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"Os m é t odos , é pr eci so di z é - l o

d ez ve z es, s á o o essen cia l e

ta m b é m a s c oisas mais d if i ceis ,

a s qu e t é m mais te mp o

el a s os h á bitos e a preg u ica"

( Ni e tzsche). Em nossos t empos

c on tra

de tr a nsic á o e crise, é preciso

voltar aos fundamentos das coisas para dar uma base a

e sp e ranc a. Ora , o método é o f undamento operativo da

teologia .

N a s ua obra , o Autor lancou m á o

da s pesquisas em epistemologia teológica feitas em nível mundial . Da Alemanha, refere

nome s como Seckler, Pannenberg

e Beiner t ; da Su í ca, Journet e o grande Barth ; da Franca, Doré,

a lém dos famosos Chenu e

C ongar ; da Itália , Flick e

Alszeghy , Vagagini e os dois

C olombo ; da América do Norte ,

Wicks e o conhecido Lonergan ;

da Espanha , Vilanova e Rovira Belloso ; do Sul do Mundo , os

" teólogos da libertacáo" , cuja

problemática o autor incorporou de modo org á nico no aparelho metodológico da teologia .

O Auto r recorreu também a longa tradicáo - teol ó gica, para ouvir a ; " liyao d o s clássicos " . Faz desfilar f iguras que váo desde Agostinho até Rahner , passando por nselmo , Tomás de Aquino , oaventura e Duns Scotus ; sem . alar no Magistério, com os dois l Vaticanos e a Comissáo 'e ológica Internacional ; sem ampouco deixar de fora 'te?l~gos naturais" como Platao , istóteíes, Varráo e , em nosso empo, Hork h eimer.

em concessoes a a l ternativa

s tr e ita " tr a dici o nal " ou

' mode.mo ", " Teoria do método

eológlco" entende situar-se, com

TEORIA DO MÉTODO TEOLÓGICO

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Il R AS l B R A D E I:»~

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Dados Internacionais de Cataloga~ao na publica~ao (CIP) (Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Boff, Clodovís, 1944-

Teoría do método teológico / Clodovís Boff . 4 . ed. - Petrópolis, RJ : Vozes, 2009.

Bíbliografía. ISBN 978-85-326-1963-1

1. Teología - Metodología 2 . Teología - Teoría 1. Título .

97-5797

índices para catá lo go sistemático:

1. T eologi a dog mática crístá 230

COO-230

Clodovis Boff, OSM

,

TEORIA DO METODO TEOLOGICO

,

1

IIJ EDITORA

Y VOZES

Petrópolis

Bibl i oteca Padre Vaz

I1l\lll Illl\ lllll Illll lllll Illll 1l\ll Illll Illl Illl

20101722

Teoria do método t e ológico

© 1998, Editora Vozes Ltda .

aua Frei Luis, 100 25689-900 petrópolis, RJ Internet: http : //www.vozes . com.br

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poderá s e r reproduzida ou transmitida por

qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrónico ou mec á nico, incluindo fotocópia e gravacáo) ou

arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permiss á o escrita da Editora .

Nihil obstat Em relacáo ao l i vro de autoria de Frei Clodovis M. Boff , membro da Prov i ncia Brasileira dos Servos de

Maria, i ntitulado Teoria do método teológico, c oncedo, segundo o que dispóe o Canon 832 do Código de

Direito Canón i co e o artigo 221/f das constítulcóes da Ordem , dos servos de Maria, nestes termos , o

NIHIL OBSTAT

R i o de janeiro, 2 1 de dezembro de 1997

¡:'r. r ' Lu · ~U~

Fr . José M . Milanez , osm pr i or provincial .

lmprimatur

sáo Paulo, 1 9 de fevereiro de 1998

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Paulo Evaristo , CARDEAL ARNS Arcebispo Metropolitano de sáo Paulo.

EDlTORA<;AO

Editora¡;ao e organiza¡;ao literária: Renato Kirchner pagina¡;ao : Rosangela tourenco Última revísdo do autor

Foto da orelha-de-capa: Maura de Sousa Capa : Marta Braiman

ISBN978-85-326 - 1963-1

Este livro foi cornposto e impresso pela Editora Vozes Ltda . - Rua Frei Luis, 100. petrópolís, RJ - Brasil - ~EP 25689-900 - Tel.: (024) 2233-9000 - Fax: (024) 231-4676 - Caixa postal 90023 .

Sumário

Jntrodu~ao, 7

1 PARTE QUESTOES NUCLEARES

capítulo 1 : Apresentacáo da matéria, 13

se~ao 1- FUNDAMENTOS, 25

capítulo 2: Como nasce concretamente a teologia, 25

Capítulo 3: O que estuda a teologia e em que perspectiva , 40

capítulo 4: A racionalidade própria da teologia , 61

Capítulo 5: A fé-palavra: fonte primeira e decisiva da teologia, 110

Capítulo 6: A f é -experiencia : outra fonte da teologia, 129

Capítulo 7: A fé-prática:

mais outra fonte da teologia, 157

se~ao11 - PROCESSOS, 197

Capítulo 8/1 : Momento Escritura, 197

I da prática teológica - positivo (1): A sagrada

Capítulo 8/2: Momento I da prática teológica - positivo (11): A Tradi~ao e o Dogma, 237

Capítulo 9: Momento II da prática teológica - construtivo, 265

Capítulo 10: Momento III da prática teológica: confronto com a vida, 282

Capítulo 11/1: A linguagem teológica (1): Analogia como linguagem do Mistério, 297

Capítulo 11/2: A linguagem teológica (11): Espécies e vias da ana logia, 327

se~ao 11I - ARTICULA~OES, 358

capítulo 12: A r el acáo da teologia com a filosofia e as demais ciencias, 358

capítulo

13: Teologia: para quér, 390

capítulo 14/1: Teologia, Igreja e Magistério (1): Os vários magistérios na

Igreja, 425

capítulo 14/2: Teologia, Igreja e Magistério (lO: Relacáo Teologia-Magisté-

rio pastoral, 469

capítulo 15: Pluralismo teológico, 493

11 PARTE QUESTOES COMPLEMENTARES

capítulo 16: üisposícóes básicas para o estudo da teologia, 525

capítulo 17: História do termo "teología" e suas licóes, 548

capítulo 18: O que há de teologia na Bíblia, 561

capítulo 19: Os tres caminhos para Deus, com destaque para a teologia natural, 571

capítulo 20: As formas do discurso teológico, 597

Capítulo 21: As divisóes da teologia e sua articulacáo, 610

Capítulo 22: Modelos históricos de prática teológica, 626

Capítulo 23: Cronologia da producáo teológica: nomes e obras mais impor- tantes, 658

Capítulo 24: Como estudar teologia, 691

Capítulo 25: Heurística teológica: instrumentos de trabalho, 708

Bibliografia essencial e acessível, 727

Índice geral, 731

. Índice onomástico , 743

\

1ntrooucóo

E ste

livro trata do método teológico: da exposícáo teórica de seus

elem entos, das regras de sua construcáo e de sua fundamentacáo crítica.

É u m "guia de estudo" para quem quer se iniciar em teologia, num campo

ond e a literatura, ou é traduzida,

ou se limita ao genero ensaístico.

Sabe-se, até pelo nome, que método é urna espécie de caminho (do greg o, met-hódos: seguindo o caminho): o caminho do conhecimento. O

gene ro de discurso aqui abordado - metadiscurso ou metateoria -, por exigi r elevado grau de abstracáo, é bastante trabalhoso e causa ordinaria- mente can saco e até enfado. Por isso, me esforcei por tornar a leitura, em prime i r o lugar, clara e, depois, o menos pesada possível .

Es t a va tentado a batizar esse Iivro com o nome "Gramática da teolo-

gia" . Po is se trata verdadeiramente de ensinar as regras dessa estranha Iíngua , o "teologués". Ora, é mais fácil falar urna língua do que estudar suas

regras . Mas é preciso também estudar essas regras, quando se quer talar correta m e nte. É assim com a metodologia teológica. No limite, nao é preciso sab er meto do logia para fazer teologia. Mas, se se quer fazer urna teolog í a c o nsistente e castica, é necessário passar a l gum tempo estudando sua me t od ologia. Mas o investimento compensa, pois o tempo e o esforco que se dispensa nisso tem retorno certo. Disse Nietzsche no Anticristo: "Os métod os, é preciso dizé-lo dez vezes, sáo o essencial e também as coisas mais difícei s, as que térn mais tempo contra elas os hábitos e a preguica" 59).

A estrutura do Iivro se explica por seu caráter didático. Em funcáo

disso a d otei algumas diligencias, como: por, no fim de cada capítulo, um resumo em forma de teses, apresentar esquemas das idéias mais impor- tantes ¡ fazer muitas cítacoes, com o fim de ilustrar licóes as vezes arduas de apr eender¡ variar os caracteres dos pará gra f o s em funcá o d e sua importanci a.

8

o Iivro está dividido em duas partes :

1 . Questoes nucleares. Exp6em e justifica m o "órganon " da teologia:

seus "Fundamentos" (ou principios), seus "Processos " ( ou operacóes) e suas

"Articula~6es" (ou relacóes) com outras instancias ligadas a sua constru-

c á o . sao as 3 secóes da I Parte.

11.Questoes compJementares. Apresentam um perfil fundamentalmen-

te informativo, ainda que a reflexáo teórica nao esteja ausente de todo . Aí se passam ínrorrnacóes práticas, que interessam o iniciante em teologia.

Cada capítulo, com excecóes explicáveis ( quer pela natureza do assun-

to , quer pelo modo de apresentacáo do respectivo capítulo ) , está assim

estruturado :

1 . A exposicdo sistemática do tema em questáo,

2 . Urna síntese conclusiva ( Resumindo ) que recolhe os resultados da exposicáo em forma de proposic ó es ou reses:

3. Urna leitura, as vezes duas, de um "clássico", para o estudante ouvir

a voz dos "Grandes Mestres" ;

4. Um ou mais excursos, que oferecem urna inforrnacáo suplementar em relacáo ao tema em quest á o.

Tinha pensado em sugerir alguns exercícios práticos. Mas isso iria engrossar o livro.já de per si volumoso . O professor mesmo poderá sugerir tais exercícios a partir do próprio texto, especialmente das "leituras". Ele poderá também organizar o caminho de sua exposicáo, misturando as

questóes mais reflexivas da primeira parte, com as mais expositivas segunda parte.

da

A única característica visivelmente n á o-did á tica do Iivro - tenho de

reconhec é -ío - é seu volume . É que quis dar urna visáo enciclopédica

metodologia em teologia . Aliás, a "enciclopédia teológica" está na Iinha de urna significativa tradicáo do pensamento metodológico-teológico, como se dirá logo no capítulo 1. Mas esse defeito será compensado por urna edic á o mais enxuta, a "versáo didática'', que conterá apenas os "resumes " dos capítulos, acrescidos das "leituras'',

da

\ E nem preciso ainda dizer que o Iivro incorpora serena e firmemente

a "opcáo preferencial pelos pobres" e que por isso se faz com a sensibili-

9

dade própria, mas nao exclusiva, da chamada " Teologia da Libertacáo". De

resto, é impossível fazer teologia e, portanto , metodologia teológica, sem essa í nñexáo evangélica irrenunciável , que já faz parte hoje da consciencia

viva da fé . A dimens á o Iibertadora da teologia é de tal modo constitutiva

de sua esséncia ou

vocacáo, e já é t á o naturalizada em nossa prática

teórica (constituindo, em círculos cada vez mais vastos, a "teologia nor - mal"), que torna-se ocioso afirmá - Io . O que importa é integrar , de modo estrutural e nao meramente retórico, a instancia Iibertadora no próprio

aparelho de producáo teológica .

Tal posic á o epistemológica nao me i mpediu , muito pelo contrário, de

recorrer seja as modernas pesquisas em epistemologia teológica, levadas

adiante

gia, em suas diferentes vertentes (ainda que entre elas nao tenha podido esconder minhas preferencias). Quanto a grande tradicáo teológica , reputo irnpossível fazer urna teologia viva sem ouvir sempre de novo as "licóes dos clássicos '' , e isso é tanto mais verdade quanto mais graves sáo os desafios que ternos hoje pela frente . Interrogados a parti r do presente , os grandes teólogos do passado revelam-se fonte de urna luz surpreendente e de urna fecunda atualidade .

em diferentes partes do mundo , seja a tradic á o c1ássica da teolo-

Devo, enfim, d i zer que dei aulas dessa disciplina por rnais de quinze anos. Mesmo assim, para que a elaboracáo do texto adquirisse certo grau de clareza e coeréncia, tive que passá-lo pelo torno teórico ( e informático )

várias vezes. Mas sinto que há muito ainda para aprimorar, esclarecer e aprofundar . Por outro lado, a necessidade urge e o espírito cede . Como sentenciou o velho Hipócrates: Ars Jonga, vita brevis.

Capítulo 1

APRESEN TA~ A . O DA MATÉ R IA

TEOLOGIA E TEOLOGIZAR

De que se trata quando se fala de metodologia teológica? Qual é a

natu reza própria desse assunto?

P ara cornecar, importa saber que aqui nao se discute sobre teorias

teoló gicas ( tratados ) , mas mais precisamente sobre a prática

out ras, trata-se do ato teológico ou do exercício

inte resse aqui nao é a teologia, mas o teologizar, a teologiz-ac á o .

teológica . Por

de fazer teologia. O

A metodologia analisa o processo teológico: os elementos que aí est á o em jo go e as regras de sua articulacáo 1 . Por analogia, é como se trabalhás- semo s com um dicionário ( elementos ) e com urna gramática ( articulac á o ).

