Sei sulla pagina 1di 10

De

alhures ou de outrora

ou o sorriso do xenófobo*

Radmila Zygouris

v_x que pode dizer o psicanalista quanto à xenofobia, e, mais particularmente, ao racismo? Falar disto baseado no camp o específico cia psicanálise comporta sempre o risco de um desvio psicologizante. Tentarei evitá-lo, na medida cio possível. A figura do estrangeiro situa-se na fronteira do subjeíivo, do singular, com o social, a polis. Em 1983, H anos atrás, realizou-se em Paris um colóquio sobre esse mesmo tema do estrangeiro. Minha intervenção, na ocasião, tinha por título "O amor pelo estrangeiro". Nào retomarei aqui todos os pontos desta intervenção; partirei, no entanto, da mesma constatação: o bebé. ao nascer, nào rejeita o estrangeiro, nem é xenófobo, tornar-se-á com o tempo. Começarei, pois, traçando a constituição da xenofobia ordinária.

ou apaixonadamente xenófobos.

nós

Todos

somos

A Xenofobia

Ordinária

fomos,

um

A xenofobia

pouco,

é

muito ,

inicialmente

* Tradução

de

Caterina

Koltai.

í

Radmila

Zygouris

medo do estrangeiro. Esse medo, mesmo quando antigo, não é inato, mas constitutivo, primeiro, das formações narcísicas e, em seguida, das citações linguageiras. Esse medo, ao encontrar um discurso que o objetiva, pode se transformar, ainda que não necessariamente, em racismo manifesto. Não há, pois, razão alguma para falarmos logo de início em rejeição e ódio do estrangeiro, e sim de medo. Existem, também, formas suaves de rejeitar e excluir de "nossa casa" o outro, o estrangeiro. Seja ele estrangeiro ao país, estrangeiro pela cor da pele, religião, miséria, loucura ou doença. Existem, seguramente, diferenças de nível e natureza entre um racismo virulento e o desejo manifesto dos privilegiados em evitar o espetáculo da miséria. Fala-se muito pouco da miséria em nossos doutos discursos. Será que não poderíamos dizer que o estrangeiro por excelência nos meios da psicanálise é o pobre, o deserdado, tanto pelo dinheiro quanto pela cultura? A xenofobia se enraíza no universo infantil do medo. De modo geral, há um consenso em situar os primeiros medos infantis em face do rosto estrangeiro por volta do oitavo mês de vida. Esse medo inexistia quando do nascimento. Ninguém nasce xenófobo, transforma-se em: o medo e a rejeição do não familiar aparecem após o reconhecimento

da própria imagem no espelho, portanto, após a constituição

cio narcisismo secundário. A xenofobia se torna possível com

o reconhecimento do "EU" e se desenvolve com a

constituição do "nós". Muito antes disso, quando o pequeno humano vem ao mundo, vem dotado da capacidade de adotar qualquer hu- mano que cuide dele. O primeiro espelho do recém-nasci- clo ó o rosto humano, sem distinção de raça, sexo ou idade. Spitz fala do "homólogo do humano" e Lacan da "percep- Vii<> precoce da forma humana na criança". A isso convém acrescentar á constatação de Winnicott segundo a qual são

os olhos maternos que constituem o primeiro espelho, ou

De

alhures ou de outrora ou o sorriso do xenófobo

195

seja, antes de se reconhecer no espelho, a criança se mira

no rosto do outro

ser qualquer humano, e não necessariamente a mãe bioló- gica. O pequenino, caso não esteja sofrendo de fome ou de algum outro desconforto maior, sorri a todo humano que cuide dele, sorri inclusive aos transeuntes.

Aquela a quem chamamos de mãe pode

Nas origens da vida,

a identificação com a espécie humana prevalece

identificação

sobre todo outro tipo de

As duas principais características da espécie humana,

a posição ereta e a linguagem, necessitam de um ambiente

humano sem o qual, após um certo tempo, sua aquisição fica seriamente comprometida. O hospitalismo nos mostra

crianças mudas, gravemente doentes mesmo sem nenhuma lesão física, com graves carências, consequência da falta de palavra e da manifestação do desejo do outro para com elas. Diz-se, frequentemente, que as crianças são adotadas, o que

é juridicamente correto, mas num primeiro momento é a

criança que adota o adulto que cuida dela, que lhe permitirá aceder â individuação suhjetiva. É importante não nos esquecermos desse primeiro momento de vida, tão rico em ensinamentos quanto as potencialidades do ser humano, nem desse primeiro impulso do pequenino em direçào ao outro, porquanto permitem ao analista manter a confiança mesmo perante os casos mais difíceis e desampares abomináveis. No "aqui e agora" da situação analítica se dão, às vezes, os começos nunca advindos. As lágrimas, o riso e o sorriso - reconhecimento e chamado do semelhante ao semelhante - são, bem antes da palavra, manifestações especificamente humanas.

