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Compilado e editado por Michael D. Palmer

Panorama do pensamento Cristão

Compilado e editado por Michael D. Palmer

Prefácio de Russel P. Spittler

REIS BOOK’S DIGITAL

Todos os direitos reservados. Copyright © 2000 para a língua portuguesa da Casa Publicadora das Assembléias de Deus. Aprovado pelo Conselho de Doutrina.

Título do original em inglês: Elements of a Christian Worldview Gospel Publishing House, Springfield, Missouri, USA Primeira edição em inglês: 1998 Tradução: Luís Aron de Macedo

Preparação de originais: Jefferson Magno Revisão: Alexandre Coelho e Kleber Cruz

Capa: Alexander Diniz Projeto gráfico: Daniel Bonates Editoração: Oséas Felício Maciel

CDD: Filosofia-201

ISBN: 85-263-0303-1

As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida, Edição de 1995, da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrá­ rio.

Casa Publicadora das Assembléias de Deus Caixa Postal 331 20001-970, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Ia edição/2001

Dedicatória

Para meus pais, Don eThelma Palmer, que foram bem-sucedidos em me transmitir a fé e sempre me incentivaram para que eu buscasse a verdade,e para meu filho de 18 anos, Bradley Charley Palmer que, na época de sua morte trágica ocorrida em 22 de novembro de 1997, já sabia profundamente muitos dos conceitos centrais apresentados neste livro.

Introdução / 7

Prefácio / 11

Sumário

Agradecimentos / 13

Lista de Colaboradores / 15

1. Panorama do Pensamento Cristão / 17

Michael D. Palmer

2. O Rapei da Bíblia na Formação do Pensamento Cristão / 79

Edgar R. Lee

3. Vozes do Passado: Tentativas Históricas para Formar um Pensamento Cristão / 109

Gregory J. Miller

4. O Cristão e a Ciência Natural / 149

Lawrence T. McHargue

5. Uma Perspectiva Sobre a Natureza Humana / 181

Billie Davis

6. Trabalho / 223

Miroslav Volf

7. Entrando no "Descanso Divino": Rumo a uma Visão Cris­ tã de Lazer / 247

Charles W. Nienkirchen

8. A Ética de Ser: Caráter, Comunidade, Práxis / 293

Cheryl Bridges Johns e Vardaman W. White

9. Música que Vem do Coração da Fé / 325

Johnathan David Horton

10. O Lugar da Literatura no Pensamento Cristão/ 351

Twíla Brown Edwards

11. Os Cristãos e a Cultura da Mídia de Entretenimento / 391

Terrence R. Lindvall e J. Matthew Mellon

12. Política para Cristãos (e Outros Pecadores) / 427

Dennis McNutt

Apêndice 1: Reflexões sobre os Significados da Verdade / 470

Michael D. Palmer

Apêndice 2: Jean-Paul Sartre / 487

Michael D. Palmer

Apêndice 3: Karl Marx / 489

Michael D. Palmer

ELEMENTOS DE UMA COSMOVISÃO CRISTÃ

Johnathan David Horton

Apêndice 5: A Música e o Estilo de Adoração / 497

Johnathan David Horton

Apêndice 6: C . K. Chesterton no Poder dos Contos de Fada / 502

Twila Brown Edwards

Apêndice 7: C. S. Lewis / 504

Twila Brown Edwards

Apêndice 8: Thomas FJobbes e a Teoria de Contrato de Justiça/506

Michael D. Palmer

Apêndice 9: John Locke e a Teoria dos Direitos Naturais / 509

Michael D. Palmer

Apêndice 10: Os Direitos/ 512

Michael D. Palmer

Apêndice 11: A Justiça / 516

Michael D. Palmer

Introdução

Muitas palavras do vocabulário inglês (e também do portugu­ ês) vêm dos idiomas grego e latino. Palavras tão comuns quanto agenda ou exit (saída) vêm diretamente do tempo dos autores clás­ sicos. Outras palavras, entretanto, entraram em nossa língua sem serem percebidas, provenientes de alguma outra cultura. Khaki (cáqui) é originária de um termo paquistanês. Bureau (agência, repartição) é francês puro. Corridor (corredor), palio (pátio) eplaza (praça) são termos espanhóis autênticos, e chocolate provém dire­ tamente do dialeto asteca. Cosmovisão, a palavra que define o ponto central deste livro, alcança a língua portuguesa como se também fosse um emigrante linguístico. O idioma alemão tem uma grande propensão para pa­ lavras compostas. Só para dar um exemplo extremo, eis um termo

alemão para tanque militar: Schutzengrabenzerstõrungsautomobil.

Pelas mesmas leis do idioma, este é um sinónimo: der Panzer. A palavra “cosmovisão” junta lado a lado duas palavras equivalen­ tes em português como tradução lite ral do termo alemão Weltanschauung — termo com longa e nobre herança filosófica. Inventado por filósofos alemães, Weltanschauung descreve um modo de ver o mundo. Alguém poderia supor que o mundo é uma ilusão; que as coisas não são reais. Outros poderiam dizer, como fazem os idealistas de todas os tempos, que existe mais coisas no mundo do que se pode ver. Outros ainda poderiam concluir que o mundo é inóspito e irremediável, levando ao desespero. Em vez de aportuguesar Weltanschauung para a palavra “cos­ movisão” , os linguistas teriam feito um favor aos povos de fala portuguesa sendo um pouco menos complicados. Traduzir Weltanschauung como “perspectiva” ou mesmo “atitude” não te­ ria representado uma tradução longe do seu significado, a não ser pelo fato de que o termo técnico alemão refere-se especificamente à atitude da pessoa para com o mundo. Que “mundo” ? As vastas extensões do universo estrelado? O

pleno complemento das culturas humanas de nosso globo? Ou possivelmente o “mundo” que entra em nosso vocabulário medi­ ante alguma pressão que alguém exerce de maneira incorreta e forçada sobre a Escritura? Ao usar essa palavra, a tradição filosó­ fica alemã certamente tinha em mente o mundo material e o uni­ verso invisível, o mundo visível e as galáxias que o nosso intelec­ to é capaz de imaginar que existam. A noção que as pessoas têm da realidade constitui a cosmovisão delas. Até onde sei, não há palavra bíblica que possa equivaler à pa­ lavra “cosmovisão” . Porém encontramos nas páginas das Escritu­ ras uma atitude normativa em relação ao mundo visível e invisí­ vel. A li existe - ainda que os teólogos não façam muita conta dis­ so - uma teologia do mundo.

A cosmologia é qualificada como um termo que descreve como

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

as pessoas pensam a respeito do mundo. Os astrónomos e cientis­

tas usam o termo para definir uma ciência do universo distante. Os teólogos usam o mesmo termo para reunir doutrinas bíblicas relacionadas com a origem e o destino do mundo visível — cha­ mado em grego (inclusive o grego do Novo Testamento) de cos­ mo. (O termo “cosmético” obteve sua qualidade de beleza prove­ niente da admiração grega da simetria deslumbrante dos céus.)

A outra palavra importante no Novo Testamento grego traduzida

por “mundo” vai numa direção diferente. Oikoumenê descreve a soma total das culturas humanas. Considerando que esta palavra primeiro definia uma casa de fam ília, é fácil entender como veio significar sociedade organizada, levando, por um lado, à palavra “economia” e, por outro, à palavra “ecuménico” . Assim, as pala­ vras bíblicas usadas para descrever o mundo foram tomadas de outros significados comuns. Mas neste livro só nos preocupare­ mos em falar sobre uma teologia do mundo. Detectei no Novo Testamento um uso duplo da idéia de mundo e como os cristãos deveriam vê-lo. Há uma visão joanina do mun­ do — um sistema organizado de oposição humana, demoníaca até, e que peca contra Deus. Deste ponto de vista, segundo um grupo de passagens do Evangelho de João, das Epístolas de João e do Apocalipse, os verdadeiros crentes são aconselhados a “evitar o mundo” — o que pode ser chamado de “este mundo mal”, um setor da sociedade que acha-se em oposição à Igreja. Este é o mundo a evitar, a afastar-se, e sua existência torna necessária a nossa santidade (separação do mundo).

O outro elemento da idéia de mundo na Escritura é paulino. A

visão de Paulo do mundo é mais sanguínea do que a de João. Essa diferença pode refletir as diferentes experiências de suas respecti­ vas vidas. Tradicionalmente, João foi considerado um pescador

rural; Paulo, como cidadão de Roma, um sofisticado e frequente viajante. Há, portanto, contrastes distintos nas atitudes de João e de Paulo em relação ao mundo. Nutridos pelas Escrituras judai­ cas, ambos vêem Deus como o Criador de tudo o que há. Ambos encaram Deus como estando no controle de todos os aconteci­ mentos humanos. Ambos sabem que o sistema mundial presente é passageiro, que logo passará. Ambos, junto com Pedro, esperam um novo céu e uma nova terra. Porém, a diferença entre os dois jaz na opinião sobre o que fazer no campo da cultura humana neste tempo presente. João mal conse­ gue achar alguma coisa boa no atual mundo de pessoas e coisas. Por outro lado, Paulo eleva sua retórica majestosa em louvor do controle de Deus sobre todo empreendimento humano, o que ele vê como reflexos manchados, mas autênticos, da imagem de Deus residente em toda pessoa e, por conseguinte, em toda cultura humana. Claro que tanto João quanto Paulo levam em conta o pecado para fazerem a análise fundamentalmente correta da condição hu­ mana falha. Ambos olham para as metáforas da transformação di-

vina da biologia — novo nascimento, segundo nascimento, vinhas e podas, vida etema e coisa parecida. Paulo, treinado como advo­ gado, prefere a linguagem judicial — culpa, julgamento, adoção, justificação, absolvição. Os cristãos pensantes podem obter ajuda de Paulo e João. As maquinações da humanidade caída realmente agrupam-se nos bolsões da cultura humana — pornografia, leis injustas, trapaças sistemáticas nos negócios ou na educação, para nomear apenas algumas. Os cristãos de tradições arminianas, que ressaltam a li­ berdade humana, parecem inclinar-se às obscuras visões do mun­ do como algo a evitar, um reino do qual se separar. Tais idéias vagas foram teologizadas especialmente nos setores metodista, holiness e pentecostal da Igreja. Porém, noções igualmente bíblicas sobre a cultura humana emergem dos escritos do apóstolo Paulo e aparecem em partes da Igreja afetada pela tradição reformada. Por exemplo, considere esta afirmação feita por Paulo num contexto de aconselhamento dado aos cristãos coríntios que se limitavam aos embaixadores favorecidos da verdade cristã: “Tudo é vosso: seja Paulo, seja Apoio, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro, tudo é vosso, e vós, de Cristo, e Cristo, de Deus” (1 Coríntios 3.21-23). “Tudo é vosso” , a herança dos cristãos. Tudo da cultura huma­ na: toda arte, toda música, todos os atos heróicos da abnegação, toda nobreza, toda compaixão. Nada foi omitido. Tudo pertence ao cristão. Os heróis da fé. O violinista mestre. Os fabricantes de filigrana de prata pura. O evangelista eloquente. Corrie ten Boom. Albert Einstein. Os bosques de tigre. Paulo, Apoio e Cefas: O Se­ nhor não pretendeu que ninguém limitasse a receptividade a qual­ quer uma das criaturas de Deus. Tudo é vosso: todas as pessoas, até todas as coisas. O editor dos capítulos deste livro, e os próprios autores, forne­ cem aqui recursos repletos de reflexão para que por meio deles possa ser construída uma cosmovisão de amplitude que mescle Paulo e João. Estas palavras sábias ajudarão seguidores pensati­ vos de Jesus a saber o que evitar no mundo, do que se afastar. Mas também serão de ajuda na avaliação de tudo o que é bom na cultu­ ra humana, e na consideração das reflexões coletadas das mais altas criaturas do Senhor que, embora manchadas e sozinhas entre todos os seres viventes, encarnam a imagem de Deus. Recomendo este livro aos cristãos pensativos de todos os lugares, e especialmente aos adultos jovens que estão come­ çando a aprender a considerar a imensidão e diversidade do mundo de Deus.

— Russel P. Slittler

Reitor e Professor do Novo Testamento no Fuller Theological Seminary

Prefácio do Editor

O prefácio é frequentemente a parte menos lida de um livro.

Espero que este seja uma exceção, porque o objetivo deste livro e

as preocupações filosóficas que o inspiraram estão explicadas aqui. Conforme o título dá a entender, este livro considera certos

componentes ou fatores — elementos, como os chamo — que cons­

tituem uma cosmovisão. E um livro escrito por estudiosos cristãos destinado a cristãos que buscam respostas claras e sólidas às ques­ tões fundamentais que estão a confrontá-los nos inúmeros aspec­ tos da vida. Mais particularmente, foi escrito para todos os cris­ tãos que se sentem intensamente confrontados por esses questionamentos. Alguns capítulos alicerçam-se em algumas dis­ ciplinas académicas. Outros tratam de assuntos cotidianos da vida.

E outros, ainda, concentram-se em fenómenos culturais. Enquanto medito na distribuição dos capítulos e as ligações entre eles, a palavra mais descritiva que me vem à mente é monta­ gem: quadros separados foram combinados para formar um qua­ dro composto. Embora os capítulos sejam unidos uns aos outros de vários modos, cada um pode ser lido independentemente. Conseqiientemente, o leitor procurará em vão por um único e contínuo argumento do princípio ao fim. Não se trata desse tipo de livro. Não obstante, ele exibe periodicamente certo tema recor­

rente: a integração da fé, da aprendizagem e da vida. Integrar é coordenar ou misturar informações, fatos e conclusões num todo funcional e unificado. Integrar a fé, a aprendizagem e a vida signi­ fica desenvolver para nós mesmo um modo completamente cris­ tão de pensar e responder a assuntos e todos os tipos de situações da vida. Significa desenvolver uma perspectiva distintamente cristã em todos os assuntos da fé, todos os modos de investigação e to­ das as profundas questões que a vida levanta.

A integração em sua expressão mais rica — pensar e agir de

modo completamente cristão — não é nem facilmente alcançada, nem alcançada de uma vez por todas. De fato, é melhor não pen­ sar nela como uma realização, absolutamente. Ela é na verdade mais um processo que continua ao longo da vida à medida que refletimos no significado de nossa fé e intentamos permitir que isso molde nossas respostas a novas idéias e experiências. Infelizmente, o que vemos com mais frequência que integração

é alguma forma de justaposição. Justapor duas coisas é pô-las uma

ao lado da outra. A interação entre elas pode ser real de certa ma­ neira, mas o âmbito da interação total está limitado, e as duas nun­ ca estão verdadeiramente unidas. O estudante de psicologia estará tão-somente justapondo sua fé e seu curso universitário se não pensar cuidadosamente sobre como suas convicções cristãs rela- cionam-se com as teorias da personalidade que ele está estudando em sala de aula. O jovem gerente empresarial está meramente jus­ tapondo sua fé e sua profissão, se ele não permite que as implica­

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

ções morais do seu sistema cristão de convicção influenciem sua política de administração. Em geral, justapomos (ou colocamos lado a lado) nossa fé e nosso curso universitário, ou nossa fé e nossa profissão, ou nossa fé e qualquer outro aspecto de nossa vida. Quando falamos da fé fazendo evidente diferença sobre como pensamos e nos expressamos, queremos dizer mais que simples­ mente poder declarar nossas convicções clara e sucintamente. A doutrinação pode alcançar esses resultados. Mas integração e dou­ trinação não são a mesma coisa. A doutrinação busca a aceitação inquestionável de respostas desenvolvidas por outra pessoa, nor­ malmente uma figura de autoridade, enquanto que a integração requer que descubramos para nós mesmos, mesmo que alguém nos ajude no processo. A integração, mesmo quando difícil e do­ lorosa, promove a fé madura. Com estas distinções em mente, apresso-me em observar que este livro é uma tentativa deliberada de dirigir-se àqueles a quem a doutrinação não é uma resposta aceitável para as grandes (e difí­ ceis) questões da vida. E um livro que explora idéias, conceitos e princípios, alguns dos quais controversos e todos resistentes a res­ postas fáceis. Presume uma medida de maturidade por parte do leitor. Além disso, pressupõe e encoraja uma abordagem integra­ da aos assuntos de que trata. O primeiro capítulo apresenta os elementos básicos de qual­ quer cosmovisão. São, segundo minha concepção: 1) ideologia, 2) narrativa, 3) normas morais e estéticas, 4) rituais, 5) experiên­ cia e 6) o elemento social. O restante dos capítulos lida, de uma maneira ou de outra, com aqueles seis elementos enquanto os ve­ mos desenvolvidos numa cosmovisão cristã. Em cada caso, os autores dos capítulos se esforçaram por fornecer mais que infor­ mação sobre suas respectivas disciplinas e campos de habilidade. Eles procuraram modelar o que significa pensar cristãmente — para verdadeiramente integrar a fé, a aprendizagem e a vida. É minha esperança que as palavras deles venham a servir de estímu­ lo a muitos cristãos, para que vivenciem o significado de sua fé em cada aspecto de suas vidas.

— Michael D. Palmer Professor de Filosofia Evangel University

Agradecimentos

Os autores em geral isentam todas as pessoas que os ajudaram da responsabilidade por quaisquer erros ou deficiências no texto. Porém, mesmo que os erros e as deficiências sejam meus, o crédi­ to deles pertence a muitos amigos e colegas. Todos somos produ­ tos do que as outras pessoas nos ajudaram a ser. Com relação a este livro, muitas pessoas ajudaram no processo — desde a for­ mação da idéia inicial até a criação do produto final — e desejo reconhecer minha considerável dívida para com eles. A junta diretora editorial da Logion Press merece crédito pela confiança depositada em mim para empreender este projeto, e pela paciência e apoio no processo. David Bundrick, presidente dajunta quando este livro foi proposto pela primeira vez, trabalhou com afinco para assegurar que o projeto tivesse um bom começo. Dayton Kingsriter, que sucedeu Bundrick como presidente da junta dire­ tora editorial, dedicou muitas horas a este trabalho. Agradeço-lhe pelo empenho como facilitador. Jean Lawson, editor administrati­ vo, e Glen Ellard, editor de publicações, foram de grande auxílio, agradáveis e profissionais em todos os sentidos. Sou grato a Leta Sapp pelo design do lay-out e texto. Kim Kelley fez excelente trabalho coordenando o lay-out e design do livro. Desejo expres­ sar agradecimento especial ao Dr. Stanley Horton, editor geral, pela atenção cuidadosa que deu aos vários desenhos de cada capítulo. Além do mais, desejo agradecer-lhe pelo apoio moral e paciência que me estendeu durante o desenvolvimento do livro. Acabei tendo pro­ fundo afeto por ele como pessoa e considerável respeito por sua habi­ lidade como editor. Trata-se de um homem em quem não há dolo — um cavalheiro no mais verdadeiro sentido da palavra — e considero um privilégio ter trabalhado com ele. Que prazer foi trabalhar com os autores colaboradores! Seus escritos estimularam meu pensamento além de qualquer coisa que eu tivesse imaginado no início. Localmente, a Evangel University tem sido um lugar maravi­ lhoso para eu amadurecer como estudioso desde que cheguei no campus em 1985. Desde os primórdios deste projeto, o Dr. Glenn H. Bemet Jr., Vice-presidente para Assuntos Académicos, deu encorajamento para o projeto — e dinheiro! Ele tem sido o principal responsável por eu haver recebido subsídio do Fundo para Projetos dos Alunos/Faculdade da universidade que subscreveu as várias des­ pesas associadas com o desenvolvimento do livro. Muitos estudantes na Evangel University também contribuí­ ram para a qualidade global deste livro. Durante duas sessões de verão (1996 e 1997), os estudantes de um curso de educação geral intitulado Filosofia Cristã leram as primeiras versões de alguns dos capítulos que aparecem aqui e fizeram comentários proveito­ sos. Estou satisfeito por terem levado a sério meu convite para fazerem um comentário sobre todos os aspectos do manuscrito.

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

Estou em débito com vários colegas que leram e teceram co­ mentários sobre certos capítulos. Larry Dissmore, do Departamento de Música, fez comentários sobre o capítulo de música. Turner Collins, do Departamento de Ciência e Tecnologia, propôs nume­ rosos comentários úteis no capítulo de ciência. Eu mesmo não poderia ter escrito meu principal capítulo sobre cosmovisão sem a ajuda generosa de Tw ila Edwards (Estudos Bíblicos) e James Edwards (Humanidades). Quando em certo ponto no desenvolvi­ mento do capítulo cheguei a um impasse, eles dedicaram quase um fim de semana inteiro lendo o manuscrito e discutindo comigo numerosos assuntos organizacionais e substantivos. Michael Buesking, do Departamento de Humanidades, produ­ ziu virtualmente todos os trabalhos de arte no texto. Os esbo­ ços do seu lápis me são fonte contínua de satisfação e orgulho. Sinto-me honrado por seus nomes aparecerem neste livro. Stan Maples, do Departamento de Humanidades, projetou a capa para o livro. Agradeço a Stan por sua paciência em ouvir minhas idéi­ as para o design da capa e reconheço sua considerável habilidade em transformar minhas idéias imprecisas em imagens que pren­ dem a atenção. Aos meus colegas do Departamento de Estudos Bíblicos e F i­ losofia, que me incentivaram para que eu empreendesse este pro­ jeto e que me proporcionaram ajuda ao longo dele, expresso meus agradecimentos. Gary Liddle, cujas funções pedagógicas habitu­ ais encontram-se nos estudos bíblicos, mas que é na verdade um generalista ao estilo renascentista, é o herói não aclamado por trás deste livro. Ele crê nos conceitos, entende-os de certa maneira melhor do que eu e, portanto, suas palavras tiveram peso especial nas conjunturas cruciais ao longo do caminho. Ele ofereceu análi­ se extensa sobre vários capítulos. Suas perguntas eram investiga­ doras e seus comentários muito prestimosos. M inha esposa, Connie M arie, fo i e tem sido minha incentivadora e minha companheira favorita— no desenvolvimen­ to deste livro, como em tudo o mais, sine qua non.

— M . D. P.

Lista de Colaboradores

Billie Davis, Ed.D. (Administração & Sociologia, University of Miami, Flórida), é Professor Emérito e ex-Cátedra do Departamento de

Missouri.

Twila Edwards, M.A. (Literatura Inglesa, Southwest Missouri State University), M A. (Literatura Bíblica, Assemblies of God Theological Seminary), é Professora Associada de Estudos B íb li­

cos na Evangel University, em Springfield, Missouri.

Ciências Behavioristas da Evangel University, em Springfield,

Johnathan David Horton, Ph.D. (Música, George Peabody

College for Teachers), é Professor de Música na Lee University, em Cleveland, Tennessee.

Cheryl Bridges Johns, Ph.D. (Educação Cristã, Southern

Baptist Theological Sem inary),

Discipulado e Formação Cristã no Church of God Theological Seminary, em Cleveland, Tennessee. Edgar R. Lee, S.T.D. (Teologia, Emory University), é Vice- presidente para Assuntos Académicos no Assemblies of God Theological Seminary, em Springfield, Missouri. Terrence Lindvall, M.Div. (Fuller Theological Seminary), Ph.D. (Comunicação, University of Southern Califórnia), é Pro­ fessor de Cinema e Estudos de Comunicação na Regent University, em Virginia Beach, Virgínia.

Lawrence T. McHargue, Ph.D. (Biologia, University of

Califórnia, Irvine), é Professor de Biologia na Southern Califórnia College, em Costa Mesa, Califórnia. Dennis McNutt, Ph.D. (Governo, Claremont Graduate School), é Professor de História e Ciências Políticas na Southern Califórnia College, em Costa Mesa, Califórnia. J. Matthew Melton, Ph.D. (Regent University), é Cátedra de Comunicação e Letras na Lee University, em Cleveland, Tennessee. Gregory J. Miller, Ph.D. (Estudos Religiosos — História do Cristianismo, Boston University), é Professor Associado de His­ tória Eclesiástica no V alley Forge Christian College, em Phoenixville, Pensilvânia.

é Professor Associado de

Charles W. Nienkirchen, Ph.D.

(H istó ria, W aterloo

University), é Professor de História Cristã e Espiritualidade no Rocky Mountain College em Calgary, Alberta, Canadá. Ele tam­ bém serve como Professor Adjunto em faculdades de graduação de diversos seminários canadenses. Michael D. Palmer, Ph.D. (Filosofia, Marquette University), é Professor de Filosofia e Cátedra do Departamento de Estudos Bíbli­ cos e Filosofia na Evangel University, em Springfield, Missouri. Miroslav Volf, Th.D. (Teologia Sistemática, Eberhard-Karls Universitát, Túbingen), é Professor em Teologia do Henry B. Wright na Yale University, em New Haven, Connecticut. Vardaman W. White, candidato a Ph.D. (Teologia e Ética, University of Iowa), vive e trabalha em Atlanta, Geórgia.

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MICHAEL D. PALMER

N ão é frequente ler um livro que me surpreenda, muito me­ nos um que cause em mim uma impressão impactante. Mas fiquei surpreso e impressionado com o romance de Chiam

Potok, The Chosen (O Escolhido). No início do romance, Reuven,

o narrador, confessa: “Durante os primeiros quinze anos de nos­

sas vidas, Danny e eu morávamos a cinco quarteirões um do outro

e nenhum de nós sabia da existência do outro” .1Minha infância e

primeiros anos de adulto foram passados numa cidade de tama­ nho médio nas montanhas do Estado de Montana ocidental, Esta­ dos Unidos, onde eu conhecia todos os vizinhos de vários quartei­ rões em todas as direções. Assim, quando essa observação no li­ vro de Potok, minha imaginação foi instigada. Descobri, enquan­ to lia, que Reuven e Danny estavam impedidos de ser amigos,

porque seus amigos mais chegados, fam ília e especialmente seus pais, tinham adotado cosmovisões competidoras. Observar a coli­ são destas cosmovisões impressionou minha imaginação e mar­ cou um ponto crucial em minha reflexão sobre as principais for­ ças da convicção e do sentimento que animam minha própria cos- movisão cristã.

Dois Meninos, Dois Mundos

Reuven Malter e Danny Saunders eram meninos judeus que cresceram nos anos de 1940, em um bairro densamente povoado

do Brooklyn. Até os anos da adolescência, não sabiam nada um do outro porque pertenciam a seitas diferentes, ou da mesma ra­ mificação do judaísmo, com marcantes diferenças na cosmovisão.

A família e amigos de Danny eram judeus hassídicos, profunda­

mente conservadores com origens na Rússia. Em sua vida cotidi- ana, comunicavam-se em iídiche e observavam certas práticas cul­ turais que inequivocamente os identificavam como hassidim. Por exemplo, os homens usavam chapéus pretos e casacos pre­ tos longos, e cultivavam barbas fartas e cachos de cabelo pegados aos lados do rosto; os meninos usavam cachos de cabelo pegados

O hassidismo é um movimento judaico fundado na Polónia no século X V III por um homem chamado Baal Shem Tov. O nome “ hassidism o” deriva da palavra hassidim, que significa “os piedosos” . O movimento hassídico surgiu como reação às perseguições e ao formalismo académi­ co do judaísmo rabínico. Desde seu início,

incentiva a expressão religiosa jovial por meio da música e da dança, e ensina que a pureza de coração é mais agradável a Deus do que a aprendizagem . Em 1781, os talm udistas declararam herético o hassidismo. Não obstante, o movimento continuou crescendo e hoje é uma presen­ ça forte e vital na vida judaica.

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aos lados do rosto e tinham franjas no lado de fora de suas calças compridas. A família e amigos de Reuven, ao contrário, pratica­ vam uma ortodoxia judaica menos conservadora. Em sua vida cotidiana comunicavam-se principalmente em inglês, usavam rou-

O iídiche é um idioma do alto alemão escri­

to em caracteres hebraicos que se desenvolveu

durante a Idade Média. A palavra “iídiche” é a forma abreviada de iídiche daytsh, que signifi­

ca literalmente “judeu-alemão” . Os linguistas

classificam o idioma como membro do grupo germânico ocidental, da subfamília germânica pertencente à família indo-européia de idiomas.

Antes do aniquilamento de 6 milhões dejudeus pelos nazistas durante a década de 1940, o iídiche era a língua de mais de 11 milhões de pessoas. Embora não seja uma língua nacional, hoje o iídiche é falado no mundo inteiro por mais de 4 milhões dejudeus, especialmente nos Estados Unidos, Israel, Argentina, Canadá, França, Mé­ xico, Rússia, Ucrânia e Roménia.

pa americana comum e não tinham barba ou cachos de cabelo ao lado do rosto. Enquanto tanto os Maiter e os Saunders ansiavam

pelo retorno dos judeus à sua pátria, suas ideologias ditavam ca­ minhos muito diferentes para que isso acontecesse. O pai de Danny, o rabino Saunders, como outros na comunidade hassídica, asseve­ rava que os judeus só poderiam voltar à sua pátria depois da che­ gada do seu tão esperado Messias.

O pai de Reuven, por outro lado, juntava-se ao sionismo, um

movimento ideológico que lutava para estabelecer o Estado de Israel. Além de diferirem sobre assuntos políticos importantes, os Saunders e os Maiter divergiam nas atividades cotidianas, como o

*7oná

Torá quer dizer “ensinos” ou “apren­ dizagem” . Os judeus usam a palavra de duas maneiras relacionadas, mas distin­ tas. Primeiro, Torá é o nome hebraico para

o Pentateuco, os cinco primeiros livros da

Bíblia. A Torá, ou Lei Escrita, que os ju ­ deus ortodoxos acreditam que foi revela­ da diretamente por Deus a M oisés no monte Sin ai, estabelecia certas leis da moral e comportamento físico. Segundo,

o nome Torá é usado num sentido mais

amplo para re­ ferir-se a todos os ensinos do judaísm o, in ­ clu sive toda a escritura hebrai­ ca, o Talmude e qualquer outra interpretação rabínica geral­ mente aceitada.

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MICHAEL D. PALMER

entretenimento. Danny e Reuven nunca teriam se encontrado em um teatro, porque a cosmovisão do rabino Saunders proibia assis­ tir filmes. Tanto o ramo hassídico de Danny quanto o ramo ortodoxo de Reuven acreditavam em Deus e ressaltavam a importância da Torá. Não obstante, os hassidim viam o povo de Reuven com suspeita. Eles os chamavam de apikorsim, termo de zombaria usado para referir-se aos judeus que abandonavam as práticas culturais tradi­ cionais e negavam certas doutrinas básicas da fé judaica, como a existência de Deus, sua revelação e a ressurreição dos mortos. Também dizia respeito aos judeus que liam a Torá em hebraico e não em Iídiche, um pecado imperdoável aos olhos dos hassidim, porque o hebraico era a língua santa. Usá-la em discurso comum de sala de aula era considerado uma profanação do nome de Deus. Claro que o povo de Reuven não negava a existência de Deus. Porém, sua educação diferia de maneira notável da educação das crianças hassídicas. Enquanto a cosmovisão hassídica restringia a educação principalmente aos assuntos religiosos aprovados, a cos­ movisão ortodoxa acrescentava à religião tais estudos como ciên­ cia moderna e psicologia, tópicos profundamente suspeitos para o rabino Saunders. No princípio da década de 1940, com o país completamente comprometido com os esforços da guerra, alguns professores de inglês nas escolas paroquiais judaicas (yeshiva) sentiram a neces­ sidade de fazer uma declaração ao “mundo gentio”. Eles queriam mostrar que os estudantes yeshiva, conhecidos por seu estilo de

*7atwtude

A palavra Ta/mude quer dizer literalmente

“aprendizagem” ou “instrução” . No judaísmo, é o nome de uma obra composta de duas par­

tes: A Lei Oral judaica e os comentários rabínicos de acompanhamento. O texto da Lei Oral (escrito em hebraico) é chamado Mishná;

í o texto dos comentários rabínicos de acompa-

nhamento (escrito em aramaico) é chamado Gemara. A Gemara desenvolveu-se das inter­ pretações da Mishná feitas por estudiosos ju ­ deus (fariseus de c. 200 a.C. a c. 500 d.C.), cujos argumentos excessivamente minuciosos tornaram a obra fonte valiosa de informação suplementar e comentário.

vida repleto de estudos, eram fisicamente capazes como qualquer outro. Para fazerem isso, organizaram as escolas de bairro numa liga de softball, forma modificada de beisebol jogado com bola mais macia e maior. Como era de se esperar, os rabinos que ensi­ navam nas yeshivas encararam o beisebol com ceticismo. Para eles, era um nocivo desperdício de tempo. Eles temiam seu forte apelo, temiam que seduziria os jovens a abandonar sua identidade judaica, temiam que faria com que os jovens quisessem assimilar as idéias e cultura americanas. Mas os jovens resolveram adotar o

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

jogo e enfrentar o preconceito de serem americanos. Para eles, uma vitória no beisebol entre as ligas “representou somente um valor menos significativo do que uma nota alta no Talmude” . O sucesso no beisebol permitiu-lhes considerar-se a si mesmos par­ ticipantes plenos na vida da nação: “Foi uma inquestionável mar­ ca do americanismo, e ser considerado um americano leal tinha se tomado cada vez mais importante para nós durante esses últimos dias da guerra” .2 Danny e Reuven encontraram-se pela primeira vez durante uma

de beisebol entre suas duas escolas. Durante o jogo, o

olho de Reuven ficou seriamente ferido, quando foi atingido por uma bola batida por Danny. A interação dos rapazes, inclusive sua consequente amizade depois do acidente, fornece base concreta para considerar o que significa manter uma cosmovisão. Também proporciona modelo proveitoso para refletir cuidadosamente e com precisão nas principais linhas de uma cosmovisão cristã. Na ver­ dade, a história destes rapazes judeus merece consideração, por causa das importantes questões que evoca, pois são as mesmas que os cristãos enfrentam hoje: perguntas sobre Deus, sobre nós mesmos, sobre nossa comunidade, sobre o que podemos esperar, sobre o que temos de fazer. Nas páginas que se seguem, exploraremos o que significa ter uma cosmovisão em geral, e em particular o que significa ter uma

competição

cosmovisão cristã. Quando tivermos terminado, disporemos de (como Danny e Reuven) uma avaliação profunda das questões e um melhor entendimento de como nossa cosmovisão pode perma­ necer unida.

