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QUESTÕES ATUAIS SOBRE A TRANSAÇÃO PENAL Humberto Dalla Bernardina de Pinho [i]

Aproximamo-nos do quinto ano de vigência da Lei nº 9.099/95, e até

hoje inúmeras obras têm sido escritas acerca dos institutos previstos nesse

revolucionário diploma legal.

Realmente, esse afã se justifica na medida em que foram introduzidas

grandes modificações em nosso sistema processual-penal, por intermédio da criação e

regulamentação do chamado espaço de consenso[1].

Nesse passo, sobressai o estudo do instituto da transação penal[2], grande

inovação da Lei, e que efetivamente inaugura no Direito pátrio a possibilidade de

conciliação penal, mesmo que ainda em grau bastante reduzido.

A Lei nº 9.099/95 previu, inicialmente, o cabimento da transação penal

nas hipóteses de infração de menor potencial ofensivo, assim concebidas aquelas cuja

pena máxima não extrapolasse o patamar de um ano[3].

É bem verdade que desde o início da vigência da Lei muito se comentou

acerca desse patamar, considerado, à época, muito baixo.

Na realidade, antes da aprovação da Lei já existiam diversas iniciativas,

como a de Hugo Nigro Mazzilli[4], em São Paulo, no sentido de introduzir alterações

no texto do Código de Processo Penal, criando-se um tratamento diferenciado para

infrações cuja pena máxima chegasse ao quantum de dois anos.

E esse acabou sendo o valor novamente assumido pelo legislador quando

da edição da recente Lei Federal nº 10.259, de 12 de julho de 2001, que regulamentou

os Juizados Especiais Federais[5].

Assim sendo, hoje temos uma situação peculiar; se interpretarmos de

forma literal as Leis dos Juizados Especiais Estadual e Federal, chegaremos a

dicotômica conclusão de que se um indivíduo comete um crime da competência da

justiça estadual, o limite máximo de pena para o cabimento de transação penal é de um

ano; ao revés, se ele escolhe perpetrar conduta penalmente relevante de competência da

justiça federal, será aquinhoado com um patamar mais elevado, qual seja, dois anos.

Essa

situação,

no

mínimo,

afronta

o

artigo

5º,

caput

do

texto

constitucional e não pode ser considerada, sequer, hipoteticamente.

A única possibilidade de se evitar tal situação é, a nosso ver, considerar que a Lei nº 10.259/01 deve ser interpretada extensivamente, derrogando o artigo 61 da Lei nº 9.099/95, elevando, destarte, o limite para a caracterização de uma infração penal de menor potencial ofensivo.

existem iniciativas em âmbito

parlamentar, no sentido de aumentar os limites da justiça consensual, não apenas no que pertine ao quantum de pena, mas também conferindo um maior grau de discricionariedade ao Ministério Público, podendo, inclusive, desistir da ação penal[6].

De

se

observar,

por

último,

que

Vista essa questão inicial, cabe agora examinar duas questões que, apesar do passar dos anos, ainda se mostram controvertidas, quais sejam, a existência ou não de processo quando da proposta de transação penal, e a real efetividade do instituto nos moldes em que foi definido pelo legislador.

Comecemos pela definição e extensão do instituto.

Na forma do artigo 76 da Lei nº 9.099/95, “havendo representação ou tratando-se de crime de ação penal pública incondicionada, não sendo caso de arquivamento, o Ministério Público poderá propor a aplicação imediata de pena restritiva de direitos ou multa, a ser especificada na proposta”.

Interpretando o dispositivo legal, a Escola Paulista do Ministério Público[7] entendeu tratar-se de instrumento para aplicação de pena não privativa de liberdade, sem a necessidade de instauração de processo.

Trata-se, realmente, de instituto novo, sem precedentes na história processual-penal brasileira e sem paralelo no direito alienígena, como já assinalou Ada Pellegrini Grinover[8]:

diversos

doutrinadores, destacando-se, entre eles, Marino Pazzaglini Filho[9] Cezar Bitencourt [10] e Julio Fabrini Mirabete[11].

