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RELIGIÃO VIDA MANSA A Teologia do Prazer e o desafio para o crente num mundo
RELIGIÃO
VIDA
MANSA
A Teologia do Prazer
e o desafio para o crente
num mundo materialista
J.L Packer
Para Dan e Sandi MacDougall © Editora Cultura Cristã. Publicado originalmente por Tyndale House Publishers
Para Dan e Sandi
MacDougall
© Editora Cultura Cristã. Publicado originalmente por Tyndale House
Publishers com o título Hot Tub Religion, de J. I. Parker. Traduzido
e publicado pela Editora Cultura Cristã com permissão de Tyndale
House Publishers, Wheaton, Illinois 60187, USA.
I a edição,
1999-3.000
Tradução:
Hopc Gordon
Silva
Revisão:
Lenita Ananias do Nascimento e
Editoração:
Nilza Água
Kátia Maria Silveira
Milanez
Capa:
Spubli Salgado Publicidade
Publicação autorizada pelo Conselho Editorial:
Cláudio Marr a {Presidente),
Aproniano Wilson de Macedo ,
AugustusNicodemus Lopes, Fernando Hamilton
e Sebastião Bueno Olinto.
Costa
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CRIST Ã
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e-mail:
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Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas
Editor: Cláudio Antônio Batista Marra
Sumário 1. Perigo! Teólogo Trabalhando O Que Estes Capítulos Pretendem Fazer, 5 2. O Plano
Sumário
1.
Perigo! Teólogo Trabalhando
O
Que Estes Capítulos Pretendem Fazer, 5
2.
O Plano de Deus
A
Orientação Cristã Básica, 11
3.
Encontrando-se com Deus
O
Relacionamento Cristão Básico, 35
4.
A Religião da Banheira Quente
Em Direção a uma Teologia do Prazer, 49
5.
Direção
Como Deus nos Orienta, 83
6.
Alegria
Uma Disciplina Negligenciada, 107
7.
A
Escritura e a Santificação
Como a Bíblia nos Ajuda na Santidade, 133
8.
A
Falta de Saúde
Curas Físicas, 153
9.
Desapontamento, Desespero, Depressão
Como o Grande Médico Toca as Mentes Aflitas, 163
10. A Reforma da Igreja
A Reorganização Externa e Renovação Interna, 175
Outro dia ao sentar-me naquela perfumada banheira quente me deliciando, fazendo piadinhas e ajustando-me à
Outro dia
ao sentar-me naquela perfumada banheira quente
me deliciando, fazendo piadinhas e ajustando-me à sensação de ser
envolvido por bolhas de todos os lados, ocorreu-me que a banheira
quente é o símbolo perfeito do caminho "moderno" que a religião
vem tomando. A experiência da banheira quente é deliciosa, relaxante,
preguiçosa, despreocupante: em nada exigente
agradável, até o ponto de ser divertida.
mas muito, muito
Muitos hoje querem que o cristianismo seja assim, e trabalham
para isso. O último passo, é claro, seria limpar os auditórios das
igrejas e instalar banheiras quentes no lugar; então nunca haveria
problemas de freqüência
Mas, se não houvesse para nosso Cris-
tianismo nada mais do que situações de banheira quente — um
hedonismo auto-absorvente de repouso e sentimentos felizes, evi-
tando tarefas árduas, atitudes impopulares e relacionamentos
desgastantes—não alcançaríamos a centralização bíblica em Deus,
e a vida de carregar a cruz para a qual Jesus nos chama, e anuncia-
ríamos ao mundo nada mais do que nossa própria decadência.
1 O autor explica sua experiência: "Eu fui um de toda uma turma que passou
a maior parte de uma chuvosa tarde de sábado numa banheira quente. Meus
estudantes tutelados, que formavam a turma, tinham me aconselhado a
experimentá-la. Você vai gostar, eles diziam
Enquanto me sentava lá, fazen-
do piadinhas e ajustando-me à emoção de ser envolvido por bolhas de todos
os lados, ocorreu-me que a banheira quente é o símbolo perfeito do caminho
moderno da religião" (p. 50).
1 Perigo! Teólogo Trabalhando O Que Estes Capítulos Pretendem Fazer dos livros favoritos para crianças
1
Perigo! Teólogo Trabalhando
O Que Estes Capítulos Pretendem
Fazer
dos livros favoritos para crianças de três anos, Eu Sou um
Coelhinho, olha para a vida do ponto de vista de um coelho. Basea-
do nisto, este livro aqui poderia chamar-se Eu Sou um Teólogo. Tal
título poderia soar arrogante, elitista, pretensioso em último grau, e
se tornaria um balão de chumbo, afundando o livro e seu autor dire-
to no esquecimento. Contudo, como declaração de compromisso,
mais do que alegação de competência, não seria de todo impróprio.
Meu objetivo é apontar alguns problemas que um teólogo inevita-
velmente vê, e desempenhar em relação a eles, da melhor forma que
me for possível, o papel apropriado e peculiar do teólogo.
O que vem a ser isso? Bem, o que é teologia? (Sempre comece
pelo começo!) Teologia é um daqueles termos (dos quais não exis-
tem tantos) cujo significado fica claro apartir de sua derivação. Teo-
logia vem de duas palavras gregas, theos (Deus) e logos (discurso,
a palavra, linha de argumento), e significa simplesmente falar em
Deus — ou, trocado em miúdos, pensamentos a respeito de Deus
expressos em declarações sobre Deus. Pensamentos sobre Deus
somente são corretos quando se ajustam aos próprios pensamentos
6 RELIGIÃO VIDA MANSA de Deus a respeito de si; a teologia só é boa
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RELIGIÃO VIDA
MANSA
de Deus a respeito de si; a teologia só é boa quando deixamos a
verdade revelada de Deus — isto é, o ensino da Bíblia — penetrar
em nossas mentes. Portanto, a teologia é um exercício de ouvir an-
tes de ser um exercício de falar. É uma tentativa de ouvir o que a
Confissão de Westminster (I.x) chama de "o Espírito Santo falando
na Escritura" e então aplicar o que a Escritura diz para corrigir e
dirigir nossas vidas. Trazemos ao ensinamento bíblico nossas dúvi-
das e perguntas em busca de solução, e deixamos que Deus, atra-
vés desses mesmos ensinamentos, nos questione sobre nossa ma-
neira de pensar c viver. O nome de teólogo é dado àqueles que
auxiliam este processo.
Existe um sentido no qual todo cristão é teólogo. Simplesmente
por falar em Deus, seja o que for que você esteja dizendo, você se
torna um teólogo, assim como batendo nas teclas você se torna um
pianista, seja qual for o som. (Meu neto de um ano e onze meses
está desempenhando o papel de pianista enquanto escrevo.) Sendo
assim, a questão é se você faz bem ou mal aquilo em que se empe-
nha. Mas, assim como na linguagem secular a palavra pianista é
normalmente reservada para artistas competentes, assim também
na linguagem cristã a palavra teólogo é reservada para aqueles que,
em certo sentido, se especializam no estudo da verdade de Deus.
Para que servem tais pessoas? Será que existe um determinado
serviço que nos podem prestar para o qual deveríamos procurá-
las? Existe, sem dúvida. Perto do lago, numa estação de veraneio
que conheço, existe um prédio com a placa pretensiosa de Centro
de Controle Ambiental. E a usina de tratamento de esgoto, que está
lá para garantir que nada polua a água; seu quadro de funcionários é
composto por engenheiros hidráulicos e especialistas em despoluição
da água. Pense nos teólogos como sendo os especialistas de
despoluição da igreja. Seu papel é detectar e eliminar a poluição
intelectual e garantir, até onde for possível ao homem, que a verda-
de de Deus, produtora de vida, flua pura e sem toxicidade para os
PERIGO! TEÓLOGO TRABALHANDO 7 corações dos cristãos. Sua vocação os obriga a agir como enge-
PERIGO!
TEÓLOGO
TRABALHANDO
7
corações dos cristãos. Sua vocação os obriga a agir como enge-
nheiros hidráulicos da igreja, buscando tornar o fluxo da verdade
mais forte e firme através de sua pregação, ensino e exposição bíbli-
ca; mas é particularmente como especialistas em remoção de sujei-
ra espiritual que eu quero retratá-los. Eles devem testar a água e
filtrar qualquer coisa que encontram que confunda as mentes, cor-
rompa os critérios e distorça a maneira como os cristãos encaram
sua própria vida. Se vêem cristãos desviados, precisam puxá-los de
novo para o caminho; se os vêem vacilando, devem dar-lhes cer-
teza; se os encontram confusos, devem esclarecê-los. É por isso
que este livro poderia ser chamado de Eu Sou um Teólogo, pois é
precisamente o que estou tentando fazer.
Os capítulos a seguir tratam de alguns assuntos cruciais a res-
peito dos quais os cristãos muitas vezes se sentem hesitantes e inse-
guros. Todos eles têm um aspecto bastante pessoal. No que está
Deus ocupado neste mundo seu que tantas vezes se mostra confuso
e angustiante? Quem tem o direito de alegar que o conhece? O que
a santidade vai requerer de mim? Como Deus vai me dirigir? Será
que ele vai mesmo me guiar? Existe a cura divina? O que devo es-
perar de Deus quando estou doente, ou quando me sinto um trapo?
Como devo reagir à presente condição da igreja? Estas são algu-
mas das questões sobre as quais eu acrescento ao tesouro da dis-
cussão cristã a minha migalha. São questões importantes, que por
vezes demais recebem respostas erradas, e eu quero dizer o que
posso a respeito delas.
Fazendo Mapas
O que um teólogo deverá fazer ao encarar questões deste tipo?
Imagine assim: Deverá preparar um mapa de cada situação proble-
mática da vida, com todos os fatores humanos envolvidos, e então
sobrepor nele todos os ensinamentos bíblicos relevantes e as consi-
derações baseadas na Bíblia. A escala do mapa deverá ser bem
8 RELIGIÃO VIDA MANSA grande. É um mapa para ser usado na caminhada de longo
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RELIGIÃO VIDA
MANSA
grande. É um mapa para ser usado na caminhada de longo percur-
so, e por isso a exatidão dos detalhes é importante.
A vida do cristão é, em todo o percurso, uma viagem através
de campos e matas, com cercas vivas e valas, subidas e descidas,
lugares acidentados e planos, desertos e pântanos. Há tempestades
e neblinas periodicamente interrompendo o brilho do sol. O propó-
sito do mapa é capacitar o caminhante a descobrir sua trilha. Com
um bom mapa, ele vai reconhecer o terreno a sua volta, relacionar
os sinais que ele observa ao panorama maior, e ver, em cada está-
gio, para onde ele deve seguir. O objetivo apropriado da teologia é
o de equipar os discípulos de Cristo para a obediência. Os mapas
que os teólogos desenham não se destinam simplesmente a ser pos-
suídos como ricos bens intelectuais; ao contrário, foram feitos para
ser usados para que o crente encontre seu caminho na peregrinação
pessoal de seguir o seu Senhor.
Os detalhes técnicos (algumas vezes inevitáveis na teologia, as-
sim como em qualquer campo de estudo científico) entrarão somen-
te quando contribuírem para a simplicidade. A simplicidade dos prin-
cípios, uma vez alcançada, favorece a prática direta e honesta. Os
melhores mapas teológicos são claros e têm estas sete qualidades
básicas.
Primeiro, são corretos e precisos em sua apresentação do ma-
terial, tanto humano quanto bíblico. Nada pode compensar uma fa-
lha aqui.
Segundo, são centrados em Deus, reconhecendo a soberania
divina no âmago de todas as coisas, e mostrando o controle de
Deus nos acontecimentos problemáticos, tanto reais como imagi-
náveis.
Terceiro, são doxológicos, dando a Deus glória por suas glo-
riosas realizações na criação, providência e graça, e encorajando
um espírito de adoração alegre e confiante em todas as circuns-
tâncias.
PERIGO! TEÓLOGO TRABALHANDO 9 Quarto, são orientados para o futuro, pois o Cristianismo é uma
PERIGO!
TEÓLOGO
TRABALHANDO
9
Quarto, são orientados para o futuro, pois o Cristianismo é uma
religião de esperança. Muitas vezes, o único sentido que a teologia
pode encontrar nas tendências, condições e padrões de comporta-
mento atuais que marcam a sociedade e tocam os indivíduos é
diagnosticá-los como sendo fruto do pecado e apresentar a pro-
messa de que Deus um dia vai varrê-los e revelar alguma coisa me-
lhor em seu lugar.
Quinto, estes mapas teológicos são relacionados com Cristo de
duas maneiras. Por um lado, proclamam a centralidade de Jesus,
nosso mediador, profeta, sacerdote e rei, em todos os tratamentos
de Deus com a raça humana no presente, e em planos futuros para
ela. Por outro lado, também tomam nossas perplexidades especu-
lativas para resolvê-las, transformando-as em questões práticas de
seguir fielmente o Salvador a quem amamos, nesse caminho de ne-
gar a nós mesmos e carregar a cruz, segundo seu chamado explícito
(veja Lc 9.23). Mostram de que maneira se anda pacientemente
com ele, através de experiências que derrotam nossa mente e que
sentimos como uma verdadeira morte, para chegarmos à realidade
experiencial da ressurreição interior pessoal. Esta é a maneira bíbli-
ca de viver a vida cristã, à qual os bons mapas teológicos nos con-
duzem diretamente.
Sexto, tais mapas são centrados na igreja. O Novo Testamento
apresenta a igreja como fundamental no plano de Deus. Pretende-
se que os cristãos viajem através da vida não em isolamento, mas na
companhia fraterna de crentes, sustentando-os e sendo sustentados
por eles.
Sétimo, os bons mapas teológicos são focalizados na liberda-
de. Eles se sintonizam nos processos decisórios de homens e mu-
lheres que são autênticos cristãos; isto é, pessoas que sabem que
estão livres da lei como sistema de salvação, e mesmo assim que-
rem viver segundo a lei, primeiro pelo amor que têm para com seu
Senhor, porque ele quer isso; segundo, por amor à própria lei, que
10 RELIGIÃO VIDA MANSA agora lhes agrada com sua visão de justiça; e terceiro, por
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RELIGIÃO VIDA
MANSA
agora lhes agrada com sua visão de justiça; e terceiro, por amor a si
próprios, já que sabem que não há verdadeira felicidade para eles
sem a santidade, nem neste mundo nem na eternidade.
A boa teologia pede constantemente decisões deliberadas e
responsáveis a respeito de como se vai viver, e ela nunca se esquece
de que as decisões cristãs são compromissos para se agir sobre
princípios (não a partir de uma conformidade descuidada) assumi-
dos em liberdade (não por pressão externa ou intimidação), e moti-
vados em primeiro lugar pelo amor a Deus e à justiça (não pelo
medo). E assim que a boa teologia molda o caráter cristão, não nos
degradando nem nos diminuindo, mas, antes, realçando a dignidade
que Deus nos deu.
Não há como negar que muitos tratamentos teológicos de áreas
problemáticas não se adequam a esses critérios. O autoritarismo
dentro da igreja, o secularismo que vem de fora, e um nervoso modo
de pensar ateniense nas universidades e seminários já se têm refor-
çado mutuamente para contaminar a teologia, tanto a passada quanto
a presente. Mas não precisamos nos preocupar com isso agora.
Escrevi este capítulo apenas para que você conheça os moldes pe-
los quais estou procurando trabalhar. Posso até falhar: disso você
será o juiz. Mas, se eu falhar, por favor, lembre-se de que, como
disse o pianista a quem os bandidos do filme faroeste planejavam
matar, fiz o melhor que pude. Agora vamos em frente.
2 O Plano de Deus A Orientação Cristã Básica Existe um Plano? As pessoas hoje
2
O Plano de Deus
A Orientação
Cristã
Básica
Existe um Plano?
As pessoas hoje se sentem perdidas, sem rumo. Tanto a arte, a
poesia e a literatura moderna, como os cinco minutos de conversa
com qualquer pessoa sensível, nos dão a certeza disso. Pode pare-
cer estranho que seja assim numa época em que temos, mais do que
nunca, o controle sobre as forças da natureza. Mas na verdade não
é estranho. E o julgamento de Deus, que trouxemos sobre nós mes-
mos por tentarmos nos sentir muito em casa, muito à vontade neste
mundo.
Pois isso é o que temos feito. Recusamos crer que alguém de-
veria viver para algo mais do que esta vida presente. Mesmo se
suspeitamos que os materialistas estejam errados ao negar que Deus
e outro mundo existem, não temos permitido que nossa crença nos
impeça de viver sob princípios materialistas. Temos tratado este
mundo como se fosse o único lar que haveremos de possuir, e te-
mos nos concentrado exclusivamente em arrumá-lo para nosso con-
forto. Pensamos que poderíamos construir o céu na terra. Agora
duas Deus guerras nos tem mundiais julgado por "quentes" nossa impiedade. e uma "fria", No que século pode vinte ainda houve estar
12 RELIGIÃO VIDA MANSA acontecendo. Encontramo-nos na era da guerra nuclear, tortura, terrorismo e lavagem
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RELIGIÃO VIDA
MANSA
acontecendo. Encontramo-nos na era da guerra nuclear, tortura,
terrorismo e lavagem cerebral. Em tal mundo não é possível sentir-
se em casa. E um mundo que nos desapontou. Esperávamos que a
vida fosse amigável. Em vez disso, ela tem zombado de nossas espe-
ranças e nos deixado desiludidos e frustrados. Pensávamos que sa-
bíamos o que fazer da vida. Agora estamos confusos quanto a saber
se alguma coisa pode ser feita dela. Pensávamos em nós mesmos
como sendo pessoas sábias. Agora nos achamos como crianças
desconsoladas, perdidas no escuro.
Mais cedo ou mais tarde, isto tinha que acontecer. O mundo de
Deus nunca é amistoso para aqueles que se esquecem de seu Cria-
dor. Os budistas, quejuntam seu ateísmo a um pessimismo absoluto
a respeito da vida, estão corretos nesse ponto. Sem Deus o homem
perde seu rumo neste mundo. Não pode encontrá-lo de novo sem
que encontre aquele a quem o mundo pertence. E natural que os
incrédulos percebam sua existência como sendo sem sentido e mi-
serável. Não deveríamos nos surpreender quando estas almas amar-
guradas e frustradas se voltam às drogas e à bebida, ou quando os
adolescentes respondem ao traumático caos à sua volta cometendo
suicídio. Deus fez a vida, e só Deus pode nos dizer o seu significado.
Se queremos achar sentido na vida deste mundo, então precisamos
ter conhecimento sobre Deus. E, se queremos saber sobre Deus,
precisamos nos voltar para a Bíblia.
Leia a Bíblia
Então vamos ler a Bíblia — se pudermos. Mas, será que podemos?
Muitos de nós perdemos essa habilidade. Quando abrimos nossa
Bíblia, fazemos isso com disposição de mente tal que se forma uma
barreira intransponível à sua mais simples leitura. Isso pode pare-
cer alarmante, mas é verdade. Deixe-me explicar.
Quando você lê um livro, você trata dele como uma unidade.
Você procura o enredo, ou a linha principal do argumento, e acom-
O PLANO DE DEU S 13 panha-o até o fim. Você deixa a mente do
O PLANO
DE
DEU S
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panha-o até o fim. Você deixa a mente do autor guiar a sua. Quer
você se permita ou não "dar uns mergulhozinhos" antes de posi-
cionar-se para absorver o livro, você sabe que não o compreenderá
enquanto não o tiver lido do começo ao fim. Se é um livro que você
quer dominar, você separa algum tempo para uma viagem cuidado-
sa e sem pressa através dele. Mas quando nos chegamos à Bíblia,
às Escrituras Sagradas, nosso comportamento é diferente. Para co-
meçar, não temos o hábito de tratá-la como um só livro — uma
unidade; aproximamo-nos dela como uma coleção de narrativas e
falas separadas. Já presumimos que estes itens representem ou con-
selhos morais ou consolo para quem está em dificuldades. Então
lemos a Bíblia em pequenas doses, uns poucos versículos de cada
vez. Nem lemos livros individuais por inteiro, muito menos os dois
Testamentos. Passamos por cima das belas frases de tradutores cujo
vocabulário era mais rico do que o nosso, ou então pelas informa-
lidades de traduções pouco tradicionais mas estranhas aos nossos
ouvidos, e esperamos que alguma coisa nos atinja. Quando as pala-
vras trazem um pensamento calmante ou uma idéia agradável, cre-
mos que a Bíblia já fez seu trabalho. Chegamos ao ponto de ver a
Bíblia não como um livro, mas como uma coleção de fragmentos
belos e sugestivos, e é como tal que nós a usamos. O resultado é
que, no sentido comum de ler, nunca lemos a Bíblia de verdade.
Presumimos que estamos lendo a Bíblia Sagrada do modo verda-
deiramente religioso, mas este uso dela é de fato mera superstição.
Concordo que seja o modo da religiosidade natural. Mas não é o
modo da verdadeira religião.
Deus não pretendeu que a leitura da Bíblia funcionasse simples-
mente como um sedativo paramentes desassossegadas. A leitura
da Escritura tem a intenção de acordar nossas mentes, e não de
fazê-las dormir. Deus nos pede que nos aproximemos da Escritura
como sua Palavra — uma mensagem endereçada a criaturas racio-
nais, pessoas com mentes; uma mensagem que não podemos espe-
14 RELIGIÃO VIDA MANSA rar entender sem pensar sobre ela. "Vinde, pois, e arrazoemos", diz
14
RELIGIÃO VIDA
MANSA
rar entender sem pensar sobre ela. "Vinde, pois, e arrazoemos", diz
Deus a Judá através de Isaías (Is 1.18), e ele diz a mesma coisa a
nós, todas as vezes que tomamos em nossas mãos seu livro. Ele nos
ensinou a orar por iluminação divina enquanto lemos. "Desvenda os
meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei"
(SI 119.18). É uma oração para Deus nos dar visão interior enquan-
to meditamos na sua palavra. Mas efetivamente impedimos Deus de
responder a essa oração se, depois de orar, esvaziamos nossa men-
te e paramos de pensar enquanto lemos.
Deus quer que leiamos a Bíblia como um livro—uma só narra-
tiva com um só tema. Não estou me esquecendo de que a Bíblia
consiste de muitas unidades separadas (66 para ser exato) e que
algumas dessas unidades são, elas próprias, compostas de partes
distintas (como o saltério, que consiste de 150 preces e hinos distin-
tos). Apesar disso tudo, entretanto, a Bíblia nos vem como o pro-
duto de uma só mente, a mente de Deus. Ela prova sua unidade, vez
após vez, pela maneira surpreendente como está ligada, uma parte
lançando luz sobre outra parte. Assim, devemos lê-la como um todo.
E ao lermos, devemos perguntar: Qual é o enredo deste livro? Qual
é seu assunto? De que se trata? A menos que façamos estas per-
guntas, nunca veremos o que ela nos está dizendo sobre nossas
vidas.
Quando alcançarmos este ponto, descobriremos que a mensa-
gem de Deus para nós é mais drástica, e ao mesmo tempo mais
promissora do que qualquer uma que a religiosidade humana possa
conceber.
O Tema Principal
O que encontramos quando lemos a Bíblia como um todo unificado,
com nossas mentes alertas para observar seu enfoque verdadeiro?
Encontramos isto: A Bíblia não é primeiro a respeito do ho-
mem, absolutamente. Seu assunto é Deus. Ele (se é permitido dizer-
O PLANO DE DEU S 15 se "ele") é o ator principal no drama, o
O PLANO
DE
DEU S
15
se "ele") é o ator principal no drama, o herói do enredo. A Bíblia é
urna pesquisa factual de sua obra presente, passada e futura neste
mundo, com comentarios explicativos dos profetas, salmistas, ho-
mens sábios e apóstolos. Seu tema principal não é a salvação huma-
na, mas a operação de Deus vindicando seus propósitos e glorifi-
cando a si mesmo num universo pecaminoso e desordenado. Ele faz
isto estabelecendo seu reino e glorificando seu Filho, criando um
povo para o adorar e servir e, por fim, desmantelando e recompon-
do esta ordem de coisas, e assim desarraigando o pecado deste
mundo. É nesta perspectiva mais ampla que a Bíblia encaixa a obra
de Deus da salvação do homem. Ela retrata Deus como mais do
que uma força impessoal de vida. Deus é mais do que qualquer das
triviais deidades substitutas que habitam nossas mentes da atualida-
de. Ele é o Deus vivo, presente e ativo em toda parte, "glorificado
em santidade, terrível em feitos gloriosos, que opera maravilhas"
(Ex 15.11). Ele dá a si próprio um nome — Yahweh (Jeová: veja
Ex 3.14-15; 6.23), que, quer seja traduzido por "Eu sou o que sou"
ou por "Eu serei o que serei" (o hebraico significa ambos), é uma
proclamação de sua auto-existência e auto-suficiência, sua onipo-
tência e sua liberdade ilimitada. Este mundo é dele, ele o fez e o
controla. Ele faz "todas as coisas conforme o conselho de sua von-
tade" (Ef 1.11). Seu conhecimento e domínio estendem-se às me-
nores coisas: "Até os cabelos todos da cabeça estão contados"
(Mt 10.30). "O Senhor reina" — os escritores dos salmos fazem
desta verdade imutável o ponto de partida dos seus louvores, repe-
tidamente (veja SI 93.1; 96.10; 97.1; 99.1). Embora forças hostis
rujam e o caos ameace, Deus é Rei; portanto seu povo está seguro.
Tal é o Deu s d a Bíblia . E a convicçã o dominant e qu e a Bíbli a te m a
respeito dele, uma convicção proclamada de Gênesis a Apocalipse,
é que, por detrás e por debaixo de toda a aparente confusão deste
mundo, Deus tem seu plano. Esse plano refere-se ao aperfeiçoa-
mento de um povo e à restauração de um mundo através da ação
16 RELIGIÃO VIDA MANSA mediadora de Cristo. Deus governa os negocios humanos tendo em vista
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RELIGIÃO VIDA
MANSA
mediadora de Cristo. Deus governa os negocios humanos tendo em
vista este fim. A historia humana é um registro da efetuação dos
propósitos dele. A historia é a historia dele.
A Bíblia detalha os estágios do plano de Deus. Deus visitou
Abraão, conduziu-o a Canaã e entrou num relacionamento de alian-
ça com ele e seus descendentes — "uma aliança perpétua, para ser
o teu Deus e da tua descendência
e serei o seu Deus" (Gn 17.7s.).
Ele deu a Abraão um filho. Ele transformou a família de Abraão
numa nação e conduziu-os para fora do Egito, para uma terra que
lhes pertencesse. Através dos séculos ele os preparou, e também o
mundo gentio, para a vinda do Salvador-Rei, "conhecido, com efei-
to, antes da fundação do mundo, porém manifestado no final dos
tempos por amor de vós que, por meio dele, tendes fé em Deus"
(IPe 1.20s.). Finalmente "vindo, porém, a plenitude dos tempos,
Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para
resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a
adoção de filhos" (Gl 4.4s.). A promessa da aliança para a semente
de Abraão é agora cumprida para todos os que colocam sua fé em
Cristo: "se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão, e
herdeiros segundo a promessa" (Gl 3.29).
O plano para esta era é que o evangelho deva ser conhecido
através do mundo e "grande multidão
de todas as nações, tribos,
povos e línguas" (Ap 7.9) seja trazida à fé em Cristo; depois do
que, na volta de Cristo, céu e terra serão refeitos, de alguma forma
inimaginável. Então, onde "o trono de Deus e do Cordeiro" estiver,
ali "seus servos o servirão, contemplarão a sua face
e reinarão
pelos séculos dos séculos" (Ap 22.3-5).
Este é o plano de Deus, diz a Bíblia. Não pode ser frustrado
pelo pecado humano, pois Deus estabeleceu um modo do próprio
pecado humano ser parte do plano, e o desafio contra a vontade
revelada de Deus é usado por Deus para o avanço de seu plano. Os
17 O PLANO DE DEU S irmãos de José, por exemplo, venderam-no para o Egito.
17
O PLANO
DE
DEU S
irmãos de José, por exemplo, venderam-no para o Egito. "Vós, na
verdade, intentastes o mal contra mim", observou José mais tarde,
"porém Deus o tornou em bem, para fazer
[com] que se conserve
muita gente em vida" (Gn 50.20); "Assim, não fostes vós que me
esviastes para cá, e sim Deus" (Gn 45.8). A própria cruz de Cristo
é a suprema ilustração deste princípio. "Sendo este entregue pelo
determinado desígnio e presciência de Deus", diz Pedro no seu ser-
mão de Pentecostes, "vós o matastes, crucificando-o por mãos de
iníquos" (At 2.23). No Calvário Deus anulou o pecado de Israel,
previsto por ele, como meio para a salvação do mundo. Assim,
parece que a iniqüidade do homem não frustra o plano de Deus
para a redenção de seu povo. Ao invés disso, por meio da sabedo-
ria da onipotência, tornou-se um meio de cumprir seu plano.
Aceitando o Plano
Este, então, é o Deus da Bíblia: um Deus que reina, que domina os
acontecimentos, e que executa, mesmo através do serviço
claudicante de seu povo e da insolência de seus inimigos, seu pro-
pósito eterno para este mundo. Agora começamos a ver o que a
Bíblia tem a dizer para nossa geração, que se sente tão completa-
mente perdida e confusa numa ordem de acontecimentos
inescrutavelmente hostil. Há um plano, diz a Bíblia. Existe sentido
nas circunstâncias, mas você o perdeu. Volte-se para Cristo. Bus-
que Deus. Dê-se ao cumprimento de seu plano, e você encontrará a
chave oculta para viver. "Quem me segue", promete Cristo, "não
andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida" (Jo 8.12). Você
terá um motivo: a glória de Deus. Você terá uma regra, a lei de
Deus. Você terá um amigo, na vida e na morte: o Filho de Deus.
Você terá encontrado a resposta para a dúvida e o desespero pro-
vocados pela aparente insignificância, até mesmo malícia, das cir-
cunstâncias: você saberá que "o Senhor reina" e que "todas as coi-
18 RELIGIÃO VIDA MANSA sas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles
18
RELIGIÃO VIDA
MANSA
sas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles
que são chamados segundo o seu propósito" (Rm 8.28). E você
terá paz.
A alternativa? Podemos desafiar e rejeitar o plano de Deus,
mas não podemos escapar dele. Pois um elemento de seu plano é o
julgamento do pecado. Aqueles que rejeitam a oferta do evangelho,
a oferta da vida através de Cristo, trazem sobre si mesmos uma
tenebrosa eternidade. Aqueles que escolhem estar sem Deus terão
o que escolhem: Deus respeita nossa escolha. Isto também é parte
do plano. A vontade de Deus é feita, não menos na condenação dos
incrédulos do que na salvação daqueles que põem sua fé no Senhor
Jesus.
Tais são as linhas gerais do plano de Deus, a mensagem central
sobre Deus que a Bíblia nos traz. Sua exortação para nós é aquela
de Elifaz para Jó: "Reconcilia-te, pois, com ele, e tem paz, e assim te
sobrevirá o bem" (Jó 22.21). Uma vez que sabemos que "o Senhor
reina", que está executando seu plano para seu mundo sem qual-
quer impedimento, podemos começar a apreciar tanto a sabedoria
de seu conselho como a glória que está oculta em sua promessa.
"Todas as Coisas para o Bem?"
"O Senhor reina." Esta, vemos agora, é a primeira verdade funda-
mental que deveremos enfrentar. O Criador é o Rei do universo.
Deus faz "todas as coisas conforme o conselho da sua vontade"
(Ef 1.11). O fator decisivo na história do mundo, o propósito que o
controla e a chave que o interpreta, é o plano eterno de Deus. O
senhorio soberano de Deus é a base para a mensagem bíblica e o
fato fundamental da fé cristã, e já notamos que sobre isso é edificada
a grande certeza de que "todas as coisas cooperam para o bem
daqueles que amam a Deus". Se isso é verdade, então as boas no-
vas são maravilhosas.
Mas, esta certeza pode ser mantida? O que ela afirma levanta
O PLANO DE DEU S 19 sérios problemas para pessoas sensíveis e almas preocupadas em
O PLANO
DE
DEU S
19
sérios problemas para pessoas sensíveis e almas preocupadas em
vários pontos. Ela não dá margem a uma demonstração racional, e
por vezes as circunstâncias despertam dúvidas dolorosas. Algumas
das coisas que acontecem a cristãos, em particular, nos ferem e
confundem. Como podem estes infortúnios, estas frustrações, estes
impedimentos aparentes à causa de Deus ser alguma parte de sua
vontade? Em resposta a essas coisas, achamo-nos inclinados a ne-
gar, ou a realidade do governo de Deus, ou a perfeita bondade do
Deus que governa. Seria fácil aceitar qualquer das duas conclusões
— mas também seria falso. Quando somos tentados a fazer isto,
devemos parar e fazer a nós mesmos certas perguntas.
As Coisas Secretas
Será que devemos ficar surpresos quando nos encontramos confu-
sos diante daquilo que Deus está fazendo? Não! Não podemos nos
esquecer de quem somos. Não somos deuses; somos criaturas, e
nada mais do que criaturas. Como criaturas, não temos o direito de
esperar que, em cada ponto, vamos ser capazes de compreender a
sabedoria de nosso Criador. Ele próprio nos lembrou que "Meus
pensamento não são os vossos pensamentos
são mais altos do que a terra, assim são
Assim como os céus
os meus pensamentos
mais altos que os vossos pensamentos" (Is 55.8,9). Além disso, o
Rei deixou claro para nós que não é do seu agrado desvendar todos
os detalhes de sua política a seus súditos humanos. Como Moisés
declarou quando tinha acabado de expor a Israel o que Deus havia
revelado sobre sua vontade para eles: "As coisas encobertas per-
tencem ao Senhor nosso Deus; porém as coisas reveladas perten-
cem a nós
para que cumpramos todas as palavras desta lei"
(Dt 29.29). O princípio exemplificado aqui é que Deus revelou sua
mente e sua vontade até onde precisamos conhecê-la para fins prá-
ticos, e devemos aceitar o que ele nos desvendou como regra com-
pleta e adequada para nossa fé e vida. Mas ficarão "coisas secre-
20 RELIGIÃO VIDA MANSA tas" que ele não tornou conhecidas e que, pelo menos nesta
20
RELIGIÃO VIDA
MANSA
tas" que ele não tornou conhecidas e que, pelo menos nesta vida,
ele não pretende que descubramos. E as razões por detrás dos atos
providenciais de Deus caem algumas vezes nesta categoria.
O caso de Jó ilustra isto. Jó nunca foi informado a respeito do
desafio que Deus aceitou ao permitir que Satanás afligisse seu ser-
vo. Tudo o que Jó sabia era que o Deus onipotente era moralmente
perfeito, e que seria falsidade e blasfêmia negar sua bondade sob
quaisquer circunstâncias. Ele se recusou a "amaldiçoar Deus" mes-
mo quando sua subsistência, seus filhos e sua saúde lhe foram tira-
dos (Jó 2.9-10). Fundamentalmente, ele manteve essa recusa até o
fim, embora as banalidades bem intencionadas com que seus ami-
gos presunçosos o agitaram quase o deixassem maluco, e às vezes
o forçassem a dizer palavras loucas contra Deus (das quais ele mais
tarde se arrependeu). Embora não sem lutas, Jó conservou sua inte-
gridade ao longo do tempo de provação, e manteve sua confiança
na bondade de Deus. E sua confiança foi recompensada. Pois quando
terminou o tempo de provação, depois que Deus tinha se chegado a
Jó em misericórdia para renovar sua humildade (40.1-5; 42.1-6), e
Jó havia orado obedientemente pelos três amigos que o perturba-
ram, "o Senhor
deu-lhe o dobro de tudo que antes possuíra"
(42.10). "Tendes ouvido da paciência de Jó", escreve Tiago, "e vistes
que fim o Senhor lhe deu; porque o Senhor é cheio de terna miseri-
córdia e compassivo" (Tg 5.11). Será que a perturbadora série de
catástrofes que sobreveio a Jó significou que Deus tinha abdicado
de seu trono ou abandonado seu servo? De jeito nenhum, como Jó
provou por experiência. Mas a razão pela qual Deus o havia mergu-
lhado nas trevas nunca lhe foi revelada. Ora, então não poderá Deus,
para seus sábios propósitos, tratar outros de seus seguidores como
tratou Jó?
Há, porém, mais do que isso a ser dito. Pois existe uma segun-
da pergunta.
Deus nos terá deixado inteiramente no escuro quanto ao que
O PLANO DE DEU S 21 ele está fazendo em seu governo providencial do mundo?
O PLANO
DE
DEU S
21
ele está fazendo em seu governo providencial do mundo? Não! Ele
nos deu informações completas quanto ao propósito central que ele
está executando, e uma explicação positiva para as experiências de
provação dos cristãos.
O que Deus está fazendo? Ele está "conduzindo muitos filhos à
glória" (Hb 2.10). Ele está salvando um grande grupo de pecado-
res. Ele tem estado envolvido nesta tarefa desde que a história co-
meçou. Ele passou muitos séculos preparando um povo e um mo-
mento da história universal para a vinda de seu Filho. Então ele en-
viou seu Filho ao mundo para que houvesse um evangelho, e agora
ele envia seu evangelho por todo o mundo, para que possa haver
uma igreja. Ele exaltou seu Filho ao trono do universo, e Cristo, do
seu trono, agora convida pecadores para si. Ele os mantém, ele os
conduz e, finalmente, ele os traz para estarem junto a si em sua
glória.
Deus está salvando homens e mulheres através de seu Filho.
Primeiro, ele os justifica e os adota em sua família, por amor a Cris-
to, logo que eles crêem, restaurando assim entre si mesmo e os
salvos o relacionamento que o pecado havia quebrado. Então, den-
tro desse relacionamento restaurado, Deus continuamente opera no
seu íntimo e sobre sua vida para renová-los à imagem de Cristo,
para que a semelhança de família (se é permitida a frase) apareça
neles cada vez mais. É esta renovação de nosso ser, progressiva
aqui e a ser aperfeiçoada no porvir, que Paulo identifica como o
"bem", para o qual "todas as coisas cooperam para o bem daqueles
que amam a Deus, daqueles
chamados segundo o seu propósito"
(Rm 8.28). O propósito de Deus, como Paulo explica, é que aque-
les que Deus escolheu e em amor chamou para si próprio devem ser
"conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele [o Filho] sej a o
primogênito entre muitos irmãos" (Rm 8.29). Toda a ordenação das
circunstâncias da parte de Deus, Paulo explica, é designada para o
cumprimento deste propósito. O "bem" para o qual todas as coisas
22 RELIGIÃO VIDA MANSA operam não é a comodidade e conforto imediato dos filhos de
22
RELIGIÃO VIDA
MANSA
operam não é a comodidade e conforto imediato dos filhos de Deus
(e tememos que vezes demais seja entendido assim), mas a santida-
de final deles, e a conformidade à semelhança de Cristo.
Será que isto ajuda a entender como as circunstâncias adversas
podem encontrar um lugar no plano de Deus para os seus? Certa-
mente que sim! Lança um jorro de luz sobre o problema, como o
autor de Hebreus demonstra. Para os cristãos que tinham ficado
desencorajados e apáticos sob a pressão de constantes sofrimentos
e perseguições, nós o encontramos dizendo: "E estais esquecidos
da exortação que, como a filhos, discorre convosco: 'Filho meu,
não menosprezes a correção que vem do Senhor, nem desmaies
quando por ele és reprovado; porque o Senhor corrige a quem ama,
e açoita a todo filho a quem recebe'. É para disciplina que perseverais
(Deus vos trata como filhos); pois, que filho há que o pai não corri-
ge?
Além disso, tínhamos os nossos pais segundo a carne, que
nos corrigiam, e os respeitávamos; não havemos de estar em muito
maior submissão ao Pai dos espíritos, e então viveremos?
Deus
nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participan-
tes da sua santidade. Toda disciplina, com efeito, no momento não
parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto,
produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de
justiça" (Hb 12.5-11, citando Pv 3.11-12, itálicos acrescentados
para ênfase). É impressionante ver a maneira como este autor, assim
como Paulo, compara o "bem" do cristão não com a comodidade e
a quietude, mas com a santificação. A passagem é tão clara que não
necessita de comentário, apenas de leituras freqüentes, sempre que
achamos difícil acreditar que as durezas que as circunstâncias (ou
nossos companheiros cristãos) nos fazem sofrer possam ser de al-
guma forma a vontade de Deus.
O Propósito Disso Tudo
Contudo, ainda há mais que deve ser dito. Uma terceira pergunta
O PLANO DE DEU S 23 que deveríamos nos fazer é: Qual é o objetivo
O PLANO
DE
DEU S
23
que deveríamos nos fazer é: Qual é o objetivo final de Deus em seu
tratamento com seus filhos? É simplesmente a felicidade deles, ou é
algo mais? A Bíblia indica que é algo mais. É a glória do próprio
Deus.
A finalidade de Deus em todos os seus atos é, em última análi-
se, ele mesmo. Não há nada moralmente dúbio com respeito a isso.
Se dizemos que o homem não pode ter finalidade mais alta do que a
glória de Deus, como podemos dizer algo diferente a respeito do
próprio Deus? A idéia de que seja de algum modo indigno repre-
sentar Deus como almejando sua própria glória em tudo o que ele
faz reflete a falha de nós não nos lembrarmos que Deus e o homem
não estão no mesmo nível. Mostra nossa falta em perceber que,
enquanto o homem pecador faz de seu próprio bem-estar sua fina-
lidade máxima, às expensas de seus semelhantes, nosso gracioso
Deus determinou glorificar a si mesmo abençoando seu povo. Sua
finalidade em redimir o homem, aprendemos, é "o louvor da glória
de sua graça", ou simplesmente "o louvor de sua glória" (Ef 1.6,12,
14). Ele deseja mostrar os seus recursos de misericórdia (as "rique-
zas" de sua graça e de sua glória — "glória" sendo a soma de seus
atributos e poderes, conforme ele os revela (Ef 2.17; 3.16) trazen-
do seus santos para sua felicidade definitiva, no deleite dele próprio.
Mas, de que forma esta verdade, que Deus busca sua própria
glória em todo seu tratamento conosco, influi sobre o problema da
providência? Desta maneira: Dá-nos visão interior do modo pelo
qual Deus nos salva, sugerindo-nos a razão pela qual ele não nos
leva para o céu no momento em que cremos. Agora vemos que ele
nos deixa num mundo de pecado para sermos provados, testados,
abusados por aflições que ameaçam nos esmagar — para que pos-
samos glorificá-lo através de nossa paciência sob o sofrimento, e
para que ele possa mostrar as riquezas de sua graça e produzir no-
vos louvores de nossa parte, enquanto ele constantemente nos sus-
tenta e liberta. O Salmo 107 é uma declaração magnífica disto.
24 RELIGIÃO VIDA MANSA É dura esta explicação? Não para o homem que já aprendeu
24
RELIGIÃO VIDA
MANSA
É dura esta explicação? Não para o homem que já aprendeu
que sua finalidade principal neste mundo é "glorificar a Deus e, [as-
sim fazendo] deleitar-se nele para sempre". O cerne, o coração da
verdadeira religião é glorificar a Deus através de paciente perseve-
rança e louvá-lo por suas graciosas libertações. É viver a vida, tanto
através dos lugares planos como dos acidentados, em obediência
firme e ações de graça pela misericórdia recebida. E buscar e en-
contrar a mais profunda alegria, não numa alienação espiritual, mas
em descobrir através de cada tempestade e conflito sucessivo a
poderosa suficiência de Cristo para salvar. E o conhecimento segu-
ro de que o modo de Deus é melhor, tanto para nosso próprio bem-
estar como para sua glória. Nenhum problema que apareça pela
frente abalará a fé daquele que verdadeiramente aprendeu isto.
A Glória de Deus
O fato crucial que precisamos entender, então, é que Deus o Cria-
dor governa este mundo para sua própria glória. "Para ele são todas
as coisas" (Rm 11.36); ele próprio é a finalidade de todas as suas
obras. Ele não existe por nossa causa, mas nós por causa dele. É da
natureza e da prerrogativa de Deus agradar a si próprio, e seu pra-
zer revelado é fazer-se grande a nossos olhos. "Aquietai-vos", ele
nos diz, "e sabei que eu sou Deus; sou exaltado entre as nações, sou
exaltado na terra" (SI 46.10). A meta maior de Deus é glorificar a si
próprio.
Ou será que é? Por ser essa alegação tão crucial e tão
freqüentemente considerada ofensiva e deixada de lado, quero ago-
ra enfocá-la melhor e esclarecê-la mais inteiramente. Uma vez que
ela esteja clara em nossas mentes, sem nenhuma sombra de dúvida,
tudo mais no Cristianismo entrará nos eixos e fará sentido. Mas,
enquanto estivermos na incerteza a respeito disto, o restante da fé
bíblica nos trará constantes problemas. Olhe de novo, então, para
aquilo que está sendo dito aqui a respeito do Criador de todos nós.
O PLANO DE DEU S 25 É razoável. Que Deus almeje sempre glorificar a si
O PLANO
DE
DEU S
25
É razoável. Que Deus almeje sempre glorificar a si mesmo é
uma afirmativa que, a princípio, achamos difícil crer. Nossa reação
imediata é um sentimento desconfortável de que tal idéia seja indig-
na de Deus, de que a preocupação consigo mesmo, de qualquer
tipo que seja, é incompatível com a perfeição moral, e particular-
mente com a natureza de Deus, que é amor. Muitas pessoas sensí-
veis e moralmente cultas ficam chocadas com o pensamento de que
a finalidade suprema de Deus seja sua própria glória, e elas se opõem
a tal conceito. Para elas, isso descreve Deus como não sendo es-
sencialmente diferente de um homem mau, ou mesmo do próprio
diabo. Para elas, trata-se de uma doutrina imoral e ultrajante e, se a
Bíblia a ensina, tanto pior para a Bíblia! Muitas vezes extraem esta
conclusão explicitamente com respeito ao Antigo Testamento. Di-
zem que um volume que retrata Deus tão persistentemente como um
Ser "ciumento", preocupado de saída e antes de tudo com sua "hon-
ra", não pode ser visto como verdade divina, pois Deus não é as-
sim. Pensar que o Senhor seja assim é blasfêmia, mesmo que não
intencional. Uma vez que estas convicções são ampla e fortemente
mantidas, é importante considerar qual a validade que possuem, se
é que têm alguma validade.
Começamos perguntando: Por que estas convicções são afir-
madas com tanto fervor? Em outros assuntos teológicos as pessoas
podem até discordar com calma. Mas os protestos contra a doutri-
na teológica de que a principal finalidade de Deus é sua glória são
feitos com verdadeira paixão e, muitas vezes, com retórica irada. A
resposta não é difícil de se ver, e traz crédito para a honestidade
moral dos que a afirmam. Essas pessoas são sensíveis ao pecado
do egoísmo persistente. Sabem que o desejo de gratificar a si pró-
prio está na raiz das fraquezas e transgressões morais. Eles próprios
estão tentando, até onde podem, enfrentar e lutar contra este desejo
de auto-engrandecimento. Vem daí concluírem que Deus ser cen-
tralizado em si mesmo seria igualmente errado. A veemência com
26 RELIGIÃO VIDA MANSA que rejeitam a idéia de que o santo Deus exaltaria a
26
RELIGIÃO VIDA
MANSA
que rejeitam a idéia de que o santo Deus exaltaria a si mesmo reflete
seu aguçado sentimento de culpa pelo seu próprio egoísmo.
E será válida a conclusão deles? Repetimos: realmente, é um
engano completo. Pois se é correto o homem ter a glória de Deus
como seu alvo, poderá ser errado Deus ter o mesmo alvo? Se para
o homem não pode haver propósito maior do que o da glória de
Deus, será que para Deus também não pode? Se é errado para o
homem buscar uma finalidade menor do que esta, seria errado tam-
bém para Deus. A razão pela qual não pode ser correto o homem
viver para si mesmo, como se ele fosse Deus, é que ele não é Deus.
Contudo, não pode ser errado para Deus buscar sua própria glória,
simplesmente porque ele é Deus. Aqueles que insistem que Deus
não deveria buscar sua própria glória em todas as coisas estão, na
realidade, pedindo que ele pare de ser Deus. E não há maior blasfê-
mia do que querer que Deus não exista.
Se a linha de raciocínio do opositor é tão claramente falsa, por
que tantos crêem nela hoje em dia? A possibilidade desse argumen-
to deriva de nosso hábito de fazer Deus à nossa imagem e pensar
nele como se ele e nós estivéssemos no mesmo nível. Em outras
palavras, as obrigações dele para conosco e as nossas para com ele
corresponderiam — como se ele estivesse constrangido a nos servir
e a satisfazer nosso bem-estar com o mesmo desprendimento com
que somos obrigados a servi-lo. Isto é, com efeito, pensar em Deus
como se ele fosse homem, não obstante um grande homem. Se este
modo de pensar fosse certo, então o fato de Deus buscar sua pró-
pria glória em tudo realmente o faria comparável ao pior dos ho-
mens e ao próprio Satanás. Mas nosso Criador não é homem, nem
mesmo um super-homem. E esta maneira de pensar a respeito dele
é idolatria grossa. (Você não tem que fazer uma imagem de escultu-
ra retratando Deus como homem para ser idólatra; pois basta uma
falsa imagem mental para se quebrar o segundo mandamento.) Não
devemos imaginar, então, que as obrigações que nos ligam a ele
27 O PLANO DE DEU S como criaturas também o liguem como Criador a nós,
27
O PLANO
DE
DEU S
como criaturas também o liguem como Criador a nós, de igual modo.
Dependência é um relacionamento unilateral e traz consigo obriga-
ções unilaterais. Os filhos, por exemplo, devem obedecer a seus
pais — e não vice-versa! Nossa dependência de nosso Criador
obriga-nos a buscar sua glória sem comprometê-lo a buscar a nos-
sa. Para nós, glorificá-lo é um dever; para ele, abençoar-nos é gra-
ça. A única coisa que Deus é obrigado a fazer é exatamente a coisa
que ele requer de nós — glorificar a si próprio.
Concluímos, então, que é o reverso de blasfêmia falar de Deus
como centrado em si mesmo; pelo contrário, não fazer isso seria
irreligioso. É a glória de Deus fazer todas as coisas para si próprio e
usá-las como meio para sua exaltação. O cristão de mente
esclarecida insistirá nisto. Também insistirá que é glória do homem
ele ter o privilégio de funcionar como um meio para esse fim. Não
pode existir glória maior para o homem do que a de glorificar a
Deus. "A finalidade principal do homem é glorificar a Deus" — e é
fazendo assim que o homem encontra verdadeira dignidade. O huma-
nista, que crê que o homem está em seu estado mais nobre e mais
semelhante a Deus quando ele se livrou das cadeias da religião, dirá
que roubamos à vida humana todo seu valor verdadeiro quando
afirmamos que o homem não é mais do que um meio para a glória
de Deus. Mas a verdade é bem ao contrário. A vida sem Deus não
