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MARIA, A MULHER SIMPLES DE NAZARÉ, PEREGRINA NA FÉ A intuição mariana de Teresa de Lisieux

Meditando a tua vida no santo Evangelho Ouso olhar-te e aproximar-me de ti Acreditar que sou tua filha não me é difícil Pois vejo-te mortal e sofrendo como eu

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Na Carta Circular que os Superiores Gerais O. Carm. e OCD enviaram a todos os irmãos e irmãs do Carmelo, por ocasião da celebração do Centenário da morte de Santa Tere- sa do Menino Jesus e da Santa Face, ou Teresinha 2 como é mais conhecida entre nós, lemos:

«A leitura das obras da nossa irmã Teresa, feita no contexto social e eclesial do nosso tempo e a partir da nossa cultura, ajudar-nos-á a centrarmo-nos no essencial» 3 .

É, pois, nosso intuito neste artigo relermos, hoje, aquilo que a mais jovem Doutora da Igreja Universal 4 escreveu e nos legou a respeito de Maria, apesar de, como notam os seus estudiosos, ela não ter exposto, nem podemos encontrar em qualquer escrito seu, uma doutri- na ou uma exposição sistemática de qualquer teoria mariana. Tudo o que ela nos diz a respeito de Maria é, e quer ser, uma partilha daquilo que experimentou e vivenciou da sua “Mãe que- rida” 5 .

1 PN 54. Seguimos para as citações dos escritos de Teresa de Lisieux: SANTA TERESA DO MENINO JESUS E DA SANTA FACE – Obras completas: Textos e Últimas Palavras. Paço de Arcos: Edições Carmelo, 1996 (= Obras). Siglas (referentes à mesma obra): CT: Carta; Ima: Imagens bíblicas (Escritos vários); Ms: Manuscrito A, B, C; PN: Poesia; UCR:

Últimos Conselhos e Recordações.

2 «Chamem-me Teresinha», foi como respondeu a própria Teresa quando lhe perguntaram como queria ser invocada quando esti- vesse no Céu (cf. UCR, Outras palavras de Teresa. In Obras, p. 1304). Como Teresinha também assinou a sua última poesia (cf. PN 54, fim).

3 Joseph CHALMERS; Camilo MACCISE – Voltar ao Evangelho. A mensagem de Teresa de Lisieux. Roma, 16 de Julho 1996, n.

5.

4 João Paulo II, no dia 19 de Outubro de 1997, Dia Mundial das Missões, proclamou Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, uma mulher, uma jovem, uma contemplativa», Doutora da Igreja Universal. Para um aprofundamento da relação dos Papas do séc. XX com Teresa de Lisieux, cf. M. CAPRIOLI – I Papi del secolo XX e S. Teresa di Lisieux. Teresianum. 46 (1995) 323-366. Sobre o sentido deste doutoramento de Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face cf. Servais-Th. PINCKAERS – Thérèse de l’Enfant-Jésus, docteur de l’Église. Revue Thomiste. 97 (1997) 512-524.

5 Não abordaremos aqui o tema de Maria na vida, na experiência e na doutrina da jovem Santa de Lisieux, nem o seu “marianis- mo” carmelita. Neste sentido ver os artigos de Ismael BENGOECHEA – La Virgen María y Teresa de Lisieux según los textos auténticos:

(Confrontación y análisis de variantes). Monte Carmelo. 81 (1973) 211-246; Vicente María BLAT – La espiritualidad mariana de Teresa de Lisieux. Ephemerides Mariologicae. 33 (1983) 6-93; Franco CANDELORI – Santa Teresa di Gesù Bambino e la Madonna. Carmelus. 20 (1973) 94-145; Eamon CARROLL – Thérèse and the Mother of God. Carmelite Studies. 5 (1990) 82-96; André COMBES – Marie pour Sainte Thérèse de Lisieux. Divinitas. 14 (1970) 75-124; Jean GUITTON – El genio de Teresa de Lisieux. México; Santo Domingo; Valencia:

Edicep, p. 69-90; Mauricio MARTÍN DEL BLANCO – «Por qué te amo, Maria»: Su marianismo carmelitano. Monte Carmelo. 105 (1997)

1

O nosso objectivo é centrar-nos num dos escritos a que se chamou a «obra-prima» 6 de Teresa, o poema Porque te amo, ó Maria. Tal interesse da nossa parte advém do facto de, como a própria Santa de Lisieux afirma, ele conter tudo o que ela diria sobre a Virgem Maria:

«No meu Cântico “Porque te amo, ó Maria!” disse tudo o que pregaria sobre ela» 7 .

1. O testamento mariano de Santa Teresinha 8

“Porque te amo, ó Maria” 9 , um «longo poema, espécie de hino litúrgico de duzentos [versos] alexandrinos muito regulares» 10 , divididos por vinte e cinco estrofes, é a última poe- sia de Teresa, que com uma mão desfalecida assina «A Teresinha»: um «humilde e comovente ponto final a toda a sua obra poética» 11 .

