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A EPÍSTOLA DE TIAGO - TRADUÇÃO E COMENTÁRIO

A EPÍSTOLA DE TIAGO TRADUÇÃO E COMENTÁRIO

W. C. TAYLOR

1942

CASA PUBLICADORA BATISTA CAIXA 320 Rio

À Memória de Minha santa mãe Crente durante setenta anos Educadora de minha alma

Num lar um tanto parecido com aquele em que Tiago foi educado na Escritura e no temor de Deus

Dedico, com gratas recordações, este meu primeiro comentário sobre

a

Escritura

ÍNDICE

Prefácio Nota da Segunda Edição

Cap. I

A Saudação da Epístola

Cap. II

Sobre as Provas e Tentações

Cap. III

Sobre a Palavra de Deus e a Vida

Cap.IV

Imparcialidade e Democracia nos Cultos

Cap. V

A Fé-crença sem obras versus a Fé-confiança fruindo

em obras.

Cap. VI

O domínio da língua

Cap. VII

Das paixões humanas convertei-vos a Deus.

Cap. VIII

A avareza e suas conseqüências

Cap. IV

A paciência na aflição, na injustiça, na doença.

Como usar este livro em aulas.

PREFÁCIO A primeira edição deste breve comentário foi preparada e publicada no Recife, em 1926, para aulas noturnas populares no “Colégio da Bíblia”, em conexão com o Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil. Daí sua forma resumida e simples e as perguntas no fim do livro. E daí também o fato de não dar as devidas referências a uma porção de autoridades citadas, sendo que tais livros estavam completamente fora do alcance de estudantes de aulas noturnas que não possuíam bibliotecas ou livros em língua estrangeira. Todavia, na maioria dos casos, menciono o nome do livro citado e o lugar é fácil de ser verificado por quem quiser consultá-lo. Preparo esta edição no meio de múltiplas atividades. Portanto consinto que saia o livro para o uso de classes e estudantes particulares na forma em que já foi abençoado. W. C. Taylor.

Rio de Janeiro, 26 de março de 1942.

Nota da Segunda Edição Nestes trechos da Introdução a palavra “convenção” não deve ser entendida no sentido de haver em Atos 15 a narrativa de uma organização no primeiro século cristão de espécie alguma senão as igrejas. No referido livro dos Atos não há nem concílio nem convenção, nem sínodo, nem coisa semelhante. Uma igreja livre consultava outra igreja livre por meio de mensageiros. E todos estes consultam os apóstolos, órgãos da revelação da verdade, sobre a primeira heresia. O sentido de convenção no trecho citado é de uma reunião geral de crentes de várias igrejas mas não de uma organização permanente. Onde houve segunda reunião? Não houve nenhuma. Logo não era organização geral nem coisa alguma permanente.

Sobre o fato de Tiago ser chamado alhures “pastor” e “bispo” da Igreja de Jerusalém devemos nos lembrar que era uma igreja muito grande. Declaradamente havia ali os doze apóstolos e também

presbíteros (Atos 14:23, 20:17,). Cada presbítero era bispo e pastor, como se vê em Atos 20:17, 28; Tito 1:5,7, 1 Pedro 5:2-4, Filipenses 1:1.

O ministério dos apóstolos seria cada vez mais geral e estendido e

ficariam com menos trabalho local. Os presbíteros seriam também bispos, como vemos em Filipenses 1:1 mas seriam de menos

experiência do que os apóstolos e os membros da família do Senhor Jesus.

A assembleia teria um presidente e é esta a posição que cabia a

Tiago, se bem que em algumas ocasiões qualquer presbítero poderia presidir. Os apóstolos viajavam muito. É natural que Tiago, pois, presidisse, em geral, as reuniões e, por isso os séculos sucessivos, acostumados a chamar tais presidentes “o bispo”, assim apelidaram Tiago. E nós, acostumados a igrejas pequenas, com um só pastor, da igreja. A igreja de Jerusalém, a primeira e mais vasta de todas as igrejas, possuía numeroso ministério com tarefa local e deveres de obreiros itinerantes. Entre os outros pastores, outros presbíteros, outros bispos três nomes bíblicos para um ofício bíblico Tiago era quem presidia mais as reuniões e gozava de mais estima no local. Foi o primeiro a ser movido pelo Espírito e escrever uma epístola inspirada. E sua orientação profética ia longe entre seus admiradores irmãos e amigos na Dispersão.

PARTE 1

CAPÍTULO 1

A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DA EPÍSTOLA O propósito da Epístola de Tiago é doutrinar a consciência do povo de Cristo. Seu ensino não é abstrato, não se faz num vácuo, mas naturalmente torna-se prático quando de modo inteligente se relaciona com os pensamentos, os problemas, as aspirações coletivas, os

pecados e as controvérsias do nosso ambiente e da atualidade. “A controvérsia é a mãe da teologia.” O Novo Testamento, e, quanto a isso grande parte do Velho Testamento também, é o fruto das controvérsias sucessivas entre Deus e a humanidade depravada e enganada. Agradou a Deus instruir a raça por seus próprios membros, inspirando

e iluminando suas mentes por seu Espírito Santo, daí resultando a

Bíblia. Esta rica fonte de educação moral e doutrinária mana livremente para todos; sues princípios são eternos; porém os problemas e as controvérsias mudam. Satanás tem um vestuário enorme e

variadíssimo e se transforma em anjo de luz, adornado à moda. Seu interesse supremo é a religião, a religião contrafeita que visa substituir

a graça e a vontade de Deus. De sorte que as controvérsias religiosas

tornam sempre novo rumo; mudam-se os problemas da vida cristã. Para doutrinar os crentes da atualidade é preciso desassociar os princípios eternos da Bíblia das controvérsias mortas e esquecidas que

o diabo levantou nos tempos antigos, e aplicar estas verdades eternas

e imutáveis ao século XX, (e XXI) ao ambiente brasileiro, e aos problemas atuais.

Embora tenha Satanás vestidura eclesiástica, teológica, sociológica e filosófica que agrada todos os gostos. É sempre o mesmo diabo. E a despeito do exterior variegado de suas tentações, há somente duas questões fundamentais que ele levanta em religião. A primeira é se o homem se salva a si mesmo ou se Deus é o Salvador. O Evangelho proclama que Deus na pessoa de Seu Filho salva direta e eternamente a pessoa do pecador que evangelicamente crê. O embaixador por excelência desta mensagem foi Paulo. Ele proclamou que a salvação é pela graça, não uma graça encanada por sacramentos, ou igrejas, ou sacerdócio, ou mérito humano, com um mediador falível e pecante, em pé junto à torneira para regular a corrente conforme seus interesses ditarem ou conforme os pagamentos do penitente, e para embargar quem lhe aprouver. Esse sistema multiforme não conhece nem compreende a graça de Deus. Antes é esta qual rio de vida, acessível, livre e abundante, como o irmão Paulo diz na sua Epístola aos Romanos graça que é inteiramente grátis. Para este papel de educador da mente humana na verdade da graça salvadora e purificadora de Cristo pois Paulo também creu nas linhas. “Tu não somente perdoas Purificas também, ó Jesus.” – Deus preparou e enviou o apóstolo e doutor dos gentios, e este escreveu a metade do Novo Testamento. Porém, o fenômeno mais estranho da história cristã é o eclipse quase completo da mensagem distinta de Paulo por quinze séculos. Parece que a geração logo depois do apóstolo perdeu suas ideias vagarosamente antes de formar-se a coleção dos escritos do Novo Testamento, e nunca foram descobertas in totum até os tempos modernos. Lutero, qual Balboa denodado, descobriu para si a existência deste oceano de vida, mas nunca soube a vasta extensão de

suas águas. Aliás a graça luterana é mais parecida com a dos papas do que com a graça de Cristo. Porém, o mundo deve muito a Lutero por descobrir para a multidão este oceano de verdade no qual navegamos hoje em dia com segurança e conforto. Desde seus dias Paulo é restaurado ao seu lugar de doutor dos gentios. Nossa geração de estudantes da Bíblia amanhece com Paulo, almoça com Paulo, janta com Paulo e quase desconhece os outros membros do círculo apostólico. É tempo para a descoberta de João e Tiago. Eles também tem sua contribuição inspirada para a raça humana. Há outras doutrinas além da justificação pela fé. Especialmente desde a Guerra, é mister uma Reforma que se baseie na Epístola de Tiago. O fracasso parcial da Reforma de Lutero foi por que ele desprezou a mensagem de Tiago, chamando-a “uma epístola de palha”. A este primeiro bispo da primeira igreja de Cristo coube salvaguardar a verdade no tocante à segunda grande questão religiosa. Pergunta-se em todas as religiões: “Pode um homem ser religioso sem ser moral?” e a resposta é quase sempre afirmativa. Deus pôs Tiago no caminho dos peregrinos para ser uma voz que proclama: “Não! A verdadeira religião e a moral verdadeira são inseparáveis”. Feliz o povo que saiba responder a ambas estas perguntas do coração humano, e pela fé apostar sua vidas, seu trabalho e seu destino na certeza de sua resposta. O homem é salvo na graça de Deus em Cristo, independentemente de igrejas, sacerdotes, sacramentos, moralidades ou qualquer outra atividade, virtude, esforço ou progresso humano. E é igualmente certo e indispensável que o homem assim salvo há de querer ser moral, fatalmente há de procurar saber e fazer a vontade de Seu Salvador. Pela graça divina e a natureza regenerada ele é propositadamente santo, e as Escrituras e o ministério foram

dados por Jesus Cristo para instruir e orientar na vontade de Deus essas consciências renovadas. E não há paradoxo nisto, para quem conheça sua Bíblia. O homem não pode ser espiritualmente moral sem ser primeiramente salvo, nem pode ser salvo, sem experimentar novas energias morais na sua vida. A ordem e a inseparabilidade destes fatos é a quintessência do Evangelho comum de Paulo e Tiago. O que é inseparável, porém, na experiência é capaz de análise lógica e exame abstrato de suas partes componentes. Paulo faz esta análise; Tiago insiste na unidade e totalidade da experiência, a união da fé e moral na vida regenerada. Paulo insiste em que a experiência de salvação é impossível sem a graça de Deus e a fé do penitente como causa; Tiago insiste em que a mesma experiência é uma impossibilidade sem a moral cristã como resultado. Graça; Salvação; Moral eis a ordem lógica do Novo Testamento. Porém, na experiência tudo isto está unido e simultâneo no seu início, progressivo na sua manifestação. “Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.” (Romanos 6:14). “Todavia o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus, e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniqüidade.” (2 Timóteo 2:19). “Porque não há boa árvore que dê mau fruto, nem má árvore que dê bom fruto. Porque cada árvore se conhece pelo seu próprio fruto; pois não se colhem figos dos espinheiros, nem se vindimam uvas dos abrolhos. O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem, e o homem mau, do mau tesouro do seu coração tira o mal, porque da abundância do seu coração fala a boca. E por que me chamais, SENHOR, Senhor, e não fazeis o que eu digo?” (Lucas 6:43-46). As religiões da humanidade se têm flagelado com dogmas parciais desta verdade. Um procura ser tão somente salvo; outro ficaria

contente se pudesse ser moral. Um deseja acertar com a árvore, ignorando a doçura do fruto; outro forceja produzir o fruto sem a árvore. Ambos sonham quimeras. Ambos ficam desiludidos e pessimistas. Ambos são enganados e enganadores. “Eu sou a verdadeira videira e meu Pai é o viticultor. Toda a vara em mim que não dá fruto, ele o corta,

e toda a vara que dá fruto ele a limpa para que dê mais abundante. Vós

já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado. Eu sou a videira; vós sois as varas. Sem mim nada podeis fazer!” Graça, salvação pela

fé, moralidade conseqüente videira, varas, fruto obrigatório e inevitável é o único Evangelho de Cristo, ao qual seguem unidos Paulo e Tiago. Os que conheçam bem os princípios evangélicos e tenham a

experiência que professam, sabem e zelam por ambos estes lados do evangelho. Atualmente, porém, hás muitos cuja crença não é simétrica,

e é o lado de Tiago que está fraco. Multidões estão se convertendo a

Cristo e seu Evangelho. Há nestas novas multidões de crentes, às vezes, elemento enganado e espúrio, e sempre quase todos são crianças em Cristo. Para estas crianças espirituais, seu curso primário na educação da consciência é o Sermão da Montanha e a Epístola de Tiago, esta o primeiro escrito da biblioteca que chamamos o Novo Testamento, aquele que a primeira instrução dada por Jesus Cristo aos novos discípulos. Paulo e Hebreus e o Apocalipse são os cursos superiores, carne para os maduros, não leite para os recém nascidos. Restauraremos à Epístola de Tiago sua primazia na educação da consciência do crente. Será nosso alvo expor os problemas e a situação dos leitores e do autor da Epístola, deduzir daí os princípios inspirados da vida cristã, e aplicar estes princípios aos mesmos problemas, nas formas modernas. Seguirão primeiramente alguns estudos introdutórios, depois uma

tradução nova acompanhada por uma paráfrase e os melhores comentários que conhecemos sobre o texto. Não há nesta obra que agora iniciamos nada de original. Estudamos a Epístola no original e em muitas versões, lendo-a muitas e muitas vezes. Depois passamos ao exame minucioso, palavra por palavra, frase por frase, à luz das definições dos grandes lexicógrafos e gramáticos. Lemos ainda, com cuidado e amplas notas, os comentários e livros de introdução e teologia sobre as referências e assuntos de que o autor trata. E por muitos meses pregamos constantemente sobre seus versos. Os comentários que publicamos consistem na nata destas citações, que procuramos por ao alcance dos estudantes da Bíblia que só conhecem o português. Não pretendemos embaraçar o leitor apressado com as citações destas autoridades, pois escrevemos principalmente para estudantes que não tenham à mão as obras citadas.

CAPITULO II

O CARÁTER DE TIAGO A Bíblia nunca diz que os seus autores foram inspirados, mas que as Escrituras são inspiradas, que elas, como a alma humana na primeira criação, são o “fôlego de Deus”. A experiência de seus autores foi um crescimento gradual na graça e no conhecimento do Senhor Jesus como nós outros somos santificados. Os apóstolos não foram mais infalíveis do que os pastores de hoje, pelo contrário, tinham ideias mais elementares e menos sistemáticas da verdade do que a nossa geração. Sua missão foi preservar a sagrada história e a interpretação de seus fatos que foi dada por Cristo e seu Espírito. Mas eles mesmos foram homens sujeitos às mesmas paixões que nós. A sistematização e aplicação destes princípios e verdades é a tarefa de cada geração para si. Porém Jesus, e o Espírito Santo, naquele século miraculoso, enquanto os fatos da redenção eram novos e seus historiadores contemporâneos, enquanto sinais, dons, milagres, línguas, curas, ressurreições, manifestações do Salvador ressuscitado, transfigurações e visões eram a ordem do dia, dotou a nova religião de Novas Escrituras, um Novo Testamento cujo autor é o infalível Espírito de Deus por intermédio de homens falíveis e imperfeitos. Ele não transformou arbitrariamente os apóstolos em homens incapazes de errar, mas superintendeu sua produção da biblioteca da nossa religião, produzindo uma obra perfeita nos seus ensinos. Criou por meio de suas experiências e seus processos mentais a Palavra escrita e inspirada, da mesma maneira que criou no ventre de uma virgem santa, mas não imaculada, o imaculado Verbo de Deus. A Palavra inspirada e a Palavra encarnada ambas têm uma origem humana falível. Sua infalibilidade é

a obra direta do Espírito Santo, Criador do universo, do corpo humano do Salvador, da Igreja e da Bíblia. Ao nosso ver, este fato é de suma importância e torna-se um grande estímulo ao estudo da experiência dos autores da Bíblia, porque esta experiência é o molde das verdades eternas. Do mesmo modo que o menino Jesus crescia, assim gradualmente a Bíblia crescia na experiência dos apóstolos por todo aquele século que era o século mais repleto da revelação na história humana. Contemplai, pois, o caráter de Tiago. As verdades que Tiago escreveu não são meros vocábulos ditados a uma máquina: são verdades eternas que nasceram pelas mesmas dores de parto que deram à luz a experiência cristã deste irmão de Jesus Cristo. Esta verdade e este experiência são gêmeas, geradas pelo mesmo Espírito. O eminente intérprete Schofield insiste na distinção entre os característicos das Escrituras e de seus autores. Cada qual foi escolhido por ser adaptado a externar revelações de origem divina que se tinham encarnado na sua vida cristã. O homem Tiago, diz o dr. Schofield, “foi austero, legal, cerimonial, ascético”. O dr. A. T. Robertson o chama de um judeu ao fundo, expoente ideal da norma ética do cristianismo primitivo. Seus contemporâneos o chamaram “o justo”, compreendendo no termo não mera moralidade, mas uma conformidade notável com todo o Velho Testamento. “Quão nobre é o varão que nos fala nesta Epístola! Paciência profunda e inquebrantável no sofrimento” Grandeza na penúria! Como ele deseja a ação! Ação, não palavras, não mera crença morta! (Farrar) James Moffatt compara a Epístola de Tiago aos grandes canhões de alto calibre de um vaso de guerra. “nos 108 versículos se pode contar 54 imperativos. Estes se encontram ao lado com trechos de profunda simpatia, mas de louvor

não há nenhuma sílaba. O autor tem sido chamado de Jeremias do Novo Testamento, porém, suas afinidades estão mais com o realismo obstinado e pungente de um profeta como Amós.” “É o Sermão na Montanha entre as Epístolas”. É o escrito mais judaico do Novo Testamento, Mateus, Hebreus, Apocalipse e Judas todos têm mais do elemento distintivamente cristão. Porém, se eliminarmos duas ou três passagens que se referem a Cristo, a Epístola inteira tem lugar no Canon do Velho Testamento. Tão bem quanto cabe no Novo Testamento., quanto à substância de sua doutrina e conteúdo; não há menção da encarnação, da ressurreição, do Evangelho, da vinda do Messias, ou da redenção por Ele. a Epístola se ocupa principalmente com a vida ativa e pública e esta vida que é representada é a de um judeu informado com o Espírito de Cristo. João Batista não foi o último profeta da velha dispensação. O escritor desta Epístola está na extremidade da linha profética, e é maior do que João Batista. “Hegésipo nos informa que ele era santo desde o ventre de sua mãe. Ele não bebeu vinho ou bebida forte, não comeu carne. Somente a ele foi permitido entrar com os sacerdotes no lugar santo e ali podia ser encontrado muitas vezes implorando o perdão da iniquidade do seu povo. Seus joelhos se tornaram duros como os do camelo em consequência de estarem constantemente dobrados na adoração de Deus e na súplica pelo perdão do seu povo. Este judeu, fiel na observação de tudo que os judeus consideravam sagrado, e mais devoto ao culto no templo do que os mais poderosos entre eles, foi escolha ótima para cabeça da igreja cristã. O sangue de Davi estava nas suas veias. Tinha todo o orgulho dos judeus nos privilégios especiais da raça escolhida. Os judeus o respeitavam e os cristãos o reverenciavam e nenhum homem na população inteira gozou de tão grande estima quanto Tiago. Tanto judeus como cristãos comentaram

que imediatamente depois de sua morte trágica Vespasiano sitiou Jerusalém. A epístola é mais um apelo profético do que uma carta pessoal.” (D. A. Hayes, in International Bible Encyclopedia) Disse Rui Barbosa (1849-1923): “Os que buscam vincular a Pedro a soberania do papa começam esquecendo a primeira manifestação coletiva da igreja cristã, o concílio de Jerusalém, tipo necessário de todos os outros, no qual a preponderância na definição do ponto controvertido coube, não ao apelidado príncipe dos apóstolos, mas a Tiago, bispo da cidade, irmão do Senhor”. No meu discurso diante da undécima Convenção Batista Brasileira, reunida em Vitória, disse: “Naquela primeira Convenção em Jerusalém a voz que predominou não foi a de nenhum missionário, de Paulo, nem de Pedro ou João. Quem moveu aquela convenção a uma atividade decisiva foi Tiago, pastor nativo nazareno, a quem Paulo mesmo chamou uma coluna do cristianismo primitivo, um nome reverenciado pelo mundo cristão apostólico.” Esta primazia lhe coube, é escusado adicionar, não porque Tiago se vestia à moda ou se movia entre os mensageiros com uma politicagem para seus próprios interesses egoístas, mas por causa de sua capacidade de dar solução aos problemas contemporâneos à luz das Escrituras, e por motivo de sua perseverança em oração e santidade de vida. O imortal Frederico Robertson assim fala do lugar de Tiago no desenvolvimento da verdade cristã. “Foi dado a São Paulo proclamar o Cristianismo como a lei espiritual da liberdade e exibir a fé como o princípio mais ativo dentro do seio humano. Foi missão de São João declarar que a qualidade mais profunda no seio da deidade é o amor, e asseverar que a vida de Deus no homem é o amor. Foi o ofício de São Tiago afirmar a necessidade imperiosa da retidão moral: seu nome mesmo o marcou peculiarmente o justo, a integridade foi seu

característico supremo. Um homem singularmente honesto, genuíno, real! Portanto se quiserdes ler esta Epístola inteira, encontrareis nela, do princípio ao fim, uma vindicação contínua dos princípios fundamentais da moral contra as formalidades exteriores da religião”. Ele protestou contra o espírito de censura que se achava ligado com as pretensões de sentimentos religiosos. “Se alguém entre vós cuida ser religioso, e não refreia a sua língua, antes engana o seu coração, a religião do tal é vã”. Protestou contra o fatalismo sentimental que levou os pecadores a lançar sobre Deus a culpa de seus crimes e paixões: “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, e desce do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação.” Protestou contra o espírito que entrara de soslaio na irmandade cristã, de curvar-se diante dos ricos e desprezar os pobres: “Porém, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado”. Protestou contra a religião artificial de excitamento que reduziu o zelo da verdadeira religião: “E sede obradores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos”. Protestou contra aquela confiança cega na correta doutrina teológica que ao mesmo tempo menosprezou o cultivo de caráter: “Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé (essa ociosa crença ortodoxa) pode salvá- lo?” Lede a Epístola de Tiago do princípio ao fim; este é o espírito que respira através dela toda; toda esta FALA a respeito da religião e da espiritualidade palavras, palavras, mero palavrório! Não! Tenhamos realidades” (Sermões de Robertson)

CAPÍTULO III

TIAGO FOI MEIO IRMÃO DE CRISTO A esta conclusão a erudição quase unânime chegou nas eras modernas do emprego histórico na interpretação das Escrituras. Para estudantes sem preconceitos medievais ou racionalistas é a única hipótese sustentável. Os fatos são tais que todos podem tirar suas próprias conclusões. O homem mais ignorante no mundo é tão perito para julgar o que significa o único testemunho que possuímos quanto é o filósofo ou teólogo mais sabedor de teorias e tradições pós-apostólicas e medievais. Citamos para nossos leitores tudo que se sabe pelo Novo Testamento:

“Chegando à sua terra, ensinava o povo na sinagoga, de modo que muitos se admiravam e diziam: Donde lhe vem esta sabedoria, e estes milagres? Não é este o filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria, e seus irmãos não são Tiago, José, Simão e Judas? Não vivem entre nós todas as suas irmãs? Donde lhe vem, pois tudo isso: - Mateus 13:54-56 Vide Marcos 3:31-35 e Lucas 8:9-21 “Tendo Jesus saído dali, foi para a sua terra, e seus discípulos acompanharam-no. Chegando o sábado, começou a ensinar na sinagoga; e muitos ao ouvi-lo, se admiravam dizendo: Donde lhe vêem estas coisas, e que sabedoria é esta que lhe é dada? Que significavam tais milagres operados pela sua mão? Não é este o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? e suas irmãs não está aqui entre nós? Ele lhes serviu de pedra de tropeço. Jesus lhes disse: Um profeta não deixa de receber honra senão na sua terra, entre os seus parentes e na sua

casa.” – Marcos 6:1-4 (Notai que Jesus incluiu a “sua casa” na lista de incrédulos.) “Depois disto desceu a Capernaum, com sua mãe, seus irmãos, e seus discípulos; e não ficaram ali muitos dias.” – João 2:12 (Notai que os irmãos de Cristo e os discípulos não são as mesmas pessoas.) “Ora, a festa dos judeus, que é a dos tabernáculos, estava próxima. Disseram-lhe então seus irmãos: ‘Sai daqui, e vai para a Judéia, a fim de que também seus discípulos vejam as obras que fazes, porque ninguém faz coisa alguma em oculto, quando procura ser conhecido. Já que fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo. Pois nem seus irmãos criam nele” João 7:2-5 Paulo descrevendo suas visitas a Jerusalém assim falou a Tiago:

“Mas dos apóstolos não vi a nenhum, senão a Tiago, irmão do Senhor.” - Gálatas 1:19. “E conhecendo a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que pareciam ser colunas, deram a mim e Barnabé as destras de comunhão, para que nós fôssemos aos gentios.” – Gálatas 2:9. “Pois antes de chegarem alguns da parte de Tiago, ele comia com os gentios; mas quando eles vieram, subtraía-se e separava-se, temendo os que erma da circuncisão. – Gálatas 2:12. “Porventura não temos o direito de levar conosco uma crente como esposa, como também os outros apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas?” – 1 Coríntios 9:5. “Depois apareceu a Tiago” – 1 Coríntios 15:7. Quem pode ler este testemunho sem voltas ou desvios e crer em outra hipótese a não ser a de ser Tiago filho do justo José e Maria, bem-aventurada mãe de Jesus Cristo. Quando este primogênito nasceu, a virgem nazarena teria talvez 15 anos. A afirmação repetida do Novo Testamento é que o fruto de sua maternidade santa era a

numerosa família cujos nomes, pelo menos dos homens, são dados pelos evangelistas inspirados. Que do casamento de José e Maria não resultaram filhos é uma invenção desnatural de uma época que chegou

a adotar a ideia anti-bíblica do celibato do ministério e da superioridade moral da virgindade à maternidade. Os ensinos das Escrituras são o oposto, dizendo-nos o mesmo capítulo que narra o nascimento de Jesus que o casamento sem filhos era considerado não uma marca de santidade, mas um castigo divino e um “opróbrio entre os homens” – Lucas 1:25. O dogma da perpétua virgindade de Maria é mera superstição, com tendência idólatra, sem um único fato na história para

o substanciar e com o repetido testemunho do Novo Testamento em

contrário. Pois bem. Este Tiago, o mais velho dos meio-irmãos de Cristo, era a principal das colunas do cristianismo judaico, o presidente da conferência em Jerusalém, entre os representantes da Igreja de Antioquia e a Igreja de Jerusalém, entre os missionários aos gentios. Era o autor da carta daquela conferência para as igrejas gentias, que foi o primeiro documento cristão na história, homem que o próprio Pedro, temia mais do que à própria consciência, Gálatas 2:11-12, e cujo apoio Paulo considerava de tanto valor que uma vez lhe expôs particularmente o Evangelho que pregava, “para que de maneira alguma não corresse ou não tivesse corrido em vão” – Gálatas 2:1-2, e outra vez, na sua casa, “contou-lhes por miúdo o que por seu ministério Deus fizera entre os gentios”; e ainda para ter seu apoio entre os crentes de Jerusalém, raspou a cabeça e entrou no templo e ofereceu sacrifícios exigidos pela lei levítica. - Atos 21:18-26. Havia conflito concernente à autoridade de Paulo e Pedro e de João no cristianismo primitivo. Mas houve um cuja santidade e cuja inspiração todos em toda a parte aceitaram. E nada mais natural do que fosse este o “irmão do

Senhor”, convertido depois da ressurreição pelo seu irmão glorificado de quem doravante era o discípulo mais exaltado na estima da irmandade na Palestina. “Nesta epístola não encontramos nenhuma ênfase sobre o parentesco ou os privilégios especiais do autor e sim uma consciência imperturbável do direito a ser ouvido e acatado. Controvérsia não há sobre o lugar deste no cristianismo apostólico”. É significativo que a literatura do século sub-apostólico não erra no seu emprego dos termos de parentesco de Tiago. Diaz Alfred Plummer (1841-1926) (Expositor’s Bible): “Não há nenhum caso na literatura grega onde irmão (adelphos) signifique ‘primo’. A língua grega tem uma palavra para expressar a ideia de primo (anepsios), a qual achamos em Colossenses 4:10 e é notável que a antiga tradição preservada por Hegésipo (mais ou menos 170 AD) estabelece uma distinção entre Tiago, o primeiro bispo da Igreja de Jerusalém, como o ‘irmão’ do Senhor (Eusébio, História Eclesiástica, II 28:1), e seu sucessor, Simeão, como o ‘primo do Senhor’ (IV 22:4). Podia Hegésipo ter escrito assim se Tiago fosse realmente primo do Senhor? Além disso, se um termo vago como parente (suggenes) fosse desejado, também estava à mão, pois se encontra em Lucas 1:36, 58; 2:44”. Sendo este primeiro pastor cristão criado no mesmo lar com Jesus Cristo, o qual depois da morte de José provavelmente se tornou cabeça da família, seu caráter oferece para nós um estudo proveitoso. 1º Seu conhecimento do Velho Testamento confirma o que o cântico da virgem Maria mostra, que a família estava saturada com o espírito e as palavras do Velho Testamento. Nesta breve epístola Mayor nota 6 referências ao livro de Jó, 10 aos Provérbios, e 20 a a outra literatura dos provérbios do seu povo. Farrar contou 10 referências ao Sermão da Montanha, podemos imaginar aquela família de Maria, Jesus, Tiago, José, Judas e Simão e as irmãs dividindo seu tempo entre

os misteres da sua faina humilde e o estudo do Velho Testamento. É no molde do concerto antigo, da ética dos profetas, da comunhão com Deus pelos Salmos que tais caracteres se formam. 2º Devemos elevar nosso pensamento da cultura daquele lar, pois Tiago escreveu grego com um estilo e vocabulário que poucos dos apóstolos podiam igualar. Thayer diz: “Na sua perícia em empregar a língua grega este autor não é inferior a nenhum outro autor do Novo Testamento”. Deissmann classifica a epístola como “um produto da literatura popular grega”. E o dr. A. T. Robertson cointa 73 palavras que não ocorrem no resto do Novo Testamento, sendo alguns vocábulos eruditos que somente escritores cultos usavam e que evidenciam um conhecimento da melhor literatura grega do seu tempo. Diz Mayor: “A Galiléia era cercada de cidades gregas e estava ao alcance de qualquer galileu adquirir conhecimento da língua grega. Podemos supor que o autor não teve escrúpulo em tomar vantagem destas oportunidades e aprender algo da filosofia grega. Isto seria natural, mesmo se pensarmos em Tiago como impulsionado tão somente pelo desejo de ganhar sabedoria para si; mas se avaliarmos o fato de ser ele o instrutor principal dos crentes judaicos, dos quais muitos eram helenistas, instruídos na sabedoria de Alexandria, então esta oportunidade tomará o aspecto de um dever sagrado. Tiago será um estudante do grego para ser o instrutor eficiente do seu próprio povo.” O Espírito Santo escolheu como primeiro pastor cristão um estudante eminente cujos estudos foram batizados na intercessão pelo seu povo. 3º A linguagem de Jesus Cristo e Tiago têm o aroma dos campos e suas figuras e símiles são muito parecidos e testificam a íntima comunhão com a natureza que os dois irmãos gozaram na sua mocidade. Paulo é um homem da cidade e suas figuras são do

mercado, do quartel, dos jogos atléticos e da assembleia grega. Mas a linguagem de Tiago e de Jesus Cristo cheira ao campo. “Ele usa fenômenos naturais da sua terra para esclarecer seu pensamento a cada passo: a flor do campo que murcha, 1:10, o incêndio na floresta que varre a montanha e ilumina a vizinhança toda, 3:5, as fontes doces e salgadas, 3:11, a figueira, a oliveira e a videira, 3:12, a sementeira e a colheita, 3:18, o vapor matutino que tão rapidamente desaparece, 4:14, as chuvas temporãs e serôdia, 5:7. Há mais da apreciação da natureza nesta curta epístola do que em todos os escritos de Paulo.” D. A. Hayes, na obra já citada. 4º O mesmo autor comenta a semelhança entre as palavras de Tiago e Jesus, estabelecendo no Sermão da Montanha um paralelo com 18 das sentenças mais características da Epístola de Tiago. “Estas lembranças dos dizeres do Mestre nos encontram em cada página da Epístola. Talvez haja muitas outras que nós não discernimos. Porém, seu número é já bastante grande para nos demonstrar que Tiago é saturado com as verdades ensinadas por Jesus, e que tanto sua

substância como sua própria fraseologia ficam na memória

Tiago fala

menos a respeito do Mestre do que qualquer outro do Novo Testamento mas sua linguagem é mais parecida com a do Mestre do que a linguagem de qualquer um deles. Jesus e Tiago tinham a mesma mãe. Dela tinham uma herança comum. Até onde reproduziram em si os característicos da mãe, eram parecidos. Tinham a mesma educação no lar. É notável nesta conexão que José é chamado no Evangelho “um homem justo”, e que Tiago chegou a ser conhecido na era primitiva como Tiago, o justo, e que nesta epístola ele dá este título ao seu irmão, Jesus. José era justo e Tiago era justo e Jesus era justo. Os irmãos eram parecidos e estavam como o pai neste sentido. Os dois irmãos pareciam pensar do mesmo modo e falar da mesma maneira

maravilhosamente. Eles representam o mesmo ambiente doméstico e humano, a mesma educação religiosa e os mesmos característicos hereditários. Certamente, pois, tudo que aprendemos concernente a Tiago nos ajudará a compreender melhor a Jesus”. 5º O fato do autor ser meio-irmão do Senhor enaltece seu testemunho à sua deidade. O eminente Warfield diz: “Entre as epístolas um interesse peculiar pertence às de Tiago e Judas por serem escritas por parentes do Senhor Jesus Cristo segundo a carne, que aliás não creram nele durante a sua manifestação terrestre, João 5:5; ainda se adiciona o fato no caso da Epístola de Tiago, de ser esta escrita numa data muito remota (45), uma data antecedente à de qualquer outro escrito dos livros canônicos”. Então ele salienta o fato de Tiago se considerar “Escravo” de Jesus e o colocar na mesma categoria com Deus. O Pai.

CAPÍTULO IV

PARA QUEM ESCREVEU TIAGO A epístola que estudamos foi escrita por um judeu intenso, a judeus da Dispersão. “Tiago – às doze tribos da Dispersão”. Este judeu era bispo de uma igreja de judeus na capital judaica. Provavelmente muitos dos leitores tinham sido membros da mesma igreja e, espalhados pela perseguição, ainda acatavam com afeto e reverência o pastor cuja santidade lhes inspirara tanto respeito nos primeiros anos de sua vida cristã, e este, por sua vez, seguiu com suas orações e conselhos os que tinham sido objetos de sua caridade pastoral. Portanto a Epístola, seu autor e seus leitores são judeus, e temos de fazer o milagre intelectual de transformar-nos em judeus da Dispersão do ano 45 DC, se quisermos, gentios do Ocidente que somos, apreciar os problemas e a situação que o inspirado autor encarou nesta pastoral circular. “As doze tribos da Dispersão”. Diz o preclaro intérprete B. H. Carrol: “Este povo visitou as grandes festas em Jerusalém. Estava presente no dia de Pentecostes quando Tiago recebeu o batismo no Espírito Santo. Ali foram das margens do Eufrates e do Tigre, da Mesopotâmia, que quer dizer ‘Entre os rios’, e de todos os lugares da Ásia Menor, do Sul da Grécia e de Roma e do Norte da África. E ali ficaram até que foram dispersos pela dispersão mencionada em Atos 12. Depois de partires, Tiago lhes escreve. De sorte que minha opinião do tempo é que foi no ano de 45 DC, correspondendo aos eventos mencionados em Atos 12. Uma grande tribulação assolava os crentes. Tiago, o filho de Zebedeu fora morto e Pedro fora preso. Os membros daquela igreja foram espalhados sobre a terra. Esta tinha provavelmente 100.000 membros. Podemos ver a ansiedade que ele

sentiria quando foram dispersos. É evidente pela carta que a linha de demarcação entre os cristãos e os judeus estava muito indistinta. Os cristãos ainda se reuniam nas sinagogas. Mais tarde se separaram e/ou alugaram casas de culto ou edificaram templos, ou se reuniram em casas particulares.” “A significação da Diáspora é sem ambiguidade e não há motivo para limitar seu alcance à Dispersão Oriental. Havia uma distinção entre os judeus da Dispersão e os da Palestina. Estes eram, na sua maioria, roceiros ou artífices, mas aqueles se congregavam nas cidades e se ocupavam quase unicamente no comércio. Em ambos os casos havia um círculo limitado de eruditos”. (“Expositor’s Greek Testament”). “No tempo em que esta epístola foi escrita havia três principais divisões da Dispersão a de Babilônia, à qual foi concedida a primeira importâncias, a de Síria e a egípcia”. Alfred Plummer. (Expositor’s Bible). O mesmo comentador cita o grande judeu Filon num apelo feito ao imperador Caio por uma embaixada que foi à Roma no ano 40 para obter isenção de um decreto que obrigava os judeus a adorar a imagem do imperador: “Jerusalém é a metrópole, não somente do país da Judéia, mas de quase todos os países, por causa das colônias que tem enviado, segundo a oportunidade que se oferece, para as terras vizinhas do Egito, da Fenícia, da Síria e da Coele Síria e países mais distantes da Panfília e Cilícia, quase toda a Ásia, até Bitínia e os recantos mais remotos de Pontos; outrossim à Europa, a Tessália, a Beócia, a Macedônia, a Etólia, Ática, o Argos, o Corinto, juntamente com as mais partes e as melhores partes da Grécia. E não somente os continentes estão cheios de colonos judeus mas também as ilhas mais notáveis a Eubea, o Chipre, a Creta para não mencionar as terras além do Eufrates. Porque todas estas, com a exceção de uma pequena

parte de Babilônia e daquelas satrapias que constituem o terreno excelente, em redor destas, contém habitantes judeus. De sorte que, se meu povo obtiver uma parte na vossa clemência não seria uma cidade que teria os benéficos resultados, mas dez mil outras, situadas em toda parte do mundo habitado a Europa, a Ásia, a Líbia, continental e insular, das terras marítimas e do interior”. O mesmo sábio intérprete julga que a Epístola foi distribuída principalmente na divisão siríaca da Diáspora e diz: “A tremenda significação da Dispersão como preparativa para o Cristianismo não deve ser ignorada. Um reino tornou- se uma religião”. É para leitores nesta situação que o primeiro livro do Novo Testamento foi escrito.

CAPÍTULO V

COMO CRENTES GENTIOS PODEM COMPREENDER AS ESCRITURAS JUDAICAS A Epístola de Tiago é uma peça de literatura de um hebreu de hebreus, dirigida “às doze tribos que andam dispersas”. O culto se efetua na sinagoga e todos os problemas são os da vida social e comercial das colônias da Dispersão judaica. Para compreendermos o ensino é preciso que nos coloquemos na situação do autor e dos leitores, em outras palavras, que pela força de uma imaginação santificada nos tornemos judeus do primeiro século. Que diferença haveria em vossa vida religiosa, prezado leitor, se fosseis um crente do ano 45 DC, membro de uma tribo de Israel disperso? 1º. - Vosso culto seria efetuado na sinagoga e os presbíteros desta sinagoga vos poderiam dar quarenta açoites menos um por qualquer delito. Atos 9:20; 18:8; 19:8; Tiago 2:2; 2 Coríntios 11:24. Nesta haveríeis de pagar aos apóstolos do sumo sacerdote em Jerusalém os impostos para o sustento do templo, para onde faríeis romaria, pelo menos uma vez na vida. Mateus 17:24-27. A vossa igreja teria suas reuniões na sinagoga no primeiro dia da semana, mas assistiríeis ao culto judaico no sábado. Atos 13:14, 42-44; 17:2; 18:4; 20:7; 1 Coríntios

16:1.

2º. - A vossa Bíblia seria unicamente o Velho Testamento e o culto judaico consistiria na sua leitura e aplicação, e o culto cristão seria diferente apenas na interpretação das passagens messiânicas à luz da vinda de Cristo e da tradição oral cristã para o governo espiritual dos crentes, com seus presbíteros e diáconos e os dois ritos do batismo e da ceia. Em muitos casos a maioria ou a totalidade da colônia aceitaria Jesus

como Messias. Neste caso a sinagoga se transformaria gradualmente numa igreja cristã. Atos 19:9; 13:5. 3º. Vossos filhos seriam circuncidados no oitavo dia pois é engano que o batismo tivesse vindo em lugar da circuncisão e vossa família observaria a Páscoa, Pentecostes, o dia de Expiação e todas as festas judaicas como os demais judeus, inclusive os sábados e luas novas, etc. Atos 4:11; 11:2, Romanos 3:12; Gálatas 2:7-10; Colossenses 4:11; Atos 21:21-26 (notai a isenção dos gentios de tudo isto); Atos 28:17; 1 Coríntios 16:8; Atos 20:16. 4º. Ainda teríeis um crente gentio por imundo. De fato, na maioria dos locais ainda não haveria crentes gentios. De modo que, encontrando- vos com um gentio no mercado e tocando-o, seria necessário tomardes banho, antes de comer, e cumprirdes toda a exigência levítica. Gálatas

2:12-14.

5º. Veríeis com espanto o apostolado de Paulo iniciando igualdade social entre judeus e gentios na fé cristã, e talvez ao princípio, como Tiago, Pedro e Barnabé, não comeríeis a ceia do Senhor com os irmãos gentios por medo de contaminação cerimonial. 6º. Observaríeis as horas de oração do templo, orando como Daniel com

a janela aberta para abanda de Jerusalém, e ensinaríeis aos filhos a

língua da Terra Santa, e em todo o transe vos consideraríeis um colono

de Jerusalém, vossa capital civil e religiosa, e negaríeis estes privilégios

a quaisquer gentios que não se submetessem ao rito de circuncisão.

Atos 2:46; 3:1. Este estado de coisas continuaria até que Paulo estabelecesse igrejas separadas das sinagogas, e com a maioria dos membros gentios, nas sete “províncias” de seus labores, sendo finalmente abandonado com a queda de Jerusalém no ano 70.

Imaginemos uma situação igual. Se os crentes hoje em dia ainda assistissem aos cultos e às festas nos templos católicos, tendo também seu culto evangélico em outras horas nestes mesmos templos, se os pastores tivessem o mesmo direito que os padres de subir ao púlpito católico e pregar o evangelho e se o clero católico tivesse poder de açoitar o crente por qualquer ofensa e se muitas comunidades católicas aceitassem a nossa fé tornando seus templos casas de cultos evangélicos, seria um paralelo. Realmente isto se deu nos tempos de Lutero, Zwinglio, Calvino e Hubmaier. E devemos avaliar que o cristianismo atravessou um período de transição. Em nossos dias se um judeu ou um católico se converte ao evangelho, a mudança é quase instantânea. Mas no princípio a separação era gradual. O próprio Senhor Jesus fundou a igreja e continuou na sinagoga e no templo toda a vida. Levou uma geração para os judeus e os romanos descobrirem que o cristianismo não era mera seita do judaísmo, como os fariseus ou os essênios. Começou a ser descoberto na Antioquia, mas Paulo, quando chegou em Roma, ainda tinha entrada franca nos círculos judaicos os quais, porém, lhe informaram com certa desconfiança que “esta seita” era por toda a parte impugnada, Atos 28:22. O motivo de tudo isto é simples. Israel era uma teocracia; e não havia distinção entre a lei religiosa e a lei civil. Tudo era civil, tudo era religioso, tudo era o regime mosaico. Se um judeu era um bom cidadoa tinha de obedecer a lei levítica, pois era o código civil de sua pátria. Portanto Jesus e Paulo e os demais judeus crentes sempre observaram os ritos da lei até quando Israel deixou de ser um Estado, no ano 70. O ponto da Epístola aos Gálatas é que nada disto se impõe na consciência gentia, e mesmo para o judeu não foi meio de salvação. Mas quando Tiago escreveu, este problema ainda não tinha surgido. Quase todos os crentes fora de Palestina ainda eram “das doze tribos da Dispersão”.

PARTE II

TRADUÇÃO E COMENTÁRIO

CAPÍTULO I

A SAUDAÇÃO DA EPÍSTOLA

TRADUÇÃO 1:1. Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que estão dispersas, saúde.

PARÁFRASE Tiago, irmão do Senhor, companheiro de sua vida humana, convertido por sua ressurreição, primeiro presidente de sua primeira igreja, herói da Cristandade e do judaísmo primitivo, escritor do primeiro volume da biblioteca do Novo Testamento, moderador da conferência pacificadora em Jerusalém, autor da pequena epístola que unificou as igrejas judaicas, gentias e mistas numa comunhão universal, (Atos 15); Tiago, primeira das três colunas da comunidade primitiva, (Gálatas 2), mestre de três línguas, recipiente de uma revelação especial do Senhor ressuscitado, protagonista da santidade evangélica, profeta, bispo, intercessor e mártir. Tiago, o Justo, cujo lugar na estima universal de judeus, e cristãos, é tão seguro que não precisa de argumento, ou defesa, com humildade evangélica se introduz aos seus leitores como apenas “um servo”,

adorador obediente, de Deus Pai e de Jesus Cristo a quem também cabe o nome de deidade Senhor; Tiago saúda seus irmãos das tribos de Israel, membros das colônias da Diáspora; desde Babilônia até Roma, e desde Alexandria até Filipos, enviando cópias desta carta-circular, no ano 45 da era cristã, talvez pela mão de peregrinos que voltam das festas em Jerusalém, a muitos destes grupos de israelitas no império romano, mormente em Antioquia e outras partes da Síria, e admoestando o seu povo sobre sua vida ética e espiritual, ministrando conselhos práticos às sinagogas, às novéis igrejas, e aos núcleos informes de judeus crentes que neste período de transição ainda se congregam nos cultos da sinagoga onde há também judeus incrédulos nos cultos, a cujos auditórios mistos seria lida esta epístola do mais eminente judeu cristão da atualidade, herói e doutor de todos os seus patrícios.

COMENTÁRIO

“O propósito primacial da Epístola”: demonstrar que as obras são a evidência e a prova da fé, e manifestar sua solicitude pela mais elevada ética cristã. O propósito secundário: manter a perfeita igualdade dos irmãos nas comunidades cristãs, contra uma deferência vulgar e mundana à riqueza e à posição social. Versículos chaves: “Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.” 2:17; e “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado.” 4:17 Tema: A fé provada e aperfeiçoada pelas obras.

Palavras-chaves: “tentação” – a solicitação ao mal e a provação pelo sofrimento; “obras” – muito mais do que uma moralidade negativa; sim, o exercício do caráter Cristão; a paciência, a fortaleza, a fé, a oração, a humildade, o amor, a benevolência e o domínio próprio. Schofield.

Propósito: principalmente o avivamento de um estado religioso desanimado, um formalismo morno e a correção das tendências corruptas de uma condição decaída. Caíra a perseguição e não era suportada com com fortaleza, paciência e fé. Esta palavra se encontra no princípio da epístola, quase ao fim, e por todo o capítulo 2, e expressa muito do propósito da epístola inteira. De vários modos São Tiago trata a maneira de vida que procede de um sentimento de confiança na presença de Deus, baseada numa compreensão de seu caráter e propósito. F. J. A. Hort.

Uma instrução missionária dirigida aos convertidos, visando também aos não-convertidos. Lange Páginas soltas de discursos proféticos de Tiago Moffatt.

Razões por que a Epístola foi escrita: 1º estes judeus dispersos estavam sofrendo. 2º Muitos judeus aceitaram Cristo intelectualmente, mas não foram regenerados. 3º Eram contenciosos. Carroll.

Uma Epístola que não é missionária ou evangelística, mas disciplinante. Denny.

Exceto o autor, menção de qualquer pessoa contemporânea é omitida, nem há notícia de qualquer evento histórico que acontecera no próximo passado, nem referência a evento algum na vida do autor ou dos leitores. Nada indica a residência do autor ou dos leitores. Theodoro Zahn. Mesmo sem decidir o exato significado da saudação, é perfeitamente claro que a carta não foi preparada para uma só igreja, mas para grande número de igrejas, largamente separadas. Theodoro Zahn.

A diferença entre o autor e os leitores é que ele está na Palestina e estes não, ele parece estar numa posição de autoridade, porém, estes aparentemente são um povo humilde e sofredor. Há passagens que visam judeus incrédulos, de soslaio, e talvez algumas que são proferidas diretamente a eles. A. Plummer.

A famosa objeção de Lutero que o levou a chamá-la “epístola de palha”: “A epístola não prega e urge a Cristo. Ela doutrina o povo cristão, no entanto não menciona a Paixão, a Ressurreição, e o Espírito de Cristo. O autor menciona Cristo poucas vezes, porém, não doutrina coisa alguma a seu respeito, mas, fala apenas de uma fé geral em Deus.” (Lutero enganou-se e contradisse o primeiro versículo quando escreveu: “Ela doutrina o povo cristão”. É um espírito para auditórios mistos, de judeus crentes e incrédulos. W. C. T.)

Lógica e cronologicamente o ensino de Tiago precede o de São Paulo e São João.chamá-lo retrógrado, quando comparado com um ou outro destes é chamar à criança retrógrada em comparação com o homem. Todas as congregações a quem São Tiago endereçou esta

carta deviam estar num primitivo estado de desenvolvimento. Em certos sentidos até a igreja-mãe em Jerusalém, de onde esta carta foi escrita, nunca foi além destas primitivas fases de progresso. Antes que pudesse superá-las, o centro da Cristandade se mudara de Jerusalém para Antioquia e a Jerusalém nunca voltou. A. Plummer.

Servo: “adorador” – “não de duas potestades distintas e coordenadas, como se fosse servo de dois Senhores. Ser servo de Cristo é impossível sem ser servo de Deus. Hort.

Servo: Em geral, para o judeu, “servo”, quando usado em referência a Deus significava “adorador”, e em referência a homens, “escravo”. Sendo este sentido impossível aqui, “servo” deve ser entendido como significando “adorador”, e a deidade de nosso Senhor

é distintamente implicada. – ““Expositor’s Greek Testament””.

Servo: não devemos, no entanto, destacar as ideias ignóbeis de escravatura em nosso modo de pensar moderno; inteira obediência é tudo que é implicado. Benjamim Warfield.

