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Sobre o Conceito de Estrutura

ALVES & MELO

Sobre o conceito de Estrutura: em que se pode reconhecer o

Estruturalismo?

d.o.i. 10.13115/2236-1499.2013v1n10p198

Resumo

Adjair Alves 1

José Roberto de Melo 2

O Estruturalismo tem se colocado no campo da Antropologia como um modelo de inteligibilidade, para o qual a categoria de tempo (sincronia/diacronia) tem sido trabalhada como relação excludente. No presente texto, procuraremos discutir como o conceito de Estrutura, na sua forma mais influente, foi forjado como uma expressão metodológica, e que a relação (sincronia/diacronia) traduz-se como falsa oposição. Inicialmente buscaremos identificar os antecedentes teóricos do Estruturalismo de Lévi-Strauss, seja no campo das Ciências Sociais, seja no campo da Psicologia e da Lingüística. Para então, na segunda parte do texto, atingir o principal objetivo proposto. Entendemos tratar-se uma empresa arriscada, dada à complexidade da temática em foco, mas procuraremos, dentro dos limites, sermos o mais objetivo possível.

Palavras-chave: Estrutura. Estruturalismo. Lévi-Straus. Ciências Sociais.

1 Doutor em Antropologia e professor adjunto da Universidade de Pernambuco.

2 Mestrando em Antropologia pelo PPGA/UFPE.

Revista Diálogos – N.° 10 – Novembro de 2013

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Abstract

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The Structuralism has been placed itself in the Anthropology field as a model of intelligibility, for which the category of time (synchrony/diachrony) has been worked up as excluding relation. In the present text, we will seek to discuss how the concept of Structure, in its most influential form, was forged as a methodological expression, and that the relation (synchrony/diachrony) translates as false opposition. Initially we will pursue to identify the theoretical antecedents of Lévi- Strauss’s Structuralism, whether in the field of Social Sciences, whether in the field of Psychology and Linguistics. To then, in the second part of the text, achieve the main objective proposed. We understand it is a risky undertaking, given the complexity of the thematic in focus, but we will try, within the limits, be as objective as possible.

Keywords:

Structure.

Structuralism.

Lévi-Straus.

Social

Sciences.

A princípio, é preciso esclarecer que ocupar-se com questões formais, estruturais, organicistas, não significa necessariamente referir-se a uma postura estruturalista. Não basta falarmos em estruturas, reconhecermos estruturas, operarmos estruturalmente, para sermos estruturalistas. O uso do conceito de estrutura, não é, necessariamente, indicativo da atitude estruturalista. Muito menos podemos falar no estruturalismo, como no singular. O termo estrutura, às vezes como numa espécie de modismo, tem sido reivindicado, pelos mais diferentes seguimentos da atividade científica: da História à Semiótica, das Artes às Ciências Sociais, passando pela Filosofia e, sem exagero,

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pode-se dizer que desde Platão é possível especular sobre este conceito.

Que implicações no campo específico da Antropologia teve o Estruturalismo? Podemos falar ainda de estudos estruturalistas em Antropologia? Estruturalismo ou Estruturalismos? Poderíamos dá evasão a toda uma série de questões que traria a tona um quadro epistemológico dos modelos estruturais e, ainda que respondêssemos a todos os questionamentos não exauríamos tal campo de estudo, tamanho suas implicações no campo próprio da teoria científica. No presente texto, no entanto, vamos nos limitar ao Estruturalismo em Antropologia, reconhecendo que o mesmo não estar aí limitado.

1. Antecedentes teóricos do Estruturalismo em Etnologia.

Inegavelmente, embora não tenha sido o único estruturalista no campo da Antropologia, tampouco o primeiro, Lévi-Strauss foi, no entanto, o mais influente de todos. Por outro lado, embora não se possa negar a genialidade desse grande cientista social, necessário se faz, também, reconhecer que ele recebeu influências significativas, algumas das quais reconhecidas por ele mesmo, de pesquisadores tais como: L. Morgan, Tylor, Malinowski e Radcliffe-Brown, mas estar, no entanto, na Escola Sociológica Francesa, sobretudo Durkheim e Mauss, a influência reconhecida, como mais contundente, sobretudo pela associação que realiza entre determinados campos de saber que foram, por assim dizer, fundamental aos estudos estruturalistas (LAYTON; 1997:89). MAUSS (2003: 11), de quem Lévi-Strauss toma emprestado a idéia de “inconsciente social” e a “regra do dom”, concepções que lhes servirão como antecedentes do princípio de reciprocidade, fundamento de “As estruturas elementares do

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parentesco”, é considerado, como o precursor do estruturalismo em Etnologia. Particularmente, em seus estudos sobre a dádiva, procurou destacar a importância das interações transformadoras. Como assinala Lévi-Strauss em sua introdução à obra de Mauss.

Seja suficiente lembrar que a influência de

Mauss não se limitou aos etnógrafos, nenhum dos quais poderia dizer ter escapado a ela, mas se estendeu também aos lingüistas, psicólogos, historiadores das religiões e orientalistas, de modo que, no domínio das ciências sociais e humanas, uma plêiade de pesquisadores franceses lhe deve, de alguma

No conjunto, a obra e

forma, a orientação. [

o pensamento de Mauss agiram antes por intermédio de colegas e de discípulos em contato regular ou ocasional com ele, do que diretamente, na forma de palavras ou de escritos.

