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MONOGRAFIA

Aldeias de Montoito

Memórias de um Alentejo

RICARDO G. MOREIRA

Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra Departamento de Antropologia Ramo Científico de
Faculdade de Ciências e Tecnologia
da Universidade de Coimbra
Departamento de Antropologia
Ramo Científico de Antropologia
Social e Cultural
COIMBRA 2008

Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra Departamento de Antropologia

Aldeias de Montoito

Memórias de um Alentejo

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Narrativas Familiares e Memória Colectiva numa aldeia alentejana Visões de um capitalismo agrário durante o Estado Novo

Autor: Ricardo Oliveira Santos Gomes Moreira Orientador da tese: Prof. Doutor Fernando Florêncio

Agradecimentos

Uma investigação como esta apenas foi possível com o contributo de várias pessoas que amavelmente partilharam um pouco de si e da sua experiência de vida. Somente a colaboração e amizade dessas pessoas permitiu concretizar este trabalho. Aqui fica o reconhecimento devido, a todos aqueles que são verdadeiros autores do trabalho que aqui se apresenta.

Obrigado ao André Pires que me desafiou a criar uma história sobre as Aldeias de Montoito e que me possibilitou o contacto com os seus familiares na aldeia. Sem a sua ajuda e o seu estímulo inicial, nunca teria produzido este trabalho. Ao Joaquim dos Santos Pires e à Joaquina Charrua Pires, que me receberam como se da família fosse, desde os primeiros tempos de estadia nas Aldeias, pela amizade que sempre tiveram e por toda a ajuda que prestaram. Foram os seus testemunhos que me permitiram desde logo dar um rumo ao projecto. À Francisca Borrego, com quem tive muitas interessantes conversas e que me proporcionou as ideias que me encaminharam na senda de uma história local. À sua filha Teresa Chicau, ao Neves e ao Joaquim, cujo contributo e a ajuda que me deram foi de um valor inestimável. A amizade e o companheirismo com que me receberam transformou este “trabalho de campo” numa estadia inesquecível. À Maria Charrua e à Teresa por todo o apoio que me deram e que me permitiu pensar a partir de uma outra perspectiva na realidade local. Muitas ideias e informações que partilharam foram essenciais neste projecto. A todos eles devo o incentivo e a franqueza que sempre transmitiram e que me levou a encontrar, num lugar estranho, aquela familiaridade e amizade que constituiu, neste caso, a principal motivação da investigação de terreno. Este projecto de investigação é dedicado a todos eles. Agradeço também ao Filipe Piedade pela disponibilidade e pela sinceridade com que partilhou parte das suas memórias.

Igualmente importante foi o contributo do meu orientador neste projecto, o Prof. Fernando Florêncio, que me aconselhou na abordagem ao contexto etnográfico e cuja paciência e sapiência foram fundamentais. A sinceridade e a capacidade de sugestão, permitiram-me tirar o melhor partido do trabalho aqui apresentado. Parte da satisfação que tive em produzi-lo deve-se à sua faculdade de conciliar o processo de orientação com o incentivo à auto-determinação nas escolhas teóricas ou metodológicas. Agradeço igualmente ao Prof. Luís Quintais a ajuda preciosa que a determinado momento me deu na escolha da bibliografia teórica relativa à temática da Narrativa.

Por fim, obrigado à minha irmã Susana que compôs graficamente as genealogias que se encontram no final do livro e o mapa incluso das Aldeias, editou a capa e a contracapa, e a quem agradeço o empenho na composição todos estes elementos.

Índice

Introdução

 

1

 

O

passado é afinal um retrato a negativo do mundo de hoje

3

Breve exposição metodológica da pesquisa de terreno

5

O

contributo da Narrativa na metodologia etnográfica

7

Nota prévia sobre Desigualdade Social

10

Breve caracterização histórico-geográfica

12

 

O

Espaço Mediterrânico

12

Povoamento

18

Cenário natural e períodos históricos

18

Montoito e as suas Aldeias

20

 

Aspecto Urbano

22

O

papel do Estado: política e tecnologia

28

Histórias de Família

30

 

Linhagens

30

Constituição e identidade de linhagem

32

A

fotografia dos Manelicos

36

Os Sabicos

39

As cartas de notário

39

A História dos Sabicos

42

Os eventos da história dos Sabicos e esboço de um capitalismo agrário

45

Vida campesina

57

Para uma História das Aldeias

61

Narrativa biográfica e narrativa histórica

61

Nostalgia e história. Estética, experiência e memória

66

Conclusão

69

Bibliografia

73

ANEXO A Evolução demográfica na freguesia de Montoito

75

ANEXO B Documentos

76

Para não desiludir os habitantes o viajante tem de gabar a cidade nos postais e preferi-la à presente, com o cuidado porém de conter o seu desgosto pelas mudanças dentro de regras bem precisas:

reconhecendo que a magnificência e prosperidade de Maurília transformada em metrópole, se comparadas com a velha Maurília provinciana, não compensam uma certa graça perdida, a qual contudo só poderá ser gozada agora nos velhos postais, enquanto outrora, com a Maurília provinciana debaixo dos olhos, de gracioso não se via mesmo nada, e igualmente não se veria hoje se Maurília houvesse permanecido tal e qual, e que no entanto a metrópole tem mais esta atracção, que através do que se tornou se pode repensar com nostalgia no que era.

As Cidades Invisíveis, Italo Calvino

Introdução

A presente investigação procurou desenvolver uma etnografia centrada numa

freguesia rural do Alentejo, fundada em narrativas pessoais e histórias de família de

uma determinada rede social com foco nas Aldeias de Montoito. Este projecto etnográfico surgiu como uma oportunidade interessante de abordar um dos problemas, na minha opinião, mais prementes no contexto social português, e que consiste na memória social relativa ao período do Estado Novo e ao fim desse

regime. No entanto, devido às limitações impostas à extensão do texto, vi-me obrigado a focar a redacção do trabalho na descrição histórica das primeiras décadas do regime. O terreno de pesquisa onde se desenvolveu o trabalho de campo é uma aldeia do interior alentejano, próxima da recentemente inaugurada barragem do Alqueva, e que é conhecida pelo nome de Aldeias de Montoito. Faz parte do concelho do Redondo e integra-se na freguesia de Montoito. É uma povoação de características urbanísticas pouco comuns na região a que serviu de cenário à realização desta investigação, tendo a recolha das narrativas de vida de pessoas que nasceram e viveram naquele termo constituído o principal método de pesquisa, e que forneceu a base empírica do trabalho.

O trabalho de campo baseou-se num acesso pessoal privilegiado às Aldeias 1 e a

um determinado conjunto de informantes. De facto, uma fase inicial de adaptação ao terreno e ao convívio com as pessoas em questão foi substancialmente facilitada por

uma ligação pessoal a duas famílias residentes. Convém explicitar o contexto em que a oportunidade do trabalho surgiu, já que ela condicionou profundamente tanto o modo de trabalhar como os objectivos a que me propus na concretização do projecto.

A ideia de realizar uma pesquisa antropológica no Alentejo foi-me inicialmente

sugerida por um amigo cuja ascendência familiar tem precisamente origem nas Aldeias de Montoito. Nesse momento, a possibilidade de produzir um trabalho etnográfico numa região para mim desconhecida e onde não possuía qualquer conhecimento prévio das pessoas em questão pareceu-me um desafio interessante. O intuito era então investigar as transformações a que esteve sujeito o Alentejo nos últimos anos, a partir do caso específico das Aldeias de Montoito. O êxodo rural a partir dos anos cinquenta, o fim das culturas cerealíferas e a sua substituição pela monocultura da vinha deram origem, no século XXI, a um outro Alentejo. Pareceu-me uma excelente oportunidade para realizar um primeiro trabalho de etnografia.

1 A partir daqui referir-me-ei preferencialmente a Aldeias de Montoito como “as Aldeias”, seguindo a locução local.

Desloquei-me então ao terreno, durante três dias em Fevereiro de 2007, para conhecer as pessoas e um pouco da região. A afamada hospitalidade das gentes do Alentejo confirmou-se em pleno, e o projecto começou a tomar forma no momento em que me foi apresentado todo um trabalho já realizado sobre a genealogia de uma família, acompanhada de um interessante documento fotográfico do início do século. Então, afigurou-se a possibilidade de realizar, pelo menos, uma história de família e talvez, a partir daí, partir para uma abordagem mais alargada à sociedade local ou regional. Neste momento, a base metodológica estaria lançada. A partir desta genealogia já quase completamente traçada, poderia complementar a informação e, mais facilmente, recolher as narrativas familiares que surgiriam sobre uma base documental concreta: quer a genealogia da família, quer a fotografia que lhe servia de base. O mesmo processo poder-se-ia estender a outras famílias locais. Em Agosto desse mesmo ano voltaria às Aldeias para um trabalho de campo preliminar e para me certificar da possibilidade de produzir a etnografia que trazia em mente. Nesse momento a ideia inicial estava já quase completamente desenvolvida. O projecto consistia então em fazer a história das Aldeias de Montoito a partir das narrativas de pessoas pertencentes a duas famílias locais ligadas tanto por laços matrimoniais mais antigos, como por outros mais recentes. As histórias de família constituiriam então uma base para a produção de uma história local. A narrativa enquanto elemento de análise fenomenológico surgia como o objecto de investigação teórico mais evidente e todo um retrato da sociedade até aos dias de hoje seria possível com base numa história das gerações contada pelos próprios sujeitos. Este projecto era obviamente imenso para a dimensão do texto escrito que era possível realizar. Em pouco tempo encontrei-me algo desnorteado na tentativa de conciliar toda a informação relativa, tanto à vida económica e familiar, como aos aspectos culturais da comunidade. Unificar todos estes elementos numa única monografia seria certamente o ideal, mas incomportável neste caso. Apesar da enorme quantidade de informação que estava em poucos dias a recolher, e de parte da qual teria mais tarde que prescindir, fiquei, pelo menos com a sensação de que o projecto era exequível. Finalmente voltei ao terreno no Verão de 2008. O projecto mantinha a sua base de orientação e, apesar de alguns avanços e recuos durante os três meses de pesquisa de terreno, foi possível mergulhar mais aprofundadamente na história local. A pesquisa

decorreu tranquilamente e sem demasiada preocupação em concretizar muita informação, já que o excesso poderia ser, talvez, mais prejudicial do que a escassez. Na intenção de criar um sentido sobre o passado, a associação de alguma literatura histórica e outra de análise social sobre o período do Estado Novo, com as narrativas pessoais dos informantes, revelou-se profícua. Em breve me vi perante a imagem decaída de uma antiga povoação, fatalmente dependente da visão política do regime salazarista, uma aldeia robusta, em tempos fervente de vida, e da qual restam hoje as recordações – cuidadosamente guardadas. A pesquisa prosseguiu na cadência pausada dos longos dias de Julho e Agosto. E um pouco como as invisíveis cidades de Italo Calvino, imaginei uma povoação impregnada de memórias. Nas imponentes casas de taipa dos proprietários, no jeito que tomam os longos arruamentos desalinhados, em hortas e fazendas decadentes e abandonadas ao matagal, no aspecto frágil de algumas lúgrebes e devolutas habitações, nas ruínas da antiga estação de Montoito, na sombria Sociedade Recreativa. Tudo parecia compor o cenário de histórias antigas, que tiveram o seu tempo, e que, como todas as coisas, chegaram ao fim. Compreendi já numa fase derradeira da pesquisa de terreno que teria de excluir parte do projecto e, pelo simples facto de que a maioria dos dados eram relativos a um período mais antigo, o tempo da juventude dos mais velhos, decidi limitar o espectro temporal, na redacção do trabalho, a essa época relativa às primeiras décadas do Estado Novo. Tinha todavia a actualidade sempre espreitando no horizonte, já que é o tempo de hoje que serve de referência à projecção romantizada do passado.

O passado é afinal um retrato a negativo do mundo de hoje

Foi a partir da exegese da memória histórica e social de um grupo humano, fortemente ligado a um ambiente agrário dentro da região alentejana, que se pretendeu reconstruir a história e a mitologia de um lugar, reflectindo sobre os processos de transformação social decorrentes do impacto de novas relações políticas e económicas, que implicaram uma reformulação dos modelos de produção e reprodução social, afectados como foram pela democracia e pela economia de consumo que se lhe seguiu. As formas de agência exteriores que influem nas dinâmicas locais e determinam a mudança social no seio das pequenas comunidades rurais alentejanas, introduziram no pós 25 de Abril e depois da integração de Portugal na CEE, novos modelos e novos

discursos, como foi observado por José Cutileiro em 1971. 2 Uma reorganização das relações sociais no seio destes meios rurais colocaram em oposição os antigos modelos culturais, vulgarmente referidos como “tradição”, e os novos modelos, cuja apreensão foi facilitada pela expansão dos meios de comunicação (a comunicação social, a televisão, o cinema, as auto-estradas, a Internet, o telemóvel etc.). É na tensão criada por esta oposição entre as duas realidades culturais opostas, “artificialmente criadas” mas localmente apreendidas e construídas, que podemos situar o contexto e o verdadeiro terreno da produção etnográfica em questão, visível nos testemunhos e nas narrativas de quem viveu as mudanças sociais em questão e sentiu a necessidade de se adaptar a elas. Assim, apesar do foco da pesquisa etnográfica se ter orientado na busca de memórias com referência ao período do Estado Novo (reportando-se na prática à recolha de informações junto de alguns dos mais antigos habitantes locais), o contexto próprio da sua narrativização cria-se a partir de um contraste marcado entre essa época histórica e a actualidade. Talvez não fosse possível ter uma memória tão viva desse período se a vivência de hoje não marcasse uma diferença tão acentuada entre a experiência passada da realidade e a experiência presente. Este contraste tornou essa memória mais próxima, mais evidente, permitindo a sua emergência através da demarcação emocional e afectiva de uma realidade que deixou de estar material e socialmente sensível. Penso, por isso, que o verdadeiro terreno de produção etnográfica se encontra sempre na tensão criada por estes dois "mundos".

A temática da desigualdade social apresentou-se como um importante elemento teórico da investigação, tendo como esquema operacional a sua relação com certos modelos culturais, tais como a família, o casamento, e o regime de posse de terra (onde se inserem tanto as questões relativas ao património familiar, como as relativas ao modo de transmissão desse património, as heranças). A caracterização da antiga sociedade local teria assim de partir de uma temática relativa ao trabalho, à família e à terra. De facto, tornou-se possível por essa via a expansão da narrativa etnográfica a outros campos do social, às atitudes económicas, à organização das relações no seio da família e do trabalho, às motivações individuais e aos acontecimentos colectivos. Tentou-se recriar uma visão viva de certa sociedade agrícola desenvolvida durante o período do Estado Novo, durante o qual terá conhecido um forte movimento de expansão, findo o qual terá entrado em processo de decadência e ruptura. Esta

2 v. José Cutileiro, [1971] 2004, Ricos e Pobres no Alentejo.

interligação entre a prosperidade da sociedade agrícola local e o período do Estado Novo constitui um aspecto histórico decisivo na interpretação das narrativas biográficas que são, não só reveladoras dessa relação, como transmitem a existência de todo um contexto cultural hoje desajustado (talvez mesmo “diabolizado”) dos actuais discursos e modelos “oficiais”.

Breve exposição metodológica da pesquisa de terreno

O modelo de construção etnográfico fundamentou-se nas próprias narrativas

pessoais dos informantes, residentes nas aldeias, enquadrando quer histórias de vida, quer histórias de família. Pretendeu-se deixar os discursos e os traços culturais intrínsecos ao terreno tomarem a dianteira na construção da etnografia, tendo como método e ferramenta de trabalho a observação participante e como principal técnica de recolha de dados as entrevistas ligeiramente estruturadas. A teoria teve assim um papel subsidiário no processo, dando lugar a uma predominância de conceitos e interpretações próprias dos grupos humanos em questão. Ao nível da metodologia adoptou-se como principal modelo de investigação a pesquisa de terreno com observação participante, fundamental numa investigação antropológica e etnográfica que pretenda transmitir a realidade humana, no modo como ela é entendida pelos sujeitos implicados no objecto do estudo. Robert Burgess sustenta

neste sentido que o interesse do trabalho de campo se centra sobretudo na possibilidade de se ser colocado perante o modo pelo qual diferentes pessoas conhecem, interpretam e compreendem as suas vidas e a realidade (Burgess, 1997: 3).

A observação participante foi principalmente um meio de recolher informação

sobre a vida presente e passada dos grupos humanos em questão. Resultantes de vários momentos de conversação e de entrevistas, as narrativas constituíram o principal corpo de dados empíricos que serviram de base à redacção do trabalho. Tomando a história de vida como ponto de partida, o projecto etnobiográfico, proposto na obra de Jean Poirier, Simone Clapier-Valladon e Paul Raybaut 3 , pretende a interligação contextual dos testemunhos e das narrativas de vida nas condicionantes socio-culturais do espaço onde se inserem os informantes. Há assim uma perspectiva exterior ao sujeito a partir do qual se tenta integrá-lo e compreendê-lo no seu próprio contexto cultural. Tentaram-se seguir, dentro do possível, as cinco etapas que

3 Poirier, Jean et al. [1983] 1999. Histórias de Vida. Celta Editora. Oeiras.

constituem o percurso ideal a trilhar na senda do trabalho etnobiográfico, de modo a enquadrar e a validar a informação adquirida durante a pesquisa.

A primeira etapa consiste na produção de uma história de vida elaborada pelo narratário, fazendo-se as necessárias inquirições ao narrador para corrigir, completar e interpretar o texto resultante das conversas. Em segundo lugar, é imperioso situar a narrativa de vida socio-culturalmente; ou seja, inseri-la no seu contexto social específico, quer a partir das informações obtidas junto do narrador, quer através de informação recolhida de outras formas. Num terceiro momento a narrativa construída deverá ser apresentada perante o narrador para que seja escrutinada e criticada. De seguida poderá também ser colocada perante outros elementos do grupo social por forma a que estes dêem a sua opinião e a sua própria visão dos factos e das representações e interpretações do narrador. Por fim, deve proceder-se a uma confirmação da informação recolhida por meios de pesquisa documental e arquivística, através dos métodos clássicos do inquérito etnográfico (Poirier et al., 1999: 38-39). As entrevistas semiestrutradas constituindo deste modo um instrumento fundamental na recolha de informação no terreno e na procura de narrativas pessoais, histórica e socialmente significantes, implicam consequentemente uma familiaridade e um certo grau de intersubjectividade com o interlocutor, que apenas a observação participante permite alcançar. A empatia numa intersubjectividade vivida e partilhada

no dia a dia torna-se então uma ponte importante para o aprofundamento das questões

essenciais ao trabalho científico. Burgess refere este aspecto relacional entre investigador e investigados como crucial (Burgess, 1997: 117), mas é Piedade Lalanda quem melhor foca a importância de uma empatia nas relações interpessoais, construídas durante o trabalho de campo sociológico. Num artigo dedicado à componente qualitativa da pesquisa sociológica, Lalanda refere a entrevista compreensiva como uma valiosa ferramenta na recriação de

narrativas de vida pelo contacto directo com o objecto de estudo (Lalanda, 1998: 871).

A investigadora defende a utilização de «técnicas qualitativas baseadas na relação

aprofundada com um pequeno número de actores sociais» (Lalanda, 1998: 872), permitindo a emergência de discursos e linguagens específicas próprias de uma realidade desconhecida que se pretende iluminar, através da produção de narrativas socialmente enraizadas. A história de vida, a biografia e a entrevista em profundidade

são formas de fazer sobressair essa realidade oculta, o que acontece no momento em que se humaniza o processo de investigação pelo contacto directo com as pessoas que

configuram o objecto de estudo, eliminando a distância entre entrevistador e entrevistado e transformando

“a recolha de informação numa experiência que «humaniza» a própria investigação [pela relação de intersubjectividade], ou seja, [proporcionando] ao investigador a possibilidade de «ver por dentro», tomando uma dupla posição de observação: a de investigador e a do próprio actor” (Lalanda, 1998: 873).

Lalanda afirma ainda que uma atitude «antropológica» do investigador é uma condição da qual depende a eficácia da entrevista, dando a entender que essa atitude se refere sobretudo a uma certa «empatia» (tida pela psicologia social como primordial no sucesso da relação terapêutica). A acção desta empatia permite a criação de um laço relacional entre entrevistador e entrevistado que permite a anulação do distanciamento formal originado por uma cientificidade objectiva, dando lugar a uma partilha da subjectividade de quem se conta durante as entrevistas (Lalanda, 1998: 873). Quanto à classificação da informação recolhida nas entrevistas, Lalanda distingue entre história de vida, narrativa e testemunho. Enquanto que a primeira constitui, segundo esta investigadora, a «globalidade de uma existência» e as suas diversas fases, tomando um cunho autobiográfico, já a narrativa de vida, sem necessitar de uma colagem autobiográfica, surge mais como um «discurso sobre a história de vida», onde a pessoa se conta (Lalanda, 1998: 876). A distinção parece aqui assentar no carácter interpretativo da narrativa, onde existe já uma reflexividade latente em relação às próprias vivências. Por fim, o testemunho apresenta-se como um «relato centrado num acontecimento vivenciado pelo autor do discurso» (ibidem).

O contributo da Narrativa na metodologia etnográfica

Sendo a narrativa a pedra angular da presente investigação de terreno torna-se importante uma breve reflexão sobre o seu papel no processo etnográfico. As narrativas pessoais veiculam em si mesmas dois tipos de informação diferentes: o primeiro pode descrever-se como formado por dados concretos relativos a um aspecto mais formal da cultura, dados respeitantes aos elementos da realidade cultural (material ou não), e que se organizam naquilo que constitui o aspecto mais verdadeiramente empírico da informação etnográfica recolhida por meio de testemunhos pessoais. Este é o tipo de informação sociológica que Victor Turner compreende como característica de uma investigação governada por princípios nomotéticos e que ele classifica de ideográfica (Turner, 1980: 139). É também o tipo de

informação que se pode considerar como constituinte do esqueleto da realidade social sob investigação. Dados genealógicos, de linhagem e parentesco, censos, normas e regras sociais, aspectos económicos, formas rituais ou características do calendário agrícola e das festas associadas, são exemplos do tipo de material que pode ser recolhido por meio de testemunhos pessoais. Malinowski integrou a recolha deste tipo de informação na metodologia do trabalho de campo, e considerando-a essencial à criação de um modelo formal, abrangente da cultura nativa, classificou-a nos Argonautas do Pacífico Ocidental como constituindo uma forma de «documentação estatística através de provas concretas» (Malinowski, 1987 [1922]: 17). Ao carácter empírico de alguns dados recolhidos em narrativas pessoais, segue-

se um segundo tipo de informação, também ele caracterizado por Malinowski nos

Argonautas, e que é decisivo para a elaboração de um argumento sobre o contexto social em questão; esta informação é relativa às opiniões, comentários e argumentos elaborados pelas pessoas relativamente aos mais variados aspectos da sociedade: um corpus inscriptorum (Malinowski, 1987: 22) Aquilo que em linguagem vulgar se chama de mexerico ou bisbilhotice integra-se perfeitamente nesta categoria, mas também comentários mais abrangentes ou abstractos da realidade, compreendendo uma determinada visão do mundo ou uma espécie de senso comum ou sabedoria popular, se incluem aqui. Este tipo de comentários sobre a realidade social, seja ela económica, política ou outra, pode revelar-se muito importante na delineação de padrões de argumentação característicos de uma determinada facção ou subgrupo social. Dado o contexto de transformação cultural que está subjacente a este estudo e a já referida tensão provável, talvez oculta, entre uma visão mais “tradicionalista” e outra mais “progressista”, existente no seio de um grupo social com uma história comum, a delineação destas formas de cisma, manifestas através do comentário, parece-me fundamental.

Dos três tipos de dados etnográficos definidos por Malinowski, falta referir um que, em si mesmo, se constitui como a própria razão de ser da observação participante,

e aquele que melhor a define. Refiro-me ao que Malinowski denomina de

imponderáveis da vida quotidiana (Malinowski, 1987: 18). Este conjunto de informação etnográfica consiste naquilo que são os aspectos mais emocionais ou afectivos, observáveis no comportamento geral, no tom da conversação, nos momentos de reunião

ou na “existência de amizades ou hostilidades” entre as pessoas (Malinowski, 1987: 18); a “atitude mental” expressa na disposição com que se toma parte de um acontecimento

ou aquilo que nos indivíduos tece a ligação entre os vários subgrupos ou as várias facetas da vida social são componentes que caracterizam todo este conjunto de comportamentos que Malinowski viu como as formas não-linguísticas, não ideográficas, não narrativizáveis da cultura; que Sapir enquadrou nos mais personalizados aspectos da cultura, também eles constituindo redes simbólicas, ligando diversos constituintes da sociedade de diferentes aspectos formais (Turner, 1980: 141); que Dilthey classificou como as “estruturas da experiência”, essenciais na compreensão da acção humana (Turner, 1980: 139); que, finalmente, Victor Turner interpreta como sendo toda uma harmonia de “valores” organizados numa malha de significados, implícita (a par da volição, do desejo, da afectividade e de outras formas causais ou motivadoras da acção) nas dinâmicas sociais produtoras da mudança, onde se integram as formas de reflexividade social responsáveis, entre outras coisas, pelas práticas performativas, artísticas e rituais, nas quais se integram a própria narrativização da experiência, onde os diversos géneros da performance e da literatura, escrita ou oral, encontram a sua matéria primordial (Turner, 1980: 154). O drama social de que nos fala Turner, como catalisador da experiência e da narrativa, constituído no seio daqueles mesmos «imponderabilia of actual life», permite-nos procurar no mito e na narrativa que ele constitui, os indícios desses mesmos aspectos mais emocionais e estéticos da acção, dos quais Malinowski realça a imponderabilidade, e sobre os quais Turner acentua a predisposição dramática. Configurando-se como parte do drama social, quer na sua origem, quer posteriormente na sua forma reflexiva (ao drama social segue-se a sua encenação, a sua narrativização, a sua imitação 4 ), aqueles aspectos mais imponderáveis do quotidiano, são reconstituídos em mito e reintegrados na trama de experiências, histórias, leis e significados que constitui o próprio processo cultural. Em suma, podendo encontrar nas narrativas, nos mitos e nos discursos, uma representatividade dos aspectos intelectuais, morais, éticos, afectivos e emocionais dos indivíduos, é possível uma hermenêutica do discurso que nos permita reconstituir a história cultural de um grupo a partir da memória e dos mitos por ela criados.

4 Como ponto de partida para uma abordagem da narrativa como imitação da acção humana destaca-se a seminal obra de Aristóteles conhecida como Poética, onde se analisa, sobretudo, as formas dramáticas da tragédia e da comédia e onde se traçam as primeiras reflexões de carácter estético e formal sobre a produção literária, salientando como elemento fundamental da narrativa o mito, que pode ser hoje entendido como o enredo da história, mas que como imitação é extensível a vários campos da performance, na dança, na música ou na poesia.

