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Seminários – nº 1 Crime, Criminalidade e Repressão no Brasil República NA VIRADA DO SÉCULO:

Seminários – nº 1

Crime, Criminalidade e Repressão no Brasil República

NA VIRADA DO SÉCULO: A CULTURA DO CRIME E DA LEI*

Elizabeth Cancelli *

A razão pela qual investimos na pesquisa desse tema é, antes de mais nada, historiográfica.

Embora as elites dirigentes no Brasil, desde o Império, tenham sido formadas, por razões variadas, principalmente por bacharéis em Direito, e que, no dizer de Fernando de Azevedo, tenha sido o Direito a

voz da intelectualidade brasileira, 1 vê-se, na produção historiográfica brasileira, um imenso silêncio sobre

a própria história das idéias que formavam essa elite. É interessante notar que na análise da influência ou

da criação de modelos culturais – e essa opção dependerá da escolha teórica do historiador – o plano de análise privilegiado no Brasil foi sempre o cultural em seu sentido mais restrito. Ou seja, o da produção da prosa, da poesia e do teatro, quando muito, do cinema. Esse silêncio, que, quanto ao que de mais abrangente, informava o debate intelectual, na verdade, implica questionamentos fundamentais para a produção da literatura histórica brasileira. Um desses questionamentos é o de que a reflexão sobre a história ignora os alicerces intelectuais e culturais que fundamentaram grande parte da vida social, possuindo, portanto, problemas graves na formulação de

suas problemáticas. 2 O segundo é o de que, à medida que essa questão do inexplicável silêncio torna-se

incompreensível aos olhos do historiador que pesquisa a vida social e política, bem como o contexto da

produção das idéias no Brasil, torna-se quase evidente que parte da historiografia, ao não se surpreender

com as fontes e ao dialogar pouco com elas, comete, a exemplo do que acontece nos demais centros de produção da história, o “pecado” de estar bem mais preocupada em aplicar modelos teóricos pré-

determinados do que imbuir-se em caminhos turvos e pouco conhecidos, mas que, ao final do exercício, explicitem a riqueza da vida intelectual e social da época estudada.

É ressentindo-nos dessas questões e deparando-nos com questões que julgávamos insolúveis se

problematizadas aos moldes do que comumente vinha sendo produzido a respeito do papel das elites, do

cotidiano das ruas, dos julgamentos, da condição feminina, dos crimes, das prisões, da vadiagem, dos crimes políticos e questões correlatas, que passamos a desenvolver esse trabalho que tem como pano de fundo a influência política, jurídica e cultural da Escola Positiva do Direito no Brasil ao final do século

XIX e início do século XX.

Nosso ponto de partida, convém deixar isso bem claro, vem de encontro àquele que acredita-se ser a base teórica e conceitual da literatura e das ciências humanas no Brasil, ao longo de sua história e principalmente a partir das primeiras décadas do século XIX, comparada ao sincretismo religioso,

resultado de um amálgama de teorias e de conceitos europeus deslocados de sua função de origem. 3 Igualmente discordamos do ponto de vista de que todo o debate nesse período girava em torno da raça e do meio. Mais importante do que ele é o que vinha se produzindo, tendo-se como centro da polêmica a ciência e a verdade. E, sobre essa questão, o que se gerou de fato em termos de saber, de legislação e de

questões de exclusão social é fundamental, pois coloca por terra afirmações tão ligeiras e vazias tais como

a de que o positivismo estaria sempre ligado ao racismo. A problemática é muito mais complexa para a

construção do pensamento positivo no Brasil em seus diversos matizes e na incorporação de idéias racistas, tanto na esfera do pensamento liberal (igualmente em suas diversas vertentes) quanto na do pensamento positivista. Portanto, a oscilação da elite brasileira não se localizava entre o racismo e o liberalismo, mas, a bem da verdade, infinitamente mais entre o positivismo e o liberalismo. Porém, vários liberalismos e positivismos, talvez tantos quantos tenham existido em outros lugares do mundo impregnados de valores e idéias ocidentais. Resta sim desvendar a construção dos modelos culturais. Certo é que valores culturais do centro europeu o Novo Mundo sempre os teve, já que somos

