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Parsondas

de Carvalho

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Sálvio Dino

Parsondas

de Carvalho

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Copyright © 2006 by

Sálvio Dino

Todos os direitos reservados

Projeto gráfico e editoração:

Ética Editora

Coordenação editorial:

Adalberto Franklin

Revisão final:

Sálvio Dino Adalberto Franklin

Capa:

Eduardo Franklin (A partir de desenhos em preto de Cabral)

Dados de Catalogação na Publicação

Dino, Sálvio.

Parsondas de Carvalho: um novo olhar sobre

o sertão. / Sálvio Dino. — Imperatriz, MA : Ética,

2006.

380 p. ; 22 cm.

ISBN 85-88172-25-1

1. Parsondas de Carvalho, 1860-1926 — Vida e obra. I. Título. II. Autor.

CDD 928.699

Sumário

 

Um dedo de prosa

7

Introdução

11

Os

homens do interior

13

A

genealogia dos Carvalhos

16

O

filho do Riachão

20

A

Guerra do Leda

34

O

Sertão

39

O

Pai de Parsondas

45

A

irmã Carlota

49

A

paixão por jornais

66

O

processo-crime

71

A

viagem a cavalo

80

Poeta e boêmio

92

A

morte do escritor

95

Conclusão

98

 

Anexos

101

Anexos

Anexo A – Conferência – A Sílvio Romero

103

Anexo B – Conferência – No Centro Artístico

109

Anexo C –Ata de sessão de conferência

113

Anexo D – Conferência – Do Gurupi ao Balsas

115

Anexo E –A Guerra do Leda

128

Anexo F – Negócios do Grajaú

351

Anexo G – Um mestre do sertão

355

Anexo

H

– Petição

358

Anexo I – Processo-crime

360

Um dedo de prosa

Nos últimos tempos, observa-se no mundo editorial manifesta tendência pela difusão bibliográfica dos estudos brasileiros. Sente-se grande interesse ou veemente apelo no sentido de fazer-se profunda revisão do país em todos os seus aspectos, repensando sobre narrativas

e interpretações importantes momentos históricos que ficaram nas

dobras do tempo, marcados de contradições e incertezas, e, por isso mesmo necessitando de inadiáveis análises e reflexões, a serem feitas sob uma nova perspectiva de grande valia para os estudos de nossa formação histórica.

Hoje, de fato, anseia-se um olhar a ser dirigido ao nosso passado que possa espargir luzes sobre certos e determinados episódios duvidosos, obscuros, ainda não bem interpretados ou que a história oficial narra, de maneira diferente, confusa ou inteiramente distorcida.

Já se disse e com propriedade: o livro didático, com raras e honrosas exceções, tem sido um dos mais utilizados veículos de transmissão e, sobretudo, de manutenção dos mitos e estereótipos

que povoam nossa história. Ele, lamentavelmente, via de regra, só vê

a história como uma epopéia ou como um suceder de fatos, cujos

personagens principais são vultos históricos ou heróis nacionais. Por quê? Porque sofre pressões bem conhecidas, destina-se a um público pré-determinado: a clientela escolar.

Este livro não é uma visão partilhada por certos livros didáticos voltados à exaltação dos cultos patrióticos e das lições de moral e civismo, tão do gosto da história “chapa-branca”. Ele se propõe a

SÁLVIO DINO

resgatar um pouco da nossa memória como contribuição ao pensamento sobre tudo quanto ocorreu, como expressão da vida cultural, social e política de uma sociedade criada e desenvolvida nos sertões de dentro, mas como parte integrante de uma sociedade

maior e de mais amplas dimensões, a brasileira. Sim. O nosso objetivo

é lançar um olhar especial para o nosso mundo interiorano, onde

ocorrem episódios sangrentos, ainda não bem esclarecidos e que a história factual conta bem diferente da história oficial.

Na verdade, propõe-se ampliar o quadro sobre coisas nossas em seu aspecto retrospectivo, resgatando-se obras e feitos esquecidos ou mal interpretados. Visa-se, também, abrir mais ainda as janelas do nosso patrimônio geográfico que a mãe natureza nos privilegiou, dotando-o de riquezas naturais, pólos paisagísticos, verdes santuários ecológicos, lamentavelmente ainda num estágio primitivo, bem longe dos olhos da indústria turística de ponta dos nossos dias. Esta trilha de repensar, faz-se em perfeita simetria com a vida de um intelectual de peso, nascido em nosso sertão, do qual é lídimo prolongamento, tal a forma com que ele se identificou em suas admiráveis obras literárias.

Destarte, o principal objetivo de nosso modesto trabalho não é

o de denegrir a imagem de quem quer que seja, até mesmo dos que

não passaram de literatos liliputianos. É, sim, de resgatar a verdade

histórica, despida de clichês modelados. Essa particularidade vem associada ao estudo biográfico de um homem de letras brilhante, cuja produção de intérprete da realidade social de seu tempo está repleta de momentos luminosos, na abordagem crítica do processo histórico. Uma manifestação eloqüente dessa colocação é a obra

intitulada A Guerra do Leda.

Já se disse e com propriedade: a biografia é um gênero deveras difícil, principalmente quando o biografado, embora seja um homem de vanguarda, por outro lado, fecha-se como um casulo no tocante à sua vida particular.

Em Parsondas de Carvalho há um grande vazio de informações, em todo e qualquer trabalho a seu respeito, em especial sobre sua

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

vida particular. Por isso, necessário se torna apelar para sua obra, ao ambiente histórico, à época agitada e de lutas libertárias em que viveu grande parte de sua existência terrena. Essa particularidade, ainda bem, muito ajuda se resgatar visíveis traços biográficos, visto como, o que se sabe de sua vida está refletida em suas obras. Além do mais, é bom não esquecer que Parsondas foi um homem que sempre teve participação direta e ativa nos marcantes episódios do seu tempo, sobre os quais ele narrava, ora driblando a hipocrisia dominante sem meias-palavras, com humor, malícia e um fascínio irresistível pela originalidade, fazendo com que, hoje, possamos saber, sem travancas em suas portas, os dois lados da nossa história, quais foram os nossos verdadeiros heróis e os vilões que devemos conhecer e combater de frente. Verdade duma clareza meridiana: ele, conhecedor profundo de que a verdadeira colonização do sul maranhense, contrariando o que ocorreu na civilização brasileira, processou-se do interior para o litoral, pelos caminhos abertos pelos intrépidos vaqueiros do São Francisco, sabia muito bem que quase tudo o que se conta sobre essa marcante arrancada histórica não foi exatamente como aconteceu ou se escreveu com a pompa de oficialidade.

Não é por outra razão, com certeza, que a ilustrada professora Mary Ferreira (mestra em Políticas Públicas da UFMS) afirma:

A história oficial tem sido omissa quando se trata de retratar

sujeitos que fizeram e construíram formas de rebeldia no passado que, opondo-se aos modelos tradicionalmente permitidos, não

se deixaram dominar pelo conformismo.

Nada melhor para fechar esta abertura do que a chave-de-ouro usada, de maneira feliz, pela respeitável crítica Lúcia Miguel Pereira, na sua Biografia de Machado de Assis, obra fundamental destinada ao estudo e conhecimento do magistral romancista: “À medida que se vai recuando para o passado, sentimos melhor o que representa para o Brasil esse mestiço que tanto elevou a sua gente.”

Sem sombra de dúvida: parafraseando tão bem lapidada jóia literária, à medida que se mergulha no passado, sentimos melhor o

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SÁLVIO DINO

que representa para o Maranhão “esse mestiço de apurada cultura” (Parsondas), que tanto elevou a nossa gente, em especial a do sul maranhense, pondo em relevo costumes, hábitos, episódios históricos, num painel de invejável beleza e invulgar colorido, por fim, autêntico epos sertanejo.

Mas é bom sempre lembrar-se: Parsondas não foi ainda, nem de longe, homenageado da maneira que ele bem o merece e sua memória está a pedir. O jornalista, o professor, o advogado, o escritor, o poeta, o sociólogo regional, este último, um facho de luz marcando sua presença nas lides do talento interpretativo; seis dimensões de uma vida que realmente demandam um estudo mais profundo, em honra do lúcido homem de letras e de ação política que ele foi.

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

Introdução

No longe de minha juventude foi que ouvi falar em Parsondas de Carvalho. Através de quem? Benedito Fontenelle, marido de minha sempre e querida “prima-tia” Margarida, filha de Grajaú, terra que embalou meus dourados sonhos de menino.

Fontenelle, inteligente e estudioso contador (antigamente chamado de “guarda-livros”), pertencente a tradicional família grajauense, sempre quando nos encontrávamos, já em São Luís, onde estudava eu o curso ginasial, persuadia-me a ler “O Sertão”, no seu entendimento, a maior obra escrita sobre a memória sertaneja. Entusiasta, apaixonado por Parsondas, falava-me horas a fio a respeito da vida de seu ídolo, carregada de lances audaciosos e até estupefantes, como seu relacionamento incestuoso com a irmã Carlota.

Jovem, inclinado para as letras, escutava com as mãos no queixo e larga simpatia os eloqüentes discursos do “guarda-livros” grajauense que, às vezes, numa exaltação exagerada, considerava Parsondas verdadeiro sábio sertanejo.

Foi meu pai, o saudoso desembargador Nicolau Dino, homem de saber e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, quem me presentou a tão discutida obra, de há muito tempo esgotada em nossas livrarias. Após lê-la e relê-la, em noites indormidas, confesso ter sentido um grande fascínio pela jóia literária. Realmente, fascinante obra escrita com tintas fortes, seduzindo todos aqueles interessados no processo de formação e desenvolvimento da civilização oriunda dos vaqueiros da Casa da Torre, que atravessaram

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SÁLVIO DINO

o Parnaíba e se estabeleceram nos Pastos Bons, d’onde, em seguida, rasgando sertões chegaram ao Tocantins.

Mais tarde, em caminhadas políticas pelos nossos sertões, passei

a ouvir com maior ênfase, através da literatura oral, impressionantes depoimentos em prosa e versos sobre o famoso escritor telúrico. Quem os dava? A gente sertaneja, gente de pele curtida e mãos calejadas, que em sua linguagem simples, ainda acredita que, apesar do sofrimento e do esquecimento em que vive, a vida vale a pena ser vivida — o que me faz lembrar Astolfo Serra falando sobre o homem do nosso interior: “No meio de uma natureza farta, vive pobre. Contenta-se com o pouco do passado e estende os limites de suas ambições ao lirismo da exaltação de uma grandeza de que perdeu.”

Na medida que ouvia episódios marcantes da vida tumultuada de Parsondas, mais ainda se infiltrava em meu pensamento a velha e inquietante dúvida: afinal, quem escreveu “O Sertão”?, ele ou sua irmã Carlota?

Com o meu ingresso na Academia Imperatrizense de Letras, e escolhendo Parsondas de Carvalho para ser o patrono de minha cadeira, o velho questionamento aflorou com maior força, obrigando- me, sem sombra de dúvida, a desatar o autêntico nó górdio existente em nosso mundo literário.

Destarte, o presente trabalho tem um duplo sentido: resgatar a memória de um escritor importante que a historiografia tradicional deixou marginalizado, como tem deixado muitos outros que prestaram assinalados serviços à cultura maranhense; provar, através da memória oral, de textos de alto valor histórico, de depoimentos idôneos, colhidos em fontes fidedignas, quem é, de fato, o autor do livro que, apesar de alguns senões justificáveis, deveria ser incluído no rol dos valiosos documentos que formam a verdadeira história do sul do Maranhão e de seu povo.

Como diria o grande romano que também foi homem de saber:

Alea jacta est.

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

CAPÍTULO I

Os homens de cultura do interior

Certa feita, na praça Raimundo Simas, em Grajaú, “curtíamos”

a beleza de uma noite de lua cheia. Luar de agosto. Estávamos os

três: Amaral Raposo, eu e Tonico Teles. A noite de verão se assemelhava àquela descrita pelo escritor imperatrizense Souza Lima, no seu festejado O Tupinambá: “Noite enluarada. O céu estava tranqüilo, qual inocente a dormir no seio maternal. A terra, envolta num manto de eflúvios siderais, tinha a doce atração de uma virgem noiva, sobre o leito nupcial.”

Após ouvirmos extasiados o violonista grajauense Tonico dedilhar a encantadora valsa Rosas, de sua autoria, passamos a falar sobre a cultura no interior maranhense. Advogava eu a tese, segundo

a qual, a produção literária no interior sempre fora fértil. Proveitosa.

Respeitável. Temos invejáveis jóias literárias. O que falta é divulgação.

O homem de letras que tem o seu habitat no espaço rural, por lhe faltar projeção ou melhores oportunidades, jamais fará parte de antologias ou academias. Daí porque os valores das capitais têm respeitabilidade e são eles que ditam com ares de verdade

incontestável as linhas mestras da vida intelectual. Sendo assim, precisávamos fazer alguma coisa a fim de melhor colocar o homem- cultura da hinterlândia na estante do pensamento nacional. Completei

o raciocínio de jovem sonhador citando, como exemplo, o próprio

Tonico Teles, que se vivesse no sul do país seria considerado um dos maiores musicistas do Brasil, quiçá, do mundo, ao lado de Turíbio

Santos e outras estrelas do mesmo porte.

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SÁLVIO DINO

O mestre Amaral sorriu com a mão na boca, naquele seu jeitão característico que deixava a gente sem saber se estava concordando ou discordando. A conversa morreu por aí. O brilhante jornalista, talvez, por estar mais ligado ao momento de musicalidade arrebatadora, limitou-se a contemplar a noite enluarada e pedir ao Tonico Teles tocasse mais uma valsa de seu belo repertório para que ele a acompanhasse no seu “pinho” de estimação.

Tempos mais tarde, em minha tenda de estudo e trabalho literários, encontrei a linha de pensamento do jovem idealista, melhor colocada e defendida com maior autoridade por Clarindo Santiago. Afirma o saudoso autor de O poeta nacional:

O Maranhão-ilha, quer sob o ponto de vista da organização física,

quer sob o ponto de vista da corporificação intelectual e moral, foi feito em grande parte pelo Maranhão-continente. Os exemplos são numerosos no passado e no presente. Basta-nos lembrar agora que das quatro figuras máximas, pedras angulares à do edifício da Atenas Brasileira – Gonçalves Dias, João Lisboa, Gomes de Souza e Odorico Mendes, somente o último é sanluisense.