O que É uma Cosmovisão?

Como definição inicial de nosso tópico, podemos dizer que uma cosmovisão é um conjunto de crenças que a pessoa mantém. Contudo, nem todo conjunto de crenças forma uma cosmovisão. Alguns desses conjuntos são meramente coleções fortuitas ou sor­ timentos estranhos de crenças. Ao olhar os livros numa estante em meu gabinete de estudos, identifico um chamado Triviata. Seu

subtítulo descreve-o como Um Compêndio de Informações Inú­

teis. Um amigo me deu o livro como uma brincadeira. As declara­ ções desconexas dos fatos que ele contém seguramente não cons­ tituem uma cosmovisão. As convicções numa cosmovisão perma­ necem unidas, de certo modo coesas. Em vez de ser uma lista de idéias desconexas (um compêndio de informações inúteis, por as­ sim dizer), estas crenças ajustam-se umas às outras de modo uni­ ficado e formam um todo. Neste ponto, ninguém poderia encon­ trar contraste mais forte do que entre a Triviata e o Talmude. Na tradição judaica, o Talmude representa um esforço ao lon­ go dos séculos feito por muitos comentaristas rabínicos para che­ gar a uma interpretação unificada da Lei Oral judaica. Mesmo

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MICHAEL D. PALMER

quando os rabinos diferem em suas interpretações da Lei Oral, eles continuam se empenhando na busca de uma interpretação unificada que não contenha nenhuma contradição. No mínimo, uma cosmovisão é um conjunto de crenças que são consistentes entre si e que formam um ponto de vista unifica­

do. Mas até esta descrição não é adequada. Por exemplo, um con­ junto de crenças sobre geometria, outro sobre o equilíbrio do or­ çamento nacional e outro sobre a navegação numa grande rede de computadores como a Internet podem exibir consistência e unida­ de de perspectiva, mas nenhum destes conjuntos de crenças cons­ titui uma cosmovisão. Isto é assim por pelo menos duas razões. Primeiro, embora consistentes e unificados em seu ponto de vista, são bastante estreitos em seu enfoque e lidam principalmen­ te com assuntos técnicos. Ao contrário, as crenças centrais de uma cosmovisão abordam interesses centrais ao significado da vida hu­ mana. Segundo, as crenças sobre geometria, a dívida interna ou a Internet têm poucas cone­ xões diretas para as outras coisas em que acre­

ditamos ou fazemos. O geômetra não tem de aplicar seu conhecimento para construir casas; uma teoria sobre o equilíbrio orçamentário na­ cional pode muito bem nunca ver a luz do dia

além da porta do economista que a desenvol­ veu; saber como navegar na Internet não diz nada sobre que tipo de informação a pessoa deve procurar ou compartilhar. Ao contrário, as crenças centrais de uma cosmovisão têm im­ plicações importantes para muitas outras crenças e práticas na vida diária. Na comunidade hassídica de Danny, por exemplo, crer em Deus afetou profundamente todas as outras crenças e práticas. Se­ melhantemente, porque acreditavam que a Torá era a lei de Deus, os hassidim também acreditavam que deveriam reunir-se regular­ mente na sinagoga para oração e estudo. Além disso, expressaram sua fé e lealdade comunitária por meio de seus rituais (ritos de passagem, como o bar mitzvah para os meninos), as roupas (cha­ péus pretos e casacos pretos longos), aparência externa (barbas fartas e cachos de cabelo pegados aos lados do rosto) e práticas tradicionais (matrimónios arranjados pelos pais). Em resumo, as crenças centrais de uma cosmovisão não são estreitas em seu foco, mas tocam quase todas as outras crenças e práticas daqueles que mantêm-se fiéis à cosmovisão. As questões enfrentadas por pessoas como Danny e Reuven na tradição judaica e por pessoas pensativas na tradição cristã são realmente questões sobre nossas crenças e práticas mais básicas. Quer estejamos cientes disso ou não, nossas crenças centrais e práticas formam um ponto de vista ou perspectiva que é distinta­ mente nosso. Esta perspectiva distintiva constitui nossa cosmovi­ são-, nossas várias crenças centrais e práticas são os elementos dessa

Uma cosmovisão é um conjunto de crenças e práticas que moldam o envolvimento da pessoa nos assuntos mais importantes da vida.

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

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cosmovisão. Uma cosmovisão é um conjunto de crenças e práti­ cas que moldam a abordagem da pessoa aos assuntos mais impor­ tantes da vida. Por meio de nossa cosmovisão, determinamos pri­ oridades, explicamos nossa relação com Deus e com os seres hu­ manos, avaliamos o significado dos acontecimentos e justifica­ mos nossas ações. Nossa cosmovisão também influencia as práticas mais comuns da vida cotidiana, inclusive os tipos de coisas que lemos e vemos, os tipos de entretenimento e atividades de lazer que buscamos, nossa abordagem ao trabalho e muito mais.

Quem Tem uma Cosmovisão?

Qualquer pessoa capaz de considerar esse assunto tem uma cosmovisão. O modo como falamos e agimos dá evidência que temos uma cosmovisão. Isto mostra que mantemos certas crenças, que adotamos determinado conjunto de prioridades, que certas histórias nos impressionam como particularmente eficazes e pro­ váveis de mexer conosco, e que certas práticas e situações sociais têm importância especial para nós. Claro que não é verdade que todas as pessoas que têm uma cosmovisão a possuem precisamente da mesma maneira. A cos­ movisão de algumas pessoas só existe no sentido de que herdaram um conjunto de crenças e práticas de sua família e comunidade imediata. Elas não entendem suas crenças e não alcançam o signi­ ficado maior de suas ações. Acreditam e agem de forma não crítica e ingénua em vez de um

modo auto-reflexivo. Na grande maioria das vezes explicarão por que acreditam ou fazem algo, referindo-se às tradições da família, aos

padrões da igreja ou à afiliação partidária po­ lítica. Em resumo, elas só têm uma cosmovi­ são no sentido de que outra pessoa a impôs nelas, e não porque elas refletiram cuidadosamente sobre as ques­ tões importantes e escolheram sua cosmovisão. Não é incomum para os indivíduos que tão-somente herdaram sua cosmovisão presumirem que as crenças e práticas de todo o mundo são semelhantes às suas. Não desafiados por qualquer ou­ tro ponto de vista, eles podem tornar-se apáticos com relação ao seu próprio ponto de vista. Em meados dos da década de 60, numa canção intitulada “Nowhere Man” (O Homem de Nenhum Lu­ gar), os Beatles capturaram o sentido da vida para aquele que cres­ ceu indiferente à sua cosmovisão.3De acordo com a letra da can­

Quem tem uma cosmovisão? Todas as pessoas capazes de considerar esse assunto.

ção, o homem de nenhum lugar ocupa um lugar na terra de ne­

nhum lugar fazendo planos sem sentido para ninguém. Ao que tudo indica, ele não faz a mínima idéia para onde vai. Talvez no ponto mais comovente da canção, ouvimos que o homem de ne­ nhum lugar “não tem um ponto de vista” . A frase levanta pergunta

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MICHAEL D. PALMER

constrangedora: É possível não ter nenhum ponto de vista? Prova­ velmente não. E mais provável é que o verdadeiro problema do homem de nenhum lugar não seja que ele não tenha literalmente nenhum ponto de vista. Seu caso é pior. Ele é indiferente ao único ponto de vista que lhe é familiar. Portanto, ele pode muito bem não ter um porque não tem nenhuma idéia para onde está indo na vida. A descoberta de que nem todo o mundo

segue os padrões de crença e prática similares às suas próprias pode surgir como um desper­ tar abrupto. Quando isso ocorre, dois tipos de reação são comuns. Algumas pessoas reagem defensivamente. Elas se retiram para trás dos dogmas memorizados e dos clichés familiares

e geralmente adotam a posição de que não têm nada a aprender de estranhos. (Em The Chosen, os hassidim — particularmente os adolescen­ tes jovens — adotaram esta postura em relação aos judeus não- hassídicos.) Outras pessoas reagem com embaraço. Ao compararem suas crenças ou práticas com as dos outros, as suas podem parecer sem importância, triviais ou ingénuas. Elas podem tentar menosprezá-las ou mesmo escondê-las quando interagem com estranhos. (Uma das questões que Danny enfren­ tou quando foi para a universidade foi se deveria cortar seus ca­ chos de cabelos e usar roupas que não o identificassem como ju ­ deu hassídico.) Defesa e embaraço frequentemente são sinais de imaturidade. Indicam que o indivíduo em questão não está com­ pletamente confortável com sua própria cosmovisão. Estamos falando sobre o modo como as pessoas obtêm sua cosmovisão. Alguns indivíduos, já dissemos, meramente herdam sua cosmovisão. Aqueles que obtêm sua cosmovisão apenas por este meio limitado podem muito bem tornar-se apáticos ou indife­ rentes a ela. Ou, se inesperadamente encontram alguém que tenha uma cosmovisão diferente, podem reagir defensivamente ou com embaraço. Por outro lado, uma cosmovisão pode ser obtida por escolha. Escolher, no sentido pretendido aqui, não significa sim­ plesmente que a pessoa escolhe uma cosmovisão dentre várias opções disponíveis — como se fosse uma criança que escolhe um cachorrinho numa loja de animais domésticos. Escolher também não significa que a pessoa rejeita a cosmovisão herdada. Escolher diz respeito a um processo deliberativo que é qua­ se mais um estilo do que uma ação. Prontidão, consciência, auto- reflexão, estar presente nas alternativas — tudo isso significa o que se pretende dizer por escolha. Escolher significa que a pessoa não é lançada ao sabor do vento como os despojos que o mar da vida traz à praia. Como certo autor ressaltou: “Podemos não ser os capitães de nosso destino e os mestres de nossa alma, com capacidade total para controlar o ambiente que nos cerca, mas somos os capitães de nosso

"Somos os capitães de nosso destino e os mestres de nossa alma em nossa capacidade de decidir acerca da vida que levamos". — Vincent E. Rush

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

2

5

destino e os mestres de nossa alma em nossa capacidade de decidir

suma, o indivíduo que escolhe é o

oposto do homem de nenhum lugar dos Beatles. Toda pessoa capaz de refletir sobre as questões da cosmovisão já tem uma cosmovisão? A pergunta crítica é: Como afinal de contas se obtém essa cosmovisão. Obtê-la como herança da família e da comunidade imediata pode ser uma boa forma de começar. Na

verdade, esse é o modo como todo o mundo obtém uma cosmovi­ são. Mas em certo sentido importante, uma cosmovisão herdada

ainda não é inteiramente da pessoa. Tê-la inteiramente como sua

— vivenciá-la com convicção e acreditar nela com entendimento

— requer que o indivíduo a escolha. Aquele que escolhe uma cos­

movisão tomando-a uma questão de escolha deliberada e reflexi­ va não ficará apático ou indiferente a ela. Nem é provável que tal indivíduo se porte defensivamente ou fique envergonhado com ela. Finalmente, aquele que escolhe uma cosmovisão está melhor posicionado para avaliar as deficiências de sua própria cosmovi­ são e para aprender de outras cosmovisões.

acerca da vida que levamos

”4Em

‘Deâ&uçâa de ‘r¥oCme&de uma,

Nas últimas décadas, os cristãos têm en­

 

3.

É um processo exploratório, sondan­

frentado tremendos desafios intelectuais em

do a relação de uma área após a outra para a

várias frentes. E o menor deles certamente

perspectiva unificada.

não é o de enunciar uma cosmovisão que sir­

 

4.

É pluralista no sen­

va para as doutrinas centrais da fé do cristi­ anismo e ao mesmo tempo funcione adequa­

tido de que a mesma pers­ pectiva básica pode ser

damente como resposta aos desenvolvimen­ tos contemporâneos da ciência empírica, da

enunciada de maneiras um tanto diferentes.

teoria moral, das artes e da filosofia. Um dos

 

5.

Tem resultados de

líderes em enfrentar este desafio desde a se­

ação, pois o que pensamos

gunda metade do século X X tem sido o filó­

e

o que avaliamos guiam

sofo Arthur Holmes. No trecho apresentado a seguir, Holmes oferece um resumo dos

o

que faremos.” Este trecho é um

principais critérios de uma estmtura intelec­ tual que pode de maneira justa ser chamada de cosmovisão. “Uma cosmovisão global apresentará as seguintes características:

excerto de The Making of a Christian Mind, A Christian World View & the Academic

Enterprise (A Estrutura de uma Mente Cris­ tã, Uma Cosmovisão Cristã e o Empreen­

1.

Tem uma meta globalizada, buscando

dimento Académ ico). Downers Grove,

ver cada área da vida e do pensamento de uma forma integrada.

Illin o is: InterVarsily Press, 1985, p. 17. Outras obras notáveis de Holmes são AI.I

2. E uma abordagem sob um determina­

do aspecto, versando as coisas de um ponto de vista previamente adotado que agora pro­ porciona uma estrutura integrada.

Truth is God’s Truth (Toda Verdade é a

de Deus) e Contours o f a

Christian Worldwide (Contornos de uma

Cosmovisão Cristã).

Verdade

Elementos de Uma Cosmovisão

Uma cosmovisão bem desenvolvida fornece tipicamente um amplo quadro das preocupações essenciais da vida. Portanto, uma cosmovisão bem desenvolvida evidencia em geral certos compo­ nentes ou elementos essenciais. Na ciência como a química, um elemento é uma substância fundamental que consiste em átomos

de um só tipo. Usamos a palavra elemento deste modo quando falamos de elementos químicos, como o hidrogénio ou o hélio da tabela periódica. Na matemática um elemento é um membro bási­ co de uma questão matemática ou lógica. Na fé cristã, usamos a palavra elementos (plural) para nos referirmos ao pão e ao vinho associados com a memória da última ceia de Cristo. Entretanto, dentro do contexto de falar sobre cosmovisão, um elemento é mais como um aspecto definível de como os seres hu­ manos explicam e praticam o que acreditam. Uma cosmovisão bem desenvolvida mostra caracteristicamente pelo menos seis ele­ mentos distintos.5 Podem ser descritos sucintamente da seguinte forma:

1. Ideologia. O elemento ideológico de uma cosmovisão con­

siste em crenças centrais. Estas crenças normalmente são expres­ sadas de uma maneira formal e precisa, como nas proposições fi­ losóficas, declarações de credo, fórmulas autorizadas ou doutri­ nas. A ideologia de uma cosmovisão também é geralmente ex­ pressada de um modo sistemático, significando que algum esfor­

ço é feito para assegurar que as declarações chaves sejam consis­ tentes entre si. Em The Chosen, o rabino Saunders ensinou a Danny

as ideologias do hassidismo mediante estudo intensivo do Talmude.

2. Narrativa. O elemento narrativo de uma cosmovisão reconta

certos eventos significativos da história daqueles que mantêm a cosmovisão. Em alguns casos, as narrativas também tratam de eventos futuros. As narrativas podem ser sobre muitas coisas, por

exemplo, uma pessoa famosa, a fundação de um povo ou nação, o começo do mundo ou a interação de alguém com Deus ou com práticas religiosas. Com frequência, os narradores expressam es­

ses eventos em escritos sagrados, mitos, contos históricos, históri­ as, lendas ou até na letra de um hino. As vezes, os artistas também representam temas narrativos em pinturas ou outras formas de arte. Se a ideologia expressa crenças centrais em linguagem precisa e formal, as narrativas expressam crenças centrais pelo exemplo, imagem, símbolo ou metáfora. As histórias bíblicas de Abraão, Isaque e Jacó são centrais para a cos­ movisão hassídica.

3. Normas. Uma norma é um padrão de algum tipo. Quando se

trata de uma cosmovisão, dois dos mais importantes tipos de nor­ mas são as normas morais ou éticas e as normas estéticas. As nor­ mas estéticas proporcionam base para a tomada de decisão sobre

o que é bonito, agradável ou sublime.6As normas morais estabe­

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

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lecem exigências para a conduta correta, estipulam nossas res- ponsabilidades e geralmente nos explicam que tipo de pessoa de­ vemos ser. Em The Chosen, o lugar das normas morais no judaís­ mo emerge vigorosamente em certo ponto, quando Danny visita Reuven no hospital logo depois de ferir-lhe o olho. Com raiva de

Danny, Reuven a princípio recusa-se a falar, mas depois explode:

“Vá para inferno e leve junto esse seu grupo esnobe de hassidim” . Quando o senhor Malter fica sabendo da atitude indelicada de Reuven, diz: “Você fez uma coisa tola, Reuven. Lembre-se do que diz o Talmude. Se alguém vem se desculpar por tê-lo ferido, você

tem de ouvi-lo e perdoá-lo” .7

Estes três elementos de uma cosmovisão — ideologia, narrati­ va e normas — formam um complicado padrão de crenças. Con­ tudo, este padrão não existe meramente na teoria. Ele se torna vital e dinâmico no contexto da experiência e da prática. No juda­ ísmo ortodoxo, por exemplo, as crenças acerca de Deus (ideolo­ gia) não são meros conceitos sobre alguma deidade neutra e dis­ tante considerada como o Mestre do Universo.8Ele é um ser que é ativamente adorado. Os hassidim retratados em The Chosen oram

a Ele nas sinagogas do bairro e falam sobre Ele nas casas, ruas e lojas. Sua influência é sentida em todas as facetas de suas vidas, porque eles acreditam que são seu povo escolhido. A história (nar­ rativa) que eles recontam sobre os atos de Deus na história do povo deles é célebre e representada de novo em certos rituais, como aqueles associados com a Páscoa e o Hanuká. As narrativas cen­ trais juntamente com os rituais tradicionais evo­ cam intensas experiências para o crente.

4. Ritual. Um ritual é um ato cerimonial

Estes três elementos de uma cosmovisão — ideologia, narrativa e normas — formam um complicado padrão de crenças.

executado periodicamente em ocasiões espe­ ciais. E projetado a representar novamente ou recordar um acontecimento especial. Um ritu­ al pode ser sombrio ou festivo, formal ou in­

formal. Em todo caso, os rituais proporcionam uma ocasião para se refletir no significado das crenças centrais do indivíduo e evocam uma resposta afetiva a essas crenças. Ambas as funções são tencionadas a integrar os pa­ drões de crença no trama da vida interior e no caráter da pessoa. Por exemplo, observar a Páscoa envolve celebrar e, de certo modo, reviver a libertação dos hebreus da escravidão egípcia descrita no Livro de Êxodo.

5. Experiência. Quando falamos do elemento experiencial de

uma cosmovisão, queremos dizer o modo como alguém se dá con­

ta vivamente das verdades expressadas nas crenças centrais. As crenças já não parecem abstratas e distantes. Ao invés disso, tor­ nam-se imediatamente presentes. Os hassidim são famosos por nutrir experiências altamente místicas e pessoais.

6. Elemento Social. As crenças centrais de qualquer cosmovi­

são evaporarão como a névoa ao sol da manhã, se não estiverem

embutidas numa situação social. Isto é assim porque a situação social fornece as estruturas organizacionais e outros meios que permitem que as crenças sejam perpetuadas de uma geração para outra. Uma das características mais notáveis de The Chosen é o modo como Potok fornece insight na vida comunitária hassídica. Cada seita hassídica tinha seu próprio rabino, sua própria sinago­ ga e yeshiva, seus próprios costumes, suas próprias lealdades fer­ renhas. Em um comentário bastante expressivo sobre a vida na comunidade, Reuven diz: “Em um sábado ou manhã festiva, os membros de cada seita podiam ser vistos caminhando para as suas respectivas sinagogas, vestidos com seus trajes particulares, ansi­ osos para orar com seu rabino particular e esquecer o tumulto da semana ”9 Comentamos anteriormente que uma cosmovisão é um con­ junto de crenças e práticas que moldam a abordagem de uma pes­ soa para as mais importantes (e muitas outras) questões da vida. Todo mundo, dissemos, tem uma cosmovisão. Também fizemos uma descrição breve de seis elementos mais importantes de uma cosmovisão. A seguir, examinaremos estes seis elementos com mais detalhes em preparação à descrição de uma cosmovisão cristã.

O Elemento Ideológico

As cosmovisões geralmente surgem da experiência e das nar­ rativas que exemplificam e desenvolvem-se nessa experiência. Mas as experiências variam de uma pessoa para outra, e as narrativas por sua própria natureza prestam-se a múltiplas interpretações. Por estes motivos as cosmovisões comumente desenvolvem um con­ junto de declarações autorizadas que constituem seu elemento ide­ ológico. Estas declarações formam uma estrutura central, ou sis­ tema, para explicar a realidade. Já nos referimos a elas como cren­

ças centrais. Por exemplo, o judaísmo ortodoxo

crenças centrais, entre elas: Há um só Deus, Deus criou o mundo, Deus está ativamente envolvido na história. Estas crenças essenci­ ais são parte do elemento ideológico do judaísmo ortodoxo. Estas doutrinas (e outras importantes) explicam a natureza de Deus e sua relação com o resto da criação, inclusive os seres humanos.

expressa diversas

F u n ç õ es

G era is

d a

I d eo lo g ia

O elemento ideológico de uma cosmovisão exerce diversas funções. Uma dessas função é trazer ordem e coerência à vasta série de dados proporcionados na experiência. Superficialmente, as coisas que vivenciamos parecem não ter nenhuma relação uma com outra. Além disso, as experiências de uma pessoa afiguram- se não ter conexão com as de outra pessoa, especialmente se a outra pessoa mora em outro país ou se viveu no passado. Mas a ideologia pode fornecer um senso de ligação entre eventos apa­ rentemente discrepantes e entre pessoas separadas geograficamente

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

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e pelo tempo. Este ponto é vividamente notório na ideologia do judaísmo. Durante o tempo em que Moisés estava procurando as­ segurar a libertação dos hebreus, as pragas que sobrevieram aos egípcios não eram catástrofes simplesmente fortuitas e isoladas. Faziam parte de um destino maior: A obra de Deus nos eventos históricos. O judaísmo também nutriu sempre um forte senso de identidade do seu povo. Os judeus não são meros indivíduos isolados, mas membros de

um povo histórico. Os Livros da Lei os lem­ bram desta conexão histórica com seus ante­ passados. No Livro de Deuteronômio, quando Moisés está a ponto de pronunciar os manda­ mentos de Deus, ele diz: “O SENHOR, nosso

Deus, fez conosco concerto, em Horebe [mon­ te Sinai]. Não foi com nossos pais que fez o SENHOR este concerto, senão conosco, todos os que hoje aqui estamos vivos” (Deuteronômio 5.2,3). Os indivíduos a quem estas palavras foram ditas não estavam presentes quando o concerto foi feito em Horebe. Não obstante, o concerto é válido para eles em cada detalhe tanto quanto o era para seus antepassados, porque eles são parte de um povo escolhido por Deus desde tempos imemoriais. Em resumo, uma função da ideologia é trazer ordem e coerência à experiência. Uma segunda função é fornecer base para avaliar os valores, os insights e as declarações de conhecimento dos outros. Tem ha­ vido poucas épocas na história humana em que os partidários de qualquer determinada cosmovisão viveram uma geração inteira, ou mesmo várias gerações, sem encontrar pessoas cuja cosmovi­ são diferia radicalmente da deles. Mesmo os mais isolados povos ocasionalmente interagiam com estranhos. No ponto do fato his­ tórico, a maioria dos povos interagia com estranhos de maneira frequente e diversa, desde o comércio à guerra e à troca cultural. Sempre que ocorre interação entre uma pessoa e outra, a per­ gunta surge naturalmente: Como iremos avaliar e dar sentido àquilo que estas pessoas (os estranhos) dizem e fazem? A ideologia da cosmovisão do indivíduo fornece uma estrutura de referência para responder à pergunta. Quando Daniel e outros membros jovens da nobreza judaica foram levados cativos para a Babilónia no século V II a.C., eles mantiveram sua identidade, enfrentaram e venceram a cosmovi­ são de seus captores, em parte porque estavam bem fundamentos em sua própria cosmovisão. Eles julgaram o que era bom e mau, certo e errado, proibido e permitido. Mas sem uma compreensão clara das crenças centrais de seus captores, eles facilmente pode­ riam ter sido assimilados pela vida e cultura babilónicas. Uma terceira função do elemento ideológico é definir a comu­ nidade. Em outras palavras, a ideologia ajuda a separar as pessoas íntimas dos estranhos, aqueles que pertencem ao grupo daqueles

As cosmovisões comumente desenvolvem um conjunto de declarações autorizadas que constituem seu elemento ideológico.

30

MICHAEL D. PALMER

que não pertencem ao grupo. Em cada cosmovisão, as crenças tipicamente aceitas por aqueles que mantêm-se fiéis à determina­ da cosmovisão formam uma estrutura, um esqueleto, que dá for­ ma ao mundo como percebidas pelos membros da comunidade. Enquanto normalmente há alguma abertura em como interpretar e aplicar as crenças centrais, qualquer um que estira demasiadamente os limites arrisca ser separado da comunidade. Grandes diferen­ ças nas crenças centrais não podem em geral ser toleradas indefi­ nidamente. Considere, por exemplo, que os cristãos da Igreja primitiva eram judeus. Uma profunda divisão ideológica aconteceu quase que imediatamente dentro do judaísmo, porque os seguidores de Jesus declararam que Ele era divino e igual a Deus — uma noção ideológica inaceitável para os judeus ortodoxos.

C

o n teú d o

I d eo ló g ic o

G er a l

As cosmovisões que de outra forma diferem uma da outra em seu conteúdo específico — mesmo aquelas que são radicalmente opostas uma a outra — mostram uma semelhança interessante no modo como desenvolvem seu conteúdo ideológico em geral. Em outras palavras, as cosmovisões tendem a falar sobre tópicos se­ melhantes. Por exemplo, as cosmovisões naturalistas (como o existencialismo ateísta marxista) e as cosmovisões teístas (como o judaísmo ou o cristianismo) divergem em muitos pontos impor­ tantes. Elas são tão diferentes em alguns pontos que entram em conflito uma com a outra, às vezes até se contradizem. Não obstante, falam sobre tópicos similares. Por exemplo, ambas ex­ pressam visões ideológicas sobre o que existe e ambas fazem as- severações sobre a natureza humana. Vamos examinar estes tópi­ cos mais de perto.

O alemão K a rl M arx (1818-1883) foi o filósofo social e revolucionário que viveu e escreveu na plenitu­ de da Revolução Industrial do século X IX . E le e Friedrich Engels são conside­ rados os fundadores do mo­ derno socialismo e do comu­ nismo. Com Engels, ele es­

creveu o Manifesto Comunis­

ta (1848) e outras obras que quebraram a tra­ dição de teoristas como John Locke, que

~ j

apelava aos direitos naturais para justificar

a reforma social. Marx invocou o que acre­

ditou ser as leis da história que inevitavel­ mente levariam ao triunfo da classe operá­ ria. Marx foi exilado da Europa depois das revoluções de 1848. Em sua monumental obra O Capital (3 volumes, 1867-1894), a qual foi escrita quando ele morava em Lon­ dres, Marx apresentou uma crítica cortante

à teoria económica capitalista e desenvolveu

uma teoria económica própria. Para mais informações sobre Marx, veja o Apêndice 3, “Karl Marx” , no fim deste livro.

T eo r ia

d e

F u n d o

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

so b re

o

q u e

E x iste

As declarações ideológicas gerais sobre o que existe constitu­ em o que podemos chamar de teoria de fundo sobre a natureza do universo. Uma teoria de fundo aborda pelo menos três tópicos: o

cosmo, Deus e a história.10

O Cosmo. A expressão cosmo foi usada pela primeira vez pe­ los gregos antigos para referir-se a algo formoso e sistematica­ mente organizado — como as linhas numa tapeçaria. O oposto de cosmo era o caos ou a desordem. Desde então, os gregos usaram o termo para descrever o arranjo ordenado e harmonioso das estre­ las e dos planetas como apareciam no céu à noite. Hoje, o signifi­ cado do termo foi ampliado para incluir não só a harmonia dos corpos celestiais, mas o universo em geral — literalmente, tudo o que existe. Inclui as coisas que prontamente vemos como também as coi­ sas difíceis de se ver, por exemplo, os elétrons. Também inclui coisas que não podemos ver de jeito nenhum, mas que podemos apenas pensar nelas, como números, conceitos, leis da natureza. Apesar destas mudanças em seu uso nos tempos modernos, o ter­ mo cosmo ainda levanta questões que os gregos antigos pondera­ vam. Se os corpos celestiais no céu à noite estão distribuídos de um modo ordenado e harmonioso, o que explica essa ordem e har­ monia? Alguém ou algo os organizou de acordo com algum plano, ou sua aparência é só produto do acaso? Uma cosmovisão naturalista é aquela que nega que qualquer evento ou objeto tenha algum significado sobrenatural. As moder­ nas cosmovisões naturalistas asseveram que leis científicas ou princípios são adequados para explicar todos os fenómenos, tais como o arranjo dos corpos celestiais e o movimento dos elétrons. Uma cosmovisão teísta, por contraste, é aquela que adota a idéia de que poderes sobrenaturais desempenham um papel no desdo­ bramento dos eventos. Portanto, as cosmovisões teístas de hoje rejeitam a reivindicação de que as leis científicas em si podem explicar o mundo e a nossa experiência dele. O marxismo e o existencialismo ateísta são exemplos de cosmovisões naturalistas. O judaísmo, o islamismo, o hinduísmo e o cristianismo são exem­ plos de cosmovisões teístas. Deus. É bastante óbvio que nem todas as cosmovisões reco­ nhecem a existência de Deus. Entretanto, todas as principais cos­ movisões afirmam, ou pelo menos implicam, uma posição relati­ va à existência dEle. O judaísmo, o islamismo e o cristianismo como cosmovisões teístas têm muito a dizer em suas declarações ideológicas, doutrinárias, sobre a existência de Deus, seus atribu­ tos, suas atividades. Como era de se esperar, o marxismo, como cosmovisão naturalista, tem menos a dizer sobre Deus. Não obstante, não ficou calado no assunto nem é neutro. O próprio Marx negava a existência de Deus. De fato, ele é famoso por ter declarado que a religião é “o ópio do povo”, querendo com isso

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afirmar que a vida de fé é enganosa e ilusória: Não oferece espe­ rança alguma para resolver os problemas existenciais, e só é bem- sucedida em encobri-los temporariamente. A História. Toda importante teoria de fundo do universo tam­ bém afirma ou implica algo sobre a história em sua ideologia. As cosmovisões teístas enfatizam a obra de Deus no fluxo da histó­ ria. Elas destacam o modo como Deus usa as pessoas e os aconte­ cimentos, em momentos e em locais específicos, para cumprir seus propósitos supremos, que são infinitos. Por exemplo, o hassidismo, tanto na realidade quanto descrito no romance de Potok, identifica um homem chamado Baal Shem Tov como alguém especialmente chamado por Deus em cerca de 1750 para viver uma vida piedosa e ensinar os outros a viver pia­ mente. (Hassidim quer dizer “os piedosos” .) O judaísmo em geral também tem um forte senso da interven­ ção de Deus na história: Deus criou o universo e os seres humanos (Génesis 1—2), deu uma promessa histórica a Abraão (“Por pai da multidão de nações te tenho posto” [Génesis 17.5]) e até usou os inimigos dos hebreus (por exemplo, Faraó e Ciro) para cumprir seus propósitos. Uma cosmovisão cristã diverge de qualquer cos­ movisão judaica em um aspecto crucial: Jesus, ao mesmo tempo divino e humano, é a figura central no relato do tratamento de Deus para com a humanidade. As cosmovisões naturalistas afirmam uma visão cegamente mecânica da história. A história é o produto dos seres humanos interagindo entre si e com as forças naturais impessoais. Entretan­ to, os naturalistas estão divididos no que tange a se a história exi­ be padrões — quer sejam de progresso ou de regresso. O filósofo francês Jean-Paul Sartre rejeitou qualquer noção da ordem natural “participante” , ou que ela seja responsável por qualquer coisa como

eanr

O francês Jean-Paul Sartre (1905-1980) foi fi­ lósofo, dramaturgo e no- velista. A partir de 1936, publicou estudos filosó­ ficos e romances, sendo os mais notáveis A Náu­

sea (1938) e O Muro

(1939). Durante a Segun­ da Guerra Mundial, ele completou sua obra filosófica mais impor­ tante, O Ser e o Nada (1943). Em parte por

causa do seu envolvimento com as forças da resistência francesa e em parte por causa do seu brilho filosófico, depois da guerra Sartre emergiu como figura dominante no movi­ mento existencialista francês. (3 próprio Sartre era ateu. Durante os anos imediatos depois da guerra, ele escreveu vários roman­ ces e peças teatrais que lhe deram fama mun­ dial. Para informações adicionais, veja Apên­ dice 2, “Jean-Paul Sartre” , no final deste

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

o progresso histórico. Para ele, a natureza não tem nenhum propó­ sito último, nenhuma intenção, nenhuma direção — simplesmen­ te existe. Por outro lado, Karl M arx, que certamente rejeitava qualquer noção de propósito divino ou plano para a história, declarou que a natureza mostra padrões de progresso. Os seres humanos são par­ te da natureza; portanto, também mostram padrões de progresso em sua história.

