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■ 1 A AMÉRICA LATINA E OS DESAFIOS DA GLOBALIZAÇÃO ENSAIOS EM HOMENAGEM A RUY MAURO
■ 1 A AMÉRICA LATINA E OS DESAFIOS DA GLOBALIZAÇÃO ENSAIOS EM HOMENAGEM A RUY MAURO

A AMÉRICA LATINA E OS DESAFIOS DA GLOBALIZAÇÃO

ENSAIOS EM HOMENAGEM A RUY MAURO MARINI

■ 1 A AMÉRICA LATINA E OS DESAFIOS DA GLOBALIZAÇÃO ENSAIOS EM HOMENAGEM A RUY MAURO
■ 1 A AMÉRICA LATINA E OS DESAFIOS DA GLOBALIZAÇÃO ENSAIOS EM HOMENAGEM A RUY MAURO

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A América Latina e os desafios da globalização

2 ■ A América Latina e os desafios da globalização Reitor Pe. Jesus Hortal Sánchez, S.J.

Reitor Pe. Jesus Hortal Sánchez, S.J.

Vice-Reitor Pe. Josafá Carlos de Siqueira, S.J.

Vice-Reitor para Assuntos Acadêmicos Prof. José Ricardo Bergmann

Vice-Reitor para Assuntos Administrativos Prof. Luiz Carlos Scavarda do Carmo

Vice-Reitor para Assuntos Comunitários Prof. Augusto Luiz Lopes Duarte Sampaio

Vice-Reitor para Assuntos de Desenvolvimento Pe. Francisco Ivern Simó, S.J.

Decanos

Profª Maria Clara Lucchetti Bingemer (CTCH) Profª Gisele Cittadino (CCS) Prof. Reinaldo Calixto de Campos (CTC) Prof. Francisco de Paula Amarante Neto (CCBM)

Campos (CTC) Prof. Francisco de Paula Amarante Neto (CCBM) ■ 3 A AMÉRICA LATINA E OS

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A AMÉRICA LATINA E OS DESAFIOS DA GLOBALIZAÇÃO

ENSAIOS EM HOMENAGEM A RUY MAURO MARINI

DA GLOBALIZAÇÃO ENSAIOS EM HOMENAGEM A RUY MAURO MARINI COORDENAÇÃO EMIR SADER E THEOTONIO DOS SANTOS

COORDENAÇÃO

EMIR SADER E THEOTONIO DOS SANTOS

ORGANIZAÇÃO

CARLOS EDUARDO MARTINS E ADRIÁN SOTELO VALENCIA

MARINI COORDENAÇÃO EMIR SADER E THEOTONIO DOS SANTOS ORGANIZAÇÃO CARLOS EDUARDO MARTINS E ADRIÁN SOTELO VALENCIA

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A América Latina e os desafios da globalização

Editora PUC-Rio Rua Marquês de S. Vicente, 225 – Projeto Comunicar Praça Alceu Amoroso Lima, casa Editora Gávea – Rio de Janeiro – RJ – CEP 22453-900 Telefax: (21)3527-1838-1760/3527-1760 Site: www.puc-rio.br/editorapucrio E-mail: edpucrio@vrc.puc-rio.br

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Augusto Sampaio, Cesar Romero Jacob, Fernando Sá, Gisele Cittadino, José Ricardo Bergmann, Maria Clara Lucchetti Bingemer, Miguel Pereira e Reinaldo Calixto de Campos.

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Editores

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Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora.

ISBN: 978-85-7559-117-8

Prefácio

Paulo M. d`Avila Filho*

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Independente da nossa relação com as reflexões de Marx ou dos marxistas, do grau de adesão ou recusa a esta tradição de pensamento, é forçoso admitir a importância desta corrente filosófica e política no mundo todo. O marxismo teve maior influência prática e as mais profundas raízes políticas na história do mundo moderno. Sua importância teórica e prática, apaixonando corações e mentes que se lançaram às tarefas revolucionárias em seu nome, se estendeu “desde as margens do Oceano Ártico até a Pa- tagônia, e desde China, passando pelo Ocidente, até o Peru”; como nos diz Eric Hobsbawm em sua introdução à História do marxismo 1 . Como chamou nossa atenção meu colega de universidade Leandro Konder em 1991 em uma brochura intitulada Intelectuais brasileiros e o marxismo nossa intelligentzia não ficou alheia aos seus apelos: “não se pode escrever a história do pensamento brasileiro no nosso século sem falar na presença do marxismo” 2 . Uma presença nas artes plásticas, nas artes cêni- cas, na literatura, na arquitetura, na historiografia, na filosofia, nas ciências sociais, entre outros. Não se pode falar da presença do marxismo no pen- samento social e político brasileiro, ao mesmo tempo, sem considerarmos diversos importantes autores entre os quais se encontra Ruy Mauro Marini, como: Astrogildo Pereira, Oswald de Andrade, Octávio Brandão, Luis Car- los Prestes, Caio Prado Júnior, Nélson Werneck Sodré, Roland Corbisier e os que seguem fazendo essa história, como Luiz Jorge Werneck Vianna,

* Cientista Político, professor Dr. do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais do De- partamento de Sociologia e Política da PUC-Rio.

1 Hobsbawm, Eric. História do marxismo. 2ª ed., vol. I. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993, p.12.

2 Ed. Oficina de Livros, 1991, Belo Horizonte, p. 8.

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A América Latina e os desafios da globalização

Carlos Nelson Coutinho, o próprio Leandro Konder e os coordenadores deste livro, entre outros. No período entre os anos 1960 e 1980, na América Latina, é forjado um conjunto de intelectuais que produziram suas obras à luz de um momento,

no qual a utopia humana da construção de um novo mundo, o do socialis- mo, liberto das amarras opressoras do capitalismo, se apresentava como uma tarefa não somente realizável como, muitas vezes, imediata. Nesses tempos,

Prefácio

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vontade do sujeito. O descrédito generalizado faz crescer o individualismo

e o conformismo com os parâmetros do capitalismo, alvo da astúcia crítica de intelectuais e militantes revolucionários de outrora.

O rumo dos acontecimentos fez esmaecer o brilho da contribuição de

vários intelectuais, inclusive de Marini, nos fazendo crer que suas aspira-

ções jazem sepultadas. A retomada dessas questões, no entanto, me parece de fundamental importância para trazer novo sopro de ânimo, paixão e

o

destino da humanidade parecia lhes bater à porta, convidando-os a sonhar

iluminação às novas gerações que muito têm a aprender e recolher com a

a formular suas idéias pautadas pela paixão advinda da crença na possi-

bilidade de conquistar a vitória da difícil batalha de reconstruir o mundo. Um mundo da liberdade, da participação democrática, e da autoconsciência dos homens ou indivíduos de seu papel como agentes na construção dessa tarefa. Ruy Mauro Marini pertence integralmente a esse tempo. Dentre as contribuições de Marini para a reflexão marxista no conti- nente, a que mais chama a atenção é, sem dúvida, sua teoria da dependên- cia e seus estudos sobre a América Latina, mas sua constante preocupação com o caráter democrático de um projeto socialista, democracia calcada em modelos necessariamente participativos de decisão, dá a dimensão pro- fundamente atual de suas reflexões. Não fosse por isso, Marini pertence a

e

o

rumo dos acontecimentos.

contribuição de intelectuais, representantes de uma época em que a políti- ca, a vida pessoal e a produção intelectual se mesclavam intimamente em um todo nem sempre harmônico, mas em permanente efervescência. Não há nada mais ousado no universo do que o homem, pois o con- teúdo mais íntimo de sua historicidade é precisamente a ousadia engendra- da pela teleologia do processo de trabalho. Na melhor vertente da tradição marxista, ao produzir socialmente, o homem passa a produzir-se como ser que reconhece alternativas e se apaixona por elas. Como assinalou Marx em O capital “em cada novo projeto o arquiteto imagina um edifício melhor”. Nesse sentido, o fenômeno humano de fato foi gesto “irresponsável” da natureza consigo mesma, uma “inconseqüência” que cabe exclusivamente

uma geração para a qual o conhecimento é legítimo porque serve aos fins

à

consciência resgatar e atribuir em sentido.

emancipatórios do homem; que busca por intermédio da razão um sentido que lhes explique o mundo à sua volta e que o faz com crença e paixão. Uma geração que não entregou, até o último minuto, ao sabor dos ventos,

Hoje, o que vem caracterizando o nosso tempo é a incredulidade com relação às narrativas legitimadoras de outrora. A despeito da justeza de propósitos de seus bravos artífices, as experiências socialistas, provenientes da revolução leninista, produziram caminhos problemáticos que levaram ao desgaste da compreensão marxista da experiência humana na história. A deslegitimação se apresenta tanto na versão de um relativismo sem frontei-

Para realizar essa missão, a consciência não deve começar perquir- indo a si mesma, pois não está nela a chave para entender as tendências objetivas da realidade, da materialidade prática e da práxis humana. As op- ções humanas, sejam dos indivíduos ou das classes, sempre se encontram constrangidas pelas condições históricas e sociais nas quais se plasmam. O fenômeno humano, no entanto, caracteriza-se, de certa forma, como rebel- dia permanente da criatura em relação a seu criador, a natureza. Por isso, como nos mostra Marx ao longo de boa parte de sua obra, em particular nos escritos de juventude, nos textos históricos e em O capital, o homem é um ser que conhece e se reconhece à medida mesmo que se constrói.

ras quanto na adoção de valores universais a-históricos ou supra-humanos.

 

A

matéria, tomado o conceito em sua amplitude filosófica, é anterior

Substituem-se as determinações puramente econômicas de um material- ismo vulgar pela vulgata pseudo-humanista da determinação absoluta da

ao pensamento; a realidade, entretanto, é um pressuposto e um resultado como concreto pensado, como produto da práxis humana, como apontou

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A América Latina e os desafios da globalização

Marx no Método da economia política. Nesse momento, a “realidade”, o

concreto, torna-se objeto para o homem. Sua tentação idealista é atribuir- lhe um “em si” que possui uma anterioridade que ele, Homem, não possui, como se existisse já no universo, adormecido, anterior ao homem. Um an- terior que pode ser Deus, a economia, o mercado, as estruturas sociais, o espírito, entre outros.

A recusa a esta anterioridade me parece o espírito deste livro. Um livro

que trata ao mesmo tempo de acertar contas com a memória desse marxista,

acadêmico e militante que foi Ruy Mauro Marini e da mobilização do espírito crítico e livre que animava sua atividade teórica. Em um primeiro momento, somos levados a conhecer mais de perto a vida e a obra de Ruy Mauro Mari- ni, em um segundo momento somos brindados por argutas análises sobre o contexto da luta política contemporânea em âmbito internacional. Os textos mobilizam filosofia, ciência social, economia e teoria políti- ca, sob o olhar sempre complexo e infenso a academicismos dos intelec- tuais animados pela sagacidade do estudioso sem preconceitos, bem equi- pado e atento ao “movimento do mundo”. A complexidade deriva mais da recusa em tratar os temas de forma simplista do que propriamente da démarche explicativa, marcada pela clareza e objetividade. Mauro Marini e seus companheiros de jornada, assim como os autores dos artigos que compõem esta obra, operam uma perspectiva que visa empreender a críti- ca radial das estruturas de dominação social sem sucumbir às determi- nações supra-humanas, procurando justamente desconstituir, desagregar, essa anterioridade única determinante, definida a priori.

O marxismo é uma filosofia profana e enquanto tal deve ser encarada

aos moldes dos “hereges”, sem respeitar dogmas ou verdades imutáveis. Este livro procede à necessária revisão dos pressupostos que orientaram certa perspectiva analítica dos anos 1970, sem ceder às tentações do que os alemães chamaram de “espírito do tempo” (zeitgeist), tão característico dos

anos 1990, que procura desconstituir a validade e a importância atual que possui a corrente de pensamento que anima as reflexões aqui produzidas, transformando a riqueza de suas contribuições em meras vulgaridades. Esta perspectiva está absolutamente distante desta publicação.

Sumário

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Apresentação Carlos Eduardo Martins e Adrián Sotelo Valencia

Parte I O homem e a obra: política e revolução

21

Ruy Mauro Marini: um pensador latino-americano Theotonio dos Santos

27

Ruy Mauro, intelectual revolucionário Emir Sader

37

Meu querido Ruy Ana Esther Ceceña

Parte II Globalização e dependência

53

Mudando a geopolítica do sistema-mundo: 1945-2025 Immanuel Wallerstein

79

Apresentando o Tio Sam – sem roupas Andre Gunder Frank

111

Neo-imperialismo, dependência e novas periferias na economia mundial Adrián Sotelo Valencia

135

A economia mundial e a América Latina no início do século XXI Orlando Caputo Leiva

10

A América Latina e os desafios da globalização

Parte III Capital, trabalho e economia mundial

167

Dependência e superexploração Jaime Osorio

189

A

superexploração do trabalho e a economia política da dependência

Carlos Eduardo Martins

213

A

abertura revisitada: crítica teórica e empírica do livre-comércio.

Atualidade do pensamento de Ruy Mauro Marini sobre

mais-valia absoluta Pierre Salama

a

251

Dependência e superexploração da força de trabalho no desenvolvimento periférico Marcelo Dias Carcanholo

Parte IV Pensamento latino-americano e mundo contemporâneo

267

Vigência e debate em torno da teoria da dependência Marco A. Gandásegui, filho

297

A

intelectualidade crítica brasileira no México e o

pensamento político de Ruy Mauro Marini Lucio Fernando Oliver Costilla

317

Ser ou não ser subdesenvolvido: a dialética da dependência

a história do Brasil Oswaldo Munteal

e

333

A

Revolução Cubana e a teoria da dependência:

Ruy Mauro Marini como fundador Francisco López Segrera

361

Teorias estruturalistas e teoria da dependência na era da globalização neoliberal Cristóbal Kay

Apresentação

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A publicação de A América Latina e os desafios da globalização:

ensaios em homenagem a Ruy Mauro Marini faz parte das homenagens dedicadas a Ruy Mauro Marini nos 10 anos de sua morte. Reúne prestigia- dos pensadores contemporâneos para discorrer sobre temas ou conceitos desenvolvidos em sua obra à luz da conjuntura contemporânea. Paradoxalmente pouco conhecido do leitor brasileiro, Marini possui extraordinária importância no desenvolvimento das ciências sociais latino- americanas. Fundador da teoria da dependência e, talvez, com Theotonio dos Santos, o principal expoente de sua versão marxista, o autor contribuiu decisivamente na construção de um novo paradigma de interpretação das formações sociais latino-americanas e do capitalismo mundial. Apro- priando-se criativamente da obra de Marx, e de sucessores como Lenin, Bujarin e Thalheimer, Marini aplica rigorosamente o seu método: move-se do abstrato ao concreto para compreender a problemática de totalidades complexas como as da economia mundial e do capitalismo periférico no pós-guerra e nos processos de globalização. A partir daí, desenvolve a teoria marxista e projeta o pensamento latino-americano para os grandes centros, criando novos conceitos para a economia política, como os de superexplo- ração do trabalho, subimperialismo, estados de contra-insurgência e de quarto poder, além de reinterpretar os esquemas de reprodução de Marx para inserir neles o progresso técnico. Pensador que articulava a teoria com a prática revolucionária, Marini foi dirigente político da Polop e do MIR chileno. Teorizou os limites do capi- talismo latino-americano, os caminhos da revolução socialista na América

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A América Latina e os desafios da globalização

Latina e os processos políticos que a ela se impuseram na região entre os anos 1960 e 1990: os estados de contra-insurgência e os processos de re- democratização sob controle liberal e neoliberal. Ao fazê-lo, travou con- tundentes polêmicas que marcaram a história das ciências sociais na região:

com Fernando Henrique Cardoso e José Serra, defensores do capitalismo dependente como paradigma de desenvolvimento da América Latina, ou com Agustín Cueva, teórico endogenista que via na articulação interna de modos de produção a principal chave explicativa de nossa especificidade histórica e social. Para Marini, a derrota dos projetos socialistas na região não havia sido definitiva, muito pelo contrário. Uma prova disso é a persistência da revolução cubana, que sobrevive à queda da URSS e do bloco socialista no Leste europeu. Segundo o autor, a retomada dos processos de desen- volvimento sob a direção do neoliberalismo agudizaria os processos de superexploração, exclusão interna e periferização, levando à emergência de novos atores sociais e ao ressurgimento de antigos que relançariam de maneira renovada a problemática socialista. Segundo o autor, esse processo exigiria uma reconstrução teórica capaz de enfrentar os novos desafios da região. Para isso, a teoria da dependência dos anos 1960 seria apenas o ponto de partida. Ela deveria ser transcendida no plano do marxismo, isto é, depurada de seus aspectos estrutural-funcio- nalistas e reorientada para a construção de um socialismo libertário e origi- nal. Esse socialismo deveria se distinguir pela sua capacidade de introduzir elementos de democracia direta que permitissem o controle do Estado pela sociedade e por sua capacidade de democratizar os processos de gestão internacionais. Trata-se, portanto, no plano teórico, de uma problemática que requer não apenas a consolidação da teoria marxista da dependência, mas a elaboração de uma teoria marxista do sistema mundial, capaz de compreender globalmente a civilização capitalista e ultrapassá-la. O socialismo, como afirma Ruy Mauro Marini em América Latina: de- pendência e integração (1992), do mesmo modo que o capitalismo, não sur- giu de forma pronta e acabada, mas em um ambiente distinto que lhe limitou a potencialidade e as possibilidades. Se o capitalismo dos séculos XVI-XVIII,

Apresentação

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ao comprometer-se com o feudalismo para dirigir o Estado, adicionou a si próprio características históricas que limitaram o pleno desenvolvimento de suas tendências internas, o socialismo, no século XX, ao emergir e compro- meter-se com um mundo capitalista através da política do socialismo em um só país ou região, apresentou características que deverão ser ultrapas- sadas e superadas para o pleno desenvolvimento de suas potencialidades. A restrição à obra de Ruy Mauro Marini no Brasil e seu paradoxal desconhecimento por parte dos brasileiros têm três raízes. A primeira, o golpe militar de 1964, que o levou ao exílio antes que desenvolvesse grande parte de sua obra no Chile e no México. O golpe apartou o país do enfoque latino-americanista que marcou as ciências sociais da região nos anos 1960- 1970. A segunda, a ofensiva da Fundação Ford voltada para a construção de uma comunidade acadêmica liberal capaz de gerenciar o capitalismo brasi- leiro em marcos democráticos, uma vez terminada a ditadura. Chave para isso foi o seu apoio a um enfoque analítico que fragmentasse as ciências sociais em disciplinas relativamente autônomas e impedisse uma com- preensão globalizante de nossa formação social. Centros de pesquisa e as- sociações de pós-graduação com foco disciplinar foram priorizados nesses investimentos, em vez de universidades, pois estimulavam a fragmentação do conhecimento em face de um enfoque mais universalizante das ciências sociais. O Cebrap, dirigido por Fernando Henrique Cardoso, cumpriu aí um papel importante, recebendo parte significativa dos investimentos, e publicando a crítica de Cardoso e Serra à Dialética da dependência sem a resposta de Marini. A terceira se refere à ofensiva neoliberal na região nos anos 1990, estimulada pelo consenso de Washington e pela crise das uni- versidades públicas, o que sujeitou a intelectualidade a pressões externas. Entretanto, a crise de legitimidade do neoliberalismo potencializa a abertura de novos espaços. Ao homenagear Ruy Mauro Marini, este livro busca dois objetivos. Contribuir para romper o cerco à sua obra no Brasil e atender aos propósitos por ele enunciados na última fase da sua obra:

revisitar criticamente a produção latino-americana dos anos 1960-1970 e seus temas para atender aos desafios do empoderamento social de nossos povos na primeira década do século XXI. Nesse sentido, convida e se soma

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A América Latina e os desafios da globalização

a outras contribuições, entre as quais podemos destacar o primeiro volume da Coleção Pensamento Crítico Latino-Americano, dedicado a Ruy Mauro Marini, lançada por Clacso, e Latinoamericana: enciclopédia contemporânea de América Latina e Caribe, premiada no Brasil, em 2007, com os Jabu- tis de ciências humanas e livro do ano (não-ficção), fortemente inspirada no balanço do pensamento latino-americano que reivindica Marini, em meados dos anos 1990, no México, quando dirige o Centro de Estudos Latino-Americanos (Cela) da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Nacional Autônoma do México. 1 Este livro compõe-se de 16 artigos distribuídos em quatro partes que abordam aspectos ou temas da vida e obra do autor. Na primeira parte, Theotonio dos Santos, Emir Sader e Aña Esther Ceceña destacam, sob diferentes ângulos, a dimensão revolucionária e o caráter militante da obra de Ruy Mauro Marini, dedicada à transformação das condições de pobreza e marginalidade de nossos povos e formações sociais no mundo contemporâneo. Na segunda parte, Immanuel Wallerstein, Andre Gunder Frank, Adrián Sotelo Valencia e Orlando Caputo analisam as grandes tendências contemporâneas do sistema e da economia mundial em perspectivas distin- tas que estimulam o debate e o pensamento crítico. Immanuel Wallerstein aborda a ascensão e crise da hegemonia estadunidense e suas implicações geopolíticas tomando como referência a longa duração braudeliana. Dis- tingue entre 1945-1970 um período de hegemonia indiscutível dos Esta- dos Unidos e, desde então, a sua lenta decadência. No período que se abre entre 2001-2025, essa hegemonia, segundo o autor, deverá se romper e dar lugar a uma profunda reorganização do poder mundial. Ele aponta que, na conjuntura das primeiras décadas do século XXI, as possibilidades de a América Latina vir a ter papel significativo no mundo contemporâneo são muitas, mas estão ligadas à sua desvinculação da liderança estadunidense

1 Martins, Carlos Eduardo (Org.). Ruy Mauro Marini (antologia). Ed. Clacso/Prometeo, 2007; e Sader, Emir; Jinkings, Ivana; Martins, Carlos Eduardo; Nobile, Rodrigo (Org.). Lati- noamericana: enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe. Rio de Janeiro:

Ed. Boitempo, 2006.

Apresentação

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e ao desenvolvimento interno de sua capacidade de associação. Andre Gunder Frank enfatiza as debilidades do Tio Sam, a quem considera um tigre de papel. O autor destaca, na associação entre especulação cambial e proteção militar, que une o dólar ao Pentágono, uma aliança espúria que finca as raízes de uma imensa crise econômica, social e política dos Esta- dos Unidos, cujo detonante será a insustentabilidade das dívidas internas e externas que se acumulam com as suas políticas macroeconômicas especu- lativas e a estratégia de poder unilateral. Orlando Caputo, em visão que discrepa em certa medida das ante- riores, identifica uma retomada da hegemonia estadunidense nos anos 1980-1990 vinculada à recuperação de sua taxa de lucro. Todavia, o au- tor destaca a presença crescente da China na economia mundial, de quem esta dependeria cada vez mais para manter o seu dinamismo econômico. Adrián Sotelo, por sua vez, analisa os efeitos provocados pela globalização capitalista na economia mundial. Esta mundializa a lei do valor; cria novas periferias com a integração de grandes porções do antigo bloco socialista do Leste europeu à economia mundial; aumenta as transferências de va- lor em detrimento das periferias ao elevar a concorrência nessas regiões; e agrega-lhes novas funções, como a criação de um mercado mundial de força de trabalho que generaliza a superexploração para o conjunto da eco- nomia, seja pela orientação da produção à economia mundial, seja pela exportação de força de trabalho aos grandes centros. Na terceira parte, Jaime Osório, Carlos Eduardo Martins, Marcelo Carcanholo e Pierre Salama analisam as articulações entre a acumulação de capital e o trabalho na economia mundial. Jaime Osório e Carlos Eduardo Martins revisam as principais teses de Marini sobre o conceito de superexploração. Osório enfatiza sua gênese, atualidade e especificidade na teoria marxista e dedica-se a desfazer equívocos e confusões que ainda permanecem sobre esse conceito. Na mesma direção, Carlos Eduardo Mar- tins reivindica a pertinência do conceito de superexploração no âmbito da teoria marxista do valor, buscando sua formalização matemática. Mostra que este vincula-se, inicialmente, às condições de dependência e aponta os determinantes para sua generalização na economia mundial durante

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A América Latina e os desafios da globalização

globalização capitalista. O autor sugere ainda a pertinência de um quarto

instrumento de superexploração: a queda dos preços da força de trabalho abaixo de seu valor através do aumento da qualificação do trabalhador sem

o incremento salarial correspondente.