Comungando

do

mesmo

enetndimento

posicionam-se

também

Esta é a noção tradicionalmente adotada; trata-se de um instituto despenalizante através do qual oferece-se ao autuado a oportunidade de transacionar acerca da pena recebida, possibilitando um deslinde rápido ao procedimento, sem

reconhecimento de culpa, vale dizer, sem que a decisão homologatória da transação penal possa ser ou condicionada à prévia realização da transação civil, ou ainda utilizada como título executivo no juízo cível, a fim de se obter um ressarcimento dos danos eventualmente sofridos.

Entretanto, esse pensamento não é uníssono em sede doutrinária, e desde os primórdios da Lei vem sofrendo severas críticas, em razão de sustentar a aplicação de uma pena sem a instauração formal de um processo, no sentido técnico do termo.

Seguindo essa linha de discussão, e tomando por base o conceituação acima exposta, formulada por Ada Pellegrini Grinover, Rogério Lauria Tucci [12], quando do advento da lei, sustentou posicionamento contrário a essa corrente de pensamento, por entender não poder uma lei infraconstitucional divergir do Preceito Constitucional nulla poena sine judicio.

O renomado autor sustenta ainda que o dispositivo da Constituição da

República que está em jogo prevê que ninguém poderá ser privado da sua liberdade ou dos seus bens sem o devido processo legal com todas as suas garantias; assim, aplicada uma pena não privativa de liberdade, em havendo descumprimento posterior, poderia esta converter-se em pena privativa da liberdade[13], e tudo isso sem a instauração de uma relação processual, o que se afigura inadmissível.

O pensar de Tucci contou com a simpatia de Miguel Reale Junior[14],

que enxergou ainda outros problemas em se adotar, sem maiores considerações, o posicionamento majoritário, e concluiu pela inconstitucionalidade do instituto, se compreendido nos moldes apregoados pela posição que hoje prepondera, ou seja, imposição de pena sem a existência de relação jurídico-processual instaurada.

É bem verdade que tais ponderações não ficaram no vazio. À época, Ada

Pellegrini

argumentos:

Grinover[15]

ratificou

seu

posicionamento

inicial,

calçada

nos

seguintes

artigo 98 da

Constituição da República[16] situa-se no mesmo nível hierárquico ocupado pela norma que garante o devido processo legal (artigo 5o, inciso LIV), sendo ambas decorrentes do poder constituinte derivado; trata-se, portanto, de exceção constitucionalmente prevista ao princípio de que não pode haver condenação sem processo;

a)

Inicialmente,

é

de

se

notar

que

a

regra

do

inciso

I

do

b) Ademais, haverá sempre a presença de advogado, e a transação jamais

será deferida pelo Juiz sem a manifestação da defesa técnica, o que contribui para a preservação das garantias constitucionais;

c) Igualmente, em hipótese alguma há privação da liberdade já que o que

se aplica é simplesmente uma pena não privativa de liberdade, ou de multa ou restritiva de direitos, até porque pela Lei nº 9.268/96 foi suprimido em nosso sistema penal a conversão da pena de multa em pena privativa de liberdade.

da

Inocência, é preciso entender-se que o Instituto da transação penal encontra-se inserido no espaço de consenso, no qual existe a flexibilização de certos princípios constitucionais; além disso, respeita-se a vontade do acusado, que não está obrigado a transigir, incluindo-se a aceitação da proposta no campo da estratégia de defesa, sendo certo ainda que não há assunção de culpa, razão pela qual não se atrela a transação penal à prévia conciliação civil, nem tampouco permite-se seja a decisão utilizada como título executivo judicial no âmbito cível.

d)

Especificamente

quanto

à

suposta

vulneração

do

Princípio

Apresentados os principais problemas acerca da constitucionalidade do instituto dentro da perspectiva adotada pela doutrina majoritária, bem como vistas as suas ponderações quanto a esses problemas, é preciso reconhecer que muitas dúvidas ainda permanecem no ar.

Penso, sinceramente, ainda hoje, quase cinco anos passados do início da vigência da Lei, que nem mesmo tais “contra-argumentos” são suficientes para viabilizar a aplicação de pena sem processo.

Parece-me claro e cristalino que o disposto no inciso I do artigo 98 da Carta de 1988 é norma de procedimento, que não tem o condão de se sobrepor às normas definidoras de direitos e garantias como as contidas no artigo 5º da Carta Magna.