E mais adiante:

Como bem observa o nosso talentoso coestadano Raimundo Lopes, num estudo sobre Maranhão Sobrinho, os escritores mais significativos da literatura brasileira são os que vieram de seio da natureza das matas dos sertões para a civilização. Refletem melhor sob a influência mesma a da primeira vida em terras virgens, as qualidades da raça e as sugestões do céu natal, quando não são puros regionalistas.

A Gonçalves Dias, educou-o, nos primeiros devaneios, o

continente maranhense. Trouxe-o o rio Itapecuru para o litoral

e para o primeiro empreendimento, que terminou pela

consagração do seu nome. No Maranhão, vemos sempre confirmada a observação que trazem de começo, de que o maior número dos seus homens de talento lhe é fornecido pelas regiões do interior.

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

Tal sorte não tiveram muitos dos nossos iluminados escritores que ficaram no interior, ao longo do tempo, por esse ou aquele motivo, sem condições de aparecer. Seus vôos no campo da literatura não passaram das balizas caboclas.

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SÁLVIO DINO

CAPÍTULO II

A genealogia dos Carvalhos

A genealogia dos Carvalhos é confusa e controvertida. Não é fácil descrever o tronco ascendente dessa família, de origem baiana, emigrada para os Pastos Bons de outrora.

Na verdade, ela deixa estonteada qualquer genealogista que tentar ir fundo em suas raízes.

Com apoio em O Sertão, na Guerra do Leda, em depoimentos orais e escritos outros colhidos alhures, eis o levantamento, embora precário e incompleto da linha ascendente ou indireta da árvore carvalhiana:

Em 1827, José Joaquim de Carvalho, avô paterno de Parsondas, emigrou com toda a sua família para o sul maranhense. Fixou-se perto do Porto da Chapada (Grajaú), num lugar onde fundou, com um punhado de escravos, a fazenda São Benedito. O patriarca Carvalho, natural da vila Santa Rita do Rio Preto, homem letrado, logo instalou uma escola no arraial Campo Largo (hoje extinto), onde se lecionava leitura, escrita, matemática, gramática e latim.

Estudavam nessa escol rural, além dos meninos da redondeza, os seus filhos Benício, José Irineu, Antônio e Miguel, este último, que veio a ser pai de Parsondas, Emigdio e Carlota de Carvalho. O avô José Joaquim, por sua vez, é filho d’uma misteriosa francesa Paula de Rochambeau, nobre desterrada da França em 1791 ou 1792. Paula era um espírito culto, mas imbuído de preconceitos.

Após umas aventuras fracassadas nos sertões do rio São

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

Francisco, a francesa, metida a aristocrata, libertou os escravos e dedicou-se a ensinar em casas de famílias. Foi aí que conheceu o lusitano José Marques de Carvalho, profundo admirador do seu saber literário. Amaram-se. O casamento não se realizou. Preconceituosa, Paula não quis esposar o abastado português, sem tradição de nobreza. No entanto, vivendo amancebados, tiveram três filhos:

Lourenço, Maria e José Joaquim de Carvalho, aquele que vimos em Campo Largo do chefe cabano Diogo Lopes de Araújo Sales, ensinando gramática, aritmética e latim, quando os fragmentos da Confederação do Equador, resto da coluna libertadora de 1823, vinham pedir asilo no território do Maranhão. Eis que, num dia de astral baixo, Paula deixou o português. Este, em busca d’outra companheira, acabou casando-se com uma índia de nome Messias, filha de criação “de uma senhora rica e sem filhos que a criou e educou na fé católica”. Com essa cunhã, José Marques teve, também, três filhos, sendo um deles Severiano de Carvalho.

N’O Sertão, lê-se, ipsis literis:

Severiano é o pai de minha mãe; Miguel Olímpio de Carvalho (filho de José Marques de Carvalho, terceiro filho de Paula de La Rochambeau e José Marques de Carvalho) casou-se com ela. Messias era uma mulher neurastênica, dominada por um nervosismo que a fazia irritável, intolerante, intransigente.

Maria do Socorro Coelho Cabral, em sua excelente obra

Caminhos do gado, no capítulo sobre O Sertão, fala, en passant, das

origens de Carlota Carvalho:

As informações de que dispomos são as que ela mesma, acidentalmente, registrou em sua obra. Dessa forma, sabe-se que seus antigos familiares viviam na Bahia, na Vila de Santa Rita do Rio Preto. Seu bisavô paterno e materno era uma só pessoa, um português ignorante, mas dotado de boa índole, trabalhador e econômico. A bisavó paterna era uma francesa inteligentíssima, possuidora de cultura intelectual, imaginação fantasiosa e sonhadora de virtudes e utopias. A bisavó materna era uma índia com um temperamento nervoso e quase intolerável que foi criada por uma família abastada.

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SÁLVIO DINO

Sobre Parsondas de Carvalho, lê-se na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão:

Se não fosse tão cedo surpreendido pela morte, talvez deixasse uma obra decisava para nossa a geografia humana. Mesmo assim, os poucos trabalhos que produziu indicam claramente o conhecedor direto do sertão e o escritor apurado que era.

OsOsOsOsOs irmãosirmãosirmãosirmãosirmãos CarvalhosCarvalhosCarvalhosCarvalhosCarvalhos

Onde nasceram os bisnetos da francesa de imaginação fantasiosa? Não há uma fonte segura, cristalina, que assegure o local de tais nascimentos. Fomos a fundo, buscando as raízes dos Carvalhos. Numa tarefa paciente, como a de quem joga a linha e espera o peixe fisgar o anzol, percorremos cartórios, consultamos arquivos, ouvimos velhas testemunhas, anotamos e coletamos informações, viajamos e (re)conhecemos lugares mencionados em pesquisas outras, mas jamais encontramos quaisquer dados sobre o local de nascimento dos polêmicos irmãos. Nem mesmo em Riachão, considerado o berço natal de Parsondas, localizamos qualquer registro cartorial a respeito.

É lamentável dizer-se: em busca de tão valiosos documentos

percorremos, em vão, todas as veredas da vida dos biografado. Um fato, todavia, nos causou profunda emoção: Parsondas, em todas as cidades do sul maranhense e do velho Goiás é querido e lembrado como um homem respeitável que sabia realmente escrever, joeirar a palavra certa, tendo como traço maior de sua produção literária o amor acendrado ao sertão e à sua gente.

E a irmã Carlota?

Demos asas ao pensamento, antes de falarmos da existência dessa enigmática escritora (?!) que entrou pelas portas dos fundos na história do Maranhão.

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

O feminismo moderno defende, com unhas e dentes, a tese segundo a qual a mulher, desde os tempos bíblicos, vem sendo marcada com um estigma de inferioridade. No próprio Gênesis, proclamam as líderes do movimento, “Eva é tirada de uma costela de Adão, o verdadeiro dono do paraíso terrestre. Formou, pois, o Senhor Deus, o homem do limo da terra, e assoprou sobre o seu rosto um assopro de vida, e recebeu o homem alma e vida”.

Quer, assim, a aguerrida linha de frente feminista dizer que o mundo da cultura tem sido feito pelo homem com o objetivo de satisfazer as necessidades masculinas, e a mulher sofre imposições que a transformam em objeto.

Respeitáveis vozes do belo sexo vêm reagindo com veemência contra esse rótulo discriminatório de tal modo que, hoje, em todos os campos da atividade humana ela, a mulher, ocupa um lugar de relevo, inclusive no mundo literário. Jamais deixamos de admirar e respeitar a mulher intelectual.

Todo o questionamento é que, em relação a O Sertão, existe um nó górdio. Agora mesmo, em 2006, a magistral obra completou 82 anos de publicação. É sim um aniversário de intrigantes interrogações! Já é tempo de se dar nome aos bois, no dizer sertanejo. Sim. Dizer-se quem é quem. Está na hora de deixar-se iluminar o templo de O Sertão com esse fogo falso. Vamos iluminá-lo com as luzes da verdade. Perfumá-lo, sim, com outro incenso que não seja o da mentira histórica. A esse assunto retornaremos mais adiante.

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SÁLVIO DINO

CAPÍTULO III

O filho do Riachão

Houve uma época em que não se sabia onde começava o Maranhão, onde terminava o Goiás. Tudo virgem. Florestas. Terras e rios que indicavam o caminho natural para aventuras e entradas em busca de riquezas e conquistas de toda espécie.

Os governos do Maranhão e de Goiás disputavam a posse e o domínio de áreas geográficas nos vastos, desconhecidos e lendários sertões, longes da costa marítima.

Velha a disputa!

Entre 1737 e 1740, no governo de João d’Abreu Castelo Branco, ocorreu sérios conflitos em terrenos auríferos situados na região tocantina. As autoridades maranhenses achavam que as minas de ouro em São Félix e Natividade – velho Goiás – nos pertenciam.

As Cartas Régias – sábias, por sinal – de 12 de março de 1798 vieram acabar, de uma vez por todas, essas disputas jurisdicionais. É que a Coroa decretara se promovessem os meios de descobrir o rio Tocantins pelo lado do Maranhão e melhor torná-lo navegável, a fim de se obterem efetivas relações comerciais entre as capitanias litigantes, incluindo a do Pará.

Governava então o nosso Estado, D. Diogo de Souza. Logo determinou o cumprimento das oportunas Cartas Régias. Partiu dos Pastos Bons a expedição encarregada de descobrir o Tocantins.

Em sua longa caminhada, os comissionados fundaram os núcleos que mais tarde se transformariam nas atuais cidades de Grajaú,

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

Riachão e Carolina. Fizeram parte dessa autêntica bandeira de conquista territorial, famosos sertanistas da época, tais como Elias Barros, Manoel Coelho Paredes, Antônio Pimenta, Antônio Francisco dos Reis, Antônio Moreira da Silva, Manoel José de Assunção, Alexandre Marinho e outros.

Eloi Coelho Netto, em sua respeitável História do sul do

Maranhão, afirma:

A vida e o município de Riachão foram objeto da Revolução

Provincial de abril de 1833, cuja cópia não foi encontrada em nenhum arquivo, tendo sido confirmada pela Lei nº 7, de 19 de abril de 1855. O território do município é abundantemente regado de rios e ribeirões permanentes, fontes perenes e várzeas umedecidas, onde, nas mesmas, nas campinas baixas, nos tabuleiros, com melhores disposições se encontram boas pastagens e terras férteis.

Pois bem. Nesses sertões de dentro, inflados de currais e chapadas verdes a se perderem de vista, encontram-se as raízes dos Carvalhos — Parsondas e Carlota.

O professor Eloy Coelho, ainda em sua citada obra, destaca “os homens ilustres do Riachão”. Após referir-se ao brilhantismo de Leopoldino Lisboa, Alfredo de Assis, Cosme Coelho de Souza e outros riachãoenses de notável projeção na literatura maranhense, afirma, com ênfase, que:

outro nome que merece referência é o de Parsondas de

Carvalho, também filho de Riachão. Inteligente, autodidata, jornalista, escritor, filósofo, sertanista, membro do Instituto

Histórico e Geográfico do Estado do Maranhão. Colaborou em

A Pacotilha, em São Luís, e em Jornal do Brasil, no Rio de

Janeiro. Co-autor de Carlota Carvalho, sua irmã, em O Sertão, o melhor livro sobre a gente e a terra sertanejas.

Mas, onde nasceu mesmo Parsondas? Onde a prova transparente de ter ele nascido lá no Riachão?

Goethe dizia que “nascemos em duas pátrias: aquela em que

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SÁLVIO DINO

molhamos a primeira fralda e a eleita pelo nosso coração.”

Será que Parsondas molhou a sua primeira fralda no Riachão e elegeu por opção sentimental o Grajaú como sua terra natal? Ou, ao contrário, teve sua fralda primeira molhada no Grajaú e escolheu o Riachão por determinismo do coração a terra do seu nascimento?

Onde a resposta?

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

CAPÍTULO IV

Nascimento, infância, mocidade

Já se disse e com propriedade que

da vida de Camões, o que parece certo são as incertezas

sobre ela. Sobre o local de nascimento do poeta só há conjecturas. Quanto à data de nascimento, idem. O que de mais provável existe é a sua formação cultural em Coimbra. Após ter publicado Os Lusíadas, em 1572, passou a receber modesta tença trienal, paga irregularmente. Morreu na miséria em 1580.

Essas reflexões encaixam-se como uma luva na vida de Parsondas de Carvalho. Realmente sua biografia é uma autêntica teia de aranha de dúvidas e incertezas. Filho de Miguel Olímpio de Carvalho e de quem? Nasceu em que ano? Onde?

Pela precariedade das informações quanto a esses pontos de alta relevância – o nome da mãe, a data e o lugar de nascimento — pode deduzir-se como é difícil reconstituir as pegadas de sua existência terrena.

No correr do tempo, ninguém tentou, pelo menos, reconstuir seu perfil biográfico. A tarefa, realmente, não é fácil. Pouquíssimos são os documentos contemporâneos diretamente envolvidos em sua vida. O que existe de fonte referencial está contido em O Sertão, em trabalhos jornalísticos publicados em A Pacotilha e em imprecisos dados colhidos na memória oral. Até hoje, nos faltam elementos definitivos a indicarem a data e o local de seu nascimento.

Parsondas morreu em Montes Altos, em 1926. Somente agora, confesso, sem maiores instrumentos de uma pesquisa tecnicamente

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] [

SÁLVIO DINO

perfeita, talvez por culpa maior — e é verdade — do próprio escritor sertanejo, um autêntico misantropo que se fechava no seu modus vivendi como um casulo. Nada se localizou sobre o dia, mês, ano ou lugar de seu nascimento. Buscas demoradas nos cartórios de Imperatriz, Riachão e Grajaú foram em vão.