“Longe de ser um problema, (

)

a narrativa pode bem ser considerada uma

solução para um problema que à generalidade da humanidade respeita, nomeadamente o

problema de como transpor o conhecimento para o que pode ser contado, o problema de

modificar a experiência humana para uma forma assimilável pelas estruturas de significado

) longe de ser

um código entre muitos [um sistema de símbolos] que uma cultura pode utilizar para

que são, de um modo geral, humanas, em vez de culturalmente específicas (

atribuir à experiência significado, a narrativa é um metacódigo, um universal humano na

base do qual mensagens transculturais sobre a natureza de uma realidade partilhada podem

ser transmitidas” (White, 1980: 1-2). 5

Nota prévia sobre Desigualdade Social

Os sistemas económicos, como geralmente criticados na filosofia marxista, assentam em modelos de produção decorrentes de uma desigualdade social relativa ao controle dos meios de produção, ou, de outro modo, em determinados modelos de diferenciação hierárquica entre os homens, geradores de conflitos e controvérsias no seio das relações sociais. Estas, paradoxalmente, possuem uma certa solidez, estabilidade e continuidade, o que permite a existência de um corpo social organizado que se mantém com notável durabilidade ao longo das gerações. Podemos, todavia, admitir que os modelos de produção que compõem os aspectos económicos das sociedades não derivam em si mesmos da estrutura de classes ou da desigualdade social. As formas de desigualdade são antes consequência do próprio sistema produtivo, do modo como se processam as relações de produção decorrentes da tecnologia envolvida, das formas de trabalho associadas ou das próprias cadeias produtivas. A relação causa-efeito inverte-se e a acção produtiva constitui-se afinal em determinante das formas gerais do colectivo 6 . Por isso a revolução comunista

5 no original: “Far from being a problem, (

of general human concern, namely, the problem of how to translate knowing into telling, the problem of

fashioning human experience into a form assimilable to structures of meaning that are generally human

rather than culture-specific (

endowing experience with meaning, narrative is a metacode, a human universal on the basis of which transcultural messages about the nature of a shared reality can be transmited”. 6 Esta ideia, apesar de presente em grande parte dos trabalhos de antropologia social, desde o funcionalismo de Malinowski aos trabalhos mais recentes sobre performance e ao construtivismo, reporta-se contudo à teoria desenvolvida e apresentada por Bruno Latour em Reassembling the Social, onde se formula uma sociologia de cariz antropológico denominada de Actor-Network-Theory. O conceito de colectivo decorre também da teoria de Latour e remonta aos estudos de Sociologia da Ciência (“Sociology of Scientific Knowledge”). Por várias razões que Latour aponta, colectivo será um conceito por vezes mais apropriado às ciências sociológicas do que o de sociedade, comunidade ou grupo. Saliente-se por exemplo o aspecto agencial dos artefactos no seio das relações sociais, compondo um

far from being one code among many that a culture may utilize for

)

narrative might well be considered a solution to a problem

),

corpo de relações onde se integram com igual componente de agência e acção humanos e não-humanos.

O colectivo será então uma mistura de agencialidades delegadas por humanos em não-humanos

(objectos), destes em humanos e por aí adiante, constituindo-se um todo social que, na realidade, só é

falha a sua promessa de igualdade: adoptando a mesma tecnologia produtiva e os mesmos sistemas de relações, ela apenas cria uma nova elite de estado que se apropria dos meios de produção e consequentemente de todo o aparelho económico pela anulação da livre concorrência. Se por um lado é possível que se conserve uma determinada coesão social, mesmo com tais assimetrias e tensões, em colectivos humanos onde a desigualdade

entre indivíduos é simultaneamente aceite e censurada, por outro preservam-se, através

de uma série de mecanismos representacionais, as contradições decorrentes de discursos

opostos e conflitos alimentados pelos diferentes grupos que compõem a hierarquia social. Estes dois movimentos (de permanência e de cisão) revelam um antagonismo de tal modo grave que a verificação de um equilíbrio e de uma sustentabilidade nas relações sociais no longo prazo, tem necessariamente de ser escrutinada e explicada, de modo a alcançar uma visão compreensiva que possa esclarecer a plausibilidade da existência social, no modo como se constrói e protege esse corpo colectivo.

A averiguação das dinâmicas que permitem a estabilidade nas relações entre dominadores e dominados aparece, contudo, num campo de análise que ainda releva muito da reflexão filosófica, mesmo quando se pretende alcançar um certo grau de cientificidade antropológica ou sociológica. No âmbito da antropologia portuguesa, Miguel Vale de Almeida 7 movimentou-

se no sentido de compreender o modo de funcionamento de um tipo de desigualdade

intra-género, tendo forjado o conceito de “masculinidade hegemónica” como modelo e ideal de referência, a partir do qual todos os homens seriam avaliados numa escala de “masculinidade”, sendo-lhes concomitantemente atribuído um determinado estatuto na sua relação com os outros. As possibilidades de respeitar esse “código de masculinidade” não seriam acessíveis de igual modo a todos os homens, variando com

referência à posição dos indivíduos na estrutura das relações de produção, ou decorrendo de uma hierarquia relativa à valorização do prestígio e da riqueza material.

A

“masculinidade hegemónica”, descrita em Senhores de Si, servia assim um conjunto

de

interesses de uma pequena parte dos homens da aldeia de Pardais, deixando os outros

numa relação de subalternidade, ou seja, de “feminilidade” latente.

possível pela acção combinada de ambos os elementos. A tecnologia integra-se, por fim, no seio dos estudos socio-antropológicos desempenhando um papel social tão relevante quanto os aspectos cognitivos, filosóficos, biológicos, linguísticos, etc. 7 Vale de Almeida, Miguel. 1995. Senhores de Si – Uma interpretação antropológica da masculinidade. Fim de Século. Lisboa.

A criação, por parte do investigador, do conceito abstracto de “masculinidade

hegemónica” é feita no sentido de explicar as diferenças existentes no seio do colectivo.

Vale de Almeida tenta discernir no conjunto das relações de trabalho, no convívio quotidiano em espaços colectivos, ou na performatividade própria dos aspectos da

afectividade, o modo pelo qual aquele tipo de subalternidade é possível. Assim, nos três últimos capítulos da obra, descrevem-se uma série de componentes do complexo social que permitem a manutenção de tão assimétrica relação entre o pequeno número de indivíduos que se aproximam da masculinidade ideal, e a restante maioria que voluntariamente reconhece a supremacia dos outros, valorizando superiormente o comportamento masculino desta minoria, em contraste com a própria inferioridade, feminilidade e submissão.

É a possibilidade de manter conflitos de interesses, sem pôr em causa a

permanência do corpo social, e permitindo simultaneamente a cooperação e o próprio voluntarismo na aceitação dos modelos que inferiorizam o indivíduo subalterno, que carece de explicação e que se pretende, nesta monografia, focar relativamente à temática da desigualdade.

Breve caracterização histórico-geográfica

Na construção de modelos para a compreensão da realidade, o espaço físico e a materialidade da paisagem ocupam um domínio particular, que decorre tanto das suas implicações nos campos cognitivo da percepção e da experiência da realidade, como das suas consequências no campo das representações. É indispensável uma contextualização simultaneamente histórica e geográfica do espaço etnográfico em questão.

O Espaço Mediterrânico

Orlando Ribeiro, responsável por alguns dos mais importantes estudos de geografia portuguesa no século XX, foi o mentor de uma interpretação geográfica do território português em que este se constituiria num espaço de tensão entre um ambiente determinado pelo contacto com o Atlântico e um outro penetrado pelas influências mediterrânicas. De certo modo, todo o espaço continental seria constituído, na sua base, por terras essencialmente mediterrânicas, o que é comprovado sobretudo pela vegetação nativa predominante. Todavia, este ambiente degradar-se-ía nas terras mais próximas do mar ou nas de elevada altitude, formando-se um ambiente húmido, muito típico do

Atlântico, na orla litoral, ou então, nas regiões de relevo acentuado, ambientes típicos de montanha. A estrutura fundiária, outro aspecto fundamental da organização social, em combinação com as determinantes geográficas, formaria em Portugal uma espécie de composição dualista entre o Norte e o Sul. Predominava no primeiro um ambiente mais húmido, marítimo ou serrano, que conjugado com o mosaico de pequenas propriedades agrícolas dava origem a uma região de minifúndio e agricultura familiar. Já nos extensos campos do Sul adoçava um ambiente mais cálido e seco. Aí, o prejuízo resultante da fraca qualidade das terras dissipava-se na formação de grandes propriedades, geralmente denominadas de latifúndios, onde a agricultura de subsistência, própria de outras regiões do país, era substituída pela exploração extensiva, pelo absentismo e pelo arrendamento. Aqui, as unidades de exploração agrícola tomaram o nome de herdades, o que salienta a perenidade do seu espaço físico enquanto meio económico de exploração, passado ao longo das gerações das linhagens de proprietários. A auto-sustentabilidade económica é geralmente tida como a principal característica destes vastos domínios territoriais dedicados simultaneamente à agricultura e à pastorícia, e por vezes à caça. A estrutura fundiária, o tipo de distribuição populacional, a forma dos aglomerados humanos, o urbanismo e a arquitectura característica do Sul do país, identificavam Alentejo e Algarve como exóticas províncias, talhadas numa similaridade com o ambiente mediterrânico. A influência histórica da cultura islâmica acentua, sem dúvida, esta relação.

Numa obra simplesmente intitulada de Mediterrâneo, Orlando Ribeiro realça como características transversais a todo o espaço mediterrânico a fraca produtividade das terras, a economia de base agrária em condições geográficas singularmente adversas e o povoamento concentrado, de tendências urbanas. O Portugal do Sul reúne, historicamente, estas condições. A parca produtividade dos campos agrícolas é vista, desde longa data, como um dos factores determinantes do atraso económico da região mediterrânica. São terras secas, superficiais e pedregosas, que se constituem como uma das maiores barreiras ao desenvolvimento e ao progresso humano. Em sociedades essencialmente agrícolas, essa fragilidade terá tão certamente originado longos períodos de fome e miséria como terá fomentado a engenharia e a criatividade das gentes, que aproveitaram com a maior

eficiência possível os fracos recursos naturais disponíveis, cultivando e pastoreando onde a terra o permitia, plantando espécies mais resistentes à escassez de água e de nutrientes, como a vinha e a oliveira, procurando e realizando os meios para aproveitar a pouca água disponível e a árida superficialidade dos solos. Há nesta constante luta contra a severidade da natureza tanto uma semente de poesia como de dialéctica, e é tentador imaginar que, tanto o enlevo criativo e transcendente das religiões mediterrânicas, como o ímpeto científico que age em busca do domínio da natureza, tenham nascido da necessidade de continuar a viver em terras de labuta tão árdua e penosa.

Tais condições materiais terão tido consequências nas formas de organização da propriedade agrícola e no povoamento, criando nos extensos campos do Sul a exploração agrícola de sequeiro, entrecortada por pequenas zonas estrumadas, de

regadio, que são aproveitadas para hortas e pomares de cultura intensiva. Campos onde

a exploração da terra se garantia de par com a exploração do homem, do trabalho

escravo ou servil. Surgiram assim no espaço mediterrânico, por um lado, sociedades fortemente hierarquizadas onde predominava a grande propriedade – o latifúndio – que integrava, juntamente com a agricultura, extensas áreas de pasto e arvoredo (sobro, azinho e olival), a que no Alentejo se chamam montados; por outro lado, evoluiu em regiões mais húmidas e férteis uma divisão de tipo minifundiário, despontando esta em zonas onde o regadio se estendeu com sucesso a áreas consideráveis e onde a pequena exploração agrícola familiar terá dado origem, por outros processos, a outras formas de hierarquia social e de exploração da mão-de-obra campesina. Todas as insuficiências próprias destas sociedades agrárias, a necessidade de sustentar uma produção agrícola em terrenos medianos ou pobres, com escassez de meios, para satisfazer as necessidades de uma população crescente e por vezes concentrada em densos aglomerados urbanos, terá constituído factor primordial da emigração. Existe, assim, por meio das próprias determinantes geográficas, uma necessidade de abarcar o exterior num movimento de fuga dos lugares de origem, a vontade de combater a pobreza e a estagnação económica pela busca, longínqua, de fontes de

riqueza indisponíveis na terra natal, dada a pobreza dos solos, dado o excesso de gente e

a escassez de recursos; procurando numa vida diferente do modo de existir tradicional uma chama de prosperidade material.

Mas, em verdade, a emigração não é um fenómeno apenas referente à “gente humilde” que abandona os campos em busca de alguma riqueza nas cidades. A desigualdade social que origina a fuga dos campos opera muitas vezes no sentido inverso, originando a saída dos que têm uma posição social relativamente privilegiada. Estes, porque conseguiram um nível de educação escolar superior, ou porque não tiveram que trabalhar desde muito cedo podendo estudar mais tempo, estão mais aptos para a ascensão social, almejando uma profissão fora da agricultura, como nos relatou Cutileiro em relação a Vila Velha. Assim, a desigualdade pode originar tanto o êxodo rural dos grupos privilegiados, alfabetizados, escolarizados, como o êxodo dos que nada têm.

A emigração e a consequente concentração populacional em grandes centros demográficos constitui assim um dos processos, embora não o único, a actuar na formação de densos aglomerados populacionais, que ao atingir determinadas valências se excluem do domínio da ruralidade transformando-se em núcleos urbanos. No entanto, a classificação dicotómica rural/urbano é, no contexto mediterrânico, algo indefinida e de ténues contrastes, formando um longo e complexo conjunto de casos inclassificáveis entre os dois pólos do espectro. Geralmente a diferenciação parece assentar no sector de actividade predominante, relacionando-se a economia agrícola com o meio rural. Contudo, Orlando Ribeiro refere-se a esta dicotomia entre o rural e o urbano como não sendo exactamente aplicável ao ambiente tradicional mediterrânico, defendendo que nos campos de paisagem agrária predomina um ambiente semi-rural. Tal significa que, mesmo nos aglomerados populacionais predominantemente afectos à tradição agrícola, se desenvolve toda uma gama de outras actividades indispensáveis à vida colectiva dos campos, actividades essas geralmente associadas à pequena indústria e ao comércio, ou seja, actividades habitualmente conotadas com os ambientes urbanos. Existe uma interdependência de competências (magistralmente descrita por Silva Picão), imprescindíveis na estrutura da economia agrária, que se coaduna não só com a aglomeração concentrada como com um progresso sustentado do sistema económico local, onde proliferam toda uma série de actividades artesanais, de transformação de produtos agrícolas, de comércio e associação, que constituem um embrião do arquétipo urbano. De certo modo, é notório que mesmo nas pequenas cidades portuguesas da província (provavelmente todas, à excepção dos grandes centros administrativos:

Lisboa, Porto, Coimbra, Braga, Évora) predominou, até ao século XX, e mesmo durante

este, um ambiente que se assemelhava mais a um modelo de ruralidade do que a uma situação citadina de espaços densamente povoados, típicos das urbes flamengas ou inglesas. É por isso que, provavelmente, também aqui, e não só nos campos, se torna despropositado traçar uma fronteira entre o espaço urbano e o espaço rural, classificando os modelos de organização do espaço segundo este princípio dual.

“A formação intermédia entre a aldeia, habitada apenas por camponeses ou pescadores, e a cidade, inconfundível no tamanho e na complexidade das suas funções, designa-se, em Portugal por vila, a que corresponde geralmente, a par com uma modesta função administrativa, um centro de troca servido, ao mesmo tempo, pela circulação geral e pelo artesanato local. Há vilas decaídas da antiga função de municípios ou concelhos que conservam uma feição exclusivamente rural; a maior parte, porém, possui nos elementos indicados um embrião de vida urbana, que ora floresce, servido pela iniciativa e favorecido pela posição em relação às vias de trânsito, ora se extingue na rotina e no isolamento” (Ribeiro, 1987: 215).

Em Portugal, a libertação da propriedade dos últimos vestígios feudais, no século XIX, extinguiu, na maioria dos lugares, as terras de exploração comunal, essenciais para o sustento do gado dos camponeses, deixando-as à mercê dos grupos endinheirados. Deste modo, no Alentejo, a consolidação de propriedades pelos latifundiários retirou a possibilidade à grande maioria dos trabalhadores de obterem um rendimento directo a partir da posse de um certo número de cabeças num “rebanho colectivo”. Este ponto é importante porque pode ter condicionado decisivamente a mobilidade social, limitando a produção de riqueza do pequeno camponês e, simultaneamente, assegurando quer a concentração do poder fundiário quer a disponibilidade de mão-de-obra para laborar em terra alheia (aspecto não desprezável na constituição moderna do latifúndio de monocultura). Por outro lado, a instalação de hortas constitui também ela um factor de coesão devido, sobretudo, à necessidade de uma coordenação de interesses relativa à organização dos terrenos de regadio, já que só estes suportam a diversificação e a intensidade de cultivo necessárias à horticultura.

“O latifúndio realiza, sob a mão de um só dono, as mesmas condições de

exploração agrupada que caracteriza a comunidade de aldeia. [

como a constituição de uma horta implicam um processo complicado de organização do espaço, que só se compreende dentro duma comunidade de interesses e duma disciplina colectiva a que não é favorável a dispersão inicial das habitações; esta só se pode desenvolver quando o regadio se instalou em larga escala” (idem).

Tanto o afolhamento

]

Assim, tanto o modelo de exploração comunitário como o modelo capitalista parecem tender para a concentração em aglomerado ao invés da dispersão das habitações, formando núcleos populacionais que podem adquirir uma certa tonalidade urbana.

“Os progressos do cereal, considerado desde a Antiguidade como um índice de civilização, por um lado, e do grande regadio, por outro, foram, sem dúvida, um factor de coesão entre os homens. Assim como as grandes aldeias salpicam, de longe em longe, a vastidão das searas, também as hortas têm como centro uma aglomeração; semi-rural esta, pois a par do trabalho da terra em que se ocupa a maioria dos habitantes, raro será que qualquer cultura não suscite uma indústria, alimente um comércio e constitua uma fonte de prosperidade e um apelo de novas necessidades, que dão a estas povoações, para além do elevado número dos seus habitantes, um toque de vida urbana. Algumas, com a aparição da feira, de produtos e de trabalho, e o porto de exportação, transformam-se em autênticas cidades, sem deixarem de estar profundamente ligadas ao amanho da terra” (Ribeiro, 1987:

209, sublinhado meu).

Hipoteticamente será possível de identificar a relação deste tipo de ambiente semi-rural com todo o tipo de necessidades e potencialidades que surgem da tradição agrícola, onde a ausência de mecanização faria de um conjunto de misteres e ofícios elementos fundamentais da comunidade agrícola e onde, também, a diversidade de produtos criados nas terras de regadio daria azo à instituição de um comércio relativamente dinâmico. Hipoteticamente, é a introdução das máquinas no trabalho agrícola – que dispensam a mão-de-obra não só dos campos como das vilas – e a instalação da monocultura (pela supressão da policultura) – degradando o tráfico local – que transformam aquilo que era tradicionalmente um terreno complexo de trocas, onde se cruzavam as influências do campo e da cidade, num ambiente agora algo descaracterizado e significativamente mais «rural» e isolado do que fora outrora. A monocultura do cereal ou do arroz, à semelhança dos modelos agrícolas da Europa central e dos Estados Unidos (estes verdadeiramente capitalistas), poderá ter sido responsável quer pela destruição do ambiente tipicamente semi-rural dos campos mediterrânicos quer, por fim, pela degradação última da agricultura desta região, fruto da inviabilidade económica dos seus produtos tradicionais de sequeiro no mercado global – excepção feita ao vinho, que, adquirindo qualidades específicas consoante a terra, o clima e a casta da uva, se recriou num produto de prestígio.

Povoamento

Quando os primeiros grupos humanos pretenderam ocupar as suaves planícies alentejanas, o ambiente natural que aí encontraram terá, com maior probabilidade, constituído uma barreira à prosperidade das gentes e um inimigo na luta pela permanência, do que uma “terra prometida” de fertilidade e riqueza. Com efeito, a grande maioria dos solos desta região não se distinguem pelo seu potencial de produtividade agrícola. As condições primitivas poderão talvez ter favorecido mais a pastorícia de transumância e o nomadismo do que a instalação de comunidades agrícolas sedentarizadas.

Cenário natural e períodos históricos

Desde o despontar da história que no território que se estende entre o Tejo e a serra algarvia predominam as extensas áreas de charneca e os solos pétreos, superficiais. As escassas terras de barro, profundas, que existem disseminadas na província alentejana, boas para o cultivo de géneros, estão sujeitas a um clima quente e seco, propício a curtos períodos de forte pluviosidade que, quando irrompem, carregam muitas vezes, nas enxurradas, os nutrientes acumulados no solo ao longo de vários anos de pousio. Num tempo pré-histórico a flora natural do Alentejo não difere muito da restante Europa mediterrânica, compondo-se de muitas plantas arbustivas, certas espécies odoríferas de agradáveis perfumes, e algumas espécies arbóreas, fortemente adaptadas à secura, ao calor e à aridez. O sobreiro e a azinheira, as espécies mais conhecidas, «de folhas miúdas, duras e aceradas» 8 , nascem espontaneamente pelos campos. Várias plantas aromáticas encontram aqui, entre o matagal seco e espinhoso, lugar adequado para crescerem. A alfazema, o rosmaninho e o alecrim, ou o zambujeiro, o medronheiro e as estevas, são géneros naturalmente adaptados a estas terras. Mas ao contrário desta vegetação antiga, que permanece ainda hoje em alguns incultos, baldios e montados, a primitiva fauna não vingou à prova do tempo, e hoje apenas os javalis parecem subsistir de entre os animais de grande porte. Outrora lobos, ursos e veados também habitavam estas planícies ásperas mas, provavelmente, a oposição humana terá levado ao seu desaparecimento. 9

8 Ribeiro, Orlando. Mediterrâneo, 52.

9 Veiga de Oliveira, Ernesto, et al. 1976. Alfaia Agrícola Portuguesa. Instituto da Alta Cultura. Lisboa,

72.

Neste período antigo, dominado pelas terras maninhas de charneca bravia, extensos montados, e até certo ponto alguns bosques primitivos, a ocupação humana, restringida por estas condições naturais, resguardava-se em núcleos populacionais. Situados em localizações de ocupação histórica, circundados de hortas, pomares e bons pastos, em montes 10 de terras férteis e bem irrigadas, ou em locais privilegiados de defesa estratégica militar, estes lugares concentravam a quase totalidade da presença humana em terras transtaganas. Este tipo de fixação é geralmente considerado como próprio de uma primeira fase histórica do Alentejo. Denominada de Período Antigo ou da charneca, remonta ao princípio da ocupação humana e termina no final do século XIX. Ainda neste século de oitocentos, os campos agrícolas situavam-se quase exclusivamente em torno dos aglomerados populacionais, nos solos mais ricos e em algumas clareiras. O cultivo de cereais em regime de sequeiro, utilizando longos pousios de pastagem, e o gado, constituíam a base económica da região. Aproveitavam- se alguns solos adequados para os vinhedos, tirava-se o usufruto da bolota que abundava nos montados, e da azeitona, como recursos económicos secundários, no entanto indispensáveis no sistema de produção local. Um segundo período histórico é habitualmente referido como o Período das grandes arroteias e da adubagem química. Esta época inicia-se com o princípio do século XX e termina em meados do mesmo século. 11 Tendo sido marcada sobretudo por uma nova mentalidade agrícola, refere-se a um tempo em que medra a semente de um capitalismo agrário que transformou decisivamente a lavoura no Alentejo no último século. A utilização de adubos industriais e a destruição da charneca com vista à libertação de terrenos cultiváveis, conjuga-se com uma atitude do lavrador que privilegia o investimento e um certo risco para a concretização de lucros numa base

10 O monte considera-se no Alentejo como o centro de toda a lavoura. Fisicamente constitui aquilo que se denomina de “casa complexa” com todos os cómodos e casas necessários à manutenção de uma lavoura auto-suficiente. Casa principal, casas para criados e casões para as alfaias (abegoaria), oficinas, queijarias, ucharias, pocilgas etc. Era geralmente habitado pelo lavrador (proprietário ou rendeiro), pelos feitores, guardas, carreiros, artesãos, cozinheiro e respectivas famílias, formando por vezes aglomerados populacionais consideráveis, plenos de vida, de gente e animais (cavalos e éguas, asininos, cães, aves domésticas, bois, porcos, pombos, etc.) 11 Situa-se por vezes o início deste período no penúltimo quartel do século XIX. Na verdade a combinação entre os extensos arroteamentos e a aplicação em força da adubagem química parece só se configurar a partir da década de 1890, após a promulgação da primeira lei proteccionista, a de 1889. Jaime Reis afirma que só durante os anos do sistema proteccionista assim iniciado é que os agricultores se interessaram pelos adubos industriais. Em 1889 apenas 1037t de adubos seguiram pela linha férrea do Sul e Sueste. Dez anos mais tarde, 19 572t fizeram o mesmo percurso e em 1913 atingiu-se um máximo de 89 976t (Reis, 1979:785). Ou seja, esta segunda fase histórica parece, em boa verdade ter-se iniciado apenas nos últimos anos do século XIX, sendo o advento do século XX um melhor marco temporal do que o penúltimo quartel da anterior centúria.

temporal definida. Apoiado e incentivado pela acção legislativa do Estado, a postura do novo empresário agrícola tem como consequência a transformação drástica da paisagem e a formação de todo um conjunto de elementos na sociedade que vai estar na base da política económica agrícola do Estado Novo, sustentando novos modos de produção e abrindo caminho à mecanização geral da lavoura no período seguinte. Finalmente, considera-se a existência de uma última grande época histórica, denominada de Período da mecanização, iniciada nos anos 50 do último século e que se prolonga até aos dias de hoje. É uma fase de fortes contrastes e contradições sociais decorrentes de uma drástica transformação dos modos de vida: mecanização, desemprego, êxodo rural, desagregação social, acompanhando mudanças profundas ao nível das tecnologias de produção, dos padrões de distribuição demográficos e da economia política nacional. Contudo, o momento actual continua a ser de acelerada transformação social e económica podendo-se falar da emergência de uma nova etapa histórica na região, coincidente com uma integração do espaço local na economia mundo e nos mercados globais. Uma época de conformação e assimilação de um modelo político europeu que se alargou aos países ibéricos, e que impõe, para além da reorganização da actividade agrícola e das indústrias de transformação tradicionais, a necessidade de abrir caminhos a outros sectores de actividade económica, nomeadamente ao turismo. Se a demarcação de períodos históricos numa perspectiva transversal e totalizadora pode ser criticada por não enquadrar nenhum critério bem definido, deve-se realçar que a categorização temporal como aqui foi descrita, parece assentar numa preponderância dos aspectos geográficos e paisagísticos, directamente interligados com os modelos de produção agrícola e de acção sobre a paisagem natural, modelos esses resultantes de novos paradigmas de produção relativos a certos momentos de revolução tecnológica. Nesta medida, a tecnologia parece constituir-se como um factor fundamental na transformação da paisagem e dos sistemas produtivos.

Montoito e as suas Aldeias

As origens da povoação de Montoito remontam aos primeiros tempos do Reino de Portugal, quando «Pedro Anes, reposteiro-mor de D. Afonso III, e sua mulher,

lhe concederam carta de foro em 3 de Janeiro de 1270» (Espanca,

Sancha Anes [

1978: 331). Esta carta constituiu um couto de colonização rural na Herdade de Valongo, dando origem a uma primeira ocupação permanente, sob a égide de um poder

]

legítimo e oficial. Neste documento referem-se as Herdades de Mem Coca e do Álamo, as mais antigas de que há registo na freguesia.

A importância deste documento é ter criado uma unidade territorial que viria

mais tarde a ser doada à ordem eclesiástica dos Hospitalários, depois reconvertida em

Ordem de Malta. Em 1517 a vila de Montoito recebe novo foral de D. Manuel, sendo incluída dez anos mais tarde num cadastro populacional que lhe atribuía um total de 35 fogos, dos quais 16 formavam a vila e os restantes se situavam no seu termo (Espanca, 1978: 331). Em suma, a “vila” de Montoito, hoje sede de freguesia, emerge num tempo histórico tardo-medieval, testemunhando os vários séculos e as diferentes épocas que marcaram a história do país. No entanto pouco se conhece da sua existência ao longo de todo este tempo.