Marcelo Carcanholo analisa os processos de acumulação no capita- lismo periférico e mostra as diferenças de enfoque e projetos entre a teoria da dependência de Marini e Theotonio dos Santos, de um lado, e a teoria do desenvolvimento associado de Cardoso e Faletto, de outro. Analisa os pro- cessos de acumulação que se desenvolveram na América Latina nos anos 1990, sob o primado do capital fictício, mostrando sua compatibilidade com as teses da superexploração. Pierre Salama, por sua vez, analisa os proces- sos concretos de regulação da força de trabalho na economia mundial con- temporânea dominada pela globalização comercial e financeira, buscando analogias com as teses de Marini. Ele enfatiza a queda da massa salarial e a revitalização de mecanismos de extração de mais-valia absoluta como uma das principais características dessa economia mundial. Na quarta e última parte, Marco Gandásegui, Lucio Oliver, Oswaldo Munteal, Francisco Lopez Segrera e Cristóbal Kay abordam grandes debates

e questões do pensamento latino-americano e sua pertinência no mundo

contemporâneo. Gandásegui resgata os principais pontos de confrontação

e convergência do debate entre Ruy Mauro Marini e Agustín Cueva e re-

flete sobre eles tomando em consideração as três décadas que o cercam. Lucio Oliver faz um balanço contemporâneo das principais contribuições dos pensadores brasileiros exilados no México sobre o modelo político la- tino-americano, destacando nestes o aporte de Marini. Oswaldo Munteal inscreve o pensamento de Marini e a teoria da dependência na história do pensamento crítico latino-americano. Evidencia as suas vinculações com as teorias do capitalismo colonial, das quais parte para superar seus limites, e com outras visões, em particular as do antigo sistema colonial e do sistema mundo. Munteal sublinha a necessidade de se trabalhar na convergência entre os esforços em teorizar os processos de acumulação no capitalismo periférico ou mundial, destacados na teoria da dependência, e os dedi- cados à formação do sistema interestatal e ao papel coercitivo do Estado,

Apresentação

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enfatizados nos enfoques do antigo sistema colonial e do sistema-mundo. Francisco Lopez Segrera e Cristóbal Kay analisam a teoria da dependên-

cia problematizando a questão das alternativas. Ambos, de forma polêmica

e instigante, talvez não compartilhada por alguns dos fundadores da teo- ria da dependência, apontam a ruptura com a economia mundial como a

síntese do seu projeto socialista. Criticando o isolamento desse projeto

– apesar das ressalvas aos resultados consistentes da revolução cubana –,

sobretudo após a ofensiva neoliberal, os autores propõem-se explorar as possibilidades de um caminho menos conflitivo de integração à economia mundial e de reconstrução do Estado latino-americano, tomando como referência o neo-estruturalismo cepalino ou formas menos ortodoxas de reconstrução do capitalismo nacional, fortemente apoiadas nos movimen- tos sociais, para alguns mais próximas do socialismo de mercado. A América Latina e os desafios da globalização: ensaios em homenagem a Ruy Mauro Marini toma como referência uma das maiores expressões do pensamento social da região para refletir sobre a problemática latino- americana no mundo contemporâneo. Faz isso com o espírito crítico, sem dogmatismos, e com diversidade de enfoques. Não poderia ser de outra maneira, diante dos desafios da reconstrução societária e das incertezas com que nos defrontamos. Contribui, assim, para que o leitor brasileiro desenvolva os seus instrumentos de reflexão para participar da aceleração do tempo histórico que parece destinada a se projetar sobre a região neste início de século XXI.

Carlos Eduardo Martins Adrián Sotelo Valencia

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A América Latina e os desafios da globalização

Parte I

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O homem e a obra: política e revolução

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A América Latina e os desafios da globalização

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Ruy Mauro Marini:

um pensador latino-americano

Theotonio dos Santos*

O pensamento social latino-americano alcançou, particularmente nas quatro últimas décadas, um alto reconhecimento internacional e influiu profundamente na metodologia e na temática das ciências sociais contem- porâneas. Mais ainda, alguns desses pensadores, independente de suas res- pectivas origens disciplinares (economistas, sociólogos, cientistas políticos, historiadores ou antropólogos), representam referências fundamentais nas lutas sociais de nosso tempo. Entre todos, Ruy Mauro Marini ocupa uma posição privilegiada. Sua obra teórica é profunda e clara e antecipou grande parte dos campos de pesquisa e debate das ciências sociais contemporâneas. Ainda muito jo- vem, Ruy Mauro levantou, na Organização Revolucionária Marxista Polí- tica Operária (Polop) que fundamos, conjunto de militantes brasileiros de várias origens em 1961, a polêmica sobre as tendências bonapartistas na política brasileira e identificou a relação entre o populismo e as tendências autoritárias em que deveria desembocar o Estado Brasileiro. 1

* Nascido em 1936, é um dos fundadores da teoria da dependência. Autor de 38 livros, co-autor, colaborador de 78 livros e de 150 artigos em revistas científicas, publicados em 16 línguas. Ex-presidente da Associação Latino-Americana de Sociologia (Alas), diretor da Cátedra e Rede Unesco/UNU sobre Economia Global e Desenvolvimento Sustentável (Reggen – www.reggen.org.br), lecionou em diversas universidades, entre elas: UnB, UFF, Unam, Universidade do Chile, Ritsumeikan University (Kioto), Northern Illinois University e Universidade de Paris-8. 1 Refletindo os debates internos da Polop, Ruy Mauro já havia proposto um exame do bonapartismo como categoria para compreender o caráter do governo Goulart. Seu artigo de 1965 em Foro Internacional refletia esse enfoque: Contradicciones y conflictos en el Brasil contemporâneo. Foro Internacional, México, abr./jun. 1965.

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A América Latina e os desafios da globalização

Dentro da tradição analítica da Polop, da qual foi um dos principais fundadores, já colocava também a inevitável capitulação da classe do- minante brasileira, diante das tarefas democráticas e nacionalistas que poderiam viabilizar um desenvolvimento nacional autônomo do país. Sua contribuição se tornou mais original quando, após o golpe de Estado de 1964, definiu a importância deste para a formação do capital financeiro e sua eminente hegemonia sobre a economia brasileira. 2 Nessa época, forjou o conceito de subimperialismo. Através dele, mostrava que o nascente ca- pital financeiro brasileiro, surgido no bojo de uma forte dependência do capital internacional, teria de enfrentar a contradição entre sua tendência expansionista – na busca de novos mercados para seus investimentos e seus produtos – e sua condição subordinada e dependente do capital in- ternacional. 3 Em 1967, o conceito de subimperialismo, aliado à concepção da nova divisão internacional do trabalho em formação, já apontava para o sur- gimento dos Novos Países Industriais (os NICs), entre os quais vieram a destacar-se, posteriormente, os tigres asiáticos. Há pouco, James O’Connor me escrevia, em uma carta, com certo humor, que o conceito de semipe- riferia de Immanuel Wallerstein correspondia de fato àquilo “que nós cha- mávamos subimperialismo”. Essa é uma das marcas de Ruy Mauro Marini no pensamento social contemporâneo. 4 Mas sua contribuição alcançou um nível ainda mais alto com o livro Dialética da dependência. 5 Nele, o cientista social assume com rigor a tarefa de explicar as relações econômicas desiguais entre os produtores apoiados

2 Brazilian interdependence and imperialist integration, Monthly Review, Nova Iorque, dez. 1965; La interdependencia brasileña y la integracion imperialista, Monthly Review en Castellano, Buenos Aires, 1966.

3 O artigo de 1966 já anunciava esse conceito, que foi retomado e reelaborado no seu artigo de 1972 sobre o subimperialismo, também publicado na Monthly Review. Debati com Ruy Mauro a viabilidade do subimperialismo brasileiro, pondo ênfase nas suas contradições internas. Contudo, sempre concordei que a tendência ao subimperialismo seria uma constante na evolução do Brasil, apesar de seu caráter contraditório.

4 Essas teses encontraram forma mais elaborada nos livros: Subdesarrollo y revolución, siglo XXI (12. ed. [1. ed., 1969], México, 1985) e Il subimperialismo brasiliano (Turim: Einaldi, 1974).

5 Ver 1973, várias edições.

Ruy Mauro Marini: um pensador latino-americano

23

na alta tecnologia e as economias especializadas em atividades secundárias. Ele vai encontrar, na superexploração do trabalho, o fundamento das rela- ções desiguais na economia mundial. Posteriormente, ao dirigir um Centro de Pesquisas sobre o Movimento Operário, no México, aprofundou essas análises com especial ênfase na reestruturação da indústria automobilística mundial e, particularmente, latino-americana (“Análisis de los mecanis- mos de protección al salario en la esfera de la producción”, Secretaria do Trabalho, México). Nos últimos anos de vida, Ruy Mauro lançou fortes luzes sobre a re- estruturação da economia internacional e a inserção da América Latina (Democracia e integração na América Latina, São Paulo) na mesma (apro- fundando o enfoque iniciado na segunda metade dos anos 1960), e realizou

um levantamento amplo e profundo do pensamento social latino-americano dos anos de 1920 aos nossos dias. 6 Sua morte veio colhê-lo na fase final da preparação de uma “Antologia do pensamento social latino-americano do século XX”, que organizava para a Unesco com a minha colaboração. Nessas tarefas e nessas andanças, nas quais estivemos tantas vezes juntos a ponto de sermos identificados (ele, Vânia Bambirra e eu) como uma corrente da chamada “teoria da dependência”, Ruy Mauro Marini for- mou uma plêiade de discípulos magníficos que se podem ver nos quatro volumes que publicou sobre o pensamento social latino-americano pela Editora Caballito, do México. Sua obra terá necessariamente continuidade,

e se aprofundará sua influência depois de sua morte, como é atestado no

presente livro. É lamentável que sua volta do exílio tenha sido precedida pela crítica de Fernando Henrique Cardoso e José Serra em um artigo infeliz dedicado

à crítica de seu Dialética da dependência. Aqueles que identificaram, como RMM, Vânia Bambirra, André Gunder Frank e eu, já em 1964, a dinâmica do capitalismo mundial e brasileiro (mostrando sua entrada em uma nova

6 Ruy Mauro dirigiu um amplo seminário no Centro de Estudos Latino-Americanos da Unam (Cela) sobre o pensamento social latino-americano que deu origem a uma coleção de quatro livros de análise sobre o tema, publicada pela Editoria Caballito, no México, e três volumes de antologia de pensadores da região publicados pela Editora da Unam.

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A América Latina e os desafios da globalização

fase caracterizada pela hegemonia crescente do capital financeiro, que en- cerrava tendências expansionistas e levava a um papel crescente do Estado junto ao capital privado nacional e internacional), procurou-se desqualificar como “estancacionistas”. Ruy Mauro Marini foi o oposto disso, e, antes de Fernando Henrique Cardoso (ou qualquer um de nós), foi o primeiro a identificar o caráter dinâmico do capitalismo dependente. Só que esse di- namismo não era visto no sentido do equilíbrio macroeconômico, das li- berdades públicas e do bem-estar social, como nos querem impingir hoje em dia Fernando Henrique e outros. Sua resposta àquele artigo, só divulgada no Brasil muito recentemente, tem plena vigência. 7 Não podíamos esperar do triunfo circunstancial dos autores daquelas críticas mal-intencionadas um Brasil melhor, mais demo- crático e mais justo. Pelo contrário: o que vemos são as densas nuvens de um enorme desequilíbrio cambial e fiscal, de uma crescente ação do Estado a favor do grande capital financeiro nacional e sobretudo internacional, de uma crescente superexploração da mão-de-obra assalariada 8 e os evidentes sinais de um autoritarismo tecnocrático evidenciado na sucessão de “me- didas provisórias” que prescindem do Parlamento. Infelizmente, a recente derrota eleitoral dessa corrente no plano nacional não deu origem ainda a uma mudança radical dessa situação socioeconômica. A morte de Ruy Mauro Marini deu-se no bojo dessa nova fase da luta de nosso povo. Ele, que foi militante clandestino, prisioneiro torturado do Cenimar, exilado em tantas terras, militante latino-americano e internacio-

7 A sua resposta polêmica a Fernando Henrique Cardoso não foi publicada no Brasil, e sim em espanhol: Las razones del neo-desarrollismo, respuesta a F. H. Cardoso y J. Serra. Revista Mexicana de Sociología, México, número especial, 1978 (este mesmo número publica o artigo de Cardoso). Sobre a polêmica com Cardoso, veja-se meu artigo: Os fundamentos teóricos do governo Fernando Henrique Cardoso. Ciências & Letras, Porto Alegre, n. 17, p. 121-142, ago. 1996, também publicado na revista Política e Administração da Fesp/RJ, 1985. Uma tradução para o português do artigo de Ruy Mauro Marini só foi publicada na antologia de textos editada por Emir Sader pela Editora Vozes sob o título de Teoria da dependência.

8 A importância dessas análises no plano internacional pode-se ver na divulgação ampla dos artigos citados: Brazilian sub-imperalism. Monthly Review, Nova Iorque, jan. 1972; Subimperialismo del Brasil. Monthly Review, Buenos Aires, 1-2 maio 1973; Subdesarrollo y revolución en América Latina. Tricontinental, Havana, com edições também em francês e inglês, 1968; Monthly Review – Selecciones en Castellano, Santiago, set. 1969.

Ruy Mauro Marini: um pensador latino-americano

25

nal da luta revolucionária de nossos povos, por sua intransigência revolu- cionária, só podia ser uma incômoda presença no nosso país. Nele, a maior parte da intelectualidade colocou-se a serviço do establishment oligárquico e entreguista, tornando-se os arautos disfarçados da pior distribuição de renda do planeta, dos assassinos de índios, crianças de rua e sem-terras, além de se converterem nos campeões do analfabetismo e da evasão esco- lar, da maior taxa de acidentes do trabalho de todo o mundo etc. Se queriam intelectuais para ajudar a enfeitar esse quadro miserável com um palavreado pretensamente científico, não podiam definitivamente contar com Ruy Mauro Marini.

Bibliografia

Principais livros MARINI, Ruy Mauro. Análisis de los mecanismos de protección al salario en la esfera de la producción. México: Secretaria do Trabalho, 1983. Democracia e integração na América Latina. São Paulo, 1990. Dialéctica de la dependência. 10. ed. [1. ed., 1973]. México: ERA, 1990. [Dialectique de la dépendance. In: Critiques de l’économie politi- que. Paris: Maspero, 1973; Dialektik der Abhangigkeit. In: SENGHA- AS, Diezer (Ed.). Peripherer Kapitalismus. Analysen uber Abhangigkeit und Unterentwicklung. Francfort: Suhrkamp Verlag, 1974; Dialéctica da dependência. Coimbra: Centelha, 1976; Dialectica della dipenden- za. Milão: Franco Angeli, 1979.] El reformismo y la contrarrevolución. Estudios sobre Chile. Méxi- co: ERA, 1976. Il subimperialismo brasiliano. Turim: Einaldi, 1974. Sous-développement et révolution en Amérique Latine. Paris:

Maspero, 1972. Subdesarrollo y revolución, siglo XXI. 12. ed. [1. ed., 1969]. México, 1985. Subdesenvolvimento e revolução. Lisboa: Iniciativas Editoriais,

1975.

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A América Latina e os desafios da globalização

Principais artigos MARINI, Ruy Mauro. Brazilian interdependence and imperialist integration. Monthly Review, Nova Iorque, dez. 1965. [La interdependencia bra- sileña y la integracion imperialista. Monthly Review en Castellano, Buenos Aires, 1966.] Brazilian sub-imperialism. Monthly Review, Nova Iorque, jan. 1972. [Subimperialismo del Brasil. Monthly Review, Buenos Aires, 1-2, maio 1973.] Contradicciones y conflictos en el Brasil contemporaneo. Foro Internacional, México, abr./jun. 1965. La dialéctica del desarrollo capitalista en Brasil. Cuadernos Ame- ricanos, México, XXV-5, jun. 1966. Las razones del neo-desarrollismo, respuesta a F. H. Cardoso y J. Serra. Revista Mexicana de Sociología, México, número especial, 1978 [este mesmo número publica o artigo de Fernando Henrique Cardoso]. Subdesarrollo y revolución en América Latina. Tricontinental, Havana, com edições também em francês e inglês, 1968. [Monthly Review – Selecciones en Castellano, Santiago, set. 1969.]

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Ruy Mauro, intelectual revolucionário

Emir Sader*

Ruy Mauro Marini é o melhor exemplo de intelectual revolucionário na América Latina. Intelectual revolucionário porque pensou a realidade de forma rigorosa e do ponto de vista da sua transformação revolucionária. Intelectual revolucionário porque não apenas pensou a realidade do ponto de vista da sua transformação revolucionária, mas foi sempre um militan- te, um dirigente revolucionário, vinculado a organizações revolucionárias da América Latina. Trabalhou na construção da teoria revolucionária e da força revolucionária do nosso tempo. Tendo-se formado na Escola de Administração Pública, no Rio de Janeiro, Ruy Mauro se desenvolveu em um ambiente marcado pelo nacio- nalismo de Getúlio Vargas e pela linha nacional-desenvolvimentista do Partido Comunista Brasileiro. Esta galvanizava a grande maioria da inte- lectualidade brasileira, assim com o conjunto da esquerda, seja no movi- mento sindical ou no estudantil. Ruy Mauro foi influenciado por um sociólogo brasileiro que foi seu professor, Guerreiro Ramos, assim como por Eric Sachs, imigrante alemão, de formação luxemburguista, que terá influência determinante na organi- zação em que Ruy Mauro militou no Brasil – a Polop (Política Operária).

* Nascido em 1943, é secretário-executivo da Clacso, diretor do Laboratório de Políticas Públi- cas, professor da Uerj e professor aposentado da USP. Ex-presidente da Alas, é autor de centena de artigos e dezenas de livros em ciências sociais. Ganhador dos Prêmios Jabutis de livro do ano e de ciências humanas em 2007 pela coordenação e autoria de Latino-americana: enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe.

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A América Latina e os desafios da globalização

Em viagem a Paris, Ruy Mauro pôde desenvolver seu estudo do marxismo

e, no retorno, engajar-se definitivamente na militância política, que para ele

esteve sempre associada à elaboração teórica crítica e alternativa.

Teoria e prática revolucionárias Ao contrário da grande maioria dos intelectuais de esquerda do conti- nente, Ruy Mauro não pode ser incluído na categoria que Perry Anderson chamou de “marxista ocidental”, isto é, uma elaboração teórica desvinculada da prática política e dos seus problemas centrais. A obra de Ruy Mauro resgata de forma articulada, na melhor tradição marxista, a economia, a

história, a política e a ideologia, recompondo essa totalidade que caracteriza

o marxismo e faz dele – nas palavras de Sartre – “a filosofia insuperável do nosso tempo”. Tanto sua obra teórica está voltada para o deciframento da realidade, na perspectiva da ação militante, como sua militância política esteve sempre iluminada pela teoria revolucionária. Chegado ao Brasil de volta da Europa, Ruy Mauro buscou compreender

a natureza e o momento vivido pelo capitalismo brasileiro. O golpe de 1964

é o momento privilegiado para a compreensão desses fenômenos, porque

instrumenta o capitalismo brasileiro a fazer sua grande opção no processo de acumulação de capital. A realização através da exportação e da esfera alta do consumo passa a ter papel central no processo de acumulação, fe- nômeno captado brilhantemente por Ruy Mauro e expresso mais adiante em seu Dialética da dependência. Mas, antes disso, em dois artigos que circularam amplamente em pu- blicações clandestinas no Brasil – e no primeiro número da revista Teoria e Prática –, Ruy Mauro captou as razões que haviam levado ao golpe militar no Brasil. Com uma esquerda relativamente mais débil que as de outros países da região – como a da Argentina, do Chile e do Uruguai –, o Brasil acabou tendo um golpe relativamente precoce. A análise das contradições e conflitos do capitalismo brasileiro lhe permitiu perceber o confronto entre as necessidades do processo de acu- mulação e o processo de mobilização social e de reivindicação social e política, na base da profunda crise que terminou desembocando na sua

Ruy Mauro, intelectual revolucionário

29

resolução conservadora, mediante o golpe militar de 1964. Ao contrário do pensamento hegemônico naquele momento, Ruy Mauro pôde perce- ber como a democracia não era funcional ao desenvolvimento capitalista brasileiro. Ele percebeu como os espaços democráticos conquistados pelo movimento popular – extensão do sindicalismo urbano, rural, do funcio- nalismo público e até mesmo dos setores da baixa oficialidade das FFAA

– ameaçavam a reprodução de nosso capitalismo. Essa análise era de tal forma correta que a ditadura militar, ao con- trário do que alguns previram, não significou um retrocesso na expansão econômica, mas o seu redirecionamento, voltando-se mais para o mercado

externo e o consumo das altas esferas do consumo. Marini demonstrou que, ao capitalismo, interessa a expansão do mercado, não importa se con- centrando renda. Em um caso como o brasileiro, nesse momento, a concen- tração de renda foi um mecanismo de aceleração da expansão econômica

e preservação da taxa de lucro, fortalecendo a capacidade de consumo dos

setores com maior poder aquisitivo. Ruy Mauro tornou-se, assim, leitura essencial para a compreensão não apenas do significado do golpe militar de 1964 no Brasil, mas também do caráter da política econômica colocada em prática pela ditadura militar. Ainda no Brasil, como dirigente da Polop, Ruy Mauro foi detido e brutalmente torturado pelo Centro de Informações da Marinha (Cenimar), órgão de repressão da Marinha. Saiu posteriormente do Brasil para o Chile, trabalhando na Universidade de Concepción e ligando-se imediatamente ao movimento que tinha características similares às posições da Polop e que ele defendia: Movimento de Esquerda Revolucionária – MIR. No mesmo estilo que havia desenvolvido no Brasil, Ruy Mauro seguiu combinando admiravelmente seu trabalho teórico com as responsabilida- des de militância política. Ocupou cargos de direção no MIR chileno, ao mesmo tempo em que desenvolvia sua obra teórica, dava cursos, dirigia te- ses e tinha papel destacado de direção no Centro de Estudos Socioeconômi- cos (Ceso), da Universidade do Chile, onde se agruparam intelectuais como André Gunder Frank, os brasileiros Theotonio dos Santos, Vânia Bambirra, Marco Aurélio Garcia, Emir Sader, os chilenos Marta Harnecker, Guillermo

30

A América Latina e os desafios da globalização

Labarca, Cristóbal Kay, Silvia Hernandez, Roberto Pizarro, José Bengoa, os cubanos German Sanchez, José Bell Lara, entre outros. Sua obra desemboca no seu livro mais importante, Dialética da depen- dência. Lembro-me que Ruy Mauro havia pedido um tempo de férias para ir ao México, em pleno turbilhão de 1972, com as ofensivas golpistas da direita chilena e as contra-ofensivas do movimento popular. Começamos a ficar preocupados, na universidade e no MIR, quando havia passado uma, depois duas semanas, e ele não retornava e não mandava notícias, quando, de repente, Ruy Mauro reapareceu, trazendo consigo um manuscrito, que era simplesmente o texto da Dialética da dependência. Isto é, em meio ao furacão da luta de classes, Ruy Mauro encontrou o tempo e a forma de se concentrar para escrever uma das obras-primas do pensamento marxista contemporâneo, revelando como é sempre possível produzir teoricamente e se dedicar à militância política.

Dialética da luta de classes contemporânea O conceito-chave de superexploração do trabalho permite decifrar questões-chave da história contemporânea e da forma que assume a luta de classes. Pode-se dizer que, sem esse conceito, passar-se-ia ao largo das particularidades desse processo na periferia capitalista, mas – e daí a sua surpreendente atualidade – também da extração do valor nos países do centro do capitalismo, no período histórico marcado pela desregulação e pela deslocalização dos capitais, com a correspondente constituição de um mercado de trabalho no plano internacional marcado pela precariedade e pela mobilidade acentuada dos capitais. Até a Dialética da dependência, o pensamento de esquerda da América Latina vivia dilemas que não conseguia resolver, preso em difíceis contra- dições. Uma parte das análises partia dos fundamentos do marxismo, sem, no entanto, conseguir dar conta da situação específica das formações sociais da periferia do capitalismo, sem uma compreensão histórica da configu- ração assumida pelo sistema capitalista internacional e do lugar particular ocupado por essas formações, com suas conseqüências concretas. Por ou- tro lado, análises da formação histórica concreta dos nossos países privile-

Ruy Mauro, intelectual revolucionário

31

giavam a construção do Estado nacional, dos projetos de nação, as relações com o sistema internacional, com os centros do capitalismo, sem conseguir articular essa abordagem com os processos de acumulação de capital e de enfrentamento de classes.