Quanto ao local de nascimento, em virtude de saber-se que seu pai, Miguel Olímpio de Carvalho, ter sido uma das estrelas da tão badalada “roda de amigos”, presidida por Militão Bandeira Barros, de longa vida em Grajaú, há quem diga ter Parsondas de Carvalho nascido aí. Embora nada tenha se achado nos cartórios grajauenses, a presunção não é de toda absurda. Encerra um viso de probabilidade a ser conferido, com maior rigor, por buscas biográficas mais aprofundadas. O que todos concordam é que sua mocidade foi passada entre “a gente, do sertão que as terras anda”, no belo dizer camoniano.

A ascendência de Parsondas, pelo lado materno, também provoca profundas indagações. O pai foi Miguel Olímpio de Carvalho, cantado em prosa e verso em O Sertão. Já com relação à mãe, há um véu negro de mistério. Impressionante. Na árvore genealógica erguida por nós, noutro capítulo, não houve meio de identificá-la. Paira uma velada suposição que Miguel O. de Carvalho teria se casado mais de uma vez, ou então os Carvalhos emigrados de Santa Rita do Rio Preto para o sul do Maranhão, por onde iam passando, deixavam a fértil semente carvalhiana. Tal suposição é reforçada pelo que se observa em várias passagens de O Sertão.

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E a infância? Guimarães Rosa, o monstro sagrado regionalista, certa vez confessou:

Não gosto de falar em infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, intervindo,

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

estragando os prazeres. Recordando o tempo de criançam vejo por lá um excesso de adultos, todos eles, mesmo os mais queridos, ao modo de soldados e policiais do invasor, em pátria ocupada. Fui rancoroso e revolucionário permanente, então. Gostava de estudar sozinho e de brincar de geografia. Mas, tempo bom de verdade, só começou com a conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar-me num quarto e trancar a porta. Deitar no chão e imaginar estórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido com o personagem, misturando as melhores coisas da vistas e ouvidas.

Se um dia Parsondas falasse de sua infância, usaria a mesma linguagem do imortal Guimarães Rosa e, com certeza, enfatizaria que “gostava de estudar sozinho, de brincar de geografia, deitar no chão e imaginar estórias, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas.”

Não encontramos, realmente, em nenhum livro ou documento a menor referência sobre a sua infância, a não ser a que ele próprio, de leve, fala no capítulo VI da Guerra do Leda.

Com efeito, lá, falando sobre o medo que dele se apoderou quando criança, Parsondas demonstrava toda a sua capacidade criadora, cheia de simbologia e riqueza narrativa. Ouçamo-lo:

O medo não raciocina: cria visões e fantasia para as mínimas

coisas, proporções colossais. Quando menino, vi, em uma noite

de luar, clara, límpida, serena, como são aquelas noites de luar

daquela terra, onde as nuvens nunca passam de rastro nas fraldas das montanhas, como aqui, balançar-se, sacudida pela aragem, uma palha piaçaba, crescida à beira do caminho.

Tive medo.

O arbusto se transformou em árvore, cresceu e, aquela palha,

que alevantada na sua haste, mal excederia meu tamanho, pareceu-me tocar o céu. Quis correr e não pude, prendeu-me o receio de ser alcançado pela estranha visão.

Impressionante como esconde debaixo de sete capas o nome da terra onde nasceu! Que terra é esta, “onde as nuvens nunca passam

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SÁLVIO DINO

de rastro nas fraldas das montanhas”? Riachão? Grajaú? Quando, menino, viu em uma noite de luar, clara, límpida, serena, uma palha rasteira crescida à beira do caminho!

Todos, nós outros, filhos do sertão, gostamos de apelações sentimentais, de evocações dos tempos idos e vividos que embalaram nossos doces sonhos de menino

Um inspirado poeta grajauense, Orestes Mourão*, cantando saudosamente sua terra, exclama com musicalidade:

Unem-se, em roda, as serras uma a uma E erguem um círculo azul bem feito. É onde Grajaú, como um pombo d’alva pluma, Sobre seu ninho cálido se esconde.

Que terra linda! O céu, a relva em suma, Deslumbra tudo! E o sol dourando a frente Da mata e a lua prata dando a bruma Têm um quê estranho a quem ninguém responde!

E a mocidade? Onde passou? Também a esconde num cofre de sete chaves. No capítulo IV da Guerra dos Ledas, en passant, deixou escapulir um raio de luz dessa tão bela quadra primaverial:

“Mundico Ribeiro é para mim um amigo de infância, um companheiro dos dias da mocidade, passada nos alegres folgares do nosso sertão”.

Quando se pensa que ele vai deslanchar sobre os alegres momentos de sua juventude, foge sempre do assunto, como se deliberado propósito. É uma constante em todas as suas produções literárias e jornalísticas a evocação dos legendários sertões. Nunca, porém, se refere à terra que o viu nascer.

* Orestes Mourão; desembargador, poeta, jornalista. Nascido na cidade de Grajaú, MA; parente bem próximo do autor deste livro pelo lado materno.

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

RodaRodaRodaRodaRoda dedededede AmigosAmigosAmigosAmigosAmigos

Outra particularidade chama deveras atenção: Parsondas, em nenhum de seus escritos, dedica uma passagem especial ou enfática à cidade de Riachão. Já em relação ao Grajaú, nota-se um dedicação, às vezes, até exagerada. Parece que se enfeitiçou pelo chão exaltado pelo meu querido tio Orestes Mourão, como sendo a terra linda, onde o sol dourando a fronte da mata tem um quê estranho a quem ninguém responde.

Verdade. Quer lendo-se O Sertão, quer lendo-se a Guerra do Leda, observa-se, a olho nu, sem auxílio de qualquer lente de aumento, o amor parsondiano pela terra, da qual fala como um grajauense enfeitiçado.

À guisa de exemplo, trazemos à superfície dois trechos tipicamente parsondianos sobre a terra do sempre lembrado jornalista-poeta Amaral Raposo:

Das cidades e vilas do Maranhão é, talvez, o Grajaú a em que mais acentuadamente se fez sentir a decadência moral caracte- rístico geral do Maranhão, nestes últimos tempos. Pouco importa que materialmente se lhe possa assinalar algum progresso. Este nada pode influir nos costumes sociais. Tempo houve em que se dava nas escolas no interior uma ins- trução primária completa por professores que, além do que eram obrigados, gratuitamente ensinavam a alunos mais aproveitáveis matérias de curso secundário, como história, geografia e francês. E os livros dados para leitura dos meninos eram enciclopédias, contendo conhecimentos científicos importantes ou noções do quanto de útil o espírito humano há conquistado em milhares de anos. Nesse tempo havia gosto pela leitura, e o Grajaú possuía uma sociedade culta, civilizada, incapaz de consentir os horrores que Nicolau vai praticar. Militão, Manuel Mariano e outros amavam os livros, tinham-nos em grande quantidade e deles tiravam assuntos para uma con- versação erudita.

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SÁLVIO DINO

O exemplo dado pelos principais contagia.

A conversação que tira assunto dos livros ilustra e fascina.

A emulação que resulta é a grande escada por onde sobe a Hu-

manidade. Na atualidade, os diretores do espírito público no Grajaú não possuem, não querem, não têm livros; a conversação não tira assunto senão das intrigas locais e o ensino tem por professores pessoas às quais o partidarismo remunera os seus serviços políti- cos com o cargo para o qual não possuem a mínima habilitação.

O segundo, pincelamos de O Sertão, no mesmo estilo narrativo refere-se ao criador da notável “Roda de Amigos” que marcou épo- ca em Grajaú.

Chefe de grande prestígio, antes, durante e depois da Balaiada,

o juiz de Paz Militão prestou grandes serviços à Província do

Maranhão, sendo uma das mais relevantes as representações dos habitantes do rio Farinha e duas da Vila do Riachão, por eles obtidas, e deram em resultado a restituição de São Pedro de Alcântara — Carolina, a nova — a esta província, graças ao esforço despendido pelo deputado Cândido Mendes de Almeida para que fossem atendidas.

Mas não são estes serviços que o elevam e destacam sobre o nível dos outros homens. O que o imortaliza é a criação da “Roda de Amigos”, marco miliário que assinala essa época. Naquele tempo e naquele meio, Militão Bandeira Barros era o homem de maior cultura intelectual e bem desenvolvida inteligência.

Tinha o gosto das letras, possuía muitos livros, não para o ornato da sala, mas para os ler, instruir-se e discutir assuntos literários e históricos. Satisfazendo esse gosto, estabeleceu em sua casa uma palestra diária em que os apreciadores de literatura, uns por vocação própria, outros por imitação e alguns somente por serem agradáveis ao chefe do partido, vinham às tardes derramar erudição. Estabeleceu assim um hábito, um costume e um meio de ilustrar os homens. “Quem se habituou a ler, não vive sem o livro e sem

o jornal.

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

Em vez da vida alheia terá assuntos diversos para conversar e falará acerca de economia, indústria, geografia, fatos históricos, geologia e descobertas do espírito humano. Empregará na literatura e nestas conversações úteis e edificantes o tempo que gastaria na maledicência, na intriga, na calúnia, na adulação ou no jogo e na orgia.

Para isto as agremiações literárias são preservativas desses maus costumes.

Na incomensurabilidade do tempo e do espaço ele passou rápido como o bruxulear de uma luz num cantinho escuro do mundo. Dissolveu-se a “Roda de Amigos”, palestra literária que nunca mais teve a Chapada, atual Grajaú.

Muitos anos depois da morte do chefe da “Roda de Amigos”, distinguiram-se os que tinham sido da convivência com Militão Bandeira Barros pelo amor aos livros: Cláudio Saraiva Chaves, Miguel Olímpio de Carvalho, Liberalino Tavares Bastos, Manoel Mariano, Bernardo Costa, Raimundo Junqueira, Gustavo Tavares, Raimundo Tavares e Francisco Araújo Costa. Possuía, cada um, sua pequena biblioteca; tinham o costume de ler e prazer nas conversações sobre história e sobre literatura.

Parece ou não que Parsondas de Carvalho tinha o umbigo enterrado no chão grajauense? Por que tantas tintas carregadas de lamentação e doçura, quando evoca, do fundo da alma, a imagem da terra onde seu pai, Miguel Olímpio, ao lado de Militão Barros, tinha gosto pela leitura e amava os livros?

Já é hora de se deixar de lado os mergulhos sobre a enigmática vida de Parsondas. Esses mergulhos jamais chegarão a um porto seguro. Parsondas, muito de propósito, apagou pelos caminhos espinhosos da sua existência seus rastros. Por quê?

Evitemos o esquema da biografia linear, tradicional, com visos de uma escritura oficial. O retrato, creio que interessa de Parsondas de Carvalho é o de suas idéias, de seu pensar. De seus conhecimentos no campo da história, da geografia e da política maranhense na época

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SÁLVIO DINO

em que viveu. É preciso entender que sua obra não é um documento importante apenas para a compreensão e a visão dos iluminados primórdios da civilização semeada pela “pata do boi”. Também o é na medida em que nos fornece um clichê – não importa que salpicado de algumas deformações críticas e memoriais – de nossa sociedade da época, que ele mostrou pela ambição dos donos dos bois, pela insensibilidade ante o sofrimento do “escravo” da terra, pelo espírito de intrigas, calúnias e paixões, pelo abuso de poder, pelo mesquinho jogo de interesses econômicos e pelo autoritarismo político responsável pelos gritos e clamores coletivos, resultantes em posicionamentos de protestos como a Balaiada e a Guerra do Leda.

Seguro e profundo foi o seu saber sobre os caminhos do gado, hoje, povoados de cidades progressistas e sedentas da transformação em realidade do velho sonho do Estado do Maranhão do Sul. Claras foram suas idéias e bem vivos seus raciocínios. Se aqui e ali forçou a interpretação de um episódio em que tinha menor conhecimento para a argumentação, ou criou uma imagem mais ousada, na verdade, essas variações ou fantasias, tão ao seu gosto, não chegaram a comprometer o valor de sua fecunda obra, de cunho literário, artístico, sociológico, geográfico e científico.

Parsondas tinha cultura vasta, quer no domínio da História da Antiguidade, da História do Brasil, da Geografia e da literatura universal, como noutros campos do conhecimento humano, o que faz de seus trabalhos, além de obras de arte, peças de profunda sabedoria.

Sem sombra de dúvida, homem de pensamento, ele que no dizer de Dunshee de Abranches, “tinha o dom de pintar as cenas ao vivo”, escreveu belas páginas num meio hostil, servindo, assim, à cultura do sul maranhense mais do que o esforço humano permitiu.

OOOOO atoatoatoatoato literárioliterárioliterárioliterárioliterário eeeee ooooo fatofatofatofatofato políticopolíticopolíticopolíticopolítico

A descrição do fato, com tintas muito vivas, jorra luzes tão fortes no seu autor que muitas vezes ofusca aquele e projeta este. A magnífica

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

obra Os Sertões, ao longo do tempo promoveu muito mais Euclides da Cunha como escritor do que o próprio personagem dissecado —

o místico conselheiro do interior da Bahia.

O fenômeno literário ocorre muito mais ainda quando o escritor

não se deixa dominar pelos interesses em jogo, não coloca sua pena

a serviço das paixões momentâneas. Escreve com isenção, numa

nítida linha de imparcialidade, visando tão só a verdade do fato, através das lentes do ato literário para o melhor julgamento da sociedade civil ou da própria História.

Por isso, penso ter plena razão Marcos Almir Madeira em sua antológica conferência intitulada Garcia Lorca ou o sentido social da

literatura e da política, ao afirmar que:

O escritor de verdade não acabe em verdade escritor de partido,

alienando sua personalidade intelectual, deixando-se poluir pela vulgaridade, sacrificando a qualidade e a dignidade da sua construção literária. Escritor alienado por definição é definitivamente o engajado, o robô em prosa e verso, aquele que se entregou ao exclusivismo amofinante do partido, da seita ou da classe.