uma extensão imposta. O que se verificou no Brasil é que, a partir de meados do século XIX, a tradição

portuguesa se abrandou e outras tradições culturais passaram a existir, mesmo porque a cultura moderna trazia novos horizontes para as ciências, a poesia, a arte, a filosofia, a política, os debates, etc. Uma realidade de certa forma chocante para um país de tradição colonial que passava, a partir de então, por um tipo de atualização cultural e intelectual sem precedentes. Foi assim que, no próprio calor dos debates, se criou a polêmica em torno da falta de originalidade e de criatividade dos adversários intelectuais. Por isso não seria contraditório que, por

exemplo, mesmo sendo um defensor dos parâmetros evolucionistas, Sylvio Romero atacasse parte da intelectualidade brasileira e a acusasse de pobre pelo fato de ser influenciada por estrangeirismo – portanto, vazia “de pensamento filosófico nacional”, um mero fruto de adaptação de idéias 4 –, quando ele próprio ressaltava a importância de atualizar-se com os valores culturais dos centros europeus. Em meio a esse ambiente de inovações e debates, surge uma nova tradição intelectual, jurídica e política no Brasil, de início, grandemente inspirada nas inovações ecléticas de Tobias Barreto, sendo mais tarde muito mais complexa e extremamente centrada nas certezas do pensamento triunfante “sobre a infalibilidade da ciência e por sua exagerada importância, do racionalismo científico e o positivismo filosófico, como critério geral de pensamento”. Idéias que vinham sendo construídas na Itália, na França, na Alemanha, nos Estados Unidos, no Brasil, etc. Se a historiografia calou-se a esse respeito, cabe ressaltar que as novas conotações teóricas trazidas pela Escola Positiva constituíam-se em parte da história intelectual e, especialmente, da história do Direito no Brasil. A evidência mais contundente dessa realidade foi a guinada em torno de uma questão símbolo, cultivada até então pela tradição Clássica do Direito: a do delito. Com a Escola Positiva do Direito, construiu-se uma ruptura. Do delito como questão símbolo, passou-se para uma visão sobre o criminoso, ponto de partida dos positivistas. E, sob essa nova base, eles, os positivistas, foram auxiliados pelas inúmeras problemáticas introduzidas pela Antropologia Criminal e sustentados por dados estatísticos. Segundo João Vieira de Araújo, o presidente da comissão que efetuou reformas no Código Penal em 1893,

A Antropologia Criminal é uma síntese dos conhecimentos obtidos pelos processos científicos da

observação e da experiência no estudo do homem criminoso considerado por todos os seus

caracteres psico-somáticos (

penais, isto é, ao estudos do crime como ação humana, da pena como reação social e dos sistemas de sua aplicação e execução por meios eficazes que correspondem ao desideratum final da Suprema função de punir que exerce o Estado. 5

)

daí vem a associação dessa ciência com a psiquiatria, às ciências

Uma vez que a noção de crime aparecia a partir do criminoso propriamente dito, e não do ato criminal, devia-se estudar o indivíduo como tal. Portanto, não seria por acaso que, principalmente a partir do ano de 1910, no Brasil, os pareceres médicos passariam com freqüência a ser emitidos nos processos jurídicos. 6 Esses pareceres seguiam, para efeito de análise, vários tipos de classificação para os

criminosos. É interessante notar a classificação psicogenética de Patrizi-Severi, 7 reproduzida por Candido Motta. Ela dá uma idéia dos parâmetros sob os quais se regia o saber médico e o jurídico sobre o indivíduo:

