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Questões éticas levantadas pela crise da “Gripe das Aves”

Manuel Magalhães Sant’Ana


Médico Veterinário. Aluno do VI Curso de Mestrado em Bioética, FMUP.

Introdução 5.A vacina antiviral


A evidência epidemiológica do surgimento eminente de uma Várias companhias farmacêuticas encontram-se a desenvolver
pandemia da variante humana da Gripe Aviária tem mobilizado os vacinas contra a estirpe mais letal, que já se encontram em fase
países à escala global a tomarem medidas ímpares para controlo de testes em pessoas voluntárias[11]. No entanto, dada a
da doença. A mobilização de recursos, materiais e humanos, a instabilidade do vírus não se pode predizer que seja o sub-tipo
imposição de medidas higio-sanitárias aliadas ao alarmismo H5N1 o responsável por uma futura epidemia nem se as vacinas
mediático para com uma doença até hoje hipotética leva-nos a em curso serão eficientes após o vírus sofrer as mutações
enumerar uma série de pontos, os quais urge esclarecer. necessárias para aumentar a sua virulência e transmissibilidade
ao homem. Por outro lado está a ser criado pela Direcção Geral
1.A doença de Saúde uma reserva nacional estratégica de vacinas já
A Influenza Aviária é uma patologia infecto-contagiosa do tracto existentes, criando-se a falsa expectativa na população de que
respiratório provocada por orthomyxovirus influenza tipo A. É uma conferem imunização eficaz contra qualquer forma de gripe[12].
doença ancestral que afecta aves mas a título ocasional também Não sendo possível nem desejável vacinar toda a população
outras espécies, como o Homem e o Porco[1]. Desde o nacional, foram escolhidos 100 mil portugueses para receberem a
4.As aves domésticas e a produção avícola
aparecimento dos primeiros casos humanos no Sudoeste Asiático vacina antiviral por serem considerados fundamentais para o
A criação de aves para consumo humano tem sofrido
em 2003 até ao passado dia 8 de Maio tinham sido contabilizados funcionamento do país[13]. Se para algumas profissões como
quebras significativas com o clima de tensão vivido em
pela W.H.O. 207 doentes confirmados serologicamente com o sub- forças de segurança e profissionais de saúde a selecção não
torno da Gripe Aviária[6]. Estima-se que já tenham sido
tipo H5N1, o mais patogénico para o Homem, de que resultaram levanta dúvidas (embora não saibamos, de facto, os nomes de
abatidos em todo o mundo 140 milhões de aves desde
115 mortes[2]. Supõe-se que a transmissão ocorra através das quem a vai receber), noutras situações o critério de escolha pode
1997, quando a gripe aviária surgiu em Hong Kong[7].
fezes de aves infectadas, não estando comprovado o contágio não ser consensual.
Embora a segurança alimentar dos produtos avícolas
directo entre seres humanos. Todos os casos de doença estão
esteja assegurada no nosso país[8] e as explorações 6.O futuro
associados ao contacto íntimo e na maior parte das vezes
nacionais respondam a elevados padrões de qualidade, É a nossa ignorância sobre a ecologia da Influenza Aviária que
insalubre com aves domésticas infectadas e não com aves
foram introduzidas medidas extraordinárias de protecção nos leva a tomar medidas preventivas cuja real efectividade
selvagens. Não existe epidemia de Gripe Aviária em nenhuma
da saúde pública, quer nas explorações quer na venda desconhecemos. Esta doença continua a encerrar mistérios cuja
parte do mundo nem se sabe se ou quando ocorrerá.
de aves[9]. Tendo em conta a descoberta da compreensão depende de mais investimento científico. Daí que a
2.As medidas preventivas sensibilidade de outros animais ao H5N1[10], não faz informação veiculada não só pelos organismos oficiais mas
As autoridades portuguesas têm implementado medidas higio- sentido o alarmismo vivido em torno dos produtos de também pelos media tem de ser rigorosa, não especulativa e não