]

Mas adiante, em outro trecho, 3 reconhecendo o caráter de profundidade da obra de Mauss e sua capacidade de transcender a observação empírica, reivindicação feita por Lévi- Strauss ao pontuar as exigências dos estudos estruturais em atingir realidades mais profundas, afirma:

Pela primeira vez, o social cessa de pertencer ao domínio da qualidade pura – anedota, curiosidade, matéria de descrição moralizante ou de comparação erudita – e torna-se um sistema, entre cujas partes pode-se descobrir, portanto, conexões, equivalências e solidariedades. São primeiramente os produtos da atividade social (técnica, econômica, ritual, estética ou religiosa) –

3 Id. p. 31. Revista Diálogos – N.° 10 – Novembro de 2013

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ferramentas, produtos manufaturados, produtos alimentares, fórmulas mágicas, ornamentos, cantos, danças e mitos – que se tornam comparáveis entre si pelo caráter comum que todos possuem de serem transferíveis, segundo modalidades que podem ser analisadas e classificadas e que, mesmo quando parecem inseparáveis de certos tipos de valores, são redutíveis a formas mais fundamentais, estas gerais. Aliás, eles não são apenas comparáveis, mas com freqüência substituíveis, na medida em que valores diferentes podem se substituir na mesma operação. E, sobretudo, são as próprias operações, por diversas que possam se mostrar através dos acontecimentos da vida social (nascimento, iniciação, casamento, contrato, morte ou sucessão),e arbitrárias pelo número e a distribuição dos indivíduos que envolvem, como recipiendários, intermediários ou doadores, que autorizam sempre uma redução a um número menor de operações, de grupo ou de pessoas, nos quais não mais reaparecem, no fim de contas, senão os termos fundamentais de um equilíbrio, diversamente concebido e diferentemente realizado segundo o tipo de sociedade em questão.Os tipos tornam-se assim definíveis por esses caracteres intrínsecos, e comparáveis entre si, já que esses caracteres não se situam mais numa ordem qualitativa, mas no número e no arranjo de elementos que são, eles próprios, constantes em todos os tipos.

Evidentemente, Mauss não seria a única influência recebida da Sociologia Francesa por Lévi-Strauss. Em, O que a Etnologia deve a Durkheim, podemos perceber como este pode

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exercer sobre aquele uma impressão positiva. Neste artigo, Lévi- Strauss se refere ao privilegiamento dado por Durkheim a etnografia como matéria essencial às induções produzidas pelas Ciências Sociais. E aí, mostra como este cientista social faz uma comparação entre a História e a Etnologia, revelando a oposição existente entre estas atividades teóricas, no tocante a forma como se apropriam dos dados. LÉVI-STRAUSS (1987: 56), faz algumas considerações, de forma emocionada, sobre a influência daquele pesquisador à construção da etnologia, influência, evidentemente, sobre seu pensamento. Diz ele:

Nada é mais emocionante e convincente do que decifrar esta mensagem por meio da obra de Radciffe-Bronw a quem – ao mesmo tempo que a Boas, Malinowski e Mauss – a etnologia deve, no final do primeiro quarto deste século, a conquista de sua autonomia. Ainda que inglês, e herdeiro, portanto, de uma tradição intelectual com a qual se confunde até mesmo a história da etnologia, é para a França e Durkheim que o jovem Radcliffe- Brown se dirige, quando empreende fazer da etnologia, até então uma ciência histórica ou filosófica, uma ciência experimental comparável às outras ciências naturais: esta concepção, escreve ele em 1923, ‘não é de modo algum nova. Durkheim e a grande escola de l’Année Sociologique defenderam- na desde 1958’

Evidentemente, que os acontecimentos fatídicos provocados pela guerra (1914 – 1918), que dizimou a primeira geração formada por Durkheim, tiveram sua parte na não concretização de um projeto assinalado pela sua presença, sobretudo, por sua obra “Les Formes Élementaires de la Vie

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Religieuse”, que poderia levar alguns de seus pupilos a campo. Lévi-Strauss (Id.) entende que embora Durkheim não tenha praticado a observação direta, isto é, a etnografia, sua obra, no entanto, exerceu uma grande influência, sobretudo, aos etnógrafos australianos.

Dos pontos longínquos onde se encontrava de serviço, a etnografia foi assim reconduzida ao coração da cidadela científica. Todos aqueles que, desde então, contribuíram para conservar-lhe este lugar, reconheceram-se sem rodeios, como Durkheimianos.