A dois quilómetros de distância desta antiga “vila”, rumando a leste por uma

estrada que daí se encaminha para Ocidente e que segue em direcção a Santiago Maior, encontra-se uma outra aldeia, esta de origem mais recente, e de diferente aspecto, conhecida como Aldeias de Montoito. Desta povoação, que surge como o alvo geográfico da presente etnografia, três aspectos importantes há a realçar, de modo a compreender aquelas que são as suas características mais marcantes. São eles, o significado do nome, a configuração urbanística da aldeia e a importância dos modelos sociais da família e das heranças patrimoniais neste traçado urbano. Um primeiro aspecto, que suscita geralmente interesse entre os habitantes, é a origem do nome. Aldeias de Montoito, sendo composta no seu nome por duas palavras, deriva daí uma dupla significação. Na interpretação mais comum entende-se o vocábulo “Montoito” como uma composição entre “monte” e “oito”, o que decorreria do facto de que, em tempos, terão existido oito montes que deram origem à povoação. O raciocínio é simples e tendo em conta a situação geográfica e a topografia do local, não é difícil encontrar, hoje em dia, oito montes nas imediações da aldeia que corroborem a origem do nome. Baltazar Caeiro, um médico lisboeta descendente de famílias locais, escreve numa pequena colecção de documentos históricos dedicada à povoação de seus pais, que Montoito deriva o seu nome de «oito Montes alentejanos, cujo trabalho e incremento agrícola deram origem ao agregado populacional que é agora o povoado» (Caeiro, 1994: 13). A origem da aldeia estaria assim ligada a um grupo inicial de trabalhadores agrícolas ao serviço da lavoura própria de oito montes envolventes da povoação.

Quanto ao primeiro vocábulo da expressão Aldeias de Montoito, as opiniões sobre a adequação ao povoado deste plural toponímico voltam a criar algum consenso.

O facto, constatado, é o de que esta povoação é na realidade o resultado de várias

pequenas aldeias ou aglomerados de casas, ainda hoje existentes e reconhecidas nas imediações, que se unificaram pela expansão do casario ao centro da actual povoação. As Aldeias de Cima, as Aldeias de Baixo, a Aldeia do Cão, a Aldeia dos Macacos, as

Castilhas e o Monte das Hortas 12 constituíam pequenos núcleos, alguns ainda hoje um pouco periféricos, onde, provavelmente tal como em Montoito, residiam trabalhadores e proprietários locais. Aldeias de Montoito é, na visão localmente valorizada, uma espécie de puzzle urbanístico, onde os pequenos grupos de casas 13 esparsos nos campos circundantes, ao longo dos dois ribeiros que correm pelas terras mais próximas, expandiram os seus prédios urbanos no sentido dos terrenos que convergiam numa área central, unindo os vários segmentos. Obviamente que este processo de expansão terá, simultaneamente, ocorrido em vários sentidos, alcançando alguns pequenos outros núcleos mais periféricos que, talvez devido às suas próprias determinantes sociográficas, terão permanecido relativamente estáticos. É o caso da denominada Aldeia dos Macacos 14 , situada já fora da malha urbana da povoação e que, por pouco, não foi alcançada por este movimento expansivo. Esta dinâmica constitui a primeira diferença fundamental em relação à “vila” sede de freguesia, que surge aparentemente mais coesa, mais ordenada no seu crescimento, respeitando uma malha relativamente geométrica e regular entre casario e arruamentos.

O

que nos leva à observação de um segundo aspecto: o das características urbanísticas

do

povoado.

Aspecto Urbano

Ao atravessarmos a povoação, encontramos extensas ruas ladeadas de baixas construções de taipa e longas fachadas, no modo característico da arquitectura alentejana, contudo, há vários elementos na estrutura urbana da aldeia que fogem à regra predominante da maioria das localidades do sul do país. Sendo a origem da

12 Os nomes destes pequenos aglomerados sofrem ligeiras variações quando referidos pelos habitantes das Aldeias, no entanto, os sentidos mantém-se muito próximos. “Aldeias de Cima” pode, por exemplo, ser substituído por “Aldeia Acima”, o que evidencia a continuidade do casario em vez da antiga dispersão. 13 Possivelmente relativos a diferentes famílias locais e/ou a diferentes estratos sociais. 14 Embora tenha tido outrora quatro ou cinco casas, a “Aldeia dos Macacos” é na verdade um único complexo habitacional composto de alguns casões e apriscos. O nome será provavelmente um apodo pejorativo conferido pelos habitantes da freguesia.

povoação resultado da expansão de vários núcleos antigos, como se pensa, podemos hoje observar as marcas desse processo de desenvolvimento, na forma do urbanismo que ficou impressa no traço dos arruamentos e na disposição do casario. Assim, ao contrário do que acontece em grande parte das vilas e aldeias do Alentejo, não estamos, neste caso, perante um exemplo típico de povoamento concentrado. O já descrito alargamento do casario a partir de núcleos antigos não originou um preenchimento total dos terrenos medianos, e permitiu a conservação de inúmeros espaços particulares circundantes das habitações, geralmente ocultos das vias públicas, e que atingem em muitos casos dimensões consideráveis. São hortas, pequenos pascigos ou baldios, cabanas ou casões importantes na economia doméstica, onde se guardam as alfaias ou se mantém abrigos para os animais, fumeiros, queijarias, celeiros e armazéns de todo o tipo. A existência de grandes quintais contíguos entre si, nas traseiras das casas de habitação, cria uma dispersão considerável das construções, estendendo a área da aldeia para lá do que seria expectável, tendo em conta o número de fogos existentes. Como essas grandes áreas privadas estão muitas vezes fora do alcance dos olhares de quem passa nas ruas, cria-se a experiência, em quem cruza a aldeia, de estar perante extensas fileiras de casas, numa sucessão de fachadas contínuas, quase sempre bem cuidadas, caiadas ou pintadas, dando uma falsa ilusão de concentração urbana e impondo uma forte demarcação entre o ambiente público da rua e o espaço doméstico privado das casas e dos quintais. Esta desagregação urbana, associada a uma certa desordem na distribuição das construções, deixou inscrita uma trama de arruamentos desprovida de qualquer planeamento formal. Na verdade, um outro aspecto que pode ser decorrente deste modo de desenvolvimento desregrado e disperso, é o facto de não ser identificável no povoado um espaço público que se constitua como um verdadeiro centro. Não existe uma praça ou um largo digno desse nome. A igreja tem pouco menos de três décadas e está situada numa rua periférica, incaracterística. Não há um coreto, um jardim. Apenas alguns lugares dispersos na povoação se podem considerar espaços públicos de encontro ou reunião: o parque infantil, a Sociedade Recreativa, os dois cafés. O Poço Novo (um largo formado na confluência de quatro vias diferentes), como referência espacial, pode constituir, talvez, um centro, valorizado como tal, apesar de não enquadrar os aspectos funcionais que diferenciam os outros locais públicos ou semi-públicos já referidos. É um espaço adaptado a essa situação de centro, embora não tenha sido criado como espaço focal de sociabilidade, mas como sendo o lugar de um poço, o que em si mesmo

já pode veicular a importância simbólica de um centro. Um poço público é, por natureza, um sítio onde diariamente se cruzam as gentes de um lugar, embora a sua relevância seja hoje quase nula. Coincidentemente, neste lugar do Poço Novo situa-se aquele que é considerado o mais antigo edifício das Aldeias, pelo que também por este facto o lugar adquire alguma importância histórica e simbólica. Em boa medida, as principais referências espaciais nas Aldeias constituem-se

como sendo as próprias habitações. Para além dos dois cafés, da Sociedade Recreativa e do Clube de Caça, que se podem considerar como os principais espaços públicos de convívio e de reunião, frequentados quase somente por clientela masculina, as casas particulares são possivelmente os locais privilegiados de convivência entre a vizinhança

e os amigos. Entre os vários tipos de prédios de habitação existentes na povoação podemos distinguir sobretudo entre três conjuntos, classificados em função das dimensões dos edifícios e da área total do terreno. Uma primeira categoria refere-se a edifícios ao nível do rés-do-chão com vários aposentos e valências. Algumas destas casas atingem dimensões consideráveis e constituem em si mesmas um pequeno centro de lavoura, um pouco à semelhança dos tradicionais montes, que abrigam todos os cómodos necessários

à manutenção do trabalhos agrícola. Estes edifícios, robustos, de grandes fachadas e

traça antiga pertencem na sua maioria a famílias de proprietários, tendo por esse motivo que abrigar, no seu interior, todo um conjunto de alfaias e outros bens indispensáveis à produção agrícola. Podem possuir várias das habituais dependências internas: uma ou mais garagens, cozinhas, queijarias, galinheiro, fumeiro, pocilga, celeiro e palheiro, poço, uma pequena horta, etc. Entre estes encontram-se os edifícios mais antigos da povoação e existem em elevado número. Uma segunda classe de prédios, também numerosa na povoação, é constituída por pequenas moradias onde, para além de uma modesta habitação principal, existe na melhor das hipóteses um pequeno quintal com um bom casão que serve de garagem e arrecadação. São espaços habitacionais mais exíguos, habitados por pessoas habituadas

a uma vida de modestas condições materiais: velhos trabalhadores rurais aposentados,

celibatários, pastores, gente sem terra, desempregados. Por fim, refira-se uma última categoria de prédios, onde se enquadram os edifícios com dois ou mais pisos habitáveis, que aproveitam em altura o espaço que lhes

falta em terreno horizontal e são geralmente de origem mais recente, modernos e em número muito reduzido.

Muitas destas casas não estão hoje ocupadas e permanecem fechadas por longos períodos. A emigração para os centros urbanos, que vem sendo uma realidade dos

campos a partir dos anos sessenta, fez-se sentir aqui como em muitos outros lugares, de tal modo que muitas famílias locais antigas já não têm hoje descendentes a residir em Aldeias de Montoito. Ainda assim, a povoação conta, mesmo nos dias de hoje, com um contingente populacional considerável, embora em permanente declínio. Cada casa de habitação está naturalmente associada a uma família, a um elemento do casal, em alguns casos a indivíduos celibatários, que são, geralmente, os actuais proprietários. Na aldeia, as casas mais antigas terão sido construídas por antepassados dos actuais donos, enquanto que muitas outras, construídas nos últimos cinquenta ou sessenta anos, são ainda ocupadas pelos seus primeiros senhorios, que as mandaram edificar, geralmente por motivo de boda. Na verdade pode-se afirmar, com alguma certeza, que a actual configuração do povoado é bastante recente, e que grande parte das habitações não existia na primeira metade do século XX. É mesmo possível que quase todas as casas que dão hoje forma à aldeia tenham sido construídas durante o

século passado, muitas a partir dos anos trinta, e ainda um número considerável a partir

da década de 50, em terrenos anteriormente desprovidos de qualquer construção, provavelmente cultivados de hortas, pomares, pequenos ferragiais, talvez alguns pascigos.

A origem das Aldeias de Montoito, sendo impossível de identificar, parece

recuar

de modo mais significativo até certo período algures entre os finais do século

XVIII

e o início do século XIX. Nesta época, nos campos dos arrabaldes de Montoito,

por entre dois pequenos ribeiros, o Ribeirão – a Norte - e a Ribeira das Caliças – a Sul –

residiriam algumas famílias de pequenos proprietários e trabalhadores possivelmente na dependência da lavoura de algumas casas agrícolas da vizinhança. De facto, vários montes em redor são, ainda hoje, importantes na economia local e no emprego de mão- de-obra agrícola na freguesia. As herdades da Mencoca, da Casinha, da Casa Alta, dos Perdigões ou da Casa Branca, ou os montes do Roncão ou da Morgada, este quase

dentro da povoação, são alguns dos centros de lavoura mais próximos e dos que mais

estreitas relações vêm mantendo, desde longa data, com as gentes de Montoito. No usufruto das boas terras circundantes e dos recursos hídricos existentes, algumas destas

famílias de trabalhadores e seareiros facilmente aqui aproveitavam uma modesta agricultura familiar que abastecia a casa dos produtos de que necessitavam. Ainda hoje,

o Monte das Hortas, no extremo nordeste da povoação, retém o nome da antiga função desses terrenos agora urbanizados. É nestas terras agrícolas em redor de algumas casas ancestrais, que se vão, a partir do início do século XX, edificar as habitações dos filhos, netos e bisnetos de mais antigos ocupantes, ao ritmo das partilhas e da divisão das propriedades “originais” pelos descendentes, desejosos de formar nova casa e família, pois que a terra lhes garantia trabalho e rendimento. Um exemplo deste movimento de subdivisão das antigas propriedades, resultando na expansão do tecido urbano da povoação, foi comentado por Francisca numa história que recorda as partilhas ao longo da linhagem dos Manelicos, desde o tempo de um seu bisavô materno, nos finais do século XIX. Manuel Martins Caeiro vivia com os filhos numa casa das Aldeias situada num terreno de cultivo, junto àquela que é hoje a estrada que ruma a Reguengos de Monsaraz. Esse terreno dividido por filhos e netos nas partilhas, repartiu-se em parcelas cada vez mais pequenas onde se foram construindo as casas que ladeiam uma das principais vias da aldeia. Hoje Francisca habita a casa que foi herdada de sua mãe, construída no que foi outrora o terreno de seu bisavô.

Mas foram todos

herdeiros. Eram cinco, foi tudo dividido por todos. Então era assim, e continua a ser assim aqui. Os

A minha mãe herdou um bocadinho da minha avó, e o meu pai foi herdar As partes do casal é que se juntam. Mas a parte da casa dos pais é dividido

)

“Quem foi a herdeira foi a minha mãe. (

)

)

Era a mais nova dos irmãos (

)

filhos são herdeiros. ( também da parte dele. ( tudo por todos. ( )

o velhote, Manelico [Manuel Martins Caeiro],

Também já foi dividida aquela casa, mas era desse

Aí é que se calhar criou os filhos todos. E esta parte aqui toda, até ali à estrada

que vai p’ra Reguengos, esta parte toda era desse velhote: do velho Manelico. E depois foi dividida. Foi

aquela casa que é dos meus primos agora, que herdou o meu tio mais velho, aqui herdou a minha

mãe, depois a partir da nossa casa, aí p’rà frente, herdou a tal Maria Emília, que tinha comércio, e

a tia Rosária, portanto, da família quem foi a

herdeira foi a tia Rosária, que era a tal bisavó do Neves. Portanto foi esta área toda aqui, dividida pelos filhos.”

RM – Mas na altura isto já tinha tudo casas, ou não?

FRANCISCA – Não! Era só esta área era um

RM – Exacto. Depois os herdeiros é que construíram as casas?

FRANCISCA – Pois. Depois foi dividido e os herdeiros é que construíram. Aqui já foi o meu pai que

construiu. Ali foi o meu tio que construiu. Eu acho que a primeira construção foi esta aqui. ( a construção desta casa? Tem setenta e quatro anos. O meu irmão faz setenta e três. ( )”

‘tás a ver

“[O] tal, que é o princípio da história, (

)

morava na outra casa que faz ali um recanto. (

meu avô, do velhote.(

) (

)

)

depois tá aquele poço, onde está aquela vivenda, foi (

)

campo, pronto.

)

5

as

ç

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a

C

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Monsaraz

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Reguengos

1

e

4

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R

3

Largo do Poço Novo Local da casa do Velho Manelico Sociedade Recreativa 1º de Dezembro Igreja Monte da Morgada

ALDEIAS DE MONTOITO

ESCALA 1:5496

Santiago Maior
Santiago Maior
1 2 3 4 5
1
2
3
4
5
Recreativa 1º de Dezembro Igreja Monte da Morgada ALDEIAS DE MONTOITO ESCALA 1:5496 Santiago Maior 1
Recreativa 1º de Dezembro Igreja Monte da Morgada ALDEIAS DE MONTOITO ESCALA 1:5496 Santiago Maior 1
Recreativa 1º de Dezembro Igreja Monte da Morgada ALDEIAS DE MONTOITO ESCALA 1:5496 Santiago Maior 1
Recreativa 1º de Dezembro Igreja Monte da Morgada ALDEIAS DE MONTOITO ESCALA 1:5496 Santiago Maior 1
Montoito
Montoito
Recreativa 1º de Dezembro Igreja Monte da Morgada ALDEIAS DE MONTOITO ESCALA 1:5496 Santiago Maior 1

“Esta propriedade tão grande, formou-se tudo em casas e quintais. O tal velho [Manuel Martins

Era um bocado jeitoso

Depois mais tarde quando foi dividido havia hortas. Até ali onde é aquela vivenda nova, que aquela

Caeiro], o princípio da família, tinha a casa ali, e semeava aqui isto tudo. (

). (

vivenda foi feita há meia dúzia de anos, era ali horta, sempre.” (Francisca).

)

A casa do Poço Novo, provavlemente o edifício mais antigo existente na povoação pertencia a um filho desse velho Manelico, conhecido por Joaquim Manelico, talvez adquirida do pai ou por herança da mulher. Nessa casa existia um outro comércio.

era o Ti

Joaquim Manelico. Era o dono também daquele terreno todo. Era aquela casa, e depois era tudo

terreno. É aquela casa lá do Poço, depois desce esta rua p’ra baixo, há dois prédios grandes, [esse]

terreno

há ali uma vivenda também, com um prédio assim amarelo, (

amarelo claro, uma vivenda feita

também agora nova, e a seguir um prédio que é também no género deste, com o pé amarelo, isso tudo

era do mesmo quintalão. Era o género aqui disto, era tudo terreno. Depois construíram.” (Francisca)

“Ali estava outra parte (

)

A casa do Poço Novo que era do avô da Maria Charrua (

)

[era] desse Ti Joaquim Manelico. E depois dá p’ràqui p’ra esta rua, que vai ter à Sociedade,

)

Podemos especular que este mesmo processo de divisão dos terrenos nas partilhas de património avoengo, e a consequente construção de casas para novos casais, terá ocorrido ainda antes do século XX, para o qual dispomos de mais informação. No entanto, parece indubitável que o progresso da agricultura cerealífera durante este século e o consequente desenvolvimento económico local, beneficiando as famílias de pequenos proprietários aí residentes, vai imprimir na povoação (bem como em toda a freguesia) um forte aumento demográfico e uma taxa de urbanização notável no espaço de algumas décadas. Assim, a expansão da área urbana da aldeia durante o século XX é, fundamentalmente, resultado de uma evolução demográfica pautada, na sucessão das gerações, pelo crescimento das famílias locais, mas sobretudo pela fixação de trabalhadores rurais, tornada possível sobre a melhoria do desempenho económico local. O impulso económico decorrente do incremento no rendimento agrícola permitiu, desde 1910 até 1950, um crescimento populacional na ordem dos 90 por cento, sendo a maioria desta população composta por trabalhadores rurais e pequenos seareiros 15 . Contudo, uma parte significativa dos prédios urbanos foi edificada em terrenos de antigas linhagens de proprietários, como o estilo das casas, próprio desta classe social, evidencia.

15 Aqui sigo a terminologia sociológica de José Cutileiro, que compreende as comunidades rurais alentejanas como sendo compostas de quatro estratos sociais: lavradores (latifundiários), proprietários, seareiros e trabalhadores rurais.

Podemos então afirmar que, no caso específico de Aldeias de Montoito, há uma conjugação de duas dinâmicas fundamentais na formação da aldeia como ela existe hoje, onde tem um papel preponderante esta classe de pequenos proprietários rurais, sobre os quais se tratará posteriormente. Uma primeira dinâmica é relativa aos modelos económicos e à importância da agricultura arvense na economia local, enquanto que uma segunda, não menos importante, organiza em si mesmo uma relação entre vários modelos sociais, combinando o regime de posse de terra, próprio das regiões do sul e do sistema jurídico português, o sistema de heranças e de partilhas, a família como instituição social fundamental, intimamente relacionada com os modelos de produção, e, por fim, a própria concepção de matrimónio, que legitima a união de aliança e permite a formação de um novo casal, sobre o qual recai um estatuto próprio, que o diferencia socialmente tanto de uma situação de vida anterior, como dos outros indivíduos solteiros. Casal ao qual se atribui, geralmente, uma nova casa.

O papel do Estado: política e tecnologia

A importância que o desenvolvimento da agricultura arvense teve na economia local é incontestável. As leis proteccionistas de 1889 e de 1899, e sobretudo a primeira, permitiram um impulso notável na lavoura alentejana e o início de um período de grandes arroteamentos de terras que viria a ser mais tarde aproveitado, com grande benefício para os produtores, durante o regime salazarista. Ainda durante a Ditadura Militar, em 1928, inicia-se a chamada «Campanha do Trigo». No seguimento desta, a política económica do Estado Novo, pautando-se por um proteccionismo feroz em defesa dos interesses da lavoura, permitiu que toda a produção de trigo nacional encontrasse escoamento a partir das próprias instituições reguladoras do Estado. A FNPT (Federação Nacional de Produtores de Trigo), como uma «federação de celeiros concelhios cooperativos» 16 constitui-se como única compradora de trigo no país, definindo à tabela o preço anual da semente e obrigando todos os produtores a cederem- lhe a produção pelo preço estipulado. Este valor, duas a três vezes superior ao preço da semente estrangeira, criou a nível nacional uma relação de mercado artificial em benefício dos lavradores mas prejudicando os moageiros, que estavam impedidos de adquirir semente fora do mercado nacional enquanto o trigo português não estivesse

16 Luciano Amaral define, nestes termos, a FNPT a partir do Decreto-Lei n.º 22 871, de 24 de Julho de 1933, em «O Estado Novo, os latifundiários alentejanos e os antecedentes da EPAC», in Análise Social, vol. xxxi (136-137), 1996 (2.°-3.°), 469.

esgotado. Como agente regulador, a FNPT deteve até 1972 o monopólio do comércio de trigo, estipulando todos os anos um preço fixo. O desenvolvimento da linha férrea, que ligava a capital aos campos do interior alentejano, permitiu, a par da criação de celeiros em todos os concelhos e algumas sedes de freguesia, a construção de uma rede de produção, armazenamento e fornecimento de cereal que transportava a semente do Alentejo para todo o país. A linha do Sul, que passava por Montoito e terminava em Reguengos de Monsaraz, terá constituído, juntamente com a política económica do Estado Novo, um dos grandes instrumentos de incentivo à economia cerealífera local, e terá sido um avanço tecnológico fundamental no desenvolvimento da agricultura de sequeiro na região durante a ditadura salazarista. Significativamente, a denominada «Campanha do Trigo» promoveu uma das suas principais iniciativas de incentivo à cultura cerealífera, junto dos agricultores alentejanos, através da mobilização da própria CP para o efeito, criando o denominado «comboio do trigo» 17 .

“No âmbito da campanha em prol da cultura trigueira, a Direcção-Geral do Ensino

e Fomento Agrícola, do Ministério da Agricultura, organizou em 1928 um comboio de

exposição e propaganda dos mais avançados processos culturais, à semelhança do que

noutros países se tinha feito. Para a organização do chamado «comboio do trigo»

constituíram-se duas comissões de técnicos e a C. P. pôs à disposição três vagões especiais

para que «fim tão patriótico fosse posto em prática».

“O «comboio do trigo» iniciou a sua marcha em Agosto, partindo de Alcântara,

onde esteve em exposição, e percorreu o Alentejo e o Ribatejo na época das ceifas e

debulhas. Num dos vagões apresentavam-se sementes seleccionadas, pequenas alfaias

agrícolas e gráficos com os diferentes métodos culturais, enquanto no outro se expunham

grandes alfaias, como ceifeiras, debulhadoras mecânicas, seleccionadores de semente etc.

Nalgumas localidades (Santarém, Reguengos de Monsaraz, etc.) fizeram-se experiências

com algumas máquinas agrícolas, e em quase todas o seleccionador de sementes foi posto à

disposição dos lavradores para seleccionarem a semente que apresentassem para o efeito.

Esta iniciativa teve grande acolhimento e em Vila Franca de Xira foram seleccionados 5000

kg de trigo de um «abastado lavrador». Nas localidades mais importantes fizeram-se

conferências onde discursaram lavradores das diferentes regiões e alguns técnicos que

acompanhavam o Comboio. Dos problemas que foram focados com maior acuidade

salientaram-se os que se referiam à organização de crédito agrícola e à irrigação do

Alentejo” (Pais et al., 1976: 420-421).

17 José Machado Pais, Aida Valadas de Lima, José Ferreira Baptista, Maria Fernanda Marques de Jesus, Maria Margarida Gameiro. “Elementos para a história do fascismo nos campos – «A Campanha do Trigo»: 1928-38”, in Análise Social, Vol. XII (2.º), 1976 (n.º 46), pp. 400-474.

Histórias de Família

Linhagens

No espaço urbano da aldeia, como ele existe hoje, está presente, até certo ponto, o resultado do processo histórico da divisão dos antigos terrenos em parcelas mais pequenas, que foram sendo ocupados por habitações, sobretudo durante os últimos

oitenta anos. Essa divisão, ocorrida ao longo das gerações, está invariavelmente associada a linhagens de proprietários locais, cuja origem remonta a um antepassado ou a um casal fundador.

A origem de uma linhagem marca apenas o momento a partir do qual se torna

significante a diferenciação desse grupo das restantes relações de parentesco filial ou conjugal conhecidas. Aqui tratar-se-á do caso de duas linhagens de certa antiguidade,

que se constituíram pela existência de um antepassado que, em certa medida, adquiriu certo valor e estatuto público, configurando hoje, uma espécie de fundador. Contudo, não é consensual que a linhagem constitua um elemento de identidade importante. A sua relevância é sobretudo histórica, e faz parte de um corpo de conhecimento que tem hoje mais importância como representação do passado familiar do que como construção do presente. Continuando a família, como um grupo de parentesco próximo, a constituir actualmente um dos principais veículos de coesão social e valorização do colectivo

enquanto grupo de pertença, podemos atribuir a estas antigas linhagens alguma importância social, apenas como representações derivadas das relações familiares. Elas são, em maior grau, um subproduto das relações familiares, do que criadoras de uma identidade. A linhagem constitui um elemento da memória colectiva, evocada sobretudo em conversas nas quais esse tempo antigo constitui tema predominante. É nestas conversas que decorrem entre parentes, mais ou menos próximos, que a questão da identidade linhageira pode surgir com alguma importância. Embora noutro tempo possa ter provocado alguma tensão entre grupos conterrâneos, a diferenciação entre linhagens não aparenta hoje ter um significado prático determinante no conjunto das relações exteriores à esfera familiar.