sanitárias de vigilância, biossegurança e contingência prevendo origem aviária. alarmista. Deve-se investir na informação esclarecida da
cenários catastróficos. Num contexto de escassez de recursos, O abate preventivo e massivo de aves de capoeira em população sobre riscos e impactos ambientais, sanitários e
questiona-se a duração destas medidas na ausência de epidemia regiões onde se detectem casos do sub-tipo H5N1 alimentares através de programas concertados e adaptados ao
e a transferência de verbas que poderiam ser utilizadas no afecta a gestão de recursos, económicos e naturais, público alvo.
combate a outras zoonoses[3]. Tratando-se de uma doença de representa um perigo sanitário pelo manuseamento e A Influenza Aviária diz respeito a todos os indivíduos e nenhuma
dimensão mundial, mais do que no número de medidas ad hoc destruição das carcaças e levanta dúvidas sobre bem- nação está isenta de riscos; num cenário de pandemia, a
será na cooperação internacional que reside a chave para estar animal pelos métodos de eutanásia utilizados. solidariedade entre povos tem de prevalecer sobre interesses
controlo de uma possível pandemia. económicos instalados.
3.As aves selvagens [1] Miguel Fevereiro, “O Vírus Influenza A”, Revista nº 41, Ordem Médicos Veterinários, Fev 2006.
[2] World Health Organization: Epidemic and Pandemic Alert and Response,
As aves migratórias são reservatórios naturais de todos os sub- http://www.who.int/csr/disease/avian_influenza/country/cases_table_2006_05_08/en/index.html, acesso a 8 de Maio de 2006.
[3] Doenças zoonóticas de elevada morbilidade e endémicas no nosso país, como a tuberculose ou a brucelose, nunca foram alvo
tipos Influenza Tipo A conhecidos. Mas a acção humana parece da mesma atenção.
[4] “Avian influenza goes global but don’t blame the birds”, The Lancet Infectious Diseases, April 2006; Vol 6; p 185.
ter um efeito mais devastador na disseminação das formas virais; [5] GRAIN briefing: “Fowl Play: The poultry industry’s central role in the bird flu crisis”, February 2006,
http://www.grain.org/briefings_files/birdflu2006-en.pdf, acesso a 12 de Maio de 2006.
cientistas[4] e ONG’s[5] questionam-se se não será a produção [6] FAO: “Poultry trade prospects for 2006 jeopardised by escalating AI outbreaks”
descontrolada de aves de capoeira e o seu tráfego ilegal os http://www.fao.org/ag/againfo/subjects/en/economics/facts/poultry_trade_jeopardised_ai.pdf, acesso em 12 de Maio de 2006.
[7] “Projecto internacional estuda a hipótese de vacinação de aves de capoeira” em Jornal Público, 12 de Fevereiro de 2006.
verdadeiros responsáveis pelos recentes surtos em humanos. As [8] Nota de Imprensa da Direcção Geral de Veterinária de 2 de Setembro de 2005.
[9] Carlos A. Pinheiro e Fernando Bernardo: “Gripe Aviária: medidas preventivas, planos de vigilância e contingência”, Revista nº
aves selvagens infectadas pelo H5N1 são as primeiras vítimas da 41, Ordem Médicos Veterinários, Fev 2006.
[10] Anon, “China confirms H5N1 avian influenza virus in pigs”, Veterinary Record (10) 155, 2004.
gripe e a biodiversidade de espécies ameaçadas pode estar em [11] “Cinco hospitais espanhóis começam a testar vacinas contra a gripe das aves” em Jornal Público de 3 de Maio de 2006.
[12] As vacinas no mercado protegem contra os vírus Influenza tipo B e os sub-tipos A H1N1 e H2N3, e não contra o H5N1.
causa. No entanto, a opinião pública tende a olhar com suspeição [13] “Gripe das aves: Cem mil portugueses `fundamentais’ vão receber antiviral em caso de pandemia” em Jornal Público de 10
de Março de 2006.
para as aves migratórias aquáticas e a encará-las as como as
responsáveis directas pelas infecções humanas. Agradeço à Prof. Drª Anna Olsson e ao Prof. Dr. João Ramalho Ribeiro a atenção e cuidado que tiveram na revisão deste artigo