159-181; Redemptus M. VALABECK – More Mother than Queen: Our Lady of Mt Carmel and St Thérèse of Lisieux. In IDEM – Mary Mother of Carmel. Our Lady and the Saints of Carmel. Vol. 2. Rome: 1988, p. 75-100. Para uma bibliografia sobre o tema, até 1973, cf. Ismael BENGOECHEA – La Virgen María y Teresa de Lisieux, p. 211-213, nota 1. Interessante a entrevista, imaginária, do P. Agostinho Leal, OCD, a Santa Teresinha na secção Consultório espiritual de Santa Teresinha do Mensageiro do Menino Jesus de Praga. 14: 86 (1997)

8-9.

 

6 Eamon CARROLL – Thérèse and the Mother of God, p. 88.

7 UCR, Caderno Amarelo, 21.8.3*.

8 Para a elaboração deste ponto, servimo-nos sobretudo do artigo de Eamon CARROLL – Thérèse and the Mother of God, p. 88-

95.

9 Com o n. 54, na edição das Obras, este poema apareceu apenso às primeiras edições da autobiografia de Santa Teresinha, Histó- ria de uma Alma, começadas em 1898 (até 1953), mas, assim como outros, numa versão retocada pela Irmã Inês de Jesus (Paulina). Muitas vezes essas alterações modificavam o pensamento de Teresa. Somente em 1979, no âmbito da edição crítica das Obras da jovem santa, come- çada em 1973, é que o poema foi finalmente publicado completo e na sua forma original autêntica. Sobre este assunto, cf. o artigo de D. André COMBES – Marie pour Sainte Thérèse de Lisieux, onde estuda exaustivamente esta poesia e, com minuciosa escrupulosidade, assina- la as variantes.

10 Obras, p. 819.

11 Ibidem. A obra poética de Teresa de Lisieux, fundamental para o conhecimento e interpretação da sua mensagem, consta de 54

poesias, «algumas das quais de grande dimensão teológica e espiritual, inspiradas na Sagrada Escritura» (João Paulo II – Divini amoris scientia, n. 6). «Ao escrevê-las – confessa ela ao P. Bellière – preocupei-me mais com o fundo do que com a forma, por isso as regras de versificação não foram sempre respeitadas, o meu objectivo era expressar os meus sentimentos (ou melhor, os sentimentos da carmelita) para corresponder aos desejos das minhas Irmãs» (CT 220). Além destas 54, compostas entre 2 de Fevereiro de 1893 (PN1) e Maio de 1897 (PN 54), há ainda a registar 8 poesias chamadas suplementares, curtas e mesmo incompletas. Com raras excepções, a poesia de Teresa é de conteúdo religioso e nela encontramos os temas fundamentais dos seus escritos. Para um maior aprofundamento, cf. Maria da Piedade de Pádua URBANO – As poesias de Santa Teresa do

Menino Jesus e da Santa Face. Revista de Espiritualidade. 16 (1996) 309-320, que afirma: «As Poesias de Teresa são [

últimos tempos da sua vida, uma obra da maturidade, quando a doença a minava irreversivelmente, e as trevas da fé se adensavam cada vez mais. Importa não esquecer estas circunstâncias para mais profundamente se mergulhar na obra poética de Teresa de Lisieux, onde ela retoma e realça tantos dos seus temas preferidos, onde se revela num despojamento e nudez de espírito a que a morte próxima imprime uma autenti- cidade e uma força irresistíveis. Só nesta perspectiva se poderá captar a mensagem de Teresa nas poesias, ultrapassando as imperfeições formais que porventura a possam diminuir, e verificar como o conhecimento da poesia teresiana constitui um complemento – diria indispen- sável – das outras obras que nos deixou, nomeadamente os Manuscritos Autobiográficos e as Cartas» (p. 310). Cf. também a introdução às Poesias em Obras, p. 653-659 e 830. Das 54 poesias 8 são dedicadas a Maria (PN 1, 7, 11, 12, 12, 35, 49, 54) e outras 16 citam-na uma ou várias vezes. Entre estas, a PN

uma obra dos

]

7, datada de 16 de Julho de 1894, é dedicada à Senhora do Carmo e intitula-se: Canto de reconhecimento a Nossa Senhora do Carmo. «Esta poesia – segundo o carmelita Redemptus M. VALABECK – é importante porque revela no pensamento mariano de Teresa muitas caracterís- ticas da devoção à Senhora do Carmo» (More Mother than Queen, p. 77; cf. comentário à poesia nas p. 77-79).

2

Composto em Maio de 1897, no crepúsculo da curta vida de Teresa (2 de Janeiro de 1873 — 30 de Setembro de 1897), quando já estava gravemente doente, este poema é como que «o testamento mariano sobre o seu amor e compreensão evangélica da vida de Maria» 12 , o seu “canto do cisne”. Assim no-lo testemunha a sua irmã Celina:

«A nossa querida Mestrazinha já estava muito doente quando compôs o seu cântico: “Porque te amo, ó Maria”. Nesse cântico pôs todo o seu coração. Ainda a ouço dizer-me: “que queria, antes de morrer, exprimir, numa poesia, tudo o que pensava sobre a Santíssima Virgem”» 13 .