E acentua o renomado autor de A ironia de Machado de Assis:

A bem pensar, a verdade final é que a chamada função da

literatura será política à proporção que o escritor nos apareça imbuído dos motivos sociais e sua problemática. A política pela política não produzirá o escritor. A visão transpartidária da micro ou da macro sociedade, do meio e da época, esta, sim, é a ótica do escritor autêntico.

Essas considerações vêm-me à mente no momento que me debruço sobre a vida e a obra de Parsondas de Carvalho. Com ele teve os sertões outrora, teve o Maranhão um dos seus maiores escritores, com uma viva consciência social e uma enorme vocação humana. São essas forças energizantes do seu espírito contestador, lúcido e aberto que marcam sua personalidade de homem de letras, no meio hostil e na época conturbada em que viveu. Pelas condições

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SÁLVIO DINO

efervescentes do seu espírito idealista – uma espécie de ebulição interior – Parsondas jamais poderia ser um escritor alienado, engajado nos partidos de sua época, daí o porque de suas construções literárias serem inteiramente isentas e de uma autenticidade marcante em relação aos acontecimentos politicos ocorridos no sul maranhense e que, ele, teve a oportunidade de testemunhar e por isso mesmo, deixando-nos páginas vivas e impressionantes sobre um dos episódios mais negros e revoltantes da História do Maranhão.

A sua obra não é vasta. Nem poderia ser. Espírito irriquieto. Andarilho. Hoje aqui, amanhã ali, mais longe, sempre caminhando pelo Brasil afora, não poderia fixar-se para produzir obras de maior fôlego. Bem poderíamos chamá-lo de um guerrilheiro cívico em defesa de seus ideais democráticos e da sacrossanta causa da liberdade, onde necessária se fizesse, até mesmo nos mais recônditos rincões da Amazônia desconhecida.

Era 1919, Parsondas de Carvalho proferiu uma conferência sobre a Democracia no Centro Artístico e Operário de São Luís.

Incumbido de saudá-lo, o orador do Centro “leu uma longa exposição dos seus serviços prestados aos interesses nacionais e

à causa da liberdade do Pará, no Rio, em Goiás”. Salientou os

seus ideais pacifistas, socialistas, e lembrou a hombridade do

mesmo, recusando-se aos pedidos do Governo do Pará para silenciar sobre as violências do chefe de polícia Coimbra, seqüestrando a tipografia da Tribuna Operária e prendendo os redatores e uma multidão de proletários a 29 de abril, para impedir a manifestação operária do 1º de maio de 1893, a sua atitude como redator do Correio Paraense, diário de grande

formato e circulação, protestando contra a violência e pedindo

a soltura dos detidos”. “Concluiu afirmando que o partido

operário não esquecerá que lhe deve a salvação dos irmãos do Pará”. O intelectual sem jaça de alma e coração, diante da homenagem tão carinhosa e gratificante, disse que “tão espontânea quanto desinteressada manifestação, feita a quem não possui títulos de nobreza nem a mínima parcela de poder, causa a emoção que neste momento me domina”. E acentua deveras emocionado: “Chamastes-me à tenda em que se alberga

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

o trabalho, companheiro da honestidade, para dizer-vos o que é democracia, e eu sinto-me tão embaraçado como outro Sócrates, filósofo heleno, quando Meno lhe perguntou se era possível aprender a virtude”.

Após reflexões sobre o tema, Parsondas de Carvalho enfatiza de viva voz: “O homem da democracia tem vontade própria. Obra conscientemente. Se corre em defesa da organização social, fá-lo inteligentemente impulsionado pela conveniência da conservação das leis e da manutenção de um poder público, que as execute e garanta com as decisões o direito de cada um, evitando o conflito pessoal, que o retrogradar ao homem primitivo, ao homem das cavernas, ao troglodita. (A Pacotilha, edição de 29 de janeiro de 1919)

Disse linhas atrás que sua obra não é vasta. Em exaustivas pesquisas, em busca de suas produções literárias, foram detectadas, tão somente cinco, realmente publicadas em revistas e jornais, a saber:

A Guerra do Leda, publicada em forma de reportagem em A

Pacotilha nos anos de 1902 e 1903; Amazônia, do tartarugal ao

Gurupi; do Gurupi ao Balsas, conferências publicadas na Revista da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, em 1903; A Sílvio Romero, trabalho lido no Centro Republicano Português, e a conferência Democracia, proferida no Centro Artístico e Operário de São Luís. Estes dois últimos publicados em A Pacotilha, em 1919. Por mais que pesquisasse não se conseguiu localizar os inéditos Estudos Filosóficos e os livro Fatos e Contos, ambos de sua autoria, que não foram publicados ou foram extraviados.

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SÁLVIO DINO

CAPÍTULO V

A Guerra do Leda

Já na quadra republicana, governou o Maranhão, no período de 1898 a 1902, João Gualberto Toreão da Costa. Esse governador não passou de um autêntico fantoche nas mãos do todo-poderoso chefão da época, Benedito Leite. Todos os que filiados ao partido, reconheciam e proclamavam-lhe a autoridade incontestável, a começar pelo governador que com a maior dedicação e inexcedível lealdade, lhe prestava a devida homenagem, obedecendo-lhe, sem discrepância, à orientação, quer política, que administrativa. (Arthur Moreira, in “Gomes de Castro, Benedito Leite e Urbano Santos”)

“O pouco que fez João da Costa foi Benedito Leite que o fez”, observa o professor Mário Meirelles. E continua fazendo as suas judiciosas observações sobre o governo João da Costa o emérito historiador maranhense:

Não obstante, deixemos o registro, aqui, de duas ocorrências de maior repercussão em nossa vida político-administrativa. A primeira foi o chamado conflito do Grajaú, ou Guerra do Leda, lamentável incidente gerado pela intransigência político partidária que se fazia, então como hoje, no interior, e que acabou por degenerar em luta aberta e declarada entre os dois chefes daquele município, o situacionista Jeferson Nunes e o oposicionista Leão Leda, acusado, com os irmãos Moreira – Silvino, Nelson e Tomás José, de mandante do bárbaro assassínio, em 16 de agosto de 1898, do promotor público Estolano Eustáquio Polary. Tinha Leda a maior força eleitoral da zona, o que Benedito Leite procurava neutralizar com o dar àquele todas as posições de

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

mando e influência, de modo a aumentar-se o prestígio, daí nascendo uma animosidade acirrada entre os dois, o que levou Leda, coagido, a armar os homens de suas muitas propriedades e obrigar o adversário a fugir; desceram então tropas para o sertão, sob o comando do tenente-coronel Pedro José Pinto e a luta se fez sem quartel, até que Leda, não tendo mais como resistir à polícia, fugiu para o Goiás. Nâo obstante, a força legalista persistiu em quartelada em Barra do Corda e insistiu em desmandos, violências, arbitrariedades e vinditas. (Mário Meirelles. História do Maranhão, p. 328-329)

Pois bem. Todos esses revoltantes e tristes acontecimentos

ocorridos em Grajaú, descritos pela valorosa A Pacotilha, estão acostados neste livro (Anexos). Sua leitura, considero deveras importante, em particular pelas novas gerações que precisam ter uma visão bem ampla, não só da beleza dos nossos sertões, mas de todo

o conjunto que forma a grandeza sócio-econômico-cultural desta

região, que no anseio maior de sua gente, um dia tornar-se-á unidade federativa independente, velho sonho, pois o próprio autor

desconhecido do notável Roteiro do Maranhão e Goiás pela Capitania

do Piauí, escrito em 1770, já defendia a tese da criação de uma nova capitania (estado-membro), hoje, compreendendo todo o sul- maranhense.

No meu sentir, de toda a safra parsondiana, o que mais tocou no fundo de minh’alma de homem do sertão foi, com certeza, a descrição com tintas negras, dos episódios dolorosos que tingiu de vermelho os nossos verdes sertões de outrora. Aí é que exulta a figura extraordinária do escritor. Texto límpido. Cristalino, como as águas cantantes dos nossos riachos. Palava fácil, carregada de dramaticidade. Traços vivos. Cores fortes – fruto do seu iluminado espírito telúrico – brotam no fluxo de sua pena brilhante. Parece-me que, descrevendo os conflitos sócio-políticos, tingidos de sangue, Parsondas adquire a carga de combatividade de Lorca, impregnada de ânimo político, impulsionado não apenas de uma explosão emocional, mas, essencialmente, de corpo e alma para as causas sociais, a ampliar-lhe

o estado de espírito de revolta, aguçado pela injustiça e a violência contra os mais fracos

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SÁLVIO DINO

Sem sombra de dúvida: nenhum outro homem de letras sul- maranhese teve a coragem cívica ou soube escrever com tanta explosão vulcânica, associada à admirável lucidez analítica, os inesquecíveis momentos de terror, vividos e sofridos pelos nossos irmãos sertanejos, humilhados, massacrados, mortos, vítimas de indescritível chacina, nos sanguinolentos chãos dos sertões de outrora, embora a história oficial recuse-se a aceitar tão concludente verdade de visos bíblicos.

AAAAA outraoutraoutraoutraoutra facefacefacefaceface dedededede BeneditoBeneditoBeneditoBeneditoBenedito LeiteLeiteLeiteLeiteLeite

A memória oficial tem um grave defeito: sempre procura obscu-

recer o lado negativo dos homens ilustres que fizeram ou ajudaram a fazer a história. Sempre há exaltação de seus grandes feitos. Eles jamais aparecem despidos de suas honrarias e de seus medalhões. Para o escritor oficial ou oficioso, os homens públicos de relevo, que ficaram no bronze perene, nunca cometeram erros ou violências. Seus crimes são encobertos com tanto cuidado que somente o pes- quisador ou historiador isento e interessado na verdade histórica, consegue descer no fundo do poço de sua existência, às vezes marcadas de nódoas inapagáveis. Quem já ouviu falar no comporta- mento negativo de Luís Alves de Lima e Silva (Duque de Caxias), o responsável militar que sufocou a Balaiada? A literatura oral conta horrores dos atos praticados pelas forças legalistas, comandadas pelo famoso “pacificador do Maranhão”. Mas só os balaios eram assassi- nos, bandidos, hordas de jagunços e pistoleiros vulgares. Fizeram a anti-história.

A biografia de Benedito Leite é um invejável retrato, emoldurado

num belo quadro. Sua vida sempre aparece se confundindo com a própria história política maranhense. O “monstro sagrado” — sempre é chamado de um dos maiores estadistas do seu tempo. O professor Jerônimo Viveiros, em sua importante obra Benedito Leite: um estadista da República, derrama à cântaros, elogios ao conspícuo filho de Rosário.

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

Na obra do ilustre historiador, en passant, se fala nos distúrbios do Grajaú. Ali, o maior biógrafo de Benedito Leite, com uma vee- mência de advogado de defesa, isenta-o de toda e qualquer respon- sabilidade nos crimes hediondos ocorridos em terras grajauenses. Como? Limitando-se a transcrever os conhecidos expedientes ofi- ciais contendo “platônicas” determinações, que foram endereçadas ao comandante da chacina que ceifou a vida de centenas de sertane- jos. As ordens oficiais jamais foram cumpridas e não poderiam ser, haja vista que por detrás, outras eram dadas pessoalmente aos políti- cos que acompanhavam o partido do imbatível chefão da política maranhense à época dos referidos sanguinolentos fatos político-par- tidários.

Não entendemos o porquê da atitude do mestre Viveiros em relação à Guerra do Leda. Talvez, se ele fosse um filho do sertão que conhecesse bem de perto a alma do sertanejo, seu comporta- mento seria outro, bem diferente. Quem sabe, mostraria, com ri- queza de detalhes, as contradições e as fraquezas do poderoso chefão que deixou serem manchadas de sangue numerosas páginas da His- tória do sul do Maranhão. Ao longo do tempo vem sendo assim:

“nós, do sul maranhense, sempre fomos esquecidos, desprezados, subestimados. Jamais fomos valorizados na medida que o merece- mos.”

Chega de desabafos! Voltemos aos tenebrosos acontecimentos grajauenses. No início do século passado, a chamada imprensa livre do Maranhão não se conteve. Valorosos e independentes jornais, destacando-se O Norte, de Barra do Corda, e A Pacotilha, de São Luís, passaram a denunciar as violências institucionalizadas. A opi- nião pública precisava saber o que ocorria nos sertões, onde o povo vivia humilhado e as matanças, em nome do governo, eram feitas pelas forças policiais que lá se encontravam com a nobre missão de manter a ordem e a segurança públicas.

A valorosa A Pacotilha, em autêntica catilinária, afirma:

Houve tempo em que se constituíram quase um tributo dos chefes de polícia ocuparem-se de negócios em Grajaú, tendo de seguir até lá em comissão, algumas vezes na estação invernosa,

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SÁLVIO DINO

para o conhecimento de delitos realizados, tendo por instigação o ódio partidário ou de que este se aproveitava para perseguição dos adversários. Ainda há poucos anos, já no regime republicano, deu-se um destes últimos fatos, que teve como conseqüência a mais tremenda das perseguições contra um chefe político local adverso à situação dominante e que o fez, sem que tivesse parte alguma no crime ocorrido, retirar-se da comarca, para escapar à sanha dos seus rancorosos inimigos, que visavam prendê-lo na armadilha que lhe armavam, para, por esse meio, se verem livres do adversário.

Foram esses fatos delituosos que, segundo a lúcida pena de Parsondas de Carvalho, foram o “enredo daquele drama sangrento, cuja representação cobriu de ossos humanos o vasto sertão do Maranhão, com o beneplácito do senador Benedito Leite e com o veemente protesto da decente compostura dos homens da Carolina.”

“Nos artigos que aludimos em começo, estão descritos com seus dolorosos detalhes todos esses tristes acontecimentos do Grajaú”, escreve A Pacotilha em sua edição de 20 de janeiro de 1902.

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

CAPÍTULO VI

O Sertão

Taine, fiel discípulo de Augusto Comte, tornou-se conhecido pelas leis de sociologia, segundo as quais toda vida humana e social se explicaria por três fatores:

O MEIO – onde o indivíduo se acha submetido aos fatores

geográficos, bem como ao ambiente sócio-cultural e às ocupações cotidianas da vida;

À RAÇA – que é a grande força biológica dos caracteres

hereditários determinantes do comportamento do indivíduo;

O MOMENTO – pelo qual o indivíduo é fruto da época em

que vive, estando subordinado a uma determinada maneira de pensar

do seu tempo.