tem nenhum valor real; é mera monstruosidade. Quando dizemos
que o homem não é mais do que um meio para a glória de Deus,
afirmamos também que o homem não é menos do que isso — mos-
trando assim que a vida pode ter sentido e valor. A única pessoa
neste mundo que goza de completo contentamento é a pessoa que
sabe que a única vida que vale a pena e satisfaz é a de ser um meio,
por mais humilde que seja, para a finalidade principal de Deus —
sua própria glória e louvor. O caminho ao ser verdadeiramente feliz
é ser verdadeiramente humano, e o caminho ao ser verdadeiramen-
te humano é ser verdadeiramente piedoso.
28 RELIGIÃO VIDA MANSA Faz sentido. Mas o que significa dizer que o fim principal
28
RELIGIÃO VIDA
MANSA
Faz sentido. Mas o que significa dizer que o fim principal de
Deus é sua própria glória? Para muitos de nós a frase a glória de
Deus é um tanto vazia. Que significado a Escritura lhe dá?
No Antigo Testamento a palavra traduzida por glória original-
mente expressava a idéia de peso. A partir disto, foi aplicada a qual-
quer característica de uma pessoa que a tornava "de peso" aos olhos
das outras pessoas, fazendo com que elas a honrassem e respeitas-
sem. Os ganhos de Jacó e a riqueza de José são chamados de "gló-
ria" (Gn 31.1; 45.13). Então a palavra foi estendida para, ela pró-
pria, significar honra e respeito. De acordo com isso, a Bíblia a usa
com referência a Deus com duplo sentido. Por um lado, ela fala da
glória que pertence a Deus — o divino esplendor e majestade liga-
dos a todas as revelações que Deus faz de si próprio. Por outro
lado, fala da glória que é dada a Deus — a honra, o bendizer, o
louvor e adoração que Deus tem direito de receber e que é a única
resposta que cabe diante da sua presença santa. Ezequiel 43.2s.
reflete a ligação aqui: "E eis que do caminho do oriente vinha a glória
do Deus de Israel
e me prostrei, rosto em terra". O termo glória
assim faz a ligação entre os pensamentos sobre quão digno de lou-
vor Deus é — a majestade de seu poder e presença — e a adora-
ção que é a resposta certa quando Deus está perante nós. E nós
perante ele.
Vejamos estes dois pensamentos separadamente por um mo-
mento.
Em revelação, Deus nos mostra sua glória. Glória significa
Deidade em manifestação. A criação o revela. "Os céus proclamam
a glória de Deus" (SI 19.1). "Toda a terra está cheia da sua glória"
(Is 6.3). Nos tempos bíblicos, Deus desvendava sua presença por
meio de teofanias, que eram chamadas de sua "glória" (a nuvem
brilhante no tabernáculo e templo, Ex 40.34; lRs 8.1 Os.; a visão
que Ezequiel teve do trono e das rodas, Ez 1.28; etc). Os crentes
agora contemplam sua glória exposta plenamente, afinal, na face de
O PLANO DE DEUS 29 Cristo" (2Co 4.6). Onde quer que vejamos Deus em ação,
O
PLANO
DE
DEUS
29
Cristo" (2Co 4.6). Onde quer que vejamos Deus em ação, ali ve-
mos sua glória. Ele se apresenta perante nós como santo e adorável,
convocando-nos anos curvarmos e adorá-lo.
Na religião, damos glória a Deus. Fazemos isto através de to-
dos os nossos atos de resposta à sua revelação de graça.
1. Pelo louvor e adoração. "O que me oferece sacrifícios
de ações de graça, esse me glorificará" (SI 50.23);
"Tributai ao Senhor a glória devida ao seu nome"
(SI 96.8); "Glorifiquem a Deus pela sua misericórdia"
(Rml5.9).
2. Crendo em sua palavra. "As tuas palavras são em tudo
verdade" (SI 119.160); "Tuas palavras são verdade"
(2Sm7.28).
3. Confiando em suas promessas
deu glória a Deus. Rm 4.20ss.).
(foi assim que Abraão
4. Confessando Cristo como Senhor, "para glória de Deus
Pai" (Fp 2.11).
5. Obedecendo à lei de Deus. Os "frutos de justiça" são
"para a glória e louvor de Deus" (Fp 1.11).
6. Curvando-nos à sua justa condenação de nossos peca-
dos. (As sim Acã deu glóriaaDeus,Js7.19s.).
7. Procurando fazê-lo grande (o que significa fazer-nos
pequenos) em nossa vida diária.
Agora podemos ver o que quer dizer a declaração de que a
li nalidade principal de Deus é sua glória. Significa que seu propósito
imutável é mostrar para suas criaturas a glória de sua sabedoria,
poder, verdade, justiça e amor, para que venham a conhecê-lo e,
conhccendo-o, que venham a lhe dar glória por toda a eternidade
através de amor e lealdade, adoração e louvor, confiança e obedi-
30 RELIGIÃO VIDA MANSA ência. O tipo de comunhão que ele pretende criar entre ele
30
RELIGIÃO VIDA
MANSA
ência. O tipo de comunhão que ele pretende criar entre ele próprio
e
nós é um relacionamento em que ele dá de suas maiores riquezas
e
nós damos de nossos mais calorosos agradecimentos — ambos
ao grau máximo. Quando ele declara que é um Deus "ciumento" e
proclama: "a minha glória, pois, não darei a outrem" (Is 42.8; 48.11),
sua preocupação é resguardar a pureza e a riqueza deste relaciona-
mento. Tal é o objetivo de Deus.
Todas as obras de Deus são um meio para este fim. A única
resposta que a Bíblia dá a perguntas que começam com: Por que
Deus
?é: Para sua própria glória. Foi para isto que Deus decretou
criar, e para isto ele decidiu permitir o pecado. Ele poderia ter pre-
servado o homem da transgressão. Ele poderia ter barrado Satanás
de entrar no Jardim, ou ter confirmado Adão para que ele se tornas-
se incapaz de pecar (como ele fará aos redimidos no céu). Mas ele
não fez isso. Por quê? Para sua própria glória. Freqüentemente se
diz que nada em Deus é tão glorioso quanto seu amor redentor — a
misericórdia que recupera os transgressores através do sangue der-
ramado do próprio Filho de Deus. Mas não teria havido revelação
do amor redentor se o pecado não tivesse sido permitido primeiro.
Mas ainda, por que Deus escolheu redimir? Ele não precisava
ter feito assim. Ele não era obrigado a agir para nos salvar. Seu
amor pelos pecadores, sua decisão de nos dar seu Filho por eles,
foi uma escolha livre que ele não era obrigado a fazer. Por que ele
escolheu amar e redimir os que não mereciam amor? A Bíblia nos
diz: "Para louvor da glória de sua graça
(Ef 1.6,12,14).
para louvor da sua glória"
Vemos o mesmo propósito determinando ponto após ponto do
plano da salvação. Alguns ele escolhe para a vida, outros ele deixa
sob julgamento merecido, "querendo mostrar a sua ira e dar a
conhecer o seu poder
a fim de que também desse a conhecer as
riquezas da sua glória em vasos de misericórdia" (Rm 9.22s.). Ele
escolhe formar o grosso de sua igreja da escória do mundo — pes-
O PLANO DE DEU S 31 soas que são "loucas fracas humildes desprezadas". Porquê? "A
O PLANO
DE
DEU S
31
soas que são "loucas
fracas
humildes
desprezadas". Porquê?
"A fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus
para
que, como está escrito; 'Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor'"
(1 Co 1.27-31). Por que Deus não arranca de seus santos o pecado
enraizado no primeiro momento de sua vida cristã, como ele fará no
momento em que morrerem? Por que, em lugar de fazer isso, ele
conduz sua santificação com lentidão tão dolorosa, de maneira tal
que, durante toda sua vida, eles sejam perturbados pelo pecado e
nunca alcancem a perfeição que desejam? Por que é de seu costu-
me ele lhes dar uma passagem difícil através deste mundo?
A resposta, novamente, é que ele faz tudo para sua glória —
para nos expor nossa própria fraqueza e impotência, de tal modo
que possamos aprender a depender de sua graça e dos recursos
ilimitados de seu poder salvador. "Temos, porém, este tesouro em
vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não
de nós" (2Co 4.7). De uma vez por todas, vamos tirar de nossa
mente a idéia de que todas as coisas são como são porque Deus
não pode evitar que sejam assim. Deus "faz todas as coisas de acordo
com o conselho da sua vontade" (Ef 1.11), e todas as coisas são
como são porque Deus escolheu que assim fossem, e a razão para
sua escolha em cada caso é sua glória.
O Homem Piedoso
Vamos agora definir o que é piedade. Logo de início já pode-
mos dizer que não é simplesmente uma questão de coisas externas,
c sim, do coração; e não é um crescimento natural, mas um dom
sobrenatural; e só é encontrada naqueles que admitiram seu peca-
do, que buscaram e encontraram Cristo, que nasceram de novo, e
que se arrependeram. Mas até aí só foi para circunscrever e locali-
zar a piedade. Nossa pergunta é: O que é a piedade essencialmen-
te? Eis a resposta: É a qualidade de vida que existe naqueles que
buscam glorificar a Deus.
32 RELIGIÃO VIDA MANSA O homem piedoso não faz objeção ao pensamento de que sua
32
RELIGIÃO VIDA
MANSA
O homem piedoso não faz objeção ao pensamento de que sua
maior vocação é ser um meio para a glória de Deus. Ao contrário,
ele percebe isso como fonte de grande satisfação e contentamento.
Sua ambição é seguir a grande fórmula na qual Paulo resumiu a
praticado cristianismo — "glorificai a Deus no vosso corpo
por-
tanto, quer comais, quer bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei
tudo para a glória de Deus" (1 Co 6.20; 10.31). O desejo mais pre-
cioso do homem piedoso é exaltar Deus com tudo o que ele é em
tudo o que ele faz. Ele segue os passos de Jesus seu Senhor, que
afirmou a seu Pai, no final de sua vida aqui: "Eu te glorifiquei na
terra" (Jo 17.4), e que disse aos judeus: "Honro ameu Pai
não
procuro a minha própria glória" (Jo 8.49s.). O evangelista George
Whitefield pensava a respeito de si mesmo desta maneira, quando
disse: "Que o nome de Whitefield pereça, desde que Deus seja glo-
rificado". Como o próprio Deus, o homem piedoso é extremamente
zeloso de que Deus, e somente Deus, seja honrado. Este zelo é uma
parte da imagem de Deus na qual ele foi renovado. Existe agora
uma doxologia escrita em seu coração, e ele nunca é tão verdadei-
ramente ele mesmo como quando está louvando a Deus pelas glo-
riosas coisas que eleja fez, e rogando-lhe que glorifique a si mesmo
ainda mais. Podemos dizer que é pelas suas orações que ele é conhe-
cido — de Deus, senão dos homens. "O que um homem é quando
está sozinho de joelhos perante Deus", disse Murray McCheyne,
"isso ele é, e nada mais".
Nesse caso, contudo, deveríamos dizer "
e
nada menos". Pois
a oração secreta é a verdadeira fonte propulsora da vida do homem
piedoso. Quando falamos em oração, não estamos nos referindo às
formalidades convencionais, respeitáveis, estereotipadas e egoístas
que algumas vezes dão idéia da coisa real. O homem piedoso não
brinca de orar. Seu coração está ali. A oração para ele é seu traba-
lho principal. Sua oração é sempre, é consistentemente a expressão
de seu desejo mais forte e mais constante — "Exalta-te, Senhor, na
33 O PLANO DE DEU S tua força Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus
33
O PLANO
DE
DEU S
tua força
Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus
Santificado seja
teu nome" (SI 21.13; 57.5; Jo 12.28; Mt 6.9). Através disto, Deus
conhece seus santos, e através disto podemos conhecer a nós
mesmos.
3 Encontrando-se com Deus O Relacionamento Cristão Básico TT \ ~ / ma senhora jovem
3
Encontrando-se com Deus
O Relacionamento
Cristão
Básico
TT
\ ~ / ma senhora jovem perguntou a um amigo meu: "Você conhe-
ceu
o escritor inglês C. S. Lewis?" "Sim", respondeu meu amigo,
"na
realidade, tive um bom contato com ele". A jovem ficou em
silêncio por um momento e então disse timidamente: "Posso tocá-
lo?" Como disse o Sr. Ovo, "Hümpty-Dumpty", para Alice (a do
livro Alice no País das Maravilhas), "Mas que maravilha, que gló-
ria para você! "Ter conhecido C. S. Lewis—uau! Mas como Lewis
seria o primeiro a dizer, e meu amigo o segundo, coisa muitíssimo
maior do que encontrar-se com C. S. Lewis é encontrar-se com
I )eus.
Um dia todos nos encontraremos com Deus. Vamos nos achar
cm pé diante dele parajulgamento. Se tivermos deixado este mundo
sem sermos perdoados, então será um acontecimento terrível. Mas
ex iste um meio de se encontrar com Deus na terra que remove todo
o terror da perspectiva desse futuro encontro. E possível para pes-
soas imperfeitas como nós vivermos e morrermos no conhecimento
de que nossa culpa se foi e que o amor — o amor de Deus por nós
junto com nosso amor por ele —já estabeleceu uma comunhão
nlegrc que nada poderá destruir. Contudo, a modalidade do encon-
36 RELIGIÃO VIDA MANSA tro que nos introduz a esta grande graça muitas vezes tem
36
RELIGIÃO VIDA
MANSA
tro que nos introduz a esta grande graça muitas vezes tem inícios
traumáticos. Foi assim com Isaías, como logo veremos.
Quem pode afirmar que teve um encontro com Deus? Já não
são aqueles que decididamente negam sua realidade ou que negam
que ele possa ser conhecido, nem são aqueles que não vão além de
reconhecer que existe "alguém lá". A resposta simples é que encon-
tramos Deus como um Pai celeste amoroso ao reconhecermos seu
Filho, Jesus Cristo, como o Caminho, a Verdade e a Vida. Ficamos
conhecendo Deus, entrando num relacionamento de dependência
de Jesus como nosso Salvador e Amigo, ao mesmo tempo que en-
tramos num relacionamento de discipulado, com ele como nosso
Senhor e Mestre. Dar esta resposta nos obriga a dizer que ninguém
se encontra com Deus — portanto ninguém se encontra com Cristo
— enquanto a experiência crucial de Isaías não começar a tornar-se
uma realidade em sua vida. Sendo assim, Isaías 6 não tem só inte-
resse histórico, como relato de um grande homem sobre aquilo que
estabeleceu a direção em seu próprio ministério. A passagem é sig-
nificativa para todos. Seu conteúdo serve como lista de verificação
das percepções conscientes que indicam seja nos encontramos
mesmo com Deus ou se não nos encontramos. Precisamos entender
o que Isaías aprendeu através desta visão.
A visão lhe veio no templo. O que fazia ele ali? A resposta é
dada logo na primeira frase do primeiro versículo do capítulo 6: "No
ano da morte do rei Uzias". Uzias tinha sido rei por cinqüenta e dois
anos, mas agora, ou ele morrera há pouco, ou estava para morrer, e
foi um acontecimento traumático para a terra de Judá enfrentar. A
nação estava sob pressão política; inimigos poderosos, principal-
mente os assírios que apareciam de novo, viviam logo do outro lado
da fronteira. Era natural a ansiedade a respeito do futuro. Qualquer
tipo de trauma põe as pessoas para orar, e é natural supor que Isaías
estivesse no templo para orar sobre o futuro de seu povo.
O fato deste ser o capítulo 6 da profecia, e não o capítulo 1,
ENCONTRANDO-SE COM DEU S 37 onde Isaías nos diz que a palavra do Senhor lhe
ENCONTRANDO-SE
COM
DEU S
37
onde Isaías nos diz que a palavra do Senhor lhe veio durante o
reinado de Uzias, bem como nos reinados seguintes (veja 1.1), su-
gere que aqui eleja era um profeta ativo, e seu desejo de saber qual
deveria ser sua mensagem para o povo foi que o levou ao templo
nesta ocasião. Isso não se pode provar, mas parece provável, e
será aposição considerada naquilo que segue.
Uzias, como 2 Crônicas salienta (veja 26.8,15-16), tinha sido
um rei forte, sob quem Judá gozou de segurança e prosperidade.
Agora seu reino deveria passar para o filho Jotão, que tinha vinte e
poucos anos. Ninguém sabia que tipo de rei Jotão seria. Por esta
razão também todo Judá, inclusive Isaías, deve ter sentido ansieda-
de a respeito do bem-estar da nação, de forma que, quando Isaías
entrou no templo, era principalmente isso que estava em sua mente.
Mas Deus mostrou-se a Isaías de uma maneira que forçou o profeta
a pensar sobre si mesmo e seu relacionamento com Deus de uma
forma que nunca havia considerado antes.
Nós, também, vezes demais pensamos em Deus como simples-
mente presente para nos ajudar. Buscamos dons e forças de Deus
para enfrentar pressões externas, quando a verdadeira necessidade
é endireitar nosso relacionamento distorcido com ele. E misericór-
dia da parte de Deus quando ele abre brecha em nossas tentativas
de controlá-lo para nossos propósitos, e nos força a pôr as primei-
ras coisas em primeiro lugar. Mas tal misericórdia pode ter um as-
pecto assombroso, como Isaías descobriu.
Foi apresentada a Isaías uma visão da santidade de Deus. Ele
viu o Senhor no seu trono, conforme nos conta, e os anjos o ado-
rando enquanto flutuavam à frente do trono. Eles clamavam uns aos
outros: "Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos; toda a terra
está cheia de sua glória" (Is 6.3). O triplo "santo" é para uma ênfase
crescente, como a repetição na Bíblia sempre indica.
O que estava sendo comunicado a Isaías naquilo que ele viu e
ouviu? Se você procurar a palavra santo num dicionário de teolo-
38 RELIGIÃO VIDA MANSA gia, vai descobrir que em ambos os Testamentos é uma palavra
38
RELIGIÃO VIDA
MANSA
gia, vai descobrir que em ambos os Testamentos é uma palavra apli-
cada em primeiro lugar a Deus. Expressa tudo que o separa de nós,
que o faz diferente; tudo que o coloca acima de nós, que o faz ado-
rado e exaltado; e tudo que o coloca contra nós, que o faz objeto de
terror. O pensamento básico que a palavra contém diz respeito à
separação entre Deus e nós, e ao contraste entre o que ele é e o que
nós somos. Se você pensar na santidade como um círculo, envol-
vendo tudo a respeito de Deus que seja diferente do que nós so-
mos, o centro do círculo será a pureza moral e espiritual de Deus,
que se contrasta dolorosamente com nossa pecaminosidade
distorcida. Foi este exato contraste que Isaías percebeu.
Um hino infeliz (do Bispo Mant da Igreja Anglicana) começa
assim:
Com brilhante visão foi
agraciado
Certa vez o profeta de Judá;
Deliciando seu ouvido encantado,
Escutou a doce união de línguas lá.
Como se Isaías estivesse assistindo a um festival de música
country \ O fato é que Isaías achou a santidade de Deus difícil de
contemplar. Enfrentá-la convenceu-o de que não havia esperança
para ele por causa de seu pecado. Mas, enquanto isso, os anjos
celebraram a santidade de Deus no mais amplo sentido dessa pala-
vra, trazendo perante Isaías a consciência da "sabedoria infinita e
poder ilimitado" de Deus, assim como sua "tremenda pureza". (Cito
estas palavras do hino de Frederick W. Fáber, "Meu Deus, Quão
Maravilhoso és Tu".)
Focalize agora a santidade de Deus em seu sentido completo e
abrangente. Pense nela como você pensa na luz, um espectro de
qualidades distintas que, em combinação, constituem a santidade. A
narrativa de Isaías coloca-nos cinco realidades sobre Deus, numa
harmonização para a qual santidade é o nome adequado.
ENCONTRANDO-SE COM DEU S 39 Senhorio — ou, usando uma palavra que a teologia gosta,
ENCONTRANDO-SE
COM
DEU S
39
Senhorio — ou, usando uma palavra que a teologia gosta, sobe-
rania — é a primeira destas realidades. A Bíblia coloca isso em
poucas palavras: "O Senhor reina; Deus é Rei!" Isaías viu um sím-
bolo visual do senhorio: Deus sentado no trono. São mencionadas
como tendo visto este mesmo símbolo outras pessoas da Bíblia.
Ezequiel, por exemplo, viu o trono de Deus vindo de uma nuvem
com vento tempestuoso, com criaturas vivas atuando como um tipo
de carruagem animada para ele, e rodas girando, em todos os ângu-
los em relação umas com as outras, abaixo do assento, onde seria
esperado que estivessem as pernas do trono. Tanto as criaturas vi-
vas como as rodas eram emblemas de energia inesgotável; Deus no
trono é infinitamente e eternamente poderoso. Ezequiel nos conta
que o trono era enorme e estava muito acima dele, e que parecia
que uma figura como homem sentava-se nele (veja Ez 1). Também
o trono que Isaías viu era alto e grande; "as abas de suas vestes
(vestes de Deus) enchiam o templo", conforme nos conta (Is 6.1), e
o "santo lugar" do templo era de uns dezoito por nove metros, com
treze metros e meio de altura.
A visão de Deus como Rei, quer percebida visualmente ou só
com os olhos da mente, ocorre freqüentemente na Bíblia. Salmo
após salmo proclama que Deus reina. João viu "no céu um trono, e
no trono, alguém sentado " (Ap 4.2). E1 Rs 22 nos conta de Micaías,
o profeta que Acabe prendeu por tê-lo ameaçado com o juízo de
Deus. Por insistência de Josafá, Micaías foi trazido da prisão para
responder à pergunta que os dois reis juntos estavam fazendo: De-
veria Acabe, com ajuda de Josafá, tentar recapturar Ramote-Gileade
das mãos dos assírios? A cena à qual Micaías foi trazido era im-
pressionante: "O rei de Israel e Josafá, rei de Judá, estavam assen-
tados, cada um no seu trono, vestidos de trajes reais
e todos os
profetas [cerca de 400] profetizavam diante deles" (v. 10). Era uma
grande cerimônia. Sem dúvida houve uma multidão admiradora em
volta, a observar o que se passava. Micaías, contudo, não se intimi-
40 RELIGIÃO VIDA MANSA dou. Primeiro zombou de Acabe com uma imitação dos profetas da
40
RELIGIÃO VIDA
MANSA
dou. Primeiro zombou de Acabe com uma imitação dos profetas da
corte (v. 15); mas então lhe disse a pura verdade, que se ele fosse a
Ramote-Gileade iria morrer. O segredo da ousadia de Micaías está
no versículo 19, onde ele declara: "Vi o Senhor assentado no seu
trono" — foi por isso que Micaías não se intimidou quando viu Aca-
be e Josafá em seus tronos, no portão de Samaria. A visão de Deus
no trono do céu deixou claro quem estava no comando!
Esta percepção da providência soberana de Deus (pois é isso
na realidade) fortalece tremendamente! Fortaleceu a Micaías; forta-
leceu a João; sem dúvida fortaleceu a Isaías também. Saber que
nada acontece no mundo de Deus à parte da vontade de Deus pode
amedrontar os ímpios, mas estabiliza os santos. Garante-lhes que
Deus tem tudo preparado, e que tudo que acontece tem um signifi-
cado, quer o vejamos ounãoho momento. Pedro argumentou so-
bre a cruz desta maneira, no primeiro sermão evangelístico cristão,
pregado na manhã do dia de Pentecostes. "
sendo este [Jesus]
entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o
matastes, crucificando-o por mãos de iníquos" (At 2.23, itálicos
acrescentados). Vocês fizeram isso por sua livre e própria vontade,
diz Pedro. Vocês são culpados por terem feito isso, e precisam se
arrepender, mas não imaginem que isso aconteceu à parte da vonta-
de de Deus. Saber que Deus está no trono sustenta quem está sob
pressão, enfrentando confusão de espírito, dor, hostilidade e acon-
tecimentos que parecem não fazer sentido. E uma verdade que dá
sustentação aos crentes, e é o primeiro elemento ou ingrediente na
santidade de Deus.
Grandeza é o segundo elemento. A visão foi de Deus alto e
exaltado, com os serafins de seis asas pairando no ar perante ele,
em adoração. Note a postura deles; a descrição tem algo a nos
ensinar. As duas asas cobrindo a face de cada anjo — é um gesto
que expressa reverente contenção na presença de Deus. Não deve-
mos espreitar seus segredos. Devemos estar contentes em viver com
ENCONTRANDO-SE COM DEU S 41 o que ele nos contou. A reverência exclui especulação a
ENCONTRANDO-SE
COM
DEU S
41
o que ele nos contou. A reverência exclui especulação a respeito
das coisas que Deus não mencionou em sua Palavra. A resposta de
Agostinho ao homem que lhe perguntou: "O que Deus estava fazen-
do antes de fazer o mundo?" foi: "Estava fazendo o inferno para
pessoas que fazem perguntas assim"—um uso afiado de táticas de
choque para fazer o questionador ver a irreverência que está por
detrás de sua curiosidade. Uma das coisas atraentes (pelo menos
para mim) sobre João Calvino é ver como era sensível ao mistério
de Deus — isto é, à realidade do que não é revelado — e como
resistiu contra ir um passo adiante do que a Escritura diz. Ele e Agos-
tinho estão de acordo em nos garantir que devemos estar contentes
por não saber o que a Escritura não nos conta. Quando alcançamos
os limites máximos daquilo que a Escritura nos diz, é hora de parar
de discutir e começar a adorar. E o que nos ensina a face coberta do
anjo.
Duas asas também cobriam os pés de cada anjo. Isso expressa
o espírito de auto-anulação na presença de Deus, um outro aspecto
da verdadeira adoração. Adoradores genuínos querem se colocar
fora de cena, não chamar atenção para si próprios, de tal forma que
tudo possa se concentrar, sem distração, somente em Deus. Um
comunicador cristão tem que aprender que não pode apresentar a si
próprio como grande pregador e grande mestre se também quer
apresentar Deus como grande Deus e Cristo como grande Salva-
dor. Há aqui um efeito gangorra. Somente se a afirmação de nós
mesmos abaixar é que Deus será exaltado e se tornará grande no
nosso conceito. A humildade da autonegação perante Deus é o úni-
co modo de elevá-lo — é a lição que nos dão os pés cobertos do
anjo.
Outro aspecto da postura dos anjos era que cada um estava
pairando no ar com duas asas, como o beija-flor paira, pronto para
disparar para qualquer lado — para ir a Deus, para cumprir suas
tarefas, tão logo o comando fosse dado. Tal prontidão também per-
42 RELIGIÃO VIDA MANSA tence ao espírito da verdadeira adoração, adoração que reconhece o senhorio
42
RELIGIÃO VIDA
MANSA
tence ao espírito da verdadeira adoração, adoração que reconhece
o senhorio e a grandeza de Deus.
Nossa adoração, como a adoração dos anjos, deve incluir os
elementos da reverente contenção, da auto-anulação e da pronti-
dão para servir, pois, caso contrário, estaremos realmente diminuin-
do Deus, perdendo a visão de sua grandeza e diminuindo-o ao nos-
so nível. Precisamos nos examinar. Irreverência, auto-afirmação e
paralisia espiritual freqüentemente desfiguram nossa assim chamada
adoração. Precisamos recuperar o sentido da grandeza de Deus
que os anjos expressavam. Precisamos aprender com novo vigor
que a grandeza de Deus é o número dois no espectro de qualidades
que perfazem a santidade de Deus.
Proximidade, ou, em palavras mais teológicas, a onipresença
da sua manifestação, é o terceiro elemento da santidade de Deus.
"Toda a terra está cheia da sua glória" (Is 6.3). Glória significa a
presença de Deus manifesta de tal modo que sua natureza e poder
fiquem evidentes. Em parte nenhuma podemos escapar da presença
de Deus, e nós, como Isaías, precisamos contar com esse fato. Para
aqueles que amam estar na presença de Deus, é uma boa nova.
Mas é má notícia para aqueles que desejariam que Deus não pudes-
se ver o que fazem. O Salmo 139 celebra a proximidade de Deus e
seu conhecimento exaustivo de quem e como cada crente é. Finaliza
com um pedido para que Deus, o perscrutador dos corações, mos-
tre ao salmista qualquer pecado que haja nele, para que possa eliminá-
lo. "Sonda-me, ó Deus
Vê se há em mim algum caminho mau, e
guia-me pelo caminho eterno" (vv. 23-24). Nada passa desperce-
bido no que concerne a Deus. Todos os nossos "maus caminhos"
são evidentes para ele, por mais que possamos tentar escondê-los,
tratá-los com indiferença, ou nos esquecer deles. Este terceiro as-
pecto da santidade de Deus será uma verdade desconfortável para
aquele que não estiver disposto a orar a oração do salmista.
Pureza é a quarta qualidade que contribui para a santidade de
ENCONTRANDO-SE COM DEU S 43 Deus. "Tu és tão puro de olhos que não podes
ENCONTRANDO-SE
COM
DEU S
43
Deus. "Tu és tão puro de olhos que não podes ver o mal, e a opres-
são não podes contemplar", diz Habacuque para Deus (1.13). A
maioria das pessoas pensa primeiro na pureza quando ouve a res-
peito da santidade de Deus. O que foi dito antes sobre a pureza
como o centro do círculo mostra que eles estão certos em pensar
assim. Isaías percebeu esta pureza sem que nenhuma palavra fosse
dita. O sentimento de ser impuro e desqualificado para a comunhão
com Deus o inundou. "Ai de mim!", Isaías gritou, "Estou perdido!
porque sou homem de lábios impuros, habito no meio dum povo de
impuros lábios e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exérci-
tos!" (Is 6.5). Assim como o pecado é rebelião contra a autoridade
divina e culpa diante de Deus como doador da lei e juiz, assim é
também impureza em relação à pureza de Deus. E, assim como
Isaías sentiu-se impuro perante Deus quando reconheceu seu peca-
do, assim também se sentirá toda pessoa centrada em Deus. Sentir-
se
contaminado diante de Deus não é, absolutamente, um sentimen-
to
mórbido, neurótico ou doentio. É natural, realista, sadio e uma
verdadeira percepção de nossa condição. Somos pecadores de fato.
E sabedoria nossa admiti-lo.
"Sou um homem de lábios impuros", diz Isaías. Ele está pen-
sando nos pecados específicos da fala. A Bíblia tem muito a dizer a
respeito de tais pecados, pois eles refletem o que está no coração
da pessoa. "A boca fala do que está cheio o coração" (Lc 6.45).
Podemos usar o dom divino da fala para expressar malícia e humi-
lhar os outros. Algumas pessoas fofocam (uma prática que tem sido
definida como sendo a arte de confessar os pecados de outras pes-
soas). Outras enganam, exploram e traem pessoas com fala macia e
com mentiras. Nós barateamos a vida através de conversas vergo-
nhosas, obscenas, baixas; arruinamos relacionamentos com bate-
papos impensados e irresponsáveis. Quando Isaías fala de lábios
impuros, ele diz algo que nos toca a todos.
Talvez haj a também uma referência, nestas palavras, ao minis-
44 RELIGIÃO VIDA MANSA tério profético de Isaías. Talvez, ao entregar as mensagens de Deus,
44
RELIGIÃO VIDA
MANSA
tério profético de Isaías. Talvez, ao entregar as mensagens de Deus,
ele tivesse estado mais preocupado com sua reputação como pre-
gador do que em glorificar a Deus. Infelizmente esta atitude — e a
degradação que ela engendra — ainda existe. Os comunicadores
cristãos com motivos duvidosos têm lábios impuros.
"Habito no meio de um povo de impuros lábios", continua Isaías.
Presumivelmente ele está reconhecendo que andou com a multidão,
formando seu tipo a partir deles, falando como eles falavam, sendo
obsceno com outros que eram obscenos, e tendo sido desviado
pelos seus maus exemplos. Mas ele não oferece isto como descul-
pa. Fazer o que outros fazem quando, lá no fundo, sabemos que é
errado, é covardia moral, o que não diminui a culpa; ao contrário,
aumenta-a. A conformidade de Isaías com os modos impuros da
sociedade que o cercava tornava sua culpa maior. Talvez, como
profeta e pregador, ele, até este ponto, pensasse em si mesmo como
estando em uma categoria diferente daquela dos companheiros ju-
deus, como se o simples fato de denunciar os pecados deles o ex-
cluísse de culpa quando ele mesmo se comportava do mesmo modo.
Agora entendeu. Pela primeira vez, quem sabe, ele se viu como o
conformista hipócrita que ele realmente era, e expressou sua vergo-
nha. A pureza de Deus tinha feito dele um realista moral.
O quinto elemento da santidade de Deus é a misericórdia—a
misericórdia purificadora, que Isaías experimentou quando confes-
sou seu pecado e este foi expurgado. Voou até ele um serafim envi-
ado por Deus para tocar seus lábios com um carvão em brasa do
altar, e para trazer-lhe a mensagem de Deus: "Eis que [a brasa]
tocou os teus lábios; a tua iniqüidade foi tirada, e perdoado o teu
pecado" (Is 6.7). O altar era um lugar de sacrifício. O carvão em
brasa representa a aplicação do sacrifício — em termos da nova
aliança, a aplicação do sangue derramado de Jesus Cristo à consci-
ência culpada. A aplicação inicial é ao lugar da culpa consciente.
Isaías sentia mais agudamente seus pecados da fala; portanto seus
ENCONTRANDO-SE COM DEU S 45 lábios foram tocados. Mas, assim como a verdadeira convicção do
ENCONTRANDO-SE
COM
DEU S
45
lábios foram tocados. Mas, assim como a verdadeira convicção do
pecado é a convicção do pecado em geral, bem como daquele erro
em particular, assim também as palavras do anjo significavam que
todo pecado de Isaías — o conhecido e o desconhecido — estava
"perdoado" (literalmente, removido da frente dos olhos de Deus).
A iniciativa aqui foi de Deus, como é sempre quando as pessoas
chegam a conhecer sua graça. Foi P. T. Forsyth quem costumava
insistir que a noção mais simples, verdadeira e profunda da natureza
de Deus é o amor santo, a misericórdia que nos salva de nosso
pecado, não ignorando-o, mas julgando-o na pessoa de Jesus Cris-
to, ejustificando-nos assimjustamente. Isaías sem dúvida teria con-
cordado.
A igreja e a sociedade, hoje em dia, estão ajogar jogos. Não
reconhecemos a verdadeira natureza de Deus. Não o encontramos
e tratamos com ele conforme ele é. Mesmo os obreiros cristãos, os
que trabalham por Cristo, podem não entender bem, ou podem
perder contato com a santidade de Deus, como parece que Isaías
fez há tanto tempo
Quando isto acontece, nós também temos que
passar pelo ajustamento traumático que a experiência do templo
causou a Isaías. Lendo a história do ponto de vista de Isaías, nós o
vemos cometendo nada menos do que quatro erros. Note-os: pois
poderão ser os seus, também.
O erro número um, cometido quando ele entrou no templo, foi
o de pensar em Deus como domesticável — estando ali para ser
dirigido, controlado, chamado à ação a pedido de Isaías, como o
gênio da lâmpada maravilhosa de Aladim. Ejusto supor que Deus
deu a Isaías a visão da adoração angélica porque ele precisava apren-
der a adorar. Alguém para quem Deus é como Papai Noel que está
ali só para dar presentes; ou como uma apólice de seguros, ou como
uma rede de segurança que está ali só para impedir que a pessoa se
machuque demais, ainda precisa aprender a adorar. Isaías, supõe-
se, teria ido ao templo para orar, do modo como muitos fazem hoje:
46 RELIGIÃO VIDA MANSA "Deus, precisamos de ti de novo para ser aquela rede de
46
RELIGIÃO VIDA
MANSA
"Deus, precisamos de ti de novo para ser aquela rede de segurança
para nós. Tudo bem?" Para uma deidade domesticável que não fi-
zesse exigências às pessoas, poderia fazer sentido falarmos assim:
"Minha vontade seja feita"; mas Isaías teve que aprender que não
faz sentido falar desse modo com o Deus poderoso de Israel.
O erro número dois foi pensar que ele era aceito — que, como
profeta, não poderia haver nenhum problema em seu próprio rela-
cionamento pessoal com Deus. Ele, afinal de contas, era um jovem
notável, bem nascido, e muito bem dotado, num país que estava em
aliança oficial com Deus. Ele era também inclinado para a religião,
um adorador costumeiro no templo e envolvido em ministério. Será
que ele não estava fazendo um favor a Deus, buscando desta ma-
neira os interesses religiosos dele? Que problema poderia ter Deus
com ele? Muitos cm nossa sociedade pensam em termos semelhan-
tes. Eles acreditam que estão fazendo um favor a Deus ao interes-
sar-se por cie, num mundo onde tão poucos se interessam. Eles
esperam assim tomar-se uma elite espiritual que possa contar com o
favor de Deus. Isaías precisou aprender que algo precisava lhe acon-
tecer antes que ele pudesse ser aceito na comunhão e no favor de
Deus. Nós precisamos aprender a mesma lição hoje.
O erro número três foi Isaías pensar, quando percebeu um pou-
co da santidade de Deus, que, não somente ele estava fora da esfe-
ra da amizade de Deus por causa de seu pecado (o que era verda-
de), mas que estava eternamente perdido. "Ai de mim! Estou perdi-
do!" Descobrindo que sua suposta santidade era como trapos imun-
dos, ficou desesperado. Mas, novamente, estava errado; havia mi-
sericórdia para ele. Por grande que fosse seu pecado (não há peca-
dos pequenos contra um grande Deus), a graça de Deus era maior.
Deus limpou seu pecado, tanto aquele de que ele tinha consciência
na época quanto aquele que ele passaria o resto da vida descobrin-
do. Do mesmo modo, para o cristão, todo pecado, conhecido e
desconhecido, todos os atos e hábitos de pecado, e todas as rami-
ENCONTRANDO-SE COM DEU S 47 ficações da pecaminosidade em nosso sistema espiritual são per- doados
ENCONTRANDO-SE
COM
DEU S
47
ficações da pecaminosidade em nosso sistema espiritual são per-
doados pela morte de nosso Senhor Jesus Cristo. O amor sagrado
vence o poder que o pecado tem de condenar e arruinar nossas
almas. Isaías reconheceu o que tinha acontecido com ele. Sua atitu-
de mudou enquanto sua consciência foi purificada. Em gratidão e
alegria, ele se ofereceu como voluntário para seguir a Deus como
faziam os anjos, e como, de fato, o anjo que lhe trouxe a palavra de
perdão havia feito. Todos que se reconhecem como sendo pecado-
res perdoados, pessoas a quem a graça de Deus encontrou quando
elas se acreditaram perdidas, sentem a mesma gratidão, e o rogo de
Isaías "Eis-me aqui, envia-me a mim" vai ecoar em seus corações.
Mas agora aparece a quarta possibilidade de erro.
O quarto erro de Isaías foi de contar com o sucesso no serviço
de Deus. Ele conhecia, suponho eu, a grandeza de seu dom natural
de eloqüência. Ele entendia um pouco do poder de sua posição
como jovem que começava a aparecer na alta sociedade de Israel.
Sem dúvida ele presumiu que quando ele reassumisse sua posição
de influência—um novo homem, com uma nova alegria, caminhan-
do no poder de uma nova experiência de Deus — ele seria notado
e admirado e seu ministério daria muito fruto.
Eu chego à conclusão de que Isaías estava pensando nestes
termos porque as primeiras palavras divinas para ele depois de seu
voluntariado foram uma advertência de que a missão para a qual
Deus o estava enviando absolutamente não seria nada de chamar
atenção pelo sucesso. Deus disse: "Vai e dize a este povo: 'Ouvi,
ouvi e não entendais
Torna insensível o coração deste povo; en-
durece-lhes os ouvidos e fecha-lhes os olhos' " (6.9-10). Há triste-
za divina e ironia divina aqui. Deus não tem prazer na morte dos
ímpios, e a tarefa para a qual ele estava designando Isaías era para
chamar de volta a si os israelitas. Mas Deus já estava advertindo
Isaías de que sua mensagem seria rejeitada, a tal ponto que o efeito
de seu ministério seria deixar as pessoas menos sensíveis às coisas
48 RELIGIÃO VIDA MANSA espirituais do que antes (pois os corações sempre ficam calejados quando
48
RELIGIÃO VIDA
MANSA
espirituais do que antes (pois os corações sempre ficam calejados
quando dizem não a Deus). Da mesma forma, nós que falamos por
Cristo hoje precisamos estar preparados para descobrir que o que
falamos é desconsiderado, e que trabalhamos com pequeno ou ne-
nhum sucesso visível. Como Isaías, somos chamados a ser fiéis, e
não necessariamente a ser frutíferos. A fidelidade é nosso negócio; a
frutificação é uma questão que devemos estar contentes de deixar
com Deus. A Palavra de Deus não voltará para ele completamente
vazia, sabemos disso, mas precisamos estar dispostos a nós mes-
mos não vermos os frutos, pelo menos não imediatamente. O su-
cesso visível na forma de resultados instantâneos não é garantido no
ministério cristão, nem para você nem para mim.
Qual a conclusão deste assunto? Primeiro, por ser Deus santo,
ninguém jamais poderá ter comunhão com ele a não ser com base
na propiciação que o próprio Deus provê e aplica. Segundo, nin-
guém falará por Deus como deve, senão a partir de uma consciência
pessoal da santidade de Deus, do peso de seus próprios pecados,
da realidade objetiva da propiciação de Cristo, e da ação graciosa
de Deus em trazer as pessoas para a fé e assegurar-lhes o perdão.
Terceiro, ninguém deverá presumir que é porque seu coração ou
mensagem ou ministério não está como deveria estar que no mo-
mento ele não esteja vendo nenhum sucesso. Tal situação é uma
chamada para voltar a Deus e perguntar-lhe se alguma coisa está
errada (e alguma coisa pode estar). Mas a falta de sucesso presente
não significa necessariamente que alguma coisa em particular esteja
errada. O caminho correto poderá ser simplesmente perseverar em
fidelidade, aguardando que chegue a hora de Deus abençoar. Quar-
to, a adoração pessoal — o louvor e a devoção — precisam ser o
esteio principal da vida e do ministério cristão. Esses pensamentos
são preciosos para mim. Eles fazem com que eu não pare de orar, e
portanto me incentivam a ir em frente. Espero que sejam preciosos
para você também, e que funcionem da mesmíssima maneira.
4 A Religião da Banheira Quente Em Direção a uma Teologia do Prazer V-/ua l
4
A Religião da Banheira Quente
Em Direção a uma Teologia do Prazer
V-/ua l o símbolo que você acharia apropriado para representar a
cultura ocidental moderna? Um hambúrguer? Um aparelho de som?
Um carro? Um avião? Uma TV? Um computador? Minha escolha é
a banheira quente. Por quê? Porque uma banheira quente é tão
divertida! Relaxar-se com companhia, numa água a 36° C, com ja-
tos de ar concentrados na gente, é uma das mais encantadoras ex-
periências da vida. Banhos turcos e saunas são para sua saúde, mas
você se senta numa banheira quente por nenhuma outra razão que a
de saborear um modo totalmente delicioso de soltar-se e passar o
tempo. É por isso que eu a uso quando tenho oportunidade (talvez a
cada dois ou três anos). Assim como a imagem do cão olhando
para o tubo de som nas etiquetas daqueles discos antigos transmite
a idéia do fascinado deleite com aquilo que está sendo ouvido, as-
sim também o emblema da banheira quente expressa perfeitamente
a paixão obsessiva do mundo moderno em encontrar formas agra-
dáveis de se relaxar. Nossos antepassados descansavam para estar
prontos para trabalhar; nós trabalhamos para estar livres para des-
cansar. Dedicamos uma inventividade sem fim em encontrar novos
meios para nos divertir e ficar contentes. Férias, feriados, viagens,
50 RELIGIÃO VIDA MANSA esportes, diversão pública, artes de lazer, tudo que a banheira quen-
50
RELIGIÃO VIDA
MANSA
esportes, diversão pública, artes de lazer, tudo que a banheira quen-
te representa, de um modo ou de outro, são as coisas que nossa era
materialista presume que definam a vida.
Isto tem conseqüências perturbadoras para a cristandade oci-
dental. O hedonismo (a síndrome da busca do prazer) distorce a
santidade, e o hedonismo hoje exerce uma influência férrea sobre
nossas prioridades. Será que estamos em perigo de perder contato
com a essência moral do discipulado cristão? Talvez. Minha primei-
ra experiência da doçura da banheira quente impeliu-me a pensar
nisto, o que resultou em eu ter escrito o artigo seguinte.
A Visão a Partir de Uma Banheira Quente
Outro dia, eu fui um de toda uma turma que passou a maior
parte de uma chuvosa tarde de sábado numa banheira quen-
te. Meus estudantes tutelados, que formavam a turma, ti-
nham me aconselhado a experimentá-la. Você vai gostar,
eles diziam. Antes disso, eu tinha pensado em banheiras
quentes como reservadas para hedonistas em Hollywood,
ou sibaritas em San Francisco, mas agora sei que, sob cer-
tas circunstâncias, membros da faculdade de ensino do
Regent College também podem usá-las. Todos os dias,
parece, aprendemos algo novo.
Enquanto me sentava lá, fazendo piadinhas e ajustan-
do-me à emoção de ser envolvido por bolhas de todos os
ângulos, ocorreu-me que a banheira quente é o símbolo
perfeito do caminho moderno da religião. A experiência da
banheira quente é deliciosa, relaxante, preguiçosa,
despreocupante. De nenhum modo é exigente, seja inte-
lectualmente ou não, e é muito, muito agradável, até o pon-
to de ser divertida (especialmente com um grupo de tute-
lados como o meu). Muitos hoje querem que o Cristianis-
A RELIGIÃO DA BANHEIRA QUENTE 51 mo seja assim, e trabalham para isso. O último
A
RELIGIÃO
DA
BANHEIRA
QUENTE
51
mo seja assim, e trabalham para isso. O último passo, é
claro, seria tirar os assentos dos auditórios das igrejas e
instalar banheiras quentes em seu lugar; então nunca have-
ria problemas de freqüência. Enquanto isso, muitas igrejas,
muitos evangelistas e muitos religiosos eletrônicos já estão
oferecendo ocasiões que são planejadas para nos levar a
sentir que só perdem para uma banheira quente — isto é,
são reuniões felizes e descuidadas, momentos verdadeira-
mente divertidos para todos. A felicidade tem sido definida
como um bichinho de estimação bem quentinho. Este tipo
de religião projeta a felicidade na forma de calorosas boas
vindas a todos os que se sintonizam ou aparecem ali; um
coral quente, com um balanço chegado; na oração e na
pregação, um uso cálido de palavras que acariciam nossas
costas; e um encerramento caloroso e encorajador (pró-
prio de uma banheira quente). Para a pergunta "Onde está
Deus?", a resposta que estas ocasiões normalmente proje-
tam (não importa o que é dito) é a seguinte: está no bolso
do pregador. Agradável, com certeza. Mas, isso é fé? ado-
ração? servir a Deus? Será que piedade é o nome verda-
deiro deste jogo?
Enquanto eu continuava na banheira quente, espregui-
çando-me desinibidamente, vi por que a religião popular
desse grupo cromado do qual eu estou falando ganhou tanto
controle. A vida moderna nos pressiona. Somos estimula-
dos até ficarmos aturdidos. Os relacionamentos são frá-
geis; os casamentos se rompem, famílias se separam; os
negócios são uma corrida exaustiva sem fim, e aqueles que
não estão no topo sentem-se como peças da máquina de
outra pessoa. A automação e a tecnologia da computação
tomaram a vida mais rápida e mais tensa, já que não temos
mais que fazer os trabalhos rotineiros que consumiam mui-
52 RELIGIÃO VIDA MANSA to tempo, e nos quais nossos avós costumavam relaxar suas mentes.
52
RELIGIÃO VIDA
MANSA
to tempo, e nos quais nossos avós costumavam relaxar suas
mentes. Temos que correr muito mais rapidamente do que
qualquer geração anterior, simplesmente para ficar onde
estamos. Não é surpresa, então, que quando o homem
ocidental moderno se volta para a religião (se ele se volta
— muitos não o fazem), o que ele quer é um total relaxa-
mento estimulante, ser a uma só vez confortado, sustenta-
do e revigorado sem esforço: em poucas palavras, Lima
religião de banheira quente. Ele pede isso, e as pessoas se
apressam em supri-la. O que a religião da banheira quente
ilustra mais claramente é a lei da procura e oferta.
O que, então, devemos dizer sobre a religião da ba-
nheira quente? Certamente um ritmo de vida que inclua
descanso é correto; o quarto mandamento mostra isso.
Alternar trabalho árduo com tempos de divertimento tam-
bém é certo — "Só trabalhar e nada de brincar tornam o
João um menino sem graça", e Jesus foi a banquetes, os
divertimentos do mundo antigo, com tanta freqüência que
foi chamado de glutão e beberrão. Desfrutar de nossos
corpos enquanto podemos, em oposição a desprezá-los
(que na melhor das hipóteses é platonismo, na pior,
maniqueísmo, e um conceito superespiritual em ambas) já
é parte da disciplina da gratidão para com nosso Criador.
E exuberancias desinibidas como bater palmas, dançar,
gritar louvores e clamar na oração podem ser aprovadas
também, desde que, através disso, não façamos os outros
tropeçar. Sem estes fatores da banheira quente, como po-
demos chamá-los, nosso cristianismo seria menos piedoso
e menos vivo, pois seria menos humano. Mas, se não hou-
vesse mais em nosso cristianismo do que os fatores da ba-
nheira quente — isto é, se abraçássemos um hedonismo de
relaxamento e sentimentos felizes, evitando tarefas difíceis,
A RELIGIÃO DA BANHEIRA QUENTE 53 posições impopulares e relacionamentos exaustivos—per- deríamos a
A
RELIGIÃO
DA
BANHEIRA
QUENTE
53
posições impopulares e relacionamentos exaustivos—per-
deríamos a centralização bíblica em Deus e a vida de car-
regar a cruz para a qual Jesus nos chama, e anunciaríamos
ao mundo nada mais do que nossa própria decadência.
Com a ajuda de Deus, contudo, não vamos concordar com
esse pouco.
E eu poderia viver sem jamais ver uma banheira
quen-
te de novo — mas espero não ter que fazer isso
O que eu estava expressando nesse artigo pode ser fixado em
três propostas:
1. A religião da banheira quente é quase correta. Concorda-
mos que ela seja psicologicamente errada, pois a verdade parado-
xal é que buscar o prazer, o conforto e a felicidade é garantir que
você nunca chegará a nada disso. No nível espiritual, como no nível
natural, estes estados subjetivos tornam-se realidades do coração
somente como subprodutos que vêm de se enfocar uma outra coisa,
alguma coisa vista como sendo valiosa, revigorante e imperiosa. As
sementes da felicidade, como se tem dito com verdade, crescem
mais fortes no solo do serviço. Muitas vezes, a "outra coisa" que
ganha nossa lealdade é outra pessoa, uma pessoa em vez de um
conceito abstrato. Esse é o caso especialmente quando se trata de
felicidade espiritual. Esta felicidade vem de deliciar-se no conheci-
mento do amor redentor do Pai e do Filho, e de demonstrar uma
gratidão ativa e leal para com ele. Você ama a Deus e acha-se feliz.
Suas tentativas ativas de agradar a Deus afunilam os prazeres de sua
paz para dentro de seu coração. É assim que acontece. Contudo, a
religião da banheira quente toca numa verdade profunda e doce da
teologia quando ela destaca o fato de que o deleite verdadeiro é
parte integral da verdadeira piedade.
Precisamos enfatizar a herança cristã da alegria. A incredulida-