Servo: “Expressou a absoluta devoção tanto a Deus como ao Senhor Jesus Cristo. Era ligado a ambos igualmente, honrava ao Filho

como honrava ao Pai. Afirmou logo no princípio sua sujeição absoluta

a ambos, e era exatamente isto a maior necessidade dos israelitas a quem escrevia. W. Kelley.

Dispersão: “Para judeus cristãos da Síria, especialmente na Antioquia e na Babilônia.” – F. J. A. Hort.

A estes restos da casa de Israel, cuja “rejeição “ (Rm 11:15) havia de

fruir na “reconciliação do mundo”; cuja “queda” foi a ocasião de nossa “riqueza”; e cujo “abatimento” a fonte das riquezas dos gentios.

“Dispersos”, de verdade! Um “pasmo, por ditado, e por fábula, entre todos os povos” (Deuteronômio 28:37). Um “espetáculo horrendo para

todos os reinos da terra”, uma “maldição, e um espanto, e um assobio,

e um opróbrio entre todas as nações” (Jeremias 29:18), para onde o Senhor os tinha lançado. Ellicott

A significação de diáspora não é ambígua, e não há motivo de limitá-la à dispersão oriental. – ““Expositor’s Greek Testament””.

Podemos dizer sem hesitação que, quando Tiago fala das “doze tribos que estão dispersas”, quer dizer os judeus que residem fora da Palestina e não cristãos longe de sua pátria celestial. A. Plummer.

O emprego do termo “doze tribos” é incompreensível se o escritor quis dizer todos os crentes sem distinção. Ele não faz referência alguma a conversos gentios nem tampouco a relação entre judeus e gentios incorporados num corpo espiritual. Davison.

Esboço de Schofield:

1. Prova da Fé, 1:2 2:26.

2. A Vida Íntima Provada pelas declarações da língua, 3:1-18.

3. Repreensão contra o mundanismo, 4:1-18.

4. Os ricos admoestados.5:1-6.

5. Exortações, 5:7-20.

Esboço de A. T. Robertson:

1.

Introdução, 1:1.

2. Como tratar provações, 1:2-18.

3. Como tratar a Palavra de Deus, 1:19-27.

4. Como tratar os ricos e os pobres no culto, 2:1-13.

5. Como manifestar a nossa fé. 2:14-26.

6. Cautela contra a ambição de ser mestres, 3.

7. Várias exortações práticas, 4, 5.

O esboço da Vulgata, segundo Tischendorf:

I. Utile temptari. Sapientiam deum roga. Opes poreunt. Homo delictgi, Deus boni auctor. Legem Audi ET fac. Linguam doma.

II. Ne posiponas divitibus pauperes. Diligendo proximum Lex tota expletur. Fides probanda factis. Abraham et Raab.

III. Adversus docendi libidinem. Linguae usu dificilis. De vera sapientia.

IV. Fugienda vana libido, adversus obtrectationmem et fiduciam sui.

V. Cohortatio ad divites. Patientia piorum. Non iurandum. Aegrotorum cura, precum vis. De lapsis.

CAPÍTULO II SOBRE PROVAS E TENTAÇÕES TRADUÇÃO

1:2-19

“Meus irmãos, tende por motivo de suma alegria quando fordes assaltados por várias provações, certos de que a prova da vossa fé obra a constância. Contudo (vigiai) que essa constância tenha sua obra aperfeiçoada, para que sejais maduros e íntegros, em nada deficientes. E se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que

a todos dá liberalmente e não lança em rosto, e ser-lhe-á dada. Mas peça-a com fé, nada duvidando, porque o que duvida é semelhante à vaga do mar, agitada e sublevada pelo vento. Não cuide, pois, esse tal que alcançará do Senhor alguma coisa, homem de alma vacilante, a cada passo instável. Porém, o irmão de circunstâncias humildes se glorie na sua

exaltação, e o rico na sua humilhação, porque ele passará como a flor da erva. Porque o sol rompe, acompanhado de um vento abrasador, seca a erva, a flor cai, e a gala de seu aspecto perece! Assim também o rico, no meio de seus afazeres, terá um fim mísero. Feliz o varão que sofre com firmeza a provação, porque quando houver sido provado, receberá a coroa da vida que (Deus) prometeu aos que o amam. Ninguém, ao ser tentado, diga: “De Deus sou tentado”, porque o nosso Deus é imune de tentação pelos males, e, quanto

a ele, a ninguém suscita a pecar. Pelo contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, sendo por ela seduzido e engodado. Então, havendo a Cobiça concebido, dá à luz o Pecado, e o Pecado,

consumado que é, gera a Morte. Meus amados irmãos, não sejais enganados! Tudo que nos é dado é bom e todos os nossos dotes são excelentes, vêm de cima, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação. De pura vontade sua é que nos gerou pela palavra da verdade, afim de que sejamos umas primícias de suas criaturas. Ficai certos disto, irmãos meus muito amados.”

PARÁFRASE Meus irmãos, vítimas de atroz perseguição e ostracismo, longe de desfalecerdes por causa destas aflições, considerai as multiformes provações motivo de grande alegria, pois tendes a certeza de que servem para dar têmpera ao caráter, fortaleza ao ânimo, firmeza ao espírito, constância à vida cristã e perseverança na santa carreira que encetastes. Porém, não queirais parar no meio do caminho! Vede que essa constância de ânimo leve sua obra ao termo, produza um resultado acabado, tenha seu fruto maduro e com todo o seu sabor, afim de que chegueis à madureza de caráter e integridade de vida, possuindo todos os dotes de um homem completo em Cristo, e tendo estes dons desenvolvidos ao máximo grau de sua possibilidade, sem defeitos e lacunas em fase alguma de vosso caráter. Para este santo ideal qual de vós não sente sua insuficiência? Quanta sabedoria não será precisa para quem deseja alcançar este alvo? Peça a Deus, nosso generoso Deus, que não cansa de dar e nunca lança em rosto! Peça a Deus o santo bom sendo, a prática inteligência espiritual, para viver através deste transe tão agudo, de uma maneira digna da fé que anima seu coração. Mas peça-a com a confiança que venha de uma fé viva em Deus, não com dúvidas e hesitações. Tamanha desconfiança, irresoluta, diante do infinito poder

do Eterno, só desperta em Deus o nojo. Ele contempla o suplicante de ânimo dobre, indeciso, vacilante como o viajante enjoado encara a vaga agitada do mar. Melhor não orarmos do que sermos inconstantes na posição que tomamos perante o mundo na profissão de nossa fé. Não pense tal suplicante que alcançará coisa alguma de Deus. Às suas súplicas Deus é surdo! E esta atitude é independente de circunstâncias. Tanto o pobre como o rico, sejam firmes pela sabedoria concedida por Deus. O pobre está no mesmo nível com o rico na comunhão do povo de Deus, portanto, corajoso nas provações, regozije-se na sua posição exaltada na irmandade. E o rico despreza suas perdas materiais e sociais, reconhecendo nesta humilhação social sua exaltação ao maior dos privilégios, o de membro da comunidade dos santos. De fato, distinções materiais e sociais são efêmeras, a abastança de hoje é a miséria de amanhã. Portanto deixai de considerar as coisas que perecem e contemplai os valores que são eternos. A distinção suprema, para rico ou pobre, é a coroa da vida, e esta é dada, não aos que vacilam entre Deus e o mundo porque desejam amar e servir ambos, mas será recebida por aqueles cuja vida é animada tão somente pelos sentimentos de amor a Deus, Longe de vós o fatalismo, a ideia fixa do fariseu! Deus não é o culpado de vossos impulsos para o mal. Ele é incapaz de sentir o menor impulso para o mal, portanto, não seria capaz da maior das iniquidades, o ato de solicitar a outrem a pecar. Pelo contrário, o pecador é o autor de sua própria tentação. Deus manda ou permite as circunstâncias exteriores que nos provam, porém, o impulso para ceder e pecar procede de dentro de nós mesmos. Nossa cobiça carnal é a meretriz que nos seduz, é o pescador que primeiro nos abstrai do lugar de segurança e inocência, depois nos engoda e facilmente nos apanha.

Esta tentadora que reside em nós, de sua união ilícita com a nossa vontade concebe o Pecado. E este filho bastardo e malvado, num incesto horrível com sua progenitora, gera a Morte, a segunda morte, a eterna separação de Deus. Não! O impulso a pecar procede de nós mesmos, não de Deus. A culpa cai unicamente sobre nossa cabeça. Deus procura a nossa ruína?!? É de Deus que procede tudo que

é bom no universo, e apenas o bom. Todos os impulsos, todos os dotes que herdamos por natureza são bons. Ele nunca colocou em nós

tendências para o mal. De sua iniciativa criadora e providencial procede somente o bem. “Viu Deus tudo que fizera e eis que era muito bom”. O Pai Criador das luzes que brilham em nosso firmamento é luz perfeita sem mistura de trevas. O sol reveza o dia e a noite, a lua tem suas fases, o sistema planetário seus eclipses, mas estas mudanças não têm paralelo em o caráter de Deus. Nele não há variação, nem sombras ou nuvens. Eternamente é luz inefável, procurando nosso bem. E a prova

suprema deste fato é seu propósito de redenção

por sua voluntária

iniciativa e bondade nos revelou a Palavra do Evangelho, e por meio deste gérmen da vida implantou em nós uma nova natureza, capaz, pela sua graça, de combater o mal em nossa própria carne. Esta natureza é sua segunda criação, e nela nós somos as primícias de uma nova raça espiritual, aquela multidão que ninguém poderá contar, de

toda a nação e de todas as tribos, povos e línguas. Ficai cientes desta suprema manifestação de sua bondade. Gravai-a na memória e na consciência! Nunca sejais ludibriados pelo fatalismo, que paralisa toda

a atividade da alma! Deus é bom, e tudo no universo, no homem e na experiência humana que dele procede é unicamente bom e bondoso!

COMENTÁRIO 2. Provações: A prova da fidelidade, inteireza, virtude e constância. A solicitação para pecar. Thayer.

A inocência é deveras uma graça, todavia há uma fase mais elevada da mesma virtude, isto é, a pureza que foi ganha por um conflito longo e amargo com mil sugestões para o mal que venham de fora, despertando a impureza natural dentro de nós. Ellicott.

a palavra “fordes assaltados”, ou “cairdes”, que se usa

concernente à nossa experiência de provações, implica que aquilo com que nos encontramos é-nos desagradável, inesperado, e não desejado. Outrossim, implica que esta calamidade imprevista é bastante larga

o que S. Tiago tem em mira são provações

para nos cercar e cobrir

externas, tais como a pobreza do intelecto (v. 5) ou de bens (v. 9), ou a perseguição (2:6,7). A. Plummer.

Razões dadas pelo mesmo autor para nos alegrarmos nas provações: São oportunidades de praticar a virtude que não se pode aprender sem exercício, nem se exercita sem oportunidades. (2) Elas nos ensinam que,l aqui, não temos cidade permanente, pois um mundo em que tais experiências nos sobrevêm não pode ser considerado nosso lar para sempre. (3) Elas nos tornam mais parecidos com Cristo. (4) Temos a certeza da graça divina, e a garantia de que nunca será posto sobre nós mais do que podemos suportar. (5) Temos a confiança em compensação abundante aqui e além túmulo.

O apóstolo diz: tentações várias, mas o termo aqui não siginifica as incitações ao pecado, porém, as aflições com que Deus costuma experimentar os homens para que mostrem o que são. Stier.

Toda alegria: Isto não quer dizer a totalidade da alegria, como se

Nem

diz S. Tiago que a provação é toda alegria; mas nos exosrta a assim considerá-la, a contemplá-la do ponto de vista otimista, como sendo

não houvesse alegria em outra coisa a não ser nas provações

uma experiência que possa ser transformada no mais alto bem para nós que a suportamos. Mayor.

Provações: Talvez haja alusão ao massacre dos Judeus da

O Dr.

Hatch, ao que nos parece, restringe demais a palavra uma qualidade

de provações, isto é, a aflição. As riquezas são tão verdadeiras provação quanto é a pobreza, como se vê em v. 10 e 1 Tm. 6:9; e a

tentação de Cristo no deserto (Lc 4:13) não foi um apelo ao medo mas sim à esperança e ambição. Até que ponto podemos generalizar estas “várias provações”? além de dor e tristeza e temor, certamente, abrangerãotoda a sorte de perplexidades, desapontamentos,

A atitude

ansiedades e qualquer outra coisa que vos vexa ou perturba

Diáspora oriental uns dez anos antes desta epístola ser escrita

certa é considerar todas estas experiências como uma disciplina para o céu, formando uma parte da cruz que tem de ser levada por todo cristão. Mayor.

3. Fé: A confiança que ressalta de uma fé viva em Deus. Thayer.

S. Tiago interpretou a fé como significando, não somente o mero reconhecimento ou confissão de Deus, mas confiança nele. Cremer.

Sabendo, certos: O verbo e o tempo indicam reconhecimento progressivo e contínuos, pela experiência da vida diária. E isto nos ensina que as provações não somente trazem à luz, mas criam, a

No correr dos anos é muito mais fácil regozijar-

paciência, a fortaleza

se nas tribulações, e ser grato por elas, do que meramente submeter- se negativamente e estar resignado pacientemente. A. Plummer.

Constância: Constância, fortaleza, perseverança no Novo Testamento é o característico de um homem que não pode ser desviado do seu propósito e lealdade deliberada à fé e à santidade, mesmo pelas maiores provações e sofrimentos. Thayer.

“Estabilidade, firmeza, tenacidade de propósito, um entusiasmo inapagável”. – Ellicott.

O termo está usado na literatura a respeito de pessoas num combate, e significa a capacidade de conservar sua posição, sem perder terreno; denota especialmente a decisão psicológica, a fixidez da esperança messiânica no meio das contradições desta vida. Cremer.

A peculiar clareza psicológica e atitude decidida que a esperança adquire na economia da graça, em virtude de seu caráter que exclua toda a vacilação, dúvida, e incerteza, e de conformidade com sua disposição do asseverar sua fé no meio das contradições deste mundo. Cremer.

Usado (1) para significar o ato de ficar firme, e (2) para a têmpera de durabilidade. Mayor.

4. Maduros e íntregos: “Obra aperfeiçoada”, - acabada, nada faltando para ser completa. “Sejais maduros”. De caráter bem desenvolvido e varonil, tendo chegado à própria altura de virtude e integridade. “Íntegros” – não faltando parte alguma, sendo tudo são, sem falta ou mancha. Thayer.

No homem íntegro nenhuma graça que deve estar no caráter de

um homem cristão está faltando; no homem “maduro” nenhuma graça está meramente nos seus fracos princípios, porém todas elas chegaram

a uma certa madureza e delicioso sabor. Trench.

Os maduros são idênticos com os espirituais. Lightfoot.

Não perfeitos no sentido exato desta palavra, “pois todos nós

tropeçamos em muitas coisas” (3:2), embora sejam todos admoestados

a procurar alcançar a perfeição, Mt 5:48; Ef 3:19; 4:13. O termo usado é a respeito de animais que cresceram ao seu tamanho natural, e, portanto, nesta passagem, a respeito de cristãos que chegaram à madureza de caráter e entendimento. Assim torna-se quase sinônimo

Em Hb 2:10 é declarado que Cristo foi feito

perfeito, maduro pelo que sofreu. Mayor.

de espiritual e sábio

5. Sabedoria: O conhecimento e prática dos requisitos para uma vida piedosa e reta. Thayer.

“Nenhum obreiro é desculpado de praticar asneiras repetidas. Se lhe falta o bom sendo, peça-o a Deus”. – J. F. Love, no seu primeiro discurso no Brasil, Rio de Janeiro, 1922.

Sabedoria, o poder íntimo de tirar proveito das provações exteriores não pode ser suprida pelas provações: pode ser obtida de Deus gratuitamente por quem pedir: Ele a enviará diretamente ao coração. Hort.

São Tiago usa a palavra para indicar a sabedoria prática que supera o conhecimento intelectual porque não somente sabe a verdade, mas age de acordo. Farrar.

O homem mais sábio não é aquele que sabe. A sabedoria é a aplicação à vida do que se conhece. Saber o que fazer, saber exatamente fazê-lo, e saber fazê-lo no momento oportuno, eis a

A maior parte das dificuldades que sobrevêm às igrejas

sabedoria

resulta de uma falta de sabedoria por parte do pastor. Não sabe tratar com a devida delicadeza casos de disciplina na igreja. Carroll.

Como uma existe uma Mente mais alta do que a nossa, assim existe um Coração maior do que nosso coração. Há uma vida infinita de sentimento e afeto em Deus. Ele tem sensibilidade, e num grau infinito. Porém, este sentimento sozinho não é o amor. O amor implica tanto em dar como em receber , não somente a emoção mas a comunicação de si mesmo. Igualmente o amor de Deus se expressa em

é da

dar eternamente o dar não é mero episódio na sua existência natureza divina. Strong.

Sabedoria: as leis do céu para a vida na terra A. T. Pierson.

8. Alma vacilante: Um homem que tem duas almas uma em conflito com

a outra: Comparai 1 Re 18:21; Sl 12:2. O Sr. Olhando-para-ambos-os- lados, de Bunyan, e os espíritos neutros encheram o vestíbulo do Inferno de Danmte. Farrar.

O homem que não confia em Deus não é digno da confiança dos homens. – “Expositor’s Greek Testament”.

9. Glorie: Hillel, o grande Rabi, é citado como dizendo: “Minha humildade é a minha grandeza, e a minha grandeza, minha humilhação”.

A Palavra “gloriar” é usada por Paulo, geralmente num sentido bom: o cristão se gloria em Deus (Rm 5:11), em Cristo, Rm 15:17, na esperança de salvação, Rm 5:2; nos conversos Paulo se gloria, 2 Co 7:14, em aflições, Rm 5:3, em enfermidades, 2 Co 12:9. Mayor.

A prosperidade é a benção do Velho Testamento e a adversidade

a do Novo Testamento. Bacon.

As riquezas são sempre uma fonte de tentações. Sem exagerado amor à mendicância, o irmão do Senhor aprendera que, embora a riqueza não seja pecado, nem a pobreza uma virtude, no entanto a

pobreza humilde e contente é a verdadeira riqueza, e a riqueza soberba

e indulgente é a verdadeira pobreza. Farrar.

Coroa de vida: A felicidade eterna que será dada como galardão aos servos genuínos de Deus e Cristo. Thayer.

A

vida mesma é a coroa

implicadas. Hort.

perpetuidade, plenitude, e vividez

vida real e genuína, “vita

quase sola vita nominanda”, (vida como só a vida é chamada)

(Cícero, De se Nec. 21,77) uma vida ativa, vigorosa, dedicada a Deus,

bem aventurada

em Cristo, porém depois da ressurreição será consumada por acréscimo de valor, inclusive um corpo mais perfeito, e perdurará eternamente. Thayer.

é a porção mesmo nesta vida daqueles que confiam

Vida verdadeira depois da ressurreição

14. Seduzido: A figura é tirada da caça e da pesca. Como a caça é aliciada de seu esconderijo, assim o homem é atraído do seu domínio próprio para pecar. (A linguagem da caça parece ser transferida às seduções de uma meretriz personificada pela Cobiça.) Thayer.

Em toda a passagem, São Tiago representa a Cobiça como tomando parte da mulher de Potifar. Plummer.

Cobiça, no sentido mais lato do Desejo. Hort.

A perda da vida que vale a pena ser chamada vida, a

miséria da alma que resulta de seu pecado, principalmente na terra e aumentando depois da morte do corpo. Thayer.

15. Morte:

A morte principia aqui, chega ao seu ponto culminante além do túmulo. Strong.

Nem dia,

nem noite, nem estações, nem variações na disposição generosa do

Pai e Criador das luzes. Thayer.

17. Pai das luzes:

dos astros, dos luminares celestes

Sombra de variação

dia e noite, as fases obscuras da lua, as

sombras causadas pelas nuvens. Hort.

18. De pura vontade sua: De sua livre vontade nos gerou, não sendo de acordo dizer, como dizem alguns, que estão tentados a pecar por Deus. Thayer.

Novo Nascimento: A passagem que, do ponto do vista espiritual, é a mais importante na Epístola, e impregnada da mais profunda instrução.

As lições mais profundas sobre o novo nascimento são:

(1) Sua causa: Desde que necessitamos de uma nova vida, Deus, por um ato que resultou do livre propósito de sua própria vontade e escolha, nô-la deu, por que lhe é natural abençoar. Sua vontade é amorosa, livre e frutífera no máximo grau. (2) O Ato: Deus nos deu o novo nascimento. Assim Bengel diz: “Deus é para nós tanto Pai como mãe”. Deus é doador da nova vida, não o Destino como diziam os Fariseus, nem nossos próprios esforços, como diziam os Saduceus.

(3) A instrumentalidade: Como a causa do Novo Nascimento foi o propósito de Deus, assim a instrumentalidade foi a Palavra da verdade, a divina revelação de Deus aos homens. (4) A Maneira: Deus nos gerou implantando, ou enxertando, esta Palavra da verdade em nós. Pode ser uma referência à parábola do semeador, na qual a semente semeada é identificada com o coração que a recebe. (5) O Resultado: Somos umas primícias de suas criaturas. A) Somente uma espécie de primícias, por assim dizer. Porque Cristo é as eternas primícias, e depois, nós em Cristo. B) As primícias são o princípio de uma grande oferta sacrificial. C) O fato de sermos primícias mostra a esperança da seara daquela multidão que ninguém pode enumerar. D) A palavra enxertada é a única fonte de segurança e força. É poderosa para “salvar as nossas almas”. Assim, numa breve sentença, São Tiago concentra muitas verdades solenes, e até pelas palavras de sua vontade rejeita o fatalismo dos Fariseus e a asserção arrogante dos Saduceus de que a salvação está ao alcance de nosso poder, para efetuá-la. Farrar (adaptado).

CAPÍTULO III SOBRE A PALAVRA DE DEUS E A VIDA TRADUÇÃO

1:18-27

De pura vontade sua é que nos gerou pela palavra da verdade, afim de que sejamos umas primícias das suas criaturas. Ficai certos disto, irmãos meus muito amados. Mas seja todo homem pronto para ouvir, tardo para falar, e custoso de se irar, porque a ira do homem não opera a justiça de Deus. Pelo que, despindo toda a imoralidade e restos de malícia, com mansidão acolhei a palavra em vós arraigada, a qual pode salvar as vossas almas. E tornai-vos observadores da Palavra, e não ouvintes tão somente, iludindo-vos a vós mesmos com sofismas. Porque se alguém é ouvinte da palavra, porém não praticante da mesma, é semelhante a um homem que contempla ao espelho seu próprio rosto; porque se contemplou, e foi-se embora, e imediatamente esqueceu-se de que tal era. Mas o que atentar para uma lei perfeita, que é a da liberdade, e nela perseverar, de modo algum feito ouvinte esquecido, porém executor de obra, este será bem aventurado na sua obediência. Se alguém se considera que é religioso, não refreando sua língua, mas enganando a seu próprio coração, a religião deste é fútil. Eis uma religião genuína e sem mácula diante de Deus Pai:

visitar órfãos e viúvas na sua tribulação, e guardar-se livre da contaminação do mundo”.

PARÁFRASE Visto que tendes a plena certeza da imutável beneficência e experimentais a suprema manifestação desta bondade deliberada, isto

é, a regeneração da alma pelo gérmen de vida eterna que é a Palavra do Evangelho, atentai para esta Palavra com toda a diligência, assimilando e manifestando na vida toda a verdade que ela contém. Lembrai-vos de que esta Palavra não existe para a controvérsia e as discussões e o ódio partidário que são tão comuns em vossas sinagogas. Aliás estas paixões e ressentimentos mancham a alma e não põem em execução aquela justiça que Deus exige e só Deus pode operar na vida humana. Portanto daí lugar ao silêncio, à meditação, à calma do espírito, ao ouvido atento e bem disposto. Considerai a Palavra que ouvis uma planta tenra e preciosíssima, na horta da vida diária, a ser cultivada assiduamente até saboreardes sues frutos deliciosos e salutares. Longe de vós, acreditar que a mera assistência aos ritos da vossa religião, ou mesmo a reverente atenção, no momento de serem lidas as Escrituras no culto, completam vosso dever para com a Palavra e Seu divino Autor. Deus é o Deus da semana inteira, e não apenas das breves horas sabáticas. Um relance neste espelho não basta. É preciso que atenteis bem ao mal que ele revela em vossa vida e cuideis de ser limpos. Não sofismeis vossas próprias almas imortais, chamando escravidão esta obediência à lei de Cristo. É a única liberdade; conhecereis a verdade e a verdade vos libertará, e encontrareis gozo e alegria numa vida de obediência. É bom manter o culto, como fazeis tão assiduamente. Porém, o domínio da língua é um ato de culto a Deus. O silêncio é, às vezes, o mais nobre louvor, sacrifício que Deus não despreza. Quem não refreia sua língua, mas antes deixa-a solta para caluniar, praguejar, e manchar a memória com anedotas imundas, pode ser um devoto muito fiel ao ritual da casa de Deus, porém é um iludido, enganando sua própria alma. Semelhante religião era a dos Fariseus, que devoravam as casas

das viúvas e por pretenso ritualismo faziam orações extensas. Religião fútil e oca! O verdadeiro culta é uma vida de afeto social que abrange a sorte da viúva e a do órfão, aliviando suas necessidades, e uma vida que não segue a maioria mundana, a norma popular, conformando-se com sua geração, mas renova a mente nas fontes límpidas da Palavra da vida e prova qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

COMENTÁRIO Versículo 18: Esta sentença marca a transição do assunto das tentações para o da Palavra de Deus, portanto a repetimos neste trecho da epístola. A resolução divina para nos gerar pela Palavra para a vida e a salvação é a prova de que Deus não é o autor de nossas tentações. E agora que o assunto é mencionado, Tiago manifesta o lugar da Palavra arraigada, acatada e praticada, numa vida religiosa. -W.C.T.