Os antecedentes teóricos do Estruturalismo Lévi- Straussiano não se limitaram, contudo, ao campo antropo- sociológico. Da Lingüística Estrutural advém, possivelmente, a maior influência. Barrios (2005: 124) entende que esta influência começa a ser forjada por volta de 1945, após anos de publicações de trabalho de campo. Ela começa a se presentificar, sobretudo a partir da publicação de “A análise estrutural em Lingüística e em Antropologia”. Ainda segundo Barrios (Idem.), é a partir daí que Lévi-Strauss passa a levar em consideração aspectos lingüísticos na elaboração de suas teorias, “as quais giram ao redor de um núcleo, digamos, filológico”. As Estruturas Elementares do Parentesco, O Totemismo na Atualidade, O Pensamento Selvagem, Mitológicas I, IV, A Oleira Ciumenta e a Via das Máscaras, são as obras onde esta influência se faz notar mais fortemente. A empresa a que se detém Lévi-Strauss é identificar as oposições, conexões, as leis que subjazem e regulam as manifestações sociais. Estas, reconhecidas enquanto significantes, isto é, possuem uma relação com o âmbito do signo humano. O homem tomado como um animal simbólico. 4 Contudo, não se pode reduzir o estruturalismo a Lévi-Strauss, de alguma forma os

4 CASSIRER, Ernesto. Antropologia filosófica. p. 48. Revista Diálogos – N.° 10 – Novembro de 2013

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pressupostos e indícios de entender a sociedade pelas suas relações estruturais já estava subjacente em diferentes abordagens. E por ele foi feita uma aplicação, com as influencias mais diversas, que possibilitou aplicar princípios semiológicos para entender as lógicas das diferentes culturas. Esta forte mediação da herança Saussuriana, no pensamento de Lévi- Strauss, deve-se, sobretudo as influências dos trabalhos de Trubetzkoy e Roman Jakobson, a quem conhece quando de sua passagem pelos Estados Unidos (1941 a 1945), onde esteve fugindo da guerra. Jakobson foi co-responsável nesta virada lingüística e estruturalista da antropologia pós-guerra de Lévi- Strauss.

É a ideia de que os homens se comunicam por meio de

símbolos e signos, permeando o universo da etnologia. Como na antropologia a realidade se configura como linguagem simbólica, estas duas realidades (símbolo e signo) são aí tomadas como instrumentos de mediação na comunicação humana. Esta mudança no pensamento de Lévi-Strauss marca também o seu distanciamento da herança sociológica francesa, sobretudo da herança positivista e evolucionista Durkheimiana. Outras influências se fizeram presentes no pensamento

de Lévi-Strauss tais como, o marxismo e a psicanálise, sobretudo

Freudiana

O conhecimento de que são normas oculta, distintas

das aparentes, as que regem a vida social, parece ter sido uma das

maiores contribuições do marxismo ao estruturalismo Lévi-

Straussiano. Sobre o fervor advindo das leituras de Marx, afirma:

“jamais se desmentiu e raras vezes dedico-me a enfrentar um problema de sociologia ou de etnologia sem previamente revigorar minha reflexão com algumas páginas do 18 de Brumário de Luís Napoleão (sic) ou da Crítica da economia política.” 5

É preciso que se diga que para Lévi-Strauss a história

organiza seus dados em relação com as expressões conscientes da

5 LÉVI-STRAUSS, Claude. (1996: 55). Revista Diálogos – N.° 10 – Novembro de 2013

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vida social, enquanto a etnologia, em relação com as condições inconscientes. Isto nos mostra o quão longe se situa Lévi-strauss do materialismo cultural, e o quanto mais próximo se encontra ele do estruturalismo estático de Saussure, atestando assim, uma incompatibilidade entre estrutura e história. Podemos também assinalar aqui um emparelhamento do etnólogo com a teoria freudiana e suas abordagens do inconsciente, tanto no indivíduo como no social. Lévi-Strauss, como Freud, considerava as manifestações mais irracionais, como as mais significativas e susceptíveis de um estudo racional revelador de traços significativos da vida cultural humana. Em “As estruturas elementares do parentesco”, ele se utiliza dos estudos da psicanálise para elucidar temas sociais tais como: regras do parentesco, rituais, mitos, entre outros. O que pretende é encontrar as estruturas inconscientes, lingüísticas e psíquicas, daquelas instituições. Evidentemente, que o estruturalismo de Lévi-Strauss, não pode ser reduzido a esta ou aquela influência, o que significaria um completo desconhecimento da genialidade deste teórico e o empobrecimento de sua contribuição à construção do estruturalismo em etnologia.

2.

A

diacronia/sincronia.

noção

de

Estrutura

em

Etnologia

e

a

relação

Como muito bem assinala LÉVI-STRAUSS (1989: 313):

“a noção de estrutura social evoca problemas demasiado vastos e vagos para que se possa tratá-los nos limites de um artigo.” Assim, a primeira constatação que se tem de estruturalismo é que se trata de um modelo de inteligibilidade, uma grade cuja finalidade ou função consiste em possibilitar a resolução de

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diferentes níveis culturais em séries paralelas de homologias. Falar do estruturalismo significa, portanto, referir-se a um modelo de comunicação por onde se busca estabelecer um processo pelo qual, homologias formais entre os diferentes contextos culturais são identificadas. Como afirma ECO, (2003:251):

A função de um método estrutural consiste

justamente em permitir a resolução de

diferentes níveis culturais em séries paralelas homólogas. Função, portanto, puramente operacional, com vista a uma generalização

do discurso.