54

RELIGIÃO VIDA

MANSA

de nos faz temer que Deus seja um supervisor duro e inamistoso que se ressentirá de nosso prazer, e requererá que façamos coisas que não queremos fazer e nas quais não podemos encontrar deleite. A Escritura, contudo, nos mostra que o oposto é verdadeiro. "Ale-

grar-me-ei e exultarei em ti" (SI 9.2). "Na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra delícias perpetuamente." (SI 16.11). "Na torrente das tuas delícias lhes dás de beber" (SI 36.8). "Deus que é

a minha alegria" (SI 43.4). "Porque o reino de Deus

paz e alegria no Espírito Santo." (Rm 14.17). "E o Deus da espe- rança vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer." (Rm 15.13). Um maravilhoso e despretensioso hino do velho calvinista Isaac Watts, o compositor do puritanismo, expressa o sentimento cristão de gozo exultante com tremendo entusiasmo:

(é) justiça e

Venhamos, nós que amamos o Senhor, que se conheçam nossas alegrias; Juntemo-nos com doce concordância Cantando em volta ao trono as melodias.

Em nossa mente, as coisas que entristecem Sejam afastadas do lugar, Pois a religião não foi proposta

A fim de diminuir nosso alegrar.

Que se recuse a cantar quem queira, Quem nunca conheceu o nosso Deus, Mas possam externar suas alegrias, Os filhos do grandioso Rei dos céus.

O Rei tremendo que governa excelso,

Que troveja quando lhe apraz,

Que cavalga no céu tempestuoso

E comanda os mares — tudo faz —

A RELIGIÃO DA BANHEIRA QUENTE 55 Tremendo [e temível] é o Deus nosso, Nosso Pai,
A
RELIGIÃO
DA BANHEIRA
QUENTE
55
Tremendo [e temível] é o Deus nosso,
Nosso Pai, e nosso amor, que há
De enviar poderes a seu mando
Para nos buscar ao céu onde ele está.
Lá veremos sua face em luz,
E nunca, nunca mais nós pecaremos;
Lá, dos rios de sua graça imensa,
Prazeres tantos a beber nós temos.
Os filhos desta Graça descobriram
Que a glória começa aqui no chão;
Pois frutos celestiais em solo Terra
Da fé e da esperança crescerão.
A colina da Sião terrena
Produz delícias mil, boas e sagradas
Antes que alcancemos campos elísios
Ou que andemos pelas ruas douradas.
Então que nossos cânticos ressoem,
E cada lágrima se enxugue já!
Por terras de Emanuel marchamos
Aos mundos lindos que Deus nos dará.
Amém! Watts está certo. O Cristianismo, que alguns crêem pro-
duzir melancolia, na realidade a espanta. O pecado traz tristeza,
mas a piedade produz prazer. A religião da banheira quente tem um
instinto verdadeiro em seu centro.
E triste descobrir que nem o Dicionário Evangélico de Teolo-
gia, o EDT (1984) nem qualquer outro dicionário de teologia que
eu conheça tem qualquer registro sob o verbete "prazer". Seus arti-
gos sobre alegria não deixam de fazer, por vezes, alguma referência
perspicaz ao prazer; veja esta, por exemplo, do EDT:
56 RELIGIÃO VIDA MANSA Alegria. Um deleite na vida que é maisprofundo do que a
56
RELIGIÃO VIDA
MANSA
Alegria. Um deleite na vida que é maisprofundo do
que a dor ou o prazer
não limitado por, nem ligado
exclusivamente às circunstâncias externas
um dom de
Deus
uma qualidade de vida e não simplesmente uma
emoção transitória
A plenitude da alegria vem quando
há um sentir profundo da presença de Deus na vida da
pessoa
Jesus deixou claro que a alegria é inseparavelmente
ligada ao amor e à obediência (Jo 15.9-14)
Pode tam-
bém haver alegria no sofrimento ou na fraqueza quando o
sofrimento é visto como tendo um propósito redentor e a
fraqueza como trazendo a pessoa a uma total dependência
de Deus
(Mt
5.12; 2 Co 12.9). 1
Que a alegria é mais profunda do que o prazer e não dependen-
te dele é a primeira coisa que precisa ser dita. Enquanto não se
estabelecer isso, a discussão a respeito do prazer na vida cristã será
prematura. Mas, uma vez estabelecido que a alegria não depende
do prazer, então uma teologia positiva do prazer torna-se possível.
E tal teologia é necessária se vamos falar a uma geração que apren-
deu de Freud (para não mencionar o autoconhecimento pessoal)
que o "princípio do prazer" é um dos mais fortes motivadores da
vida.
Como seria formulada uma teologia do prazer? Conteria pelo
menos estes pontos:
O prazer é (cito o dicionário Webster) "a gratificação dos sen-
tidos ou da mente; sensações ou emoções agradáveis; o sentimento
produzido pelo gozo ou expectativa do bem". O prazer, como a
alegria, é dom de Deus, mas, enquanto que a alegria é ativa (alguém
se alegra), o prazer é passivo (alguém é agradado). Prazeres são
sentimentos, ou de estímulo ou de tensões liberadas e descontraídas
1 Walter A. Elwell, ed., Evangelical Dictionary ofTheology (Grand Rapids:
Baker Book House, 1984), 588, ênfase acrescentada.
A RELIGIÃO DA BANHEIRA QUENTE 57 no corpo, ou então da percepção, lembrança ou reconhecimento
A
RELIGIÃO
DA
BANHEIRA
QUENTE
57
no corpo, ou então da percepção, lembrança ou reconhecimento na
mente.
O prazer é parte da condição humana ideal. O estado de Adão
era todo de prazer, antes de ele pecar (o Éden, o jardim de prazer
de Deus, do qual Adão foi expulso, tipifica isso), e quando nossa
redenção estiver completa, o prazer, total e constante, se terá torna-
do nosso estado para sempre. "Jamais terão fome, nunca mais terão
sede, não cairá sobre eles o sol, nem ardor algum
o Cordeiro
os
guiará para as fontes da água da vida. E Deus lhes enxugará dos
olhos toda lágrima" (Ap 7.16-17s.). Assim como Deus nos fez
para o prazer, ele nos redime para o prazer — o nosso, bem como
o dele. Um personagem de C. S. Lewis, que é Screwtape, o tenta-
dor principal, queixa-se de Deus, com toda a razão do ponto de
vista dele, nestes termos:
Ele é um hedonista de coração. Todos aqueles jejuns e
vigílias e postes e cruzes são somente uma fachada. Ou são
somente como espuma na praia. Lano mar, no seu mar, há
prazer e mais prazer. Ele não faz segredo disso; à sua mão
direita há prazeres para sempre, "delícias perpetuamente".
Ufa! 2
O prazer (gozo consciente) não tem qualidade moral intrínseca.
O que toma os prazeres certos, bons e valiosos, ou errados, maus e
pecaminosos, é o que os acompanha. Olhe para a motivação e re-
sultado de seus prazeres. Quanto você corre atrás deles? Que tipo
de comportamento eles produzem? Qual é sua resposta a eles quando
vêm? Se o prazer vem sem que o busquemos, ou se é uma agrade-
cida aceitação de um presente providencialmente colocado à nossa
frente, e se o prazer não causa dano a nós ou a outros, e se o gozo
2 The Screwtape Letters (Cartas do Inferno) Londres: Geoffrey Bles, 1942,
p.
112.
58 RELIGIÃO VIDA MANSA dele leva prontamente a dar graças a Deus, então é santo.
58
RELIGIÃO VIDA
MANSA
dele leva prontamente a dar graças a Deus, então é santo. Mas, se
um prazer é um gesto de auto-indulgência, agradando a própria pes-
soa sem a preocupação dela saber se agrada a Deus, então, quer
seja ou não a ação em si extravagante ou injuriosa, é um tombo na
armadilha daquilo que a Bíblia vê como prazeres do mundo e do
pecado
(Lc 8.14; Hb 11.25; cf. Is 58.13; lT m 5.6; 2Tm 3.4;Tt 3.3;
Tg 4.3; 5.5; 2Pe 2.13). A mesma experiência agradável — comer,
beber, fazer amor, jogarjogos, ouvir música, banhar-se na banheira
quente, ou qualquer outra — será boa ou má, santa ou profana,
dependendo de como é conduzida.
Na ordem da criação, os prazeres existem como ponteiros que
apontam para Deus. A busca do prazer, como tal, mais cedo ou
mais tarde traz enfado e repulsa (Ec 2.1-11). Contudo, temos, na
mesma autoridade, que "Nada há melhor para o homem do que
comer, beber e fazer que a sua alma goze o bem do seu trabalho.
No entanto, vi também que isto vem da mão de Deus, pois, separa-
do deste, quem pode comer, ou quem pode alegrar-se?" (v. 24s.).
"Então exaltei eu a alegria" (8.15, cf. 9.9). Um rabino judeu sugeriu
que, no Dia do Juízo Final, Deus exigiria contas de nós por negligen-
ciarmos os prazeres que ele proveu. Professores cristãos têm insis-
tido corretamente que o desdém pelo prazer, longe de demonstrar
uma superioridade espiritual, é na realidade a heresia do maniqueísmo
e o pecado do orgulho. O prazer é divinamente designado para
levantar nossa percepção da bondade de Deus, aprofundar nossa
gratidão a ele, e fortalecer nossa esperança de prazeres ainda mais
ricos que nos virão no mundo além. O austero moralista anglo-cató-
lico C. S. Lewis declara que, no céu, os mais altos arrebatamentos
de amantes terrenos serão como leite e água comparados às delí-
cias de conhecer a Deus. Quando recebidos neste espírito, todos os
prazeres são santificados e realmente incrementados.
A religião da banheira quente busca tudo isto e com razão. In-
A RELIGIÃO DA BANHEIRA QUENTE 59 felizmente, entretanto, algumas vezes sustenta a ponta errada do
A
RELIGIÃO
DA
BANHEIRA
QUENTE
59
felizmente, entretanto, algumas vezes sustenta a ponta errada do bas-
tão com resultados desastrosos, como veremos agora.
2. A religião da banheira quente é radicalmente errada. Por
quê? Porque expressa tanto o egocentrismo, pelo qual um indivíduo
recusa negar a si próprio, como também o eudemonismo, pelo qual
a pessoa rejeita o programa disciplinar de Deus para si mesmo.
Assim, toma-se duplamente irreligioso.
Por egocentrismo, refiro-me à essência da imagem de Satanás
na humanidade decaída. Isto pode ser descrito como a relutância
em se enxergar como existindo para o prazer do Criador e, ao con-
trário, a disposição de se estabelecer como centro de todas as coi-
sas. A busca pelo prazer próprio em qualquer uma de suas modali-
dades é a regra e a força motriz da vida egocêntrica. Orgulho é o
nome cristão clássico para esta síndrome de auto-afirmação e auto-
adoração, da qual o moto implícito é "seja feita minha vontade".
Embora o orgulho egocêntrico possa adotar a forma de Cristianis-
mo, corrompe a substância e o espírito do Cristianismo. Tenta ma-
nipular Deus e controlá-lo para seus próprios objetivos. Isso, como
já indicado, reduz a religião à mágica, tratando o Deus que nos fez
como se ele fosse o nosso mordomo pessoal ou o gênio da lâmpada
de nosso Aladim. O teocentrismo — que repudia o egocentrismo,
reconhecendo que, no sentido fundamental, nós existimos para Deus
e não ele páranos, e então adorando-o convenientemente — é bá-
sico para a verdadeira piedade. Sem esta mudança radical, da cen-
tralização em si próprio para a centralização em Deus, qualquer mostra
de religião é falsa em maior ou menor grau.
Jesus Cristo exige abnegação, isto é, autonegação (Mt 16.24;
Mc 8.34; Lc 9.23) como uma condição necessária do discipulado.
A abnegação é um chamado para a pessoa se submeter à autorida-
de de Deus como Pai, e de Jesus Cristo como Senhor, e para decla-
60 RELIGIÃO VIDA MANSA rar guerra vitalícia contra o egoísmo instintivo. O que deve ser
60
RELIGIÃO VIDA
MANSA
rar guerra vitalícia contra o egoísmo instintivo. O que deve ser nega-
do não é o eu pessoal ou a existência da pessoa como ser humano
racional e responsável. Jesus não planeja transformar-nos em autô-
matos, nem nos pede para sermos voluntários para o papel de robô.
A negação requerida é do eu carnal, do impulso egocêntrico, auto-
deificante com o qual nascemos, e que nos domina tão ruinosamen-
te em nosso estado natural.
Jesus une a negação de si ao levar a cruz. Levar a cruz é muito
mais do que suportar esta ou aquela aflição. Carregar sua cruz nos
dias de Jesus, como aprendemos da própria história da crucificação
de Jesus, era requerido daqueles a quem a sociedade havia conde-
nado, cujos direitos haviam sido suspensos, e que agora estavam
sendo conduzidos para sua execução. A cruz que carregavam era o
instrumento da morte. Jesus representa o discipulado como sendo
uma questão de segui-lo, e segui-lo tomando sua cruz em negação
de si mesmo. O ser carnal nunca consentiria em lançar-se em tal
papel. "Quando Cristo chama um homem, propõe que ele venha e
morra", escreveu Dietrich Bonhoeffer, oito anos antes dos nazistas
o terem enforcado. Bonhoeffer estava certo: aceitar morrer para
tudo aquilo que o ser carnal quer possuir é justamente o assunto do
apelo de Cristo.
A religião da banheira quente deixa de encarar essa questão e
tenta aproveitar o poder de Deus vinculando-o às prioridades da
autocentralização. Sentimentos de prazer e de conforto, brotando
de circunstâncias agradáveis e experiências suaves, são objetivos
importantes hoje em dia, e muito do Cristianismo popular dos dois
lados do Atlântico tenta fazer a nossa vontade, fabricando-os para
nós. Algumas vezes, como meio para alcançar esse fim, invoca a
idéia de que as promessas de Deus são como os encantos de um
mágico: use-as corretamente e você poderá extrair de Deus qual-
quer coisa legítima e agradável que deseje. Quando eu era estudan-
te, fiquei chocado com um pequeno livro de sermões de um conhe-
A RELIGIÃO DA BANHEIRA QUENTE 61 eido evangelista, Como Escrever Seu Próprio Cheque com Deus.
A
RELIGIÃO
DA
BANHEIRA
QUENTE
61
eido evangelista, Como Escrever Seu Próprio Cheque com Deus.
Hoje, quarenta anos mais tarde, o assim chamado "evangelho da
saúde e prosperidade", que promete cura miraculosa para os enfer-
mos e enriquecimento material para os necessitados, desde que eles
ajam ousadamente sobre a fórmula "afirme e reivindique", tem mui-
tos e fascinados seguidores. Muitos não são devotos totais da "cura-
e-prosperidade", mas ainda tratam Tiago 5.15 ("A oração da fé
salvará o enfermo") como fórmula mágica garantida para cura mila-
grosa, sempre que a "fé" for alcançada. Quando falo da religião da
banheira quente, tenho em mente posições tais como esta.
É correto e bom ter confiança nos recursos ilimitados de Deus e
altas expectativas de ser liberto do mal. Mas, conceber uma oração
de petição como sendo uma técnica para fazer Deus dançar segun-
do a música que você estabelece e obedecer às ordens que você dá
não é certo nem bom. Na oração de petição, devemos tentar discernir
o propósito de Deus na vida ou na situação de vida que colocamos
perante ele, e cristalizar pedidos específicos como uma demonstra-
ção de "Seja feita a tua vontade", que deve ser sempre nossa súpli-
ca fundamental. A religião da banheira quente não alcança o ponto
onde pode ver isto. O egocentrismo que a produziu é devastador; a
oração como maneira nossa de gerenciar e dirigir as energias de
Deus, de tal maneira que ele nos reconheça, em vez de nós a ele,
nunca está longe de seu coração. E mau!
Eudemonismo é uma palavra incomum pela qual eu talvez deva
pedir desculpas. Eu a uso porque é a única palavra que eu conheço
que serve. Não tem nada a ver com demônios. Vem da palavra
grega para "feliz", eudaimon, e Webster a define como "o sistema
de filosofia que faz da felicidade humana seu objeto mais alto". Uso
a palavra como rótulo para a ótica da felicidade, significando a pre-
sença do prazer, e o livrar-se de tudo que é desagradável. O
eudemonismo diz que, já que a felicidade
é o valor supremo, pode-
mos confiantemente olhar para Deus aqui e agora para nos proteger
62 RELIGIÃO VIDA MANSA de coisas desagradáveis em cada circunstância, ou então, se as coi-
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RELIGIÃO VIDA
MANSA
de coisas desagradáveis em cada circunstância, ou então, se as coi-
sas desagradáveis aparecerem, livrar-nos delas imediatamente, pois
nunca é da vontade dele que tenhamos que conviver com elas. Este
é um princípio básico da religião da banheira quente. Infelizmente,
entretanto, é um princípio falso. Perde de vista o lugar do sofrimento
na santificação, por onde Deus treina seus filhos para compar-
tilharem de sua santidade (veja Hb 12.5-11). Tal erro pode provo-
car uma ruína.
A felicidade, no sentido em que a definimos, será gozada no
céu. Apocalipse 7.16-17 nos mostra isso. Quando formos glorifica-
dos com Cristo, nossa condição será de alegria consciente e deleite
completo em tudo que nos cerca (o mais alto grau de felicidade), e
não simplesmente de quieto contentamento com o modo como as
coisas são (felicidade em seu grau mais baixo). Mas há um perigo.
O céu é um estado de santidade que somente pessoas com gostos
santos apreciarão e no qual somente pessoas de caráter santo po-
dem entrar (Ap 21.27; 22.14ss). De acordo com isso, o propósito
presente de Deus é operar santidade — isto é, a semelhança de
Cristo — em nós, para nos adequar ao céu. E precisamente o inte-
resse de Deus em nossa felicidade futura que o leva a concentrar-se
aqui e agora em nos tornar santos, pois "sem santidade ninguém
veráaDeus" (Hb 12.14).
A santidade não é um preço que pagamos para a salvação final;
é, antes, a estrada pela qual nos aproximamos dela, e a santificação
é o processo pelo qual Deus nos guia por essa estrada. O Novo
Testamento nos mostra que na escola da santificação muitas moda-
lidades de dor têm seu lugar—desconforto físico e mental, e pres-
são, desapontamento pessoal, restrição, mágoa e aflição. Deus usa
essas coisas para ativar o poder sobrenatural que opera nos crentes
(2Co 4.7-11); para substituir a autoconfiança com confiança total
no Senhor que nos dá forças (1.8ss; 12.9s.); e para dar continuida-
de a seu trabalho santo de nos transformar daquilo que somos por
A RELIGIÃO DA BANHEIRA QUENTE 63 natureza na semelhança moral de Jesus "de glória em
A
RELIGIÃO
DA
BANHEIRA
QUENTE
63
natureza na semelhança moral de Jesus "de glória em glória" (2Co
3.18). Assim ele nos prepara para aquilo que já havia preparado
para nós, confirmando a afirmação de Paulo de que "Deus vos es-
colheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espí-
rito e fé na verdade
para alcançardes a glória de nosso Senhor
Jesus Cristo" (2Ts 2.13-14; cf. Ef 5.25-27; Tt 2.11 -14; 3.4-7).
Crianças que fazem o que querem e são constantemente prote-
gidas de situações em que poderiam sentir-se magoadas, nós as
descrevemos como crianças estragadas. Quando dizemos isso,
estamos expressando que a paternidade superindulgente não só as
deixa malcomportadas hoje como também não as prepara para as
exigências morais da vida adulta amanhã—dois males pelo preço
de um. Mas Deus, que tem sempre os olhos no amanhã enquanto
trata conosco hoje, nunca estraga seus filhos, e o curso de treina-
mento em vida santificada em que nos matricula, e que dura a vida
toda, propõe-nos desafios e testa-nos até o máximo repetidas ve-
zes. Os hábitos de agir e reagir à semelhança de Cristo •— em
outras palavras, o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, generosida-
de, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (Gl 5.22s.) —
ficam cada vez mais arraigados à medida que aprendemos a mantê-
los através de experiências de dor e desagrado, que em retrospecto
parecem ter sido o formão de Deus para esculpir nossas almas. A
santificação é mais do que isso, mas não menos. "E para disciplina
que perseverais (Deus vos trata como filhos)", escreve o autor de
Hebreus. "Pois que filho há que o pai não corrige? Mas, se estais
sem correção, de que todos se têm tomado participantes, logo, sois
bastardos e não filhos" (Hb 12.7-8). Filhos bastardos reconhecida-
mente passam sem cuidados, mas para vocês que crêem, o escritor
afirma, não será assim. Seu Pai celeste tem amor suficiente para
instruí-los no viver santo. Apreciem o que ele está fazendo e este-
jam dispostos para as asperezas que o programa dele para vocês
inclui.
64 RELIGIÃO VIDA MANSA Assim, visto que Deus realmente nos ama, qualquer forma da idéia
64
RELIGIÃO VIDA
MANSA
Assim, visto que Deus realmente nos ama, qualquer forma da
idéia de que ele deva ter a intenção de isentar-nos, ou então imedia-
tamente livrar-nos, de todas as dificuldades que ameaçam — pro-
blemas de saúde, isolamento, família desfeita, falta de dinheiro, hos-
tilidade, crueldade, ou o que quer que seja — precisa ser des-
cartada como totalmente errada. Os crentes fiéis irão experimentar
ajuda e livramento em tempos de angústia muitas e muitas vezes.
Mas nossa vida não vai ser de bem-estar, conforto e prazer de fio a
pavio. Serão abundantes os carrapichos debaixo da sela e os espi-
nhos na cama. Ai do adepto da religião da banheira quente que fizer
vista grossa para esse fato.
3. A religião da banheira quente é um produto da nossa
época. Ela incorpora e reflete a maneira de olhar a vida do mundo,
a qual pelos padrões bíblicos é mundana e excêntrica.
O prazer, concebido e buscado em termos dos bens e confor-
tos deste mundo, é o foco central da religião da banheira quente. É
revelador ver como o prazer tem sido visto em diferentes épocas da
história do Cristianismo e fazer comparações entre as óticas anterio-
res e esta síndrome em particular. Já que o Cristianismo tanto afirma
o mundo como a criação de Deus e o renuncia como corrompido
pelo pecado, esperaríamos ver algumas ocasiões históricas de osci-
lação entre ver o prazer como bem e como mal, e isso acontece
realmente. O mundo greco-romano do primeiro e subseqüentes sé-
culos estava firmemente nas garras de uma mentalidade decadente,
de busca do prazer. Logo não se admira que o Novo Testamento e
os escritos dos primeiros pais gastassem mais tempo atacando pra-
zeres pecaminosos do que celebrando prazeres piedosos, nem que
essa visão fosse levada até a Idade Média, na qual o tipo monástico
de renúncia ascética do mundo foi julgada a mais alta forma do Cris-
tianismo. Mas então, por insistirem os reformadores e os puritanos
A RELIGIÃO DA BANHEIRA QUENTE 65 na santidade da vida secular, a teologia bíblica do
A
RELIGIÃO
DA
BANHEIRA
QUENTE
65
na santidade da vida secular, a teologia bíblica do prazer finalmente
veio àtona, e amaioria da cristandade já chegou a reconhecê-la.
Calvino expressou essa teologia com brilho e sabedoria singu-
lar. Num capítulo de suas Instituías, intitulado "Como devemos usar
esta vida presente e seus auxílios", ele avisa contra os extremos,
tanto da austeridade exagerada como da indulgência excessiva. Ele
afirma (contra Agostinho!) que não usar para o prazer as realidades
criadas que oferecem prazer é ser ingrato para com seu Criador. Ao
mesmo tempo, entretanto, ele reforça a admoestação de Paulo para
não se apegar às fontes do prazer (1 Co 7.29-31), visto que um dia
poderemos perdê-las, e recomenda moderação — que é na prática
aplicar o freio até certo ponto — ao utilizarmos os prazeres, para
que nosso coração não se torne escravo deles a ponto de não po-
dermos passar alegremente sem eles. 3 É até irônico que Calvino,
supostamente a encarnação da austeridade deprimida, fosse real-
mente um teólogo clássico do prazer. Não é menos irônico que os
puritanos, supostamente os desmancha-prazeres profissionais (H.L.
Mencken definiu o puritanismo como sendo o temor obsedante de
que em algum lugar, de alguma forma, alguém pudesse sentir-se fe-
liz), acabassem sendo aqueles que mais insistissem que "a religião
nunca foi planejada para minorar os nossos prazeres". Mas o fato é
esse.
Contudo, nem todos os evangélicos seguiram Calvino e os pu-
ritanos em sua integração do prazer na piedade. O avivalismo culti-
vou uma ênfase em espiritualidade "extramundana" tanto estreita como
negativa, e nos séculos dezoito e dezenove, na Grã-Bretanha e na
América do Norte, muitos evangélicos pietistas fizeram questão de
apegar-se a uma versão ostensivamente parca do estilo de vida bur-
guês como testemunho contra o luxo e a vida perdulária. Esse
ascetismo reacionário ainda sobrevive em alguns meios na forma de
1 As Instituías,
de João Calvino, III.x.
66 RELIGIÃO VIDA MANSA tabus comunitários contra o álcool, o fumo, as leituras levianas, o
66
RELIGIÃO VIDA
MANSA
tabus comunitários contra o álcool, o fumo, as leituras levianas, o
teatro, bailes, jogatinas, roupas da moda, cosméticos e outros simi-
lares. Talvez tenham existido e bons motivos para tais abstinências
como matéria de decisão pessoal, mas os tabus coletivos tendem a
insensibilizar em vez de ativar as consciências, e parece claro que foi
o que aconteceu neste caso. O mundanismo foi definido em termos
de quebrar os tabus, e a identificação mais abrangente com os pe-
cados da sociedade passou despercebida. O pietismo raramente
vai além da crítica dos modos do mundo no nível superficial, antes
de
tudo porque a tendência é ele ter uma base de negação do mun-
do
em lugar de afirmação do mundo. O pietismo separa do mundo,
em vez de estudá-lo e tentar efetuar mudanças, e é hostil para com
o prazer, em vez de ser agradecido por ele, de medo que o mundo
penetre em nosso coração na carona do prazer. Assim os pietistas
protestantes, tanto das igrejas principais como das livres, entraram
no século vinte com uma teologia do prazer menos positiva do que
aquela mantida por outros cristãos, e suspeitamos que tenham apre-
ciação menos robusta do prazer em conseqüência disso.
O que aconteceu no século vinte é que o ascetismo pietista em
suas várias mutações, tanto da ala conservadora como da liberal em
termos de teologia formal, rachou-se sob a tensão, com resultados
comparáveis ao rompimento de uma barragem. As pressões secu-
lares provaram ser fortes demais. O materialismo, particularmente
em sua forma marxista, intimidou os cristãos aponto de se esquece-
rem do céu e procederem na base de que a única vida em que se
deve pensar e da qual precisamos desfrutar o prazer é a vida terreal.
O freudismo capturou as imaginações cristãs não menos que as pós-
cristãs com seu retrato do indivíduo humano impulsionado por de-
sejos desesperados de prazer, especialmente prazer sexual, e sujei-
to a ficar descosturado ou descomposto se esses apetites não forem
saciados. O humanismo promoveu a auto-expressão, a auto-reali-
zação como o supremo alvo da vida. Os cristãos têm assimilado

