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SAMIZDAT

www.revistasamizdat.com

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dezembro 2009 ano II ficina
dezembro
2009
ano II
ficina
SAMIZDAT www.revistasamizdat.com 23 dezembro 2009 ano II ficina Unamuno Melodrama e Metalinguagem

Unamuno

Unamuno Melodrama e Metalinguagem
Unamuno Melodrama e Metalinguagem
Unamuno Melodrama e Metalinguagem

Melodrama e Metalinguagem

SAMIZDAT www.revistasamizdat.com 23 dezembro 2009 ano II ficina Unamuno Melodrama e Metalinguagem

SAMIZDAT 23

dezembro de 2009

Edição, Capa e Diagramação:

Henry Alfred Bugalho

Edição de Imagens:

Volmar Camargo Junior Henry Alfred Bugalho

Revisão Geral

Léo Borges

Assessoria de Imprensa Mariana Valle

Autores Barbara Duffles Caio Rudá Carlos Davissara Dênis Moura Giselle Natsu Sato Guilherme Rodrigues Henry Alfred Bugalho Joaquim Bispo José Guilherme Vereza Jú Blasina Léo Borges Mariana Valle Maristela Scheuer Deves Volmar Camargo Junior Wellington Souza

Textos de:

Castro Alvez Cruz e Souza Miguel de Unamuno

Imagem da capa:

http://life.qoop.com/images/110978588

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Editorial

Mais um final de ano se aproxima e a Revista SAMIZDAT está prestes a completar seu segundo ano de existência. Geralmente, este é um período de reflexão e balanço: o que queremos para nosso futuro? Quais serão nossos próxi- mos projetos? O que gostaríamos de fazer que não consegui- mos no ano que passou? A própria SAMIZDAT foi resultado de uma reflexão se- melhante, e a cada ano que se passa, ela se torna mais diver- sificada. Posso dizer até que esta é uma das nossas metas:

ser o espelho da boa literatura que poucos conhecem, reunir num único espaço os grandes talentos dispersos pelos vários países falantes de português. Sinto que, no limite das nossas possibilidades, estamos cumprindo esta missão. Nós, da Revista SAMIZDAT, desejamos a todos nossos leitores um Feliz Natal e um Ano-Novo repleto de conquistas e sucesso.

Henry Alfred Bugalho

Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.

Todas as imagens publicadas são de domínio público, royalty free ou sob licença Creative Commons.

Os textos publicados são de domínio público, com consenso ou autorização prévia dos autores, sob licença Creative Com- mons, ou se enquadram na doutrina de “fair use” da Lei de Copyright dos EUA (§107-112).

As idéias expressas são de inteira responsabilidade de seus autores. A aceitação da revisão proposta depende da vontade expressa dos colaboradores da revista.

Sumário

Sumário Por quE Samizdat? 6   Henry Alfred Bugalho ENtrEViSta   danilo Corci fala sobre a
Sumário Por quE Samizdat? 6   Henry Alfred Bugalho ENtrEViSta   danilo Corci fala sobre a
Sumário Por quE Samizdat? 6   Henry Alfred Bugalho ENtrEViSta   danilo Corci fala sobre a

Por quE Samizdat?

6

 

Henry Alfred Bugalho

ENtrEViSta

 

danilo Corci fala sobre a mojo Books

8

autor Em LÍNGua PortuGuESa ahasverus e o Gênio

12

 

Castro Alves

as devotas

14

 

Cruz e Souza

CoNtoS

 

um táxi da Chuva

16

 

Caio Rudá

um muro de intransigência

18

 

Joaquim Bispo

marca a página

21

 

Wellington Souza

morte & Espelhos

24

 

Ju Blasina

a

dança dos imortais

28

Volmar Camargo Junior

o

incrível Joaquim maria

32

Henry Alfred Bugalho

deus me perdoe, era tudo o que eu queria 36

José Guilherme Vereza

Noite de Chuva

Mariana Valle

invasão nas ondas médias

Léo Borges

40

42

alô, Waldirene? 46 Barbara Duffles 69, o ano que nem começou - Big Bang microcósmico
alô, Waldirene? 46 Barbara Duffles 69, o ano que nem começou - Big Bang microcósmico
alô, Waldirene? 46 Barbara Duffles 69, o ano que nem começou - Big Bang microcósmico

alô, Waldirene?

46

Barbara Duffles

69, o ano que nem começou - Big Bang microcósmico - Capítulo 2

48

Dênis Moura

traduÇÃo E faz de conta

50

Miguel de Unamuno

tEoria LitErÁria Física como matéria-prima para o suspense

56

Maristela Scheuer Deves

rEComENdaÇÃo dE LEitura morte e a morte de quincas Berro dÁGua

58

Carlos Davissara

Crepúsculo

60

Giselle Sato

CrÔNiCa um vestido rosa, tabu e um fenômeno de intolerância coletiva

64

Henry Alfred Bugalho

Eu também quero o meu Septilhão

68

Volmar Camargo Junior

PoESia iminente (poema blavino)

70

Carlos Davissara

desejo e castidade

71

Wellington Souza

Laboratório Poético: indrisos

72

Volmar Camargo Junior

Poesia: Contra o muro

74

Ju Blasina

Escuro 75 Guilherme Augusto Rodrigues Lascívias viáveis 76 Léo Borges Só a semente 77
Escuro 75 Guilherme Augusto Rodrigues Lascívias viáveis 76 Léo Borges Só a semente 77

Escuro

75

Guilherme Augusto Rodrigues

Lascívias viáveis

76

Léo Borges

Só a semente

77

Maristela Scheuer Deves

SoBrE oS autorES da Samizdat

78

Por que Samizdat? “Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por
Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico,
distribuo e posso ser preso por causa disto”
Vladimir Bukovsky
Henry Alfred Bugalho
inclusão e Exclusão
henrybugalho@hotmail.com
se converte em uma ditadu-
ra como qualquer outra. É a
microfísica do poder.
Nas relações humanas,
sempre há uma dinâmica de
inclusão e exclusão.
O grupo dominante, pela
própria natureza restritiva
do poder, costuma excluir ou
ignorar tudo aquilo que não
pertença a seu projeto, ou
que esteja contra seus prin-
cípios.
Em reação, aqueles que
se acreditavam como livres-
pensadores, que não que-
riam, ou não conseguiam,
fazer parte da máquina
administrativa - que esti-
pulava como deveria ser a
cultura, a informação, a voz
do povo -, encontraram na
autopublicação clandestina
um meio de expressão.
Em regimes autoritários,
esta exclusão é muito eviden-
te, sob forma de perseguição,
censura, exílio. Qualquer um
que se interponha no cami-
nho dos dirigentes é afastado
Datilografando, mimeo-
grafando, ou simplesmente
manuscrevendo, tais autores
russos disseminavam suas
idéias. E ao leitor era incum-
e
ostracizado.
As razões disto são muito
bida a tarefa de continuar
esta cadeia, reproduzindo tais
obras e também as passando
simples de se compreender:
o
diferente, o dissidente é
perigoso, pois apresenta
alternativas, às vezes, muito
melhores do que o estabe-
lecido. Por isto, é necessário
suprimir, esconder, banir.
adiante. Este processo foi
designado "samizdat", que
nada mais significa do que
"autopublicado", em oposição
às publicações oficiais do
regime soviético.
A União Soviética não
foi muito diferente de de-
mais regimes autocráticos.
Origina-se como uma forma
de governo humanitária,
igualitária, mas
Foto: exemplo de um samizdat. Corte-
sia do Gulag Museum em Perm-36.
logo

E por que Samizdat?

A indústria cultural - e o

mercado literário faz parte dela - também realiza um processo de exclusão, base- ado no que se julga não ter valor mercadológico. Inex- plicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maio- res do que o lucro.

A indústria deseja o pro-

duto pronto e com consumi- dores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mes- mo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado.

E a autopublicação, como em qualquer regime exclu- dente, torna-se a via para produtores culturais atingi- rem o público.

Este é um processo soli- tário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes apa- ratos midiáticos - como TV,

revistas, jornais - onde ele possa divulgar seu trabalho.

O

único aspecto que conta é

o

prazer que a obra causa no

leitor.

Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro lado, concede ao criador uma

liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua pala- vra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros,

é quem recebe os louros por seus acertos.

E, com a internet, os au-

tores possuem acesso direto

e imediato a seus leitores. A repercussão do que escreve (quando há) surge em ques- tão de minutos.

A serem obrigados a

burlar a indústria cultural,

os autores conquistaram algo

que jamais conseguiriam de outro modo, o contato qua-

se

pessoal com os leitores,

o

diálogo capaz de tornar a

obra melhor, a rede de conta-

tos que, se não é tão influen-

te quanto a da grande mídia,

faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há gran-

des tiragens que substituam

o prazer de ouvir o respal-

do de leitores sinceros, que

não estão atrás de grandes autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos.

Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pós-

modernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição que vise rotular e definir a

orientação dum grupo. São apenas escritores interessados

em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim

a heterogeneidade.

Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de auto- publicação, mas “Samizdat” porque também é um modo

de contornar um processo

de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica mensal, escrita, editada e publicada pelos integrantes da Oficina de Escritores e Teoria Literária. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profis- sionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

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poemas, resenhas literárias e muito mais. www.revistasamizdat.com www.revistasamizdat.comwww.revistasamizdat.com 77

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poemas, resenhas literárias e muito mais. www.revistasamizdat.com www.revistasamizdat.comwww.revistasamizdat.com 77

Entrevista

danilo Corci fala sobre a

mojo Books

Danilo Corci

É jornalista e começou sua carreira

no Jornal de Jundiaí, rumando de-

pois para a Folha de S.Paulo. Criou

a revista cultural Speculum ao lado

de Renato Roschel. Também criou e dirigiu a redação do portal BrTurbo, da Brasil Telecom. Em 2007 fez sua primeira incursão literária com a novela Black celebration, publicada pela editora Mojo Books. Em março de 2008 lançou sua segunda aven-

tura literária, agora um microconto, Sympathy for the devil, também lan- çado pela Mojo Books. Atualmente

é redator da agência publicitária

JWT. Um dos fundadores da Mojo Books, ao lado de Ricardo Giassetti.

Mojo Books

A MOJO é uma editora 100% digital. Sua proposta é simples: Se música fosse literatura, que história contaria?

www.mojobooks.com.br

http://farm1.static.flickr.com/135/402660235_e0b6baa65c.jpg
http://farm1.static.flickr.com/135/402660235_e0b6baa65c.jpg

SAMIZDAT - Comecemos pela pergunta que não pode deixar de ser feita:

de onde surgiu a ideia de preparar livros inspirados em álbuns musicais?

Danilo Corci - A ideia vem de uma inspiração anti- ga. Na década de 90, eu e

o Ricardo tínhamos uma

banda que fazia justamente

o contrário: pegava livros e

musicava. O tempo passou,

a banda acabou e nós con- versávamos sobre montar

uma editora. Como estáva- mos muito ligado ao mun- do digital, a escolha de uma editora digital foi natural. E, entre tantas conversas, acabou surgindo a ideia de fazer uma coleção de livros inspirados em música e dai surgiu a MOJO.

SAMIZDAT - Imagino que

vocês devam receber inú- meros textos de autores estreantes que gostariam de publicar com vocês.

SAMIZDAT dezembro de 2009

Como funciona o projeto de seleção de um mojo- book? Qual é a exigência ao

Como funciona o projeto de seleção de um mojo- book? Qual é a exigência ao escolherem um texto para publicação?

DC - Recebemos muito

material, alguns claramente fora da proposta e que o autor manda porque já tem um livro escrito e tenta encaixar, o que geralmente não dá certo. Basicamen- te, chegando um livro, ele passa por uma leitura crítica para ver se vale a publicação ou não. Valen- do, vai para uma primeira edição onde algumas falhas são corrigidas. O material volta pro autor retrabalhar e assim vai até que tanto o

autor como nós da MOJO estejamos satisfeitos. Dai o livro cai no fluxo normal de publicação, que passa

por revisão, capa, etc

verdade, é um processo editorial tradicional.