A estrutura, pelo que podemos entender é composta ou se constitui dessa “comunicabilidade dos significantes”, o valor dos signos está nesta comunicabilidade, na inter-relação. A título de ilustração podemos dizer que ela representa a linha demarcatória que se desenha com maior clareza a diferenciação entre (madeira), (bosque), (floresta). A idéia extralingüística de um aglomerado restrito de pequenas árvores, opostas à idéia de um monte de lenha e de um aglomerado vasto de grandes árvores não precede o sistema. Nasce da estrutura da língua, que confere um valor de posição no sistema aos termos, qualificando-os semanticamente pela diferença que manifestam em relação a outros termos, comparando ao sistema de outras línguas. Assim a estrutura constitui-se um modelo como sistema de diferenças. A característica desse modelo é a sua transponibilidade de fenômeno para fenômeno e de ordens de fenômeno para ordens de fenômenos diferentes. O sentido é a constituição de caminhos para a unificação do saber e uma direção a fecundas relações entre as várias ciências humanas. Segundo Bonomi (1974: 114 – 7), para Lévi-Strauss, os temas da “normalidade” e do “exotismo”, presentes na Antropologia têm como finalidade a tentativa de confinar ao “irracional” e no estranho uma experiência diferente. Este foi o

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caminho mais fácil encontrado pela etnologia tradicional como forma de garantia da “objetividade científica”: “remeter o pensamento dos chamados primitivos para a natureza, a animalidade, ou reduzi-lo a um estádio embrionário do nosso”. A tarefa da etnologia, para Lévi-Strauss, não é só revelar uma experiência estranha à nossa, mas também, e principalmente, “trazer à luz certas funções universais do sujeito humano”, assim ela nos levará a mudar a imagem que tínhamos do “primitivo”, mas também a nossa própria imagem. A objetividade da investigação se efetiva no distanciamento entre observador e observado, na medida em que impede a sua identificação com o objeto e redução deste à perspectiva daquele. Este distanciamento limita, mas também possibilita a comunicação. Se a estranheza impossibilita a comunicação, o objeto se fecha em sua opacidade, tornando-se refratário à investigação. Em Lévi-Strauss, o conceito de objetividade assume um valor problemático, pois não marca somente uma ruptura, uma distância, mas também uma reciprocidade, uma solidariedade entre observador e observado. Para Lévi-Strauss (1989b: 75), a experiência concreta (etnografia) constitui o ponto de partida, mas também o de chegada. “A verdade é que o princípio de uma classificação nunca se postula, somente a pesquisa etnográfica, ou seja, a experiência, pode apreendê-lo a posteriori”. O recurso ao modelo é, portanto essencial para a compreensão da realidade etnográfica, mas com a condição de o próprio modelo poder fundar-se nessa realidade e de possuir um valor heurístico, não absoluto. O ponto de partida é, de fato, a lingüística. O conceito de estrutura surge aí ofuscado pelo conceito de sistema, onde a concepção de língua, sobretudo na escola de praga (1929), como sistema impõe uma comparação estrutural, indispensável também para a investigação diacrônica. Comparação estrutural, para quem as relações recíprocas dentro do sistema são consideradas mais essenciais que o conteúdo fonológico.

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A idéia de um “modelo estrutural” como um sistema de diferenças, é um sistema de correlações abstraíveis, que é individualizado quando aplicado às várias realidades. Assim se quer observar algumas combinações de correlações que se encontram nas mais diversas culturas, enquanto outras não existem em parte alguma. Um exemplo disso são os sistemas fonológicos. Nesses modos, reduzida a esquema ou modelo, a estrutura se presta a ser aplicada como grade interpretativa e descritiva de fenômenos diferentes. Aí vale a conclusão pronunciada por Lévi-Strauss (apud. ECO. Id. p 261):

Nenhuma ciência pode hoje considerar as estruturas do seu campo como reduzidas a uma disposição qualquer de partes quaisquer. Só será estruturada a disposição que obedeça a duas condições: é preciso que ela seja um sistema regido por coesão interna; é preciso que tal coesão, inacessível à observação de um sistema isolado, se revele no estudo das transformações, graças às quais encontramos propriedades similares em sistemas aparentemente diferentes.

Em seu discurso proferido no Collège de France, por ocasião de sua aula inaugural, Lévi-Strauss deixa claro que numa sociedade primitiva, as várias técnicas, que tomadas isoladamente podem aparecer como um dado bruto, situado no inventário geral das sociedades, surge como equivalentes de uma série de escolhas significativas: um machado pode, por exemplo, tornar-se signo; porque toma o lugar, no contexto em que se insere, do utensílio diferente que outra sociedade empregaria para o mesmo fim. O significado é posicional e diferencial. À Antropologia cabe descrever sistema de signos e fazê-lo segundo modelos estruturais. As experiências são encontradas prontas, elas são substituídas por modelos. Há um processo de manifestação das

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experiências. A estrutura não pertence à ordem da observação empírica. Ela se situa para além. Diz Lévi-Strauss:

O princípio fundamental é que a noção de estrutura social não se refere à realidade empírica, mas aos modelos construídos em conformidade com esta. Assim aparece a diferença entre duas noções, tão vizinhas que foram confundidas muitas vezes: a de estrutura social e a de relações sociais. As relações sociais são a matéria-prima empregada para a construção dos modelos que tornam manifesta a própria estrutura social. Em nenhum caso esta poderia, pois, ser reduzida ao conjunto das relações sociais, observáveis numa sociedade dada. 6