Três figuras da palavra de Deus: Tiago, como seu divino irmão, era feliz na sua linguagem figurada.

I. A Palavra da Verdade é o gérmen da vida por meio do qual Deus gera a nova criatura. O Espírito regenera o pecador que crê no Evangelho, por meio desta mensagem vivificante.

II. A Palavra é uma semente, uma raiz, um enxerto. Sendo vitalmente ligada com a nossa consciência pelo Espírito de Deus, ela vive em nós, e com a nossa força e em nossa personalidade produz seus frutos peculiares e santos, que em nós mesmos nunca teríamos a capacidade de produzir.

III. A Palavra é um espelho, revelando-nos a nós mesmos para que nos possamos concertar e purificar segundo seu ensino. W.C.T.

Ficai certos: Esta sentença cabe melhor no parágrafo anterior. Tiago dá toda a ênfase à benévola resolução voluntária de Deus para nos regenerar, em lugar de nos tentar para o mal, como os judeus dispersos estavam quase dispostos a imaginar. Moulton traduz: “Podeis ter plena certeza”. – W. C. T.

19:20: Tiago muda de vocábulo ao passar do v. 19 para v. 20. “Seja todo o homem, todo o gênero humano, pronto para ouvir.” “porque a ira de um varão não obra o que Deus acha justo”. Por máscula que seja a defesa da dignidade pessoal, ou por mais varonil que seja a indignação contra as injusttiças, mesmo esta ira viril não consegue fazer o bem ou agradar a Deus. W; C. T.

Justiça de Deus: a justiça que Deus exige. Thayer.

Tardo para falar: Francisco de Sales, o santo que o papa fez padroeiro dos escritores católicos, disse uma vez: “Fala pouco e gentilmente, pouco e bem, pouco e com simplicidade, pouco e honestamente, pouco e amavelmente.”

Ira de varão: A escolha de varão (enfaticamente masculino) em lugar de homem (no sentido genérico), nesta conexão foi determinada provavelmente pelos fatos do caso; os faladores seriam varões, e talvez pensassem que havia algo de varonil em violência, em contraste com a virtude da mansidão, estimada como característico feminino. Mayor.

Justiça de Deus: O que São Tiago entendeu pela frase foi, sem dúvida, (1) a obediência perfeita à lei da liberdade contida no Sermão da Montanha, em contraste com as formalidades exteriores que

constituem a justiça aos olhos humanos, e(2) o reconhecimento do fato de que esta justiça é o dom de Deus, obrada em nós por Sua Palavra recebida em nossos corações. Mayor.

21. Despindo toda a imoralidade e restos de malícia: “Pondo de lado como se despe uma veste”. – Thayer. Imundícia: a iniquidade, como moralmente manchando”. – Thayer. Resto de malícia: a iniquidade que ainda resta no cristão do seu estado anterior à conversão. Thayer. Malícia: O que era considerada indignação santa, não passava de malícia. Hort. Imoralidade: provavelmente significa imundícia no sentido de impureza e cobiça carnal. – ““Expositor’s Greek Testament””. Estas palavras deixam a impressão de que os leitores a quem foram proferidas estas palavras ainda não podiam ser chamados cristãos. idem. Restos: “Os cristãos visados já renunciaram o pecado, porém este não é inteiramente conquistado neles”. – Mayor. Despindo: Spitta pensa que se refere ao enfeite que o pecado se traja. idém. Com mansidão: em posição enfática no original. W.C.T.

A palavra em vós arraigada: A doutrina implantada por vossos mestres (ou por Deus) recebei como semente em solo bem preparado Thayer. Hort nega que este verbo que traduzimos “arraigados” possa significar “enxertada”.

Esta “palavra” seria às Escrituras lidas nas sinagogas. – ““Expositor’s Greek Testament””. Nascida, natural em distinção de implantada ou enxertada de fora. Moulton e Milligan, argumentando com o uso nos papiros. A palavra se encontra somente aqui no Novo Testamento. Seu uso geral significa inata, porém o contexto aqui proíbe esta significação. Portanto, precisamos tomá-la no sentido da “palavra em vós arraigada”, isto é, uma palavra cuja natureza é arraigar-se no coração qual semente. Comparai Mt 13:2-23, especialmente o verso 21, “mas não tem raiz em si”. – Mayor.

As vossas almas: A alma humana, constituída de tal forma que pelo uso dos meios que lhe são oferecidos por Deus, pode alcançar seus fins mais elevados e conseguir a bem-aventurança eterna, a alma considerada com um ser moral designado para a vida eterna.

22. Tornai-vos: Há uma mudança, no original, nos tempos dosa verbos que é digna de nota. Tiago diz: Despi, de vez, os restos da iniquidade da velha vida e, numa decisão definitiva, recebei a Palavra cuja natureza é arraigar-se em vós e que é poderosa para salvar a alma. É um mandamento da ordem: “dito e feito”. É a iniciação da obra da Palavra na vida. Porém o verbo, em seguida, dá atitude contínua e estável da alma para com a palavra. Sede obradores perpetuamente da Palavra que recebestes na conversão. Tendes recebido a Palavra uma vez para sempre no coração e fostes salvos por ela. Agora perseverai no seu ensino: manifestai sua mensagem santa nos atos; encarnai em vós a Palavra. São as fases instantâneas, regeneradoras, vivificantes da Palavra na alma, seguidas pela sua manifestação resultante e perpétua. W. C. T.

Tornai-vos: Mostrai-vos cada vez observadores da palavra. Mayor. “Rabi Chananiah costumava dizer: Aquele cujas obras são em excesso de sua sabedoria, sua sabedoria vinga; porém não vinga a sabedoria daquele cuja sabedoria está em excesso de suas obras”.

“A religião não consiste em conhecer e crer mesmo a verdade fundamental, antes em sermos conduzidos para uma certa têmpera e maneira de viver!. – (Butler), ou como diz São João, “Quem obra justiça é justo” – A verdadeira prática cristã cresce, é o fruto de progresso o “observador|” da Palavra se torna tal por profissão e exercício; a frase implica um hábito Os judeus têm um provérbio que diz: “Quem ouve sem fazer é como o lavrador que semeia e cultiva, mas nunca ceifa”. – A. Plummer.

Disse o Rabi Shimeon, filho de Gamaliel: “Há quatro caracteres de discípulos: Pronto para ouvir e pronto a se esquecer seu ganho é cancelado pela sua perda. Tardo para ouvir e tardo para esquecer sua perda é cancelada pelo seu ganho. Pronto para ouvir e tardo para se esquecer este é sábio. Tardo para ouvir e pronto para se esquecer – sua sorte é má”.

Iludindo-vos a vós mesmos com sofismas: O original sugere que o homem leva sua própria alma à parte, para uma palestra íntima e a catequiza com sofismas ao partido do mal e da ilusão. W. C. T.

23. Outyra vez o vocábulo homem é enfaticamente másculo. É um homem que estuda suas feições ao espelho. A vaidade não é mais feminina do que masculina. O espelho de que Tiago pensa é de metal polido, dando um reflexo assaz imperfeito, como Paulo disse: “Em enigma”. O rosto de sua “Gênesis”, ou rosto nativo, ou natural, é a frase de Tiago. Mayor pensa que se refere a esta existência terrena e passageira, em contraste com o caráter que se reflete no espelho da Palavra, caráter que se está moldando para a eternidade. Porém achamos mais natural traduzir “seu próprio rosto“. – W. C. T.

24. Outra vez Tiago, no original, usa seus verbos vividamente. Muda o tempo para o “aoristo gnômico”. O dr. A. T. Robertson diz:

“Tiago viu o homem. Foi-se embora”. Um relance para o espelho, partiu incontinente e não ligou mais import~^anciã. É assim com o ouvinte esquecido da Palavra. Porém, a figura do cumpridor da Palavra é única. Este atentou, baixou-se como João e Maria quando olharam para o túmulo vazio de Jesus é o mesmo verbo e assim se estudou ao espelhjo da Palavra, e se corrigiu. W. C. T.

25. Uma lei perfeita, que é a da liberdade: “a religião cristã” – Thayer. Sua própria frase peculiar, em contraste propositado com a letra

e sua escravatura. Pressupõe a vida nova que a graça de Deus dá ao

pecador, e que encontra seu prazer nas coisas que lhe agradam segundo são mostradas na Sua Palavra. W. Kelley. O ouvinte atento sente que a Palavra da Verdade é, e deve ser,

a lei de sua vida, embora seja uma lei da liberdade: é o ideal em que seus olhos estão fixos, não um jugo pesado demais para sua cerviz.

Mesmo da lei mosaica o salmista diz que a Lei do Senhor é perfeita, porém este é meramente rudimentar em comparação com a Lei de Cristo (Gl 6:2), como é demonstrado no sermão da Montanha e na Epístola aos Hebreus. Assim, Paulo se descreve como sendo “sob a lei de Cristo”, (1 Co 9:21), e ainda descreve a nova lei como uma “lei da fé” (Rm 3:27). É dela que o apóstolo fala, em linguagem que bem pode servir de comentário sobre este texto de São Tiago: “A lei do Espírito da vida em Cristo Jesus me livrou do pecado e da morte”. (Rm 8:2). Jeremias profetizou desta lei (31:32) como uma nova aliança que haveria de ser escrita no coração. Que induziu São Tiago a chamar o Evangelho uma lei de liberdade aqui e em 2:12? Claramente porque é uma lei de que não é forçada pela compulsão exterior, mas livremente aceita como expressando o desejo e o alvo do súdito dela. Esta obediência voluntária é até reconhecida no Velho Testamento (Ex 35:5; Dt 28:47; Sl 1:2; 40:8; 54:6; 119:32-45; 97; 51:21). Porém a fonte de onde, provavelmente, veio a ideia de Tiago foi sua memória das palavras de Mt 5:17: “Não penseis que eu vim para revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas cumprir”, e de João 8:33: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. É outro ponto em que São Tiago nos lembra dos Estóicos. Comparai o paradoxo deles. “Somente o mais sábio é livre,e todo o néscio é escravo”, sobre o qual Cícero comenta: “Qui est libertas? Potestas vivendi ut velis”. Comparai com Rabi Gamaliel que costumava dizer|: “Faze Sua vontade como se fosse tua vontade”. – Mayor.

O grande lexicógrafo do Novo Testamento Grego, Thayer, assim fala do vocábulo Lei, na Epístola de Tiago: “Embora os judeus não fizessem distinção entre os preceitos morais, cerimoniais e civis da Lei,

no entanto, no Novo Testamento a Lei é mencionada, às vezes, de tal forma que mostra que o escritor tem em mira somente a sua fase ética, como de importância principal, e de validade perpétua entre cristãos, porém despreza as partes cerimoniais e civis como sendo escritas somente para judeus. Gl 5:14; Rm 13:8-10; 2:26; 7:21-25; Mt 5:18 e assim muitas vezes. Na Epístola de Tiago ‘a Lei’ significa, unicamente, as partes da Lei ética que foram confirmadas pela religião cristã”

A perfeita lei da liberdade e a “lei real” ambas referem à Lei como foi aperfeiçoada pelo “Rei dos Judeus” – ““Expositor’s Greek Testament””.

O cristianismo como o cumprimento ética da Lei. A lei que Tiago tem em vista sempre é a Lei como foi exemplificada na vida de Jesus, a qual seus amigos amam e gostam de cumprir. Marcus Dods.

E nela persevera: Ficar ali, e continuar a olhar atentamente até que todas as manchas sejam lavadas e desapareçam. Thayer. A lei de Deus exige contemplação constante e aplicada, não mero relance passageiro. O ouvinte pode ser iludido por falso raciocínio, cheio de ignorância opiniática, repleto de uma infalibilidade bem satisfeita consigo, dado ao dogmatismo, à conversa insistente, no espírito intemperadamente contencioso, às denunciações de outros, e no entanto pode considerar-se “religioso” por que se submete a repetir um bom número de ordenações exteriores. Mas a verdadeira religião não é um ritual extenso de cerimônias e abluções, as quais podem ser perfeitamente consistentes com a hipocrisia farisaica fútil e a devoção própria e, normalmente, tendem a degenerar ao ponto de não ter mais valor. O ritual, para ter relação íntima com “a religião pura e imaculada”,

deve manifestar-se em obras de amor ativo, em ser “imaculado do mundo”, livre da contaminação, da mancha do vagaroso contágio do munod. O único ritual verdadeiro é o amor. Farrar.

CAPÍTULO IV IMPARCIALIDADE E DEMOCRIACIA NOS CULTOS TRADUÇÃO

2:1-13

Meus amados irmãos, deixai de associar deferências a pessoas gradas com a fé que tendes em nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Glória divinal. Pois se entrar em uma sinagoga vossa algum varão que tenha anéis de ouro e trajes esplêndidos, mas entrar também um pobre em roupa suja, e se tratardes com deferência aquele que vista os trajes luxuosos, e disserdes: “Tu, assenta-te aqui neste lugar de honra”, e ao pobre disserdes: “Fica tu para lá em pé, ou senta-te abaixo do estrado dos meus pés”: não haveis feito distinções entre vós mesmos e não vos tornastes juízes de pensamentos perversos? Ouvi, meus irmãos amados. Não escolheu Deus os que para o mundo são pobres para serem ricos em fé e herdeiros do reino que ele prometeu aos que o amam?

Vós, porém, menosprezastes o pobre. Os ricos não vos tiranizam e não são eles os que vos arrastam perante os tribunais? Acaso não são eles os que difamam o nobre Nome pelo qual sois chamados? Se vós, contudo, observais a lei real segundo a Escritura: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”, fazeis bem; mas se vos deixais levar por deferências a pessoas gradas, cometeis um pecado, sendo convencidos pela lei como transgressores. Pois quem guardar a lei toda, porém em um só ponto tropeçar, é constituído réu de ter violado todos. Pois aquele que disse: “Não cometerás adultério”, também disse: “Não matarás”. Se, porém, não cometeres adultério, mas, és homicida, estás feito transgressor da lei. Falai de tal sorte e de tal sorte

procedei como homens prestes a serem julgados pela lei da liberdade. Pois o juízo será sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia; a misericórdia triunfa sobre o juízo.

PARÁFRASE Meus irmãos em Cristo, reunidos nas sinagogas da Diáspora, juntamente com vossos concidadãos das respectivas colônias de Israel, deixai do costume, tão geral entre vós, de exercitar a fé em nosso Senhor Jesus Cristo numa atmosfera mundana de respeitos humanos, deferências prestadas a fidalgos, acompanhados pelo desprezo dos pobres, atos a atitudes de parcialidade e distinções de classe, o arbitrário acatamento dos homens pelo que têm e não pelo que são diante de Deus. Não é assim que a fé em Cristo se transforma em vida. Ele é nosso Senhor, é a Glória de Deus, é o próprio Jeová manifestado na carne, como outrora se manifestava nas teofanias da dispensação mosaica. Pois nós nos reunimos no dia do Senhor para acatar a esta Glória inefável, e não para prestar homenagem servil às pequenas distinções arbitrárias que existam, ou que finjam existir por aí entre os homens. Curvemo-nos unicamente diante de Deus quando estamos na sua casa, na qual todos são suas criaturas e devem ser seus adoradores sem distinção. Pois bem. Suponhamos que entre numa das vossas sinagogas um homem com os dedos cobertos de anéis, e com a mais luxuosa roupa, segundo a moda mais elegante, e entre também um pobre mendigo maltrapilho e sujo. Que fazer? Se nos aproximarmos do rico com toda a deferência e dissermos: “V. E. tenha a bondade de sentar- se aqui neste bom lugar, que lhe compete, é um dos primeiros assentos; muito nos honra a sua visita”, e para o mendigo nos mostrarmos

indiferentes, ou talvez até aborrecidos dizendo: “Vai para lá e te senta no chão onde não impeças a vista ou o cômodo de alguém” em que categoria de homens ficamos nós? Esqueçamo-nos do rico, dos anéis, do luxo, e também dos farrapos e mau cheiro do pobre, e examinemos nossa própria consciência. Diante de Deusa caímos na categoria de réu, de transgressores processados, convictos, e confessos, segundo a Lei que encontramos em nossa Escritura. Salientando os ricos no culto divino desonramos os pobres, fazemos afronta ao nosso Senhor cuja glória apaga as insignificantes distinções entre os homens que se reúnem na sua presença, condenamos a nossa própria alma como transgressores que somos, e ao mesmo tempo jamais ganhamos o rico, pois a adulação nunca converte o pecador, antes o confirma no seu pecado. Ouvi-me, pois, sobre os ricos. Lá no mundo eles vos tiranizam. Vêm com a polícia e vos arrastam perante os tribunais. Até na sinagoga conseguem que às vezes sejais açoitados com bárbara crueldade. E por toda a parte difamam e injuriam o nome de Cristo que vós tendes por nobre e divino, e pelo qual sois chamados. Que adiante, pois, vossa atitude pusilânime nas sinagogas? E vós tratais os pobres como os ricos vos tratam? Então não sois melhores do que estes. Ai da igreja que despreze o pobre e se humilhe em adulação do rico e poderoso. A lei real, suprema, o resumo de toda lei é “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. Ambos os que entram na sinagoga – o rico e o mendigo, o elegante e o sujo são vossos próximos, portanto ambos merecem ser tratados como gostaríeis de ser tratados. Não há lugar para deferências para um e desprezo para no outro. Isto é tornar negativa a lei real. É esquecer-nos de que todos são nossos próximos. E o pecado que assim cometestes não é venial. Todo o pecado é pecado da mesma essência. A lei é uma, há perfeitas solidariedade

entre seus mandamentos. A alma parcial e lisonjeira é transgressora como é o adúltero e o homicida. A lei se quebra tão realmente com tua falta de democracia como pelo derramamento de sangue ou a vergonhosa carnalidade. Nosso regime é outro. É um reino de liberdade do qual nos fazemos parte. Sua lei nos liberta, e sendo todos livres não há lugar para distinções arbitrárias como existem num regime de tiranos e escravos. Havemos de ser julgados por este regime de liberdade. Tenhamos misericórdia, pois, daquele maltrapilho e esta misericórdia mostrará que somos filhos do reino e triunfará sobre o juízo. Mas se somos duros de coração, não somos do reino de Deus e para nós não há misericórdia. Atendei, pois, a estes fatos e assim vos orientai em palavra e em prática.

COMENTÁRIO V. 1 Este tempo do verbo grego, quando usado com a partículas negativa quer dizer: “Deixai de fazer o que estais fazendo”. Evidentemente estas congregações de judeus a quem a epístola foi enviada estavam mostrando nos seus cultos respeito de pessoas. Tiago

começou sua exortação: “Deixai

W. C. T.

1. “Acepção de pessoas”. – A falta daquele que em

galardoar, ou administrar juízo, toma em consideração as circunstâncias exteriores dos homens e não seus méritos intrínsecos, assim dando a preferência, como ao mais digno àquele que é rico, de

nobre estirpe, ou poderoso, e desprezando outro que é destituído destes dotes. Thayer. Rm 2:11; Ef 6:9; 3:25.

1.

“Acepções” de pessoas (plural no grego). Em atos de

acepção de pessoas -Hort Referem-se às várias ocasiões e maneiras em que esta falta se manifesta. Thayer. Todas elas são proibidas pelo

Evangelho.

1. “A fé”. A fé da qual o Senhor é o objeto. Denny.

1. “A fé”. A frase evidentemente significa a nova religião

que Cristo deu ao mundo. – “Expositor’s Greek Testament”.

1. A fé do Senhor Jesus Cristo tem de ser exercida sem

respeito de pessoas, isto é, a conduta de um crente para com outro tem de levar em conta os direitos da humanidade comum e de uma salvação comum, desconsiderando as distinções baseadas na raça, na nacionalidade, na tribo, na casta, no sexo, nos títulos, nos honras, na posição social, na riqueza, ou na\ pobreza. (Comparai Lc 22:24-27; At

10:34; Gl 3:28; Cl 3:10,11). Carroll.

1. “O Senhor”. Jesus como Messias é Senhor, visto que

adquiriu por meio de sua morte um senhorio especial da humanidade e depois de sua ressurreição foi exaltada a uma posição de sócio da administração divina. Thayer.

1. “Senhor”. Este termo significa muito mais aqui do que

significava para os discípulos durante o ministério terrestre de Jesus.

Hort.

1. “Glória”. Majestade, a excelência absoluta, perfeita,

íntima, pessoal de Cristo. Este fato quando abraçado pela fé, nivela todos os seres humanos. Como o arauto do monarca ignora todas as

mesquinhas distinções numa vila oriental, assim o primeiro bispo cristão diante da majestade de seu Soberano considerou insignificantes as distinções entre os homens. “Pensai magnificamente de Cristo” e pensareis com mais democracia concernente aos homens. W. C. T.

1. “Glória”. O Senhor, a Glória. Em aposição. Duas

concepções eram comuns aos Targuns Palavra e Shekinah (a manifestação da glória de Jeová entre os querubins sobre a arca no lugar santíssimo.) Jesus é tanto a Palavra de Deus como a Glória que outrora se manifestava nas teofanias da velha dispensação. A força do título aqui é que a fé em Cristo como a Glória estava peculiarmente contraria a este favoritismo manifestado aos ricos, visto que aquele que representava a própria Glória dos céus foi notável pela sua humildade e pobreza. Comparai Fl 2:5-11; 2 Co 8:9. Como Tiago (3:9) condena o hábito de amaldiçoar os homens que são criados à imagem de Deus, assim aqui censura o hábito de tratar com desdém os pobres, que são

da mesma classe em que foi encarnado aquele que era a Glória de Deus. Hort.

1. “Glória”. Não podemos ter certeza do que o autor quer

dizer pela palavra glória. Pode estar em aposição com “nosso Senhor Jesus Cristo”, o qual, nesta hipótese, seria Glória, a Majestade de santidade e do amor de Deus; ou, como a versão inglesa traduz, e como parece mais provável, pode ser entendida como descrição do Senhor Jesus Cristo como Senhor da glória. Isto seria referência à sua posição

exaltada revelada no termo Senhor, e tem paralelo exato em 1 Co 2:8. Seja como for, é importante notar que a relação do crente com o Senhor Jesus Cristo deve determinar tudo na sua conduta; aquilo que é

incoerente com esta relação como os respeitos humanos é em si mesmo censurável. Denney.

1. “Glória”. A “Shekinah” significava a visível presença de

Deus habitando entre os homens. Há outras referências do Novo Testamento a esta ideia, fora desta passagem: Lc 2:9; At 7:2; Rm 9:4; Hb 9:5. O mesmo pensamento é contido na frase “O resplendor de sua glória”. Hb 1:3. As palavras são uma declaração da deidade de Jesus

Cristo. – “Expositor’s Greek Testament”.

1. “Glória”, “A Glória” parece ficar em aposição com o nome

“nosso Senhor Jesus Cristo” , dando ainda outra definição de sua Majestade. Chegamos perto do que está implicado quando lemos de Jesus ser “Senhor da Glória”, 1 Co 2:8, isto é, aquele a quem pertence glória como sua característica natural; ou quando ele está descrito como o “resplendor da glória de Deus”, Hb 1:3. O pensamento do escritor parece estar fixo naquelas passagens no Velho Testamento nas quais Jeová está descrito como a “Glória”; “Pois eu, diz Jeová, serei um muro de fogo ao redor, e serei a glória no meio dele”. Zc 2:5. No Senhor Jesus Cristo, Tiago vê o cumprimento destas promessas; ele é Jeová que chegou para habitar com seu povo, e quando peregrinou entre os mortais viram a sua glória. Ele é, numa palavra, a Glória de Deus, a “Shekinah”, Deus manifestado aos homens. É assim que Tiago pensava e falava de seu próprio irmão que morreu uma morte violenta e vergonhosa, quando ainda na sua mocidade. Certamente temos nisto um fenômeno que deve despertar investigação. Benjamin Warfield.

2.

“Sinagoga”. O proeminente expositor Hort chegou à

conclusão de que sinagoga nesta epístola quer dizer casa de culto e igreja a assembleia dos santos que nela se reunia.

2. Por longos anos, um quarto de século, os cristãos não

deixaram de frequentar os cultos do templo. A. H. Strong.

2. Visto que a Epístola foi enviada às doze tribos da

Dispersão, nenhuma sinagoga especial está na mente do autor, é uma instrução geral. No Novo Testamento, sinagoga era sempre usada como um lugar judaico de culto. - "Expositor’s Greek Testament"

2. O escritor menciona que os leitores mantêm culto numa

sinagoga. Isto pode significar que do mesmo modo que os apóstolos continuaram a assistir os cultos no tempo depois da Ascensão, assim estes leitores assistem os cultos na sinagoga depois da sua conversão.

Porém ao menos se prova pelo emprego do termo nesta passagem que

o autor continuou a usar uma palavra “sinagoga” que tinha, e continua

a ter, associações distintamente judaicas, em preferência a uma palavra (igreja) que do princípio do cristianismo foi promovida da sua velha esfera política para indicar as congregações e a própria natureza da igreja cristã. A. Plummer.