A

RELIGIÃO

DA BANHEIRA

QUENTE

67

esse pensamento e até afirmado que essa é mesmo a vontade de I )eus também. Hollywood e a TV têm projetado uma visão de vida de conto de fada, na qual o prazer é o pote de ouro que sempre se encontra no fim do arco-íris, contanto que seu comportamento pré- vio não tenha sido completamente escandaloso. Dessa mistura te- nebrosa de idéias emergiu a religião da banheira quente, preocupa- da com o prazer pessoal em uma ou outra forma, exigindo que a piedade seja confortante, e insistindo que tudo que abranda as ten- sões da vida, por isso mesmo, deve ser considerado bom e santo. Já podemos enxergar agora o que é realmente a religião da banheira quente—o Cristianismo corrompido pela paixão pelo pra- zer. A religião da banheira quente é o Cristianismo tentando ganhar do materialismo, do freudismo, do humanismo e de Hollywood, no jogo que eles jogam, em vez de desafiar os erros que as regras dessejogo refletem. Resumindo, o Cristianismo caiu vítima mais uma vez (porque isso já aconteceu muitas vezes antes, de diferentes modos) ao fascínio deste mundo decaído. O mundanismo — isto é, abraçar os valores do mundo, neste caso o prazer — é a fonte de onde surge a ótica distinta da religião da banheira quente. "O lugar do navio é dentro do mar", disse D.L. Moody, falando da igreja e do mundo, "mas Deus ajude o navio se o mar entrar dentro dele". Certamente foi justo o sentimento dele.

Sintomas dessa religião de banheira quente de hoje incluem a escalada vertiginosa da taxa de divórcios e segundos casamentos entre cristãos; a prática ampla de aberrações sexuais; um sobrenaturalismo superaquecido que busca sinais, maravilhas, vi- sões, profecias e milagres; a água-com-açúcar suavizadora cons- tante dos pregadores eletrônicos e do púlpito liberal; o sentimenta- lismo antiintelectual, e os "altos" de emoção cultivados deliberadamente, que são os equivalentes cristãos da maconha e da cocaína; e uma aceitação fácil, irrefietida do luxo na vida diária. Es- sas tendências não são salutares. Fazem a igreja se parecer com o

68 RELIGIÃO VIDA MANSA mundo, impulsionado pelo mesmo impensado desejo por prazer tem- perado com
68
RELIGIÃO VIDA
MANSA
mundo, impulsionado pelo mesmo impensado desejo por prazer tem-
perado com magia. Por isso minam a credibilidade do evangelho da
vida nova. Se é importante reverter essas tendências, uma nova es-
trutura referencial terá que ser estabelecida. A esta tarefa, portanto,
nos remetemos agora, seguindo para onde a Escritura nos levar.
A palavra vinda de Deus que precisamos ouvir sobre este as-
sunto foi escrita pelo apóstolo João: "Não ameis o mundo nem as
coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai
não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da
carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não proce-
de do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como
a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus
permanece eternamente" (1 Jo 2.15-17).
Essas palavras apaixonadas são cruciais no argumento da carta
de João. Ele escreve a uma igreja remanescente, o cerne fiel que
continuou leal ao seu evangelho quando um grande segmento dos
membros saiu. Os separatistas haviam professado uma versão mais
alta, mais moderna, mais intelectual do Cristianismo, que incluía des-
cartar a encarnação e a expiação como incertas e desnecessárias, e
que conduzia a uma impaciência desdenhosa com qualquer pessoa
que não abraçasse o novo ensino. João inicia sua carta aos rema-
nescentes lembrando-os de que sua palavra vinha com a autoridade
de uma testemunha ocular de Cristo (1.1 -4) e que a investida de sua
mensagem é, e sempre foi, a salvação do pecado pela purificação
através do sangue de Jesus, para haver como caminhar em santida-
de com um Deus santo (1.5-10). Em seguida ele explica seu propó-
sito pastoral em escrever para eles — guardá-los dos pecados dos
dissidentes (arrogância, ódio e lassidão moral) e mantê-los no cami-
nho da obediência a Deus e do amor uns aos outros que vinham
seguindo fielmente (2.1 -14) e em triunfo até então. Agora vem esse
trecho rompante de três versículos no qual João resume a investida
negativa desta carta. Amor do mundo, ele diz em outras palavras, é
A RELIGIÃO DA BANHEIRA QUENTE 69 ;i causa original das deserções, como é de todas
A
RELIGIÃO
DA
BANHEIRA
QUENTE
69
;i causa original das deserções, como é de todas as outras faltas de
amor a Deus encontradas entre cristãos professos; portanto, acon-
teça o que acontecer, não ame o mundo!
O que significa amar o mundo? João analisa esse amor em ter-
"
mos da paixão da carne (o desejo) que diz: "Eu quero
"
e do orgu-
lho (vanglória) que diz: "Eu tenho
Aqui ele está falando do apetite
irrequieto por aquilo que você não tem juntamente com gloriar-se
vaidosamente daquilo que você tem (v. 16). Concordo com a tradu-
ção NVI que diz nesse versículo conciso: "Pois tudo que há no mundo
- a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens
— não provém do Pai, mas do mundo." A paixão por possuir e o
orgulho de possuir o que o mundo em volta oferece é o que quer
dizer amar o mundo.
Com isso já podemos ver por que o amor do mundo exclui o
amor do Pai (v. 15). O amor do mundo é egocêntrico, aquisitivo,
arrogante, ambicioso e absorto, o que não deixa espaço para ne-
nhum outro tipo de afeição. Quem ama o mundo presta serviço e
culto a si mesmo a cada momento. E ocupação de tempo integral. E
por aí vemos que qualquer pessoa cujas esperanças estão focaliza-
das em adquirir prazer, lucro e privilégio material é candidata a uma
experiência de destituição, de perda, já que, como diz João (v. 17),
o mundo não vai durar. A certeza maior da vida é que um dia nós
deixaremos para trás o prazer mundano, o lucro e o privilégio. A
única incerteza é se essas coisas nos deixarão antes do nosso dia de
deixá-las. Os verdadeiros servos de Deus, entretanto, não têm de
enfrentar tais perdas. Seu amor e seu desej o centram-se no Pai e no
Filho em uma comunhão que já existe (cf. 1.3) e que nada jamais
poderá interromper.
Com essa análise João diagnostica para nós uma doença, uma
forma da qual é representada pelos separatistas dando de ombros
para a fé e obediência evangélicas, e outra forma a da religião da
banheira quente. A doença é essencialmente de caráter moral. Al-
70 RELIGIÃO VIDA MANSA guns que sofrem dela, como os separatistas de João e muitos
70
RELIGIÃO VIDA
MANSA
guns que sofrem dela, como os separatistas de João e muitos dos
liberais de hoje, desistem das verdades da encarnação, expiação e
do novo nascimento. Outros, fazendo parte de meios mais conser-
vadores, não fazem isso. Mas nem num nem noutro caso o evange-
lho determina o modelo de vida. A essência da doença é o amor e a
esperança mal dirigidos, a síndrome de procurar exclusivamente na
ordem das coisas do mundo o deleite presente e futuro. Desejar e
esperar obter é coisa natural para todos nós, mas o problema é
centrar nossas avaliações e expectativas nas pessoas, nas coisas e
nos eventos deste mundo. João indica a cura — o redirecionamento
do amor e da esperança, de maneira que aqui e no além olhemos
somente para Deus.
Dois pontos devem ser apreciados se desejamos entender isso.
Primeiro, a vida deve ser vista e vivida em termos de dois mun-
dos, não de um só. Até tempos recentes isso era uma ótica cristã
comum. Todo crente sabia que isso é verdade e procurava agir nes-
ta base. Esse fato, por curiosamente antiquado que soe aos ouvidos
modernos, não deveria causar surpresa. O Novo Testamento é cla-
ro e consistente em ensinar os dois mundos. Jesus constantemente
instruía sobre o céu e o inferno como sendo os destinos entre os
quais os homens e as mulheres optam nesta vida, pelos compromis-
sos que fazem ou deixam de fazer (veja Mt 5.22-26,29ss.; 6.14ss.,
19ss., 7.13ss, 21-27; 10.28-39; 11.20-24; 12.31-37; 13.11-15,
37-43, 47.50; 15.13ss.; 16.24-27; 18.3-9, 34ss.; 19.16-29;
22.1-14; 24.45 - 25.46; cf. João 3.14-21; 5.14-29). Desta feliz
esperança de estar com Cristo ao deixar este mundo, ou então de
vê-lo retornar para receber bem os seus e introduzir uma ordem
renovada das coisas, todo o testemunho apostólico está cheio. É
básico para a ética neotestamentária crer que os cristãos na terra
deverão viver à luz do céu, que deverão tomar decisões agora com
os olhos no futuro, e que deverão evitar qualquer comportamento
aqui que comprometa sua esperança da glória no além. "Ajuntai

A

RELIGIÃO

DA BANHEIRA

QUENTE

71

para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam", Jesus disse (Mt 6.20). "Aquilo que o homem semear, isso também ceifará", diz Paulo. "O que semeia para a sua própria carne, da carne colherá corrupção; mas o que semeia para o Espírito, do Espírito colherá vida eterna. E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos" (Gl 6.7-9). Todas as promessas que o Cristo glorificado em suas cartas às sete igrejas estende àqueles que "ven- cem" o mundo, a carne e o diabo, se referem a um estado futuro (veja Ap 2.7,10ss., 17,26-28; 3.5,12,21). Os múltiplos trechos desse tipo no Novo Testamento deixam óbvio que devemos viver de tal modo que os registros contábeis da eternidade nos declarem ricos diante de Deus. E isso é uma coisa de que o cristão do tempo antigo jamais duvidava.

Em tempos recentes, porém, várias evoluções têm combinado parajuntas enfraquecerem o impacto dessa verdade. Os marxistas

e outros têm ridicularizado a idéia de recompensa no céu quando se

morre, chamando-a de sonho furado para sentimentalistas sem fibra que não conseguem enfrentar a realidade; assim têm intimidado al- guns cristãos e feito com que fiquem envergonhados da sua espe- rança. Esses mesmos críticos têm sugerido que a esperança do céu

é ruim porque destrói o interesse de lutar contra o mal e aboli-lo na

terra, e esse ponto aumentou o sentimento de culpa dos corações cristãos impressionáveis. Isso é tolice. Pois como aponta CS. Lewis:

Se você ler a história, descobrirá que os cristãos que mais fizeram em prol do mundo presente foram exatamente aqueles que pensaram mais no mundo vindouro. Os pró- prios apóstolos, que puseram em andamento a conversão do Império Romano, os grandes homens que desenvolve- ram a Idade Média, os evangélicos ingleses que aboliram o comércio de escravos, todos deixaram sua marca na Ter-