Colocada

a

questão

parecem-nos de pouca relevância.

sob

esse

ângulo,

todos

os

outros

argumentos

Assim, se há imposição de pena (pouco importando se isso se dá de forma consensual ou não, ou ainda se ocorre ou não assunção de culpa) tem que haver relação processual instaurada, uma vez que é o processo o instrumento hábil para a efetivação da jurisdição.

Realmente,

nessa

perspectiva, parece difícil admitirmos a conceituação

tradicional proposta por Ada Pellegrini Grinover e pela maioria doutrinária.

Com

efeito,

admitir-se

a

aplicação

de

pena,

mesmo

que

seja

esta

consentida pelo autuado, sem que esteja estabelecida uma relação jurídico-processual, é inviável ante os Princípios Processuais Constitucionais, não havendo, ao revés, qualquer problema de coexistência entre esses Princípios e o Espaço de Consenso.

Destarte, a única forma de se garantir a constitucionalidade do instituto, preservando-lhe a integridade, é conceitua-lo como forma de exercício da ação penal.

Essa é a orientação pioneira de Afrânio Silva Jardim[17], para quem a proposta de transação penal corresponde à peça exordial de uma ação penal de natureza condenatória, promovida pelo Ministério Público, nas hipóteses de infração de menor potencial ofensivo, nas quais a decisão judicial terá caráter homologatório.

Em outras palavras, é a manifestação de uma pretensão condenatória, já que a decisão que homologa a proposta, aceita pelo autuado e seu advogado, tem indisfarçável caráter punitivo.

Ainda para o ilustre professor, o Parquet, ao propor a medida, tem que imputar um fato de forma clara e precisa (tal qual ocorre na denúncia), descrevendo igualmente as circunstâncias do ilícito.

Deve haver, portanto, justa causa para tanto. A ausência dessa condição para o regular exercício do direito de ação leva, inexoravelmente, ao arquivamento do termo circunstanciado.

Realmente os argumentos acima aduzidos têm total procedência.

Mesmo levando em consideração toda a inovação da Lei é realmente um exagero dizer-se que teria ela o condão de romper com o secular princípio da impossibilidade de aplicação de pena sem um prévio processo instaurado.

Tenta-se, a bem da verdade, buscar uma solução pouco ortodóxica em sede doutrinária para um tropeço do legislador.

Explico.

Apesar

das

boas

e

salutares

intenções

dos

autores

do

Projeto

que

redundou na Lei nº 9.099/95, parece-me ter sido um equívoco optar por um sistema de judicialização do procedimento prévio.

Muito melhor teria andado o legislador se tivesse se louvado nas ponderações de Hugo Nigro Mazzilli, no trabalho acima referido, e optado por inserir a transação penal no bojo do procedimento investigatório prévio à fase judicial (seja ele inquérito policial, termo circunstanciado ou qualquer outro expediente que se queira utilizar).

Isso teria evitado toda a discussão acima aduzida sobre a natureza jurídica da transação penal, além de, obviamente, deixar mais leve o procedimento e tornar mais célere a prestação jurisdicional, quando se fizesse realmente necessária, uma vez que a transação penal deveria ser negociada diretamente entre o Promotor de Justiça e o investigado e seus advogados.

E, é preciso que se diga, isso acaba por ocorrer às avessas hoje em dia, quando é cada vez maior o número de magistrados que se ausenta da audiência preliminar do artigo 72 e se deixa substituir por um juiz leigo ou conciliador, em razão do excesso de trabalho nos Juizados ou das constantes acumulações a que são submetidos, inobstante os continuados e incomensuráveis esforços da cúpula do Poder Judiciário a fim de tentar remediar tal situação.

em

havendo consenso entre as partes, o resultado seria reduzido a termo e encaminhado à homologação do Juiz; sendo impossível a negociação do benefício, o procedimento seguiria até o oferecimento de denúncia, quando, aí sim, seria inaugurada a fase judicial.

Assim

sendo,

caso

se

tivesse

adotado

a

solução

aqui

sugerida,

De se ressaltar que em nenhum momento seria subtraída a participação e o controle do Poder Judiciário; seria apenas uma solução bem mais razoável e condizente com os modernos postulados do acesso à uma justiça rápida e justa.