Motivado pelo pedido da Irmã Maria do Sagrado Coração 14 , este poema «compêndio da sua experiência mariana» 15 , no seu título traduz já a intenção de Santa Teresinha: quer dizer porque ama tanto Maria. A experiência que fez do seu amor materno foi tão profundo na sua vida, que nem mesmo a prova de fé que estava a viver, desde Abril de 1896, pôde fazer esquecer essa recordação 16 . Três coisas, em particular, fascinaram a jovem santa na vida de Maria e tornaram-se o fio condutor do seu poema: 1) Maria conhece o sofrimento por expe- riência pessoal; 2) Maria ama-nos como Jesus nos ama; 3) Maria, provada na noite da fé, pre- feriu viver em silêncio. A poesia começa pela enunciação, na primeira estrofe, de um triplo “porque”, ilustrati- vo do título do poema 17 :

«Oh! quisera cantar, Maria, porque te amo Porque é que o teu nome tão doce me faz vibrar o coração. E porque é que o pensamento da tua grandeza suprema Não poderia inspirar à minha alma o sentimento do temor».

No início da segunda estrofe, Teresa traça o rumo do seu poema:

«É preciso que uma filha possa amar a sua mãe Que esta chore com ela, partilhe as suas dores».

12 Mauricio MARTÍN DEL BLANCO – «Por qué te amo, Maria», p. 183.

13 Conselhos e lembranças. Livraria Apostolado da Imprensa, 1955, p. 97. Cf. Processo Apostólico. Roma: Teresianum, 1976, p.

268.

14 Para esta sua irmã, Maria Martin, Teresa já tinha escrito em Novembro de 1886, portanto não muitos meses antes, o seu 2º Manuscrito Autobiográfico, o chamado Manuscrito B.

15 Jean GUITTON – El genio de Teresa de Lisieux, p. 73. Cf. também Manuel F. dos REIS – Actualidade de Santa Teresa de Lisieux. Revista de Espiritualidade. 16 (1996) 282.

16 Esta provação de fé, ou «este martírio», como diz Teresa, é por ela narrada no Manuscrito C, dedicado à Madre Maria de Gonza- ga: cf. Ms C,4v-7v. Sobre esta prova na noite da fé, cf. Guy GAUCHER – La Passion de Thérèse de Lisieux. Paris: Cerf; DBB, 1972; Jean- François SIX – Lumière de la nuit. Les 18 derniers mois de Thérèse de Lisieux. Paris: Editions du Seuil, 1995.

17 O resumo que aqui apresentamos da poesia 54, não exclui, de modo nenhum, a sua leitura integral. Só assim cada um(a) poderá fruir esta bela e notável poesia e deixar-se interpelar pelos sentimentos que Maria provoca em Santa Teresinha, nela expressos.

3

As estrofes seguintes traçam a vida de Maria segundo o Evangelho, apresentando-nos a Virgem Maria como a grandiosa mulher de fé do Evangelho, nosso modelo no sofrimento e na vida comum 18 . Partindo da Anunciação, Teresa considera a morada da Santíssima Trindade em Maria,

e a sua maternidade espiritual, pelo facto de o seu Filho divino ser o primogénito do grande

número dos seus irmãos e irmãs pecadores (est. 4-5). A visita a Isabel ensina Teresa «a prati- car a ardente caridade» (est. 6), e do Magnificat de Maria aprende a glorificar Deus o Salva- dor (est. 7). A estrofe 8 considera a perplexidade de José perante a gravidez de Maria, e o «silêncio eloquente» 19 dela é para Teresa «um concerto doce e melodioso» da grandeza da confiança unicamente em Deus. Nas estrofes 9 a 12 Teresa descreve o nascimento de Jesus na pobreza de Belém, onde Maria, aquando da visita dos pastores e dos magos, escuta o que estes lhe dizem e guarda todas as coisas no seu coração. A apresentação de Jesus no Templo move-se entre a alegria e

a tristeza, quando o velho Simeão apresenta a Maria uma espada de dores, que trespassará o

seu coração até ao fim da vida, a qual surge rapidamente quando a «Rainha dos mártires» tem de deixar o solo da sua pátria para fugir para o Egipto. As estrofes 13 a 16, escritas no estado mais doloroso do sofrimento de Teresa, quando a sua prova de fé estava no ponto mais angustiante, em meados de Maio de 1897 20 , são o ponto alto do poema. O «mistério do templo», a que são dedicados vinte e quatro versos, ocupa o centro da meditação destas quatro estrofes, no fim da qual, Teresa escreve:

«Agora compreendo o mistério do templo, As palavras ocultas de um Amável Rei. Mãe, o teu doce Filho quer que sejas o exemplo Da alma que O procura na noite da fé» (est. 15).