É importante, contudo, referir que o conceito de linhagem é aqui empregue

apenas improvisadamente. Não é claro que seja esta a definição mais adequada aos modelos de parentesco filial aqui abordados. A pertinência do seu uso é, no entanto, temporariamente justificada, pois que ela alude a relações de filiação unilinear, quer por

via agnática, quer por via uterina que distinguem, do restante grupo de parentes e de outras relações sociais, um conjunto de indivíduos que reportam a uma ascendência comum, identificada e delineada até um antepassado conhecido (Augé, 2003 [1975]:

26). Talvez, reportando à terminologia de Marc Augé, fosse mais adequado falarmos de “grupo de linhagem”, no entanto opto aqui por simplificar a expressão retendo apenas o último vocábulo, com a ressalva de que não tratamos aqui de linhagens no sentido mais convencional, mas sim de um grupo de parentesco filial organizado segundo o princípio linhageiro, que reporta o grupo a um antepassado comum, e evidenciando algumas características de organização internas próprias das linhagens, no modo que Marc Augé as define em Os Domínios do Parentesco, e que serão apresentadas posteriormente. É bom de realçar que no contexto etnográfico em questão, nomeadamente em Aldeias de Montoito, não parece ser comum a existência de uma linha privilegiada pela qual a filiação de linhagem é atribuída às gerações de descendentes. Ou seja, a linhagem inclui, à partida, e em igualdade de circunstâncias, todos os descendentes directos do antepassado fundador, independentemente dessa relação filial ser transmitida por via agnática ou uterina, o que não implica uma definição cognática do parentesco, mas o predomínio de certas relações filiais historicamente mais sólidas, por respeitarem a uma mitologia ou a um antepassado que constitua uma âncora referencial importante. Todavia, tendo em conta que algumas das relações que se geram no interior destas linhagens conferem certa predominância política aos elementos masculinos, convém reconhecer uma certa ascendência da linha agnática sobre a uterina. Apesar disso, a filiação e a integração numa determinada linhagem parece estar dependente de vários outros aspectos circunstanciais, que não decorrem de qualquer modelo de unilinearidade filial. Gostaria, contudo, de contextualizar esta questão numa perspectiva histórica e etnográfica, realçando que a vincada separação que existiu, até à poucas décadas, entre o espaço público e o doméstico, e concomitantemente entre um espaço de masculinidade e um outro predominantemente feminino, pode ter favorecido a existência não de um, mas de dois sistemas paralelos de filiação unilinear, em que os próprios modelos de desigualdade e diferenciação de género privilegiaram, em determinadas circunstâncias, e sobretudo através do convívio intra-género, a matrilinearidade num universo doméstico/feminino, e favoreceram a patrilinearidade no universo público/masculino. A separação destes dois universos na constituição social é amplamente demonstrada por Miguel Vale de Almeida na etnografia sobre a aldeia

alentejana de Pardais, e pode-se falar aqui, talvez mais acertadamente, de um sistema de filiação bilinear, ou de dupla filiação unilinear. Se, por um lado, o conceito de linhagem é apenas parcialmente adequado à situação etnográfica em questão, por outro, há aspectos que Augé atribui à organização clânica que parecem ser relevantes. Neste domínio evidencia-se sobretudo a possibilidade de integração de outras linhagens, ou elementos externos, no grupo já constituído, a estabilidade e permanência dos laços filiais ao longo de várias gerações, e principalmente a existência de um nome pelo qual os membros do grupo são identificados (Augé, 2003). Outros aspectos não se enquadram nestes modelos conceptuais, como é o caso do princípio exogâmico inerente à linhagem, que não é de todo respeitado. Por tudo isto, podemos afirmar que não estamos perante uma formação de linhagens, no sentido preciso do termo, como no caso dos modelos dinásticos, mas muito menos perante qualquer tipo de organização clânica. Introduzindo alguma maleabilidade no conceito podemos afirmar a existência de linhagens apenas por referência à importância de um antepassado comum e à existência de uma certa identidade, simbolizada por um nome, e relacionada possivelmente com alguns aspectos ideológicos. Devendo encontrar uma denominação para o tipo de parentesco filial em causa, a noção de linhagem parece surgir como a mais apropriada.

Constituição e identidade de linhagem

De certa antiguidade, existem duas linhagens locais que traçam a sua identidade

a partir de antepassados que viveram numa época relativamente inicial da formação da

aldeia. Nesse tempo, Aldeias de Montoito não se apresentaria ainda com a unidade que possui hoje como povoação, constituindo antes um conjunto de vários núcleos de casas

e habitações, nos quais residiriam alguns dos antepassados das actuais famílias. De entre esses antigos residentes, destacam-se dois, da segunda metade do século XIX, que deixaram vasta descendência, e que emprestaram o epíteto por que eram conhecidos às

linhagens que inauguraram: são estas a dos Sabicos e a dos Manelicos. Efectivamente, aos Sabicos ficaram associados os oito filhos de Joaquina Maria dos Remédios a (Ti Sabica) e respectiva descendência, e como Manelicos, reconhecem-se todos aqueles que descendem de Manuel Martins Caeiro b (Manelico). Tanto a primeira como o segundo parece terem sido publicamente conhecidos pela alcunha e não pelo nome, prática

a Ti Sabica, Joaquina Maria dos Remédios (1857 – 1942). Proprietária residente em Aldeias de Montoito, casada com Joaquim Pires Madeira de quem teve oito filhos. Trabalhou como por conta de José Perdigão Rosado de Carvalho, 1º Conde da Ervideira, tendo sido, provavelmente, feitora numa herdade.

comum numa região onde muitos destes apodos acabaram por se converter em sobrenomes, ou apelidos familiares. Embora o «velho Manelico» seja natural de Montoito, tanto ele como a Ti Sabica residiram durante a maior parte das suas vidas em Aldeias de Montoito, tendo sido aí que constituíram casa e criaram os filhos. Possivelmente, devido à já observada disponibilidade de propriedades no espaço envolvente das Aldeias de Montoito, o lugar tornou-se, durante pelo menos duas gerações, a residência preferencial de quase todos os descendentes das duas linhagens. O reconhecimento da linhagem, como entidade autónoma, só advém tardiamente

e relativamente aos filhos daqueles que são os fundadores. São os filhos que acabam por

adquirir a identidade da linhagem através da relação filial ao genitor, identidade essa

provavelmente interiorizada pelos membros da linhagem quando um reconhecimento público do grupo enquanto tal se torna evidente para todos. Assim, foram primeiramente os filhos da Ti Sabica que ficaram conhecidos como sendo os Sabicos, e foram igualmente os filhos de Manuel (Manelico) Caeiro que se tornaram, na verdade, os Manelicos. Estas designações, adquirindo alguma relevância simbólica enquanto identidades, terão tomado posteriormente uma conotação representativa de algumas características psicológicas, sociais ou ideológicas, associadas aos elementos da linhagem e à sua agência enquanto actores sociais. É essa agência que importa determinar. Se existiu alguma rivalidade e algum antagonismo latentes entre os dois grupos, tal seria provavelmente resultado de uma hegemonia nunca atingida por qualquer dos dois, que contudo tinham distintas perspectivas sobre o colectivo social. A distinção

entre ambos assentava, em parte, numa ligeira diferença nas ocupações e nas actividades

a que se dedicavam Sabicos e Manelicos. Apesar de os Manelicos viverem, como todos

os outros proprietários das Aldeias, do produto da terra – das searas e do gado –, existia dentro do grupo alguns que se ocupavam noutras áreas que não as directamente relacionadas com o trabalho agrícola. De entre os seis filhos de Manuel Martins Caeiro, o velho Manelico, como é por vezes referido, quatro dedicavam-se a pequenos comércios locais (um destes em Montoito), onde vendiam o vinho, produzido em adegas próprias instaladas no espaço da aldeia, e onde vendiam outros produtos de mercearia que chegavam periodicamente através do comboio que percorria a linha desde a capital, Lisboa. Modestos comércios,

b Manelico, Manuel Martins Caeiro (1845 - ?). Proprietário residente em Aldeias de Montoito, casado com Emília Garcia com quem teve seis filhos.

pois praticamente tudo o que era preciso era produzido na vizinhança, nas hortas, nos pomares, nos campos de seara, nos montados ricos de pasto, nos olivais. Por isso, estas velhas tabernas serviam sobretudo uma clientela masculina consumidora de vinho e aguardente.

“Porque a gente, dantes, não havia onde se ir comprar as coisas. Portanto tinha que ter tudo os cereais, vendiam os cereais e fabricavam o pão, tinham o azeite, colhiam a azeitona iam levar p’ró lagar, traziam o azeite, e tinham a azeitona porque se comia muita azeitona. Não havia os supermercados! Lá está. ( ) E tinha-se tudo p’ra se comer. Porque também não havia nada a vender. O que é que havia? Então nas mercearias havia só o açúcar e o arroz e a massa. O mais era das coisas das hortas e dos animais que se tinha.”

“Era a minha avó [Angélica], tinha comércio, mas além de ter o comércio também tinha

A Maria

E tinha também

ninguém vendia o vinho a

outros. Fabricava, numa adegazita pequena perto da casa que era aqui pegada à casa da minha avó, e

Depois

faziam o vinagre. Depois vendiam. Era assim tudo. E era a minha avó, a Ti Maria Emília e o Ti Joaquim

E depois

também tinha comércio. Mas tinha o ramo de comércio e

agricultura. (

Emília. (

)

então ela tinha aqui uma adega, e tinha a loja, e tinha propriedades. (

)

)

)

essa tinha comércio. E agricultura, tinha tudo. A minha avó também. (

uma adega, dantes era assim. Eram poucas vinhas, mas as pouquitas vinhas

depois vendia. Meio litro. Metade de meio litro. Um litro. Não havia vinho engarrafado. (

Manelico que era o avô da Maria Charrua, morava lá em cima também tinha comércio

era o Francisco, que morava em Montoito ( de agricultura. Todos.” (Francisca).

)

(

)

)

Os filhos destes Manelicos continuaram ainda a viver nas Aldeias – uma geração já com origem nas primeiras décadas do século XX e contemporânea dos Sabicos. Nesta geração encontrar-se-ia, talvez, maior diversidade de ocupações. Pelo menos um destes netos do velho Manelico, Joaquim Garcia conhecido como o Professor Manelico, terá sido professor primário na escola das Aldeias, o que à época constituiria uma profissão de prestígio na sociedade local. Segundo testemunhos, existiria certa propensão à actividade artística, já que havia um culto teatral e constituiu-se uma banda filarmónica que ensaiava na Sociedade Recreativa. Esta, que seria um importante centro de convívio, terá organizado actividades culturais e artísticas onde teriam influência, entre muitas outras pessoas das Aldeias, alguns Manelicos a partir desta segunda geração. Torna-se hoje difícil de concretizar se, por estarem ligados a um conjunto de ocupações e actividades diversas, os Manelicos terão adquirido um certo estatuto social próprio, diverso dos Sabicos, agricultores importantes na economia local, especializados numa certa agricultura de escala da qual fizeram profissão e realizaram certa riqueza (o que teria originado uma certa rivalidade entre as duas famílias). Contudo, é possível

admitir que diferentes funções e actividades, numa comunidade pequena como era a das Aldeias, produzissem diferentes tipos sociais, diferentes personalidades e diferentes visões do mundo. A despeito das possíveis diferenças que possam existir entre Sabicos e Manelicos, que se afigurem como constitutivas de diferentes representações sobre as identidades familiares, a verdade é que, remontando aos primórdios da formação das Aldeias de Montoito, ambas as linhagens parecem entroncar numa única família. Estando essa origem relativamente próxima é possível encontrar indícios de relações de parentesco nos antepassados mais antigos. As duas linhagens encontram-se decerto unidas, num tempo não muito distante. Francisca indicou esta proximidade antiga entre as famílias e realçou que a sua avó, Angélica Garcia Martins c , era prima da Ti Sabica.

“Porque se fores aprofundar os Manelicos e os Sabicos, também havia ligação. Quer dizer, há

a minha avó

a

Ti Sabica formou uma pernada grande e a minha avó outra e pronto é assim. Mas ao fim e ao cabo, ( )

se formos a ver, o princípio aqui das pessoas da aldeia era tudo, primos e pessoas que pertenciam. Tudo

Angélica era prima da Ti Sabica. (

muitas ligações, agora já que a gente conhece, mas do antigamente, por exemplo (

)

)

Mas aí já eu não sei aprofundar essas coisas. Sei que depois (

)

da mesma família, e ninguém abalava daqui e casavam uns com os outros, e era assim a vida. Agora já

abala tudo” (Francisca).

Se tivermos em conta a tendência que existia para uma hierarquização de classes, com fortes restrições à possibilidade de matrimónio entre indivíduos de diferentes estratos sociais e configurando aquilo que se pode denominar de um “mercado matrimonial” segmentado, é natural que as antigas famílias de proprietários casassem quase exclusivamente entre si. Dada a pequena dimensão da sociedade local daquele tempo, é quase obrigatório que estas duas linhagens de proprietários locais tenham origem nos mesmos grupos familiares que habitavam a freguesia. Os matrimónios não deixaram, aliás, de ocorrer entre os dois grupos durante as gerações seguintes.

Em conclusão, podemos afirmar que apesar da proximidade nas relações e das várias alianças que foram sucedendo entre as linhagens de Sabicos e de Manelicos, parecem ser notadas algumas diferenças entre os seus membros; uma oposição que, apesar de não ser muito realçada, terá originado as suas rivalidades. Um informante afirma com alguma circunspecção:

c Angélica Garcia Martins (1872 – 1964). Proprietária residente em Aldeias de Montoito. Aí mantinha uma pequena mercearia e adega própria. Era filha de Manuel Martins Caeiro, o Manelico.

Nos filhos, os netos,

mas quem não é nada, quem

por exemplo, um manelico ou uma manelica que não tá ligado com os sabicos há aí uma

rivalidade qualquer. Não gostam, não gostam assim muito uns dos outros. Mas os que estão já, os que ‘tão já ligados, esses se calhar não dizem mal uns dos outros. Mas eu julgo que [essas rivalidades] eram porque os Sabicos eram os mais ricos aí das Aldeias e os Manelicos também tinham qualquer coisa e

“Havia aí uma rivalidade(

).

Ainda hoje ele há. Aí nos descendentes. (

)

dos Manelicos não tá ligado

(

).

[Hoje] já tão assim ligados uns com os outros. Mas

tinham inveja dos outros, ou

naquele tempo tinham mais propriedades que os Manelicos. Hoje há Manelicos já que têm

mais do que alguns Sabicos se calhar. Mas depois tinham aquela rivalidade, queriam ser como os outros. Julgo eu que era assim. Devia ser. ( ) Isso era assim só na maneira de se viver. Brigas e isso não houve.”

Quer dizer, os Sabicos são mais ricos,

qualquer coisa assim, não sei. (

)

bem, até

Quando ambos os grupos reuniam um certo prestígio social, é possível que surgissem entre si, latentes, algumas formas de tensão.

A fotografia dos Manelicos

Como ficou dito, os Manelicos tiveram uma importante acção durante a formação das Aldeias que terá deixado no povoado uma marca histórica, ainda hoje presente em muitos aspectos do urbanismo. Contudo, ao contrário dos Sabicos, que têm uma história comum, construída com base na unidade entre os cinco irmãos, o que os levou depois a formar a sociedade agrícola dos Sabicos, os Manelicos não são hoje recordados como uma única família, mas como vários ramos familiares que descendem do velho Manelico. Se hoje se torna difícil encontrar uma narrativa histórica relativa aos Manelicos é porque eles não demonstraram o espírito colectivo que, por exemplo, permitiu aos Sabicos constituir a sua empresa agrícola. Não foi assim possível descobrir um relato ou uma história associada aos Manelicos que permanecesse na memória do colectivo aldeão, ou dos descendentes. Todavia, na inexistência de um objecto narrativo preservado na memória, um outro objecto parece configurar aquela unidade colectiva que é assumida sobre os Manelicos enquanto grupo familiar. De facto, é uma fotografia de família que constitui o elemento tangível necessário à representação histórica dos Manelicos, e que permite a narrativização da sua existência. A datação mais provável para esta fotografia remete para o ano de 1915. Aparentemente é esta a única data possível tendo em conta a idade das crianças mais jovens aí retratadas. Na foto figuram seis irmãos e irmãs, filhos do velho Manelico (que é o homem mais velho sito aproximadamente ao centro), os respectivos genros e noras e os filhos destes. O local da exposição foi um largo nas Aldeias de Montoito, fronteiro à

antiga casa de Angélica, (primeira filha do velho Manelico), e supõe-se que o evento tenha decorrido durante o Domingo de Ramos, dado o facto de algumas das crianças estarem a segurar um ramalhete nas mãos. Se for este o caso, então a data provável da fotografia é o dia 28 de Março de 1915. Contudo o aspecto da fotografia que mais se evidencia à primeira vista é a disposição dos retratados. Homens de pé, posando atrás, mulheres sentadas à frente segurando as crianças de colo, e as restantes crianças ora em pequenas cadeiras, no caso das meninas, ora sentadas no chão no caso dos infantes. O personagem mais idoso é o único homem adulto que se encontra sentado. Se esta disposição é óbvia em si mesma, e coincide com as observações que Geffroy Yannick teceu em relação às fotografias familiares em contexto rural no sul de França 18 , já a identificação dos vários núcleos familiares retratados só foi possível por indicação dos descendentes. Tornou-se então evidente um outro facto, que é o de as pessoas retratadas estarem organizadas por grupos domésticos. Assim, cada homem tem sentada à sua frente a respectiva esposa, e ambos estão rodeados dos filhos e filhas, estando alguns mancebos colocados de pé, por detrás dos homens mais velhos, em cima do contraforte da casa. Os vários grupos domésticos posicionam-se então lateralmente uns em relação aos outros, deixando o patriarca no centro da fotografia. Uma excepção parcial a este modelo encontra-se no extremo direito da imagem. Aí, encontramos um núcleo familiar pouco convencional, que curiosamente residia em Montoito e não nas Aldeias. Para além da mulher que está sentada, todos os outros elementos se encontram de pé, incluindo as duas filhas. O homem situa-se atrás, um pouco recuado em relação à esposa entre os quais quase se interpõe o seu irmão. Por fim, bastante deslocado deste núcleo, do qual parece contudo participar, e quase já colocado no exterior de uma linha imaginária que parece unir todo o grupo, encontramos um jovem em idade adolescente, que é o filho mais velho da mulher que expõe perante a câmara o mais novo membro da família. Aquele rapaz é um filho do primeiro casamento dessa mulher, e o homem que está ao seu lado é o padrasto. É notória a distância que os separa na imagem, de tal modo que uma mancha formada pela roseira que enfeita a parede exterior da casa os divide quase pelo meio. Estes elementos demonstram em primeiro lugar a feição performativa que tomam as fotografias desta época. Como Geffroy realça no referido artigo, estes

18 Geffroy, Yannick. 1990. “Family Photographs: A Visual Heritage” in Visual Anthropology, Vol.3, pp.

367-409.

«eventos marginais permitem testemunhar discrepâncias significantes no interior do quadro da imagem», o que, devido ao próprio significado cultural da fotografia naquele início de século, reveste essas disposições de uma significação que provavelmente não teriam nos dias de hoje. No caso desta imagem, é notório o cuidado e a organização de todo o cenário, quase como se um acto teatral estivesse em causa, como se um guarda- roupa e um guião tivessem sido propositadamente criados para a ocasião: o patriarca ao centro; as mulheres sentadas em frente dos homens, e as crianças sentadas mais abaixo, algumas no chão, à frente das mulheres, numa hierarquia reveladora de um certo tipo de estatuto social; os rapazes novos numa posição mais elevada por detrás dos homens, como que para alcançar, por meio de uma verticalidade artificial, o estatuto de masculinidade a que não podem, ainda, na realidade aceder; por fim, o enteado que se aproxima com relutância do padrasto para poder ficar enquadrado no campo da fotografia. As mulheres e os homens aqui representados vestiram naquele dia as melhores roupas, reuniram-se em casa do patriarca, deram um ramo a cada criança e enfeitaram as meninas de laços no cabelo, com o único propósito de fazer este retrato, conferindo à família, no seu todo, uma existência, de certa forma eterna. Todo o tempo que levou a produzir a fotografia, a organização do acontecimento fotográfico, a encenação da pose e da postura, configuram um momento ritual, uma experiência de liminaridade que mais do que a imagem de uma família, coloca em evidência o modo como uma certa configuração das relações sociais, em determinados aspectos une e noutros separa, as pessoas ali representadas. Na verdade, foi a partir desta fotografia que foi possível aos descendentes do velho Manelico, reproduzir hoje a genealogia da família. Uma história relativa aos Manelicos começou então a tomar forma.

“Aquele senhor da fotografia. Esses é que são os Manelicos. ( mulher não está. Já tinha morrido.

)

Na fotografia ‘tá ele só. A

Ouvia eu contar à minha avó (

)

o velhote tinha um irmão. Ele era Manuel e tinha outro irmão

eram dois irmãos

manuéis, e ele era o mais novo, e p’ra haver a diferença os pais começaram a chamar-lhe Manelico. Ao

mais novo. A este, ao meu avô; e ficou Manelico. Assim é que a minha avó contava. E leva jeito, não é? E

leva jeito. Por serem os dois manuéis. Então tantos que há aqui na nossa ald

Manuel, e Joaquim e António. Poucos mais nomes havia. ( Manelico. Assim é que ficou.” (Francisca).

no Alentejo. Era só

Manuel também. E ele era o mais novo, assim é que a minha avó contava. (

)

)

Eram dois manuéis mas o mais novinho era

Os Sabicos

Por vezes a história e o mito são uma e a mesma coisa. Nas narrativas contadas sobre as origens e os acontecimentos associados a estas linhagens, parte dos eventos

relatados derivam de uma memória mítica porque constituída sobre a imitação de factos passados, não vividos nem experienciados por quem os conta (mimesis) 19 , seja essa imitação mais ou menos ficcionada, mais ou menos factual. Mas há também eventos relatados que decorrem de uma memória fundada na experiência. A memória reproduzida nas narrativas históricas e biográficas encontra, todavia, uma relação com alguns objectos materiais que podem servir de âncora documental para

a exploração deste passado. Dois tipos de artefactos podem constituir veículos

privilegiados de pesquisa e mediadores importantes na reconstrução desta memória. Um

deles, como vimos, é a fotografia, como depositário de memórias familiares, colectivas

ou pessoais. Um outro são os documentos notariais: escrituras, registos de propriedade,

contratos, cartas de formal de partilhas e inventários à herança, traslados de registos, certidões, sentenças e juízos, entre outros documentos oficiais, constituem uma forma de mediação específica entre um poder público, instituído em última instância na autoridade do Estado, e os actores sociais. Tais documentos são, no fundo, o rasto visível da relação de mediação que se estabelece, ao longo das gerações, entre formas de agência local e outras formas de agência derivadas da constituição política e jurídica da sociedade.

As cartas de notário

Para além dos preciosos testemunhos orais, que constituem em si uma narrativa histórica de notável valor etnográfico, foi possível recolher algumas “cartas de notário”, como objectos de documentação material sobre a história da linhagem dos Sabicos. Estas constituíam à época um instrumento legal privilegiado na legitimação de processos relativos ao património fundiário. Contratos de arrendamento, empréstimos e

19 A mimesis como imitação significa, na Poética aristorélica, a imitação da acção, própria do drama trágico, da epopeia ou da poesia ditirâmbica. O mito, nesse sentido constitui-se como o enredo, a intriga ou a trama da narrativa. Platão, no livro III da República terá, contudo, distinguido mimese e diegese, atribuindo ao primeiro termo o modo narrativo pela voz dos intervenientes da história e ao segundo o modo de narrar pela voz de um narrador externo (heterodiegético - extradiegético). Na teoria da narrativa moderna, por outro lado, atribuiu-se à diegese o mesmo sentido que Aristóteles atribuiu ao mito, ou seja, identificando-a com o enredo ou a intriga. Todavia, o mito não deixa de ser uma forma de transportar para o tempo da narrativa uma outra temporalidade, trazendo para o instante em que se narra acontecimentos não presentes. Por isso, tal como Aristóteles colocou a questão, narrar é sempre uma forma de imitar e conhecer a acção: toda a narrativa é imitação e o seu princípio é o enredo ou o mythos.

hipotecas, escrituras de compra e venda de propriedades, transmissões de heranças, e todo o tipo de registos relativos ao valor e à legitimação legal da posse da terra passavam por estes gabinetes notariais, onde eram registadas todas estas acções respeitantes às trocas executadas sobre o valor das propriedades. Dada a importância do património fundiário em todos os aspectos da vida social

e familiar, numa sociedade que tinha como principal fonte de riqueza a terra e o produto

agrícola, estes documentos terão constituído um importante instrumento de acção e controle sobre as terras, que por sua vez se constituíam como objectos fundamentais na economia e numa imensa teia de relações sociais. A gestão da posse da terra por proprietários rústicos e iletrados – contudo abastados –, que não dominavam a escrita – utilizada aqui como principal instrumento de legitimação jurídica, através da mediação dos escritórios notariais e das insígnias, selos e juras apropriadamente consagradas nos documentos –, estava assim largamente dependente de um conjunto de ligações pessoais que lhes permitia ter acesso aos indispensáveis serviços daqueles agentes legais. A

familiaridade existente entre estes proprietários e os profissionais de cartório, bem como

a apresentação de testemunhas e representantes nos actos da lavra e firma de escrituras,

constituíam as principais estratégias de acesso ao meio jurídico e burocrático que permitia legalizar e legitimar todos os movimentos realizados sobre a riqueza fundiária. Dos documentos encontrados relativos aos Sabicos, os três mais antigos datam de um tempo ainda anterior à existência do grupo que deu o nome à linhagem. Estes documentos respeitam ao marido da Ti Sabica que era um agricultor da freguesia de Montoito chamado Joaquim Pires Madeira: «casado, proprietário, morador nas Aldeias de Montoito desta comarca» (doc. 1). O primeiro dos documentos, de 1907, consiste na «declaração de venda e quitação» de uma «terra matosa sita no lugar de Vale d’ Amencoca, freguesia de Montoito», em que o comprador, Joaquim Pires, paga trinta mil reis pela propriedade. Assinaram a escritura o membro masculino do casal de vendedores, um comerciante em representação da mulher deste, analfabeta, e um outro proprietário a pedido de Joaquim Pires, igualmente iletrado. Dois jornaleiros da vila do Redondo constituem as testemunhas do acto jurídico. O segundo e o terceiro documentos (docs. 2 e 3), do ano de 1909, são relativos a duas propriedades de olival e azinhal, próximas às Aldeias de Montoito, que Joaquim Pires pretendeu adquirir. O primeiro destes registos constitui um pedido de certidão e a respectiva, enquanto que o outro é já a escritura de venda das duas propriedades, pelas quais este agricultor pagou cento e cinquenta mil reis.

Foto 2 – De cima para baixo e da esquerda para a direita. Atrás: Manuel Neves, José Godinho, Inácio Galego, Francisco Caeiro Costa, José Caeiro Costa, José Garcia Martins, Joaquim Garcia Martins, Manuel Quiquiu (?), António Verdasca (Ti Padre), José Garcia Martins, Francisco Garcia Martins, Manuel Martins e José Barradas. Segunda fila: Rosária Garcia Martins (e Joaquim Ramalho Caeiro, n.1912), Maria Emília Martins, Angélica Garcia Martins, Manuel Martins Caeiro ( Manelico), Maria do Rosário Charrua (e José Charrua Martins, n. 1914), Petronila Verdasca Martins (e Emília Verdasca), Ana Barradas (e Joaquim Garcia), Emília Martins e Maria Joana. Terceira fila: Delfina Neves, Ti Balbina, Emília Martins Galego, Rosária Garcia Costa, Emília Garcia Costa, Rosária Charrua Martins, Ana Charrua Martins, Senhorinha Verdasca, Angélica Verdasca Martins, Armando Martins e José Manelico. Sentados no chão: Manuel Caeiro Costa, Joaquim Charrua Martins e Inácio Garcia Martins.