De se salientar ainda que o entendimento que consagra a existência de uma relação processual quando da aplicação imediata de pena acaba por ser mais favorável ao autuado, pois o processo oferece, sem dúvida, enormes meios de defesa para o autor da prática penalmente relevante, tais como a necessidade de observância do contraditório e da ampla defesa e a proibição de utilização de provas obtidas por meios ilícitos (artigo 5º, Incisos LV e LVI).

Vista a questão da natureza do instituto, mister agora examinar sua real aplicabilidade e efetividade, nos termos em que é regulada na Lei nº 9.099/95.

Nesse sentido, poderia o legislador ter ousado um pouco mais no que pertine às conseqüências da efetivação da transação penal, dando assim maior eficácia a decisão nela proferida e, por conseguinte, maior efetividade ao instituto.

Com efeito, não vemos qualquer vantagem para o autuado em aceitar a proposta formulada pelo Parquet, nos termos em que é hoje concebida.

Por que iria ele aceitar a imposição imediata de uma pena se pode protelar tal medida e ainda se servir dos inúmeros subterfúgios que lhe são oferecidos por intermédio dos não raros abusos das garantias processuais? Ou quem sabe contar com a morosidade da máquina policial e judiciária e se beneficiar da prescrição?

E mais: diante da grande importância que vem adquirindo a vítima no processo penal, onde estaria a vantagem para esta, e para a sociedade, indiretamente interessada na punição do autor do fato, quando essa decisão que homologa a proposta não pode ser utilizada como título executório na esfera cível?

Melhor,

sem

dúvida,

também

para

o

ofendido,

aguardar

a

decisão

definitiva, pois assim pode ter um título executivo hábil a dispensá-lo de um indesejável processo cognitivo[18]-[19] na esfera cível.

Em

outras

palavras,

a

se

manter

a

atual

definição

do

instituto

da

transação penal, corre-se o grande risco de se assistir, mais rápido do que se pensa, ao mais completo desuso do mesmo, já que sob a perspectiva acima apresentada passa ela a não interessar nem ao autor do fato e nem à sociedade.

Aqui cabem algumas palavras sobre a questão da assunção de culpa.

De acordo com o entendimento hoje dominante, capitaneado por Luiz Flávio Gomes e Ada Pellegrini Grinover[20], a aceitação, pelo autuado, da proposta formulada pelo Ministério Público, não implica em assunção de culpa.

Isto se dá pela própria sistemática da Lei que, segundo os autores acima referidos, se insere na moderna linha do Direito Italiano denominada “nolo contendere”, ou seja, o autuado aceita a imposição, por sua livre e espontânea vontade, com o intuito de ver encerrada aquela questão, sem que isso signifique, em qualquer hipótese, ter ele confessado a prática delituosa.

Nessa linha é que encontramos a redação do artigo 76, § 6º da Lei: “A imposição da sanção de que trata o § 4º deste artigo não constará de certidão de antecedentes criminais, salvo para os fins previstos no mesmo dispositivo, e não terá efeitos civis, cabendo aos interessados propor ação cabível no juízo cível.” (grifei)

Diante do posicionamento assumido neste trabalho, somos forçados a discordar da sistemática adotada pela Lei. Impedir a vítima de utilizar o título judicial como instrumento executivo parece-nos ir de encontro aos próprios princípios da celeridade e economia processual.

Nessa linha de raciocínio encontramos Cezar Bitencourt[21] sustentando que na transação penal há assunção de culpa, já que, a seu ver, ao realizar a transação o autuado assume a responsabilidade pela imputação.

Uma

possível

solução

para

essa

questão

foi

aventada

em

sede

doutrinária, sendo, entretanto, rechaçada por ampla maioria.

Isso se deu logo após o advento da Lei nº 9.099/95, quando se discutiu se a composição civil seria pressuposto para a transação penal.

questão,

argumentando em síntese que o artigo 72 da Lei deveria ser interpretado no sentido de que a conjunção “e” desse artigo significa que deve haver ao mesmo tempo a composição dos danos e a aceitação da proposta de transação penal, de modo que não havendo composição dos danos civis não poderá se fazer a transação.