2. São Tiago em escrever aos cristãos dificilmente falaria de

uma casa de culto judaica como sendo “vossa sinagoga”, nem teria censurado os crentes pelos costumes de tratarem com várias classes de pessoas na sinagoga dos judeus. A. Plummer.

2.

Concluímos que Tiago enviou sua epístola às igrejas que

estavam ligadas com as sinagogas, de um modo ou outro. Algumas estavam ainda reunindo-se nos domingos, pacificamente, e assistindo os cultos nos sábados sob a direção dos judeus. Outras sinagogas tinham passado para o lado do cristianismo, aceitando Jesus como Messias. Em outros casos grupos de crentes e seus amigos na sinagoga receberiam esta carta, e seriam censurados os males da vida e culto na sinagoga por Tiago que era um homem universalmente acatado, mesmo pelos judeus incrédulos. Assim a sinagoga era o velho lugar judaico de culto, às vezes usado pelas reuniões cristãs e judaicas, às vezes significando uma igreja formada na Dispersão que ainda se reunia na sinagoga dos judeus. W. C. T.

2. Pobre”. O termo sempre possuía um significado mau até

que ficou enobrecido nos Evangelhos. A etimologia é de um verbo que significa curvar-se, esconder-se com medo. Thayer.

2.

Hort.

“Anel de ouro”. Provavelmente uma porção de anéis.

O poeta latino Marcial cinicamente refere a homens no seu

tempo que usavam seis anéis em cada dedos; outros mudavam os anéis conforme as estações do ano, usando anéis pesados no inverno e leves no verão. Ellicott.

2.

3.

Senta-te aqui HONROSAMENTE” – Thayer.

3.

Os fariseus no tempo de Jesus gostavam “das primeiras

4.

“Juízes de maus pensamentos”. Isto é, juízes que

seguem opiniões perversas e repreensíveis. Thayer.

4. “Não sois divididos entre vós?” Distinções de classe

assim observadas teriam o efeito de gerar ciúmes, contendas e assim divisões. – “Expositor’s Greek Testament”.

5. “Escolheu”. Separar da multidão ímpia como preciosos

para si e como feitos, pela fé em Cristo, cidadãos no reino messiânico.

Thayer.

5. “Herdeiros do reino”. Herdeiro me o que recebeu suas

possessões em virtude de ser filho. Thayer.

5. A referência é devida, provavelmente, à maneira especial

em que Jesus Cristo mesmo pregava aos pobres. O Evangelho não foi limitado a eles, porém eram os primeiros e principais recipientes, e os que melhor podiam mostrar seu verdadeiro caráter: “Bem aventurados os pobres”. É um eco do Sermão do Monte. “Os pobres são evangelizados” é a prova culminante de que Cristo é o verdadeiro Messias, Lc 4:17. Hort.

5. “Ricos” Ricos em virtude de sua fé; sua própria fé os

constituiu tanto poderosos, capazes de remover montanhas, como ricos, 2 Co 65:8, 10; 8:9; Ap 2:9; 3:18; 1 Pe 1:7. O uso e gozo de riquezas contêm dois elementos: a coisa gozada e o poder íntimo de usá-la e gozá-la. Este poder íntimo é tão intensificado e multiplicado por

uma fé forte e simples em Deus, que tira mais da pobreza exterior do que sem ele se podia tirar de grandes riquezas exteriores. Hort.

5. “Ricos na fé”. Uma fé mais forte ou, em outras palavras,

maior espiritualidade de mente, nos mostraria o pouco valor das

distinções sociais e terrenas. Weymouth.

5. “Fé”. Notai os diversos sentidos desta palavra nos diversos

contextos da Epístola. “Aqui significa confiança, em contraste com o seu uso em 2:1.” – "Expositor's Greek Testament"

5. “Pobres”. A Epístola foi escrita numa época quando

poucos dos judeus mais abastados eram cristãos; os membros das igrejas vieram das classes pobres, principalmente (2:5), e os ricos estão descritos como réus de avareza e opressão. Se os ricos de 5:1 não são cristãos mas sim judeus, e se estes visitantes ao culto cristão entraram

como hóspedes ou expectadores, e não como camaradas no culto,

então esta relação dos crentes judaicos para com a população judaica é do período quando os cristãos eram ainda uma seita na comunidade

Ainda o lugar da reunião cristã é a sinagoga, ou a sinagoga

judaica

judaica mesmo, ou em todo o caso tão distintamente judaico que seria natural chamá-lo sinagoga. Os oficiais das igrejas cristãs ainda são presbíteros e não há menção de um bispo. Dods.

6.

“Tribunais”. Perseguições judiciais. Hort.

6.

“Vós desprezastes aquele mendigo”. Refere-se ao

versículo 2. Blass.

6.

Tribunais”. Parece significar que os judeus incrédulos

processavam seus irmãos cristãos pobres perante o tribunal da sinagoga do mesmo modo que Paulo tinha feito quando Saulo, o

perseguidor. Plummer.

6. “Tribunais”. Provavelmente os tribunais judaicos,

frequentemente realizados nas sinagogas. O governo romano deixava aos judeus o privilégio de consideráveis poderes de jurisdição sobre seu

próprio, tanto na esfera puramente eclesiástica como também nas coisas civis. A Lei mosaica penetrava em quase todas as relações da vida e no tocante a esta Lei era para um judeu intolerável ser processado perante um tribunal gentio. Por isto, os romanos descobriram que seu domínio sobre os judeus era mais seguro e provocava menos espírito de rebelião, quando permitiam aos judeus que tivessem grande medida de governo próprio. Isto se aplicava tanto à Palestina como a todos os lugares onde havia grandes colônias de judeus.- A. Plummer. At 9:2; 26:11; 2 Co 11:24;. Leia o incidente de Gálio e Paulo em Corinto.

7. “Bom nome”. Os de “Cristo”. Um nome é chamado sobre

alguém, isto é, ele é chamado pelo nome, ou declarado ser dedicado a

alguém. Thayer.

7. “Bom nome”. O Nome sob cuja proteção ficavam e ao qual

pertenciam. Igual ao significado da marca do ferrete em gado.

"Expositor's Greek Testament".

8. Lei Real”. “A Lei principal”, Hort e Thayer. “Escritura” é o

Velho Testamento. Thayer.

8.

“Real” Necessariamente se refere a Deus. A Versão

Siríaca (Peshitta) lê “A Lei de Deus”.- "Expositor's Greek Testament".

8. Os dez mandamentos foram duas vezes gravados em

tábuas de pedra por Deus; este fato parece separá-los como princípios éticos de eterno valor em comparação com o código em geral de muitos dos elementos do qual eram cerimoniais e temporais, e indicar sua

peculiar obrigação, supremacia e permanência. A. T. Pierson.

8. “Real”. Deissmann descobriu uma lei do tempo de Trajano

preservada com uma sub-inscrição num monumento em Pérgamo, dizendo que algum rei de Pérgamo tinha estabelecido uma “lei real” visando certos fins. Aqui a descrição da Lei como sendo real indica sua origem divina. Moulton e Milligan.

9.

Se respeitardes as circunstâncias exteriores de um

homem

convictos sois, reputados, envergonhados

réus, violadores

da Lei. Thayer.

9. A força desta expressão visa lembrar os leitores que serão

réus de pecado deliberado, inteligentemente propositado, se mostraram respeito de pessoas por causa de sua riqueza. "Expositor's Greek Testament".

10.

“Tropeça”. Queda incipiente. Hort.

10.

Quebrar uma lei é quebrar toda a lei, pois viola o princípio

de obediência à Lei. Uma roupa está rasgada se for rota apenas num

lugar; a música está desafinada se houver somente uma voz em desarmonia. Farrar.

10. “Culpados de todos”. Visto que desrespeita a autoridade

atrás da Lei tão realmente embora não tão intensamente, como se cada

regulamento fosse quebrado. Robins.

10. Dr. Carroll comenta a solidariedade da Lei. Me uma coisa

em que realmente existe solidariedade, porque não se pode quebrá-la sem afetar a majestade de todas as suas partes.

10. O universo moral é uno, em virtude de um Legislador,

onipresente, de modo que a=justar-se a ele em parte envolver ajustar- se a ele em todas as demais partes e em tudo. Robins.

12.

Lei da Liberdade”, Não a Lei mosaica, mas outra. Blass.

12.

“Lei da Liberdade”. Porque corresponde completamente

aos instintos espontâneos de nossa verdadeira natureza. Moffatt.

13. Comparai Jo 8:32; Rm 8:21; 1 Co 10:29; 2 Co 3:17; Gl 2:4;

5:1, 13; 1 Pe 2:16.

18. “A misericórdia triunfa do juízo”. Cheia de confiança

alegre, não tem medo do juízo. Thayer.

CAPÍTULO V A FÉ-CRENÇA SEM OBRAS VERSUS A FÉ-CONFIANÇA FRUINDO EM OBRAS TRADUÇÃO

2:14-26

Que proveito há, meus irmãos, se alguém disser que tem fé mas não tiver obras? Acaso pode essa fé salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e necessitados do alimento quotidiano, e lhes disser algum de vós: “Ide em paz, aquentai-vos e fartai-vos”, porém não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, quão o proveito? Assim também a fé, se não tiver obras, por si só está morta. Todavia alguém dirá: “Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra- me a tua fé em separado das obras, e eu te mostrarei por meio das minhas obras (o que seja) a fé. Crês tu que Deus é um só? Fazes bem; os demônios também o crêem e tremem”. Mas, queres saber, ó homem insensato, que a fé em separado das obras é ociosa? Abraão, nosso pai, não foi justificado por obras, oferecendo Isaac, seu filho, sobre o altar? Já vês que a fé cooperava com as suas obras e por meio das obras a fé foi consumada, e cumpriu-se a Escritura que diz: “E Abraão creu em Deus, e foi lhe imputado para justiça, e veio a ser chamado amigo de Deus”. Vedes que de obras um homem é justificado, e não de fé somente. E da mesma forma também, Raab, a meretriz, não foi justificada por meio de obras, acolhendo os espias e fazendo-os partir por outro caminho? Porque assim como o corpo em

separado do espírito está morto, também a fé à parte de obras está morta.

PARÁFRASE

Já vistes que ouvir sem obedecer é iludir-se a si mesmo. Já aprendestes que uma religião que consiste tão somente em cerimônias e palavras, sem o domínio da língua, sem a sociabilidade caridosa e sem a boa moral, é vã. Outrossim, convençamo-nos agora que, da mesma forma, uma fé religiosa que consista unicamente de crenças do intelecto, sem vida santa e ativa que corresponda, é ociosa, insensata, hipócrita e nenhum valor tem perante Deus para tornar justa à sua vista essa alma que é tão ortodoxa no seu monoteísmo tão ortodoxa, haja vista, quando são ortodoxos os demônios no inferno, e tão longe da salvação! Pois, que adianta ter fé, nesse sentido de crença em dogmas, se não tiver obras de santidade e boa moral? Pode essa fé salvar alguém? Essa fé é da mesma categoria da caridade de lábios que diz a um irmão nu e hirto de frio, ou mesmo a uma irmã paupérrima: “Adeus. Passa bem. Conserva-te sempre bem vestido, bem alimentado, e durante o inverno rigoroso, aquecido por um bom fogo, numa residência confortável”; e, no entanto, não lhe dá nem bocado de pão nem carvão nem capa ou cobertor nem hospitalidade. Igual é a vossa fé que julga que a mera divisa “Deus é um só” vos abrirá as portas do paraíso. Não. Essa fé já é universal no inferno. Os demônios tanto crêem nisto como ficam arrepiados ao pensar no fato porém, como vós, não se convertem ao Deus em cuja existência e unidade acreditam com temor e tremor. O homem comum há de desprezar essa tua fé, da qual os demônios também participam . ele te dirá, rudemente, ao contemplar

tua hipocrisia ortodoxa, “Tu tens fé, hein! Pois eu tenho algo que é mais sólido. Eu tenho obras. Não é que me falte a fé. Porém, te mostrarei a força de minha fé pelas obras que ela produz. Agora lanço-te as luvas para me provar, em separado de obras de bem, que a tua fé existe e é genuína. Uma fé na terra que não é superior, moralmente mais eficaz, do que a fé que é comum entre os próprios demônios, não merece o meu respeito, nem a tua confiança”. E este critério tem razão, ó insensato alardeador monoteísta! Pois

tu queres ter a certeza de um fato? É isto: a fé em separado de obras é

uma fé vadia, fugitiva de responsabilidade, estéril, preguiçosa. És judeu e te glorias no fato. Pois, toma o caso de Abraão e te convence. A fé de Abraão estava em separado de obras e de obediência e de sacrifício pelo amor de seu Deus? Basta contemplar o caso de Isaac, oferecido em Moriá, e verás a obediência, o sacrifício, o amor, a morte do egoísmo de que a fé de nosso pai Abraão era capaz. Se és filho de

Abraão e pensas em ser justificado pela fé, é esta a qualidade de fé que justificou a Abraão diante de Deus. Uma fé que cooperava com as obras

e por sua vez se desenvolveu, se amadureceu, se robusteceu pelo

exercício em uma vida de obediência, sacrifício e generosidade. A vida perante Deus é uma. A fé e a prática não se separam na realidade. O homem que Deus considera justificado tanto crê como trabalha, procurando fazer a vontade de Deus. Tudo mais é mortífero, é fatal à religião e ao Evangelho. Crença sem a vida santa é apenas o cadáver de religião. A atividade abnegada é a alma da religião.

Mas alguém dirá: “Porém, eu sou prosélito, gentio. Não raça de Abraão. Essa vida tão exigente, essa fé tão heróica não é para tais como eu.” Engano teu, irmão. Toma o caso de Raab. Que visão de fé, que audácia de confiança no Deus de seus inimigos, que discernimento

desse coração gentio, coração crente, que vitória sobre os impulsos naturais do nacionalismo, que confiança no êxito da promessa de Deus! Acolheu os mensageiros. Mensageiros de Deus foram, para a sua alma, para a sua casa. Sua fé saltou para abraçar a verdade, a oportunidade de servir ao Deus vivo e ao seu povo, e abraçou a salvação. Seja Raab, salva a despeito de ser meretriz, salva a despeito de ser gentia, salva a despeito de uma nova religião e repudiar a religião de seus pais, salva por uma fé heróica, cheia de recursos, enérgica, pronta, seja ela, juntamente com Abraão, prova e exemplo para vós outros do que seja a verdadeira fé”.

COMENTÁRIO

14. Fé. A fé aqui significa tão somente a crença na unidade de

Deus. Sendo que a fé é usada no sentido restrito, como uma coisa que tanto os demônios como os homens possuem, é claro que o assunto é diferente daqueles que é tratado pelo apóstolo Paulo em a Epístola aos Romanos. "Expositor's Greek Testament".

14. . A fé no sentido paulino não podia existir sem produzir o

que Tiago chama de “obras”. A fé, no pensar de Paulo, era um poder, não meramente uma qualidade ou característico. A fé impulsionava o homem para agir. A fé governava o homem. “Já não sou que vivo, mas Cristo vive em mim.” Todo o homem que possui fé verdadeira poderia dizer por si estas palavras de Paulo. Cristo está vivo e opera. Porém,

era inteiramente possível aplicar as palavras “fé” e “crença” a uma apreciação puramente intelectual da verdade, ou uma apreciação da verdade tão fraca na sua qualidade moral que seria impotente para refazer a natureza humana. Paulo teria recusado a reconhecer como fé

legítima esta qualidade, teria lhe recusado o nome de “fé”. – Sir William Ramsay.

14. Já tivemos (1:22) o ouvir sem o praticar. Já tivemos uma religião espúria. A profissão de fé já foi pressuposta em 2:1 onde São Tiago implica que a verdadeira fé em Cristo estava faltando ou deficiente. Hort.

14. “Essa fé”. Essa fé! Uma fé que seja compatível com a

ausência de obras. Hort.

14 “Essa fé”. Muito mal tem feito a negligência do notar a

presença do artigo no original. Pode essa fé essa estéril verbosidade da profissão, atitude farisaica do ufanar-se de uma crença teoricamente ortodoxa pode essa fé salvá-lo? S. Paulo nunca teve a ideia de tal coisa como “fé” que fosse tão somente fala, e cerimônia, e dogma. S. Tiago aqui usa a palavra “fé” a respeito de uma profissão estéril: S. Paulo do princípio íntimo da vida espiritual. Crença sem obras é mera ortodoxia; obras sem fé, mera justiça legalista. S. Tiago está pensando nos fariseus dogmáticos e sua oca jactância (preservada no Talmud) que invariavelmente dependia do monoteísmo, da circuncisão, do externalismo e da vantagem que sua herança nacion AL lhes deu pelo suposto favoritismo de Deus, para a salvação. Farrar.

15. Irmão ou irmã. Há um sentido verdadeiro em que se aplica a toda a humanidade, mas naqueles dias quando a pequena comunidade estava cercada de uma população mais ou menos hostil, o sentido especialmente cristão teve força peculiar.

15.

O que está implicado aqui não é uma pobreza por acaso e de

momento, mas pobreza habitual. Thayer.

15. Pão cotidiano. O pão de cada dia

O caso é da pior e mais

Talvez uma cena na sua própria experiência

dolorosa necessidade

durante a fome predita por Ágabo. Ellicott.

15. A menção aqui de uma “irmã” é digna de nota. É o único ponto nesta passagem que indica influência distintamente cristã. Este é o único lugar na Bíblia onde uma “irmã” é mencionada nesta conexão. "Expositor's Greek Testament".

Saciai-vos. Os tempos no original indicam

que a sugestão é: sempre, permanentemente, agora e para sempre,

adquiri vosso alimento e vestido. Hort.

16. Aquentai-vos

16. Passe bem. Sempre conserve-se bem vestido e bem alimentado. Os tempos do grego implicam mais de um privilégio de aquecer-se e mais de uma refeição. Weymouth.

16. Nunca lemos de uma coleta entre os crentes da Dispersão a

favor dos santos pobres da Judéia. Talvez a falta de caridade denunciada nesta Epístola explique o silêncio do Novo Testamento a este respeito.

17. Assim também. Que é o ponto de comparação? Que é nos

versículos 15 e 16 que é comparado com a fé sendo igualmente morto? Aparentemente se comparam essas palavras proferidas ao pobre. Eram palavras mortas, sem efeito ou resultado. Assim, a fé em

consideração

realmente fé uma crença que não seja acompanhada de obras. Hort.

Não é questão entre fé e obras, mas a questão é se é

17. Se estar estéril entre as mulheres era considerado uma maldição em Israel, ficar estéril na família das graças de Deus é a condenação dessa fé, no cristianismo. Ellicott.

17. Paulo mostra como o pecador é justificado perante Deus; Tiago, como o santo é justificado perante os homens. A justificação na Epístola aos Romanos significa a justiça imputada, reconciliando um pecador a Deus; a justificação, em Tiago, significa real justiça, retidão, provando que a fé é genuína, e reconciliando a profissão de fé com a coerência de conduta. Paulo estava censurando e refutando a justiça própria e formalismo dos fariseus; Tiago, a licenciosidade anti-moral e anárquica. Eis na totalidade do testemunho da Escritura é que nós nos salvamos tanto do perigo do legalismo, de um lado, como da liberdade que é apenas a licença de pecar, do outro lado. A. T. Pierson.

18. “Mas alguém dirá”. Todos com quem vos encontrardes farão o mesmo criticismo e dirão: “Vós tendes fé, eu tenho obras. Eu posso por minhas obras demonstrar a minha fé. Mas podeis vós me mostrar a vossa fé sem obras? Eu quero alguma prova da existência da vossa fé. Preciso de algo que posso ver e apreciar, antes de aceitar vossa fé como genuína. Não posso aceitá-la fiada, meramente porque falais de maneira tão fina a respeito dela.” Eis o simples fato da vida. Tal é o rude bom senso do homem comum. Sir William Ramsay.

19.

Credere illi est credere vera qua esse loquitur; credere illum

credere quod ipse sit Deus; credere in illum est diligere illum. Agostinho.

19. Tremem. Tomados do extremo temor, arrepiar, sentir horror.

Thayer.

19. Até os demônios são teístas ortodoxos, quanto a isto. Robins.

19. Tremem. Expressa horror físico, especialmente na maneira

familiar em que afeta o cabelo

Sem cair no erro

de supor que demônios aqui quer dizer endemoninhados, podemos

imaginar quão facilmente alguém que tinha presenciado as cenas historiadas nos Evangelhos bem podia atribuir aos demônios as expressões de horror que tinha ouvido nas palavras e visto nos rostos daqueles que eram possessos de demônios. A. Plummer.

Este horror é bastante evidência de

uma sorte de fé, mas pode uma fé desta sorte salva?

20. Homem insensato. Homem destituído de riqueza espiritual.

A despeito

transcendental, todavia está sem obras, estéril, ociosa, receiando labor que deve experimentar. Thayer.

ufania de sua fé como uma possessão

de

sua

20.

Homem

Testament".

insensato.

Ignorante.

"Expositor's

Greek

20. Homem vão. Homem vazio, homem de cabeça oca, de mão

vazia, de coração vazio. Homem de cabeça vazia, porque é tão iludido

que pensa que uma fé morta pode salvar; homem de mãos vazias,

porque é destituído das verdadeiras riquezas; homem de coração vazio,

porque não tem amor real para com Deus ou para com os homens

epíteto parece com o termo Raca, o vocábulo de desprezo citado por nosso Senhor como a expressão daquele espírito irascível que é parente do homicídio (Mt 5:22). Seu emprego por S. Tiago pode servir para mostrar-nos que os primitivos cristãos entenderam que os mandamentos do Sermão da Montanha não são regras para ser

o

literalmente obedecidas, mas são ilustrações de princípios. A. Plummer.

20. Ociosa. Quer dizer que a fé é inútil, preguiçosa improdutiva, (Mt 20:2,6; 1 Tm 5:13; Tito 1:12; 2 Pe 1:8). Aristóteles pergunta porque cada órgão no corpo de um homem tendo uma função para desempenhar o mesmo homem esteja sem função, sem propósito na vida. Teria a natureza produzido semelhante perda e contradição? Poderiam reproduzir o espírito da pergunta de Tiago nesta forma: “A fé sem frutos é infrutífera”. – A. Plummer.

21. “E não apareceu Abraão justo à vista de Deus por causa das suas obras”. Hort.

21. O caso de Abraão, que Paulo usou para provar a inutilidade de obras de lei em comparação com uma fé viva, é usado também por Tiago para provar a inutilidade de uma fé morta, sem obras, em comparação com as obras de amor que são evidência de que existe atrás delas uma fé viva. Paulo apela para a fé de Abraão quando creu que teria um filho de Sara. Tendo ele 100 anos e Sara, 90 anos de idade (Rm 4:19). Tiago apela para a fé de Abraão em oferecer a Deus Isaac

em sacrifício, quando não parecia haver possibilidade da promessa ser cumprida se Isaac fosse morto. Esta experiência exigia mais fé, e foi muito mais distintamente um ato de fé, uma obra, uma série de obras, que nunca teriam sido efetuadas a não ser que uma fé muito vigorosa existisse para inspirar e sustentar o que as praticava. O resultado foi que Abraão foi justificado, isto é, foi considerado justo, e o galardão de sua fé foi lhe prometido ainda com maior solenidade e plenitude do que na primeira ocasião. (Gn 15:4,6). “Por mim mesmo jurei, diz Jeová, porque fizeste isto e não me negaste teu filho, que deveras te abençoarei e multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu

e como a areia que está na praia do mar”

A, Plummer.

“pelas obras a fé consumada”.

Uma figura audaciosa. Não apela S. Tiago por fé e obras; mas por uma fé que obra, uma fé operosa, viva, ativa em si, independente de quaisquer considerações de interesse. Enquanto a fé não estava sendo

exercitada, estava de alguma maneira imperfeita. Ganhou madureza e perfeição por ser plenamente exercida. As obras receberam a cooperação de uma fé viva; a fé recebeu a perfeição e o acabamento manifestadas nas obras em que fruiu. Hort.

22. “Fé cooperava com obras”

22. Gl 5:6 diz: “Pois em Cristo Jesus nem a circuncisão vale coisa alguma nem a incircuncisão; mas a fé que opera por amor”. Tiago 2:22 diz: “Vês que fa fé cooperou com as obras e a fé foi consumada.” Constituem a ponte que atravessa o abismo que parece separar a linguagem de Paulo da linguagem de Tiago. Ambos afirmam um princípio de energia ativa, em oposição a uma teoria estéril e passiva. É evidente que o termo é usado no sentido mais elevado, de uma

possessão dada por Deus, não de mera atitude mental. "Expositor's Greek Testament".

24. Ele nunca nega a justificação pela fé, senão essa justificação teórica, especulativa, sem atos de amor que correspondam. Ellicott.

24. “Eles (Tiago e Paulo) são como dois homens que se vêem na dura necessidade de enfrentar dois ladrões, ficam com seus rostos em direções opostas, cada um tendo diante de si um inimigo diferente.” – W. M. Taylor.