De um l ado, devemos estabelecer os elementos constitutivos da teologia e, do o utro, o modo de seu uso ou a forma de sua cornbinac á o.

M ais: a metodologia teológica procura também dar rozdo de tudo isso.

Isto é , tenta fundar e justificar por que se usam tais elementos e por que devem ser assim combinados. Esse é o nível mais profundo da metodolo- gia, o de sua crítica epistemoló g ica.

Teolog ia nao se faz de q ua lquer jeito. Fazer teologia tem algo a ver com um pr o cesso judiciário. Há qu e s eg uir um procedimento definido. Há urn per c u rs o a se o bedecer. E, s e m e lhantemente ao direito, pode-se perder a causa p or q ue nao se encaminhou bem a questáo, embora se tenha razáo.

Assim , al ém dos erros teológicos de conteúdo, pode haver erros teológicos

de form a. E é justamente teológ ico.

o caso quando nao se segue um método

1. Ei s urna definic á o de " método": " esquema normativo de operac ó ss, suscetiveis de serem r eprodu - zi d as, ligada s entre si e que produzem resultados acumulativos e progressivos ": Bernard LONER - GAN , Pour une méchode en chéologi e , Col . cogitatio Fidei 93, F i des/Cerf, Montrea l /Paris, 1978 ( orig . am er. Herder and Herder, Nova lorque, 1972), p. 16 ( explicac á o dessa definic á o . p. 16- 19) .

15

14

ELEMENTOSARTICULADORES

Entre os elementos que entram na articulacáo teológica podemos

o Senso dos fiéis, a

rradtcáo, o Dogma, o Magistério, a Prática, as Outras teologias, a Razao, a

Linguagem, a Filosofia e as Ciencias.

estabelecer urna dúzia: a Fé, a Escritura, a Igreja,

Ei-Ios numa figura:

2

. Escritura .•.~

3 . A Igreja

4 . O Senso dos fiéis . - - --

5. ' rradícáo . •

6

~

. Dogma

1 .

•.

_ / 12.

. /

< ,

TEOLOGIA

.•.

7. Magistério

Razáo

~ 11. linguagem

~

.~

-

~ 10 . Filosofia e Ciencias

9. outras teologias

8. prática

Como se ve, o discurso teológico póe em acáo urna pluralidade de instancias. sáo como os pivós sobre os quais a teologia se apóia. Por sua

parte, a metodologia teológica busca articular entre si esses nós articula- dores de modo a serem aptos a produzir um discurso bem travejado, que chamamos de "teologia". Ou seja, se na prática teológica esses elementos funcionam como articulado res efetivos, na teoría do método teológico eles sáo por sua vez articulados. Assim, a metodologia aparece efetiva - mente como a artículacáo dos articuladores teológicos.

REGRAS DE ARTICULA<;Ao

Precisamente, como se combinam esses elementos entre si? Que processo seguem? Que etapas percorrem? Como acabamos d e d izer, é esse propriamente o objeto do método teológico. Ele é c omparado a urna sintaxe: ensi n a com o o r gan izar de manei ra l ó gi ca os elementos refe ridos. As s im, por exemplo :

-

-

a deve ter a primazia absoluta na teologia;

-

a Bíblia é o primeiro testemunho a ser ouvido;

_

a Razao deve estar a servico da cornpreensáo do dado revelado;

_

a p rática é urna fonte de teologia, assim como urna de su as finalidades;

_

a Linguagem da teologia é a da analogia, pois só ela se adequa ao

Mi stério;

_

o Magistério é critério de autenticidade . E assim por diante .

Q

uanto aos processos, a metodologia teológica diz que :

_

antes de tudo, é preciso ouvír os testemunhos da fé;

_ em seguida, que se deve esclarecer e aprofundar seu conteúdo

interno ;

- e, por fim, que se deve conjrontd-los com a vida concreta .

Ess e é em grandes

Iinhas o método da teologia . É o procedimento,

exposto aqui de forma sumária, pois cada urna destas etapas comporta

um pe rcurso específico .

TR ESVI AS PARA APRENDER TEOLOGIA

Faze r teologia é urna "arte", no sentido c1ássico de conjunto de procedimentos, servindo a producáo de um resultado determinado. Ora, como para qualquer arte (aprend er urna nova Iíngua, pintar, dirigir carro, nadar, usar um computador, etc .),

aprende -se a fazer teologia por tres caminhos, complementares entre si : o estudo, a irnitac áo e a prática.

Po r t anto, deve-se, em primeiro lugar, escudar e assimilar teoricamente as

próprias l eis da prática teológica. Esse é o objeto e o objetivo da

presente matéria.

Em se guida, é preciso imicar o modo como os "artesáos" ou, se quisermos, os

seu ofício . Ve - los dar aulas e

"artista s" da teologia, que sáo os teólogos, praticam ler seu s escritos já é muito instrutivo.

Fina lmente, aprende-se exercendo por própria conta a "arte " teológica . Na Verdad e, em qualquer arte é só com a prática que se adquire urna verdadeira habilidad e e urna sólida competencia.

Ora, es se Iivro se atém ao primeiro caminho: quer ensinar ao iniciante de teologia a d iscip l ina de seu mérier. Como para falar bem uma lingua é preciso eStUdar s u a gramática, assim também para fazer uma teo l o gia c e rreta é neces-

16

sário estu dar as regras de seu método . A propósito , sirva aqui ur n a metáfora ousada, que sao Boavent u ra usou :

" Aqueles que nao estudam

potros, que correm o tempo todo aqui

mesmo passo, tanto mais a v anca quanto mais regular é seu a n dar . "

de modo ordenado se parecem com os

e ali . Mas o jumento,

com o

OS NÍVEIS DA METODOLOGIATEOLÓGICA

Podemos identificar , na metodologia teológica , quatro níveis de pro -

fundidade crescente :

1 . Níve l das técnicas . Falamos aqui dos recursos que usa a teologia, ou

s eja , dos meios e modos que entram no seu exercício. Tais sáo, po r

exemplo, a pesquisa , a leitura, a interpretacáo dos textos, a análise e aprofundamento das quest6es , a organizac á o do material, a elaboracáo das idéias, etc . Esse é o plano mais superficial do método, o p l ano, po r assim dizer , da "tecnologia teológica ". Trata - se das exigencias comuns d a chamada "meto do logia científica " enquanto sáo aqui aplicadas a cienci a

teológíca',

2 . Nível do método propriamente dito . Trata-se das etapas por qu e

passa o processo da prática teológica em seus elementos articuladore s, tais como : a ausculta da Palavra , sua interpretacáo crítica, a recuperacáo da rradlcáo da fé, o direcionamento para a vida e assim por diante . A explicac á o desse nível é precisamente o objeto direto da metodo-Iogia em seu sentido estrito".

3. Nível da epistemologia . É o " discurso do método" em teologia: a busca de sua fundarnentac á o críti c a e de sua [ustificacáo racional, assi m

como de seu alcance e de seus limites . É o lado filosofante do métod o teológico, sua "teor í a científica " . Naturalmente, cada saber possui su a

epistemologia própria,

pa r tir da natureza de seu objetos .

de vez que todo saber se organiza naturalment e a

l . S . BONAVENTURAE , Opera omn i a , Quarac c h i, rtorenca, 1891, t . V , p . 42 1 - 4 2 3 . Boaventura atribu i e ssa

cornparacá o a Sto . Agostinho .

3 . Cf . espec . cap.

24 e 25 deste livro.

\4 . Cf . espec . cap.

8 , 9 e 1 0 .

5. Cf . espec . cap . 3 a 7.

---------------------------------------------------~1~7

4. Nível do e s p írito t eo l ó gico. Por trás da prática teológica ex iste um

espírito que atrave ss a e s u stenta tudo . É a busca p or entender o Mist é rio .

É, no fim , essa "vonta d e de conhecer " a Deus que se confunde c o m a própria f é e m sua dinámica interna . Ser teólogo é muito mais que ma n i-

pular técni cas, usar métodos ou discutir epistemologias . É ser possuí d o pela pa íxá o d e "compreender qual é a largura, comprimento, altura e

profund i dad e" do Mistério divino ( cf. Ef 3,18 ) . Essa é a alma secreta de todo

o labor teol ó gico'.

No p resente trabalho, abordamos todas essas dimens6es, ocupando-nos

mais demo radamente dos níveis segundo e terceiro , isto é , indicando os modos d e procedimento teológico e procurando ao mesmo tempo justificá-

los. Mas tu do isso visando finalmente o

e o hábito de teologizar com proveito e ao mesmo tempo com prazer.

último nível : criar o gosto pela teologia

NOSSAPERSPECTIVAESPECÍFICA

Digamo s log o de início que abordaremos toda a quest á o da metodolo- gia teológi c a dentro da "ótica da llbertacáo " .

Mas que significa isso? Nao que iremos elaborar o método particular da Teologia da tibertacáo, n o sentido de discutir as irnplicacóes próprias que a persp ectiva da Iibertacáo írnp ó e a metodologia teológica em geral . Isso já foi fe íto". Iremos antes abordar mais amplamente o método geral

da teologia , mas sem nunca esquecer a candente quest á o

dos pobres . P o rtanto , mais do que fazer urna metodologia em torno da liberta~ao, f a remos urna metodologia a partir da Iibertacáo.

da libertacáo

Por ou tr a s, queremos estudar o método teológico com urna sensibili - dade espec i a l para as questóes que o mundo dos pobres p ó e a crístá.

Ora, essa n ao é urna preocupacáo exclusiva do "Terceiro Mundo", mas é urna que s t a o "global", ou seja, mundial . Vale, porém, de modo todo particula r , par a o sut do mundo, onde est á o as "sociedades com maioria

-

-

6. Cf es

.

---- -- - -- -

Pec oCap . 2,4,11 e 16 .

7.Cf.parais

so rnmn . a te s e de dou t o rado Teol o g l a . e proncc,

V

ozes, etr opo IS , 1978 ( 199 3, 3 ' e d .) ; ass i m

BOFF - Clod o vi s BO FF, C o mo

p .

li

; ' 01110 o livrinho, d es ti nad o

a um púb lico mais amplo, de leonardo

OZer teologia da lib ert a ~óo , C o l . Faz e r 17-1 8 ; Vozes, petró pol is , 1986 .

18

pobre", que constituem, de resto, a maioria esmagadora da popul a cáo do mundo e também das igrejas cristás. Esse dado nao deixa de ter extrema

relevancia, inclusive no campo da metodologia teológica, principalmente

quando elaborada no Sul .

E a justíñcacáo é simples: a preferencia pelos pobres, que vale para a

fé, vale também para o estudo da fé e vale igualmente para seu método, já que as tres coisas esta o unidas . Por outras : se o método depende da

rnat é ria: se a matéria da teologia é a fé cristá, e se esta implica constitu -

t i vamente a opcáo pelos pobres, entáo, o método também deverá leva r

em conta a preferencia pelo pobre. Por conseguinte, um método teológico que nao privilegia , sem exclusáo, os pobres nao está epistemologicament e ajustado . E como a opcáo pelos pobres, com suas irnplicac ó es histórica s

( pobre : sujeito coletivo ) , é um dado recente da consciencia explícita da f é, há de se rever a luz dessa opcáo toda a teologia, incluindo seu método .

Fique desde já claro : nao entendemos propor aqui um método alte r- nativo ao método clássico da teologia , urna espécie de "método d a

Teologia da tlbertac á o" . Nao . o que faremos é, sim, desdobrar o méto do teológico em geral, estendendo-o a problemática da pobreza planetá ria.

Assirn , agregaremos a meto do logia teológica as novas lógicas que a Teologia da Libertac á o levantou.

questóes episte mo-

Ora , esse

desdobramento meto do lógico implica certamente nu ma

revísdo crítica do método teológico clássico e exige ao mesmo tempo sua renovccóo profunda. O que se fará , portanto , aqui, nao é tanto urna o bra

de inovacáo quanto de renovocóo, ou de recriacáo, Tal é nossa íntencáo e

nossa esperanca . Essa tarefa aparece tanto mais necessária quanto m ais fazem falta no Sul obras que tenham tratado, de forma orgánica, a questáo do método .

RESUMINDO

1 . A metodologia teológica nao se ocupa di r e t amente com o con teúdo

da teologia ( teorias ) mas com a sua forma, seu processo, sua prátic a. Ela nao ensina teologias fe í tas: ensina sim a fazer teologia.

2 . A metodologia teológica p ó e em jogo :

- os elementos articula do res da teologia ( dici o n á r io );

- e a s r egra s de como esses elem ent o s se a rticulam ( g r am ática).

19

3. V ári os sáo o s ele mentos articuladores da teologia, dentre os q u ai s

podemo s d e stacar: a Fé, a Escritura, a Prática, o Magistério, a Lingu age m e a Ra za o .

4 . Qu anto as regras de

articula~ao da teologia, essas deveráo esta be-

íecer co mo os elementos articuladores se combinam dentro do processo

teológ i co e segundo que etapas . Fundamentalmente, trata-se das seguin- res etapa s:

-

es c ut a d os testemunhos da fé ;

-

ap r o f u ndamento racional desses testemunhos ;

-

e atualízacáo em nosso contexto histórico .

5

. Pa ra se aprender teologia, como para toda " arte ", há tres caminhos :

-

assim i l ar as regras da prátíca teológica;

-

segui r o q ue fazem os teólo g os;

-

exerc i ta r po r própria conta a prátíca teoló g ica.