De

SAMIZDAT - Quais são as vantagens do e-book em comparação ao livro im-

presso? E as desvantagens? Como tem sido a recep-

ção

do leitor brasileiro?

DC

- Vejo muito mais van-

tagens do que desvantagens.

O custo é menor, bem me-

nor, é possível arriscar mais por conta disso. A única desvantagem que vejo são

os detratores do livro digi-

tal que ficam com aquele papo chato de ‘cheirinho de

papel’, ‘o toque’, blablablá.

E dá mesmo pra dizer que

é blablablá porque a re-

cepção do público é ótima, temos uma base de mais de 80 mil leitores, cada livro consegue mais de 10 mil downloads, em média, um volume bem grande perto do mercado editorial tradi- cional.

SAMIZDAT - Um dos desafios da Literatura no século XXI é descobrir como lucrar com algo tão facilmente “pirateável” quanto o livro digital.

Qual é o caminho, na opinião de vocês, que o autor que deseja se inserir no universo dos e-books deveria trilhar, caso quei- ra sustentar sua carreira através deste formato?

DC - A pirataria não acaba com o modelo de negócios. Os valores serão revistos para baixo, autores pode- rão ganhar mais. Aqui no Brasil é um pouco mais complexo porque brasileiro tem mania de não querer pagar por bem cultural. Num primeiro momento, este mercado será bancado por publicidade, seja no livro, seja de uma maneira

bem feita de merchandising

(como o filme O Náufrago, por exemplo). SAMIZDAT - Na listagem dos 5 mojobooks mais
(como o filme O Náufrago,
por exemplo).
SAMIZDAT - Na listagem
dos
5 mojobooks mais
baixados (o Mojo Top 5)
podemos encontrar Be-
atles, Amy Winehouse,
Rolling Stones, My Che-
mical Romance e Bauhaus
na parada.
A
que vocês atribuem
esta hierarquia? Ela refle-
te
as predileções musicais
dos
leitores, ou indicam a
popularidade dos autores
dos
mojobooks?
DC
- Gostando ou não, a
visibilidade do material ain-
da está apoiada na banda
escolhida. Então este top 5
da MOJO reflete mesmo a
preferência musical e não
literária. Justamente por
saber disso que criamos
a coleção MOJO+, onde o
foco de divulgação é sem-
pre sobre o autor.
SAMIZDAT - Há algum
projeto de publicar al-
gum livro impresso com
os mojobooks? Caso sim,
como funcionaria?

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9 9

DC - De verdade, não temos planos de ir para o impresso não. Obviamente somos uma editora tentan- do sobreviver no mercado, então se houver alguma oportunidade isso pode ser possível. Mas para a gente ir pro impresso só se for em um esquema bem feito de print on demand ou parceria com alguma outra editora.

ro pagaria

por

algo que

pode ter de

graça?

- O Brasil

- O Brasil

DC

é

bem um

caso a parte neste universo.

música, mais quadrinhos, terminar a migração para

Não só pelo poder aquisiti- vo menor, mas pela cultura

de não pagar. O modelo brasileiro pode comportar algo assim, mas as chances dos resultados serem pe- quenos é muito alto. Pelo

celular e começar a inva- dir outras mídias, como o audiovisual. Mas como temos um modelo de negó- cio novo, vamos com calma fazendo as coisas com a consistência que devem ter.

 

que vejo e tenho aprendido em quase 3 anos de MOJO

 
 

que o modelo publicitário dende a trazer melhores resultados.

é

A equipe da Revista SAMI-

ZDAT agradece ao Danilo Corci.

SAMIZDAT - O livro digital é um formato que veio para ficar? Podemos

 

prever o fim do livro im-

presso?

DC

- Que veio pra ficar é

SAMIZDAT - Em 2007, a

óbvio, custa menos, é possí- vel lançar mais, etc. Se vai ser o fim do impresso? Não necessariamente. Hoje tem

MP3, CD, mas o vinil ainda existe. A diferença é que as editoras provavelmente vão lançar impressos de ‘luxo’, coisa mais elaborada, edi-

ção de colecionador, mais cara, com lucro maior. E o jogo segue.

 

banda Radiohead lançou

o

álbum “In Rainbows”

primeiro na internet, sen- do que os fãs poderiam pagar o quanto quisessem pelo download. Nos EUA,

o

autor Cory Doctorow

publica tanto em meio digital quanto impresso, sendo que seus livros podem ser baixados gra- tuitamente na internet. Estes dois modelos, ligei- ramente diferentes, pode- riam ser reproduzidos no Brasil, seja na música ou na Literatura? O brasilei-

Coordenação da entrevista:

SAMIZDAT - Quais são os planos para a MOJO Books no futuro?

Henry Alfred Bugalho

DC

- Temos vários planos.

Lançar livros inéditos que não tenham nada a ver com

 

10 SAMIZDAT dezembro de 2009

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http://www.lostseed.com/extras/free-graphics/images/jesus-pictures/jesus-crucified.jpg

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grátis

Ele tinha diante de si

a mais difícil das

missões:

cumprir a vontade de Deus

Quase um ano após o início das mortes, passava pela região um viajante austríaco, excepcional estudante de música, chamado Wolfgang Ama- deus Mozart. Quando soube da maldição, não se alarmou, disse apenas

que gostaria de ouvir o tal concerto fúnebre e de conhecer o seu autor. Foi alertado de que a história era verdadeira, de que as pessoas já não queriam mais estudar música, e ele poderia ser o próxi- mo, e o dia fatal estava

se aproximando disso o espantou.

Dia vinte e oito, “Toca- ta e Fuga em Ré Menor”, tudo como haviam dito,

e

Nada

lá estava Mozart den-

Henry Alfred BugAlHo

nome de “O Canto da

sua visão ao concertista. Aquela mesma figura ca-

Canto da sua visão ao concertista. Aquela mesma figura ca - ficina www.oficinaeditora.com mais rápido que
ficina www.oficinaeditora.com

ficina

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mais rápido que pôde, sem olhar para trás. O som de sua composição servia de trilha sonora para a fuga, enquanto ele pensava como, até o momento, aquela música nunca havia lhe parecido tão viva e tão mórbida. Prometeu não mais tocá- la.

No dia seguinte, o jovem Mozart já não se encontrava pela cidade. “Mais um levado pelo Canto da Sereia de Bach”, diziam. Contudo, soube- se na hospedaria que ele havia partido durante a madrugada, são e salvo, após o sinistro concerto. No cemitério, ao invés do esperado músico morto, foi encontrada apenas uma inscrição na terra, parecida com o trecho de alguma partitura. Desde então, não se noticiou mais vítimas do “Canto da Sereia de Bach”.

davérica, que levara tan-

tos a sucumbir, apontava-

lhe seus terríveis olhos

ausentes. E como todos

outros, também Mozart paralisou-se. Junto à ima- gem macabra, sentiu o cheiro da putrefação. As náuseas dominaram-no, o que o fez libertar-se da paralisia, caindo de joe- lhos a largos vômitos. Em meio a engasgos, tosses e ânsias, ouviu a frase mor- tal: “Termine a música”.

Confuso, desnorte- ado, Mozart tentou se levantar apoiando-se no órgão, que sua mão atravessou como se nada ali estivesse. Caiu sobre o vômito, começando a recobrar a razão e ten- tando afastar-se daquele prenúncio da morte. De bruços sobre a terra, sentiu algo prendendo-o

pelo pé. Não teve cora-

gem de olhar para ver o tro do cemitério. Com os que era. E novamente
gem de olhar para ver o
tro do cemitério. Com os
que era. E novamente a
olhos fechados, deixava-se
ORei dos
voz suave suplicou: “Ter-
extasiar com as compo-
mine a música”. Fazendo
sições de Johann Sebas-
tian Bach, num estado
Judeus
uma desesperada oração
mental, tateou o solo até
de euforia sobrenatural.
Subitamente, o som se
extinguiu. O jovem des-
encontrar uma pedra
pontiaguda. Com ela,
começou a desenhar no
pertou do transe e dirigiu

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11 11

autor em Língua Portuguesa

ahasverus e o Gênio

ahasverus e o Gênio

12 12

SAMIZDAT dezembro de 2009

SAMIZDAT dezembro de 2009

Castro Alves
Castro Alves
em Língua Portuguesa ahasverus e o Gênio 12 12 SAMIZDAT dezembro de 2009 SAMIZDAT dezembro de

http://www.flickr.com/photos/malcubed/7311090/sizes/l/

Ao poeta e amigo J. Felizardo Júnior

Sabes quem foi Ahasverus?

O mísero Judeu, que tinha escrito

Na fronte o selo atroz!

Eterno viajor de eterna senda

— o precito,

Espantado a fugir de tenda em tenda,

Fugindo embalde à vingadora voz!

Misérrimo! Correu o mundo inteiro,

E no mundo tão grande

Não teve onde

Co’a mão vazia-viu a terra cheia.

o forasteiro

pousar.

O deserto negou-lhe — o grão de areia.

A gota d’água — rejeitou-lhe o mar.

D’Asia as florestas-lhe negaram sombra

A

savana sem fim-negou-lhe alfombra.

O

chão negou-lhe o pó!

Tabas, serralhos, tendas e solares

Ninguém lhe abriu a porta de seus lares

E o triste seguiu só.

Viu povos de mil climas, viu mil raças,

E não pôde entre tantas populaças

Beijar uma só mão

Desde a virgem do Norte à de Sevilhas,

Desde a inglesa à crioula das Antilhas

Não teve um coração!

E

caminhou!

E as tribos se afastavam

E

as mulheres tremendo murmuravam

Com respeito e pavor.

Ai! Fazia tremer do vale à serra

Ele que só pedia sobre a terra

— Silêncio, paz e amor! —

No entanto à noite, se o Hebreu passava,

Um murmúrio de inveja se elevava,

Desde a flor da campina ao colibri.

“Ele não morre”, a multidão dizia

E o precito consigo respondia:

— “Ai! mas nunca vivi!” —

O Gênio é como Ahasverus

A marchar, a marchar no itinerário

solitário

Sem termo do existir.

Invejado! a invejar os invejosos.

Vendo a sombra dos álamos frondosos

E sempre a caminhar

Pede u’a mão de amigo-dão-lhe palmas:

sempre a seguir

Pede um beijo de amor— e as outras al- mas

Fogem pasmas de si.

E o mísero de glória em glória corre

Mas quando a terra diz: — “Ele não morre”

Responde o desgraçado:-”Eu não vivi! ”

Fonte: http://www.dominiopublico.gov.br/do-

wnload/texto/wk000583.pdf

autor em Língua Portuguesa

aS d

EVotaS

I

Enquanto o sino bimbalha, Bimbalha, bimbalha e tine, Lançai do olhar a migalha — Enquanto o sino bimbalha — À raça que se amortalha

No horror que não se define Enquanto o sino bimbalha Bimbalha, bimbalha e tine.

Cruz e Sousa
Cruz e Sousa
o sino bimbalha Bimbalha, bimbalha e tine. Cruz e Sousa II Perto da Igreja a senzala,

II

Perto da Igreja a senzala,

O

Cristo junto aos escravos

E,

pois, deveis visitá-la,

Perto da Igreja, a senzala

E procurar transformá-la

Da luz às palmas, aos bravos!

Perto da Igreja a senzala,

O Cristo junto aos escravos.

http://www.flickr.com/photos/ricardoinfante/3995685836/sizes/o/

III

E

tão-somente por isto

Enquanto o sino bimbalha,

Bem antes de terdes visto

— E tão-somente por isto —

Todo o martírio do Cristo,

O vosso amor que lhes valha,

E tão-somente por isto,

Enquanto o sino bimbalha.