Relato da Natureza Humana

Além de fornecer uma teoria de fundo do universo, as cosmo­ visões oferecem um relato geral do que significa ser humano. Este relato trata de certos temas importantes da teoria de fundo. Por exemplo, se a teoria de fundo rejeita (ou é silenciosa sobre) a no­ ção de que o universo tem um propósito e um destino último, en­ tão o relato associado da natureza humana também rejeitará (ou estará silencioso sobre) se a pessoa individual tem um propósito ou um destino último. Semelhantemente, se a teoria de fundo diz que o universo tem um propósito e um destino último, então o relato associado da natureza humana expressará a mesma visão sobre a pessoa indivi­ dual. Sartre, um existencialista ateísta, retrata o universo como totalmente destituído de propósito e destino último. A natureza não existe para os seres humanos. Na verdade, a natureza não existe para qualquer coisa. Simplesmente existe — sem plano, propósito, intenção, esperança ou destino.11(Certo personagem em um dos romances de Sartre, percebendo este ponto enquanto pon­ dera junto às raízes de um castanheiro gigante, sente repugnância pelo pensamento e vomita.)12 Consistente com esta visão do uni­ verso, Sartre afirma que os seres humanos, no início da vida, tam­ bém carecem de qualquer propósito essencial ou destino. Nem Deus nem a natureza dão significado à vida. Se a vida algum dia vier a ter um propósito ou significado, acontecerá apenas porque a pessoa escolhe tomá-la significativa. Por contraste, ojudaísmo e o cristianismo asseveram que Deus criou o universo, que Ele está atuando no universo para pôr em execução seus propósitos, e que o universo tem um destino último de acordo com o seu plano. E a humanidade se ajusta no propósito último de Deus para o universo? Sim, com certeza! O livro de Génesis, sagrado tanto para o judaísmo quanto para o cristianis­ mo, declara que fomos feitos à imagem de Deus. Potok, referin­ do-se ao fundador do hassidismo, diz: “Ele os ensinou que o pro­ pósito do homem é tornar a vida santa — cada aspecto da vida:

comer, beber, orar, dormir” .13 Obviamente que uma cosmovisão que descreve o indivíduo como tendo um propósito e um destino último também expressará um conjunto de ideais para cada pessoa. Esses ideais podem ser traços de caráter interior. Por exemplo, o apóstolo Paulo, falando

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no século I d.C., descreve a tarefa de cada pessoa como a de confor­ mar-se à imagem de Cristo. Ele estabelece certos ideais de caráter em referência a Jesus. Cada pessoa tem de esforçar-se para encarnar os ideais de caráter modelados por Jesus, inclusive a integridade pessoal, a humildade, a mansidão, a paciência, o amor e a compai­ xão. Os ideais também podem ser expressos como situações soci­ ais. Os antigos profetas judeus, por exemplo, exaltavam a justiça como um ideal social. Para eles, a sociedade justa seria aquela em que o pobre e o fraco seriam adequadamente cuidados. Se as cosmovisões propositadas parecem naturalmente expres­ sar ideais para seus partidários, as cosmovisões naturalistas tam­ bém oferecem ideais? A resposta parece ser um qualificado sim. Como observamos anteriormente, Marx negou a existência de Deus. Portanto, ele não deixou lugar em sua cosmovisão para um conceito de propósito divino para os seres humanos. Neste sentido, a humanidade não tem nenhum destino e nenhum ideal a alcançar. Porém Marx reivindicou descobrir padrões de progresso na história humana: Ele raciocinou que os seres humanos progredi­ ram do antigo barbarismo através dos estágios da escravidão e do feudalismo para as formas capitalistas da sociedade e da econo­ mia. O estágio final, acreditava ele, era aquele no qual os traba­ lhadores viriam a controlar a indústria e outros meios de produ­ ção. O controle destas forças económicas lhes permitiria mudar as instituições sociais e políticas para melhor e, assim, ocasionar as melhores relações possíveis (quer dizer, o ideal) entre todos os seres humanos. Em suma, embora a cosmovisão de Marx certa­ mente não seja propositada, parece identificar certos ideais e de­ fender o empenho por eles. Albert Camus, como Jean-Paul Sartre, rejeitou não apenas a noção de propósito como se evidencia na cosmovisão teísta, mas também qualquer coisa como os padrões de progresso descritos por M arx. Para ele, a realidade é absurda — totalmente destituída de significado, propósito ou plano. Isto significa que, para Camus, as escolhas humanas são no final das contas arbitrárias. Coisas e eventos são o que lhes fazemos ser, e realmente não há razão para fazê-las de um jeito em vez do outro. Isto significa que Camus não reconheceu nenhum ideal? A resposta é: De fato, ele reconhe­ ceu ideais. Em sua mais famosa publicação ideológica, O Mito de Sísifo, Camus adapta aos seus próprios propósitos filosóficos o antigo mito grego de Sísifo.14De acordo com o mito, certo dia, Sísifo, rei de Corinto, incorreu na ira inexorável de Zeus. No Hades, o submundo, Zeus castigou Sísifo forçando-o a rodar uma pedra para cima e repetir este ciclo para sempre. Para Camus, Sísifo é “o operário fútil do submundo” . Sua atividade é totalmente sem sen­ tido, completamente destituída de propósito. Deve Sísifo — deve aqueles cujas vidas refletem a vida de Sísifo — desesperar-se? Camus acha que não. A alegria é uma opção: “A pessoa tem de

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

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imaginar Sísifo feliz” .15Mas como? E onde está o ideal nesta re­ presentação da condição humana? A alegria é possível porque o significado de destino é no fim uma questão de ser resolvida pelos seres humanos. Segundo Camus, Zeus pode ditar nosso destino, mas somente nós podemos determinar o que esse destino significará para nós e se nos desgraçará. “Sísifo” , diz Camus, “ensina a mais alta fidelidade que nega os deuses e levanta pedras.” 16 O ideal de Camus — sua figura heróica — é alguém que logo reconhece que o universo é implacavelmente frio e indiferente para com os interesses huma­ nos, mas que, não obstante, resolve alcançar um tipo de “vitória absurda” ao determinar para si que suas experiências tenham sig­ nificado. Os ideais estabelecem que tipo de pessoa devemos ser e exemplificam o que vale a pena alcançar. Os ideais representam a realidade e a condição humana como elas devem ser, e não como são. A implicação é que as coisas podem ser melhores do que são. Assim, quando uma cosmovisão inclui um conjunto de ideais, tam­ bém costumeiramente oferece uma explicação sobre porquê as pessoas não alcançam esses ideais. Nas cosmovisões judaica e cristã os seres humanos vivem idealmente em comunidades fraternais entre si e em harmonia com

o seu Criador. Estas relações ideais existiram no princípio, numa

situação como o jardim. Elas

as escolhas humanas rejeitado os propósitos de Deus. Numa cos­ movisão existencialista com a de Sartre ou Camus, os seres huma­ nos vivem idealmente vidas autênticas, executando projetos que

foram quebradas pelo fato de terem

tóent &uuu&

O francês Albert Camus (1913-1960) foi romancista e homem de letras. Nascido em Algiers, Argélia, grande parte de sua vida intelectual foi dedicada a explorar sua con­ vicção de que a condição humana é absurda. Este fato, juntamente com sua associação com o filósofo francês Jean-Paul Sartre, le­ varam muitos a identificá-lo como membro do movimento existencialista, embora sua marca particular de humanismo o distinguisse daquele movimento. Os personagens de suas peças e romances são obviamente apresentados como reconhecedores do absurdo e da falta de sentido da situação deles (um tema existencialista proeminente); ao mesmo tem­

po, afirmam sua humani­ dade ao se rebelarem con­ tra essa mesma situação (a volta humanística distinta­ mente de Camus). Os tra­ balhos mais notáveis de Camus são os ro­ mances O Estrangeiro (1942), A Peste (1947) e A Queda ( 1956), e seus ensaios O Mito de Sísifo (1942) c O Rebelde ( 1951). Em 1957, Camus foi premiado com o prémio Nobel de literatura. Morreu num acidente de auto­ móvel em 1960. Na época de sua morte, ele estava trabalhando num romance autobiográ­ fico, postumamente publicado em 1995 sob

o título O Primeiro Homem.

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eles escolheram livremente. Eles ficam aquém do ideal, porque recusam a aceitar o fardo de sua própria liberdade e porque fa­ lham em assumir a plena responsabilidade pelo vasto alcance das escolhas implicadas por aquela liberdade. Na cosmovisão marxista, os seres humanos existem idealmente em harmonia (e não em competição) entre si, trabalham em tare­ fas que satisfazem (e não humilham) e desfrutam o fruto do seu

trabalho (em vez de vê-lo tomado por outros e usado contra eles).

O ideal foge ao entendimento deles, por causa de certos arranjos económicos capitalistas subjacentes, e por cau­ sa das estruturas sociais e políticas que refor­

çam a economia capitalista. Em geral, cada cosmovisão não só enuncia certos ideais, mas também explica por que os seres humanos não os alcançam. Ordinariamente, quando uma cosmovisão

enuncia um conjunto de ideais e então explica como os seres humanos e suas instituições so­ ciais ficam aquém dos ideais, também oferece alguma solução. Se os ideais (ou algo parecido com eles) outrora existiram, então a cosmovisão explicará como recuperar o que estava perdido. Por exemplo, o judaísmo identifica um tempo sob o governo dos reis Davi e Salomão quando Israel era uma nação unificada. Se esse tempo não era bastante ideal, com certeza representava um ponto político e social culminante para os judeus. O ideal foi perdido quando os exércitos estrangeiros repetidamente invadi­ ram a pátria deles. O ideal só pode ser recuperado quando os ju ­ deus se preparam espiritualmente e Deus intervém na história para prover o Messias. Claro que para algumas cosmovisões, os principais ideais na verdade nunca existiram. Só existem no futuro, no horizonte do tempo. Neste caso, a cosmovisão explicará como alcançá-los. O marxismo é justamente tal cosmovisão. Os marxistas acreditam que nunca houve um tempo na história humana em que a maioria

dos seres humanos de algum modo não sentiu falta de comunida­ de, não sofreu as indignidades do trabalho forçado, não perdeu o controle sobre suas ferramentas e os produtos do seu trabalho. Mas com o capitalismo desenfreado na plenitude da Revolução Industrial na Europa e nos Estados Unidos no século X IX , estas condições pioraram. As mulheres trabalhavam em miseráveis es­ tabelecimentos escravizantes e morriam prematuramente. Os ho­ mens competiam entre si por empregos de baixos salários. Mes­ mo as crianças trabalhavam horas dolorosamente longas em con­ dições imundas. Para M arx, a causa e a solução eram económicas.

O capitalismo desenfreado, em vez dos arranjos sociais ou políti­

cos, era responsável pela prevalecente miséria e alienação. Uma

vida melhor — na verdade, a vida ideal — só pode ser alcançada

no futuro à medida que as condições económicas são mudadas.

Em geral, cada cosmovisão não só enuncia certos ideais, mas também explica por que os seres humanos não os alcançam.

Resumo

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

Nesta seção, discutimos o elemento ideológico de uma cosmo­ visão. Primeiro, citamos três funções gerais da ideologia: 1) trazer ordem e consistência aos dados proporcionados pela experiência, 2) fornecer base para avaliar os valores, os insights e as declara­ ções de conhecimento dos outros e 3) definir a comunidade. Estas funções da ideologia não pertencem a uma cosmovisão específi­ ca. Antes, são funções comuns de qualquer cosmovisão. Em seguida, fornecemos um esboço do conteúdo ideológico geral de uma cosmovisão. Aqui comentamos mais uma vez que embora as cosmovisões possam ser diferentes em seu conteúdo específico, elas falam sobre tópicos semelhantes. Por exemplo, eles forne­ cem uma teoria de fundo sobre o que existe. Três tópicos cen­ trais da teoria de fundo são o cosmo, Deus e a história. As cos­ movisões também fornecem um relato geral da natureza huma­ na. Este relato explicará se a vida humana tem ou não propósi­ to, que ideais valem a pena alcançar, em que aspecto os seres humanos ficam aquém dos ideais e como os ideais podem ser alcançados. O conteúdo ideológico de uma cosmovisão é ordinariamente expresso em proposições filosóficas, declarações de credo, fór­ mulas autorizadas ou doutrinas. Em geral também é expresso de modo sistemático, significando que algum esforço é feito para assegurar que as declarações chaves sejam consistentes entre si. A natureza preposicional formal da ideologia a distingue de outro elemento importante de uma cosmovisão, a narrativa, que comumente tem uma qualidade semelhante à história.

O Elemento Narrativo

Ressaltamos anteriormente que o elemento narrativo de uma cosmovisão reconta certos eventos passados ou futuros, tendo a ver com aqueles que mantém a cosmovisão. Porém, as narrativas da cosmovisão não são simples registros de acontecimentos coin­ cidentes ou resumos de eventos interessantes, mas fortuitos. São histórias que contam algo especial sobre a cosmovisão ou sobre as pessoas que a mantêm. Podem ser sobre uma pessoa famosa, a fundação de um povo ou nação, o começo ou fim do mundo, a interação de alguém com Deus ou deuses, ou algum outro evento integralmente ligado à cosmovisão. As narrativas são uma característica bem reconhecida das cos­ movisões religiosas. Todas as principais religiões do mundo estão repletas delas. O elemento narrativo do cristianismo, por exem­ plo, enfoca a criação do mundo; o primeiro homem e a primeira mulher afastando-se de Deus; os subsequentes concertos entre Deus e a humanidade; o nascimento, morte e ressurreição de Cristo; a formação da Igreja, e a promessa de que Cristo voltará à terra para orquestrar os eventos finais da história. Mas as narrativas não são

limitadas às cosmovisões religiosas. As cosmovisões seculares também contêm um importante elemento narrativo. Por exemplo, o marxismo conta uma narrativa bastante elabo­ rada que enfoca o desdobramento da história humana, as forças impessoais que moldam a natureza humana, as várias maneiras que os seres humanos sofrem alienação, os modos como os arran­ jos económicos e políticos vêm à existência e mudam, e os pros­ pectos para uma vida melhor sob os novos arranjos económicos e políticos.

F u n ç õ es

G erais d a N arrativa

Há duas funções predominantes das narrativas da cosmovisão. Primeiro, elas reforçam e embelezam os temas ideológicos cen­ trais. Poderíamos comparar a ideologia de uma cosmovisão e suas narrativas centrais com o esqueleto e a carne de um corpo. Entre­ tanto, esta comparação induzirá em erro se for considerada a im­ plicar que um elemento é de alguma maneira mais básico ou fun­ damental que o outro. O esqueleto e a carne são necessários juntos para que o corpo viva; a ideologia e a narrativa são necessárias

juntas para que uma cosmovisão floresça. Segundo, as narrativas da cosmovisão fornecem padrões, ou modelos, para os partidários da cosmovisão. A linguagem da ide­ ologia por sua própria natureza tende a ser abstrata, técnica e um tanto escassa. Nas cosmovisões bem desenvolvidas, o papel da ideologia é crucial, mas a pessoa comum encontra pouco deleite ou estímulo em navegar em suas complexidades e distinções de nuanças. Já as narrativas, ao contrário, atraem e capturam a ima­ ginação. Inspiram não só a mente, mas também despertam as emo­ ções. Convidam os ouvintes a visionar e vicariamente sentir o que seria vivenciar o conteúdo ideológico da cosmovisão. Se a Torá e o Talmude apresentam a estrutura ideológica perti­ nente ao judaísmo tradicional, as histórias de Abraão, Moisés, Josué, Davi e Salomão fornecem seu conteúdo narrativo.17 Se os ensinamentos didáticos de Jesus e Paulo, Tiago e Pedro e o Credo Apostólico constituem parte da dimensão ideológica do cristia­ nismo, então as parábolas e ações de Jesus e os relatos em Atos formam a parte crucial do seu conteúdo narrativo. Se a teoria do

de

trabalho infantil, o sofrimento e morte de mulheres em estabeleci­ mentos escravizantes e os homens trabalhando horas longas em

valor do trabalho é parte da ideologia de M arx, as histórias

condições anti-higiênicas e perigosas (tudo recontado em seu li­ vro, O Capital) fornecem parte do conteúdo narrativo de sua cos­

movisão.18

As narrativas podem nos fazer rir ou chorar; podem divertir ou chocar nossa sensibilidade. Em todo caso, fornecem modelos — para o desenvolvimento do caráter e sobre como nos comportar, não para nos moldarmos a arranjos sociais aceitáveis, mas pelo que somos.

T ipos d e N arrativa

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

O dever da narrativa é recontar os eventos centrais, passados e

futuros de um povo e sua cosmovisão. A função da narrativa é reforçar ideologias centrais e fornecer modelos para os partidári­

os da cosmovisão. Tendo dito isto, devemos notar que o conteúdo narrativo de uma cosmovisão pode tomar várias formas. Discuti­ remos aqui cinco delas brevemente.

Escritos Sagrados

Em qualquer tradição, os escritos sagrados (cridos como pala­ vras divinas) são distintivos de outras histórias culturais ou lendas 1) na autoridade que inspiram, 2) nos propósitos religiosos a que servem e 3) até ao ponto em que todos os pensadores ortodoxos na tradição têm de ajustar seu pensamento ao deles. Em algumas cos­ movisões teístas, as narrativas mais importantes aparecem em tex­ tos considerados sagrados. Por exemplo, no judaísmo as narrativas centrais à fé — os relatos de Abraão, Moisés, Josué, os juizes, os reis e os profetas — são recontadas em textos cujo status bíblico é indis­ cutível entre os judeus ortodoxos. Os cristãos crêem no mesmo acer­ ca das narrativas encontradas ao longo da Bíblia, mas especialmente nas de Jesus e dos apóstolos no Novo Testamento. Na tradição hindu, a narrativa da cosmovisão mais importante

e famosa aparece no Bhagavad Gita (Canção do Senhor), um cur­

to fragmento de assustadora poesia dramática, que é parte de um poema épico.19Nele, um homem chamado Arjuna, o herói da nar­ rativa, busca o conselho de Krishna, a principal deidade hindu, visto que Arjuna está a ponto de entrar numa batalha importante que envolverá todas as pessoas da índia.

Mito

Tendo sido antes uma palavra perfeitamente boa, o vocábulo mito veio a ter uma reputação ruim em alguns círculos. Deriva da palavra grega traduzida por histórias, mythoi. As mythoi gregas eram frequentemente sobre os deuses e sua interação com os seres humanos. Com o passar do tempo, a cultura grega (incluindo sua religião) caiu em má fama. Seus mitos vieram a ser vistos como histórias não baseadas em fatos, “histórias falsas”. Entretanto, entre os estudiosos de hoje, a palavra mito refere-se estritamente a uma narrativa na qual os seres divinos representam algum papel. Usá- la deste modo não trata da questão se ou como a narrativa pode ser considerada verdadeira. Em outras palavras, a avaliação da verda­ de de um mito é um item separado da questão do papel que de­ sempenha na cosmovisão. Além disso, mesmo que não fosse his­ toricamente factual, ainda pode funcionar como narrativa que con­ tribui de modo importante para uma cosmovisão.20

O mito é uma categoria distinta de escritos sagrados. No mun­

do antigo, esses escritos sagrados eram primariamente usados em ritos e cerimónias religiosos. Em convocações sagradas especiais,

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as pessoas ouviam o texto sagrado lido por um sacerdote com o propósito de encorajar e instruir.21 Claro que os mitos não estão sem seu elemento religioso. Afinal de contas, eles são histórias sobre a interação de seres divinos com seres humanos. Mas histo­ ricamente não serviam para as mesmas funções sacerdotais servi­ das para os escritos sagrados, especialmente a Escritura. Antes,

encontravam seu lugar na assembléia pública, no mercado e nos teatros ao ar livre do mundo antigo.22 Quase não podemos entender as cosmovisões antigas sem pres­ tarmos honestamente atenção ao significado dos seus mitos. Este ponto certamente é válido no caso dos gregos antigos. Por exem­ plo, os mitos de Homero, na forma de dois poemas épicos, a Ilíada e a Odisséia, são indubitavelmente os mais famosos e influentes do mundo grego antigo. A Odisséia é a história de Odisseu, o últi­ mo guerreiro grego a voltar para casa depois da derrota de Tróia. Em cada virada da história, Odisseu encontra estranhas criaturas míticas: um Ciclope (gigante de um olho só), ninfas do mar, lotófagos, sereias. E a cada reviravolta da história, seu caminho ou é dificultado ou é facilitado por algum deus. Quando finalmen­ te chega à sua casa-ilha, ele tem de derrotar um exército de ho­ mens que queriam apossar-se de sua propriedade e tomar sua mu­ lher. Em sua jornada de volta ao lar, que durou anos, Odisseu, — cheio de astúcia e malícia, guerreiro ousado e impetuoso — teve de aprender a enfrentar os desafios da vida com uma nova estrutu­ ra de referência. Gradualmente, ele aprende a paciência, a tempe­ rança e a humildade. Somente quando aprende estas lições é que finalmente chega a Itaca, sua amada casa-ilha, e reencontra sua fiel e devotada esposa, Penélope. Por que esta história tinha tamanho poder para os gregos e res­ soava tão eloquentemente para as gerações subsequentes na civi­ lização ocidental? Ninian Smart sugere uma resposta parcial, di­ zendo que o significado último dos mitos têm a ver com os impul­ sos profundos de nossa psique: “ [Os mitos] têm a ver com o modo como podemos chegar a um acordo com nossos sentimentos, e

como podemos

jornada de Odisseu à sua casa é na verdade uma jornada rumo a um tipo de inteireza do ego, não possível sob o modelo do antigo guerreiro grego. Mas, como Smart também ressalta, o mito tradi­ cionalmente tem um significado comunal predominante: “Um mito não é apenas sobre mim: é sobre nós” .24 A história de Odisseu é acerca de um homem que encontrou seu caminho para casa e, ao fazê-lo, descobriu um novo modo de viver; mas também é a histó­ ria de um povo inteiro. Na realidade, é a história de como alguém pode enfrentar as dificuldades da vida. Mais adiante no poema, por exemplo, Homero faz Odisseu dizer:

alcançar a integração pessoal e a inteireza” .23A

Das criaturas mortais, entre tudo o que respira e se move, a terra não leva sobre si nenhum mais frágil do que o género humano

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

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Nenhum homem deveria zombar da lei, mas manter em paz quaisquer presentes que os deuses podem dar.25

A Odisséia de Homero tem falado de maneira muito simples aos gregos, e tem falado a sucessivas gerações no Ocidente, por­ que seus temas transcendem a história de um guerreiro.

Narrativa Histórica

O mito continua sendo uma forma viável de narrativa no mun­

do de hoje. Mas desde o começo da era científica, e sobretudo

depois do advento de técnicas modernas de escrever história, o poder de contar mitos diminuiu. Curiosos como estamos ao adentrar

o século X X I, parece que temos uma forte necessidade de desco­ brir e recontar como foi realmente o passado. Desejamos colocar

as pessoas e os fatos juntos numa ordem coerente. “A Guerra C i­

v il” , história televisiva com dez horas de duração feita por Ken Burns, da PBS, e “Beisebol” , sua história televisiva mais recente com dezoito horas de duração — ambas imensamente populares nos Estados Unidos — ilustram bem o ponto em questão. Parte de sua atração, e parte da atração dos trabalhos históricos em geral, é que eles respondem nosso desejo de conhecer algo sobre nós mes­ mos. Conhecer algo sobre a história de nosso grupo é conhecer

algo sobre nós mesmos. Mas mesmo quando falamos de nos conhecer, defrontamos dois interesses competidores na produção dos trabalhos históricos. Pri­ meiro, tendemos a buscar a mesma resposta para as nossas per­ guntas históricas conforme a rainha malvada buscou no conto de fadas Branca de Neve. “Espelho, espelho meu, haverá no mundo alguém mais bonita do que eu?” , perguntou ela, esperando que o

omen&

Homero (século V III a.C.) é o mais fa­ moso poeta (bardo ou cantor) do período arcaico da história grega. De acordo com a antiga tradição, Homero era cego. Tam­ bém de acordo com a antiga tradição, ele compôs dois poemas épicos com mate­ rial trazido do século X III a.C. por uma longa tradição oral: a Ilíada e a Odis­ séia. Hoje estes poemas são considera-

! dos os protótipos de todos os poemas

| épicos, e estão entre as maiores obras

i da literatura ocidental. A Ilíada narra um

i episódio que dura alguns dias na guerra

de dez anos entre os gre­ gos e os troianos: a ira de A quiles e suas conse­ quências trágicas, inclusi­ ve as mortes de Pátroclo e Hector. A Odisséia come­ ça dez anos depoi s da que­ da de Tróia. Conta como um dos heróis gregos, Odisseu, finalmente conse­ gue retornar à sua casa, em ítaca, onde é reunido à sua esposa Penélope e ao seu filho Telêmaco.

espelho lhe dissesse que ela era a mulher mais linda da terra. Te­ mos a tendência de romantizar o passado, encontrando heróis em conjunturas cruciais. Ao agirmos assim, fazemo-nos a nós mes­ mos parecer melhores do que talvez mereçamos. Se George Washington se recusasse a mentir a respeito de cor­ tar a cerejeira, então sua virtude resultaria de algum modo dimi­ nuída a todos os americanos. Se um dos meus antepassados no século X IX se candidatasse ao cargo de vice-presidente dos Esta­ dos Unidos, então sua fama de algum modo seria ocasião para eu me gabar.

O segundo interesse em produzir um trabalho histórico é esta­

belecer um registro preciso dos eventos e pessoas baseado na evi­ dência empírica e em documentação apropriada. Quando a histó­ ria é procurada com este interesse em mente, grandes heróis às vezes parecem menos brilhantes, menos virtuosos.26 Talvez um dos nossos heróis do estabelecimento da democracia tenha possu­ ído escravos. Assim, as narrativas históricas evocam interesses competido­ res. Por um lado, a história é mais que sobre o passado; é sobre nós. Está em nossos interesses conhecer nossa história, porque está em nossos interesses conhecer a nós mesmos. Mas este inte­ resse nos encoraja a inflacionar o passado, tomando-o algo mais e melhor do que foi. Por outro lado, a história abordada de modo crítico e científico representa uma tentativa em ver o passado com precisão. Está em nossos interesses obter a precisão, porque então a história pode servir como guia parcial para o futuro, ajudando- nos a evitar os erros do passado. Mas este interesse na precisão pode ter o efeito de esvaziar o passado, fazendo-o parecer rotinei­ ro ou comum e, portanto, não merecedor de nossa atenção. Os dois interesses competidores discutidos aqui — o interesse em conhecer a nós mesmos e o interesse na precisão — levantam uma pergunta constrangedora: Se a abordagem crítica e científica à história é tantas vezes bem-sucedida em esvaziar nossas imagens queridas de pessoas e eventos de nosso passado, por que dar atenção

àqueles que produzem tais histórias? A resposta é que a história, que é o resultado da investigação crítica, tem autoridade para nós.

O historiador moderno é parte do que Smart chama de “a tra­

ma da erudição e ciência modernas, a qual para nós têm uma aparência inteiramente convincente” .27 É justamente esta autori­ zada “aparência convincente” da história moderna que a toma seme­ lhante aos mitos antigos. Hoje procuramos nas narrativas históricas e

biográficas iluminação sobre a maneira como as pessoas de outrora encaravam os mitos que contavam a história do género humano.

Literatura e Drama

As histórias e biografias representam um papel mais impor­ tante na era moderna do que em qualquer outra época do passado. Isto não quer dizer que as pessoas modernas procuram nelas ex­

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

clusivamente, ou mesmo primariamente, iluminação para a situa­ ção humana. A literatura e o drama (quer no palco ou na tela) comprovaram ser mídias particularmente capazes de nos dar his­ tórias significantes sobre a condição humana. Como tal, elas tam­ bém servem como instrumentos poderosos para reforçar a ideolo­ gia e para fornecer modelos. Claro que o drama de palco e certas histórias orais e escritas foram desde o princípio usados para cumprir estas duas funções.

A antiga tragédia grega é famosa por sua descrição de pessoas que

foram além dos limites do comportamento humano apropriado. Na tradição grega, a honra, o orgulho e uma leve sagacidade eram considerados qualidades desejáveis. Mas a arrogância ou jactân­

cia, o orgulho excessivo e a habilidade mental sem auto-reflexão eram considerados falhas de caráter.

