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AS REPRESENTAÇÕES IDENTITÁRIAS EM GÊNEROS DO HUMOR

Maria Aparecida Resende Ottoni Universidade Federal de Uberlândia

Resumo: Este trabalho é parte do resultado de minha pesquisa de doutorado, realizada em uma escola pública com turmas de 7ª ano. Nele, eu analiso, com base na Análise de Discurso Crítica (Fairclough, 2003) e na Lingüística Sistêmico-Funcional (Halliday, 1994), as representações identitárias do povo brasileiro em dois gêneros do humor e apresento as leituras construídas pelos/as alunos/as, a partir desses gêneros. Palavras-chave: discurso; gêneros do humor; identidades; Análise de Discurso Crítica.

Abstract: This work is part of the result of a research performed in a public school, with 7 th grade classes. In this work, I analyze, based on Critical Discourse Analysis (Fairclough, 2003) and Systemic Functional Grammar (Halliday, 1994), the identities representations of brazilian people in two humor genres and I present the readings constructed by the students, from these genre. Keywords: discourse; genres of humor; identities; Critical Discourse Analysis.

Neste trabalho, apresento parte dos resultados de minha tese de doutorado, centrando- me na análise das representações identitárias do povo brasileiro em gêneros do humor (GHs). Como aporte metodológico, adotei a etnografia crítica e, como aporte teórico, os pressupostos da Análise de Discurso Crítica - ADC (Chouliaraki e Fairclough, 1999; Fairclough, 2003) e da Lingüística Sistêmico-Funcional – LSF (Halliday, 1994). A pesquisa foi realizada em uma escola pública, com turmas de 7ª série, em Uberlândia, Minas Gerais. Após o período de observação participante, desenvolvi, em conjunto com duas professoras, uma proposta de leitura e análise crítica do gênero piada, designada como Proposta Piloto e, no ano seguinte, elaboramos e desenvolvemos uma proposta de leitura e análise crítica de diferentes gêneros do humor 1 , intitulada Proposta Final. Durante o desenvolvimento de ambas, procurei, em conjunto com os/as participantes, fazer uma ADC dos textos, investigar quais representações identitárias eram construídas nesses textos e discuti-las. De tudo que foi lido e analisado, eu selecionei, para este trabalho, uma piada não animada, utilizada na Proposta Piloto, e uma charge animada, utilizada na Proposta Final.

1. A Análise de Discurso Crítica e a Lingüística Sistêmico-Funcional A perspectiva da Análise de Discurso Crítica (ADC) - enquanto teoria e método - (Chouliaraki e Fairclough, 1999; Fairclough, 2003) representa uma alternativa transdisciplinar de estudos da linguagem e práticas sociais que investiga fenômenos discursivos diversos especialmente em relação a questões de poder, ideologia, discriminação e constituição de

1 Na Proposta Final, foram utilizados os gêneros: cartum, charge, charge animada, piada, piada visual, piada animada e esquete, os quais foram selecionados, em grande parte, pelos/as alunos/as.

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identidades. Ela abre espaço para um diálogo com outras teorias e traz no bojo de sua concepção uma postura emancipatória, que se empenha para tentar produzir transformações sociais (Wodak, 2001). Em seus diferentes modelos, Fairclough tem procurado estabelecer um diálogo, cada vez mais estreito e consistente, entre a ADC e a LSF. Ele argumenta que a LSF é a teoria lingüística mais apropriada para desenvolver uma análise de discurso crítica porque ela é profundamente preocupada com a relação entre a linguagem e outros elementos e aspectos da vida social e sua abordagem para a análise lingüística de textos é sempre orientada para o caráter social dos textos. Fairclough argumenta que precisamos de uma teoria da linguagem, tal como a de Halliday, que enfatiza sua multifuncionalidade, que vê qualquer texto como simultaneamente desempenhando o que este autor chama de metafunções ideacional, interpessoal e textual da linguagem. Ao se apropriar do postulado da LSF, Fairclough (2003)