A obra de Ruy Mauro retira precisamente daí sua originalidade. Ela

vem da sua capacidade de compreender a constituição das nossas forma-

ções sociais de forma indissoluvelmente intrincada com a constituição do sistema capitalista internacional, no interior da qual nascem, como um de seus elementos constitutivos e, ao mesmo tempo, condicionados por esse tipo de inserção subordinada.

O modelo de acumulação de capital das sociedades dependentes latino-

americanas é enfocado na sua dupla ótica, ambas intrinsecamente articu- ladas: fornece fatores de produção que permitem a reprodução de capital nas economias centrais do capitalismo e, ao mesmo tempo, condiciona as burguesias da periferia, inferiorizadas na competição pelo mercado inter- nacional, a induzirem em nossas formações o processo de superexploração do trabalho. Integra-se, assim, o processo de acumulação em escala mun- dial e o processo de acumulação em nível nacional, com as características típicas da extração do excedente que a caracteriza. Esse marco teórico permitiu, por um lado, a consciência de que os interesses da chamada “burguesia nacional” não tinham contradições sufi-

cientes com os do imperialismo e nem sequer do latifúndio, para que pudes- sem estabelecer uma aliança com os trabalhadores da cidade e do campo, centrada em um modelo de desenvolvimento econômico em ruptura com o grande capital internacional e com a propriedade monopolizada da terra.

O modelo de acumulação voltado para a exportação e para o consumo da

alta esfera do mercado exigia a restrição do mercado interno e pavimentava

os caminhos para a aliança com o latifúndio e o imperialismo, retirando da

burguesia nacional qualquer caráter revolucionário. Por outro, definiu um campo dos trabalhadores da cidade e do cam- po, como a força motriz das transformações anticapitalistas, com a classe operária como seu setor hegemônico.

32

A América Latina e os desafios da globalização

A visão de Ruy Mauro permite, ao mesmo tempo, entender o esgo-

tamento da capacidade do capitalismo latino-americano de retomar o de- senvolvimento de forma sustentada, com distribuição de renda e expansão minimamente orgânica das forças produtivas. As burguesias de cada país se desnacionalizam cada vez mais, atrelando seus interesses e destinos aos do mercado internacional, via modelos exportadores. Seus ciclos expansi- vos, além de curtos, aprofundam o caráter desigual do desenvolvimento e deformam cada vez mais sua estrutura econômica, com conseqüências de profundos desequilíbrios no plano social. O desenvolvimento econômico possível na América Latina se daria somente com o aprofundamento da dependência e da desigualdade social.

A atualidade de Ruy Mauro Marini

A atualidade da obra de Ruy Mauro Marini se deu no marco do período

hegemonizado pelo capital financeiro, na sua modalidade de capital especu- lativo. A desnacionalização das burguesias nativas se deu por intermédio da sua financeirização, esta estreitamente vinculada aos compromissos interna- cionais dos governos, endividados no marco das políticas de ajuste do FMI. Mas o principal tema de sua obra, que revela mais profundamente sua atualidade, é o da superexploração do trabalho. Em primeiro lugar, por- que a globalização liberal acentuou a implementação de modelos de acu- mulação centrados na exportação e no consumo da camada de alto poder aquisitivo – agregando-lhes a esfera de acumulação financeira, com suas típicas contradições –, como contrapartida dos mecanismos de exploração da força de trabalho que bloqueiam a possibilidade de desenvolvimento de um mercado interno de consumo de massas. Esse mecanismo é o que explica que a América Latina tenha se visto retroceder fortemente ao caráter primário exportador de suas economias. Modelos voltados para a exportação, em época de desregulação neoliberal, só podem abrigar-se de volta nos setores em que desfrutam das malfadadas “vantagens comparativas”. Daí as batalhas dos governos da região para des- bloquear os mercados de produtos primários – particularmente os agrícolas –, como se isso fosse representar um avanço significativo de suas economias.

Ruy Mauro, intelectual revolucionário

33

Isso tem representado a formalização da regressão a economias primário- exportadoras, em que a soja passou a ser a estrela da pauta exportadora de grande parte dos países da região, em clara regressão dos espaços conquis- tados anteriormente no setor industrial – regressão esta de que o Brasil é o melhor exemplo. Porém, os aspectos mais diretamente vinculados à extração do exce- dente presente nas teses da superexploração do trabalho se revelaram dra- maticamente os mais atuais da obra de Ruy Mauro. Por um lado, porque o Consenso de Washington trouxe no seu bojo as teses da “flexibilização labo- ral”, isto é, estender as propostas de desregulação para as relações de traba- lho. Estas significaram a precarização ainda maior das relações de trabalho, com a expropriação generalizada dos direitos dos trabalhadores, entre con- tratos provisórios, suspensão do pagamento de indenização por demissão e todas as formas de incentivo à informalização das relações de trabalho. Os direitos trabalhistas, conquistados a duras penas através de longas lutas do movimento sindical, foram sendo atingidos de forma privilegiada pelas políticas neoliberais, revelando da forma mais crua seu caráter clas- sista. Como um de seus resultados, na América Latina a maior parte dos trabalhadores não tem carteira de trabalho assinada – nunca tiveram ou deixaram de ter. Assim, não são cidadãos, no sentido de serem sujeitos de direitos econômicos e sociais. Não podem associar-se, não podem acorrer à justiça do trabalho, não possuem direitos elementares, como um nível mínimo de remuneração salarial, férias, décimo terceiro salário, licença- maternidade e todos os direitos previdenciários e assistenciais conquistados nas décadas anteriores. Desde que o capitalismo passou do seu ciclo longo expansivo do se- gundo pós-guerra a seu atual ciclo longo recessivo, a desregulação típica das políticas neoliberais incentivou amplamente a transferência de capitais da esfera produtiva para a especulativa. Esta passou a aparecer como a de- sembocadura dos capitais excedentes, características dos períodos recessivos do capital. O forte processo de reconcentração de renda, resultado da globalização neoliberal, acentuou esse processo de transferência, ao limitar ainda mais a capacidade de consumo da esfera baixa do mercado.

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A América Latina e os desafios da globalização

Ruy Mauro, intelectual revolucionário

35

Como uma de suas conseqüências mais claras, o capitalismo central

passou de décadas de pleno emprego a níveis altos de desemprego – ausentes nas principais economias da Europa Ocidental ao longo de todo o ciclo longo expansivo. A mudança nas relações de força entre capital e trabalho, decorrente do ciclo recessivo, dos níveis de desemprego, da desaparição do campo socialista e seus reflexos na esquerda, assim como a recessão

o

México – com as chamadas “maquilas” –, a China, a Indonésia, a Índia,

 

força de trabalho em condições ainda mais vantajosas para o grande capital internacional, favorecendo ainda mais as condições de superexploração do trabalho. A competição ganha pela China contra o México espelha bem essa situação. Apesar da proximidade com os EUA e da oferta de mão-de- obra barata – sobretudo de mulheres e crianças sem sindicalização –, o México viu esvaziarem-se em grande parte suas indústrias fronteiriças com

profunda nos países periféricos, promoveram a imigração maciça de

o

vizinho do norte, porque a China ofereceu condições ainda melhores de

mão-de-obra de países da periferia para países do centro do capitalismo. Essa mão-de-obra, além daquela explorada pela chamada “desloca- lização”, com a utilização extensiva de força de trabalho em países como

exploração da mão-de-obra, apesar da sua distância dos EUA. Tudo às cus- tas da expropriação intensiva e extensiva da força de trabalho. O setor social que mais cresce no mundo – segundo os dados da pesquisa da ONU sobre as grandes metrópoles – é justamente o subpro-

do trabalho – particularmente ausentes desses foros. Sem isso, será pratica-

o

Brasil, entre outros, permitida pela criação de uma espécie de merca-

letariado da periferia das grandes metrópoles. Um setor social submetido

do mundial de mão-de-obra, generalizou a superexploração do trabalho, como modalidade essencial do processo de acumulação de capital na era neoliberal. No próprio ciclo curto expansivo da economia estadunidense dos anos 1990, grande parte dele foi devido aos mecanismos de enorme au- mento de produtividade, sem elevação significativa do nível de emprego e de renda dos trabalhadores, devido à “flexibilização laboral”, que teve como uma de suas conseqüências a elevação dos EUA a país com a maior jornada de trabalho do planeta. Essa extensão se dá porque, conforme os trabalhadores mudam ainda mais constantemente de emprego nesse país, pelas facilidades que a des- regulação laboral permite, perdem em média 14% dos seus salários nes-

 

às piores condições de exploração, sem direitos, sem socialização através de sindicatos, de movimentos sociais, de educação pública, em meio à vio- lência e ao narcotráfico, adotando religiões evangélicas ou islâmicas como formas contemporâneas de alienação. Sem a organização, a consciência social e a incorporação dessas jovens gerações, dificilmente a esquerda poderá reconquistar força de massas e voltar a protagonizar os grandes combates políticos do novo século. Sem isso, o próprio Fórum Social Mundial seguirá privilegiando os direitos do cidadão e do consumidor, como substitutos aos grandes temas do mundo

mente impossível imprimir um caráter anticapitalista à luta antineoliberal

sa mudança. Buscam compensação agregando novos empregos, elevando sua jornada de forma desmesurada, aumentando a mais-valia absoluta. Os maiores empregadores de mão-de-obra nos EUA são a Wall Mart e suas rigorosas proibições de sindicalização, entre outras normas coibidoras da defesa do poder de negociação dos trabalhadores, e a Man Power, que in- termedeia o aluguel de mão-de-obra temporária – de que os entregadores de pizza no fim de semana são o caso paradigmático. Por outro lado, na periferia capitalista – nos países citados, entre outros –, a abertura para o ingresso de capitais estrangeiros e a sua busca, para recompor os deficits públicos, lançaram mão abertamente da oferta de

objetivo pelo que certamente Ruy Mauro estaria lutando com todas suas forças, de teórico e de militante revolucionário.

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A América Latina e os desafios da globalização

Meu querido Ruy

Ana Esther Ceceña*

37

I

Era uma estranha reunião, dessas que eram feitas nos anos 1960. Um pequeno grupo de brasileiros se havia encontrado para esperar, com toda a solenidade, a chegada de um misterioso personagem. Nervosos e ansiosos, eles se movimentavam, colocavam música e falavam de qual- quer coisa, contudo, mantendo um comportamento de circunstância. O personagem, que chegou logo depois, era um importante dirigente que vinha do Chile, onde vivia exilado, depois de ter sido resgatado dos cárceres da ditadura do general Castelo Branco no Brasil. O México era em parte um longo percurso na procura de apoio para a luta do Movimiento de Izquierda Revolucionario (MIR), do Chile, e a Junta Coordinadora Revolu- cionaria (JCR), 1 na qual se articulavam, além do Movimiento de Izquierda Revolucionario (MIR), o Ejército Popular Revolucionario (EPR), da Argen- tina, o Movimiento Tupamaro, do Uruguai, e o Ejército de Liberación Nacio- nal (ELN), da Bolívia.

* Economista mexicana. Professora e pesquisadora do Instituto de Investigaciones Económicas da Unam. Dirige a revista Chiapas e coordena o grupo sobre hegemonia e emancipações da Clacso. Possui vasta obra publicada em livros, e artigos em revistas científicas.

1 “(

para debater sobre uma organização revolucionária unificada, concebida originariamen-

te pelo líder do MIR, Miguel Enríquez. Os chefes do MIR, do ERP e dos Tupamaros começaram

as reuniões em outubro de 1972, no Chile, e os bolivianos se uniram nos encontros posteriores

um mês antes do golpe, as qua-

na Argentina, por volta de junho de 1973 (

tro organizações tinham aprovado uma aliança formal, conhecida como a Junta Coordinadora Revolucionaria [JCR]”. Dinges, 2004, p. 82.

)

).

Em agosto (

),

38

A América Latina e os desafios da globalização

Durante duas horas, ou um pouco mais, o homem descreveu a situação

geral da luta revolucionária no Cone Sul do continente, fazendo um balanço de suas perspectivas. Tudo indicava que era um momento decisivo, e a JCR estava envidando todos os esforços para consolidar a sua posição. Era um momento de enorme tensão, em que se buscava que as for- ças revolucionárias de toda a América Latina e Europa, onde havia já um grande número de exilados, coordenassem as suas ações para alcançar um avanço definitivo em prol da construção do socialismo.

A JCR era a primeira experiência internacional de organização e luta

contra o sistema de dominação. Sua própria existência constituía um enor- me desafio. E as suas possibilidades eram muito maiores do que tudo o que se havia tentado anteriormente.

O grupo ouviu atentamente a análise desse importante dirigente e se

comprometeu com ele. Um forte sentimento latino-americano invadia a sala. Estava-se na época da crise capitalista do início dos anos 1970, era a época também das ferozes ditaduras da América do Sul, quando a dignidade só podia ser mantida lutando contra a barbárie. Os exilados se abraçaram e decidiram manter a frente em voz alta. Esse homem era Ruy Mauro Marini.

II

Nos documentos não classificados da Operação Condor, de triste memória, pode-se ler o seguinte:

Da documentação capturada de “Daniel” se depreende que Ruy Mauro Marini [“Luís”], segundo homem do C.E. 2 do MIR e com amplas vincula- ções com a JCR, viajará por estes dias para a Argentina, com sua identidade verdadeira, para encontrar-se com Edgardo Enríquez. Ver a possibilidade de capturá-los

2 Comitê Exterior do Comitê Central.

Meu querido Ruy

39

Sobre Ruy Mauro Marini, seria muito importante que fossem mandadas fo- tografias, se vocês as tiverem. Rawson 3 já está avisado sobre a possível entra- da de Marini na Argentina. 4

Marini, como figura destacada do Comitê Exterior do MIR, era um dos alvos privilegiados dos agentes internacionais da Operação Condor. Membros da CIA (Central Intelligence Agency) dos Estados Unidos, como Vernon Walters (subdiretor da CIA nessa época) e os cubanos Osvald Bosch, Guillermo Novo, José Dionisio Suárez (Dinges, 2004, p. 181) e Luis Posada Carriles, que atuavam principalmente na América Central e na Venezuela, mantinham um contato estreito e permanente com os grupos de inteligência sul-americanos. A modernização dos métodos de contra- insurgência dos exércitos e dos organismos policiais dos países do Sul se beneficiou das experiências desses agentes anticastristas e dos ensinamen- tos da Escola das Américas, e de algumas outras estabelecidas em território norte-americano, onde se trabalhava com táticas anti-subversivas e méto- dos de interrogatórios de prisioneiros. Os militares brasileiros certamente, recolhendo sua experiência em ditaduras no seu país, instruíam os exérci- tos regionais sobre técnicas de tortura.

(

nho” através do qual os agentes da Dina (polícia secreta chilena) se familia- rizavam com as técnicas de tortura e de interrogatório. (Entrevista a Jahn, 5 citada por Dinges, 2004, p. 156)

este país era o “cami-

)

a CIA fornecia treinamento através do Brasil (

)

3 “Osvaldo se transformou no homem de frente argentino em uma operação conjunta no Chile e na Argentina, que tinha como objetivo encontrar e eliminar o que resta dos líderes da JCR na Argentina. A verdadeira identidade de Osvaldo era José Osvaldo Riveiro, tenente-coronel desig- nado ao Batalhão de Inteligencia 601, a principal unidade operativa do Serviço de Inteligencia do Exército (SIE). Para suas operações clandestinas se fazia passar por ‘Jorge Osvaldo Rawson’.” Dinges, 2004, p. 159.

4 http://abogarte.com.ar//turcojulian l.htm.

5 O coronel das Forças Armadas Mario Jahn estava a cargo do projeto de internacionalização da Operação Condor, do ponto de vista global. Dinges, 2004, p. 169.

40

A América Latina e os desafios da globalização

A colaboração era ampla entre governos, exércitos, polícias, guardas de fronteira e grupos de inteligência. A Operação Condor constituiu um pri- meiro esforço coletivo de construção de um banco de informação continen- tal 6 sobre militantes sociais e organizações políticas, que estava à disposição de todos eles com o propósito de aperfeiçoar os sistemas de perseguição e de comprometimento e eficiência no campo da contra-insurgência.

Tratava-se de informação de interesse vital para todas as forças de segurança e de inteligência que operam na América do Sul. Tradicionalmente cautelo- sos no momento de compartilhar as informações, agora os organismos de inteligência começaram a trabalhar conjuntamente de maneira nunca vista. (Dinges, 2004, p. 133)

Somente o golpe de Pinochet retirou Marini dessas terras sul-ame- ricanas e, depois de uma passada pelo Panamá e por alguns países da Europa, ele se instalou no México, onde continuou com suas atividades de apoio à JCR.

Pinochet começou a desenvolver uma estratégia internacional de longo pra- zo, quase imediatamente depois do 11 de setembro (data do golpe militar no Chile de 1973). De acordo com um informe da CIA datado de 3 de outubro, uma das suas primeiras medidas foi recorrer aos amigos que pensavam como ele: “As Forças Armadas aparentemente acreditam que a esquerda está se rea- grupando para levar a cabo atividades de sabotagem e guerrilha. Foi solicita- do a vários governos amigos material e treinamento em questões de contra- insurgência. Brasil e Estados Unidos foram os primeiros a ajudar o Chile a reconfigurar as Forças Armadas para as novas tarefas”. (Dinges, 2004, p. 75)

6 “O traço característico da Operação Condor mais explicitamente descrito nos documentos de fundação e reconhecido por Contreras em diversas entrevistas foi a criação de um banco de dados centralizado para o qual todos os países membros contribuiriam com informação de in-

teligência. Esse banco de dados ficaria localizado no Centro de Coordenação do quartel central da Dina no Chile, designado como ‘Cóndor1’; foi formado para centralizar em um único lugar

) organizações e

a melhor informação de cada país e de países fora do sistema, sobre ‘pessoas (

outras atividades, direta ou indiretamente ligadas com a subversão’.” Dinges, 2004, p. 173.

Meu querido Ruy

41

III

Ruy Mauro Marini se propôs compreender o capitalismo de todos os seus pontos de vista, com suas contradições e modalidades contrapostas e articuladas. Tratava-se de um sistema desigual e combinado, como dissera Trotsky, e, em sua compreensão, apelava para uma abordagem multidimen- sional e multissituacional. Era preciso encontrar as complementaridades, em muitos casos perversas, que configuravam a dinâmica de conjunto. Foi assim que, com a América Latina na carne e a partir de uma leitura cuida- dosa e crítica das obras de Marx, Marini mergulhou nos mares da mais- valia e das estratégias multidimensionais de obtenção do lucro e produziu uma obra que, sem dúvida, condensa as suas maiores contribuições. A Dialética da dependência propõe uma reinterpretação da história do capitalismo, colocando no centro a contribuição da América Latina e de outras regiões semelhantes, que no pensamento dominante eram depre- ciadas com termos como “atraso”, “estorvo” ou “subdesenvolvimento”. Para Marx, como é sabido, a construção de um modo de produção especifica- mente capitalista somente é possível no momento em que a concentração

de riquezas permite gerar novos modos de produzir através da invenção de máquinas e da substituição relativa do trabalho vivo, ainda que, em termos absolutos, sejam mantidas altas taxas de crescimento. E, segundo Marx,

“(

é somente com o surgimento da grande indústria que se estabelece em

bases sólidas a divisão internacional do trabalho” (Marini, 1991 [1973], p.

20), na qual a América Latina desempenhará um papel fundamental:

)

) (

rece como condição necessária de sua inserção na economia capitalista in-

ternacional, se acrescentará logo a de contribuir para a formação de um mercado de matérias-primas industriais, cuja importância cresce em função do próprio desenvolvimento industrial.

à sua capacidade para criar uma oferta mundial de alimentos, que apa-

Assim, não somente os custos de produção são diminuídos com a diferença de preços relativos, mas também a contribuição em grãos e ali- mentos permite desvalorizar a força de trabalho e, com isso, dar um salto de qualidade na produção e nos mecanismos de extração da mais-valia:

42

A América Latina e os desafios da globalização

a participação da América Latina no mercado mundial contribuirá para

que o eixo da acumulação na economia industrial se desloque da produção

de mais-valia absoluta para a produção da mais-valia relativa

volvimento da produção latino-americana, que permite à região contribuir

para essa mudança qualitativa nos países centrais, se dará fundamentalmente com base em uma maior exploração do trabalhador. Esse é o caráter contra- ditório da dependência latino-americana, [o] que determina as relações de

produção no conjunto do sistema capitalista (

o desen-

(

)

(

)

)

(Marini, 1979, p. 23)

O modo de produção especificamente capitalista e a irreversibilidade

do processo de subordinação dos outros modos de produção sobre os quais

o capitalismo constrói o seu domínio se explicam pela combinação de di-

ferentes dinâmicas e mecanismos de integração e subordinação. A geração

das condições de possibilidade da mais-valia relativa se sustenta, parado- xalmente, na implantação de um sistema de extração da mais-valia abso- luta em amplas regiões do mundo. Por isso, a América Latina não pode ser compreendida como um processo idêntico, ainda que atrasado, como propunham os teóricos do capitalismo (Rostow, entre outros), mas como uma parte diferente e complementar de um processo global integrado.

A América Latina ganhava vida através dessa reinterpretação, e a dis-

cussão sobre a linearidade do desenvolvimento era profundamente con-

testada. O capitalismo era reconstruído a partir de suas estratégias, e, ape- sar do corte estruturalista que a análise de Marini apresentou em muitos momentos, os sujeitos reapareciam com seus conflitos e suas contradições.

A especificidade do capitalismo latino-americano era parte constitutiva da

modernidade, mostrando, não obstante, as suas facetas mais selvagens.

chamada para contribuir para a acumulação de capital com base na ca-

pacidade produtiva do trabalho nos países centrais, a América Latina pre- cisou fazê-lo mediante uma acumulação fundada na superexploração do trabalhador. Nessa contradição está enraizada a essência da dependência latino-americana. (Marini, 1991 [1973], p. 49)

) (

Meu querido Ruy

43

IV

Colocar-se em perspectivas diferentes, a partir das chamadas margens de manobra, implica um deslocamento epistemológico, uma modificação

de planos que evita a cena cartesiana. Não se trata de olhar a situação a partir do lado oposto, mas de olhá-la de outro modo, com outra perspec- tiva e com outros olhos, como já insistiam na sua época Guillermo Bonfil

e René Zavaleta. Implica recuperar (ou construir) as próprias matrizes de

pensamento, com o objetivo de entender a si mesmo dentro da totalidade. Consiste em realizar a descolonização do pensamento para poder avançar na descolonização da vida social. É nesse esforço coletivo de construção de visões de mundo emanci- patórias que o pensamento de Marini deve ser colocado. Nos anos 1960 e 1970, Ruy Mauro Marini realizou um salto epistemológico quando insistia em realizar uma leitura do capitalismo a partir da América Latina, muito embora nesse nível de abstração não se tenha feito referência às associações resistentes que se mantinham ocultas ou invisíveis em um processo que as negava. O capitalismo, dizia Marini, não podia ser compreendido a partir somente dos centros desenvolvidos; ele tinha de encontrar suas explicações na reconstrução da totalidade, e devia ser entendido a partir de qualquer de

suas partes, ainda que as perspectivas fossem diversas. Entre outras coisas,

é a economia dependente que explica em grande medida o desenvolvimento

geral do sistema. Esse fator é insuficiente para explicar o capitalismo, tal

como a grande indústria, sem o trabalho em domicílio. As economias de- senvolvidas não existiriam se não mantivessem uma relação simbiótica com as chamadas economias subdesenvolvidas. No entanto, para descolonizar o pensamento e gerar visões eman- cipadas da realidade, é preciso mais que pensar a partir da margem de manobra ou a partir do subdesenvolvimento, é preciso antes pensar para além desse sistema de relações e imaginários sustentado na polaridade. A emancipação do operário não significa comparar o ser proletário e o ser capitalista, ou mesmo mostrar a sua superioridade; a emancipação do ope- rário implica se transformar e se colocar fora dessa dicotomia enganosa de dominado-dominador/dominador-dominado. O caminho consiste em

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A América Latina e os desafios da globalização

deslocar os planos, como fazem as pinturas surrealistas de Remedios Varo,

e demonstrar que as margens de manobra não existem, mas são produzidas pelas relações de poder.