O drama trágico de Sófocles, intitulado Édipo Rei, apre­

senta dramaticamente as consequências de uma vida vivida com arrogância. Édipo, de acordo com a lenda grega, foi um homem que cumpriu uma antiga profecia que dizia que ele mataria o pai e teria filhos com a própria mãe. Na apresenta­ ção da história de Sófocles, Édipo veio a cumprir a profecia, porque ele confiou muito em seus próprios talentos e agiu sem a verdadeira sabedoria. Nas últimas linhas da peça, o líder do coro resume as principais conclusões a serem tiradas da ex­

periência de Édipo:

Que todo homem na fragilidade do género humano Considere seu último dia; e que ninguém Presuma que tem boa sorte até que encontre A vida, em sua morte, e deixe uma memória sem dor.28

O Édipo Rei lembra aos gregos as expectativas importantes

colocadas pela cosmovisão dominante, e o próprio Édipo serviu como modelo de como não viver a vida. O relato veterotes- tamentário de Sansão serve com propósito semelhante. Apesar de sua educação religiosa e das repetidas lembranças do seu estado espiritual como uma força moral, Sansão altivamente esqueceu da fonte de sua força — Deus. No fim, ele devia ser mais lamentado do que admirado. Assim, sua história também constitui um mode­

lo poderoso e negativo. No século X X , os romances tomaram-se veículos proeminen­

tes para apresentar, reforçar ou examinar a ideologia e para forne­ cer modelos. Em 1906, Upton Sinclair publicou The Jungle (A Selva), romance que apresenta um quadro vívido e realista das condições de trabalho perigosamente insalubres nos currais de Chicago e a indústria de empacotamento de carne. O romance

expressa

queria denunciar o capitalismo desregulado como um arranjo eco­ nómico aceitável em qualquer cosmovisão.

claramente as convicções socialistas de Sinclair.29 Ele

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Anteriormente, discutimos o trabalho filosófico de Camus, O Mito de Sísifo, no qual ele expressa a visão de que a realidade não oferece nenhum propósito dominante para apoiar ou explicar a existência humana, mas que os seres humanos podem determinar por si mesmos que significado a vida terá. Ele desenvolve estes mesmos temas em imagens muito mais poderosas em seus traba­

lhos literários O Estrangeiro, A Peste e O Rebelde. Os persona­

gens nestas obras, embora sutilmente cônscios da falta de signifi­ cado da condição humana, afirmam sua humanidade rebelando-se

contra

defesa da fé cristã em obras como Cristianismo Puro e Simples e

The Problem ofPain [O Problema da Dor], também escreveu ro­ mances significativos (That Hideous Strength e Perelandra), que

encarnavam temas distintamente cristãos. The Chosen [O Esco­ lhido], de Chaim Potok, o romance já referido aqui muitas vezes, e muitos outros romances seus, oferecem profundos insights so­ bre a moderna vida judaica e sua cosmovisão na América. Se os romances modernos permanecem na vanguarda da lite­ ratura como veículo para enunciar temas de cosmovisão, o cine­ ma quase eclipsou o drama de palco. Isto não quer dizer que o drama de palco esteja desaparecendo; não está. Mas a indústria do cinema tomou-se uma indústria de multibilhões de dólares, e sua poderosa influência nas mentes de jovens e velhos não mostra si­ nais de enfraquecimento. O intressante romance de Norman McLean, A River Runs Through It obteve aclamação da crítica, mas alcançou apenas um modesto número de leitores quando foi publicado em 1976 pela University of Chicago Press. Porém, tor-

as circunstâncias. C. S. Lew is, famoso por sua racional

H Sófocles (496-406 a.C.)

foi dramaturgo, figura pú­ blica respeitada, general e sacerdote no período gre­ go clássico. Durante uma carreira em que compôs cerca de 123 dramas, ele ganhou numerosos prémi­ os. Comparado a outros dramaturgos do seu tempo, Sófocles era conhecido como inovador. Por exemplo, ele acrescen­ tou um terceiro ator, aumentou o tamanho do coro e introduziu pinturas de cena. Em ­ bora tenhamos mais de 1.000 fragmentos

de suas obras, apenas sete peças comple­ tas sobreviveram. Suas obras mais conhe­ cidas são Antígona (c. 441), Édipo Rei ou

Édipo Tirano (c. 429) c Édipo em Colona

(401). Os personagens de Sófocles são dra­ maticamente interessantes no que respeita a que seus destinos são determinados mais por seus próprios traços de personalidade do que pelos deuses gregos. Em parte por esta razão, o trabalho de Sófocles influen­ ciou profundamente a tragédia ocidental. O filósofo Aristóteles, do século TV a.C .,

em sua obra Poética, tratou Édipo Tirano

como um exemplo ideal da ironia dramá­ tica grega.

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

nou-se êxito mundial de bilheteria quando, em 1994, Robert Redford lançou sua versão cinematográfica.

Inicialmente, As Pontes de Madison recebeu atenção somente limitada como romance. Em 1995, como filme estrelado por Clint Eastwood e M eryl Streep, ganhou um imediato e difundido públi­ co.30Não há que duvidar que o cinema capturou a imaginação das audiências modernas de um modo que a literatura e o drama nun­ ca chegaram perto. Tomou-se o veículo transmissor mais podero­ so do século X X para apresentar, reforçar ou examinar a ideologia

e para oferecer modelos.

A Narrativa na Arte Visual

Os narradores (escritores, contadores de histórias) expressam suas narrativas verbalmente — em escritos sagrados, mitos, rela­ tos históricos, romances e outros tipos de literatura. As vezes, eles combinam a palavra falada com a ação coreográfica, como no dra­ ma e no cinema, ou combinam letras com música, como numa balada. Entretanto, as palavras não são essenciais para a expres­ são da narrativa. Usando símbolos não-verbais, os artistas podem expressar os temas narrativos centrais de uma cosmovisão na mídia tão diversamente quanto na pintura, na escultura, na ilustração ou na arquitetura. As Escrituras hebraicas descrevem em detalhes ví­ vidos a construção do antigo Tabernáculo hebreu, as instalações à semelhança de uma tenda usadas para adoração antes da construção do Templo sob o governo do rei Salomão. O próprio Tabernáculo, com os vestuários sacerdotais e os utensílios sagrados usados em seu interior, expressava — sem palavras — a narrativa do concerto sa­ grado entre o povo hebreu e Javé. Um pintor judeu russo do século X X , Marc Chagall, expressa eloquentemente em suas pinturas a moderna experiência e cosmo­ visão judaicas. Certa pintura, “Crucificação Branca” , descreve uma cena da cmcificação. O homem na cmz usa uma coroa de espi­ nhos e um xale de oração judeu no lugar de tanga. Em volta da cena da crucificação estão pequenas imagens da atual perseguição judaica, inclusive representações de atrocidades indizíveis associ­ adas com o Holocausto judeu da Segunda Guerra Mundial. As cosmovisões seculares também se expressam por meio da arte. O marxismo se expressa num determinado género conhecido como realismo social que cobre o assunto com certo brilhantismo ou qualidade ilustre. As pinturas neste género apresentam figuras humanas em poses heróicas e enfatizam a importância da produ­ ção ou da luta revolucionária. Com o realismo social temos a arte

à serviço da política: a pintura promove a cosmovisão socialista e aponta para a consumação da história humana.

R esu m o

Nesta seção, discutimos o elemento narrativo de uma cosmo­ visão. Primeiro, citamos duas funções das narrativas da cosmovi-

são: 1) reforçar e embelezar os temas ideológicos centrais, e 2) fornecer padrões ou modelos para aqueles que mantêm a cosmo­ visão. Do mesmo modo que as funções do elemento ideológico não são únicas a uma cosmovisão, assim também as funções da narrativa não são únicas a uma cosmovisão. Também discutimos brevemente cinco diferentes formas que a narrativa da cosmovi­ são pode ter: escritos sagrados, mito, narrativa histórica, literatura (inclusive drama) e arte. Estas formas não são necessariamente as únicas que uma cosmovisão pode ter, mas estão entre as mais im­ portantes e comuns.

O Elemento Normativo

Uma norma é um padrão de algum tipo. Encontramos padrões em virtualmente toda a área da vida. Por exemplo, quando escre­ vemos ou lemos o que outra pessoa escreveu, encontramos pa­ drões gramaticais. Quando dirigimos pelas ruas, encontramos pa­ drões legais (na forma de sinais de trânsito e carros de patrulha). Quando cozinhamos ou comemos a comida que outra pessoa prepa­ rou, encontramos padrões culinários. Nossos julgamentos e avali­ ações de todos os tipos de comportamento humano são feitos em termos de normas, de padrões. “Sua frase não tem sentido” , “Você estava dirigindo muito rápido”, “Esta macarronada está delicio­ sa”, todas estas avaliações implicam referência a uma norma, a um padrão. Quando falamos sobre cosmovisão, dois dos tipos mais importantes de normas são a norma moral e a norma estética. As normas morais governam nosso comportamento e desen­ volvimento do caráter. Elas são padrões que requerem, proíbem ou permitem certos tipos de comportamento ou o desenvolvimen­ to de certos tipos de traços de personalidade. Podem ser ou espe-

Marc Chagai 1 (1887- 1995) foi pintor, impres­ sor, designer, escultor, ce­ ramista e escritor. Nasceu na Bielorússia e preferiu ser conhecido como artis­ ta bielorusso. (Suas obras artísticas são notáveis pelo

uso consistente que fez da imagem folclórica.) Contu­ do, depois de ter sido exila­ do da Bielorússia em 1923 (quando fazia parte da antiga União Soviética), tornou-se reconhecido como um im­ portante artista da França.

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

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reservados.

os direitos

of Chicago. Todos

Art Institute

Branca”, © 1996, The

Crucificação

cíficas ou gerais. As proibições contra mentir, roubar e ferir são exemplos de normas morais específicas. A Torá (a Lei Mosaica) expressa muitas das normas morais específicas que foram reco­ nhecidas no judaísmo no decorrer da história. Dez destas — os “Dez Mandamentos” ou “Decálogo” — têm tido influência pro­ funda e duradoura não só no judaísmo e no cristianismo, mas tam­ bém na civilização ocidental em geral. Os cristãos acreditam que Jesus resumiu toda a Lei Mosaica em duas or­ dens: amar a Deus sobre todas as coisas, e amar

ao próximo (inclusive aos inimigos) como a si mesmo. Normas morais gerais são chamadas princípios morais. Incluem princípios de pro­ priedade, justiça e utilidade. Os princípios

morais gerais, como a preocupação pelo bem- estar e tratamento justo aos pobres, são eviden­ tes ao longo dos escritos proféticos hebraicos. As normas estéticas são padrões pelos quais julgamos o que é bonito, agradável ou sublime. A cultura ocidental de hoje parece enraizada na crença de que os julgamentos estéticos são mera­ mente expressões de gosto pessoal, e que gosto não se discute. Ou

você gosta de algo (acha bonito, por exemplo) ou não gosta. Ne­ nhum padrão pode ser evo­ cado para apoiar-se ao se fa­ zer um julgamento ou pedir

Quando falamos sobre cosmovisão, dois dos tipos mais importantes de normas são a norma moral e a norma estética.

a

avaliação de outrem sobre

o

fenómeno em questão. En­

tretanto, esta visão parece mais uma extensão de certa ideologia prevalecente do que um insight estético ínte­ gro. Além disso, as cosmo- visões que historicamente têm dominado a civilização, como também muitas que hoje existem, não comparti­ lharam o ponto de vista de que gosto é indiscutível.31 Pelo menos os pensado­ res críticos reconheceram a relação importante entre a ideologia de uma cosmovi­ são e sua dimensão estética. Se a ideologia é primaria­ mente intelectual, então a es­ tética é no mínimo afetiva: a música, a pintura, a escultu­ ra e outras formas de arte têm tremendo potencial para nos

Crucificação Branca, foi produzida em 1938, três anos depois de Chagall ter visitado a Polónia eficado cara a cara com o anti-semitismo virulento daquela época e lugar.

mover. Elas podem ser empregadas para reforçar as crenças cen­ trais de uma cosmovisão. Obviamente temos de reconhecer que elas também têm o potencial para minar essas crenças centrais. Então qual é a relação entre os elementos normativos de uma cosmovisão e os outros elementos? Em palavra bastante simples, os elementos normativos tanto moldam quanto são moldados pe­ los outros elementos. Por exemplo, os antigos hebreus experimen­ taram Deus como uma deidade poderosa, criativa, dinâmica e fre­ quentemente misteriosa. As vezes até o temiam. Mas sua impres­ são dominante não era de um Deus vingativo e caprichoso, mas de um Deus bom, amoroso, santo e íntegro. Além disso, as caracte­ rísticas que eles acreditaram que Ele possuía eventualmente tor­ naram-se mandamentos morais para eles. Ele esperava obediência e sacrifícios a Ele, mas também esperava atendimento adequado às necessidades dos pobres; Ele esperava observância formal do sábado, mas também conduta correta. Nem a conduta correta em si era suficiente. Ele queria que o comportamento dos hebreus refletisse um caráter correto. No que diz respeito à dimensão estética, o Deus que tirou os hebreus da escravidão no Egito e os conduziu pelo deserto tam­ bém ordenou-lhes que erguessem um tabernáculo, um lugar espe­ cial onde Ele os encontraria. Esta estrutura (não tanto um edifício como uma tenda elaborada) deveria ser construída de acordo com suas instruções detalhadas, sob a direção dos mais qualificados e ar­ tísticos artesãos entre eles. Sabemos sobre estas coisas, claro, porque eles no-las transmitiram através das narrativas importantes nas Escri­ turas hebraicas. O que vemos neste exemplo é que os elementos normativos de uma cosmovisão, juntamente com a experiência, a ide­ ologia e a narrativa, são entretecidos juntos num único tecido da vida para os hebreus antigos. Relações semelhantes nestes elementos tam­ bém se manteriam fiéis às cosmovisões de outros povos.

O Elemento Ritualista

Com nossas discussões dos elementos ideológico, narrativo e normativo de uma cosmovisão, levamos em conta as crenças cen­ trais e os valores que entram em nossas vidas. Mas uma cosmovi­ são consiste em mais do que estas convicções. Uma cosmovisão vital e dinâmica também inclui inevitavelmente certos rituais. Se a cosmovisão é secular, seus rituais poderiam incluir paradas ou representações públicas de eventos política ou nacionalmente significantes (por exemplo, Dia da Independência, Dia da Procla­ mação da República, o Ano Novo). Se é teísta, seus rituais prova­ velmente incluirão atos específicos de adoração ou maneiras es­ peciais de celebrar datas ou eventos religiosos importantes (por exemplo, Hanuká, Páscoa, Natal). O que separa os rituais de qualquer outro tipo de comporta­ mento humano e o que os toma de significado especial para nós?

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

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Um modo de começar a responder estas perguntas é considerar brevemente algumas das características comuns, mas frequente­ mente ignoradas, de nossa linguagem e comportamento. Em princípios da década de 1960, o filósofo oxfordiano J. L . Austin escreveu um livro que chamava a atenção para o papel especial que as palavras desempenham em nossa linguagem e vida

diária. É óbvio que algumas palavras são simplesmente nomes ou rótulos para objetos. Outras são executantes, segundo observação de Austin, pois de fato

fazem coisas.32 Quando uma amiga me pede para encontrá-la a certa hora e lugar e eu res­ pondo: “Irei, prometo” , fiz mais que expressar meus sentimentos ou predizer minha conduta. Fiz uma promessa. O mesmo é verdade quan­ ”

do digo: “Eu o parabenizo ”

por

as palavras constitui o próprio ato. Dito de outra maneira, dizer as palavras realmente importa em executar um ato.

Elaborando na linha de raciocínio de Austin, podemos ampliar a noção de executantes para incluir os gestos. Um soldado reco­ nhece a autoridade de um oficial na saudação, uma anfitriã saúda sorrindo, um professor concorda inclinando a cabeça, um pai nega permissão meneando a cabeça, um homem e uma mulher selam seu casamento trocando anéis e beijando-se. Agora, em última análise, os rituais geralmente usam palavras e gestos. Eles são uma classe especial de palavras e ações que de fato fazem coisas. Um ritual é uma cerimónia executada periodi­ camente em ocasiões especiais. É projetado a representar ou re­ cordar um evento especial. Pode ser sombrio ou festivo, formal ou informal. Nem todos os rituais funcionam precisamente da mesma ma­ neira. Na realidade, baseado no modo como funcionam, podemos identificar pelo menos três tipos diferentes de rituais. Uma forma de ritual é tencionada a renovar laços. Fazendo-se isso, fortalece- se o grupo. Nos Estados Unidos, vemos tanto a renovação de la­ ços quanto o fortalecimento do grupo durante as celebrações a cada ano do Dia da Independência. Discursos de figuras públicas proeminentes, piqueniques familiares e comunitários, soltar fo­ gos de artifício ao término do dia — são rituais que lembram os americanos de sua herança política comum. Ao lembrá-los assim, as celebrações rituais renovam e fortalecem os laços nacionais que unem os americanos como um povo. Outra forma de ritual celebra ritos de uma maneira que recria um evento, tomando-o real no presente. Uma característica proe­ minente da celebração do Dia de Independência americana — soltar fogos de artifício à noite — serve a esta função além da função descrita mais acima. Soltar fogos de artifício é uma representação estilizada da batalha (o disparo dos mosquetes, a detonação dos

Um ritual é uma cerimónia executada em ocasiões especiais, projetado a representar ou recordar um evento especial.

Dizer

; “Desculpe-me

; “Eu inauguro este templo

; “Aceito sua oferta

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MICHAEL D. PALMER

canhões) durante a Guerra Revolucionária, que assegurou a inde­ pendência política da Inglaterra tão ousadamente declarada no fa­ moso documento de 4 de julho de 1776. Um terceiro tipo de ritual facilita a transição de um estado a outro. Por exemplo, o bar mitzvah é a cerimónia judaica na qual um menino (tradicionalmente de 13 anos de idade) é iniciado na comunidade religiosa e realiza seu primeiro ato como adulto len­ do na sinagoga o trecho semanal da Torá. As cerimónias de gradu­ ação nas instituições educacionais são um meio secular de marcar a transição de estudante para formado. Todos os rituais parecem ter em comum pelo menos duas ca­ racterísticas essenciais: 1) fornecem ocasião para reflexão no sig­ nificado das crenças centrais do indivíduo, e 2) são destinadas a evocar uma resposta afetiva às crenças centrais do indivíduo. Ambas as funções integram os complicados padrões de crenças, narrativas e normas no tecido da vida interior e caráter do indivíduo.

O Elemento Experimental

Quando consideramos o modo como uma equipe de progra­ madores desenvolve um novo sistema operacional para computa­ dores, ou a maneira como um lógico deriva a conclusão de uma prova de lógica, ou a forma como um matemático resolve uma equação, notamos imediatamente que estas são tarefas principal­ mente intelectuais. Os problemas em cada caso são estritamente racionais em natureza, e não exigem o envolvimento das emoções para resolvê-los. Claro que não é incomum ouvir os peritos nos campos técnicos falarem de forma apaixonada sobre seu trabalho. Mas quando os ouvimos falar deste modo, não confundimos o entusiasmo com a habilidade intelectual para executar tais tarefas. Se os programadores de computador, os matemáticos ou os lógi­ cos são ou não afetados pelas tarefas técnicas que os confrontam, não é estritamente pertinente à conclusão dessas tarefas. O mes­ mo não é verdade quando alargamos a discussão para além dos campos técnicos e começamos a considerar os relacionamentos que as pessoas têm com sua cosmovisão. Falando de modo geral, quando as pessoas adotam uma cosmovisão, fazem-no de corpo e alma. Isto significa que quando adotam uma cosmovisão, elas se entregam não só intelectualmente, mas também emocional e espi­ ritualmente. Quando isto ocorre, a importância de certas experi­ ências afetivas e espirituais competirá com a importância da ideo­ logia, o elemento racional de uma cosmovisão. Com frequência, as experiências afetivas e espirituais também desempenham um papel primordial no nascimento e desenvolvi­ mento de uma cosmovisão. Nesta conexão, é notável que o judaís­ mo e o cristianismo, os quais têm ideologias altamente desenvol­ vidas, tenham Abraão do Antigo Testamento como fonte de inspi­ ração. Abraão passou seus primeiros anos em Ur, lugar cujos ha­

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bitantes (os caldeus) provavelmente adoravam muitos deuses. Pa­ rece plausível especular que, nesses dias, a ideologia de Abraão, assim como das pessoas ao seu redor, era politeísta (que admite a existência de muitos deuses). O que, então, explica o fato de que com a idade de 75 anos ele decidiu deixar seu país, seu povo e a

casa do seu pai, e partir para uma terra que nunca tinha visto an­ tes? As Escrituras não atribuem a mudança a uma troca de ideolo­ gia. Antes, descrevem uma experiência: Deus falou com ele (Génesis 12.1-3). As crenças de

Abraão sobre Deus (parte dessa ideologia) pa­ recem ter mudado e amadurecido somente de­ pois que ele respondeu fielmente à voz de Deus. Em suma, a experiência de Abraão deu à luz a uma nova maneira de pensar.

A maioria das cosmovisões religiosas dá

Quando a pessoa adota uma cosmovisão, se entrega não só intelectualmente, mas também emocional e espiritualmente.

lugar proeminente à experiência. E comumente considerada como força motriz em seu nascimento e desenvolvi­ mento. O mesmo se aplica às cosmovisões filosóficas? Em muitos casos, a resposta é sim. Uma concepção errónea comum sobre

cosmovisões filosóficas é que elas são exclusivamente produto do intelecto. O antigo filósofo grego Platão promoveu visão mais pre­ cisa, quando afirmou que a filosofia começa maravilhada. Em outras palavras, o raciocínio filosófico é motivado habitualmente pelas experiências que nos afetam profundamente. O nascimento de uma criança, a morte de um amigo querido, um motim político, encontros com fenómenos naturais majestosos ou temerosos — estas e outras incontáveis experiências também podem nos levar a ponderar questões de preocupação última. Quando a reflexão em tais assuntos se aprofunda suficientemente, uma cosmovisão filo­ sófica pode emergir.

O desenvolvimento da própria cosmovisão filosófica de Platão

ilustra o ponto. Platão nasceu em 428 a.C., não muito depois do começo da guerra entre Esparta e Atenas, que durou quase três

Durante sua mocidade, ele vivenciou o

falecimento e subsequente colapso das instituições políticas em Atenas, e experimentou em primeira mão o caos social em que caiu a cidade. Estas experiências em sua juventude parecem ter causado tremendo impacto em seu desenvolvimento filosófico. Mais tarde, em seus anos maduros, ele escreveu a República, um dos principais documentos políticos e filosóficos da literatura oci­ dental. Nele, Platão enuncia não só sua visão de uma sociedade ideal, onde a justiça predomina, mas também fornece os temas centrais de sua cosmovisão. As cosmovisões filosóficas mais recentes, como o marxismo e o existencialismo ateísta, exibem um padrão similar. O marxismo geralmente é considerado como uma ideologia, e certamente esta não é uma maneira inexata de reputá-lo. Mas, como o platonismo, não se desenvolveu num vazio social. O próprio Marx parece te

décadas (431-404 a.C .).

sido profundamente afetado pelo que viu e leu sobre as condições de trabalho suportadas pelos trabalhadores da Europa do século

X IX , particularmente na Inglaterra. Em sua principal obra, O Ca­

pital, ele lança a teoria económica pela qual ficou famoso. Porém, ele também detalha as condições miseráveis de mulheres que vi­ viam (e frequentemente morriam) como virtuais escravas em es­

tabelecimentos escravizantes, crianças que labutavam em fundi­ ções, e homens que trabalhavam muitas horas sem parar por salá­ rios de fome em moinhos e fábricas. Em suma, o marxismo emer­

giu em parte como ideologia social proeminente, porque o próprio

M arx foi profundamente movido pelo que experimentou.

Jean-Paul Sartre, amplamente considerado o fundador do mo­ derno existencialismo ateísta, morou na França durante e entre a

Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Muitas de suas mais desta­ cadas declarações ideológicas — a realidade não tem propósito

além daquela que lhe impomos, as relações humanas são domina­ das pelas lutas de poder — estão arraigadas em suas experiências daquele período. Claro que para pessoas como Platão, Marx e Sartre, suas ideologias eram acompanhadas de suas experiências,

e não separadas delas. Dois pontos principais evidenciam-se de nossa discussão do

elemento experiencial de uma cosmovisão. Primeiro, a experiên­ cia não é uma característica incidental de uma cosmovisão. Para o partidário típico de uma cosmovisão, ela é tão importante quanto

a ideologia. Segundo, a experiência está integralmente ligada à

ideologia. Em alguns casos, serve até de manancial da ideologia.

O Elemento Social

Até aqui temos discutido os elementos de uma cosmovisão, vendo-os sincronicamente. Em outras palavras, ignoramos sua colocação na história e os discutimos como se existissem num estreito período de tempo. Mas é claro que esta abordagem é en­ ganosa de vários modos. Em primeiro lugar, as cosmovisões não permanecem inalteradas ao longo de sua história. Portanto, vê-las apenas sincronicamente significa que ficamos propensos a igno­ rar ou negligenciar a importância das mudanças que ocorrem numa cosmovisão com o passar do tempo. Além do mais, vê-las apenas sincronicamente aumenta a probabilidade de que não apreciare­ mos uma das mais difíceis, contudo importantes tarefas que os partidários de qualquer cosmovisão enfrentam: ser bem-sucedido em perpetuar as crenças centrais e práticas de uma geração para a outra. Por estas e outras razões, os estudiosos acharam proveitoso considerar os fenómenos culturais à medida que ocorrem ou mu­ dam durante determinado tempo. Isto é chamado de abordagem diacrônica. Um modo de exam inar uma cosm ovisão diacronicamente é examinar os arranjos sociais e as instituições de seus partidários.

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

Max Weber (veja box no Capítulo 5) foi o primeiro a empreen­ der um exame sistemático dos arranjos sociais e instituições das cosmovisões religiosas. Ele notou que as religiões movem-se em padrões historicamente cíclicos. Na primeira parte de um ciclo, um líder carismático (um profeta, místico ou clérigo, por exem­ plo) desempenha um papel proeminente. Esta pessoa transmite uma visão nova e poderosa às pessoas que estão preparadas para recebê-la. Depois que aceitam a mensagem do líder carismático e tomam-se seus discípulos, estas pessoas entram na fase de conso­ lidar e formalizar os insights do líder. Esta fase é comumente marcada pelo tradicionalismo: os seguidores empenham-se em manter o poder e a vitalidade da mensagem como recebidas do fundador. A novidade dá lugar à rotina. A espontaneidade dá lugar à institucionalização. Os ajuntamentos sociais e eventos que ou- trora requeriam pequena promoção ou notificação anterior agora ocorrem de acordo com um horário fixo. Com o passar do tempo,

Platão (428-348 a.C.) foi filósofo grego do período clássico. Como aristocrata jovem concorreu a cargo político. A única relação mais importante que travou foi com Sócrates, cuja vida, personalidade e ensinos lhe influ­ enciaram profundamente. Poucos anos de­ pois da execução de Sócrates pelos atenienses em 399 a.C., Platão começou a escrever traba­ lhos filosóficos na forma de diálogos (conver­ sações). Muitos deles apresentam Sócrates como personagem principal. Em cerca de 386 a.C., perto de Atenas, Platão fundou a escola mais influente do mundo antigo, a Academia, onde ensinou até a morte. Seu aluno mais fa­ moso foi Aristóteles. Os diálogos filosóficos de Platão entram em três grupos principais. Os primeiros diá­ logos ou diálogos socráticos (por exemplo,

Apologia, Critias e Eutifró), apresentam

Sócrates em conversas vivazes com atenienses proeminentes sobre assuntos im­ portantes como a devoção e a coragem. Com frequência as visões colocadas na boca de Sócrates parecem ser consistentes com o que se acredita que o Sócrates histórico manti­ nha. Os diálogos do período mediano ou

maduro (por exemplo, A

República,

Fedo,

O

Simpósio) ainda apresen­ tam Sócrates como pensa­ dor poderoso c falante, mas acredita-se que a visões que promovia são de Platão, o filósofo maduro. Os diálo­ gos do último período ou período crítico (por

exemplo, Timeu, Parmênides e As Leis) pa­

recem reter a forma de diálogo apenas no nome e trazem mais semelhança a tratados que a diálogos. Na maioria das vezes Sócrates não é o protagonista; às vezes ele faz somente um aparecimento de relance; em Av Leis ele não aparece de jeito nenhum. Os últimos diálogos são chamados diálogos críticos, porque neles Platão avalia e desafia suas próprias visões filo­ sóficas anteriores. Os diálogos de Platão tocam virtualmen­ te em todo problema importante que foi ob- jeto de estudo de filósofos subsequentes. Seus ensinos são considerados entre os mais influentes da história da civilização ociden­ tal, e seus escritos estão entre os mais im­ portantes da literatura em todos os tempos.

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os seguidores separam-se em facções identificáveis no grupo: os que prudentemente aderem às rotinas da instituição, e os que ten­ tam recapturar a vitalidade da mensagem original do fundador. A tensão entre estas duas facções pode durar muito tempo, mas even­ tualmente uma divisão acontece e o ciclo começa novamente quan­ do uma nova figura carismática explora a tensão. O relato de Weber explica muitos fenómenos interessantes nas cosmovisões religiosas. Por exemplo, ajuda a explicar a existên­ cia de seitas religiosas. No judaísmo, o hassidismo originou-se na Polónia do século X V III, como um movimento em resposta à per­ seguição e reação contra o formalismo académico do judaísmo rabínico. Seu fundador carismático chamava-se Baal Shem Tov, que incentivava a expressão religiosa jovial pela música e dança, e ensinava que a pureza de coração era mais agradável a Deus do que a repetição mecânica de rituais e o estudo intensivo das Escri­ turas e do Talmude. Mas as gerações subsequentes de hassidim passaram precisamente pelos tipos da dinâmica cíclica identifica­ dos por Weber. A medida que os líderes e membros da seita pro­ curavam consolidar os insights do fundador, deram crescente aten­ ção a fatores externos que os identificavam como “os piedosos” . Quase imediatamente, as roupas e os penteados (descritos tão elo­ quentemente por Potok) começaram a se salientar como caracte­ rísticas identificadoras dos hassidim. Além disso, a adoração que outrora era apreciada por sua espontaneidade, alegria e falta de formalismo, passou a assumir padrões específicos e rotineiros. Mesmo o estudo intenso das Escrituras e do Talmude, depreciado pelos primeiros líderes, no fim tornou-se uma característica im­ portante da vida hassídica. Na realidade, o estudo ganhou tama­ nha obsessão que dentro do prazo de algumas gerações do seu início, o hassidismo tinha produzido vários grandes talmudistas. Em várias conjunturas históricas, a tensão entre aqueles que fiel, mas mecanicamente, mantiveram-se firmes às tradições, e aqueles que ten­ tavam recuperar o espírito e vitalidade que animou Baal Shem Tov desencadeou-se abruptamente. Divisões ocorreram sobre pontos de doutrina e prática, e novos ramos do hassidismo se formaram, em geral sob a direção de um novo líder influente. Em The Chosen, Potok, que é judeu e intimamente fam iliari­ zado com as tensões e pontos estressantes dentro do judaísmo, fala com autoridade quando explica como os hassidim viam os grandes líderes de sua tradição: “Os hassidim tiveram grandes lí­

deres — tzaddikim, como os chamavam, os íntegros

am esses líderes cegamente. Os hassidim acreditavam que o tzaddik era um vínculo sobre-humano entre eles e Deus” .33Profundo afe- to por seus líderes, lealdade feroz uns aos outros e um forte senso de tradição tomou possível aos hassidim sobreviverem durante séculos de perseguição na Europa oriental. Por outro lado, estas mesmas características também geraram dentro deles atitudes de superioridade espiritual em relação aos

Eles segui­

T

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

outros judeus, e os levaram a definir a sociedade grupai com ex­ clusividade. Aqueles, cujas visões eles rejeitaram, foram estigma­ tizados por eles com rótulos: goyim, para os gentios, e apikorsim, para os judeus. Seitas como o hassidismo dificilmente são exclusivas ao juda­ ísmo. Se Weber estiver certo, todas as principais religiões as têm, porque todas as principais religiões passam pelos ciclos sociais que ele descreveu. Além disso, esses ciclos não parecem estar li­ mitados a comunidades religiosas. Os grupos sociais seculares comumente mostram a mesma dinâmica. O desenvolvimento his­ tórico do comunismo tanto na Rússia quanto na China ilustram perfeitamente o ponto. Vladim ir Lenin (1870-1924) foi revoluci­ onário russo, fundador do bolchevismo e força importante no es­ tabelecimento da União Soviética. Mao Tse-Tung (1893-1976) foi revolucionário chinês e fundador da República Popular da China. Ambos eram conhecidos como visio n ário s e líderes carismáticos. Contudo, enquanto ainda viviam , ambos viram a visão pessoal que tinham do socialismo sofrer transformação. As organizações políticas e os governos encarregados de executar a visão desses homens em seus respectivos países depressa toma­ ram-se fortemente burocráticas, totalitárias até. Mao viveu o bas­ tante para entender o quão distante as instituições políticas e a burocracia governamental tinham se desviado de sua visão. Em parte como reação a isso, ele instigou a suposta revolução cultural (1966-1969), um período de difundida agitação que ele parecia considerar ocasião para recapturar o espírito revolucionário das primeiras décadas. Nenhuma cosmovisão pode sobreviver à parte de uma situa­ ção social que transponha múltiplas gerações. Em outras palavras, uma cosmovisão que só dura uma geração quase não é digna do nome. Assim, o elemento social é indispensável para o sucesso a longo prazo de qualquer cosmovisão. Aqueles que se preocupa­ ram em passar uma cosmovisão vital à geração seguinte utiliza­ ram os elementos discutidos anteriormente: ideologia, narrativa, normas morais e estéticas, rituais e experiência. Os professores procuram transmitir uma compreensão de ideologia e normas, os pais contam histórias, os líderes da comunidade buscam nutrir uma avaliação dos rituais, e todo o mundo trabalha para prover eventos sociais e instituições que evoquem as experiências que são vitais para a cosmovisão. Claro que não há garantia de que cada geração sucessiva en­ tenderá e permanecerá fiel à sua herança. Se Weber tiver razão acerca das fases de desenvolvimento de uma cosmovisão, então toda geração enfrenta duas tarefas assustadoras: 1) a tarefa de trans­ mitir fielmente à próxima geração os insights do seu passado (como os enunciados na visão do fundador), e 2) a tarefa de ajudar a próxima geração a lidar com as tendências culturais (sociais, polí­ ticas, religiosas) no presente. Os hassidim retratados em The

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Chosen procuraram cumprir a primeira tarefa, em parte estabele­ cendo yeshivas, exigindo rigorosos estudos diários do Talmude e reunindo-se regularmente para oração nas sinagogas. Buscaram realizar a segunda tarefa, em parte adotando um estilo distintivo de vestuário, restringindo sua associação com estranhos, limitan­ do a amplitude das matérias ensinadas na escola, e proibindo seus filhos de assistirem filmes. Há inumeráveis maneiras de deixar de trans­ mitir uma cosmovisão em toda a sua riqueza. O

fascínio da cultura popular contemporânea pode seruma distração importante. Foijustamente por isso que Potok fez com que os rabinos em The Chosen objetassem em permitir as crianças

hassídicas assistirem filmes e participarem de jogos de beisebol. O fato de Danny e Reuven terem se encontrado pela primeira vez num jogo de beisebol dá teste­ munho ao poder da cultura popular contemporânea. Além do canto de sereia da cultura popular, as estratégias para

transmitir uma cosmovisão podem ser falhas ou ineficazmente executadas. Por exemplo, os métodos pedagógicos apropriados para uma pessoa ou geração podem ser impróprios para outra. O rabino Saunders ensinou Danny impondo uma regra de silêncio:

desde quando Danny tinha quatro anos, o rabino Saunders só fala­ va com ele em situações formais, como quando eles estudavam o Talmude. Ele estava usando um método empregado por seu pai. O propósito era assegurar que o seu filho brilhante aprenderia so­ frendo (pelo silêncio imposto) e, assim, aprenderia a sentir empatia pelos que sofrem. No caso de Danny, a técnica quase não deu cer­ to, e por pouco não o enlouqueceu. Obviamente há muitas dificuldades associadas com a tarefa de transmitir uma cosmovisão de uma geração para a outra. Numa corrida de revezamento há muitas maneiras de derrubar o bastão. Dadas as inumeráveis dificuldades associadas com a tarefa, não deveríamos ficar admirados que algumas cosmovisões caíssem em desgraça e deixassem de representar um papel vital nas vidas de um povo. Antes, deveríamos ficar maravilhados que algumas cosmovisões foram transmitidas com sucesso de uma geração para a outra por milhares de anos.