efetiva uma operacionalização nessas três metafunções de Halliday para dar origem a três tipos de significado do discurso por ele propostos: o significado acional, o representacional e o identificacional. Ele explica que o discurso figura de três modos principais nas práticas sociais: como modos de agir (gêneros), como modos de representar (discursos) e como modos de ser (estilos). A cada um desses modos de interação entre discurso e prática social corresponde um tipo de significado. Assim, o significado acional focaliza o texto como modo de (inter)ação em eventos sociais e, dessa forma, está associado a gêneros e à função relacional (parte da função interpessoal); o significado representacional enfatiza a representação de aspectos do mundo em textos, e é portanto relacionado a discursos e à função ideacional. Já o significado identificacional, que se refere à construção e à negociação de identidades no discurso, está interligado a estilos e à função identitária (também parte da função interpessoal) 2 . Dado o foco deste trabalho nas representações identitárias, o interesse volta-se para o significado identificacional, o qual é relacionado ao conceito de estilo (identidades social e pessoal). O estilo diz respeito aos “modos de ser ou identidades em seus aspectos lingüísticos

e semióticos” (Fairclough, 2003: 41). Os estilos são realizados por meio de uma série de

traços lingüísticos, como: fonológicos (pronúncia, entonação, ritmo), vocabulário e metáfora;

e envolvem também uma interação entre a linguagem verbal e corporal (expressão facial,

gestos, postura, estilo de roupa e cabelo). Nessa realização, o discurso ocupa uma posição

2 Na sua obra de 2003, Fairclough não distingue uma função textual separada. Ele a incorpora ao significado acional: “não distingo uma função ‘textual’ separada, ao contrário, eu a incorporo dentro da ação” (p.

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central na constituição das identidades, uma vez que estas se constroem na linguagem e por meio dela, não existindo de maneira fixa e anterior a ela. A natureza da linguagem que usamos exerce implicações nos modos como as subjetividades são construídas e produzidas, acarretando novas formas de se perceber, de perceber o outro e de lidar com as diferenças. Ao usarmos a linguagem/discurso, não apenas reproduzimos as relações de poder; nós podemos refletir posições de resistência ao poder, de emancipação, de diferenças, de vozes alheias que incorporamos de outros discursos e ideologias, ao mesmo tempo em que podemos também nos reposiciocionar, transformando nossas identidades, e podendo, assim, agir sobre a nossa realidade social. Nessa dupla perspectiva de reprodução e resistência, considero que a identidade e a diferença, mais do que respeitadas e toleradas, como proposto nos PCN (Brasil, 1998), devem ser questionadas e problematizadas (Silva, 2000). Nesse sentido, pode-se dizer que é indispensável uma abordagem crítica ao discurso humorístico, em que se investigue, analise e, principalmente, questione e problematize as diferentes identidades representadas em gêneros do humor – e nos demais - usados em sala de aula e suas implicações na constituição das identidades dos sujeitos envolvidos no processo de ensino/aprendizagem. Como defendem Butt et al. (2000: 250), uma orientação crítica encoraja os/as alunos/as a explorar como os significados nos textos influenciam eles/as mesmos/as e os outros.

2. A representação identitária do povo brasileiro em gêneros do humor Os textos escolhidos para essa análise são de dois gêneros: a piada Lula e Nostradamus, do site www.humortadela.com.br, e a charge animada Zoando a propaganda Tente Outra vez (a versão para pobres daquela propaganda com Ronaldinho), do site www.charges.com.br. Veja-os:

PIADA

Ronaldinho) , do site www.charges.com.br . Veja-os: PIADA Lula e Nostradamus ostradamus já sabia do Lula!

Lula e Nostradamus

site www.charges.com.br . Veja-os: PIADA Lula e Nostradamus ostradamus já sabia do Lula! Fragmento de um

ostradamus já sabia do Lula! Fragmento de um texto de Nostradamus localizado recentemente em Dublin:

“e o próximo do terceiro ano do terceiro milênio uma besta barbuda descerá triunfante sobre um condado do hemisfério sul espalhando a desgraça e a miséria. Será reconhecido por não possuir seus membros superiores totalmente completos. Trará com ele uma horda que dominará e exterminará as aves bicudas de bem e implantará a barbárie por muitas datas sobre um povo tolo e leviano”