Um belo dia a criança se reconhece no espelho e percebe que é menino ou menina, fica em pé e nomeia, diz não e pára de sorrir a qualquer um. As primeiras palavras

!*6

»

Radmil a

Zygouri s

di

criança servem para nomear as figuras familiares e a si

própria. Mamãe, papai, bebé, João ou Júlia. Aquilo que não sibe nomear e que não lhe é designado cai no território do estrangeiro. Seu universo familiar se constrói com as fronteiras às quais os adultos que o cercam concedem vistos 11 seu bel-prazer. E um belo dia os estrangeiros estão atrás

di porta. A língua materna, os rostos familiares, a integração

cê um "nós" restringem o campo das identificações primeiras e cercam o mundo. O estrangeiro é, em primeiro lugar , o significant e cie um espaç o desconhecido . A linguagem, específica do devir humano, é ao mesmo tempo uma instância recalcante da capacidade inicia! de identificação com a espécie humana como tal. Esta, no entanto, não é forcluída e pode ressurgir com toda sua força originária em situações limites. Sempre existiram e ainda existem lugares no mundo onde homens, mulheres e crianças são vistos como "estrangeiros" por outros e, por isso mesmo, condenados à morte ou a uma sobrevivência miserável, mais maltratados que animais. A ajuda material, concreta, é indispensável para a sobrevivência biológica, mas só o reconhecimento, o sorriso, a mão estendida, esse gesto tão próprio à nossa espécie, na falta de uma língua comum, permitem que a vida se encaminhe para um destino humano.

Por mais "civilizado" que seja o ambiente da criança, existe para toclos essa noção de estrangeiro, enraizada na xenofobia infantil.

CJ

tempo e o espaço: afetos

€ pulsões

Quais são, concorrem para

discurso

residência vigiada?

então, os componentes a noção de estrangeiro,

a

subjetivos

antes

que

a

explicitamente xenófobo

condene

que

um

uma

P Toda experiência humana se inscreve no duplo registro

De

alhures ou de outro rã ou o sorriso do xenófobo

197

do tempo e do espaço. As pulsões e os afetos unem o ser human o aos objetos cio mund o e a seu mundo interior, ao qual a linguagem fornece sentido. Os afetos e as pulsões dão

seu vetor libidinal aos significantes linguageiros. Resumindo:

o

afeto

seprojeta essencialmente sobre o ewco temporal, apuísão sobiv

o

eixo espacial (cf. esquema). A angústia e a agressividade são, respectivamente, suas

manifestações essenciais. Lacan situava a angústia no cerne

de todos

os afetos: "A angústia é o

afeto central, aquele em

torno cio

qua l tudo se ordena" 1 .

Passagem ao ato

to

O)

Z3

w

D o

cr

03

m

l

0)

-o

m

w

U) 0)

i—

cn

ro

d)
(O

u

D_

Eixo

espacial

> Afetos-angústia

- -

>

Eixo temporal

palavras

- - ->

-> Projeto

l, Jacques Lacan, L'enverscle fajysychanalyse,

Paris, Scuil, 1991, p. I6S.

98

Radmila

Zygouris

Ainda que o ohjeto seja espacial, a relação com o

objeto está sob a trava cio tempo e nasce sobre um fundo

de ausência do outro.

A angústia tende a diminuir quando há uma projeção temporal, em que o sujeito está em posição ativa, em vez de se submeter passivamente ao tempo que lhe escapa.

Tudo aquilo que tende em direção a umprojeto deliberado ou

repivs^taçôes metafóricas deste terá, pois, um efeito desangustiante.

ilustração

paradigmática. A angústia característica da relação de objeto,

se resolve de modo privilegiado mediante uma operação

linguageira. No que diz respeito à agressividade, como toda pulsão, ela se refere primeiramente ã problemática do espaço. A importância da agressividade na formação do EU foi

amplamente tratada por Lacan ("A agressividade", p. 109).