Rogério

Lauria

Tucci[22]

respondeu

afirmativamente

a

essa

Em sentido diametralmente oposto encontramos Ada Pellegrini Grinover[23], e Julio Fabrini Mirabete[24], entre outros, a sustentar que a conjunção “e” do dispositivo legal em exame (artigo 72) está ligada ao verbo “esclarecerá”; logo, o juiz tem a obrigação de esclarecer, nada mais do que isso. Depois de esclarecido cabe então passar à tentativa de conciliação civil e havendo ou não havendo composição civil dos danos, cabe então passar para a tentativa de transação penal.

Tal posicionamento acabou prevalecendo, e com isso nos deparamos com a ausência de efetividade na transação penal. Nesse prisma, e sob uma perspectiva sociológica, não atende a Lei à crescente demanda pela pacificação social. Não contribui, neste ponto, para a diminuição da tensão social, já que coloca o autor da prática criminosa em posição de grande vantagem, tornando mais penoso o iter a ser seguido pelo ofendido.

Temos para nós que esta é a verdadeira pedra de toque no enfoque da

matéria. A Lei Processual Penal será mais efetiva na exata medida em que outorgar

maior importância à vítima, tornando mais fácil o procedimento que esta deve seguir

para tutelar seu direito, impondo ao responsável, ao autor do fato, os ônus e dificuldades

que hoje pesam sobre os ombros da vítima.

Ficam, portanto, essas modestas considerações para a reflexão dos

colegas, na expectativa que possam ser levadas em conta numa eventual alteração na

Lei nº 9.099/95, ou, quem sabe, numa nova sistematização da matéria para adequá-la

aos modernos postulados do acesso à justiça e da instrumentalidade do processo.

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[1] A propósito do tema, veja-se por todos GOMES, Luiz Flávio, Suspensão Condicional do Processo Penal, 2ª Edição, São Paulo: Revista dos Tribunais, 1997.

O eminente professor paulista, no intróito de seu trabalho apresenta excelente

resenha sobre a evolução do espaço de consenso, como instrumento viabilizador

de um tratamento diferenciado para as infrações de menor potencial ofensivo.

[2] O legislador assim disciplinou a matéria na Lei nº 9.099/95:

“Art. 76 – Havendo representação ou tratando-se de crime de ação penal pública incondicionada, não sendo caso de arquivamento, o Ministério Público poderá propor a aplicação imediata de pena restritiva de direitos ou multa, a ser especificada na proposta.

§

1º - Nas hipóteses de ser a pena de multa a única aplicável, o juiz poderá reduzi-

la

até a metade.

§

2º - Não se admitirá a proposta se ficar comprovado:

I – ter sido o autor da infração condenado, pela prática de crime, à pena privativa

de liberdade, por sentença definitiva;

II – ter sido o agente beneficiado anteriormente, no prazo de 5 (cinco) anos, pela

aplicação de pena restritiva ou multa, nos termos deste artigo;

III – não indicarem os antecedentes, a conduta social e a personalidade do agente,

bem como os motivos e as circunstâncias, ser necessária e suficiente a adoção da

medida.

§ 3º - Aceita a proposta pelo autor da infração e seu defensor, será submetida à apreciação do juiz.

§ 4º - Acolhendo a proposta do Ministério Público aceita pelo autor da infração, o juiz aplicará a pena restritiva de direitos ou multa, que não importará em reincidência, sendo registrada apenas para impedir novamente o mesmo benefício

no prazo de 5 (cinco) anos.

§ 5º - Da sentença prevista no parágrafo anterior caberá a apelação referida no art. 82 desta lei.

§ 6º - A imposição da sanção de que trata o § 4º deste artigo não constará de

certidão de antecedentes criminais, salvo para os fins previstos no mesmo dispositivo, e não terá efeitos civis, cabendo aos interessados propor ação cabível no juízo cível.”

[3] Assim dispõe o texto legal: “Art. 61 - Consideram-se infrações penais de menor potencial ofensivo, para os efeitos desta Lei, as contravenções penais e os crimes a que a lei comine pena máxima não superior a um ano, excetuados os casos em que a lei preveja procedimento especial”.