Martins e José Manelico. Sentados no chão : Manuel Caeiro Costa, Joaquim Charrua Martins e Inácio

Quatro anos passados, de 1913, surgem três cartas «de sentença e formal de

partilha extraída dos autos de inventário orfanológico [

por óbito de Joaquim Pires»

(doc. 4). Aí se inventariam todos os oito herdeiros do falecido proprietário e agricultor e informa-se sobre a quota que coube a cada um dos três filhos, a favor de quem se passaram estas cartas. Joaquim Pires morrera dois anos antes deixando cinco dos oito filhos ainda por casar e uma herança considerável, para dividir igualmente por todos eles, resultando por isso em oito partes de baixo valor cada uma. Esses documentos marcam o início da história dos Sabicos como Joaquim a contou. Nascido em 1928, este neto da Ti Sabica testemunhou directamente a existência social daquele colectivo de oito irmãos nascidos na última década do século XIX. Na verdade, eles formaram a sua família durante os anos de juventude. Seu pai era António Pires Madeira, penúltimo filho do casamento de Ti Sabica. Os outros Sabicos eram seus tios, irmãos de seu pai. Uma família grande com muitos primos. Joaquim testemunhou todo o período que durou o Estado Novo e a sua vida profissional, dedicada ao trabalho na agricultura, foi fortemente influenciada pela política económica do regime. Casou com uma filha de seu tio Inácio de quem teve dois filhos. Mais recentemente, observou a transformação social que decorreu após o 25 de Abril e testemunhou as consequências da adesão à Comunidade Económica Europeia na economia agrícola do Alentejo. Até aos dias de hoje, muitos dos modelos culturais que foram a base da sua educação e da sua formação enquanto pessoa, durante os anos 30 e 40 do século XX, têm sido sucessivamente descredibilizados perante os avanços da sociedade democrática, que destruiu muitas das antigas referências morais e políticas. Se a experiência vivida das oito décadas, que então decorreram, permite representar na consciência de um homem o testemunho de tão vasta transformação social, e uma visão consciente de realidades tão diferentes como aquelas que eram as dos anos 30 e aquela que é a do país de hoje, as suas palavras reflectem não só esta vasta perspectiva sobre a vida do Alentejo durante o século XX, mas uma natural incredulidade e um sóbrio cepticismo sobre o futuro da região.

Convém realçar que, apesar da ditadura policial em que Portugal se encontrava durante o regime salazarista, poucas eram, de facto, as interferências do poder central no dia-a-dia da vida nos campos. Existia-se numa certa liberdade, própria da ruralidade provinciana, ainda intacta da tendência “democrática” para sobre-regular todos os aspectos da vida económica e social; mas existia-se também numa situação afortunada de refúgio de todas as influências repressivas veiculadas pelos preconceitos modernos.

]

Por outro lado, o Estado Novo parecia encontrar no mundo rural o verdadeiro sustento político de que necessitava para legitimar o seu modelo de governação. Ora se todo este modelo social colapsa nos anos da democracia, a integração europeia trás ainda consigo uma realidade que não só revoga o modelo anterior como permite a realização da sua antítese. A história que se segue constitui uma adaptação das entrevistas realizadas a Joaquim durante o trabalho de terreno, de modo a permitir um discurso em que ele próprio se afigure como narrador. Esforcei-me por não alterar a estrutura das frases e as formas linguísticas de maneira geral (morfologia e sintaxe). Alterei, em alguns casos, a sequência cronológica do que foi dito, do modo como foi surgindo nas entrevistas, e eliminei todas as intervenções do inquiridor, para que a história surgisse numa sequência narrativa lógica.

A História dos Sabicos

O meu pai e os meus tios trouxeram muitas herdades à renda. Todos juntos. O meu pai era

António Pires Madeira. Era irmão do meu sogro.

Eles eram cinco irmãos mas um morreu muito cedo. O mais velho. Era o Joaquim Madeira

Pires. Era o mais velho é que mandava. Dos que saem à frente nos fundadores da sociedade, é o nome

desse homem. Foi o primeiro fundador da sociedade, quer dizer: foi ele que teve a lembrança de

arranjar uma sociedade. Puseram-no à frente. Morreu em quarenta e quatro ou coisa assim. Mas os

outros ficaram à mesma. E a viúva ficou com os cunhados na sociedade. Trouxeram muitas herdades.

I

Quando eu nasci já cá estavam os Sabicos.

A minha avó teve oito filhos. Depois o marido morreu. Diz que morreu novo.

Quando a minha avó enviuvou o meu pai tinha uns três ou quatro anos. E ainda tinha um irmão

mais novo. Os dois últimos irmãos não conheceram o pai. 20

E então a minha avó foi à do conde da Furada e arrendou-lhe a Herdade da Mencoca. (Que é

aqui da Vigia p’ra cá. Ali onde ‘tá o milho.) E o dono da Furada, que era o Conde da Ervideira,

dispensou-lhe essa herdade à renda. E ela ali começou com uma lida; com uns bois, umas parelhas e a

fazer searas. Pagava a renda ao velho conde.

E então a minha avó ‘teve ali muitos anos até os filhos casarem todos. Eles lavravam ali; os

filhos. Lavravam ali na herdade ao quarto; semeavam trigo. O conde só recebia o dinheiro da renda, e

os filhos da minha avó semeavam e ela recebia o quarto do que se colhia. Que eles lavravam a terra,

20 Na verdade, estes dois irmãos eram já bastante mais velhos como fica comprovado pelos formais de partilhas redigidos após o falecimento de Joaquim Pires Madeira, e transcritos em anexo.

Ela recebia um quarto e eles ficavam com os outros

três quartos. Tenho a impressão que o meu avô Pires ainda foi rendeiro dessa herdade. Depois morreu.

Morreu novo. Ficou a velhota e entregou aos filhos a lavoura. Quando casou o último, [o mais novo],

que era o meu tio Inácio da Mencoca – herdou o nome da herdade, Inácio da Mencoca, (que era o Inácio Pires Chicau) – a minha avó era já velhota. [Então] ela comprou uma herdade.

aí ao do Ramal de São Manços. Não era

barato porque o dinheiro valia muito. [Mas] com a lida dela ali na Mencoca, uma herdade inteira a semear trigo, e sem ter casa de família, não tinha ninguém, os filhos estava tudo mais ou menos casado,

e ela juntou ali umas massas, e ouviu dizer que a Francelheira estava à venda e foi comprar. Comprar

uma parte da [herdade]. Entregou-a aos filhos e foram todos p’rá Francelheira. Ficaram os oito filhos, naquela parte, com uns trinta hectares cada um. E com umas propriedadezinhas, alguns ferragiais que compraram, e tal

Tinham

semeavam, compravam o trigo e adubos e tudo

Arranjou umas massas e comprou a Francelheira

E deixaram de lavrar aqui nesta. Com aquela chegava; para a labuta que eles tinham

Ficaram com a Francelheira. E o mais novo ficou aqui, a lavrar sozinho

na Mencoca, pagava o quarto à mãe à mesma. Em primeiro eram todos! E depois ficou sozinho o mais novo.

A Francelheira devia ter sido, eu não era nascido ainda, em mil novecentos e vinte e cinco ou

vinte e seis, que eles compraram.

(Escute lá bem esta! Os antigos eram assim.) comprou uma máquina

debulhadora, para debulharem a seara. Como o mais novo ficou ali sozinho na Mencoca, deu a máquina

debulhadora aos outros e não deu ao mais novo. O mais novo ficou sem parte na máquina; fora só para

os outros. Que ela, pronto

E nesse entretanto compraram a Herdade do Pombal! Eram cinco irmãos e três irmãs; os oito é

que compraram aquilo. Os oito irmãos, compraram a herdade do Pombal por oitocentos contos. À roda

de

a Francelheira e o Pombal começaram a ter uma lida maior. Já não pagavam a renda nem quarto. Compraram o Pombal mas já deram parte ao Ti Inácio. Venderam um bocado para fazer dinheiro para pagar a outra. E como não tinham o dinheiro, o Ti Inácio já tinha mais dinheiro que os outros, o Ti Inácio ficava com duas partes no Pombal e eles só com uma. Das oito, ele ficou com duas e os outros só com uma. E houve uma filha que não fazia parte que era a Ti Peixa, mulher do Ti António Costa. [Depois de os oito irmãos comprarem a herdade, esta irmã abandonou a sociedade, deixando dois oitavos ao Ti Inácio da Mencoca].

uns setecentos hectares ou coisa assim. Veja lá o que o dinheiro valia naquela altura. E depois com

uma parelha ou duas cada um

E depois a minha avó

não queria dar mais a uns do que a outros, fez assim.

Pronto! E seguiu-se. Depois arrendaram a Casbarra aonde já entraram todos. Já entrou o mais novo também. (Isto é até uma história bem caçada.) Já chamaram o mais novo também para entrar naquela renda. Que era de uma nora do velho conde! Aqui da Furada. Aquela Casbarra era de uma

nora

que era do José Félix de Mira. O José Félix de Mira depois foi aqui governador civil de Évora

pronto, era de uma família

A Casbarra foi em trinta e oito ou trinta e sete ou coisa assim. Já eu tinha 11 ou 12 anos quando

arrendaram a Casbarra, na estrada de Arraiolos, oito quilómetros d’Évora p´ra lá. Íamos daqui com parelhas p’ràquela herdade. [Mas] aquilo era muito longe, dispendiosa. Nas viagens, uma parelha ia

Era o dono daquela herdade.

para lá levava um dia inteiro. Levava-se um dia p’ra lá, depois ‘távamos lá quinze ou vinte dias, depois vínhamos cá. E era pequena. Pequena e não era muito boa seara. Estiveram lá oito anos. Até quarenta e tais.

Nesse entretanto arrendaram outra! Arrendaram outra herdade aí ao pé de São

Manços, todos os filhos, que é as “Atafona”. É no meio da Torre dos Coelheiros e de São Manços. Já entraram todos à mesma, os Sabicos todos. Era o mais novo eram todos. Quer dizer, as propriedades cá fora, cada um tinha as suas, mas nas herdades à renda às vezes faziam a lavoura toda junta. Dividiam a despesa por todos e o lucro por todos. Nessas à renda. Nas fazendas cada um tinha as suas. Não

Depois

entravam p’rá sociedade.

E depois, daí a quatro cinco anos, arrendaram a Pero Espuma. Pero Espuma, que é aqui

pegado à Vendinha até à ponte do Dejebe. Quando já tinham as Atafonas arrendaram esta. E depois arrendaram aqui esta da Vigia: a Alcoravisca. Deixaram aquela [a Casbarra] e arrendaram as Atafonas, depois andaram aqui à Pero Espuma

e depois arrendaram a Alcoravisca. Chegaram a ‘tar as três ao mesmo tempo! Tudo à renda aqui perto.

Porque a mais longe eram as Atafonas mas era logo aqui ao Ramal de São Manços. Em quarenta e nove foi os anos em que eles deixaram as Atafonas. A Alcoravisca deixaram-na logo a seguir, nos anos cinquenta e cinco ou coisa assim. E depois ficaram ainda com a Pero Espuma. O meu pai morreu em cinquenta e sete, ainda lá ficámos. Fiquei eu e mais o meu irmão, no lugar do meu pai. Quer dizer, tínhamos uma parte que ele trazia à renda e ficou a gente. Deixámos a gente já a herdade. Iam-nos encimando a renda, a gente já não a queria, já tínhamos terra também para lavrar, era

nossa

Ah! E em cinquenta

e quatro compraram o Pego da Moura. Compraram o Pego da Moura só três. Dos irmãos, só três. Quer

dizer, os outros já não entraram na sociedade, ficaram só aqueles três. Foi o ano que eu casei que eles compraram o Pego da Moura. Depois o meu pai morreu em cinquenta e sete, e aquilo estragou-se tudo,

a sociedade. E venderam o gado venderam tudo

a sociedade por completo. Tinham comprado o Pombal, compraram o Pego da Moura e uns compraram ali as fazendas e acabou-se a sociedade dos Sabicos. Foi assim a história deles.

Uns ficaram com o gado outros venderam e acabou-se

e fomos assim fazendo a vida. Em sessenta deixaram o resto das herdades. Dividiram o gado, as ovelhas

II

O meu pai casou e foi morar p’rás Falcoeiras. Que nós somos das Falcoeiras, os filhos. E nas

Falcoeiras, não há hoje ninguém que não diga bem do meu pai. Ele de Inverno, quando as pessoas não

tinham trabalho, que havia aquelas crises de trabalho que não ganhavam um tostão, ele chegava a emprestar dinheiro, a dar a farinha, p’ra eles se manterem. O povo era pequeno. E ele, os mais necessitados, ajudava-os. Alguns depois, nas ceifas, que ganhavam mais dinheiro, ou no Verão, na

máquina debulhadora, pagavam-lhe quando ele lhes emprestava dinheiro. E quando lhes dava farinha ou coisas dessas não lhe pagavam, que ele não queria. E aqui nas aldeias, o mais estimado de todos, era

o Inácio Pires Madeira, que era o Ti Ginja, que era o pai da minha mulher. Esse não tinha torna. Toda a gente queria trabalhar com a do Ti Ginja! Tinha bom nome. Mas os outros também. Também eram boas

pessoas, enfim

Não desgostava deles.

E gostam deles. Foi uma relação

sempre boa com o resto do pessoal. Boa p’ra criados, p’ra proprietários p’ra tudo. Sempre lá há-de

Não, mas praticamente

foram sempre estimados cá na aldeia. Os Sabicos eram boa gente. Prós pobres Eles tinham sempre muita gente a trabalhar. Chegaram a ter uma ucharia grande. Chegaram a

ter trinta parelhas de mulas e machos. Trinta! Quando tinham as herdades. Aqui a Alcoravisca e as

numa

véspera de Natal ou de Carnaval ou de qualquer coisa, andavam aqui na Alcoravisca, (que o monte é a

seguir a Montoito, a gente passava pelas ruas de Montoito, p’ra ir p’ró monte); e eles chegaram a vir um Sábado, as trinta parelhas atrás umas das outras. Quer dizer, vinham umas chegando a Montoito ainda

as outras estavam no monte. Vinha a última em Montoito, já as outras estavam nas Aldeias. Toda a gente a olhar o que era aquilo. Era uma bela vida naquele tempo. P’rá gente. P’ra mim, que era novo. Tinha uma idade boa. Não havia um tractor, não havia um automóvel. Quando eu casei, em ‘54, não havia um automóvel na freguesia de Montoito. Não parece mentira?

Ainda hoje, os Sabicos, têm muito nome aqui na aldeia

haver alguém que goste menos dos Sabicos, não é? A gente não sabe, mas

Atafonas e a Pero Espuma e essas. Cada um tinha seis parelhas. Um dia fizeram por gala

Pois é. Foi uma sociedade, como não houve aqui nenhuma. Tanto ano, e a darem-se todos bem.

O mais velho, era o meu tio Madeira. Quer dizer, ele tinha uma irmã mais velha. Mas essa irmã não

entrou na sociedade, de gados e coisas dessas. Era a Maria Isabel Pires. Essa é que foi o primeiro filho

que a minha avó teve. Essa não entrou

entrou aqui, a lavrar aqui, por conta da velhota: a minha avó Sabica. Entraram os filhos e as tias, tudo! Por conta da mãe. Assim que eles foram rendeiros da herdade não entrou nenhuma irmã. Se calhar eles

os cinco irmãos

não entrou nenhuma irmã, na sociedade deles na herdade. Só

não as quiseram lá, não sei. Já com cunhados e tal, já se não dariam bem. Quer dizer

davam-se todos bem. Mas se lá metessem um cunhado já podiam não dar. E eles não quiseram.

Os eventos da história dos Sabicos e esboço de um capitalismo agrário.

A próxima relação constitui a sequência dos eventos mais importantes da

história relatada por Joaquim, aos quais se acrescentaram alguns outros elementos

importantes da vida familiar dos oito irmãos. O cruzamento da presente narrativa com

outras informações e observações decorrentes do trabalho de campo permite concretizar

alguns aspectos subjacentes a esta história, que não são por si mesmos evidentes.

I. Morre Joaquim Pires Madeira, em 1911, e deixa aos oito filhos e à viúva, a Ti Sabica, a herança do património do casal.

II. A Ti Sabica arrenda a Herdade da Mencoca ao Conde da Furada (Conde da Ervideira) e inicia aí um longo período a cultivar searas. Nessa herdade, os filhos lavravam ao quarto (pagavam a quarta parte

da produção à mãe), enquanto que a Ti Sabica pagava a renda ao conde.

III.

Todos os filhos casam.

IV.

A

Ti Sabica compra um terço de uma herdade chamada Francelheira e

entrega-a aos filhos (1925/1926). Fica o Inácio Chicau sozinho na Mencoca e ainda a pagar o quarto à mãe.

V.

A

Ti Sabica compra uma máquina debulhadora para os que estão na

Francelheira mas não dá parte dela ao filho Inácio que está na Mencoca.

VI.

Em 1934 forma-se a sociedade dos Sabicos que compra a Herdade do Pombal por oitocentos contos. Na sociedade estavam os cinco irmãos, as três irmãs e respectivos esposos, mas uma das irmãs, a Maria Ramalho, não quis a sua parte no Pombal e vendeu-a ao irmão mais

novo, o Ti Inácio da Mencoca, que ficou com 2/8 das terras do Pombal.

A

lavoura cresceu. Com a Francelheira e o Pombal «já não pagavam

renda nem quarto».

VII.

A Sociedade dos Sabicos, composta pelos cinco irmãos, arrenda a Herdade da Casbarra, na estrada de Arraiolos, de 1938 a 1945 21 .

VIII.

De 1941 até 1949 arrendam a Herdade das Atafonas, ao pé de S. Manços.

IX.

De 1944 a 1958 arrendam a Herdade de Pero Espuma.

X.

Morre o líder dos Sabicos, Joaquim Madeira Pires, com 57 anos.

XI.

De 1945 a 1955 arrendam a Herdade de Alcoravisca.

XII.

Em 1948 falece a Ti Sabica, com 91 anos.

XIII.

Três dos Sabicos compram as terras do Pego da Moura.

XIV.

Falece António Pires Madeira em 1957, com cerca de 59 anos.

XV.

No início da década de 60 termina a Sociedade dos Sabicos. Vende-se o gado.

A compra da Herdade do Pombal é, evidentemente, o mais decisivo momento na

vida do grupo destes oito irmãos e que marca o ponto de viragem histórico na sequência

de eventos que constituem a narrativa dos Sabicos. Podemos dizer que existe uma fase

anterior à compra desta herdade e outra posterior. Num primeiro momento, o grupo era

apenas uma colectividade de oito irmãos em que prevaleciam fortes laços de

solidariedade e de cooperação no trabalho agrícola; unidos, em grande parte, pela acção

da própria Ti Sabica, que actuara até então como um dos mais importantes agentes na

coesão do grupo. Fora ela que inicialmente possibilitara aos oito filhos alcançar uma

21 Estas datas relativas aos arrendamentos são falíveis pois baseiam-se apenas na memória que subsiste daquele tempo. Todavia, a sequência dos acontecimentos parece estar certa.

certa estabilidade económica ao entregar-lhes terra para lavrar na Herdade da Mencoca, à responsabilidade deles, onde apenas uma quarta parte da produção lhe era entregue a ela. Foi também a mãe que lhes deu depois terras próprias, livres de renda. Estas propriedades na Francelheira, permitiram-lhes deixar a outra lavoura nas terras do conde.

Em todos estes momentos a acção da Ti Sabica criou melhores condições de lavoura aos filhos, e sempre de modo a não provocar a divisão do grupo, nem a abrir a porta a conflitos entre os irmãos, tal como se mostra no momento em que ela adquire uma debulhadora sem dar nela participação ao filho mais novo, que já fora bastante beneficiado em relação aos irmãos quando ficou sozinho, por sua conta, com a empresa da Mencoca. O grupo dos oito irmãos manteve-se coeso e unido, mas sem alcançar ainda uma verdadeira emancipação da mãe. Faltava-lhes um projecto, uma motivação, uma realização própria. No momento da compra da Herdade do Pombal, os oito deixam de ser apenas um conjunto de agricultores cooperantes, para finalmente se assumirem como uma verdadeira sociedade, uma empresa agrícola com organização e liderança própria. Neste momento constitui-se a sociedade dos Sabicos que dá início à notoriedade do grupo e, dirigidos pelo irmão mais velho, já com cerca de quarenta e quatro anos de idade, organizam-se para comprar o Pombal; um empreendimento que é hoje recordado como uma das mais felizes decisões dos Sabicos. Então, o grupo assume-se como uma sociedade verdadeiramente capitalista, e adquire uma identidade que é recordada até hoje. É este o crucial instante em que começa a história dos Sabicos, e é devido a ele que o grupo alcança um novo estatuto, transformando-se numa sociedade de prósperos lavradores. Começa-se aí a redefinir a própria constituição do grupo e, por esta altura, uma das irmãs rejeita a sociedade e vende a sua parte ao irmão mais novo, o Ti Inácio da Mencoca. A partir daí, todas as actividades do grupo, que não impliquem terras próprias vão deixar de fora as três mulheres filhas da Ti Sabica. Assim, todas as terras arrendadas nos anos seguintes são-no feito apenas pelos cinco irmãos que se assumem, desde então, como o verdadeiro núcleo empresarial da família. A compra do Pombal para além de constituir o primeiro projecto que efectivamente nascia da organização da sociedade, representando uma conquista própria, iniciava também um novo período de actividade económica em que a componente motivacional da acção produtiva não se limitava à supressão das necessidades de subsistência fundamentais, ou à prossecução de um determinado

estatuto social de base fisiocrática. De facto, os oitocentos contos exigidos para comprar

a Herdade do Pombal constituíam à época uma soma extraordinariamente avultada para

um grupo de humildes proprietários locais; uma quantia quase incomportável para uma sociedade de pequenos agricultores, sem outras fontes de rendimento que não as de uma modesta produção agrícola e pecuária. Habituados a produzir apenas nas suas pequenas fazendas e a sustentar uma herdade (a Mencoca) em que a renda, paga com a quarta parte da produção, não constituía um verdadeiro desafio contabilístico – já que o custo do arrendamento variava em função do valor do produto final –, os oitocentos contos para comprar o Pombal seriam um valor irrealizável, demasiado além das possibilidades económicas do grupo. Sem conhecimentos sobre uma esfera mais alargada da economia

monetária assente na fluidez do capital, no crédito e numa classe dominante identificada com a burguesia empresarial (no grupo dos cinco somente o irmão mais novo sabia assinar), apenas uma relação privilegiada com alguns indivíduos da elite económica local poderão ter viabilizado o negócio. Todavia, uma vez conseguido o dinheiro para consumar a compra, as terras do Pombal revelaram-se um bom investimento, e o cumprimento das obrigações referentes à dívida contraída constituiriam, daí em diante,

a fonte de um novo ímpeto de motivação para os anos de lavoura que se seguiam. Era

necessário um maior empreendedorismo e um novo espírito de produção, métodos de organização e de utilização da força de trabalho e da tecnologia disponível, que permitissem retirar o melhor partido das potencialidades produtivas da terra. Pode-se

dizer que uma atitude capitalista se revelou neste compromisso de dívida que importou

a compra da Herdade do Pombal, e que a lavoura dos Sabicos terá tomado uma outra

feição desde então. A este propósito, importa referir Peter Sloterdijk que, interpretando o fenómeno do investimento e do risco como um dos pilares da constituição moderna, afirmou que

“Quando os esquemas do comércio de risco se propagam universalmente – contrair créditos, investir planificar, inventar, apostar, arranjar seguros, repartir os riscos, constituir reservas –, surgem homens de nova têmpera, que querem criar a sua própria sorte e o seu próprio futuro jogando com as oportunidades e que desejariam não as receber já apenas da mão de Deus. É um tipo de homens que, na nova economia da propriedade e monetária, adquiriu a experiência de que os danos nos fazem inteligentes, mas as dívidas ainda mais.” (Sloterdijk, 2008 [2005]: 55).

Enfatize-se que Sloterdijk falava nestes termos de um certo tipo de indivíduos do século XVI europeu, empresários dos primeiros tempos da globalização tais como

Carlos V de Espanha, os mercadores flamengos, ou os patronos das descobertas portuguesas, que surgiam na altura como os pioneiros do empreendedorismo capitalista do mundo moderno, inaugurando uma nova consciência do destino, do futuro e, no fundo, do próprio sentido das causas humanas. O indivíduo passa a construir a sua própria sorte e, na acepção em que assume uma predisposição para o risco e para o controle dos aspectos mais imprevisíveis da realidade, liberta-se dos medievais grilhões de um determinismo evangélico, que mantinham uma ordem estática sobre todas as coisas. A consciência filosófica sobre o significado e a natureza do Ser conhece uma transformação no sentido de valorizar a realização humana enquanto dinâmica de experiência e concretização. A narrativa da História, por seu turno, desloca-se de um domínio da acção centrado nos desígnios de uma espiritualidade sobre-humana, determinante de todas as coisas, para ser agora contada como a descrição das acções e concretizações do homem, tomadas como consequência da vontade e da liberdade do indivíduo. A narrativa histórica da época moderna constitui-se assim a partir desta sobredeterminação da acção humana enquanto regente do destino; o Ser afirma-se como entidade auto-projectada e auto-realizada 22 . O investimento de risco, como apropriação do destino, representa uma das realizações mais importantes desta nova mentalidade, sendo o binómio “crédito-dívida” o seu móbil favorito.

“O gosto pelo risco de que dão mostras os novos actores globais é animado, ultima

ratione, pela necessidade de realizar lucros para apagar as dívidas associadas aos créditos

de investimento. Os europeus de 1500 não são mais ávidos, nem mais cruéis, nem mais

capazes do que qualquer linhagem antes deles. Mas têm mais gosto pelo risco.” (Sloterdijk,

2008: 59).

É com esta mesma ousadia que nos deparamos no presente contexto etnográfico, onde os Sabicos, mais do que pioneiros, constituíram um grupo de investidores imbuídos deste mesmo espírito que, em 1500, sentenciou o arranque da chamada modernidade europeia. A dívida como prejuízo ético que coloca em causa a honra e a dignidade, pode ser, se não for devidamente amortizada ou compensada, comparada a uma “morte moral”. Enfrentar corajosamente a dívida, no sentido em que o indivíduo aí

22 Este movimento da narrativa histórica entre os tempos medievais e a época moderna, onde de um género “narrativo” conhecido como “Anais”, passando pela “Crónica”, se converte na narrativa “histórica” propriamente dita, é aqui sugerido tendo como referência o artigo de Hayden White, “The Value of Narrativity in the Rpresentation of Reality”. Ver bibliografia.

se confronta com uma morte simbólica, constitui-se numa apropriação sobre o próprio destino. Perante o risco, que sempre existe, de ser incapaz de saldar a dívida, o empresário luta por regressar, livre, a um novo estado de equilíbrio. Através de uma acção intencional, colocou-se numa situação de risco, e enfrentou a possibilidade de

derrota: uma acção que constitui em si mesma um momento dramático e o evento narrativo máximo, que se poderia identificar com a peripécia aristotélica, pois ele opera uma revolução no estado de coisas, passando-se de uma situação inicial estática para uma outra de perturbação que necessita de resolução.

O indivíduo que assim se apropria do próprio destino aproxima-se de um certo

ideal de pessoa, performatizando sobre um ideal civilizacional ressurgido durante o

renascimento europeu, que coloca o homem como locus de toda a acção e da história.

“O personagem chave da era moderna é o «devedor-produtor» - mais conhecido

Não há capitalismo sem positivação das dívidas.”

pelo conceito de empresário – (

(Sloterdijk, 2008: 55).

).