Os criminosos estariam divididos entre natos de sentimento e criminosos de intelecto (ou loucos, dementes). Os criminosos de sentimento, por sua vez, são apresentados nesta classificação psicogenética em duas categorias: os intelectualmente incapazes (deficientes, ausentes,) e delinqüentes por exaltação de sentimento. No primeiro caso, estão o delinqüente nato, o delinqüente epiléptico, o débil mental, o delinqüente primitivo, o delinqüente de hábito, o delinqüente de ocasião e a prostituta. Entre os delinqüentes por exaltação de sentimento há uma subdivisão entre delinqüentes emotivos ou delinqüentes de ímpeto, vítimas de uma força irresistível, e os delinqüentes passionais por paixão comum (conservação da espécie ou do indivíduo), delinqüentes políticos ou religiosos, e delinqüentes intelectuais (sentimento intelectual). Quanto aos criminosos de intelecto, há três categorias: impotentes intelectuais (idiotas, cretinos, imbecis, surdo-mudos, etc.), os loucos reconhecidos (epilépticos, maníacos, paranóicos, etc.), e os inconscientes (sonâmbulos, sugestionados sob efeito de delírio tóxico ou febril, embriagados). Características físicas comuns seriam encontradas entre os diversos grupos de criminosos, para qualquer das classificações construídas. A Escola, entretanto, não chegava a afirmar que algum sujeito seria um criminoso por apresentar tais características, mas que certos traços, não exclusivamente anatômicos, eram predominantes nos criminosos.

É importante notar que a Escola, através de cada autor, criava interpretações diferenciadas que

partiam de uma mesma base: a narrativa mítica assentada em preceitos científicos de memória geneticamente instituinte. 8 A argumentação relativa ao homem e não ao crime, que está contida nessa construção, repousava sobre a inerência do crime na natureza do homem. O ponto de partida era de que, como só Deus é perfeito, o delito é inerente ao homem, uma manifestação da inadaptabilidade ao meio em que se habita, um fenômeno solidário de alguma perturbação social. Uma das principais conseqüências dessa visão é que havia uma nítida obsessão pela observação da moralidade e dos costumes que se encontra arraigada na tradição da Escola Positiva, porque esse tipo de crime apresentaria, na verdade, o efeito de aberração dos instintos, com manifestações primitivas e matóidicas, que caracterizariam personalidades apartadas do normal. Observa-se, nesse particular, uma recorrência sistemática dos positivistas às teorias freudianas 9 e às várias etapas do desenvolvimento sexual infantil no

que se relaciona às fixações que poderiam 10 redundar nas neuroses ou perversões. Pressupostos que ganhavam maior significação, à medida que no próprio Código o crime seria tanto mais grave quanto maior sua importância, ora do dever moral violado, ora do preceito social limitado pela moral, ou vice- versa. 11

Já a “estatística, tanto quanto o exame antropológico, nos mostra(ria), em suma, o crime como

um fenômeno natural, um fenômeno (diriam alguns filósofos) NECESSÁRIO, como o nascimento, a

morte, a concepção”. 12 Com a introdução desse olhar inovador na visão de mundo e no conjunto das leis penais, a maior crítica dos positivistas baseava-se no princípio do livre arbítrio. Dizia-se que “uma legislação apoiada no

livre arbítrio (

que utilizasse os métodos da moderna análise psicológica (ou que penetrasse a mente), seria difícil responder afirmativamente que o acusado estaria no gozo do livre arbítrio”, 13 seja no que se refere aos

crimes comuns, seja no que se refere aos crimes políticos. E, nesse ponto, uma forte crítica ao Liberalismo. Em última instância, dizia-se que a definição de criminoso envolvia a constituição de elementos