Ora, nesse Iivro nos limitaremos ao primeiro caminho.

6. A metodo logia teológica compreende os quatro níveis seguintes:

1) das técn icas, referentes seu uso;

aos r e cursos d a teolo g ia e ao modo de

teológico ) do ; método propriamente

2

d ito, r ela tivo as et ap as do procedimento

teológico; ) da epis t e mología, ou seja, a reñexáo crítica das bases do método

3

. 4 ) enfim , do espírito teológico, que é o que anima em profundidade o Interesse por conh ecer os mistérios divinos.

t 7. A pretensao desse nosso trabalho é estucar o método teoló g ico em

tOda a sua amplitud e, sem reducáo alguma, como re q u e r o c on teúdo IClnscendente da f é. Con tu d o, de v ez q u e o m e smo conteúdo da fé r equ er, elll SUa conCretude a " prefer e nci a pelo s pobres", resulta que o método

:erá necessaria~ente v i r marcado por essa inflex á o particular. Ora,

20

c omo essa consciencia é recente , exige - se t odo um t r abalho de renovac á o do fazer teológico .

EXCURSO

TOPOGRAFIA DA " TEOLOGIA FUNDAMENTAL"

Que lugar ocupa nossa disciplina

no campo mais amplo da chamada

" T eologia

fundamental"? Tracemos e quadri culemos

nas l imítrofes, as que estáo por assim dizer a montante daquela d i sciplina geral . E

procuremos ao mesmo tempo precisar, o quan t o possíve l , os termos e os conceitos da s

diversas discip l inas desse campo .

esse campo, situando i nclus i ve suas d i scipli -

Como, poi s. distinguir e relacionar

a Metodologia

teo l ógica com as disciplin as

parecidas, éomo a Teologia fundamenta l , a lntroducáo a teologia, a Gnos i olog i a d a

teologia, a Enciclopédia teológica e outras disc i p l inas afins, como a Teodicéia, as Cienc ias

da reliqiáo, etc . ?

Na orqanizacáo das discip l inas teo l ógicas, a termino l og i a no campo da "Teologi a

fundamental" nao é hornoqénea, como também nao o é o entend i mento da conexáo

entre as várias disciplinas refer i das. Existem aí muitas posicóes desencontradas . P a r a

ajudar a l ancar alguma l uz nessa questáo. eis aqui alguns reparos.

Apologética e Metodolog i a teológi ca

A T eologia fundame n ta l apresenta duas vertentes

princ i pais: uma é de conteúd o e

outra de forma. As duas se chamam, de modo des i gual , Teo l og i a "fundamental", p o r q u e

ambas fa l am dos fu ndamentos .

(mater i ais, conteud í st i cos) da f é: as

razóes de credibi l idade (analysis iidei¡ e, antes ainda, a justificacáo da Re ve l a~ao .

Corre s ponde a antiga Apologética. E é a acepcáo mais comum hoje de "Te o l og ia

fundamental" . Poderíamos chamá - Ia de T eo l ogia fundamental propriamente dit a. O

estatuto desse tratado

prob l emá tico " .

A primeira vertente trata dos fundamentos

na teologia é atualmente

muito discutido,

para nao di zer

8. Franco A R DUSSO fal a em " d e s es p e ro m e todológico ": L a teo l o giafondamenta l e, in Gius e pp e LORI ZIO

- Nun z io GAlANTINO (e d .) , Metodo l ogia

plinare , San paolo, Cinise l lo B alsamo ( MI ) , 1994, p . 31 2 -316, aqu í p . 3 1 4 . P ara o estatuto t eór i co d a Teologia fundamental ( conteu d istica ) , cf . o longo e complicad o e studo d e M ax S ECKlER, T eolog i O

f o nda m e n t al e: c ompi ti e s tr u t t u r a zi on e,

teo l ogica . Avv i a mento allo stu d io e a ll a rice r c a p luridiS Ó -

conc e t t o e n o mi, i n Walt e r KERN - H e r mann] . POT T M EY EF.

21

A segunda vertente ver s a sobre o s fundament os (formais, metodológicos) da teologia ,

QU seja. sobre as razóes de seu discur s o pr ó prio. Corresponde propriamente a Metodologia

te ológica . Fala-se também em Gno s iologia t e ológica ou Epi s temologia da teologia . Nessa

linh a, a t endencia é preferir as referida s denomina~oes s obre o termo g e ral 'Teoloqia

fu ndamenta l ", que seria melhor reservar para a primeira vertente, descrita acima.

Sucede que hoje as questóes se misturam . Entretanto, ela s sáo, do ponto de vista formal,

nitid ame n te distintas. Nada justifica essa confusa o, a nao s er o nome . É assim que tratados

de T eo l og i a fundamental-conteúdo i ncluam questóes de Método : papel da razáo, herme -

neuti ca, e t c . E vice-versa: li vros de Teologia fundamental-forma ou de Gnosiologia teo l ógica

des e n vo l vam questóss de conteúdo: Revela~ao, Fé e ainda Escritura, Tradicáo, Dogma,

Magi s t é ri o . Sem dúvida, uma disciplina envolve questóes da outra, como veremos em nosso

próp r i o trabalho, mas importa guardar sempre o ponto de vista formal respectivo .

lntrodu c á o a teolog i a

Apres enta-se hoje também uma discipl i na particu l ar sob o nome de "lntrodUi;ao a

T eo l cqi a ". El a entende

ofer ecend o u ma visa o global, ess encial .

dar uma visa o panorámica

do con j unto

da doutrina

da fé,

unitária de toda teologia,

mas a partir de seu núc l eo

É o "Cu rso i n trodutório"

que o decreto

Optatam Totius, n. 14, ped iu para os

deb uta n te s em t eologia

sint é t ica C urso fundamental da t é , centrando tudo no conceito de "autocomunica- cáo" de Deu s 9

e a que K. Rahner

tentou corresponder

com sua obra

Enciclopéd ia teológica

E n c ontr a-se as vezes nos currículos t eo l óg i cos a d i sc i p l ina chamada "E n c i c l opédia

gera l e orqánica, se j a da proble

teol óg i ca". E l a e n tende dar uma prime ir a infor r nac á o

rnáti ca da t eo l og i a

em cada uma de s u as disc i p l inas (enc i c l opéd i a

real ou material, de

------------------------

n

la

~YOla, S ao Pau l o , 199 2, cap. 4, p . 51-75; jos eph R A TZ INGER , Teoría d e los principios teológicos. Pi:t~nale s para una teología fundame n ta l , Herd e r, Barce lon a, 1985 ( orig, a l . Th e ologische P ri nz j-

da ~ ehr e ,. E. Wewel, Muniqu e, 1 982) . V e j a ma i s a f re nt e no C a p . 19 como equ a cion am os o es t at u t o

a T eOlo ~ la fundament al ( conte udí s ti c a)

e m re l ac á o , d e um lado, com a Teod i céia , e, do outro, co m

Ma x SEC KlER ( ed .), Trattato d i gno se ologia t eolog i ca, C or so di T e olo gia f ondam e n ta l e 4, Qu e ri n i a -

, Bre scia, 1 990, p . 537-615; joá o Bat ist a LIBÁNIO, Teologia da R evela< ; a o a par t ir da mode rnidad e,

eOlogla do gmatic a.

t.Curs

ae;!undam e n tal daf é , Paulus , s á o P a ulo, 1989 (o rig. a l . Grundkurs des G l aubens . Einfürung in den ~lff des Ch ris t entums, Her der, Freiburg in Br e isgau, 1977; trad. es p . Curso fu n d amen t al sobre l a erder , Ba r c e lon a , 1984, 3 ' ed.) .

22

q u e permanece como ilustracáo mais famosa a Encic / opédía de Diderot e d'Alambert,

em 33 vo l .) . e nisso se con f unde com a " l ntrod u cáo a teo l oqia": se j a do próprio método

teol óg i co, ou de s u a teo r ia formal (enc i clopéd i a metodo l ógica).

Ora, é só esta

última que possui para nós interesse, e isso a um duplo títu l o: por se

co l ocar no níve l epistemológ i co e por oferecer u ma perspectiva panorámica do métod o

teol ógico 10 . De r esto, é também essa a nossa intencáo

n o p r ese n te tr aba l ho.

Teodicéia , Filosofia da Religiáo e Ciencias da Religiáo

Acrescentemos que nos l im i tes exteriores da "Teo l ogia fundamental" aparecem

várias discip l inas que também t r atam de "reliqiáo". As primeiras duas sáo de cunho

claramente fi l osóf i co.

outrora como " T eodicéia". Trata de Deus do ponto de vista da rac i onalidade humana

pura. Em seguida, temos a "Filosofía da Reliqiáo". Essa discute o se n t i do racional do

fenómeno re l ig i oso, inc lu s i ve da fé enquanto auténtica possib ili dade hu mana. Ela tem

um cará t er nao apenas descr i t i vo mas cr í t i co- n ormativo u

Ser i a, em pr i meiro

lugar, a "Teoloq i a f i losóf i ca",

mais conhecid a

A te r ce i ra

sé ri e de discip li nas

confinantes

com a T eo l ogia fundame n tal

sáo a s

diferentes "C i e n cias da rehqiáo":

Psicologia re li g i osa, a H i s t ór i a das reliqióes. etc . E ssas cie n cias tratam a reliqiáo a nível

de fenómeno e m pírico,

fundamentalmen t e

da

reliqiáo permanece pa r a a l ém de seu a l cance epis t emo l óg i co. Sabemos, con t udo, que,

por press u postos in consc i entes dessas ciencias e ainda por via de seus efe i tos teóricos,

e l as nao deixam de se e n vo l ver com as questóes da verdade da reliqiáo. r eso l vidas muitas

vezes pe l o nega ti vo 1 2.

a Soc i olog i a da reliqiáo,

a Antropo l o g ia

ver i f i cáve l .

da reliqiáo, a

Sáo portanto

ou seja, a títu l o

de uma funcáo

desc rit ivas e func i onais. A questáo

da esséncia

e da verdade

_

23

Ei s a q ui um esquema, evidenciando as várias disciplinas teológicas que se s i tua m

no c a mp o da "Teoloqia fundamental"

est ao e m seus limites, mostrando inclusive suas conexóes:

entendida em sua acepcáo

TEOLOGIA FUNDAMENTAL

mais gera l e as que

\

Te odicé i a

( Te ol .fil . )

!

APOLOGÉTICA (Teol. fundo propr. dita)

F il os ofia

da rel i g i ao

METODOLOGIA TEOLÓGICA (Epistemol. da Teol.)

C i encia s

da reli g i ao

lntroducáo

a teologia

Com o se ve, nossa matéria, a Metodologia teo l óg i ca,

Enciclopédia

teológica

aparece aí como um dos dois

ramo s c entr a i s da chamada hoje 'Teoloqia fundamental". Contudo, e aqui o repet i mos,

ela de v e ser e n tendida como uma matéria totalmente a parte, pois possui seu estatuto

teórico pró prio. E é nesse sent i do que caminham hoje as denorninacóes das respectivas

di

sciplinas t eo l óg i cas, na med i da em que reservam

cada

vez mais o título de " T eoloqia

fu

ndamental"

ao estudo dos fundamentos

materíaís da Revelacáo

e da fé.

e o de

"M etodologi a t eo l ógica"

f o r mal da pr át i ca t eo l óg i ca.

ou " E p i stemolog i a

da teo l ogia" a reflexáo crít i ca do processo

Acresc e nt e m os,

po r fi m, que nosso tratado

mantém uma relacáo

ma i s ou menos

es

tr eita, segun do os casos, com as outras disc i p li nas v i zinhas, seja na área da teolog i a

co

m o n a ár ea m a i s vasta das o u tras c i encias q u e se ocupam da reliqiáo.

10 . Pa ra a " enciclopédi a teológic a", cf . K. RAHNER , Curso fundamental

da fé, op . cit . , p . 14-15, e

e s pecialmente Wolfahrt PANNENBERG, Ep i stemologia e Teologia, B i blioteca d i Teologia C o ntempo-

ran ea 2 1 , Querinian a,

produzi r, em 1516 , u m t rabalho dess e ge nero : Razao ou método para chegará verdadeira teolog lO :

exo r rccdo

ta¡; ao do es t udo da teologia , d e 18 11 (tr ad . it . Lo studio della teologia . Breve presentazio n e , Giorn ale

di Teologia 110 , Que r iniana , Brescia , 1 978 ). Situava-se na esteir a do idealismo alern á o , p articula~-

com su a Enc ic l opé~l~ lO

das ciencias filosófica s, de 1817 . Citemos ainda a obr a de Gerhard EBELING , O estudo da teolog

Nessa Iinha va i tam b ém a obra clássica de Friedrich SCHLEIERMACHER,B r ev e apres en -

LEITURA

RICARDO DE sAo VÍTOR:

Pa ss a r da ó i n te lige nci a da f é 13

Brescia, 1 975 , p . 19 -24. Diz - nos aí que ERASMO (t 1536 ) fo i o pri meiro . a

mente de urna proposta de J . G . F i cht e (t 1814 ) , r ealizada depo is por F . Hegel

urna or t entccdo enciClopédica , Tübingen, 1975 .

. <:<:Quea r dor nao devemos ter por esta fé na qua! todo bem tem seu fu n damento e enContra s u a f i rmeza! Mas se a fé é a origem de todo o bem, o con h ecimento é

11 . C f . o conhecido trabalho de Karl RAHNER, Hóhrer de s worres , Kósel, Munique, 1940 . Ve r nova ed .