V

O México tinha deixado de pertencer à América Latina quando o neo-

liberalismo, através de uma alteração de sentidos, conseguiu ocultar, ainda

que apenas temporariamente, as suas referências históricas. A ilusão das mercadorias ocupou o lugar das utopias, e os três mil quilômetros de fron- teira com o maior empório mundial se dissolviam nos imaginários. Os espetaculares anúncios publicitários se apresentavam em inglês, e

o homem unidimensional ocupava as ruas e os grandes centros comerciais. Essas eram as conseqüências do boom petrolífero que ampliou as expecta- tivas materiais da classe média. Enquanto isso, na América do Sul, abriam-se processos de desmilita- rização, que, depois das experiências de aniquilamento dos golpes milita- res, das ditaduras e do Plano Condor, eram assumidos como um horizonte desejável. A construção da democracia, com todas as suas limitações, subs- tituiu os projetos socialistas de outras épocas e a meta geral se deslocou para a recuperação dos direitos civis. Os exilados, que viviam lembrando tristemente dos seus lugares e de sua gente, começaram a se postar decidi- dos a não perder esse processo.

O México perdeu. Ao longo dos anos 1970, a presença de pensadores e

lutadores sociais do Cone Sul tinha estimulado os debates políticos e tinha enriquecido o ambiente de criação intelectual. A Universidade Nacional Autônoma do México tinha se latino-americanizado, e, nas suas aulas e sa- las de reunião, eram compartilhados idéias, visões, costumes, projetos. Nos momentos de compartilhamento, dançava-se samba, cantavam-se canti- gas e lembrava-se tristemente em ritmo de tango. A teoria da dependência abria campo entre os estudiosos, e os debates sobre a sua pertinência diante do marxismo que se instalava nos herdeiros de 68 eram habituais. Eram os tempos do Che e da esperança armada. Eram tempos de criar e lutar pela vida. Eram tempos de resistência e de reinterpretação. A teoria da depen-

Meu querido Ruy

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dência, nas suas vertentes mais rigorosas, dialogava com o marxismo, intro- duzindo explicações para essa América Latina convulsionada que buscava caminhos próprios, que insistia na independência e descolonização, que combatia o imperialismo e trabalhava para a transformação social.

O Marx latino-americano que emerge da Dialética da dependência se

toma das mãos de O capital monopolista e a economia mexicana de José Luis

Ceceña, e ambos caminham por trajetórias que confluem para a recupera- ção-reconstrução da América Latina como objeto de estudo, mas sobretudo

de transformação. A partir de perspectivas diferentes, elas coincidem na busca das causas da trajetória latino-americana. Ambas constroem impor- tantes genealogias que terão pontos de contato e desenvolvimentos dife- renciados, a demonstrar, por isso mesmo, a complexidade dos processos sociais nas terras de Zapata, Bolívar, San Martín, Tupac Amaru e Zumbi, entre outros muitos lutadores.

A extração da mais-valia absoluta para alimentar a grande indústria,

que possibilita a revolução interna do modo de produção e o surgimento do modo especificamente capitalista, não somente permite controlar tecni- camente as proporções entre valor e mais-valia, dando origem à mais-valia relativa, mas também sustenta o aumento da capacidade produtiva e, com isso, o seu derrame pelo mundo. As grandes empresas que hoje dominam o mundo tiveram origem nesse processo de concentração e objetivação, nesse processo de conformação das classes e dos grupos de poder. Nesses anos, grupos de poder, como o Morgan Guaranty, Chase Ro- ckefeller, First National City Bank e Du Pont Chemical Bank, os quatro superpoderosos dos Estados Unidos (Ceceña, 1963), junto com os primei- ros grandes grupos financeiros do mundo, apelando para políticas de Esta- do e para uma divisão internacional do trabalho impostas por eles próprios, eram os protagonistas privilegiados das relações de dependência e da ins- tauração concreta da Doutrina Monroe. Economia, política e militarização combinaram histórias e processos para conformar uma unidade diversa, mas controlada, na qual os mecanismos e as modalidades da mais-valia e do lucro reapareciam nas formas concretas de articulação e submissão de processos que estruturavam desestruturando.

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A América Latina e os desafios da globalização

O ambiente acadêmico criado no México a partir do final da déca-

da de 1970 era bastante propício para ampliar visões e perspectivas. Com olhares de muitos lugares do continente, armava-se o quebra-cabeças da dominação, para pensar nas condições e possibilidades do que então se chamava correntemente de mudança social. Sérgio Bagú, Theotonio dos Santos, René Zavaleta, Pedro Vaz, Vânia Bambirra, Pedro Vuskovic, Agus- tín Cueva e alguns outros, junto com Ruy Mauro Marini, José Luis Ceceña, Bolívar Echeverría, Pablo Gonzáles Casanova, Carlos Pereyra (o Tutti) e um conjunto de pesquisadores mexicanos formavam o que bem se pode chamar de a comunidade intelectual da época. O México era um aleph (pri- meira letra do alfabeto hebraico) do pensamento crítico latino-americano, que não somente permitiu um florescimento teórico comprometido com as lutas sociais, mas também contribuiu para formar uma boa parte dos intelectuais das décadas seguintes.

VI

A ditadura tinha destruído muitas coisas. Uma das mais importantes

era a memória. Paradoxalmente, com uma presença internacional indubitável, Marini retorna a um Brasil que não se lembra dele, que dificilmente o reconhece e onde as suas obras não eram quase conhecidas. Um Brasil que quer viver para frente para não carregar o peso de um passado que o compromete. Em pleno neoliberalismo, com a ilusão de um Brasil potência, apesar da penetração cada vez mais evidente de capitais norte-americanos, a so- ciedade brasileira aponta para o primeiro mundo. Ninguém se interessava pelos teóricos da dependência, que eram vistos como emissários de uma realidade que era preferível ignorar. Os anos 1980 foram os da atonia, mas também do reencontro. No entanto, os exilados não pareciam ser espera- dos por quase ninguém, e na volta não foi possível encontrar o que se tinha deixado ao partir. Nessas sociedades apressadas, o ambiente de reflexão não conseguia se recompor. Havia muita coisa que precisava ser reconstruída, e os mun- dos acadêmicos estavam totalmente transformados. Enquanto o México se

Meu querido Ruy

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deslatino-americanizava com a repatriação dos exilados e com o avanço do neoliberalismo, havia uma triste lembrança comum: os vazios se tornavam evidentes para aqueles que voltavam e para aqueles que ficavam. Dez anos depois, Marini estava de volta. Era necessário fortalecer o Centro de Estudos Latino-Americanos, um dos poucos espaços universi- tários que mantinham essa visão ampla e, na contracorrente, insistiam na importância de olhar para o Sul. Foi então que Marini se propôs reencontrar os fios do pensamento latino-americano através de uma revisão que remontava ao início do século XX. Desde Ramiro Guerra e Mariátegui até chegar ao pensamento contem-

porâneo, iam-se traçando as vias de explicação do mundo a partir de uma América Latina em luta. As visões estruturalistas, o enfoque gramsciano e as vertentes marxistas e cepalinas da América Latina se fizeram presentes, cada uma apresentando a sua versão dos diferentes momentos da história

e da complexidade de um processo no qual economia, sociedade e cultura são mantidas em permanente tensão. Discussões sobre a inserção da América Latina no capitalismo mun-

dial e as particularidades sub-regionais colocaram em relevo os diferentes modos em que o capitalismo se apoderou dos processos de reprodução social e foi imprimindo comportamentos. A qualidade e a importância dos exércitos industriais de reserva, a reprodução de uma força de trabalho in- dustrial subvencionada pela agricultura camponesa, a formação de pólos marginais, os estratos do processo industrial e, conseqüentemente, do pro- letariado, o disciplinamento social por desapossamento, a ilusão naciona- lista das burguesias locais e o diferente conceito de nação que emanava da luta popular de descolonização, o impacto dos monopólios estrangeiros na conformação do perfil estrutural e na implantação das relações de poder,

o caráter e a origem do capital e a sua capacidade de hegemonizar e impor normas de concorrência e políticas públicas, mecanismos e modalidades de dominação e alternativas de desenvolvimento ou de liberação – esses eram alguns dos temas que era preciso colocar em debate em um momento no qual o sistema mundial se reorganizava, transformando o conteúdo e o caráter da divisão internacional do trabalho.

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A América Latina e os desafios da globalização

Nesse espaço de reflexão, em um contexto muito mais diverso, ou pelo menos desinteressado, que tinha mergulhado na dinâmica do desencanto ou do fim da história, ele conseguiu convocar um boa parte da comunidade acadêmica e recolocar o tema da mudança social, com suas perspectivas e limites para o futuro da região, e conseguiu recuperar os “fios soltos”, como ele dizia, do pensamento crítico latino-americano.

VII

A Dialética da dependência tinha ficado para trás. Correspondia a um

momento superado. O mundo do trabalho se movia da fábrica para as ruas, se informatizava, aproveitando a derrota das experiências socialistas e as inovações tecnológicas. Os processos de trabalho foram planetarizados e o mercado de trabalho se diversificava, combinando forças de trabalho com culturas e histórias diferentes, enquanto as submetia a um duplo movimen- to de cerco, reforçando as fronteiras nacionais e a diáspora, promovendo a migração temporária e o nomadismo. Estudar as profundas mudanças no

mundo do trabalho e conseguir compreender a sua nova fisionomia e o seu caráter eram algumas das suas grandes preocupações. Escrever a etapa se- guinte da Dialética, reavaliar o capitalismo transformado do final do século e repensar o conteúdo e o significado do proletariado.

O câncer impediu a continuação desse trabalho, que, de alguma ma-

neira, ele foi introduzindo nos seus discípulos, nos seus companheiros, nos seus amigos de luta e reflexão. Meu último encontro com ele foi no Rio. Mesmo com poucas ener-

gias, não deixava de se interessar pelos debates, pelas novidades inte-

lectuais, pelas vias de investigação que se desenvolviam

Insistia muito em

estudar a nova natureza do trabalho e das relações de trabalho e a maneira como, a partir disso, podia-se pensar a revolução.

Morreu perto do seu filho, do seu mar e nesse Brasil por quem tanto lutou. Ele vive ainda em todos nós.

Meu querido Ruy

49

Bibliografia

CECEñA, José Luis. El capital monopolista y la economia mexicana. México:

Cuadernos Americanos, 1963. DINGES, John. Operación Cóndor. Chile: Quebecor, 2004.

HERRERA, Alicia. Pusimos la bomba

MARINI, Ruy Mauro. Dialéctica de la dependência. México: Era, 1991. MARINI, Ruy Mauro; MILLÁN, Márgara. La teoría social latinoamericana. México: El Caballito. 1994-1996. t. I-IV.

y qué?. La Habana: Política, 2005.

50

A América Latina e os desafios da globalização

Parte II

51

Globalização e dependência

52

A América Latina e os desafios da globalização

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Mudando a geopolítica do sistema-mundo:

1945-2025

Immanuel Wallerstein*

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a geopolítica do sistema- mundo atravessou três fases diferentes. O período que vai de 1945 até mais ou menos 1970 foi um período de inquestionável hegemonia dos Estados Unidos no sistema-mundo. Os anos de 1970 a 2001 foram um período no qual a hegemonia dos Estados Unidos começou a declinar, mas a extensão desse declínio ficou limitada pela estratégia que esse país desenvolveu es- pecificamente para postergar e minimizar os efeitos do declínio. Os anos de 2001 a 2025 são um período no qual os Estados Unidos buscam recuperar a sua posição com políticas mais unilaterais, o que, contudo, tem um efeito bumerangue e realmente vem aumentando a velocidade e a profundidade do seu declínio.

1. De 1945 a mais ou menos 1970 O fim da Segunda Guerra Mundial marcou a conclusão de uma luta de 80 anos entre os Estados Unidos e a Alemanha. A rivalidade era sobre a questão de quem seria o poder hegemônico que sucederia a Grã-Bretanha no sistema-mundo, uma hegemonia que tinha começado a declinar pelo

* Nascido em 1930, é fundador do Fernand Braudel Center na Universidade do Estado de Nova Iorque, em Binghamton, e um dos criadores das análises ou teoria do sistema mundial. Ex- presidente da International Sociological Association (ISA), dirigiu a Comissão Gulbenkian de reestruturação das ciências sociais. Possui obra vastíssima, publicada em diversas línguas, onde se destaca a paradigmática trilogia O moderno sistema mundial, iniciada em 1974, mas ainda inédita em português. O autor se aproxima hoje do milhão de citações no google.

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A América Latina e os desafios da globalização

menos desde 1873. A fase culminante dessa luta envolveu uma guerra de 30 anos, de 1914 a 1945. Essa guerra envolveu todas as maiores potências industriais do sistema-mundo, e, na sua última fase (a chamada Segunda Guerra Mundial), causou destruição física maciça às populações da Europa e da Ásia e a devastação da maior parte do seu equipamento industrial. Os Estados Unidos venceram a guerra contra a Alemanha, obtendo sua “rendição incondicional” – com a indispensável assistência dos seus principais aliados, a União Soviética e a Grã-Bretanha, que suportaram pe- sadas perdas. Em 1945, os Estados Unidos emergiram da guerra como a única e maior potência industrial que tinha suas instalações intactas, algo que, de fato, tinha sido grandemente fortalecido pela expansão na época da guerra. Isso significou que, durante os 15 ou 20 anos seguintes, os Estados Unidos estavam em condições de produzir todos os principais produtos industriais com muito maior eficiência do que as outras nações industriais e, com isso, podiam vender mais do que os produtores localizados nesses outros países em seus próprios mercados internos. No período imediatamente após a guerra, a destruição física na Eu- ropa e na Ásia foi tão maciça que muitos países dessas regiões sofreram inclusive com escassez de comida, moedas instáveis e graves problemas de balança de pagamentos. Eles precisavam de uma urgente assistência eco- nômica de muitos tipos, e olharam para os Estados Unidos para resolver a questão. Os Estados Unidos estavam em condições de transformar facilmen- te a sua absoluta dominação econômica em uma primazia política. Eles também, pela primeira vez na sua história, se tornaram o locus central da geocultura. Nova Iorque substituiu Paris como a capital do mundo da arte em todas as suas formas, e o sistema universitário norte-americano rapida- mente veio a dominar o conhecimento, em virtualmente, todos os campos. A única arena na qual os Estados Unidos estavam apreensivos, com toda a razão, era a arena militar. A política interna norte-americana tinha ordenado a rápida redução do seu exército, cujo contingente tinha sido sustentado por um sistema de destacamento universal. Do ponto de vista militar, esse país fiava-se principalmente em dois fatos: a posse de armas

Mudando a geopolítica do sistema-mundo: 1945-2025

55

nucleares e um comando aéreo capaz de soltar essas bombas em qualquer lugar do globo. Havia outro grande poder militar no mundo – a União Soviética. Embora tivesse sofrido uma enorme sangria durante a guerra, o exército soviético era ainda muito grande e não havia sido absolutamente

desmantelado. Além disso, em quatro anos, a União Soviética estava em condições de produzir as suas próprias armas nucleares e, com isso, que- brar o monopólio dos Estados Unidos.

A única solução racional para essa situação militar era algum tipo de

negociação política entre o que seria mais tarde chamado as duas superpo- tências. Essa negociação foi realizada. Chamamo-la pelo simbólico nome

de Yalta, mas ela foi, naturalmente, muito mais do que acordos formalmente feitos na Conferência de Yalta. A negociação consistia, na minha visão, de três partes.

A primeira parte do acordo envolvia uma divisão do mundo em es-

feras de influência. A Segunda Guerra Mundial tinha terminado em uma certa fronteira na Europa, grosseiramente o rio Elba na Alemanha, e em uma hipotética projeção para o sul no Mediterrâneo. Da mesma maneira, na Ásia Oriental, essa linha existia ao longo do rio Yalu, dividindo a Coréia em duas metades. De fato, o acordo era que cada uma das superpotências

manteria o controle (militar e político) do seu lado dessa fronteira, com- prometendo-se tacitamente a não usar a força militar para tentar mudar o status quo. De fato, isso garantia o controle soviético sobre as áreas que ti- nham sido ocupadas pelo Exército Vermelho, cerca de um terço do mundo, e garantia aos Estados Unidos o controle sobre o resto.

Já que o acordo jamais fora explícito, houve algumas vezes em que ele

foi colocado em questão nos anos seguintes: no norte do Irã, na guerra civil grega, no bloqueio de Berlim, na guerra da Coréia, no problema Quemoy- Matsu, nos vários levantes na Europa Oriental (1953, 1956, 1968 e 1980- 1981), e, sobretudo, em toda a crise dos mísseis cubanos. O que deve ser observado em cada uma dessas “minicrises” é que ambos os lados sempre desistiam de usar armas nucleares (o chamado equilíbrio do terror), e cada um desses conflitos bélicos acabava com um retorno ao status quo ante. O fato é que a aceitação mútua das fronteiras geopolíticas do outro perma-

56

A América Latina e os desafios da globalização

neceu durante todo o período da chamada Guerra Fria, apesar de todos os

tipos de pressões internas em cada campo no sentido de não respeitar os termos do acordo tácito.

A segunda parte do acordo se deu na arena econômica. Os Estados

Unidos estavam determinados a reconstruir a infra-estrutura dos seus alia- dos. A razão para isso era, em parte, política (para assegurar a lealdade deles como satélites políticos) e, em parte, econômica (não teria muita utilidade ser o produtor mais eficiente no mundo se não houvesse suficientes com- pradores para os seus produtos). O que não se queria, de fato, era derramar dinheiro na reconstrução da infra-estrutura econômica da União Soviética e do seu bloco. Os dois lados tiraram vantagem do bloqueio de Berlim para estabelecer uma espécie de dique radical entre as duas zonas econômicas. Os Estados Unidos usaram o bloqueio de Berlim como a desculpa política para obter do Congresso norte-americano a aprovação do Plano Marshall. Eles usaram depois a Guerra da Coréia para justificar tipos similares de assistência econômica para o Japão, Taiwan e Coréia do Sul. A União So- viética, por sua vez, construiu o Comecon (Conselho para a Assistência Econômica Mútua), com os seus satélites da Europa Central e Oriental, e estabeleceu ligações econômicas extensas com a China e a Coréia do Norte.

O pano de fundo desse acordo era que um terço do mundo soviético se

afastava de uma interação econômica significativa com o resto da economia- mundo capitalista, em uma espécie de protecionismo coletivo. Eles o usa- ram para se engajarem em uma considerável industrialização e para alcançar notáveis taxas de crescimento durante esse período. Os Estados Unidos o usaram para construir estruturas econômicas internacionais (que, nesse mo- mento, não incluíam os países do bloco soviético), criando uma ordem eco-

nômica interestatal na qual o dólar seria a moeda de troca mundial e na qual as empresas industriais e financeiras norte-americanas poderiam florescer.

A terceira parte do acordo era ideológica. Era permitido e mesmo in-

centivado a cada lado se empenhar em estrepitosas denúncias recíprocas. A retórica norte-americana dividia a arena entre o mundo livre e os Estados totalitários. A retórica soviética dividia a arena entre o campo burguês e o bloco socialista. Os nomes eram diferentes, mas a liça era essencialmente a

Mudando a geopolítica do sistema-mundo: 1945-2025

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mesma. Nenhum lado aceitava como legítima a “neutralidade” nessa guerra ideológica. Mas, coerentemente, impedia-se que a ideologia fosse efetiva- mente o fator decisivo nas contínuas decisões políticas e econômicas. A real função da retórica era permitir que os líderes de cada campo controlassem os dissidentes potenciais no seu próprio campo e impedir o surgimento de qualquer grupo que pudesse colocar realmente em questão os acordos geopolíticos. O resultado disso era uma opinião pública mundial dividida em dois campos, cada um deles possuindo um substancial grupo de crentes e adeptos. Com o acordo de Yalta na mão, os Estados Unidos não enfrentaram nenhum sério obstáculo para fazer aquilo que os poderes hegemônicos fa- zem: estabelecer uma ordem mundial que acomodasse os seus interesses, com base em uma espécie de projeto societário mundial de longo prazo. Na arena geopolítica imediata, os Estados Unidos podiam contar com obter quase tudo durante quase todo o tempo. Já que esse período foi um período de incrível expansão econômica da economia-mundo, os padrões de vida estavam crescendo em todos os lugares, as facilidades de educação e saú- de estavam se expandindo e as artes e as ciências estavam no seu apogeu. Apesar de muitas histerias passageiras, a confiança no futuro parecia reinar sobejamente. As maravilhosas harmonias desse período – o que os franceses chama- riam depois de trente glorieuses (trinta anos gloriosos) – eram muito boas para durar. E não duraram. Havia duas moscas na sopa. A primeira era a recuperação econômica da Europa Ocidental e do Japão (mais os chama- dos quatro dragões). Essas áreas se recuperaram tão bem, como resultado de políticas colocadas em operação pelos Estados Unidos, que, na metade dos anos 1960, começaram a se aproximar de uma paridade econômica com os norte-americanos. Deixava de ser verdade que os produtores norte- americanos podiam vender mais do que os produtores alemães, franceses ou japoneses nos seus próprios mercados domésticos. Pelo contrário, os Estados Unidos começaram a importar produtos industrializados desses países. E todos eles vieram a se tornar relativamente competitivos em outros mercados. Uma vez que o fosso econômico entre os Estados Unidos

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A América Latina e os desafios da globalização

e os seus maiores aliados foi drasticamente reduzido, o alinhamento po-

lítico e financeiro automático desses países com os Estados Unidos podia ser revisado, e foi. A segunda mosca na sopa foi o chamado Terceiro Mundo, ou todos

aqueles países cujos interesses e inclusive visões estavam totalmente fora da jurisdição das duas superpotências. Eles buscaram agir autonomamente e com estardalhaço, onde e quando pudessem. Os comunistas chineses igno- raram a advertência de Stalin para fazer um acordo com o Kuomintang e, ao contrário disso, marcharam sobre Xangai e proclamaram a República Popular da China. O Viet Minh não se sentiu obrigado por acordos fei- tos em Genebra entre os Estados Unidos, a França e a União Soviética; ele continuou a tentar libertar totalmente o seu país. Os argelinos recusaram

a idéia de que o Partido Comunista francês deveria ditar sua estratégia e

seu futuro, e lançaram uma guerra de libertação nacional. E os cubanos de Sierra Maestra, conduzidos por Castro, ignoraram totalmente a presença do Partido Comunista cubano no governo de Batista. Eles continuaram a descer das colinas, tomaram, primeiramente, posse de Havana e, em segui- da, do Partido Comunista cubano. Em suma, a capacidade da União Soviética de impedir as forças po- pulares no Terceiro Mundo de tentar frustrar os planos de Yalta se mos- trou insuficiente, e os líderes das superpotências se apressaram em ficar

a reboque desses movimentos, embora relutantemente e tardiamente. O

resultado foi que esses movimentos nunca obtiveram muita aprovação de nenhuma superpotência. As duas superpotências abandonaram as suas po- líticas “não neutras” e começaram a buscar os líderes nacionalistas desses países que pudessem se alinhar com elas. No caso dos Estados Unidos, isso

significava que eles começavam a irritar os “velhos poderes coloniais”, que consideravam essa nova política norte-americana como sendo imprudente

e intervencionista. Essa mudança na política tácita da superpotência mar- cou o triunfo de Bandung – o encontro em 1955 de 29 países da Ásia e da África que proclamaram o ingresso do mundo não ocidental no processo de tomada de decisão do sistema-mundo e forçaram tanto os Estados Uni- dos quanto a União Soviética a começar a cortejá-los.

Mudando a geopolítica do sistema-mundo: 1945-2025

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A combinação da emergência econômica da Europa Ocidental e do

Japão, o esgotamento econômico dos Estados Unidos para lutar na Guerra do Vietnã (e sua derrota final) e a disseminação da ideologia “libertária” não somente no Terceiro Mundo, mas dentro dos Estados Unidos e da pró- pria Europa Ocidental, fizeram soar o toque de finados da estrutura geopo- lítica do pós-1945. Simbolicamente, o seu fim estava situado na revolução mundial de 1968.

2. De mais ou menos 1970 a 2000

O novo período foi modelado por duas novas realidades: as transfor-

mações político-culturais trazidas pela revolução mundial de 1968 e as trans-

formações econômicas realizadas pelo fim da expansão da economia-mundo (a chamada fase A de Kondratieff) e o começo do que ficou comprovado como sendo a longa estagnação de 30 anos na economia-mundo (a chamada

fase B de Kondratieff). Cada uma delas precisa ser decifrada, se quisermos entender como a arena geopolítica foi fundamentalmente reestruturada.