Fonte: Poemas Irônicos e Humorísticos de Cruz e Sousa

Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/

bn000098.pdf

Contos u m t áxi na Chuva Caio Rudá http://www.flickr.com/photos/thomashawk/3277337877/sizes/l/
Contos
u
m
t
áxi
na Chuva
Caio Rudá
http://www.flickr.com/photos/thomashawk/3277337877/sizes/l/

http://guisalla.files.wordpress.com/2008/09/machado1.jpg

O lugar onde

http://www.flickr.com/photos/ooocha/2630360492/sizes/l/

Quisera eu ter tempo para admirar a chuva que cai. E não pense que eis uma redun- dância, pois há chuvas que desabam, há as que deslizam, as que borram o céu, as que não existem. A de hoje é um pouco de todas elas.

Segunda-feira, último dia do mês. Estou certo de que toda essa água vem para

diluir e carregar para a terra

e esgotos os infortúnios de

agosto, época do desgosto. Com os maus agouros vai a

espera de uns graus a menos nos termômetros. Não me acostumo à ideia de um meio de ano quente. No interior é diferente. Lá a fina garoa é constante, seja ao amanhecer, ao passar do dia ou à boca da noite. Uma garoa que eu tanto aguardei desde o São João

e que só deixou-se aparecer hoje.

O dia precisou amanhecer nublado, abrir-se ― uma brin-

cadeira de mal gosto especial- mente para mim ― e voltar

a acinzentar-se à tardinha. A

despeito da psicótica rixa das

forças da natureza para comi- go, a chuva veio. E, diferen- temente de outras vezes, já se vão algumas horas desde que chegou nos céus daqui.

Quisera eu ter tempo para admirar a chuva, que cai,

desaba, desliza, borra e não existe. São quase tantos tipos de chuva quanto as gotas que caem. Os motoristas nos carros, no entanto, não vêem a chuva passar, presos que são no trânsito vagaroso. Até entendo sua ânsia por chegar logo em casa depois de um dia cansativo. É sua opção enrai- varem-se. Cada um elege os sentimentos que lhe convêm.

Assim também é meu direito zombar deles, por não aproveitarem um tempo de gozo pleno, em que nada é mais forte que a força da chu- va. De dentro de um veículo, a intensidade da água no metal é quase um pêndulo hipnotizan- te, intenso e pesado barulho psicodélico, não cabendo aqui melhor descrição ― não se dorme, vigília não pode ser,

tampouco sonho, é existir, talvez, no pequeno pedaço de céu que escorre no vidro embaçado.

O mundo real não se quer ver, nem a chuva lhe permite

se oferecer às retinas. Faz um pouco de frio, mas não é sentido. Não faz sentido, aliás. Rima para cidade é calami- dade, e o que é feio a água limpa. O vidro molhado seca, já é noite e todos chegam às suas residências molhadas.

é fabricada

feio a água limpa. O vidro molhado seca, já é noite e todos chegam às suas

ficina

a boa Literatura

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Contos

u
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muro de

u m muro de intransigência
u m muro de intransigência
u m muro de intransigência

intransigência

Contos u m muro de intransigência Joaquim Bispo 18 SAMIZDAT dezembro de 2009
Contos u m muro de intransigência Joaquim Bispo 18 SAMIZDAT dezembro de 2009
Joaquim Bispo
Joaquim Bispo

Joaquim Bispo

Joaquim Bispo

http://www.flickr.com/photos/mulazimoglu/3700293297/sizes/l/

O que aconteceu esta manhã

conta-se em poucas palavras: um lunático entrou em Jerusalém vindo da Cisjordânia, acompa- nhado por um pequeno grupo de adeptos determinados. Devem ter passado, dispersos, as barrei- ras militares do muro, para não levantar suspeitas do Tzahal. Chegados às imediações da cida- de, o líder mandou dois discípu- los buscar uma burra, que estava presa, não muito longe, com a sua cria. Quando a trouxeram, os discípulos aparelharam-na com simples panos, ele montou-a e assim entrou em Jerusalém. A estranha personagem e os seus acompanhantes, todos de sandá- lias e túnica, cabelo comprido e cabeça descoberta, foram aplau- didos pelos transeuntes, sobretu- do jovens, aparentemente entu- siasmados com a performance, e houve quem estendesse no chão folhas de palma e mesmo roupas pessoais, para o grupo passar.

O episódio foi ignorado por

quase todos os correspondentes estrangeiros, devido ao seu ca- rácter irrisório e quase anedótico.

Quem me relatou os porme- nores deste caso foi um homem de nome Zaqueu que, por ser pequeno, trepou a uma palmei- ra e assistiu a tudo. Disse-me que o chefe do grupo nasceu na Galileia, numa aldeia chamada Nazaré, actualmente ocupada por Israel. Viu a terra, que ele amou na adolescência, ser colonizada aos poucos por gentes vindas

de várias partes do Mundo e tornou-se um revoltado. O seu carácter meditativo não o atirou, porém, para os braços da OLP ou do Hamas. Formou, no entanto, um grupo de activistas pacifistas que pretende, através da persu- asão e de acções não violentas, consciencializar os habitantes de ambos os lados para a necessida- de de se aceitarem mutuamente e partilharem o território em dois estados irmãos.

Diz ele que não faz sentido que Israel queira reconstituir o estado com o mesmo território que dominou nos tempos áureos, mas que foi desmembrado há mais de dezanove séculos. Essa pretensão, diz, é tão absurda como os Árabes quererem re- constituir o califado de Córdoba no território da Península Ibérica, extinto, também, há séculos, ou o povo Inca tentar reanimar o seu antigo império destruído pelos Espanhóis, ou os descendentes

dos Cátaros reivindicarem o Languedoc para reorganizarem a sua religião. E que, a exemplo de Israel, organizassem um exérci- to e começassem a expulsar os habitantes actuais desses territó- rios, recorrendo ao morticínio, se necessário.

Avesso à violência, também condena os actos de intolerância dos palestinianos para com os ocupantes, mas compreende o seu desespero. Diz ele, falando aos que param a ouvi-lo:

– Um homem plantou uma

vinha, cavou-a, tratou-a, cons- truiu-lhe um lagar e uma adega. Um dia, vieram uns lavradores e

propuseram arrendar-lhe a vinha. Assim se fez, mas quando o dono da vinha enviou emissários

a recolher a renda, estes foram

apedrejados, feridos e alguns

mortos. O mesmo fizeram ao

filho do dono da vinha, cuidando apoderar-se definitivamente da herança dele. Agora, dizei-me compatriotas, quando vier o dono da vinha, que fará ele àqueles

lavradores?

Com exemplos propícios à reflexão, como este, vai tentando mostrar a razão dos desapossa- dos.

Mostra ser muito sagaz, embora idealista. O episódio de entrar em Jerusalém a caval- gar uma burra parece ter sido preparado meticulosamente para corresponder à profecia de

Zacarias (Zc 9,9): «Regozija-te ó filha de Sião. Eis que vem a ti

o teu Rei, justo e salvador. Ele é

humilde e vem montado numa burra, e sobre o potrinho da bur- ra.» Nicodemo, um membro do Knesset, que acedeu a comentar

o episódio, é da opinião que esta

entrada messiânica em Jerusalém foi uma estratégia pensada para chegar aos judeus mais conser- vadores.

Aparentemente, esta mensa- gem visual não passou, apesar da relativa algazarra que os jovens militantes anti-guerra produziram durante todo o percurso da co-

Contos mitiva até à esplanada do Muro das Lamentações, onde muitos judeus fanáticos cabeceavam a

Contos

Contos mitiva até à esplanada do Muro das Lamentações, onde muitos judeus fanáticos cabeceavam a afirmação

mitiva até à esplanada do Muro das Lamentações, onde muitos judeus fanáticos cabeceavam a afirmação dos seus preceitos religiosos. Aí, talvez por não ter tido a atenção que esperava, co- meçou a gritar palavras de ordem em aramaico, a plenos pulmões, provocando os orantes, enquanto puxava as melenas a uns e des- barretava outros, sempre numa atitude de grande irreverência e insolência.

O burburinho foi imediata- mente detectado por uma patru- lha militar que, com grande apa- rato bélico, o intimou a parar. O homem não só não parou como começou a apontar a mão esten- dida para os soldados, com dois dedos unidos levantados. Não se sabe se os soldados entenderam esse gesto como agressivo, ou se simplesmente não toleraram a desobediência; certo é que alguns disparos foram ouvidos e o na- zareno caiu com a túnica ensan- guentada. Morreu pouco depois no hospital. Os companheiros foram presos e estão acusados de alteração da ordem pública, que poderá, eventualmente, evoluir para traição.

Só então as agências noticio-

sas se movimentaram e conse-

guiram comprar uma gravação de telemóvel feita por um turista.

Este episódio é bizarro, mas estará esquecido em breve. Apesar do clamor internacio- nal que tem denunciado a força excessiva utilizada pelo estado

hebraico contra os opositores

à

tiniano – destruindo cidades,

utilizando fósforo branco e

outras armas proibidas contra populações civis, exterminando indiscriminadamente sem olhar

a

dirigentes israelitas em reconsti- tuir a grande terra de Canaã das escrituras tradicionais é inamo- vível, respaldada na posse das únicas armas nucleares da zona,

e

império romano, que parece dis- posto a tudo para ter um aliado fiel junto ao oceano subterrâneo de petróleo.

Isolado na região, este país asiático, sequela dos complexos de culpa europeus, patenteia, ridiculamente, essa relação um- bilical integrando, por exemplo, os torneios de futebol europeus ou os festivais de canções euro- peus, incapaz de uma identidade médio-oriental, que procura no território mas rejeita na cultura.

Cultivando a segregação, prossegue a construção de uma linha de betão de oito metros de altura e setecentos quilómetros de comprimento, a marcar a fron- teira, segundo a sua interpreta- ção, anexando Jerusalém oriental

no apoio incondicional do novo

anexação de território pales-

idades – a determinação dos

e

O nazareno pacifista é a mais recente vítima anónima deste enorme equívoco.

isolando 450.000 pessoas.

marc

a

a página

Wellington Souza
Wellington Souza

Senta-se e abre o livro.

“Na escola arrebentada onde experimentou pela primeira vez a segurança do poder, a poucos metros do quarto onde conheceu a incerteza do amor, Arcadio achou ridículo o formalis- mo da morte. Realmente não se importava com a morte, e sim com a vida, por isso a sensação que experimentou quando pro- nunciaram a sentença não foi uma sensação de medo, mas de nostalgia. Não falou enquanto não lhe pergunta- ram qual era a sua última vontade.*”

Marca a página e fecha o livro.

Sai, atravessa a sala até

a cozinha, enche um copo

com água da torneira. A essa hora pouco importa as

impurezas e precipitados. Na mesa de centro da sala havia ainda quinze, dos vinte Diazepans da cartela. Leva mais um à boca, se- guido de um gole de água; mais um e outro gole, por fim o derradeiro e devolve

o copo à mesinha de cen-

tro. Conta 3:23 horas no relógio de ponteiro.Volta à escrivaninha, senta e colo- ca café, que está forte, sem

açúcar e não mais quente, na caneca de louça. Bebe de uma só vez. Escreve: “Já

no avião/ sem volta e aflito/ olha para os lados/e seus colegas pularam/ e agora é

a

sua vez./ Pula./ é mágico

o

vôo liberto/ o forte vento

é

mágico/ o mundo, enfim

sob ele/ é mágico./ Puxa a corda do pára-quedas:/ Da sua mochila saem panelas/ talheres/ conchas/ toalha de

http://www.flickr.com/photos/hebe/2090250869/sizes/l/

mesa/ cesta de piquenique/ um botijão de gás peque-

no./ Atônito,/ele olha para

o desenhista!”. Sente uma

tontura, de onde sai o título:

“Morte animada”.