K. RAHNER - J.B . METZ , L'homm e á I ' écoute

Mame, rours , 1968 ( ed . al . K ó sel, Munique , 1963 ; ed . it . Uditor! della ~arola, Borla , rur í m ,

ainda o grosso vol . ( 689 p . ) de Italo MANCINI, Teologia, ideolog lO , utOP IO, Col . Biblioteca di T eolo g l

Contemporanea 18, Queriniana, Brescia, 1974.

du Verbe . Fondements d ' une philosophie de la R e l ig ion ,

1967);.:

t l. Max SECKLER,Teo lo gia, Scienza, Chiesa, Morcelliana, Brescia, 1 988 , p . 5 3- 67 .

:: ------

la. De T

---------

nnl tate, Prólogo: PL 196, 889-890 ; e Col . Sourc e s Chretlen n es 63 , Cerf, Paris , 1959, p . 50 - 59 .

ti IChardo( tl173 ) foi um grande expoente da célebre escala da " tea logia monástica" , portanto, de 11 a ITl I Stico-contemplativa, da abadia par isie nse de S . V i tor .

It·

24

s u a co n s uma cáo e p e rf e i cáo. L a n cemo-nos , pois, e m dir ecáo a p e rf e i cáo

e, p or tod a

a séri e de pr og ress o s p oss í ve i s , avancemo s apressa d a m e n te d a fé p a r a o co n he c]. . me n to . Facam os todos os esforcos possívei s para co m p r ee n der aq uil o qu e crem os

(ut intelligam u s quod cred im us).

Pensemos no ardor d os f il ósofos profanos qua n to ao est udo de D e u s, n os

progressos q u e fizeram. E envergo n hemo- n os de n os mostra r , nesse po nt o, infer io-

res a e les . (

da verdadeira fé? O amor da verdade deve ser em n ós mais eficaz qu e n e l es o am or da vaidade! Será preciso q u e, n essas questóes , nos most r emos mais capaze s , nós

que somos dirigidos pe l a fé, arrastados pe l a esperanca, impe l idos pe l a caridad e!

) E n ós, que fazemos nós, que, desde o berco, recebemos a tradi cáo

Devemos julgar ainda insuficie n te ter sobre Deus, pe l a fé, idéias corret as e

verdadeiras. Esforcerno-nos , como dizíamos, por compreender o que cremos ( quae credimus inielligere) . Empenhemo-nos sempre, nos limites do lícito e do po ssí vel, por captar pela razáo aqui J o de que e stamos convencidos pela fé icompreh e n der e ration e quod tenemus exfide). Aliás, é de se admirar se diante das profund ezas divinas nossa inteligencia se obscureca, ela que é, quase a todo o mom ento,

envolvida pela poeira dos pensamentos terrenos?

"Sacode a poeira, virgem , filha de Si á o" (Is 52,2). Se somos filhos de S iáo ,

erijamos aquela sublime escada da conternp l ac á o . Como águias, tomemos asas (cf . Is 40,31) , para podermos p l ainar acima da s realidades terrestres e nos elev ar as

ce l estes . (

) Eleverno-nos , pois , pelo espírito (spiritualite r), eleverno-no s pela

inteligencia (inte ll ectualiter) lá , onde , e ntretempos, a ascensáo com

( c orporaliter) nao nos é ai n da possível . (

o corpo

)

Pois é para o céu que somo s l e vados pe l o Espírito , que nos levanta , tod as as

vezes que a graca da contemplacáo nos faz a l cancar

D e ve-nos, pois, parecer pouca coisa ter uma fé auténtica nas realidades etern as, se

nao nos é dado corroborar estas verdades da fé pelo te s temunho da razáo. Sem nos satisfazer com o conhecimento do eterno que s ó a f é o utorga , procuremo s at i ngir

o que dá a inteligencia , se ainda nao somos c ap a ze s do c on h ec i me n to que c o n cede

a experiencia (mística).

a inteligencia do e t em o .

Todas as ref l exóes des se pró l ogo t é rn por ohjetivo tor n ar n ossos espírito s m ais atentos e m ais a rd e nt es n es t e est u do. É um m érito, assi m o c r e mo s, est a rm os ch e i o s

\ d e e ntu s i as mo n essa bu sca, m es m o se os r es ul ta d os n ao r espondem tot a lm ente a o s

no ssos des e jos.»

se~ao 1- FUNDAMENTOS

Capít ulo 2

COMO NASCE CONCRETAMENTE A TEOLOGIA

Queremos aqui descreve r como se processa o ato de t eologizar . T r ata - se d e descrever fenomenolog i camente como se dá o fa z e r teológico .

POR QUE ISTO : A TEOLOGIA ?

1. A f é deseja saber

A pessoa de fé quer naturalmente saber o que é mesmo aquilo que acred ita , se é verdade ou nao . Quer saber também o que impl i ca tudo aquilo em sua vida conc r eta e em seu destino .

É q ue a fé tem isso dentro dela : a curiosidade . Ela quer saber de s i

mesm a. É possuída por um dinamismo preend er.

interno que a leva a se autocom-

Tal é a definicáo c1ássica da teologia: fides quaerens intellectum ( a fé

11 09 ) 1 .

buscand o entender ) . É a expressáo, clássica, de Sto. Anselmo ( t Significa : a fé é desejosa de saber . Ela busca luz .

Sto. Anselmo se situa na linha direta de Sto . Agostinho , que hav i a dito :

"Deseje i ver com a i nteligen ci a o que acreditei '". H á , portanto , na fé urna "Vonta de de verdade ".

----------------------

1 . Fides qUoere ns

incelleetum: tal foi o p r imeir o n o m e d e s e u l i vro P r o s Jogion, como e l e m e smo confess a

no P roemio , l i vr o esse publicado na Col . Os p e nsadores, Abr il, sáo P a ulo , 1979, 2 " e d . , a qui p . 98.

V er o Cap . 1 d este livro c omo Leicura no fim do presente c api tulo. Cf . Henri BOUILLARD , Comprendre

ce qU e I'on eroir, Aubier / Mont a igne, Paris , 1971, cap. 1 , p . 13 - 42 . Aquela famos a e x press á o serviu

d~ pr ograma pa ra todo o percurso teológico posterior. Sobre ela se detiver a m

dife rentes como Tomás de

DeSid eravi intellectu videre quod credidi" : De Trinitare , 15,28,51 : PL 42, 1098.

p e nsador es t á o

Aquino, F . Hegel , F . Schleie r macher, R . Guardini e K . Barth.

26

Oe resto o amor é um elemento intrínseco da fé. Quem ama medit a divaga. O amor faz pensar . quando a fé seduz a razáo, entáo nasce a

teologia. A fenomenologia do ato teológico é descrita por S. Tomás d e

Aqu i no nestes termos, de sabor agostiniano :

,

,

" No fervor de sua fé , a pessoa ama a verdade que cré, a revolve no s eu espírito e a abraca, procurando encontrar razóes para seu amor'",

Alhures , af i rma :

" O amante nao se contenta com a apreensáo superficial do amado . Mas

é levado a refletir (disquirere) no seu interior cada coisa que conce rne

ao amado . (

) Assim, o amado habita (immoratur) no amante'" .

O Ooutor Angélico vai mais longe . Chega a dizer que é o amor que e stá na raiz disso que chamaríamos "éxtase intelectual", que nos póe para f ora de nós mesmos, nos faz meditar sobre o Amado e nos torna aptos p ara compreender as coisas supra-racionais. Chama essa salda de "prime iro

éxtase", o qual predispóe para o "segundo éxtase", o da cornunháo di reta

e imediata com o Amado, e que podemos chamar de "éxtase afetivo' ".

"Onde está o amor, a í está o olhar'". Esse dado elementar da psicolo gia do amor tem urna profunda sígniñcacáo epistemológica . Oeste modo , se mostra verdadeira a expressáo agostiniana: "O próprio amor é inteligencia" .

Foi S . Boaventura que mais enfatizou o amor como fonte particula r de

teología:

"Quando a fé cré por causa do amor daquele em que m cré, en t áo d eseja

possuir as razóes disso'".

3. Summa The%gi c a

(= STl, 11-11, q . 2, a. 10, c.

4.

ST 1-11, q . 28, a. 2, c.

5. Cf . ST 1-11, q . 28, a . 3, c .

6 . TOMÁS DE AQUINO, in Sent . 1Il, 35, 1, 2 .

1. "Amor ipse intellectus est" : apud Cipriano VAGAGGINI, Te%gia, in Giuseppe BARBAGlIO - Seve r i n o DIANICH ( ed.), Nuovo Dizionario di Te%gia, Paoline, cinisello satsarno (Mil, 1985, 4 " ed., 167 1 e p.

\

1674 .

--

8.1 Sent., proem . , q. 2, ad 6, citado pela lnstrucáo da CONGREGA<;:AOPARA A DO UTRINA DA FÉ, voca~ao ec/esia/ do teólogo (Veritatis Donum, 1990) , n. 7, nota 3.

27

se é assim, seria dupla a fonte da teologia: a fé e o amor". Mas pode-se

redU zir finalmente a teologia a urna fonte só : a fé que se faz amor: a fides

qu aerens, a fé desejosa e amorosa.

por conseguinte, nao é tanto o teólogo que se ocupa com a fé; é antes

a

f é que ocupa o teólogo. Ela o precede e o solicita 10 .

2

. O esp írito humano busca incansavelmente conhecer

A té agora analisamos a origem da teologia pelo lado do objeto - a

própr ia fé. Examinemos agora a mesma questáo pelo lado do sujeito que cré. Ora, nesse nível, pode-se verificar que a fonte do dinamismo teológico se s i t ua na natureza do próprio espírito humano . Esse representa urna estrut ura aberta, interrogativa.

Co m efeito, o espírito busca por natureza a verdade, como afirmou Aristóte les. "Todo o ser humano aspira naturalmente ao conhecimento".

E o Filó sofo dá como exemplo o olhar: a gente olha as coisas "nao só em

vista da acáo, mas também gratuitamente?" .

Or a, esse dinamismo

se exerce também, e de maneira eminente, sobre

o conteú do de verdade

como r atio fide illustrata: a raza o esclarecida pela fé (OS 3016). Por isso a

teologia pode-se definir intelige nte, crítica.

da

12 A raza o da fé é definida pelo Vaticano 1

como "a fé de olhos abertos". É a fé lúcida,

Ness a Iinha, é impossível que haja fé sem que haja um mínimo de reflexa o sobre ela, sem que o espírito deixe de pensar sobre seu conteúdo. Esse é um movimento natural, espontáneo, Por isso, toda pessoa de fé é também teóloga, pelo menos em grau mínimo .

------------------------

9. c; : CONGR EGA<;:AoDA DOUTRINA DA FÉ, Op. cit . , n . 7 , onde fala da " dúplice origem da teologia' :

e e o a m o r.

a

10 . Cf. Gius e p pe COLOMBO, Professione "teoloqo" , Glossa, Milao, 1996, p. 11.

11. tia ab ertu ra de sua Metafísica, I (Al, 1 : 980a 21.

g. Michae l SC HMAUS, A da Igreja, Vozes, Petrópolis, 1976, vol. 1, cap. 5, p. 171 .

28

A busca de luz pela fé é particularmente urgente na c u ltura modern a , por seu caráter extremamente racionalizador. As coisas da fé nao po ssuem

a " evidencia cultural " de outrora, quando a so c iedade " tradicional", n o

Ocidente, estava fortemente marcada pelo cristianismo, mais ainda, qua n- do se via centrada nele. hoje, as verdades da fé perderam em gran de

par t e sua "plausibilidade" social, ao mesmo tempo em que a busca religiosa

em geral se acha em ascenso.

Tudo isso tem grandes conseqüéncías para a inteligencia teológica . r az

da

Teologia filosófica (reodíc é ia), quer, mais proximamente, no modo da

Teologia fundamental ( Apologética ) se tornem muito mais necessária s. A "razáo antecedente" da fé se aproxima muito mais de sua "razáo cen se -

qüente ", a ponto de, na prática, se fazerem simultáneas,

com que as "razóes da fé", quer, mais longinquamente , na forma

isto é, se exe rce-

r em juntas , embora estejam por natureza numa relacáo desigual".

A RAIZ UNITÁRIA E PLURAL DA TEOLOGIA

o fundamento mais radical da teologia

Como vimos, o que desperta a teologia é a fé e o espírito crente . Mas antes de qualquer deterrninacáo particular (visáo, experiencia , prática), a fé, em sua raiz mais profunda, é írrupcáo do "ser novo", da " vida nov a" . É novo nascimento . Numa palavra, fé significa "conversáo", como t r a nsfor- macáo profunda do ser, como morte e ressurreicáo. Tal é a fé e m sua

unidade e globalidade : um novo modo de existir.

Antes, pois, de constituir um saber, um sentir ou um agir partic ulares,

c omo especificaremos logo mais , a fé é da ordem da ontologia : é r eceber e possuir um "novo coracáo e um espírito novo" (d . Ez 36,26 ). É ser regenerado. A fé-conversáo torna-se entáo a real i dade fundadora de urna nova vísáo do mundo, de urna nova experiencia da vida e de u rna ética igualmente nova .