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CHARGE ANIMADA

4 CHARGE ANIMADA Vou analisar aqui alguns dos traços lingüísticos e dos recursos semióticos, por meio

Vou analisar aqui alguns dos traços lingüísticos e dos recursos semióticos, por meio dos quais se manifestam os estilos, para uma visão geral da/s identidade/s representadas no discurso dos GHs e no discurso dos/as participantes da pesquisa sobre esses GHs. A piada é constituída quase completamente pelo pré-gênero (Fairclough, 203) preditivo. Ao recontextualizar a profecia, trazendo-a para a piada e iniciando esta com a oração “Nostradamus já sabia do Lula”, o/a produtor/a do texto estabelece uma relação de afinidade com o discurso do profeta e com as referências feitas na profecia, de modo a levar os/as leitores a presumirem que a predição feita diz respeito ao presidente da república Luiz Inácio Lula da Silva. Nessa perspectiva, pode-se dizer que no discursivo da piada há uma sugestão do/a produtor/a de que aquilo que é presumido foi realmente dito na profecia, como:

besta barbuda = Lula, condado do hemisfério sul = Brasil, aves bicudas de bem = Fernando Henrique Cardoso/PSDB, povo tolo e leviano = povo brasileiro. Na visão dos/as alunos/as, a referência feita no texto constitui uma crítica à falta de consciência política do povo brasileiro, uma vez que entendem que “povo tolo e leviano” diz respeito a “Nós, que votamos nele” (aluna L1, 7ª A, encontro de 26/10/04). Veja como eles/as interpretaram essa referência aos/às brasileiros/as:

(1)

L1: Geralmente nós somos vistos fora do país como o povo só do carnaval, das mulheres bonitas, como se a gente não tivesse nada melhor que isso, né? Então, a gente é um povo tolo, sem inteligência, sem tecnologia, nossa política não permite que a gente cresça mais, então é isso que eles falam, a gente é tolo.

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Tem o FMI, a gente sempre endividando mais, eu acho que ele quis falar é isso, nós aceitamos tudo calados. (7ª A, 2º Grupo, transcrição do encontro de 26/10/04 gravado em vídeo).

Pode-se ver que o uso da adjetivação dupla, com carga semântica negativa, no grupo nominal “um povo tolo e leviano” atua na construção de uma identificação enfraquecida do ator social povo brasileiro. De acordo com a representação construída na piada e no discurso da aluna L1, no trecho acima, há uma crítica ao povo brasileiro e uma posição de reprovação ao seu comportamento. E, no discurso de L1, observa-se que essa identificação enfraquecida é construída com base na forma como os outros, não brasileiros, vêem o brasileiro, e não com base na sua visão de si mesmo. Ainda com relação ao grupo nominal mencionado, é relevante destacar que, na oração em que ele aparece “e implantará a barbárie por muitas datas sobre um povo tolo e leviano”, o povo brasileiro é um participante do processo material (Halliday, 1994) “implantará” na posição de beneficiário e não de ator. Isso, como ressalta Halliday, não significa que esteja recebendo/sendo alvo de algo benéfico. Nessa piada, o “beneficiário” será, sim, alvo de uma barbárie por muitas datas e isso corrobora o sentido construído por L1 quando diz que “nós aceitamos tudo”; por isso também a representação desse ator social de forma passiva na piada. Na análise dessa piada, perguntei aos/às alunos/as o que eles/as achavam das representações construídas na piada e se concordavam com elas. Veja o que disse uma aluna:

(2)

DA: Na nossa opinião, não concordamos com a piada, pois o PT não é uma maravilha, mas também não é algo tão ruim como se diz na piada, assim como o PSDB. Nós achamos que o povo brasileiro não é tolo e nem leviano, mas um povo que escolheu o que acha melhor para o Brasil. (7ª A, toda a turma, transcrição do encontro de 18/11/04, gravado em vídeo).

Penso que é muito importante abrir espaço para os/as alunos/as expressarem suas opiniões sobre o mundo representado nos diferentes discursos e perceberem que essa representação pode ser questionada. Quanto à charge animada, ela é um gênero essencialmente multimodal e dispõe, além do desenho e do texto verbal, do recurso sonoro e de animações para a construção de sentidos. Ela aborda uma temática social, cujo alvo é o “pobre”/povo brasileiro e faz uma sátira a um dos vídeos publicitários da campanha “O melhor do Brasil é o brasileiro 3 ” lançada em 19/07/2004. Todos os vídeos têm o slogan "Eu sou brasileiro e não desisto nunca" e, como trilha sonora, a música "Tente Outra Vez", de Raul Seixas, Paulo Coelho e Marcelo Mota, interpretada pelo grupo musical Barão Vermelho. O vídeo satirizado na charge é o que tem

3 Essa frase-mote do movimento “O melhor do Brasil é o brasileiro” é inspirada na obra do folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascudo. (ver www.aba.com.br/omelhordobrasil).