Deixa de lado o rascu- nho. Abre o livro, mas não consegue focar as palavras com clareza. Mesmo assim segue lendo.

“— Digam à minha mu- lher — respondeu com voz bem timbrada — que po- nha na menina o nome de

Úrsula. — Fez uma pausa e confirmou: — Úrsula, como

a avó. E digam-lhe tam-

bém que se o outro nascer homem, que lhe ponham o nome de José Arcadio, mas não pelo tio, e sim pelo avô.

Antes que o levassem ao paredão, o Padre Nicanor tentou assisti-lo. “Não tenho nada de que me arrepen- der”, disse Arcadio, e se pôs às ordens do pelotão depois de tomar uma xícara de

café preto. (

lho!”, chegou a pensar, “me esqueci de dizer que se nascesse mulher pusessem

Remedios.”Então, numa só pontada dilacerante, voltou a sentir todo o terror que o atormentara na vida. O ca- pitão deu a ordem de fogo. Arcadio mal teve tempo de estufar o peito e levantar

a cabeça, sem entender de

onde fluía o líquido ardente que lhe queimava as coxas.

— Cornos! — gritou. — Viva o Partido Liberal!*”

Suas pestanas estão pe- sadas. Não agüenta mais o sono, para não dizer o efei-

)

“Ah, cara-

to da droga. Tenta levantar- se. Apóia na escrivaninha, mas seus braços logo cedem

ao peso do corpo. O direito se flexiona batendo o coto-

velo e desliza, deixando o rascunho, canetas e lapiseira caírem no chão. Bate a testa na madeira, mas o impacto

é leve. Volta a sentar, já sem

forças no corpo, inerte. Ten- tar respirar, mas encontra dificuldades. Abre a boca e um filete de baba mancha

o livro. Está ofegante, como

que se afogando no ar.

Pensa em tomar a última

dose para remediar o fim da tortura. Levanta abrup- tamente e cambaleia até a cama, onde o tronco e os membros superiores conse- guem chegar, mas os infe- riores não. Desmaia, então, com metade do corpo na cama e um braço, o outro está suspenso.

Inanimado, passará nessa posição quase dois dias.

Acorda numa tarde que

não reconhece, com dúvidas sobre sua identidade e seu meio. Forte dor de cabeça e de barriga. Deita na cama e olha para o teto. Nada lhe vem à cabeça. Calcula se conseguirá andar, mexendo

a perna. Senta e vê uma

mancha de saliva na cama.

Levanta escorando nas pa- redes e escorado chega até a cozinha. Prepara um copo de água com sal e segue,

assim, até o banheiro. Bebe

a água e vomita uma bile

amarela, seguido de muitas tentativas que só fazem ba- rulho, mas nada evacuam.

Olha o espelho e encara uns outros olhos fúnebres.

Com o pulso bate no espelho, mas sua estrutura está fraca como seu espírito sempre foi. Concentra-se. Inclina o corpo para trás e bate com mais força. Que- bra. O machucado no pulso

é superficial. Ao arrancar um caco do espelho quebra- do fere o dedo. Pega a lasca de espelho e corta um pul- so, troca a lasca de mão e

faz um corte mais profundo no outro. Perfura novamen- te o primeiro. O sangue já tinge parte do banheiro.

Caminha cambaleando até a janela da sala, onde ajoelha e se apóia, deixando os braços para fora. Repou- sa a cabeça no parapeito. O sangue escorre pelas mãos, pinga lá em baixo onde for- mará uma pequena poça.

Queria olhar o sol da tarde quente, mas ele está sobre as nuvens.

Inspira. Enfim, não sente mais medo da vida.

*Trechos do livro: Cem Anos de Solidão/ Gabriel

García Márquez; tradução de Eliane Zagury – 49° Ed. – Rio de Janeiro: Record

2001.

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De longe, sem se virar, o

O lugar onde

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se virar, o O lugar onde a boa Literatura é fabricada ficina www.oficinaeditora.com A Oficina Editora
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A Oficina Editora é uma utopia, um não-

lugar. Apenas no século XXI uma vintena de autores, que jamais se encontraram fisicamente, poderia conceber um projeto semelhante.

O livro, sempre tido em conta como uma das principais fontes de cultura, tornou-se apenas um bem de consumo, tornou-se um elemento de exclusão cultural.

A proposta da Oficina Editora é resgatar o

valor natural e primeiro da Literatura: de bem cultural. Disponibilizando gratuitamente e-books e com o custo mínimo para livros impressos, nossos autores apresentam

a demonstração máxima de respeito à Literatura e aos leitores.

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Contos

morte & Espelhos Ju Blasina Ilustração: Jairo Tx
morte &
Espelhos
Ju Blasina
Ilustração: Jairo Tx

Mais um feliz dia de trabalho para o Dr. Shoji. Ele chega pontualmente às 07h04min — nem um minuto a mais nem um minuto a menos — ao seu distinto consultório, num dentre os tantos arranhacéus no centro de Tóquio; 49º andar.

— Ohayou, Menial San!

— Ohayou, Dr. Shoji,

como vai a família?

— Bem, muito bem,

eu diria. Agradeço por perguntar.

Seu inglês era absurda- mente perfeito para um japonês e ele se orgulha- va disso. Teve a melhor educação que o dinheiro e a disciplina podem fornecer, viajou o mundo e ao abrir seu consultó- rio em Tóquio, fez ques- tão de uma secretária americana — e poliglota! — para que assim aten- desse melhor a todo e qualquer paciente, afinal “a insanidade não escolhe descendência” já dizia um provérbio de sua própria autoria.

— A senhorita pode-

ria, por obséquio, levar uma xícara de chá até a minha sala, dentro de 4 minutos?

— Pois não, doutor. Chá verde, sem açúcar e 4 biscoitos para acompa- nhar?

— Sim, minha jovem,

seria de meu agrado.

Era assim, todo santo

dia, nem mesmo uma

vírgula mudara de lugar

— muito menos o chá —

ainda assim, conferir as preferências quanto ao

chá e o número de bis- coitos era algo imprescin- dível para o bom relacio- namento profissional, que

já durava 4 anos!

Não tão pontual foi

a chegada do primeiro

paciente, Hiroito Okashi

— primeira consulta.

Aliás, como todo e qual- quer paciente do Dr. Shoji: uma única consulta

era suficiente para curar qualquer perturbação, conforme garante sua propaganda — rodapé de 4X4 cm, publicada a cada 4 dias, em quatro idiomas, logo abaixo do

obituário:

“Para que o seu nome não esteja aqui amanhã, o meu está hoje: DR. KA- GAMI SHOJI”

Sua secretária tomara

boas lições de marketing

e, segundo ela, o obituá-

rio é sem dúvida o me-

lhor lugar para angariar

os D’s (deprimidos e/ou

desesperados).

Sr. Okashi procura-

va cupons de desconto

para guloseimas quando, por acidente recortara

o rodapé do Dr. Shoji e

por pura gula ali estava

atrasado e esbaforido.

O

elevador teimava em

parar sempre no andar

inferior, e subir um lance de escada não foi nada agradável para o homem de 130 Kg.

Sr. Okashi não só esta- va atrasado e esbaforido, como também ensopa- do de suor! Ele se apóia na parede e entrega o cupom suado e amassa- do à secretária, que sorri gentilmente e pelo tele- fone anuncia ao doutor a chegada do paciente, sem citar o nome — seu ser- viço preza pelo absoluto sigilo!

O homem, sem enten- der “que raios de lugar é esse” e torcendo para que ao menos o brinde vales- se o sacrifício da escada- ria é então conduzido ao divã. Confuso e atônito, ele apenas senta naquele “banquinho confortável”, enquanto o doutor faz o seu trabalho.

Exatos 40 minutos

depois o homem deixa

o consultório — calmo

e bem disposto. Na saí- da esvazia os bolsos na

lixeira da secretária, que com o mesmo sorriso automático, olha e pensa “como pode caber prati- camente uma confeitaria inteira no bolso de um

homem?” (

neurônios em sacrifício )

e a resposta: “é claro: é um bolso grande!”

minutos

de

Cerca de 90 minutos depois chega o próximo paciente – homem car-

rancudo, cara de poucos amigos, ombros tensos, olhar ameaçador — “um

americano típico”, pensa

a Srta. Menial e sem ousa

dirigir-lhe a palavra, ape- nas sorri e mais do que rapidamente o conduz ao consultório principal, onde o doutor já o aguar- da. Alguns berros, ba- rulhos e minutos depois (40, lógico), o homem sai do consultório. Sorri e agradece, apresentando- se e beijando a mão da secretária que, perplexa, jura ter ouvido o, agora gentil cavalheiro, Sr. Har- dman cantarolar alguma coisa enquanto seguia pelo corredor, escada abaixo.

Pontualmente, às 13 horas chega ela: mulher bonita, cabelos e olhos extremamente negros. Apesar do ar suave e sorridente, há algo mui- to assustador naquela mulher e não é apenas a grande borboleta tatuada em preto cobrindo-lhe o rosto. “Coisas assim são comuns por aqui. Deve ser maquiagem, só pode!”, pensa a secretá- ria, enquanto a paciente

caminha serelepe e entra direto no consultório, sem bater à porta e nem mesmo esperar ser anun-

ciada!

Consulta muito breve, menos de 15 minutos

e ela sai, com a mesma

graça assustadora com a

qual entrou.

Dr. Shoji dá por encer-

rado o expediente. Algu- mas pessoas orgulham-se de ter um relógio biológi- co apurado – ele poderia se gabar por sua agenda de consultas mental; ape- sar de não trabalhar com hora marcada, inexpli- cavelmente sempre sabe quantos, quando e quais pacientes atenderá por dia. O que torna a secre- tária tão obsoleta quanto um porta guarda-chuvas no verão, porém, além de imprescindíveis em um consultório respeitável, ambos são belos objetos decorativos – sobretudo a Srta. Menial!

— Oh, como eu nun- ca havia reparado em tamanha formosura

palavra gostosa lhe é bem apropriada! - São tantos os adjetivos que lhe vêm

a mente, tantos os atra-

tivos que lhe pulam aos olhos, hormônios circu- lando em abundância

e respostas fisiológicas previsíveis, que o Dou- tor nem mesmo percebe

a atitude gerada. Se vê

surpreendido

mais surpresa fica a Srta.

Menial:

Ela se assusta com a brutalidade com a qual

ele a toma, grita confor- me seu cabelo é puxado

e geme quando seu corpo

é jogado violentamente

sobre a mesa. Teme, reage brevemente, mas não

a

Ainda

desgosta

servil secretária, logo re- conhece o ato como algo

“imprescindível para o bom relacionamento pro- fissional, que já durara Quantos anos mesmo?”

Após esta pequena re- creação, Dr. Shoji alinha

o paletó, pega a valise,

despede-se cordialmente

da tão gentil secretária

e segue, tranqüilo e se-

reno, até sua residência, onde é esperado para o

almoço familiar. Entra na impecável casa, beija a impecável esposa — res- peitosamente, na testa —

e passa a mão na cabeça

de seus dois impecáveis filhos, já sentados à mesa.

A refeição cheira mui- to bem e tem uma apa- rência espetacular, porém não lhe apetece; nada ali lhe apetece, e ao contrá- rio da comida, o cheiro e a aparência de sua esposa

lhe são repugnantes. E mais uma vez ele é to- mado por um impulso febril, incontrolável e violentamente esmurra a esposa na cara. A força é tamanha que a arremessa ao chão.

Abatido o primeiro obstáculo, ele olha em volta, ansioso à procura da próxima vítima. O filho corre para o quar- to enquanto a pequena esconde-se debaixo da

mesa. O que lhe traz um

grande alívio:

— Ah, nada como filhos bem treinados!

e como boa e

http://www.flickr.com/photos/hidden_treasure/2474163220/sizes/l/

Filhos e cachorros! Que maravilha! - E dizendo isto se levanta e vai até a geladeira em busca de uma refeição decente.