Nenhuma cosmovisão pode sobreviver à parte de uma situação social que transponha múltiplas gerações.

Elementos de uma Cosmovisão Cristã

Ao longo deste capítulo, citamos exemplos de diversas cos­ movisões para ilustrar os vários componentes de uma cosmovi­ são. Alguns dos exemplos foram retirados de nossa herança cristã. Encaminhamo-nos à pressuposição de que o cristianismo é uma cosmovisão, e que exibe elementos comuns a outras cosmovisões. Agora estamos em posição para afirmar explicitamente (e não apenas presumir) que o cristianismo realmente é uma cosmovi-

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

são. Como outras cosmovisões, ela fornece uma abordagem in­ clusiva às preocupações essenciais da vida. Além disso, como ou­ tras cosmovisões, a cosmovisão cristã exibe todos os seis elemen­ tos discutidos nas seções precedentes. A seguir, vamos recapitular os seis elementos de uma cosmovisão para destacar as crenças centrais e práticas de uma cosmovisão cristã.

O Elemento Ideológico

Ideologia é um termo geral usado para descrever as crenças centrais de qualquer cosmovisão. O nome mais habitual dado à ideologia na tradição cristã é “doutrina” . Outra maneira de ilus­ trar o ponto é dizer que, na tradição cristã, as declarações doutri­ nárias foram os instrumentos primários para declarar a ideologia de uma cosmovisão cristã. Como as outras principais cosmovisões, o cristianismo enun­ cia o que anteriormente chamamos de teoria de fundo sobre a na­ tureza do universo. Esta teoria de fundo inclui relatos do cosmo, de Deus e da história. O cristianismo também oferece um relato geral da natureza humana.

O C osm o

Na cosmovisão cristã, o cosmo foi criado por Deus. Esta posi­ ção separa o cristianismo das cosmovisões naturalistas, já que elas não reconhecem a atividade divina no cosmo. Mas também separa

o cristianismo de outras cosmovisões que reconhecem a existên­

cia de seres divinos. Por exemplo, os gregos antigos acreditavam que os deuses existiam, que eram imortais e que estavam ativos no cosmo. Ao mesmo tempo, os gregos não acreditavam que os deuses haviam criado o cosmo. Na cosmologia grega antiga, a mais primitiva coisa existente era uma unidadeprimordial, uma massa indiferenciada. O primeiro está­ gio do desenvolvimento era o aparecimento de um buraco (literal­ mente, “caos”), uma separação em duas partes da unidade original.

As duas partes tomaram-se Céu e Terra. Os deuses da mitologia po­ pular apareceram somente muito mais tarde.34Aqui temos uma dife­ rença notável com a doutrina cristã, segundo a qual Deus existiu pri­ meiro e depois criou o cosmo: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Génesis 1.1). Além disso, o cristianismo ortodoxo assevera que o cosmo é continuamente sustentado por Deus, e o que Ele criou

é bom. Os gregos acreditavam que os deuses eram ativos no cosmo,

mas não lhes atribuíam nenhuma responsabilidade pela existência continuada do cosmo. Nem acreditavam que os deuses eram capazes de determinar as qualidades morais de qualquer coisa que existe.

D eus

As doutrinas cristãs sobre Deus são numerosas e complexas, frequentemente sutis e altamente refinadas. Não podemos resu­

mi-las todas aqui. Porém, podemos reiterar algumas das mais im­ portantes. Para começar, na doutrina cristã, Deus é a figura cen­ tral. Não apenas tudo foi criado por Ele, mas tudo foi criado para Ele. Ele é a fonte de tudo no cosmo e, no fim , tudo no cosmo cumprirá seus propósitos de acordo com um plano traçado por Ele desde tempos imemoriais. Deus também é bom. Além disso, Ele não tem começo nem fim . Neste aspecto, o relato cristão de Deus diverge de maneira importante do antigo relato grego dos seus deuses. Os deuses gregos não eram uniformemente bons. Na ver­ dade, com algumas exceções, não eram moralmente superiores aos seres humanos. É verdade que os deuses gregos eram conside­ rados seres imortais. Mas a imortalidade era um conceito lim ita­ do. Significava somente que os deuses não morreriam e não que eles não tinham tido começo.

A H is tó r ia

De acordo com a doutrina cristã, Deus não criou o cosmo e depois o abandonou. Bem ao contrário, Ele está intimamente en­ volvido no desdobramento dos eventos históricos. Na cosmologia grega, o destino e o acaso receberam papéis proeminentes. Mas estes eram forças fundamentalmente cegas e impessoais sobre as quais nem os deuses nem os humanos exerciam muito controle. Na doutrina cristã, Deus, que controla o destino de tudo, não é cego nem impessoal. Ele está introspectiva e pessoalmente em ação na história, num modo que consequentemente, a seu tempo, cum­ prirá seus propósitos. Neste ponto, claro que a doutrina cristã di­ fere notadamente não apenas das visões teístas limitadas como as dos gregos antigos, mas também das cosmovisões naturalistas (como do marxismo ou do existencialismo), que afirmam que os eventos históricos são exclusivamente o resultado ou das forças cegamente mecânicas, ou do empenho humano.

A N a tu r e z a

H u m a n a

Comentamos anteriormente que as principais cosmovisões for­ necem não somente uma teoria de fundo sobre o universo, mas também um relato geral da natureza humana. O cristianismo tam­ bém fornece tal relato. Este relato coincide com o que o cristianis­ mo afirma sobre o cosmo em geral: Deus criou a humanidade, Ele não está afastado e distante, mas bastante íntima e pessoalmente familiarizado com cada ser humano individual, e está executando seus propósitos últimos na vida dos seres humanos individuais. Mas aqui a semelhança entre a humanidade e o resto do cosmo acaba. Estrelas e planetas, rios e montanhas, salmões e ursos cin­ zentos, prótons e nêutrons, tudo opera de acordo com certa or­ dem. Em toda criatura há certas forças naturais e inclinações que a orientam a um fim e a capacitam a agir de certas maneiras. Esta ordem é a que Deus impôs nas criaturas, quando instilou nelas as

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

tendências que têm, e é uma expressão de sua lei eterna que gover­ na o cosmo. É óbvio que os seres humanos são parte da natureza e, como tal, também exibem inclinações naturais que os orientam a um fim e os capacitam a executar as atividades físicas e mentais. Mas os seres humanos estão ordenados ao seu fim e às suas atividades de certo modo que difere profundamente de outras cri­ aturas. Os seres humanos são dotados de razão e, portanto, têm a capacidade (embora limitada) de descobrir por si mesmos o que necessitam fazer para alcançar seus fins. Diferentes de outras cri­ aturas distintas, eles também têm a capacidade de ignorar ou re­ jeitar os fins que lhes sejam apropriados. Em outras palavras, eles podem eleger não se dirigir aos ideais que Deus lhes fixou anteri­ ormente. Tragicamente elegeram fazer isso e, assim, se alienaram de Deus, o Criador de todas as coisas boas. Na doutrina cristã, esta escolha em não visar os ideais estabelecidos por Deus é cha­ mada de pecado (tradução do grego e do hebraico que significa errar a marca ou o alvo). Quais são os ideais e como a atividade humana pode ser reorientada de modo a que os seres humanos os almejem mais uma vez? Alguns dos mais básicos e importantes são as caracte­ rísticas interiores que definem o caráter da pessoa, as relações fra­ ternais com os seres humanos e uma relação harmoniosa com o próprio Deus. Se os seres humanos são capazes de direcionar um curso para longe dos ideais divinamente ordenados, eles não são semelhantemente capazes de redirecionar o próprio curso em di- reção a esses ideais e restabelecer uma relação harmoniosa com Deus. Só Deus pode fazer isso, e Ele escolheu efetuar a reconcili­ ação mediante a vida, morte e ressurreição de Jesus. De onde vêm as doutrinas da cosmovisão cristã? Fundamen­ talmente, vêm da Bíblia. Visto que todas as partes da Bíblia são consideradas sagradas e divinamente inspiradas, todas elas tam­ bém são fontes potenciais de doutrina.35

O Elemento Narrativo

Na cosmovisão cristã, as narrativas podem ser divididas em duas categorias gerais — primária e secundária — , refletindo a importância relativa e autoridade das fontes. As narrativas primá­ rias são encontradas na Bíblia. Incluem histórias sobre a criação do cosmo por Deus; o afastamento de Deus por parte do primeiro homem e da primeira mulher; os subsequentes concertos entre Deus e a humanidade; o nascimento, morte e ressurreição de Jesus; a formação e expansão da Igreja e os acontecimentos finais da his­ tória. Também incluem histórias de algumas das mais notáveis pessoas de fé, como Abraão, Jacó, Moisés, Josué, Davi, Daniel, Pedro e Paulo. As narrativas secundárias refletem a experiência contínua dos cristãos ao longo dos séculos desde a formação da Igreja. Incluem

relatos da morte de mártires, histórias de santos, descrições de milagres e testemunhos da fidelidade de Deus em assuntos peque­ nos e grandes. As narrativas secundárias às vezes tomam a forma de relatos históricos. Dois exemplos modernos populares são O Refúgio Se­ creto, de Corrie ten Boom (que fala sobre uma fam ília cristã que escondeu os judeus e, assim, os salvou da morte às mãos dos na­ zistas) e A Cruz e o Punhal, de David Wilkerson (sobre um m inis­ tro jovem que foi para as ruas e becos sujos de Nova York para pregar o Evangelho aos membros de uma gangue de adolescentes viciados em droga). Às vezes, as narrativas secundárias tomam uma forma literá­ ria. O poema épico de Dante Alighieri, A Divina Comédia, a ale­ goria de John Bunyan, O Peregrino, o poema épico de John M il­ ton, O Paraíso Perdido, a curta história de Flannery 0 ’Connor, “Revelação”, e os romances de C. S. Lewis, A í Crónicas de Namia, são exemplos notáveis de peças literárias que enunciam uma cos­ movisão nitidamente cristã. Às vezes, as narrativas secundárias até aparecem nas artes vi­ suais. A catedral gótica medieval em Chartres, França, encarna eloquentemente uma cosmovisão cristã. O edifício foi disposto na forma de cruz; os vitrais descrevem eventos do Antigo e Novo Testamentos; as figuras esculpidas e colocadas nos portais fazem- nos lembrar de personagens bíblicas famosas; seus pináculos apon­ tam para o céu. Cada característica visível da arquitetura da cate­ dral nos faz lembrar das narrativas centrais do cristianismo e, as­ sim, reforça as doutrinas e ensinos da Igreja medieval. Numa cosmovisão cristã, as narrativas primárias são mais im­ portantes e mais autorizadas do que as narrativas secundárias. Isto deve-se ao fato de que elas aparecem na Escritura Sagrada, a qual é considerada divinamente inspirada. Entretanto, as narrativas secundárias certamente não são destituídas de importância. Além do mais, as narrativas primárias e secundárias proporci­ onam funções semelhantes. Como as narrativas em outras cos­ movisões, elas reforçam e embelezam temas ideológicos cen­ trais, ou seja, doutrinários, e fornecem padrões, ou modelos, para os crentes seguirem.

O Elemento Normativo

Comentamos anteriormente que uma norma é um padrão de algum tipo, que encontramos normas em virtualmente toda faceta da vida (da gramática às artes culinárias e à le i), e que nossos julgamentos e avaliações de todo comportamento hu­ mano e caráter firmam-se nas normas. Também notamos que dois dos tipos mais importantes de normas são as normas mo­ rais (ética) e as normas estéticas. Uma cosmovisão cristã in­ clui ambos os tipos.

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

A

D im en sã o

M

o r a l

Para os cristãos, as normas morais derivam das Escrituras. Isto acontece pelo menos de duas maneiras. As vezes, as Escrituras explicitamente proíbem ou exigem certo tipo de comportamento. Os Dez Mandamentos, apresentados em Êxodo 20, e os dois mandamen­ tos de Jesus para amar a Deus e ao próximo são bons exemplos de proscrições e prescrições específi­ cas. Mas normas importantes nem sempre são apresentadas na forma de mandamentos específicos. Por vezes, elas surgem como enuncia­ dos vívidos e poderosos nas narra­ tivas de homens e mulheres que aparecem na Escritura. O sétimo mandamento proíbe o adultério (Êxodo 20.14); a história de José que foge da esposa de Potifar (Génesis 39) exemplifica dramaticamente o que significa v i­ ver segundo o sétimo mandamen­ to. O décimo mandamento proíbe desejar coisas que pertencem ao próximo (Êxodo 20.17); a história do desejo de Davi por Bate-Seba, a esposa de Urias, o heteu, nos faz lembrar vividamente dos resultados trágicos de agir segundo nossos desejos cobiçosos (2 Samuel 11). A lei levítica exige que o povo esco­ lhido de Deus ame o próximo como a si mesmo (Levítico 19.18); a his­ tória de Jônatas e Davi descreve eloquentemente o significado do amor profundo e permanente de um amigo: “A alma de Jônatas se ligou

com a alma de D avi- e Jônatas O

amou como à sua própria alma” (1 Samuel 18.1). Séculos depois, quando um jovem rico pediu a Jesus que lhe dissesse quais eram as exigências para alcançar a vida eterna, Je­ sus o lembrou que os mandamentos lhe exigiam que amasse ao próximo como a si mesmo e, depois, disse-lhe para vender todas as suas possessões e dá-las aos pobres. O jovem partiu triste. Se a história do amor de Jônatas por Davi exemplifica amar ao próxi­ mo, a história do jovem rico deixa claro como outras coisas po-

Plano da Catedral de Chartres, França. (Segundo Frankl.)

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MICHAEL D. PALMER

dem reivindicar nosso afeto e nos afastar para longe do ideal. Ao longo da Bíblia, as narrativas dão vida ao significado das normas morais que, do contrário, pareceriam como mandamentos rudes e formais.

A

D im en sã o

E stétic a

Se a narrativa desempenha um papel proeminente mostrando as normas morais para o cristão, desempenha papel ainda maior demonstrando as normas estéticas — as normas pelas quais julga­ mos o que é bonito, agradável ou sublime. Considerando que as Escrituras proporcionam uma riqueza de mandamentos para guiar nosso comportamento e desenvolvimento de caráter na esfera moral, elas fornecem algumas ordens explícitas sobre o que se

espera na esfera estética. Mas esta falta relativa de instrução espe­ cífica não significa que as Escrituras estejam caladas no assunto de julgar o que é bonito, agradável ou sublime. Elas expressam princípios importantes na forma de narrativa. Os detalhes apre­ sentados para construir o Tabernáculo no Livro de Êxodo36 não deixam dúvida de que Deus valoriza imensamente a beleza. Além disso, podemos deduzir das declarações sobre Bezalel, o principal artífice do projeto, que a habilidade especializada e a perícia são dons de Deus. Moisés, falando aos israelitas, diz acerca dele: “Eis

que o SENHOR tem chamado por nome a Bezalel. [

to de Deus o encheu de sabedoria, entendimento e ciência em todo artifício, é para inventar invenções, para trabalhar em ouro, e em prata, e em cobre, e em artifício de pedras para engastar, e em

artifício de madeira, para trabalhar em toda obra esmerada” (Êxodo

35.30-33).

]

E

o Espíri­

Se a habilidade e o talento artístico são dons de Deus, a narra­ tiva em Êxodo deixa claro que os produtos resultantes da aplica­ ção desses dons não eram destinados a ficar guardados em mu­ seus. Os museus — edifícios erigidos para proteger e exibir arte- fatos e obras de arte — são em grande parte invenção moderna. Mesmo quando protegem e exibem objetos de arte, eles dão teste­ munho silencioso do fato de que esses objetos já não pertencem à vida cotidiana. O Tabernáculo do Antigo Testamento (e depois, o Templo de Salomão) não eram museus. Eram lugares de adora­

ção, oração e (às vezes) celebração. Isto significa que os artefatos

e as obras de arte cuidadosamente produzidos por pessoas como

Bezalel não deveriam ser considerados objetos produzidos mera­ mente por amor a uma experiência estética pura — como se diz, produzidos segundo a “arte pelo amor a arte” . Antes, eram artefa­ tos e obras de arte cujo contexto significativo era um lugar de adoração. Em outras palavras, a contemplação de artefatos bonitos e obras

de arte — inclusive os artigos de vestuário dos sacerdotes, os co­ pos e tigelas, os altares, a arca da aliança — eram contínuos com

o ato da adoração. O mesmo Deus que chamou Bezalel e outros

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

artesãos para fazerem artefatos bonitos e obras de arte também chamou o povo para entrar em adoração nos confins (ou pelo me­ nos próximo) de uma estrutura bonita e perto de objetos bonitos. Mas claro que a adoração não era a adoração da belezaper se, mas de Deus, o Criador de todas as coisas boas e bonitas. Não estamos procurando fazer um esboço completo de uma estética cristã. Nossa intenção é muito mais simples: Embora a Bíblia dê poucas diretrizes ou instruções claras para avaliar a arte, suas narrativas proporcionam fonte rica de exemplos que podem nos ajudar a desenvolver uma estética cristã. Outro modo de al­ cançar o mesmo objetivo é: na ausência de instruções bíblicas ex­ plícitas para julgar coisas bonitas, agradáveis e sublimes, não deveríamos concluir que Deus não se preocupa com a estética. Nem deveríamos concluir que a arte é mera questão de gosto pes­ soal, e que nenhum padrão (norma) pode ser evocado para julgar o que é apresentado como arte. As narrativas bíblicas ajudam o leitor paciente a pensar em padrões apropriados. Por exemplo, elas o fazem fornecendo modelos de contextos signifícãiivos (como adora­ ção ou celebração) dentro dos quais foram exibidos artefatos e obras de arte. Entender estes contextos podem fornecer pistas sobre os lim i­ tes do esforço artístico e da avaliação artística para o cristão.

O Elemento Ritual

Os elementos ideológico, narrativo e normativo do cristianis­ mo enunciam suas crenças centrais. Mas o cristianismo é muito mais que um conjunto de crenças. Como fé viva e cosmovisão, inclui também rituais distintivos que ajudam a integrar as crenças centrais na urdidura do comportamento e caráter dos crentes. Identificamos anteriormente três funções dos rituais: 1) repre­ sentar eventos para tomá-los reais no presente, 2) facilitar as tran­ sições de um status para o outro, e 3) renovar laços entre os mem­ bros de um grupo. Os principais rituais no cristianismo atendem a essas três funções. O exemplo mais proeminente de um ritual que representa um evento passado é a celebração da Ceia do Senhor. Evidentemente este ritual era importante desde os mais primitivos dias da Igreja. Na época em que Paulo escreveu sua primeira carta aos crentes coríntios, a Ceia do Senhor já estava em uso (1 Coríntios 11). Pa­ rece que alguns crentes a estavam usando como pretexto para fes­ tejar e beber, enquanto outros passavam fome. Por esta razão, Paulo lembrou os crentes coríntios do propósito e significado da Ceia do Senhor. Não é, mostrou ele, ocasião para se comer e beber desre­ grada e coletivamente. Antes, é ocasião para lembrar do sacrifício de Cristo na cruz, e refletir sobre como está a condição espiritual da pessoa. No decorrer dos séculos, participar na Ceia do Senhor tem sido definida nos termos da descrição que Paulo fez aos coríntios:

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MICHAEL D. PALMER

“Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor, até que venha” (1 Coríntios 11.26). Os rituais também facilitam a transição de um status para o outro. A expressão mais notável desta função de ritual no cristia­ nismo é a prática do batismo. O batismo marca a transição de um conjunto de lealdade para outro, da identificação com o velho Adão, o primeiro homem, para a identificação com o novo Adão, Cristo. O batismo também atende à terceira função dos rituais: forta­ lecer laços com um grupo. Notavelmente, o batismo é um ato pú­ blico. Não é feito em segredo, mas na presença de testemunhas. Assim, quando o convertido mergulha na água e depois emerge, duas coisas acontecem. Primeiro, o convertido, tendo simbolica­ mente morrido com Cristo, ressuscita para a vida com Cristo me­ diante sua ressurreição. Segundo, o convertido também se toma parte de uma comunidade de crentes. Desta forma, o batismo esta­ belece um laço com todos os cristãos (a Igreja universal). Ao mes­ mo tempo, aqueles que testemunham o batismo são lembrados da fé comum que os une a todos os crentes, vivos e mortos. Antes de sairmos do elemento ritual, devemos parar por um momento e refletir no significado dos rituais para o cristão. Os rituais, na melhor das hipóteses, são expressões publicamente observáveis de atitudes, intenções e disposições que essencialmente

O A ctuai

da, &eJÍe&fu%çaó'

da, &eca, da Seaá&i

Todos os quatro Evangelhos relatam uma ceia que Jesus teve com os discípulos próxi­ mo à época da Festa da Páscoa judaica e imediatamente antes da crucificação: Mateus 26, Marcos 14, Lucas 22, João

13.

mente esta ceia foi considerada importante, por­ que desde os pri­ m itivos dias da Igreja era lem ­ brada e comemo­ rada regularmente. Para minimizar o abuso e a distorção deste evento comemorativo na igreja coríntia primitiva, Paulo apresentou

instruções simples que se tornaram padrão para todas as celebrações subsequentes da Ceia do Senhor:

“Porque eu recebi do Senhor o que tam­ bém vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, Evid en o te­ partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em me­ mória de mim. Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ve­ nha” (1 Coríntios 11.23-26).

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

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não são vistas. Quando observados atenta e pensativamente, tor- nam-se os vestuários (túnicas cerimoniais) dos atos espirituais. Claro que os rituais também podem ser representados de modo irrefletido e mecânico. Neste caso, tornam-se meras rotinas e per­ dem seu poder espiritual. Onde está a diferença? O que determina sua vitalidade? Os rituais que realizam sua promessa são instruí­ dos pela sã doutrina e fundamentados na experiência.

O Elemento Experiencial

Quando falamos do elemento experiencial do cristianismo (aquele que é produzido pela experiência), temos em mente pri­ mariamente as formas pelas quais alguém encontra Deus. A Bíblia está liberalmente salpicada de narrativas que descrevem tais en­ contros. Além disso, os encontros não seguem um modelo ou fór­ mula simples. Evidentemente, Deus toma sua presença conhecida de numerosas e variadas maneiras. Não obstante, diversas descri-

O batismo é um ritual antigo, datado des­ de os mais primitivos dias da igreja. Mar­ cando uma quebra da identificação com o velho Adão (o primeiro homem) para a iden­ tificação com o novo Adão, Cristo, o batis­ mo é o ritual de transição mais importante da cristandade. Como ritual publicamente representado, também serve para estabele­ cer e fortalecer os laços com membros da comunidade imediata de fé, assim como com os cristãos de todos os lugares e de todos os tempos (a Igreja universal). A evidência para a importância do batismo é vista no fato de que o próprio batismo de Jesus está registra­ do nos Evangelhos. João Batista falou aos seus seguidores:

“E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento: mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; não

sou digno de levar as suas sandálias; ele vos balizará com o Espírito Santo e com fogo. Em sua mão tem a pá, e limpará a sua eira, e recolherá no celeiro o seu trigo, e queimará a palha com fogo que nunca se apagará.

“ Então, veio Jesus da Galiléia ter com

João junto do Jordão, para ser balizado por ele. Mas João opunha-se-lhe, dizendo: Eu

careço de ser batizado por ti, e vens tu a mim? “Jesus, porém, respondendo, disse-lhe:

Deixa por agora, porque assim nos con­ vém cumprir toda a justiça. Então, ele o permitiu.

“ E, sendo Jesus batizado, saiu logo da

água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele. E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Maieus 3.11-17).

ções bíblicas de encontros com Deus mostram padrões de experi­ ência que parecem repetir-se em tipos comuns de experiência na história do cristianismo. Tocaremos aqui brevemente em quatro exemplos: Paulo na estrada de Damasco (Atos 9), Isaías no Tem­ plo (Isaías 6), os apóstolos reunidos no Dia de Pentecostes (Atos 2), e Elias na caverna em Horebe (1 Reis 19).

A experiência de Paulo na estrada de Damasco foi de conver­

são radical. Aconteceu nos primeiros dias da formação da Igreja, quando ela estava transbordando dos limites do seu local de nasci­

mento em Jerusalém, e espalhando-se para muitas regiões do anti­ go Oriente Próximo. Naquela época, a Igreja também estava co­

meçando a sofrer oposição organizada. Paulo (conhecido então por Saulo) era judeu devoto e zeloso, com bastante treinamento religioso na tradição farisaica. Por razões que não entendemos completamente, ele buscou prender e encarcerar qualquer cristão que encontrasse em Damasco. As Escrituras dizem que enquanto se aproximava de Damasco, uma luz do céu iluminou tudo ao re­ dor. Caindo em terra, cego, ele ouviu a voz de Jesus: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” A voz o instruiu a prosseguir para Da­ masco. Lá, depois de três dias, ele foi procurado por um cristão chamado Ananias, que orou para que lhe fosse restaurada a visão. Ao recuperar a visão, Paulo foi batizado e quase imediatamen­

te começou a pregar nas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus. A

experiência de Paulo foi uma das primeiras e dramáticas conver­ sões à fé cristã. Fora o fato de ser batizado, nenhuma das caracte­

rísticas específicas da experiência de conversão de Paulo (o res­

plendor de luz, cair em terra, ouvir a voz) tornou-se padrão para as outras conversões. Ao mesmo tempo, o fato de ter encontrado Deus (na pessoa de Jesus Cristo) de um modo transformador é ampla­ mente considerado entre os cristãos como experiência fundamen­ tal que define o que significa ser cristão.

A experiência de Isaías no Templo traz certa semelhança com

a experiência de Paulo na estrada de Damasco: Ambos tiveram

uma experiência visual e ouviram uma voz. Paulo viu uma luz ofuscante e ouviu a voz de Jesus; Isaías viu o Senhor “assentado sobre um alto e sublime trono” , e ouviu a voz do serafim declarar:

“Santo, Santo, Santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória” (Isaías 6.1-3). Mas a experiência de Isaías foi notavelmente diferente da de Paulo. A experiência de Paulo foi de conversão que radical­ mente o transformou de inimigo de Cristo e sua igreja a segui­ dor de Cristo e líder na comunidade de crentes. Por outro lado,

Isaías não era inimigo de Deus; na verdade, na época de sua experiência no Templo, ele era israelita devoto. Sua experiên­ cia, então, é melhor descrita não como uma conversão, mas como um comissionamento. Isaías ouviu e respondeu a chamada de Deus para falar uma mensagem profética da parte dEle ao povo de Israel. Da mesma maneira que a conversão é comumente reconhecida entre os cris­ tãos como uma experiência espiritual definida, assim também ser chamado e comissionado a uma vida de serviços a Deus é reco­ nhecido como experiência cristã comum. Com toda a certeza, nem todo o mundo tem uma experiência tão impressionante e esmaga­ dora como Isaías. Mas os cristãos de todas as eras da Igreja deram

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

67

testemunho de encontros com Deus, nos quais criam que foram comissionados para uma vida de serviço.37

A experiência de Isaías no Templo de nenhuma maneira era

sem igual entre os personagens do Antigo Testamento. Outros pro­ fetas também tiveram encontros incomuns — impressionantes até — com Deus, que resultaram no comissionamento deles. Amós, Jonas e Jeremias (só para citar três) tiveram tal experiência. Con­ tudo, os profetas de então são mais lembrados pela natureza singular de suas experiências do

que por qualquer padrão que estabeleceram para os cristãos. Porém, o profeta Joel falou de um tempo futuro, em que Deus derramaria do seu Espírito em todos os seus servos, homens

e mulheres (Joel 2.29). Séculos mais tarde, no

Dia de Pentecostes seguinte à ressurreição de Jesus, Pedro achou ocasião para lembrar a pro­ fecia de Joel. No segundo capítulo de Atos, Lucas descreve um fenómeno que transformou um pequeno gru­ po de tímidos seguidores de Jesus em uma comunidade vital de crentes corajosos, que entenderam terem sido comissionados por Deus para darem testemunho do Cristo ressurreto. “Cumprindo- se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar; e, de repente, veio do céu um som, como de um vento veemente e

impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram cheios do Espírito Santo

e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes

concedia que falassem” (Atos 2.1-4). A experiência de Isaías no Tem­ plo mostra vividamente que Deus, de tempos em tempos, comissiona indivíduos e lhes dá uma voz profética. A experiência dos crentes no Dia de Pentecostes demonstra que a experiência de Isaías não está limi­

tada a alguns: As línguas de fogo repartiram-se e pousaram sobre cada um deles, e todos foram cheios do Espírito Santo.