\ 13. Sobre a ra z áo a n te c e d e nt e Cap . 19.

e a raza o conse q üente

cf . ST 11-11, q . 2, a. 10, e: e t am bém mais a frente

- -

29

E é daí qu e su r ge também um novo saber sobre Deus e o mundo: a teologia crístá, O novo ser dá início a um novo pensamento . A teologia tem,

portanto , e m seu pri~cí~io . mais originario o evento in~tau . rad~r de urna

no va v i da , d e

como - muda nca de mentalidade", mas antes como evento radical, global

e decis iv o . Só urna nova subjetividade pode captar a nova realidade . Só

uma pe s s o a transformada pode entender a fundo as coisas de Deus. Só um ser no vo pode apreender a Boa-nova . somente pela conversáo ao Senho r q ue o véu ( das Escrituras) cai " ( 2Cor 3,16 ) 14 .

urna existencra outra . E, em breve, a metonorc, nao apenas

A estru t ur a complexa da fé-conversao

Por o utro

lado, a fé, enquanto urna atitude totalizante, ou opcáo funda -

mental , envo l v e toda a vida da pessoa e compromete seu destino derradeiro . É um ato c o m p lexo , rico de múltiplas deterrnlnacóes, Ora, a teologia esposa

necessariamen te a estrutura de seu objeto e princípio - a fé.

Podemos aqui destacar na fé tres componentes principais : a experien-

cia, a intelig encia e a prática. Assim, a fé tem algo de afetivo, de cognitivo

e de normativ o.

A unidad e desses tres níveis se exprime de modo particular e concreto no culto . A í a p essoa acede a certo conhecimento acerca das coisas divinas, faz a expe r ien cia das mesmas e, por fim, se dispóe a obedecer as suas exigencias . Isso tudo se dá num único ato perceptivo. Assim, por exemplo, confessar : " Deu s existe", implica em conhecé-lo, amá-Io e servi-Io, ao menos potenc ialmente 15 Do mesmo modo também, quando os primeiros

--------------------------

14. A . conv er s ao como fundamento da teologia, ass i m como urna das ( o i to ) " operac ó es " essenciais do rn~todo te ol ógico, foi colocada em relevo pelo conhecido trabalho de Bernard LONERGAN , Pour une ~et_ hode e n t h é o logie, Col . Cogitatio Fidei 93, Fides/Cerf, Montreal/Paris , 1978, p . 154-156 e

( N 6 308 . Cf . ta mb érn Evangelista VllANOVA, Para comprender l a teología , Verbo Div i no, Estella

l avarra ) , 199 5, p. 63 : convers á o

de

4~~:r~~n . Cf . a ind a [ oseph RATZINGER, Natura e compito del/a teol ogia: Jaca Book, Milao, 1993, p .

como urna das " coor denadas

da teol ogia" ;

e p . 15: texto

fe

3. o novo su j e i to como pressuposto e fundamento e Pensarnento " .

de toda teo t ogia ' ' , e p . 53-55 : " convers á o,

l. ~~Les~ek

sugarCo Edizio_ ni, Mi l ~o, 1 9~ ~ , p . 1 53s . P ara as v ar i as

nsoes da fé, c om d estaq ue para a pr á tica, cf. 1.B . l I B A N IO, F e e po/mca , Autonom í as e sp e cific a s

KOlAKOW SKI, Le Rel igi oni,

30

crlstáos confessavam "Jesus é O Senhor", deslegitimavam ipsofacto O cult o

do pretenso senhor da que le tempo : o César divinizado .

Os tres componentes "p í sticos'' de que falamos tinham sido individu a-

dos pela tradicáo teológica sob a seguinte termino logia:

-

fides quae : é a fé-palavra, a fé dogmática;

-

fides qua: é a té-experténcía, a fé fiducial;

-

e fides informata: é a fé-prática, a fé encarnada.

O

r a , a fé é simultaneamente principio , objeto e objetivo da teologi a. E

o é na riqueza das suas múltiplas dírnensóes. Por isso, entendendo a fé como um ato total de obediencia el Palavra, como faz Paulo (cf. Rm 1,5 ),

podemos dizer com um Reformador : " Todo o conhecimento de Deus na sce

da obedí é ncla':" .

Toca - nos ver mais adiante de que maneira cada urna dessas dimensóes

informa o discurso teológico.

PRIMEIRAS CONCLUSÓES

Tiremos agora algumas conseqüéncias da tese geral de que a f é é o

principio ou fundamento de toda teologia .

1. Rela~ao íntima entre f é e teologia

Há entre a fé e a teologia urna relacáo interna ou orgánica, e nao meramente exterior ou mecánica. Há continuidade vital entre essas duas realidades, e nao mera justaposicáo.

Poderíamos aqui usar muitas metáforas. Assim , a fé é para a teo logia:

- como a seiva para a árvore:

- como a fonte para o rio:

- como o fermento para o páo:

e art í culac ó es

mútuas, Col. Fé e Realidade 17, Loyola, s á o paulo , 19 8 5, p . 1 5 -39, onde disti n gue

quatro aspectos da fé : fiducial, her rn e n é utico ( intelectual ) , p r áxic o e es c a toló g i co .

16. "Omnis co g nitio D e i a b obedi e nti a

n asc i t u r" : C A L VIN O , In s cituciones 1, 6, 2 .

- -

_ c o mo a alma para o corpo:

31

_ c o mo o punho fechado para a rn á o espalmada" .

A te olog ia é a fé mesma que se vertebra , a partir de dentro , em discurso

racion a l . É o desdobramento teórico da fé . É seu desabrocha mento inte-

lectual . Teologia é fides in statu scientiae ( a fé em estado de

pathoS que toma a forma do logos, a experiencia que se faz razáo. É a

sabedo ria no modo do saber.

ciencia ) . É o

A t eo logia nao acrescenta materialmente um pingo de luz a fé . nesen-

volve ape nas seu conteúdo material . Desdob r a suas vi r tualidades latentes . É a ratio e stendendo o intellectus : a razáo explanando a intuicáo. Portanto, a fé é com o a ente/équeia da teolog i a, isto é , sua forma dinámica interna. É seu co na tus, sua alma viva e inquieta . Eis o que di z Clemente de Alexand ria (ea. 150 ), diretor do pr i meiro instituto de teologia , o Didaska-

leion:

" A fé é, por assim dizer, um conhecimento elementar e concentrado das

co isas necessárias . A gnose ( = conhecimento teológico ) , por sua vez, é a

de r n onstrac á o firme e segura do que se recebe na fé. Ela se edifica sobre

a fé, por meio do ensinamento do Senhor, e conduz a urna indefectível

pos se intelectual.v'"

Como s e ve, a teologia como discurso se distingue do discurso da fé , tal a con ñ ss áo. Dá - se entre as duas certa ruptura - urna ruptura no nivel da forma , esp ecificamente da Iinguagem 19. A teologia é mutável , diversi- ficada, enqu anto a fé tem um caráter absoluto, definitivo.

Isso tudo é verdade no plano da forma . Contudo, no do conteúdo , há prOfunda c o ntinuidade . A substancia viva da teologia é a própria fé. A teologia nao d iz outra coisa que a fé, só o diz de out r o modo . Non novum

- --

17·A ' 1 '

-- --- - - - -

Eti u tim a c o mparac;ao é de Rogério BACON < t 129 2 ) , Opus Maius 11, 1 , apud Philotheus BOHNER _ enne Gl l SON, Hiscória da filosofia críst ó, vozes , petrópolis , 1970, p. 381.

'l. Stro

mOta, 7,5 7,3.

Cf'~OdOVi~ BOFF,Teol ogi a e prácica. Teol ogia do politico e suas medi ~ c ;oes, Vozes, Petr ó pol is, 1 993, " sec;ao 11, cap. 3, § 1 0 , espec . nota 5, onde e l aboramo s o c once lto d e " quase-ru p t ur a".

33

32

sed nove: nao diz coisas novas , mas as mesmas coisas perenes da fé, mas

de modo diferente.

por isso tinha razáo Tertuliano ao dizer:

"Nós nao ternos curiosidade depois de jesus Cristo . Nem ternos necessi-

dade de investigar depois do Evangelho. Quando cremes, nao sentimos falta de outras crencas, pois a primeira coisa que cremos é que nao há

outra coisa para crer . " 10

S. joáo da Cruz nao diz outra coisa:

" Ao dar- nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua única palavra - e

nao há outra -, (Deus ) disse-nos tudo de urna vez nessa palavra e nada

mais tem a d í zer.' ' "

A fé im-plica dentro de si a teología: e a teologia ex-plica, como que

para fora, a fé recolhida em si mesma . Na fé encontramos uma teologia implícita e na teología, urna fé explícita . As raz ó es teológicas se relacionam com a fé nao ao modo da "substituicáo " ou da "diminuicáo", mas ao modo da " adi~ao,,2 2. Elas se acrescentam org á nica e formalmente él convíccáo da

fé . A teologia é a fé crescendo na inteligencia .

l. primazia da sobre toda teologia

A fé, fonte da teologia, é naturalmente anterior a ela , quer do ponto de vista temporal , quer estrutural . Antes da teología, ternos a fé¡ antes da inteligencia, a memoria: antes da reflexáo, a proctarnac á o . Na teologia cristá, a fé é o prímum, a

archée estrutural e estruturante.

Essa é urna afirrnacáo que atravessa toda a tradicáo teológica. E isso desde o corneco . É o que testemunha a citac á o, invocada pelos grandes teólogos da Igreja ,

desde lrineu , passando por Agostinho e repetida por toda a Idade Média : "Se nao

10. De praescript i one

haereticorum ,

7 , 21 : PL 2, 2 4 .

11.A subida do Monte Carme/o, 1.11, cap . 22, reportado também na Liturgia das horas, Oficio das leituras,

\

2a leitura, segunda-feira, 2 a Semana do Advento .

 

11.

sáo os termos de Sto. TOMÁS, In Boetium de Trinitate,

Q. 2, a. 3, c .

acreditardes, nao compreendereis " O s 7,9 = LXX ) . Ternos aí o que foi considerado

a "carta da intelectualidade crista"n.

Mas foi Sto . Agostinho que mais enfatizou o primado da fé para a cornpreensáo teológica . É dele a deñnicáo mais sintética que a teologia recebeu em sua história:

in teIlec tus fidei - a inteligencia da fé, sua autocornpreens á o .

De Agostinho nos vem ainda o conhecido crede ut intelligas : cré para entender .

praeceditfides, sequitur intelJectus : primeiro vem a fé, depoi s o entendi mento ".

E mais: "Nao pretendas entender para crer , mas antes crer para entender? ".

Certo, Agostinho é dialético : afirma também a necessidade de alguma com- preens á o anterior a fé para torná-Ia possível : intellige ur credas ( entende para crerr". Mas o peso maior vai da fé para a inteligencia.

Na continuidade do Doutor de Hipona, encontramos Sto. Anselrno, com sua célebre afirrnac á o : "Nao busco compreender para crer . Mas creio para compreen-

der: credo ut intelligam" 27

No mesmo sentido vai outro agostiniano medieval, Ricardo deS . v í tor r] 1173):

"Esforcemo-nos por compreender o que cremos . Empenhemo-nos sernpre, nos limites do lícito e do possível, por captar pela raz á o aquilo de que estamos convencidos pela fé" 28

Essa tradicáo é retornada também na chamada Idade Moderna. Assim , naque-

le que é tido por um dos grandes metodólogos dos tempos modernos, Melchior

Cano (t 1560): " Aquele que quiser ser mestre da escola cristá, precisa antes de mais nada abracar o discurso da fé" 29

Citemos igualmente outro grande metodólogo, agora das ciencias modernas, Francis Bacon (t 1626): "Dá a fé o que é da fé (da fidei quae fidei sunt), Em váo

13. Segundo Yves

CONGAR , La ¡o i et /0 thé%gie, Desclée, París, 1962, p . 172.

24. Sermo 118 , 1: PL 38,672 .

15.ln EV . Jo . Tract . 29 , n . 6: PL 35 , 1630-1631 .

Cf . também Ennarrationes in Ps . 118, 18,3 : PL 37,1552;

De Doctrina Christ i ana, 2, 12 , 1 7 : PL 34 , 43; De Trinitate ,

XV , 2, 2 : PL 42,1058.

16 . Sermo 43 , 7,9 : PL 38,

258. Cf . també m De praedestinatione sanctorum, 11, 5 : PL 44,936; Ennarrationes

in Ps . 118 , sermo 18, n . 3: PL 37 , 1551-1552 ( cit . supra ) , e também na Carta 120 ( que pusemos como LeiCUra no fim do Cap . 4 ) . Mais a frente, no cap. 19 trataremos dessa quest á o e voltaremos a Sto . Agostinho e a sua dialética raz á o-f é -razáo .

17. Pros/ogion , op . cit . , cap. 1 : Leitura no fim deste capítulo.

18. De Trinitate,

prólogo, referido supra na Leitura no fim do Cap . 1.

19. Melchior CANO, De /oeis the%gicis , 1. 1, cap. 2.

35

34

t uta rá (frustra sudaveritl a q ue le que pretender abrigar os celestes arcanos da

religiao a se ad ap t a r e rn a nossa raZaO,,30.

nesses testemunhos se depreende claramente que a teologia é realmente o

discurso de neus, rnais que um discurso sobre Deus. Ela se faz a partir de Deus e

nao tanto em torno de neus,

poderíamos dizer que a teologia é "palavra de Palavra": é um talar a partir do

talar mesmo de neus. Nesse sentido, é um "discurso de segunda ordem". Seu objeto é um sujeito, urna pessoa, "Alguérn':". Deus é o sujeito eterno da teologia.

A palavra teológica nao passa de um eco humano da Palavra divina.