Não é novidade dizer-se: Euclides da Cunha, ao escrever sua monumental obra, estava, realmente, impregnado desse cientificismo dominante à época. No dizer, com acerto, de Roquette Pinto:

Com Os Sertões viu-se no Brasil, a introdução do espírito científico na literatura histórica, o colorido romântico em todas as suas páginas, sintonizando-se com o meio intelectual, a identificação do escritor com natureza, cujos acidentes ele estava perfeitamente preparado para entender.

Em importante ensaio sobre Euclides da Cunha, Lourenço Dantas Mota ressalta, citando Antônio Cândido, por ocasião do cinqüentenário de Os Sertões:

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SÁLVIO DINO

Muito mais que sociólogo, Euclides da Cunha é quase um iluminado. As simplificações que operou, na sínteses das grandes visões de conjunto, permitem-lhe captar a realidade mais profunda do homem brasileiro do sertão. Com seu livro, Euclides da Cunha veio mostrar que a literatura não deve ser mero exercício de beletrismo, mas estudo e pesquisa. E veio mostrar também que a criação literária, a partir da observação dos fatos brasileiros, é o caminho para criar-se uma verdadeira cultura brasileira.

Existiram os sub-Euclides? No dizer do saudoso Franklin de Oliveira, homem de cultura de vastos saberes, “o modelo euclidiano, corte transversal na civilização brasileira, chegou ao Maranhão exercendo grande influência em escritores renomados como Raimundo Lopes: O Torrão Maranhense, e Astolfo Serra: A

Balaiada.”

Um outro querido escritor conterrâneo nosso, Rossini Corrêa,

em sua festejada obras Atenas Brasileira: a cultura maranhense na

civilização nacional, com bastante lucidez, ressalta:

Raimundo Lopes e Antônio Lopes levaram à frente o positivismo de Celso Magalhães. Raimundo Lopes, denotando já a influência de Euclides da Cunha, com Os Sertões por modelo seguido em

O torrão maranhense e Uma região tropical. Modelo euclidiano

de prosa ensaística e de método de abordagem que chegaria, décadas passadas, e ainda, e de novo, pelo segundo motivo, a

Astolfo Serra, autor de A Balaiada, e de Caxias e o seu governo civil na Província do Maranhão.

Em terras gonçalvinas, tivemos outros seguidores do modelo euclidiano? Nos meus tempos de ginasiano, quando se falava em O Sertão era como se falasse de um monstro sagrado. Só existia na estante ou no baú de poucos. Com sua edição esgotada, quem o possuía o guardava como se fosse um diamante raro e cobiçado. De sorte que não era fácil lê-lo. Ademais, não havia menor interesse nas instâncias literárias da capital do Estado em reeditá-lo. Faltava um toque de maranhensidade em relação ao magistral ensaio de crítica histórica sobre a civilização maranhense e suas bases: a terra, o homem

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

e o espaço cultural. O tempo foi se passando. O livro escondido, tal

qual aquelas belas virgens sertanejas dos “lábios de mel”, que só se sabe de suas existência de quando em quando e, assim mesmo, por ocasião das marcantes festas, onde toda a família é obrigada a comparecer. Criou-se, destarte, verdadeira lenda sobre a decantada

jóia sertaneja. Passou-se a dizer, através da memória oral, ser a obra

a melhor que já se publicou, até hoje, sobre nossos sertões, com seus

bem vivos traços no processo de conquista, ocupação e colonização, desde os Pastos Bons de outrora. Quem teve a felicidade de lê-la, de logo sente a beleza das tintas de um artista de extraordinária capacidade de ver e descrever essa autêntica Canaã bíblica de tantos mistérios, encantos e riquezas.

Na verdade, nela predomina o binômio cor-som, cuja tessitura somente poderia ser de um escritor guiado por forças telúricas e que tivesse estreito e forte contato com o “azul sertão formoso e

deslumbrante”, no sentir do nosso notável Sousândrade. O Sertão é verde mural, povoado de manhãs ensolaradas, onde se sente a tranqüila respiração dos pastos floridos e o cheiro da terra pisada de fresco pelos cascos duros do gado; onde se ouve ao longe o cantar das seriemas nas chapadas verdejantes e se depara com o encanto de nossas riquezas naturais, tudo dando maior beleza às nossas

Quem o escreveu, o fez incorporando ao território estético

várias províncias do saber, com agudo senso de observação sociológica, vindo daí a presença do espírito científico, com certeza conquistada na trincheira de vanguarda euclidiana.

O Sertão se divide em três partes, exatamente no modelo euclidiano, dando-se ênfase à paisagem física, à paisagem social e à paisagem humana, o que demonstra a estreita e forte identidade de quem o escreveu com os mapas geográficos maranhenses. A obra ora analisada, portadora de palpável tripartite, obedece ao determinismo da época em que foi escrito, muito embora aqui, ali e mais adiante, inteligentemente dê-se um bom tempero, introduzindo outras variáveis, o que bem demonstra perspicácia a história do Maranhão, com uma visão diferente da historiografia oficial, ou seja,

paisagens

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SÁLVIO DINO

do interior para a capital, vendo-se a Balaiada, por exemplo, não como um bando de fascínoras e bandidos

Nesse belo painel, inspirado em diversas fontes, observam-se, em primeiro plano, largas pinceladas geológicas e geográficas, entrando pelos Pastos Bons de outrora, derramando críticas, idéias,

informações e contestações sobre a dinâmica de dois polêmicos momentos da vida institucional maranhense: a adesão do Maranhão à Independência (1823) e a Balaiada (1839-1841). Num segundo bloco, como se usando um grande telão, descreve as bacias dos rios Grajaú, Mearim, Pindaré e os tributários Farinha, Santana, Lajeado, Alpercatas, Balsas e outros de menor porte. Não deixa de incluir aí, em expressivo relevo, o Parnaíba, o Tocantins/Araguaia e as raízes históricas das cidades de Grajaú, Riachão, Carolina, Balsas, Porto Franco, Boa Vista (hoje Tocantinópolis), Marabá, Imperatriz, Arari

e Vitória do Mearim. Na terceira e última pincelada, descreve – num

“Diário de viagem”, a bordo do navio “Acre”, rumo ao Rio de Janeiro – toda a beleza das nossas costas marítimas, demonstrando vastos

conhecimentos da história universal e da história pátria, e como viu

e sentiu a cidade maravilhosa ainda nos primórdios do século XX.

Agora é de perguntar-se: quem teria fôlego de escrever com tanto fulgor as páginas antológicas sobre os altos sertões, hoje incorporadas ao patrimônio cultural gonçalvino?

Lendo-se com vagar as obras de Parsondas, observa-se a olho nu, sem auxílio de qualquer lente de aumento, a presença do cientificismo euclidiano, associado, de maneira clarividente, a um retrato, em corpo inteiro, de tudo quanto ocorreu no passado como expressão de vida de uma sociedade criada e desenvolvida em pleno mundo sertanejo, mas como parte integrante maior e de mais amplas dimensões, a brasileira. E os traços fundamentais desse retrato estão delineados – nos episódios nascentes da vida físico-social-política do sul maranhense, tão bem registrados — no Dicionário Histórico-

Geográfico da Província do Maranhão, de César Marques, em A Carolina ou a Definitiva Fixação entre os Territórios de Maranhão e

Goiás, de Cândido Mendes de Almeida, e nos trabalhos de campo,

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

repassados de largo senso de observação do famoso Francisco de Paula Ribeiro, onde, com certeza, Parsondas de Carvalho buscou inspiração e subsídios a fim de fazer sua história do homem sul- maranhense, com uma postura crítica, inteiramente diferente da que se encontra inserida em certos livros didáticos, enxertados de cultos patrióticos, regras elitistas e lições de moral e civismo, tão a gosto da cultura oficial.

Pois bem. Nos albores do século XX, quando de suas decantadas viagens ao Rio de Janeiro, Parsondas bem relacionou-se com os escritores estrangeiros, em particular positivistas, autores da moda, no tocante às ciências sociais modernas. Identificou-se com teóricos europeus, de excepcional destaque no campo das relações do homem com o meio geográfico. Sem sombra de dúvida leu e releu o livro de maior repercussão à época: Os Sertões. Por certo, com os olhos regalados de sertanejo curioso e inteligente, repensou e fez profunda reflexão sobre a importância da historicidade na formação social dos sertões de dentro. Deve ter se encantado com o saber-fazer euclidiano em suas linhas belas e metodológicas “estudando a terra, do geral para o particular, desde a caracterização do planalto central que lhe pareceu ser a mais acertada e expressiva, até à do âmago do cenário físico dos sertões, mediante traços fortes de remarcada expressão.”

Partindo-se dessas coordenadas, não temos a menor dúvida:

quem escreveu O Sertão possuía sólida e onímoda erudição e conhecia, passo a passo, a geografia regional, tudo isso associado a abalizados estudos históricos, desde quando os virgens pastos bons foram rasgados e ali apenas existia a tosca cruz de madeira, objetivando assinalar a conquista pelos bandeirantes, do território que o pé do branco ainda não pisara.

É verdade: quem o escreveu o fez com tintas bem fortes, pois o sabor tem o estilo euclidiano, voltado para o novo processo de abrasileiramento da arte na produção literária. Associe-se, ainda, um curioso detalhe: não tem menor traço feminino no seu rosto e muito tem de másculo no corpo de sua movimentação. Por isso, é de afir- mar-se, sem maiores rodeios: a questionada obra-prima, um clássico

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SÁLVIO DINO

do nosso regionalismo, é, sim, de autoria do sociólogo autodidata, João Parsondas de Carvalho, que morreu chegando duma viagem a cavalo pelos sertões, que ele tanto adorava e o cantou em prosa e verso, atendendo a chamado da história e a um apelo que lhe faziam do fundo dos tempos os imorredouros paulistas, pernambucanos, baianos (seus ancestrais) que conquistaram, alargaram, ocuparam, povoaram e engrandeceram os espaços geográficos do sul maranhen- se.

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

CAPÍTULO VII

O pai de Parsondas

Personagem marcante que aparece às páginas tantas de O Ser- tão: Miguel Olímpio de Carvalho. É louvado como o construtor de primeira linha da tão sonhada estrada que, atravessando as matas virgens de Monção, daria melhor acesso à capital da província do Maranhão, dando, assim, fácil trânsito às boiadas do alto sertão que só caminhavam rumo ao Pará. Pois bem. Numa linguagem laudató- ria, lê-se na magistral obra sertaneja:

De tudo isto informado, o presidente da província do Maranhão, Ayres do Nascimento, incumbiu Manoel Jansen Ferreira, juiz de Direito da Comarca de Carolina, que compreendia Riachão e Imperatriz, contratar com pessoa idônea que fizesse pelas condições de maior barateza, tendo em vista o interesse geral, uma estrada da largura de quinze palmos, através da mata, pela qual passassem livremente cargas e boiadas. Empregando a sedução de sua palavra e o prestígio de sua autoridade, o juiz de Direito Jansen Ferreira conseguiu que meu pai, Miguel Olímpio de Carvalho, e um compadre deste, Raimundo Mota, contratassem por quatorze contos e fizessem a estrada para receberem este pagamento depois de feito o serviço. Em vez de abeirar o Pindaré em mais longa extensão, passando terrenos alagáveis em que, sob a sombra de espessa mata, cresce uma pequena palmeira – ubim –, meu pai buscou a cabeceira do Buriticupu, fora da mata, e à entrada nesta, encetou o trabalho que seguiu o curso deste tributário do Pindaré, obtendo considerável diminuição de largura da mata e melhor terreno. Passando o governo a seu substituto em 23 de abril de 1865, o

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SÁLVIO DINO

presidente da Província, Ambrósio Leitão da Cunha, depois barão de Mamoré, disse no relatório:

É dever meu não dissimular a V. Exa. a pouca confiança da província ter esta estrada, em vista da exigüidade da quantia por que foi contratada uma estrada que tem que passar mais de sessenta léguas de mata. Oxalá que eu esteja em erro. Em maio do ano seguinte (1886), o presidente Lafayette Rodrigues Pereira, na sua fala à Assembléia Provincial, disse:

Mas, como abrir pela módica quantia de 14:000$000 uma

estrada que corta mais de sessenta léguas de mata virgem? Me parece que, por maiores que sejam o zelo e a boa fé dos

contratantes, com essa quantia eles só poderão abrir uma picada, trabalho que ficará longe de preencher os fins do governo. Três meses depois, em fins de agosto de 1886, a estrada estava feita, boa, limpa transitável por cargas e boiadas, como por carros se estes fossem usados no interior do Maranhão.

Comentando, César Maques, no seu Dicionário Histórico-Geográfico,

disse: “É pouco, por certo, 14:000$000 réis para abrir uma estrada de 60 léguas abatendo mata secular. (O Sertão, p. 270-271)

É bem saudável a invocação do testemunho de César Marques no episódio da construção de estrada de alta valia, ligando os sertões de dentro a Monção, porto de suma importância à época, de vez que, por lá, embarcavam as boiadas sertenejas destinadas à capital maranhense.

Por que? Porque o arrojado sertanista que conhecia palmo a palmo as matas inóspitas de Monção, esqueceu ou não quis comentar passagens outras da histórica estrada, traçadas pela pena, isenta e ainda hoje respeitável do nosso inolvidável autor do Dicionário

Histórico-Geográfico do Maranhão. Quais, por exemplo?

] [

Sobre esta importantíssima estrada da Carolina para o Maranhão, escrevemos no Publicador Maranhense, nº 216, de setembro de 1866, o seguinte:

Sendo esta estrada de conveniência intuitiva, como disse o Exmo. Sr. Dr. Lafaiete em seu relatório, pois tem o por fim ligar uma parte importante do alto sertão a Monção, onde tocam os vapores

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

da Companhia Fluvial e ao mesmo tempo abreviar o caminho para Carolina.