— Hm, sorvete! Queri-

da, onde guardamos os

biscoitos? Ah, sua estaba- nada, o que faz no chão? Vamos, deixe-me levantá- la, assim, pronto! Você

está tão

retocar a maquiagem, como faz a Srta. Menial! E você menina, isso são horas pra brincadeiras? Saia já debaixo da mesa! Crianças

Ele se senta conforta- velmente em sua poltro- na favorita e saboreia a agradável e deliciosa re- feição de sorvetes, biscoi- tos e confeitos coloridos!

Abatida, deveria

— Ah, que belo dia de

trabalho! Quanta satisfa- ção!

Ao terminar a refeição sente um enorme vazio — que certamente não vem do estômago. É o tipo

de vazio que um artista sente quando percebe sua obra incompleta. Isto o inquieta.

Ele percorre os cômo- dos da casa, procurando por “sabe-se lá o que”. Confere atentamente sua agenda mental e de repente percebe o que esquecera: “Obrigações profissionais, claro!”

Ele sorri e caminha até o banheiro; abre o armá- rio e de lá tira uma caixa de madeira relativamente antiga que ele nem lem- brava possuir, mas soube exatamente onde encon- trar. Abre a caixa, confere o conteúdo e sorri nova- mente, satisfeito por estar intacto. Olha-se no espe- lho e diz para si mesmo:

— Só mais este tra- balho e meu dia estará completo!

Recorda do que lhe dissera a última paciente (sigilo profissional). Olha- se ao espelho, sorri e

40

segundos depois

Pronto: missão cumprida!

O filho ouve o tiro, a

filha encontra o corpo,

a mulher limpa o san-

gue: Chão, parede, teto e espelho.

E a secretária cuida dos

detalhes:

— Alô, é do jornal? Sim? Olá, aqui é a Srta. Menial, eu gostaria de modificar o anúncio do Dr. Shoji – não, não, a página está ótima! Isto, obituário mesmo, só precisamos de uma leve alteração no texto, assim:

“Para que o seu nome não esteja aqui amanhã,

o meu está hoje

– DR. KAGAMI SHOJI - amado pai e esposo”

— Sim, é só isso. Ariga- tou gozaimasu.

O lugar onde

a boa Literatura

é fabricada

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- tou gozaimasu. O lugar onde a boa Literatura é fabricada ficina www.oficinaeditora.com www.revistasamizdat.com 27

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Contos

a dança dos

imortais

Contos a dança dos imortais Volmar Camargo Junior 28 SAMIZDAT dezembro de 2009
Volmar Camargo Junior
Volmar Camargo Junior

Volmar Camargo Junior

Volmar Camargo Junior

Um crime aconteceu numa cidade provinciana. Os policiais responsáveis pelo caso, Inspetor Magalhães e Inspetor Barbosa, estavam na delegacia, fazendo plan- tão como sempre. Tentavam deduzir algo a partir dos poucos fatos que tinham. Co- çando a garganta, o policial Magalhães preparou-se para reler o primeiro boletim de ocorrência, lavrado por ele próprio na noite do crime.

 

Recapitulando: “Orlan-

do Nogueira, o Orlandinho assistia ao seu programa

de televisão favorito quan- do ouviu à campainha soar das vezes – o segundo toque mais longo que o primeiro. Reconheceu o código, embo- ra houvesse muitos dias que

o

autor, digo, a autora, não

comparecia à sua casa. Assim que destrancou a porta, a amiga, Mighellina Fonseca de Alcântara e Silva, adentrou muito aflita no apartamen- to. Assim que entrou, disse

estas exatas palavras: “Eles

querem

me

cal

argh!” Só

então Orlando percebeu que

Mighellina tinha as mãos, as costas da jaqueta de couro e

o

lado esquerdo do pescoço

manchados de vermelho vivo. Sem aviso prévio, desfaleceu com os olhos vidrados. Estava morta.”

— Mas que bela porcaria, Magal! Precisava desse dra- ma todo? A delegada vai te encher o saco. Bom, continua teu raciocínio.

 

Obrigado. A moça não

tinha inimigos, não era dada

http://www.flickr.com/photos/leah8691/2053099576/sizes/l/

a hábitos escusos, “Um doce!”, disse o tal Orlando. Também não fazia nada de extraordi- nário. Era uma pobre moça rica, que gostava de roman- ces de terror e que até se arriscava ela mesma a escre- ver alguns.

— Mas isso tem alguma

importância? – perguntou o Barbosa.

— Ora, tem toda – respon-

deu o Magalhães - Essa moça

apareceu moribunda no

apartamento do amigo, e dis-

se esta frase “Eles

me

queria calá-la.

— E como concluiu que

alguém queria calá-la? Ela

só disse “cal

dessas piadinhas em inglês

“They want to me telefonar”. Sabe aquela: What is um pontinho amarelo vendo

a esposa transando com o

amante? Um Corn-o-manso!

querem

cal

argh!”. Alguém

”.

Talvez fosse

— Puxa, Barbosinha

Às

vezes eu tenho vontade de anotar o que você diz.

co

Agora está sendo cíni- Então ela era escritora.

E daí?

— Sim. Escrevia muito bem, a propósito.

Conseguiu algum livro

dela?

É lógico. Quer dizer, tal-

vez não seja bem o que você está esperando.

— Por quê?

— Ela era defensora da pu-

blicação on-line. Tinha uma ONG e tudo, um lance muito esquisito: “Biblioterrorismo”.

Os seus livros estão disponí- veis na internet, de graça. O último tá aqui nesse site.

— Bah! Caso solucionado:

quem mandou matá-la foi alguém grande do mercado editorial!

— Acho que não é tão

simples assim, Barbosa. Dá uma lida nisso aqui. – disse, Magalhães, levantando-se de seu birô, apontando com a mão espalmada para o mo- nitor do PC. – Enquanto isso, vou fazer um café. Tá a fim?

— Chá verde, para mim.

Café tem me dado uma azia

— Ok! Chá verde para o

Inspetor Barbie, que está de dieta. Veadinho

— “Barbie” é a @#$%¨&;* que te pariu!

Enquanto Magalhães foi até a cozinha da delegacia,

Barbosa acessou o link. Havia uma lista de quase trinta romances de autoria da tal moça, o que o deixou em- basbacado. Escolheu o mais recente, intitulado “A Dança dos Imortais”. Conhecido por suas técnicas de leitura

dinâmica, quase sem piscar, Barbosa leu ininterruptamen- te três capítulos do roman- ce. Tinha um estilo notável, muito claro e, ao mesmo tempo, dotado de uma impe- cável correção gramatical. O romance de trezentas e treze páginas digitalizadas tinha por enredo a vida de um vampiro carioca, ambientada no que hoje é o centro velho do Rio de Janeiro, em finais do século XIX. Foi então que,

como diz o ditado balzaquia- no, a ficha caiu para o poli- cial. No teclado, pressionou simultaneamente as teclas CTRL+L, e no campo locali- zar escreveu

“Eles querem me calar”

— Magal – gritou o Bar-

bosa ao colega quando este trazia as duas xícaras fume- gantes – Você leu o último romance da dita cuja?

— Qual? O do índio gua-

rani que seqüestrou, torturou, matou e esquartejou o José

de Alencar?

— Não, esse é o penúlti-

mo. Estou falando deste aqui, o do vampiro.

— Esse não estava aí. –

disse Inspetor Magalhães,

pulando curioso diante do monitor, com os olhos arre- galados. — Eu tenho certeza, olhei a página na mesma

noite do crime

uma lida, e me admirei: a guria sabia escrever.

— Ah, é? E como ela dei- xou passar isso aqui?

O policial Barbosa selecio- nou o seguinte trecho:

então, como uma tem-

pestade, os homens vestido de preto começaram a ati- rarem contra a criatura, que ficou encurralado. Erguendo o punho serrado em direção ao holofote forte que quei- mava seu rosto com a luz intensa, o ser monstruoso proferiu a plenos pulmões, com um tom de voz gutural, demoníaco:

Eu até dei

) (

— Eles querem me calar!

Mas eu sobreviverei! Mesmo que eu seje silenciado como da vez passada, minha obra ainda deixará a marca dela! Minha obra revelará a verda- de sobre os Imortais.

E tendo dito estas palavras, uma nova e longa saraiva- da de tiros de metralhado- ra abafaram a gargalhada horrenda da monstruosa criatura meia homem, meia morcego. ( )

— E então, o que você

acha?

— Eu acho que esse trecho

precisa ser reescrito com ur-

gência

passada”, “marca dela”! Nem eu escrevo tão mal!

— Você tem razão, mas

onde já se viu? “Vez

não estou falando disso. Você

não acha muita coincidência que a mulher tenha morrido como uma vítima de

— De um vampiro? Tá

doido? Que tipo de policial você é, Barbosa?

— Do tipo que entende

alguma coisa de literatura.

Pronto. Falou o especia-

lista.

Acompanha comigo:

pelo que eu li desse roman- ce, o personagem principal é um certo Joaquim Maria, mulato, filho ilegítimo de uma escrava negra e um comerciante carioca que conheceu uma cigana es- panhola chamada Capitu. Essa cigana, na verdade, era uma vampira, que o sedu- ziu usando seus encantos, transformando-o também

num vampiro. No terceiro capítulo, o tal Joaquim Maria tornou-se um escritor famo- so. Não pude resistir, e pulei direto para o último capítu-

lo, onde encontrei a frase que

a Mighellina falou: o Joaquim

Maria criou uma sociedade de vampiros-escritores que, na verdade, governam toda a

indústria cultural no Brasil:

os Imortais. Ele, o fundador, é considerado o maior escritor

de todos os tempos; e não

é para menos: seu talento é

devido a ele ser um vampiro,

e os outros todos, para se

tornarem “Imortais” da tal so- ciedade secreta, precisam ser transformados também. Não que todos tenham talento No fim das contas, o Joaquim percebeu o quanto seus la- caios se tornaram escrotos, e se arrependeu. Por isso é que ele decide contar toda a ver- dade para o mundo, dando uma entrevista a uma jovem escritora que abomina as práticas mercadológicas dos Vampiros de Fardão. Mas, antes que ele concedesse tal entrevista, os paus-mandados dos sanguessugas o encon- tram, o perseguem e, por fim, acontece aquela cena que eu não terminei de ler porque tu chegou com o meu chá.

Ufa!

— Barbosa

essa é a his-

tória mais ridícula que eu já ouvi. Eu achei que a tal Mighellina fosse uma baita escritora. Rapaz, até a minha filha de doze anos tem idéia melhor pras aventuras de RPG dela.

— Magal! Magal! Pres- ta atenção, meu filho! Essa moça, a tal defunta, é um embuste! Ela é uma “laranja intelectual”. Você não viu o jeito que ela escreve? É um

horror! Ela até tem as idéias, mas quem escreve os roman- ces dela de verdade é outra pessoa.

— Mas quem?

Então, ouviu-se um baru- lho metálico, uma forte pan-

cada vinda detrás da porta que levava à sala do Instituto

Médico Legal, contíguo à delegacia. E de novo. E de novo. E na quarta vez, a porta de aço voou contra a parede oposta. Todas as luzes da delegacia apagaram-se. Um guincho medonho foi ouvido em todo o quarteirão onde ficava a delegacia.

No dia seguinte, a faxinei- ra desmaiou diante da porta da sala onde trabalhavam os inspetores Magalhães e Bar- bosa. Havia apenas restos de corpos humanos, papéis em desordem, o monitor do PC esmigalhado e, por todas as paredes, forro, cortinas, birôs, arquivos, cadeiras, soalho. E sangue, muito sangue.