A revolução mundial de 1968 (que, realmente, durou mais ou menos

de 1966 a 1970) foi uma violenta rebelião dos estudantes universitários e, em muitos casos, também dos trabalhadores contra todos os tipos de auto- ridade. Grandes revoltas mundiais eclodiram de repente, fulguraram e de- pois malograram, como uma Fênix. Enquanto prosseguiam, elas pareciam um furacão de categoria cinco para todo e qualquer um que fosse apanha- do em qualquer lugar próximo dos muitos locais do distúrbio. Podemos chamar isso de uma revolução mundial porque ocorreu virtualmente em todos os lugares do mundo e porque especificamente atravessou a divisão tripartite do sistema-mundo da época – o Ocidente, o Bloco Comunista e o Terceiro Mundo. Uma verdadeira história abrangente dos eventos está ainda por ser escrita, e muitos observadores estão somente conscientes dos acontecimentos mais espetaculares, aqueles cobertos pela mídia, mas não têm conhecimento da enorme quantidade de pequenas revoltas, especial- mente aquelas ocorridas em regimes muito autoritários. Os problemas em cada lugar foram sempre definidos localmente, como agora gostamos de dizer. Houve, naturalmente, problemas locais

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A América Latina e os desafios da globalização

em cada evento, e também uma retórica local, mas houve, realmente, dois

problemas globais que foram proclamados em quase todos os eventos. O primeiro deles foi a rejeição dos acordos de Yalta. Isso, habitualmente, veio na forma da denúncia do imperialismo norte-americano (essa era a época da Guerra do Vietnã) e, simultaneamente, da denúncia do “conluio” entre a União Soviética e, o imperialismo, dos Estados Unidos. De fato, a descrição do mundo como estando dividido entre as duas superpotências e os outros

– uma invenção conceitual maoísta chinesa – é fruto específico de 1968. O segundo problema global que foi levantado em quase todo lugar foi

a denúncia da “Velha Esquerda” pelos revolucionários de 1968, isto é, os

três tipos clássicos de movimentos anti-sistêmicos – os partidos comunis- tas (no poder do chamado bloco socialista), os partidos socialdemocratas (em alternância de poder na maioria dos países ocidentais) e os movimen- tos de libertação nacional e populistas (no poder da maioria dos países do Terceiro Mundo). A acusação básica contra a Velha Esquerda era que ela tinha oferecido a seus seguidores um programa de dois passos – primeiro chegar ao poder estatal, depois transformar o mundo –, e que, tendo chega- do ao poder, esses movimentos da Velha Esquerda não cumpriram as suas promessas. Pois, era verdade que a Velha Esquerda tinha, de fato, chegado ao poder estatal em uma grande parte do mundo no período de 1945 a 1968, mas era também bastante claro que esses movimentos não tinham absolutamente transformado o mundo. O mundo permaneceu hierárquico, não democrático e desigual (internacional e nacionalmente). E, na visão dos revolucionários de 1968, os partidos da Velha Esquerda no poder ti- nham se tornado o maior obstáculo para alcançar a verdadeira mudança que tinham prometido quando estavam na sua fase de mobilização. Essas duas visões – o conluio da União Soviética com o imperialismo dos Estados Unidos e o fracasso político da Velha Esquerda – traziam como conseqüência o fato de que o esforço político dos movimentos da Velha Es- querda fora fatalmente liquidado. Mas havia algo mais. Dissipou-se o fácil otimismo de longo prazo que tinha encorajado os sentimentos populares por mais de um século. Os levantes de 1968 obrigaram as forças popula- res a repensar suas estratégias; além disso, havia várias “novas esquerdas”

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que buscavam responder ao sentido dessa desilusão que estava agora tão disseminada – uma desilusão particularmente referente à idéia de que o principal objetivo dos movimentos populares deveria ser ganhar o poder estatal, Estado por Estado. A desilusão política foi rapidamente fortalecida pela desilusão eco- nômica. O período que vai de 1945 a 1970 foi movido pelo conceito de

“desenvolvimento” – a idéia de que, de algum modo, adotando uma política estatal correta, qualquer país poderia atingir o alto padrão de vida dos paí- ses mais ricos. Os Estados Unidos, a União Soviética e os países do Terceiro Mundo tinham, sem dúvida, diferentes vocabulários sobre o desenvolvi- mento, mas as idéias básicas que todos eles alimentavam eram visivelmente semelhantes. A proposta subjacente era de que a combinação de urbaniza- ção, agricultura mais eficiente, industrialização, educação e protecionismo de curto prazo (substituição de importações) constituíam o caminho para

a terra prometida do desenvolvimento. Nos anos 1960, as Nações Unidas, sem a objeção de ninguém, anuncia- ram que a década de 1970 seria a década do desenvolvimento. Essa foi uma das previsões menos cautelosas já feitas. Os anos 1970 se tornaram a década da morte do desenvolvimento como idéia e como política. O que aconteceu

é que a expansão da economia-mundo tinha alcançado os limites de muitos

produtores nas indústrias de ponta (resultado da reconstrução da Europa Ocidental e da Ásia Oriental) e, por conseguinte, um agudo declínio dos níveis de lucros nos setores mais lucrativos da produção mundial. Esse é

um problema recorrente na operação da economia-mundo capitalista, e le- vou a resultados padrões: remanejamento de muitas dessas indústrias para

países semiperiféricos, onde os níveis salariais eram mais baixos (com esses países considerando esse remanejamento como sendo “desenvolvimento”); crescimento do desemprego no mundo (mais notadamente nos países mais ricos), levando ao declínio dos salários reais e dos níveis de tributação nes- ses países; concorrência na “tríade” dos Estados Unidos, Europa Ocidental

e Japão com a Ásia Oriental para exportar reciprocamente o desemprego;

transferência do capital de investimento das empresas produtivas para a especulação financeira; e a aguda crise da dívida pública.

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A América Latina e os desafios da globalização

Os anos 1970 viram as duas escaladas do preço do petróleo, que fi- zeram sangrar os países do Terceiro Mundo. Tanto o Terceiro Mundo quanto os países do Bloco Socialista vieram a ter problemas de balanço de pagamentos negativo, como resultado do mercado enfraquecido para suas exportações nos países ricos combinado com os custos crescentes das importações em razão dos aumentos nos preços do petróleo. Os lucros ob- tidos pelos países produtores de petróleo foram colocados maciçamente nos bancos dos Estados Unidos e da Alemanha, de onde esse dinheiro foi “emprestado” para os agora desesperados países do Terceiro Mundo e do Bloco Socialista. Isso aliviou a situação deles durante alguns anos, mas as dívidas precisavam ser pagas. Não demorou muito, até que nos anos 1980 se viu a chamada crise da dívida, quando esses países descobriram o custo de suportar dívidas excessivas para os seus fracos tesouros. Esse “fracasso” da ideologia desenvolvimentista montou o cenário para o ataque neolibe- ral, desferido pelos regimes de Thatcher e Reagan, pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Fórum Econômico Mundial de Davos. Uma nova definição do caminho para a terra prometida – o chamado Consenso de Washington – inverteu a maioria dos dogmas do desenvol- vimentismo. A industrialização por substituição de importações era agora definida como um processo de favorecimentos corrupto; a construção esta- tal, como alimentando uma burocracia inchada; a ajuda financeira dos paí- ses ricos, como dinheiro derramado na sarjeta; e as estruturas paraestatais, como barreiras mortais para uma atividade empresarial lucrativa. Os Esta- dos foram impelidos a adiar gastos com a educação e com a saúde. E foi re- alçado que as empresas públicas, consideradas, por definição, ineficientes, deveriam ser privatizadas o quanto antes. O “mercado”, mais do que o bem- estar da população, agora se tornava a medida de toda atividade adequada do Estado. O Fundo Monetário Internacional fortaleceu essa visão, tornan- do os seus empréstimos dependentes do “ajuste estrutural”, o que significa essencialmente seguir as prescrições do Consenso de Washington. A geopolítica do sistema-mundo mudou radicalmente. Os países do Terceiro Mundo perderam a autoconfiança que tinham alcançado na épo- ca anterior e os melhoramentos do seu padrão de vida desapareceram na

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medida em que as conseqüências econômicas da estagnação econômica mundial os atingiu negativamente. Muitos dos seus regimes políticos co- meçaram a cair, com guerras civis e outros tipos de tumultos internos, ao lado dos seus dilemas econômicos. Um por um, eles cederam às demandas do Consenso de Washington. Nem mesmo o Bloco Comunista ficou isento dessa deterioração. As suas um dia impressionantes taxas de crescimento declinaram vertiginosamente, a sua autoritária coesão interna se desinte- grou e a capacidade de a União Soviética agora controlar os ruidosos “sa- télites” pouco a pouco desapareceu. Finalmente, como sabemos, a própria União Soviética entrou no caminho da “reforma” política e econômica (Perestroika mais glasnost) com Gorbatchev. O remédio foi de muitas ma- neiras um brilhante sucesso; mas, infelizmente, o paciente morreu. Então, pareceu a muitos que o sistema-mundo tinha entrado nesse período em uma era dourada para os Estados Unidos. Não, de maneira alguma, ocorreu exatamente o contrário. Em primeiro lugar, os Estados Unidos tiveram de admitir que tinham perdido a maior guerra para um país pequeno. Nixon se retirou do Vietnã ignominiosamente, e foi diagnos- ticado que os norte-americanos tinham sido acometidos por uma síndrome vietnamita – isto é, uma grave rejeição da população norte-americana em comprometer suas tropas com uma ruinosa guerra em regiões distantes do mundo. Ao Vietnã se juntou o escândalo de Watergate, o que obrigou Nixon a renunciar ao seu mandato de presidente. A derrota militar e a crise política interna norte-americanas foram, de fato, apenas parte do cenário de um problema geopolítico mais grave dos Estados Unidos – a perda da sua automática superioridade econômica para os seus maiores aliados, a Europa Ocidental e o Japão. Pois, já que os três tinham se tornado mais ou menos iguais economicamente, os Estados Unidos não podiam mais contar com o comportamento da Europa Oci- dental e do Japão como satélites. A política externa norte-americana tinha de mudar, e mudou. Começando com Nixon e continuando nos 30 anos seguintes (de Nixon a Clinton, passando por Reagan), todos os presidentes dos Estados Unidos se concentraram em um objetivo não revelado: dimi- nuir a velocidade do declínio da hegemonia norte-americana.

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A América Latina e os desafios da globalização

O programa que eles desenvolveram tinha três faces. O primeiro ele-

mento destinava-se a manter o poder político dos Estados Unidos. Era a oferta de uma “parceria” para a Europa Ocidental e o Japão. Os Estados Unidos, de fato, disseram para os seus maiores aliados que dariam voz a eles na reconstrução de uma política geopolítica mundial conjunta, em tro- ca do que a Europa Ocidental e o Japão se absteriam de buscar políticas

unilaterais no cenário mundial. A parceria foi implementada com a criação de uma série de instituições (a Comissão Trilateral, as reuniões do G-7, o Fórum Econômico Mundial em Davos, entre outras coisas). O maior ar- gumento que os Estados Unidos usaram era a necessidade de manter uma frente unida contra a União Soviética (que tinha começado a abrandar a implementação dos acordos de Yalta, por exemplo, envolvendo-se na sustentação do regime comunista no Afeganistão).

A parceria foi apenas em parte bem-sucedida em obrigar os maiores

aliados. A Alemanha decidiu perseguir a chamada Ostpolitik (política oriental), contra os desejos do governo norte-americano. A Europa Oci- dental (incluindo o governo da Sra. Thatcher) concordou em construir o gasoduto da União Soviética ao Ocidente, contra os desejos do governo norte-americano. E, nos anos 1990, a Coréia do Sul decidiu lançar uma “po-

lítica de amizade” para com a Coréia do Norte, também contra os desejos do governo norte-americano. Mas, ainda que parcialmente bem-sucedida, ela foi, pelo menos parcialmente, bem-sucedida. Os aliados dos Estados Unidos não se desviaram muito.

O segundo elemento destinava-se a assegurar a vantagem militar dos

Estados Unidos. Agora que o Vietnã tinha indicado os limites das forças terrestres norte-americanas, era mais importante do que nunca manter a sua vantagem nuclear. Os Estados Unidos tinham já perdido o monopólio absoluto nas armas nucleares, por volta de 1964; a Grã-Bretanha, a União Soviética, a França e a China, todas tinham adquirido essas armas. Mas os Estados Unidos decidiram que era crucial que a expansão terminasse aí. O

segundo elemento, por conseguinte, era fazer cessar a proliferação nuclear.

O Tratado sobre Não-proliferação de Armas Nucleares entrou com

força em 5 de março de 1970. O tratado oferecia uma negociação. As cinco

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potências nucleares trabalhariam para estabelecer negociações no sentido do desarmamento nuclear e para permitir, inclusive ajudar, outros países a desenvolver usos pacíficos da energia nuclear em troca de uma renúncia do resto do mundo em produzir armamento nuclear. Três países se recusaram

a assinar o tratado – Índia, Paquistão e Israel –, e todos eles, desde então, adquiriram armamento nuclear. Mas todos os demais países finalmente as- sinaram. E muitos países de quem se pensava terem começado programas no sentido de desenvolver armamento nuclear, de fato, encerraram esses programas. A lista não é uma lista formal, mas provavelmente inclui pelo menos a Suécia, a Alemanha, a Coréia do Sul, o Japão, a África do Sul, o Brasil e a Argentina. E, desde o colapso da União Soviética, três repúblicas agora independentes – Ucrânia, Bielo-Rússia e Kasaquistão – renunciaram às armas que tinham sido instaladas no seu território. Há, naturalmente, um pequeno grupo de países cujas práticas reais têm há muito estado em disputa: o Iraque (cuja capacitação nuclear de Osirak foi bombardeada por Israel em 1981), a Líbia (que desmantelou suas capacidades em 2004), a Coréia do Norte e o Irã em particular.

A razão por que esse tratado é tão crucial para os Estados Unidos

se deve a que parece claro que qualquer país, mesmo com algumas armas

nucleares, representa um tal potencial para uma ação militar contra os Es- tados Unidos, que isso limita claramente as opções norte-americanas e a realidade da sua força militar. Podemos dizer que este segundo objetivo também foi parcialmente bem-sucedido, mas apenas parcialmente.

O terceiro elemento dessa revisada política externa era econômico.

Quando o Consenso de Washington substituiu o desenvolvimentismo como doutrina econômica dominante no mundo, o que se fez foi tornar o envol- vimento econômico e, particularmente, financeiro dos Estados Unidos nos países do Terceiro Mundo muito mais extenso e lucrativo, e, por conseguinte compensou para alguns o declínio na lucratividade das antigas indústrias de ponta norte-americanas. De muitas maneiras, esse aspecto da política exter- na revisada foi o mais bem-sucedido dos três, até os últimos anos de 1990. Tal como as políticas dos Estados Unidos no período de 1945 a 1970, a parcialmente bem-sucedida política norte-americana de diminuir o ritmo

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A América Latina e os desafios da globalização

do declínio no seu papel hegemônico criou dificuldades para os Estados Unidos exatamente no momento, a década de 1990, em que esse país estava

se felicitando com o seu “novo” papel de “única superpotência”. A primeira

dificuldade foi que o colapso da União Soviética era negativo, não positivo, para a sua posição geopolítica. E, em meados da década de 1990, as muito extensas vantagens dos Estados Unidos na economia-mundo do Consenso

de Washington impulsionaram consideráveis resistências populares. Deve-

mos analisar cada uma dessas dificuldades. A retórica norte-americana foi sempre que o sistema soviético teria terminado. Ronald Reagan tinha-o chamado de o “império do mal”, e gri- tou para Mikhail Gorbatchev: “derrube este muro (de Berlim)”. Quando Gorbatchev derrubou esse muro, de fato por suas próprias razões, e quan- do ele forçou um considerável desarmamento recíproco com os Estados

Unidos, estes ficaram perplexos, em grande parte sem acreditar nisso e ab- solutamente inseguros sobre como manipular esse novo desenvolvimento.

O fato é que, em um período relativamente curto, os Estados da Europa

Oriental e Central derrubaram os seus regimes comunistas e encerraram

as suas ligações econômicas e militares com a União Soviética. Isso foi

seguido pela dissolução do Partido Comunista da União Soviética, pelo desmantelamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas nas suas 16 repúblicas constituintes e pelo paralelo desmantelamento da República Federal da Iugoslávia. O que aconteceu então? As principais conseqüências geopolíticas foram duas. Os Estados Uni- dos perderam o último argumento importante que tinham diante da Europa Ocidental para que ela permanecesse politicamente ligada a eles – a neces- sidade de manter uma frente comum contra a União Soviética. E os Estados Unidos perderam a última coerção indireta que tinham sobre as políticas dos países do Terceiro Mundo – o papel da União Soviética como o país que impunha (nos países que eram hostis aos Estados Unidos) as regras dos acordos de Yalta. Isto foi dramaticamente visto nas ações de Saddam Hussein nos anos 1990-1991. Não deveríamos interpretar erradamente o que aconteceu quando Saddam Hussein decidiu capturar o Kuwait. Ele tinha uma série de motivos.

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Tinha já completado uma inconclusiva e exaustiva guerra contra o Irã, uma luta com o ativo incentivo dos Estados Unidos. Tinha contraído grandes dívidas com o Kuwait e a Arábia Saudita, conseqüentemente, dívidas que tinha dificuldade de pagar. Acreditava que o Kuwait estava drenando pe- tróleo dos campos do Iraque usando poços diagonais. E o Iraque tinha ar- gumentado durante 70 anos que o Kuwait fazia parte do seu território, e que tinha sido apenas criado como um Estado separado pelos britânicos, obedecendo às suas próprias razões. Assim, ele achava que podia resolver todos esses problemas com um único golpe fatal, invadindo o Kuwait, que não era militarmente páreo para o exército iraquiano. Ele naturalmente se preocupava com a reação mundial ao que obvia- mente era, pela lei internacional, uma agressão. Mas, por causa do iminente colapso da União Soviética, podia se permitir desconsiderar as visões so- viéticas. Sentiu que podia manipular militarmente a Arábia Saudita, caso precisasse fazer isso. O seu único obstáculo eram os Estados Unidos. Pro- vavelmente, raciocinou assim: ou os Estados Unidos não reagiriam (como ele se certificou com o embaixador dos Estados Unidos no Iraque dois dias antes da invasão), ou reagiriam. Ele provavelmente tinha 50% de chances. Se os Estados Unidos reagissem, o pior que possivelmente fariam seria ex- pulsar o Iraque do Kuwait. Assim, em tudo e por tudo, esse parecia um jogo que valeria a pena jogar. E evidentemente fez a aposta. Os Estados Unidos, depois de uma hesitação momentânea, decidiram reagir. Mobilizaram uma campanha política e militar. Conseguiram quatro países (Alemanha, Japão, Arábia Saudita e Kuwait) para arcar com 90% dos custos da operação norte-americana. Os Estados Unidos e seus aliados expulsaram o Iraque do Kuwait e pararam na fronteira, porque se temia quanto às conseqüências negativas que poderiam vir da invasão norte- americana do Iraque. O resultado final foi o status quo ante. Este foi certa- mente modificado pelas sanções das Nações Unidas e por várias coerções à soberania do Iraque. Contudo, Saddam Hussein permaneceu no poder. No front da economia-mundo, os anos 1990 deviam ser o momento da institucionalização de longo prazo da ordem global neoliberal, cujo principal instrumento devia ser a Organização Mundial do Comércio,

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A América Latina e os desafios da globalização

encarregada de assegurar que os países do Sul abririam as suas fronteiras aos fluxos comerciais e financeiros do Norte e garantiriam a sua proprie- dade intelectual. O slogan básico foi aquele lançado pela Sra. Thatcher uma década antes: “Não há alternativa” (Tina: “There is no alternative”). Uma realização geopolítica inicial dos Estados Unidos foi a assinatura do Tra- tado de Livre-Comércio das Américas (Nafta: North American Free Trade Agreement), que devia ser implementado a partir de 1º de janeiro de 1994. Os países do antigo bloco socialista, incluindo a própria Rússia, engaja- ram-se em uma orgia de privatizações e fronteiras abertas. Assim o fez também um grande número de países do Sul. O resultado imediato em um grande número de países não foi uma melhor situação econômica, mas uma economia grandemente agravada, com o desaparecimento das redes de segurança do bem-estar social, de- semprego crescente e moedas declinantes – tudo isso ocorrendo lado a lado com o surgimento repentino de novos estratos ricos. O quadro era de de- sigualdades internas grandemente aumentadas nos países menos ricos do mundo. Quando a única área do Sul que tinha estado melhor economica- mente – a Ásia Oriental e o Sudeste da Ásia – foi acometida por uma grave crise em 1997, seguida por crises semelhantes na Rússia e no Brasil, a opção neoliberal perdeu a sua máscara de solução para os problemas econômicos do mundo. Houvera já reações políticas de vários tipos. Uma foi o retorno ao poder dos antigos partidos comunistas em vários países, agora remode- lados como partidos socialdemocratas que estavam pelo menos prontos para manter alguns fornecimentos de bem-estar. Outra foi a erupção dos zapatistas em uma pobre área remota do Sul, os Chiapas no México. Os zapatistas irromperam a sua revolta simbolicamente em 1 o de janeiro de 1994, a data em que o Tratado de Livre-Comércio das Américas veio a se efetivar. Eles falaram em nome da população indígena, que clamava pelo controle autônomo de suas próprias vidas e rejeitava as opções neoliberais para si e para todo o mundo. Quando a Organização Mundial do Comércio se reuniu em Seattle em 1999 para redigir as regras definitivas que criariam a ordem econô-

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mica mundial neoliberal, ela precisou enfrentar demonstrações popula- res (principalmente os movimentos sociais norte-americanos) que de fato descarrilaram esses procedimentos. Isso foi seguido por outras tantas demonstrações em vários outros encontros internacionais nos cinco anos seguintes, e depois pela criação do Fórum Social Mundial, que se reuniu pela primeira vez em Porto Alegre (Brasil) em janeiro de 2001. O Fórum Social Mundial destinava-se a ser a contrapartida popular antineoliberal ao Fórum Econômico Mundial de Davos, o oficial encontro de base das forças mundiais que levavam adiante a agenda neoliberal. O programa geopolítico dos Estados Unidos de 1970-2000 – a dimi- nuição do ritmo do declínio da hegemonia norte-americana – parecia estar sendo paralisado. Era hora de buscar outro olhar.

3. De 2001 a 2025 Quando George Bush foi celebrado como presidente dos Estados Uni- dos, em 2001, trouxe para as mais altas posições do seu governo um grupo de pessoas que chamamos de “neoconservadores”. Esse grupo realmente se constituiu em uma presença pública nos anos 1990, em uma organização chamada Programa para um Novo Século Americano (Program for a New American Century). Eles fizeram várias declarações públicas a respeito das suas visões geopolíticas no período de 1997 a 2000, de modo que o seu programa não era secreto. Embora George W. Bush não fosse um mem- bro desse grupo, este incluía o seu vice-presidente, o secretário e o vice- secretário de Defesa, o seu irmão e outras pessoas que se tornaram juízes e conselheiros do governo Bush. Os neoconservadores eram extremamente críticos da política externa de Clinton, mas não somente de Clinton. De fato, eles estavam criticando todas as iniciativas da política externa norte-americana no período de 1970 a 2000, que estou chamando de a política externa de Nixon a Clinton, e que tinha como seu principal objetivo reduzir o declínio do poder hegemônico dos Estados Unidos. Esse grupo dizia que o copo do poder norte-ameri- cano não era meio cheio, mas meio vazio. Eles acreditavam que o declínio era muito real. Contudo, não o viram como o resultado de estruturas mu-

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A América Latina e os desafios da globalização

tantes do sistema-mundo (por exemplo, o fim da superioridade econômica dos Estados Unidos diante da Europa e do Japão), mas, antes, da ineficácia política e da falta de decisão consistente dos sucessivos presidentes dos Estados Unidos. Eles não isentaram Ronald Reagan dessa crítica, embora não dissessem isso em voz alta. Os neoconservadores exigiram uma revisão radical da política externa norte-americana. Eles desejavam substituir o “multilateralismo frouxo”, que era a base da “parceria” que os Estados Unidos ofereciam aos seus princi-

pais aliados entre 1970 e 2000, por uma “decisão unilateral”, que ofereciam

a seus aliados com base no “pegar ou largar” (take-it-or-leave-it). Queriam

insistir sobre a adesão imediata à não-proliferação nuclear daqueles países

que pareciam resistir à idéia, embora quisessem ao mesmo tempo desatre- lar os Estados Unidos das restrições que tinham aceitado sobre a expansão

e a atualização do seu próprio arsenal nuclear. Desejavam recusar qualquer

participação dos Estados Unidos em novos tratados que de alguma ma- neira limitassem as decisões nacionais norte-americanas (o Protocolo de Kioto, a Lei do Tratado do Mar etc.). E, principalmente, desejavam desti- tuir Saddam Hussein pela força. Sua impressão era de que Saddam Hussein tinha humilhado os Estados Unidos permanecendo no poder no Iraque.