24. Nunca teria havido controvérsia sobre esta passagem se Tiago não tivesse usado o vocábulo “justificar” num sentido peculiar, do mesmo modo que usou o termo “tentação”. “Justificar” pode ter o significado legal, forense um termo dos tribunais e advogados. Porém nosso Senhor usa o termo num sentido muito diferente. Ele diz “por tuas palavras serás justificado”. Tiago toma em consideração um cristão, não um pecador, e mostra que as obras cristãs justificam a profissão cristã. Do mesmo modo nosso Senhor disse: “Os publicanos e as meretrizes justificaram a Deus sendo batizados, com o batismo de João.”. isto não quer dizer que livraram de culpa a Deus, porém que

vindicaram a Deus sendo batizados com o batismo de João

(Abraão) creu em Jeová, e quando creu foi convertido. Quarenta anos

depois, este crente, Abraão, fez o que Deus se agradou de vê-lo fazer

no caso de Isaac, e esta obra o justificou

no sentido de vindicar a

Ele

profissão que fizera. Ele diz que 40 anos depois da conversão de Abraão ele fez o que Deus lhe mandou fazer, e então foi cumprida a Escritura que diz: “Creu em Deus, isto lhe foi imputado por justiça”. Todas as vezes na sua vida depois disto quando ele obedeceu a Deus

como um crente ele cumpriu a Escritura que testifica sua conversão. Em outras palavras, foi a verificação, o cumprimento como naquela passagem em Timóteo, onde Paulo diz que Cristo foi justificado no Espírito Santo vindicou a profissão de Cristo de que ele era o Filho de Deus B. H. Carroll.

Dificuldades da interpretação do Dr. Carroll. É a saída mais fácil da dificuldade, porém nem sempre a saída mais fácil é a verdadeira. Os fatos parecem não justificar todos os pontos de Dr. Carroll, embora há sugestões de valor nas suas notas. 1. Parece incontestável que em v. 15 se trata de salvação, e não de provas da realidade de salvação. Pode “essa fé salvá-lo?” 2. Além de Abraão se cita o caso de Raab, que não tinha longo período de prova de sua fé. O caso de Raab não se presta tão facilmente para esta interpretação quanto o caso de Abraão. Nossa teoria tem de satisfazer ambos os casos, tem de aplicar-se tão facilmente ao caso da meretriz como ao do patriarca. 3. A Escritura citada por Tiago sobre a justificação é a mesma citada por Paulo, portanto não é provável que um desse ao vocábulo justificar significado diferente do outro. 4. Esta teoria parece perder o ponto de vista de Tiago. O ponto onde ele é diferente de Paulo está na qualidade de fé que está discutindo mera crença na existência de um só Deus. É a palavra que tem dois sentidos no caso, não a palavra justificar. Acho, pois, que justificar tem a mesmíssima significação nos dois grupos de passagens. A palavra grega nunca tem no Novo Testamento a ideia da etimologia latina de justificar, isto é, de tornar justo. Tal ideia não está no horizonte do Novo Testamento. A doutrina bíblica da santificação indica esse progresso na moral e na espiritualidade, e a

doutrina da glorificação afinal faz do crente que morre um “justo aperfeiçoado”. A palavra justificar, quer nesta Epístola, quer nas Epístolas de Paulo, significa declarar justo. Ora, é fato que quando declaramos que Deus é justo, ou que Cristo é justo, nós os vindicamos. Não é necessário que tivessem sido injustos para serem declarados justos. Vindicar é, de fato, como diz o dr. Carroll, a ideia resultante de tais passagens. E é a mesma nas passagens que ensinam a justificação pelas obras. Estas vindicam a profissão do crente, declaram que ele é justo e apresentam suas obras, sua vida, sua santidade, sua justiça moral em evidência. Suas ações “falam mais alto” do que sua profissão de fé quando essa fala é dirigida aos seus contemporâneos aqui no mundo. Demonstram mesmo perante Deus a realidade da fé. A Abraão, depois do quase-sacrifício de Isaac, Deus diz: “Agora eu sei”. Pode ser antropomórfica a frase, mas o é neste sentido da palavra justificar. A submissão de Abraão, e do perfeitamente disciplinado Isaac, ao mandamento divino, declarou até aos altos céus: estes homens são justos. Sua fé é demonstrada em uma obra que seria para os dois o supremo sacrifício, a mais abnegada devoção. Assim, igualmente, é o caso de Jó. Provado tão duramente ele vindicou sua fé tão viva, tão submissa, capaz de jurar: “Ainda que ele me mate, nele confiarei”. É fé-confiança que anima Jó, fé salvadora. Deus a prova. Então as boas obras sacrificiais, a fidelidade máxima, vindicam o crente Jó, “declaram-no justo” de fato, apresentam as evidências de vida em apoio à profissão de fé. Não é diferente o sentido do verbo nesses casos ainda quer dizer declara justo. As obras do crente falam; quando é provado, dão uma demonstração de sua natureza regenerada e justificada; dizem em alto e bom som que ele é

um justo perante Deus, um justo que vive pela fé. As obras “declaram justo” Deus, Cristo, o homem salvo O sentido do verbo é o mesmo quando se usa a respeito do início da salvação, a doutrina do Evangelho e a experiência da graça, que chamamos a justificação pela fé. A fé-confiança é o meio por Deus determinado para declarar justo perante sua face aquele que crê evangelicamente em Jesus crucificado e ressuscitado. Juridicamente, do ponto de vista forense, o crente que com fia no Redentor levantado no Calvário é aceito por Deus, declarado justo aos seus olhos, livrado da condenação da lei divina e arrolado na família de Deus. “Todos vós sois filhos de Deus mediante a fé”. “Nada de condenação há para os que estão em Cristo Jesus”. Assim foi justificado, “declarado justo”, o publicano que batia no peito e clamava, “Deus seja propício a mim, o pecador”. “O pecador” desceu para sua casa “declarado justo”, aceito por Deus como justo. Assim o salteador crucificado no Calvário, e a pecadora a quem declarou: “A tua fé te salvou”. Assim, Zaqueu a quem Jesus disse: “Hoje entrou a salvação nesta casa”. Assim o caso de Abraão, Paulo, nós e os demais salvos. Deus “declara justo” o ímpio, Rm 4:5. Esta fase de justificação é para “aquele que não trabalha”, Rm 4:5, isto é, aquele que não tem pretensão de acumular mérito sacramental ou moralista, não negocia com Deus para comprar a salvação no balcão eclesiástico, e não confia na justiça própria. É a fase instantânea, de vez, eterna, jurídica, da salvação. Pela consideração unicamente da obra de Cristo no Calvário, a qual sua ressurreição demonstrou como aceita por Deus para os fins eficazes da salvação eterna outorgada ao crente, este crente é declarado justo de vez e para sempre. Cristo foi feito pecado em lugar dele na cruz. Agora é feito justiça para ele perante o tribunal

divino. A sentença jurídica divina é: justo, livre de condenação, salvo pela graça expiatória de Cristo, mediante a fé-confiança salvadora. A Bíblia nos diz que o crente é justificado, “declarado justo”, pela graça (Rm 3:24; Ti 3:8); pelo sangue (Rm 5:9), oi sangue do Calvário, por Cristo (Gl 2:17), pela fé (Rm 3:26, 30; Rm 5:1; At 13:39; Gl 3:24), no Espírito Santo )1 Co 6:11; Gl 3:1-3) e “pelas obras” (Tiago 2:21, 24, 25). Temos de considerar, também, para formular a doutrina total sobre o assunto, que Paulo categoricamente afirma que não somos justificados pelas obras (Rm 3:28; 4:2; Gl 2:16). Nenhum intérprete sincero deseja fazer de sua Bíblia um acervo de contradições incríveis. Logo a afirmação da exclusão de obras e a afirmação do valor das obras tem de ser interpretadas como não se referindo ao mesmo assunto. É a solução do caso. Na justificação pela fé, a fase jurídica da salvação, as obras não entram em conta. A graça divina, concretizada em Cristo crucificado, é a fonte da justificação. O sangue do Calvário é a base jurídica, a causa eficaz e objetiva da justificação. O agente da justificação é Cristo – “por um só homem” (Jesus) e “por um só ato de justiça” (o Calvário, consumado e demonstrado na ressurreição) “a graça de Deus e o dom pela graça” vieram “para a justificação da vida” (Rm 5:15, 18). A parte humana no julgamento, a fé-confiança, é experimentada “no Espírito Santo” que ao mesmo tempo regenera e santifica inicialmente o crente separa-o para ser de Cristo. Todas essas frases descrevem “o julgamento” forense (Rm 5:18), a salvação judicial perante Deus, a fase instantânea, eterna, objetiva da salvação. Categórica e repetidamente a Bíblia nos proíbe de associar obras com essa fase da salvação. A outra verdade e verdade importante é do crente ser justificado pelas obras, pois, tem de referir-se à fase progressiva da salvação, a santificação gradual que torna o homem progressivamente

moral, justo, santo, consagrado. O sentido do verbo é o mesmo. As obras que vão aparecendo “declaram”, sim, demonstram, que esse crente professo é crente real, é justo na vida. A árvore se conhece pelo

fruto. O fruto justifica a árvore, vindica seu rótulo aí na horta, demonstra

a realidade da natureza professada e possuída antes de aparecerem os

frutos. Somos salvos sem boas obras por uma fé que produz as boas obras. Se a “fé” for mera crença ortodoxa e não houver boas obras então sabemos que é uma fé nati-morta, fé espúria, fé ao par da fé-

crença dos demônios no inferno, um cadáver de fé destituído, desde

a eternidade e para a eternidade, da vida eterna, da salvação. Ora, essa interpretação de justificação pelas obras, depois de uma fé genuína e salvadora, estabelece perfeita harmonia em nossas

Bíblias entre Paulo e Tiago e os demais escritores que concordam com estes dois e Cristo, nosso Mestre, que concorda com ambos. Preserva

a salvação pela graça e a santidade em boas obras, a justificação e a

santificação, a justiça objetiva e a justiça subjetiva, a vida e o fruto, o

manancial infinito e o rio caudaloso, Deus e o homem unidos, mas unidos como Deus determinou. Outrossim, essa interpretação concorda com a experiência tanto de Abraão como de Raab. A justificação pela fé, unicamente pela fé, veio no caso de Abraão, antes do nascimento de Isaac. Era fé na graça sobrenatural de Deus que havia de cumprir a promessa. Igualmente, no caso de Raab, veio na sua decisão íntima, aliando-se com os mensageiros do Deus vivo e verdadeiro, recebendo-os, crendo na sua palavra nua e inverificável. Depois da fé nascer, ainda ela tinha tempo para entregar os representantes do Deus em que havia crido. Mas as obras comprovam a fé. Agiu como crente. A justificação de Abrão pelas obras veio décadas depois da sua justificação pela fé. Nada de justificação por uma mistura de fé e obras

na mesma ocasião ou numa continuidade rápida. Décadas passam entre a justificação pela fé e a subsequente justificação cabal por uma obra tão notável. Isaac nasce e já é homem. Obedece livremente.

Compartilha da fé, da submissão, da obediência, do sacrifício de si próprio. A justificação inicial, salvador, tendo a graça como a fonte, o sangue de Jesus como a causa eterna e única, a fé-confiança como seu meio recipiente, Cristo como Autor e o Espírito como o meio-ambiente,

- essa justificação se deu décadas antes do sacrifício de Isaac. Este

sacrifício, não nenhuma cerimônia, décadas depois da salvação do patriarca, o “declarou justo”, demonstrando justo, por uma obra tão maravilhosa que deu também seu “filho unigênito”, na fé viva de que Deus o ressuscitaria para cumprir a promessa. Essa obra é única com

a fé, é o exterior da santidade da qual a fé é o interior, o âmago. Fé com obras demonstram a salvação. Mas a fé só (do lado humano), unindo- nos vital e eternamente ao Calvário, ao Senhor vivo, ao Espírito Santo, nos justifica perante Deus. Todos os fatores caem em seu lugar e sua

ordem bíblica. Uma Escritura assim não é jogada por exploradores ou incompetentes contra as demais Escrituras. W. C. Taylor.

25. “Raab, a meretriz”. Ela foi justificada em virtude de sua fé no verdadeiro Deus e arriscou tudo nesta fé. Hort

Porém o contraste entre Abrão e Rahab é tão notável quanto é a

similaridade. Ele é o amigo de Deus, ela é de uma nação pagã e vil, e

é

meretriz. O grande ato de fé de Abraão é exercido para com Deus, e

o

de Raab para com os homens. O ato dele é o auge de sua experiência

espiritual, o dela é o primeiro sinal de que ela crê. Ele é o santo encanecido, ela mera congregada. Porém, segundo a luz que possuía ela “fez o que pode” e foi isto aceito.

Estes contrastes têm o seu lugar no argumento como as similaridades. Os leitores da Epístola poderiam pensar, “Atos heróicos eram muito naturais em Abraão, porém nós não somos uns Abraãos, e temos de contentar-nos em participar de sua crença no verdadeiro Deus: nem podemos nem carecemos imitar seus atos”. “Porém”, diz S. Tiago, “lá está o caso de Raab, a pagã, vós podeis imitar a Raab.”. e para os cristãos dos círculos judaicos de então o argumento teria bastante força, pelo exemplo dado por esta mulher. Ela recebeu e creu nos mensageiros, os quais estavam sendo perseguidos por seus patrícios, e teriam sido mortos. Ela se separou de seu povo incrédulo e hostil e aliou-se com uma causa desprezada e em nada popular. Ela salvou os pregadores com uma mensagem desagradável a fim de cumprir a missão divina com que os mensageiros tinham sido responsabilizados. Substituamos pelos espias os apóstolos e a mesma coisa é a verdade a respeito dos judeus crentes naquela época apostólica. E S. Tiago, como querendo usar do paralelo, não fala dos moços como Josué (6:23), nem dos espias como Hb 11:31, mas de mensageiros, termo que se aplicava igualmente aos que foram enviados por Jesus Cristo ou por Josué. A. Plummer.

26. “A fé sem obras é morta”. A fé no Senhor Jesus Cristo, a Glória, é uma coisa morta se estiver separada de obras, ou em outras palavras, de energia operosa. Hort.

Uma fé inativa é o cadáver da religião. Mayor.

Tiago quer santidade moral em contraste com crenças corretas. Ellicott.

Se considerarmos o motivo, ele foi justificado pela fé; se considerarmos o resultado, ele foi justificado pelas obras. Ellicott.

26. Tiago é contrário à noção de que basta terem os homens emoções religiosas, falarem linguagem religiosa, possuírem conhecimentos religiosos e professarem uma crença religiosa, sem a prática diária de deveres religiosos e da devoção da vida religiosa. Ellicott.

Fé o corpo, a soma e substância da vida cristã; obras (obediência)

o movimento e vida desse corpo. Alford.

O que Tiago chama “obras”, Paulo descreve como “frutos do Espírito”, Gl 5:22. Para Paulo “obras” são “obras da lei” e ele opõe-lhes

a fé. Mofatt.

Tiago e Paulo não se entendem ao supormos que um está atacando o outro. Seu acordo em Jerusalém, e a mão fraternas de parceria dada ali, proíbe esta suposição. Porém, devem ser interpretados à luz dos males que estão combatendo, males inteiramente diferentes: uma fé (crença) ortodoxa, ritualística, estéril, meramente intelectual versus um sistema legalista, nacionalista, farisaico e igualmente estéril, de salvação pelas obras, especialmente pela circuncisão. Tanto Paulo como Tiago são necessários como antídoto do farisaísmo ou do romanismo. Ellicott.

Tiago versus Paulo. Ele (Tiago) não negou coisa alguma que Paulo tivesse afirmado, ou que qualquer discípulo de Paulo teria desejo de afirmar. Em comparar a linguagem de Paulo com a de Tiago, todas

as expressões distintivas daquele estão ausentes da linguagem deste. A tese de S. Paulo é que o homem é justificado, não pelas obras da lei mas pela fé em Jesus Cristo. Tiago fala tão somente de obras sem nenhuma menção da lei, e fé sem menção de Jesus Cristo. A qualidade da fé que ele considera consiste meramente na crença de que há um só Deus. Em outras palavras Tiago está escrevendo, não no interesse do judaísmo mas da moral. Paulo ensinou que a fé em Jesus Cristo era poderosa para justificar um homem incircunciso e não observador das ordenanças mosaicas. Para este ensino Tiago não tem nenhuma palavra de oposição, como não dá sinal de ter ouvido mesmo da controvérsia. Salmon.

Lutero, comentando a Epístola aos Romanos: “Mas a fé é uma obra divina dentro de nós, que nos transforma e nos regenera da parte de Deus (João 1:13), e mata o homem velho, tornando-nos inteiramente outros homens no íntimo, no coração, na coragem, na mente, e na força, e traz consigo o Espírito Santo. Oh! É uma coisa viva, ativa,

enérgica, e poderosa, está fé, de modo que é impossível que não venha operar aquilo que é bom sem interrupção. Nem pergunta se deve fazer

boas obras, porém antes de perguntarmos eis que ela já as operou

fé uma confiança viva, deliberada na graça de Deus, tão certa e segura

A

que morreria mil mortes por sua confiança. E tal confiança e experiência da graça divina tornam um homem hilariante, ousado, e alegre para com

Portanto é impossível separar as obras da

fé; sim tão impossível quanto seria separar do fogo seu brilho e calor.”

"Expositor's Greek Testament".

Deus e todas as criaturas

CAPÍTULO VI O DOMÍNIO DA LINGUA

3:1-18

TRADUÇÃO

Meus irmãos, deixai de estar vos tornando, muitos de vós, mestres, certos de que (nós que somos mestres) seremos expostos a uma condenação mais severa. Porque em muitos sentidos todos nós erramos; se alguém não erra por palavra, este é varão perfeito, poderoso é para também trazer sob freio o corpo todo.

Com efeito, se pomos os freios na boca dos cavalos, para que eles nos obedeçam, logo lhes governamos o corpo todo. Eis que também as naus, embora sejam tão grandes, e levadas de ventos impetuosos, se viram com um leme bem pequeno para onde quiser o capricho do piloto. Assim também a língua pequeno membro é, e se gaba de grandes coisas. Eis quão pequeno fogo incendeia toa grande bosque! E a língua é fogo; qual mundo de iniquidade a língua está colocada entre nossos membros, maculando o corpo todo, pondo em chamas o círculo da vida e sendo inflamada pelo inferno. Porque toda espécie tanto de feras como aves e serpentes e criaturas marinhas se doma, e tem sido domada pela espécie humana, mas nenhum dos homens pode domar a língua; mal inquieta, está cheia de veneno mortal. Com ela louvamos nosso Senhor e Pai: e com amaldiçoamos aos homens, que são feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca saem benção e maldição. Não convém, meus irmãos, que estas coisas continuem assim. Porventura uma fonte lança da mesma bica água doce e água amargosa. Acaso, meus irmãos, pode uma figueira dar azeitonas,

ou uma vide, figos? Nem tão pouco pode (uma nascente de) água salgada dar água doce. Quem entre vós é sábio e experiente? Mostre por sua vida nobre, com a modéstia da sabedoria, as suas obras. Mas se tendes em vosso coração inveja amargurada e o espírito partidário, deixai de vos gabar e de mentir contra a verdade. Pois esta não é a sabedoria que vem lá do alto, mas é terrena, sensual, diabólica. Pois onde há inveja e espírito partidário, aí há confusão e toda obra vil. A sabedoria que vem do alto, é, primeiramente, pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e bons frutos, franca e sem fingimento. E para os que promovem a paz, está sendo semeada em paz (a semente) cujo fruto é a justiça.

PARÁFRASE

Meus irmãos, membros de igrejas congregacionais, onde prevalecem a democracia e a eleição popular dos presbíteros das igrejas, no gozo da democracia vos preveni contra seus perigos. Sua principal fraqueza é que onde todos têm o direito a ser candidatos para posição oficial, todos querem a liderança, e fazem campanhas partidárias a fim de vencer nas urnas. Assim de democratas passareis a ser demagogos. A cadeira de mestre não é para muitos, e embora a igreja eleja sues oficiais, é o Espírito Santo que os escolhe, e a igreja apenas procura descobrir sua divina escolha. Portanto deixai de candidatar-vos para posição oficial. Se entrardes sem vocação divina nesta santa carreira, sereis tão somente condenados com tanto mais severidade quanto foi sacrílega a vossa presunção.

Aliás, a facilidade em falar não é sinal de chamada para o ministério. Antes é motivo de maior cautela no domínio da língua. Nenhuma perfectibilidade humana existe nesta vida, mormente no falar. Pelo contrário eis aí o ponto de maior fraqueza e tentação. Se alguém pudesse ser perfeito em palavras, os outros elementos de perfeição não tardariam a manifestar-se nele. Achai o governo da língua dever insignificante, por ser ela tão pequena? Olhai o perigo. Freio é coisa pequena, mas sem ele o cavalo

é solto. Leme é pequeno, mas sem ele resulta o naufrágio. A brasa que

principia o incêndio na floresta é pequena, mas quão devastadora! E a

língua é um fogo que começa no eixo da vida e consome toda a roda da existência. E que fenômeno monstruoso se vê entre vós. Línguas quais feras ou répteis. Línguas quais fontes lançando água amarga, água salobra e água doce da mesma bica. Línguas quais arvores mitológicas capazes de produzir frutas de qualidades as mais diversas. Homens

celestes que têm línguas inflamadas pela própria Geena de fogo. Deixai, meus irmãos, desta contradição na vida. Sede mais coerentes, menos ambiciosos, presunçosos e insinceros. Julgais que sois sábios? Há duas sabedorias. Uma é a astúcia do demagogo, do demônio que, na luta sem lei, do inferno procura vencer seu rival, do candidato mundano na campanha entre o eleitorado. Esta sabedoria não tem lugar nas igrejas. É carnal, é dos restos da natureza não-regenerada. É da terra terrena e vil. Porém a verdadeira sabedoria é sobrenatural, busca a paz, é franca, e não pratica o fingimento e o dolo. Se semeardes uma vida pacífica, não temais ser sempre vítimas de injustiça. Não. Deus governa o mundo. E no fim, quando colhermos

o que temos semeado, aquele que procura a paz terá uma seara de

deliciosos frutos de justiça a fruir. Ele sentirá que sua vida pacífica não foi em vão.

COMENTÁRIO

mestres”. Deixai de tronar-vos mestres em

tão grande número. Hoje em dia, queixam-se as igrejas da falta de pastores. Naquele tempo se queixaram de uma superabundância de mestres em seu seio. E deste costume, resultava muito pecado da língua. Pensemos deste parágrafo como tendo principalmente em mira o ministério, a pluralidade de presbíteros em cada igreja e as lutas entre os ambiciosos pela honra. W. C. T.

1. “Não

muitos

1. “Mestres”. Aqueles nas assembléias cristãs que se incumbiram da tarefa do ensino, com a especial do Espírito Santo, 1 Co 12:28; Ef 4:11; At 13:1 Thayer.

1. ”Mestres”. É pressuposto que para o bem da comunidade

deve haver mestres, desempenhando uma função especial (1 Co 12:29.

Comparai v. 28), e então Tiago deixa subentender que muitos se propõem a ser mestres sem nenhum sentimento de responsabilidade, porém de um espírito vaidoso ou censorio. Hort.

1. Todos nós tropeçamos e caímos debaixo do juízo, porém o

juízo é mais severo se assumimos ares de juízes de outrem. Hort.

1. “Mestre”. A negligência desta cautela são trouxe perplexidade

sobre a primitiva igreja tanto como sobre as mais recentes (Compare At 15:24; 1 Co 1:12; 14:26; Gl 2:12; 1 Co 3:11-15). Ellicott

1.

“Mestres”. “Não sejais bispos de outros” é a tradução literal

de 1 Pe 4:15 (quem se intromete em negócios alheios). Evitai o espírito

do orgulho doutrinário, de demasiada confiança nas próprias opiniões de infalibilidade, que sujeita alguém à coceira de ensinar. Farrar.

1. Irineu atribui a heresia de Taciano ao fato de que ele permitiu

seu orgulho de mestre desenvolver em si uma paixão pelas novidades.

Moffatt.

1. Não vos apresseis para ocupar o ofício de mestre visto que o

mestre é muito mais estritamente responsabilizado do que o discípulo. O Dr. Broadus costumava dizer que o ministério exerce uma grande atração para mentes fracas. E sem dúvida muitas mentalidades fracas ambicionam exercer o ministério. Tiago deseja que a entrada no ministério seja um passo cuidadoso, bem meditado em oração, seriamente pensado. Este capítulo é um dos mais importantes do livro de Tiago, e mesmo da Bíblia inteira, e seu valor é incalculável a jovens pregadores. Por sua profissão tornam-se mestres da Palavra de Deus, por isto nenhum outro capítulo deve ser para eles mais importante de que este para lhes orientar na sua capacidade oficial. Era o característico, a falta notável, de um judeu, no seu país ou no estrangeiro, cobiçar a honra do ofício do mestre mais do que a eficiência e serviço da carreira. A vaidade e o orgulho o levariam a entrar onde os próprios anjos receariam penetrar. Quem se sente movido a entrar no ministério por um espírito de vaidade mais do que pelo desejo de trabalho perseverante é indigno da posição.