A conversão de Paulo, o comissionamento de Isaías, a

capacitação dos crentes no Dia de Pentecostes — todos estes en­ contros com a presença de Deus modelam uma importante parte

da experiência religiosa. Em cada instância, o aparecimento de Deus foi majestoso: maravilhoso em poder e glória. Para Paulo, Deus se apresentou como uma luz ofuscante do céu e a voz auto­ rizada de Jesus — à qual Paulo respondeu: “Quem és, Senhor?” Para Isaías, Deus se apresentou como uma figura régia e

entronizada — à qual Isaías só pôde dizer: “A i de mim, que vou

O profeta Joel falou de um tempo futuro em que Deus derramaria do "seu Espírito" em todos os seus servos, homens e mulheres.

perecendo! [

citos!” (Isaías 6.5). No Dia de Pentecostes, foi o som de um vento

impetuoso e línguas de fogo. E a resposta foi uma declaração das “grandezas de Deus” . Rudolph Otto cunhou uma palavra especial para o tipo de en­ contro com Deus experimentado por Paulo, Isaías e os apóstolos

]

Os meus olhos viram o rei, o SENHOR dos Exér­

no Dia de Pentecostes. Ele chamou de “numinoso” , proveniente

latim numen, que significa espírito.38 Para Otto, a experiência

numinosa é a experiência de algo que é misterioso e inspira admi­ ração, sem deixar de ser ao mesmo tempo temerosa e fascinante. Para Otto, o algo em questão — aquilo que experimentamos como misterioso e inspirador de admiração, maravilhoso em poder e gló­

ria — é corretamente chamado de santo. Deus não é apenas justo. Ele é santo. Este parece ser o detalhe sobre o qual os serafins afirmam, quando dizem: “Santo, Santo, Santo é o SENHOR dos Exércitos” (Isaías 6.3). Destacamos três instâncias de seres humanos experimentando

a presença de Deus. A experiência da conversão de Paulo ajuda-

nos a entender o significado da transformação radical. A experiên­ cia de Isaías no Templo leva-nos a considerar o que significa ser comissionado para falar profeticamente. Os eventos no Dia de Pentecostes lembram-nos de que a capacitação do Espírito Santo

é para todos. Enquanto estas três experiências acentuam facetas diferentes da experiência religiosa, também exibem certas similitudes que podem nos dar uma impressão enganosa de como

a presença de Deus pode ser experimentada. Paulo, Isaías e os

apóstolos sentiram a presença de Deus no que pode ser positiva­

mente descrito com palavras como extraordinário, fantástico, im­ pressionante, majestoso, glorioso. As respostas de cada um deles

foram apropriadas às suas respectivas experiências: Paulo caiu em terra, cego; Isaías clamou “A i de mim, que vou perecendo!”; os que estavam reunidos no Dia de Pentecostes romperam em expressões vocais inspiradas pelo Espírito Santo. Mas Deus faz sua presença conhecida apenas de modos fantásticos e impressionantes? E o que dizer também da amplitude de nossas respostas a Deus? A experiência de Elias à entrada de uma caverna em Horebe sugere acréscimo importante ao que comentamos até aqui. O es­ critor de 1 Reis descreve um tempo na história de Israel em que o povo começou a adorar Baal, um dos deuses de fertilidade reco­ nhecido pelos povos do antigo Oriente Próximo. Depois de vários anos de seca, Elias, o profeta de Deus, chamou quatrocentos e cinquenta profetas de Baal para uma montanha, onde organizou uma competição. O deus que consumisse pelo fogo um bezerro sacrificatório seria reconhecido como o verdadeiro Deus. Seria Baal ou Javé? Depois que Baal não respondeu às orações dos seus profetas, Elias articulou uma oração eloquente em sua simplicida­ de e brevidade. As Escrituras descrevem uma cena não menos inspiradora de admiração do que qualquer coisa experimentada por Isaías, Paulo ou os apóstolos no Dia de Pentecostes: fogo do céu queimou o bezerro sacrificial, a lenha, as pedras e a terra circunvizinha. Quase imediatamente, Elias mandou que os profe­ tas de Baal fossem mortos. Logo as chuvas retomaram e a seca terminou. Enquanto a maioria do povo em Israel regozijava-se, a esposa do rei, Jezabel,

do

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

ficou profundamente enfurecida com a morte dos profetas de Baal. Quando ela ameaçou matar Elias, ele fugiu, viajando muitos dias para o sul, a Horebe, “o monte de Deus” , onde buscou refúgio numa caverna. No dia seguinte, Deus lhe mandou que se pusesse

à entrada da caverna, onde mostrou a Elias três fenómenos fantás­

ticos: um vento poderoso, um terremoto e um fogo. Em cada caso, dizem as Escrituras, o Senhor não estava no fenómeno. Mas de­ pois do fogo, lemos, Deus falou a Elias em “uma voz mansa e delicada” (1 Reis 19.12). Ao menos nesta ocasião, Deus não estava presente nas demons­ trações fantásticas da natureza. Antes, Ele se fez conhecido numa voz tão suave que era quase inaudível. Em resposta, Elias não cla­ mou de alegria ou desencadeou um hino vitorioso. Ele simples­ mente cobriu a cabeça com a capa. Podemos apenas imaginar que meditação ou oração pode ter-lhe vindo à mente naquele momen­ to. Para muitos cristãos ao longo da história da Igreja, Deus fez sua presença conhecida do modo como fez com Elias em Horebe. Pois se Deus se revela numa luz ofuscante, ou como monarca exaltado, ou em línguas de fogo, Ele também se revela no sus­ surro gentil.

O Elemento Social

Qualquer tratamento do elemento social de uma cosmovisão cristã tem de levar em conta a Igreja, pela simples razão de que a Igreja é a instituição social primária do cristianismo. Seu nasci­ mento está descrito no Livro de Atos. De começo humilde na Palesti­ na, foi se espalhando gradualmente a todas as regiões da bacia medi­ terrânea. Tendo suportado perseguição dos romanos em várias épo­

cas durante seus primeiros trezentos anos, seu endosso por Constantino

I (313 d.C.) no século IV representou um novo desafio. No Oriente, a Igreja foi centrada em Constantinopla, onde era em grande parte subordinada ao imperador; no Ocidente, em Roma, permaneceu uma força independente sob o governo papal. De ambos os centros, cresceu abarcando toda a Europa. Durante a denominada baixa Idade Média, quando a luz da investigação ra­ cional parecia extinta por causa das doenças, pobreza e constantes alinhamentos políticos, a Igreja continuou a aprender, cheia de vida, em mosteiros e escolas. Gradualmente, uma cisão desenvol­ veu-se entre o Oriente e o Ocidente, que tornou-se permanente depois de 1054. No Ocidente, o crescente poder e corrupção da Igreja contribuíram para haver uma luta em seu interior a fim de reformar sua herança espiritual. Numerosos movimentos inspira­ dos por reformadores, como Martinho Lutero (1483-1546) e João Calvino (1509-1564) inevitavelmente separaram-se da Igreja ro­ mana e formaram ramificações distintas do cristianismo. Hoje, a Igreja é mundial — cruzando limites culturais, raciais e étnicos, e abrangendo muitas denominações.

70

MICHAEL D. PALMER

O que dissemos anteriormente acerca das cosmovisões em ge­

ral tem sido historicamente verdadeiro para a Igreja, e permanece verdadeiro hoje: Cada geração enfrenta duas tarefas formidáveis.

A primeira é a tarefa de transmitir fielmente sua herança à geração

seguinte. Como já vimos, a herança do cristianismo é um padrão complexo de crenças centrais, narrativas, normas, rituais e experi­ ências. Transmitir com sucesso este padrão complexo envolve

doutrinas pedagógicas e o contar (e recontar) histórias, modelando os adequados valores morais e estéticos, representando as cerimó­ nias e dando testemunho das experiências es­ pirituais. Em suma, envolve integrar os vários elementos no ritmo diário do pensamento e prá­ tica da geração recipiente. Abordar o todo da

vida a partir desta perspectiva integrada é a soma e substância do que significa ter uma cosmovisão cristã.

A segunda tarefa é ajudar a geração seguinte a lidar com as

tendências culturais contemporâneas. Ajudar a lidar derrota vári­

as coisas. Para começar, significa ensinar as pessoas a entenderem

o sentido de suas crenças centrais dentro de uma situação contem­

porânea. Saber as palavras de Jesus ou as doutrinas da Igreja não é

o mesmo que compreender seus significados.39É completamente

possível estar familiarizado com um ensino importante e, contu­ do, não compreender realmente seu significado ou ser incapaz de aplicá-lo com entendimento. Esta distinção acha-se no centro do inquietante fato de que os cristãos às vezes toldam a linha entre um ensino fam iliar e uma tendência ideológica popular na cultura prevalecente. Um exemplo simples do âmbito moral ilustra o pon­ to.

Uma das passagens mais famosas da Bíblia é a ordem de Je­ sus: “Não julgueis, para que não sejais julgados” (Mateus 7.1). O contexto sugere que Jesus está se dirigindo à tendência de alguns em exagerar as faltas dos outros para depois pronunciar a conde­ nação deles. Mas o contexto não implica categoricamente que Je­ sus nos proíbe que avaliemos (julguemos com precisão) o que as outras pessoas dizem e fazem. Porém, hoje a fam iliar declaração

de Jesus está em perigo de ser assimilada no penetrante relativismo

moral da cultura ocidental. Para muitos na Igreja de hoje, ela veio

a significar: “Devido ao fato de os gostos e valores das pessoas

serem diferentes, então ninguém tem o direito de avaliar (julgar) o mérito moral de que quem quer que seja, ou diga, ou faça” . Deste modo, a tarefa da Igreja de ajudar a geração seguinte a lidar com a cultura contemporânea requer que se forneça ampla oportunidade para reflexão extensa e pensativa no significado de suas crenças centrais, para que se faça análise crítica das tendên­ cias ideológicas predominantes. Mas também significa criar um ambiente social agradável para a nossa natureza. Na cosmovisão existencialista de Jean-Paul Sartre, os seres humanos estão com­

Saber as palavras de Jesus ou as doutrinas da Igreja não é o mesmo que compreender seus significados.

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

7 1

pletamente sós. Eles vivem como indivíduos isolados, sempre em

competição entre si. Porém, numa cosmovisão cristã, justamente

o oposto é a verdade: Somos seres extremamente sociáveis.

Antes e acima de qualquer coisa, fomos criados para um rela­ cionamento com Deus. Levamos em nós sua imagem e fomos cri­ ados para precisar dEle. Nas palavras de Agostinho: “Tu nos cri­

aste para ti, ó Deus, e nossos corações vivem inquietos enquanto não descansam em ti” .40 Mas também fomos criados para relacionamentos uns com os ou­

tros. Não somos como bolas de gude guarda­ das num saco por pouco tempo apenas para serem espalhadas em todas as direções quan­

"Tu nos criaste para ti, ó Deus, e nossos corações vivem inquietos enquanto não descansam em ti." — Agostinho

do

o saco é aberto. A metáfora mais apropria­

da

sobre esta situação está no Novo Testamen­

to:

juntos, míerdependentes em vez de mde-

pendentes, somos o Corpo de Cristo. Se so­ mos seres inclinados ao relacionamento, então ajudar a geração seguinte a lidar com as tendências culturais contemporâneas sig­ nifica, em parte, criar ambientes conducentes para nutrir relacio­

namentos. Especificamente, se somos seres que se relacionam,

então uma função primária da Igreja é fornecer oportunidades para

os indivíduos encontrarem Deus e para interagirem uns com os

outros. Por que não é o bastante apenas entender o que cremos e ter a capacidade de avaliar criticamente as tendências da cultura popu­ lar? Por que a Igreja também tem de nutrir relacionamentos? Por­ que, embora desenvolver as habilidades críticas, analíticas e re­ flexivas seja fundamental para o nosso desenvolvimento global como pessoas, somos em última análise governados não tanto pelo que sabemos, e sim pelo que mais amamos. Desenvolver relacio­ namentos com Deus e os crentes é, no fim, um esforço em nutrir amor por ambos.

Conclusão: O Argumento em Defesa do Pluralismo Limitado

Começamos este capítulo considerando dois meninos judeus, Reuven Malter e Danny Saunders, e suas respectivas cosmovi- sões segundo nos foram apresentadas pelo romancista Chaim Potok. De fato, teria sido mais exato falar de dois meninos que vivenciaram versões alternadas da mesma cosmovisão, o judaís­ mo. Na verdade, antes do dia em que chegaram a se conhecer, Reuven e Danny viam um ao outro com suspeita e certo desdém.

A comunidade hassídica de Danny até falava depreciativamente

do pessoal de Reuven. Porém, apesar de suas diferenças, Reuven

e Danny viviam muito bem dentro da corrente do judaísmo orto­

doxo. Os dois criam em Deus e aceitavam as Escrituras hebraicas

como a revelação de Deus para a humanidade. Suas diferenças

centravam-se principalmente no valor relativo que eles davam a certos pontos da interpretação da Torá e do Talmude, como tam­ bém nas escolhas que faziam relativas a questões culturais, como roupa e penteado. A história deles é muito semelhante à nossa.

O cristianismo está povoado com seus Reuven e Danny, cada

qual representando uma tradição interpretativa distintiva e um conjunto distintivo de práticas culturais. O que explica este tipo

de diversidade, e será que devemos estar dispostos viver com isso?

O cristianismo exibe diversidade por pelo menos três razões.

Primeiro, uma cosmovisão cristã é o produto de como integramos os vários elementos descritos neste capítulo: a ideologia (doutri­ na), as narrativas, as normas morais e estéticas, os rituais, a expe­ riência e vida em comunidade. Devido as diferenças de tempera­ mento pessoal e experiência, algum grau de diversidade no modo como realizamos esta integração é virtualmente certo.

Por exemplo, as experiências dos cristãos em várias épocas e lugares na história os levaram a enunciar a fé de maneiras que

conduziram a tradições teológicas diferentes. Outro exemplo: a teologia luterana difere da teologia tomística, e ambas diferem da teologia reformada e da teologia pentecostal. Além disso, as dife­ renças de experiência e teologia trouxeram diferenças no ritual e vida em comunidade. A liturgia formal dos episcopais difere nota­ velmente da simplicidade de adoração encontrada nas casas de culto quakers e do animado culto nas igrejas pentecostais.

A diversidade também é explicada pelas diferentes maneiras

como os cristãos interagem com outras cosmovisões não-cristãs contemporâneas e com a cultura. Nos primeiros séculos da Igreja, os cristãos achavam-se em constante diálogo com religiões e filo­ sofias “misteriosas” gregas e romanas. As visões específicas des­ tas religiões e filosofias os levaram a ajustar certos aspectos de sua cosmovisão para enfrentar os desafios do dia, enquanto reti­ nham sua estrutura global de crenças e normas. Durante o Renascimento (séculos X IV ao X V I), os cristãos encontraram novas questões, inclusive o surgimento de novas ins­ tituições políticas, a transição do comércio de troca para uma eco­

nomia monetária, e avanços no método científico. Como haviam feito nos séculos anteriores, os cristãos tiveram de realizar ajustes em sua cosmovisão para afrontar os novos desafios, e tiveram de fazê-lo dentro de uma estrutura bíblica. As respostas que antes lhes permitiam lidar com as antigas religiões de mistério já não falavam mais adequadamente com as questões importantes dos séculos X IV , X V e X V I. Hoje, os cristãos também têm de enun­ ciar uma cosmovisão que explique como pensar de maneira cristã nas atuais tendências da filosofia e psicologia, literatura

e arte, ética e política, ciência e tecnologia. Considerando que

a estrutura cristã é suficientemente ampla para acomodar mais que uma abordagem a estas disciplinas, certa quantidade de di­ versidade é de se esperar.

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

73

Finalmente, a diversidade na cosmovisão cristã é inevitável, porque uma cosmovisão vital e em funcionamento nunca pode ser considerada um produto acabado. Uma cosmovisão é como um idioma: Onde quer que esteja em uso sofrerá modificações para satisfazer as necessidades da situação. As modificações acontece­ rão em momentos diferentes, por pessoas diferentes, com níveis variados de habilidade, em resposta a eventos constantemente va­ riáveis. Pelo fato de nenhuma versão de cos- movisão cristã poder ser considerada final, a

diversidade quase não pode ser evitada. Assim, a diversidade em uma cosmovisão cristã é praticamente inevitável. Mas a diver­

sidade é uma coisa boa? Em muitos aspectos, sim. Para começar, a diversidade é em parte ------------------- devida a nossas limitações humanas — nossas habilidades lim ita­ das em perceber, pensar e avaliar criticamente, e a estreiteza de nossos interesses. A diversidade nos faz lembrar de nosso lugar no cosmo: mais altos que as criaturas, porém mais baixos que Deus.

A diversidade, diz Arthur Holmes, “nos faz lembrar de nossa finidade,

nossa qualidade de criatura, nossa humanidade; sem essa consciên­ cia, uma cosmovisão não pode ser cristã absolutamente”.41 Segundo, a diversidade é uma coisa boa, porque quando aten­ tamente tratada, aumenta mesmo o entendimento e a sabedoria da pessoa, aprofundando sua avaliação das questões importantes. Um dos grandes debates perenes no cristianismo centraliza-se na ten­ são entre o livre-arbítrio da humanidade e a soberania de Deus. Historicamente, Jacó Armínio tomou um lado deste debate, e João Calvino o outro. Agora é possível que um lado ou o outro tenha de fato acertado em sua totalidade na posição teológica correta. Mais provavelmente, cada lado entendeu parte de um grande mistério. Aqueles, então, que atentamente tratam dos vários lados do deba­ te, colocam-se em boa posição para apreciar a profundidade das questões que jazem no centro da dúvida. Este tipo de avaliação profunda das questões representa um passo essencial em direção a crescer em sabedoria e entendimento. Finalmente, a diversidade nos recorda que o cristianismo não é um sistema fechado de pensamento e prática, mas uma aborda­ gem vital e exploratória à vida. Neste capítulo, apresentamos al­ guns dos principais elementos de uma cosmovisão cristã. Esses elementos foram enunciados como uma estrutura geral de crenças centrais e práticas. Durante os últimos dois milénios, os pensado­ res cristãos trouxeram esta estrutura geral para muitas situações diferentes, em cenários culturais e históricos diferentes. O que notamos em caso após caso é que os cristãos se distinguiram em sua habilidade de adaptar uma estrutura básica de crenças e práti­ cas biblicamente baseadas num ambiente de constantes mudan­ ças.42Embora tenham havido lapsos, falsos retornos e enganos, o registro impressionante é de constância à tradição bíblica e notá-

Uma cosmovisão vital e em funcionamento nunca pode ser considerada um produto acabado.

vel abertura e flexibilidade em um ambiente social e intelectual sempre em mutação.

Revisão e Questões para Discussão

1. Defina, em uma só frase, cosmovisão. Quem tem uma cos­

movisão? Explique por que a resposta a esta pergunta é mais com­

plicada do que parece a princípio.

2. Apresente com suas próprias palavras definições breves ou

descrições dos seguintes elementos de uma cosmovisão: ideolo­

gia, narrativa, norma, ritual. Junto com cada definição ou descri­ ção, dê exemplos não citados aqui.

3. Na seção da ideologia, o autor usa as expressões “teoria de

fundo” e “relato da natureza humana” . A que estas expressões se

referem e como estão relacionadas?

4. Explique as diferenças entre escritos sagrados e mitos.

5. Compare e contraste os mitos e narrativas históricas. Para

cada um, forneça exemplo que não tenha sido mencionado no ca­ pítulo.

6. Identifique um romance, história curta, drama ou filme que

expresse uma ideologia. O trabalho que você escolher deve ser um com o qual você esteja familiarizado, mas que não tenha sido mencionada no capítulo. Identifique a ideologia e explique como o trabalho que você escolheu o expressa.

7. O que é norma? Que tipos de normas são importantes para

uma cosmovisão?

8. Explique a noção de uma declaração ou ato executante. Como

esta noção se ajusta com o elemento ritualista de uma cosmovi­ são? Dê um exemplo não mencionado no capítulo.

9. Por que a experiência é importante para uma cosmovisão?

Qual é a relação da experiência com a ideologia? 10. Resuma o relato de Max Weber sobre o modo como as religiões se movem em padrões cíclicos. Você acha que essa teo­ ria se aplica ao cristianismo? Apóie sua resposta com exemplos e

razões.

11.0 autor argumenta em defesa do “pluralismo limitado” em

uma cosmovisão cristã. O que significa esta expressão? Você con­ corda que uma cosmovisão cristã possa acomodar pluralismo li­ mitado? Explique sua resposta. Se você acredita que o pluralismo limitado é possível, quais são os limites?

Projetos Sugeridos para Reflexão

1. Leia o romance de Chaim Potok, The Chosen (O Escolhi­

do). Anote as semelhanças e diferenças nas respectivas cosmovi-

sões de Danny Saunders e Reuven Malter. Identifique duas pesso­ as em sua própria tradição de fé que mostrem um conjunto com­ parável de semelhanças e diferenças de cosmovisão.

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

2. Discuta outros trabalhos literários ou artísticos que

exemplifiquem um ou mais dos elementos de uma cosmovisão discutidos no capítulo.

Bibliografia Selecionada

B LA M IR ES, Harry. The Christian Mind. Londres: S.P .C .K .,

1966.

HO LM ES, Arthur. Contours of a Worldview. Grand Rapids:

W illiam B . Eerdmans Publishing Company, 1983.

H O LM ES, Arthur, editor. The Making of a Christian Mind, A

Christian Worldview & the Academic Enterprise. Downers Grove,

Illinois: InterVarsity Press, 1985.

NASH, Ronald. Worldviews in Conflict, Choosing Christianity

in a World ofldeas. Grand Rapids: Zondervan Publishing House,

1992.

S IR E, James. The Universe Next Door, A Basic Worldview

Catalog. Downers Grove, Illinois: InterVarsity Press, 1976.

SM ART, Ninian. Worldviews, Cross-cultural Explorations of

Human Beliefs. 2.a edição. Englewood Prentice-Hall, 1995. STEVEN SO N , Leslie. Seven Theories

edição. Nova York e Oxford: Oxford University Press, 1987.

W UTHN OW , Robert. Christianity in the 21 st Century, Reflections on the Challenges Ahead. Nova York e Oxford: Oxford

C liffs, Nova Jersey:

of Human Nature. 2.a

University Press, 1993.

Notas bibliográficas

1. Chaim Potok, The Chosen (Greenwich, Connecticut: Fawcett

Publications, 1967), p. 9.

2. Ibid., p. 12.

3. Beatles, “Nowhere Man” , trilha original lançada em 1965

pela Northern Songs, Limited.

4. Vincent E . Rush, The Responsible Christian (Chicago:

Loyola University Press, 1984), p. 94.

5. Meu modo de pensar sobre as categorias gerais de crenças e

prática que compõem uma cosmovisão foi estimulado por Ninian

Smart,

Worldviews Crosscultural Explorations o f Human

Beliefs, 2.aedição (Englewood C liffs, Nova Jersey: Prentice-Hall,

1995).

6. Chaim Potok não tem nada significativo a dizer sobre estéti­

ca ou normas estéticas em The Chosen. No entanto, a estética é um tema principal em dois dos seus romances sobre um pintor chamado Asher Lev: My Name is Asher Lev (Meu Nome é Asher

Lev) (Nova York: Alfred A . Knopf, 1989), e The Gift ofAsher Lev

(O Presente de Asher Lev)

Desde os tempos bíblicos, o judaísmo ortodoxo tem expressado

(Nova York: Alfred A . Knopf, 1990).

sentimentos mistos sobre a arte e a beleza artística. Por um lado, as Escrituras relatam que o próprio Deus ditou muitos dos proje- tos do antigo Tabernáculo e dos artefatos que ele alojava. O texto também diz que Ele até identificou os artesãos especializados que deviam fazer os vários utensílios cerimoniais e os trajes sacerdo­ tais. Assim, o judaísmo claramente tem um interesse histórico em artigos de beleza e nos julgamentos que se relacionam ao que é

bonito. Por outro lado, as Escrituras proíbem a fabricação de “ima­ gens esculpidas” . No judaísmo ortodoxo, este mandamento é in­ terpretado com a proibição de fazer quadros, especialmente retra­ tos de pessoas. Por conseguinte, os artistas judeus tendiam a incli­ nar sua arte a formas altamente simbólicas.

7. Potok, The Chosen, pp. 63, 64.

8. A expressão “Mestre do Universo” é comumente usada pe­

los judeus para descrever Deus.

9. Potok, The Chosen, p. 9.

10. A expressão “teoria de fundo” vem de Leslie Stevenson,

“Rival Theories” , capítulo 1, in: Seven Theories of Human Nature, 2.a edição (Nova York e Oxford: Oxford University Press, 1987).

Também adaptei partes da estrutura geral de Stevenson para dis­ cutir as teorias rivais da natureza humana.

11. As mais notáveis visões filosóficas de Jean-Paul Sartre es­

tão expostas em Being and Nothingness [O Ser e o Nada] — A

Phenomenological Essay on Ontology, traduzido para o inglês por

Hazel E . Barnes (Nova York: Washington Square Press, 1992;

publicado em associação com a Philosophical Library, c. 1956). Este é o principal texto filosófico do existencialismo ateísta mo­ derno.

12. Jean-Paul Sartre, Nausea [A Náusea], traduzido para o in­

glês por Lloyd Alexander (Nova York: New Directions, 1949 e

1964).

13.

Potok, The Chosen, p. 103.

14.

Albert Camus, The Myth of Sisyphus [O Mito de Sísifo]

And OtherEssays, traduzido para o inglês por Justin 0 ’Brien (Nova

York: Random House, Vintage Books, 1955), pp. 88-91.

15. Ibid., p. 91.

16. Ibid.

17. No romance de Potok, o senhor Malter é sionista, em parte

porque a terra de Israel é o lugar das histórias sobre pessoas e

lugares importantes para o judaísmo: Abraão e Isaque, Jericó e o

Templo de Salomão.

1, editor Frederick

Engels, traduzido para o inglês por Samuel Moore e Edward

Aveling

almente o Capítulo X , “O Dia do Trabalho” .

18. Karl M arx, Capital [O Capital], volume

(Nova York: International Publishers, 1967). Veja especi­

19. O Bhagavad Gita é inquestionavelmente um escrito sagra­

do, mas estritamente falando não é considerado Escritura (ou seja,

escrito sagrado divinamente revelado) na tradição hindu. Entre os

PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO

escritos sagrados do hinduísmo, somente quatro Vedas (antigos

livros de salmos) e alguns Upanishads (antigos livros de filoso­ fia) são considerados Escritura.

20. Para uma discussão mais completa sobre mito, veja Joseph

Campbell, The Hero With a Thousand Faces, 2.aedição (Princeton, Nova Jersey: Princeton University Press, Bollingen Series X V II,

1968), e Joseph Campbell e B ill Movers, The Power ofMyth (Nova York: Doubleday, 1988).

21. Os escritos sagrados em qualquer tradição, inclusive no

judaísmo e no cristianismo, não estavam prontamente disponíveis às pessoas comuns até longo tempo depois da invenção da im­ prensa de tipos móveis no século XV. A disponibilidade atual de Bíblia em livrarias, bibliotecas, CDs de computador e quartos de

hotel dão uma visão completamente enganosa do que era no mun­ do antigo ter um texto sagrado.

22. O Bhagavad Gita, na tradição hindu, é um exemplo de po­

esia épica que veio a ser absorvida numa estrutura religiosa e feita funcionar em subordinação a uma doutrina religiosa. Os poemas épicos de Homero, A Ilíada eA Odisséia, na tradição grega, são quase mitos no sentido descrito aqui. Os poemas épicos de Homero, embo­ ra recitados em ocasiões religiosas e incorporados em festas e convo­ cações públicas de significado religioso, são primeiramente poemas,

não veículos para transmitir temas religiosos.

23. Ninian Smart, Worldviews, p. 94,

24. Ibid.

25. Homero, The Odyssey [A Odisséia], traduzido para o in­

glês por Robert Fitzgerald (Garden City, NovaYork: Anchor Books, Doubleday & Company, 1963), p. 340.

26. Entretanto, deve-se estar ciente de um ponto ao escrever

história: o revisionismo, “uma tendência na historiografia ameri­

cana da década de 1960 e princípios de 1970 a reescrever a histó­ ria da guerra fria e pôr a culpa nos Estado Unidos” (Harper Dictionary ofModem Thought, Alan e Oliver Stallybrass, editores, Nova York: Harper & Row, 1977, pp. 541ss). Com efeito, deve-se

perceber que até as histórias são escritas (e reescritas) por pessoas que podem ter sua parte no material. (Veja, por exemplo, Francis Fitzgerald, America Revised [Nova York: Random House, 1980].)

27. Smart, Worldviews, p. 81.

28. Sophocles, Oedipus Rex, in: The Oedipus Cycle, traduzido

para o inglês por Dudley Fitts e Robert Fitzgerald (Nova York:

Harcourt, Brace & World, Harvest Book, 1939 e 1949), p. 78.

29. The Jungle mostra que os autores não controlam o modo como

os leitores irão interpretar a obra. Em vez de convencer os america­

nos da necessidade do socialismo, The Jungles deu ímpeto adicional para a passagem das leis sobre alimentos puros e sobre droga.

30. Curioso é o fato de que o filme baseia-se numa cosmovisão

que permite que uma dona de casa chateada tenha um encontro adúltero.

Em parte, como resultado do sucesso difundido pela versão do filme, o

romance chegou a vender mais de dez milhões de exemplares.

31. Entre os gregos antigos, por exemplo, o filósofo Platão se

destaca como alguém que dedicava considerável atenção crítica para desafiar este ponto de vista. Veja os diálogos de Platão

Simpósio e A República.

L . Austin, How To Do With Words (Londres: Oxford

University Press, 1962).

32. J.

33. Potok, The Chosen, p. 104.

34. Hesiod, Theogony, Volume II, pp. 114-138, traduzido para

o inglês por Richard Latimore, in: Hesiod (Ann Arbor, Michigan:

University of Michigan Press, 1959).

35. Não, porém, como assunto de fato histórico, todas as par­

tes da Bíblia receberam atenção igual no desenvolvimento da dou­

trina. As passagens que receberam tipicamente mais atenção são

as que tratam da natureza de Deus, Seus atos de criação (inclusive

a criação da humanidade), a rejeição de Deus pela humanidade

(chamado de A Queda), o plano de Deus para restaurar a humani­ dade pela morte e ressurreição de Jesus, e o plano de Deus para os eventos finais da história.

36. Veja especialmente os capítulos 35 a 39.

37. Exemplos notáveis incluem Agostinho (354-420), Francis­

co de Assis (1181-1226), Inácio de Loyola (1491-1556) e John Wesley (1703-1791).

38. Rudolf Otto, The Idea OfThe Holy, traduzido para o inglês

por John W. Harvey (Londres, Oxford, NovaYork: Oxford University

Press), capítulo Hl, ‘Numen’ and the ‘Numinous’, pp. 5-7.

39. A analogia a seguir, embora imperfeita, ajuda a ilustrar o

ponto. Muitos estão familiarizados com a famosa fórmula de Albert Einstein E = mc2. Mas só uma fração dessas pessoas sabe o que

representa as letras na equação, e pouquíssimas na verdade enten­ dem seu significado o bastante para aplicá-lo.

40. Augustine, The Confessions of Saint Augustine, traduzido

para o inglês por Edward B . Pusey (Nova York: Random House, The Modem Library, 1949), p. 3.

41. Arthur Holmes, “Toward a Christian View of Things” , in:

The Making ofa Christian Mind, editor Arthur Holmes (Downers

Grove, Illinois: InterVarsity Press, 1985), p. 16. 42. Alguns na tradição cristã têm rejeitado idéias novas e tentado isolar-se de influências não-cristãs; os Amish, por exemplo. O isola­ mento dos seus povoamentos em forma de fazendas, sua rejeição dos dispositivos tecnológicos modernos, o estilo de roupa do século XVH I e o uso continuado de um idioma europeu, nos faz lembrar das comu­ nidades hassídicas no judaísmo. Embora suas razões para procurar isolar-se possam ter alguma justificação, os Amish representam uma minoria declinante entre os cristãos. Veja Ruth Hoover Seitz, Amish Ways (Hanisburg, Pensilvânia: RB Books, 1991).

