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A Hora da estrela e a Alteridade Narrativa literária X Narrativa cinematográfica

Por Rafael Ramos

Baudelaire é reconhecido como um dos mais influentes e conscientes artistas que refletiram sobre a Modernidade. Sua maneira representativa, pela qual ele expunha em sua obra a estrutura e as peculiaridades de sua época, foi basilar para a compreensão da arte e da vida moderna. O olhar de Baudelaire, destituído de halo, parece nos querer mostrar toda a realidade da cidade moderna, a verdade da vida sem filtro algum, enxergando a natural beleza

e poesia que há em cada indivíduo que perambula pelas sarjetas, cafés, vielas da cidade.

Nesse seu dessacralizado e, por conseguinte, moderno olhar desponta a alteridade. Podemos

observar isso perfeitamente em seu pequeno poema em prosa “Os olhos dos pobres”, no qual Baudelaire incorpora a visão dos pobres que estava a observar. Ele não somente os observa, ele tem a sensação que a visão dos pobres lhes proporciona. Introduzimos Baudelaire para ilustrar, brevemente, a questão da alteridade em seu texto. Aspecto também presente na obra de Clarice Lispector da qual trataremos, e comparando dois diferentes suportes que amparam a narrativa da escritora, veremos de que forma cada um desses aspectos contribui ou destitui a narrativa de algum aspecto originalmente presente no plano de expressão escrita. No romance A hora da Estrela, de Clarice Lispector, podemos observar esse mesmo mecanismo de transposição de identidades. No romance de Clarice, porém, esse jogo

é feito em três planos: o do autor (Clarice), o do narrador (Rodrigo), e o da personagem

(Macabea). Clarice não se mantém oculta atrás da persona de Rodrigo que cria para narrar o romance, como podemos notar na dedicatória do romance, na qual ela revela ser a autora “na verdade”. Fato que inclusive quebra o pacto de realidade que buscavam os realistas, de que a história deve se narrar por si mesma. Dessa forma, Clarice cria um narrador que expõe o seu processo criativo e mostra o autor que ainda há por trás do narrador, criando, também, três planos narrativos: o da imigrante nordestina, o do escritor Rodrigo, e o do processo de composição da narrativa. Rodrigo se projeta na personagem de Macabea para poder narrar os fatos, muitas vezes nos revelando que ele se permite pensar por ela, pois são, narrador e personagem, quase como dois seres intrínsecos, como podemos observar no trecho:

Não sei se posso ver sangue. Talvez porque sangue é a coisa secreta de cada um, a tragédia vivificante. Mas Macabea só sabia que não podia ver sangue, o resto fui eu que pensei. (LISPECTOR, p.71)

Nesse ponto, vemos de que forma o texto de Baudelaire se comunica com o de Clarice e de que forma a alteridade emerge de ambas as obras. Ambos os autores se transpõem para a realidade do outro menos favorecido. Ambos enxergam o mundo a partir de novos olhos. Entretanto, no processo de transfiguração de Clarice no romance em questão, ela insere outra persona entre o autor do texto e a figura para qual ela se transpõe, adotando sua percepção de vida. Clarice busca ser o outro, se despersonalizar para, talvez, entender mais dela mesma, assim como fazia Fernando Pessoa através de seus heterônimos. É uma captação da essência do outro através da linguagem, antes uma tentativa de expressar a condição, ou as condições humanas, do que apenas um exercício de expressão de subjetividade. Isso, os autores conseguem através do fingimento artístico. Clarice assume em sua dedicatória que ela precisa desses recursos para se manter: “Esse eu que é vós pois não aguento ser apenas mim,

preciso dos outros para me manter de pé, tão tonto que sou

Traçando um paralelo com a narrativa d’A hora da estrela em filme, um dos aspectos mais importantes do livro de Clarice desaparece. A figura do escritor preocupado, do autor que tem compaixão por Macabea e que resolve contar sua história, simplesmente, deixa de existir. No filme, a história de Macabea pode se contar por si mesma através da sucessão de imagens. O apreciador da narrativa em filme ganha no âmbito imagético e sensorial, visto que já recebe da tela todas as imagens prontas, com a trilha sonora, com o enquadramento da câmera e etc. fatores que ajudam a criar clima, sensações e empatia no telespectador. De qualquer forma, o sensorial e o imagético não deixam de existir para o leitor que lê o livro. Acontece que o trabalho, agora, dependerá exclusivamente da mente desse leitor, de seu conhecimento de mundo e horizonte de expectativa que construirão a partir do plano de expressão escrita no livro suas sensações e as imagens em sua mente. O telespectador perderá alguns dos três planos de narrativa que já mencionamos. Não havendo alguém para contar a história de Macabea, cabe ao telespectador fazer o papel de Rodrigo: aquele que vê a história da moça e por ela se compadece (ação que o leitor também pode fazer). O Telespectador do filme perde também alguns aspectos importantíssimos que só existem através da linguagem da escritora, aspectos que na linguagem são expressos de forma sutil como a erotização da personagem ou alguns de seus

(LISPECTOR, p.9)

pensamentos e devaneios íntimos, que Rodrigo em sua onisciência é capaz de nos revelar. A

linguagem cinematográfica tende a ficar mais restrita na narração de forma mais objetiva,

enquanto na literatura a narração pode ser imersa em uma subjetividade que traz a tona vários

aspectos que o filme não é capaz de expressar da mesma forma. Vários detalhes que

constituem e que nos ilustram o psicológico de Macabea, e até mesmo de outros personagens

no livro, são perdidos no filme. Na versão cinematográfica, por exemplo, perdemos as várias

pistas que o narrador nos dá sobre o caráter de Olímpico, não chegamos a saber que ele, no

passado, já matara alguém. No filme, ele parece apenas um homem de caráter não confiável,

que rouba, que sonha demais, que se deixa levar facilmente e que não cumpre com sua

palavra. Perdemos também as várias digressões que o narrador Rodrigo faz ao longo de sua

narrativa, por conseguinte, perdemos o terceiro plano da narrativa: o do processo de

composição: Rodrigo o portador do discurso da alteridade, algo que lhe dói, algo que ele sente

necessidade de se ater, mas que lhe transtorna.

A pessoa autora que escreve em ambos os textos aqui tratados, nos deixa entrever

que a sua atitude de escrita é como se fosse um ato para expurgar a culpa de ser alguém mais

abastado do que aqueles de quem estão a falar. Tanto Rodrigo, quanto o autor de “Os olhos

dos pobres” sentem demasiada compaixão, respectivamente, por Macabea e sua existência

miserável no mundo, e pelos pobres a admirar o luxo. E sentem certa vergonha por terem

mais do que necessitam para viver, enquanto os objetos de suas observações mal entendem a

(des) necessidade de tudo isso.

Referências Bibliográficas:

LISPECTOR, Clarice. A hora da Estrela. 1º Ed. Rio de janeiro: Rocco,1998.

BAUDELAIRE, Charles. Os Olhos dos Pobres”. In:_ O esplim de Paris:

Pequenos poemas em prosa. Trad. Oleg almeida. São Paulo: Martin Claret, 2010.