A pulsão é um trajeto. Mas antes de ter por alvo um objeto

separado do próprio corpo, este é sua sede, e as primeiras experiências de agressividade na criança vêm das imagos arcaicas. A agressividade está aí, antes de qualquer reconhecimento de um objeto externo separado. Surge como uma reação somatopsíquica do desamparo e da impotência e, ao mesmo tempo, é uma tentativa de dominá- los. (A agressividade é encontrada em todos os níveis pulsionais: oral, anal, sexual e até escópico.). Quanto a esse último, basta pensarmos na inveja no sentido da envidia, o mau-olhado do qual é necessário se proteger, e na função

de captação do olhar). Ao contrário do

a pulsão é sublimável. É nas

vicissitudes dessas sublimações que se localizarão, posteriormente, as passagens ao ato mortíferas para o estrangeiro. A agressividade está presente como lugar de passagem entre o psíquico e a realidade externa à qual

pertence "a captação pela imago da forma humana" (Lacan).

A predominância da imago é constitutiva da agressividade,

cujo alvo, em primeiro lugar, é o monstro interior. Essa

O jogo

do

carretel,

no

Fort-Da,

é

uma

afeto,

De

alhures ou de outrora ou o sorriso do xenófobo

199

relativa indistinção é observável nas relações da criança com seus semelhantes entre um mês e aproximadamente dois anos. Por exemplo, pode acontecer de um pequenino, sentindo dor por estarem nascendo-lhe os dentes, atacar o rosto da pessoa que o carrega ao colo. A agressividade, por sua vez, tende a se resolver na passagem ao ato. "O ato agressivo resolve a construção delirante", dizia Lacan, O suicídio, como assassinato de si próprio, é uma manifestação dramática, ainda que típica. É difícil diminuir o estado de agressividade por um simples convite à fala, quando esta já se encaminhou para o ato. Acontece, no entanto, de podermos acalmar uma agressividade prestes a eclodir mediante uma palavra justa, com a condição de esta palavra ter em vista um sujeito particular e não vir de um objeto especular, e sim de um lugar terceiro. A agressividade, uma vez desencadeada, nào se resolve facilmente pela interlocuçào. Eu havia dito que a xenofobia era o medo do estrangeiro. Ora, a angústia não é o medo. A angústia é primeira. O medo engendra reações pulsionais, portanto comportamentos. Perante uma ameaça, há duas reações possíveis: a fuga ou o ataque, manifestações do medo ou da agressividade. No caso da criança podemos falar de medo após uma experiência dolorosa ou traumática; caso contrário, ele é fruto da aprendizagem: "Cuidado, você vai se queimar"; "Se você não comer, vou chamar a bruxa". A criança aprende a ter medo, a não ser que ela o tenha descoberto por intermédio de uma experiência dolorosa. Ele provém de um objeto presente ou representado. Ora, nào aprendemos a angústia, ela é constitutiva do devir humano. Por isso dizemos que ela não possui objeto. No entanto, é o objeto enquanto faltante que a constituiu. Vemos, assim, que o medo e a agressividade sào, de certo modo, solidários, quando ambos têm a ver com uma presença no espaço, enquanto a angústia se refere à falta e à ausência. Razão pela qual - no esquema aqui reproclu/ido

200

Radmila

Zygouris

-convém situar a agressividade e o medo ligados à pulsão e à ameaça, no eixo espacial; e a angústia ligada à perda do objeto e à espera, no eixo temporal.

A identificaçã o cia crianç a com sua própri a imagem ,

apesar de seu efeito jubilatório, unificador e apaziguante,

não reabsorve, no entanto, toda sua agressividade. Ela fará parte, mais tarde, desse sentimento que chamamos de ódio, que é sempre tendência , desejo de destruição cio outro . Esta parte não reconhecida de si próprio, resto de imagos dos primeiros tempos cie vida.

O estranho, designado por Freud por Unbeimlichkeit,

vem desses primeiros laços, em que ameaça externa e interna eram indissociáveis. Freud descreveu maravilhosamenteesse sentiment o de estranhez a que nos vem cie um a antig a morada, morada familiar de um tempo esquecido da vida. Nesse tempo, a criança e esse outro, quase ela mesma, eram, cio pont o cie vista psíquico , separado s entre si de mod o muito imperfeito. O encontro do duplo, experiência que cada um de nós pode ter vivido de modo fugidio, é uma de suas manifestações mais perturbadoras; significa que a queda no buraco cio tempo é sempre possível.