[4] MAZZILLI, Hugo Nigro. Alterações no Código de Processo Penal, São Paulo:

Associação Paulista do Ministério Público - APMP, 1991.

[5] Confira-se a redação do parágrafo único do artigo 2º da referida Lei nº 10.259/2001: Art. 2º Compete ao Juizado Especial Federal Criminal processar e julgar os feitos de competência da Justiça Federal relativos às infrações de menor potencial ofensivo.

Parágrafo único. Consideram-se infrações de menor potencial ofensivo, para os efeitos desta Lei, os crimes a que a lei comine pena máxima não superior a dois anos, ou multa.

[6] Veja-se, a propósito, o artigo 1º da Proposta de Emenda à Constituição nº 230/00, que insere o inciso X no artigo 129 da Carta de 1988, com o seguinte teor:

“Art.129 (

denunciados em ações penais em curso, podendo fazer acordo, transigir, desistir da ação penal, conceder imunidade para que estes confessem detalhes de crimes,

apontem cúmplices, desde que preenchidos os requisitos a serem estabelecidos em Lei Complementar”. (consultado no “site” da CONAMP – Confederação Nacional do Ministério Público, no endereço http://www.conamp.org.br, em 05 de novembro de 2001.

[7] MIRABETE, Julio Fabbrini. Juizados Especiais Criminais, São Paulo: Atlas, 1997, pág. 81. A Escola formulou o seguinte conceito: “A transação penal é instituto jurídico novo, que atribui ao Ministério Público, titular exclusivo da ação penal pública, a faculdade de dela dispor, desde que atendidas as condições previstas na Lei, propondo ao autor da infração de menor potencial ofensivo a aplicação, sem denúncia e instauração de processo, de pena não privativa de liberdade”.

[8] “Em sua aparente simplicidade, a Lei 9.099/95 significa uma verdadeira revolução no sistema processual-penal brasileiro. Abrindo-se às tendências apontadas no início desta introdução, a lei não se contentou em importar soluções de outros ordenamentos, mas - conquanto por eles inspirado - cunhou um sistema próprio de Justiça penal consensual que não encontra paralelo no direito comparado. Assim, a aplicação imediata de pena não privativa da liberdade antes mesmo do oferecimento da acusação, não só rompe o sistema tradicional do nulla poena sine judicio, como até possibilita a aplicação da pena sem antes discutir a questão da culpabilidade. A aceitação da proposta do Ministério Público não significa reconhecimento da culpabilidade penal, como, de resto, tampouco implica reconhecimento da responsabilidade civil”. GRINOVER, Ada Pellegrini,

)

X - Negociar a pena de indiciados em Inquérito Policial e/ou

FERNANDES, Antonio Scarance, GOMES FILHO, Antonio Magalhães, GOMES, Luiz Flávio, Juizados Especiais Criminais - Comentários à Lei nº 9.099, de 26.09.95, 2ª Edição, São Paulo: Revista dos Tribunais, 1997 p. 29.

[9] PAZZAGLINI FILHO, Marino, MORAES, Alexandre de, SMANIO, Gianpaolo Poggio, VAGGIONE, Luiz Fernando, Juizado Especial Criminal - Aspectos Práticos da Lei nº 9.099/95, São Paulo: Atlas, 1996, p. 47.

[10] BITENCOURT, Cezar Roberto, Juizados Especiais Criminais e Alternativas à Pena de Prisão - Lei 9.099 de 26.09.95. 2ª Edição. Porto Alegre: Ed. Livraria do Advogado, 1996, p. 112.

[11] MIRABETE, Julio Fabbrini. Juizados Especiais Criminais, Op. cit., p. 80.

[12] KUEHNE, Maurício, FISCHER, Félix, GUARAGNI, Fábio André, JUNG, André Luiz Medeiros, Lei dos Juizados Especiais Criminais, Curitiba, Juruá Editora, 1996, pp. 37/38.