Para Lévi-Strauss, trata-se de um problema epistemológico. Segundo ele, para merecer o nome de estrutura, os modelos devem satisfazer quatro condições: possuir um caráter de sistema; pertencer a um grupo de transformações, cada uma das quais correspondentes a um modelo da mesma família constituindo um grupo de modelos; ter caráter previsível do modo como reagirá em caso de modificações de um dos seus elementos; e finalmente, que seja um modelo capaz de explicar todos os fatos observados. A questão que se coloca é que: se há uma transposição de modelos de um sistema para outro, qual a garantia desta operação? Ou seja, tem-se um sistema de regras que permite o articular-se de uma língua (código lingüístico) e um sistema de regras que permite o articular-se das trocas de parentesco como modo de comunicação (código de parentesco). Então seriam

6 LÉVI-STRAUSS, Claude. Op. Cit. p. 316. Revista Diálogos – N.° 10 – Novembro de 2013

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necessárias regras que prescrevam a equivalência estes sistemas, para estabelecer sua equivalência. Isto é um meta-código. E ainda: este meta-código é universal? Sendo; como entender essa universalidade no sentido de que se trata de regras úteis para explicar diferentes fenômenos? Segundo Lévi-Strauss, essas estruturas são universais no sentido de que a tarefa do antropólogo é exatamente a de elaborar transformações sempre mais complexas para explicar com os mesmos modelos os mais diferentes fenômenos, reduzindo a um modelo único a sociedade primitiva e a sociedade contemporânea. Isto é, trata-se de uma verdade de Razão e não de uma verdade de fato. Temos aí uma outra questão: não estaríamos transformando, neste caso, a Antropologia em uma Filosofia? Como podemos perceber o modelo é uma operação que já se encontra inscrita na arquitetura do espírito. É neste ponto que se configuram a maioria das críticas dirigidas a Lévi-Strauss, de ter construído um Kantismo sem sujeito transcendental. (BONOMI, 1974: 113 – 139). Lévi-Strauss, ao contrário, fala de condições meta- histórias e meta-societárias. As que apontam são raízes arquetípicas de toda atividade estruturante. Ele procura distinguir essas condições universais do inconsciente coletivo junguiano.

O problema etnológico é, portanto, em última análise, um problema de comunicação; e essa constatação deve bastar para separar radicalmente a via seguida por Mauss, identificando inconsciente e coletivo, da de Jung, que se poderia ser tentado a definir do mesmo modo. Pois não é a mesma coisa definir inconsciente como uma categoria do pensamento coletivo ou distingui-lo em setores, conforme o caráter individual ou coletivo do conteúdo que se lhe atribui. Nos dois casos concebe-se o inconsciente como um sistema simbólico; mas, para Jung, o inconsciente não se reduz ao sistema: ele está

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repleto de símbolos, e mesmo de coisas simbolizadas que lhe formam uma espécie de substrato. Ou esse substrato é inato: mas, sem a hipótese teológica, é inconcebível que o conteúdo da experiência a preceda; ou ele é adquirido: ora, o problema da hereditariedade de um inconsciente adquirido não seria menos temível que dos caracteres biológicos adquiridos. Na realidade, não se trata de traduzir em símbolos um dado extrínseco, mas de reduzir à sua natureza de sistema simbólico coisas que só escapam a ele para se incomunicabilizar. Como a linguagem, o social é realidade autônoma (a mesma, aliás);

os símbolos são mais reais que aquilo que simbolizam, o significante precede e determina o significado. 7

Lévi-Strauss está convicto de que na raiz do estruturar-se das relações sociais ou dos hábitos lingüísticos existe uma atividade inconsciente universal, igual para todos os homens e que permite ao estruturalista constituir sistemas descritivos isomorfos. Tal atividade é vista como uma espécie de necessidade basilar e determinante, ante a qual as teorizações que cada povo dá de seus hábitos, surgem como uma espécie de ideologia, manifestação de consciência perversa, atividade com a qual se ocultam as razões que os impelem a agir de determinado modo.

O encontro entre subjetividades diferentes

não se dá apenas nas instituições elaboradas inconscientemente, tendo em vista um fim intersubjetivo, mas tem a sua gênese na pertença delas a uma estrutura comum, e universalmente válida, da atividade

7 LÉVI-STRAUSS, Claude. (2003). Introdução à obra de Marcel Mauss. Op. Cit. p. 29.

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inconsciente. Ora, segundo Lévi-Strauss, a tarefa da etnologia é justamente delinear os traços essenciais desta atividade, descobrindo aquelas leis universais que ligam sujeito com sujeito e sociedade com sociedade. E é sempre através do inconsciente que se realiza

o paradoxo, peculiar à etnologia, de ser uma

ciência objetiva e subjetiva ao mesmo tempo, pois as leis do inconsciente transcendem a dimensão subjetiva, são por assim dizer ‘externas’ a ela e, ao mesmo tempo só podem ser captadas no operar efetivo da subjetividade. 8