A gaveta onde, até o início

da noite anterior, estava o ca- dáver etiquetado como sendo de Mighellina Fonseca de Al- cântara e Silva, foi encontra- da vazia. Ao seu redor, havia marcas de pegadas, como se fossem de um enorme ani- mal bípede, que o rapaz da perícia, formado em biologia, alegou serem muito pareci- das com as de um morcego.

Contos

Henry Alfred Bugalho
Henry Alfred Bugalho
Contos Henry Alfred Bugalho O Incrível Joaquim Maria 32 SAMIZDAT dezembro de 2009
Contos Henry Alfred Bugalho O Incrível Joaquim Maria 32 SAMIZDAT dezembro de 2009
Contos Henry Alfred Bugalho O Incrível Joaquim Maria 32 SAMIZDAT dezembro de 2009
Contos Henry Alfred Bugalho O Incrível Joaquim Maria 32 SAMIZDAT dezembro de 2009
O Incrível Joaquim Maria
O Incrível Joaquim Maria
O Incrível Joaquim Maria
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O Incrível Joaquim Maria

O Incrível Joaquim Maria

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Ontem morreu Joa- quim Maria. Todos o conheciam, ele dispensa apresentações, homem público, outrora amado pelos nobres, idolatrado pelo populacho.

A vida de Joaquim Maria foi recheada de di- ficuldades, mas ele ven- ceu-as todas e se tornou um símbolo para nossa nação, poucos indivíduos representaram tanto o espírito de seu povo e de sua época como Joaquim Maria.

E o que o tornou tão célebre foram suas idios- sincrasias. Ainda menino elas começaram a se ma-

nifestar, primeiro, de ma- neira discreta, mas após

a

tutela com o místico

e

sábio Roberto Alberto

Norberto, Joaquim Ma- ria aprendeu a controlar seus comportamentos e imediatamente se tornou um notável.

Seus atributos eram maravilhosos, mas o prin- cipal deles era sua capa- cidade de dialogar com qualquer indivíduo do planeta, sobre qualquer assunto. Se se encon- trava com uma criança, Joaquim Maria pare- cia retroceder em anos,

falava, gesticulava e até brincava como se criança fosse; mas se o interlocu- tor fosse um homem de ciência, ou um matemá- tico, ou um engenheiro naval, Joaquim Maria falava sobre tais assuntos com propriedade, como se possuísse o mesmo conhecimento, como se houvesse cursado todas as faculdades e lido todos os livros de tais matérias.

Se conversava com uma mulher, Joaquim Maria afinava a voz, que- brava o pulso e fofocava sobre a vizinhança; se fosse com um mendigo, em pouco tempo tam- bém começava a esmolar, se fosse um capitalista, logo recitava de cor as

cotações das ações e

quais eram os melhores investimentos.

Certa vez, ao deba- ter com um astrônomo, Joaquim Maria descobriu um novo planeta; ou- tra, discutindo com um filósofo, Joaquim Maria provou a existência de Deus; escreveu três livros após ter se encontrado com autores renomados, duas óperas ao se reunir com compositores e pin- tou, durante uma sessão particular com o artista

da corte, um dos quadros mais visitados da Galeria Real.

Podia manusear qual- quer arma de fogo se na presença de militares, dançava como um pro-

fissional se dançarinos o cercassem. O mais im- pressionante, contudo, era

o incompreensível dom

de falar os idiomas dos interlocutores: russo ao conversar com um russo, ou alemão com um ale- mão, ou polonês com um polaco, ou hebraico com um judeu.

Existiam boatos de que até o comportamento de animais Joaquim Maria

era capaz de reproduzir

e testemunhas garantem

que ele já havia atacado um carteiro na compa- nhia de cães e que, outra vez, durante a visita ao zoológico, a polícia teve grandes dificuldades para retirá-lo dos galhos duma árvore ao lado da jaula dos macacos.

Os sábios do reino então se propuseram uma missão: descobrir

o verdadeiro Eu de Joa-

quim Maria. Isolaram-no completamente numa sala espelhada e o obser- varam por semanas. No

entanto, Joaquim Maria não esboçava nenhum tipo de comportamento, apenas permanecia senta- do, olhando seu próprio reflexo. Mas num dia, subitamente, ele pulou da cadeira e começou a aba- nar os braços e a correr, em ziguezague, pela sala. Foi quando constataram que uma mosca havia se infiltrado no cômodo.

Mas ninguém ima- ginou que um dom tão extraordinário seria a causa da própria des- graça de Joaquim Maria. Sem nenhuma explica- ção, inadvertidamente, Joaquim Maria se tor- nou uma pessoa normal, como outra qualquer.

Quer dizer, mais ou menos

Durante todos os anos em que Joaquim Maria não passou dum repli- cante, de algum modo inexplicável, ele também havia tido acesso a todos os pensamentos mais secretos das pessoas com as quais havia conversa- do. Joaquim Maria sabia de tudo, desde os detalhes mais sórdidos até as con- jeturas mais intrincadas.

Joaquim Maria decidiu que tanto conhecimento

deveria ser comparti- lhado e, num intervalo de três meses, escreveu um livro expondo tudo isto. Mas Joaquim Maria, agora repersonificado, era um crítico inclemente da sociedade, talvez o mais satírico de todos os tem- pos, um comediógrafo arguto e cruel da vida real.

Em seu livro, ele difa- mava desde o Imperador até a prostituta, do ge- neral ao bobo da corte. Contava tudo, sem censu- ra, sem dó, nem piedade.

gênio de nossa época.

Escrevo este relato para que a memória dele não se apague, e cito o primeiro parágrafo da obra que tornou Joaquim Maria o inimigo público número um, após ter sido o maior expoente do país:

Contar mentiras é peri- goso,

Mas falar a verdade pode ser fatal.

É óbvio que Joaquim Maria criou inimigos poderosos e tudo que se falava à boca pequena era que o queriam morto.

Então, ontem à noite, encontraram-no enforca- do em seu gabinete.

O comissário da po- lícia afirmou que não investigará o crime, pois Joaquim Maria havia contado no livro sobre o caso extraconjugal que ele mantinha com um estivador; o Imperador se recusou a comentar o crime; não havia testemu- nhas; ninguém, a não ser eu, velho amigo de Joa- quim Maria, compareceu ao sepultamento deste

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O lugar onde

a boa Literatura

é fabricada

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ficina

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Contos

 
   

deus

me perdoe,

me perdoe,
 
  era tudo o que eu queria
  era tudo o que eu queria
 

era tudo o que eu queria

era tudo o que eu queria
era tudo o que eu queria
era tudo o que eu queria
era tudo o que eu queria
era tudo o que eu queria
 

José Guilherme Vereza

   

O quarto tinha cheiro de comida velha. A fumaça da fritura vagabunda vinha do porão da espelunca, atraves- sava o basculante e impreg- nava tudo: as paredes, os len- çóis grossos, os travesseiros toscos, a cortina pesada de veludo que vedava a janela. Ao lado da cama, sobre o criado-mudo, uma morin- ga, dois copos e um abajur empoeirado. No que se diz banheiro, o mínimo. Uma privada sem tampa, um cano no lugar de um chuveiro e uma pia amarelada e torta no canto, um espelho redon- do e duas toalhas aparente- mente limpas penduradas na maçaneta da porta. Ao longe, vestígios de um rádio ligado sujavam o silêncio. Deveria ser fim da tarde quando a porta se abriu e de lá surgi- ram Ademar e uma moça, como se fossem um corpo

só, tal a sofreguidão dos beijos, apertos, passadas de mão e entrelaços de pernas, cambraias e linhos se rasgan- do, botões voando, gemidos, muitos gemidos ecoando, antes mesmo de a porta ser trancada pelas mãos hábeis da mulher. Não perderam tempo. Uma vez trancafia- dos, mergulharam um no outro sobre a cama, num balé animal, aflito e ruidoso, que não durou mais do que o suficiente para Ademar se dar por satisfeito.

Como é mesmo o seu nome?

-

-

Margareth.

Você vem sempre nesse lugar?

-

-

Umas quatro vezes por

semana, tirando sábado e domingo.

- Você não trabalha sábado

e

domingo?

 

-

É a minha folga.

Ademar esfregou a testa, coçou a cabeça, vasculhou

o

ambiente com os olhos.

Estranhou tudo.

 

-

Margareth

é Margareth,

não é? Me diga, minha filha, como foi que chegamos aqui?

-

De táxi, não lembra?

Não lembro. A bebida me faz mal.

-

Percebi. O senhor gozou rápido.

-

***

Ademar estava zonzo.

Embora há tempos quisesse

viver um encontro arrisca- do com sabe-Deus-quem,

não entendeu se deu conta

do que fazia naquele lugar. O uísque ordinário tinha um efeito devastador e, aos tropeços, tentou recolher as

roupas que se espalharam pelo chão. Apertou os olhos, tentando enxergar o que aca- bara de cometer nos últimos instantes.

- Como é que conheci você?

- Na mesa do Calypso. O

senhor foi logo sentando e perguntando quanto custava. Nem teve a elegância de me perguntar o nome.

- Elegância?

- É. A gente costuma fingir

que está começando a viver uma romance.

- Romance?

- Por que não? Essa profis-

são me dá o direito de me iludir, iludir os clientes, ilu- dir o tempo, até o momento em que o dinheiro voa, voa, voa e pousa na minha bolsa.

- Quanto foi que combina- mos?

- Não acabei o serviço

ainda. O senhor me falou na mesa que queria me namorar muito. Prometeu o céu, as estrelas, o universo. Prometeu me levar a um programa da Rádio Nacional.

- Não, minha filha. Não

considere o que eu disse. Nem eu considero o que eu disse.

- Vem cá, senhor, relaxe.

Não me deixe com saudade de ainda há pouco. Tenho muito trabalho gostoso pela frente.

***

- Dessa vez o senhor demo-

rou mais a gozar… está se acostumando comigo?

- Não, minha filha…

estou sendo empurrado por sei-lá-o-quê para dentro de você… sem comentários, nem perguntas. Por favor.

- Não se preocupe. Sou

discreta e nada curiosa. Faz parte da natureza do meu negócio.

- Não fale em negócio!

Estamos aqui para viver uma

paixão, um romance.

- Bravo! Que bela surpresa!

Admitindo o nosso romance, hein? Pelo que estou vendo o uísque ordinário está perden- do o efeito. Quer apostar que agora sua cabeça vai virar

uma bigorna?

- Tem água nessa pocilga?

- Vira a moringa no copo

e senta aqui no meu colinho.

Vamos cuidar da ressaca que

o tempo é uma criança.

- Criança… criança….

seu filho é menino ou meni- na?

- Mas que observador!

Reparou minha cicatriz da

cesariana!

- E também seus bicos dos

seios escurecidos. Deve ter

amamentado de três a quatro meses, quando as glândulas mamárias secaram. A par- tir daí, a repetição de uma massagem assim e assado, devolveu à dona esses dois

manjares, que agora repou-

sam sob minhas mãos.

- Então, já que o senhor

descobriu que sou mãe… adivinhe se a criança é filho

ou filha da puta…

- Que palavreado horrendo!

Mas eu perdôo. Você é muito graciosa, mãezinha responsá- vel. Com quem fica a criança quando você trabalha?

- Com minha tia. Tenho

uma vida muito difícil. Perdi meus pais muito cedo. Mi-

nha mãe morreu tísica logo que nasci. Meu pai, no auge da mocidade, se meteu numa briga na Galeria Cruzeiro. Foi esfaqueado e não resistiu.

Fui criada por uma tia, pros-

tituta de luxo, que fazia vida num belo apartamento no Catete, mas perdeu tudo no

Cassino da Urca. Por gratidão

e vocação, entrei nessa vida para sustentar a tia e acabei

arrumando uma criança para

dar mais trabalho, adivinha a

quem?

- A coitada da sua tia.