É esta “positivação” que motiva o início de um novo período de expansão

agrícola, assente essencialmente em quatro factores: o conhecimento profundo de todos os aspectos da lavoura, o domínio perfeito do sistema produtivo – tanto da tecnologia como dos aspectos interpessoais e de relacionamento com os trabalhadores –, a expansão da área produtiva 23 e, não menos importante, o aproveitamento económico da fixação anual do preço do trigo, pela FNPT. Se os dois primeiros factores são em si mesmos condicionantes ontológicas próprias dos agentes em questão, uma herança das gerações anteriores que lhes permite a realização de uma identidade individual e colectiva por referência à comunidade de pertença, já os dois últimos aspectos decorrem precisamente de um tipo de espírito moderno/capitalista, revelado na necessidade de assegurar, por um lado, o aumento dos rendimentos para fazer face às obrigações de crédito contraídas, e por outro, uma certa infalibilidade no investimento, possível neste caso porque o Estado garantia um preço de escoamento para a mercadoria e constituía- se como um mercado fiável para o cereal. Filipe, um antigo trabalhador rural das Aldeias, recordando hoje esses tempos antigos, reconheceu o domínio que nesse tempo os agricultores tinham sobre todos os aspectos da lavoura. Um conhecimento a que hoje pouca importância se dá. Para além

23 Entre 1934 e cerca de 1945 os Sabicos compraram a Herdade do Pombal e arrendaram mais quatro herdades. Terão sido redeiros na Herdade da Casbarra, lavraram nas Atafonas, na Alcoravisca e na Herdade de Pero Espuma. Estas três últimas terão estado arrendadas em simultâneo durante cerca de quatro anos.

disso, as condições de mercado artificiais criadas pelo Estado Novo, permitiam que, apesar dos contratempos e das reveses a que estava invariavelmente sujeito, o agricultor fosse capaz de garantir com alguma segurança e previsibilidade, um rendimento anual. Os Sabicos

“é claro também tinham prejuízos. Também lhes morriam parelhas, também lhes morriam

O que

eles tinham, era uma organização; colhiam o trigo sabiam onde o iam vender. Agora colhem não

sabem” (Filipe).

ovelhas, também lhes morriam vacas, também tinham searas ruins, também tinham searas boas

A segurança do agricultor era essencialmente garantida pela variedade de produtos que cultivava e criava. Sem o recurso aos subsídios, que hoje aliviam prejuízos e alimentam produções deficientes, o antigo agricultor assegurava-se através da dispersão do investimento e do máximo aproveitamento dos recursos naturais. A gama variada de produtos agrícolas parece não ter sido importante somente para o abastecimento da casa e o sustento da lavoura. Constituiria também uma forma de garantir aquela margem de rendimento que permitia sustentar o sistema de produção sem grandes prejuízos, a despeito da imprevisibilidade a que estavam sujeitas as principais culturas cerealíferas e, sobretudo, as searas.

) e ele disse-me

assim tantas vezes: «Olha, o agricultor p’ra ser um bom agricultor, p’ra ser mesmo agricultor, p’ra viver

na agricultura tem que ter: cabras, ovelhas, porcos, vacas, tem que ter animais, e tem que ter arvoredo»,

arvoredo-bolota, «tem que ter azeitona, tem que ter vinho, tem que ter isso tudo.» ( )

“Houve um indivíduo que era agricultor, ou seareiro como queiram chamar (

Nem todos os anos são ruins. O ano de “enverna” 24 é ruim p’ra seara, mas é bom, que as árvo

aquele sangue que eu ‘tou a dizer, aquela fresquidão, p’ró

arvoredo se alimentar p’ra dar uma novidade de bolota p’ró ano seguinte. A novidade de bolota é p’ra

quê? p’rós porcos. P’rás ovelhas, p’ràs cabras, p’ràs vacas. Portanto, aí não foi ruim. A seara de

enfim, porque nessa altura, já dá boa seara de sequeiro, dá

muito feno, dá isso tudo prós animais que de Verão precisam de se alimentar. Esse indivíduo tinha, como

suplente, tinham uma serra de

palha suplente, tinham um celeiro suplente que era isto que as minhas casas têm, de aveia e cevada,

) Colhem-se, a palha,

aqueles que não lhes faz falta vendem-na; colhem a cevada e a aveia, vendem-na; e os celeiros tão

vazios. E depois, o destino não lhe dá uma boa “enverna”, um bom tempo, pr’ós animais se

governarem

o arvoredo precisa de chuva p’ra terra criar

sequeiro dá melhor seara no Alentejo, (

)

todos os outros que eram agricultores, tinha uma serra de moinha (

)

suplente, que só a vendiam quando a outra seara tivesse segura. Agora não sei. (

[Depois] têm que comprar no ano, depois é caro, e depois nã’ dá! Não sei se tá a ver?”

24 Enverna é provavelmente uma degeneração da palavra “invernia” que denota o tempo invernoso das estações mais frias e húmidas: Outono e Inverno. Enverna é uma expressão aqui utilizada com uma conotação de tempo húmido, bom para a engorda. O Inverno e a engorda estão relacionados, pois o ano invernoso dá muito pasto e bolota para a engorda dos animais.

“Agora, como tava cá a dizer, quando morria uma parelha (agora uma parelha não morre, que já não há. Eh, é um tractor, né?), ou morre uma ovelha têm subsídio, noutro tempo não tinham. Morre

E noutro tempo, os

eles é que sabem, no

entanto, já não há searas como havia, pois não? Não há searas de quinze e vinte sementes. Não há

É impossível haver: atirar seara p’ra cima do pousio? (Chama-lhe a

uma vaca têm subsídio, noutro tempo não tinham. Têm muitos subsídios, (

homens, os agricultores tinham que se aguentar com isso tudo! (

nenh

é impossível haver (

).

) Sim

agora

).

gente). Ou andar com

a fazer uns riscos na terra e meter lá o trigo?”

“Porque isso tudo requer em cima das pessoas que andam cá a viver, que têm uma certa experiência. Têm uma certa experiência que cá adquiriram. Uma certa prática.” (Filipe).

Existe hoje a percepção de que o conhecimento que os antigos tinham (ou têm) da lavoura está votado a uma desvalorização por parte dos actuais agentes produtivos. Esta percepção produz fortes críticas por parte daqueles, proprietários ou trabalhadores que, como Filipe observam uma mudança nas técnicas agrárias e nas estratégias de produção que segundo eles não têm em conta todos os aspectos que deveriam, com vista a aproveitar as terras da melhor maneira possível. A Herdade da Casa Alta, explorada por um indivíduo de nacionalidade estrangeira, foi por várias vezes referida como um exemplo de má gestão fundiária. “– Como é possível, terras de barro, tão ricas, todas plantadas de oliveiras?! terras tão boas p’ra seara?” Também o abandono a que muitas outras propriedades estão votadas não é, naturalmente, ignorado, sendo antes apaixonadamente criticado. Se existe um conhecimento antigo, uma fonte de saber relativo à lavoura, que se opõe às práticas agrárias de hoje, ele não deixa de ser incorporado em toda a visão nostálgica do passado, o que produz uma oposição insanável entre o antigo e o moderno que, de certo modo, percorre todos os domínios da cultura, desde o conhecimento das técnicas agrícolas, às questões éticas, passando pelas “artes” e costumes. Na visão dos mais velhos, mas também na dos mais novos, o antigo e o moderno opõem-se em praticamente todos os domínios, embora na prática existam várias continuidades. Todavia, na problemática do saber, as controvérsias são mais do que evidentes. De um modo geral distingue-se um conhecimento fundado na experiência, na prática e no trabalho directo da terra, característico das gentes antigas, de um outro conhecimento, científico, teórico, e que nasce do esforço intelectual, próprio dos modernos. Enquanto que o primeiro constitui uma forma de saber que é transmitida pela tradição e aprendida na prática, um pouco por tentativa e erro, e pela experiência de quem começa desde cedo nas lides do campo, a segunda forma de conhecimento, que é

“própria dos livros”, aparece aos olhos dos camponeses mais antigos como desadequada a todo o tipo de trabalho agrícola. Esta oposição dual parece ser a forma manifesta de uma outra oposição, tecida por José Cutileiro, e que se referia a uma divisão fundamental entre um saber dos camponeses e um saber intelectual próprio das elites. Se, de facto, Cutileiro já referia por um lado as críticas dos trabalhadores à gestão que os latifundiários faziam da lavoura, contrapunha por outro lado, a defesa do latifundiário da sua posição social, através da sua capacidade administrativa, fora do alcance dos trabalhadores. Ambas as posições, sugere-se, estariam envoltas em tensões relativas às relações de classe, mais do que a problemas relativos aos sistemas de produção, pois que o conhecimento constituía-se como uma barreira à mobilidade social e à igualdade de oportunidades entre os homens.

criticam-nos [aos latifundiários], apontam os erros que

cometem na administração das suas terras e condenam o facto de não trabalharem eles

próprios nos campos. Sugerem que a terra deveria ser repartida por aqueles que a merecem

) torna-se

irrelevante que os seus proprietários trabalhem eles próprios a terra ou não. O que importa é saber administrá-la. «A alfaia agrícola mais importante», observou um deles, «é a lapiseira»” (Cutileiro: 49).

pelo seu labor, ao que os latifundiários contrapõem o seguinte ponto de vista: (

“Os trabalhadores (

)

A oposição entre aqueles dois tipos de conhecimento está associada a uma outra, paralela, entre o trabalho físico e o trabalho intelectual, ainda hoje evidente quando se salienta a necessidade de uma longa aprendizagem para se estar apto aos trabalhos do campo, do mesmo modo que o trabalho intelectual exige longo treino. Traça-se assim uma certa incomensurabilidade entre estes dois campos do saber, de tal modo que dificilmente se admite que um homem possa desempenhar eficientemente tarefas em ambos os domínios.

“noutro tempo parece que os agricultores tinham todos saber. Porque nasciam no seio, no

interior, dentro das propriedades. Sabiam

“Eu disse não há muito tempo a um engenheiro da minha idade, que ele disse-me «Haa, pá vou

tirar também o curso de podador e tal

são suas! E pegar numa motosserra e ir lá pra cima como eu vou. E tá tudo certo. Quando ele me disse, desafiou, a conversa dele foi p’ra me desafiar, que ia também tirar o curso, - Com certeza, Mas se ele me dissesse, epá, como é que eu vou? porque eu nunca fui treinado p’ra isso, eu admiro-me. Então não é verdade? Como é que eu acredito que ele vá p’ra cima duma árvore com uma motosserra cortar, podar a árvore. Eu admiro-me! Ele é da minha idade, tá tudo certo. Então mas ele nunca andou nisso! O homem

nasciam, a acompanhar a

as produções, as agriculturas.”

»,

- Com certeza,

»

então com certeza, «cortar as minhas árvores

nunca o fez (

)

Nem a meter os pés em cima de uma árvore que ele sabe p’ra se equilibrar. E no entanto

não lhe tiro o valor, nem lá perto. Nem posso tirar.” (Filipe)

A percepção da existência de uma dificuldade incontornável em combinar um saber teórico com a experiência do trabalho prático no campo ajuda a explicar, por exemplo, porque é que muitas das explorações agrícolas são hoje deficientemente administradas. No entanto, se surgem hoje muitas críticas ao modo como as terras são aproveitadas, insurgem-se também os antigos trabalhadores contra a “caça” ao subsídio, que constitui uma perversão do ideal agrário. Fundado no aproveitamento máximo de todas as capacidades produtivas da terra e no aperfeiçoamento das técnicas de lavoura, este “ideal” foi desvalorizado quando “o subsídio” passou a beneficiar as explorações fundiárias sem relevar de critérios de excelência. A procura geral de subsídios estatais a todo o custo, e a imperfeição de muitas lavouras e técnicas agrícolas actuais, instigam nos mais velhos sentimentos simultâneos de indignação sobre a vida hodierna e saudades de um mundo perdido, mais perfeito, feito dos modelos antigos e da tradição.

“A sementeira directa, nem escala a terra, que ela tá escalada só aquela capa, por cima, tem

Dá uma má seara mas dá

Hoje a sementeira no Alentejo, a exploração do Alentejo faz-se

de subsídios. Porque há um indivíduo que é caixeiro-viajante, nunca mais me esqueci ele

dizer, «Quê? O Alentejo agora? Cada vez dá mais!» Cada vez dá mais. Então! Queima-se uma seara, ou

à base de

um bom subsídio! Não sei se tá a ver. (

aquele pasto, é impossível. (

) Dá, dá uma má seara

)

Então é claro, senão

foi folhada com

que é impossível (

)

dar seara: tem-se um subsídio. Pronto. Tem-se uma boa seara

tem-se um subsídio, colheu vendeu. Agora não custa nada.”

“Se nós falássemos, tivéssemos a falar uma tarde inteira, ou um dia inteiro, sobre aquilo que a

gente vê o que foi o Alentejo, o que é agora, temos muita coisa a falar. Muita coisa a falar. Não acaba.

até no próprio

arvoredo, os homens que hoje estão a fazer as limpezas do arvoredo, não é nada (

arvoredo; é tudo p’ra ele se ir abaixo. Porque eles não fazem uma poda num sobreiro, numa azinheira,

p’ra dar vida ao

Se for em questão da exploração, ‘ta muito diferente do que era pr’ó que é agora. (

)

)

numa oliveira nas condições. E eu sou capaz de explicar porquê! Mas ao pé de uma árvore. (

) É o

mesmo que nós. Se não cortarem a barba à gente, ou se a gente não a mandar cortar, ou o cabelo, o que

Se não prepararem a gente, em condição humana, o que é

que a gente chamemos? Portanto, logo de cedo, quando a gente nasce, os pais começam a ensinar palavrinhas à gente, a dar os primeiros passos à gente, a preparar a gente p’ra formar a gente. Chama- se uma formação. Não é? Uma formação, uma preparação humana, uma formação humana. É o que

deixam os

secos numa árvore, deixam a pernada que tá a precisar de ser limpa p’rá árvore tomar mais força; uma

quem percebe. Temos

) Fazem o mesmo na

seara. Nunca se viu, nunca se viu semear seara agora, p’ra bons rendimentos, como se via noutro tempo.

é que seremos? O que é que parecemos? (

)

uma árvore quer. Porque uma árvore não nasce feita. Tem que se preparar. Ora eles (

árvore precisa de ser colada p’ra tomar força, p’ra tomar vida. Isso é p’ra (

)

)

assistido, temos aí o arvoredo todo a morrer. Temos um arvoredo todo a morrer. (

Tá ali uma herdade que era a Casa Alta que hoje tá a ser semeada, toda, de azeitona, de oliveiras, não é

de

um preço, num preço tão baixo, pergunto eu uma coisa: Como é que amanhã (Filipe).

quem bebe tanto azeite?”

de oliveiras, que eu não vejo, não vejo, pronto, porque vejo tanta oliveira, e o azeite tem

pronto

A vontade ou a necessidade de expandir a produção e as próprias dificuldades inerentes ao carácter rudimentar da tecnologia agrícola obrigavam a recorrer, não só a um crescente número de trabalhadores, mas também a maior número de animais de trabalho e a uma organização da lavoura mais aperfeiçoada. Não é possível hoje, e sem elementos de comparação, determinar o grau em que a relação próxima que existia entre trabalhadores e patrões facilitava as tarefas de organização dos trabalhos, todavia as relações entre trabalhadores e patrões são hoje recordadas como fazendo parte de uma harmonia antiga que se perdeu. Assim como um conhecimento profundo dos aspectos práticos da lavoura era essencial para uma boa orientação dos trabalhos por parte dos patrões, como já vimos, também o facto dessa orientação ser transmitida por estes, directamente aos trabalhadores, constituiria decerto uma mais valia no resultado final da produção. Não só o patrão partilhava os mesmos modelos de compreensão que os trabalhadores sobre as questões técnicas da lavoura, como o trabalho feito em conjunto permitia o desenvolvimento de relações de amizade e confiança, entre patrões e criados, que instituíam não só um respeito mútuo, como uma dedicação genuína por parte dos trabalhadores a uma lavoura da qual sentiam ser parte integrante. O entusiasmo com que os trabalhadores se empenhavam é hoje relembrado enfaticamente, através da recordação de uma pertença que era assumida pelos patrões e permanentemente por estes reiterada.

“Havia aqui uns lavradores grandes que era o Dr. Mário, o Sr. Francisco Falé, outros mais ( )

eles tinham ganhão, tinham um feitor, e tinham a eles a ir contratar, conviver com os criados

com os criados directamente, não tinham desprezo. À noite recebiam os criados, de manhã ‘tavam a administrar os criados. ‘Tavam a viver naquele interior todos, que não havia ódio não havia nada. Havia uma amizade. Pois, é que eles gostavam mesmo dos criados, gostavam da profissão que tinham, e daí quando a pessoa gosta da profissão, não tem uma profissão errada. Trabalhei p’ra muita gente dessas. A família do Tónio Pires, dessa gente, [os Sabicos] epá não

epá falar

posso chamar àqueles homens um nome [latifundiários], que eles não

] [

vontade. Isto não é dizer que agora que não, agora nesta época que não dão. Mas naquela altura davam.

Iam todos satisfeitos. Os avós deles chamavam filhos aos criados. «Ah filho, anda cá filho

Eeeeh, quer dizer, existia um respeito, uma amizade, os criados com os patrões, tratavam-nos doutra maneira. Tratavam. E até morriam lá de velhos. Morriam lá de velhos. Sim. É claro essas coisas são

Eram uns médios agricultores

Em que eles tinham, pá, viviam com os criados, e os criados davam-lhe o rendimento de boa

»

Pois.

inesquecíveis; não sei se tá a ver? E eles entregavam, por exemplo, uma parelha a um carreiro, e essa parelha até o carreiro lhe chamava dele: «A minha parelha» porque não lidava com outra. «A minha parelha, a minha parelha», tratavam-na como se devia a tratar, nas condições. Pois. E o patrão dizia assim p’ró carreiro: «Olha, amanhã tomas a tua parelha e vais fazer assim e vais fazer assado.» «A tua parelha», tá a ver. Dava, digamos, uma imagem, p’ra que até que o próprio carreiro tivesse amizade p’rós animais que não eram dele. Vivia tudo numa harmonia, em conjunto, e tanto assim, que foi aonde a família do António Pires, dessa gente, arranjaram umas propriedades bem boas, não foi, digamos, não foi nenhuma fortuna

além aqui, tanto que não chegou para que eles deixassem de trabalhar, os herdeiros, pró resto da vida.

enfim, uma preparação, que eles nasceram praticamente

do nada. Deixaram um princípio p’ra eles terem uma vida. Em vez de serem outra coisa, agora, serem

Todos têm de trabalhar. Não foi uma fortuna

agricultores. Umas pequenas fazendas, e umas fazendas médias, enfim.” (Filipe)

Estas representações que Filipe transmite dos tempos antigos são sobejamente partilhadas por muitas outras pessoas das Aldeias que viveram ou conheceram a vida dos campos numa fase anterior aos anos sessenta. Todavia, algo de completamente diferente foi observado por José Cutileiro relativamente a Monsaraz. Senão vejamos: os trabalhadores agrícolas de Monsaraz «acatam tacitamente uma espécie de greve permanente e morna, já que deliberadamente produzem menos do que está ao seu alcance» (Cutileiro, [1971] 2004: 61). Mas não se pense que esta espécie de boicote continuado ao trabalho é fruto de conflitos com o patrão ou de alguma espécie de animosidade permanente em relação aos ricos latifundiários, os quais desprezam assumidamente as classes inferiores da sociedade e com as quais evitam quaisquer tipo de relações que não sejam aquelas estritamente requeridas para garantir uma certa estabilidade social. De facto, Cutileiro descreve um comportamento de permanente dolo por parte dos trabalhadores que arranjam constantemente artimanhas para enganar os patrões ou os encarregados e apenas adaptam a estratégia consoante aqueles que os vigiam são mais ou menos capazes de detectar a fraude.

“[O trabalhador] precisa mesmo de talento para ludibriar os patrões sem ser despedido. Estes logros não são esporádicos: implicam um conjunto de processos adequados que são bem conhecidos e variam consoante os trabalhadores estão ao serviço de latifundiários ou de proprietários, dado que a vigilância pode ser exercida por feitores ou pelos próprios donos das terras. Os trabalhadores observam que, conquanto os pequenos proprietários trabalhem a seu lado, ou pelo menos muito perto de si, durante a maior parte do dia são mais fáceis de enganar visto que nunca foram trabalhadores assalariados e, por conseguinte, não conhecem todas as manhas do ofício.” (Cutileiro, 2004: 61).

Cutileiro refere, contudo, que «considerações de ordem moral» obrigam os trabalhadores a uma diferenciação no empenho consoante a riqueza do patrão, sentindo- se «na obrigação de trabalhar com mais afinco para os pequenos proprietários, com os quais convivem mais de perto» (Cutileiro, 2004: 61). Esta observação está mais de acordo com a realidade recordada nas Aldeias relativamente às empreitadas dos Sabicos que, apesar de serem já proprietários de média dimensão continuavam a partilhar de uma identidade muito próxima com os trabalhadores que empregavam, comungando, sobretudo com os carreiros, trabalhadores concertados ao ano, de um mesmo gosto pela lavoura que produziam em conjunto.

(o lavrador é aqueles que tinha muita lavoura, chamava-lhe

a gente), fazia dinheiro de muita maneira. Aproveitava esses produtos todos. Tudo o que fazia ia

aumentar a vida dele. (

O carreiro tinha

uma soldada. Chamava-se uma soldada. Recebia tantos litros de azeite, recebia tantos alqueires de

recebia um porco gordo. Tantas

arrobas de carne. (

amor àquilo que andava

ou

)

Aproveitava pagava ao trabalhador. Se disserem assim – Ah, o trabalhador

nessa altura ganhava menos. Não ganhava nada. (

“o agricultor, não é o lavrador, (

)

)

ouça, e até lhe vou dizer mais (

)

farinha (

).

Portanto, o azeite vinha de onde? Do agricultor. (

)

Portanto, tinha aquele contracto feito. (

)

)

Recebia tantos queijos, ou um borrego

enfim (

)

saboreava da produção que andava a fazer, também. Tinha (

)

a fazer. Pronto, e o patrão também tinha.” (Filipe).

As recordações que Joaquim guarda dessa vida campesina são amplamente concordantes com as representações de Filipe e ambas ecoam uma profunda nostalgia do passado, relembrando os momentos de convívio em que grandes grupos de trabalhadores se juntavam nos campos por altura das grandes empreitadas. Um tempo em que as herdades se enchiam de gente a épocas certas do ano, ora nas lavras, ora nas ceifas.

No mesmo modo que a “História dos Sabicos” apresentada anteriormente, toma agora lugar uma ilustração da vida campesina, reconstruída segundo os mesmos princípios que aquela, tomando como narrador homodiegético Joaquim, proprietário, filho de Sabico.

Vida campesina

I

[O meu pai] chegou a ter cinco carreiros, cinco parelhas cada um homem, e tudo comia com a

gente. Ganhavam o comer, pois. Era assim. E o meu sogro a mesma coisa. Chegou também a ter cinco

a de comer. Comia tudo junto com os patrões. Era ali, uma mesada de

parelhas, com os carreiros

casamento! Comiam os anuais: os carreiros que andavam com parelhas. Esses chamava-lhes a gente de concertados. Os Sabicos traziam mais homens que aqui a herdade da Casa Alta. Muita gente, sempre muita gente. [Então], compraram o Pego da Moura, (foi no ano que eu casei). Era o Pego da Moura e o Pombal, e a Pero Escuma três. A Casbarra já a tinham deixado. E as Atafonas quatro e a Alcoravisca cinco. Eram cinco herdades. Tudo ao mesmo tempo. Gostei desses tempos. Às vezes até me lembro tenho saudades desses tempos.

Na herdade das Atafonas, que é essa que é ali ao pé de S. Manços e Torre dos Coelheiros, um

(mais ou menos ainda sei), no tempo da sementeira, andavam perto de noventa, noventa

e tal cem homens, naquela herdade a trabalhar. Eles tinham cinco parelhas cada um, e dividiam-nas. Depois era só um animal a puxar por uma charrua, no tempo da sementeira, uma charrua pequena. Quer dizer, cada parelha depois tinha que ter dois homens. Dividiam as bestas. Eram, eles eram cinco, eram vinte e cinco parelhas. Só com as parelhas tinham que ser cinquenta homens. Só p’ra lavrar. P’ra lavrar. Depois p’ra semear adubo, eram mais, se calhar, oito ou dez. Semear trigo, mais cinco ou seis. E pronto. Era assim. Chegaram a lá andar noventa e tal homens. De noite. A dormir lá tudo. Naquele monte.

Nas ceifas era mais. Mas nas ceifas não se ia dormir no monte. Só quando chovia. Ceifas era:

cada um dormia lá na sua courela. Lá andavam a ceifar e caíam pró lado e se deitavam. [E] nas debulhas dormia-se mas era ali ao pé da máquina, ali fora, ali na rua do monte. No Verão era sempre na rua. Aonde ‘tava a máquina, era aí que eles dormiam.

à roda de vinte e oito. Oito e oito

dezasseis, tinha o corta molhos dezassete, e o

saqueiro dezoito, e o albufeiro dezanove. À roda de vinte. Uma máquina debulhadora trazia sempre à

quer ver como faziam? Quando havia muita palha, que as searas

ano contámos

Mas na máquina debulhadora também trazia vinte

oito na palha, oito no frascal são dezasseis

dezassei

roda de vinte homens. E havia anos

eram de muita palha, a máquina, quanto mais debulhavam mais palha deitava lá atrás.

tirar a palha da máquina. Mas

eles ó depois diziam: “Queremos mais um homem!” Mas, p’rós patrões: “Vocês não metem ninguém. A gente, queremos a jorna de um homem mas é dividida por todos. A gente faz o serviço à mesma”. Quer dizer, obrigavam-se a trabalhar mais, p’ra ganhar mais, coitados então era assim. Muitos anos, que eu

me lembro, muitos anos de eles pedirem mais um homem aos patrões. “Vá mais a jorna de um homem

Era uma

vida de amigos! Os trabalhadores, os patrões

agora

Os patrões: a gente. Patrões, de gente com pouco, não é

senão a gente não trabalha!” E lhes dávamos mais a jorna de um homem. Era

O preceito era trazerem oito homens. Lá na palha. A carrega

a

era uma vida

Os condes e esses não andavam lá com os criados. Então a gente ceifávamos com uma foice em

companha deles. No carrego dávamos molhos em companha deles. Sementeiras: eu andava com u’ a besta e eles andavam com a outra. Era assim.

II

O meu avô tinha uma casa ali perto das Falcoeiras. Era a seguir logo às parelhas do Falcoeiro,

cá pró lado da linha do comboio. E ó depois esse monte, essa casa onde o meu avô morava, ficou assim

mais ou menos abandonada. Ficou com porta ainda, com uma porta mas aquilo deu em envelhecer, ninguém caiava

Agora, por

superfostato, quer dizer, agora já vem

composto. Vem traçado tudo dentro dos sacos. A gente compra e vem as qualidades tudo já misturado. E

naquele tempo não. Comprávamos um adubo, despejávamo-lo lá. Comprávamos outra qualidade,

despejávamos outro tanto. E depois a gente é que o misturava. Misturava carregava-se o adubo pr’além, despejava-se. Ou levavam-se as saquinhas.

quer dizer, de Verão

exemplo, agora há adubo composto. Porquê? Tem o azoto, e tem

e o telhado ia-se arranjando e tal,

E o meu pai comprava o adubo de Verão, porque nesse tempo não havia adubos

E na altura da sementeira, antes de romper a manhã, aí duas horas antes de nascer o sol, íamos

traçar o adubo: os carreiros, e eu e o meu irmão e o meu pai; e toda a gente aí! Levantávamos cedo, íamos traçar o adubo. Já tínhamos almoçado, uma açordinha d’ água ali duas horas antes de nascer o

Cada

sol

um carro de parelha levava mil quilos. Mesmo no caminho velho, cada um carro, com uma parelha

levava mil quilos. (Uns sacos largos

Íamos p’ra lá traçar o adubo, carregavam-se nos carros de parelha, chegava-se ao Pombal

Devo ter lá em cima ainda sacos desses).