Assim em relação ao “hau”, resposta dada pelos Maoris, sobre o que os motiva a trocar presentes entre si, e que é assinalada por MAUSS, diz Lévi-Strauss 9 ;

O hau não constitui a razão última da troca. É

a forma consciente sob a qual homens de uma

sociedade determinada, em que o problema tinha uma importância particular, conceberam uma necessidade inconsciente cuja razão está alhures

Mais adiante Lévi-Strauss sustenta que era necessário a Mauss, depois de ter destacado a concepção indígena, “reduzi-la por uma crítica objetiva que permitisse atingir a realidade subjetiva.” Ainda segundo Lévi-Strauss, “esta tem muito menos chance de se achar em elaborações conscientes do que em estruturas mentais inconscientes que se pode atingir através das instituições e, melhor ainda, na linguagem.” Lévi-Strauss não é um empirista. Sua Antropologia concentra-se no modo como elementos de um sistema se

8 BONOMI, Id. p. 120, 1.

9 LÉVI-STRAUSS, Claude. Op. Cit. p. 34, 5.

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combinam, e não em seu valor intrínseco. Diferença e relação são os conceitos essenciais aqui. A combinação desses elementos dará margem a oposição e contradições que servem para dar ao social seu dinamismo. É a influência Saussuriana se fazendo presente. Em “As estruturas elementares do parentesco” (1982:

98) Lévi-Strauss revela um caso em que o “fato social total” se faz presente na constituição da vida social. Diz Ele:

Frequentemente, observamos o cerimonial da refeição nos restaurantes baratos do sul da França, sobretudo nessas regiões onde, sendo

o vinho a indústria essencial, é envolvido por uma espécie de respeito místico, que faz dele o ‘rich food’ por excelência. Nos pequenos estabelecimentos onde o vinho está incluído no preço da comida, cada freguês encontra, diante do prato, uma modesta garrafa de um

líquido na maioria das vezes indigno. [

pequena garrafa pode conter apenas um copo, que esse conteúdo será derramado não no copo do detentor, mas no do vizinho. E este executará logo a seguir um gesto correspondente de reciprocidade. Que aconteceu? As duas garrafas são idênticas em volume e seu conteúdo de qualidade semelhante. Cada qual dos participantes desta cena reveladora afinal de contas não recebeu nada mais do que se tivesse consumido sua poção pessoal. Do ponto de vista econômico ninguém ganhou nem perdeu. Mas é que na troca há algo mais que coisas trocadas.

A

]

Este fato narrado nos revela aspectos fundamentais da antropologia de Lévi-Strauss. Primeiramente, que para ele, o princípio de que a vida social e cultural não pode ser explicada unicamente por uma versão do funcionalismo, isto é, não é explicável em termos da natureza intrínseca dos fenômenos em

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questão. Nem tampouco pode ser explicada empiricamente por fatos condenados a falarem por si mesmos. O Estruturalismo de Lévi-Strauss concentra-se no modo como elementos de um sistema se combinam, e não em seu valor intrínseco. O estruturalismo constitui-se, de certo modo, um projeto ambicioso na medida em que não limita suas interpretações da vida social à sociedade específica, pelo contrário, fixa uma perspectiva universalista. Para isto, Lévi-Strauss faz uso de pesquisas de campo produzidas pelos mais diversos antropólogos nas mais diferentes sociedades. Para ele está claro que toda sociedade ou cultura exibe características que estão presentes, em maior ou menor grau em outras sociedades ou culturas, não havendo, portanto, uma hierarquia de sociedades, seja em termos de progresso científico ou evolução cultural. Estruturas simbólicas de parentesco, linguagem e troca de bens, são, nesta perspectiva, elementos que compõem a chave para se compreender a vida social. O código de classificação de parentes em uma determinada cultura tem se mostrado, ao menos para os estudos etnológicos, como o meio mais efetivo no qual a organização social se move e se constitui. Esta tem sido uma das razões pela qual o Estruturalismo tem privilegiado este campo de estudo em etnologia. Segundo BARRIOS (id. p. 127) a relação estabelecida não só por Lévi-Strauss, mas por outros antes dele, entre Sociologia e Lingüística, pode ser visto como uma das razões do privilegiamento do campo do parentesco em etnologia, dada a sua similitude com o campo da Lingüística. O parentesco estar identificado com certos tipos de relações pessoais e, mais concretamente, as relações que se dão pelas uniões sexuais legítimas. O princípio da reciprocidade está na sua base, como está presente, também, no sistema de troca discutido no “Ensaio sobre a dádiva”. Sua realização se dá pela regulamentação social, se convertendo, segundo Lévi-Strauss, a natureza, da cultura.

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Em suas considerações sobre a obra de Mauss (Op. Cit. p. 34 – 6), Lévi-Strauss admite ser a “troca”, como queria Mauss, um equivalente do “fato social total”, no entanto, lamenta o fato de Mauss não ter considerado o mesmo caminho quando trata do “mana” na teoria da magia. Mauss compreendia o “mana” de forma diferente. Embora tenha aceitado a “troca” como um conceito construído pelo antropólogo, em relação ao “mana”, no entanto, parece ter seguido Durkheim, assumindo o significado atribuído as sociedades indígenas, no qual o “mana” possui um conteúdo intrínseco ou sagrado. Segundo Lévi-Strauss, a diversidade de conteúdos assumida pelo “mana”, significa que ele tem de ser entendido como vazio, de modo semelhante a um símbolo algébrico, capaz de assumir qualquer outro significado.