- A própria, pobrezinha. Na

verdade, não tenho o que me queixar, mas pela infância

que tive com a velha tia Au-

rita, que não poupou a me-

lhor educação, os melhores hábitos, os melhores livros e as roupas mais finas à so- brinha órfãzinha, até que eu

merecia um bar melhor que

o Calypso. Merecia umas

roupinhas mais chiques ,

merecia freqüentar um hotel

no Lido, em Copacabana, no Flamengo, enfim, um lugar menos ordinário do que esse

aqui na Mem de Sá.

- Não fale mal deste paraí-

so. É o nosso ninho de amor.

- Por favor, vamos deva-

gar com as ilusões. Daqui a pouco o senhor me paga, vai para a casa e eu volto para

o Calypso, para mais uma

rodada no meu taxímetro.

- Mas enquanto daqui a

pouco não chega, vamos aproveitar esse pouco que nos resta.

***

Algumas horas antes, a moça chegava ao Calypso, bem antes da fervura do local. O bar de encontros

começava a ficar interessan- te a partir das seis e meia, quando senhores vetustos de jaquetão e relógios de bolso deixavam a fineza na calça- da e se esborrachavam no uísque ordinário servido em pequenas mesas de tampo de mármore, quase sempre já

preenchidas por duas – ou às

vezes três – raparigas dispo- níveis. Ocupando uma boa mesa, bem perto da entrada,

a

moça queria logo ser vista

e

desejada pelo primeiro

cavalheiro que da porta sur- gisse, desde que cumprisse seus caprichos e requisitos. Foi abordada pelo garçom, que estranhou sua presença ali, naquele momento tão adiantado. Mas como bom anfitrião, deixou-a completa- mente à vontade, além de lhe acender um cigarro e servir um drinque de boas-vindas.

No piano, um tipo quase imberbe, cabelo de glos- tora e colarinho troncho,

mal dedilhava um bolero, enquanto fumava um mata- rato impertinente, tão denso, mas tão denso, que pouco se enxergava o balcão às suas costas, de onde a moça viu surgir um vulto cambalean- te em sua direção, que, sem cerimônia – ou sem conheci- mento dos estatutos do local

–, sentou-se ao seu lado e foi

logo colocando a mão direi- ta na sua coxa. Sem dúvida, uma intimidade de provocar arrepios.

A conversa durou pouco. Mal se apresentaram, mal se enxergaram. Não chegaram a

trocar nomes, mas acertaram uma saída urgente, já que um lugar mais aconchegante

e discreto poderia ser mais

apropriado para escoar toda

a excitação. No táxi, beija-

ram-se com sofreguidão e só pararam quando o motorista estacionou na porta de um prédio chinfrim na Mem de Sá. Ao analisar o hotel do telhado ao meio-fio, o cava- lheiro balbuciou para si, com bafo de uísque ordinário:

“Deus me perdoe… era tudo o que eu queria.”

***

- Deus me perdoe… era

tudo o que eu queria.

- Ouvi bem o que o senhor

disse?

- O que eu disse, minha filha?

- Algo como “Deus me

perdoe… era tudo o que eu queria”.

- Digamos que o que você

ouviu foi apenas um golpe de ar que partiu involun- tariamente do esôfago, pas- sando pelas cordas vocais, e, no encontro do palato e da língua em ligeiro movimento, produziu um efeito asseme- lhado a um som indecifrável, que poderia sugerir algumas palavras. Nada que a cons- ciência tenha comandado. Portanto, se disse, não disse o que você supõe que eu tenha dito…

- Para. O senhor, você, seja

lá como quer ser chamado, me enrola. Diz que não diz

o que diz. Diz que não diz o que pensa e o que sente. Mas não pode dizer o que sente senão estraga tudo. Até entendo. Estamos aqui num teatro, aqui está o palco, ali está a platéia naquele espe- lho, formada por nós mes- mos. Aqui, o cenário: uma cama suficiente, onde você deposita seu carinho animal dentro de mim e eu o recebo

com braços e pernas aber-

tas, como se fossemos dois

amantes em pleno gozo do amor, da paixão, do compa- nheirismo, da cumplicidade, como manda o figurino dos grandes amores. E tem mais:

duvido que você não duvide da minha sinceridade. “Será que ela goza? Sera que ela finge?” Quer apostar como isso não sai da sua cabeça?

- Mas você gozou, não

gozou?

- Fique com a dúvida. Essa

dúvida é que faz com que

meus clientes voltem sempre.

Essa dúvida me excita. Essa

dúvida é o fio que separa a

paixão da hipocrisia.

- Você fala de um jeito que

não parece que é o que você

é.

- Não subestime o que

eu sou. Só porque sou uma mulher fácil e achada numa mesa do Calypso não posso pensar na minha condição? Não basta ser puta? Tem que ser puta e burra?

- Puta, não! Aqui dentro

você não é puta! Está no nosso contrato viver um ro- mance de duas ou três horas. Ainda faltam alguns minutos. E, por enquanto, nós somos dois amantes sem pudores, que se escondem da vida

num quartinho de um ho-

tel. E por isso se desejam, se lambuzam, se querem bem. Isso é o que vale. O aqui e o neste momento.

- Pára de falar…, - a

moça afrouxou a voz. - Estou

com vontade de fazer tudo de novo…

Ademar baixou a guarda.

- Diz “estou com vontade

de fazer tudo de novo”, diz. É vontade mesmo ou é fingi- mento?

A moça põe, entre os den- tes e a pontinha da língua, a orelha do parceiro. E diz, rouquíssima:

- Pois fique com a dúvida , a-do-ro a dú-vi-da.

***

As duas horas combinadas passaram voando. Ademar excedeu o tempo e nem quis saber o quanto pagaria a

mais. Os instantes tinham

sido tão generosos, que, fosse

o que fosse o que estivesse

registrado no taxímetro da moça, seria um dinheiro bem despendido, um investimen- to no escuro com retorno farto de energia e auto- estima. Embora sentimentos de culpa e remorsos não

tenham aparecido, Ademar já sentia o ímpeto de abrir

a

carteira, acertar o negócio

e

sair correndo atrás de um

táxi, até chegar aos braços e abraços das suas filhas, que – adolescentes que eram – não costumavam dormir cedinho como bem recomendado às crianças.

- Minha filha, acho que está na hora…

- Não estou ouvindo mais

o rádio.

- Me recuso terminante-

mente a entrar nesse chuvei- ro nojento.

- Vai sem banho. Chegue

em casa com meu cheiro no corpo. Os suores e perfumes

do sexo são divinos, abenço- ados e inocentes. Pior seria um batom na camisa, um chupão no pescoço. Quanto

a isso, pode ficar tranqüilo:

sou muito cuidadosa.

- Sábia, você é sábia

- Você não me disse o seu nome.

- Meu nome?

- Também não quero saber.

As colegas do Calypso vão

me perguntar com quem fiz

o programa e eu vou dizer

com Ninguém. “Saí com Nin- guém que deu uma bimbadi- nha e me largou num cafofo da Mém de Sá, com uns trocadinhos na bolsa. Fujam de Ninguém. Ele trepa mal e paga pior ainda.”

- Definitivamente você não saiu com Ninguém.

- De fato: saí com Alguém.

- Alguém, assim, tão indi-

gente?

- Não. Alguém dos Santos.

Um quarentão grisalho, feroz

e carinhoso, um pouco abe-

lhudo pro meu gosto. Investi- gou minhas cicatrizes, exami- nou meus mamilos, cheirou meus cheiros, escarafunchou meus recintos secretos. Mer-

gulhou em mim como um

cliente íntimo e freqüente, e que teve a coragem de sair daqui com meu perfume no seu corpo.

- Não. Eu não tive coragem

é de entrar naquele chuveiro.

- E ainda por cima, bem

dotado de senso de humor.

- Está aqui o que devo. Por

favor, não conta agora não.

Fico meio sem jeito, não

estou acostumado com essas coisas. É mais do que você pediu. É menos que você

merece.

- Já descobri o seu nome.

Você é Alguém. Alguém com sobrenome bonito: Alguém dos Santos. Alguém com sobrenome comprido, como os nobres e incomuns. As-

sim: Alguém Muito Especial Cavalheiro dos Anjos e dos

Santos. Muito prazer, Marga-

reth.

***

Ademar deixou o hotel

sozinho e flutuando nas

nuvens. Nada que abalasse seu estado moral, mas en- trou num táxi com as veias

e artérias dilatadas, por onde fluíam sentimentos e sensa- ções de um bem-estar inédi- to e encantador.

Precisava – e como precisa- va – ter vivido esse despudor pelo menos uma vez na vida.

Não pensava em retornar ao

Calypso, onde nunca tinha

ido antes. O que mais queria

naquele momento era chegar

em casa, abraçar as filhas,

beijar a mulher, que, dormin-

do, não perguntaria porque

chegou quase à meia-noite. E assim o fez. Deitou na cama sem fazer barulho e custou

a adormecer. Ainda com o

cheiro da moça no corpo, caiu num sono profundo

e restaurador, como nunca tinha dormido antes.

***

A moça deixou o hotel sozinha e flutuando nas nuvens. Nada que abalasse

seu estado moral, mas en-

trou num táxi com as veias

e artérias dilatadas, por onde

fluíam sentimentos e sensa-

ções de bem-estar inédito

e encantador. Precisava – e como precisava – ter vivido esse despudor pelo menos uma vez na vida. Não pensa-

va em retornar ao Calypso,

onde nunca tinha ido antes.

O que mais queria agora era

chegar em casa, abraçar os filhos e beijar o marido, que, meio dormindo, inevitavel- mente perguntaria:

- Tudo bem, Maria Cristi- na? Tia Judith está melhor?

- A enfermeira custou a

chegar. Por isso cheguei tão

tarde.

E assim aconteceu. Maria

Cristina deitou na cama sem fazer barulho, custou um pouco a adormecer. Ainda enfeitiçada por ter sido Mar- gareth por algumas horas, caiu num sono profundo e

restaurador. Como nunca tinha dormido antes.

Contos Noite de chuva Mariana Valle http://www.flickr.com/photos/mattcarman/3707425805/sizes/l/
Contos
Noite de chuva
Mariana Valle
http://www.flickr.com/photos/mattcarman/3707425805/sizes/l/

Ela andava por um beco escuro. Passos apressados,

com medo. A capa de chu- va cobria o collant e a calça suada que ela usara na aca- demia. Acabara de voltar da aula de dança. Nada a fazia mais feliz do que aquela

hora e meia de aula

quando se lembrou da co- reografia do dia que ela se deparou com um moreno

forte e mal-encarado.

- Tá sorrindo pra mim é, lindona?

Ela tentou avançar, sem sucesso. Aqueles braços musculosos e sujos de graxa impediam seu caminho.

- Onde você pensa que vai, boneca?

- Você não tem nada a

ver com isso. Dá licença, por favor?

- Hummm. Que educa-

ção. Olha aqui garota, saiba

você que eu tenho tudo a ver com isso, porque você vai comigo agora praquele cantinho.

E foi

E dito isso ele já foi em-

purrando-a para o ambiente sujo, fétido e escuro.

- Não, por favor, me

deixa ir embora. Eu te dou todo o meu dinheiro, toma. É seu.

- Quem disse que eu

quero grana, princesa? Eu

quero você.

-

Por favor

E

nisso ele já tinha aber-

to a capa e já abaixava a

alça do collant.

- Não, por favor

- Hum, que peitinho

gostoso. Vou mamar você

todinha.

- Por favor

- Ai, pede, pede mais que eu fico louco.

- Me deixa ir

- Que barriguinha

- Socorro!

Com violência, ele ta- pou sua boca e puxou seu cabelo.

- Olha aqui, gostosinha.

Gemer pode, mas gritar não. Assim eu perco a paci- ência.

E isso parece que o dei- xou com mais tesão ainda,

pois num minuto ele rasgou

o collant e colocou o seu

membro naquele buraco

quentinho.