18 «Meditando a tua vida no santo Evangelho / Ouso olhar-te e aproximar-me de ti / Acreditar que sou tua filha não me é difícil /

Pois vejo-te mortal e sofrendo como eu

19 Sobre esta admiração de Teresa pelo silêncio de Maria, testemunha a Irmã Genoveva: «Ela admirava principalmente o seu silên- cio, uma vez que a Virgem preferiu estar sob suspeita do que desculpar-se junto de S. José revelando-lhe o mistério da Encarnação. Dizia-mo frequentemente para me fazer apreciar esta conduta tão simples e, portanto, tão heróica» (Processo Apostólico, 959. Apud M. M. PHILIPON – Sainte Thérèse de Lisieux: «Une voie toute nouvelle». Paris: Desclée, de Brouwer et Cie, 1946, p. 172, nota 2).

20 Sobre esta sua experiência angustiante escreve Teresa à Madre Maria de Gonzaga: «Minha caríssima Madre, parece-vos talvez

que exagero a angústia da minha alma. De facto, se ajuizardes a partir dos sentimentos que exprimo nas pequenas poesias que compus duran-

Porém, para mim já não é um véu: é

um muro que se ergue até aos céus e cobre o firmamento estrelado

Quando canto a felicidade do Céu, a posse eterna de Deus, não sinto

te este ano, devo parecer-vos uma alma cheia de consolações, para a qual o véu da fé quase se rompeu

» (PN 54,2)

nenhuma alegria, porque canto simplesmente o que quero acreditar. Às vezes, é verdade, um pequeníssimo raio de sol vem iluminar as minhas trevas; então a provação cessa por um instante. Mas depois, a recordação desse raio, em vez de me causar alegria, torna as minhas trevas ainda mais densas» (Ms C,7v).

4

E continua, na estrofe 16:

«Já que o Rei dos Céus quis que a sua Mãe Mergulhasse na noite, na angústia do coração, Maria, é então um bem sofrer na terra? Sim, sofrer amando, é a felicidade mais pura21 .

E termina esta estrofe com um testemunho muito pessoal sobre os terríveis dias daquele

Maio de 1897:

«Tudo o que Ele me deu Jesus pode tomá-lo Diz-lhe que nunca se constranja comigo Ele pode esconder-Se, eu consinto em esperá-l'O Até ao dia sem ocaso em que se extinguirá a fé

22

»

A estrofe 17 observa que na vida diária de Maria em Nazaré não há «nem arroubamen-

tos, nem milagres, nem êxtases». E continua: «os pequenos podem sem receio erguer os olhos» para Maria, pois «é pela via comum, incomparável Mãe / Que te apraz caminhar guiando-os para o Céu». No coração da «Mãe querida», Teresa descobre novos «abismos de amor»; o seu olhar maternal desvanece-lhe todos os seus receios e ensina-a tanto a chorar como a regozijar-se (est. 18). Na estrofe 19, seguindo de perto o Evangelho, Teresa narra as bodas de Caná, mas acrescenta uma interpretação pessoal: ainda que Jesus pareça, a princípio, recusar o pedido compassivo de sua Mãe, «no fundo do coração, chama-te sua Mãe / E o seu primeiro milagre, realiza-o por ti» 23 . As estrofes 20 a 22 são dedicadas ao episódio da vida pública de Jesus em que, estando Ele a falar às multidões, chegaram Maria e os parentes d’Ele, e procuravam falar-lhe. São estrofes em que Teresa «oferece uma preciosa exegese da resposta de Jesus» 24 : «Aquele que faz a vontade do meu Pai, esse é minha Mãe, meu irmão e minha irmã» (Mt 12,50) 25 . A Mãe de Jesus em vez de se entristecer pela resposta do seu Divino Filho diante da multidão, alegra-

21 Esta alegria no sofrimento está bem comprovada nesta época da vida de Teresa: cf. Ms C, 7r; CT 253 (ao P. Bellière, 13 Julho 1897); PN 47,3; UCR.

22 No mesmo sentido dizia ela a 10 de Junho de 1897: «Repito-lhe [à Santíssima Virgem] com frequência: “Diz-lhe que nunca se constranja comigo”. Ele ouviu, e é o que faz» (UCR, Caderno Amarelo, 10.6; cf. também 11.7.1; 23.8.2).

23 Na poesia “Jesus meu Bem-amado, lembra-Te”, composta em 21 de Outubro de 1895, Teresa voltando-se para Jesus, apresenta- lhe o episódio de Caná e recorda-lhe a intervenção de sua Mãe: «Lembra-Te de que a tua divina Mãe / Tem sobre o teu Coração um poder maravilhoso / Lembra-Te de que um dia a seu pedido / Mudaste a água em vinho delicioso» (PN 24,13)

24 Redemptus M. VALABECK – More Mother than Queen, p. 98.

25 Esta passagem evangélica (Mt 12,50) era uma das favoritas de Teresa, aparecendo nos seus escritos seis vezes: além desta, cf. CT 130, 142, 172; Ima 3 e 7.

5

se (cf. est. 21) e, amando-nos como Jesus nos ama, por nós, consente em afastar-se do seu Filho, porque «amar é tudo dar e dar-se a si mesmo» (est. 22,3). Por isso, o Salvador que

conhecia a imensa ternura de sua Mãe e sabia os segredos do seu coração maternal, é a ela, “Refúgio dos pecadores”, «que Ele nos deixa / Quando abandona a Cruz para nos esperar no Céu» (est. 22,7-8).