anatômicos, psicológicos e sociais. 14 Por isso, à medida que instituía características físicas, a definição tanto dos tipos de crimes como de criminosos carregava o princípio da hereditariedade. A falta congênita de senso moral, comum a assassinos e ladrões, seria responsável pela imprevidência das conseqüências das ações dos criminosos natos, cuja ausência de senso moral denunciar-se-ia pela insensibilidade manifesta perante o sofrimento e os danos causados às vítimas por seu cinismo. 15 Seguindo esse caminho, as raças mereceriam atenção, já que carregariam as anomalias degenerativas: “O prognatismo do branco é evidentemente um estigma de regressão do tipo ancestral; entretanto, ele faz parte da constituição física do negro, cuja raça é inferior por ter se conservado estacionária”. 16 Os cérebros dos brancos, segundo as aulas de Candido Motta na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, pesavam em média 1534 gramas; os dos negros, 1371; e dos australianos; 1228. Essas diferenças de organização física implicariam diversidade de caráter. Os negros seriam sensuais, com tendência à imitação servil, falta de iniciativa, horror à solidão e à mobilidade. Teriam o amor desordenado do canto e da dança, o gosto invencível dos ornamentos e enfeites. Seriam indiscretos, imprevidentes e preguiçosos. Em compensação, suas qualidades seriam apreciáveis: seriam sensíveis a bons tratos e suscetíveis a uma grande dedicação, sem prejuízo da capacidade para o ódio e para vinganças cruéis. Enfim, possuiria as qualidades e defeitos do homem primitivo. 17 Cada tipo de criminoso teria suas características especiais. 18 Com todo esse conjunto de fatores inovadores apresentado pela construção científica a servir-lhe de embasamento, impunha-se, amparados na infalibilidade da ciência e no pressuposto que nega o livre arbítrio, uma espécie de código de conduta normativa, tanto no que diz respeito ao criminoso como no que se refere à Justiça, à Polícia (agentes repressivos e disciplinadores), aos médicos higienistas ou a sociedade como um todo.

teria como conseqüência uma perigosa impunidade geral, uma vez que para um cientista

)

O que ocorreu na imprensa é ilustrativo. Na virada daquele século, uma das grandes novidades

em termos de reação social reveladora de uma espécie de conjunto de comportamento social sintomático dizia respeito justamente à ocorrência freqüente, à popularidade, à teatralidade e ao caráter extraordinário que ganharam os chamados crimes de paixão: assassinatos e suicídios.

A imprensa do início do século XX retratava bem o estado hipnótico produzido por esses crimes

entre a massa urbana. Os jornais, já veículos de comunicação de massa (o Rio de Janeiro possuía 20 jornais diários em 1911), produziam mais e mais notícias de crimes, suicídios e julgamentos. Havia uma certa teatralidade na linguagem empregada nas notícias, e na maneira como costumavam ser retratados os crimes. Alguns crimes e julgamentos chamavam tamanha atenção que figuravam em uma espécie de espetáculo público sobre a condição humana, uma nítida imitação dos espetáculos teatrais, que não só dramatizava a vida das personagens envolvidas, mas que punha a desnudo o ritual dramático da justiça criminal. 19 Os jornais faziam questão de retratá-los. O Correio Paulistano em sua edição de quinta-feira,

em 14 de setembro de 1905, 20 reservara 1137 linhas, em uma coluna, para a cobertura do julgamento de um crime passional que virara sensação na capital paulista. O tratamento dado pelo jornal, além do grande espaço, mostrava como o veículo tentava reproduzir os elementos indispensáveis encontrados nos romances policiais: uma questão aparentemente incompreensível, com um mistério e a presença dos impulsos que compõem a natureza humana e a manipulação de uma das sensações mais primitivas: o medo, que aparece justamente na composição desse mistério.