CJ outrora se torna alhures:

do estranho ao estrangeiro

Se as primeiras reaçòes de recuo perante o rosto

desconhecido se manifestam por volta cio oitavo mês cie vida, não passam , cie início, cie momentos pontuais , temore s causados pela surpresa, passíveis de serem controlados.

A integraçã o cia noção de "nós", momento posterior da

socialização, situa o estrangeiro para a criança que já fala numa categoria significante, que até então estava à procura

de um nome.

O espaço no qual a criança pode movimentar seu corpo

se alarga e se estende cio outro que a carrega ao colo aos

De

alhures ou de outrora ou o sorriso do xenófobo

201

outros que conhece. Nomeia e reconhece o que lhe c familiar, separando-o do resto do mundo, do desconhecido, daqueles que não pode nomear. Permanece nela algo do nào-separado, que não é absorvido por nenhum a representação, nem de si própria, nem do outro. Esse resto de imagos, esse objeto-pulsão não-iclentificado, o estranho, variável segundo os indivíduos, não cai necessariamente sob um recalque definitivo: está sempre presente, em reserva de ser figurado. O estrangeiro surge aí como a figura ideal para fixar esse objeto não-identificado. O estranho não carrega nenhum nome e se subtrai às discriminações linguageiras. Surgindo de improviso na imagem do duplo ou sendo projetado sobre o desconhecido assustador, é antes de mais

nada objeto não-identificado. A bruxa, o bicho-papão, que tanto fascinam as crianças, podem ser suas representações, mas se elas os temem é porque ouviram histórias que dão medo. No mundo da realidade cotidiana, o estrangeiro é o "bicho-

papão", é a "bruxa"

E o "passador" 2 do estranho, passagem do invisível ao visível. O estrangeiro é uma metáfora especial objetivada de uma distância temporal siihjetiva. O que a imagem de si não pode captar em seu efeito pacificador e narcísico, vem fazer imagem fora de si no medo do rosto do outro ainda .não dominado pelo hábito ou pelos nomes familiares. O familiar cobre com o mesmo véu a alteridade e si próprio. Se a agressividade (o ataque) e o medo (a fuga) estão ligados entre si na suposição cie uma ameaça, a angústia tem, em

princípio, outro destino. É ela, no entanto, qur , desconhecida em sua natureza, constituirá o soco do ódio do outro na ausência de qualque r ameaça. Basta, P.H.I compreendê-lo, nos lembrar de nossa radical impoirn. i i perante o tempo.

Torna-se o lugar privilegiado do

estranho.

2. A expressão remete* à teoria do "passe", de Jacqucs 1.;

lambem àquele que na guerra ajudava os fugitivos ou ITMM. ••• "passar" para o outro lado, zona neutra.

202

Radmila

Zygouris

E como se, no jogo do carretel, lá onde era esperado

o carretel, velho conhecido da criança, o Outro o tivesse substituído por um objeto novo, um nào-eu desconhecido,

portanto assustador. Isso é bem diferente da espera angus- tiante por um objeto de amor que nunca é verdadeiramen-

te novo! O novo, desde sempre, tornou os humanos agres-

sivos quando não estavam prontos para acolhê-lo, quando não esperavam por ele. Nesses momentos, só resta o ata- que ou a fuga. Ataca-se o que parece vir de Alhures, quan- do o que se teme sem sabê-lo é o retorno do Outrora. O objeto novo não surge, pois, apenas do espaço, pode surgir, também, do tempo. Ora, não temos nenhum controle sobre o tempo, Ele passa longe do nosso alcance. Essa é a razão pela qual tudo o que depende do tempo é tão angustiante. Nos resta, apenas, nos submetermos a ele. É assim que transformamos, esta impotência sobre o tempo em estratégias de poder sobre os corpos. Golpe de mágica, no qual o estrangeiro recobre o mesmo, no qual a angústia do tempo desaparece em proveito de um espaço cada vez mais bem administrado. Observa-se na criança um misto de fascinação e pavor em seus laços fóbicos com o estrangeiro. Basta, no entanto, muito pouco para esse estrangeiro deixar de ser tão assustador. Basta um traço familiar. Basta ao estrangeiro oferecer balas a uma criança, que já tenha ganho bala de conhecidos, para esta aceitá-lo e se dispor a seguir qualquer um. Eis o porquê do aviso dado às crianças: "Nunca aceite balas de alguém desconhecido". Mas o que significa não conhecer quando se reconhece um gesto familiar? O medo mais ou menos intenso do estrangeiro dependerá, também, cios hábitos familiares. Das palavras ditas ou não-ditas, e do discurso que rege as ideias daqueles com quem vive. Quanto mais a criança viver fechada no círculo familiar, tanto mais angustiada ficará pela ideia do estrangeiro, isto é, angustiada pela sua própria solidão diante de alguém desconhecido.