A diferença deve-se menos às noções elas próprias, tais como o espírito as elabora inconscientemente em toda parte, do que ao fato de que, em nossa sociedade, essas noções têm um caráter fluido e espontâneo, enquanto

noutros lugares elas servem sistemas refletidos e oficiais de interpretação, isto é, um papel que nós mesmos reservamos à ciência. Mas, sempre e em toda parte, noções desse tipo intervêm, um pouco como símbolo algébricos, para representar um valor indeterminado de significação, em si mesmo vazio de sentido e, portanto suscetível de receber qualquer sentido, cuja única função é preencher uma distância entre o significante e

o

significado, ou, mais exatamente, assinalar

o

fato de que em tal circunstância, em tal

ocasião, ou em tal de suas manifestações, uma relação de inadequação se estabelece entre

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significante e significado em prejuízo da relação complementar anterior. 10

O “mana” é, portanto, um significante “flutuante” ou

puro, com um valor simbólico interno nulo. Ele existe em um

sentido geral – e isto, segundo Lévi-Strauss, é uma característica de toda cultura – pois existe abundância de significantes em relação ao significado, já que a linguagem deve ser pensada como vindo a existir toda por completo – sendo ela um sistema de diferenças e, fundamentalmente relacional –, ao passo que o conhecimento, significado, tem existência progressiva.

A “estrutura” tem para Lévi-Strauss, primeiramente um

sentido implícito. Consiste de que a ênfase não é posta no conteúdo (hipotético) do “mana”, mas no potencial que ele possui para assumir significados vários. Sendo, portanto, um significante vazio. Em segundo lugar, o “mana” é um terceiro elemento que intervém na relação entre significante e o significado, dando à linguagem seu dinamismo e continuidade. O significante flutuante é uma característica estrutural de linguagem em geral, um elemento que lhe introduz um aspecto assimétrico, generativo: o aspecto de contingência, tempo, em termos Saussuriano, o nível de parole. Para Lévi-Strauss, “Estrutura” não é equivalente à estrutura empírica de uma sociedade particular, como em Radcliffe-Brown. “Estrutura” não é dada na realidade observável. Na verdade, em Lévi-Strauss existe uma ambivalência entre o tipo de estruturalismo que considera a estrutura um modelo abstrato derivado de uma análise de fenômenos vistos como um sistema estático de diferenças onde se privilegia a dimensão sincrônica, e o conceito de estrutura sendo em essência composto de três elementos, tendo um aspecto dinâmico. O terceiro elemento neste tipo de estrutura seria sempre vazio, pronto para assumir qualquer significado, elemento diacrônico, contingente, e

10 LÉVI-STRAUSS, C. Introdução à obra de Macel Mauss. Ob. Cit. p. 39. Revista Diálogos – N.° 10 – Novembro de 2013

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que vale pela perpetuação de fenômenos sociais e culturais. Na verdade, embora Lévi-Strauss insista na dimensão sincrônica, quando de sua explicação do sentido de “estrutural”, 11 na prática, o que se pode perceber é que a estrutura apresenta-se em sua obra, como ternária e dinâmica. 12 Segundo ECO (2003: 258 – 60), a assunção sincrônica próprias do emprego das grades estruturais, não exclui a subseqüente investigação diacrônica, capaz de explicar a evolução dos códigos. Como é retomada por Lévi-Strauss a distinção saussuriana entre estas duas dimensões da temporalidade? Segundo BONOMI (Id. p. 126, 7), não há uma oposição entre diacronia e sincronia, o que há é um mal-entendido “seja ao atribuir-lhe um valor antinômico, quando ela tem antes de mais nada uma função metodológica, seja não levando em conta o enrijecimento que ela pode ter sofrido na redação do Cours devida a Bally e Sachehaye”. Já foi dito que segundo Lévi- Strauss, a etnografia constitui o ponto de partida e chegada, portanto, a etnologia não pode prescindir da etnografia, já que aquela se propõe ser “ciência do concreto”. Ela, portanto, precisa referir-se constantemente a uma realidade diretamente experimentada, o que pressupõe o trabalho de campo. “De certo modo ela inverte as relações tradicionais e insiste sobre a necessidade de compreender o presente para proceder à compreensão do passado” Como assinala BONOMI (Id. p. 128), se a estrutura, em Lévi-Strauss, não é uma realidade estática, mas, um feixe de relações fundadas numa dimensão teleológica, a relação entre diacronia e sincronia deixa de se constituir uma antinomia, e, a uma incompatibilidade se substitui uma complementaridade. A estrutura sincrônica, afirma:

11 Ver “A análise estrutural em lingüística e em antropologia.” In. Antropologia estrutural I. p. 45 – 70. 12 Ver ainda, “A noção de estrutura em etnologia” In. Antropologia estrutural I .p. 313.