Sob as circunstâncias dessa ambientação é que Roberto Lyra 21 escreveria O amor e a

responsabilidade criminal, 22 não só condenando veementemente o suporte que certas camadas da

sociedade davam aos crimes passionais, mas também resgatando o debate jurídico em torno desse

problema, que se arrastava desde, pelo menos, a primeira década do século XX, e que fora objeto de

debates no 4º Congresso Latino-americano, reunido no Rio de Janeiro em 1909, e que se arrastaria ao

longo de todo o século XX no Brasil, quando a sociedade deixava-se abalar por escândalos que

culminaram em assassinatos passionais famosos e punha em xeque o ordenamento jurídico e seus códigos

políticos e sociais.

No Congresso de 1909, o ponto primordial dos debates era saber se o homem normal poderia ou

não resistir às paixões e manter a racionalidade. Ou melhor, como deveria ser interpretado o preceito de

abrigar, na sombra da perturbação dos sentidos e da inteligência, os crimes cometidos por amor, ciúme,

ódio, cobiça e outros sentimentos apaixonados.

De um lado, estavam Esmeraldino Bandeira, Sá Pereira 23 e Evaristo de Moraes, 24 por exemplo;

de outro, Viveiros de Castro, Rodrigues Doria, Afrânio Peixoto, 25 Nelson Hungria, Lima Drumond 26 e

Plínio Barreto, que, além de tudo, imputavam ao júri “a transformação da paixão atenuante do delito, pela

dirimente que a estupidez, ou o sentimentalismo, ou a ignorância de nosso Júri inventou”. 27

Viveiros de Castro questionava, no Congresso, a propriedade de ser o júri, instigado pelos

advogados de defesa ou pela promotoria, quem daria o diagnóstico final sobre o estado de consciência do

réu. 28 Acreditando ter a França o modelo ideal, pois o diagnóstico era feito por médicos, Viveiros de

Castro sugeria apenas uma modificação técnica, não de princípios 29 , que, na verdade, foi paulatinamente

sendo adotada no Brasil no decorrer das primeiras décadas do século XX, quando mais e mais juizes

encaminhavam aos médicos pedidos de exame de sanidade mental para qualificar os criminosos frente ao

crime.

Discutia-se, portando, o livre arbítrio, o aspecto teatral do julgamento, o uso do sentimentalismo, o princípio da impunidade no seio do julgamento ou da aplicação da lei. E admitia-se haver momentos de perturbação dos sentidos e da inteligência, mas divergia-se sobre a possibilidade das paixões constituírem dirimentes da responsabilidade criminal. Roberto Lyra e Afrânio Peixoto eram exemplos de dois grandes juristas que não aceitavam o “amor que assassina” e que questionavam as sentenças do júri, ou seja, eram adeptos da Escola Positiva, mas se colocavam como antipassionalistas. Afrânio Peixoto chegava a alertar para a influência que o “romantismo burguês e capitalista” exercia sobre a apreciação benevolente dos crimes de paixão. Evaristo de Moraes, também positivista, contrapunha-se a esta interpretação, qualificando-a de “reacionária”. 30 Sobre a doutrina específica da criminalidadedosemotivosedosapaixonados,diziaque:

Da duradoura paixão, como da súbita emoção nasce o crime. Quanto aos criminosos, verificamos, mercê das observações da Antropologia e da Psicologia Criminal, que se

identificam, igualmente, pela predominância dos caracteres somáticos e psicológicos, mais

conformes à vida coletiva (

aquisições da ciência e das necessidades práticas, utilitárias, da defesa social. A questão [seria] das mais temerosas, e não basta[riam] para resolvê-la a leviandade alvissareira dos cronistas policiais, emocionados pela tragédia do dia, e a retórica oportunista dos advogados de defesa, apaixonados pela causa.