Há homens com uma aptidão natural para ensinar que são muito ignorantes. E há homens cheios de informações sobre uma multidão de assuntos que não têm o dom de ensinar coisa alguma. B. H. Carroll

1. É óbvio que os verdadeiros mestres sempre estarão na minoria. Há algo de erro grave quando a maioria da comunidade ou mesmo um número considerável, se apressa para ensinar os outros. Numa sinagoga judaica, qualquer um que se sentia disposto podia chegar à frente e ensinar, e S. Tiago escreve numa época quando a mesma liberdade prevalecia nas congregações cristãs. (1 Co 14:26, 31). Porém em ambos os casos esta liberdade demasiada fruiu em desordens sérias. O desejo de ser chamado “Rabi, Rabi” teve sua influência tanto entre judeus como entre os cristãos, e muitos foram zelosos expositores que ainda faltavam aprender os rudimentos da verdadeira religião. A. Plummer.

1. “Muitos mestres”. Nas “Casas de Aprender” judaicas havia muito pouca restrição quanto aos que quanto aos que tinham o privilégio de ensinar. Temos o exemplo disto no caso do nosso Senhor mesmo, que nenhuma dificuldade encontrou em entrar e ensinas nas sinagogas (Mt 12:9 em seguida; Mt 13:54; Mc 1:39; Lc 6:6) embora fosse desagradável às autoridades sua presença ali em várias ocasiões e às vezes mesmo os ouvintes tivessem inteiramente repudiado seu ensino (por exemplo Jo 6:59-66). O mesmo se pode dizer de Pedro, João, e, mais do que tudo, Paulo. “Mestres” tem de ser interpretado à luz do que tem sido dito. A passagem é interessante em revelar os métodos de controvérsia nas sinagogas da Diáspora; as paixões ficaram exaltadas, julgando pelas severas palavras de repreensão que o autor se sente obrigado a empregar. "Expositor's Greek Testament".

1. “Muitos mestres”. A introdução de costume da eleição dos oficiais pela congregação era quase inevitável nas igrejas helenistas. Nas cidades gregas o método grego de votar era praticado como o termo grego (At 14:22) indica, embora a tradução esconda a natureza do processo. A votação livre estimulou interesse público, e sem ela a vida e o interesse não podiam ter sido conservados numa congregação helenista. A educação livre helenista tinha esta tendência, por considerar todos os homens iguais. Graves perigos, no entanto, estavam envolvidos nesta sorte de ação. O método implica haver candidato, e havendo candidatos há rivalidade, e onde há rivalidade há ciúmes e disputas e facções e divisões. Os candidatos rivais tinham sues amigos e partidários, e a eleição dos oficiais das igrejas ficava maculada por contendas. Paulo se refere a estes males e admoesta tanto aos gálatas como aos coríntios contra os mesmos. Tiago estava também a par desta fase da vida das igrejas. Porém, o aspecto do caso que mais lhe desagradava era a paixão dos membros das congregações do Ocidente pelo privilégio de falar e ensinar publicamente. Todos queriam ensinar; todos almejavam recomendar- se ao público. Poucos queriam ser ensinados, poucos almejavam ouvir. Um número demasiadamente grande ambicionava posição oficial pública, e estava se preparando para conservar-se perante os olhos do povo como candidatos. Daí o peso do seu conselho aos leitores para que sejam prontos para ouvir, tardios para falar (1:19), e agora ele dedica um parágrafo ponderado a admoestá-los sobre sua falta predileta. Não deviam ficar cobiçosos pela posição oficial de mestre, e mesmo não deviam ser ambiciosos para mostrar como leigos sua capacidade de ensinar. Se o mestre recebe mais respeito e maior

ordenado e goza mais influência, todavia mais se espera dele e será julgado com juízo mais severo no que faltar. O único dever dos oficiais da igreja a que Tiago se refere é o de ensinar. A Epístola pertence a um período muito primitivo, quando o culto da igreja, e a sua doutrina e serviço eram muito simples e quando o dever de ensinar, tanto para a conversão dos pagãos como para a instrução dos conversos inteiramente sobrepujava em importância os outros deveres e funções dos oficiais das congregações. Sir William Ramsay.

1. “Mestre”. Aqui, ali, acolá existiam igrejas, muito tempo depois do primeiro século, que não tinham um só oficial senão presbíteros e mestres. Dionysius de Alexandria refere à igrejas nas vilas do Egito na data do meado do terceiro século que estavam assim organizadas.- Moffat.

2. “Todos”. No original o termo empregado é o mais forte possível. Absolutamente cada um de nós tropeça em muitas coisas. O autor dá muita ênfase a esta declaração A, Plummer. Esta sentença, se não houvesse outra, acabaria com a teoria egoísta de perfectibilidade do crente nesta vida. É o homem mais respeitado pela sua santidade no cristianismo antigo que fala. W. C. T.

5. “Gaba”, parece significar qualquer espécie de linguagem soberba, linguagem que fere e provoca aos outros e desperta contendas. “Gaba” quer dizer no original estirar a cerviz, pavonear-se. Thayer.

6. “Fogo”. A língua é chamada um “fogo”, como se estivesse tanto incendiada como incendiadora de outras coisas, em parte por

causa do espírito fogoso que a governa, em parte pelo espírito destrutivo que ela manifesta. Thayer.

6.

“Mundo de iniquidade” A soma de todas as iniquidades.

Thayer.

6. “Incendeia” Acende, opera destrutivamente, tem poder pernicioso; no passivo, aquilo no que estão incendiadas influências destruidoras. Thayer.

6. “Curso da vida”. Usado daquilo que segue a origem, a vida, a

existência; a “roda” da vida, isto é, o mecanismo da vida; porém outros

explicam como a roda da origem humana, que logo que o homem nasce começa a rodar, isto é, o curso da vida. Thayer.

6. “Contamina”. A ação da língua pode ser considerada como

maculando a ação do corpo inteiro, a conduta total de que o corpo é o órgão. Hort.

6. Três tentações para açoitar com a língua são especialmente

poderosas para o mal: como alívio na paixão ou zanga, como a gratificação de malvados ou ciúme e como vingança. A primeira destas tentações é experimentada por gente de gênio fogoso; a segunda, pelos maliciosos; e a terceira se presta para os que estão fracos e sem defesa. E todos nós nos achamos às vezes em cada uma destras

classes. 1 Pe 2:23, Os 14:2; Sl 109:28, 29. Ellicott.

é colocada”, ou melhor, se constitui um mundo de

iniquidade, “a soma de iniquidade”. A língua não foi criada por Deus

6. “A língua

para ser uma fonte perpétua de males

indisciplinada e anárquica que se torna “mundo do iniquidade”, que se constitui entre nossos membros aquele que contamina o corpo todo. A religião pura consiste em refrear aquele membro que contamina o corpo inteiro. Ora, a língua nos contamina de três maneiras: por sugestionar em nós e em outros o pecado; por cometer o pecado em tantos casos de mentira e blasfêmia; e por desculpar ou defender o pecado. A. Plummer.

é pela sua própria carreira

6. “O Curso da vida”. A língua é um centro de onde se irradia

malvadez: é o pensamento principal. Uma roda que pegou fogo no eixo há de ser totalmente consumida pelo fogo afinal. Assim a sociedade. A. Plummer.

7. “Toda a espécie”. Ela combina a ferocidade do tigre com a

frivolidade do macaco e a sutileza e veneno da cobra. A. Plummer.

8. A ordem no original é enfática. Toda natureza bestial pode ser

domada., tem sido domada e continua a ser domada pela natureza humana; porém a língua não pode ser domada definitivamente, por nenhum dos homens. Mas por Cristo pode. O domínio da língua é da essência da religião de Cristo. Toda a ênfase está sobre a impotência humana para dominar a língua, a despeito de sua soberania sobre as demais feras. A situação é longe do desespero. W. C. T.

8. Quando eu era moço fiquei bastante impressionado pela vasta

soma de males que viesse de falar a má qualidade de fala, e descobri- me a mim mesmo falando o que não devia, de modo que quando li este capítulo determinei em mim mesmo descobrir um jeito pelo qual eu

pudesse evitar conversação má, especialmente a ira. Naturalmente sou impulsivo, fogoso, propenso a sentir ofensa, pronto a ressentir e falar e vendo em mim esta falta, determinei aprender um modo pelo qual estando irado pudesse ficar calado. Resolvi não dizer coisa alguma. Pois bem. Foi a coisa mais dura que jamais procurei fazer em toda a vida. Porém eu venci. Ouvi minha filha dizer, quando ela tinha 21 anos:

“Papai, nunca te ouvi falar uma só palavra irada na minha vida”. – B. H. Carroll.

8. “Mal irrequieto”. É surpresa para nós ouvir a língua chamada

O fato de

ser ela um mal procede de sua independência, isto é, de seu isolamento

da integridade humana. “Um mal desordeiro”. – Hort.

um “mal”, em lugar de ser considerada o abuso de um bem

8. “Veneno”. Dito de homens acostumados a vilificar e a caluniar

e injuriar a outros, assim os prejudicando. Thayer.

Deveras ele está atacando uma falsa qualidade

de religião e não mero vício de língua. Ele está discutindo uma

tendência, de íntimo parentesco com aquela que combateu no fim do Cap. 1, uma religiosidade sem amor, a combinação de devoção fingida

a Deus e indiferentismo e mesmo ódio aos homens. Hort.

9. “Com ela

9. “Criados à imagem de Deus”. O tempo do verbo grego

implica que os homens receberam na primeira criação esta imagem e

ainda a possuem. Weymouth.

9-12. Ele mostra o caos moral a que o cristão se vê reduzido quando não tem domínio de sua língua. Ele se tem feito o canal de

influências infernais. Não pode, à vontade, tornar-se outra vez o canal de influências celestiais, ou tornar-se ofertante de sacrifícios santos. Os fogos de Pentecostes não descansam sobre um depósito dos fogos de Geena. A. Plummer.

Um homem que amaldiçoa seu semelhante e então bendiz a Deus é semelhante a um homem que professasse todo o respeito pelo seu soberano, ao mesmo tempo, insultando e injuriando a família real, jogasse lama sobre o retrato do rei e se mostrasse ostensivamente desdenhoso da vontade real. A. Plummer.

Quem não tem visto o estrago que pode ser feito por uma única palavra de zombaria, de soberba; quanta confusão não se opera pelo exagero, insinuação ou mentira; quanto sofrimento não se causa por sugestões e declarações caluniadoras; quantas carreiras de pecado não se tem começado por meio de histórias impuras e gracejos

imundos?

mais do que blasfêmias e maldições, contaminam as almas daqueles que as proferem e conduzem os ouvintes ao pecado. Tais hábitos roubam todos quantos neles estão relacionados, quer seus autores, quer seus ouvintes, roubam-nos de duas coisas que são a principal proteção da virtude o temor de Deus e o temor do pecado. Produzem uma atmosfera na qual os homens pecam com os corações leves, porque os pecados mais grosseiros parecem atraentes e fáceis, assim como também engraçados. Não há ato mais diabólico do que o de fazer

acreditar a um ser humano que aquilo que é feio e perigoso em si

mesmo pareça “agradável aos olhos e bom para comer”

A palavra

queixosa que torna tudo motivo para a culpa, que procura mostrar que quem fala está sempre sendo maltratado; a palavra mordaz, que visa

Narrativas impuras, chistos imundos, sugestões lascivas,

causar dor; a palavra carrancuda que lança sobre todos que a ouvem uma nuvem de tristeza; a palavra provocante, que procura despertar a briga; - de todas estas coisas tendemos a pensar levianamente demais

e necessitamos da severa admoestação de S. Tiago para nos despertar

a sua verdadeira natureza e suas consequências certas. A. Plummer.

No tocante a outros, tais palavras ferem corações tenros, aumentam desnecessária e enormemente a infelicidade humana, transformam a doçura em amargura, estrangulam bons impulsos, criam

e desenvolvem ressentimentos, e afligem toda a roda da vida diária. No tocante a os mesmos, a indulgência em tal linguagem deturpa e enfraquece nosso caráter, cega nossa simpatia, e mortifica nosso amor aos homens, e, portanto, nosso amor a Deus. Foi dito uma vez em desculpa de um homem que tinha sido criticado e condenado como imprestável: “Ele é bom em tudo, menos no gênio”. A resposta foi:

“Menos no gênio! Como se o gênio não fosse nove décimos da religião”. – A. Plummer.

10. “Não convém”. Esta duplicidade no uso da língua é uma

coisa desnatural, monstruosa. Hort.

10. “Amaldiçoamos”. Esta palavra mostra que o pecado especial de que aqui se trata não é calúnia, mentira ou injúria , porém abuso pessoal, cara a cara, como resulta de perder o domínio numa controvérsia. "Expositor's Greek Testament".

13. Sabedoria. Este trecho volta para o assunto do v. 1. A

desculpa destes que eram ambiciosos de ser mestres foi que possuíam sabedoria, e portanto Tiago procede a considerar a verdadeira

sabedoria e a falsa. Em 1:21 a humildade, a mansidão é condição de receptividade em o ouvinte; aqui é a indispensável condição de se apresentar perante outros para a sua instrução. Hort. 14. “Zelo”. Rivalidade ciumenta e contenciosa. Thayer. Espírito de contenda. Cobiça de distinção, desejo de mostrar-se e adiantar seus interesses num sentido partidário que não dispensa métodos baixos, é facciosidade. Fl 2:3; 1:15-17; 2 Co 12:20; Gl 5:20. Thayer.

“Glorieis”. Gabar-se, ao prejuízo de outros. Thayer. Contra a verdade contra o que é verdadeiro no caso em consideração (oposto ao que é fingido, falso). Thayer.

14. “Espírito de contenda”. Usado por Aristóteles de facções políticas mordendo-se com táticas de demagogia, “a ambição pessoal de lideres rivais”, o vício do líder de um partido que foi criado por considerações do orgulho do dito líder. Hort.

14. A palavra traduzida “contenda” vem de mercenário, e daí significa o espírito partidário. "Expositor's Greek Testament".

15. “Esta sabedoria”. A astúcia de homens ciumentos e contenciosos. Thayer.

“Animal”. Governada pela alma, isto é, a natureza sensual, sujeita aos apetites e paixões, uma sabedoria em harmonia com desejos corruptos e os afetos que daí nascem. Thayer.

“Diabólico”. Semelhante a um demônio, procedendo dos demônios. Thayer.

15. “Não mintais contra a verdade”. A doutrina implicada é um paradoxo, mas é amplamente verificada pela experiência. A mera possessão da verdade não é garantia de que ela será declarada; toda a conversa tira suas cores e matizes do estado moral e espiritual de quem fala, de tal modo que a verdade sai dos seus lábios como sendo falsa à proporção que ele mesmo não está numa condição veraz. A linguagem correta que ele profere pode levar uma mensagem de falsidade e mal em virtude da amargura e egoísmo com que ele fala. No fundo de sua alma tais pregadores só estimam a verdade como uma possessão para seu próprio uso e defesa. Hort.

A origem e a esfera da sabedoria espúria é a terra, não o céu; sua sede no homem é sua alma, não seu espírito; os seres com que ele tem em comum esta sabedoria são os demônios, não os anjos; assim a sabedoria que é comum aos homens e aos demônios, 2:19. Hort.

“Animal”. Não espiritual. Compare-se com Judas 19 Weymouth.

15. “A sabedoria que vem de cima”. Argumentos astutos, distinções sutis, controvérsia engenhosa, métodos da verdade pouco importam contanto que seja ganha uma vantagem efêmera, discussão hábil, ironia amarga, tanto mais apreciada quanto mais envenene e enfureça o seio do adversário enfim, todas estas tricas do

controversialista profissional, que não são menos dignas de desprezo

por ser bem feitas isto era uma sabedoria de certa espécie

era

humana (isto é, seu domínio é na esfera onde tudo que é essencialmente humano tem voga) no sentido de que ministrava ao

respeito próprio. Em nenhum outro versículo se manifesta mais nitidamente o amplo conhecimento da natureza humana pelo autor. "Expositor's Greek Testament".

15-17. O espírito de contenda e o espírito de mansidão, eis os característicos que principalmente distinguem a sabedoria que vem do céu e a que vem do inferno. Como nos comportamos em argumento e em controvérsia? Somos serenos quanto ao resultado, em plena

confiança de que a verdade e o direito hão de prevalecer? Desejamos que a verdade prevaleça, ainda que isto envolva colocar-nos na posição de estarmos errados? Somos mansos e corteses para com os que diferem de nós? Ou perdemos o domínio próprio e ficamos fogosos em nossa oposição contra os antagonistas? Se for assim, temos razão de duvidar se nossa sabedoria é da melhor sorte. Quem perde sua cabeça num argumento já manifestou que pensa mais em si do que na verdade.

A. Plummer.

16. “Espírito de contenda”. Uma palavra que originalmente significou trabalhar por salário, especialmente como tecelão, e daí

tornou-se usada para qualquer ocupação ignóbil, especialmente controvérsia política, intriga, politicagem. Rm 2:8; Fl 1:15; 2:3; Gl 5:20.

A. Plummer.

Todo o cristianismo, para alguns, consiste tão somente em um amargurado desdém pelos pecados dos pecadores, num espírito soberbo e sem caridade, contencioso, lutando com o que se chama de mundo perverso. Stier.

Do mesmo modo que há uma fé que é comum aos homens e aos demônios, e uma língua que é inflamada pelo inferno, assim há uma sabedoria que é demoníaca na sua atividade. A. Plummer.

Quando a alma se distingue, tanto da carne como do espírito, ela representa uma parte de nossa natureza que é muito mais intimamente ligada com aquela do que com este. “Natural” significa “sensual”. O homem “natural” embora de uma categoria mais alta do que o homem carnal, está muito abaixo do nível do homem espiritual, que está sob a liderança do Espírito Santo. A. Plummer.

Terrena, feroz, diabólica Purves.

Foi imediatamente depois de haver uma contenda entre os apóstolos sobre qual deles seria o maior que todos O abandonaram e fugiram.

17. “Sabedoria que vem de cima”. Pura. Livre de toda falta imaculada. 2 Co 7:11; Fl 4:87; 1 Tm 5:22; 1 Pe 3:2. Pacífica. Amante da paz. Moderada. Disposta à equidade, justa, mansa, Fácil de conciliar. Tratável, disposta a obedecer. Bons frutos usado de os feitos dos homens como expoentes de seus corações. Thayer. 17. “Fácil de se conciliar”. A sabedoria falsa havia de ser briosa, imperiosa, dominadora; a verdadeira se manifesta em deferência voluntária dentro de limites legítimos. Hort.

17. “Primeiro de tudo pura, então pacífica, cortês, não egoísta, cheia de compaixão e ações bondosas, livre do favoritismo, e de toda a insinceridade.” – Tradução de Weymouth.

17. Temos um exemplo nobre deste espírito em algumas passagens de introdução no tratado de Santo Agostinho contra a chamada Carta Fundamental dos Maniqueus. Ele assim principia:

“Minha oração ao único verdadeiro Deus é para que, em refutar e combater a heresia de vós maniqueus, à qual aderis talvez mais por falta de pensar do que por mau propósito, seja-me dada uma mente serena e tranquila, e que vise mais a vossa emenda do que a vossa

descompostura

Tem sido nosso esforço, portanto, preferir e escolher

a melhor parte, para que pudéssemos ter oportunidade para vos mudar,

não por contenda e luta e perseguição, mas em consolações compassivas, afetuosas, exortação e discussão acima: como está

escrito “Ora, o servo do Senhor não deve brigar, mas deve ser condescendente para com todos, capaz de ensinar, sofrido, que corrija

com mansidão os que se opõem

Que se enfureçam contra vós os que

não sabem com que labor a verdade se encontra, e quão difícil é evitar

Que se enfureçam contra vós os que não sabem com que

erros

grande dificuldade o olho do homem interior se sara, de modo a poder

encarar o Sol

Que se enfureça contra vós os que não sabem com que

gemidos e soluços se torna possível, mesmo num grau pequeno, compreender a Deus. Afinal que se enfureçam contra vós aqueles que nunca se viram enganados por um erro como agora vos percebem

enganados

Que nenhum de nós dia ao outro que já achou a verdade.

Que a busquemos como se nos fosse desconhecida. Porque ela pode ser buscada, tão somente se não houver a pressuposição presunçosa

de que já foi encontrada”. – A. Plummer.

17. “Sem parcialidade”. Purves traduz esta palavra “pensando sem fingimento”. Das várias significações possíveis perante nós,

podemos com razão escolher “sem dúvidas”. A sabedoria que é de cima é constante, invariável, de mente singela, não vacilante. A. Plummer.

18. “Fruto da justiça”. A utilidade, benefício, que consiste em

justiça. Thayer.

18. Semeada em paz. Uma paz que não é a mera cessação da

luta tal paz pode ser, no íntimo, a amargura das derrota mas uma paz que tem no coração o gozo da vitória, a paz peculiar do seu vitorioso Senhor. Robins.

18. “Fruto da justiça” é uma expressão paralela ao penhor do Espírito 2 Co 1:22 (onde o Espírito é o penhor), “o santuário do seu corpo”, Jo 2:21 (onde seu corpo é o santuário) Cl 3:24; 1 Ts 5:8. Quer dizer: “E a paz para os que se esforçam pela paz, é a semente cuja seara é a justiça”. – Weymouth.

CAPÍTULO VII

DAS PAIXÕES MUNDANAS CONVERTEI-VOS A DEUS

4:1-12

TRADUÇÃO Donde vêm guerras e donde vem batalhas entre vós? Não vêm daqui, das vossas paixões pelos prazeres, que guerreiam entre os vossos membros? Cobiçais, e não tendes; logo matais. E ferveis com ódio e inveja, e não podeis alcançar vossa aspiração; logo pleiteais e fazeis guerras. Não tendes, porque não pedis. Pedis e não recebeis porque pedis perversamente, a fim de o esbanjar na gratificação de vossas paixões. Ó (vós que sois quais) esposas adúlteras, não sabeis que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Pois quem quiser ser amigo do mundo, se constitui inimigo de Deus. Ou cuidais vós que baldadamente a Escritura diz: “Com ciúme anela (por nós) o Espírito que ele fez habitar em nós?” Todavia, ele dá graça mais abundante, pelo que também diz: “Deus resiste aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes.” Portanto, sujeitai-vos a Deus. Mas resisti ao Diabo e ele fugirá de vós. Chegai-vos para Deus, e ele se chegará para vós. Limpai as mãos, pecadores! E purificai os corações, ó homens de espíritos vacilantes! Afligi-vos, lamentai e chorai. O vosso riso troque-se em pranto e a alegria em tristeza. Humilhai-vos na presença do Senhor, e ele vos exaltará. Deixai de falar mal uns contra os outros, irmãos. Aquele que fala mal de um irmão, ou julga seu irmão, fala contra a Lei e julga a Lei. Mas se julgas a Lei, não és observador da Lei, mas juiz. Um só

é Legislador e Juiz, o qual pode salvar e destruir. Mas tu quem és, que julgas o teu próximo?

PARÁFRASE O estado de partidarismo em Israel, mesmo na Diáspora, chegou quase à guerra civil. Lutas partidárias se prolongam numa guerrilha de facções com inúmeras batalhas. Geralmente são batalhas de palavras, porém às vezes cobiça, o ciúme e os ódios partidários chegam a tal ponto que resultam no homicídio, e sempre os combates geram mais combates e a luta parece infinda. Qual o móvel de tudo isso? São vossas paixões. Quereis prazeres, e se apetite insaciável sacrifica tudo no altar de seus desejos carnais. Esquecendo-vos que toda boa dádiva vem de Deus, abandonais a oração; e mesmo quando orais é com motivos perversos visando esbanjar os dons na gratificação de vossa ambição de prazeres. E Israel se esquece que a nação, mesmo na Diáspora, se fez Noiva de Jeová. Sim, os profetas casaram a pátria com o seu Deus. Mas vós sois como esposas adúlteras, infiéis ao vosso divino Esposo e Senhor. Fostes separados para Deus. Não sabeis que o namoro do mundo é traição dos vossos votos para com o Senhor? Em lugar da mais sagrada intimidade com Deus vós procurais colocar-vos na categoria de seus inimigos. Ó insensata nação! Cuidais que é baldadamente que a Escritura afirma que Deus é ciumento do amor do seu povo e não tolera rivais nem corações divididos? Contudo, como nos tempos dos profetas, Deus é longânimo. Ainda sua graça é vos oferecida. Ele perdoará sua esposa infiel se tão somente se converter. Sujeitai-vos, pois, a Deus. Resisti o Diabo, que vos seduz. Chegai-vos a Deus. Limpai as mãos da corrupção e purificai

os corações desta divisão do afeto entre Deus e o mundo. A situação é de luto nacional, pois a glória de Israel já se foi. Chorai bem alto. Lamentai como sói entre vosso povo oriental. Convertei todo riso e alegria em pranto e vergonhoso pesar. Então com este verdadeiro arrependimento por vossa parte, Deus se chegará a vós, vos ouvirá, concederá sua graça e seu perdão, e da vossa humilhação vos exaltará. Porém o caminho é pela humildade. O orgulhoso só encontra por parte de Deus uma coisa resistência, resistência divina, resistência onipotente, resistência castigadora. Cortai este mal partidário pelas raízes. Ele começa por falardes mal uns dos outros. Não sois juízes em Israel. Deixai dessa praxe, tão destrutiva da fraternidade. É desprezo da Lei para o réu assumir ares e usurpar funções de juiz. Um Legislador e um Juiz há para o povo de Deus. Quem és tu que lhe roubas a função? Cuida da tua vida.

COMENTÁRIO 1. “Deleites” Prazeres e desejo de prazeres. Thayer.