- Hum, sua safada. Tá

molhadinha, hein? Tá gos-

tando do papai aqui, tá?

- Me deixa ir embora -

dizia ela cerrando os dentes

e arranhando a lataria do

carro onde estava deitada.

- Eu deixo, mas antes vou

fazer a festa, sua cadela - disse o moreno dando um

tabefe naquelas fuças.

- Ai, não precisa me ba-

ter. Eu fico quietinha.

- Ah vai ficar quietinha,

é? Mas eu não quero não,

sua piranha. Quero te ver

gemendo, gritando. Quero te ver gozando, vai.

- Por favoooooor

- Isso vai, assim que eu

gosto. Já está até perdendo

a voz.

- Me deixa ir embora

- Sem acabar o serviço?

Dito isso, ele a virou de

quatro e retomou os tra-

balhos cada vez com mais

força.

Ela não sabia se chorava

ou se gemia.

- Ai

- Vamos parar com essa

por favor

educação? Me manda meter, vai.

- Como assim?

- Manda logo, porra.

- Mete.

- Assim não, tá muito

fraco. Quero ouvir alto.

- Meeeete.

- Mais forte.

- Mete!

- Ta melhorando. De novo.

- Mete, cacete.

- Isso! Assim que eu gosto.

- Mete logo essa porra!

- Hummm.

Era o que faltava pro

garanhão gozar.

- Agora pode ir, cadela. E

não esquece: você nunca me viu na vida, hein? Sei onde

você mora e vou infernizar tua vida se tu der com a

língua nos dentes.

Em casa, já no chuveiro, ela não conseguia esquecer o que tinha acabado de

acontecer. E nunca contou

pra ninguém, nem pra sua

analista. Mas todo dia de noite sonhava com o tal

moreno. E acordava com o

lençol encharcado.

Contos Léo Borges invasão nas ondas médias – Doces ou travessuras? pelas ruas, ignorando a
Contos
Léo Borges
invasão nas ondas
médias
– Doces ou travessuras?
pelas ruas, ignorando a
batalha incipiente, fidedig-
– Como “doces ou tra-
vessuras”? Como seus pais
deixam vocês soltos numa
noite como esta? Não estão
ouvindo as notícias?
namente transmitida pela
Rádio CBS.
O militar estava transtor-
nado. Participara da guer-
ra de 1914 no apoio dos
Estados Unidos à Tríplice
Entente como soldado raso,
onde sofrera ferimentos de
todo o tipo (além do psico-
lógico abalado pela morte
dos colegas de farda) e ago-
ra se via novamente frente
à outra, talvez ainda mais
devastadora.
– Mulher, você não vai
acreditar! Notícias e mais
notícias sobre a assombrosa
invasão marciana e idiotas
vestidos de diabos e bruxas
aí fora desfilando!
O tenente Mark Budd
não entendia como algu-
mas crianças mantinham
as inocentes brincadeiras
do Dia das Bruxas mesmo
com a tensão que pairava
sobre aquele 30 de outubro.
Capetas e vampiros desavi-
sados ainda perambulavam
Rose Budd, assustada
desde que sintonizaram o
drama nas ondas médias,
via sua aflição aumentar
gradativamente com o
pânico disseminado pelo
professor Pierson, codinome
do produtor radiofônico
Orson Welles. Este nar-
rava o estranho episódio
http://www.flickr.com/photos/scatterkeir/2436938431/sizes/l/

de OVNIs que invadiam o espaço aéreo americano e, vez por outra, abria espaço para que gritos histéricos de repórteres e de pessoas sendo caçadas por insuspei- tos seres esverdeados fos- sem levados a toda a nação. Muito longe de ser uma tragédia comum, aquilo era uma impensável ocorrência extraterrestre. Alienígenas estavam atacando o mundo

e a tecnologia dos novos

aparelhos de radiofreqüên-

cia servia apenas para que

o medo se espalhasse mais

rápido.

– Meu Deus, Mark! Es- tamos nos curvando para esses seres de Marte!

O tenente Budd, procu-

rando ripas no sótão, não ouviu o comentário. Estava mais preocupado em en- contrar objetos que pudes- sem ajudá-lo a lacrar as possíveis entradas, dificul- tando, assim, o acesso dos

inimigos verdes à sua casa. Ainda incrédula, Rose mu- dou de estação para ouvir o que outras rádios poderiam estar falando sobre o terrí- vel acontecimento. Captou uma estação com notícias

internacionais:

A poetisa Gertrude Stein

continua defendendo a entrega do Nobel da Paz de 1938 ao líder alemão Adolf Hitler. Este posicionamen- to é compartilhado por Chamberlain, que acredita nas promessas deste novo ícone mundial. Robert Kolgest, analista geopolítico presente aqui em nossos estúdios, crê que, através

destas conexões políticas, a paz vigorará inexoravelmen- te neste planeta no início da nova década

– Ora, Rose – interrom-

peu Mark –, estamos viven- do uma guerra dos mundos

e você muda o dial para

alguém falando em “paz na nova década”?! Não sabemos nem se vamos estar vivos em 1939! Quem quer saber sobre Nobel da Paz neste

momento? Volte para a CBS!

A história da guerra

interplanetária ganhava força no boca a boca e as ruas, aos poucos, se esva- ziavam, com os foliões, em

fuga, abandonando suas fantasias. Welles era enfáti- co ao informar que muitos já haviam sucumbido ante os raios de esquisitas ar- mas e os que ludibriavam

a morte eram, de qualquer

modo, cooptados e tinham a consciência subtraída; o Halloween, de mera ficção, ganhava personagens reais. Rose, subitamente, lembrou- se dos pais, idosos, morado- res do quarteirão vizinho.

– Vou ver meus pais –

disse e saiu por uma janela que ainda não fora vedada.

– Está louca?! Quer ser

abduzida? Eles estão bem! Meu sogro não saiu de casa nem para saudar Roosevelt em seu comício! Não é ago- ra, no meio dessa calamida- de, que o velho vai botar a cara na rua.

– Você é das Forças Ar-

madas! Devia estar fazendo

alguma coisa além de se acovardar escorando ma-

deiras nas portas e janelas!

– berrou a mulher, nervosa com o marido.

Rose saiu sem olhar para

trás. O dever de cuidado com seus pais era maior do que o temor por encontrar

bizarros ETs pela frente. Corria aos tropeções sob os olhares atônitos de pessoas escondidas em suas casas, agora transformadas em verdadeiras fortalezas.

No meio do caminho, chorou. Com tanta tecnolo- gia bélica o homem ainda era incapaz de fabricar armas que evitassem um problema de tal magnitude. Mas, esperar o quê de seres que constroem um opulen- to e, afirmado pelas autori- dades navais, extremamente seguro navio para, logo em sua primeira viagem,

afundar? Isso sem falar na bestialidade da sangrenta guerra – esta puramente humana – de vinte e quatro anos atrás. O mundo estava mesmo perdido. Talvez a invasão dos marcianos não fosse de toda ruim. Iriam

destruir essa medíocre e ig-

nóbil civilização e criariam uma nova, mais inteligente

e justa.

Num átimo, Rose se enxergou ao lado de um dos dominadores esmeral- dinos, quem sabe o mais robusto e poderoso, alguém

que fosse o mentor de toda

a

invasão. Um giro rápido

e

confuso de recordações

entrecortadas fez deste pen- samento um paralelo com seu casamento e de como

o condicionara à ascensão

de Mark no meio militar. A convicção de que somente amor não mantém relacio- namentos (muito embora não admitisse ser taxada como uma pessoa materia- lista) sempre a acompanhou

e, por isso, acreditava que

estar perto dos vencedores era um meio legítimo de proteção e, por conseguinte, de sobrevivência.

Mas o desvario, revesti-

do por uma grotesca carga libidinosa, a fez corar de vergonha e entender que aquilo era pecado não ape- nas macabro como também digno de severo castigo. O remorso obrigou-a, então,

a correr ainda mais rápi-

do, como se, agora, lutasse para escapar dos insidiosos flashes que açoitavam sua mente. Enquanto corria, viu restos de capas, más- caras mortuárias e cruzes de madeira esquecidas nas calçadas. Ninguém nas ruas além dela e de sua sombra criada pelos antigos pos- tes de ferro do subúrbio de Nova Jersey. Durante a sôfrega correria, a mulher passou perto de uma casa que também ouvia, em alto som, o noticiário que vinha tirando sua paz:

Pierson, eles estão che- gando à Manhattan. São muitos e são hostis. Nossa correspondente em Detroit foi atacada e virou um zumbi. Vou suspender a transmissão. Nick Rogers diretamente de Nova York. Que Deus nos proteja

– Como? Como é que isso pode estar acontecen-

do? Não é possível! – balbu- ciou Rose para si mesma.

– Aquele alemão que está

concorrendo ao Nobel da Paz deveria se pronunciar. Vir a público para dar al- guma esperança às pessoas.

Falar sobre algum projeto para eliminar essa praga sideral que assolou o mun- do

Desanimada e sem fô-

lego, Rose caiu ajoelhada, olhando para o firmamento

e clamando por Deus; o céu

estava limpo, mas a luz das

estrelas parecia ocultar o brilho dos discos voadores. Em sua frente, repousan- do no asfalto, apenas uma

sarcástica e oca abóbora, vazada com seu indefectível sorriso demoníaco. Os inva- sores esperaram o Hallowe- en para poder concretizar o plano. Nada mais perfeito:

bruxas e marcianos. Era isso! Eram seres realmen- te evoluídos. Estudaram o comportamento e as tradi- ções dos humanos por anos! Uma noite como aquela, onde todos festejavam o Mal, era perfeita para a conquista da Terra.

Rose, já sem esperanças em uma vitória da Humani- dade, chorava copiosamente quando um soturno homem de terno surgiu em sua frente, oferecendo o braço para ajudá-la a se levantar.

– Q-quem é você?

– Pegue esse pão embe-

aquela aparição, Rose acei- tou a ajuda e, lentamente,

ergueu-se.

– Doce? Travessura? Meu

senhor, ainda brincas de Halloween? Que calma é essa?

– Desconfie do que ouve

e tenha cuidado com os verdadeiros invasores – dis- se, com paciência, o miste-

rioso sujeito, afastando-se, logo após, num calmo vagar. Antes, porém, deixou

um livro sobre a abóbora com os dizeres: A Guerra dos Mundos – H. G. Wells.

A simples presença daquele exemplar ilumi- nou a mente de Rose de tal modo que a escuridão de desconfianças dissipou- se de imediato, permitindo que o silêncio noturno rapidamente invadisse seus ouvidos. Não havia nenhum ruído de armas estelares ou de monitoramento do espaço terrestre; não havia naves; não havia marcianos; não havia invasão. Mas ain- da assim a mulher sentiu as pernas tremerem, pois a calmaria, de tão mórbi- da, gerou-lhe um súbito e intenso calafrio. Quem era aquela pessoa?

– Qual o seu nome, cida-

dão? – indagou com algum receio.

De longe, sem se virar, o

homem respondeu:

– Kane.

bido em groselha. Um doce aliviará seu pânico pela travessura.

Mesmo estranhando

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SAMIZDAT dezembro de 2009

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Contos a lô, Waldirene? 46 46 SAMIZDAT dezembro de 2009 SAMIZDAT dezembro de 2009 Barbara Duffles
Barbara Duffles

Barbara Duffles

1: Seu problema é autoboicotismo crônico, senhor.

2: E o que seria isso?

1: Simples. O senhor sabota sua vida. Coloca empecilhos para justifi- car sua depressão – que eu inclusive acho que o senhor saboreia.

2: Eu saboreio minha depressão??

1: Sim. No fundo, o senhor gosta de ser um loser. Chorar suas pitan- gas para os amigos, dizer- se impróprio para a vida.

2: Mas eu sou mesmo. Minha vida não caminha. Vejo os outros correndo por fora. Eu não luto e nem tenho forças para