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Ronaldinho como protagonista. O objetivo dessa campanha, segundo site da Associação Brasileira de Anunciantes (ABA), é resgatar os níveis de auto-estima do brasileiro. Ela se apóia nos exemplos individuais de persistência, criatividade, superação de adversidades e vitória de personalidades e de pessoas comuns, que servem como inspiração para o cidadão acreditar mais em si próprio e perceber-se como agente ativo para a melhoria de sua vida e da vida do país. Neste GH, percebe-se uma crítica à diferença de realidades entre ‘os famosos’ representados na campanha e a grande massa de trabalhadores de classe baixa. Essa crítica foi feita também por muitos/as brasileiros/as, como M. em seu comentário:

E se Herbert Vianna, após socorrido do acidente, fosse levado a um hospital público? Se pegasse aquela longa fila onde só os baleados pela violência (em geral das áreas mais

pobres) têm prioridade? (

iniciando sua promissora carreira (

Será que, após marcar

sofresse a grave contusão no joelho que o deixou

se Ronaldinho não fosse "o" Ronaldinho? Se ainda estivesse

)E

pro

)e

dois anos parado? Também temporariamente desempregado. (

aquela consulta no SUS, daria tempo de Ronaldinho começar a fazer fisioterapia e se

seleção?

recuperar,

(http://www.velhaspalavras.blogger.com.br/2004_08_01_

archive.html.).

)

da

bem

Pode-se dizer que, na charge animada, cujo protagonista é o brasileiro ‘pobre’, a

A

grande massa a que ele/a se refere é representada na charge pelo ‘pobre’ – simbolizando o povo brasileiro - que, mesmo vivendo muitas vezes em condições subumanas, sem emprego, sem direito a atendimento médico-hospitalar gratuito e de qualidade, à educação, “não deve desistir nunca!”. O recurso gráfico-visual utilizado nesse GH atua na representação dos atores sociais e na produção das críticas feitas por meio dela. Segundo os/as alunos/as:

realidade representada é como se fosse uma resposta a essas questões propostas por M

(3)(3)(3)(3) “mostra como os brasileiros são representados por personagens mal vestidos e mostra páginas de jornais mostrando que o Brasil não tem uma boa estrutura na área da saúde. Mostra também nos jornais que os brasileiros estão quase todos desempregados e o trabalhador brasileiro estava desempregado por que o S.U.S. não o atendeu e então acabou manco e não conseguiu emprego por causa da sua deficiência.” (grupo da 7ª C: MF, F - resposta escrita, 27/01/06).

Além disso, a imagem do ‘pobre’ se machucando em um jogo de futebol, no início da charge, atua no estabelecimento da relação do nome “Ronaldo”, que aparece no subtítulo da charge, com o famoso jogador de futebol, mais conhecido como Ronaldinho, ativando, juntamente com o título da charge, o script da propaganda parodiada. Já as outras imagens

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(p.ex., o ‘pobre’ nas filas, o cartaz “Não há vagas”) constituem um gatilho (Raskin, 1985) para ativação de um outro script representativo da condição de vida do povo/pobre brasileiro. Para os/as alunos/as, nessa charge animada, constrói-se uma representação identitária segundo a qual o pobre/povo é identificado:

(4)

“Como necessitado, precisando de um emprego, e de um plano de saúde melhor que o fornecido pelo SUS”

(5)

(7ª A, grupo de V1, L1 e LB1, resposta escrita, 24/01/06); “uma pessoa sem chance de emprego e de saúde, pois se quando é pobre tudo é difícil” (7ª C, grupo de G1 e F1, respostas escritas, 27/01/06).

Apesar de todas essas dificuldades e limitações, o ‘pobre’ e, por extensão, o brasileiro é identificado como conformado:

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“O brasileiro é visto como alguém conformado, apesar de sua péssima situação, esperando ser atendido no SUS e esperando por um emprego.” (7ª A, grupo de V1, L1 e LB1, resposta escrita, 24/01/06).