72 RELIGIÃO VIDA MANSA ra, precisamente porque suas mentes estavam ocupadas com o Céu. Foi
72
RELIGIÃO VIDA
MANSA
ra, precisamente porque suas mentes estavam ocupadas
com o Céu. Foi depois que os cristãos em grande parte
cessaram de pensar no mundo além que eles vêm se tor-
nando tão ineficazes neste. 4
Muitos cristãos, no entanto, não lêem História e não percebem,
portanto, quanto os marxistas estão errados e quanto Lewis está
correto nesse ponto. Além disso, aqueles que vivem no mundo oci-
dental pós-cristão respiram todos os dias o gás tóxico (como bem
podemos chamá-lo) do secularismo materialista, tanto em sua for-
ma popular (a mídia) como em sua forma sofisticada (as artes e a
instrução universitária). Isso prejudica nossos olhos, pulmões e co-
ração espirituais, destruindo tanto a visão como o amor apaixonado
das realidades que existem além desta nossa atualidade de tempo e
espaço. Os dois fatores combinados tornaram o Cristianismo oci-
dental de tal forma concentrado no mundo presente a só merecer a
descrição de ser uma distorção radical.
Pois hoje, no geral, os cristãos não vivem mais para o céu. Por-
tanto não entendem, muito menos praticam, o desprendimento do
mundo. Atualmente, o não-conformismo com o mundo se limita aos
meios que o mundo adota para alcançar seus objetivos, e raramente
toca os próprios objetivos. O mundo à nossa volta busca prazer,
lucro e privilégio? Nós também. Não temos disposição nem força
para renunciar a esses alvos, porque lançamos o Cristianismo em
um novo molde que dá maior relevo à felicidade do que à santidade,
às bênçãos aqui do que às delícias do porvir, à saúde e prosperi-
dade como sendo as maiores dádivas de Deus. A morte, especial-
mente a morte física, não é vista como coisa a agradecer por nos
dar livramento das misérias do mundo pecaminoso (o ponto de vista
que o velho Livro de Orações Anglicano expressava), mas como o
4 Mere Christianity
(Londres: Collins, Fontana Books, 1955), 116.
A RELIGIÃO DA BANHEIRA QUENTE 73 desastre supremo e um constante desafio à fé na
A
RELIGIÃO
DA
BANHEIRA
QUENTE
73
desastre supremo e um constante desafio à fé na bondade de Deus.
I • ntão nosso Cristianismo está agora todo deformado? Está, sim, e
a razão principal é que perdemos a visão neotestamentária dos dois
mundos, que vê a vida após morte como mais importante do que
esta, e compreende a vida aqui como essencialmente um preparo e
treinamento para a vida no além. E continuaremos deformados en-
quanto essa visão apropriada do mundo além não for recuperada.
I • nxergar o mundo além não implica uma visão diminuída da maravi-
I ha, da glória, da riqueza que a vida deste mundo pode ter. O que a
ênfase no mundo do além subentende é que você vive sua vida aqui,
longa ou curta como for, vendo tudo do ponto de vista do peregrino
imortalizado na obra clássica de Bunyan, e tomando suas decisões
em termos de saber que você é um viajor a caminho de seu lar.
A primeira carta de Pedro descreve isso por extenso. Pela mi-
sericórdia de Deus e através da ressurreição de Cristo, Pedro diz,
os crentes têm a esperança certa da glória, para o gozo da qual
Deus os está preservando e preparando agora (IPe 1.3-9). Então
"esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revela-
ção de Jesus Cristo" (v. 13). "Portai-vos com temor durante o tem-
po da vossa peregrinação" (v. 17), e "exorto-vos, como peregrinos
e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais, que fa-
zem guerra contra a alma" (2.11). Suportem a hostilidade, a humana
e a satânica, sem estremecer, e mantenham-se firmes em sua espe-
rança de glória, sua lealdade a Cristo, e sua confiança em Deus o
Pai, e "o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua
eterna glória
ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e
fundamentar" (5.10). Esse foi, é, e será sempre o verdadeiro cami-
nho cristão.
Segundo, o amor para com Deus e a esperança em Deus são
motivações que transformam a vida.
Uma das características da cultura ocidental é que nós somos,
como se diz, tranqüilamente frios. Damos mostra de entusiasmo
74 RELIGIÃO VIDA MANSA quanto a isso e aquilo, mas nossos sentimentos são só da
74
RELIGIÃO VIDA
MANSA
quanto a isso e aquilo, mas nossos sentimentos são só da pele para
fora. Basicamente somos entediados, já vimos tudo, e nada nos
comove a não ser nossas preocupações pessoais. Por quê? Em parte
é um mecanismo de defesa contra a sobrecarga sensorial de exage-
ros com que o pessoal de marketing
e publicidade nos atulha hoje
em dia. Mas também, suspeito eu, é sinal de que não pensamos da
maneira profunda e continuada que nossos antepassados pensavam
em tempos menos complexos, menos apressados e estonteantes. A
reflexão prolongada e imaginativa é hoje, se não me engano, tão
rara que poucos de nós entendemos seu poder para motivar, e nós
mesmos não somos motivados por ela. Meditação é a palavra cris-
tã histórica usada para o pensamento focalizado que motiva. Mas, e
nós — quanta meditação já fizemos?
No Novo Testamento vemos o amor redentor de Deus e a es-
perança de glória do cristão decisivamente controlando a vida dos
crentes. Como Paulo. Paulo era tão vigoroso, apaixonado, exube-
rante na sua evangelização e cuidado pastoral que os coríntios o
acharam desequilibrado, para não dizer louco; ridicularizaram-no
por isso. Paulo não ficou desconcertado: "Se enlouquecemos, é para
Deus", ele replicou; "se conservamos o juízo, é para vós outros".
Então explicou por que se comportava dessa maneira. "Pois o amor
"
de Cristo nos constrange
(2Co 5.13-14). Constrange ("com-
pele", "governa" em outras traduções nossas) é uma palavra grega
que significa "coloca sob forte pressão". O que Paulo quer dizer é
que seu conhecimento do amor expiador de Cristo sobre a cruz
tinha para ele uma força motivadora enorme, assim como teve para
o missionário pioneiro C.T. Studd, que declarou: "Se Jesus Cristo é
Deus e morreu por mim, então nenhum sacrifício é grande demais
para eu fazer por ele".
Alguns versículos antes Paulo tinha falado do poder de susten-
tação e animação da esperança na sua vida, que o fazia prosseguir
com perseverança sob as tensões aparentemente intoleráveis de
A RELIGIÃO DA BANHEIRA QUENTE 75 doença, isolamento, insultos e indiferença (veja 2Co 1.3-10, 6.8-10;
A
RELIGIÃO
DA
BANHEIRA
QUENTE
75
doença, isolamento, insultos e indiferença (veja 2Co 1.3-10,
6.8-10; 11.23-29). "Em tudo somos atribulados, porém não an-
gustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém
não desamparados; abatidos, porém não destruídos; levando sem-
pre no corpo o morrer de Jesus
Está escrito: Eu cri; por isso é
que falei. Também nós cremos; por isso, também falamos, sabendo
que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos ressuscitará
com Jesus e nos apresentará convosco
Por isso, não desanima-
mos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se cor-
rompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia.
Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eter-
no peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós
nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se
vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas" (2Co
4.8-18). Enquanto a fonte da renovação interior de Paulo é o poder
avivador do Espírito Santo, o agente do Cristo ressurreto que é
nossa vida e nossa esperança (veja 4.10ss.; 12.9ss.; Cl 3.4;
lTm 1.1), o meio de isso acontecer está na esperança da glória,
conscientemente alimentada. Está claro que Paulo poderia ter dito,
como o Sr. Fiel de João Bunyan: "Os pensamentos sobre aonde
vou, e sobre a Conduta que me espera do outro lado, estão como
Braza viva no meu Coração". 5 Foi o amor e a promessa de Deus
que transformou a vida de Paulo e o fez o homem que era.
Sobre esta mudança João também discorre em termos categó-
ricos e universais. "Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos
amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como
propiciação pelos nossos pecados
no amor que Deus tem por nós
Nós conhecemos e cremos
Nós amamos porque ele nos
amou primeiro" (Uo 4.10,16,19). Os cristãos amam a Deus em
resposta e amam os cristãos, seus irmãos, gratuitamente, baseando-
5 The Pilgrim s Progress (Londres: Oxford University Press, 1945), 370.
76 RELIGIÃO VIDA MANSA se no modelo do próprio Jesus (3.14, 16-18, 23; 4.11, 20ss.);
76
RELIGIÃO VIDA
MANSA
se no modelo do próprio Jesus (3.14, 16-18, 23; 4.11, 20ss.); o
conhecimento do amor de Cristo os capacita a amar. E mais: "Vede
que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos cha-
mados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus!
Ainda
não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando ele
se
manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-
lo
como ele é. E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta
esperança, assim como ele é puro" (3.1-3). A pessoa a quem a
esperança não motivasse dessa maneira e que o amor não contro-
lasse teria sido diagnosticado pelo apóstolo João como não sendo
mesmo um crente.
A experiência e a expectativa apostólica eram que o amor a
Deus e a esperança nele que a mensagem do evangelho desperta
transformaria radicalmente a vida da pessoa, tanto no comporta-
mento — no estilo de vida — como na motivação — no seu cora-
ção. O amor de Deus evocaria amor auto-sacrificial para com o
Senhor e para com os outros. A promessa do céu ofertada por
Deus suscitaria a decisão pessoal diante de hostilidade e desânimo.
A resistência ao pecado — isto é, resistência às perspectivas tenta-
doras do prazer, lucro e privilégios do mundo, sem lembrança de
Deus, perspectivas como as que capturaram Adão e Eva (veja
Gn 3.6) — seria fortalecida. Mas será que os apóstolos, ou qual-
quer outra pessoa, chegaram a achar que essa motivação evangéli-
ca gêmea, de amor e esperança, transformaria nossa vida sem ser
passada e repassada no coração através de meditação constante?
O que Paulo e João pensaram, tanto por experiência própria como
pela compreensão ensinada por Deus sobre a graça divina, foi que a
realidade do amor redentor e a certeza do céu extasiariam de tal
modo o coração dos crentes que eles pensariam sobre essas coisas
o tempo todo, como recém-casados pensam alegre e constante-
mente na doçura de seu cônjuge e na beleza de seus planos para o
futuro. E é assim que deveria ser!
A RHLIGIÀO DA BANHEIRA QUENTE 77 Verdade; deveria mesmo. Mas o pecado que habita o
A
RHLIGIÀO
DA BANHEIRA
QUENTE
77
Verdade; deveria mesmo. Mas o pecado que habita o coração
sc opõe, e o mundo em volta distrai. Satanás, o animador da tenta-
ção, j á decidiu que, no que depender dele, não vão florescer amor e
pureza. Por isso, um esforço constante tem de ser feito para manter
vivos os pensamentos de amor e esperança para com Deus, e para
conservar fortes seus efeitos motivadores. Como já dissemos, his-
toricamente o nome cristão desse esforço especial é meditação.
A meditação, um exercício de pensamento dirigido, tantas ve-
zes comparado ao ruminar da vaca, não é bem compreendido hoje;
por isso atrevo-me a apelar a dois gigantes do passado cristão para
que nos dêem instruções a respeito. Primeiro temos Calvino, que
nas Instituías, logo antes de discutir, conforme já referido, como é
certo desfrutar agradecidamente dos prazeres que Deus dá, coloca
um capítulo intitulado: "Meditação sobre a Vida Futura". Afirma que
nossa atitude sobre este mundo precisa não ser a de desiderium
(desejo por aquilo que o mundo oferece, levando-nos a ser escra-
vos dele), e sim a atitude de contemptus (reconhecimento que, no
que nos concerne, ele não tem valor final, de sorte que nos torna-
mos desapaixonados, desligados dele e dispostos a perdê-lo con-
forme e quando Deus quiser). "Deve-se compreender que a mente
nunca se eleva seriamente ao desejo e meditação da vida futura
enquanto
ela não se encher de desprezo pela vida presente". 6 Ronald
Wallace resume a visão geral de Calvino do seguinte modo:
As condições, então, para o uso correto deste mundo,
são passar por ele como peregrinos devem passar, que têm
a mente fixa em outro país para o qual estão viajando, ofe-
recer tudo que possuímos e apreciamos aqui de mãos aber-
tas como sacrifício a Deus para que ele o tire de nós quan-
do o agradar, fazer com que os sinais do amor divino que
6 As Instituías de João Calvino,
íll.ix. 1.
78 RELIGIÃO VIDA MANSA gozamos em meio a esta criação presente abram nosso apetite para
78
RELIGIÃO VIDA
MANSA
gozamos em meio a esta criação presente abram nosso
apetite para a glória mais plena que há de vir — em outras
palavras, usar este mundo agradecidamente como preparo
para aquilo que virá. Sob tais circunstâncias é certo deliciar-
se num amor real e agradecido desta vida. Nós temos en-
tão uma verdade paradoxal, que verdadeiramente pode-
mos amar esta vida só quando primeiro verdadeiramente
já aprendemos a desprezar esta vida. 7
Então, segundo Calvino, como meditamos na vida futura?
Deliberadamente pensando nela (em todo o capítulo ele convoca o
leitor a "aprender", "concluir", "ponderar", "refletir", "considerar",
"julgar" — em outras palavras, a concentrar a mente no assunto).
Mas que sorte de pensamentos sobre a vida futura devemos formu-
lar? Devemos pensar, diz Calvino, em termos de sua intrinsecamen-
te maior glória, tanto por causa da mais íntima comunhão com Deus
que trará quanto pelas limitações das quais nos livrará (seção 4)
quanto também por causa da vindicação de Deus, da santidade e
dos santos aos quais sua manifestação nos conduzirá (seção 6). Esses
pensamentos nos erguerão acima do mundo e nos darão o incentivo
de que precisamos para ter paciência aqui na terra até chegar o
tempo de Deus nos levar ao lar celeste.
Um século depois de Calvino viveu Richard Baxter. Era um
puritano que estava sempre doente; tuberculoso desde a adoles-
cência; sofria constantemente de dispepsia, pedras nos rins, dores
de cabeça, de dentes, membros inchados, hemorragia nas extremi-
dades e outros males, tudo antes do tempo dos analgésicos. Não
obstante os problemas, estava sempre cheio de energia, extroverti-
do, não reclamava, e tinha total saúde mental, mesmo que às vezes
7 Calvin 's Doctrine of the Christian Life (A doutrina de Calvino sobre a Vida
Cristã) (Edimburgo: Oliver & Boyd. 1959), 130.
A RELIGIÃO DA BANHEIRA QUENTE 79 (e quem não lhe dará razão?) um pouco nervoso.
A
RELIGIÃO
DA BANHEIRA
QUENTE
79
(e quem não lhe dará razão?) um pouco nervoso. Até o ano de
1661, quando tinha quarenta e cinco anos, ele tinha evangelizado
mais ou menos a cidade inteira de Kidderminster (dois mil adultos, e
mais as crianças), além de escrever livros, entre os quais dois clás-
sicos que têm sido reimpressos regularmente desde seu tempo —
The Saints' Everlasting Rest (O Descanso Eterno dos Santos) e
The ReformedPastor (O Pastor Reformado). Depois, durante os
trinta anos seguintes, quando como pastor destituído não pôde mais
ocupar um cargo pastoral, ele escreveu tanto que agora ocupa um
lugarzinho na História como o mais prolífico teólogo inglês de todos
os tempos. Que foi que manteve esse frágil inválido persistindo tão
determinadamente e até mesmo espetacularmente através dos anos?
No livro The Saints' Everlasting Rest ele conta o segredo. Desde
que completou trinta anos, praticou o hábito que primeiro formou
quando pensou que estava morrendo. Por cerca de meia hora cada
dia ele meditava na vida do porvir, assim escalando sua percepção
da glória que o aguardava e reforçando sua motivação de usar cada
grama de energia e zelo que encontrava dentro de si para se apres-
sar pelo caminho ascendente do culto, do serviço, e da santidade
em direção a seu alvo. O cultivo diligente da esperança deu-lhe per-
sistência diária em trabalho duro e disciplinado para Deus, a despei-
to do debilitante efeito disto a cada dia sobre seu corpo doentio. Ele
representa ao longo dos séculos a prova de que existe força sobre-
natural para o serviço de Deus que está além das explicações huma-
nas. Em um ponto ele foi além de Calvino. Dedicou a quarta parte
deste The Saints' Everlasting Rest a uma demonstração detalhada
de como você e eu podemos meditar como ele e assim penetrar
mais profundamente na vida de amor e esperança redirecionados
nos quais ele mesmo era tão competente. Nenhum mestre cristão
antes ou depois tratou da "meditação celeste" (como Baxter cha-
mou essa disciplina) tão bem e tão completamente quanto ele. Se
80 RELIGIÃO VIDA MANSA você quer dominar essa arte fina e frutífera, recorra à quarta
80
RELIGIÃO VIDA
MANSA
você quer dominar essa arte fina e frutífera, recorra à quarta parte
do tratado de Baxter. 8
Não será isso algo que todos nós precisamos fazer? Hoje, o
amor do luxo e a atração do prazer são sentidos mais intensamente
do que em qualquer época do Cristianismo, com duas exceções,
talvez, nos casos dos príncipes renascentistas e da aristocracia in-
glesa e francesa no século dezoito. A busca do prazer—intelectual,
sensual, estético, gastronômico, alcoólico, narcisista — é um as-
pecto daquela decadência que visionários como Solzhenitsyn de-
tectam e denunciam. Esse "culto do macio", como tem sido chama-
do, 9 é alimentado no vasto bufê self-service de prazeres que nossa
sociedade amoral, de tantos recursos tecnológicos, coloca a nossa
disposição, e o ritmo disso cresce em vez de diminuir no passar dos
anos. Pressagia mal para nossa cultura, assim como dilui a qualida-
de de nosso Cristianismo. O que observo me garante que só uma
nova busca de uma mentalidade celeste e nova profundidade de
amor abnegado para com nosso Senhor e a esperança do céu po-
dem evitar que sejamos de todo derrubados na busca do prazer que
o mundo persegue a nossa volta com tanto zelo. A Bíblia me con-
vence de que nenhuma dimensão de renovação há que seja mais
necessária em nossos dias.
Ficar com a cabeça no lugar a despeito da atração do prazer é
das mais árduas tarefas que se pode propor para o crente próspero.
Reagir, tentando negar-se ao prazer completamente, como se Deus
mesmo estivesse contra ele, seria uma ingratidão arrogante para com
ele; mas saber manter o prazer no espaço apropriado, quando to-
dos em volta parecem ter ficado loucos por prazer, pede mais sabe-
8 A mais recente reedição de The Saints'
Everlasting
Rest
(drasticamente
reduzida) foi publicada por Baker Book House (Grand Rapids) em 1978.
9 "Cult of softness": título de um estudo da cultura contemporânea de Garth
Lean (Londres: Blandford Press, 1965).
A REUGÍÃO DA BANHEIRA QUENTE 81 doria do que a maioria de nós consegue concentrar.
A
REUGÍÃO
DA BANHEIRA
QUENTE
81
doria do que a maioria de nós consegue concentrar. Deixemos que
Eclesiastes, o pregador, nos instrua mais uma vez. Apreciar os pra-
zeres simples de cada dia e deixá-los refrescar seu espírito, ele diz,
faz parte da sabedoria. Eis suas afírmações-chave:
Nada há melhor para o homem do que comer, beber e
fazer que a sua alma goze o bem do seu trabalho. No en-
tanto, vi também que isto vem da mão de Deus, pois, sepa-
rado deste, quem pode comer ou quem pode alegrar-se?
(2.24ss.;3.12ss.;5.19)
Exaltei eu a alegria, porquanto para o homem nenhu-
ma coisa há melhor debaixo do sol do que comer, beber e
alegrar-se; pois isso o acompanhará no seu trabalho. (8.15)
Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias de
tua vida fugaz, os quais Deus te deu debaixo do sol. (9.9)
Doce é a luz, e agradável aos olhos, ver o sol. Ainda
que o homem viva muitos anos, regozije-se em todos eles.
(11.7-8)
A sabedoria que assim recomenda e comanda as alegrias que
Deus providencialmente provê não é um hedonismo calculado. É a
sabedoria que percebe que a resposta à questão de como devemos
viver está em três imperativos: culto ("teme a Deus"), obediência
("guarda os seus mandamentos"), e esperança. "Porque Deus há de
trazer ajuízo todas as obras", recompensando num estado futuro
aqueles crentes que fizeram seu alvo o bem, e não o mal, a obediên-
cia, e não a busca do prazer (veja Ec 12.13ss.). Essa sabedoria de
Eclesiastes é a sabedoria que mencionei antes. É a sabedoria que
sabe que a felicidade, o doce subproduto da devoção a Deus, pro-
cede da santidade. Apegando-nos a essa sabedoria em nosso cora-
ção, podemos aprender como apreciar os prazeres que Deus dá,
sem cair no amor pelo mundo. Assim poderemos nos manter na
82 RELIGIÃO VIDA MANSA direção certeira que conduz ao céu em meio a uma cultura
82
RELIGIÃO VIDA
MANSA
direção certeira que conduz ao céu em meio a uma cultura que está
obsecadamente preocupada com a terra.
Antes citei, de Isaac Watts, sua celebração das alegrias da vida
cristã. Termino meu argumento citando sua transcrição do estado
de espírito sadio e cheio de expectativa do cristão.
Meus pensamentos vencem céus inferiores,
E olham alto através do véu;
Ali as fontes de prazer sem fim se erguem,
E as águas nunca falham nesse céu.
Ali contemplo, em doce deleite,
O
bendito Três em Um que é Deus,
E
no divino Filho encarnado
Forte afeto prende os olhos meus.
Sua promessa é firme para sempre,
Sua graça não se afastará;
Ele ata meu nome em seu braço,
E no seu coração o selará.
Leves são as dores naturais;
Curtos sofrimentos nós passamos,
Quando com as bênçãos do futuro
O presente aqui nós comparamos!
Pois não quero ainda estar estranho
Ao celeste lugar de luz e cor
Que espero habitar eternamente,
Vendo o rosto do meu Salvador.
Abençoados são aqueles que têm a esperança da glória. O
domínio do prazer presente, ainda enquanto o gozam, está a seu
alcance. E isto, também, junto com o domínio do pecado e a vitória
sobre o diabo, pertence à plenitude que têm no seu viver em Cristo.
5 Direção Como Deus nos Orienta Sabedoria ao Longo do Caminho Os evangélicos divergem da
5
Direção
Como Deus nos
Orienta
Sabedoria ao Longo do Caminho
Os evangélicos divergem da maioria dos católicos ro íanos e libe-
rais no fato de geralmente estarem apreensivos com rt 'ação à dire-
ção divina, Nenhuma outra preocupação suscita maior nteresse ou
inspira maior ansiedade entre eles atualmente do que a c 3descobrir
a vontade de Deus.
Foi sobre os evangélicos que Joseph Bayly escrevei em 1968:
"Se há entre os estudantes cristãos de hoje uma preocupt ção séria,
é a do direcionamento. A santidade pode ter sido a p. ixão dos
jovens de uma outra geração. Ou ganhar almas. Ou evai gelizar o
mundo
Mas hoje não. O tema hoje é descobrir a vc itade de
Deus." 1
Novamente, foi dos evangélicos que Russ Johnston declarou
em 1971: "Venho fazendo palestras em muitos encontros em que se
dedicava uma parte de cada tarde a oficinas
Se uma das oficinas
' Joseph Bayly, et alii, Essays on Guidance
(Ensaios sobre o Direcionamento)
(Downers Grove, Illinois, InterVarsity Press, 1968), Prefácio.
84 RELIGIÃO VIDA MANSA recebe o título 'Conhecer a Vontade de Deus', a metade das
84
RELIGIÃO VIDA
MANSA
recebe o título 'Conhecer a Vontade de Deus', a metade das pes-
soas dá o nome para essa, mesmo que haja vinte outras opções". 2
E foi também sobre os evangélicos que Garry Friesen relatou
em 1981: "O interesse no assunto da direção divina continua em
alta. A demanda por artigos de revistas e livros sobre o assunto
continua grande. As pessoas continuam a procurar direção a res-
peito da direção". 3
Minha própria experiência confirma isso. Quanto mais sincero
e sensível o crente, tanto mais provável que ele (ou ela) esteja inco-
modado com esta idéia de direção. E, se consigo julgar o clima, o
nível evangélico de ansiedade a respeito continua a subir.
Por quê? A origem da ansiedade é que o desejo de ser dirigido
se liga à incerteza de como conseguir a direção e o medo das con-
seqüências de não recebê-la. Tal ansiedade tem a infeliz tendência
de escalonar. As pessoas ansiosas são atraídas por toda e qualquer
forma de certeza que se ofereça, por mais irracional que seja. Tor-
nam-se vulneráveis a influências estranhas e fazem coisas malucas.
Isso faz com que a questão da direção cause mais perplexidade do
que no passado. Durante os últimos 150 anos vem se armando a
tensão a ponto de confundir as mentes, obscurecer os pareceres, e
obstruir a maturidade de uma forma que chega a extinguir o Espírito.
Quando os músculos doem, o relaxamento é o primeiro passo
para a cura, e o mesmo ocorre quanto à ansiedade sobre a direção.
As pessoas mais preocupadas são regularmente aquelas que menos
têm motivo de estarem alarmadas.
Primeiro, verdade seja dita, o desejo de conhecer a direção de
Deus é sinal de saúde espiritual.
2 Russ Johnston, How to Know the Will of God (Como Conhecer a Vontade
de Deus) (Colorado Springs, NavPress, 1971), 5.
3 Garry Friesen, Decision Making and the Will of God (O Tomar Decisões
e a Vontade de Deus) (Portland, Oregon: Multnomah Press, 1981), 18.
85 DIREÇÃO Crentes sadios querem agradar a Deus. Pela regeneração, aprenderam a amar a obediência
85
DIREÇÃO
Crentes sadios querem agradar a Deus. Pela regeneração,
aprenderam a amar a obediência e achar alegria em fazer a vontade
de Deus. Só a idéia de ofendê-lo os magoa profundamente. Dese-
jam viver de uma maneira que mostre gratidão a Deus pela sua gra-
ça. A medida que crescem espiritualmente, este desejo torna-se cada
vez mais forte. Naturalmente, querem indicações claras da vontade
de Deus.
Reforçando esse desejo há a confusão diante da vasta gama de
possibilidades em todos os campos de nossa civilização. Querer
ajuda para tomar decisões é compreensível. Alguns procuram essa
ajuda em gurus, quiromantes, astrólogos, videntes, conselheiros da
mídia e de consultórios especializados. Cristãos sadios, entretanto,
enquanto valorizem conselhos humanos, olham também para Deus.
Há muitas promessas de direção divina na Escritura e muitos teste-
munhos da sua realidade. É errado os cristãos não buscarem o au-
xílio de Deus para fazer as escolhas, compromissos e decisões que
estarão moldando sua vida.
Em segundo lugar, deve-se dizer que o medo da ruína espiritual
por se entender mal o direcionamento de Deus é um sinal de des-
crença impensada.
Tenho em mente um temor específico, um com o qual já me
deparei muitas vezes no meu ministério. É comum. Não é produto
de nenhuma linha de pensamento. Ao contrário, é a distorção da
verdade em que caem com facilidade essas nossas mentes decaí-
das, com sua propensão legalista e sua tendência de ver Deus como
bicho-papão. Naturalmente, Satanás, que gosta demais de repre-
sentar mal nosso Deus e fazê-lo parecer mau, patrocina isso
mesmo!
Pode ser descrito assim: O plano de Deus para sua vida é como
um roteiro que o agente de viagens lhe traça. Contanto que você
esteja no lugar certo na hora certa para tomar o avião ou o trem ou
o ônibus ou a embarcação, tudo bem. Mas perca uma dessas cone-
86 RELIGIÃO VIDA MANSA xões pré-planejadas, e o roteiro de viagem estará destruído. Um plano
86
RELIGIÃO VIDA
MANSA
xões pré-planejadas, e o roteiro de viagem estará destruído. Um
plano revisado só pode ser de segunda, comparado com o plano
original.
Esse posicionamento diz que a Deus falta ou a vontade ou a
sabedori a para colocá-lo de volta na rota. Uma vida espiritual abai-
xo do padrão é tudo que lhe resta. Você pode não estar no monte
da sucata, mas estará quase engavetado, tendo perdido muito de
sua utilidade. Seu erro o condena a viver e servir a Deus como
cristão inferior ao padrão.
Muitos cristãos entram em pânico, temendo um desastre desse
tipo cada vez que uma decisão importante deve ser tomada. Outros
vão-se arrastando, mas com o coração pesado, crendo que essa
sorte já os alcançou, por causa de alguma imprudência cometida há
muito tempo. O fruto dessa imaginação assustada é muito amargo.
O grão de verdade do roteiro acima é que más decisões trazem
tristes conseqüências das quais não podemos esperar ser resguar-
dados. Mas, além disso, o medo descrito não expressa nada senão
descrença com respeito à bondade, à sabedoria e ao poder de Deus.
Deus pode restituir e realmente restitui os anos que foram consu-
midos pelos gafanhotos (veja Joel 2.25). A Escritura mostra-nos
vários santos que cometeram grandes e amargos erros sobre a von-
tade de Deus para eles — Jacó enganando o pai, Moisés matando
o egípcio, Davi numerando o povo, Pedro boicotando os crentes
gentios — mas nenhum tornou-se incuravelmente de segunda clas-
se. Pelo contrário, todos eles foram perdoados e restaurados. É
assim que todos os santos verdadeiros vivem.
Conceber mal a vontade de Deus é menos pecaminoso do que
conhecê-la e não fazê-la. Se Deus restaurou Davi após o adultério
com Bate-Seba e o assassinato de Urias, e Pedro depois da tripla
negação de Cristo, não devemos duvidar de que ele possa restaurar
e que restaure cristãos que erram honestamente, enganando-se quan-
to à direção dele.
DIREÇÃO 87 Esta última frase abre o caminho para meu terceiro ponto: Idéi- as errôneas
DIREÇÃO
87
Esta última frase abre o caminho para meu terceiro ponto: Idéi-
as errôneas sobre a direção de Deus conduzem a conclusões erra-
das sobre a coisa certa a fazer.
A falha básica aqui é a desconsideração de um princípio escrito
grande na Escritura—grande demais para alguns enxergarem, tal-
vez. O princípio é que o caminho certo é sempre escolher o meio
mais sábio para o fim mais nobre, a saber, fazer avançar o reino e a
glória de Deus. A lei moral delimita a área dentro da qual a escolha
precisa ser feita (porque o pecado está sempre fora de limites; o fim
nuncajustifica os meios). Comparando os efeitos de curto e longo
prazo das alternativas de ação, a sabedoria dada por Deus nos leva
então dentro desses limites morais à melhor opção. E essa opção
será sempre o bem maior, ou, em situações desagradáveis, odiosas,
em que nenhuma linha de ação ou inação se mostra livre de aspec-
tos lamentáveis, o menor mal.
Ao fazer nossa escolha, aquilo que é meramente bom ("que
serve", como dizemos) nunca deve tornar-se o inimigo do melhor.
Nunca é suficiente perguntar, como fizeram os fariseus, se tal e tal
plano de ação está livre da nódoa do pecado. A pergunta deve ser:
E o melhor que posso imaginar para a glória de Deus e o bem das
almas? Deus nos capacita a discernir isso usando nossas mentes
com oração — pensando como a Escritura se aplica, comparando
alternativas, pesando os conselhos, levando em conta o desejo de
nosso coração, estimando nossa capacidade. Alguns chamam isso
de bom senso. A Bíblia lhe dá o nome de sabedoria. É uma das
dádivas mais preciosas de Deus.
Existe em tudo isso um toque pessoal de Deus? Certamente
que sim. Aqueles que Deus quer no pastorado, ou em trabalho mis-
sionário transcultural, ou em algum outro ministério especializado,
normalmente são levados a reconhecer que nunca encontrarão sa-
tisfação no trabalho fazendo outra coisa diferente. Quando Deus
tem uma carreira específica em mente para uma pessoa, ele coloca
88 RELIGIÃO VIDA MANSA naquela pessoa um interesse naquele campo especializado. Quando Deus planeja que
88
RELIGIÃO VIDA
MANSA
naquela pessoa um interesse naquele campo especializado. Quando
Deus planeja que duas pessoas devem casar-se, ele une seus cora-
ções. Mas as inclinações do coração de Deus (como distintas de
nossas próprias ambições e desejos autogerados) só são experi-
mentadas como coisas que combinam com os discernimentos da
sabedoria. Portanto, o interesse numa pessoa imprópria como côn-
juge da sua vida, ou interesse num ministério que está além de sua
capacidade, deve ser visto como tentação e não como chamado
divino.
Durante os últimos 150 anos, no entanto, uma abordagem dife-
rente para a tomada de decisões cristãs se tem estabelecido, um
método que subordina a importância do pensamento e da sabedoria
na busca de conhecer a vontade de Deus. Uma modalidade de dire-
ção mais direta e imediata do que a formação de um juízo sábio
sobre o que está em questão veio a ser desejada. Por quê? O dese-
jo parece refletir uma mistura de coisas.
Uma é a mentalidade de curto alcance, antiintelectual, orientada
pela emoção, da cultura secular de hoje que está a invadir e atulhar
as mentes cristãs.
Outra é uma admirável humildade. Os crentes não confiam em
si mesmos para discernir a linha de ação ideal a ser tomada e que-
rem que ela lhes seja revelada diretamente.
Outra é a idéia falsa de que aquilo que Deus quer que seus
filhos façam é irracional por padrões comuns e não algo a que a
sabedoria nos iria dirigir.
Outra é a cogitação de que, visto cada cristão ser objeto espe-
cial do amor de Deus, ele pode esperar instruções especiais de Deus,
sempre que tiver de tomar uma decisão significativa—uma idéia
imaginosa que parece refletir tanto de um egoísmo imaturo quanto
de uma fé infantil.
Outra é a presença na Escritura de narrativas de direção rece-
DIREÇÃO 89 bida que envolvem revelação direta, narrativas que servem de mo- delo verbal às
DIREÇÃO
89
bida que envolvem revelação direta, narrativas que servem de mo-
delo verbal às narrações atuais de orientação, deixando a impres-
são de que a direção é usualmente dada dessa maneira.
Alguns buscam a direção deixando a mente em branco e rece-
bendo o que então vem à tona na consciência como sendo orienta-
ção divina. Isto era uma rotina devocional diária no Grupo Oxford
de Frank Buchman (mais tarde, o Rearmamento Moral). Sem dúvi-
da conservou as pessoas honestas com suas próprias consciências,
e isso foi bom. Mas impulsos nebulosos e sonhos auto-indulgentes,
tanto como ferroadas da consciência, estarão vindo à tona em tais
ocasiões. Aqueles que presumem que qualquer "visão" que enche o
vazio vem de Deus não têm defesa contra a invasão de imaginações
obsessivas, grandiosas, autogratificantes, geradas por sua própria
vaidade.
Outros, como os adivinhos do paganismo da antigüidade e os
devotos da astrologia moderna, querem ouvir contar fatos sobre o
futuro, à luz dos quais possam mapear um roteiro inteligente no pre-
sente. Para eles, é o que significa direção. Mas a Bíblia nos instrui a
viver pelo preceito de Deus, em lugar de sondar a vontade oculta de
seu propósito. Como diz Deuteronômio 29.29: "As coisas enco-
bertas pertencem ao Senhor, nosso Deus, porém as reveladas nos
pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpra-
mos todas as palavras desta lei".
Outros, em vez de buscar sabedoria para fazer a coisa melhor e
que mais honre a Deus em dada situação, lançam sortes, ou colo-
cam situações nas quais pedem a Deus sinais (uma prática impreci-
samente baseada na ação de Gideão registrada em Juízes 6.36-40);
ou então esperam por uma "profecia" ou sonho ou visão ou voz do
céu no seu ouvido interno. Por vezes têm êxito em induzir a experi-
ência que buscam, como fez o cobiçoso Balaão. Existem poucas
experiências que não se podem induzir se o desejo é suficientemen-
90 RELIGIÃO VIDA MANSA te forte. Muitas pessoas já foram levadas desta maneira a se
90
RELIGIÃO VIDA
MANSA
te forte. Muitas pessoas já foram levadas desta maneira a se empe-
nhar em negócios duvidosos e leviandades imorais, crendo que Deus