2

O Papel da Bíblia na Formação do Pensamento Cristão

Edgar R. Lee

80

EDGAR R. LEE

A proverbial “pista de serragem” 1 foi meu caminho para a liberdade e a realidade quando, aos dezesseis anos de ida- s de, em uma tenda, atendi ao apelo de um dinâmico

evangelista itinerante e me ajoelhei diante de um altar simples para confessar meus pecados e convidar Jesus Cristo para ser o

Senhor de minha vida. Enquanto orava, a paz e a segurança mais profundas que jamais sentira inundaram minha alma. De algum modo eu sabia, sem sombra de dúvida, que meus pecados tinham sido perdoados. Eu era

realmente uma nova pessoa, e agora Cristo, de alguma maneira misteriosa, não obstante po­ derosa, era o Senhor de minha vida. Meus pés

pareciam quase não tocar o chão no domingo à noite enquanto eu andava os poucos quartei­ rões até minha casa. No decorrer dos anos, este acontecimento simples continuou sendo o momento decisivo de minha vida. Imediatamente a Bíblia tornou-se viva para mim. Comecei a primeira de muitas jornadas do Génesis ao Apocalipse, sempre encontrando círculos mais amplos de insight e significado, à me­ dida que as verdades bíblicas ondulavam continuamente por mi­ nha vida. Porém, muito antes daquela noite decisiva, a Bíblia co­ meçou a formar o que agora entendo ser minha cosmovisão, “um conjunto de crenças sobre os assuntos mais importantes da vida” .2 Quando m enino, eu tinha aprendido breves noções dos ensinamentos bíblicos em uma Escola Dominical batista, e ouvin­ do os sermões mensais do pastor, quando ele fazia seu giro pelas igrejas pequenas a seu cargo. Foi então que, em um dos verões em que fiz minha visita anual à fazenda de meu tio, descobri a Bíblia em quadrinhos. Sentei-me durante horas no banco de balançar da varanda da frente devoran­ do histórias e quadros que vividamente descreviam o desdobra­ mento da revelação de Deus. Sem estar plenamente cônscio dos assuntos técnicos da cosmovisão, a Bíblia começou a preencher minha compreensão da origem da humanidade, do significado e propósito de nossa vida na terra, e da natureza de nosso destino eterno. Bem cedo aprendi que Deus é o Criador de tudo, que os

Construir uma cosmovisão pode ser algo como reunir as peças de um complicado quebra-cabeças.

seres humanos caíram em pecado e estavam necessitando deses­ peradamente de redenção; que Jesus Cristo morreu e ressuscitou por nossos pecados, e que Ele está vindo para no fim reconciliar o universo com Ele. Quando o evangelista pediu minha “decisão” , já era do meu conhecimento os elementos básicos de uma cosmo­ visão cristã. Construir uma cosmovisão pode ser algo como reunir as peças de um complicado quebra-cabeça. E muito parecido com uma cri­ ança que procura todas as peças com uma borda reta e depressa monta a estrutura exterior do quebra-cabeça somente para depois laborar mais longa e intensamente e preencher a cena central. É o que faz um crente novo. Inicialmente ele localiza nas Escrituras

O PAPEL DA BÍBLIA NA FORMAÇÃO DO PENSAMENTO CRISTÃO

81

somente a estrutura básica da fé, para depois começar o processo de aprendizagem dos detalhes. A Escritura é ao mesmo tempo sim­ ples e complexa. Suas narrativas3transformam maravilhosamente os mistérios das eras em histórias simples prontamente entendi­ das pelos incultos. Uma compreensão mais plena do texto obtido pela exegese cuidadosa e interpretação teológica é o trabalho exigente da vida de um estudioso. Nesta seção, em rota com a compreensão mais ple­ na, queremos pensar um pouco mais intencionalmente no papel que a Escritura desempenha na formação de nossa cosmovisão.

A Natureza da Bíblia

Os cristãos sempre consideraram a Bíblia como a história dos procedimentos de Deus para com a humanidade ao longo dos tem­ pos. Em estilo de narrativa concisa, carregada de rico simbolismo, o livro de abertura de Génesis descreve em poucas pinceladas Deus criando “os céus e a terra” , apresentando também uma explicação teológica de suas origens. A atividade divina e criativa simples­ ”

mente é destacada nas palavras: “E disse Deus: H aja

1.3ss) com o trabalho criativo que se seguiu: “E assim foi” (Génesis

1.7ss). Em seis dias, a palavra falada de Deus trouxe o planeta terra de um estado sem forma e escuro para um jardim abundante

em plantas verdejantes e vida animal. Quase imediatamente, a narrativa passa a explicar as origens humanas com a apresentação do primeiro casal, Adão e Eva (Génesis 1.26-29; 2.1-25). Criados diretamente por Deus a partir dos elementos da terra em um estado de evidente inocência, eles

foram

car-se e subjugar a terra. Mas Adão e Eva logo descobriram, com alguma ajuda da serpente, o exercício do livre-arbítrio, desobede­ ceram o mandamento direto do Criador e perderam o paraíso. Não somente eles, mas o seu mundo estava agora caído e resistente aos

seus esforços de ganhar a vida e ter uma vida. A maldição do li- vre-arbítrio e da desobediência foi solta na raça humana. Seu pri­ meiro filho cometeu o primeiro assassinato; a depravação humana tem sua explicação no primeiro livro da Bíblia. Entretanto, estas narrativas são apenas o prefácio da Bíblia e da condição humana. Do entulho moral, o Génesis logo passa a tracejar o surgimento de uma linhagem íntegra por meio de Noé. Sensível à voz de Deus, ele com sua fam ília imediata, sobrevive­ ram a uma inundação catastrófica do julgamento divino para rece­ berem de novo a comissão do Criador de encher e dominar a terra (Génesis 9.1-17). Acompanhando a história da Torre de Babel com sua explicação para a multiplicidade de idiomas e agrupamentos étnicos (Génesis 11.1-9), nossa atenção se volta para Abrão. É ele que Deus chama para gerar uma grande nação que será a fonte de bênçãos a todos os povos da terra (Génesis 12.1-3). Desse ponto

(Génesis

colocados no jardim do Éden e comissionados a m ultipli­

Exegese: o processo de explicar um texto da Bíblia mediante análise, contexto e os costumes e cultura da época.

em diante, os livros do Antigo Testamento tomam-se uma saga contínua de forma que, ao longo dos séculos, Deus gradualmente forma um povo eleito do concerto por quem a raça caída de Adão será restabelecida.

E que história! Os patriarcas Abraão, Isaque e Jacó transfor­

mam-se sempre lentamente em homens de fé, e no processo exi­ bem excentricidades humanas. José, homem de caráter excelente, providencialmente leva a fam ília ameaçada pela fome à seguran­ ça do Egito. Contudo, sob a regência de um novo Faraó, o Egito não se torna refúgio, mas um crisol no qual esta adolescente famí­ lia semítica pode forjar sua identidade em meio ao sofrimento e escravidão. Surge Moisés, um fugitivo da corte real, a quem Deus

chama do pastoreio de ovelhas para tirar seu povo da escravidão e dar-lhe identidade nacional mediante um concerto de fogo no Sinai.

O corajoso Josué tem a tremenda tarefa de guiar o povo de

Deus de volta à terra que Deus havia prometido séculos antes aos patriarcas nómades. Subsequentemente, durante a anarquia no pe­ ríodo dos juizes, o profeta Samuel torna-se o instrumento de Deus para escolher o primeiro rei, Saul, que prova ser mais astuto na guerra do que em estabelecer uma nação. Mas Davi sucede Saul e combina de modo ímpar o gênio m ilitar de um construtor de im­ pério com a paixão e visão de um profeta. Por ele, Deus promete trazer um reino eterno (2 Samuel 7.5-16), embora reserve a cons­ trução do Templo de Israel ao filho de Davi, Salomão, renomado como homem mais sábio que jamais viveu. Na sucessão dos reis que sucederam Davi e Salomão, oAntigo Testamento registra as histórias frequentemente repetidas de apostasia e avivamento, a divisão do reino, revoltas no palácio, guerras que ziguezagueiam na Palestina, a queda e deportação do Reino do Norte e, finalmente, a destruição de Jerusalém e do seu Templo. Um remanescente sobrevivente vai para um exílio de se­ tenta anos na Babilónia. As adversidades e sofrimentos, de acordo com os grandes profetas de Israel, que falaram ousadamente con­ tra os pecados dos seus contemporâneos, são o resultado da rebe­ lião contra Deus e o fracasso em guardar seu concerto. Mas sem­ pre perdoando, Deus age para restaurar um povo castigado, restabelecê-lo na terra, reconstruir o Templo e reiterar as promes­ sas da vinda de um futuro Messias pela semente de Davi. Depois de séculos de silêncio profético, a promessa do Messi­ as é cumprida em Jesus de Nazaré, cuja história excitante encon­ tramos nos quatro Evangelhos. Concebido pelo Espírito e nascido de uma virgem, de modo misterioso mesmo para a fé, Jesus vira de cabeça para baixo as noções populares de um líder messiânico. Ele é mais profeta e mestre que o libertador político que o povo esperava. Sua missão é proclamar as Boas-novas da salvação de Deus para os pobres. Para espanto dos líderes judeus, o povo julga suas palavras confirmadas por seus milagres de amor e compai­ xão. No fim , para absoluta tristeza dos seus seguidores, Ele é pre-

O PAPEL DA BÍBLIA NA FORMAÇÃO DO PENSAMENTO CRISTÃO

83

so e condenado pela aristocracia governante e entregue ao gover­ nador romano para ser crucificado como messiânico embusteiro blasfemo e revolucionário. Mas a crucificação trágica é seguida pela ressurreição triun­ fante, o milagre central da Bíblia. Os apóstolos declaram que o Jesus ressurreto é verdadeiramente o Messias prometido por meio de Davi (Atos 2.29ss). Sendo tanto Senhor (Deus) quanto Cristo,

Ele é o que dá o perdão de pecados e o dom do Espírito Santo a toda a humanidade (Atos 2.38). O batismo no Espírito, dado pri­ meiramente no Pentecostes, capacita os crentes e faz deles a Igre­ ja , os descendentes espirituais de Israel, a quem todas as bênçãos da salvação divina estão agora disponíveis. O resto do Novo Tes­ tamento apresenta a história do crescimento geográfico e espiritu­ al da Igreja, à medida que os apóstolos e seus colegas de fé evangelizam o mundo do século I. Ao longo do caminho, guiados pelo Espírito Santo, eles produzem as cartas do Novo Testamento para dar direção aos crentes e, providencialmente, a nós. A Bíblia

é concluída com o Livro do Apocalipse que, quaisquer que sejam

seus mistérios apocalípticos, prediz a consumação escatológica final do Reino de Deus e a reconciliação final dos herdeiros de Adão e do mundo de Adão. Relatando com tanta ousadia a história da obra paciente de Deus com a humanidade, a Bíblia se apresenta como um livro inspirado

e autorizado, iniciado e escrito sob a supervisão do próprio Deus.

“Toda Escritura [é] divinamente inspirada” (2 Timóteo 3.16), es­ creveu o grande apóstolo Paulo, no que se tomou a base da doutri­ na cristã da inspiração. A expressão “divinamente inspirada” é tra­ dução literal do grego theopneustos, termo composto por duas

palavras, theos, que significa “Deus”, e pneô, que significa “res­ pirar, soprar” . O sentido da passagem é que Deus se envolveu tão pessoal e intimamente na inspiração das Escrituras, que ela pode ser considerada sua exalação. Paulo, escrevendo muito tempo antes da definição formal do cânon do Novo Testamento, realizada no Concílio de Cartago em

397 d.C.,4 estava provavelmente pensando em primeiro lugar nas

Escrituras do Antigo Testamento, as quais normalmente ele usa­ va. Contudo, sua declaração está estrategicamente posicionada no

cânon e, na tradição cristã, veio a ser aplicada de fato à totalidade

mesmo durante a vida de Paulo, seus

da Escritura.5 Com efeito,

Escatologia (do grego,

eschatos, "último", e legein, "estudo"), refere-se ao estudo do fim dos tempos, e ao futuro cumprimento do plano e propósito eternos de Deus.

companheiros apóstolos referiam-se aos escritos dele como Escri­ tura. Assim , o livro de 2 Pedro também observa que “o nosso ama­ do irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada [por Deus]” , mas “que os indoutos e inconstantes torcem [as car­ tas de Paulo] e igualmente as outras Escrituras” (2 Pedro 3.15,16).6 As cartas de Pedro revelam muito da mesma compreensão e ênfase sobre a origem e inspiração da Escritura. “Sabendo primei­ ramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação; porque a profecia nunca foi produzida por vontade

84

EDGAR R. LEE

Sinótico: "ver junto", refere-se a Mateus, Marcos e Lucas, porque estes Evangelhos têm muito em comum.

de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspira­

dos [do grego,pheromenoí] pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1.20,21).

Se Paulo usou a metáfora da “respiração” ou “sopro” de Deus,

Pedro usou a imagem marítima de um barco “levado” em seu cur­

so pelo vento. Da mesma maneira que o vento enche as velas de

um navio e o impulsiona pelo mar, assim o Espírito de Deus mo­ veu pessoas sensíveis a entender e escrever precisamente o que Ele desejava. A tradição apostólica era enfática em insistir que a

iniciativa para a produção da Escritura acha-se na vontade de Deus.

O inspirador da Escritura nunca deve ser atribuído aos seres hu­

manos. Estes apóstolos e seus colegas que escreveram o Novo Testa­ mento seguiram o exemplo e ensinamento do próprio Jesus na consideração e uso que fizeram da Escritura. Várias passagens

dos Evangelhos podem ser citadas como comprovação. Numa declaração crucial sobre o divórcio, Jesus citou Génesis 2.24: “Por­ tanto, deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher, e serão dois numa só carne” (Mateus 19.4,5). O texto em Génesis não atribui a declaração diretamente a Deus. Porém, Jesus apenas ob­ serva, como de passagem, que Deus, o Criador, o dissera. De modo semelhante, quando Jesus citou o Salmo 110.1, o qual é tradicio­ nalmente atribuído a Davi, disse: “O próprio Davi disse pelo Es­

(Marcos 12.36). John W. Wenham declarou: “Tão

verdadeiramente é Deus considerado o autor das declarações bíblicas, que em certos contextos ‘Deus’ e a ‘Escritura’ tomam-se intercambiáveis” .7Um exame cuidadoso dos Evangelhos mostra

que Jesus mantinha uma consideração extraordinariamente alta com relação às suas Escrituras, o Antigo Testamento. Por exem­ plo, Ele simplesmente não se acomodou ao que às vezes era inter­ pretado como compreensão primária por parte dos seus contem­ porâneos. Ao invés disso, Ele na verdade mostrou seus verdadei­ ros sentimentos pela Escritura ao se voltar a ela em busca de dire- ção e autoridade nos momentos mais cruciais de sua vida pesso­ al.8Na tentação, Ele pôs o diabo em fuga com citações da Escritu­

ra (Mateus 4.6,10). Semelhantemente, Ele interpretou os movi­

mentos finais da traição com as palavras “está escrito” (Marcos 14.21,27). Portanto, entretecido na vida e consciência de Jesus estava o Antigo Testamento, do qual encontramos não menos de sessenta e quatro citações ou insinuações apenas nos Evangelhos

sinóticos.9

Em qualquer debate teológico, a Escritura sempre era a autori­ dade final. Tão confiante estava Jesus de sua validez permanente que afirmou: “Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei sem que tudo seja cumprido” (Mateus 5.18). Em um dos debates com os líderes judeus, Ele destacou: “A Escritura não pode ser anulada” (João 10.35). Embora fiel ao Antigo Testamento e nunca contradizendo seus ensinamentos, Jesus todavia viu-se como a realização do Antigo

pírito Santo

O PAPEL DA BÍBLIA NA FORMAÇÃO DO PENSAMENTO CRISTÃO

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Testamento (Mateus 5.17; Lucas 24.27,44-46; João 5.39-47). Ele

é superior aos maiores profetas, Moisés e Elias (Mateus 17.1-11). Seus ensinamentos são autorizados comparativamente às interpre­ tações dos seus dias (cf. Mateus 5.22,28,32,34,39,44). Ele não he­ sitou em assumir uma posição de autoridade superior na interpre­ tação do Antigo Testamento. Por exemplo, Ele reconheceu que Moisés permitiu o divórcio. Contudo, em sua autoridade, Ele es­ clareceu o ensinamento do Antigo Testamento sobre o divórcio ao afirmar que, no princípio,

isso não era a vontade do Criador (Mateus 19.8,9). A autoridade pessoal de Jesus também é demonstrada em sua compreensão de que suas palavras julgarão os homens no último Dia

(João 12.48). O Antigo Testamento, o qual Jesus tratou com tal reverência, foi escrito como a Palavra do Deus que frequentemente se revela nele pelo discurso direto. “O Espírito do SENHOR falou por mim, e a sua

palavra esteve em minha boca”, afirmou Davi (2 Samuel 23.2). “A boca do SENHOR dos Exércitos o disse” , foi o testemunho de

Miquéias

sim diz o SENHOR” (Amós 1.3). Os profetas regularmente relata­ ram que a “Palavra do SENHOR” veio a eles (Oséias 1.1; Joel 1.1; Jonas 1.1; Sofonias 1.1). E assim continua em muitos dos 39 livros. Ao elevarmos as reivindicações da Bíblia à autoridade divina, nunca devemos perder de vista o fato de que também se trata de um livro humano com as distintivas personalidades dos seus es­ critores humanos manifestas em quase todas as páginas. Com cer­ teza, Deus às vezes é mostrado a escrever certas coisas, como os Dez Mandamentos (Êxodo 31.18; cf. Êxodo 34.1). Ocasionalmen­ te, Ele até fala de certo modo que parece muito com o nosso dita­ do moderno. Por exemplo, Ele evidentemente deu instruções diretas a Moisés para construir o Tabernáculo (Êxodo 25-27). Ele ditou alguns pa­ lavras a Isaías: “Toma um grande volume e escreve nele em estilo de homem: Apressando-se ao despojo, apressou-se à presa [Maer- Salal-Hás-Baz]” (Isaías 8.1). Porém, mais habitualmente, Ele fa­ lou pelos profetas de maneira tal a utilizar as personalidades dis­ tintas de cada um deles. Assim, também temos de enfatizar a hu­ manidade da Bíblia. Realmente é theopneustosl Não obstante, a palavra soprada por Deus também veio pelas experiências e pala­ vras dos seres humanos mortais. Por um lado, “homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1.21). Por outro, eles ainda eram seres humanos plenamente conscientes, cooperativos, diversos e talentosos. Em todos os lugares da Bíblia tem-se a consciência de que as personalidades com as quais Deus está tratando e por quem está falando ou escrevendo são únicas. A Bíblia mostra os patriar-

Ao elevarmos as reivindicações da Bíblia à autoridade divina, nunca devemos perder de vista o fato de que também se trata de um

livro humano.

(Miquéias 4.4). Amós começa seu livro deste jeito: “As­

86

EDGAR R. LEE

cas Abraão, Isaque e Jacó dando passos vacilantes, e às vezes tei­ mosos, ao procurarem seguir o Deus Vivo que estava se revelando progressivamente a eles. Apresenta Moisés como pastor educado no Egípcio e como o profeta de Israel.

O sofrimento de Jó é historiado em elegante poesia hebraica.

Davi lamúria suas queixas a Deus pelos possantes salmos, quando Saul incessantemente o perseguia. Provérbios descreve o pendor dos humanos em destilar sua experiência, e dá conselhos através de provérbios sábios. A linguagem do amor é encontrada em Can­ tares de Salomão, e a procura do cínico é detalhada em Eclesiastes. Isaías fornece linguagem humana incomparável para um encontro exaltado com o Deus transcendente (Isaías 6), enquanto os olhos e palavras de Jeremias enchem de lágrimas quando ele traça o mer­ gulho descendente do Israel apóstata.

O esquisito profeta Ezequiel representa suas profecias de modo

Septuaginta: tradução grega do Antigo Testamento feita em Alexandria, Egito, antes de Cristo. Uma tradição mais recente diz que foi feita por setenta homens; por isso, "Septuaginta", do latim septuaginta, setenta.

que às vezes o fazem parecer quase um doente mental, enquanto que Amós, pastor simples mas brilhante, captura a mensagem de Deus em nítidas metáforas agrárias. Semelhantemente, o Novo Testamento, como o Antigo, trazem as marcas dos seus autores humanos. Os Evangelhos ilustram este pon­ to. Juntos eles compõem uma forma literária bastante diferente dos outros escritos do Novo Testamento. Eles falam de Jesus Cristo, o Deus-Homem, que produziu a redenção humana por sua encarnação, ministério, morte e ressurreição. Mas cada um dos quatro Evange­ lhos, embora contendo uma história comum de perspectivas um tanto diferentes, exibe características distintas do seu autor. Por exemplo, o Evangelho de Lucas traz evidências de pesqui­ sa meticulosa (Lucas 1.3) feita por um escritor que aparentemente não foi testemunha ocular e que pode ter sido médico (Colossenses 4.14). Ele enfatiza aspectos da vida e ministério de Jesus em gran­ de parte ignorados pelos outros. Entre os exemplos incluem seu interesse na obra do Espírito Santo, os pobres e oprimidos, a dig­ nidade das mulheres e sua importância na economia divina. Cada um dos escritores das cartas do Novo Testamento tem uma abor­ dagem única. Paulo escreve às vezes num estilo profundo e, não obstante, utiliza por vezes um estilo que procede aos arrancos. A carta aos Hebreus trai a mão de um mestre polido do idioma gre­

go, que está impregnado pela Septuaginta e que organiza seu ar­ gumento com esmero. A carta de Tiago, com suas muitas metáfo­ ras agrárias e inclinação prática, pode bem refletir as necessida­ des básicas das igrejas na zona rural palestina algumas décadas depois da morte e ressurreição de Jesus. As cartas de Pedro pare­ cem tratar de assuntos mais teológicos para as igrejas da Ásia Menor. João, no Apocalipse, prediz o fim da era em uma série de visões altamente simbólicas, cujo significado preciso ainda intri­ ga estudantes aplicados.

A presença de elementos divinos e humanos na Bíblia requer o

que os estudiosos bíblicos frequentemente chamam de visão orgâ-

O PAPEL DA BÍBLIA NA FORMAÇÃO DO PENSAMENTO CRISTÃO

87

nica da inspiração. “O Espírito entra na história e cultura dos es­ critores e não sobrepõe simplesmente a verdade sobre eles” .10Esta declaração significa que Deus preparou cada escritor bíblico de maneira que a individualidade da pessoa não fosse violada. Toda­ via, o escritor inspirado comunicou com exatidão a mensagem que Deus desejava numa linguagem apropriada para as audiências inten­ cionais. O caso de Moisés ilustra o ponto.

Por qualquer padrão humano, mesmo que tivesse escapado do Faraó infanticida, Moisés deveria ter crescido pobre e inculto, não conhecendo nada dos procedimentos da corte egípcia. Ao invés disso, as águas do Nilo o le­

varam para os braços da filha de Faraó, que contratou a própria mãe israelita do menino para alimentá-lo. A princesa o criou no palácio como seu filho (Êxodo 2.1-10), certificando- se de que fosse “instruído em toda a ciência

dos egípcios” (Atos 7.22). Porém, somente depois que os privilégios da corte real foram temperados pela vida de pastor espartano na península do Sinai, é que Deus deu a Moisés a revelação inaugural da sarça ardente (Êxodo 3) e o concerto de fogo no monte Sinai (Êxodo 19). Todas aquelas experiências prepararam exclusivamente Moisés para es­ crever as mensagens de Deus ao seu povo em um idioma e estru­ tura de referência que os israelitas pudessem entender. Enquanto a Bíblia foi escrita e compilada por muitos autores diferentes e editores ao longo de centenas de anos, ela mostra uni­ dade notável em revelar progressivamente Deus e sua vontade aos seres humanos. Todos os seus vários livros têm uma origem e situ­ ação histórica singulares. Mas cada um cumulativamente aumen­ ta nosso conhecimento da natureza de Deus e seus esforços reden­

tores em nosso favor. James Orr resumiu bem a complexa unidade histórica da Bíblia: “A Bíblia é o registro das revelações de Deus de si mesmo aos homens, em sucessivas eras e dispensações, (Efésios 1.8-10; 3.5-9; Colossenses 1.25s), até que a revelação culmina no advento e obra do Filho e na missão do Espírito. E este aspecto da Bíblia que constitui sua principal distinção de todas as

coleções de escritos sagrados [

A veracidade e autoridade da Escritura, embora vigorosamente

desafiadas pelos críticos antigos e modernos, têm sido em grande parte consideradas evidentes aos homens e mulheres de fé. Com toda a certeza, os estudiosos cristãos demonstraram com habilida­ de que a Bíblia é incrivelmente precisa em se tratando de livro antigo compilado no decorrer de um tão longo período de tempo e tocando em tantos fatos da história.12Aqueles que buscam a ver­ dade não precisam temer que, adotando a Bíblia, estejam adotan- do mitos ou lendas infundadas. Porém, a Bíblia permanecerá em grande parte irrelevante se o Deus de quem ela fala não se revelar aos seres humanos no próprio tempo e espaço deles. Só porque

A palavra soprada por Deus também veio pelas experiências e palavras dos seres humanos mortais.

]

do mundo” .11

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algo é verdade, ou factual, não o torna relevante e significativo. A autoridade da Escritura só é cabalmente demonstrada quando a pessoa abre o seu coração para um encontro pessoal com o Deus da Escritura. Nas palavras do grande reformador, João Calvino: “A mais alta prova da Escritura deriva do fato de que Deus em pessoa fala nela” .13 Prosseguindo, Calvino acrescentou: “O testemunho do Espírito é mais excelente do que toda a razão. Pois assim como só Deus é testemunha apropriada dEle mesmo em sua Palavra, assim também a Palavra não encontrará aceitação nos corações dos homens antes que seja selada pelo testemunho interior do Espírito” .14

Distinguindo a Cosmovisão da Bíblia

Mesmo uma leitura casual da Bíblia permitirá que se distinga sua cosmovisão das várias cosmovisões competidoras comuns na sociedade moderna. Consideraremos aqui de forma breve o con­ traste entre três cosmovisões modernas: o naturalismo, o panteísmo e o deísmo.15

O N a tu ralism o

Na sociedade ocidental, a cosmovisão dominante veio a ser o que poderíamos chamar de naturalismo. Nesta visão, a realidade última é material, a “matéria” de que é feito o universo. Tudo no universo acontece naturalmente do potencial intrínseco dos ele­ mentos em si. O naturalismo16é uma excrescência da mentalidade científica advinda do iluminismo.

“Deus, o Artífice do universo, nos ”

é manifesto na Escritura “Assim, a mais alta prova da Escritura deriva do fato de que Deus em pessoa fala nela” . “Pois assim como só Deus é testemunha apropriada dEle mesmo em sua Palavra, assim também a Palavra não encon­ trará aceitação nos corações dos homens antes que seja se­ lada pelo testemunho interior do Espírito” .

T

“ Que este ponto fique claro:

aqueles a quem o Espírito Santo en­ sinou interiormente devem descan­ sar verdadeiramente na Escritura, c que a Escritura realmente seja auto- autentieada; por conseguinte, não é certo sujeitá-la à prova e argumen­ tação. A certeza que ela merece de nós chega pelo testemunho do Es­ pírito” . (Material extraído de As Instituías

da Religião Cristã, de João Calvino,

Volume X X .)

O PAPEL DA BÍBLIA NA FORMAÇÃO DO PENSAMENTO CRISTÃO

89

A perspectiva naturalista afirma a crença apenas nas coisas que podem ser empiricamente testadas e explicadas. Tudo no universo ao nosso redor, inclusive nós, é considerado produto acidental do tempo e dos processos de mudança implícitos no universo. O na­ turalismo não reconhece nem lugar nem necessidade de um cria­ dor onipotente e onisciente. O universo, e nós, que o habitamos, evoluiu por combinações fortuitas das forças químicas. Qualquer idéia que tivermos de um Deus criador é simplesmente uma proje- ção de nossa imaginação na tela gigantesca de um universo confu­ so. Esta visão também pode ser chamada materialista, por causa do modo em que considera a matéria física do universo como fa- tor último. Também pode ser considerada ateísta por causa de sua rejeição da idéia de Deus. Pode ser pensada como humanista por causa de sua exclusiva associação de qualquer valor ou moralidade com os seres humanos. Se não há uma realidade espiritual última, além dos próprios seres humanos, então a morte dos seres huma­ nos é presumivelmente o fim de sua existência pessoal. Não há, portanto, base para crer na vida eterna.17 Em geral, o naturalismo domina os currículos das universida­ des e faculdades seculares de hoje. Nelas, Deus é largamente des­ conhecido e normalmente considerado inexistente ou impossível de ser conhecido. O universo é um sistema fechado, imperturbado e imperturbável; os eventos sobrenaturais, como os milagres, não podem se intrometer. A Bíblia é meramente um livro como todos os outros livros antigos, cheio de mitos e enganos, a ser interpreta­ do por qualquer “método científico” que esteja atualmente em voga. Suas experiências informadas sobre Deus são em grande parte explorações dos próprios sentimentos e desejos internos dos es­ critores. Os estudantes modernos logo entendem que, se não há legislador divino, então a ética e a moralidade nunca podem ser vistas em condições absolutas. O comportamento do indivíduo é

lluminismo: movimento

filosófico do século XVIII, que enfatizava o livre uso da razão, o método empírico da ciência e questionava as doutrinas e valores tradicionais.

Ateu: do grego a, que significa "sem", e theos, que significa "deus".

/Jutena

urfke <z S&ctutccui

“As Escrituras, embora também te­ nham sido escritas por homens, não são de homens nem provenientes de ho­ mens, mas de Deus” .

A Palavra de Deus e maior

do que o céu e a terra, sim, maior do que a morte e o inferno, porque for­ ma parte do poder de Deus e dura eter­ namente; devemos estudar a Palavra de Deus esforçadamente, e saber e crer com certeza que o próprio Deus fala conosco” .

“ [

]

“Como podemos saber o que é

a Palavra de Deus e o que é certo

ou errado? [

determinar este assunto, pois sua própria vida depende disso. Por isso, Deus tem de falar em seu cora­ ção: Esta e a Palavra de Deus; caso contrário você fica indeciso [ ]” (Material extraído dcA Compend

Você mesmo tem de

]

ofLuther’s Theology [Um Compên­

dio da Teologi a de Lutero]., Hugh T. Kerr, editor.)

puramente questão de escolha pessoal ou coação social. O natura­ lismo inevitavelmente deixa os seres humanos à toa, num mar de relativismo e subjetividade éticos. Por contraste, a Bíblia ensina com vigorosa certeza que Deus existe e chamou tudo à existência por sua palavra poderosa. As­ sim, seu primeiro livro, Génesis, começa com simplicidade e ele­ gância: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Génesis 1.1). “Os céus manifestam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (Salmos 19.1), acrescenta o salmista. O po­ der criativo e o governo de Deus mostram-se tão óbvios, que outro salmista adiciona: “Disse o néscio no seu coração: Não há Deus” (Salmos 53.1).18 O Deus da Bíblia não só criou, mas continua a intervir no mundo. Ele chamou Abraão, tirando seu povo do Eg i­ to, estabeleceu um concerto com os israelitas no Sinai, e deu um código de conduta pelo qual o povo deve viver. Ele tem cumprido seus propósitos ao longo da história bíblica, realizando suas pro­ messas em Cristo e a Igreja. Por Cristo, a Igreja está segura da presença e poder contínuos de Deus até o fim da era e a consuma­ ção de todas as coisas. Os vastos dados bíblicos que apóiam uma análise da interven­ ção de Deus em seu mundo, em defesa dos seus próprios propósi­ tos, estão historicamente expressos na doutrina cristã da provi­ dência. M illard Erickson define esta doutrina como “a ação conti­ nuada de Deus, pela qual Ele preserva em existência a criação que Ele trouxe à existência, e a guia ao seu propósito intencional para ela” .19

O P a n teísm o

Outra cosmovisão comum, nativa a muitas religiões orientais e crescente em influência no Ocidente, é o panteísmo. Nesta visão, a humanidade é realmente deus. Mas é deus da mesma forma como o é uma cabra, ou uma árvore, ou um asteróide. Para o sistema panteísta, Deus é totalmente imanente, ou presente, na criação e indistinguível dela. O panteísmo despreza qualquer senso de transcendência, em que Deus está de algum modo separado de sua criação e é maior que ela. Também não leva em conta a possibili­ dade de milagres ou intervenção sobrenatural. Sobre o futuro da humanidade, esta visão está frequentemente associada com a re- encarnação, a crença de que depois da morte o indivíduo nasce outra vez em outra vida, às circunstâncias das quais são determi­ nadas pelos resultados líquidos das ações boas ou más na vida

pregressa.20

A Bíblia ensina que Deus é imanente em seu universo no sen­ tido de que Ele está em todos os lugares presente e ativo. Na ver­ dade, Ele foi tão longe quanto assumir a carne humana na pessoa de Jesus de Nazaré. Porém, o panteísmo, distinto da Bíblia, tam­ bém apresenta Deus como transcendente: Mesmo tendo criado e inclinado-se para se envolver no seu mundo, Ele todavia existe à

O PAPEL DA BÍBLIA NA FORMAÇÃO DO PENSAMENTO CRISTÃO

91

parte dele no sentido de que sua essência divina não deve ser con­ fundida com algo que Ele tenha feito. Deus não é o mesmo que seu mundo.

O cristianismo é correspondente e na realidade ensina o que

pode ser chamado de cosmovisão teísta. Em um sistema teísta, a realidade última é um deus, ou deuses, que traz o universo à exis­

tência e, em algum sentido, o transcende. O Deus da Bíblia não apenas é pessoal, mas também é uma realidade eterna. Ele existiu

antes de qualquer entidade material no universo e do nada trouxe

à existência tudo o que existe fora dEle. “Pela fé, entendemos que

os mundos, pela palavra de Deus, foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente” (Hebreus 11.3).