[13] O posicionamento foi defendido antes do advento da Lei nº 9.268/96

[14] Reale Junior assim se manifesta sobre a matéria: “Infringe-se o devido processo legal. Faz-se tábula rasa do princípio constitucional da presunção de inocência, realizando-se um juízo antecipado de culpabilidade, com lesão ao

princípio nulla poena sine judicio, informador do processo penal. (

haja opinio delicti, e, portanto, inexigindo-se a existência de convicção da

viabilidade de propositura da ação penal, sem a fixação precisa de uma acusação, sem elementos embasadores de legitimidade de movimentação da jurisdição penal,

e, portanto, sem legítimo interesse de agir, o promotor pode propor um acordo pelo

qual o autuado concorda em ser apenado sem processo. (

destacável no processo penal é a necessidade de correlação entre a denúncia e a

sentença, questão objeto de conhecido trabalho de Giuseppe Bettiol. Qual vai ser a correlação entre uma denúncia que não existe e uma sentença que é só aparente? Ou seja, entre denúncia inexistente e sentença aparente, tem que haver correlação.

E há, mas pairando em atmosfera elevada, destituída de realidade. De concreto,

somente a imposição de pena ao autuado, que, sem acusação, sem processo, sem condenação, cumprirá prestação de serviços à comunidade e terá colaborado para o desafogo da justiça criminal. Configura-se, dessa maneira, o desrespeito aos direitos constitucionais básicos informadores do processo penal: ampla defesa e contraditório; devido processo legal; presunção de inocência”. (REALE JUNIOR, Miguel, Pena sem Processo, in Juizados Especiais Criminais - Interpretação e Crítica, p. 26/28.

[15] Argumentos expendidos durante o Seminário sobre Juizados Especiais realizado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, em 09 de outubro de 1996.

[16] “Art. 98 - A União, no Distrito Federal e nos Territórios, e os Estados criarão:

I - juizados especiais, providos por juízes togados, ou togados e leigos, competentes para a conciliação, o julgamento e a execução de causas cíveis de menor complexidade e infrações penais de menor potencial ofensivo, mediante os procedimentos oral e sumaríssimo, permitidos, nas hipóteses previstas em lei, a transação e o julgamento de recursos por turmas de juízes de primeiro grau;”

) Sem que

)

Outro aspecto sempre

[17] JARDIM, Afrânio Silva, TEIXEIRA, Gilmar Augusto, RAMALHO, Paulo, Painel - Juizados Especiais Criminais, disponível em video cassete, editado e produzido pela Associação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, 1997, duração: 2h15min. As principais idéias sobre o tema estão ainda condensadas no seguinte trabalho: “Os Princípios da Obrigatoriedade e da Indisponibilidade nos Juizados Especiais Criminais”, in Revista Doutrina vol. 2, págs. 496/499, Rio de Janeiro: Instituto de Direito, 1996.

[18] Cf. Artigo 584, Inciso II do Código de Processo Civil.

[19] É hoje praticamente pacífico o entendimento que a sentença proferida nos autos onde é formulada a proposta de transação penal é, não somente homologatória, como também condenatória. Maiores detalhes sobre o tema podem ser vistos em “A Natureza Jurídica da Decisão proferida em sede de Transação Penal”, artigo de nossa autoria publicado na Revista do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, volume 10, p. 89 e ss., na Revista dos Tribunais, ano 89, volume 773 – mar/2000, p. 484 e ss. e ainda no CD-ROM Doutrina Jurídica Brasileira, publicado pela Editora Plenum, em 2001.

[20] GRINOVER, Ada Pellegrini, Juizados Especiais Criminais, op. cit., pp.

29/40.

[21] BITENCOURT, Cezar Roberto, Juizados Especiais Criminais e Alternativas à Pena de Prisão, op. cit., p. 104.

[22] Posição referida no Seminário sobre Juizados Especiais realizado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, em 09 de outubro de 1996. Contra tal posicionamento, na mesma oportunidade, foi argumentado que ao se condicionar a transação penal à composição civil estaria-se ferindo o Princípio da Igualdade, já que restaria desfavorecido o autuado que não possua condições financeiras de realizá-la, retirando-se-lhe, em conseqüência, a possibilidade de transação penal.

[23] idem

[24] MIRABETE, Julio Fabbrini. Juizados Especiais Criminais, Op. cit., pp. 80/81.

[i] Doutor em Direito. Professor Adjunto de Direito Processual na Faculdade de Direito da Uerj. Professor do Curso de Mestrado da UERJ. Promotor de Justiça no Estado do Rio de Janeiro.