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É ‘vulnerável’ em relação ao evento: opõe-lhe uma resistência própria, mas, ao mesmo tempo, dispõe-se a assimilá-lo graças a um jogo de compensações e transformações que tem a tarefa de tornar possível a sobrevivência da própria estrutura, e, contudo, no limite, pode conduzir a sua dissolução numa outra estrutura

Neste caso não é de conflito que se deve falar, mas de “encontro, de interação dinâmica entre a ordem de estrutura e a do evento”.

3. Para além do estruturalismo

É sempre um risco classificar uma obra ou vincular um determinado autor a uma escola de pensamento; a um sistema de pensamento. Ainda que possa ser uma forma didática de compreender certas formas de pensamento há, nesse ato, um reducionismo. Não são poucos os pensadores que se negaram a admitir tal enquadramento. O mesmo pode-se dizer quando se entende a obra de Lévi-Strauss como dentro do modelo da escola estruturalista. O reducionismo pode ocorrer, também, de maneira inversa, quando se reduzem os modelos explicativos que se fundamentam nas relações estruturais com o pensamento de um determinado autor. Uma escola não se reduz a um autor, embora um ou outro possa se manifestar um representante engajado, no caso de Lévi-Strauss, trata-se de um caso emblemático do Estruturalismo, como reconhece Roberto Layton (1997). No entanto, a obra deste autor não pode ser reduzida à este modelo explicativo. Sendo contestada a validade deste modelo explicativo toda riqueza, em detalhes, de argumentos podem ser negligenciado ou esquecido em nome de uma suposta superação teórica.

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No presente caso há evidencias de como os modelos rígidos podem se tornar arbitrários. O que dizer da concepção freudiana e marxista de explicar a sociedade; em si, essas teorias já não eram estruturais? Por acaso o estruturalismo encerra-se na influencia ou cessa com a morte de Lévi-Strauss? E a produção de reflexões como as feitas por Michel Foucault não tem algo de estruturalismo, ainda que o mesmo negue? Ao que parece, os paradigmas e modelos se esgotam. Mas as influências perpassam gerações e modelos. Assim como Lacan fez uma releitura de Freud, coube a autores como Deleuze, Bauman e Guatarri fazerem contestações e revisões acerca dos clássicos fundadores do pensamento social. Estes últimos autores foram responsáveis por evidenciarem a ineficiência das grandes metanarrativas em explicar a realidade. E o próprio Foucault não está fora desse contesto; da desconstrução das grandes narrativas. Autores como Pierre Bourdieu constituem uma nova forma de se relacionar com os clássicos, buscando, de outra forma, constituir no campo da teoria social a formulação de novas abordagens teórica metodológica que não deixa de lado as influencias dos clássicos, mas Bourdieu leva em conta o que há de comum entre as grandes narrativas, que formaram as teorias sociais. Para ele é imprescindível perceber os princípios contraditórios das teorias sociais e atualizar os clássicos, para que os fatos sociais possam ser compreendidos em suas multiplicidades. Dessa forma é possível não apenas a superação dos modelos explicativos, mas o acolhimento da substância teórica desses modelos. Desconstruir o caráter reducionista de que determinados autores estão agrupados em tal ou em tal escola, impediria que as teorias fossem vistas como estacionada em diferentes períodos históricos, ou reduzidas aos rótulos. Compreender os modelos explicativos como pertencente a determinadas escolas tem uma eficácia didática, que ajuda a classificar e distinguir as construções teóricas, mas é preciso ir

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além dessa redução quando se pretende captar as riquezas e diversidades das teorias. Tanto Foucault (1999), quando enfoca o caráter de subjetivação que os sujeitos sofrem com o biopoder, quanto Bourdieu (1996; 2003) quando formula a teoria do habitus buscam explicar as relações sociais de maneira estrutural, ou enfocando as estruturas estruturantes da sociedade para usar um termo próprio a Bourdieu, o que demonstra claramente como a noção de estrutura pode ser reformulada. Se há variações e reformulações quanto às interpretações estruturais das relações sociais, também há equívocos quanto às reduções feitas acerca da obra de Lévi-Strauss. O aspecto simbólico encontra-se presente em sua abordagem e os sujeitos, enquanto indivíduos não são totalmente reduzidos às relações estruturais, mas é possível levar em conta a subjetividade dos indivíduos, bem como os processos históricos de cada sociedade. Como fica claro em seus textos “O feiticeiro e sua magia” e “A eficácia simbólica” (LÉVI-STRAUSS; 1987). Nesses dois ensaios este autor reforça sua tese, de que as formas lógicas de pensamento se traduzem em práticas rituais e sociais. Assim, para ele, o social é formado e constituído pela estrutura lógica do pensamento. O mais interessante é perceber o aspecto simbólico em sua obra, pois assim como para Marcel Mauss (2003) o social é fundado no simbólico, assim as trocas simbólicas, que para Lévi-Strauss são generalizadas e estruturadas na lógica do pensamento, é o que funda e institui o social. Essas relações simbólicas são históricas e constituídas nas intersubjetividades dos sujeitos, mas o que vai possibilitar a compreensão ou explicação das relações sociais são os recortes teóricos e a ênfase epistemológica que se pretende, já que o homem é um ser total, conforme assinala Marcel Mauss (2003).

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