De

alhures ou de outrora ou o sorriso do xenófobo

203

Adulto, poderá se tornar um maníaco por viagens, já que o enclausuramento familiar, mesmo quando protetor, é sufocante. O pai - na condição de funcionar corno abertura para

o mundo e ruptura com o materno - é o primeiro

estrangeiro a se tornar familiar. Um estrangeiro que tem nome. Mas muitas crianças educadas sem pai são menos

medrosas, quando a casa está aberta ao mundo, do que outras, que, mesmo tendo um pai, vivem isoladas do exterior, confinadas juntamente com ele nas saias maternas, Diante disso, uma outra questão se coloca: quanto do ódio pelo pai se transfere sobre o outro, o estrangeiro que se pode odiar sem culpa consciente? Eis o esboço da xenofobia ordinária, aquela que nos habita a todos em maior ou menor escala. Mas nem todas

as

xenofobias infantis conhecerão o mesmo destino. Há uma desdramatizaçâo do pavor do íntimo, quando

se

instaura o laço com o outro, socialmente reconhecido e

nomeado como tal.Do drama íntimo da xenofobia infantil, pode-se, então, passar ao trágico social do racismo ativo.

0 genocídio:

efeito de um discurso de execração

A xenofobia ordinária, ao nível individual podendo não passar de um medo diante do desconhecido, transforma-se em racismo ativo e coletivo quando vem junto com a angústia do dia cíe amanhã. É sabido: o racismo surge em tempos de crise social e económica. Tempo no qual os indivíduos se sentem inseguros e no qual o tempo subjetivo não pode ser projetado no futuro. Oprojeto é a única parada que vem, imaginariamente, fazer horizontepara se intercalar eutir

o presente e a morte certa. Um projeto, ou suas

a angústia ou pelo menos a fixa sobre um objeto delimitado

e representavêl. Acredito que um projeto seja um

metáforas, afasia

í04

Radmila

Zygouris

equivalente de ohjeto. Um equivalente de objeto de espera

é a única maneira de pensar um tempo ainda não advindo.

O medo da própria morte significa a perda de objeto mais radical. A morte real, mas também a morte social, como a miséria e o desemprego. Se, em tempos de crise, o controle

sobre o espaço é substituído pela impotência perante o tempo, o recurso a Deus é uma alternativa ao medo e dá

consistência ao fechamento em si mesmo. Não seria essa uma das respostas possíveis à questão do retorno da religiosidade

e da importância cada vez maior dos rituais? Quem fala em religiosidade fala ao mesmo tempo de um desejo de transcendência e de uma relação menos determinada com

o

tempo.

Para

que

haja

racismo verdadeiro,

para

além

dos

preconceitos pessoais ou antipatias circunstanciais, é sempre

necessário

de

um

discurso.

Eu

o

denomino

"discurso

execração". O discwso de execraçãose insere no lugar em que fracassam osprojetos de vida que unem o singular e o social. O discurso de execração se torna profeta coletivo e mascara, assim, o vazio do projeto subjetivo. A angústia cede lugar ao desejo de destruição. O discurso de execração transforma a angústia individual em medo e agressividade coletiva. A impotência perante o futuro e o tempo que passa se transforma em desejo de poder sobre o destino do corpo do estrangeiro. Rebatimento do eixo temporal sobre o espacial. O crime passional não precisa de discurso algum para ser cometido. Saivo os casos de repetição perversa, trata-se da passagem ao ato de uma agressividade sem verdadeiro "projeto". Passagem ao ato, isto é, empuxo pulsional com o objetivo de destruir o outro, que na paixão é sempre o mais próximo.