A estrofe 23 fala da agonia de Maria no Calvário, “Rainha dos Mártires”, que, como um

padre no altar, oferece o seu «Bem-amado Jesus, o doce Emanuel» para desagravar a justiça do Pai. Na estrofe 24 o véu cai de novo sobre a existência de Maria. Teresa limita-se ao que refere o evangelista João e não vai mais além, no imaginário: Maria fica ao cuidado de João, filho de Zebedeu, que «terá de substituir Jesus». Sendo esta «a última informação que dá o Evangelho» sobre Maria, Teresa pergunta:

«Mas o seu profundo silêncio, ó minha Mãe querida Não revela porventura que o Verbo eterno Quer Ele próprio cantar os segredos da tua vida Para gozo dos teus filhos, todos os Eleitos do Céu?»

Com uma estrofe admirável (25), na qual visa a companhia de Maria na alegria do Céu, Teresa encerra o poema:

«Em breve eu ouvirei esta doce harmonia [de Jesus a cantar os segredos da vida de sua Mãe] Em breve no Céu formoso eu irei ver-Te Tu que vieste sorrir-me na manhã da minha vida 26

Vem sorrir-me de novo

Já não temo o esplendor da tua glória suprema.

Contigo eu sofri e desejo agora Cantar nos teus joelhos, Maria, por que te amo E repetir para sempre que sou tua filha!»

Mãe

chegou a tarde!

O poema volta ao ponto de partida. O arco fecha-se com o verso 5 que retoma a estrofe

1.

26 Alusão ao «encantador sorriso da Santíssima Virgem» nos Buissonnets, no dia 13 de Maio de 1883, quando Teresa, com 10 anos, estando muito doente há quarenta e nove dias, ficou subitamente curada, como conta em Ms A, 29v-31r.

6

2. Maria de Nazaré, mulher simples peregrina na fé 27

O poema que acabamos de resumir constitui, nas palavras do papa João Paulo II, uma

«síntese original do caminho de Maria segundo o Evangelho» 28 .

O evangelho e a sua própria experiência, são as suas fontes de inspiração: «o evangelho

descobre-lhe quem é Maria e o seu coração, na experiência de cada dia em comunhão com a Virgem, revela-lhe a sua verdadeira personalidade» 29 .

«Como eu teria gostado de ser sacerdote para pregar sobre a Santíssima Virgem! Ter-me-ia bastado uma única vez para dizer tudo o que penso sobre este assunto. Primeiro, teria feito compreender como se conhece pouco a sua vida. Não precisaria de dizer coisas inverosímeis ou que não se sabem [ Para que um sermão sobre a SSma Virgem me dê gosto e proveito, é necessário que eu veja a sua vida real, não a sua vida imaginada; e tenho a certeza de que a sua vida real devia ser extremamente simples. Apresentam-na inacessível; deviam mostrá-la imitável, fazer sobressair as suas virtudes, dizer que vivia da fé como nós, apresentar provas disso pelo Evangelho [ Sabemos muito bem que a Santíssima Virgem é a Rainha do Céu e da terra, mas ela é mais mãe do que

rainha, e não se deve dizer, por causa dos seus privilégios, que ela eclipsa a glória dos santos todos, como

o sol, ao surgir, faz desaparecer as estrelas. Meu Deus! que estranho! Uma Mãe que faz desaparecer a

glória dos filhos! Eu, por mim, penso absolutamente o contrário; acredito que ela engrandecerá muito o

esplendor dos eleitos. Está certo falar dos seus privilégios, mas não se deve dizer apenas isso e se, num sermão, somos obriga- dos do princípio ao fim, a exclamar Ah! Ah!, já chega! Quem sabe se alguma alma não irá sentir até um certo afastamento em relação a uma criatura de tal maneira superior, e não pensará: “Se é assim, mais vale ir brilhar conforme se puder em qualquer outro cantinho!“.

O que a Santíssima Virgem tem a mais do que nós, é que não podia pecar, estava isenta do pecado origi-

nal 30 ; mas, por outro lado, teve muito menos sorte do que nós, porque não teve uma Santíssima Virgem

para amar 31 . É uma doce consolação a mais para nós, e a menos para ela! Enfim, no meu Cântico “Porque te amo, ó Maria!” disse tudo o que pregaria sobre ela» 32 .

O que é que nos diz, então, Santa Teresinha sobre Maria o «dom precioso de Cristo cru-

cificado» 33 (cf. Jo 19,25-27)?

27 Cf. Marie-Joseph NICOLAS – La Vierge Marie dans l’Évangile et dans l’Église d’après sainte Thérèse de Lisieux. Revue Thomiste. 1952, 52, p. 508-527; Redemptus M. VALABECK – More Mother than Queen, p. 86-100.

28 JOÃO PAULO II – Carta Apostólica «Divini amoris scientia»: Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face é proclamada Doutora da Igreja. L’Osservatore Romano: Ed. semanal em português. (25 Out. 1997) 6.