E mais adiante:

A primeira notícia que dela se encontra está na página 50 do relatório, com que em 24 de novembro de 1863 o Dr. Leitão da Cunha passou a administração ao desembargador Ayres do Nascimento. Ainda nesse tempo aguardavam-se as informações pedidas pelo Sr. Campos Melo ao juiz de Direito da Carolina, o Sr. Dr. Manoel Jansen Ferreira, hoje na presidência, “para tomar- se uma resolução definitiva sobre aquela utilíssima via de comunicação. Em 3 de maio de 1864, disse o desembargador Ayres Nascimento que, tendo recebido as informações do Dr. Juiz de Direito da Comarca da Carolina sobre essa estrada, “de cuja abertura se esperavam benéficos resultados à Província, o havia autorizado em 6 de fevereiro do dito ano a fazer o contrato de 14:000$000 réis” de que tratava uma das propostas enviadas e abonadas por ele. Em 23 de junho oficiou o Dr. Juiz de Direito ao presidente participando ter feito o contrato, o qual submetia à aprovação dele, com o cidadão Raimundo Teodoro da Mota, em quem encontrou “a necessária probidade, aptidão, atividade e bens suficientes para garantir as quantias recebidas, sendo seus fiadores muitos abonadores.

Curioso, muito curioso, em longos outros trechos sobre a parce- ria que redundou na construção da estrada, à época considerada de integração entre os altos sertões e Monção, ponto de apoio dos va- pores que faziam linha para São Luís, em cláusula nenhuma vê-se o nome do senhor Miguel Olímpio de Carvalho. Aliás, o historiador César Marques ignora totalmente a existência desse suposto parcei- ro em tal empreitada. Enfatiza, sim, que

o arrematante Raimundo Teodoro da Mota não é um

miserável garimpeiro que quis especular com a credulidade do governo, e sim um verdadeiro patriota que não duvidou sacrificar as comodidades da sua vida para economizar de maneira espantosa os dinheiros públicos, a fim de dotar a sua província com melhoramento de tanta importância.

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] [

SÁLVIO DINO

Por motivos óbvios, não vamos alongar mais conversa sobre esse assunto, tão indigesto, por certo, para a memória dos irmãos Carva- lhos. Só temos a acrescentar: todas as vezes em que se tenta resgatar as origens e a vida do clã, emigrado lá dos cafundós dos sertões baianos, na medida que se cruzam fios narrativos encontramos, de cara, episódios truncados, entremeados de afirmações duvidosas ou inverídicas.

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

CAPÍTULO VIII

A irmã Carlota

Há uns porquês deveras indecifráveis na vida da enigmática irmã do escritor sertanejo. Parece que zombateiramente a esfinge nos desafia: decifra-me! Não passa de um pseuda literata que por si só demitologiza o mito de escritora. Com todo o respeito que se possa ter pela sua memória, não encontramos, inclusive, entre pessoas que a conheceram bem de perto, qualquer referência sobre suas origens ou passagem pelo mundo das letras. Até mesmo no báu da memória oral, nada localizamos. Sempre a esfinge rindo da gente!

No terreno da memorialística, a responsabilidade dos desvios ou equívocos de julgamento, via de regra, pende contra quem traba- lha em cima de testemunhos, documentos antigos, fontes de infor- mações, colhidos na memória popular. Não se sabe se muitos fatos ou episódios ditos verdadeiros realmente aconteceram. Por isso, tra- zemos à superfície, num rigoroso exercício de transparência, peda- ços de vida de uma exótica mulher que assumiu consigo mesmo o compromisso de não revelar o menor fio de vertente de sua existên- cia terrena. Não existe, com ou sem riqueza de detalhes, em termos de biografia, dados pessoais ou qualquer outra informação ao alcan- ce da pesquisa, capazes de nos levar às primeiras fraldas da solteiro- na que viveu anos e mais anos inteiramente confinada à sombra do iluminado irmão, escritor festejado, autêntico guardião da cultura dos nossos sertões.

É de fazer-se pequena ressalva: em O Sertão, tão polêmico, tão másculo, mas despido do menor traço feminino, foi que se encon- trou, embora bem fragmentado, o cordão umbilical dessa misteriosa

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SÁLVIO DINO

criatura que jamais se soube onde, quando e como veio ao mundo dos mortais. Por esse tênue fio, de fato, enxergou-se longe, bem dis- tante, os rastros de uma família emigrada da Bahia em meados do século XIX, tendo se arranchado nas velhas chapadas, onde não se sabia, realmente, onde era Riachão, onde era Grajaú. Toda e qual- quer varredura nas raízes da árvore genealógica dos Carvalhos em busca da pessoa que ainda hoje está por trás do mito de escritora, não consegue reunir nem mesmo algumas pedrinhas capazes de aju- dar a montar um mosaico sobre sua vida, digno de registro nas pági- nas da nossa história. É como afirma com propriedade a respeitável escritora Maria do Socorro Coelho Cabral em sua admirável Cami- nhos do gado: “Sobre Carlota Carvalho, as informações de que dis- pomos são as que ela mesma acidentalmente registrou em sua obra”. En passant, fala em seu pai “Miguel Olímpio de Carvalho e em Severino de Carvalho, pai de minha mãe”.

Por que os Carvalhos sempre se esconderam nos chapadões de dentro? Vamos à irmã. Contemporâneos seus, que com ela convive- ram bem de perto, diante de muita insistência, assim traçaram o seu perfil físico: “Era gorducha, baixa, olhos graúdos, castanhos claros, cabelos mais para crespos do que para lisos. Gostava de uns vestidões largos, compridos.” O velho Marcos Saraiva, oficial de Justiça de Imperatriz, já falecido, que fora vizinho dos irmãos Parsondas e Carlota, ali na velha rua 15 de Novembro, pelos idos de 1925, de tanto insistirmos, certa vez segredou-nos, bem baixinho, como se estivesse com receio de ferir a memória de alguém, escondida por uma das salas do fórum imperatrizense, a nos escutar:

Já que você insiste tanto em saber da vida dos finados, só posso adiantar que ela não era feia. Meio graúda, de pouca conversa com os vizinhos, parecia ser uma mulher viajada, mas não de- monstrava ser de muitos saberes. O seu Parsondas era falador pelos cotovelos. Gostava duma pinga, bem dosada. Provisionado encrenqueiro, brigador e sabido. Sempre carregando uns livros e jornais velhos debaixo do braço. Avesso a ambientes sociais, ninguém freqüentava sua casa. Andava muito rumo da delegacia de polícia, do cartório e da casa dos Milhomens.

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

E sorrindo:

O povo dizia à boca pequena

gosta-

va de contar uma história que falava de dois pombinhos que ensinavam um ao outro o jeito de fazer de dois bicos um só bico.

que eles viviam amancebados. Ele, quando metia umas

Eu sei onde você quer chegar

Analisemos, agora, uns porquês que tanto aguçam a curiosidade

dos interessados em resgatar a verdade histórica sobre quem, de fato,

é o autor de O Sertão, obra de arte literária, belo ensaio histórico-

sociológico, de forte influência euclidiana, em que o estudo da terra,

a descrição do meio físico, a análise do sertanejo nos seus tipos, cos- tumes, crenças, cordialidade, espírito de luta, comportamento ético

e social mostram que quem o escreveu foi um homem de ciência,

geógrafo, geólogo, sociólogo, filósofo, historiador, além de ser exí- mio estilista.

Pois bem. No livro supostamente de sua autoria, dona Carlota, numa das belas passagens concernente a uma viagem marítima, diz:

Ao cair da tarde de 28 de abril de 1919 embarquei no paquete “Acre” com destino ao Rio de Janeiro. O vapor viajou de noite e eu não pude dizer “adeus” à formosa Javiré porque dormia em meu camarote. [ ] De manhã, cedo, apressada pelo desejo de ver mais uma vez a “terra em que ninguém conhece o frio e as árvores são sempre verdes”, levantei-me, saí do camarote, subi a escada que conduz ao convés e fui debruçar-me na amurada de estibordo. Pela vastidão do oceano dilatei a vista. Não mais a vi. Há muito sumira no horizonte. De mais fundo, o “Acre” navegava ao largo para distanciar-se dos alongados baixios do delta do Parnaíba. Ninguém via terra. Só o oceano, profundo, azul ferrete, manso, tranqüilo. Na proa, espumas brancas aljofrando, levantadas pelo embate da onda no navio. Senti perder a esperança de tornar a ver os campos em que assentam serras altaneiras e deslizam rios e interroguei aaaaa mimmimmimmimmim

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SÁLVIO DINO

mesmomesmomesmo:mesmomesmo O que há no mundo tão bom e belo como território entre o Parnaíba e o Araguaia? Que terra possui tantas nascen- tes de cristalinas e perenes águas, tantas espécies de frutas natu- rais saborosas e nutritivas, frondosas árvores, palmeirais imen- sos, aves canoras, clima suave como os “pastos bons” de outrora?” (O Sertão, 1924, p.359-360) (O grifo é nosso)

Não contive a minha curiosidade: pessoalmente pesquisei todos os jornais da época procurando detalhes dessa romântica viagem. Nada encontrei. Mas localizei, sem, em A Pacotilha, edição de 28 de referido mês e ano, a viagem marítima de Parsondas de Carvalho pelo navio “Acre”, assim registrada:

PARSONDASPARSONDASPARSONDASPARSONDASPARSONDAS DEDEDEDEDE CARVALHOCARVALHOCARVALHOCARVALHOCARVALHO Seguindo hoje para o Rio de Janeiro, veio trazer-nos as suas despedidas o nosso confrade e ilustre historiador conterrâneo Parsondas de Carvalho, a quem se deseja os votos de uma boa viagem.

E dona Carlota não embarcou no navio ou viajou clandestina- mente? Como se sabe, em 1919 foi o ano dourado de Parsondas no mundo literário de São Luís. Nessa época proferiu importantes con- ferências nos seletos auditórios são-luisenses. Os aplausos ao já fa- moso escritor, por sinal um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, foram de tal sorte que, incentivado por amigos e admiradores, ele postulou, embora em vão, através do go- vernador Paulo da Cunha Machado, que a Assembléia Legislativa mandasse publicar, em forma de livro, suas obras históricas sobre nossos sertões. Isso registra o consagrado historiador Mílson Coutinho

em O Poder Legislativo do Maranhão - 1830-1930. O Diário Oficial

do Estado tal fato também noticia (Ed. de 6 de março de 1919, p. 3).

Outra particularidade: na mesma viagem ao Rio de Janeiro, ela, referindo-se a si própria:

Senti perder as esperanças de tornar ver os campos em que as- sentam serras altaneiras e deslizam rios e interroguei e aaaaa mimmimmimmimmim

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

mesmomesmomesmo:mesmomesmo o que há no mundo tão bom e belo como o território entre o Parnaíba e o Araguaia?” (O Sertão, 1924, p. 359) (O grifo é nosso)

Numa colocação assemelhada, sendo personagem uma mulher, o mestre Machado de Assis afirma: “Gosto imensamente destes gran- des silêncios, porque ouço-me a mim mesma”. (Histórias da Meia- noite, p. 146)

A solidão do camarote teria deixado o passageiro Parsondas, na

noite de 28 de abril, tão estressado ou com o espírito ralado de sau- dades dos Pastos Bons de outrora, a ponto de trai-lo quando da construção da frase trazida à superfície?

Noutra passagem da questionada obra referente a uma excursão de professores em férias escolares, quem a escreveu, sensível à bele- za dos grandes lagos e dos volumosos rios amazônicos, solta o pincel de brilhante paisagista:

Em uma tarde calmosa, tive desejo de refrescar-me à sombra das árvores que ladeiam o riachinho de águas cristalinas que no dava fonte e apetecia bebê-la, certocertocertocertocerto de estar mais fria que a do pote que tínhamos no rancho. (O Sertão, 1924, p. 323)

Esqueçamos, novamente, a frase pelo aspecto gramatical. Ouça- mos mais uma vez Machado de Assis em um período em que cai bem certo a expressão certa: “Quando ele vier, fique certa de que será a primeira a quem eu confiarei tudo.” (Op. cit., p. 141)

E agora, parece que, inspirado, o cronista do passeio dos profes-

sores de Bailique, fazendo turismo pela foz do Amazonas, deixou-se trair pelos encantos do Tartarugal e, em certo momento, sentindo sede, bebeu a água de fonte cristalina, “certocertocertocertocerto de estar mais fria que a do pote que tínhamos no rancho”? Mais um cochilo literário do mestre-escola Emygdio Olympio de Carvalho (outro irmão desco- nhecido) ou do próprio irmão conhecido (Parsondas), que em com- panhia dela ou sem ela – lá pelos bens distantes dias de dezembro de 1887 – lecionava na ilha de Bailique, no aprazível recanto do Amapá, então distrito da Província do Pará. Apesar de interessantes buscas

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nos arquivos públicos não conseguimos localizar o ato de nomeação de dona Carlota Olympio de Carvalho como professora da paradisíaca ilha hoje pertencente ao Estado do Amapá, bastante de- senvolvida, tendo como principal atividade econômica a pesca e ex- tração de madeira e palmito. No entanto, localizamos o ato de cria- ção de uma escola pública naquele distrito, então paraense (vide Anexo).

Avancemos na linha dos curiosos porquês!

Dona Carlota Carvalho, na parte introdutória de O Sertão, em visíveis indiretas, não se sabe bem a quem (ao mundo intelectual maranhense?) dá a entender que a sua publicação somente foi possí- vel graças à intervenção prodigiosa dos homens de letras Raul Pe- derneiras, Irineu Veloso e Manoel N. da Silva, dirigentes maiores da Associação Brasileira de Imprensa - ABI, bem como ao senador baiano Tobias Monteiro e do poeta Luiz Murat, membro da Acade- mia Brasileira de Letras.

Foram eles, realmente, ao lado do dr. Aníbal Freire, redator- chefe do Jornal do Brasil, que, em princípios de 1924, não mediram esforços no sentido de que a obra-prima sertaneja, quase perdida em forma de “maço de papel escrito” chegasse às oficinas da Empre- sa Editora de Obras Científicas e Literárias.