E censuraram implicitamente o primeiro presidente Bush (George H. W. Bush) por não ter marchado sobre Bagdá em 1991.

É importante observar que muitos, se não a maioria desses indiví-

duos, tinham conservado altas posições nos governos de Ronald Reagan e George H. W. Bush, mas jamais tinham sido capazes de conseguir que esses

governos comprassem tal programa. Eles tinham sido impedidos por um grande número de pessoas que aderiram à estratégia de Nixon a Clinton e viram as propostas dos neoconservadores como sendo extremamente ar- riscadas. Assim, foram frustrados não somente por Saddam Hussein, mas pelo que devia ser pensado como sendo o establishment da política externa norte-americana.

E nos primeiros oito meses da segunda presidência de Bush, os neo-

conservadores continuavam frustrados. Então veio o ataque de 11 de se- tembro de Osama Bin Laden às Torres Gêmeas e ao Pentágono. E quase

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imediatamente os neoconservadores se viram em condições de fazer George

W. Bush comprar toda a sua abordagem da geopolítica. O que provavelmen-

te o convenceu e a seus conselheiros imediatos foi o fato de que assumir o

manto de um “presidente da guerra” parecia ser o caminho mais seguro para a reeleição, assim como para garantir o programa doméstico, que era muito caro a George W. Bush. A lógica da posição dos neoconservadores era muito simples. Derru- bar Saddam Hussein pela força, preferencialmente por uma grande força unilateral, não somente restauraria a honra dos Estados Unidos, mas tam- bém, efetivamente, intimidaria três grupos cujas políticas pareciam cons- tituir a maior ameaça à hegemonia norte-americana: a Europa Ocidental, com suas pretensões de autonomia geopolítica, os proliferadores nucleares potenciais (especialmente a Coréia do Norte e o Irã) e os governantes dos Estados árabes, que estavam se movendo com força para ajudar a desati- var o conflito palestino-israelense, mas concordando com uma resolução “duradoura” que permanecia grandemente nos termos de Israel. Os neo- conservadores raciocinaram que, se pudessem alcançar esses três objetivos rápida e definitivamente, todas as graves oposições à hegemonia norte- americana se desintegrariam e o mundo entraria realmente em um “novo século americano”. Eles cometeram muitos erros de avaliação. Admitiram que a conquista militar do Iraque seria relativamente simples e custaria pouco, tanto em homens quanto em dinheiro. Está claro agora que estavam errados nisso.

Embora as tropas norte-americanas tivessem entrado rapidamente no Ira- que, elas foram incapazes de estabelecer a ordem no país. As forças do Baath escapuliram para formar a base de uma resistência de guerrilha, cuja am- plitude e eficácia cresceram permanentemente. Os Estados Unidos estavam claramente despreparados para manejar a complexidade da política interna do Iraque e chafurdaram no meio de um pântano não somente militar, mas também político, do qual ficou muito difícil se livrarem. De fato, enquanto

o tempo passava, os Estados Unidos viram que tinham cada vez menos

espaço de manobra e vieram a se parecer com Gulliver submetido pelos pequenos liliputianos.

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A América Latina e os desafios da globalização

Além disso, a política de intimidação se inverteu totalmente. Longe de ceder à pressão dos Estados Unidos, a Europa Ocidental (particularmen- te a França e a Alemanha) começou a exibir um grau de independência política desconhecida desde 1945. Em 2003, os Estados Unidos privaram- se de recolher a resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas para endossar a invasão norte-americana, quando se tornou claro que a resolução receberia somente quatro dos 15 votos, uma margem de perda de sustentação que os Estados Unidos nunca tinham experimentado an- teriormente nas Nações Unidas. Longe de fazer voltar a Europa Ocidental do status de “parceiros” para o de “satélites”, a nova política unilateralista tornou virtualmente impossível que esse continente aceitasse novamente o status de meros “parceiros”, ao invés do de atores autônomos na arena po- lítica mundial que deviam ou não deviam se aliar com os Estados Unidos em questões particulares. A intimidação também não funcionou melhor em relação aos proli- feradores nucleares. A Coréia do Norte e o Irã tiraram como conclusão da invasão norte-americana contra o Iraque que os Estados Unidos tinham praticado esse ato não porque o Iraque tivesse armas nucleares, mas exata- mente porque não tinha armas nucleares. Parecia óbvio aos governos desses dois países que a defesa mais segura dos regimes aí existentes era acelerar o seu projeto de adquirir armas nucleares. Por razões táticas, o Irã negou isso, mas a Coréia do Norte, não. Os Estados Unidos afirmaram que os dois países estavam de fato dando prosseguimento a esses programas, mas os norte-americanos se acharam enfraquecidos tanto militarmente quanto politicamente pela invasão do Iraque. Do ponto de vista militar, ficou claro que eles não estariam em condições de uma invasão por terra bem-sucedida. Dever-se-iam, é claro, previamente, usar armas nucleares aéreas, mas, politicamente, as conseqüências negativas para os Estados Unidos eram desanimadoras. Do ponto de vista político, eles se acharam enfraquecidos pela Europa Ocidental, mas também pela Ásia Oriental, em qualquer esforço para obrigar os dois países a abandonarem os seus programas. Os Estados Unidos estavam, por conseguinte, em piores condições para fazer parar a proliferação nuclear depois da invasão do Iraque, exatamente o contrário do que os neoconservadores esperavam que acontecesse.

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Quanto aos chamados regimes árabes e muçulmanos, a conclusão que tiraram da invasão do Iraque era de que as políticas ambíguas que eles ti- nham conduzido por décadas eram de fato a única politicamente plausível para a sua própria sobrevivência. Eles ficaram em geral espantados com as conseqüências políticas da invasão do Iraque – para o Iraque, mas tam- bém para os seus próprios países. Certamente, não foram persuadidos para aprovar essa linha, mais do que tinham sido em relação aos projetos norte- americanos para o Oriente Médio. Finalmente, no front do neoliberalismo, o Consenso de Washington não parecia mais obrigatório para os países do Sul, exatamente por causa da enfraquecida posição geopolítica dos Estados Unidos como resultado da sua política no Iraque. As negociações na Organização Mundial do Comér- cio, que o regime de Bush procurou ressuscitar, assim como o programa de Bush para criar a Área de Livre-Comércio das Américas (Alca) resultaram em impasses, nos quais o governo brasileiro assumiu a liderança junto com outros governos do Sul. Nos encontros da Organização Mundial do Comércio de 2003, em Cancun, o Brasil juntou forças com a África do Sul, a Índia e a China para formar o bloco de países do G-20, para negociar com os Estados Unidos e com a Europa Ocidental. A posição básica do G-20 era de que, se eles deviam abrir mais amplamente as suas fronteiras aos fluxos comerciais e financeiros do Norte e proteger os direitos intelectuais das empresas do Norte, o Norte tinha, em troca, de abrir mais as suas fronteiras aos fluxos de comércio do Sul, em áreas como produtos têxteis e agrícolas. Os Estados Unidos e a Europa Ocidental acharam que era politicamente impossível (em vista de suas políticas domésticas) atender a essas demandas em qual- quer grau significativo. E o G-20 respondeu que, nesse caso, eles também não poderiam atender às demandas do Norte. O resultado disso foi um beco sem saída, que efetivamente liquidou a capacidade da Organização Mundial do Comércio de pressionar em qualquer nível para implementar os seus objetivos neoliberais. A mesma coisa aconteceu com a Área de Livre-Comércio das Améri- cas (Alca). O Brasil e a Argentina, já ligados no Mercosul – a comunidade

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A América Latina e os desafios da globalização

comercial que liga os dois países ao Uruguai e ao Paraguai –, pressionaram ou outros países sul-americanos para estreitarem seus laços com o Merco- sul, em vez de considerarem se alinhar com a Alca. Nisso, eles obtiveram forte apoio da Venezuela. Como conseqüência, o projeto da Alca nunca progrediu muito, e os Estados Unidos se refugiaram na tentativa de estabe- lecer pactos comerciais bilaterais com pequenos países, uma tática que, de fato, reduz mais o livre-comércio mundial do que o faz crescer. O resultado líquido de toda a política externa de Bush foi acelerar o declínio da hegemonia norte-americana, mais do que invertê-lo, como se pretendia. O mundo adentrou uma divisão geopolítica do poder multila- teral e relativamente desestruturada, com uma quantidade de centros de poder de força variável manobrando por vantagens – os Estados Unidos, o Reino Unido, a Europa Ocidental, a Rússia, a China, o Japão, a Índia, o Irã, o Brasil, pelo menos. Não há qualquer superioridade esmagadora – econô- mica, política, militar ou ideológico-cultural – de nenhum desses centros. E não há nenhum forte conjunto de alianças no momento, embora seja provável que ele venha a existir. Quando olhamos para frente, para 2025, que tipo de tendências pode- mos imaginar? A primeira é um total colapso da não-proliferação nuclear, com o surgimento de uma ou duas dúzias de pequenas potências nucleares, além daquelas já existentes. O grave declínio do poder norte-americano mais os interesses concorrentes dos vários centros de poder virtualmente garantem que aqueles países que encerraram esses programas no período de 1970 a 2000 vão retomá-lo, sem dúvida junto com outros países. Isso levantará ao mesmo tempo em muitas zonas do mundo um obstáculo ao lançamento de ações militares e tornará muito mais perigosa a conseqüên- cia dessas ações. Na arena das finanças mundiais, o domínio do dólar norte-americano provavelmente desaparecerá e cederá espaço a um sistema múltiplo de mo- edas. Obviamente, o euro e o yen se tornarão os modos de acumulação financeira mais usados e as bases mais freqüentes das trocas de mercado- rias. A questão é se outras moedas também se juntarão à lista e o grau no qual a expansão da quantidade de moedas no uso econômico mundial irá

Mudando a geopolítica do sistema-mundo: 1945-2025

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desequilibrar o sistema, ou pelo menos torná-lo extremamente volátil. Em qualquer caso, o declínio do papel central do dólar criará maiores dificul- dades econômicas para os Estados Unidos para lidarem com a sua dívida nacional acumulada já existente, e, provavelmente, isso poderá trazer como conseqüência uma redução do padrão de vida dentro desse país. Três regiões recebem uma vigilância especial, porque todas estão em uma considerável desordem política, cuja conseqüência provavelmente mudará de maneira significativa o quadro geopolítico: a Europa, a Ásia Oriental e a América do Sul. A história européia é a mais conhecida e está no centro da evolução atual. Nos cinco anos que vão de 2001 a 2005, os dois maiores desenvolvimentos ocorreram na Europa. O primeiro foi a conse- qüência direta da revisão unilateral da política externa norte-americana de Bush. Tanto a França quanto a Alemanha se opuseram publicamente à in- vasão norte-americana do Iraque e obtiveram apoio de vários outros países europeus. Ao mesmo tempo, eles estreitaram suas ligações políticas com a Rússia e começaram a criar um eixo Paris-Berlim-Moscou. Em resposta a isso, os Estados Unidos, auxiliados pela Grã-Bretanha, criaram um contra- movimento, trazendo a maioria dos Estados da Europa Centro-Oriental para o seu campo. Foi o que Donald Rumsfeld chamou de “velha Europa” contra a “nova Europa”. As razões que motivaram os Estados da Europa Centro-Oriental derivavam principalmente dos seus temores permanentes em relação à Rússia, daí sua ênfase em estabelecer fortes vínculos com os Estados Unidos. O segundo desenvolvimento foi a derrota da revisão da Constituição européia como resultado dos votos “não” nos referendos na França e na Holanda. Aqui, os alinhamentos eram bastante diferentes daqueles relacio- nados com a invasão do Iraque. Os motivos que levaram aos votos “não” fo- ram basicamente dois e eram muito diferentes. Alguns votos “não” vieram da forte oposição ao neoliberalismo e dos temores de que a nova Constitui- ção européia defendesse algumas doutrinas neoliberais. Mas outros votos “não” vieram dos temores que surgiram em relação à futura expansão da Europa para o Oriente (e, especialmente, a possível entrada da Turquia na União Européia). Em ambos os casos, os que votaram “não” estavam votan-

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A América Latina e os desafios da globalização

do por uma Europa mais autônoma e uma Europa que eles achavam que deveria tomar mais distância dos Estados Unidos. No entanto, a combinação dos dois desenvolvimentos – a cisão quanto

à invasão do Iraque e a derrota da nova Constituição – parou momenta-

neamente o ímpeto para uma Europa mais forte, mais unificada e mais autônoma. A questão é se, na próxima década, esse projeto poderá ser re-

lançado em uma base institucional e popular mais firme. Está ainda aberta

a questão sobre se esse relançamento do projeto europeu, caso ele decole,

chegará a um tal acordo político com a Rússia, que nos permitirá falar de um pólo geopolítico Europa-Rússia. Se nos voltarmos para a região da Ásia Oriental, o cenário é muito diferente do cenário europeu. Primeiro, estamos lidando com apenas três países, todos grandes: China, Coréia e Japão. Dois desses países estão

atualmente divididos e a sua reunificação está definitivamente no mapa das propostas políticas. A reunificação (Coréia do Norte e do Sul, República Popular da China e Taiwan) também não será fácil de alcançar, mas ambas são absolutamente possíveis até 2025. Há, então, um segundo problema muito diferente daquele que a Euro- pa enfrenta. Na Europa, a clivagem histórica entre a França e a Alemanha está grandemente sanada, enquanto a clivagem entre o Japão e a China e

a Coréia não está absolutamente sanada. As paixões são ainda grandes em

todos as partes. Por outro lado, as vantagens econômicas para todos três através de ligações mais estreitas são muito grandes e podem servir para

colocar de lado os ódios históricos que ainda persistem. Há um problema

complicado a resolver: quem, a China ou o Japão, desempenhará o papel de “liderança” em uma possível futura união da Ásia Oriental. Essa questão envolve problemas militares, monetários e político-culturais. Ela não é in- solúvel, mas exigirá uma grande dose de liderança política inteligente e de visão em todos os três países. Porém, se os obstáculos forem superados, a união da Ásia Oriental deverá surgir como o membro mais forte da ainda existente tríade do Norte

– América do Norte, Europa e Ásia Oriental. Além disso, se a união da Ásia Oriental, de alguma maneira, for realmente realizada, provavelmente será

Mudando a geopolítica do sistema-mundo: 1945-2025

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capaz de atrair os Estados Unidos para o seu campo como uma espécie de

“estadista mais velho”/parceiro júnior combinados. Esse não é exatamente

o papel que os Estados Unidos vêem para si próprios com George W. Bush,

mas, em 2025, poderá parecer um negócio atrativo para a liderança e tam- bém para a população desse país. Finalmente, a América do Sul tem potencial para surgir como um ator autônomo importante – afastada dos Estados Unidos e associada economi- camente de alguma maneira. Se ela for capaz de atrair o México para o seu campo, estará então em condições de dar gigantescos passos econômicos e políticos para a frente – em detrimento, certamente, dos Estados Unidos. Onde as outras forças potenciais – em particular, mas não somente, Índia, Irã, Indonésia e África do Sul – abririam espaço para esse realinha-

mento geopolítico é a questão menos clara na arena geopolítica. E, à esprei- ta, atrás de todos esses realinhamentos, estará a questão do acesso à energia

e à água, que não são problemas menores em um mundo acossado por

embaraços ecológicos e vasta potencialidade de sobreprodução pelas forças da acumulação capitalista. Esse poderia ser o problema mais explosivo de todos, e um problema absolutamente não resolvido por toda essa manobra geopolítica.

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A América Latina e os desafios da globalização

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Apresentando o Tio Sam – sem roupas

Andre Gunder Frank*

O Tio Sam quebrou a regra do jogo e continua não pagando mais de 40% da sua dívida externa de trilhões de dólares, e ninguém disse uma pa- lavra sequer, exceto uma linha no Economist semanal. Em uma linguagem clara, isso significa que o Tio Sam passa mundialmente um conto do vigá- rio com os seus próprios dólares, baseado na certeza de que recebeu esse conto de outros em todo o mundo, sendo também um parasita na medida em que não honra e não paga o dinheiro que recebeu. Quanto do nosso risco-dólar perdemos depende de quanto nós, os credores, originariamente pagamos por ele. Através das suas políticas econômicas deliberadamente políticas, o Tio Sam deixou que seu dólar caísse significativamente contra o euro, o yen, o yuan e outras moedas. O dólar ainda está caindo, e é mesmo capaz de cair vertiginosa e completamente. 1 Na verdade, com a queda do dólar, caiu também o valor real que os estrangeiros pagam pelo serviço de sua dívida com o Tio Sam. Isso funcio- na somente se eles próprios puderem ganhar um lucro com um aumento de valor das outras moedas diante do dólar. Caso contrário, os estrangeiros

* Nascido em 1929 e falecido em 2005. Um dos fundadores da teoria da dependência e das análises do sistema mundial. Deixou obra com 44 livros, 400 artigos em revistas científicas e 169 capítulos de livro publicados em 30 línguas. Parte de seus trabalhos pode ser acessada em www.rrojasdatabank.org/agfrank. O artigo que dedicou a Marini está entre seus últimos escritos. 1 Houve também uma torrente de desvalorizações de concorrência nos anos 1930, e ela foi cha- mada de “Sua Indigente Política de Vizinhança” (“Beggar Thy Neighbor Policy”), uma política de mudar os custos para que os vizinhos os suportassem.

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A América Latina e os desafios da globalização

ganham e pagam com o mesmo dólar desvalorizado, e sofrem a perda da desvalorização desde o momento em que receberam o dólar e aquele em que devem pagá-lo ao Tio Sam. Mas a China e os outros países da Ásia

Oriental de fato ganham com isso e fixaram suas moedas pelo dólar, na me- dida em que tinham já desperdiçado uma parte essencial do seu até agora maior risco-dólar do mundo. E eles, como todos os outros, perderão tam- bém em suas reservas desde que convertidas em dólar.

A dívida do Tio Sam com o resto do mundo já monta a mais de um

terço da sua produção doméstica nacional anual, e ela continua crescen- do. Somente isso já torna a sua dívida econômica e politicamente im- possível de pagar, ainda que quisesse, o que ele obviamente não quer. A

dívida federal do Tio Sam é agora de 7,5 trilhões de dólares, dos quais um trilhão foi construído nas três últimas décadas, os outros dois trilhões nos últimos oito anos e o último trilhão nos últimos dois anos. Isso custa mais de 330 bilhões de dólares em juros, comparados com os 15 bilhões gastos com a Nasa.

O Congresso fez subir o teto da dívida para 8,2 trilhões de dólares.

Para que possamos ter uma idéia, apenas um trilhão de dólares em peque- nas contas acumuladas de 1.000 dólares equivaleria a um edifício da altura de 40 andares, de modo que 7,5 trilhões de dólares seriam 300 andares ou cerca de três vezes a altura do Empire State Building. Aproximadamente metade disso é devido a estrangeiros. Toda a dívida do Tio Sam, incluindo a dívida privada interna de cerca de 10 trilhões de dólares, mais a dívida cor- porativa e financeira, com suas opções, derivados e similares, mais a dívida do Estado e do governo, chega a um inimaginável 37 trilhões de dólares; para que vocês tenham uma idéia, 1.480 vezes a altura do Empire State Building, e aproximadamente quatro vezes o produto nacional interno. Somente uma parte dessa dívida e sua negação próxima podem ser administradas internamente, mas com perigosas limitações para o Tio Sam, como foi observado antes. Essa é apenas uma das razões por que que- ro refutar o Tio Sam, o audacioso parasita, que pode lembrá-los do filme Meet Joe Black. Pois, tal como vamos identificar melhor o Tio Sam depois, veremos que ele é também um Shylock, e um Shylock corrupto.

Apresentando o Tio Sam – sem roupas

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A procuração da Guerra Fria do Tio Sam para a guerra do Noroeste contra o Sul Antes de continuarmos, vamos primeiro traduzir essa confusão de números em uma linguagem clara. Isso já tinha sido feito em 1948 por George Kennan, aliás conhecido como Mister X, o arquiteto da Política de Contenção do Tio Sam:

Temos quase a metade da riqueza do mundo (

população (

traçar um padrão de relações que nos permita manter essa posição de desi-

mas somente 5% da sua

a nossa tarefa real nos próximos anos é

)

)

Nessa situação (

)

gualdade (

)

Para fazer isso, temos de renunciar a todo sentimentalismo e

devaneio (

)

temos de nos concentrar em todo lugar nos nossos objetivos

nacionais imediatos (

menos estivermos estorvados por slogans idealistas, melhor será. 2

)

[e] lidar com conceitos de poder direto. Quanto

Naturalmente, essa afirmação estava voltada apenas para o consumo interno privado do Tio Sam. Para o resto do mundo, incluindo os Tios Sams, os “slogans idealistas” terão melhor sorte, até onde naturalmente não os impeçam. Pois eles exemplificam o maior Esquema Ponzi do Con- to do Vigário já passado em todo o mundo pelo Tio Sam. Como “manter essa desigualdade”? O poder nu e cru ajuda, mas não é o bastante. Tanto mais porque, desde que Mister X escreveu, a já então terrivelmente injus- ta distribuição mundial da renda se tornou três vezes mais desigual. Por agora, considere-se simplesmente este índice: 265 milhões de Tios Sams consomem mais petróleo, 22% do total do mundo, do que os 3 bilhões asiáticos, que todos juntos alcançam uns 20% – e eles querem mais, es- pecialmente os chineses. Para levá-lo a conseguir isso, ele também conta com Pentágono, que é provavelmente o maior e o menos observado único poluidor de tudo. Essa observação também indica uma continuidade através deste outro muro, aquele que caiu em Berlim em 1989. Pois isso mostra que a Guerra Fria de Contenção de Mister X não era somente ou mesmo principalmente

2 Department of State Policy Planning Study, n. 23, 1948.

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A América Latina e os desafios da globalização

contra os russos, mas também uma Contenção dos outros 95% do mundo

e, especialmente, da enorme maioria pobre que sofre mais com a desigual-

dade que ele observou. Realmente, Mister X afirma que a Guerra Fria entre Ocidente e Oriente, com a qual ele já tinha colaborado quando indicado como embaixador do Tio Sam em Moscou, era grandemente uma procura- ção – e especialmente para Tio Sam – na guerra real do Norte contra o Sul, para se apropriar dessa metade, ou das duas metades, da riqueza do mun- do. Isso nos deixaria menos surpresos com o fracasso do equivocadamente previsto “Dividendo da Paz” para materializar-se, depois, a derrubada desse

pequeno muro em 1989. A outra guerra, ou melhor, a guerra real, continua; ela apenas assume outras formas, ou melhor, rótulos, como “direitos hu- manos”, “democracia”, “livre mercado”, “livre-comércio”, “liberdade” em ge- ral, “civilização”, todos eles aparecendo como ecos do “encargo do homem branco” do século XIX. Acrescentaram-se alguns novos inimigos e elemen- tos: primeiro o “narcoterrorismo”, por Bush Pai, contra Noriega; e agora o indefinido “terrorismo”, por Bush Filho, contra todos e cada um “que não esteja conosco”. Não podemos esquecer as “armas de destruição em massa”, aquelas que o Tio Sam tem e usa mais, e as armas de fraude em massa, que

o Tio Sam usa como ninguém. Isso é naturalmente a condição sine qua non de qualquer Conto do Vigário, principalmente um dos maiores do mundo, como observaremos ad nauseam.

O Tio Sam vive divinamente da abundância da terra do mundo e do trabalho chinês O Tio Sam é o mais privilegiado do mundo, pois tem o direito exclusi- vo de imprimir à vontade a reserva mundial de moeda com um custo ape- nas do papel e da tinta com que ela é impressa. Fazendo isso, ele pode tam- bém exportar para o estrangeiro a inflação que sua impressão irresponsável de dólares origina. Pois há já pelo menos três vezes mais dólares flutuando no mundo do que na casa do Tio Sam. Além disso, dele é também a única dívida “externa”, a maior designada na sua própria moeda. A maioria da dívida dos estrangeiros é também designada no mesmo dólar, mas eles têm de comprar dólar do Tio Sam com a sua própria moeda e produtos reais.