Se um assassinato singular pode ser uma passagem ao ato causada por um movimento passional, os assassinatos colelivos são, também, passagens ao ato, mas que necessitam de um discurso para serem mantidos no tempo. Excluo, aqui, bem-

De

alhures ou de outrora ou o sorriso elo xenófobo

205

entendido, todos os atos espontâneos de revolta, ainda que coletivos - tais como saques e agressões de todos os tipos, cometidas em momentos de rebelião pontual - causados por uma cólera espontânea. Não se inscrevem no tempo, salvo quando retomados por um discurso que os encoraja a se repetirem. Este vem do lugar onde fracassa a possibilidade de se pensar um projeto. O discurso de execração vem, desse modo, ocupar o seu lugar, uma vez que sempre promete alguma coisa; o fim da miséria e dias melhores. Designa um bode expiatório e autoriza a pulsão agressiva. O recurso à passagem ao ato, que mobiliza a agressividade pulsional, designando o objeto odioso ou perigoso, faz recuar a angústia e focaliza o ódio sobre o corpo do outro. Eis porque, comumente, o corpo é tão importante no racismo e no genocídio. O corpo do estrangeiro, daquele que pertence a outra etnia, a outra origem, deve ser eliminado da morada coletiva. O impensável seria uma matriz comum. E importante reconhecer fisicamente o outro, o inimigo. É preciso ter controle sobre seu corpo. Fim da espécie humana. Fim da identificação com o semelhante. O discurso de execração exclui o estrangeiro da espécie humana. No fanatismo religioso, como encarnado pelo integrismo por exemplo, o corpo está igualmente presente, só que do lado dos "puros", do lado do "nós". É objeto de cuidados e controle. O corpo do crente é obrigatória e visivelmente submetido aos rituais prescritos. Aí também a angústia se dissipa e cede lugar às prescrições espaciais que visam as práticas dos corpos instaurando diferenças perceptíveis. O mais nefasto para todo projeto xenófobo, que culmina no genocídio, é o retorno da possibilidade de identificação com a espécie humana. Portanto, está fora de questão pensar na possibilidade de se ver o estrangeiro como um semelhante, homem, mulher, pai, mãe ou criança, (> impensável estabelecei'com ele um relacionamento imaginário ou simbólico de interlocução. O estrangeiro é designado p*-ln

206

Radmila

Zygouris

discurso de execração como definitivamente outro, como inapto a toda identificação. Evita-se falar com ele, chamá-

lo pelo nome. É um discurso que vindo de cima lhe atribui

uma denominação coletiva, seja a de sua etnia ou de sua impureza. O estrangeiro, nessa forma extrema de exclusão,

deixa de ser um sujeito. É puro corpo, dejeto do simbólico comum. A noção de raça fixa o outro numa diferença física.

O integrismo religioso é, a seu modo, igualmente feroz:

designa o outro como "impuro", proibindo qualquer contato

entre o corpo deste e dos fiéis, que são protegidos pelo cordão sanitário que representa o controle da observância

das práticas. Em todos esses casos, o estrangeiro é assimilado

ao real, a uma pura corporeidade, com a qual convém evitar

lodo e qualquer contato físico. No final, o estrangeiro deixou de ter um rosto, perdeu seu sorriso humano. Seu rosto não pode voltar a ser espelho. Por mais paradoxal que possa parecer, a humanidade é integralmente reivindicada pelo laclo dos racistas. Caso

contrário, a operação pode fracassar e, aliás, fracassa ocasionalmente; deixar-se comover pelo sorriso do

estrangeiro pode ser fatal para o xenófobo. Acontece que, apesar cio discurso, algun s acabam se identificando com o estrangeiro, pois algo neles resiste. Alguns analistas reduzem, erroneamente, a

identificação imaginária à histeria

identificação é entravada ou proibida em relação a uma categoria cie humanos, elimina-se ao mesmo tempo o laço

fundamental entre os homens. O simbólico não é desencarnado, nem cai do céu.