Curiosas, bastante curiosas essas observações da professora de Bailique que viajara incognitamente (como viajou?) em abril de 1919, pelo mar, usando-se de uma expressão da época, para a “cidade maravilhosa”, onde “depois de um incidente (?!) em bonde da Tijuca, uma dor prostrou-me onze meses, impossibilitada de andar e sen- tar”. (O Sertão, 1924, p. XIII)

Ora, nesse largo período de seis anos (1919 a 1924) viviam com luminosa e invejável presença nos cenários político e literário do Rio de Janeiro os maranhenses ilustres, senadores Cunha Machado e Costa Rodrigues, e os consagrados escritores Coelho Neto, Viriato Correia, Humberto de Campos e Dunshee de Abranches. Por que não os procurou? Não gostava de políticos? Senador por senador, o

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

da Bahia, Tobias Monteiro, teria mais sensibilidade pelas letras do que os nossos respeitáveis e queridos Costa Rodrigues e Cunha Machado? E os “monstros sagrados” gonçalvinos, será que foram procurados pela professora sertaneja?

Comecemos por Coelho Neto.

Contam os cronista da época que o “príncipe dos prosadores brasileiros”, já autor de festejados livros, dentre tantos O Rei Negro e um de contos, por sinal denominado Sertão, jamais deixou de re- ceber bem os seus conterrâneos que iam procurá-lo, em particular sobre publicação de obras literárias. É de citar-se, exemplificando, o caso de Souza Bispo.

O saudoso Arnaldo Ferreira, quando de sua posse na cadeira nº 27 da Academia Maranhense de Letras, que tem como fundador aquele homem de cultura grajauense, em certo trecho narrou:

Transcorria o ano do centenário e o país inteiro, de ponta a

ponta, se engalanava para festejar o grande acontecimento polí- tico. Souza Bispo aproveitou a oportunidade e, paradoxalmente

– quando se iniciava a era da aviação, a que o feito heróico e

nunca assaz decantado de Gago Coutinho e Sacadura Cabral rasgara novas perspectivas – resolveu excursionar a pé, do Rio ao Maranhão, pelo interior do Brasil.

Sertanejo acostumado às intempéries, tropeiro a quem as longas caminhadas não amedrontavam, deixou Souza Bispo em 1922

a capital federal em através de mata e taboleiros, vadeando rios

e palmilhando serras, ao sol e à chuva, dias e noites, por cami- nhos ínvios e poeirentas estradas, castigado pela canícula ou abençoado pelo luar, vencendo mais de oitocentas léguas, como

a repetir, em pleno século XX, as arrancadas maravilhosas dos

bandeirantes, vem ele até São Luís, onde chega no próprio dia em que comemorávamos a nossa emancipação, a 28 de julho do ano seguinte. Em viagem, grafando mapas e tomando notas, arrecadou mate- rial para a sua obra ainda inédita, Na Rota dos Bandeirantes.

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Comentando a excursão, em seu livro Bazar, sob o título “Um Herói”, Coelho Neto assim se expressou:

Quando Souza Bispo me mostrou o roteiro da viagem que ia empreender ao Maranhão, a pé, confesso que confiei tanto em tal aventura como confiaria se ele me houvesse anunciado a sua partida próxima para Saturno.

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Não era o trâmite que me fazia duvidar da levada, mas o itinerante. Baixinho, de compleição débil, certa timidez de ma- neiras, Souza Bispo não me parecia talhado para tal rasgo. O interior do Brasil, principalmente na parte que se dirige para o Norte, não oferece seguras garantias a quem por ele se atreve.

.

De todas as dificuldades eu me lembrava, ouvindo Souza Bispo. Pois enganei-me e folgo em declarar em público o meu erro. O meu erro foi ver o homem na aparência. Conhecesse-lhe a têm- pera da alma e não teria duvidado do que ele realizou com tanta serenidade e heroismo.

Pois bem. Se se fizer um estudo das vidas de Souza Bispo e Parsondas de Carvalho, ambos sertanejos, ambos jornalistas por vo- cação e andarilhos por temperamento, de logo, ressalta o extremado amor que eles dedicavam às riquezas naturais e culturais do sertão e à sua gente. Quer num, quer noutro, sente-se a força telúrica. Eram amigos, tinham estreitas relações de amizade, tanto assim que toda a cartografia existente em O Sertão é de autoria de Souza Bispo, dita preparada sob a direção da irmã do escritor sertanejo. Diga-se de passagem, o ilustre grajauense dirigiu, também, por algum tempo, uma revista cultural denominada O Sertão.

Em 1922, no Rio de Janeiro, Souza Bispo procurou Coelho Neto visando trocar idéias ou aconselhar-se sobre a viagem a pé do Rio de Janeiro a São Luís. É uma demonstração transparente de que o fa- moso escritor, já aureolado como membro da Academia Brasileira de Letras, recebia e tratava com simpatia e carinho os seus irmãos maranhenses. Agora, pergunta-se: por que nessa ocasião ele não foi

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procurado pela Dona Carlota ou seu irmão Parsondas (supõe-se que os dois estavam juntos) para ajudar na publicação, dar uma opinião crítica ou até prefaciar a jóia literária que, por sinal, trazia o mesmo nome de uma de suas festejadas obras? (Sertão, novelas, 1896).

Mais: se é que não gostavam ou não simpatizavam com o prínci- pe dos prosadores brasileiros, por que não procuraram Humberto de Campos e Viriato Correia, ambos, também, literatos e jornalistas de peso no Rio de Janeiro e que também escreveram com maestria e beleza sobre os nossos sertões?

Ainda que rejeitassem com todas as letras maiúsculas esses con- sagrados mestres da literatura nacional, por que não bateram à porta do velho amigo, companheiro de outras jornadas, Dunshee de Abranches? Aí mesmo é que, como diz o adágio sertanejo, a porca torce o rabo. Realmente, é por demais curioso, esquisito mesmo, que isso tenha ocorrido!

Demos asas a esse ponto de vista. Dunshee de Abranches co- nhecia Parsondas de velhos carnavais. Em sua notável obra A Esfin- ge do Grajaú (memórias de seu tempo de promotor público, 1888), em várias passagens fala e com larga simpatia do “mestiço de apura- da cultura” que tinha o “dom de pintar as cenas ao vivo” e que “vi- nha ao Rio de Janeiro disposto a editar sua obra monumental sobre as tragédias políticas dos altos sertões maranhenses.”

Ora, de 1905 a 1917 o festejado autor de A Setembrada foi de- putado federal pelo Maranhão. De 1918 a 1924 vivia no Rio de Ja- neiro desfrutando de invejável conceito como jornalista e escritor. Conhecia bem de perto o “estilo primoroso” de Parsondas, tão exal- tado por ele ao longo dA Esfinge. Por que não fora procurado para fazer o prefácio do livro da irmã do seu velho amigo Parsondas? E como este conhecia os caminhos que o levavam à redação do Jornal do Brasil, que por sinal sempre publicou com grande simpatia todas as suas dramáticas reportagens sobre os chamados distúrbios do Grajaú.

Certa feita, num fim de tarde de verão, debaixo de uma man-

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gueira, lá do nosso querido Grajaú, conversei longamente com o saudoso jornalista Amaral Raposo sobre esse tão misterioso assunto.

Amaral, profundamente conhecedor da vida e da obra parsondianas, provocado com insistência por mim, dizia-me felinamente, de leve, com jeito de quem não quer se comprometer:

“Eles tinham – falavam – um relacionamento incestuoso. O Parsondas possuía talento às mancheias. Escrevia bem, com bela vocação de escritor. A Carlota era analfabeta de pai e mãe. Lendo-se O Sertão, tem-se a impressão de estar lendo as conferências Amazônia, do

Gurupi ao Balsas e do Tartarugal ao Gurupi, proferida por ele no

Rio de Janeiro, depois republicadas em São Luís. Eles não procura- ram Coelho Neto, Humberto de Campos e o Dunshee de Abranches com vergonha de passarem uma grande decepção”.

E sorrindo, com aquele seu característico tique, com a mão na boca: “É melhor se parar por aqui. Como diz o adágio popular, quanto mais se mexe, mais fede”.

Outro fato deveras curioso às páginas tantas de O Sertão. Dona Carlota derrama-se em riqueza de detalhes quando descreve a então pavorosa Itaboca (hoje engolida pela hidrelétrica de Tucuruí). Che- ga a narrar:

Calculadamente, o Canal do Inferno tem 500 metros de largu- ra. Nos dois lados, maciços basaltos dão ribas pretas, nuas, fragosas. Segurando-se contra a fascinação e vertigem do abismo, os visi- tantes contemplam-no de cima de suas paredes de pedra e vêem sucederem-se os mais pavorosos rebojos. Redemoinhos abrem sorvedouros medonhos e no fechar dos rebojos a impulsão da água levanta-se a metros de altura e ela vem chocar-se ruidosa- mente nas pétreas paredes laterais. O abismo é insondável. Que impressão teria feito no espírito do padre Antônio Vieira,

que subindo o Tocantins até esse báratro em 1653 contemplou-contemplou-contemplou-contemplou-contemplou-

ooooo comocomocomocomocomo nósnósnós?nósnós

Dedutivamente reconstruindo o passado, poderemos presumir

o sentir, o pensar, o gesto do grande pregador, ao qual é atribu-

58

PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

ído o batismo Inferno dado a esse torvo canal.” (O Sertão, 1924, p. 256-257)

Grifamos, bem de propósito, a expressão: “contemplou-o como nós”. Com certeza, Dona Carlota quis dizer que ela também viu e bem de perto “as fortes sensações da passagem da Itaboca”.

Será que a matrona sertaneja, que à época se trajava bastante demodê, teria condições físicas de enfrentar a tão apavorante cacho- eira do Tocantins? Como? Com quem? Quando?

À luz de idôneos depoimentos de velhos navegadores do passa- do no Tocantins, era terminantemente proibida a presença de mu- lheres nas embarcações diante do perigo de vida nas viagens, princi- palmente nas travessias das perigosas cachoeiras do grande rio.

Quem conheceu e bem de perto da “famosa Itaboca, o terrível Adamastor dos navegantes do Tocantins” foi Parsondas de Carva- lho. Quando?

Falemos um pouco de uma das muitas emocionantes aventuras pelos caminhos e rios do Brasil de dentro, em épocas passadas.

Em 1881, Joaquim de Almeida Leite Moraes, paulista de boa cepa, foi nomeado presidente da Província de Goiás com o encargo de fazer cumprir uma avançada lei eleitoral da época. Saiu de São Paulo viajando a cavalo, por mais de trinta dias cheios de contratem- pos e perigos. Ao deixar o governo (1881), desceu o Araguaia e o Tocantins até Belém, onde desembarcou rumo ao Rio de Janeiro. Essas duas jornadas “ele conta, com grande talento narrativo, ampa- rado no sentimento penetrante da natureza e na capacidade de regis- trar de maneira expressiva fato e costumes.” (Apontamentos de Via- gem, J. A. Leite Moraes, p. 259-260)

Certo trecho da viagem fluvial, acha um meio simpático de ex- plicar como conheceu o nosso legendário biografado e narra, em bons pedaços, interessantes passagens e agradável convívio e boas palestras tidas com ele, rio abaixo, na busca perigosa e temerária da capital paraense.

59

SÁLVIO DINO

Aqui encontrei o sr. João Parsondas de Carvalho, chefe político

da

Boa Vista; descia para o Pará depois de carregar o seu bote

de

castanhas. Ao meio-dia partimos de São João; Parsondas desce

no meu bote relatando-me a história eleitoral da Boa Vista; a

substituição do nome de um candidato por outro, feita pela mesa etc.; e o seu bote nos acompanha bordejando. Navagamos já nas

águas do Tocantins; O Araguaia some talvez para sempre!

digo-lhe um adeus

. . Vem a noite; rodamos de borbulho; o bote do sr. Parsondas atracado ao nosso; uns dormem, outros palestram. .

O bote do sr. Parsondas separa-se e adiantou-se. Noite escura;

tempestade desfeita; águas revoltas; o desconhecido e o misté- rio em torno daquela embarcação flutuando como que ao aca-

so!

.

O sr. Parsondas anda à pescaria, no seu bote, e alguns dos seus

camaradas estão à bordo do nosso! Esta gente do Tocantins e do Araguaia não conhece o valor do tempo. E temos hoje de atravessar a notável cachoeira Taury Grande, cuja travessia se faz em oito horas de um trabalho insano e desesperador, por entre todos os perigos possíveis!

Não podemos, portanto, fazer paradas, ou perder tempo e, por isso o nosso bote roda com velocidade. Encontramos afinal o bote do sr. Parsondas atracado numa praia; passamos ao largo, gritando-lhe que viesse receber os seus camaradas. Veio ele e descemos juntos.

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São nove horas da manhã; estamos almoçando e próximos do Taury Grande; eu, em cima da tolda, tenho o livro aberto e o lápis aparado para os apontamentos. Carlos Augusto e Parsondas fazem-me companhia.

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O sr. Parsondas encosta o seu bote em um porto de castanhas e

O Taury Grande está à nossa fren-

te; os nossos remeiros deliram num trabalho que indica a proxi-

nós continuamos a derrota

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

O rio Vermelho audaciosamente o afronta

avançando com extraordinária velocidade

.

O pequeno bote do sr. Parsondas – o Anduharé – também in-

e o atravessa nas suas primeiras quedas;

ei-lo agora nas águas do rio Vermelho. Saímos numa corredeira

de meia légua de extensão; os remeiros descansam, mas o piloto

mantém-se no seu posto; avistamos ao longe dois morros azulados

e três canais que se abrem à nossa passagem; entramos no da

esquerda.

O Anduharé, ora na vanguarda, ora ao nosso lado e ora na reta-

guarda, acompanha-nos;

.

Às três horas da tarde até às quatro atracamos os botes na ilha da

Bagagem para que os camaradas jantassem, visto que o sr. Parsondas de Carvalho não tinha cozinha a bordo. Esta circuns- tância muito contrariou-nos.