RESUMINDO

1 . A teologia nasce do coracáo da própria fé. É, na deflnicáo felicíssima

de Sto. Anselmo, "a fé que ama saber". Igualmente o amor, que nasce da fé, deseja saber as razóes por que ama. Tal é a dupla fonte objetiva da

teologia.

2. Quanto a fonte subjetiva da teologia, é o próprio espírito humano

que "deseja naturalmente conhecer" (Aristóteles), e disso nao estáo ex-

cluídas as coisas da fé.

3. Toda a pessoa de fé, na medida em que procura entender o porque

daquilo que cré, é, a seu modo e a sua medida, "teóloga".

4. Em sua raiz mais profunda, a teologia nasce da fé, entendida em sua

unidade como novo nascimento, mais simplesmente como conversdo. um ser profundamente transformado pode verdadeiramente ter acesso

aos mistérios divinos.

5. A fé é urna realidade unitária, mas é também complexa.

E é segundo

essa complexidade que a fé é fonte, objeto e fim da teologia. De fato, a fé

compreende:

- um elemento cognitivo: é a fé-palavra:

- um elemento afetivo: é a íe-experiéncia;

- um elemento ativo: a fé-prática.

\ 30. Instauratio

ma gn a , 1 . 11 I ,Ca p . 2, 1S; cf. a ind a cap. 4.

31 . C f . K arl BA R TH, rntroduc é o d teolog i a evangéli c a , S in o d a l , ss o L e opoldo, 1977, p. 128 -129 (orig. al . tvz - vertag, zurique , 1962 ). Damos esse texto como Le í cur a no f i nal do cap . 4 .

6. Há urna relacáo í nt ima, orgáníca entre fé e teología. Esta é a "fé em estado de cie n ci a ".

7 . A f é sempre vem antes da teología e tem o primado

absoluto s obre

eta, com o m ostra toda a tradicáo teológica, na linha do "cré para entend e r"

de Agost ínho e que Anselmo retomou em seu "creío para entender".

EXCURSO

A FÉ COMO PRECONDI<;ÁO PARA TODA COMPREENSÁO

Que a teologia tenha na fé seu pressuposto

Ant es i sso é condicéo de sua possibilidade,

nao é algo que depon ha contra e l a .

no caso d o

e nao perversáo.

como

prec once i to . Veremos i sso ma i s em detalhe no capítulo seguinte . Ora, o fato de a teo l og i a

pre ssupo r a fé é apenas um caso de uma

hum a n o. Se nao o que, vejamos .

situacáo mais geral do comportamento

A f é pode muito bem ser entendida como uma atitude humana geral face a rea li dade

e

a o seu

sentido . É a "fé antropológica",

qua l itativamente diferente, é claro, da "fé

sa

l víf ica".

A "fé antropológica"

é um crédito de confianca

que se dá as coisas que se

quer conhecer. É uma abertura e predisposicáo positiva do espírito frente ao mistério do

mu ndo. É uma forma de amor . Essa postura humana básica se exp r ime em vários níveis .

1 . N í vel pessoal

Sem um mín i mo de fé, a vida interpessoa l e soc i al se t orna i mpossível . A chamada

"b

"pr eco n ce i to f avoráve l" ou o "nao j u l g u e i s" de J esus sáo out r as express6es dessa conf i anca

pré v i a q u e se deve ter em outrem. É nessa pressuposicáo de fundo que se base i a o famoso

a priorijurídico da "presuncáo de inocencia", reconhecido, a li ás, na "Dedarac á o dos D i reitos

Hu manos" (art . X I ). Aa contrário,

e t orna i mpossível a coexistenc i a pac í fica entre as pessoas.

o a-f é"

é um a at i tude

necessar i a m e n te

p r ess u pos t a em t oda convivencia social. O

a suspeita sistemática envenena as relacóes i ntersub j etivas

Aqu i va l e sobretudo a epistemologia

agostiniana:

Amor dat novos o culos. Diz

A g os t inho: "Nenhum bem se conhece se n ao for perfeitamente arnado":

"segredo" que a raposa deixou para o Principezinho:

essencial é invisível aos o l hos" : " .

Era o

O

"SÓ se ve bem com o coracáo

31. De d i ve rsis quaes ti onibus,

33 . An t ain e de S AINT-E X UPÉRY, O pequeno p rínci p e, ca p . 2 1 , Agir, Ria de janeí ro, 1972, 15 ' ed. , p . 74 .

83, q. 35, n. 2.

3

7

36

usado nas r e lac óe s i n te rpe ssoa is,

so b ret u do d e tip o e du c at ivo. C ompr een d e r aí sig n i f ica efet i vamente e nt e nd e r a situacáo

de u ma pesso a a p a r t ir

É es t e, a l iás , o s entid o co mum d e "c o rnpr ee nd er "

d

e um a a tit u de d e s im patia e am o r.

ex tr e m a ment e r aciona li zada e m se u s pro c essos, n a o

di spe n sa, a nt es e x i g e para funcion a r, um c r é dit o

abstra t os" de qu e e s t a m os cerca d os , d es d e o f a t o de ace n de r a lu z e l é tri c a , até u sa r

programas de co mput a d o r , p assa nd o pe l o u so d os meios de t r a n spo rt e, o u de comuni -

cac;ao (tele f one ,

sua lógica comp l ex a . Ac r e dit a m os si mpl es m e nt e qu e fu ncionem e é n essa co nfianca,

sempre ar ri sca da, qu e os adquirim os e u sa m os " .

M es m o a s oc iedade m o d e rna,

in ic i a l de co nf ia n ca.

O s "sistema s

f a x, e t c . ), sáo utiliz ados ou o p era d os por n ós s e m ente n de rm o s

b e m a

2 . Nível harrnenéutico

Toda l e itu ra pro vei t osa ex ig e um " l e it o r be n évo l o"

e nao u m censo r o u inqui s idor .

O s ent i do de um t e xt o

só se l i b e r a q u ando se a d o t a e m relacáo a e l e

uma predisposicáo

"Eu afir m o co m t o d o o v i gor que a reliqiáo cós mi ca é o móve l m a i s p o d eroso

e

m a i s ge n ero s o da p e squ i sa c i entífica .

(

) O es pí r ito c i e n t í fico

n ao exis t e

se

m a religios id a d e có s rn i ca" :"

M ax P l a n ck ( t 1 9 47 ), a ut o r da teo r ia quántica,

a firm o u a esse pr opós it o:

"Aq u e l e q u e rea lm e nt e

con t r i b ui u alg um a vez a construcáo

da c i e n c i a s abe

por próp ri a expe r ie n c ia interna qu e n a porta de e ntr ada da mes m a

c i e n c i a h á

um a esc r i t a , q ue nao é visí v el d e fo r a, mas q ue é insubs t i t uível:

a f é

q u e ol h a

para fr en t e . Di fici l m e nt e

tacáo t en h a p rovocado

d e su por n e n hum r e qui sito prévio.":"

p o de r á h ave r um a p r opo s i c á o

t an t o m al co m o a q u e

c uj a er r 6nea int er pr e-

garante q u e a c i enc i a nao há

Fal a n do m a i s si m p l es mente,

um c amp o d e f i n i d o

da c i e n cia só s e ab r e por o br a e

qraca d e

um a decisáo s ubj e ti v a , i sto é, por algo a nt e ri o r ao se u desve l a me nt o ci e n tífi co.

" O d i sc u rso cie nt í f ico

h

o j e - se b ase i a

- diz J . L a dri e r e , um dos m aio r es f ilóso f os da c i e ncia

num a es co lh a

p or um ti po

ca r ac t e r ís t ic o

de at it u d e

favor áve l .

i

n t e l ect u a l , , 39

O pró p r i o "círc u l o

h e r r n e n é uti co "

nao des l a n c h a senáo na ba s e da antecipacáo

d o

se n t id o . Sen t e ncia Ala i n :

pr e ciso cr e r ante s

so b e s ta condicáo pod e r e i s co mpr ee n de- l o,, 3s

Jur a i a nt es e po r provisáo q u e Platáo

di z a v erdad e;

3. N ível científico

Na raiz de toda

in v e s tiqac áo

c i en tíf ica

h á u ma a p os t a

d e f é : ac redita-se

n a

ra c ional i da d e d a naturez a ,

"o r d e rn na t u r a l" qu e pr es id e as coisas e de qu e ex i s te uma " h ar m o n ía

(G.W . L e i bni z ) e ntr e a raci o n a l ida d e do nosso cé r e br o e a ordem do rnund o " .

i s t o é. d e q u e e l a é governa d a

po r l e i s , de qu e e x iste um a

pr ees tabele c id a"

Sabe - se

q ue A . Ein s t e in ( t1 955)

c h a m ava

essa f é pré - ci e nt í fi ca

e ao mes m o t e mp o

transcie n t í f i ca

d e " r e ligi os id a d e

cós mi ca". E i s s u as p a l av r as :

34.

Cf . Anthony GIDDENS,As conseqüéncias da modernidade , UNESP,sáo paulo, 1991,

cap . 4, p . 1 15 - 150 .

35.

AlAIN, Pr o pos sur le Christianisme , Ed . Rieder, parís , 1927, p . 12 2 .

36. Cf . um dos pais da cibernética Norbert W I ENER, Cibernética Y sociedad, Sudamer i ca n a, B uenos

\ Aires, 1958, ca p . 11. Cf . tam b ém o teó lo g o p r o t e stante L . GILKEY, Re l igion a n d s cientifi c fu t ur e, trad.

apud

it . 11dest i no d e l l a re ligio ne n e ll 'etó te cnolo g i ca,

Battis t a MO N DIN, As teolog i a s do nos s o t e mpo , p a ulin as , sao pa ul o, 1 978, p . 193-194 .

Ed. A rmando, Roma , 19 7 2 , e s pec . p . 8 3 e 8 6,

LEIT U R A

STO . ANSELMO DE C ANT U ÁRIA :

Incitac;ao da mente él conrempkrcdo de neus"

«Ei a, v a m os , pobr e homem! Foge por um pouc o as tuas o c up ac ó es, esco n -

d

e-te do s t e u s p e n sa m e ntos tumultuados , afast a a s tu as grav es preocup a c óes e d eixa

d

e l ado as tu as tra b a lho s a s inquietudes . Busca, porum

mome nt o, a D e u s e d es can s a

u

m pou co n e l e . E ntra no e s conderijo da tua ment e, aparta- t e d e tudo, exce to d e

37 . Alb ert EINSTEIN, Como vejo o mundo, Nova Fronteira, Rio de janeíro, 1981, p . 22-23.

38 . A pud Wolfgang BEINERT,lntroducción a la teología, Barcelona, Herder, 1981, p. 106 ( orig. al. Wenn

Go n ZU Wort kommt , Herder , Friburgo/BasiJéialViena,

1978).

39 . I ean lADRIÉRE , A articulac ; óo do sent i do, EPU/EDUSP, s á o Paulo, 1977, p. 134 .

40. Pr oslógio ( 1078 ) , cap. 1 : PL 158, 225 - 227 , trad. apud Col . Os Pensadores , Abril,

sáo PauJo, 1979, p .

99-101 . Parte deste texto constitui a 2 ' leitura

da s horas . O Iivro citado contém o famoso " argumento ontológ i co ". As circunstanc i as dessa

intuicáo, surg i da em p l ena noite , mostra-nos em Anse J m o um teólogo apaixona d o . C o m e f eito,

co m o conta Eadmero na B iografia do santo 0, 26) , sua busca ardénte

e auto-evidente, q u e prov asse a existen cia de Deu s , c o n v e r te u-se par a eje num a

ob sess á o , que o

di straía na oracáo,

tentac á o . Contudo , o "pai d a esc olás t ica", com o é c onsi d erado,

de sexta-feira da l ' semana de Advento da Liturgia

p o r u ma c h a v e t e ór ic a , única

para e l e um a v e rdad e i ra

I he t ir a v a o a p etite e o sano, a p o n t o de tornar-s e

foi també m um pas to r prof é tico ,

38

De u s e d aquilo qu e po d e l evar-te

a e l e, e, fec h ada

a porta, procura-o .

Ab r e a e l e

todo o teu coracáo e dize- lh e:

"Q u e r o

t e u rosto ; busco com ardor teu

rost o, ó

Se nh or" (S I 26,8) .

 

Eis-me,

ó Sen h or

meu D e u s, e n si n a,

agora,

ao

meu coracáo onde

e como

procurar-te , onde e como enco n trar-te.

se estás ausente, o n de poderei e n co n tra r-t e?

te vejo aqui? Certamen te h a b itas urna lu z inacessível.

inacessível?

morada cheia de l u z para q u e a l i possa e n xergar-te?

Se n hor, se

nao estás aq u i, n a minha m ente;

Se tu estás por to d a p arte, por q u e nao

Mas on d e está essa l uz

E como c h egar a e l a? Que m me l evará até l á e me intro du zirá

n essa

Nunca te vi, ó Senhor meu Deus. Senhor, eu nao conheco o t e u rosto . Que fará,

ó Senhor, que fará este teu servo táo a f astado

ansioso pelo teu amor e, no entanto, lancado táo l o n ge

rosto está demasiado longe dele. Deseja aproximar-se

inacessível . Arde pelo desejo de encontrar-te,

por ti, e nao conhece

nunca te vi. Tu me fizeste e resgataste,

entanto, nao te conheco

aquilo para que fui criado.

de t i? Que fará este teu servo táo

de ti? A n e l a ver-te, m as teu

é

e nao sabe onde moras. Suspira só

de ti, mas a tua habitacáo

o teu rosto. Ó Senhor, tu és o meu Deus e o meu Sen h or, e

e tudo o que tenho de bom devo-o a ti; no

ai n da. Fui criado para ver-te, e até agora nao consegui

( ) E tu, Sen h or, até q u a nd o, até q u a n do, ó Se nh or, ficarás esquecido

d e nós?