Quando essa

Interlocucão

imaginário, simbolizado na linguagem

pelo "eu" e "você", no singular, e pelo "nós" e "vocês",

plural, é abolido pelo discurso de execração. Não há mais

O

face a face

no

De

alhures ou de outrora ou o sorriso do xenófobo

207

interlocucão. Ao "nós" que engloba os racistas não faz face nenhum "vocês". Existem apenas "eles", os outros. A partir do momento em que aparece o "vocês", já estamos nas tratativas de paz, num começo de reconhecimento que possibilita a interlocucão. O racista se sustenta sobre um discurso que reivindica a ordem natural. Ora,a única coisa que nos vem , verdadeiramente, da natureza no nosso destino, é morrer de morte "natural". Mas a morte não é redutível ao morrer. A humanidade surgiu a partir das sepulturas, o morto humano não é um simples cadáver. Por essa razão a guerra, que opõe dois exércitos, não é necessariamente um genocídio. Em tempo s cie guerra , enterram-se até os inimigos. Em tempos de genocídio,

jogam-se os cadáveres em valas comuns. Em tempos de guerra, pocle-se trair, desertar, mudar de lado, até pactuar com o inimigo. Só a vítima cie um racismo absoluto não pode contar nem mesmo com a possibilidade da traição. Mesmo que não existam guerras nobres, a guerra, na maioria das vezes, visa uma conquista territorial; no genocídio, o território a ser conquistado é o do próprio corpo do estrangeiro que deve ser exterminado pela simples razão de ser outro, por ter simplesmente nascido. As crianças têm de ser eliminadas assim como os soldados. Costuma-se dizer que o genocídio é desumano. Infelizmente, é específico aos humanos, já que não há genocídio entre os animais. Não há genocídio sem recurso

à linguagem, o mais humano dos instrumentos. É sempre

com base em um discurso que se cometem os crimes em massa. E a potência do verbo, a potência das palavras que

desperta o ódio e leva ao crime, tornando-se aceitável àqueles que o cometem. Não se comete um genocídio sob

o impulso de uma cólera subjetiva incontrolada. A cólera

pode se desencadear em determinado momento, mas é fruto de uma preparação, cujo único instrumento é o discurso, um

discurso cie linguage m falada, um discurso que funrion. i como projeto coletivo, em detrimento da palavra singuhir,

208

Radmila

Zygouris

O discurso de execração não se dirige a uma

singularidade, nem permite ao racista pensar o estrangeiro como singularidade. Os transes coletivos excluem o falar individual de parte a parte. O discurso de execração é, assim, uma máquina para matar a todos: fisicamente as vítimas

designadas, mas simbolicamente ele é o aniquilamento de todos como sujeitos. Ele é a antipalavra.

Tomei o genocídio como exemplo porque representa a forma extrema cio ódio pelo estrangeiro, porque vivemos numa época na qual nenhum grupo humano está a salvo de

ser arrastado por estas correntes de defesa. O mais terrível é que o "racista" ativo parece não sofrer. Não os encontramos nos consultórios dos analistas, salvo quando

"piram" e sào tomados pelo delírio; quando o coíetivo não os alimentam o suficiente. Caso contrário, tratam-se em massa, pela colocação em ato, de forma maníaca, do ódio.

No entanto, basta escutar para se ouvir, mesmo entre

os melhores espíritos, um embrião de racismo se expressar

cm

surdina; basta darmos ouvidos às mais variadas formas

da

xenofobia ordinária as quais nos chegam seja de

longínquas infâncias, seja de ancestrais, que clamam por fidelidade e vingança. O escuro da noite e a solidão fazem

com que um estrangeiro esteja frequentemente atrás da porta

ÍL o sexo nisso tudo?

A sobrevalorização do sexo do estrangeiro também está presente. Sempre se violentou em tempos cie guerra , violenta-se, ainda mais, em tempos de racismo. E acusa-se o outro de cobiça sexual. Em tempos de paz, a xenofobia ordinária se alimenta de piadas sobre o sexo do estrangeiro ou da estrangeira. O estrangeiro atrai, mas não se deve amá-

lo, casar-se com ele e, muito menos, ter filhos com ele. Ele

não pode se inscrever na linhagem. Objeto de cobiça sexual,

De

alhures ou de outrora ou o sorriso do xenófobo

209

secreta ou vergonhosa, não deve se tornar objeto de amor.