E começávamos a lavrar no Pombal ainda mal se via! De manhã, antes de nascer o sol um

bocado bom. Era quase tanto tempo de noite como de dia. Pois era assim. Quer dizer, uma besta lavrava a terra que levava um saco de trigo. Agora um tractor, (um saco de trigo leva dez mil litros) vai duas ou três vezes lá além e volta, p’ra enterrar um saco de trigo. Pois. E naquela altura era uma besta um dia inteiro p’ra enterrar um saco de trigo e era preciso ser uma besta boa! Então tinha que ser no tempo de noite. Era assim a vida. Ninguém

estranhava. Era assim o uso da vida.

III

O carreiro com que a gente ceifava a seara fazia molhos. Quer dizer, searas desta altura, ceifava-se e depois atava-se mesmo com a mesma palha. E depois há os montanitos, que eram rilheiros, chamava a gente rilheiros. A gente às vezes com a forcada custava-nos a levá-la lá p’ra cima. E depois era de noite, à mesma, a carregar os molhos lá p’rá eira. As parelhas é que carregavam aquilo, pr’àqueles montes, aquelas eiras, p’rá máquina fixa. Deixavam assim um corredor, faziam-se frascais deste lado e deste, p’rá máquina depois ficar ali ao meio. Pronto. Era assim. Era assim a fazerem-se

ali

dez, doze horas todos os dias.

Descansávamos às vezes. De quando em vez. Aqui no dia da feira de Montoito é que davam

sempre dois dias aqui à malta. Aqui os meus pais e os meus tios, nos dias de feira, era domingo e

segunda-feira

quinta-feira ao meio-dia e só começavam no outro

agora era quinta do meio-dia p’rá noite e sexta até ao meio-dia. Agora é que fazem a sexta-feira já inteira.

na sexta-feira ao meio-dia. Era o dia santo. Até

e muitos domingos descansavam muito por aí. P’ra Páscoa, paravam o trabalho na

Quando o serviço não estava apertado, descansavam todos os domingos praticamente. Quando

havia mais preciso de se fazer o serviço, às vezes era domingo sim domingo não. Trabalhava-se ao

domingo, mas

os

a malta não dizia que não queria, era assim o hábito aí, nas herdades e

e

proprietários pequenos era tudo igual. Tinha de se controlar o trabalho p’ràs bestas fazerem, porque

a gente

pegava trigo dessa herdade, destas herdades aqui: aqui era p’ra Reguengos, e das Atafonas e

eu com uma parelha! Do meu pai.

Não sei porquê, lembro-me de lá ir. Se calhar era porque não havia carreiro nessa altura. Abalávamos à

onde são os silos de Évora. Ainda lá ‘tão os silos. Aqueles silos altos. fizeram os silos onde eram os celeiros. Chegávamos lá antes de nascer o

sol, ou coisa assim, logo p’ra apanhar vez!, porque se fossemos tarde, ‘távamos lá o dia inteiro à espera

e não descarregávamos. Eram bichas e bichas, era p’ráli gente a descarregar trigo

Francelheira era p’ra Évora, com as parelhas. Chegámos a abalar

aquilo já se sabia que era em câmara lenta. A gente quando semeava e debulhava e isso tudo

meia-noite, das Atafonas, p’ró Mas era ali p’ra uns celeiros

é

Até era de noite

Mas havia já celeiros, do estado, em Santiago Maior, em Montoito, em Reguengos, no Alandroal, em Vila Viçosa, Évora, Estremoz

chegámos ali, de madrugada num

dia

nas bichas já ali antes de nascer o sol, um bocado. Tivemos lá esse dia inteiro, e a outra noite toda

a noite, só descarregámos aí p’las nove ou dez horas. Já com tractores! Isto era uma região boa de trigo.

Aqui em Reguengos, chegámos a ‘tar ali um dia inteiro

é a agricultura! Semear trigo e aveias e cevadas e isso

tudo. Ainda lavrei aqui na [herdade da] Casinha ao quarto. [Entregava] a quarta parte p’ró dono e ficava com três partes.

É assim, é a minha criação foi essa

IV

Trinta e quatro e cinquenta e sete foram os anos melhores do Alentejo; em seara. Trinta e quatro foi o ano que compraram o Pombal. Tinha seis anos. Eu lembra-me de ouvir dizer.

O meu pai em mil novecentos e cinquenta e sete ‘teve uma média de dois mil e quinhentos quilos

por hectare [trigo]. Vinte sementes. Tudo, em média. Teve searas de 24/25, teve outras de 17/18. Toda a gente ‘teve. Em cinquenta e sete. O ano em que ele morreu. Colheu a seara, e morreu em Outubro. E em trinta e quatro lembro-me dos Sabicos comprarem o Pombal. Dividiram logo. Lembro-me deles lá

andarem todos a dividir aquilo. Os donos e cada um levou um criado ou dois. A deitar bem os regos à extrema das propriedades. Lembro-me de ir com o meu pai e o meu irmão lá. Gaiatos pequenitos. Uma vez, se calhar, ou duas, não sei quantas foram.

E também me lembro em mil novecentos e quarenta, foi o ano mais triste que o meu pai ‘teve de

seara. Mil novecentos e quarenta. Foi péssimo, não foi mau. E depois em quarenta e um, aí é que eu não me lembro bem se foi quarenta e um se foi quarenta e dois que arrendaram as Atafonas. Tiveram lá umas

searas bem boas.

Mas as Atafonas eram uma herdade boa, que deu lá boas searas. Tivemos também só oito anos. Depois morreu o dono, desopilámos de lá. Ficaram lá os sobrinhos. O dono ‘tava de mal com os sobrinhos e então não queria lá os sobrinhos. Mas ele morreu, os herdeiros eram eles, ficaram eles com aquilo. E agarrámos, em quarenta e seis, uma seara tão grande! Oh! Em quarenta e seis, tanta palha, e trigo. Em quarenta e cinco ardeu lá uma máquina aos Sabicos. Uma debulhadora. Começou a arder lá o frascal. Era puxada por uma caldeira; a caldeira safou-se, ‘tava cá fora.

Foi em quarenta e cinco. E depois compraram logo outra. Esse ano ainda compraram aos Varelas do Piornal. Cem contos uma debulhadora, nessa altura. Igualinha à que ardeu. Uma marca boa:

Clayton! É verdade. Foi só a debulhadora é que ardeu. A caldeira trabalhava com água e lenha. E depois uma correia grande da caldeira lá à debulhadora fazia movimentar aquilo. A deslocação dessa máquina, da caldeira e da debulhadora e do fagulheiro era puxado com as parelhas. Eram quarto ou cinco parelhas em cada coisa, lá levavam aquilo tudo à roda. Depois mais tarde é que compraram um tractor de arrasto contínuo. Já mais tarde, puxava a máquina. Pois, foi um belo tempo quando a gente era novo.

Nas Atafonas e na Pero Espuma, aqui ao pé da Vendinha, chegaram a andar ali setenta ou oitenta homens. E dormirem lá no monte. Quarenta homens, cada um com a sua besta. Depois mais meia dúzia deles a espalhar adubo, mais meia dúzia deles a espalhar trigo, não havia semeadores, era a gente à mão. Mas no tempo das ceifas dormia-se na rua, lá onde se andava ceifar. Não se ia lá ao monte. No tempo da aceifa, fazia-se ali, numa terra um bocado limpo, (p’ró fogo não abalar), lume, havia uma cozinheira, até usavam que era todos os dias uma. Todos os dias uma mulher. Não era sempre a mesma. Era uma diferente. A cozer as sopas p’ràquela gente. Do mesmo patrão. Fazia-se um lume comprido, e uma carreira de panelas, aqui, de um lado e outra de outro. E um lume assim comprido, umas panelazinhas de barro, com uma asinha. E depois era lá á noite, lá quando se andava à ceifa, aqueles molhos que a gente encontrava,

cada um fazia ali a sua cama, elas, umas com as outras, havia lá mães e filhas e

outro adiante, outro além

Um dormia aqui,

espalhados ali, ao pé daqueles molhos, era assim. Hoje, hoje já não se podia

Já não iam na conversa. Tinham medo.

fazer assim. Andar lá a dormir na rua? Hmm

Aí nas Aldeias já há poucos que trabalharam à dos Sabicos velhos. Há aí o Zé Piça, e há o António Lareira mais o Inácio, e não sei se há mais algum. Foi assim a vida antiga. Antiga, ainda houve mais antigos do que eu, hã? Houve uma vida mais antiga que a nossa. No meu tempo, ainda vi debulhar, trilhos, com bestas a puxar à roda, numa eira

no meu tempo vieram as máquinas fixas, debulhadoras. Mas no

tempo do meu avô e dessa gente, nem pensar de haver uma máquina debulhadora.

qualquer, nas eiras, e no tempo antigo

Para uma História das Aldeias

Narrativa biográfica e narrativa histórica

Ao atentarmos nos depoimentos dos informantes mais antigos de Aldeias de Montoito, podemos observar uma interligação muito importante entre os acontecimentos que deram origem à actual forma da povoação e os eventos relatados como parte das narrativas familiares. Se, como vimos, os modelos formais de casamento e heranças, acompanhados por representações relativas à vida familiar e ao património, se revelarem como elementos “simbólicos” operantes na estruturação do espaço físico da comunidade, então estes aspectos, mais do que outros critérios pragmáticos e

economicistas de organização do espaço, deverão surgir frequentemente nas narrativas sobre a história local, trazidas até aqui pela memória colectiva e a tradição oral. A narrativa histórica emerge então, conspicuamente, das narrativas pessoais que resultam do inquérito etnobiográfico. Nestas últimas, as histórias de família estão invariavelmente presentes, e é nelas que nos podemos apoiar como o elemento de transição entre a narrativa biográfica e a narrativa histórica da comunidade, sendo que, na ordem do discurso narrado, estes três géneros podem surgir como aparentemente inextricáveis entre si. No género que podemos discernir como sendo a narrativa histórica, é evidente a existência de uma temporalidade que rapidamente se identifica também na narrativa biográfica e que constitui um modo de temporalidade que parece ter uma relação próxima com as diferentes fases da vida. De facto, um profundo sentimento de nostalgia emana da descrição das vivências passadas e da experiência de um tempo mais antigo, durante a juventude ou os primeiros anos da vida adulta. Significativamente é sobre este tempo, associado à mocidade e ao fulgor dessa jovem idade, que surge, com maior espontaneidade, uma grande quantidade de informação relativa a um vasto leque de aspectos da experiência vivida nesse tempo. Este sentimento de melancolia e saudade alude a uma realidade desaparecida do mundo sensível, e interliga-se em muitos momentos a uma certa nostalgia colectiva que tem como objecto de referência a representação da comunidade antiga e de todos aqueles aspectos que estão hoje ausentes ou profundamente transformados pela sociedade actual. É esta antiguidade que é privilegiada nas representações históricas e é ela que predomina no conjunto das narrativas produzidas. Revela-se notável e de certo modo impressionante o nexo criado entre o tempo da juventude e essa saudade que repousa sobre aquela sociedade apagada no processo de evolução política e tecnológica. Essa sociedade do passado e a memória que dela permanece, mantém-se hoje como a mais pungente representação dessa fase primeira da vida, representação essa que é tanto mais forte quanto maior proximidade existir entre a experiência desse tempo e uma materialidade própria do mundo de então. Um forte nexo de materialidade e de consubstancialidade surge, expresso nas narrativas, entre a idade da juventude e as antigas searas, os carros de parelhas que carregavam o trigo aos celeiros, as gentes e os ranchos de trabalhadores rústicos que enchiam as ruas e as tabernas das Aldeias, a própria rusticidade das casas e dos hábitos quotidianos. Um nexo que decorre tanto do sincronismo, na experiência vivida, que interliga esses dois elementos (a idade jovem e

a constituição material do mundo) como decorre da precipitada transformação social que originou o fim dessa época, acompanhada no seu ocaso pela consumação mesma daquela fase existencial de mocidade. Podemos assim conceber uma temporalidade paralela entre a narrativa biográfica e a narrativa histórica, de tal modo que a determinada fase da história de vida corresponde uma outra fase na existência do colectivo aldeão. Em todas essas narrativas está presente uma historicalidade 25 dupla, que releva de uma componente biográfica e outra colectiva, podendo-se falar de três períodos temporais distintos, cada um deles correspondendo a uma fase da vida dos actuais anciãos e a um período na existência da comunidade aldeã. Os mais novos não experienciam o mesmo tipo de relação identitária com a sociedade local, pelo que este paralelismo apenas conflui no discurso das mais antigas gerações.

Período antigo ou Época da formação. Época que alcança o tempo mítico das origens, fora do ciclo biográfico, e que termina em meados dos anos 50 do século XX. Pode-se considerar este como um período de expansão e desenvolvimento do colectivo local. Tanto a vila de Montoito como as Aldeias de Montoito cresceram significativamente nesta fase, tanto demográfica como economicamente. O que melhor distingue este período é a de tecnologia agrícola dominante, de tipo tradicional, que foi predominante na região até ao início da segunda metade do século XX. É um tempo em que a economia local revela grande importância social, constituindo-se mesmo decisiva na generalidade da vida colectiva e na divisão do trabalho. O dinheiro não detinha ainda uma primazia fundamental sobre os géneros: era normal os trabalhadores anuais, denominados de concertados, ganharem grande parte do salário em produtos da casa para a qual trabalhavam (a soldada). A agricultura era bastante diversificada, cultivando-se de tudo um pouco, o que constituía uma prática essencial para manter o bom funcionamento do sistema económico local assente na lavoura. A necessidade de mão-de-obra era elevada e crescente, pelo que a população não abandonava a sua terra natal.

25 “Historicalidade” é aqui uma adaptação ao português do conceito de “historicality” no modo como Paul Ricoeur o define. Historicalidade refere-se então a uma importância que é dada ao passado, no sentido em que este é permanentemente reafirmado num processo de “repetição” que fundamenta o sentido de pertença e de recuperação de um sentimento da totalidade do tempo biográfico. A historicalidade é, no fundo, um elemento da percepção do tempo que cria a possibilidade de perspectivar o passado em relação ao presente e de construir a própria narrativa histórica (Ricoeur: 1980, 167).

Foi neste período que muitas das pessoas mais idosas das Aldeias viveram a sua infância, a juventude e alguns deles, os primeiros anos da idade adulta. Não havia fornecimento de luz eléctrica, água canalizada ou gás doméstico.

Período intermédio ou Apogeu. Esta época marca um importante momento de transição entre a sociedade rural antiga e o período actual, e estende-se por cerca de vinte anos entre meados dos anos 50 e 1974, ano que marca o início da transição para o regime democrático. Durante esta época a freguesia de Montoito alcança o auge de um movimento demográfico ascendente, que vinha já ocorrendo desde o século anterior, perfazendo em 1950 mais de três mil habitantes. Aldeias de Montoito e Montoito podem então considerar-se dois pequenos burgos de considerável dimensão e com uma vida social e económica pujante. Contabilizaram-se nas Aldeias, durante a década de cinquenta, treze mercearias, quinze tascas e tabernas, dois carpinteiros, quatro ferreiros, dois ferradores, oito sapateiros, quatro talhantes, três abegões 26 , quatro padarias, vinte e duas adegas, dois lagares, duas moagens, dois vendedores de água ambulantes, dois peleiros e um albardeiro. Pode considerar-se este como o final de um período áureo na sociedade local e o início de um declínio causado, quase exclusivamente, por factores externos de mudança. Os anos 50 marcam uma década particularmente favorável à cultura cerealífera mas também o ponto de viragem na estrutura económica do país, onde a agricultura perde uma primazia sobre os outros sectores da economia, deixando de ser o motor da produção nacional. Inicia-se o processo de mecanização da lavoura com a introdução dos primeiros tractores e ceifeiras-debulhadoras. Começa um longo percurso na melhoria dos salários dos trabalhadores, uma evolução acompanhada pela decrescente necessidade de mão- de-obra que a introdução da maquinaria implicou. Principia-se uma primeira forte vaga de emigração para o litoral e inicia-se um período em que, por regra, se abandona a terra natal, o que dá origem a uma primeira geração de emigrantes. Desde 1950 até 1970, a população decresce 33,5 por cento. Neste período, os actuais anciãos vivem a maturidade e surge uma primeira geração de descendentes. Generaliza-se o fornecimento de energia eléctrica, água canalizada e gás doméstico. Generaliza-se também a instalação de aparelhos de televisão e o uso do automóvel 27 . Os hábitos de vida começam a mudar de forma acelerada.

26 O abegão é aqui o fabricante de alfaias agrícolas: carros, charruas, grades etc. 27 Segundo informação de terreno, ainda em 1954 não existia na freguesia um único automóvel.

Período tardio/contemporâneo ou Época do declínio. Este período, que se inicia com o 25 de Abril de 1974 e se prolonga até hoje, é marcado pelo fim de uma importância estratégica da agricultura na economia nacional, e pelo constante declínio demográfico no interior rural. Desde 1970 até 2001 a freguesia de Montoito perde mais 37 por cento de população residente alcançando níveis muito inferiores aos de 1911. A área de produção agrícola contrai-se significativamente acompanhando a tendência para abandonar o cultivo de trigo. Pode-se defender a existência de duas fases distintas durante este período. Uma primeira marcada pela transição de regime prolonga-se até à entrada na CEE em 1986. A outra prolonga-se deste momento até à actualidade. Se a primeira abre decisivamente o interior do país a uma realidade política diferente, onde predominam os processos de nacionalização, o controlo económico centralizado no Estado e algumas fases de intenso confronto político, produzindo determinados momentos de maior tensão entre classes, já a segunda inicia um processo de estabilização e pacificação das relações políticas internas e abre uma fase de liberalismo económico e de globalização das relações de mercado sem precedentes na história económica nacional. O impacto de tais transformações na sociedade local é extremamente importante. Durante a primeira fase deste período muitos produtores abandonam o cultivo arvense como principal exploração agrícola, contudo é apenas depois da abertura do mercado ao contexto europeu que o trigo alentejano conhece o seu fim. Na freguesia, a vinha substituiu com particular sucesso a cultura cerealífera. Inicia-se uma fase de especialização na vinicultura e abandonam-se muitas das produções de pequena escala para consumo doméstico ou local. A mecanização da lavoura está neste momento consumada e permite colmatar o grande declínio que se verificou na disponibilidade de mão-de-obra, que é agora praticamente dispensável à excepção das épocas de podas e vindimas. Produz-se uma verdadeira racionalização das explorações agrícolas e cria-se uma tendência regional para monocultura da vinha e a criação de gado. Pode-se falar agora de uma economia capitalista mais perfeita; o dinheiro substituiu por completo o antigo sistema misto de contrapartidas salariais. A crescente fiscalização e implementação de normas de segurança alimentar acaba por ditar o fim de muitas explorações domésticas destinadas à comercialização dos produtos locais, nomeadamente algumas queijarias e salsicharias. O declínio social e económico acaba por ditar o fim dos antigos modelos sociais.

Nasce uma segunda geração de descendentes e a mais antiga atinge uma idade avançada.

Nostalgia e história. Estética, experiência e memória

Vale a pena desenvolver com algum cuidado aquela relação entre as narrativas histórica e biográfica na primeira das três épocas referidas, já que é especialmente sobre essa que se foca a presente análise. Como vimos, a primeira época refere-se a uma sociedade rural antiga, que termina com o inicio da mecanização e da emigração nos anos cinquenta. As origens deste período antigo perdem-se no tempo e na memória dos mais velhos habitantes da freguesia, e conotam-se com um passado distante do qual pouco ou nada resta no presente. As Aldeias de Montoito têm a sua origem num momento que fica para lá das fronteiras do conhecimento que actualmente se tem da história traçada na própria sucessão das gerações. Geralmente pouco se conhece para além de três graus de ascendentes directos de algumas das pessoas mais antigas, no entanto, ainda é possível reproduzir várias histórias referentes a antepassados da segunda metade do século XIX, pelo que será sensivelmente ao final do século de oitocentos que reportam as primeiras memórias deste tempo antigo. A partir da segunda e terceira décadas do século XX nascem as pessoas da mais remota geração ainda residentes nas Aldeias. Estes homens e mulheres viveram a sua infância e juventude durante esta época mais antiga, e alguns ainda casaram neste tempo, pelo que ficaram fortemente marcados pela experiência dessa vida. Conheceram os seus avós, que viveram e casaram ainda durante o século XIX, o que de algum modo acentua a importância histórica deste período; ademais, aquele foi um século que estendeu a sua influência até bem tarde na centúria seguinte. Em muitos aspectos a vida não se modificou muito até ao término desta fase. As formas de produção agrícolas mantiveram a sua base tecnológica, com o predomínio do trabalho braçal e animal, apenas com alguns aperfeiçoamentos na construção das alfaias e nas técnicas agronómicas, com especial relevo para o aparecimento dos adubos e da correcção química dos solos. Por volta de 1930 (a grande maioria da charneca estava extinta no Alentejo e a produção ganhava um cariz capitalista baseado no investimento) parece generalizar-se a debulha mecânica, mais rápida e eficiente, utilizando contudo máquinas ainda rudimentares, a vapor, cujo funcionamento não estava ausente de alguns riscos.

Para além destas inovações tecnológicas, que de resto já não constituíam grande novidade nos anos 30 ou 40 do século XX, todo o modelo de produção mantém a sua

base tradicional e, concomitantemente, as formas de organização do trabalho agrícola, assentes na contratação sazonal e determinadas pelo aparelho tecnológico, permitem um alargamento do colectivo humano, que evolui a par do desenvolvimento económico e da crescente procura de mão-de-obra. Mais produção, nesta época, equivalia a mais gente para trabalhar, pois que todo

o trabalho necessitava de braços e de animais o que, de certo modo, criava uma urgência

na lavoura porque o trabalho era feito a um ritmo lento, somente do jeito que os animais

o permitiam, na cadência das bestas muares. A necessidade de conciliar este remancho

das parelhas com a marcha fatal das sazões, obrigava a que o número de carreiros, que guiavam os muares, ou o número de ceifeiros e almocreves aumentasse na proporção da área cultivada. Expandindo o terreno lavrado, estendendo o cultivo às antigas terras de charneca – através do uso de adubos ou correctivos químicos e de melhoramentos na técnica artesanal pelo recurso, por exemplo, a alfaias mais leves puxadas por mulas – o lavrador necessitava, obrigatoriamente, de empregar maior número de trabalhadores se queria semear ou ceifar atempadamente. Sobretudo no tempo das ceifas, a urgência de concluir o trabalho concertava grandes grupos de trabalhadores que se debatiam não só contra as limitações da capacidade física do corpo mas também contra a intensa insolação que se faz sentir nos meses de Maio e Junho. Toda a lavoura se tornava, em

certa medida, uma luta contra os ciclos sazonais e contra as intempéries climáticas. Uma actividade propensa à tragédia de perder colheitas inteiras mas também ao heroísmo individual e colectivo. Silva Picão cantando a lavoura alentejana, com os seus personagens, o realismo dos cenários agrícolas e os ritmos diários e sazonais, na sua obra mais famosa, Através dos Campos, deu forma literária a uma consciência de que todo o trabalho agrícola desta época das grandes searas, pode adquirir um aspecto de acção épica ou uma feição dramática, um cariz ritual profundamente integrado nos ciclos anuais e nas dinâmicas da comunidade, passível de ser narrativizado ou dramatizado, e tomando por isso uma estética literária própria. É este elemento de beleza estética poética, aqui apenas sumariamente examinado, que surge em muitas das descrições feitas sobre esta época antiga, e que aparece como o indicador mais evidente da nostalgia com que é lembrado

o passado; são descrições donde transparece uma certa saudade, expressas por

contraposição ao presente, tão diferente é hoje o modo de se viver, e onde predominam

todo um conjunto de objectos próprios de uma cultura material que se extinguiu a par da tecnologia tradicional.

“Ora (

)

dantes as pessoas com estes calores aí no campo a ceifarem! A ceifarem!

Mas era bonita aqui a

vida, do Alentejo. E muito preenchida. Porque as pessoas também faziam com vagar, era com bestas e

era tudo a braço e depois levavam muito tempo com os serviços.

cevada branca, depois havia uns trigos de

uma qualidade (

carrego. Diziam que era o carrego, era nas parelhas com os carros. Havia um homem que era a dar os

molhos, porque quando ceifavam ficava tudo aos molhos, (

com uma forquilha que (

ia ajeitando no carro. E depois levavam p’ràs eiras, juntavam faziam frascais, chamavam-se frascais. ( )

Os frascais eram os molhos antes de ‘tar debulhado. E depois ainda havia outro que eram os rilheiros;

quando as pessoas ceifavam, depois juntavam assim, duas idas daqueles molhos, assim ao comprimento

Quando

depois de

ceifado eram as serras. Eram esse nomes todos. (

(

Primeiro a ceifarem e depois a

carregar e depois a debulhar e depois a carregar os cereais. Era um trabalho duro. Acabavam isso ( )

as vindimas faziam aí em oito dias, duas semanas o máximo. Faziam as vindimas. Acabavam as vindimas

tinham de começar a tratar das terras p’ra o ano seguinte p’ra semear. Era o ano inteiro e sempre a

trabalharem a sério. Agora tá tudo parado.” (Francisca)

e havia outro que

À mão!. Depois começava o

Começava logo em Maio as ceifas (

)

e depois eram os carregos! (

)

Começavam em Maio a ceifar as aveias, depois (

),

e ia

),

sempre até ao S. João e até ao S. Pedro (

).

).

Depois iam pró carrego, havia um homem

e dava

)

apanhava os molhos do terreno, do restolho, (

)

talvez desta casa, p’ra não andarem um molho aqui outro molho ali, (

)

juntavam assim. (

)

iam fazer esse carrego, iam então aos rilheiros apanhar, p’ra fazerem os frascais. E (

)

) e depois levavam

com esses carros de parelha, a irem levar o trigo a Évora. (

)

E era um trabalho duro, p’ràs pessoas que lá andavam (

).