Até q u ando conservarás o te u rosto afastado de nós? Quando iluminarás os n ossos

ol h os e nos mostrarás o teu rosto? Quan d o voltarás a nós? O lh a p ara n ós, ó Sen h or.

Escuta - nos,

de termos, nova m e n te,

de nossos sofrimentos e esforcos para c h egar a ti, pois, sem ti, n ada po d emos .

Convida-nos, ajuda-nos, Senhor. Rogo - te que

meu suspirar por ti, mas respire dilatado meu coracáo n a espera n ca. Rogo-te, ó

Senhor , consoles o meu coracáo amargurado pela deso l acáo. S u p l ico-te, ó Senhor,

nao me deixes insatisfeito após cornecar a t u a p r ocu ra com tan ta fome de ti.

Famélico, dirigí-me a ti : nao permitas que volte em jej u m. Pobre e miserável que

i l umina os nossos o lh os, mostra-te

a fe l ici d ade,

a nós. Vo l ta para j un to de nós, a fim

po i s, sem ti, só h á dores para n ós . Tem p iedade

o me u desespero

n ao destr u a este

qu e, quando ar cebi s po d e C ah tuári a , enf r entou com desas s ornb r o o s a busos do s doi s reis norman - dos : Guilherme 11(t 11 00 ) e Henrique I ( t 111 O ) . Contudo, a inquietac ;:a o t eológica nunca o deixou . Ainda no leito de morte , avisado de que seu fim se aproximava , disse : " Se tal é a vontade de Deus

obedece r ei de bom grado . Mas se quiser deixar-me entre vós até que termine

me preocupa o espírito, relativa

uma questao que

á origem da alma, ficaria rnuito agradecido a Ele, pois nao sei se

39

so u , fui em busca do rico e do misericordioso:

e d ecepcionado.

o S s u s pi ros.

nao permitas que retor n e se m n a d a,

E se suspiro antes de comer, faze com que eu ten h a a com i da a p ós

 

Ó Se nh or , encurvado

como sou , n e m pos so ver senáo aterra:

ergue-me,

po i s,

para que possa fixar com o s olho s o alto . As minhas iniqüidades

elevaram-se

por

c

ima d a min h a cabeca , rodeiam-me por toda parte e me oprimem como um fardo

p

esado. Livra-me delas , alivia-me desse

peso, para que nao fique encerrado como

de t á o lo n ge e d es t a

pr of u nd i dade . Ensina-me como procurar-te e mostra-te a mim que te procuro. Po i s,

num POyo. Seja-me perm i tido

enxergar

a tua l uz, embora

se qu er pos so procurar-te se nao me ensinares a maneira, nem encontrar-te

se nao

t e m ostr a r es. Que e u possa proc u rar-te desejando-te, en co nt rar- te amando-te, e amar-te ao te encontrar.

e desejar-te ao procurar- te,

e

Ó Se nh or, recon h eco e te re n do gracas por teres criado em mim esta tua imagem

a fim d e qu e, ao reco r dar-me de ti, eu pense em ti e te ame . Mas ela está t á o apaga d a

em minh a m e n te por causa dos vícios, táo embaciada

na

a r e f o rmes. Nao tento, ó Se n hor, pe n etrar a t u a profundidade.

De ma n eira alg u ma

a minh a i n tel igencia amo l da-se a e l a, mas desejo, ao menos , compree n der a t o a

verd a d e, q u e o me u coracáo

pe l a névoa dos pecados ,

q u e

o co n segue a l cancar

o f i m para o qual a f i zeste , a menos que tu nao a renoves e

cré e ama. Com efeito, nao busco compreender

para

crer, m as c r e i o para compreender (non enim quaero in t elligere, ut credam ; sed

c r e d o, ut inte l ligamy. Efetivamente

compr ee nd er.»

creio, porque, se nao cresse , nao conseguiria

41

capí tu lo 3

O QUE ESTUDA A TEOLOGIA E EM QUE PERSPECTIVA

De que trata a Teologia? Qual é seu tema ou seu assunto? E como t r ata

esse tema ou assunto? Como se ve, estamos aqui nos questionando sobre

o objeto da teologia e sobre sua perspectiva própria.

Tomamos aqui a teologia como urna ciencia, mas nao decididamente em base ao modelo das ciencias empírico-formais, como as vezes se tende

sui generis. É um

saber ou disciplina que tem urna analogia estrutural com o saber científico

em geral . Poderíamos dizer que é um saber "de tipo científico", como

hoje o A teologia é urna ciencia a seu modo, urna ciencia

explicaremos melhor no próximo capítulo.

Ora, para desenvolver a que stá o do objeto e da perspectiva própria da

teologia, partamos da estrutura do saber científico .

ESTRUTURA DO DISCURSOCIENTÍFICOEM GERAL

Elementos essenciais

Todo saber científico, inclusive o teológico, póe em acáo tres elemen-

tos principais:

- o sujeito epistérnico , em nosso caso, o teólogo:

- o objeto teórico, na teologia, Deus e sua criacáo:

- o método específico, que é o caminho para o sujeito chegar ao objeto

visado . Que método seja esse para a teologia: é precisamente esse o tema

do presente Iivro.

Pertence ao entendimento elementar da epistemologia saber que o objeto determina o método. Este está sempre subordinado ao assunto em questáo. Na ciencia, é preciso deixar-se conduzir pela m á o das coisas. Pois é a própria realida d e que ensina o caminho (o métod o ) pa ra s e c heg ar a

\

.

-.

ela. Aristóte le s a s s eve ra : " A cois a a se sa b er é ant enor ao propno sab er e

-----------------------------------------------------------------

é a med i d a d o mesm o '",

de urna ciencia deve c o rresponder a sua mat é ria' " .

próprio d a teologia? Da resposta a esta pergunta

teológ ico.

N a forrnulac á o sintética de Sto. Tomás: "O méto d o

Ora, qual é o objeto

depende o método

um a d istin~ao epistemológica primárla

P artamos da distincáo clássica entre objeto material e objeto formal de

uma ciencia.

1. O objeto material define a coisa de que urna ciencia trata . É como se

algu ém fizesse um "corte vertical" na espessura mesma do ente e delimi - tass e nele urna regiáo, para dela em seguida se ocupar . Trata-se do "que" de um saber (objetum quod).

Sinónimos de "objeto material" sáo: matéria-pr i ma , temática , assunto,

que stáo.

formal indica o aspecto segundo o qual se trata o ente esco-

Ihido . É como se fizéssemos agora um "corte horizontal" no objeto mate-

ria l, a fim de captar-lhe um nível ou camada. Aqui ternos nao o "que", mas si m o "como" de um saber.

2. O objeto

Sinónimos de "objeto formal" sáo: aspecto, dimensáo, faceta , lado, níve l, razáo específica.

1. Metafísica,

1. X (1), cap. 6, 1057a 11- 12, apud Sto. TOMÁS, ST 1, q . 14, a. 8 , obj . 3 : " Scibile est prius

scientia et mensura ejus" . Ver também Ética a Nicómoco, 1994b, 24- 25, trad. da Col . Os Pensadores, Abril, s á o Paulo, 1973, p. 250 : "É próprio do homem culto buscar a precisáo, em cada genero de coisas, apenas á medida que admite a natureza do assunto" .

1. "Modus scientiae debet respondere materia e": In Boetium de Trinitace , q . 6 , a. 1, sed contra . Diz igual-

mente

téria ." Igualmente Hegel: "Para compreender cientificamente, é necessario se deixar conduzir e

l evar progressivamente pela natureza das coisas " : apud Henri MAlDlNEY, Conscience er Significa-

n o n, PUF, Paris, 1953, p . 89. Sabemos que M . Heidegger se levanto u contra a pretens á o de antepór o método as "coisas em si mesmas", propondo antes o seinlassen ( deixar o Ser ser ) , enquanto acolhi - da do que se m o stra em termos de fenomenologia: cf . espec . Ser e rempo, § 7 , V ozes, petrÓpoli s, 1989, 3 ! ed., p . 56s. Também Klaus HEMMERlE insistiu m uit o n o l assen d es Denken, o "pensamento

Das Heilig e u n d das Denken, in B. CASPER - K .

q

HEMMERlE - P . HÜN E R M ANN, Besinung auf das Hei lige, F r i bur g o /Bas iléial Vi e n a , 1 966, p . 22- 25.

na mesma obra ( /ecrio 11): "Em todas as coisas se requer o modo adequado ( compecens ) a rna-

ue deixa" (a real idade se a u tomanifestar):

42

Acontece com as ciencias o que se passa com nossos sentidos ou

faculdades. Assim, por exemplo: a vista ve tudo, mas só sob o aspecto da cor: o ouvido ouve tudo, mas só sob o aspecto do som. E poderi a r no s continuar. Nos exemplos citados, o sabor e a cor constituem objeto formal

de seus respectivos sentidos.

Demos agora mais um passo. Digamos que o objeto formal só é captado a partir de urna perspectiva particular em que se póe o sujeito epistérnico.

A perspectiva é o correlato (subjetivo) do aspecto (objetivo) que se tem

em vista. É chamada na tradícáo escolástica objetum sub quo.

Sinónimos de "perspectiva" sáo: ótica, visáo, ponto de vista, prisma,

ángulo, abordagem, enfoque, interesse e, mais modernamente, pertinencia.

Como se pode perceber, aspecto e perspectiva estáo em relacáo

recíproca . sáo as faces respectivamente objetiva e subjetiva do mesmo processo . Contudo, embora seja verdade que sem se posicionar numa determinada perspectiva nao se pode apreender o aspecto que se preten-

de, é mais verdade ainda que aquilo que, em última instancia, comanda e

e nao o

contrário. A verdade se procura e encontra, nao se inventa ou cria. Na prática, aspecto e pespectiva representam sempre o objeto formal como

cara e coroa.

Demos o exemplo do tema ou objeto material "terra": a partir de urna perspec t iva determinada capta-se dele um aspecto específico ou objeto formal . A figura seguinte mostra diferentes personagens que se relacionam corn a terra ( objeto material) a partir do interesse específico de cada um deles (objeto formal):

determina a perspectiva é o aspecto . É o ser que mede a razáo

Geógrafo

plan e ta

•.

Fazendeiro

1 ne g ócio

8

1 cuidado

Ecolo g ista

font e d e vid a

Indígena

43

--------------------------------------------------------------

ESTRUTURA D O D I SCURSOTEOLÓGICOEM PARTICULAR

o objeto ma ter ia l da teologia

D e q ue trata a teologia? De Deus e tudo o que se refere a ele, isto é, o

universo: a críacáo, a salvacáo e tudo o mais . E isso está já na

palavra mesma de "teologia": estudo de Deus . Mas como Deus é o "Deter- mina nte de tudo", entáo, qualquer coisa pode ser objeto de consideracáo

do teó logo. Deus, com efeito, pode ser definido como "a Realidade que

dete rmina todas as realidades'".

um "objeto " entre outros. materialmente distinto de

tudo o mais. Antes, ela toma como "objeto" aquela dimensao da realidade que d iz respeito ao Sentido supremo e por isso totalizante de tu do e de cada c o isa. Ela toma por tema o horizonte de sentido omnicompreensivo ou om nienglobante de tu do.

Na verdade, a teologia nao tem por objeto Ela na o estuda um "pedaco" da realidade total,

mundo

Co ntudo, importa dizer que Deus é o objeto primário (melhor, primeiro) da teo l o gia e, tudo o mais, objeto secundário (melhor, segundo). E é natural , pois a teologia nao pode pór no mesmo nível o Criador e a criatura, como diz Tom ás de Aquino:

"A teologia nao trata por igual (ex aequo) de Deus e das criaturas, mas de Deus principalmente (principaliter) e das criaturas (somente ) na

medida em que se relacionam com Deus como a seu principio ou firn'" .

N esse sentido, os escolásticos diziam que Deus era o "sujeito" da

teolog ia. Sujeito vale aqui por tema de fundo ou objeto formal . Nesse caso,

tudo o mais em teologia é "objeto".

P or que tal assimetria? Pela simples razáo de que o Criador é infinita-

men te transcendente em relacáo a qualquer criatura. Diz o Vaticano 11:

"Sem o Criador, a criatura esvai-se. ( .) E, pelo esquecimento de Deus, a própria criatura torna-se obscura" (GS 36,3).

3 . De fi n icáo epistemol ógica de Wol f h art PANNEN B ERG, E p istem olo gia e Te ologia, Qu erin ian a, Bres c ia,

197 5, p. 2 8 7 e p assim.

4 . S T 1, q . 21, a. 3 , a d 1.

44

poderíamos falar, com outras palavras, assim: Deus é O objeto "princi-

pal " da teologia; tudo o mais é objeto "conseqüencial " . De fato, a fé diz respeito em primeiro lugar a neus, e das demais coisas só por conseqüén-

cia, ou seja, por causa de neus . Diz Sto. Tomás:

l/A Verdade teológica (divinae cognitionis) se refere em primeiro lugar e

principalmente (primo et principaliter) a própria Realidade incriada ; e as

criaturas como que conseqüencialmente ( quodammodo consequenter),

en quanto , con h ecendo-se aquela , se conhece tudo o rnais ' " .

o objeto formal da teologia

Como expressar o objeto formal da teologia? Poderíamos expressá-Io

d i zendo que é " Deus enquanto revelado ". Ora, o Deus revelado é o Deus

bíblico , o Deus do Evangelho, o Deus salvador .

tutero nao dizia outra coisa quando, em sua Iinguagem existencial,

af i rmava que o tema próprio da teologia cristá é o " homem perdido e o

D eus salvador:" .