A atraçào deve ser expressa de modo puramente passional,

uma vez que o estrangeiro, para o racista, não é, de forma alguma, uma mãe ou pai potencial para seu filho. Ainda que ultrapasse a proibição do contato físico, a ele é proibido entrar no ciclo simbólico e estar psiquicamente em contato com as representações edípicas. Infelizmente, essa atitude não é exclusividade dos racistas confessos. A exclusão do estrangeiro como objeto de amor retorna, frequentemente,

travestido pelos discursos sobre a tradição, religião ou fidelidade a este ou àquele preceito. Quem sabe não poderíamos dizer que, como ato subjetivo, o único ato a se opor a qualquer discurso racista, mesmo o mais "civilizado",

é o casamento misto e a inscrição em duas linhagens

diferentes da criança nascida dessa união. Não se trata, infelizmente, de uma panaceia. Não sou ingénua o suficiente e sei que não basta ser "mestiço" para salvar o mundo do inferno. Os mestiços são, frequentemente, excluídos das duas comunidades parentais, uma vez que sào o signo manifesto de uma transgressão.

Xenofilia

Vou concluir com um aspecto mais alegre Existe uma forma mais simpática de transformação da

xenofobia infantil. Trata-se do caso daquelas e daqueles que só podem fazer amor com estrangeiros. Esses xenófilos sistemáticos se alimentam do mesmo pão. Mas são menos mortíferos e ; principalmente, nunca fazem massa; isto, por

si só, já é apreciável. Assim, uma de minhas pacientes, francesa há gerações,

loira e de olhos azuis, só conseguia fazer amor com negros.

O fato acabou colocando-lhe algumas questões. Seu analista

anterior, com o qual ficara por sete anos, havia interpretado

o sintoma em termos edípicos. Nada mudara. Ainda que

210

Radmila

Zygouris

estivesse engajada em todas as lutas anti-racistas, militasse na Anistia Internacional, adorasse a África, sabia que a obrigatoriedade de suas escolhas eróticas era sintomática. Ao chegar, após ter me contado sua história, disse: E antes de mais nada não venha me dizer que só possofazer amor com negros para ter certeza- de não o estarfazendo com meu pai. O outro analista sempre mefalava do meu pai, aliás se tomava por meu pai, e nada mudou.'" Fora. avisada. Um dia, me contou, quase por acaso, que sofria de vertigens. Insisti para que se lembrasse da primeira vez em que isto lhe acontecera. Contou-me que, ainda jovem, por ocasião de uma de suas primeiras festas, havia dançado com um belo rapaz de olhos azuis, e sentira-se mal. O outro analista não considerara isto importante. No entanto, ela lhe havia falado sobre isso. Ele lhe falara do pai, mas eram os olhos de sua mãe, isto é, seus próprios olhos que ela não podia encontrar no amor. Nem seus olhos, nem sua pele. Tratava-se de uma história de espelho e não de evitamento edípico do pai. No mesmo instante em que abordávamos isto, fez um lapso. Falando de seu analista anterior, que era um homem, disse: Ela, desculpe, ele, tinha os olhos azuis. Surpresa, riu e concluiu: Como analista não era lã essas coisas, mas como mãe,penseique era uma belíssima mulher.

José Arbex Jr.

O obre os autores

Jornalista, ex-corréspondente do jornal Folha de S. Paulo em Nova York (1987) e Moscou (1989-1990). Cobriu, como enviado especial, as guerras da Nicarágua, Afeganistão, Cambodgt-, a Primavera de Pequim e a queda do muro de Berlim.

Edgard de AssisCarvalho

Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP, coordenador da pós-

gracluacão em Ciências Sociais da PUC-SP, professor-titutar da PUC-SP e UNESP, assessor científico da FAPESP, ex-presidente do CONDEPHAT e atual membro do Conselho Coordenador do GRECOM. Publicou, entre outros, os livros Alternativa dos vencidos (São Paulo , Paz e Terra ) e Polifônicas ideias. Antropologia c

Universidade

(Imaginário)

Eugène Enriquez

Sociólogo, professor da Universidade de Paris MI, membro- fundaclor do ARIP, co-redator da revista Conncxions. Autor, entre outros, dos livros Da horda ao Estado (Rio de Janeiro, Zahar, 19 ( ,)(>) e /.CA figures du iitcútrc (1992).

Luis Cláudio Figueiredo

LivT( j -clocente do Instituto de Psicologia da USP, professor do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica d.i PUC-vSP e autor, entre outros, dos livros A invenção do psirolôgi«>. Quatro séculos de subjctivaçâo (1550-1900) e Modos de subjetivQÇâo '•