Com relação ao texto verbal da charge, observamos que nele são usadas algumas negativas: “seu caso não é emergência”, “não há vagas”, “se você fosse bom da perna e não mancasse” e em “não desisto nunca” e nós procuramos observar os efeitos desse recurso na representação do ator social povo/pobre brasileiro. Veja os sentidos produzidos na charge, por meio do uso de negativas, segundo a leitura dos/as alunos/as:

“Retratar a realidade do pobre que apesar do pobre receber tantos nãos ele não desiste nunca.” (grupo da 7ª A - resposta escrita, 24/01/06)

(8) “Essas negativas podem dizer que o pobre encontra muitas portas fechadas, mais ele como brasileiro não desiste nunca.” (grupo da 7ª C: D, D2 - resposta escrita, 27/01/06).

(7)

Pelos sentidos construídos pelos/as alunos/as, observa-se que o uso desse recurso contribui para reforçar a condição do povo brasileiro como alguém que enfrenta muitas dificuldades na vida, mas que nunca deixa de tentar encontrar caminhos possíveis. No trabalho em sala de aula, também refletimos sobre a influência da narração da história do ‘pobre’/povo, com a repetição contínua do dizer “Tente outra vez” e com o final “Claro, sou brasileiro, não desisto nunca” no estabelecimento e sustentação da situação da classe menos favorecida como ‘aceitável e eterna’ (Thompson, 1995). Para um dos grupos:

(9) “para o pobre tudo é difícil, esse pobre já está conformado com tudo que acontece, quando ele não é atendido no hospital, quando perde o emprego, e mesmo assim continua procurando e ele mesmo diz que ele é brasileiro e não desiste nunca.” (grupo da 7ª C: B1, L - resposta escrita, 27/01/06).

Essa interpretação do grupo mostra que a estratégia de construção simbólica da narrativização (Thompson, 1995), associada à repetição do slogan da propaganda e do refrão

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da música, contribui para a legitimação da situação de vida do povo/pobre brasileiro e para a manutenção das relações de poder. A interpretação do grupo vai ao encontro do que Almeida

e Scaldaferri (2005: 14) destacam como um dos objetivos da campanha satirizada pela charge:

“reforçar a idéia de paciência e acomodação social e política, desestimulando ações populares

e coletivas e estimulando as saídas baseadas no auto-esforço individual”. Nesse sentido, o discurso veiculado na campanha, e retomado na charge com uma crítica implícita e como

forma de denúncia, é o de que “não há porque se revoltar e se organizar, basta ser paciente, persistente e agir dentro da ordem, se adequando ao grupo hegemônico, internalizando seus princípios, dentre os quais o individualismo” (idem, p. 10). Esse discurso, como destacam esses dois autores, contribui “com a despolitização da sociedade, ao incentivar uma esperança

e um ufanismo acríticos” (idem, p. 2). Essa esperança e ufanismo acríticos é problematizada na charge na medida em que ela contrapõe às histórias narradas nessa campanha a realidade e história do ‘pobre’/povo brasileiro que, diferentemente do apresentado nos vídeos da campanha, não é constituída de vitórias e sucesso. Enquanto na campanha todos os problemas representados são individuais, na charge eles são de um grupo designado como ‘pobre’. Em nenhum dos dois casos, todavia, faz-se menção a causas e a responsáveis sociais, culturais ou políticos por esses problemas. Considerando que, na campanha, as saídas e soluções são individuais, fruto de uma força de vontade pessoal, pela relação intertextual da charge com essa campanha, pode-se inferir que há uma crítica a uma possível crença de que o ‘pobre’ conseguirá reverter sua situação por meio apenas de iniciativa individual. Além dessas leituras, os/as alunos/as entenderam que o slogan “Sou brasileiro. Não desisto nunca” presente em todos os vídeos da campanha e recontextualizado na charge estabelece uma unificação dos brasileiros ao produzir o sentido de que todo brasileiro não desiste (ou não deve desistir) nunca:

(10) “Nós identificamos a ideologia de unificação no fato de o brasileiro pobre ser retratado na charge de forma generalizada a todos os brasileiros (quando o personagem diz: “Sou brasileiro e não desisto nunca”) e a todos os pobres (quando o personagem mostra as dificuldades dos pobres).” (grupo da 7ª A: R, R1 - resposta escrita, 24/01/06).