Por outras palavras, trata-se sempre de Deus enquanto visto "a luz da

". Essa última expressáo diz a perspectiva pr ó pria da teologia .

Sinónimos aproximativos de "a luz da fé" s á o: segundo a Palavra de

D

eus, de acordo com as Escrituras, do ponto de vista da Revela~ao , aos

olhos da 'rradicáo eclesial, etc .

Tudo isso parece urna evidencia, mas nao é. Pois pode-se considerar Deus ( objeto material ) nao enquanto o " Deus vivo e verdadeiro " ( 1Ts 1 , 9 )

da fé cristá, mas segundo outros pontos de vista . Assim, Deus pode ser visto c omo críacáo cultural , como fenómeno social, como dado psicológico,

como objeto artístico e por aí afora . Ora, urna coisa é Deus na ótica dos

psicólogos ou dos antropólogos, e outra é o Deus dos teólogos e dos fiéis . Um é o Deus da fé, outro é o Deus do marxismo, o Deus das filosofias, das

c u lt u r a s e assim por diante .

5

. De vericace, 14 , 8 , ad. 2.

\ 6. " Theologiae proprium subjectum est horno peccati reus ac perditus et neus iustificans ac salvator hominis peccatoris ": werke, vol . 40/2 , p . 328, comentando o Salmo 51, o Miserere (1532).

45

--------------------------------------------------------------

Todos os outros objetos da teologia - objetos s e c undos - s á o tratados

sob a mesma ótica, ou seja , "a luz da fé " , ou seja, a pa r tir do Deus revel a do. rais assuntos podem ser perfeitamente teologizados na medida em que sao relacionados com o Deus da fé, ou se j a , enquan t o situados sub rati one Dei, "sob o enfoque de Deus'",

O importante e decisivo num assunto qualquer é sempre seu objeto

formal (objetivo ) , ou, por outras, a perspectiva ( subjetiva ) a parti r da qual se encara aquele assunto . Na caso da teolog i a , é a per s pect i va da fé que confere a "cor teológica" a urna reflexáo determinada .

portanto, a teologicidade de um discurso nao cons i ste no seu objeto material, mas sim no seu objeto formal . É esse que determina se um discur- so é ou nao é teológico.

urna ót i ca particular . É ver tudo a luz de Deus . Em

outras palavras : é ver em tudo o Divino : Deus e sua acáo, Pode - se assim di-

zer que o teólogo usa os óculos da fé . Numa outra figu r a , fazer teologia é Cristo nos pegar pela rnáo e nos levar pelo mundo, fazendo - nos ver as co i - sas como ele as ves .

Ser teólogo é assumir

Quadro sinótico sobre o objeto da teologia

Eis urna figura que resume o que foi dito :

TEOLOGIA

------------~

A LUZ DA FÉ

r

~ ~.:-

• DEUS

-

MUNDO

i

Objeto formal

Objeto material

ou perspectiva

ou assunto

(o como)

(o que )

7. Sub rac i one Dei: ST 1, q . 1, a . 7 , c . : sub Deo : ibid . , ad 2 .

8 . compara c á o de Giuseppe COLOMBO , vroteszion e " ce%go" , Glossa, Milao , 1996, p . 56.

47

46

Notar que neus se encontra

tanto

no olhar do teólogo como na

paisagem da teologia . neus ve Deus . Deus fala de Deus. É a Revelac;ao como autocornunicacáo. " Só neus pode falar bem de Deus " ( Pasea! ).Por isso neus é para o teólogo ao mesmo tempo "sujeito" ( vidente ) e " objeto" ( visto ).

Deus é o sujeito eterno da teologia . Por que? Porque a teologia é o

discurso de Deus sobre o ser humano e nao o discurso do ser humano

sobre Deus . Este último discurso é o da chamada "teologia filosófica " mas nao o da teologia cristá ( cf . Cap . 19 ) . A teologia cristá é o discurso da Palavra

de Deus e nao simplesmente da Fé subjetiva dos fiéis . Neste último caso nao ter í amos teo-logía, mas "pisteo - Iogia " : tratado da em Deus e nao

do Deus da fe",

Notemos ainda que , na figura acirna, há urna assimetr i a entre Deus e o mundo . Isso para evidenciar que Deus é o objeto direto ou primeiro da

teologia e o mundo o objeto indireto ou secundo .

ALGUMAS CONSEQÜENCIAS

o ilimitado campo do "teologizável"

Se Deus é o objeto principal da teologia e se tu do tem alguma relacáo com neus , ent á o tudo é teologizável . Nao há coisa s obre a qual nao se possa fazer teologi a . Nao existe uma ciencia posit i va que possua uma esfera de interesse mais largo . É verdade : a filosofia também se estende a tudo na medida em que é definida como a " ciencia de todas as coisas" . contudo , seu ponto de vista formal é outro : ela ve tu do apenas a luz da raz á o natural , enquanto a teologia ve tudo a luz sobrenatural da fé . A filosofia liga tudo a idéia de ser¡ a teología, a de Deus .

Seja como for , nao é porque tudo é teologiz á vel, que se há de teologizar efetivamente " sobre tudo e mais alguma coisa ( de omni re scibili et de quibusdam aliis )" , como ironizava Voltaire . É preciso ver a relevancia histórica ou pastoral de se desenvolver este ou aquele tema em teologia . Na verdade, a prática teológica

assuntos obedecem a oportunidade ou a

tem um caráter kairológico : seus economia da fé na história .

\ ----------------------------

9 . A idéia de "pisteologia" é de Karl BARTH, mtroducdo Ó teologia evangélica, Sinodal, sao Leopoldo, 1977, p . 79.

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A es se propósito, S . Gregório Na z ianz eno , chamado " o teólogo " , insistia muito

no " senso da medida" ( metriótees ), na moderac á o , no equilibrio, que deve haver em toda prática teológica . Para ele, há de se teologizar " com medida" ( rnetrfoos), com humildade e discric á o . Ele elaborou todo um Discurso teológico - o 32 - assim

intitulado: " Sobre a rnoderac á o ( eurcx f os ) nas discuss6es e que nao convém a todos nem em todas as circunstancias discutir sobre a n í vlndade - " .

Teologia é teologia de Deus ou da Iiberta~ao!

O principio de legitirnacáo da " Teologia da Llbertacáo" está exatamen-

te no fato da extensáo máxima do campo do teologizável em geral . contesta-se, as vezes, esta teologia por substituir Deus pela líbertacáo. E declara-se a parti r daí sua i 1egiti m i dade. Mas é confundir objeto material e objeto formal .

A tíbertacáo

e o pobre podem ser perfeitamente assunto da teología,

precisamente na medida em que sáo considerados segundo neus , dentro do projeto do Re i no. O r a, o Deus da teologia é um Deus libertado r.

Mais: o tema pobre e sua líbertac á o possu i urna c onex á o est r eitís - sima com o Deus bíblico, que " revela-se a S i mesmo como o defensor dos pobres e o libertador dos oprimidos ? " . Essa é urna temática capital em toda a Bíblia . Se o pobre nao é o centro da fé, mas sim o Deus libertador, nem por isso é menos centra l , por estar perto daquele centro. Se o pobre nao constitui e nem pode constituir o objeto primeiro da teolog í a, está , contudo, entre os primeiros "objetos secundes " , se assim se pode dizer.

10. Discours th é oJog i que s, Col . Sou rces Chr ét i ennes 3 18 , Cer f , Paris , 1985, p . 81/82 - 154/155 . o contexto é o ambiente de d i scu s s6es a c i rr a d a s no perí odo entr e os Concilios de Nicéia ( 325 ) e de Constant i - nopla ( 381 ). G r egório vi s a Eunómio ( t ea. 392 - 5 ) , inteligente bispo capadócio de Cízico, e em geral

os arianos , que d es andavam dialética .

a teologizar d e sabridament e e reduziarn a teologia a me r a " tecnologia "

11. SíNODO DOS BISPOS 1971 , A justj¡ ; a no mundo, n . 30 ( Documentos Pontifícios, n . 184 , Vozes, Petrópolis ). Cf . também CONGREGA<;:AoDA DOUTRINA DA FÉ, Instru~ao sobre a liberdade crista e a liberta~ao ( Libertatis Conscientiae , 1986 ) , todo o cap. 3, n . 43-60 ( Documentos Pontifícios, n. 207 , Vozes, Petrópolis ) .

49

48

Materia li smo epistemológico

Decidir do objeto da teologia a partir simplesmente do seu objeto material é

cair no "materialismo epistemológico". E isso acontece sob duas formas:

1. Quando se pensa estar fazendo teologia

só porque se fala de "coisas

religiosas". Aí se dá uma clara reducáo do objeto da teologia. Este fica limitado a seu objeto prirnário. Deixa-se de fora toda e qualquer outra realidade criacional .

A í há um estreitamento do campo temático da teologia . Nao se ve que se pode

perfeitamente falar das coisas do mundo de modo re l igioso .

Essa posicáo, as vezes, é sustentada por um pretenso espiritualismo: o de nao

misturar as coisas sagradas com as profanas. Contudo, aqui também, "quem quer fazer de anjo, faz de fera" ( Pasea\ ) . Pois deixa o mundo, com todas suas realidades,

nao-espiritualizado, portanto, finalmente irredento .

2 . cuando se pensa estar fazendo teologia só porque se fala de Deus, sem reparar em como se fala dele . Dá - se assim a entender que o decisivo é a matéria de que se trata e nao aforma. Na verdade, está - se entá o desenvolvendo qualquer ramo das ciencias da religiáo ( socio logia, antropologia, marxismo, lingüística , etc.),

mas nao teologia para valer .

Mas nesse ponto importa também dizer que a "pertinencia teológica" de uma reflexáo nao está em cada página ou frase do discurso teológico. Está antes no movimento geral da reflexáo, no ritmo do conjunto. O que importa é a íntencao de fundo, o horizonte maior de cornpreensáo. Pois, no fundo, é a pertinencia que dá cor e qualidade teológica as diferentes afirmacóes, que de per si nem sempre

sáo teológicas .

É o que se ve também na Suma Teológica. Aí a teologia aparece como incorpo- rando toda uma série de rnediacóes náo-teológicas, especialmente filosóficas, mas

que ela situa dentro do horizonte maior da pertinencia teológica. Por isso, o grande

medievalista E. Gilson disse que S. Tomás era unicamente teólogo (e nao também filósofo ) , mas que era obrigado a tratar de modo filosófico questóes filosóficas,

exatamente na medida em que isso era exigido pela própria teologia 12 .

TEOLOGIA COMOSABER RADICALMENTE INICIÁTlCO

Mas como obter a perspectiva própria da teologia? Partindo da expe - riencia de fé ( cf. Cap . 6 ). É a experiencia da graca que "abre os olhos" do

11. Apud Paul TOUILLEUX, íntrocucdo a uma teo l ogia crítica, Paulinas, s á o pau lo, 1969 , p. 101.

----------------------------------------------------------~

teólogo . Este se n u tre da "iluminacáo » da fé. A lanterna teológica é o lu men fídeí. A in teligibilidade teológica vem a cavalo da ilurninac á o da fé.

A " lu z da fé" nao é a rigor a Bíblia, ainda que por vezes se cost u me

identif icar as duas express6es. Por que? porque o lumen fídeí é, como toda í tu r n í n ac á o espiritual, da ordem da graca. A verdade da fé e sua

certe z a nao depende de urna autoridade exterior, seja ela a Igreja ou a

Bíblia. A ntes, se a Igreja ou a Bíblia dizem a verdade , só se pode

reconhe ce-Io gracas a "luz da fé" . Se a página bíblica revela algo, é apena s enquanto testemunha da Verdade da Palavra que se auto-revela

gratu it a mente.

O mesmo se pode dizer de todas as autoridades exteriores da fé e da

tea log ia, como os Concilios, o Magistério, os Padres, os Doutores, etc. Todas essas sáo instancias extrínsecas que nao constituem por si mesmas a verdad e da fé e da teologia, mas apenas a anunciam e testemunham . A graca da fé é um dom da misericórdia e da "fiIantropia" divinas. É urna expres sáo da condescendencia divina em relacáo a fraqueza de nossa intelig encia. Ora, é da luz "pística" que se nutre a racionalidade teológica .

Co mo entáo entender os Mistérios divinos sem o auxílio do Espírito?

Pois só Ele "conhece as profundezas de Deus

ningu ém conhece a nao ser o Espírito de Deus" (icor 2,10 - 11). Na verdade,

somen te através do dom infuso da Sabedoria é que podemos apreciar as coisas de Deus e é só pelo dom pneumático da Inteligencia que podemos penetra r em sua profundidade ".

pois o que há em Deus

De que valem entáo os " documentos o Mag istério? Valem como provococóes

como o sopro que ajuda a aricar a chama, mas que nao t é rn a forca de produ zi-Ia 14 . Certamente, o íntellectus fidei vem a partir do auditus fidei -

da fé", como a Bíblia, a rradicáo, a iluminacáo interior da fé. sáo

13 . C f. sr 11-11, q. 8, a . 6, c .

14 . É a cornparac á o

que usa Platao em sua autobiográfica