aprovou ou até instigou tais planos.
Um erro semelhante é achar na Escritura mensagens privativas
da parte de Deus que, na realidade, não são mais do que a leitura
pessoal em que se leu um sentido que não se pode extrair do texto.
Meu amigo e professor de longos anos, Alan Stibbs, depois de pro-
meter servir a uma igrej a no norte da Inglaterra, foi convidado a um
posto bastante atraente no sul de Gales. Ele leu em Isaías 43.6,
"Direi ao Norte: entrega" e tirou a idéia de que Deus lhe estava
prometendo terminar providencialmente seu compromisso anterior
para liberá-lo para fazer o que sentiu que mais queria fazer. Quando
isso não aconteceu, Alan olhou novamente seu texto e viu que con-
tinua: "e ao Sul: não retenhas". Ele reconheceu que o versículo diz
respeito ao ajuntar do povo de Deus de todos os cantos depois do
exílio, e que ele se havia enganado com sua idéia original.
Deus é soberano e gracioso para com aqueles que o buscam
humildemente. Sem dúvida tem dado direção por vezes através de
todos os meios que mencionei, e sem dúvida o fará novamente. Mas
tais casos são exceções, e esperar que sejam regra é pedir proble-
ma. Que tipo de problema? Ou ilusão e zelo maldirecionado, ou
então apatia e falta de motivação, resultando de concluir que, se a
direção não chegou dessa maneira, não há nada em particular que
Deus quer que a pessoa faça. Qual é pior — atividade fanática ou
ociosidade passiva? Ser lunático ou ser preguiçoso? Ambos são
maus. Mas uma abordagem bíblica para o direcionamento nos sal-
vará das duas espécies de problema.
Como podemos formular essa abordagem? Apresento como
resumo os dez pontos de verificação seguintes:
1. Pergunte: O que será o melhor que posso fazer para
meu Deus?
91 DIREÇÃO 2. Observe as instruções da Escritura. O chamado a amar a Deus e
91
DIREÇÃO
2. Observe as instruções da Escritura. O chamado a amar
a Deus e aos outros, os limites colocados e as obriga-
ções impostas pela lei, a insistência em ação vigorosa
(Ec 8.10; 1 Co 15.58), e treino em sabedoria (veja Pro-
vérbios e Tiago especialmente) capacitam a pessoa a
fazer a melhor escolha entre as opções comportamentais
existentes.
3. Siga os exemplos de piedade da Bíblia. Imite o amor e a
humildade do próprio Jesus. Fazendo assim, não pode-
mos nos enganar muito.
4. Deixe a sabedoriajulgar qual é a melhor linha de ação.
Considere não só a sabedoria que Deus lhe dá pessoal-
mente mas a sabedoria corporativa de seus amigos e
mentores na comunidade cristã. Não seja um herói soli-
tário. Quando você acha que sabe a vontade de Deus,
peça uma verificação de sua percepção. Colha da sabe-
doria daqueles que são mais sábios do que você. Aceite
conselhos.
5. Observe empurrõezinhos de Deus que vêm no seu ca-
minho —preocupações especiais ou inquietações de es-
pírito poderão indicar que algo precisa ser mudado.
6. Valorize a paz divina que Paulo diz que guarda (que con-
serva seguro e firme) os corações daqueles que estão
dentro da vontade de Deus (Fp 4.7).
7. Observe, nas possibilidades, os limites colocados pelas
circunstâncias. Quando fica claro que esses limites não
podem ser mudados, aceite-os como partindo de Deus.
8. Esteja preparado para a direção de Deus estar retida
até chegar a hora certa de uma decisão. Deus geralmen-
te dirige um passo de cada vez.
92 RELIGIÃO VIDA MANSA 9. Esteja preparado para Deus dirigi-lo a alguma coisa que você
92
RELIGIÃO VIDA
MANSA
9. Esteja preparado para Deus dirigi-lo a alguma coisa que
você não gosta e ensiná-lo a gostar dela!
10. Nunca se esqueça de que se você tomar uma má deci-
são, não é o fim. Deus perdoa e restaura. Ele é seu Deus
e Salvador da aliança. Ele não lhe soltará, por pior que
você tenha escorregado. "O inimiga minha, não te ale-
gres a meu respeito; ainda que eu tenha caído, levantar-
me-ei; se morar nas trevas, o Senhor será a minha luz"
(Mq7.8).
São palavras de grande conforto para todos os que querem
fazer a vontade de Deus mas temem não a ter acertado. O Senhor é
meu Pastor. Ele me conduz. Não preciso ficar preocupado! Ai, que
alívio!
Fantasia e Realidade
Como dissemos de saída, a direção é um assunto complicado para
muitos cristãos dos nossos dias. A maioria de nós játeve experiên-
cia própria com problemas de direção, ou nossos ou de outras pes-
soas a quem temos tentado ajudar. Pense bem sobre essas perple-
xidades. Por que tantos problemas dessa espécie surgem? De onde
vêm as dificuldades? A maioria vem de nossa própria confecção.
Em nossa busca da direção de Deus tornamo-nos nossos próprios
piores inimigos. O que acontece? Entramos em parafuso duplo.
Por um lado, perdemos o controle teológico, de forma que su-
perstições excêntricas tomam conta. Isolamos e estreitamos a ques-
tão da direção de modo a tratar só das grandes decisões que envol-
vem riscos grandes para o futuro — a escolha de um cônjuge, a
vocação ou emprego, ou o lugar para morar. Isolar assim é má teo-
logia e leva ao erro subseqüente de achar que a direção nesses as-
suntos vem inexplicavelmente, vem sem precedentes, como um orá-
culo refletindo fatos sobre o futuro que nós mesmos não conhece-
DIREÇÃO 93 mos e não podemos conhecer. Aqueles que procuram direção por meio de uma
DIREÇÃO
93
mos e não podemos conhecer. Aqueles que procuram direção por
meio de uma profecia, de uma voz interior, de um sinal ou de uma
escolha aleatória de versículos bíblicos estão sob o feitiço desse
conceito equivocado.
No outro extremo, apegamo-nos à ilusão romântica de que to-
das as experiências de verdadeiro direcionamento poderão ser re-
latadas em termos da fórmula: "O Senhor me disse" isso e aquilo.
Tais experiências, achamos nós, produzem certeza absoluta de que
está certa uma ação específica. Quando falta uma experiência que
poderemos descrever dessa forma dizemos que ainda não recebe-
mos direção. Se depois de orar, entretanto, temos um impulso pre-
mente em nosso pensamento, saudamos a idéia como sendo "minha
direção divina" e desafiamos qualquer um a nos persuadir o contrá-
rio. Estamos certos? E provável que não. Contudo, essa idéia de
direção está tão bem estabelecida em nosso pensamento que um
livro recente pôde chamá-lo de ponto de vista "tradicional".
O que diremos disso? A primeira coisa é dizer que a idéia de
direção divina é na verdade uma novidade entre os evangélicos or-
todoxos. E só do século dezenove. Segundo, levou as pessoas a
tanta ação tola por um lado, e a tanta falta de ação tola pelo outro,
bem como à perplexidade e à dor profunda quando o "canal direto"
para Deus parece silenciar, que tem de ser visto como desacredita-
do. Terceiro, é preciso dizer que a Escritura não nos dá maior auto-
rização para esperar constantemente a direção do "canal direto", da
"voz da torre de controle", do que para esperar novas revelações
autorizadas para o direcionamento de toda a igreja.
É certo que a direção de Deus é prometida a todo crente. Cer-
tamente alguns indivíduos da Bíblia (Gideão, Manoá e sua esposa, e
Filipe, por exemplo) receberam direção do tipo "canal direto" —
assim como alguns personagens bíblicos receberam, de fato, reve-
lações de verdade universalmente autorizada, e assim como o "ca-
nal direto" de Gideão, dado por teofania, foi mais tarde confirmado
94 RELIGIÃO VIDA MANSA por coisas admiráveis acontecidas com "uma porção de lã" em duas
94
RELIGIÃO VIDA
MANSA
por coisas admiráveis acontecidas com "uma porção de lã" em duas
noites seguidas. Mas, como dissemos anteriormente, devemos apren-
der a distinguir entre o comum e o extraordinário, o constante e o
ocasional, a regra e a exceção.
Deus poderá revelar-se e dar direcionamento a seus servos da
forma que ele quiser. Não cabe a nós colocar limites sobre ele. Mas
permanece a questão de saber se temos ou não o direito de esperar
revelações numa base regular. A resposta correta é não. Todas as
narrações bíblicas da comunicação direta dele com os homens são,
ajulgar pela aparência, excepcionais, e o modelo bíblico de direção
pessoal é bastante diferente.
A Escritura apresenta o direcionamento como uma bênção da
aliança prometida a cada participante do povo de Deus na forma de
instruções sobre como viver, tanto em termos de planos de ação
amplos como na tomada de decisões específicas. "Instruir-te-ei e te
ensinarei o caminho que deves seguir; e, sob as minhas vistas, te
darei conselho" (SI 32.8). "Bom e reto é o Senhor, por isso, aponta
o caminho aos pecadores. Guia os humildes najustiça e ensina aos
mansos o seu caminho" (SI 25.8-9). Como Deus dirige? Pela instru-
ção. Como ele instrui? Em parte moldando nossas circunstâncias e
em parte pelo seu dom da sabedoria para entender o ensino da sua
Palavra e aplicá-la a nossas circunstâncias. O método regular de
direcionamento de Deus é uma combinação da providência e da
instrução. O que poderá acrescentar em qualquer caso particular
não poderá ser adivinhado antecipadamente. Mas a sabedoria sem-
pre será dada se formos suficientemente humildes e dóceis para
recebê-la.
O direcionamento de Deus é mais como aquele recebido em
aconselhamento para o casamento, para a educação de filhos ou
para a escolha de profissão, do que como o do controlador do
aeroporto que dirige o avião com uma série minuciosa de instruções
de pouso quando se está voando cego através das nuvens. Buscar a
DIREÇÃO 95 direção de Deus não é como procurar um adivinho ou consultar oráculos, astrólogos
DIREÇÃO
95
direção de Deus não é como procurar um adivinho ou consultar
oráculos, astrólogos e clarividentes para que dêem informações
sobre o futuro; antes é comparável à consideração quotidiana de
opções alternativas em dadas situações, para determinar o melhor
caminho aberto diante de nós. A experiência interior de ser divina-
mente dirigido geralmente não é aquela em que vejamos sinais ou
ouçamos vozes, e sim a de ser capacitado a ir trabalhando e desco-
brindo a melhor coisa a fazer.
A apresentação clássica na Bíblia da vida dirigida e da realida-
de do direcionamento que a produz é o Salmo 23, o amado salmo
do pastor. Os cristãos devem lê-lo como declaração sobre o que
significa ser um crente dirigido através da vida pelo Deus que é Pai,
Filho e Espírito Santo. O retrato é o santo como ovelha divinamente
guiada. Tolo e capaz de extravios como eu sou ("Propenso a vagar,
Senhor, me sinto;
propenso a deixar o Deus que amo"), 4 meu Deus
da aliança não me deixará sem segurança ou sustento. Ele me provi-
dencia descanso ("junto às águas" paradas), refrigério ("restaura a
minha alma"), proteção ("pelo vale da sombra da morte"), enri-
quecimento ("preparas uma mesa"), e prazer ("bondade e miseri-
córdia me seguirão"). Direção é uma faceta desse cuidado pactuai
com o qual o Rei do Amor amorosamente me aproxima do destino
do livramento e deleite que planejou para mim antes da criação do
mundo.
Olhe mais de perto o versículo 3: "Guia-me pelas veredas da
justiça por amor do seu nome". "Veredas dajustiça" são moldes
comportamentais que agradam a Deus porque correspondem a seus
mandamentos e combinam com sua natureza moral. Decisões
vocacionais perceptivas e prudentes certamente estão incluídas, mas
4
pobre e desgarrado
Do hino "Come Thou Fount of Every Blessing" por Robert Robinson, hino
que em português começa "Vem, Senhor, do bem a fonte" — nesta parte: "Era
"
96 RELIGIÃO VIDA MANSA a idéia básica é que nosso Deus santo nos chama para
96
RELIGIÃO VIDA
MANSA
a idéia básica é que nosso Deus santo nos chama para ser santos.
Essa é a essência do direcionamento bíblico. "Por amor do seu nome"
se refere à promoção de sua glória (i.e., ao louvor como resposta
pelo merecimento de louvor que ele revela) por sua demonstração
de fidelidade à aliança. O Senhor é meu Pastor; ele se compromete
a
me olhar, comandar minhas viagens, ficar comigo e me trazer para
o
lar em segurança. Ele não falhará em seu compromisso. Finalmen-
te, "guia-me" significa que pela sua instrução providencial ele dá-me
sabedoria para enxergar a coisa mais certa — a mais frutuosa, a
mais pura e nobre, aquela que mais semelha a Cristo e que mais
honra a Deus — que posso fazer em cada situação, e ele me motiva
a isso.
Como Deus dá esse discernimento? Dizemos que é questão de
sabedoria. De onde vem essa sabedoria? Essa pergunta pode ser
respondida de duas maneiras. Pelo aspecto formal e teológico, a
resposta é: da Palavra de Deus e do Espírito. E pelo aspecto pes-
soal e experiencial, a resposta é: de ser transformado pela graça de
Deus. Cada resposta faz parte da outra; as duas se juntam.
O ensino de Deus na Escritura é nosso guia básico para a vida.
A história e a biografia bíblica ilustram e reforçam, tanto positiva
como negativamente, a exigência divina de fé e fidelidade que tantos
textos didáticos explicam em detalhe. O Espírito Santo que inspirou
as Escrituras autentica os textos para nós como sendo Palavra de
Deus, fazendo com que nos seja impossível duvidar de sua autori-
dade, e ele os interpreta para nós à medida que lemos e meditamos
neles, e ouvimos e lemos exposições de outras pessoas sobre eles.
A interpretação significa exatamente ver como se aplicam. Os co-
mentários podem dizer-nos o que o texto quis dizer como expres-
são da mente do escritor a quem primeiro foi dirigido, mas só o
Espírito Santo pode mostrar-nos o que quer dizer como Palavra de
Deus que é diretriz para nossa vida hoje. Só através do Espírito a
direção da Escritura é realidade.
DIREÇÃO 97 Dois pontos ficam, muitas vezes, despercebidos. Primeiro, há muitas situações nas quais os
DIREÇÃO
97
Dois pontos ficam, muitas vezes, despercebidos. Primeiro, há
muitas situações nas quais os princípios gerais da Bíblia são tudo o
que precisamos ou que receberemos para nosso direcionamento.
Em operações militares o general dá ao comandante das tropas as
ordens do dia na forma de objetivos (capture esse ponto forte, de-
fenda aquela posição, desloque as tropas para tal lugar) e deixa que
seu subordinado providencie os meios. Deus muitas vezes nos guia
do mesmo modo, deixando que nós usemos a inteligência que ele
nos deu para implementar da melhor forma possível os princípios e
prioridades bíblicas. É parte do processo pelo qual ele nos faz cres-
cer e maturar em Cristo.
Segundo, a lei moral da Escritura, que é o manual de normas da
família para todos os filhos de Deus, deixa-nos livres para fazer nos-
sas próprias escolhas quanto ao modo de usar as coisas criadas —
que interesses vamos levar adiante, os hobbies que praticamos, e
assim por diante. Nenhuma direção deve ser esperada nessas áreas
a não ser as regras gerais de não deixar o bom substituir o melhor,
não magoar outros pelas maneiras que nos divertimos, e não nos
prejudicarmos com nenhuma indulgência excessiva que nos desvia
do céu para a terra e do Doador para as coisas que ele doou. Estas
são as regras de usar a liberdade com responsabilidade.
Por outro lado, o discernimento interior da coisa melhor e mais
santa a ser feita é sempre um fruto da fé, arrependimento, consagra-
ção e transformação pelo Espírito Santo. São bem conhecidas as
palavras iniciais de Romanos 12: "Rogo-vos, pois, irmãos, pelas
misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício
vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não
vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renova-
ção da vossa mente" (w. 1 -2). Menos freqüente é a ênfase naquilo
que vem em seguida: "para que experimenteis [ou proveis] qual seja
a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (v.2). Provar significa
"discernir examinando as alternativas", e o ponto principal de Paulo
98 RELIGIÃO VIDA MANSA é que existe um pré-requisito moral e espiritual para poder ver
98
RELIGIÃO VIDA
MANSA
é que existe um pré-requisito moral e espiritual para poder ver em
cada situação o que Deus quer que se faça. Aqueles cujas mentes
Deus está transformando hoje poderão ainda errar sobre aspectos
específicos da vontade de Deus em áreas onde seu ponto de vista
terreno ainda domina; mas quando não está em progresso nenhuma
operação de renovação interior, não se poderá esperar nenhum
discernimento adequado da vontade de Deus sobre nenhum ponto.
A direção é a dádiva de Deus àqueles que estão olhando para ele
— e isso significa, precisamente, olhando para Jesus Cristo—para
salvá-los do pecado. "Guia os humildes na justiça, e ensina aos
mansos o seu caminho" (SI 25.9, ênfase acrescentada).
Notemos aqui a importância dos modelos. Os apóstolos nos
mandam imitar Cristo e também eles próprios. Essa imitação impor-
ta em ser contagiado pelo amor humilde, sacrificial, de alto preço —
o amor que se desgasta e que é desgastado até o limite no seu esfor-
ço de otimizar a outra pessoa. Parte do discernir da vontade de
Deus é a percepção da necessidade de manter essa atitude em to-
dos os relacionamentos e evitar os altos do ego que são a negação
disso.
A importância da corporeidade em nossa busca de conhecer a
vontade de Deus também precisa ser enfatizada. Não fomos feitos
nem redimidos para uma solitária auto-suficiência. Não devemos
esperar que nosso cabedal particular de sabedoria e discernimento
baste, sem o suplemento vindo de fontes externas. "Na multidão de
conselheiros há segurança" (Pv 11.14). Nunca devemos deixar que
o orgulho nos impeça de buscar e aceitar conselhos de pessoas
mais sábias e piedosas do que nós. A orientação pessoal que acre-
ditamos ter recebido por um empurrãozinho do Senhor precisa ser
verificada com crentes capazes de reconhecer logo qualquer falta
de realismo, qualquer ilusão ou tolice quando o virem. O Espírito
Santo costuma utilizar-se da comunhão do corpo de Cristo para
aprofundar nosso discernimento da vontade de Deus. Faz parte da
DIREÇÃO 99 disciplina da orientação divina estar preparado para o Espirito con- firmar a vontade
DIREÇÃO
99
disciplina da orientação divina estar preparado para o Espirito con-
firmar a vontade dele para nossas vidas por meio de outros crentes.
É essa, então, a direção divina conforme as Escrituras. Poderá
ser mais do que isso. O que é certo, porém, é que nunca será me-
nos. Qualquer suposto direcionamento que divergir da Biblia, dos
limites da possibilidade colocados pela divina providência, e do
discernimento do coração regenerado quanto ao que mais traz hon-
ra e agrado a nosso Deus Salvador, terá de serjulgado falso e enga-
noso.
Nesta época de autoconfiança superficial e secularizada, peri-
gos ocultos são abundantes. Temos de examinar nosso coração ve-
zes e mais vezes para não iludirmos a nós mesmos e a outros imagi-
nando que recebemos a orientação de Deus quando na realidade
nossos próprios desejos estão nos desencaminhando. Mas Deus
permanece fiel, e ainda poderá acontecer de todo cristão poder dar
o testemunho honesto e verdadeiro de que ele "guia-me pelas vere-
das da justiça por amor do seu nome". Louvado seja seu santo
nome!
Direção Verdadeira
Já expliquei que Deus normalmente orienta seus filhos na hora de
tomar decisões pela sabedoria de base bíblica. Já descartei a idéia
de que a direção divina seja usualmente ou mesmo essencialmente
uma voz interior contando-nos fatos desconhecidos por outro meio,
e prescrevendo maneiras de agir estranhas. Critiquei a maneira que
alguns crentes aguardam passivamente o direcionamento e fazem "a
prova da lã", como Gideão, quando estão perplexos, em vez de
seguir, com oração, aonde a sabedoria os dirige. Depois de tudo
isso, estou certo de que há murmurações. Alguns leitores talvez acre-
ditem que eu tenha minimizado, e assim desonrado, o ministério
orientador do Espírito Santo. Não se pode dizer o que eu já disse
aqui na atmosfera cristã aquecida da virada do milênio sem provo-
100 RELIGIÃO VIDA MANS A car essa reação. Portanto agora há a necessidade de discutir
100
RELIGIÃO VIDA
MANS A
car essa reação. Portanto agora há a necessidade de discutir de
forma direta o papel do Espírito Santo como guia.
O que menos quero fazer é desonrar, ou levar outros a deson-
rarem, o Espírito Santo. Mas o fato deve ser encarado, que nem
todos os esforços que buscam honrar o Espírito Santo são bem-
sucedidos em seu propósito. Existe a tal ilusão fanática, assim como
existe o intelectualismo estéril. Visões superaquecidas da vida no
Espírito poderão ser tão prejudiciais quanto as versões de "pneu
furado" do Cristianismo que minimizam o ministério do Espírito. Em
relação à direção dele isso é ainda mais verdade.
O que significa ser "guiado pelo Espírito" na tomada de deci-
sões? Essa frase, que se encontra em Romanos 8.14 e Gálatas 5.18,
se refere à resistência contra impulsos pecaminosos, não à tomada
de decisões. Contudo, a questão do que significa ser guiado pelo
Espírito na escolha de formas de agir é válida e importante.
O Espírito dirige ajudando-nos a entender as diretrizes bíblicas
dentro das quais devemos nos manter, os alvos bíblicos a que deve-
mos visar, e os modelos bíblicos que devemos imitar, bem como os
maus exemplos pelos quais devemos ser avisados de perigo.
Ele nos orienta por meio de oração e do conselho de outras
pessoas, dando-nos sua sabedoria quanto à maneira melhor de se-
guir o ensino bíblico.
Ele nos guia dando-nos o desejo de crescimento espiritual e da
glória de Deus. O resultado é que se aclaram mais as prioridades
espirituais, e aumentam nossos recursos de sabedoria e experiência
para saber tomar decisões no futuro.
E finalmente, ele nos dirige fazendo-nos sentir grande prazer na
vontade de Deus, de maneira que nós nos vemos desejosos de fazê-
la por saber que é o caminho melhor. Os caminhos da sabedoria
serão "caminhos deliciosos" (Pv 3.17). Se a princípio não gostamos
daquilo que vemos ser a vontade de Deus para nós, Deus mudará
nossa atitude se nós o permitirmos. Deus não é um sádico, dirigin-
DIREÇÃ O 101 do-nos a fazer o que não queremos para que nos possa ver
DIREÇÃ O
101
do-nos a fazer o que não queremos para que nos possa ver sofrer.
Ele quer alegria para nós em todos os modos de agir aos quais nos
dirige, mesmo aqueles dos quais a princípio nos retraímos, e que, de
fato, implicam desagrados exteriores.
Ninguém, quero crer, irá discutir o que acabo de dizer, mas
alguns diriam que é só a metade da história. Diriam que parte do que
significa ser guiado pelo Espírito é a pessoa receber instruções do
Espírito por profecias e revelações interiores, tais como aquelas que
vinham repetidas vezes a indivíduos piedosos em tempos bíblicos
(veja Gn 22; 2Cr 7.12-22; Jr 32.25; At 8.29; 11.28; 13.4; 21.11;
1 Co 14.30). Essas pessoas acreditam que essa espécie de comuni-
cação seja o cumprimento da promessa de Deus, de que "os teus
ouvidos ouvirão atrás de ti uma palavra, dizendo: 'Este é o caminho,
andai por ele' " (Is 30.21). Elas têm certeza de que algumas impres-
sões dessa natureza deverão ser identificadas como sendo "a pala-
vra do conhecimento" de 1 Coríntios 12.8. Insistem que isso é ori-
entação divina em sua forma mais elevada e mais pura, aquela que
os cristãos deverão buscar constantemente, portanto. Os que me-
nosprezam isso, diriam, mostram assim que eles têm uma visão ex-
cessivamente limitada da vida no Espírito.
A isso devo responder claramente. Reconheço que esta é uma
linha de pensamento em que muitas pessoas que são, estou certo,
melhores cristãos do que eu acreditam sinceramente. Entretanto,
considero isso errado e prejudicial, e vou agora apresentar meu
argumento. Escolho minhas palavras com cuidado, porque alguns
dos argumentos que refutam esse ponto de vista são tão errados e
prejudiciais quanto o próprio ponto de vista. O caminho da sabedo-
ria se parece com andar na corda bamba, da qual é possível cair
pelo desequilíbrio ou para a esquerda ou para a direita. Como na
frase inteligente de Richard Baxter, "Fazer demais é desfazer", po-
demos dizer que reagir demais é solapar.
A questão aqui não é se a vida no Espírito de uma pessoa é
102 RELIGIÃO VIDA MANS A superficial ou profunda, como se quanto mais se avança espiritual-
102
RELIGIÃO VIDA
MANS A
superficial ou profunda, como se quanto mais se avança espiritual-
mente, tanto mais se busca e se encontra direcionamento por meio
de profecias e revelações interiores. Nem é uma questão de saber
se Deus tanto se limitou que nunca se comunicará diretamente com
os cristãos de hoje como fez com alguns santos dos tempos bíbli-
cos. Pela minha ótica, também não há base bíblica para correla-
cionar maturidade espiritual e direção divina direta, nem mesmo para
negar que Deus possa ainda indicar sua vontade a seus servos de
modo direto. A verdadeira questão é dupla: o que devemos esperar
de Deus a esse respeito, e o que devemos fazer com quaisquer
impressões invasoras que venham para nosso lado.
O que os cristãos devem fazer quando sentem que Deus lhes
falou diretamente que deveriam dizer ou fazer uma coisa? Deverão
enfrentar com firmeza os seguintes fatos:
1. Se alguém hoje receber uma manifestação direta da parte de
Deus, ela não terá nenhuma significação canónica. Não passará a
fazer parte da regra de fé e prática da igreja nem estará a igreja
obrigada de forma alguma a reconhecer a manifestação como sen-
do revelação; também ninguém merecerá culpa por ter suspeitado
que aquela manifestação não tenha vindo de Deus. Se a chamada
manifestação for um vaticínio (como quando Rees Howells, funda-
dor da Faculdade Bíblica de Gales, predisse, ainda em 1930, no
seu livro God Challenges the Dictators [Deus Desafia os Ditado-
res], que não haveria nenhuma Segunda Guerra Mundial), Moisés
nos assegura que não é nem um caso primafacie, para ser tratado
como vindo de Deus, enquanto não se vir seu cumprimento
(Dt 18.21 ss.). Se a manifestação for uma diretriz (como quando um
líder sustenta que Deus o mandou fundar um hospital, uma universi-
dade, uma missão ou uma cruzada de algum tipo), quaisquer pes-
soas que se associarem com seu projeto devem fazer isso porque a
103 DIREÇÃO sensatez lhes diz que essa obra é necessária, realista, e que honra a
103
DIREÇÃO
sensatez lhes diz que essa obra é necessária, realista, e que honra a
Deus, não porque o líder lhes conta que Deus deu uma ordem direta
a ele (e por inferência também a elas) para que tentem isso.
As pessoas que acreditam que receberam indicações diretas
daquilo que Deus fará, ou do que elas devem fazer, deverão evitar
em todas as situações (cultos, reuniões de diretoria, reuniões de
família ou amigos, preparação de publicações, ou seja o que for)
pedir que os outros concordem que uma revelação direta lhes tenha
sido dada; e os cristãos que o ouvem devem receber um pedido
dessa natureza com silêncio resoluto.
2 . 0 direcionamento dessa forma específica não é prometido.
Sua ocorrência, como já dissemos, é extraordinária, excepcional e
anômala. Nenhuma Escritura nos leva a esperar ou procurar isso.
Isaías 30.21, que poderá parecer apontar para tal, realmente é uma
promessa de ensino sábio por meio de mestres sábios. Ninguém,
portanto, que creia ter recebido uma revelação direta em alguma
ocasião deverá procurar uma repetição do evento. A idéia de que
pessoas espirituais poderão esperar esse tipo de orientação com
freqüência, ou que tais experiências são prova de sua santidade ou
de seu chamado e aptidão para liderar outros, deverá ser descarta-
da de vez.
3. As comunicações diretas vindas de Deus tomam a forma de
impressões, e as impressões podem vir, mesmo para as pessoas
mais devotas e dedicadas à oração, de fontes tão turvas como pen-
samentos baseados em desejos, e não fatos, medo, neurose obses-
siva, esquizofrenia, desequilíbrio hormonal, depressão, efeitos
colaterais de medicação, e engano satânico, bem como de Deus. É
necessário suspeitar das impressões antes de sancionadas, e testa-
das, antes de merecerem confiança. Crer confiantemente que as
104 RELIGIÃO VIDA MANSA impressões são dadas por Deus não atesta que sejam, mesmo quando
104
RELIGIÃO VIDA
MANSA
impressões são dadas por Deus não atesta que sejam, mesmo quando
persistem e se tornam mais fortes através de longos períodos de
oração. Precisam ser julgadas pela sabedoria bíblica.
Duas tragédias de impressões maldirigidas me vêm à lembran-
ça. Ambas envolviam homens piedosos que foram grandemente uti-
lizados em ministério espiritual. Rees Howells, já mencionado, in-
formou sua comunidade do instituto bíblico que, por meio dele, Deus
estava proibindo o matrimônio para aqueles que desejavam dedi-
car-se totalmente a servir o Senhor. Desse ensino não-bíblico resul-
tou devastação total. Em outro caso, alguns anos antes, o america-
no Frank Sandford teve a impressão de que deveria cruzar o Atlân-
tico num iate a fim de interceder por avivamento mundial. Quando
um colega ficou doente, ele teve a impressão de que deveriam en-
trar num porto para um tratamento. O homem morreu. Depois de
cumprir uma sentença na prisão por aquilo que fez, Sandford teve a
impressão de que deveria reproduzir a vida oculta de Elias antes da
disputa no Carmelo. Então fez isso, vivendo inteiramente incógnito,
exceto salvo por alguns amigos, até sua morte. Esses são exemplos
de impressões não postas sob discernimento, e de seus resultados
funestos. Seguir impressões, por mais que estejam ligadas às preo-
cupações santas da evangelização, da intercessão, da piedade e do
avivamento, não é ser guiado pelo Espírito.
Seguir impressões que não passaram por umjulgamento, parti-
cularmente quando se trata de sexo, dinheiro e poder, leva os inimi-
gos do Senhor a blasfemar e desacreditar toda a idéia da vida orien-
tada. Em reação, alguns concluem que nunca existem impressões
específicas dadas pelo Espírito Santo e que toda reivindicação
alegada deve ser pura ilusão. Mas isso também é errado. As im-
pressões — não revelações de informação, mas enfoques de preo-
cupação — fazem parte da vida cristã. Quando dizemos que temos
uma "visão" de algo ou que "pesa no espírito" algum assunto, esta-
mos nos referindo a uma impressão. Quando nossa preocupação é
DIREÇÃO 105 biblicamente apropriada, estamos certos ao considerar nossa im- pressão como uma "cutucada" do
DIREÇÃO
105
biblicamente apropriada, estamos certos ao considerar nossa im-
pressão como uma "cutucada" do Espírito Santo.
Neemias fala daquilo que "Deus [lhe] pusera no coração para
[ele] fazer em Jerusalém" (Ne 2.12), e com oração, persuasão e
garra, Neemias completou a obra. Paulo e Silas "tentaram ir para
Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu (At 16.7) — isto é,
uma impressão interior os constrangeu. Deus, como logo descobri-
ram, estava dirigindo-os à Grécia. A mente de Paulo não sossegou
— "Não tive tranqüilidade no meu espírito" — enquanto evange-
lizava Trôade, porque Tito não chegava (2Co 2.13; espírito em
grego é amenté iluminada pelo Espírito de Deus). Então Paulo saiu,
inferindo que seu desassossego era Deus indicando que devia ir em
busca de Tito em vez de continuar a missão de Trôade. São exem-
plos bíblicos de santos sendo pressionados ou impulsionados por
Deus em direções específicas. E uma experiência que a maioria dos
cristãos conhece.
Minha posição não é que o Espírito de Deus não dê nenhuma
orientação direta, e sim que as impressões devem ser rigorosamente
testadas pela sabedoria bíblica — a sabedoria corporativa da co-
munidade crente, bem como a sabedoria pessoal. Se isso não acon-
tece, permite-se às impressões fundamentadas no egoísmo, no or-
gulho, na irrealidade teimosa, na idéia fantasiosa de que a irracio-
nalidade glorifica a Deus, no sentimento de que algum ser humano é
infalível, ou em semelhantes conceitos errôneos, que elas passem
sob disfarce como sendo dadas pelo Espírito. Só as impressões
verificadas como biblicamente apropriadas e sábias na prática é que
devem ser reconhecidas como vindas de Deus. As pessoas que re-
cebem impressões sobre o que devem fazer ou em que devem crer
precisam pôr em dúvida tais impressões até que sejam bem tes-
tadas.
Nem se pode estar certo, ainda assim, quanto às impressões
que se tem. Algumas impressões parecem ser casos de clarividên-
106 RELIGIÃO VIDA MANS A cia, santificados para impedir ou encorajar (como em casos registrados
106
RELIGIÃO VIDA
MANS A
cia, santificados para impedir ou encorajar (como em casos
registrados de cristãos que se sentiram constrangidos a sair de trens
e aviões que mais tarde sofreram desastres, ou quando C.T. Studd
viu na margem de sua Bíblia as palavras China, índia, Africa, as
três partes do mundo onde subseqüentemente foi servir a Deus como
missionário pioneiro). Não há uma maneira certa de testar tais im-
pressões. Há ocasiões em que não se pode saber se a impressão da
pessoa foi uma mensagem de Deus ou imaginação humana. A con-
clusão correta a tirar é que nós devemos buscar fazer aquilo que,
segundo padrões bíblicos, melhor favorece a glória de Deus e o
bem dos outros, e Deus então estará conosco — só isso.
As rádios, quando eu era menino, estalavam com interferência
atmosférica, tornando impossível uma recepção clara. Todas as for-
mas de autocentrismo e auto-indulgência, desde a indisciplina e ile-
galidade em nível superficial até a sutileza do elitismo grandioso ou a
irreverência de não obedecer à orientação j á recebida, estarão ge-
rando interferência atmosférica no coração, dificultando o reconhe-
cimento da vontade de Deus e tornando menos completa e exata a
realização do teste das impressões. Mas aqueles que são "guiados
pelo Espírito" para uma santidade humilde também serão "guiados
pelo Espírito" na avaliação de suas impressões e assim serão cada
vez mais capazes de distinguir entre as "cutucadas" do Espírito e o
desejo impuro e inadequado. Ele "ensina aos mansos o seu cami-
nho" (SI 25.9). Então devemos dizer: Bem-aventurados os puros de
coração, porque eles conhecerão a vontade de Deus.
6 Alegria Uma Disciplina Negligenciada ./4 s casa s tê m cozinhas , e a
6
Alegria
Uma Disciplina
Negligenciada
./4 s casa s tê m cozinhas , e a s cozinha s tê m pias , e e m muita s pia s
há um detergente cuja embalagem plástica diz "Joy", apalavra "Ale-
gria" em inglês. Contém detergente para lavar a louça. Por que cha-
mar um detergente de "Alegria"? Porque é uma palavra que emite
boas vibrações, como gostam de dizer. E uma palavra que faz a
pessoa se sentir cheia de vida, e quando se lava louça é preciso ter
esse entusiasmo de vida.
A palavra tem esse efeito porque ela se liga ao desejo de nosso
coração. Queremos alegria. Fomos feitos para a alegria. O valor
dos seres humanos é por vezes afirmado citando-se a frase: "Deus
não faz ninguém para a desgraça". Semelhantemente, podemos afir-
mar o alvo verdadeiro da vida humana, dizendo: "Deus não faz nin-
guém para a tristeza". Se somos tristes, é porque escolhemos dizer
não à alegria. Permanece o fato de que Deus pretendeu a alegria
para nós desde o início.
A Alegria é Intencionada
Deixe-me dizer isso por extenso. A Escritura mostra que Deus cria
os seres humanos tendo em vista sua alegria. "O fim principal do