)

[e] cumpre, agora, saber como podem ser conciliadas as

A questão, para os positivistas, não seria deixar impune os apaixonados, mas aplicar a pena de acordo com a necessidade cientificamente analisada (para o criminoso e para a coletividade) dos motivos apresentados como causadores do crime. A indignação provocada por um crime que tem como objetivo o interesse pecuniário, ou a sórdida inveja, não se repete diante de um crime que tem por motivo um amor

infeliz, a traição de um falso amigo, a ofensa ao pudor de uma filha (

importância do motivo na caracterização do crime e na revelação da índole do criminoso. 31 Em outras palavras, além de julgar sobre a justeza de razões no cometimento do crime, seria necessário individualizar a pena. Como princípio geral, os juristas da Escola Positiva, com exceções, acreditavam que a paixão amorosa, a exemplo da paixão religiosa, teria normalmente funções úteis à sociedade. Ou seja, mesmo recorrendo ao crime, estariam tratando de consertar um mal socialmente reprovado, como o adultério, por exemplo. A paixão seria, então, um elemento dirimente. Esse caráter dirimente estava presente no Código Criminal de 1890. No momento do julgamento, entretanto, não haveria qualquer esforço na finalidade de compreender o acusado, caso o crime fosse considerado mórbido. Matérias de jornais evidenciavam, na verdade, a tolerância e até mesmo a simpatia da sociedade em relação aos crimes de paixão, não só especificamente em relação aos homens, mas também às

)

O que se sustenta é a suprema

mulheres, uma vez que o procedimento feminino referente à reação ao melodrama romântico tornara-se similar ao masculino. E não era sem sensacionalismo que a imprensa os retratava. Essas questões, que abrangiam o saneamento moral, a lei e a justiça, tornaram-se cada vez mais parte integrante do cotidiano social na virada do século. Se o sensasionalismo dos jornais em muito contribuía, o rápido crescimento de algumas cidades, especialmente do Rio de Janeiro e de São Paulo, nos primeiros decênios do século, trouxe consigo o discurso protetor e alarmista em que a lei e a polícia, calcadas na recente introdução dos dados estatísticos, chamavam a atenção para a necessidade de incrementar a vigilância sobre a população. A estatística era, por isso, o instrumento do método positivo por excelência. Seu serviço, administrativo e subserviente à missão do Estado. Quanto a seus processos, eram considerados “tecnicamente perfeitos”. 32 Toda a técnica de investigação e distinção do objeto de cálculo do crime partia da estatística e a redução à unidade calculável permitia a ação sobre o fator criminal “determinado cientificamente”. Isto queria dizer que, sob o ponto de vista do mal a ser combatido, não poderiam ser levantadas dúvidas, uma vez que o apoio científico tornava inquestionável sobre quem, por quê, como e onde deveriam atuar a lei e seus agentes. Um aumento nos números significava sempre um aumento na criminalidade. Não se pensava em atribuir o aumento dos números ao acréscimo da eficácia policial ou da demanda crescente do público em relação à presença policial. As inovações em termos de ação, que viriam a ser introduzidas pela estatística, entretanto, não estavam chegando sozinhas. Faziam parte de um conjunto maior de medidas políticas que visavam não só instrumentalizar a repressão, mas provê-la de um arcabouço científico. A estatística, por si só criava, através dos números, a sugestionabilidade e a credulidade necessárias à indução de ação. Ou seja, a estatística representava o interesse ou a orientação das autoridades quando formulavam uma política criminal. Através da utilização de análises de natureza física, biológica, sociológica e psíquica do homem - na verdade da antropologia positiva -, a ciência permitiria prever e planejar os acontecimentos que vinham sendo divulgados pela análise estatística. Dados experimentais, nesse sentido, eram fundamentais para que se pudesse promover a repressão e o planejamento, uma vez que eles representavam o engajamento moral e jurídico do Estado, pois os dados antropológicos e os estatísticos perfaziam o preceito jurídico. A discussão, portanto, não se limitou nem à raça nem ao meio, como comumente a literatura se esforça em colocar, mas entre a ciência e a verdade. Ou indo mais longe: na suposta impossibilidade de se construir uma sociedade sustentada no princípio do livre arbítrio, uma vez que a razão de ser da sociedade não deveria partir do Homem na qualidade de indivíduo, mas do próprio Estado, da verdade científica e de sua intervenção sobre o Homem. Essa sim era a discussão abrangente que envolvia os bacharéis de Direito, em maior número, e os médicos e engenheiros engajados. Enfim, a elite que produziu intelectualmente o Brasil criou, na disputa entre o viés positivista ou liberal, 33 novos modelos culturais através dos debates sobre sujeito social, direitos civis, direitos políticos e papel do Estado. Um embate em que a opção antiliberal foi delineada, antes mesmo da Proclamação da República, como evolucionista e supostamente modernizante.