29 Joseph CHALMERS; Camilo MACCISE – Voltar ao Evangelho. A mensagem de Teresa de Lisieux. Roma, 16 de Julho 1996,, n. 53; cf. PN 54,2 e 15.

30 Cf. CT 226, 9 de Maio de 1897, onde escreve ao P. Roulland,: «É certo que nenhuma vida humana está isenta de pecados, só a Virgem Imaculada se apresenta absolutamente pura diante da Majestade Divina».

Santíssima Virgem não tem outra Santíssima Virgem para amar; é menos feliz

31 Cf. também UCR, Caderno Amarelo, 11.8.4: « do que nós»; e CT 137.

32 UCR, Caderno Amarelo, 21.8.3*. Cf. UCR, Caderno Amarelo, 23.8.9: À Madre Inês de Jesus dizia que tudo o que tinha ouvido pregar sobre a Virgem Maria não a tinha impressionado: «Que os sacerdotes nos apresentem virtudes praticáveis! Está certo falar das suas

prerrogarivas, mas importa sobretudo que a possamos imitar. ela prefere a imitação à admiração, e a sua vida foi tão simples! Por muito belo

ficamos fartos. Gosto muito de

que seja um sermão sobre a Santíssima Virgem, se nos sentimos obrigados todo o tempo a dizer: Ah!

lhe cantar: Torna-nos visível (Ela dizia: fácil) o estreito caminho do Céu / Praticando sempre as mais humildes virtudes [Cf. PN 54,6]».

7

A

Ah!

Tentaremos esboçar a “imagem” de Maria que Teresa nos legou no seu poema, tendo em consideração as atitudes da Virgem de Nazaré, porque são exactamente as atitudes, ou dito de outro modo, a vida de Maria que atraem e fascinam Santa Teresinha. É o que ela pedia que contivesse um sermão sobre Nossa Senhora: «fazer sobressair as suas virtudes». E fá-lo-emos realçando dois pontos importantes, na mariologia actual: 1) a figura histó- rico-evangélica de Maria e 2) a peregrinação na fé de Maria.

2.1. Maria, uma mulher como nós

Meditando sobre a vida de Maria, sobriamente delineada nos evangelhos, Teresa revela- nos que a sua vida, em Nazaré, foi pautada pela «via comum». Nela não há «nem arroubamen- tos, nem milagres, nem êxtases» 34 . A Teresa agradava-lhe imaginar Maria simples e pobre, que se confundia com as outras mulheres e que vivia da fé como nós, como confidencia, um mês antes de morrer (20 de Agosto de 1897), à Madre Inês de Jesus (sua irmã Paulina):

«Como será belo conhecer no Céu tudo o que se passou na Sagrada Família! Quando o Menino Jesus começou a crescer, ao ver jejuar a Santíssima Virgem, talvez lhe dissesse: «Eu também queria jejuar». E a Santíssima Virgem respondia: «Não, meu Menino Jesus, és ainda muito pequenino, não tens forças». Ou então talvez não se atrevesse a impedi-l'O. [ ] As mulheres da aldeia vinham falar familiarmente com a Santíssima Virgem. Por vezes pediam-lhe que lhes confiasse o seu Filhinho Jesus, para ir brincar com os delas. E Jesus olhava para a Santíssima Vir- gem para saber se podia ir. [ ] Que bem me faz pensar que a vida da Sagrada Família era uma vida vulgar. Não era como tudo o que nos

contam, tudo o que se supõe. [

]

Tudo na vida deles se passou como na nossa.» 35

Teresa sabe que Maria vive gloriosa no céu, mas prescinde deste dado e percorrendo as páginas do Evangelho, seu livro favorito – «Basta-me esse livro», diz ela 36 –, encontra aí uma Maria mortal e capaz de sofrer, que tinha vivido na senda do sofrimento, do exílio, das lágri- mas 37 .

33 Stefano DE FIORES – Palingenesi della Marialogia. Marianum. 52 (1990) 208. Cf. IDEM – La presenza di Maria nella vita della Chiesa alla luce dell’Enciclica «Redemptoris Mater». Marianum. 51 (1989) 135.

34 PN 54,17

35 UCR, Caderno Amarelo, 20.8.14; cf. 23.8.9.

36 UCR, Caderno Amarelo, 15.5.3. Cf. Ms A, 83v; Ms C, 36v; CT 226 (ao P. Roulland, 9/5/1897); PN 24,12 (1895). Da predilec- ção de Santa Teresinha pelo Evangelho falam bem alto as mais de 500 citações, que se encontram nos seus escritos: cf. Roman LLAMAS – Santa Teresita y su experiencia de la Palabra de Dios. Revista de Espiritualidad. 55 (1996) 267-324; e o artigo do P. Armindo VAZ neste número de Carmelo Lusitano.