108

RELIGIÃO VIDA

MANSA

homem é glorificar a Deus e agindo assim desfrutá-lo para sempre" (Catecismo Menor de Westminster, resposta à pergunta 1). Alegria foi o plano de Deus para o homem desde o início. O propósito de Deus, que nós tivéssemos prazer nele, diretamente na comunhão

direta face a face, e indiretamente pelo prazer naquilo que ele criou,

se mostra no fato de o lar terreno dado a Adão e Eva ter sido um

jardim de prazeres (o Eden) onde Deus mesmo andava na fresca da tarde. O salmista recupera uma sanidade espiritual que havia quase perdido quando declara: "Estou sempre contigo; tu me seguras pela minha mão direita, tu me guias com o teu conselho e depois me recebes na glória. Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em

quem eu me compraza na terra

e

(SI 73.23-28). O pensamento é o mesmo encontrado em Salmos 43.4 onde Deus é chamado de "a minha grande alegria". O Novo Testamento nos conta que nossa redenção e vida em Cristo inverte

a situação de maldição e morte que tínhamos em Adão (veja

Rm5.12-19; ICo 15.2 lss.), que Deus "tudo nos proporciona rica- mente para nosso aprazimento" (1 Tm 6.17), e que os santos glorifi- cados têm prazer perpétuo no Deus a quem perpetuamente adoram (ver Ap 7.9-17; 21.1-4; 22.1-5). Assim parece que a atividade salvadora vindica, restaura, e cumpre seu propósito original de ale- gria para o homem que a malícia satânica e o pecado humano frus- traram. Alegria para o mundo continua sendo o alvo de Deus.

