir da experiência, ideias simples são formadas

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em nossas mentes. Contudo, não aceita a teoria de que as ideias complexas resultam da

em nossas mentes. Contudo, não aceita a teoria de que as ideias complexas resultam da

associação de ideias simples no interior da nossa mente. Segundo ele, somente a experiência

é válida para o conhecimento e, como não podemos observar o processo de associação de ideias em nosso interior, esta não poderia ser uma conclusão científica válida.

Acúmulo de experiência resulta em ideias simples Ideias complexas surgem das ideias simples. Ilustrado por
Acúmulo de
experiência
resulta em
ideias simples
Ideias
complexas
surgem das
ideias simples.
Ilustrado por Marcelo Wollmann Figueiró

Mas de onde viriam, então, os pensamentos mais complexos e as teorias filosóficas? Para David Hume, as ideias complexas se formam com o hábito que é criado nos indivíduos a partir da experiência repetida. Quando observamos muitas vezes os mesmos acontecimentos ou fatos parecidos, começamos a perceber os princípios de causalidade, as semelhanças e, dessa forma, progressivamente, formam-se em nossas mentes os traços que delimitam as teorias.

Por outro lado, Hume chamou a atenção para o fato de que, nem sempre, os fatos que observamos estão relacionados. Com isso, ele negou a validade universal do princípio de causalidade e da noção de necessidade a ele associada. Em outras palavras, Hume

acentuou que a realidade poderia ser diferente daquilo que se tornou. Ela não é resultado necessário da história que a antecedeu. A relação de causa e efeito é um princípio válido para a investigação científica, mas ela não é universal, válida para todos os fenômenos, pois existem fatos que não decorrem necessariamente do que havia antes. Dessa forma,

a observação da sucessão de acontecimentos nos leva a crer que um determinado fato se

comportará de forma análoga no futuro, sem, contudo, termos recursos para assegurar isto de modo inquestionável.

A teoria de David Hume foi revolucionária para a sua época, principalmente se considerada sob o prisma da organização política. Quando negou o princípio universal da causalidade e necessidade, estava, ao mesmo tempo, dizendo que a organização política do Estado de seu tempo não era uma realidade fruto de um desenvolvimento histórico necessário, ou seja, que não havia possibilidade de ser de outra forma. Dito de outro modo, Hume afirmava que a história poderia ser outra, pois não há necessariamente uma lógica na

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sucessão dos acontecimentos.

sucessão dos acontecimentos. Hume lançou, juntamente com seus contemporâneos, as bases ideológicas necessárias para

Hume lançou, juntamente com seus contemporâneos, as bases ideológicas necessárias para as revoluções que aconteceriam nos séculos seguintes. Nesse sentido, a Revolução Francesa é um marco fundamental na história do pensamento ocidental. Este, contudo, é um assunto para o próximo capítulo.

A partir da análise empreendida até aqui, prezado estudante, ficou a dúvida: o que

é mais determinante para a formação do conhecimento, a razão ou a experiência? Vamos

discutir isso no ponto seguinte.

5.3 Racionalismo e Empirismo: O que é mais Importante?

E então, prezado estudante, quem estava certo, os racionalistas ou os empiristas?

O que é mais importante para a formação do conhecimento, a razão ou a experiência? Poderíamos falar também em teoria e prática. O que é mais importante para o aprendizado,

a teoria ou a prática? Esta foi a discussão entre empiristas e racionalistas. Os racionalistas enfatizavam a centralidade da razão na formação do conhecimento, que estava associada principalmente às capacidades inatas do ser humano. Já para os empiristas, a experiência do mundo era mais fundamental. De qualquer forma, todos concordavam na centralidade do ser humano do processo do conhecimento. Este não é mais visto como tendo uma origem sobrenatural. O ser humano é o sujeito da ciência e da história.

Também em nossa formação profissional na universidade é constante o atrito entre as duas tendências: a teoria e a prática. Muitas vezes, achamos que a formação precisa ser totalmente voltada para a prática e, portanto, não gostamos de aulas teóricas. Por outro lado, ocorre muitas vezes que estudantes se formam no ensino superior e lhes falta justamente o conhecimento teórico que lhes pouparia muitos esforços e erros ao longo da vida profissional.

Veremos, no próximo capítulo, como as ideias empiristas e racionalistas foram absorvidas pelos seus sucessores, os iluministas, que procederam à síntese destas duas correntes filosóficas.

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Resumo Neste capítulo, analisamos o pensamento político de Nicolau Maquiavel, que emergiu na modernidade com

Resumo

Neste capítulo, analisamos o pensamento político de Nicolau Maquiavel, que emergiu na modernidade com uma nova perspectiva para a organização de um Es