37 Cf. PN 54,2. Ao tema do sofrimento de Maria, Teresa volta de novo, no mês anterior à sua morte, numa conversa com a Madre Inês de Jesus. Falando sobre uma carta de um sacerdote que dizia que Maria não tinha experimentado os sofrimentos físicos, comentava assim: «Ao olhar esta noite para a Santíssima Virgem, compreendi que não era verdade; compreendi que ela tinha sofrido não só na alma,

8

Ao tema do sofrimento de Maria, Teresa volta de novo, no mês anterior à sua morte, numa conversa com a Madre Inês de Jesus. Falando sobre uma carta de um sacerdote que dizia que Maria não tinha experimentado os sofrimentos físicos, comentava assim:

«Ao olhar esta noite para a Santíssima Virgem, compreendi que não era verdade; compreendi que ela

tinha sofrido não só na alma, mas também no corpo. Sofreu muito nas viagens, com o frio, o calor, o can-

saço. Jejuou muitas

Sim, ela sabe o que é sofrer». [Depois, delicadamente, continuou:] «Mas

talvez seja errado querer que a Santíssima Virgem tenha sofrido! Logo eu que a amo tanto!» 38 .

Maria é, por isso, modelo para Teresa na vida de sofrimento 39 . A semelhança da sua vida com a da sua «Mãe bem-amada» fascina a nossa santa, que vendo aproximar-se o seu fim pode exclamar:

«Contigo eu sofri e desejo agora Cantar nos teus joelhos, Maria, por que te amo

E repetir para sempre que sou tua filha!

»

40 .

Um outro aspecto que, na vida de Maria, fascina Teresa é a sua humildade, a qual é uma prova viva da validade e confirmação do seu caminho espiritual da humildade oculta 41 :

«Oh! amo-te, Maria, quando te dizes a serva Do Deus que tu deslumbras com a tua humildade Esta virtude oculta torna-te omnipotente Atrai ao teu coração a Santíssima Trindade» 42

E ainda:

«Fazes-me sentir que não é impossível

Seguir os teus passos, ó Rainha dos eleitos,

O estreito caminho do Céu, tornaste-o visível

Praticando sempre as mais humildes virtudes» 43 .

Sim, ela sabe o que é sofrer. [Depois,

delicadamente, continuou:] Mas talvez seja errado querer que a Santíssima Virgem tenha sofrido! Logo eu que a amo tanto!» (UCR, Caderno Amarelo, 20.8.11).

mas também no corpo. Sofreu muito nas viagens, com o frio, o calor, o cansaço. Jejuou muitas

38 UCR, Caderno Amarelo, 20.8.11.

39 Cf. PN 54,16.

40 PN 54,25.

41 Sobre o seu caminhito (Ms C,2v), na descoberta do qual a Palavra de Deus jogou um papel fundamental (cf. Ms C,3r), e em rela-

A perfeição parece-me fácil, vejo que basta reconhecer o

Regozijo-me por ser pequenina visto que só as crianças e os que se

assemelharem a elas serão admitidas ao banquete celestial» (CT 226), cf. Francisco IBARNIA – El «caminito» de Teresa de Lisieux. Revista

próprio nada e abandonar-se como uma criança nos braços de Deus [

ção ao qual diz ao P. Roulland: «o meu caminho é todo de confiança e de amor [

]

]

de Espiritualidad. 55 (1996) 217-266; Roman LLAMAS – Santa Teresita y su experiencia de la Palabra de Dios, p. 302-306.

42 PN 54,4.

43 PN 54,6.

9

A grandeza de Maria consiste exactamente na sua simplicidade. Ter reconhecido isto,

tê-lo compreendido e aprofundado é um mérito de Teresa.

2.2. Maria, peregrina na fé, com Cristo

Maria, para Santa Teresinha, «vivia da fé como nós», não entendendo muitas vezes muitas coisas no seu itinerário de fé. Diz-nos ela, a propósito dos sermões sobre Maria:

«[Os sacerdotes] deviam [

onde lemos: «Eles não entenderam o que lhes disse» [Lc 2,50]. E esta outra frase não menos misteriosa:

«E seu pai e sua mãe estavam admirados das coisas que d'Ele se diziam» [Lc 2,33]. Esta admiração pres-

supõe um certo espanto, não acha, minha querida Madre?» 44 .

dizer que vivia da fé como nós, apresentar provas disso pelo Evangelho

]

Este aspecto da «peregrinatio fidei» de Maria, já recordado pelo Concílio Vaticano II na Constituição Dogmática sobre a Igreja 45 , foi realçado pelo Papa João Paulo II na sua encíclica mariana, de 1987, Redemptoris Mater (nn. 12-20). E foi-o de tal modo que constitui o seu verdadeiro leit-motiv e fio condutor 46 . Nela o Papa acentuou os carácteres de “noite” e de “kénose / despojamento” (n. 17 e 18). Para Maria, como para nós, a fé era obscura e, às vezes, dolorosa, provada pelo próprio Jesus. Teresa afirma-o a propósito do episódio do Menino Jesus perdido e achado no Templo:

«Mãe, o teu doce Filho quer que sejas o exemplo Da alma que O procura na noite da fé» 47 .

A vida de Maria, em Nazaré, foi toda ela, entre alegrias e dores, um caminho de fé, des-

pojada de todas as graças extraordinárias, que está na base da confiança e do amor que se tor- na abandono no Amor Misericordioso, que é o Pai, manifestado em Cristo.