Deus é a fortaleza do meu coração Bom é estar junto a Deus"

a minha herança para sempre

O Novo Testamento leva-nos um passo adiante na compreen-

são disso. No Evangelho de João é descortinado o amor e a honra mútuos que ligam Pai, Filho e Espírito Santo na união do único Deus eterno (ver João 2.16ss.; 4.34; 5.19-30; 6.38-40; 12.27ss.; 14.31; 16.13-15), e Jesus ora ao Pai pedindo que seus discípulos sejam

"um

17.21-23). Ele afirma seu desejo para "que eles tenham o meu gozo

completo em si mesmos" (v. 13). O propósito original de Deus era

em nós

como nós o somos: eu neles e tu em mim" (João

ALEGRI A

109

que os humanos compartilhassem a unidade alegre da Trindade; e o evangelho de Cristo, que proclama libertação do pecado, e que se apoia na bondade providencial de Deus (ver At 14.17; Rm 2.4), é um convite para entrar para este gozo através do culto penitente e confiante. É no amor ao Pai e ao Filho — amor que se espelha no amor do Filho para com o Pai — que a plenitude da alegria será finalmente encontrada. Mas o pecado — auto-adoração, transgres- são, descrença, impenitência — separa-nos da alegria de Deus e nos expõe, ao contrário, a uma eternidade ímpia, sem Deus (ver Jo 3.16-21; Rm 1.18 - 2.16; Ap 22.11-15). Só que o convite do evangelho ainda está de pé, e a culpa é só nossa se abraçarmos o pecado e deixarmos de conhecer a alegria no presente e no futuro.

Pare agora e pergunte-se: Conheço eu a alegria como elemento principal, como base central, realidade constante na minha vida? "Raramente tu vens,/Espírito do deleite", escreveu o poeta Shelley, e não nos deve causar surpresa a experiência dele, porque ele foi um teimoso e ardoroso defensor do ateísmo. O cristão, no entanto, descobre que, embora viver nesse mundo decaído e desordenado nunca seja "um piquenique", contudo poderá ser um passeio pelo "caminho da alegria" em resposta ao chamado de Deus.

A Alegria é Preciosa

Delongar-nos sobre a preciosidade da alegria é desnecessário. A

a alegria transforma a mera existên-

cia em vida de verdade. Alegria é a vida com "V" maiúsculo. Ale- gria produz lágrimas, e quando você chora de alegria, não é porque você está triste. Lembro-me de meu filho com a idade de sete ou oito anos, rolando no chão com os olhos cheios de lágrimas, e di- zendo: "Estou tão alegre! Estou tão alegre!". Por que isso? Porque pela primeira vez na vida tinha vencido o pai no pingue-pongue, e não cabia em si de contentamento! Sempre conversamos sobre as enormes alegrias da infância, e elas são mesmo enormes, mas não

alegria nos faz gritar

saltar

;

110 RELIGIÃO VIDA MANSA há motivo para as alegrias dessa mesma intensidade não fazerem parte
110
RELIGIÃO VIDA
MANSA
há motivo para as alegrias dessa mesma intensidade não fazerem
parte também da idade adulta. Que isso pode e deve acontecer é o
que este capítulo quer mostrar.
As saudações inglesas confirmam como é preciosa a alegria.
Enquanto os americanos saúdam os amigos dizendo "Oi! Como
vai?", tornou-se comum na Inglaterra saudar os amigos com as pa-
lavras: "Anyjoy?"—"Alguma alegria?" Éboa pergunta. Se você
se preocupa com a outra pessoa, é o que você quer saber. Alguma
coisa aconteceu que a fez cantar, exclamar e sentir-se nas nuvens de
contentamento? As vezes a resposta precisa ser não, porque o mundo
desses dias tem escassez de alegria. Mas é triste quando essa é a
única resposta que se pode dar. "Alguma alegria?" é minha pergunta
a você, meu leitor, e sua vida deve ser mesmo pobre e estéril se os
fatos o forçam a dizer não.
A alegria está no cerne da vida satisfeita. Está também no cen-
tro do Cristianismo real e crível, o Cristianismo que glorifica Deus e
abala o mundo. Assim como a alegria é, nas palavras de CS . Lewis,
"o negócio sério do céu", assim ela é fundamental para a piedade
séria na terra. "O reino de Deus não é comida nem bebida, mas
justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo" (Rm 14.17) Um Cristia-
nismo sem alegria (o que é impossível esconder, quando ocorre) vai
tornar-se um obstáculo para que acreditem nessa afirmação de
Paulo; vai fazer com que a fé se torne repulsiva em vez de atraente.
Em contraste, um Cristianismo alegre constitui um anúncio su-
peratraente do poder transformador do evangelho. Portanto, todos
os que esperam fazer diferença como testemunhas de Cristo farão
bem em estudar a arte da alegria como parte de sua preparação
espiritual.
A alegria que dá credibilidade aos cristãos também lhes dá
energia. Quando Neemias organizou um dia em Jerusalém para a
leitura e pregação da Lei, o povo ficou tão comovido ao perceber o
que estava há tantos anos perdendo que se dissolveu em lágrimas.
ALEGRI A 111 Neemias disse-lhes que parassem de chorar e começassem a cele- brar: "Ide,
ALEGRI A
111
Neemias disse-lhes que parassem de chorar e começassem a cele-
brar: "Ide, comei carnes gordas, tomai bebidas doces e enviai por-
ções aos que não têm nada preparado
Não vos entristeçais, por-
que a alegria do Senhor é a vossa força" (Ne 8.10). Há mais de
cinqüenta anos, Hitler plagiou deste trecho o pensamento "força atra-
vés da alegria" para lema do movimento Juventude de Hitler; a se-
cularização foi grotesca, mas a psicologia foi certa. Em tempos de
perseguição sempre foram os cristãos alegres que mais provaram
ser fortes sob a pressão. Em tempos de dificuldade são os cristãos
alegres os que se recusam a ficar desanimados e que mostram mais
garra. Então, se queremos ser fortes no Senhor, precisamos estudar
a alegria.
Será que suscito entusiasmo no seu coração? Eu o estou irritan-
do? Há pessoas que se ressentem da sugestão de que a alegria é
para todos. Dizem: "Ah, isso pode ser muito bom para você, mas
para mim não adianta; é ridículo!". Dizem isso porque estão machu-
cados emocionalmente. Se você sente dor é difícil acreditar que há
qualquer possibilidade de alegria para você. Você se sente amargu-
rado e irado quando sabe que os outros desfrutam alegria e querem
passar isso para você. Mas para leitores presos entre as quatro
paredes negras dos "dd" — desapontamento, desolação, depres-
são e desespero — ou acabrunhados por frustração, fracasso, te-
mor ou fúria — quero dizer duas coisas.
Primeiro, os cristãos não são vítimas ou prisioneiros do passa-
do nem do presente. As forças do perdão e da nova criação estão
operando na vida deles. Diante deles se estende a esperança do
livramento, transformação e glória. A alegria lhes virá um dia em
medida transbordante, e eles não se devem entregar ao sentimento
acabrunhador de que a vida nunca vai ser melhor para eles do que é
no momento.
Segundo, os cristãos têm, por assim dizer, alma maior do que
outras pessoas; pois a tristeza e a alegria; como a desolação e a
112 RELIGIÃO VIDA MANS A esperança, ou a dor e a paz, podem coexistir em
112
RELIGIÃO VIDA
MANS A
esperança, ou a dor e a paz, podem coexistir em sua vida de uma
forma que os não-cristãos desconhecem. A aflição, o desconsolo e
a dor são sentimentos despertados por situações presentes, mas a
fé produz alegria, esperança e paz em todo o tempo. Isso não signi-
fica que atristeza, a desilusão e a dor não mais sejam sentidas (uma
idéia desumana); significa que algo diferente é experimentado junto
com a mágoa. Torna-se possível os cristãos de hoje serem, como
Paulo há tanto tempo, "entristecidos, mas sempre alegres" (2Co
6.10). Às pessoas que estão tristes, quaisquer que sejam suas cir-
cunstâncias, é preciso contar que Deus lhes oferece alegria, porque
essa certeza é verdade tanto para elas como para qualquer outra.
A Alegria Exemplificada
A descrição que Paulo faz de si como "entristecido, mas sempre
alegre" poderia parecer tão paradoxal a ponto de ser inacreditável.
Por demonstração, contudo, foi a verdade pura. Por prova, só é
preciso olhar a carta de Filipenses. Filipenses é descontraída e in-
formal comparada com, digamos, Gálatas ou Romanos ou 1 Corín-
tios. Paulo a escreve a seus convertidos, que são também seus ami-
gos, não para resolver questões importantes de fé e prática, mas
para agradecer-lhes uma oferta, dar-lhes notícias, encorajá-los no
Senhor, e anunciar a visita que Timóteo lhes fará. Isso é admirável,
visto que ele está escrevendo de uma prisão romana, provavelmen-
te
acorrentado a um guarda dia e noite, e sob ameaça de sentença
de
morte!
Alegria e regozijo são as palavras-chave de Filipenses. Paulo
chama seus convertidos de "minha alegria" (4.1); ele ora por eles
com alegria (1.4); alegra-se pela sua generosidade para com ele,
que vê como cooperando para o próprio progresso espiritual deles
(4.10,17); ele pede que pratiquem a unidade, para que a alegria
dele seja completa (2.2); regozija-se com o fato de Cristo estar
sendo pregado, mesmo que às vezes por falsos motivos (1.18); en-
113 ALEGRIA contra alegria até mesmo na possibilidade de seu próprio martírio e diz aos
113
ALEGRIA
contra alegria até mesmo na possibilidade de seu próprio martírio e
diz aos amigos que se acontecer, devem alegrar-se com isso tam-
bém (2.17ss.), embora ele espere que seja solto, que seria "para o
vosso progresso e gozo da fé, a fim de que aumente, quanto a mim,
o motivo de vos gloriardes em Cristo Jesus pela minha presença, de
novo, convosco" (1.25-26). Onde, a certa altura, pensou em termi-
nar esta carta, ele escreve: "Quanto ao mais, irmãos meus, alegrai-
vos no Senhor!" (3.1); e depois, descobrindo que ele ainda tem
muito mais a lhes dizer, e o fazendo, ele volta com ênfase à mesma
nota: "Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos!"
(4.4). Observe que ele não diz "às vezes" — diz "sempre"! Não é
uma simples recomendação a que sejam sempre alegres; ele ordena
isso, o que é de suspender o fôlego. Mas quando diz aos amigos
que se alegrem sempre, ele não lhes está pedindo mais do que ele
mesmo faz.
Duas situações que encontram Paulo se alegrando são especi-
almente dignas de nota. Em ambas, o que se poderia esperar seria
bem o contrário, e não que produzissem alegria. A primeira é uma
experiência de malícia. Confinado em cativeiro, Paulo não pode sair
e se movimentar, espalhando o evangelho de Cristo da forma que
sua comissão apostólica e instintos evangelísticos orientariam, e sem
dúvida isso lhe é frustrante. Contudo, essa nuvem tem um lado bo-
nito. Os cristãos locais, por saberem que Paulo está, como ele o
expressa, em cadeias por Cristo (1.13), foram motivados a teste-
munhar em público "com mais desassombro" do que antes.
Olhando para os motivos atrás dos atos, como fazem os bons
pastores, Paulo vê que "alguns proclamam a Cristo
de boa vonta-
de
por amor, sabendo que estou incumbido da defesa do evange-
lho" (1.15-16). Pode-se imaginar o tipo de recados que lhe man-
dam: "Não se preocupe, Paulo, por não poder sair e pregar; nós
vamos pregar, você ore, e juntos avançaremos o evangelho". Tais
mensagens seriam de grande apoio e encorajamento.
114 RELIGIÃO VIDA MANSA Outros, contudo, como Paulo vê também, "pregam a Cristo por inveja
114
RELIGIÃO VIDA
MANSA
Outros, contudo, como Paulo vê também, "pregam a Cristo
por inveja e porfia
por discórdia, insinceramente, julgando susci-
tar tribulação às minhas cadeias" (1.15,17). A malícia motiva esses
pregadores. Querem fazer Paulo sentir-se infeliz e mísero, talvez
por estarem publicamente discordando dele em pontos-chave,
deliberadamente levantando opiniões preconceituosas contra ele,
usurpando sua liderança, ou simplesmente porque a ele falta a liber-
dade de pregar que eles têm. Parece incrível que homens que pre-
gavam Cristo pudessem gostar de passar sal nas feridas de Paulo, o
grande apóstolo, mas tal pequenez por parte de pregadores presun-
çosos para com aqueles que vêem como que atrapalhando seu ca-
minho tem acontecido constantemente na história da igreja, e não
deixa de acontecer hoje.
Note como Paulo reage. Teria sido fácil, e em certo sentido
natural, ele se deixar cair na vacilante autopiedade e angústia nervo-
sa que seus rivais lhe estavam desejando. Mas ele sabia o que todos
precisamos saber. Somos livres para não escolher os sentimentos
que os outros desejam para nós. Então ele recusou sentir-se um
coitado. "Todavia, que importa?", ele escreve. "Uma vez que Cris-
to, de qualquer modo, está sendo pregado
com isto me regozijo"
(1.18).
Magnífico! Sim — um modelo, um exemplo para nós. Como
reagimos quando a mesquinhez e a malícia vêm de mãos dadas con-
tra nós para criar tormento? Como lidamos quando nos tornamos
objeto de uma vendeta, de uma armação, rodeados por quem quer
nos derrubar? Como será que eu, como escritor, trato das críticas
desdenhosas, dos comentários maldosos publicados sobre meus li-
vros? Pelo exemplo de Paulo aprendemos que mesmo em tais oca-
siões a alegria e a paz são possíveis. Não somos obrigados a reagir
como os outros querem que façamos. Muito mais do que talvez já
tenhamos percebido, nós podemos, sim, escolher no que pensar
(veja 4.8). Se focalizarmos nossa mente em fatos que produzem
ALEGRI A 115 alegria, tornamo-nos impérvios, não nos deixando sensibilizar por aqueles que nos empurrariam
ALEGRI A
115
alegria, tornamo-nos impérvios, não nos deixando sensibilizar por
aqueles que nos empurrariam para a angústia, por maior que seja a
hostilidade e influência deles, e por menos que possamos fazer de
positivo no caso no presente momento.
O segundo triunfo de alegria na vida de Paulo que Filipenses
revela é ainda mais admirável. E a alegria da expectativa de seu
possível martírio. Paulo sabe que seu aprisionamento poderá termi-
nar na sentença de morte. Ele convive com essa incerteza, esperan-
do que Deus lhe providencie a soltura, mas sem poder ter muita
certeza (1.19-26). Mesmo assim, a alegria irrompe. Ele sabe que se
sua vida for interrompida ele vai estar com o Senhor, e que, aconte-
ça o que acontecer, é a vontade de Deus. Ele pode dizer: "Mesmo
que seja eu oferecido por libação sobre o sacrifício e serviço da
vossa fé"— se, em outras palavras, minha morte acompanhar e com-
pletar a entrega de suas vidas a Deus — "alegro-me e, com todos
vós, me congratulo" (2.17). Vivendo sob essa espada de Dâmocles,
ele ainda tem o coração leve a ponto de poder brincar como se a
escolha entre a morte e a vida fosse realmente sua e ele estivesse
achando difícil decidir! (1.21 -24). Na força de sua alegria ele en-
frenta a morte tão prontamente, tão diretamente como enfrenta a
vida. Você poderia? Eu poderia?
Em nosso país ser executado por ser ativamente cristão é im-
provável para nós, mas é moralmente certo que alguns que lerão
isto serão chamados um dia a glorificar Deus morrendo de câncer.
O que esse pensamento faz conosco? Esfria nosso coração? O cân-
cer é terrível. Mas é claro que Paulo poderia ter enfrentado o cân-
cer e ter-se alegrado, e se nós dominarmos o segredo de sua ale-
gria, também podemos fazer isso.
A Alegria é Ordem
E a alegria do tipo que Paulo tinha — santa, forte, sustentadora,
inextinguível — é realmente uma ordem dada! "Alegrai-vos sempre
116 RELIGIÃO VIDA MANS A no Senhor; outra vez digo [para ênfase, como nós mesmos
116
RELIGIÃO VIDA
MANS A
no Senhor; outra vez digo [para ênfase, como nós mesmos repeti-
mos as coisas]: Alegrai-vos!"Não é opção, é ordem. E o que Pau-
lo, como porta-voz oficial de Cristo, nos instrui a fazer. O manda-
mento vem do próprio Senhor. Algumas traduções, como a Bíblia
na Linguagem de Hoje, com "Que vocês estejam sempre alegres
em suas vidas no Senhor. Repito, alegrem-se!", perdem o essencial
do que está sendo afirmado aqui. As palavras de Paulo expressam
não apenas um desejo piedoso, e sim um imperativo prático, exigin-
do e obrigando-nos a cultivar a alegria. (Admito que o grego permi-
te o enfraquecimento aqui — mas o uso anterior de "alegrai-vos" no
sentido pleno (3:1), acrescentado ao fluxo do pensamento no con-
texto, tornam bastante improvável o desejo piedoso em lugar da
ordem.) A prática da alegria, então, é uma arte que se nos exige
aprender.
A Alegria Definida
Nossa primeira tarefa é discernir o que a alegria cristã realmente é,
e o primeiro passo para isso é pôr em foco nossas idéias sobre a
natureza da alegria. Muitos parecem tropeçar nesse ponto; por isso
começo com algumas afirmações negativas para abrir o caminho.
Negação número um: A alegria não é igual a divertimento e
jogos. Muitas pessoas "se divertem", como dizemos, buscando e
encontrando prazer, sem achar alegria. Você pode até "se alegrar"
no sentido de "se divertir" sem ficar alegre. A busca irrequieta, im-
placável do prazer (em sexo, drogas, bebida, mecanismos, entrete-
nimento, viagens) é muito característica de nossa época, pelo me-
nos onde há dinheiro, e indica claramente a falta de alegria. Os cris-
tãos que conhecem a alegria do Senhor descobrem que com ela
vem muito divertimento, mas alegria é uma coisa e divertimento é
outra. Em contraste, Paulo na prisão não teve divertimento (parece
seguro dizer isso), contudo teve muita alegria. Você pode ter alegria
ALEGRI A 117 sem divertimento, assim como pode ter divertimento sem alegria. Não há nenhuma
ALEGRI A
117
sem divertimento, assim como pode ter divertimento sem alegria.
Não há nenhuma correlação imprescindível entre as duas coisas.
Negação número dois: Alegria não é a mesma coisa que jovia-
lidade, isto é, não é o exuberante entusiasmo da pessoa que é sem-
pre animadora da festa, aquela de quem se depende para contar
piadas e de quem dizem que quando está presente não há chatice.
Alguns cristãos são assim, outros não são e nunca serão, mas isso é
questão de temperamento que nada tem que ver com alegria. Al-
guém poderá ter um temperamento entusiasta e ainda assim não ter
alegria, e outro, a quem ninguém chamaria dejovial, poderá ter um
temperamento calmo e quieto com um quê de melancólico, mas ter
alegria de sobra. É bom isso, porque se a alegria dependesse de ter
um temperamento jovial, a metade de meus leitores, eu inclusive,
teríamos de concluir que seríamos desqualificados e barrados da
alegria para sempre. Contudo, a verdade é que por mais que nossos
temperamentos possam divergir, a vida de "alegria no Senhor" está
disponível a todos nós.
Lembro-me de quando eu era um rapazinho cristão ter ouvido
um venerável veterano de púlpito insistir, com ênfase, que os bons
cristãos têm rostos de bule de chá em vez de bule de café. Os bules
de chá costumam ser esféricos, e o rosto de bule de chá é redondo,
com um sorriso de dez centímetros. Os bules de café, em compara-
ção, são mais alongados e finos, e o rosto de bule de café é assim e
parece sério e sombrio. Muito impressionado com isso, fiquei bas-
tante deprimido quando, depois disso, me olhei no espelho! Mas
refleti que o pregador estava falando era de estrutura óssea, e a
estrutura óssea não será mudada enquanto Deus não nos der nos-
sos novos corpos, e assim, logicamente, meu rosto de bule de café
seria assim a vida toda. Será que isso significava que eu não poderia
experimentar ou expressar alegria cristã? De maneira alguma! O
ponto principal do pregador, que todo cristão deve irradiar a ale-
118 RELIGIÃO VIDA MANSA gria, estava certo, mas seu argumento ia por um caminho errado.
118
RELIGIÃO VIDA
MANSA
gria, estava certo, mas seu argumento ia por um caminho errado.
(Talvez o que o traía era seu próprio rosto bem redondinho de bule
de chá, quem sabe?) De qualquer modo, o importante é que embo-
ra algumas pessoas nunca vão serjoviais e fazer brincadeiras como
outras pessoas, tanto as exuberantes quanto as quietas poderão
conhecer a alegria que é o dom de Deus.
Negação número três: Alegria não é o mesmo que despreocu-
pação. Propagandas que retratam jovens adultos atraentes esprai-
ando-se pelas Bahamas buscam nos persuadir de que tirar férias
"deixando tudo para trás" é a receita da alegria. Muita gente con-
corda. Mas se é assim, logo que as férias terminam e você retorna
às responsabilidades e encargos, e motivozinhos de irritação da vida
— o local de trabalho deprimente, as companhias chatas, os desa-
pontamentos repetidos — a alegria vai acabar porque você não
estará mais despreocupado. Alegria, nessa ótica, só estará à nossa
disposição durante nossas poucas semanas de férias anuais! É a
idéia escapista da alegria; deveríamos agradecer o fato de que não é
verdadeira.
Na noite em que foi traído e preso, talvez doze horas antes de
sua crucificação, Jesus, que já dera indicação de saber o que o
esperava, disse a seus discípulos: "Tenho vos dito estas coisas [i.e.,
que a obediência vos guardará em meu amor] para que o meu gozo
esteja em vós, e o vosso gozo seja completo" (Jo 15.11). Essas
palavras nos dizem que ele tinha alegria naquele momento, embora
não estivesse despreocupado. Semelhantemente, Paulo na prisão,
convivendo com a possibilidade de uma execução sumária, não es-
tava despreocupado, mas tinha alegria abundante. Alegria apesar
de pressão esmagadora foi realidade para Jesus e Paulo. Já foi rea-
lidade para dezenas de milhares de cristãos desde então, e poderá
ser realidade para nós também.
O que é alegria? Já vimos o que ela não é. Então já passa da
hora de dar uma definição positiva. Embora a alegria espiritual seja
ALEGRI A 119 nosso interesse especial neste estudo, compreenderemos melhor o assunto se primeiro focalizarmos
ALEGRI A
119
nosso interesse especial neste estudo, compreenderemos melhor o
assunto se primeiro focalizarmos a alegria de forma genérica. Aqui
está minha definição: a alegria é uma felicidade do coração, ligada a
bons sentimentos de uma espécie ou outra. A palavra alegria co-
bre todo o espectro do que pode ser chamado o enlevo, desde a
dor extrema do êxtase até o arrepio quieto do contentamento. O
dicionário Webster a define assim: "Excitamento de sentimento
aprazível causado pela aquisição ou expectativa do bem
deleite;
exultação; hilaridade de espírito". Alegria é uma condição experi-
mentada, mas é mais do que uma emoção; é, antes de tudo, um
estado de espírito. A alegria, podemos dizer, é um estado do ho-
mem todo em que pensamento e emoção combinam para produzir
total euforia. A preciosidade da alegria, o lugar integral da alegria na
vida ideal, e o dó que inspira a falta de alegria, são aparentes pela
própria definição.
Fontes de Alegria
Ainda pensando em termos genéricos, perguntamos agora: De onde
vem a alegria? O que causa alegria? Quais são as percepções nas
quais ela se fundamenta? Se indagássemos a um consultor profis-
sional sobre este ponto, poderíamos esperar que nos dissesse que a
alegria surge de quatro fontes.
Primeira, a alegria flui da percepção de ser amado. Ninguém
tem alegria se não sabe que há alguém que o valoriza, aceita e quer
bem. Sentir que como pessoa eu não importo para ninguém e que o
que acontece comigo não vai preocupar ninguém serve para matar
logo a alegria. Torna impossível qualquer sentimento de valor ou
bem-estar pessoal. O mundo ocidental está cheio de pessoas solitá-
rias que nunca experimentam a alegria por esse motivo. A experiên-
cia de ser amado é uma fonte de alegria.
Segunda, a alegria flui de a pessoa aceitar sua própria situação
como sendo boa. Assim como a morfina mata a dor, o desconten-
120 RELIGIÃO VIDA MANS A tamento mata a alegria. As pessoas que estão sempre reclamando
120
RELIGIÃO
VIDA
MANS A
tamento mata a alegria. As pessoas que estão sempre reclamando
de como as coisas são, desejando que fossem diferentes, e dese-
jando que acontecessem coisas que provavelmente não vão acon-
tecer se desqualificam totalmente para a alegria.
Terceira, a alegria flui de ter algo que vale a pena. Falamos de
nosso cônjuge, nossos filhos, nosso lar, nossos livros, nossos hobbies
como nossas alegrias. Isto aqui, isso aí ou aquela outra coisa, dize-
mos, é "uma alegria para mim", "uma verdadeira alegria", "uma gran-
de alegria". O que queremos dizer é que nesses relacionamentos e
atividades temos algo que é precioso e que faz a vida valer a pena.
Se nada que você tem parece valer a pena, você não terá alegria.
Quarta, a alegria flui de doar algo que vale a pena doar. Nossa
época ensimesmada quase não consegue captar que dar possa ser
uma modalidade de alegria, mas é fato. Toda mãe normal sabe que
dar é uma modalidade de alegria. Ela trabalha incansavelmente para
dar aos filhos um lar e uma vida que vão apreciar, e quando os filhos
estão felizes, ela também está. Existem, de modo geral, dois tipos
de seres humanos: os que estão constantemente doando e os que
estão constantemente tomando — adquirindo, manipulando, explo-
rando, sugando outras pessoas até as secarem na sua própria auto-
absorção insaciável — e não resta a menor dúvida quanto a que
categoria sabe mais sobre a alegria. Muitos passam pela vida sem
nunca aprender que a alegria é como o mel, por exemplo, que gruda
em você quando você o está espalhando, mas isso não deixa de ser
verdade.
Alegria Cristã
O que dissemos até aqui foi dito em termos gerais. Estive gene-
ralizando sobre a alegria em todas as suas múltiplas modalidades e
formas, tanto seculares como sagradas. Mas Paulo em Filipenses
está exemplificando e receitando a alegria cristã — alegria "no
Senhor", alegria que flui do relacionamento que a pessoa tem com
ALEGRI A 121 Jesus Cristo. Será esse nosso tema daqui em diante. Qualquer pes- soa
ALEGRI A
121
Jesus Cristo. Será esse nosso tema daqui em diante. Qualquer pes-
soa que ainda não se entregou ao Cristo redivivo como seu Salva-
dor e Mestre se sentirá deixado à parte aqui. Porque agora vamos
observar, em termos de nossa fórmula de quatro fontes, como é que
o conhecimento que a pessoa tem do seu relacionamento salvífíco
com Cristo pode trazer alegria inextinguível para os corações cren-
tes, e isso é algo que só cristãos poderão entender. "Alegrai-vos no
Senhor" significa regozijar-se em ser de Cristo, em ter o Pai de
Cristo como seu Pai, em estar com a vida acertada com Deus o Pai
e ser herdeiro de sua glória pela mediação de Cristo, e em possuir a
salvação e a vida eterna como dádiva de Cristo. E para deixarmos a
alegria fluir dessa fonte. Como isso vai acontecer? Através do cum-
primento da fórmula das quatro fontes, como afirmou-se acima.
A primeira fonte de alegria é a percepção de que a pessoa é
amada. Os cristãos conhecem que são amados de uma forma que
ninguém mais conhece, porque eles sabem que Deus o Pai os amou
de tal maneira que deu seu Filho único para morrer na cruz em ver-
gonha e agonia para que eles pudessem ter a vida eterna. "Deus
prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo
morrido por nós, sendo nós ainda pecadores" (Rm 5.8). "Aquele
que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entre-
gou — porventura não nos dará graciosamente com ele todas as