Apresentando o Tio Sam – sem roupas

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Assim, o Tio Sam simplesmente paga os chineses e os outros essen- cialmente com esses dólares que não têm valor real além do papel e da tinta. Especialmente a China pobre entrega por absolutamente nada ao Tio Sam um valor de centenas de bilhões de dólares de produtos reais pro- duzidos internamente e consumidos pelo rico Tio Sam. A China investe e comercializa esses mesmos bilhões de dólares de papel do Tio Sam em outro dólar-papel chamado bônus do Certificado do Tesouro, que é ain- da mais desvalorizado, a não ser que pague um percentual de juros. Pois, como já observamos, ele jamais poderia ser convertidos em dinheiro e res- gatado totalmente ou em parte, e já perdeu muito do seu valor para o Tio Sam. Em um ensaio anterior, afirmei que o poder do Tio Sam repousa em apenas dois pilares, o dólar e o Pentágono. Um sustenta o outro, mas a vulnerabilidade de um e de outro é também o calcanhar de Aquiles que ameaça a viabilidade do outro. Desde então, o Afeganistão e o Iraque mos- traram muito da sua certeza ao Pentágono para se terem extraviado. Isso ajudou a reduzir a confiança e também o valor na moeda dólar, o que, em troca, reduziu a capacidade do Tio Sam de usar esse dólar para financiar as aventuras externas do seu Pentágono. Ver meu ensaio de 2004, “Coup d’État e tigre de papel em Washington, o dragão fumegante do Pacífico”, que também invoca o crescimento produtivo da China: <http://rrojasdata- bank.info/agfrank/new_world_order.html#coup>. Além disso, devemos imaginar que os números do Tio Sam para mais ou para menos são também literalmente relativos. Até agora, as relações – particularmente com a China – ainda favorecem o Tio Sam, mas elas tam- bém ajudam a manter uma imagem enganosa. Considere-se o seguinte:

) (

China é uma remessa de três dólares que chega a San Diego. No momento em que um consumidor do Tio Sam paga por isso 10 dólares no Wal-Mart, a economia do Tio Sam registra 10 dólares nas vendas finais, menos três dóla- res do custo de importação, para um adendo de sete dólares para o produto

bruto interno do Tio Sam. 3

um brinquedo de dois dólares que sai de uma fábrica do Tio Sam na

3 <http://archives.econ.utah/archives/a-list/2004w07/msg00083.htm>.

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A América Latina e os desafios da globalização

Além disso, nunca o inteligente Tio Sam arranjou coisas assim para ganhar 9% de suas holdings econômicas e financeiras no exterior, ao passo que os estrangeiros ganham para si apenas um retorno de 3%, e somente 1% sobre os seus Certificados do Tesouro, investidos na Terra Sagrada do Tio Sam. Observe-se que essa diferença de 6% dobra já o que o Tio Sam paga, e seu total tomado de 9% é o triplo dos 3% que ele devolve. Portanto, embora a reciprocidade de cada uma das holdings estrangeiras com o Tio Sam e no exterior seja agora quase igual, o Tio Sam é ainda o grande ga- nhador de juros, tal como qualquer Shylock, mas ninguém jamais fez um negócio tão grande. Mas o Tio Sam também ganha muito bem, muito obrigado, de outras holdings no exterior, por exemplo, com os pagamentos de serviço pela maioria dos devedores estrangeiros pobres. As somas envolvidas não são insignificantes. Pois, dos seus investimentos diretos somente em proprie- dade estrangeira, o Tio Sam lucra agora 50%, e, incluindo suas receitas vin- das de outras holdings no exterior, agora são 100% redondos dos lucros do Tio Sam derivados de todas as suas atividades domésticas combinadas! Essas receitas externas acrescentam mais de 4% ao produto interno bruto. Isso ajuda bem a compensar o fracasso dos lucros domésticos, e ainda para recuperar inclusive o seu nível de 1972. Essa é a razão por que o Tio Sam fracassou na realização suficiente de bons investimentos reais no âmbito interno para eclodir produtivamente e lucrar com isso. Esse lucro extra vindo do exterior também compensa muito o ainda crescente deficit comercial do Tio Sam. Os mais de 600 bilhões de dólares por ano vindos do excesso do consumo interno sobre o que ele próprio produz e que logo se ampliarão. Isso resultou em trilhões de dólares (três trilhões, se diz) da sua dívida externa. Mas o Tio Sam joga as cartas próximo do seu Tesouro e é compreensivelmente avesso a fazer qualquer revelação oficial de quão grande (mais do que o Empire State Building em bilhões?) é realmente a sua dívida externa. No entanto, podemos ficar seguros de que sua dívida externa bruta é até agora a maior do mundo e permanece assim também como dívida externa líquida, ainda que deduzamos as dívidas dos estran- geiros para com ele.

Apresentando o Tio Sam – sem roupas

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A produtividade famosa da “nova economia” de Clinton dos anos 1990 se limitou a computadores e tecnologias de informação, e mesmo isso provou ser uma fraude quando a bolha estourou no mercado de ações. Além disso, não somente o aparente crescimento dos “lucros”, mas também da “produtividade” estava sendo explodido pela loja, pelo escritório e pelas vendas apressadas e/ou pelo tempo de trabalho mais longo na base. O Wal- Mart obriga a não-união (não se permite nenhuma) dos trabalhadores sob ameaça de demissão e marcação da hora do fim do serviço (clock-out) e da volta ao trabalho sem pagamento. No topo, a produtividade e os lucros eram explodidos pela fama da contabilidade criativa (accounting creative) pela Enron, Worldcom, Arthur Anderson e outros semelhantes engajados em fraudes.

O Tio Sam não pode se salvar: ele está preso no consumo e em outras drogas Por que tudo isso?, devemos perguntar. A única resposta é que o Tio Sam, que está crescentemente preso no consumo, para não falar nas drogas mais pesadas, poupa não mais do que 0,2% da sua própria renda. O guru do FED (Federal Reserve), Alan Greenspan, 4 o Doutor da mágica financeira e da mídia, observou que isso é assim porque os 20% mais ricos de Tios Sams, que são os únicos que poupam, reduziram suas poupanças a 2%. Po- rém, mesmo essas desprezíveis poupanças (os outros países e os países mais pobres poupam inclusive 20, 30 ou mesmo 40% da sua renda) são mais do que contrabalançadas pelo deficit de 6% do governo do Tio Sam, que faz tão largamente como representante deles. É isso que traz a média entre os dois juntos para aquele 0,2%. Assim, o Tio Sam tem um deficit orçamentário co- municado de mais de 400 bilhões de dólares, que é realmente mais de 600 bilhões de dólares, se contarmos, como deveríamos, os mais de 200 bilhões de dólares que o Tio Sam “toma emprestado” do superavit temporário no seu próprio fundo de Seguridade Social Federal, que está também falindo.

4 Presidente do Federal Reserve dos Estados Unidos de 11 de agosto de 1987 a 31 de dezembro de 2006. (N.E.)

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A América Latina e os desafios da globalização

Mas não importa, o presidente Bush do Tio Sam prometeu privatizar muito nessa área e deixar o povo comprar a sua própria segurança de velhice em um mercado sempre inseguro. O rico Tio Sam, principalmente os seus maiores ganhadores e consumi- dores felizardos, assim como, naturalmente, o Grande Tio em Washington, usufruem as melhores coisas do mundo. Além de imprimir a moeda mun- dial, o Tio Sam também faz isso com os seus “deficits gêmeos”, primeiro o seu deficit orçamentário de 600 bilhões de dólares e depois aquele outro mencionado, o deficit comercial de 600 bilhões de dólares, agora em uma média anual no mês passado de 666 bilhões de dólares. Com eles, o Tio Sam absorve as poupanças daqueles que estão – fre- qüentemente muito – abaixo, em circunstâncias desfavoráveis. Particular- mente os seus bancos centrais colocam muitas das suas reservas em moeda mundial, em dólar, nas mãos do Tio Sam em Washington, e algumas tam- bém em dólar internamente. Seus investidores privados vendem dólar ou compram ativos em dólar em Wall Street, tudo com a convicção de que estão colocando todos os seus recursos no mais seguro do céu do mundo do Tio Sam (que, naturalmente, faz parte do mencionado Conto do Vi- gário). Somente dos bancos centrais, estamos olhando para somas anuais acima de 100 bilhões de dólares da Europa, acima de 100 bilhões de dólares do pobre Terceiro Mundo.

Como o Tio Sam cria e recolhe a dívida do Terceiro Mundo Além disso, o Tio Sam também obriga os Estados do Terceiro Mundo

a agirem como agências recolhedoras ou mesmo como provocadores (Repo

Goons), em que provocadores são aqueles mandados para resgatar a pro- priedade do Poderoso Chefão (Godfather) por quaisquer meios. Somente nesse caso, não é ainda isso; pois ele está tomando posse novamente, já que

a dívida original há muito já foi paga. Os Estados aumentam os impostos e

os tributos da população, mas fazem menos gastos sociais com educação e saúde, e assim desviam fundos domésticos para pagar a dívida externa. Eles também, por outro lado, tomam empréstimos do capital privado doméstico com altas taxas de juros, juros que o Estado paga aos ricos emprestadores,

Apresentando o Tio Sam – sem roupas

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mas provenientes dos impostos extraídos dos pobres. Desse modo, a ren-

da é “transferida” internamente dos pobres para os ricos, e também desses pobres através da dívida externa para exatamente os mais ricos no exterior. Essas poupanças literalmente forçadas dos pobres são então mandadas para

o Tio Sam na forma de “serviço” da dívida em dólar que é “devido” a ele. Privatização é o nome do jogo no Terceiro e no resto do mundo, exce-

to para a dívida! Somente a dívida foi socializada depois que ficou sujeita principalmente pelo negócio privado, mas somente o Estado tem suficiente poder para extorquir uma grande massa de pagamentos do couro dos seus pobres e das pessoas da classe média e transferi-los como “pagamentos in- visíveis de serviço” para o Tio Sam. Somente a Argentina, e por enquanto,

a Rússia declararam uma efetiva moratória sobre o “serviço” da dívida, mas

isso somente depois de acatarem as políticas econômicas governamentais impostas pelos conselheiros do Tio Sam e pelo seu braço forte, o Fundo Monetário Internacional, políticas que destruíram inteiramente essas so- ciedades, como nunca antes em tempos de “paz”. A Secretaria do Tesouro do Tio Sam e o seu criado FMI alegremente continuam a se pavonear no mundo, insistindo para que o Terceiro Mundo – e o ex-segundo, agora também Terceiro Mundo – naturalmente continue a pagar suas dívidas externas, especialmente a ele. Não importa que, com taxas de juros multi- plicadas várias vezes pelo próprio Tio Sam depois do coup de Paul Volker do Tesouro (Federal Reserve) em outubro de 1979, a maioria já tenha pago os seus empréstimos originais mais de três a cinco vezes. Para pagar com essas taxas de juros que Volker aumentou para 20%, eles tinham de pedir mais empréstimos com taxas ainda maiores, de modo que a projeção da sua dívida externa dobrou e triplicou. E assim também ocorreu com a sua dívida interna, na qual a parte referente aos pagamentos externos aumen- tou, como particularmente no Brasil. Tudo isso, enquanto o Tio Sam fica alegremente não pagando a sua própria dívida externa, como já tinha feito várias vezes antes, no século XIX. É bom lembrar pelo menos duas advertências daquela época: Lord Cromer, que administrou o Egito atendendo aos interesses imperiais britâ- nicos então dominantes, disse que o seu mais importante instrumento para

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A América Latina e os desafios da globalização

alcançar isso eram as dívidas do Egito para com a Inglaterra. Estas multi- plicaram quando o Egito foi obrigado a vender as ações do seu Canal de Suez da Inglaterra para pagar suas dívidas anteriores. O primeiro-ministro britânico Disraeli explicou e justificou a sua compra igualmente alegando que isso fortaleceria os interesses imperiais britânicos. Atualmente, isso é chamado de “trocas de dívida por eqüidade” (debt-for-equity swaps), que é uma das políticas favoritas recentes do Tio Sam de usar a dívida para adquirir reais recursos lucrativos e/ou estrategicamente importantes, tal como foi o Canal o caminho mais rápido e seguro para a jóia do Império Britânico na Índia. A outra recomendação prática veio do primeiro grande estrategista militar, Clausewitz: deixem que as terras que vocês conquistaram paguem por sua própria conquista e administração. Isso foi exatamente o que a Inglaterra fez na Índia através dos famosos “encargos domésticos” (home charges) remetidos para Londres em pagamento pela administração ingle- sa na Índia. Os próprios ingleses reconheceram que isso era um “tributo”, responsável por muito da “drenagem” da Índia para a Inglaterra. Era muito mais eficiente deixar que os próprios Estados dos países estrangeiros admi- nistrassem (a Inglaterra chamava isso de “domínio indireto”), mas através das regras estabelecidas e impostas pelo Tio Sam levadas a cabo pelo FMI, que então realiza, de algum modo, uma drenagem do serviço da dívida. Assim, nesse aspecto, a Inglaterra estabeleceu um precedente no século XIX com Estados “independentes”. Desde então, isso ficou conhecido como o “imperialismo do livre-comércio”. Até onde as regras funcionam, tudo bem. Quando não funcionam, um pouco da diplomacia da canhoneira (gun-boat) pode ajudar, e o Tio Sam já aprendera a usar esse expediente no início do século XX. Quando nem mes- mo isso bastava, a primeira opção era invadir e, se necessário, ocupar – e de- pois confiar na regra Clausewitz de fazer com que as suas vítimas pagassem por sua própria ocupação. Observaremos vários exemplos disso adiante, e que se preste uma atenção especial ao que está acontecendo agora no Iraque. Por último, mas não menos importante, os produtores de petróleo também colocam suas poupanças no Tio Sam. O Tio Sam consome e con-

Apresentando o Tio Sam – sem roupas

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trola o petróleo. Com o “choque” do petróleo, que recuperou o seu preço real depois de sua cotação em dólar cair em 1973, o sempre manhoso Henry Kissinger fez um negócio com o maior exportador de petróleo do mundo

na Arábia Saudita, pelo qual ele continuaria a vender o petróleo em dólar

e esses ganhos seriam depositados no Tio Sam, em parte compensados por

aparato militar. Esse negócio de facto se estendeu para toda a Opep (Orga- nização dos Países Exportadores de Petróleo) e ainda permanece, menos

para o Iraque, que, antes da guerra, optou subitamente por ligar o preço do seu petróleo ao euro, e o Irã ameaçou fazer o mesmo. A Coréia do Norte não tem petróleo, mas o comercializa totalmente em euro. Isso constitui o triplo “Eixo do Mal dos Estados Embusteiros”. Atualmente, a Venezuela é

o maior fornecedor de petróleo para o Tio Sam, e também fornece algum

com taxas preferenciais em trocas de comércio efetuado em outra moeda que não seja dólar para outros países pobres, como Cuba. Assim, o Tio Sam patrocinou e financiou os comandos militares do seu Plano Colômbia ao lado, promoveu um golpe ilegal, e quando também fracassou um referen- dum legal na sua tentativa de outra “mudança de regime”; a esses três países juntou-se a Venezuela para serem batizados como o novo “eixo do mal”. 5 Tudo o que foi dito antes é parte e parcela do maior e jamais visto

esquema Ponzi do Conto do Vigário mundial. Como todos os outros, a sua característica essencial é que ele só pode continuar a pagar dólares e se manter no topo enquanto continuar a receber de fato novos dólares, vo- luntariamente, se possível através de confiança, ou então pela força. (Natu- ralmente, as fórmulas de Clausewitz e de Cromer trazem como resultado que os mais pobres pagam o máximo, já que eles são os mais indefesos, de maneira que aqueles que se servem deles transferem grande parte do custo

e do sofrimento para eles.) Mas, o que ocorre se e quando a confiança se esgota e os dólares não chegam mais? As coisas já estão ficando mais tumultuadas na casa do Tio Sam. O dólar declinante reduz os necessários influxos de dólares. Assim, o

5 Em 2005, a Venezuela retirou as suas reservas do Estados Unidos para transferi-las a bancos europeus. (N.E.)

90

A América Latina e os desafios da globalização

FED precisa aumentar as taxas de juros para manter a atração do Tio Sam pelos dólares externos de que ele necessita para preencher o buraco comer- cial. Mas fazer isso ameaça explodir a bolha doméstica, que foi construída

com baixas taxas de juros e hipotecas – e re-hipotecas. É nos seus valores domésticos que a maioria do povo do Tio Sam tem suas poupanças, caso as tenha. Essas poupanças e esse efeito de riqueza imaginária sustentaram o superconsumo e a dívida interna, que era aproximadamente tão alta quanto

o produto interno líquido. Para muito além de Osama Bin Laden, da Al Qaeda e de todos os ter-

roristas colocados juntos, a maior ameaça real mundial ao Tio Sam é que

o seu dólar não se mantenha em funcionamento. Por exemplo, os bancos

centrais estrangeiros e os investidores privados (diz-se que esses “chineses

ultramarinos” têm um fluxo de trilhões de dólares) podem, um dia desses, simplesmente decidir colocar o seu dinheiro em outro lugar que não no de- clinante dólar e abandonar o pobre Tio Sam a seu destino. A China poderia duplicar a sua renda per capita muito rapidamente, se fizesse reais investi- mentos internos em vez de investimentos financeiros com o Tio Sam.

Liquidar o dólar do Tio Sam por euro e pela moeda da comunidade da Ásia Oriental? Os bancos centrais, os europeus e os outros, podem agora colocar as

suas reservas – em alta! – em euros ou mesmo, imediatamente, revalorizar

o yuan chinês. Daqui a não muito tempo, pode haver uma moeda da Ásia

Oriental, por exemplo, uma cesta primeiro da Asean (Associação das Na- ções da Ásia e do Sudeste Asiático) + 3 (China, Japão, Coréia) – e depois + 4 (Índia). Embora o total das exportações da Índia nos últimos cinco anos subissem 73%, aquelas para a Asean cresceram o dobro dessa média e as para a China, seis vezes. A Índia se tornou um parceiro de primeira linha da Asean, o seu primeiro-ministro declarou que a Índia quer relações cada vez mais próximas com a Asean, e suas ambições se estendem mais para um EAC (Comunidade da Ásia Oriental) da Índia ao Japão (EPW). Não sem razão, em 1997, na crise da moeda da Ásia Oriental e, posteriormente, na crise econômica generalizada, o Tio Sam armou fortemente o Japão para

Apresentando o Tio Sam – sem roupas

91

não dar início à proposta de um fundo monetário da Ásia Oriental, que teria prevenido pelo menos o pior da crise econômica. Mas, atualmente,

o verdadeiro amigo do necessitado Tio Sam, a China, já está dando passos

na direção desse arranjo, só que em uma escala financeira e agora também econômica muito maior. No dia seguinte ao que escrevia isso, li no Economist (11-17 de dezem- bro 2004, p. 50) uma reportagem sobre o encontro de cúpula da semana anterior da Asean + 3 na Malásia. O seu primeiro-ministro anunciou que essa cúpula deveria estabelecer os fundamentos para uma Comunidade da Ásia Oriental (EAC) que “construiria uma área de livre-comércio, de

que trans-

De fato,

alguns destes esquemas estão já em andamento (

econômico e militar preeminente da região, sem dúvida dominaria (

a China, como poder

e

cooperação financeira, e assinaria um pacto de segurança ( formaria a Ásia Oriental em um bloco econômico coeso (

)

).

)

)

seria a anfitriã da segunda Cúpula da Ásia Oriental”. A matéria continua a lembrar que, em 1990, o Tio Sam derrubou uma iniciativa prévia por medo de perder sua influência na região. Agora a reportagem se intitula “Yankees

fiquem em casa”. Ou, tal como tudo passa, os exportadores de petróleo simplesmente deixam de fixar o seu preço em um dólar continuamente desvalorizado e, em vez disso, fazem uma casa da moeda ligando-se ao euro em alta e/

ou criando uma cesta de moedas da Ásia Oriental. Para que se ponham de acordo, para ainda estarem em condições de comprar petróleo, eles am- plamente diminuem a demanda mundial e o preço do dólar, obrigando qualquer um que queira comprar petróleo a comprar e aumentar o preço de demanda do euro ou do yen/yuan em vez de dólar. Isso levaria o dólar

à falência e faria o Tio Sam desabar em uma queda vertiginosa, na medi-

da em que os proprietários estrangeiros e mesmo domésticos de dólares também venderiam o máximo que pudessem e o mais rápido possível, e os bancos centrais dos outros países afastariam suas reservas do dólar no não mais seguro céu do Tio Sam. Isso derrubaria ainda mais o dólar, e, natu- ralmente, faria parar qualquer outro influxo de dólares para o Tio Sam por parte dos estrangeiros que estavam financiando a sua farra de consumo.

92

A América Latina e os desafios da globalização

Apresentando o Tio Sam – sem roupas

93

que vender petróleo por dólar declinante em vez de euro em elevação

mundial real de produtor > comerciante > consumidor, ainda que a base

é,

evidentemente, um mau negócio, os maiores exportadores mundiais na

financeira também forneça crédito para essas reais transações mundiais.

Rússia e na Opep têm considerado de fato fazer exatamente isso. Até agora,

E, se olharmos para o mundo como uma rosquinha frita (doughnut 6 ), ana-

muitos exportadores de petróleo e outros ainda colocam o seu montante acrescido de dólares com o Tio Sam, ainda que ele atualmente ofereça um céu bem menos atrativo e menos seguro, mas a Rússia está agora compran- do mais euros com alguns dos seus dólares. Assim, os bancos centrais de muitos países começaram a colocar uma boa parte das suas reservas em euro e em moedas diferentes do dólar do

logamente a tantas cidades no cinto enferrujado do Tio Sam, o centro está desamparado e oco, enquanto a produção e o consumo se moveram para os subúrbios próximos (na Detroit do automóvel, as janelas da principal loja de departamento de Hudson foram fechadas por anos, mesmo quan- do Detroit construiu um caro “Renaissance Center” para enobrecer nova- mente o seu centro urbano, um processo que “alcançou êxito” em algumas

Tio Sam. Agora, inclusive o melhor amigo de fato, o Banco Central da Chi- na, o maior amigo do Tio Sam precisado, começou a comprar alguns euros.

outras cidades). Uma General Motors Flint negligente nos foi apresentada por Michael Moore, que retratou isso (GM CEO) de “Roger and me” até

A

própria China também começou a usar alguns dos seus dólares – até

Fahrenheit 9-11”. Deveríamos olhar para todo o mundo em termos de ros-

onde eles ainda são aceitos – para comprar produtos reais de outros países asiáticos e toneladas de minério de ferro e aço do Brasil etc. Seu presidente recentemente levou uma enorme delegação comercial para China, e uma delegação chinesa foi à Argentina. Eles estão indo atrás do petróleo africa- no e também dos minerais sul-africanos.

quinhas fritas, com todo o Tio Sam colocado em um buraco vazio no meio, que não produz quase nada que possa vender no exterior. As principais ex- ceções são os produtos agrícolas e o material bélico, que são pesadamente subsidiados pelo governo do Tio Sam, subsídios originados dos pagadores de impostos e da impressão de dólar, e, mesmo assim, ele incorreu em um deficit orçamentário de mais de 600 bilhões de dólares em 2003.

Tio Sam e sua própria economia são o verdadeiro vazio de uma rosca Todos os esquemas Ponzi constroem uma pirâmide financeira. Muitos daqueles que depositam neles também vivem em um mundo financeiro, mas outros precisam derivar suas receitas a partir de ganhos da produção no mundo real. No mundo das transações financeiras de hoje, que a cada dia são cem vezes maiores do que todas a receitas de produtos e serviços reais juntos, as receitas financeiras colocam as receitas reais na sombra atrás do seu brilho. Além disso, para simplificar muito uma questão bastante com- plexa em uma linguagem humana mais inteligível, as opções, os derivati- vos, as trocas e outros instrumentos financeiros recentes foram bem mais longe, convertendo já os juros compostos nas reais propriedades em que o seu dinheiro apostado e as dívidas estão baseados, o que contribuiu para o crescimento espetacular desse mundo financeiro. No entanto, a pirâmi- de financeira que vemos em todo o seu esplendor e brilho, especialmente no seu centro, na casa do Tio Sam, ainda assenta no topo de uma base

A grande diferença dessa rosquinha frita que é o Tio Sam é que tanto

o orçamento quanto o deficit comercial de 600 bilhões de dólares são fi-

nanciados pelos estrangeiros, como já vimos. 7 O Tio Sam excluiria a maio- ria deles como pessoas, mas alegremente recebe os produtos reais que eles produzem. Na condição de consumidor mundial de último recurso, como

já afirmado, o Tio Sam realiza esta importante função na divisão político-

econômica internacional do trabalho: todos os demais produzem e preci- sam exportar, e o Tio Sam consome e precisa importar.