Pode-se dizer ainda que o fato de o produtor da charge apresentar o slogan como uma fala do próprio ‘pobre’, no final da charge, pode ser entendido como uma crítica à possível internalização, por parte da grande massa de assalariados brasileiros, do discurso defendido pela classe dominante. Assim, a reprodução desse slogan como uma espécie de ‘lema’ dos

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brasileiros atua na construção de uma forma de unidade, interligando os brasileiros numa identidade coletiva, independente de suas diferenças de classe, raça, gênero, etc. E, por meio dessa unificação, as relações de dominação podem ser sustentadas. O ‘pobre’/povo brasileiro é identificado, então, como um povo que incorporou o dizer “sou brasileiro e não desisto nunca” da campanha satirizada na charge e, assim, mesmo vivendo muitas vezes em condições subumanas, sem emprego, sem direito a atendimento médico-hospitalar, à educação, defende que “não deve desistir nunca!”.

Considerações Finais Considero que a forma como os sujeitos são identificados nos diferentes GHs reflete justamente o nosso imaginário social acerca deles; ela é um reflexo de nossas práticas sociais, mascaradas pelo artifício da brincadeira, do riso. Observou-se que, nos dois GHs e a partir deles, pelos/as alunos/as, são construídas representações identitárias enfraquecidas do ator social povo/pobre brasileiro, segundo as quais ele é um povo: passivo; despolitizado; submisso; conformado; sem inteligência; que aceita tudo calado; que enfrenta graves problemas de desemprego, de falta de atendimento médico-hospitalar de qualidade e gratuito; que encontra muitas portas fechadas; que recebe muitos ‘nãos’, mas, mesmo assim, não desiste de tentar superar suas adversidades e de vencer.

Foi possível observar também que o/a produtor do discurso humorístico traz para seu discurso estratégias de construção simbólica por meio das quais a ideologia funciona, no discurso dito ‘sério’, na unificação de certos grupos, como o do pobre/trabalhador/povo brasileiro, não para a construção de seu fortalecimento, mas para colocar em evidência sua fragilidade e passividade e denunciar a facilidade de manipulação desses grupos. Ao trazer isso à tona, por meio da reprodução dessas estratégias, o discurso humorístico pode produzir dois efeitos distintos. Um deles é contribuir para o desvelamento daquilo que, muitas vezes, pode não ser perceptível em outro discurso, e, como conseqüência disso, levar os/as leitores/as a refletir sobre o mundo, a questionar e a tentar resistir às diferenciações e padronizações que contribuem para a manutenção do poder hegemônico. Um outro efeito possível é o de que a reprodução dessas estratégias pode também contribuir para sustentar relações de dominação, pois elas podem ser internalizadas pelos/as leitores/as e incorporadas às suas práticas. Por isso, a necessidade de se desenvolver a leitura crítica dos diferentes gêneros e de se perceber e valorizar a posição contestadora dos/as alunos/as quanto ao que é construído

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como senso comum acerca das identidades social e pessoal dos diferentes atores sociais e acerca das representações de mundo no geral. Essa postura crítica é fundamental, na minha opinião, no contexto educacional como um todo. Por essa breve análise relativa ao significado identificacional, observou-se que, nos dois GHs, o humor joga exatamente com os ‘defeitos’, ‘as fraquezas’, o que há de negativo em determinado grupo (Bergson, 2001) para construir suas críticas. E, dessa forma, contribui para a construção de representações, em sua maioria, estereotipadas e enfraquecidas dos atores sociais, as quais podem ser internalizadas pelos/as leitores/as e incorporadas às suas práticas, caso não haja uma abordagem crítica a esses gêneros. A ADC tem muito a contribuir para essa abordagem, pois, como já disse, ela traz no bojo de sua concepção uma postura emancipatória, que se empenha para tentar produzir transformações sociais. Nessa perspectiva, os/as leitores/as são motivados a não só perceber como o mundo é representado em um texto como também a desafiar essa representação, a negá-la ou confirmá-la, defendendo o seu próprio ponto de vista.

Referências bibliográficas

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