)

chegaram nos meus princípios,

Aquele sentimento nostálgico parece advir de todo um conjunto de elementos decorrentes tanto da vida colectiva como de uma materialidade hoje ausente, encontrando a sua manifestação nas narrativas e, essencialmente, a partir de uma historicalidade presente em todas elas, um pouco no modo como Paul Ricoeur 28 a define, tomando-a como decorrente da temporalidade da narrativa. Não será errado dizer que apenas hoje, e devido à incomensurável distância que existe entre este mundo antigo e o hodierno, é possível construir estas representações tão imbuídas da autenticidade e da verdadeira unidade que constitui o todo social. Uma temporalidade profunda, própria da narrativa histórica permite unir o passado e o presente (Ricoeur, 1980) de tal modo que, por contraposição à incompreensão da realidade de hoje, o passado possa surgir com uma coerência e um significado que seria inefável no próprio tempo da experiência dos factos. Dificilmente a pobreza e a violência da labuta seriam

28 Ricoeur, Paul. 1980. «Narrative Time», in On Narrative, Mitchell, W. T. J. (ed.). The University of Chicago Press, pp. 165-186.

consideradas preferíveis às comodidades de uma vida remediada. Suportadas talvez com honra e galhardia, as dificuldades não seriam, contudo, vistas com a luz de felicidade com que hoje se espelha esse tempo e que traduz, por certo, a memória colectiva de uma realidade extinta:

a fartura não era muita, mas eram alegres. E o pão que a gente saboreava, que era

fabricado por nós, dava-nos melhor, mais alegria, que o que dá agora um bolo feito em certas

pastelarias com à vontade. ‘Tá a perceber?! Saboreávamos melhor um bocadinho de pão, naquela altura

com mais satisfação, e íamos trabalhar

Passei. Eu carreguei palha numa

máquina fixa às costas p’ra ri duma serra, com hora e meia antes de nascer o sol, e hora e meia depois de pôr o sol. Com uma hora de almoço, com hora e meia de jantar, com meia hora de merenda! ‘Tá a

que eu fui um daqueles que carreguei palha numa máquina,

por que você (

“(

)

)

diz-me assim: «Mas afinal o homem passou tant

»

compreender? Eu fui um daqueles que ceifei, desde o romper da manhã até depois de pôr o sol! Assim,

escuro escuro escuro

gaspacho, digamos, com azeitonas, à luz da lua. Quando havia. Quando não havia era à luz das estrelas. E éramos todos mais felizes! É verdade.” (Filipe)

lá isso tudo. Comíamos lá um

Dormíamos nas margens, dormíamos na, na, na

Em suma, é a visão de uma configuração significante da temporalidade histórica, que perspectiva o passado na relação com o presente, que permite a criação de uma narrativa sobre a experiência passada, conduzindo, em vários aspectos, à consciência de uma maior autenticidade nas relações comunitárias, autenticidade essa ausente da mundanidade do quotidiano e geralmente apenas experienciável naquilo que Victor Turner denominou de «stage drama», ou seja, na performatização ritual ou reflexiva da vida colectiva. A nostalgia presente surge, por isso, de uma inter-relação entre uma componente estética, própria da narrativa mítica, que possibilita a performance, o ritual e a poesia sobre aquilo que é ordinário e trivial, e uma componente cognitiva, que advém de um afastamento da consciência, tanto dessa realidade vivida, inenarrável, como da inautenticidade que envolveu a experiência da mesma. A simplicidade da vida campesina pode ser hoje retratada com uma dimensão poética, histórica e dramática, a que, nesse tempo, o colectivo apenas podia aceder por meio da ritualidade e da performance. As componentes estética e cognitiva unificadas no discurso histórico convergem por fim na própria construção colectiva da memória e da tradição.

Conclusão

Retornando à velha cidade de Italo Calvino que é evocada em epígrafe, podemos observar que, o que aí se sugere é que, a memória de um provincianismo passado seria

permanentemente reconstruída no presente, através de representações em postais que circulavam na moderna Maurília metropolitana. Fazia parte da sua presente condição recordar nostalgicamente um passado formado de imagens antigas. Assim talvez seja, hoje, em Aldeias de Montoito, embora aí não circulem postais ilustrados. Outras histórias e imagens preenchem contudo a memória dos que viveram uma época antiga, para muitos imaginária: a harmonia no trabalho e um fascínio próprio dos campos, as tradições e os costumes agora em desuso, a alegria das festas populares que traziam e levavam gente por toda a vizinhança. As Aldeias são uma terra de histórias antigas cheia de uma nostalgia própria de quem perdeu o sentimento de algo que tocava e interligava todas as coisas, assim lhes dando um certo sentido. Algo que não era necessariamente, ou em si mesmo, melhor do que muitas outras coisas que fazem hoje a realidade, mas que fazendo parte de uma cultura antiga e de um tempo em que a idade era jovem, deixa hoje um vazio, tanto mais difícil de preencher, quanto os tempos modernos demoram a concretizar as promessas que traziam contadas. Da visão desta transformação encontra-se hoje um reflexo na memória colectiva, através das narrativas pessoais e das histórias familiares. De modo mais relevante, salientou-se neste trabalho monográfico, a formação da povoação das Aldeias de Montoito e a sua conexão com as histórias das famílias que ao longo das décadas foram construindo as habitações nos terrenos que iam sendo deixados em herança. Na formação do povoado deu-se especial relevância à linhagem dos Manelicos e ao modo como as antigas propriedades e terras de cultivo iam sendo transformadas em prédios urbanos, originando a expansão da aldeia. Este crescimento urbano esteve, essencialmente, dependente de factores económicos e de um incremento na agricultura cerealífera, mas foi também fortemente determinado por modelos sociais, nomeadamente aqueles que dizem respeito ao regime de posse de terra, aos modelos de transmissão das heranças – sobre os quais rege um ideal de divisão igualitária entre os irmãos –, ao modelo matrimonial – em que o novo casal constitui, geralmente, uma nova casa –, e à concepção da família – enquanto modelo relacional entre parentes – intimamente relacionada com a estrutura formal da hierarquia social e com os modelos que organizam o trabalho e a produção. As famílias formam, de facto, um núcleo de relações sociais determinante na constituição da comunidade, a qual deve, por isso, ser entendida tendo em conta a problemática do parentesco e a família enquanto unidade de produção. Neste sentido,

duas linhagens houve que se evidenciaram por comportarem um legado às presentes gerações. São elas as linhagens de Manelicos e Sabicos. Os Manelicos, não trouxeram aos dias de hoje uma narrativa familiar única, que permita identificar e reunir todos os descendentes em torno de uma certa mitologia de origem. Deixaram, contudo, um documento fotográfico que permite traçar as relações de filiação até ao ancestral fundador, o velho Manelico. Já os Sabicos, possuem como referência uma narrativa mítica estabelecida sobre

a criação de uma empresa agrícola por um grupo de irmãos: os filhos da Ti Sabica. É a

narrativa desta empresa e da sociedade dos Sabicos, que serve hoje de referência a toda uma comunidade que toma a irmandade dos Sabicos, e os seus descendentes, como

representantes da antiga sociedade local. Um aspecto relevante na história desta sociedade agrícola, é o facto de constituir

a narrativa de uma empresa que segue um certo modelo de conduta, aqui identificado

como sendo essencialmente capitalista. Afirma-se a importância da dívida na acção da empresa, onde, constituindo-se como um prejuízo ético, e danosa de um determinado estatuto social, (a dívida constitui uma questão de honra), se torna no principal móbil da agência empresarial, dando origem a um complexo motivacional que permite a organização da produção em função da eficiência e do aproveitamento máximo dos recursos. Sobre a organização da produção, realçam-se quatro aspectos determinantes no sucesso da acção produtiva. O primeiro decorre da política económica do Estado Novo, que monopoliza o mercado do trigo, e institui na FNPT o organismo que medeia todas as relações com os produtores e que fixa anualmente o preço do cereal. O segundo diz respeito à possibilidade de expandir a produção através do arrendamento de terras, nomeadamente de herdades, cuja exploração é deixada a agricultores locais por lavradores abastados ou latifundiários absentistas. O terceiro aspecto prende-se com um conhecimento aprofundado, por parte destes agricultores, de todos os aspectos da lavoura, o que lhes permite, de um modo muito significativo para o rendimento do trabalho agrícola, estender a produção a toda uma variedade de produtos, vegetais ou pecuários. Por fim, o domínio técnico do sistema tecnológico, e sobretudo uma proximidade nas relações interpessoais com os trabalhadores, permitem um aproveitamento mais eficaz do esforço de produção ao logo do ano agrícola. Estas competências e estes conhecimentos, próprios de uma gente antiga, que perderam parte do seu valor com a introdução da lavoura mecânica, são agora exaltados

pelos mais velhos como sendo parte de uma cultura de experiência que marca a diferença entre o passado da exploração agrária e os dias de hoje, em que uma certa decadência da vida campesina resulta das modernas técnicas agrárias e do excesso de subsídios que promovem a indolência do agricultor. Toda essa realidade antiga com o seu aparato tecnológico próprio, e uma harmonia colectiva representada nas relações entre patrões e criados, constitui um tempo de prosperidade económica que faz hoje parte do passado e da memória – um tempo da juventude, apaixonadamente representado. A relação entre os eventos das narrativas biográficas e os que organizam a história da comunidade, interligam-se aqui, dando origem a uma memória colectiva que se compõe juntamente com as narrativas familiares para ciar um modelo hodierno do que é, ou do que pode ser, a tradição. Esta, é a resultante simultânea de um pensamento estético sobre o passado, e de uma componente cognitiva, cuja chave está no afastamento da consciência daquela realidade onde decorreu a experiência do tempo passado. Tal afastamento permite a percepção de uma autenticidade nas relações sociais que é apenas verdadeira através de uma certa forma de temporalidade histórica (historicalidade) profunda, incorpórea, afastada da mundanidade e da superficialidade da vida quotidiana, e que alcança aqui uma forma reflexiva própria do ritual e da performance dramática, poética ou literária.

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ANEXO A Evolução demográfica na freguesia de Montoito

Montoito

Aldeias

Falcoeiras

TOTAL

1911

902

670

207

1779

1920

1065

806

245

2116

1930

1229

945

284

2458

1940

1492

1154

340

2986

1950

1459

1270

349

3078

1960

1283

1262

324

2869

1970

938

868

240

2046

1981

919

717

228

1864

1991

854

560

206

1620

2001

-

-

-

1273

ANEXO B

Documentos

Estas são transcrições das “cartas de notário”, relativas aos Sabicos, a que se faz referência no texto, nas páginas 44, 45.

Doc. 1 – Declaração de venda e quitação entre Manuel Caeiro Cachopas e Joaquim Pires (1907):

«apresentação n.º 1 do diário do dia 22 de outubro de 1907»

“Nós conjuges Manuel Caeiro Cachopas, Joaquina Godinho, proprietarios, moradores nas aldeias de Montoito d’esta comarca, declaramos que sômos senhores e legitimos possuidores d’uma terra matoza, sita no logar de Vale d’Amencoca, freguezia de Montoito d’esta comarca de Redondo, livre de fôro ou pensão e que confina pelo Norte com courelas de Raul d’Albuquerque do Mamara Cardoso, Sul com outro nosso predio, Nascente e Poente com predios de Francisco Rosado Leão, e pela sua aquizição bem como pelas anteriores não são devidos direitos alguns ao Estado o que sob nossa responsabilidade affirmamos, e assim podemos d’elle livremente dispor, pelo que ajustamos com o sr. Joaquim Pires, casado, proprietario, das mesmas Aldeias de Montoito, o vender-lh’o como effectivamente por esta declaração vendemos pela quantia de trinta mil reis, que de sua mão já recebemos, pelo que d’ella aqui

lhe damos plena e geral quitação e nos obrigamos por nossas pessôas, bens herdeiros e sucessores a fazer- lhe esta venda boa, firme e de paz para sempre, acceitando a auctoria quando e aonde a ella formos chamados e a respondermos pela evicção perante as justiças d’esta comarca aonde escolhemos domilio para tal fim, renunciando desde já a qualquer outro que venhamos a ter, cedendo e trespassando desde já para o comprador todo o dominio direito e acção que até agora tinhamos no predio vendido, do qual toma

já posse e gozará como cousa sua que fica sendo. Declaro eu Joaquim Pires, casado, proprietario, morador

nas Aldeias de Montoito d’esta comarca, que nos termos expostos acceito em meu favor apresente declaração de venda, quitação e mais que d’ella é contheudo. A presente é sellada com duzentos e quinze

reis d’estampilhas d’imposto do sello devidas pela venda e verba fixa, e vae ser devidamente assignada perante notario sendo por o vendedor varão, e por João Augusto da Costa, casado, comerciante, morador n’esta villa a rogo da vendedora por não saber escrever e por Antonio José Neves, viuvo, proprietario, morador no Monte das Parreirasm d’esta comarca, a rogo do comprador pelo mesmo motivo, sendo testemunhas presentes Manuel de Carvalho, solteiro e Jose Joaquim Alves, viuvo, jornaleiros, ambos d’esta villa. Redondo, cinco d’outubro de mil nove centos e sete Manuel Caeiro Cachopas

A rogo da vendedora – João Augusto da Costa

A rogo Antonio Jose Neves

Manuel de Carvalho Jose Joaquim Alves Reconheço por verdadeiras as tres assignaturas supra do rogado e testemunhas e as duas retro do rogado e vendedor, feitas perante mim e dos rogantes o que certifico. Pelos vendedores Manuel Caeiro Cachopas e esposa Ignacia Godinho, e comprador Joaquim Pires, casado, proprietarios, moradores nas Aldeias de Montroito d’esta comarca, que conheço pelos proprios e por isso certifico a identidade de suas pessôas, perante mim notario e as testemunhas Manuel de Carvalho solteiro e José Joaquim Alves, viuvo, jornaleiros ambos rezidentes n’esta villa, foi dito: que este documento exprime a sua vontade. O presente vae ser assignado pelo vendedor varão e testemunhas, não assignando a vendedora e o comprador por não saberem escrever. – Redondo, rua ao Poço Novo e meu escriptorio, cinco d’outubro de mil nove centos e sete. – Manuel Caeiro Cachopas Manuel de Carvalho Jose Joaquim Alves Em testemunho de verdade

O Notario Annibal Carmello Roza”

Doc. 2 – Pedido de certidão de Joaquim Pires (1909):

“M.mo e Ex.mo Sn. Conservador desta Comarca.

Joaquim Pires, casado, proprietario, morador nas aldeias de Montoito, desta comarca, requer que V.ª Ex.ª lhe certifique se os predios abaixo indicados estão ou não descriptos na conservatoria ao digno cargo de V.ª Ex.ª e, no caso affirmativo, qual o numero, livro e folhas das respectivas descripções. Predios 1.º Predio composto de asinheiras, sobreiras e asinheiras, chamado “Quintas Ruivas” na freguesia de Montoito- confrontando pelo nascente com Maria Gertrudes, sul com o ribeiro do Azinhal, poente com Joaquim Coelho, e norte com Vicente Jorge 2.º Olival chamado do Carvalho, no sitio do Ribeirão, na dita freguesia de Montoito, que confronta pelo nascente com estrada publica, sul com a ribeira do Azinhal, poente com Maria Gertrudes, norte com Joaquim Pires Ambos estes predios pertencem a Maria Gertrudes, que os herdou de José Rosado Leão. Nestes termos,

P.a V.ª E.ª lhe difere, [ass. ilegível]

Redondo, 11 de Agosto de 1909.

A rogo de Joaquim Pires que não sabe escrever

João Augusto da Costa. Testemunha – Ignacio Marona Dito – Jose Maria Ramos Reconheco as tres assignaturas supra do rogado e testemunhas, feitas perante mim e do rogante o que me certifico. – Redondo, 11 d’Agosto de 1909 Em testemunho de verdade O Notario

Annibal Carmello Rosa

Sebastião Jose Coelho de Carvalho

Certidão Sebastião Jose Coelho de Carvalho, bacherel formado em Direito pela Universidade de Coimbra, conservador privarivo do registo predial nesta comarca do Redondo:

-Certifico que os dois predios a que allude a petição que antecede antecede, e tres quaes nessa petição se designam, descrevem e confrontam não se encontram descriptos nos livros desta conservatoria -Certifico, porém, que no livro B numero desaseis, a folhas cincoenta e tres verso, e sob o numero seis mil e quarenta e oito, se encontra uma descripção predial cujo extracto é o seguinte: «Predio rustico, denominado “Azinhal”, composto de terra de semear, forno, oliveira, asinheiras e sobreiras, É sito na freguesia de Nossa Senhora da Assumpção de Montoito, e confronta pelo nascente e sul com estradas publicas, pelo norte com Maria Gertrudes Rosado, pelo poente com Joaquim Coelho» -Mais certifico que no mesmo livro B desaseis, a folhas cincoenta e quatro, e sob o numero seis mil quarenta e nove, se encontra uma descripção predial cujo extrato é o seguinte: «Predio rustico,

denominado “Quinta”, com pastos de chaparral e sobreiras. É sito na freguesia de Nossa Senhora da Assumpção de Montoito, e confina pelo nascente e poente com Maria Gertrudes Rosado, pelo norte com Vicente Jorge, pelo sul com João Rosado Perdigão» -Certifico finalmente que sobre os dois ditos predios, numero seis mil quarenta e oito, e numero seil mil e quarenta e nove, incide uma inscripção hypothecaria exarada em data de desaseis de janeiro de mil novecentos e oito sob o numero dois mil quatrocentos oitenta e tres, a folhas cento e vinte e seis do livro

C numero dez, a favor de Francisco Fialho Lobo, solteiro, maior, contador do juizo de Direito da

Comarca de Reguengos, para segurança da quantia de duzentos mil reis que o referido Francisco Fialho Lobo, emprestou a Maria Gertrudes Rosado, viuva, proprietaria, moradora em Reguengos, pela qual a respectiva hypotheca foi constituida -Por verdade, e me ser requerida, passei a presente certidão que, revista e concertada, assigno. Vão ao diante inutilisados com a minha assignatura e com a data de hoje, onze de agosto, uma estampilha de imposto do sêllo de dez reis e uma de contribuição industrial de noventa reis, e no começo desta certidão vae similhantemente inutilisada uma d’imposto de sêllo de cem reis. Conservatoria privativa do registo predial nesta comarca do Redondo, onze de agosto de mil novecentos e nove O Conservador Sebastião Jose Coelho de Carvalho

Doc. 3 – Escritura de venda entre Maria Gertrudes Rosado e Joaquim Pires (1909):

«Notariado Portuguez – Reguengos Livro de notas numero 43 – a folhas n.º 46. Notário – Jose Cypriano Gomes de Lemos.»

“Traslado da escriptura de venda e quitação de duas propriedades juncto as Aldeias de Montoito que

fazem Maria Gertrudes Rosado, de Reguengos a Joaquim Pires, das Aldeias de Montoito. Saibam quantos virem esta escriptura de venda e quitação que no Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil novecentos e nove, aos vinte dias do mez d’agosto do dito anno, n’esta villa de Reguengos e no meu cartorio a praça de Sancto Antonio, perante mim notario Jose Cypriano Gomes de Lemos, e as testemunhas idoneas ao diante nomeadas e no fim assignadas, compareceram em primeiro logar como vendedora Maria Gertrudes Rosado, viuva, proprietaria, residente em Reguengos, e em segundo logar como comprador Joaquim Pires, casado, porprietario, residente em Aldeias de Montoito, ambos pessoas do meu conhecimento e do das referidas testemunhas, a quem tambem reconheço do que dou fé. E logo pela primeira outorgante Maria Gertrudes Rosado foi dito em presença das mencionadas testemunhas Que ella é senhora e possuidora das propriedades seguintes: Predio rustico que se compõe de sobreiras e azinheiras denominado “Quintas Ruivas” situado proximo as Aldeias de Montoito, freguesia de Montoito, concelho do Redondo, livre, descripta na conservatoria da comarca do Redondo a folhas cinquenta e quatro verso do livro “B” deseseis sob o numero seis mil e quarenta e nove e confronta pelo nascente e poente com terreno da vendedora, norte com Vicente Jorge e sul com João Rosado Perdigão,

_Olival denominado “Carvalho” no sitio do Ribeirão, proximo ás Aldeias de

Montoito, concelho do Redondo, livre, e confronta pelo nascente com estrada publica, sul com a ribeira do Azinhal, poente com terreno da vendedora e norte com dito do comprador, valorisado em cincoenta mil reis e não está descripta na conservatoria privativa da comarca do Redondo como consta da certidão passada na mesma conservatoria em onze d’agosto corrente sob o numero quatro de apresentação. Que d’estas propriedades está a primeira descripta hypothecada a Francisco Fialho Lobo, solteiro, de Reguengos, para garantia da quantia de duzentos mil reis que este havia emprestado á vendedora a juro de dez por cento ao anno e que a outra está livre não só de hypothecas, como ambos os predios de penhoras arrestos previlegios em geral, que ella primeira outorgante, digo, previlegios imobiliarios e de qualquer outra responsabelidade em geral. Que ella primeira outorgante Maria Gertrudes Rosado ajustou vender ao segundo outorgante Joaquim Pires as suas ditas propriedades acima descriptas e confrontadas pelo preço e quantia de cento e cincoenta mil reis. Que o segundo outorgante pagou a contribuição de registo por titulo oneroso na recebedoria do concelho do Redondo em seis d’agosto corrente na importancia total de trinta e dois mil cento e trinta reis como consta do conhecimento numero trese que me apresentou e fica archivado em meu poder e cartorio para os devidos e legaes effeitos. Que pela presente escriptura vende de pura venda de hoje para sempre ao segundo outorgante Joaquim Pires as suas já ditas propriedades com todas as suas pertenças servidões, logradouros e accessões. Que esta venda á feita pelo ajustado preço de cento e cincoenta mil reis que já recebeu do comprador em boa moeda corrente n’este reino e da qual lhe dá a correspondente quitação; Que consequentemente tira e demitte de si todo o dominio, direito, acção e posse que tinha no predio vendido, e tudo transfere desde hoje em diante ao comprador. Que nos termos expostos e nos mais que são de direito applicavel, se obriga a fazer esta venda, boa, firme e de paz a todo o tempo e os vendidos predios, livres, certos e desonerados de qualquer encargo a não ser o hypothecario, acceitando a auctoria e prestando evicção. Pelo segundo outorgante foi em seguida dito:

valorisado em cem mil

reis.

Que elle acceita esta venda, quitação do preço e obrigação que ficam exaradas e que tendo como tem conhecimento da hypotheca se obriga solidariamente com ella vendedora pela sua importancia. O sello na importancia de mil e setenta e cinco reis devido devido por esta escriptura e venda, vai pago por

estampilhas colladas no fim d’esta escriptura. Assim o disseram e outorgaram. E sendo lida esta em voz alta perante todos disseram estar conforme a tinham ditado e não assignam por diserem não saber ao que foram testemunhas presentes Antonio Fialho Marcão, casado, carcereiro e Estevam Nunes Ribeiro, casado, official de diligencias d’esta villa, assignando a rogo da vendedora Francisco Fialho Lobo, solteiro, maior, contador do Juizo e a rogo do comprador Antonio Maria Cachopas, casado, proprietario, todos de maior edade, residentes n’esta villa, comigo Jose Cypriano Gomes de Lemos notario publico o escrevi e assigno em publico e raso. A rogo da vendedora – Francisco Fialho Lobo – A rogo do comprador Antonio Maria Cachopas – Antonio Fialho Marcão – Estevam Nunes Ribeiro. O Notario Jose Cypriano Gomes de Lemos Tem colladas e legalmente inutilisadas tres estampilhas do imposto do sello no valor de mil e noventa reis e duas de contribuição industrial na importancia de cento e cinco reis.”

Documento

Numero trese – Districto Administrativo d’Évora – Concelho do Redondo – Contribuição de registo por titulo oneroso – Importancia da contribuição trinta mil cinco por cento por lei de vinte e cinco de junho de mil oitocentos noventa e oito mil e quinhentos Somma trinta e um mil e quinhentos – Sello do conhecimento seis centos e trinta – Total trinta e dois mil cento e trinta Pagou-o o senhor Joaquim Pires, das Aldeias de Montoito a quantia de trinta e dois mil cento e trinta reis de contribuição de registo e addicionaes pela compra que fez por cento e cincoenta mil reis, a Maria Gertrudes, viuva de Antonio Aleixo Galezio de dois olivaes sitos ás referidas Aldeias, um ao Ribeirão, e o outro ás Quintas Rüivas, inscriptos respectivamente sob os artigos duzentos e trinta e cinco e duzentos e quarenta da respectiva matriz com os rendimentos de cinco mil reis e dez mil reis que serviu de base á presente liquidação que fica lançada no livro competente a folhas tres. Recebedoria do Redondo seis de agosto de mil nove centos

e nove. Pelo escrivão de fazenda Antonio dos Espirito Santo Carranho O recebedor Fernando Germano da

Fonseca

Nada mais consta da respectiva escriptura e documento que ficam transcriptos dos

proprios a que me reporto. Regeuengos vinte e oito de janeiro de mil nove centos e dez. Eu Jose Cypriano

Gomes de Lemos, notario publico o (

)

e assigno em publico e raso.”

Doc. 4 – Carta de sentença e formal de partilhas de Joaquim Pires passada a favor de Manuel Chicau (1913).

“Carta civel de sentença e formal de partilha extrahida dos autos d’inventario orphanologico a que n’este juizo se procedeu por obito de Joaquim Pires, morador que foi nas Aldeias de Montoito, passada a favor do interessado Manuel Chicau Em nome da Justiça o Tribunal da Co- marca de Redondo, faz saber ás autoridades, a quem o conhecimento d’esta carta de formal e sentença de partilha pertencer, que no juizo de direito da comarca de Redondo, e pelo cartorio do escrivão, que esta subscreve, se trataram e concluiram uns autos de inventario orphanologico, a que se procedeu por falecimento de Joaquim Pires, morador que foi nas Aldeias de Montoito d’esta comarca, e no mesmo inventario se unem as seguintes peças:- Auto de declarações á cabeça de casal Aos tres d’outubro de mil novecentos e onze, n’esta vila de Redondo e sala do tribunal judicial, onde estava o Doutor Sebastião Jose Coelho de Carvalho, Juiz de Direito substituto em exercicio n’esta comarca, comigo escrivão de seu cargo. Ahi perante ele Meretissimo Juiz compareceu previamente intimada a viuva Joaquina Maria dos Remedios, que conheço á qual o Meretissimo Juiz tomou as declarações legaes, encarregando-a sob as mesmas de bem cumprir com os deveres de seu cargo, fazendo as declarações legaes e descrevendo fielmente os bens da herança e declarando a viuva que pela sua honra prometia bem cumprir e dezempenhar as funções d’este seu cargo, em seguida a tal declaração disse: que

o inventariado chamava-se Joaquim Pires, tambem conhecido por Joaquim Pires Madeira, faleceu em seu

domicilio no logar das Aldeias de Montoito, d’esta comarca, no dia quinze de Setembro ultimo, no estado de casado com a declarante, em primeiras nupcias da parte d’ambos, segundo o costume do paiz, sem precedencia de contrato antenupcial, não deixando nenhuma dispozição para depois da morte e sucedendo-lhe em todos os bens, direitos e ações do seu casal os herdeiros constantes do titulo seguinte:- Filhos – [1] Maria Isabel, casada com Francisco dos Santos, ceareiros, rezidentes nas Aldeias de Montoito – [2] Joaquim Madeira, casado com Rosaria Angelica, ceareiros, rezidentes no mesmo logar – [3] Manuel Chicau, solteiro, de vinte e dois anos, rezidente no mesmo logar – [4] Ignacia dos Remedios casada com Joaquim Calixto, rezidentes no mesmo logar – [5] Maria Ramalho, solteira de dezoito anos

d’edade, - Antonio Pires digo d’edade – [6] Ignacio Pires, solteiro de quinze anos d’edade – [7] Antonio Pires Madeira, solteiro de treze anos d’edade – [8] Ignacio Chicau, solteiro de doze anos d’edade, estes vivem na companhia d’ela declarante nas Aldeias de Montoito. Que não há herdeiros desconhecidos ou rezidentes em parte incerta, assim como não há bens a conferir, nem credores á herança. Que para compôr

o conselho de familia indica os seguintes parentes dos menores – Linha paterna – [1] Antonio Joaquim

Madeira, proprietario, morador nas Aldeias de Montoito, tio – [2] Ignacio Grilo Madeira, proprietario, morador nas Aldeias de Montoito, tio – [3] Ignacio Coelho Charrua, proprietario, morador nas Aldeias de Montoito, primo – Linha paterna – [4] Ignacio Ramalho Chicau, proprietario, das Aldeias de Montoito,