Em contraste com os sistemas politeístas que caracterizam vá­ rios deuses, os escritores da B íb lia descrevem uma crença monoteísta21 vigorosamente expressada na antiga declaração hebraica de fé, chamada Shema: “Ouve [hebraico, shema’], Isra­ el, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Deuteronômio 6.4). A idéia de um Deus que é invisível e intolerante às imagens físicas ou ídolos, em um mundo antigo repleto de numerosas dei­ dades caprichosas, feitas à imagem de seres humanos de ambos os sexos, era, realmente, revolucionária! Mas o cristianismo é um tipo especial de monoteísmo. Enquanto acredita firmemente em um Deus, os cristãos afirmam ao mesmo tempo, sem qualquer senso de contradição, que o único Deus de­ les também é trino em sua natureza essencial e obra redentora.22 Assim Paulo, como judeu devoto, pôde escrever em certo mo­ mento que “há um só Deus” (1 Coríntios 8.6) e, quase imediatamen­

te, acrescentar: “Todavia, para nós há um só Deus, o Pai [

Senhor, Jesus Cristo” (1 Coríntios 8.6). Ele frequentemente alternava os nomes trinos em suas referências a Espírito, Senhor e Deus na conferição e operação dos dons espirituais (1 Coríntios 12.4-6).

]

e um só

O

D eísm o

O

teísmo cristão em suas históricas expressões ortodoxas vem

sendo entendido como supematuralista, no sentido de que Deus não apenas cria o universo, mas também o sustenta pelo seu poder

e intervém diretamente nele para cumprir seus propósitos. Porém,

uma variação do teísmo cristão surgiu na Inglaterra em princípios do século X V II, a qual ficou sendo conhecida como deísmo,23 e que ainda aparece de vez em quando em maneiras muito sutis e, às vezes, não tão sutis assim. Altamente racionalistas, os deístas logo abandonaram o conhecimento revelador da Bíblia para postular

um universo no qual Deus foi reduzido ao papel de “causa primei­ ra” . Usando a imagem do relojoeiro, eles afirmaram originalmen­ te que Deus criou o mundo, “deu corda” nos processos naturais e

o deixou correr pelo universo, onde o abandonou. Em tal sistema

de crença, há pouca necessidade das clássicas doutrinas cristãs, como a Trindade, a encarnação de Cristo, a expiação, os milagres

ou a inspiração da Escritura.

Panteísmo: do grego, pan,

que significa "tudo", e theos, que quer dizer "deus"; assim "tudo é Deus" ou "Deus está em tudo".

Teísta: do grego, theos, que

significa "deus".

Politeísta: monoteísta-, poli

significa "muitos"; mono significa "um" ou "só".

Trino: "três Pessoas em um Ser divino".

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EDGAR R. LEE

Deísmo: do latim deus, mais o sufixo -ísmo.

Basicamente, nesta visão, Deus equipou a espaçonave terra para sua viagem e a deixou entregue a quaisquer aventuras que ve­ nham suceder. Considerando que a intervenção divina é difícil de predizer ou verificar, esta ótica tem certa atração para as pessoas que sentem a necessidade de um Criador, mas que pensam que Ele está ausente da vida diária. No uso popular, a palavra deísta é aplicada às vezes a expressões ortodoxas da fé cristã que limitam

a vontade ou a capacidade de Deus de intervir milagrosamente em

seu mundo.24 Por contraste, a Bíblia demonstra em todas as suas páginas que Deus não só criou o mundo, mas que está constantemente envol­ vido em sua preservação. No avivamento ocorrido nos dias de Neemias, os levitas oraram: “Tu só és SENHOR, tu fizeste [tempo passado] o céu” . Mas depois acrescentaram: “Tu os guardas [tem­ po presente] em vida a todos” (Neemias 9.6). O tema do Antigo Testamento bem poderia ser: “O SENHOR tem estabelecido o seu trono nos céus, e o seu reino domina sobre tudo” (Salmos 103.19). Daniel observou: “Ele muda os tempos e as horas; ele remove os reis e estabelece os reis” (Daniel 2.21). Semelhantemente, o Novo Testamento ensina que Cristo “é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele” (Colossenses 1.17) e que Ele, como

Filho de Deus, está “sustentando todas as coisas pela palavra do

seu poder” (Hebreus 1.3). Ambos os Testamentos mostram o cuidado de Deus pelo mun­ do. No Salmo 104, Deus “nos vales [faz] rebentar nascentes que correm entre os montes” (Salmos 104.10) e Ele “faz crescer a erva para os animais” (Salmos 104.14). A chuva pára e semelhantemente

volta a cair segundo o prazer dEle (1 Reis 17.1; 18.1,45). Nas palavras de Jesus, é Deus quem envia o sol e a chuva sobre os bons e os maus (Mateus 5.45), e quem cuida dos pássaros, lírios e erva do campo (Mateus 6.26-30). Deus também guarda as pessoas individualmente: Davi, quan­ do perseguido por Saul (1 Samuel 23.9-12; 26.24); Sadraque, Mesaque e Abede-Nego na fornalha de fogo ardente (Daniel 3.28); Paulo em meio a tempestade e naufrágio (Atos 27.23,24). Enquanto

o deísmo pode parecer uma visão atraente aos que têm dificuldade

de traçar cientificamente o caminho da intervenção sobrenatural no universo, ele não pode ser sustentado por uma leitura cuidado­ sa da Bíblia.

Preenchendo a Cosmovisão

Afirmar que a Bíblia apresenta uma cosmovisão inclusiva e unificada é exagerar o argumento e entender mal a natureza da literatura bíblica. Enquanto todas as culturas têm uma cosmovi­ são, seja simples ou complexa, declarada miticamente ou abstra- tamente, difundida e preservada oralmente ou escrita com cuida­ do num documento, nenhum modo de declarar uma cosmovisão

O PAPEL DA BÍBLIA NA FORMAÇÃO DO PENSAMENTO CRISTÃO

cristã satisfaria as necessidades de todas as culturas, em todos os tempos. Antes, a Bíblia é essencialmente a testemunha escrita da criação e governo de Deus no universo, à medida que se relaciona com os seres humanos. Também é o registro das maneiras como Deus se revelou a si mesmo e a sua vontade à humanidade. Como documento autorizado que presta testemunho à nature­ za de Deus, ao mundo e aos seres humanos, a Bíblia é uma fonte da qual uma cosmovisão sensatamente pode ser construída. M ui­ tas narrativas ou ensinos da Escritura falam diretamente aos vári­ os elementos de uma cosmovisão. Onde os assuntos não são espe­ cificamente tratados pela Escritura, conclusões racionais podem ser tiradas de fontes narrativas relevantes e abundantes. Por exem­ plo, as narrativas da criação em Génesis (capítulos 1-3) pressu­ põem que Deus criou tudo o que existe. Mas não tratam direta­ mente da questão de se Deus criou o mundo em seis dias de 24 horas literais há aproximadamente 6.000 anos, como muitos acre­ ditam, ou se foi ao longo de dias de eras como muitos outros acre­ ditam. A teoria particular do indivíduo sobre a maneira e a crono­ logia da criação da terra será estabelecida em conclusões tiradas de estudo cuidadoso do texto bíblico, quando comparado com a evidência das ciências física e biológica.

A I d eo lo g ia

Os cristãos têm achado historicamente necessário identificar as crenças centrais de sua fé mediante o estudo meticuloso da B í­ blia, para depois expressar essas crenças em declarações de fé concisas e facilm ente memorizáveis, as quais são comumente cha­ madas de credos. Na grande maioria das vezes, as declarações da Escritura sobriamente formuladas tratando de assuntos doutriná- rios-chaves serviram como os primeiros credos e continuam a ser­ vir assim até hoje. Deste modo, no Shema, mencionado anterior­ mente, temos uma crença central do judaísmo e, subsequentemen­ te, do cristianismo: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Deuteronômio 6.4). Quando um proeminente rabino judeu questionou Jesus sobre qual dos muitos mandamentos do Antigo Testamento era o maior, ele tinha inventado um ardil inteligente para determinar a essên­ cia do sistema de crença de Jesus. Evidentemente sem vacilar, Je­ sus citou Deuteronômio 6.5: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento”, e prosseguiu com uma segunda citação retirada de Levítico 19.18:

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (veja Mateus 22.34- 40). Jesus entendia que essas passagens continham elementos es­ senciais da fé de Israel. Os primeiros pregadores cristãos procuravam, naturalmente, passagens-chaves do Antigo Testamento para expressar aspectos importantes de sua crença na ressurreição de Cristo, como por exemplo na citação de Pedro do Salmo 16.8-11 (veja Atos 2.25-

94

EDGAR R. LEE

28), ou na citação de Paulo do Salmo 16.10 (veja Atos 13.35). Julga-se que Paulo tenha citado em Filipenses 2.5-11 um credo cristão primitivo, quando usou a kenose como exemplo para enco­ rajar os crentes a imitarem a humildade do Senhor. Outro exem­ plo aparece em 1 Timóteo 3.16, que enfatiza a encarnação e exaltação de Jesus.25 Proveniente daqueles primeiros começos tem manado um flu­ xo constante de desenvolvimento de credos tencionados a reafir­

mar as crenças centrais da fé cristã em forma facilmente repetível.

O propósito era responder a desafios particulares de cada era his­

Kenose: a condescendência de Cristo à humilhação terrena, assim nomeado do grego kenoô, "esvaziar", de Filipenses 2.7.

Encarnação: a tomada da

forma humana, completamente humana e completamente divina.

Exaltação: a restauração de Jesus à sua glória no trono do Pai.

tórica. O mais conhecido dos credos primitivos é o denominado Credo Apostólico, ainda em uso difundido hoje. Embora não com­ posto pelos apóstolos, como se sugere, suas primeiras formas pro­ vavelmente remontam a um período primitivo na história da igre­ ja, o fim do século II.26E uma declaração eloquente, mas simples,

da fé bíblica articulada em volta das declarações de crença em “Deus Pai todo-poderoso”, “Jesus Cristo, seu Filho unigénito, nosso Senhor” e “o Espírito Santo” . De inícios simples, os credos pouco a pouco desenvolveram-

se

em complexidade e sofisticação para contrabalançar as heresi­

as

particulares dos seus tempos. Na era da Reforma ficaram bas­

tante longos, enquanto as tradições protestantes emergentes tenta­ vam clarificar suas crenças com base escriturística, diferente das crenças do catolicismo romano. A Confissão de Augsburgo, de 1530, tem mais de quarenta páginas. Cerca de um terço é uma declaração de fé em forma de credo; o restante tem a ver com as questões doutrinárias então em disputa.27Cada uma das principais tradições prepararam credos extremamente precisos para declarar

o que acreditavam ser as cruciais crenças bíblicas importantes para eles, mas omitidas ou contraditas por outros. A Confissão Westminster de Fé (1646), influente na tradição reformada, enfatiza fortemente a predestinação de Deus daqueles

a quem Ele elegeu para a salvação.28 Por contraste, os Trinta e

Nove Artigos da Religião (1563)29 dos anglicanos deram pouca ênfase à predestinação. Sua revisão metodista, Os [Vinte e Cinco] Artigos da Religião (1784), também ignora em grande parte a ques­ tão.30Todos os credos históricos representam um esforço em des­ tacar os ensinamentos diretos ou implícitos das Escrituras em afir­ mações chaves pelas quais seus autores estavam disputando. A Escritura é normalmente compreendida como a base autorizada da qual os credos são desenvolvidos e argumentados.

A N arrativa B íb lic a

Os credos tendem a ser abstratos e filosóficos. Portanto, ape­ lam principalmente a adultos cultos interessados em refinar e trans­

m itir os pilares teológicos-chaves da fé. Muito da vitalidade da fé

é transmitido nas narrativas da Bíblia, as quais tendem a ser colo­ ridas, dramáticas e facilmente lembradas. As narrativas bíblicas

O PAPEL DA BÍBLIA NA FORMAÇÃO DO PENSAMENTO CRISTÃO

95

nunca são somente um fim em si mesmas. Sempre contêm lições

teológicas ou éticas importantes. Por exemplo, as histórias sim­ ples, mas dramáticas, de Adão e Eva (Génesis 1-3) tratam de al­ gumas das questões mais vitais da existência humana. Um Deus pessoal, transcendente e todo-poderoso criou o primeiro casal hu­ mano à sua imagem (Génesis 1.27) a partir dos elementos da terra (Génesis 2.7). Ele fez deles uma unidade fam iliar (Génesis 2.24) e definiu sua existência por meio de certas instruções para a adora­ ção (Génesis 3.8,9), o serviço (Génesis 1.26; 2.15) e o comporta­ mento ético (Génesis 2.17). Mas se os seres humanos são nobres, eles

também são ignóbeis. Assim, a história conta

a tentação de Adão e Eva pela serpente (Génesis 3.1-7), e como eles foram expulsos do jardim,

o lugar de sua origem. A narrativa dá uma ex­

plicação do sofrimento (Génesis 3.16) e o tra­ balho duro (Génesis 3.17-19), e até pressagia

a redenção da humanidade.31 Como até o leitor principiante logo apren­ de, a Bíblia nos fornece muito mais que dou­ trinas, mandamentos e preceitos. Do Génesis (o livro dos come­ ços) ao Apocalipse (o livro da revelação), a Bíblia comunica suas mensagens em histórias evocativas tão cativantes quanto um dra­ ma shakespeariano ou tão lum inoso quanto uma pintura impressionista. As histórias de Abraão dão início à saga do povo do concerto, vital ao plano de Deus de redenção (Génesis 12— 25.11). As histórias de Moisés narram a libertação milagrosa, o estabelecimento do concerto, a instituição da profecia e a forma­ ção da nação. O futuro Salvador é profetizado nas histórias do rei Davi, sob cujo governo o povo da promessa derrotou seus inim i­ gos de todos os lados e estabeleceu um império. Ao longo do ca­ minho, as narrativas de heróis como José e Sansão incorporam lições éticas positivas e negativas, com importantes insights teológicos. No Novo Testamento, as narrativas do nascimento de Jesus contêm os elementos cruciais da doutrina cristã da encarnação, na qual Deus toma a forma humana para redimir a posteridade caída de Adão. As histórias do batismo, da dotação com o Espírito, da tentação e do ministério de Jesus recontam como Deus viveu entre os seres humanos, ensinando o caminho da salvação. A história da crucificação é mais que um relato triste de um erro judicial trági­ co. É a história de como Deus perdoa o pecado da raça humana. A narrativa da ressurreição é o clímax da história do Evangelho, mostrando como Deus venceu a morte de Jesus para completar a obra de redenção. A narrativa do Livro de Atos reconta os come­ ços da Igreja. Em detalhes fascinantes descreve que o Deus vivo mora no interior daqueles que são dEle (e não no Tabernáculo ou no Templo), e que Ele os manda sair como sócios responsáveis

A Bíblia não é apenas a fonte para a doutrina ou teologia na cosmovisão cristã; também é a fonte para um sistema ético consistente e benevolente.

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EDGAR R. LEE

pela reconciliação do mundo. Os enredos do Apocalipse contam a consumação de todas as coisas, com o julgamento final para a bem-aventurança impenitente e eterna pertencente aos remidos.

Os E le m e n to s

N o r m a tiv o s

d a

E s c r i t u r a

A Bíblia não é apenas a fonte para a doutrina ou teologia na

cosmovisão cristã; também é a fonte para um sistema ético con­ sistente e benevolente. A instrução ética é encontrada ao longo da

Bíblia, de Génesis, o primeiro livro, onde Deus ordena que Adão não coma do fruto da árvore da ciência do bem e do mal (Génesis 2.17), ao Apocalipse, o último livro, onde o ouvinte é ordenado a não acrescentar nem tirar de suas profecias (Apocalipse 22.18,19). Começando no Pentateuco e prosseguindo pela Bíblia, os ensinos éticos variam de leis cuidadosamente codificadas, tão específicas

e práticas quanto a proibição contra a usura (Deuteronômio 23.19)

a princípios gerais de amplo alcance, como “ Amarás o teu próxi­ mo a ti mesmo” (Levítico 19.18).32

A ética bíblica é tanto pessoal - tendo a ver com o modo como

os indivíduos se relacionam com Deus e uns com os outros, como

nos exemplos precedentes - quanto social, explicando em deta­ lhes as ações que contribuem para o bem-estar da sociedade como

um todo. Assim Amós censura amargamente seus companheiros que pisam os pobres (Amós 5.11) e pede que haja justiça nos tri­ bunais (Amós 5.15). Muito do conteúdo da Bíblia é ético em sua natureza, diretamente preocupado com o modo como as pessoas vivem em relação a Deus e umas às outras.

O coração da ética bíblica encontra-se nos Dez Mandamentos,

ou “Dez Palavras” , como significa literalmente o texto hebraico (como também o texto grego: “Decálogo”), os quais o próprio Deus escreveu em tábuas de pedra e as deu a Moisés (Êxodo 20.1-17; Deuteronômio 5.1-22). Muito mais que um simples conjunto de prescrições legais, o Decálogo é um concerto (Deuteronômio 5.3), estruturado na linguagem dos contratos do antigo Oriente Próximo:

O Senhor, como o Grande Rei que libertou Israel do Egito, fixa as

cláusulas pelas quais seu povo deve pautar a vida. Para ser exato, os mandamentos requerem uma resposta de amor e gratidão discipli­ nada ao Senhor, e não são um sistema legalista tedioso.

O Decálogo divide-se naturalmente em duas seções.33 A pri­

Pentateuco: do grego penta,

que quer dizer "cinco", e teuchos, que significa "livro".

meira seção, compreendendo os mandamentos um a quatro, tem a ver com o que poderia ser chamado de relacionamento vertical, entre o homem e Deus. Assim Israel 1) não deve ter outro Deus, 2) não deve fazer (cultuar) nenhum ídolo, 3) não deve permitir ne­ nhum abuso com o nome de Deus e 4) deve observar o sábado. A segunda seção inclui os mandamentos cinco a dez, tendo a ver com o relacionamento horizontal, entre as pessoas. Assim Israel 5) deve honrar os pais, 6) não deve assassinar, 7) não deve come­ ter adultério, 8) não deve roubar, 9) não deve dar falso testemu­ nho, 10) não deve desejar nada que pertença ao próximo.34Numa

O PAPEL DA BÍBLIA NA FORMAÇÃO DO PENSAMENTO CRISTÃO

97

época de idolatria excessiva e confusão ética, o Decálogo foi um documento muito mais revolucionário do que possa ser imagina-

do por nossa cultura, que foi intensamente influenciada pela tradi­ ção judaico-cristã.

A importância do Decálogo é enfatizada pelo modo como foi

Usura: "sobrecarregar de juros exorbitantes".

usado no Novo Testamento. Jesus considerou as ordens do Decálogo a ética básica do Reino de Deus. Em debate com seus oponentes, Ele reiterou o Decálogo. Mas ao fazê-lo, Ele o elevou muito mais acima do que um mero conjunto de regras, quando resumiu a primeira tábua com o mandamento de amar Deus e a segunda tábua, com o mandamento de amar o próximo (Mateus 22.34-40). O interesse de Jesus pelo Decálogo é demonstrado re­ petidamente. Por exemplo, Ele recitou a segunda tábua para um

jovem rico, mas aparentemente cobiçoso e legalista (Mateus 19.18,19). A implicação clara era que o jovem tinha perdido de vista o que significava amar Deus e o próximo. Em outra ocasião, Ele disse: “Tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas” (Mateus 7.12). Aqui mais uma vez Ele reafirma dinamicamente a segunda tábua com o amor ao próximo, e mostra sua centralidade na vonta­ de de Deus. Para Jesus, a essência do Decálogo como amor a Deus

e ao próximo é eternamente válida e universalmente ordenada. Paulo e — no que diz respeito ao assunto — a comunidade do Novo Testamento em geral, seguiram o exemplo de Jesus na perpe­ tuação da ética do Decálogo. Paulo repetiu quatro mandamentos da segunda tábua e, como Jesus, reduziu-os dinamicamente para a lei do amor. “Se há algum outro mandamento”, disse ele, “tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como

a ti mesmo. [

lei é o amor” (Romanos 13.9,10). Entretanto,

longe de ser legalista, Paulo entendeu que o amor

é o dom de Deus dado pelo seu Espírito (Roma­

nos 5.5), e que o Espírito quebra o poder do peca­ do (Romanos 6.12; 8.2,13; Gálatas 5.16) e forne­ ce a motivação para vivenciar a ética do Reino de Deus (Romanos 8.4; Gálatas 5.22). Além disso, a relação do indivíduo

com Deus não está baseada na adesão perfeita aos mandamentos (Ro­

manos 3.20), importantes como são como respostas obedientes a Deus, mas na retidão livremente fornecida pela fé na obra redentora de Jesus Cristo (Romanos 3.21-26).

]

De sorte que o cumprimento da

A Bíblia não nos deixa com um código legalista de comporta­

mento ético, que apresenta prescrições específicas para toda situ­ ação difícil. Antes, presta testemunho a um Deus pessoal, tremendo

em santidade, que ordena que a humanidade o ame e ame uns aos outros pela graça que Ele dá. O Decálogo e outros mandamentos específicos da B íb lia tornam-se um conjunto de princípios

orientadores autorizados, que são incrivelmente elásticos e aplicáveis

a toda situação mediante a oração e a sabedoria do Espírito Santo.

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EDGAR R. LEE

Os R i tu a i s

D e r iv a d o s

d a

E s c r i t u r a

As narrativas bíblicas estão repletas de rituais poderosos, pe­ los quais o povo de Deus invocava suas bênçãos e observava seus mandamentos para adoração e serviço. Dos sacrifícios simples de Abrão no início do concerto de Deus com ele (Génesis 15), ao elaborado Tabernáculo no deserto com seus sistemas sacrificiais e rituais cuidadosamente prescritos (Êxodo 35^10; Levítico 1-27), ao dourado e ainda mais complexo Tempo de Salomão (1 Reis 5- 8), Israel desenvolveu o que entendia ser a maneira de adoração ordenada pelo grande Rei como demonstração adequada de sua vontade na vida do seu povo. Assim, a liturgia do Templo veio a simbolizar a eleição de Is­ rael e o privilégio especial como povo peculiar de Deus. A des­ truição do Templo, realizada pelos babilónios em 586 a.C., efeti- vamente explicou em detalhes a rejeição de Deus e o castigo pelos pecados que eles cometeram. Subsequentemente, os israelitas pi­ edosos almejaram a restauração do favor divino implícito na volta ao ato de reunirem-se e na reconstrução do Templo. A importância da reconstrução do Templo nas vidas dos ju­ deus imediatos ao exílio é vista no modo como o próprio Jesus frequentava o Templo e participava dos seus cultos (Mateus 21- 24; Marcos 11-13; Lucas 2.27,41-49; 19.45,46; 20-23; João 2.13- 16; 7.14ss, etc.). Isto era verdade apesar, do seu desprezo pela maldade dos líderes de então (cf. Mateus 23) e pela comercialização excessiva dos sacrifícios que faziam (Mateus 21.12,13; João 2.13- 16). Jesus também previu um tempo quando o esplêndido Templo dos seus dias, magnificentemente restaurado por Herodes, o Gran­ de, seria destruído outra vez (Mateus 24.1,2; Marcos 13.1,2; Lucas 21.5,6). Os cristãos primitivos regularmente usavam o Templo para

suas reuniões (Atos 3.1ss; 5.12; 5.42) e tomavam parte em seus ritu­ ais (Atos 21.26), mas, mesmo assim, compreen­ diam que o perdão de pecados agora era consu­

mado pela morte de Jesus (Atos 2.38; 5.30,31) e não pelos rituais do Templo como tais (cf. Hebreus 9).

As narrativas bíblicas estão repletas de rituais poderosos, pelos quais o povo de Deus invocava Suas bênçãos.

O

fato de que cada vez mais

prim itivos davam menos significado ao ri­ tual do Templo (junto com a predição de Je­ sus da destruição do Templo) pode ter contribuído para o surgimento de tensões entre eles e os líderes judeus. Por exem­

plo, Estêvão foi acusado de falar contra o Templo (Atos 6.13,14). Em resposta, ele ressaltou eloquentemente que, em­ bora Deus tivesse dado aos judeus o Tabernáculo e, depois, o Templo, eles se fizeram de surdos aos mandamentos e leis de Deus. Estêvão então insistiu: “O Altíssim o não habita em tem­ plos feitos por mãos de homens” (Atos 7.48). Em todo caso, na época em que o Templo foi destruído em 70 d .C ., a adoração nele já não era mais vital para a fé cristã.

O PAPEL DA BÍBLIA NA FORMAÇÃO DO PENSAMENTO CRISTÃO

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Os rituais do Templo e da sinagoga tiveram indubitavelmente influência importante nas práticas35 rituais da cristandade em al­ guns aspectos, como na música e no canto, na oferta, na oração, na leitura da Escritura e na pregação. Os antecedentes judeus so­ bejavam em cada uma dessas práticas, e a Bíblia ensina direta- mente a sua importância ou fornece precedente para o seu uso no culto. As duas práticas rituais mais óbvias ensinadas na Escritura são 0 batismo e a Eucaristia, ou Santa Ceia, como é frequentemente chamada. As igrejas litúrgicas tendem a considerar estes eventos como sacramentos, crendo que a graça é de fato mediada por eles. Aqueles que se alinham à tradição da igreja liberal geralmente os chamam de ordenanças e desejam ficar longe de qualquer conotação mágica da graça, que possa depreciar a necessidade da fé e obediência na observância.

Eucaristia: do vergo grego eucharisteô, que significa "dar graças".

Sacramento: do latim

sacrere, que quer dizer "consagrar".

Ordenança: uma cerimónia prescrita; na teologia, os mandamentos de Cristo.

O batismo nas águas, como sinal de arrependimento e compro­

misso a Deus, parece que foi introduzido pela primeira vez na tradição judaica pelo ministério de João Batista (Mateus 3.6). O próprio Jesus se submeteu ao batismo, não como sinal de arrepen­ dimento, mas para “cumprir toda a justiça” (Mateus 3.15). Tam­

bém se tornou a ocasião para a sua unção pelo Espírito (Mateus 3.16,17). Ocasionalmente, os discípulos de Jesus parecem ter ba- tizado outros (João 3.22-26; 4.2). O batismo está ordenado junto

com a Grande Comissão que Jesus deu aos discípulos (Mateus 28.19) e era, desde o princípio, parte da prática ritual cristã (Atos 2.38; 8.12,38; 9.18; 10.48). A linguagem do batismo aparece aqui e nas Epístolas, falando sobre a morte para a velha vida de pecado e desobediência antes da chegada à fé em Cristo (Romanos 6.1-4; 1 Pedro 3.21). (Veja o box “O Ritual Cristão do Batismo nas Águas” , no Capítulo 1.)

A prática ritual da Santa Ceia deriva da compreensão cristã de

que o próprio Jesus a ordenou nos relatos de sua última ceia com os discípulos, encontrados nos Evangelhos sinóticos (Mateus 26.17-30; Marcos 14.12-26; Lucas 22.7-23) e na primeira carta de

Paulo aos coríntios (1 Coríntios 11.17-34), provavelmente nosso registro mais primitivo sobre o evento. Nos momentos emocional- mente mais elevados daquela refeição, Jesus tomou o pão e, de­ pois de dar graças, deu aos discípulos para que o comessem, di­ zendo: “Isto é o meu corpo” . Semelhantemente, passou para as mãos deles o cálice de vinho, dizendo: “Isto é o meu sangue, o sangue do Novo Testamento [concerto], que é derramado por mui­ tos” . Jesus identificou esta ocasião cerimonial claramente com sua morte iminente, e ensinou que ela simbolizava exclusivamente o modo pelo qual sua morte se tornaria uma compensação pelos pe­ cados da humanidade. Tanto o testemunho de Lucas quanto o de Paulo apresentam Jesus relacionando o pão com seu corpo dado por nós (Lucas 22.19; cf. 1 Coríntios 11.24). O seu sangue é “o

1

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sangue do Novo Testamento [concerto], que por muitos é derra­ mado” (Marcos 14.24). Mateus acrescenta: “Para remissão dos pecados” (Mateus 26.28). Lucas (Lucas 22.19) e Paulo (1 Coríntios 11.24) relembram especi­

ficamente que a ceia será repetida “em memó­ ria de mim” . (Veja o box “O Ritual Cristão da Celebração da Ceia do Senhor” , no Capítulo

As narrativas bíblicas estão repletas de rituais poderosos pelos quais o povo de Deus invocava

suas bênçãos.

1.) Outras práticas são frequentemente deduzidas da Bíblia, como o modo apropriado de celebrar e observar a fé pessoal. Tais práticas incluem as reuni­ ões regulares, o canto, o uso de instrumentos musicais, a oração, a pregação, o uso dos dons espirituais no culto, e assim sucessiva­ mente. Diferentes igrejas colocam diferentes valores em determi­ nados rituais, dependendo de sua interpretação da Bíblia.

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E x per iên c ia

E spiritu a l

No capítulo anterior foram investigados quatro exemplos marcantes de experiências religiosas bíblicas. As narrativas bíblicas realmente abundam em histórias sobre as diferentes maneiras pe­ las quais Deus encontrou os seres humanos em modos transfor­ madores de vida. O que precisa ser acrescentado aqui é que a B í­ blia apresenta um Deus vivo, pessoal e amoroso, que deseja ter um relacionamento com todos os que estão dispostos a ir a Ele em

4 - Síeme*tto& da, &eàz do* Sm ám

Tem havido grande debate ao lon­ go da história da Igreja concernente a como entender precisamente os ele­ mentos do pão e do vinho em relação ao verdadeiro corpo e sangue de Je- | sus. Historicamente, os católicos romanos têm defendido seu ponto de vista denominando-o de

transubstanciação, afir­

mando que durante a ce­ lebração da m issa os elementos do pão e do vinho são transformados de verdade no corpo e no sangue de Jesus. Os luteranos, seguindo o reform ador alemão Martinho Lutero (1483-1546), argu­

mentaram em favor da consubstan- ciação, acreditando que o corpo e sangue de Jesus estão realmente pre- senles em, com e sob os elementos do pão e do vinho. Porém, a maio­ ria dos protestantes tem seguido até certo ponto a visão memorial do lí­ der suíço da Reform a U lrich Zwinglio (1484-1531), acreditando que os elementos da Santa Ceia são simplesmente símbolos do corpo e do sangue de Jesus. Com frequência eles amenizam o entendimento memorial de Zwinglio com o insight de João Calvino, de que, em algum sentido m ístico, Cristo está realmente pre­ sente na comunhão pela atividade do Espírito Santo.

O PAPEL DA BÍBLIA NA FORMAÇÃO DO PENSAMENTO CRISTÃO

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arrependimento e fé. Este ponto está talvez supremamente ilustra­

do na descrição que os quarto Evangelhos fazem da encarnação:

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (João 1.14). Habitan­ do entre os seres humanos, Jesus entrou em relacionamento afetivo e pessoal com eles. Mesmo quando se prepa­ rava para a morte, os escritores evangelísticos

notam a preocupação de Jesus em continuar os relacionamentos. “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique

convosco para sempre. [

órfãos; voltarei para vós” (João 14.16-19).

Em outras palavras, na presença confortante do Espírito Santo que Ele enviaria, Jesus mais uma vez entraria em contato pessoal e vital com o seu povo.

registro no

Livro de Atos dos Apóstolos, foi construída sobre a promessa do Evangelho. Lucas informa: “Os discípulos estavam cheios de alegria e do Espírito Santo” (Atos 13.52), ligando decisiva­ mente a alegria deles com o Espírito. A marca registrada da fé na Igreja prim itiva era uma experiência jovial de Cristo pelo seu Espírito (Atos 2.46,47; 8.8,39). Ao longo do Novo Testa­ mento, há notável conexão entre a experiência cristã e a pessoa e presença do Espírito Santo. No pensamento de Paulo, Deus derrama amor no coração do crente pelo Espírito (Romanos 5.5), que também alimenta o fruto “adicional” da alegria e da paz, juntamente com outros atributos de caráter (Gálatas 5.22; cf. Romanos 15.13). A esperança é outra contribuição do Espírito (Romanos 15.13). Esta presença habitadora do Espírito dá garantia, pela qual os crentes sabem que Deus os ama e aceita. Assim Paulo escreve: “O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Roma­ nos 8.15,16; cf. Gálatas 4.6). De modo semelhante, a Primeira Carta de João adiciona: “E nisto conhecemos que ele está em nós:

Igreja denota frequentemente um edifício, significado não encontrado na Bíblia, e que tende a desviar a atenção da Igreja viva como entidade encabeçada por Cristo.

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Não vos deixarei

A experiência dos crentes prim itivos, segundo

pelo Espírito