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midade do perigo

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veste sobre o Taury

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. . Despedi-me do sr. Parsondas, que prometera alcançar-me antes

da Itaboca, no dia seguinte; e às quatro e meia da tarde o nosso

bote caiu de novo na infernal corredeira sem termo!

E eis que a corredeira se transforma em uma horrorosa cachoei-

ra, na qual nos precipitamos

Entramos pelo caminho do im-

previsto, esbarrando face a face com a morte de todos os lados.

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E eu, que agora tomo estes apontamentos, nove horas da noite,

duvido da minha própria existência! Ah! Tocantins! sois um mis-

tério tenebroso! Só Deus pode sulcar as tuas águas

os homens

que as sulcam são

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uns loucos!

. . Ainda estamos na cachoeira Taury Grande; só amanhã podere- mos atravessá-la; temos à nossa frente o célebre e histórico canal do Cajueiro, onde raro é o bote que se salva, uma vez precipita- do em suas águas!

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O Cajueiro, aquela cascata a ensopar as nuvens, lá ficou espu-

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SÁLVIO DINO

mante e retorcendo-se como serpente por escapar-lhe a presa

. . Ninguém, absolutamente ninguém, lembra do Taury Grande, em cuja passagem, desde ontem, gastamos nove horas, e por que? Porque caminhamos para a Itaboca, o terrível Adamastor dos navegantes do Tocantins, o túmulo insaciável que guarda

em suas profundidades centenas de cadáveres e dezenas de bo-

tes, o caminho provável para a eternidade

A Itaboca é o negro

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pensamento que desde o alto Araguaia sombreia a fronte dos mais audazes navegantes e os prostra absorvidos nas sinistras

previsões de uma catástrofe! E caminhamos para a Itaboca!

. . Estamos resolvidos a evitá-la, tomando o desvio por terra ta de afrontar o destino.

Avistamos a cachoeira principal da Itaboca e o piloto encosta o bote na margem esquerda, atracando-o ao porto. Eu, Carlos Augusto, Silvestre e o ordenança saltamos em terra. Confesso que não deixaria o bote e os meus companheiros de viagem se não fora a família

E seria imprudência ou loucura arriscarmos a vida na Itaboca quando podíamos a desviar por terra e mesmo o piloto e cama- radas instavam para que tomássemos o desvio. E tomamos o

trilho aberto por cima da ribanceira, coberta de uma mata alta e

espessa.

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Paramos, voltando para o rio, cujas ondas revoltas avistamos por entre ramagens das árvores, e vimos o nosso bote descer

descer como que precipitando-se pássaro veloz perseguido

.

Apressamos o passo e, após uma légua, chegamos ao porto, onde encontramos o Rio Vermelho e todos os seus tripulantes des- cansando, ainda atordoados daquela luta infernal em que o ho- mem submerge-se no desconhecido para surgir muitas vezes na eternidade! O nosso encontro, portanto, foi de ruidosa alegria; os camaradas completamente ensopados, somente diziam que Deus os havia protegido.

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com a velocidade de um

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bas-

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

Embarcamos e, enquanto entrávamos no bote, eis que o peque- no Anduharé passa com uma carreira vertiginosa; cumprimen- tamos o sr. Parsondas e seus companheiros e largamos o Rio Vermelho nas suas águas

fiquei no bote escrevendo estes apontamentos, impressio-

nado do que tinha visto e do que não quis ver! Mas, graças a Deus, estamos fora da Itaboca e, segundo os práticos, fora de todos os infernos do Tocantins. (Op. cit., p. 245 a 263)

] [

Presume-se que em tão dramática viagem, o mulato de “estilo primoroso” também fazia seus apontamentos

Uma curiosidade: o ex-governador de Goiás, Leite Moraes, e seu secretário, Carlos Augusto, que o acompanhava na citada via- gem, são, respectivamente, avô e pai do modernista Mário de Andrade.

Tempos depois, Parsondas de Carvalho, na conferência profe- rida no Rio de Janeiro, intitulada “Do Gurupi ao Balsas”, salienta o grande valor da castanha-do-pará falando de sua colheita de dezem- bro a janeiro (coincidência ou não, no mesmo período em que foi feita aquela viagem marcada de aventuras). Aliás, em tal palestra ele enfatiza que a cachoeira de Itaboca “é o grande impossível que a navegação encontra nesse rio e já vos fiz a descrição dela e das outras quando pela primeira vez tive a honra de merecer a vossa atenção.”

Vamos mais em frente!

Em O Sertão, em pinceladas emocionantes, a autora(?!) chega a indagar: “Que impressão teria feito o espírito do padre Antônio Vieira que, subindo o Tocantins até este báratro contemplou-o como nós?”

Por tão óbvias razões, Dona Carlota jamais poderia ter contem- plado bem de perto, ou feito a travessia do Inferno. Na histórica viagem do ex-govenador da Província de Goiás, frisa-se, a circuns- tância de o sr. Parsondas não ter cozinha a bordo deduz-se que nem mulher ou mesmo cozinheiro para fazer a bóia no Anduharé existia, visto como, de quando em quando, sua tripulação era convidada a jantar com a do Rio Vermelho.

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SÁLVIO DINO

Na verdade, Parsondas de Carvalho é quem conhecia, desde as

suas fumaças ao longe, até ao seu abismo, a infernal cachoeira onde

o heróico Couto Magalhães naufragou e se salvou milagrosamente, a

nado. Dona Carlota, como sempre escondida por trás dos panos, a exemplo do que fez quando da viagem pelo vapor “Acre” para o Rio de Janeiro, com certeza, em tão dramática viagem pelo Tocantins, não se atreveu a fazê-la. Por que? Teria lugar para ela no porão do pequeno Anduharé?

Mais uma curiosidade que nos deixa de queixo caído: em todo

o corpo da obra-prima sertaneja não há a menor referência ao nome

do grande memorialista, o já renomado, além fronteiras, escritor Parsondas de Carvalho. Nem mesmo na fase do “polimento neces- sário” de O Sertão, quando, “querendo contribuir para a solenização do centenário da Independência, escrevi estes Subsídios para a Ge- ografia e História do Brasil, que pretendia oferecer à respectiva co- missão diretora” (Op. cit., p. XIII), fez a menor referência ao nome do irmão famoso. Por que?

Essa autêntica brincadeira de esconde-esconde faz lembrar-me de uma conhecida fábula lá do meu sertão.

A raposa andava esfomeada à procura de um galinheiro. Quan- do passava perto de uma tapera, de repente ouviu os latidos de uns cães que se aproximavam. Mal deu tempo pra correr rumo a um baú velho bem à sua frente. Na pressa de se esconder, deixou a pontinha do rabo do lado de fora. Foi aí a sua destruição

Coitada da “mana”, deixou a ponta do vestido do lado de fora do baú, onde o irmão famoso guardava a valiosa obra literária que produzia. Foi a sua ruína perante o julgamento da história.

Encerrando este capítulo, lembro-me, ainda, dos comentários sarcásticos de um saudoso professor boêmio lá do Tocantins, gran- de cultor das letras e profundo conhecedor dos homens e das coisas da região. Sabedor ter sido ele companheiro de Parsondas em histó- ricas rodadas, procurei-o em sua residência na velha Imperatriz. Com jeito quis saber a sua opinião sobre quem realmente tinha escrito O

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

Sertão. O “velho filósofo” – assim era chamado por todos –, após um dedo de boa prosa, com ar professoral, passando a mão na bar- ba branca, disse-me: “Voltando à sua pergunta, sei onde você quer chegar. O Sertão é uma obra sim, de fôlego. Foi escrita ao longo de anos de estudo e caminhadas por um notável autodidata que só co- nheceu uma universidade, a da vida.”

De súbito, muda o semblante. Esquece o sorriso alegre e fechan- do o sobrolho, inquieto na cadeira preguiçosa, como se querendo levantar:

Até hoje, a opinião pública do sul maranhense tem sido implacá- vel na abordagem da vida de Dona Carlota. No imaginário popular fixou-se a figura da pessoa inculta, de duas caras, transgressora das regras morais e de seu tempo. Meus conhecimentos registram três pérfidas Carlotas na história da humanidade. Uma, perigosa quenga que, portando de uma faca afiada, tirou a vida do impetuoso Marat na Revolução Francesa. A segunda, célebre rainha que, no jardim da Corte, plantou uma um pé de galhos na cabeça de Dom João VI. A outra, a amada amante que, com a arma da mentira, vem ao longo dos anos apunhalando, pelas costas, o legendário irmão, o inconfun- dível autor de O Sertão.

E com o fel de conhecida verve, fechou a conversa: “A nossa, pelo menos, era uma matrona, de muitas tetas e poucas letras.”

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SÁLVIO DINO

CAPÍTULO IX

A paixão por jornais

No tocante a biografia, há livros que mostram as fraquezas, os defeitos dos biografados. Contam suas peripécias pelos caminhos da vida. Lembram os erros irremediavelmente cometidos. Falam de suas ambições, de suas vaidades, de seus sofrimentos, de suas lutas, umas fracassadas, outras gloriosas. Mostram, também, suas paixões. O lado sensível de todo ser humano.

A grande paixão de Parsondas de Carvalho era o jornal. Parece que na vida ele somente tinha compromisso com os jornais. Ler jornais era um hábito que não deixava de cultivar, nunca, até mesmo quando se encontrava embrenhado nos mais longínqüos sertões.

Nascera jornalista e nas veias tinha o jornalismo, assim como Rui, o incomparável advogado que mais de uma vez proclamou alto e bom som: “É jornalista que eu nasci, jornalista é que sou, de jorna- lista é que não me hão de demitir enquanto houver imprensa”.

Rui Barbosa adorava de tal maneira a imprensa que, certa feita, com emoção evocou o célebre episódio ocorrido com o visconde de Chateaubriand.

Ouçamo-lo!

Em um desses processos famosos, cujos autos a história arquiva,

o interrogatório começou por este diálogo entre o réu e o presi- dente do tribunal:

– Acusado, vosso nome?

– Francisco Renato, Visconde de Chateaubriand.

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PARSONDAS DE CARVALHO: Um novo olhar sobre o Sertão

– Vossa profissão?

– Jonalista.

É desse modo que se qualifica, em 1833, à beira do júri, o gran- de poeta, o grande regenerador literário, o maior dos modernos es- critores franceses, o homem que escreveu O gênio do Cristianismo, traduzira Milton e arrastara Bonaparte. “Tão múltipla era a sua ativi- dade, em tantas esferas da inteligência era primaz, o escritor, o histo- riador, o diplomata, o administrador, o antigo par de França, tantos títulos tinha, e de todos se esqueceu para se condecorrer, perante os seus juízes, com o de simples jornalista.

Tomei conhecimento, através da respeitável A Pacotilha, que Parsondas de Carvalho se envolvera, em 1892, num episódio de quebra-quebra de jornal na capital do Pará. Não me confermei. Tem- pos atrás, na primeira oportunidade que se me apresentou, fui a Belém com o único objetivo de proceder minuciosa pesquisa sobre a passagem do biografado pela imprensa paraense. Mergulhei fun- do. No Arquivo Público do Pará encontrei o filão procurado.

Em 30 de abril de 1892, o Diretório do Partido Operário orga- nizara uma concentração pública para o 1º de maio, Dia do Traba- lho, na praça Batista Campos. O local de reunião dos dirigentes do P.O. era na Tribuna Operária, que tinha redação e oficina à rua dos Mártires, entre as travessas 18 de março e 15 de agosto. O governo do Pará achou por bem proibir a manifestação popular. Entendeu que se tratava de um ato subversivo. Atitude típica de governos reaci- onários. Usando a linguagem e os métodos autoritários, tão nossos conhecidos, segundo os quais “cacete não é santo, mas obra mila- gres”, o pau cantou na Tribuna Operária, onde imprimiam os convi- tes e preparavam as faixas e cartazes para a festa do 1º de Maio de 1892, com a seguinte manchete de primeira página: “O SOCIALIS- MO NO PARÁ – INTIMAÇÃO À TRIBUNA OPERÁRIA – TROPELIAS DA FORÇA PÚBLICA – PRISÕES COM ESPAN- CAMENTOS E FERIMENTOS DE PRESOS – MEETING FRUSTRADO.

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SÁLVIO DINO

A valorosa folha marajoara noticiando, com riqueza de detalhes,

o lamentável acontecimento, diz que

Às 10:00 horas da noite foram cercados por oficiais, o quartei- rão e imediações da casa onde funciona a Tribuna Operária. Não cessaram mais o tropear de cavalos e correias, ponde em sobressalto os moradores do bairro. Foram presos transeuntes de quem a polícia suspeitava serem do Partido Operário.

Claro que vários jornalistas do corpo redacional foram detidos e presos, inclusive “o bacharel Francisco Gonçalves Campos, que ulti- mamente tem publicado na Tribuna Operária artigos sob sua assina- tura de propaganda socialista.”

Parsondas, juntamente com os ilustres jornalistas Bento Aranha

e Barbosa de Lima Valente do Couto fazia parte da direção do Cor- reio Paraense, órgão de imprensa de grande formato e de maior circulação no Estado.

Como não poderia deixar de ser, o Correio também fez coro com o auditório popular, protestando contra a invasão da Tribuna Operária e o atentado à liberdade de imprensa. Parsondas, como redator do bravo matutino escreveu inflamados editoriais a respeito. Foi aí que desentendeu com o governo do Pará, recusando, de ma- neira viril, os pedidos no sentido de “silenciar sobre as violências do chefe de polícia Coimbra, seqüestrando a tipografia da Tribuna Operária e prendendo os redatores e uma multidão de proletários para impedir a manifestação do 1º de maio.”

Pois bem. Nessa ocasião tenho certeza de que, se Parsondas fosse preso, na delegacia, ao responder à formal pergunta: “Diga o réu qual o seu nome”, ele responderia humildemente: “João Parsondas de Carvalho”. “Sua profissão?” (agora com orgulho:) “Jor- nalista”. Tal desentendimento gerou um clima tão carregado de ani- mosidade contra Parsondas que ele não teve outro jeito senão deixar

o Pará. Como jornalista, também se qualificaria na hipótese, feliz-