1. Deleites que combatem nosso vosso membros. Representa-se os prazeres como fazendo uma guerra contra os membros, isto é, invadindo-lhe o território. Hort.

1. Estes versículos revelam um estado de depravação e imoralidade nestas congregações da Diáspora que nos espanta; contendas, carnalidade, cobiça, homicídio, avareza, adultério, ciúme, soberba e calúnias são prevalecentes. "Expositor's Greek Testament".

1. “Contendas Greek Testament".

Guerras. Guerras e batalhas. "Expositor's

1.

A noção de que as igrejas da época apostólica estavam numa

condição de perfeição ideal é um sonho absolutamente sem

fundamento. A. Plummer.

1.

“Que combatem”. Fala de paixões que inquietam a alma.

Thayer.

2.

“Invejais”. Ser esquentados, ferver de ciúme, zanga, ódios.

Thayer.

2. “Contendeis”. Fala de contendas que terminam em litígios perante os tribunais terrenos, sobre propriedades e privilégios. Thayer.

2.

Matais e vos tornais fanáticos. Sl 106:15; Ez 14:4.

2.

Guerras e facções e brigas não têm outra fonte senão o corpo

e suas cobiças. É para ganhar riqueza que todas as guerras surgem e somos forçados a ganhar riquezas por causa de nossos corpos, de cujo serviço somos escravos; em consequencia não temos tempo para a filosofia por causa destas coisas. Já foi provado que se havemos de gozar puro conhecimento de alguma coisa, temos de nos ver livres do corpo, e com a alma isolada temos de ver as coisas isoladas, separadas de sua utilidade para o corpo. Nesta vida nos aproximamos mais da

sabedoria se não tivermos relação alguma com o corpo, além daquilo que é absolutamente indispensável, e assim não ficamos cheios de sua natureza, mas permanecemos livres de suas manchas até Deus mesmo nos livrar. Platão: Phoedo.

Platão e S. Tiago estão plenamente de acordo em crerem que as

guerras e contendas são causadas pelo corpo

acordo finda. A conclusão de Platão é que o filósofo precisa, tanto quanto for possível, negligenciar e excomungar seu corpo, como fonte intolerável de corrupção, anelando o dia da morte quando se verá livre do peso de servir este obstáculo e empecilho entre sua alma e a verdade. Platão não sonhou que o corpo pode ser santificado aqui e

glorificado além da morte. A. Plummer.

Porém neste ponto o

2. Cobiçais e não possuis; portanto matais: e invejais e não podeis alcançar, portanto contendeis e fazeis guerra.

Esta maneira de agrupar as cláusulas dá perfeita clareza e não

faz violência ao grego do original

lascivo á adultério no coração (Mt 5:28), assim o ódio guardado no

espírito é homicídio no coração. A. Plummer.

Do mesmo modo que o pensamento

3. “Despenderdes em vossos deleites”. Para gastardes, dissipardes o que recebeis em luxo e indulgência da carne. Thayer.

4. “Adúlteras”. O original é feminino. É uma figura que indica infidelidade a Deus, imundície, apostasia Thayer. É fino sarcasmo, baseado na concepção profética do povo como casado com Deus.

4. “O mundo”. Afazeres mundanos, o agregado de bens, riquezas, vantagens, prazeres, etc, etc., que, embora ocos, vãos e passageiros, estimulam a cobiça e nos afastam de Deus e constituem um obstáculo à causa de Cristo. Thayer.

4. “A amizade do mundo”. A amizade do mundo, (isto é, estando numa posição de amizade com ele) naqueles dias significava, ou envolvia, certa conformidade com o padrão de vida pagã. Hort.

“Deus é o Senhor e o esposo de toda alma que é dele.”

5. Swete sugere que a citação vem de algum escrito cristão: O Espírito de Cristo anela por nós, mas com ciúme, com um amor que ressente toda força contrária, como por exemplo, à amizade do mundo. Sua atitude para com semelhante antagonista não é mero zelo, é ciúme. Seu direito ao afeto do coração humano não tolera rival. Há um ciúme justo, que é digno de Deus e até a consequencia necessária da grandeza do seu amor. A ideia falsa do caráter divino que poderia ser sugerida à mente humana é evitada por uma outra citação. “Porém ele dá maior graça”; portanto é dito: “Deus se opõe em oposição ao valentão, mas ao humilde, dá graça” “É contra os que resistem a Deus que Deus resiste e tão somente contra eles; os homens de coração humilde não têm motivo de temer o ciúme divino, porém se verão

crescendo ao favor divino e nos dons do Espírito pelos quais este amor é manifestado. Assim o sentido geral da passagem parece ser: Os

amigos de Deus não podem ser amigos do mundo também

O Espírito

que Deus implantou no crente anela pela devoção inteira dos corações nele habitados, com um amor ciumento que não tolerará a invasão de um rival. Porém este ciúme divino é consistente com uma generosidade

sempre crescente para com aqueles que se submetem ao domínio do Espírito Santo que está neles. É a grandeza do amor de Deus para conosco que resiste o pecado que se eleva contra ele e proíbe a

amizade com o mundo por parte de corações nos quais seu Espírito habita. Swete,

4. “Adúlteras”. É preciso lembrar que este uso (de adultério

como figura de apostasia) é muito excepcional. De trinta e uma

passagens em que se fala de adultério, somente em cinco está usada

O estado depravado de moral a que todo este

trecho testifica deve ter sido pelo menos em parte causado pela iniquidade e cooperação das mulheres, de sorte que nada há de estranhar em elas estarem especificamente mencionadas em conexão com aquela forma de pecado com que seriam mais particularmente associadas. "Expositor's Greek Testament".

num sentido figurado

4. É uma adaptação audaciosa da imagem profética aos que

estavam desleais a Deus, - Westcott.

4. O termo (adúlteras) está usado no sentido comum vetero-

testamentário o de adultério espiritual infidelidade a Jeová considerado como o esposo de seu povo. Ez 23:27; Os 2:2; Is 57; Mt 12:39; Mt 16:4; Mc 8:38; A. Plummer 2:22. O sexo da pessoa não afeta a relação; cada alma que foi casada com Deus e depois transferiu seu afeto e lealdade a outros seres é uma esposa adúltera. S. Tiago, com a simplicidade, franqueza e singeleza que lhe caracterizam, indica-lhes o fato com esta severa frase “Vós, adúlteras” – A. Plummer.

4. “Inimizade contra Deus”. Se uma mulher repudia seu marido e se casa com outro, comete adultério. Uma esposa que cultiva a amizade de um homem que lhe procura seduzir torna-se inimiga de seu

marido. Todo o judeu cristão deve saber que a amizade do mundo é inimizade contra Deus. A. Plummer.

4. “Mundo”, João nos afirma (e provavelmente as palavras não são dele, mas sim de Cristo) que Deus amou o mundo (Jo 3:16). Porém ele nos admoesta para não amarmos o mundo (1 Jo 2:15). E aqui Tiago nos informa que sermos amigos do mundo é nos tornarmos inimigos de Deus. Ora é claro que “o mundo” que Deus ama não é “o mundo” que nós não devemos amar. “Mundo é um termo que tem várias significações na Escritura, e erraremos se não as distinguirmos nitidamente. Às vezes significa este planeta (Mt 4:8). Outrossim, significa os habitantes da terra, como quando se diz que Cristo veio para tirar o pecado do mundo, Jo 1:10; 1 Jo 4:14. E no último lugar, quer dizer aqueles que estão alienados de Deus, - incrédulos , judeus e cristãos apóstatas , especialmente a grande organização pagã de Roma (Jo 8:23; 12:31). Assim o mundo que originalmente significava a ordem natural a formosura da criação vem significar a desordem desnatural e a feiúra das criaturas que se tenham rebelado contra Deus, seu Criador. O mundo que o Pai ama é toda a raça humana. O mundo que nós não devemos amar, é o que não nos permite amar ao Pai, reciprocamente o mundo que é seu rival e seu inimigo. É deste mundo que o homem verdadeiramente religioso se guarda imaculado (Tg 1:25). Homens pecadores, com seus desejos iníquos, conservando-se numa atitude permanente de deslealdade e hostilidade contra Deus, e passando isto de um a outro, de uma geração a outra, como uma tradição da vida – é isto que Paulo e Tiago e João consideram “o mundo”. – A. Plummer.

Do mesmo modo que há um Espírito de Deus, que nos guia em toda a verdade, assim também há um espírito do mundo, que nos guia, precisamente, no sentido oposto (1 Co 2:12). Este mundo com suas concupiscências é passageiro, está perecendo (1 Jo 2:17). Até sua própria tristeza gera a morte (2 Co 7:10). “O mundo é a natureza humana, sacrificando o espiritual ao material, o futuro ao presente, o invisível e eterno ao que satisfaça os sentidos e pereça com o uso. O mundo é o medonho dilúvio de pensamentos, sentimentos, princípios de conduta, preconceitos convencionais, desgostos, ódios, afetos, que se têm acumulado em redor da vida humana, por séculos, impregnando-a, impelindo-a, amoldando-a, degradando-a”. Liddon – A. Plummer.

5. “Com zelo anela por nós”. “Até ciúme”. Esta palavra tem

grande ênfase no original. Amizade com o mundo ou qualquer objeto

estranho não pode ser tolerada

Americana em 1861-1866, numas conferências entre representantes do Sul e da União, os rebeldes ofereciam cada vez mais atraentes propostas de quanto território devolveriam à União, contanto que fosse reconhecida a independência do resto. Cada vez aumentava a parte que cediam e restringiam a parte que exigiam para ser um país independente. Afinal o Presidente Lincoln colocou sua mão sobre o mapa de modo a cobrir todos os Estados do Sul que estavam em revolta e disse seu ultimatum: “Senhores, este governo há de ser soberano sobre a totalidade”. A constituição dos Estados Unidos teria terminado se a mínima parte, por menor que fosse, tivesse sido reconhecida como independente. Foi um princípio vital, que não admitiu exceções ou graus. Ou tinha de ser conservado na sua inteireza ou estava irreparavelmente dissolvido.

Durante a Guerra Civil Norte-

É precisamente uma exigência desta natureza que Deus, operando pelo seu Espírito divino, faz de nós! Ele não consente em dividir nossos afetos com o mundo por mais que lhe ofereçamos, por

mínima a parte que cedamos ao mundo. Se de alguma forma se admite um rival a Deus já nos tornamos infiéis e rebeldes. Seu governo exige

a totalidade de nosso ser. A. Plummer.

5. S. Tiago quer alegar ciúmes de Deus, mas ciúmes no sentido

de que ele vê mal a amizade do seu povo dada ao mundo quando lhe

é devido e somente a ele. Hort.

5. Estas palavras testificam a verdade de que a terceira Pessoa da Trindade habita em nossos corações, anelando obter de nós o mesmo amor que ele nos dispensa. É uma passagem notável, que num aspecto nos ensina o amor do Espírito, distinto do amor do Pai e do Filho. Nesta conexão se deve ler Rm 8:26-28; Ef 4:30; 1 Ts 5:19.

CAPÍTULO VIII A AVAREZA E SUAS CONSEQUENCIAS

4:13-5:6

TRADUÇÃO

Eis agora vós que dizeis: “Hoje, ou amanhã iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano e negociaremos e ganharemos”, (vós que nem sabeis que sorte de vida será vossa no dia de amanhã, pois, sois apenas um vapor que aparece por um pouco e logo se desvanece) em vez de dizerdes: “Se o Senhor quiser, tanto viveremos como também faremos isto ou aquilo”. Mas agora vos gabais das vossas presunções. Toda jactância semelhante é ma. Portanto se alguém sabe fazer o bem e não o faz, é para ele pecado. Eis agora, vós ricos, chorai bem alto, dando urros pelas misérias que hão de vir sobre vós. As vossas riquezas estão apodrecidas, e as vossas vestes estão roídas pela traça, o vosso ouro e prata estão cobertos de ferrugem, e a sua ferrugem será por testemunho contra vós e comerá a vossa carne como fogo. Acumulastes tesouros em dias (que talvez sejam os) últimos (da dispensação)! Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, o qual tem sido defraudado por vós, está a clamar; e as vozes dos ceifeiros têm penetrado até aos ouvidos do Senhor dos exércitos. Tendes condenado e matado o justo; ele não vos resiste.

PARÁFRASE Agora duas palavras aos devotos do dinheiro.

Sois admoestados no Sermão da Montanha contra a ansiedade:

eu vos previno contra demasiada confiança em vossos planos. O futuro

mais incerto do que julgais. Essa finalidade de decisões e planos para atividade comercial em outras cidades e pelos anos futuros, sem consultardes a vontade de Deus e o propósito divino em vossa vida, é loucura, visto que nem de amanhã tendes a certeza, mas antes a vossa vida é qual vapor que sobe de um bule e se desvanece no ar. Longe dessa brusca confiança, que cuida de negócios como se esta vida fosse uma eternidade a gozar e explorar, nossa atitude deve ser buscar a vontade de Deus, que é soberano em nosso destino. A principal hipótese de todos os planos humanos é: “Se Deus assim tiver

é

Não é que a

repetição vã das palavras valha coisa alguma. É a disposição que procura, primeiramente, o reino Deus e considera tudo mais secundário.

A vida que fizer planos sem essa submissão aos planos divinos é

presunçosa, e seus planos e contratos comerciais são mera jactância vã. E vós sabeis melhor do que viver assim. Portanto, sois pecadores,

de propósito, pois a essência do pecado é ter conhecimento do bem e do dever e no entanto praticar o contrário, ou, ao menos, omitir de fazer

o

Ó colheita terrível e medonha que resulta da avareza! Posso, com

a

o

ouvidas quando o dia do juízo divino surgir. Esse dia não tarda. Manifestações dispensacionais do juízo profetizado de Deus sobre Israel estão à porta. Vosso tesouro metais preciosos cobertos de ferrugem, vestes riquíssimas roídas pela traça, por longos anos de acúmulo será testemunha contra vossa alma provando que nem amastes a Deus nem ao próximo.

vosso pranto e as estridentes lamentações orientais que hão de ser

visão profética, enxergar a vossa ruína. Ressoam em meus ouvidos

proposto, eu continuarei a viver e farei o seguinte

bem cuja obrigação bem entendeis.

E, juntamente com esta voz metálica, ouço também os roucos

gritos de protesto, e os gemidos de pobreza, dos ceifeiros que vos deram pão pelo seu suor, porém, vós lhes defraudastes o pão pela

vossa opressão avara.

O Senhor, que é o General do exército celeste, ouve este

testemunho contra vós. Vê que vos estais cevando em glutonaria e luxo qual rez na véspera da matança. E as vossas vítimas não vos resistem.

Mas

há quem resista! É Deus.

COMENTÁRIO Este trecho foi proferido aos incrédulos; o qaue vem antes deste, aos crentes. Mais ou menos como os profetas do Velho Testamento às vezes pareciam desviar-se para profetizar contra Tiro e Sidon e as demais nações pagãs. A. Plummer.

13. Os judeus da Dispersão desde o princípio tinham abandonado

a agricultura; visto que congregaram-se principalmente nas cidades. Era o comércio que mais lhe interessava. O Egito era o principal centro

de atração, e muitos judeus ricos faziam parte da numerosa população

israelita de Alexandria; Filon fala de judeus que eram donos de navios

e negociantes, nesta cidade. Quando tais judeus abraçaram o

cristianismo, certamente não havia motivo de abandonar sua carreira Esta secção visava mais os judeus do que os judeus cristãos. "Expositor's Greek Testament".

15. Tanto a vida como a ação dependem da vontade de Deus. "Expositor's Greek Testament".

15. “Se o Senhor quiser”. Cautela! É fácil entender estas palavras de tal maneira que se perca o espírito delas. É uma de muitas passagens da Escritura que se toma segundo a letra, e não segundo o espírito, sendo a letra de pouco valor. Como em muitos dos ensinos do Sermão do Monte, temos um princípio anunciado na forma de uma regra. As regras são para serem observadas literalmente. Princípios são dados para serem aplicados inteligentemente e observador segundo seu espírito: Não obedecemos a Cristo quando deixamos o ladroa que já nos roubou um vestido levar outro também; nem obedecemos S. Tiago quando dizemos: “Se Deus quiser” ou “Glória a

é possível guardar o preceito de Cristo

Deus” em todas as ocasiões

sem largar o segundo vestido, e de fato não devemos deixar o ladrão levá-lo. E é também possível guardar o mandamento do irmão de Cristo sem nunca pronunciar as palavras “Se Deus quiser”, o uso habitual das quais certamente há de degenerar num formalismo vão e hipócrita em nós, e igualmente provocaria criticismo desnecessário e zombaria

irreverente em outros. S. Tiago quer dizer que devemos sentir de momento em momento que estamos absolutamente dependentes de Deus. A. Plummer.

16. “Agora, porém”. Com as coisas no estado em que estão. "Expositor's Greek Testament" 5:2-3. As vossas riquezas estão corruptas, as vossas vestes estão roídas pela traça, o vosso ouro e a vossa prata estão enferrujados. Temos três qualidades de possessões indicadas nesta passagem. Primeiro, depósitos de varias sortes de mercadorias. Estas estão corruptas: tornaram-se pobres e sem valor. Em segundo lugar, vestes ricas era uma parte considerável da riqueza de um oriental. Têm sido guardas com muito zelo e com tanto cuidado que os insetos comeram-

nas e ficaram arruinadas. E, em terceiro lugar, metais preciosos. Estes se enferrujaram e ficaram descorados, por não terem sido usados. Em todos estes casos a avareza tem sido tanto pecado como loucura. Fracassou no seu propósito pecaminoso. Foi a ruína de suas propriedades. Como a ferrugem e as traças comeram seus bens, assim o fogo do juízo divino lhes comerá a carne. A. Plummer.

3. “Comerá a vossa carne como um fogo”. Torturar alguém

com as penas eternas. Thayer.

“Em todo o tempo de nossa riqueza, Bom Deus livra-nos”.

4. “Últimos dias” – O tempo mais perto da volta de Cristo do céu. Thayer.

4. “Vossos campos”. Implica terras extensas. Calvino sugere

que é especialmente iníquo que os que nos alimentam pelo seu trabalho têm de sofrer fome. A. Plummer.

4.

“Senhor dos exércitos”. Exércitos celestiais. Green.

4.

Tanto o maltratar aos pobres como o salário que lhes foi

roubado pelo patrão avaro contrário à Lei misericordiosa (Lv 19:13) que não permitiu demora alguma nos pagamentos (Jr 22:13; Ml 3:5). Ellicott.

4. Demora e desonestidade em pagar salários eram pecados de

uso comum. Lv 19:13; Dt 24:14-15; Jó 24:10; Mq 3:10; Pv 3:26 – “Expositor’s Greek Testament”.

6. “Orgulhoso” Que se mostra superior a outros a seus próprios olhos, proeminente, com demasiada estima de si, de seus bens ou de seu próprio mérito, desprezando outros, até tratando-os com desdém. Thayer.

CAPÍTULO IX A PACIENCIA NA AFLIÇÃO, NA INJUSTIÇA, NA DOENÇA TRADUÇÃO

5:7-20

Sede, pois, pacientes, irmãos, até a vinda do Senhor. Vede como o lavrador espera pelo precioso fruto da terra, aguardando- o com paciência, até receber as primeiras e as últimas chuvas. Sede vós também pacientes, e fortalecei os vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima. Deixai de queixar-vos, irmãos, uns contra os outros, para que não sejais julgados. Olhai que o Juiz aí está diante da porta. Irmãos, tomai como exemplo do sofrimento e da paciência os profetas, que falaram em nome do Senhor. Eis que temos por bem aventurados os que permaneceram firmes. Tendes ouvido da constância de Jó, e tendes visto o sucesso da providência do Senhor, que o Senhor é cheio de ternura e compassivo. Mas sobretudo, meus irmãos, deixai de jurar, quer seja pelo céu, quer seja pela terra, ou por qualquer juramento. Porém, seja vossa (palavra) o “Sim, sim” e o “Não, não”, para não incorrerdes no juízo. Está aflito alguém entre vós? Ore. Está alguém de bom ânimo? Cante louvores. Está doente alguém entre vós? Mande chamar os presbíteros da igreja e dirijam (estes ) uma oração sobre ele, ungindo-o com óleo em o nome do Senhor. E a oração (ditada) pela fé há de restabelecer o doente, e o Senhor o levantará. E se tiver cometido pecados, lhe serão perdoados.

Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros para que sejais curados. Muito poderosa é a oração do justo se for do íntimo do coração. Elias era homem de natureza semelhante à nossa, e ele orou com instância para não haver chuva, e não choveu sobre a terra durante três anos e seis meses. E de outra vez orou e o céu deu a chuva, e a terra produziu o seu fruto. Meus irmãos, se alguém entre vós for desviado da verdade e alguém o converter, sabei que aquele que converte um pecador do erro do seu caminho salvará uma alma da morte e cobrirá uma multidão de pecados.

PARÁFRASE Suportai as aflições, as injustiças e as doenças com toda a longanimidade e paciência. Sede quais lavradores que desprezam o calor do sol e aguardam as chuvas do plantio e da ceifa a seu tempo, confiantes na sagra. O fim de tudo na luta terrestre é a vinda de Jesus. Como no caso de Jó, o sucesso operado pela providência de Deus será, enfim, glorioso. Portanto, imitai as grandes almas pacientes da vossa história nacional. Emoções variadas surgem nestes transes. Não os aceiteis com o praguejar e com palavras blasfemas. Este costume deveis abandonar. Mas a intercessão e os cânticos são as maneiras lícitas e convenientes de dar expressão às nossas emoções nas horas críticas da vida. E em tudo, mantende a simplicidade de falar. Se quiserdes dar ênfase a uma afirmação, repeti-a, mas sem palavras excessivas. Uma simples palavra de afirmar, ou negar, tem mais força do que o exagero. No caso de doença, não estais a sós. Vossa igreja vos ama e vos cercará de carinho. Avisai vossos pastores e virão orar a Deus e o poder divino vos curará.

Talvez seja o móvel dessa doença o castigo divino. Examinai-vos

e confessai, penitentes, esse pecado que trouxe sobre vós o castigo de Deus. E assim a ocasião será duplamente abençoada na cura do corpo

e no perdão da alma. Nunca percais de vista o poder da oração. Elias

não foi excepcional. Nossos orações também, se surgem das veras da alma justa, são poderosas. Finalmente, sede evangelizadores. Salvai a Israel. Convertei vosso povo, as ovelhas perdidas de Cristo, desviando-se como estão

do seu Messias e Pastor. E assim evangelizando conseguireis a salvação de almas imortais, e os pecados dos convertidos serão cobertos pelo sangue expiador de Jesus, eternamente expiados e perdoados.

COMENTÁRIO

7. “Tende paciência”. Perseverar paciente e corajosamente em

suportar aflições e pobreza. Thayer.

7. “A vinda do Senhor”. A volta futura, visível, gloriosa de Jesus,

o Messias, para ressuscitar os mortos, presidir o julgamento final e

estabelecer formal e gloriosamente o reino de Deus. Thayer.

7. “Primeiras e últimas chuvas”. As chuvas de outubro em seguida, e as de março e abril. Thayer.

7. Poucas ideias são mais estranháveis e paradoxais do que as

que se combinam nas Escrituras. “O reino e paciência de Jesus Cristo” em A. Plummer 1:9, por exemplo. Todos os cristãos são súditos de um reino paciente. - Ellicott.

7. Estes verbos no aoristo imperativo têm a forma de uma chamada para abandonar um estado degenerado e soam 9 vezes sucessivamente. Hort.

8. “Vós de espírito vacilante”. Divididos em interesse, isto é,

entre Deus e o mundo. Thayer. Vós de coração morno para com Deus Weymouth.

9.

Deixai de suspirar, de murmurar. Thayer.

9.

“O Juiz”. De Cristo, voltando a inaugurar o dia de juízo. Hort.

11. “Fim do Senhor”. O resultado, êxito, sorte final, a experiência

última de Jó conforme o propósito de Deus Thayer.

11. “Paciência de Jó”. Paciência inclui a virtude passiva e ativa,

e significa a persistência e continuação. Green.

11. “O Senhor é cheio de ternura”. De coração magnânimo.

A. Plummer.

11. “Faleis mal uns dos outros”. Não PE linguagem violenta ou

caluniadora que é condenada aqui, mas sim o amor de queixas. A têmpera censória é absolutamente anti-cristã. Revela que demos muito tempo ao estudo da conduta de outros que teria sido melhor empregado sobre a nossa. E talvez seja ainda verdade que tenham dado tanta atenção, não com o propósito de ajudar, porém a fim de criticar. A. Plummer.

12. “Um só é o Legislador e o Juiz”. “Há uma e tão somente uma Fonte de toda a lei e autoridade, e aquela Fonte é o próprio Deus. Jesus Cristo afirmou a mesma doutrina quando replicou perante o tribunal de Pilatos. “Não terias sobre mim poder algum, se ele não fosse dado lá de cima”. João 19:11. Foi a última palavra de Cristo ao procurador romano, uma declaração da supremacia de Deus no governo do mundo, e um protesto contra a insinuação: “Eu tenho poder para te livrar e tenho poder para te crucificar”, - alegação de uma autoridade irresponsável. A. Plummer.

12. “Tu, porém, quem és?” “Quem és tu que julgas teu próximo?” S. Tiago conclui esta breve seção contra o pecado censório por um forte argumentum ad hominem. Conceda