* Professora titular da Universidade de Brasília - CEPPAC.

1 AZEVEDO, Fernando. A cultura brasileira. Rio de Janeiro: Editora UFRJ; Brasília: Editora UnB, 1996.

2 CANCELLI, Elizabeth. Criminosos e não criminosos na História. Textos de História: Revista da Pós-graduação em História da UnB. Vol. 3, n o 1, 1995.

3 VENTURA, Roberto. Estilo Tropical: História cultural e polêmicas literárias no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p.39.

4 VENTURA, Roberto. Op. cit. p. 51.

5 ARAÚJO, João Vieira de. Código Penal comentado theorica e praticamente. Rio de Janeiro/ São Paulo: Laemmert & Cia Editores, 1896. p. 264.

6 Sobre essa freqüência, vide FAUSTO, Boris. Crime e cotidiano: a criminalidade em São Paulo (1880-1924). SãoPaulo:Brasiliense,1984,p.100.

7 Enrico Ferri era socialista, aliás, um dos maiores dirigentes socialistas europeus no início do século. Inscrevia-se na corrente do socialismo positivista italiano. Professor de Direito em Roma e Pisa, seria o único a ter sua classificação aceita no Congresso de Antropologia Criminal de Roma. Eles seriam os criminosos natos, os incorrigíveis, os habituais, os de ocasião e os alienados.

8 E por aí segue um incontável número de características próprias dos assassinos.

9 À medida que Freud vai publicando e ganhando notoriedade, juntamente com a Sociedade Internacional de Psicanálise, fundada em 1910, suas teorias são cada vez mais incorporadas às análises dos adeptos da Escola Positiva

e da Antropologia Criminal no Brasil.

10 Heleno Fragoso, ao criticar a Escola Positiva, diz que se cria uma ciência causal-explicativa, com forte aplicação do método experimental, o que estaria em desacordo com a Ciência Penal, em que o estudo do Direito seria o da Lei e não o do criminoso. Por isso, os preceitos jurídicos do positivismo seriam os dados antropológicos e os estatísticos. FRAGOSO, Heleno. Direito Penal e Criminologia. In: Revista Forense, Rio de Janeiro, 1954; ano 51, vol. 153. p. 49-

53.

11 Sistemas mais ou menos amplos, subordinados ao ecletismo do justo e do útil. ARAÚJO, João Vieira de. Op. cit., p.

378.

12 A inspiração para essa citação de Candido Motta vem de F. Puglia. Cf.: MOTTA, Candido. Op. cit., p. 10 e 11.

13 A citação é de Nina Rodrigues. Cf. CORRÊA, Mariza. As ilusões da liberdade. A escola de Nina Rodrigues e a Antropologia no Brasil. São Paulo: mimeo, tese de doutorado, USP, 1981(?). p. 140.

14 A questão social acha-se sempre presente nessa análise, trazida, fundamentalmente, pela sociologia. De uma certa forma, acredito que M. Clementina P. Cunha tenha desconsiderado essa questão ao afirmar, por exemplo, que “Nesta ótica, o ambiente urbano será expressamente responsabilizado pela geração de um número crescente de ‘degenerados’ cuja origem não é social, moral ou econômica, mas atribuída sobretudo às determinações biológicas de hereditariedade”. In: CUNHA, M. C. P. Op. cit, p. 26.