A própria união de Maria «a Cristo no seu despojamento» 48 , no cimo do Calvário, quan-

do «aos pés da Cruz, Maria é testemunha, humanamente falando, do desmentido cabal das

o Senhor Deus dar-lhe-á o

palavras» 49 do Anjo no momento da Anunciação: «será grande

,

44 UCR, Caderno Amarelo, 21.8.3*.

45 LG 58: «A Virgem [Maria] avançou pelo caminho da fé, mantendo fielmente a união com o seu Filho até à cruz».

46 Sobre esta temática cf., entre outros, Stefano DE FIORES – María en la teología contemporánea, p. 577-579; Luigi GAMBERO – Itinerario di fede della Madre del Signore (R. M. nn. 12-19). Seminarium. 38 (1987) 498-513; Jean GALLOT – L’itinéraire de foi de Marie selon l’encyclique «Redemptoris Mater». Marianum. 51 (1989) 33-55.

47 PN 54,15.

48 RM 18.

49 RM 18.

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, (Lc 1,32-33), caracteriza-se por aquela profundíssima prova de fé, que João Paulo II chama de «”kénose” da fé» 50 . Este “peregrinar na fé” de Maria é cristocêntrico: Cristo está sempre presente nos epi- sódios da vida de Maria.

reinará eternamente na casa de Jacob e o seu reinado não terá fim»

trono de seu pai David

Conclusão

Santa Teresinha, contrastando profundamente com a “falsa exageração” dos pregadores do seu tempo (e do nosso?), que se dedicam a exaltar a sua grandeza, sem ter em conta a sua vida real, e opondo-se a uma pregação “triunfalista” dos privilégios e glórias de Maria, apre- senta-nos uma “doutrina” mariana baseada não nos dogmas marianos, mas exclusivamente no Evangelho, sua única fonte de inspiração que nos apresenta uma Maria de Nazaré simples, humilde, caritativa, disponível, cheia de fé e de amor, muito próxima e imitável. Este é o caminho trilhado tanto pela Mariologia como pela espiritualidade mariana dos nossos dias, se quer fiel ao desafio da pós-modernidade e às suas exigências de retorno ao concreto, como salienta o teólogo italiano Bruno Forte:

«Interessar-se por Maria significa tratar da humildade de serva do Altíssimo, da ferialidade da existência dessa mulher pobre da terra de Israel, da qual o Novo Testamento nos fala, o mais das vezes, na forma de narração (dos evangelhos da infância às núpcias de Caná, dos episódios da vida pública de Jesus nos quais Maria está presente à cena da mãe e do discípulo aos pés da cruz). As grandes coisas que acontece- ram na jovem mulher de Nazaré não revelam processos universais nem leis cósmicas, mas apresentam o carácter de eventos de graça e de histórias de salvação marcados pela obscuridade, antes de tudo, para aquela que os viveu: “Como será isso, se eu não conheço homem algum?” (Lc 1,34). “Maria conservava cuidadosamente todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração” (Lc 2,19.51). “Eles, porém, não compreenderam a palavra que ele [Jesus] lhes dissera” (Lc 2,50). Por mais que se desenvolva a argumentação do pensamento crente em relação ao mistério da Mãe do Redentor, ele permanecerá sem- pre, necessariamente, ligado à concretude do testemunho evangélico e medido pela sobriedade da narra- ção. [Citando o teólogo alemão Karl Rahner, prossegue] “Maria deve aparecer como a mulher do povo, como a pobre, a discente, como a que vive alimentando-se da situação histórica, social e religiosa de seu tempo e de sua gente. Ela não deve ser vista como ser celeste, mas como criatura humana que aceitou activa e passivamente para si e para os outros, pela e na ordinariedade de sua situação, a sua função histó- rico-salvífica, aprendendo entre muitas incertezas, com fé, esperança e amor, e que, precisamente por isso, é o modelo e a mãe dos crentes”» 51 .

50 RM 18.

51 Maria, a mulher ícone do Mistério: Ensaio de mariologia simbólico-narrativa. S. Paulo: Edições Paulinas, 1991, p. 14-15. Cf. En- rique LLAMAS– Algunas corrientes actuales en la mariología. Revista de Espiritualidad. 55 (1996) 9-44.

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Foi precisamente esta a herança que Santa Teresinha nos legou no seu “testamento mariano”. E terminamos com um repto para reflexão:

«Nos ensinamentos de Teresa de Lisieux encontramos um caminho para aprofundar e renovar a nossa vida mariana, à luz do evangelho e da intimidade com Maria. A nossa devoção, testemunho e pregação encontram uma base sólida na redescoberta de Maria dentro do mistério de Cristo e da Igreja» 52 .

Manuel Gomes Quintãos

[Publicado em Carmelo Lusitano. 15-16 (1997-1998) 239-251]

52 Joseph CHALMERS; Camilo MACCISE – Voltar ao Evangelho, n. 54. Itálico da nossa responsabilidade.

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