15 Em Massachussets, Estados Unidos, o princípio aceito do criminoso nato teria feito com que fosse proibido o casamento de epilépticos, alcoólicos e sifilíticos; na Pensilvânia, de sifilíticos, gonorréicos, epilépticos, dipsomanos, tuberculosos e sujeitos à loucura hereditária; no Texas, de epilépticos. Um tal deputado Edgar teria apresentado, em Michigan, um projeto de lei para que todas as pessoas encerradas em casas de saúde por alienação mental, epilepsia e os condenados pela terceira vez pela lei fossem submetidos à esterilização. Cf. MOTTA, Candido. Op. cit, p. 24 e 25.

16 MOTTA, Candido. Op. cit, p. 31.

17 Idem, ibidem. p. 32-33, 46-50.

18 A educação atuaria não como elemento formador do caráter, mas como elemento modificador.

19 Boris Fausto, por exemplo, ao retratar o espetáculo do Tribunal, refere-se ao julgamento de Albertina Barbosa - São Paulo, 1910 - em que o advogado de defesa “comparece trajando um bem talhado ‘frak’, calças xadrez, colete de fantasia, botinas de verniz, tendo constantemente na mão um lenço de seda roxo”. FAUSTO, Boris. Op. cit.

20 Correio Paulistano, quinta-feira, 14 de setembro de 1905, nº 15121. Ano 1909. São Paulo, Secretaria de Justiça e da Segurança Pública, 1909, p. 163.

21 Roberto Lyra foi um dos mais eminentes juristas brasileiros. Concluiu o curso de Direito com dezoito anos de idade, em 1920. Em 1924, foi nomeado adjunto do promotor de justiça da Capital Federal, iniciando carreira na Procuradoria de Justiça. Seu curriculum é extenso, mas profissionalmente esteve quase sempre ligado à área do Direito, especificamente à criminologia e ao Direito Penal e Criminal. Publicou mais de 100 trabalhos. Cf. Fundação Getúlio Vargas - Cpdoc. Dicionário Histórico- Bibliográfico Brasileiro (1930-1983). Rio de Janeiro: Forense- Universitária/Finep, 1984.

22 LYRA, Roberto. O amor e a responsabilidade criminal. São Paulo: Saraiva C. Editores, 1932. Cf. p. 86 e segs.

23 Estudos de Política Criminal, 1912.

24 MORAES, Evaristo. Problemas de Direito Penal e de Psicologia Criminal.

25 PEIXOTO, Afrânio. Psicologia Forense. Rio de Janeiro, s.ed. (?), 1916.

26 Arquivo Brasileiro de Psiquiatria , Neurologia e Medicina Legal, ano IV, nº 1 e 2, 1910.

27 BARRETO, Plínio. Questões Criminais. In: LYRA, Roberto. O amor e a responsabilidade criminal. São Paulo: Saraiva C. Editores, 1932. p.103.

28 XAVIER, Agliberto. O julgamento de Higino Cortes e a defesa da sociedade contra os bandidos. Rio de Janeiro:

Imprensa Nacional, 1928.

29 Ruth Harris descreve muito bem em seu livro como esse fato não modifica a essência do problema, pelo contrário, dá uma justificativa inquestionável aos bárbaros crimes de defesa da honra cometidos na França no final do século XIX. Cf. HARRIS, Ruth. Assassinato e loucura: medicina, leis e sociedade no fin de siècle. Rio de Janeiro: Rocco,

1993.

30 MORAES, Evaristo, Criminalidade passional, p. 31.

31 Idem, p. 66.

32 LYRA, Roberto. O método estatístico. In: Ciência do Direito: revista dos juízes e juristas brasileiros. Rio de Janeiro: ano I, tomoIII.

33 BRESCIANI, M. Stella M. O liberalismo e o século XIX. Campinas: Unicamp, mimeo, julho, 1991.