A falência do dólar desintegraria (desintegrará) essa rosquinha frita

político-econômica que envolve e organiza o mundo e lançaria centenas de milhões de pessoas, para não mencionar uma quantidade indetermina- da de dólares e seus possuidores, em uma desordem com conseqüências

6 Rosquinha de massa frita, geralmente recheada com geléia ou creme. (N.E.)

7 Dados para 2003. (N.E.)

94

A América Latina e os desafios da globalização

imprevistas e imprevisíveis. Muitas pessoas, no alto e no baixo pólo totê- mico mundial, têm um grande interesse em evitar isso, ainda que isso exija continuar a encher o vazio Tio Sam como um balão. Ou, para se referir a uma bem conhecida comparação, continuar a fingir que o Imperador Nu está vestido e mandar para ele algo para calçar. Isso também inclui a China, para quem uma revelação diante do Tio Sam seria uma sorte no infortúnio. Isso obrigaria a China a mudar o seu curso econômico-político e, em vez de entregar de graça os seus produtos ao Tio Sam, a transferir sua produção e seu consumo para dentro, para o seu pobre interior e para a vizinhança pró- xima da Ásia Oriental. Tudo isso podia e devia já estar sendo feito; quanto à transferência da produção e do consumo para os vizinhos próximos na Ásia, a China recentemente começou a fazê-lo, mas não para o seu interior. Então, o que acontecerá aos ricos no topo do esquema Ponzi do Tio Sam, quando a confiança dos bancos centrais mais pobres e dos exporta- dores de petróleo no meio se esgotar, e quando os pobres mais destituídos no mundo, confiantes ou não, não puderem mais, de fato, fazer os seus pagamentos? O esquema Ponzi do Conto do Vigário do Tio Sam viria – ou virá – a se despedaçar, como todos os outros esquemas anteriores, só que agora com um grande estrépito mundial. Isso, em última instância, derru- baria a demanda atual de consumo do Tio Sam para o tamanho mundial real e feriria muitos exportadores e produtores em todo o mundo. De fato, isso pode envolver uma reorganização fundamental da venda por atacado da economia política mundial agora liderada pelo Tio Sam.

O dólar tigre de papel coloca uma louca armadilha geopolítica 22 Naturalmente, a quebra do dólar poderia também, em um golpe cruel, eliminar, isto é, fazer desaparecer toda a dívida do Tio Sam. Com isso, essa quebra também faria, simultaneamente, todos os estrangeiros e os ricos norte-americanos perderem o total de seus ativos em dólar. Eles estão tentando desesperadamente salvar o máximo possível para não caírem na falência, isto é, para não ficarem sem dinheiro. Ou seja, eles estão tentando proteger o resto da sua capacidade de investimento em dólar, garantindo que o seu dólar viva mantendo a bomba de ar funcionando. Todo o negó-

Apresentando o Tio Sam – sem roupas

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cio de manter o esquema Ponzi do Tio Sam coloca a maior e a mais louca Armadilha-22 (Catch-22). Todos os outros argumentam por que isso deve ser resolvido. Mas a maneira da louca Armadilha-22 não precisa ser uma aterrissagem macia. Pode ser uma aterrissagem dura realmente. Essa dissolução do esquema Ponzi do Tio Sam será dispendiosa, e os maiores custos serão, como habi- tualmente ocorre, provavelmente descarregados sobre os mais pobres, que são os menos aptos a suportar esses custos, mas que são também os menos capazes de se protegerem contra a pressão de suportá-los. E a transição

historicamente necessária, a partir do mundo da rosquinha frita que o Tio Sam põe em movimento, pode mergulhar todo o mundo na maior depres- são de que se tem notícia. Somente a Ásia Oriental está em uma posição relativamente boa para se defender de ser arrastada – ou empurrada – para

o fundo, mas, mesmo assim, somente depois de pagar um alto preço por

essa transição – para si própria! Contudo, o mundo está enfrentando uma Armadilha-22 geopolítica

e militar global ainda mais louca. Ela permanece grandemente desconhe-

cida ou talvez incognoscível. Como o Tio Sam reagiria (ou reagirá) como um Tigre de Papel (dinheiro) que se encontra ferido por um colapso do Esquema Ponzi do Conto do Vigário a partir do qual ele e milhões de Tios Sams desconhecidos levaram uma boa vida? Ao compensar com menos pão e menos direitos civis, porém com mais atos “patrióticos” em casa, um Tio Sam mais chauvinista pode fornecer o circo da Terceira Guerra Mundial no exterior. Uma quebra do dólar puxará ardilosamente o tapete financeiro, e isso desencorajará suas vítimas estrangeiras a continuar pa- gando novas aventuras do Pentágono no exterior. Mas algumas guerras a mais poderiam ainda ser possíveis com as armas que ele ainda teria e com um outro deficit governamental keynesiano militar gasto em casa, também com as novas “pequenas” armas nucleares (nukes) que ele está fabricando para a ocasião. Esse poderia muito bem ser – horrivelmente – o custo para o mundo que são as políticas atuais para “defender a Liberdade e a Civilização”. A Superarmadilha-22 significa que quase ninguém, a não ser Osama Bin Laden, quer correr esse risco.

96

A América Latina e os desafios da globalização

Contudo, essa transição não seria (será?) historicamente nova. Lem- brem o quanto a transição custa para o Tio Sam? Uns 30 anos de guerra de 1914 a 1945, com a interposição da Segunda Grande Depressão em um século que custa 100 milhões de vidas perdidas na guerra, mais do que em toda a história prévia combinada do mundo, para não falar literalmente de (centenas?) milhões que sofreram e morreram de fome e doença. Ou a transição anterior para Major Bull britânico que custou as guerras napo- leônicas, a Grande Depressão de 1873-1895, o colonialismo e o semicolo- nialismo, para falar apenas de algumas coisas, e seus custos humanos. Este último custo coincidiu com as mais pronunciadas mudanças climáticas El Niño em dois séculos, mudanças que devastaram indianos, chineses e mui- tos outros pela fome. Mas essa fome foi em troca aumentada pelos poderes coloniais imperiais, que a usaram em vista dos seus próprios interesses, por exemplo, aumentando as exportações de trigo da Índia, especialmente du- rante os anos de fome. Os paralelismos com a atualidade, incluindo, de fato, novamente tirar vantagem de um século que, mais tarde, renovou um El Niño mais forte, são horríveis demais e geradores de uma culpa que dificil- mente alguém suportaria. Eles incluem o “ajuste estrutural” imposto pelo FMI do Tio Sam, que obriga os camponeses mexicanos a já ter comido o próprio cinto que o FMI quer que eles apertem ainda mais. Os três milhões de mortos, número que vem aumentando em Ruanda e Burundi, e depois alguns no Congo vizinho, vieram depois dos estrangulamentos impostos pelo FMI e do cancelamento, principalmente pelo Tio Sam, do Acordo do Café que tinha sustentado o seu preço para esses produtores. E agora, não somente desde o assassinato de Lumumba pela CIA e da ascensão de Ko- savubu em Katanga em 1961, mas, realmente, desde a reserva privada do Congo no século XIX pelo rei da Bélgica, temos lá o arrasto, a produção e a venda de ouro para o Fort Knox do Tio Sam, e agora também titânio, para que possamos nos comunicar através de telefones celulares móveis, dia- mantes certamente, e assim por diante. O Tio Sam também tirou vantagem de um outro forte evento do El Niño que devastou o Sudeste da Ásia, espe- cialmente a Indonésia, simultaneamente com a posterior crise financeira de 1997, que o Tio Sam deliberadamente desdobrou em uma depressão eco-

Apresentando o Tio Sam – sem roupas

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nômica. Ela foi tão grande que varreu o governo do presidente Suharto, que

o Tio Sam tinha instalado lá há 30 anos antes com um golpe da CIA contra

Sukarno, o pai popular da independência da Indonésia. Isso custou entre pelo menos meio e um milhão de vidas, que Suharto tirou diretamente, mais

a pobreza gerada pela infame “Máfia de Berkely”, que ele instalou para levar

ao chão a economia da Indonésia. Os paralelos com o passado incluem tam- bém a degradação ambiental e a transferência do dano ecológico dos ricos que os produziram para os pobres do Terceiro Mundo, que suportaram a sua maior carga. E, naturalmente, não podemos esquecer a Terceira Guerra Mundial (a terceira depois da segunda e travada no Terceiro Mundo), que Bush Pai começou contra o Iraque em 1991. (Ver o meu “A terceira guerra”.

<http://rrojasdatabank.info/agfrank/nato_kosovo/msg00080.html>.)

Contudo, há também outros no mundo que não experimentaram (ainda?) tudo o que se pode obter com a Armadilha-22. Calculadamente, logo antes da eleição do Tio Sam do ano 2004, um deles disse em alta voz em um programa de televisão para todo o mundo. Parece ter sido menos publicamente notado por seu principal destinatário, o Tio Sam, que deveria ter sido a parte mais interessada: pois não foi outro senão o próprio Bin Laden a anunciar que ele “iria arruinar o Tio Sam”. Em vista da cegueira deliberada do Tio Sam diante da instabilidade da base do seu mundo no exterior, um colapso tão maciço no exterior não pode ser mais difícil de arrumar do que era simplesmente derrubar o seu símbolo doméstico das Torres Gêmeas. O Pentágono é a maior economia planejada do mundo para transferir

a renda dos pobres para os ricos interna e externamente e para chantagear amigos e adversários a fazerem o mesmo. No entanto, de volta para a fazenda (back on the farm), como se diz no Texas, o que o próprio Tio Sam alegremente faz com as poupanças e o dinheiro ganhos com dificuldade no mundo? Os seus consumidores ainda os consomem demais, sem que os 99,9% deles saibam o que estão fazendo, já que dificilmente alguém diz isso para eles. E o governo do Tio Sam usa quase todo o seu aumento de centenas de bilhões de dólares no Pentágono. Esse dinheiro não é gasto para pagar os seus pobres soldados profissio-

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A América Latina e os desafios da globalização

nais que chegam, na sua maioria, de pequenas cidades rurais da América e agarram a única ocupação que podem obter, e se gasta menos ainda com

os infelizes reservistas. O complexo industrial-militar, contra o qual o general Eisenhower se

acautelara no seu discurso presidencial de despedida em 1958, está vivo e impetuoso, mais do que nunca sob a administração do “vice”-presidente Cheney e do seu secretário de Defesa Rumsfeld. 8 Com seus trabalhos de- sastradamente bem-executados, ambos estão sendo mantidos para um se- gundo mandato. Entre 1994 e a metade de 2003, o Pentágono do Tio Sam fez mais de 3.000 contratos avaliados em mais de 300 bilhões de dólares com 12 companhias militares privadas de Tio Sam, de 35 estimadas pelo New York Tribune, sendo as outras, pequenas, e oferecendo serviços merce- nários. Contudo, mais de 2.700 desses contratos foram dados a apenas duas companhias: para a Kellog Brown & Root, uma subsidiária da Halliburton

de Cheney, e para a Booz Allen Hamilton (Centro do Consórcio Interna-

cional de Jornalistas Investigativos para a Integridade Pública, citado em

Mafruza Khan e-mail, 16.8.2003). No Iraque, essas companhias militares privadas têm agora tantos mercenários quanto as tropas do Tio Sam e do

Reino Unido juntas. Mas, naturalmente, isso são somente “pequenas” bata- tas, já que o grosso do dinheiro do Pentágono Tio Sam o dirige para a com- pra de caros sistemas de armas dos únicos quatro maiores contratadores de “defesa” do Tio Sam e preferidos do vice-presidente Cheney da Halliburton.

O Tio Sam, então, usa essas armas unilateralmente para cingir as outras

armas pela ameaça armada e pela chantagem e, se isso não for o bastante,

invadir o mundo que forneceu primeiramente o dinheiro. Finalmente, o Tio Sam tem de fazer o que deve para manter o dinheiro entrando.

8 Secretário de defesa de Gerald Ford (1975-1977) e de George W. Bush (2001-2006). Rumsfeld, um dos principais ideólogos da invasão ao Iraque, foi substituído por Robert Gates, ex-diretor da CIA, em função da derrota do Partido Republicano nas eleições legislativas, em que desem- penhou papel significativo o rechaço da população à ocupação e à sua manutenção.

Apresentando o Tio Sam – sem roupas

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Dar suporte ao “encargo do homem branco” de defender a sua “civilização”: a lei do Ocidente é a lei do “Western Spaghetti” da vigilância do bando armado O unilateralismo do Tio Sam não o é tanto, por assim dizer, como freqüente e equivocadamente se supôs, solitário. Ele se proclama estar lu- tando pela “Liberdade” (de quem?, poderíamos perguntar) e “salvando a civilização”, como o presidente Bush do Tio Sam e sua mais eloqüente voz no Reino Unido, o ex-premiê Tony Blair, proclamavam diariamente. A sua maneira mais simples de “salvar” a civilização foi, simplesmente, abolir de um dia para o outro o precioso conjunto de leis internacionais para manter a paz, que o Ocidente levou séculos para desenvolver, reconhecidamente a partir dos seus próprios interesses imperiais. No entanto, isso era a única lei internacional e o melhor que tínhamos, que ao menos é muito melhor do que nada. Agora, a única “Lei do Ocidente” que permanece é de fato a lei do “Western Spaghetti”: a lei de vigilância do bando armado que, com ou sem um juiz conivente, toma a “lei” nas suas próprias mãos para formar um par- tido do linchamento. Eles vão atrás de quem, onde e quando lhes aprouver. Lamentavelmente, agora, no mundo real, os autoproclamados bandos ar- mados operam “fora da área”, em uma escala muito maior do que qualquer filme espaguete ocidental de ficção jamais poderia ter imaginado. Isso também significa estripar e paralisar a instituição das Nações Uni- das, que foi estabelecida para manter a paz, exceto quando o Tio Sam, de- pois de suas próprias guerras, recicla a ONU para recolher os pedaços que ele destruiu na Iugoslávia, no Afeganistão e agora no Iraque. Mas fazer isso significa também enganar, ameaçar, induzir, chantagear todos os outros – amigos e inimigos igualmente – para manter sua autoridade sobre qualquer problema, grande ou pequeno. Ele treinou todo um exército civil de fun- cionários para fazer isso. Desse modo, o Tio Sam “unilateralmente” atira o seu ainda aparente peso sobre todas as outras instituições internacionais que lidam com esforços, desde a agricultura e a aviação até a zoologia. O Tio Sam extorque reais favores unilaterais para si, através de suas relações bilaterais. Por isso, a Organização Mundial do Comércio morreu no nasce- douro. O Tio Sam agora prefere para si relações unilateralmente bilaterais,

100 A América Latina e os desafios da globalização

enquanto se isola progressivamente no plano internacional. Assim, ele pode exercer um poder de barganha militar, político e econômico ainda maior sobre qualquer uma das suas vítimas do que pode sobre todas ou ainda muitas delas nas instituições internacionais.

Apresentando o Tio Sam – sem roupas

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do que quando o Talibã o erradicou, representando um terço do produto interno bruto do Afeganistão, de acordo com o anúncio do novo presiden- te instalado pelo Tio Sam. No momento em que escrevo, o Tio Sam está

lançando uma renovada ofensiva militar contra o Talibã; mas já não se faz mais qualquer menção a Bin Laden. E agora o inocente Iraque é novamente

A

marcha orgulhosa do Tio Sam das montanhas de Montezuma

o

alvo e a vítima do Tio Sam. Quem será o próximo? O Irã? A Síria? – não

às

praias de Trípoli – no Panamá, duas vezes no Iraque, no Afeganistão

a

Líbia, que está agora obedientemente fazendo negócios de petróleo com

Quando essa barganha não é o bastante, o Tio Sam simplesmente ataca

o

Tio Sam; e também não a Coréia do Norte, que produz armas nucleares

e invade: a pequena Granada (população total de 300 mil habitantes); a Ni- carágua (com a ajuda do arquiinimigo Irã); o Panamá (sete mil civis mortos em uma noite para capturar apenas um homem, o antes amigo e aliado de Bush Pai, Noriega – há uma foto sorridente deles apertando as mãos); o Ira- que em 1991 (que foi inclusive uma especulação financeira, na medida em que o Tio Sam extorquiu mais dólares dos seus aliados para pagar a guerra do que ela efetivamente custava para ele! Mas o Iraque foi contaminado por urânio refinado do Tio Sam, o que aumentou o nascimento de pessoas de- feituosas por lá – e que acarretou a infame “síndrome da Guerra do Golfo” nas suas próprias tropas e na tropas britânicas, o que o Tio Sam negou e recusou admitir). Quanto menos dizer sobre a Somália, melhor. A Iugoslá- via foi atacada, em parte, para dar um exemplo sobre o que pode acontecer quando um Estado é fraco o bastante, alvo de abjeta desconfiança do Tio Sam e do seu FMI, quando pretende manter alguma propriedade estatal de importantes meios de produção e ainda fornecer proteção social do Es- tado do bem-estar para a sua população. Tal como ocorreu agora também na Bielo-Rússia, onde o Tio Sam tentou igualmente obter uma “mudança de regime”, mas a ação militar é mais difícil na fronteira da Rússia, salvo quando há um pacto, como contra o Afeganistão, ou se é comprado. Além disso, a Iugoslávia somente desistiu em 1999, depois de a Rússia retirar o seu apoio a ela, uma vez que o Tio Sam usou, com sucesso, a chantagem econômico-política e parcialmente a comprou em Berlim. O Afeganistão se tornou a vítima visada com a ajuda do Irã e da Rús- sia. Isto é, depois que o Tio Sam criou e patrocinou o governo Talibã que erradicou o ópio. Mas o Afeganistão “libertado” produz ainda mais ópio

para se proteger exatamente disso. Podemos ainda mencionar duas alternativas adicionais, desde que possíveis, anteriores à invasão. Uma é naturalmente patrocinar, organizar ou mesmo dar um coup d’État ou militar, do que a CIA tem uma orgulhosa recordação: Irã em 1953, Guatemala em 1954, Congo em 1960, Brasil em 1964, Guiana em 1964, Indonésia em 1964-1965, República Dominicana em 1965, Gana em 1966, Grécia em 1967, Camboja em 1970, Chile em 1973, Argentina em 1976, Bolívia sempre, Fiji em 1987, Nicarágua em 1990 pela “eleição” sob ameaça de continuar a Guerra dos Contras, Haiti sem- pre – contra o ex-fantoche do Tio Sam colocado lá em primeiro lugar, para citar alguns dos mais conhecidos (naturalmente, não na casa do Tio Sam). A outra alternativa, a dos atentados contra lideranças que desafiam seu poder, é mais conhecida e tentada várias vezes seguidas contra Fidel Castro em Cuba, com charutos explosivos e outras imaginativas “sujas arti- manhas” da CIA, todas fracassadas. Assim foi o bombardeamento da tenda do coronel Ghadafi, que acabou matando a sua filha. Mas podemos men- cionar uma tentativa bem-sucedida da CIA. Os japoneses queriam financiar e construir um canal-de-nível no Pa- namá. (O seu presidente Omar) Torrijos conversou com eles sobre isso, fato que muito aborreceu a Bechtel Corporation, cujo presidente era George Schultz, e o presidente do conselho, Casper Weinberger. Quando Carter perdeu a eleição para Reagan (e essa é uma interessante história de como isso ocorreu), Schultz chegou como secretário de Estado da Bechtel, e Weinberger veio da Bechtel para ser Secretário da Defesa. Ambos estavam extremamente furiosos com Torrijos – tentaram conseguir dele a renego-

102 A América Latina e os desafios da globalização

ciação do Tratado do Canal e que ele não falasse disso com os japoneses. Ele recusou firmemente. Torrijos era um homem surpreendente. Morreu em um estrepitoso desastre de avião, onde se encontrava um toca-fitas ligado a explosivos. Não tenho qualquer dúvida de que foi a CIA que o matou, e mais, muitos investigadores latino-americanos chegaram à mes- ma conclusão. 9 Torrijos tinha anteriormente assinado um tratado com o presidente Carter para entregar o Canal do Panamá ao – Panamá! Um simples exame também revela que ser um amigo político muito bom ou um instrumento do Tio Sam pode ainda ser muito arriscado. Este pode proferir a sua sen-

tença de morte política ou física ou o apunhalar pelas costas. Um sucessor de Torrijos está agora sentado em uma prisão do Tio Sam, depois de leal- mente servi-lo e sorrir em uma foto com George Bush (o pai). Mas a lista

é longa e vai pelo mundo todo, começando nos anos 1950 e 1960: Rhee na

Coréia; Diem no Vietnã; Trujillo na República Dominicana; Somoza na Nicarágua; virtualmente todos no Haiti, de Papa Doc e Baby Doc ao padre

Aristide, instalado por Clinton e removido por Bush; o xá do Irã – colocado

lá depois do coup da CIA em 1953 contra Mossadegh, depois que ele nacio-

nalizou o petróleo iraniano, e retirado quando a sua utilidade desapareceu;

o caso de Mobutu depois de três décadas no Zaire; de Saddam Hussein – o

próprio Rummy 10 foi vê-lo duas vezes na sua já prévia encarnação como

secretário de Defesa; de Milosevic da Iugoslávia – ele era o necessário e o confiável implementador do acordo de Dayton do Tio Sam na Bósnia; e,

é claro, do Talibã – o próprio Tio Sam formou-o e colocou-o a cargo do

Afeganistão; para não falar de Osama Bin Laden – ele também serviu o Tio Sam lá. (Não?) por acaso, um simples exame de fatos palmares revela que, se as “linhas de defesa” mencionadas fracassarem e o Tio Sam for à guerra, exceto para a pequena Granada, nem uma única linha ou qualquer ou- tra guerra do Tio Sam foi sempre ganha por sua força militar, a não ser

9 <http://www.democracynow.org/article.pl?sid=04/11/1526251>. 10 Ronald Rumsfeld, secretário de Defesa dos Estados Unidos durante os governos Gerald Ford (1975-1977) e Bush filho (2001-2006).

Apresentando o Tio Sam – sem roupas

103

a guerra no Pacífico contra o Japão. A Segunda Guerra Mundial foi ven-

cida na Europa, em Stalingrado, em 1943, pelas tropas russas que teriam chegado a Berlim, mesmo que o Tio Sam não tivesse chegado depois. A

Guerra da Coréia foi e continua sendo um beco sem saída. A guerra contra

o Vietnã foi perdida. A guerra contra a Iugoslávia foi “vencida” somente

quando os russos retiraram o seu apoio e apenas sete tanques iugoslavos e todos os seus aviões ficaram em Kosovo ilesos. Somente Kosovo e a infra- estrutura civil da Iugoslávia foram bombardeadas e feitas em pedaços, e o mais amplo ambiente dos Bálcãs poluído por neônio pelo uso continuado de urânio refinado do Tio Sam. A guerra contra o Afeganistão está sendo perdida, tal como também a guerra contra o Iraque, apesar do uso referido mais uma vez do urânio refinado, também outra vez com napalm, tal como no Vietnã, e gás.

A geopolítica muçulmana do Tio Sam e o plano do petróleo do “meio oriente” de Casablanca a Jacarta

Não obstante, o Tio Sam possui muitos outros planos militares geopo- líticos novamente em andamento. Para começar, ele já construiu 800 bases militares em todo o mundo e, especialmente, na “terra” rica em petróleo, o tabuleiro de xadrez global de Zbigniew Brzezinski (de Ziggy), para cercar

a China. O Pentágono deve também transferir 60% da frota submarina dos

Estados Unidos para o Pacífico Ocidental (de acordo com P. Jakob Förg:

j.foerg@msc-salzburg, de 12 de dezembro 2004, e-mail). Tudo isso para ser empregado no futuro, mas também na já atual influência política. Além disso, o presidente Bush do Tio Sam tem um novo “Plano para o Oriente Médio”, que agora se estende do Marrocos para além do Paquistão – para

a Indonésia muçulmana? O que esse plano exatamente envolve não está

claro ainda, mas a sociedade civil já está também abrindo caminho: a Yale University Press já lista o Paquistão entre os seus estudos sobre o “Oriente Médio”, e a Swissair tem o papel de estabelecer uma esteira que coloca Karachi, Dehli e Mumbai como suas destinações no “Oriente Médio”. O que está claro é que Israel deve permanecer como o Cavalo de Tróia político e militar do Tio Sam na região, o que sempre foi. Não importa que sejam os

104 A América Latina e os desafios da globalização

republicanos ou os democratas a dominarem em Washington, permanece

o papel de cão de caça de Israel para o Tio Sam na sua rica área petrolífera

de operação. Em troca, a segurança de Israel goza da proteção internacio- nal diplomática, política e militar do Tio Sam, em qualquer coisa, assim como recebe o apoio direto econômico e militar, sem o qual Israel não po- deria existir. Somente agora, o alcance regional atribuído e autoconferido de Israel pode se expandir, inclusive para mais longe, na medida em que os dois neoconservadores mencionados, altamente colocados no Pentágono,

foram inclusive lá operar um plano para o racista-chauvinista Partido Li- kud, agora no poder. 11 E o próprio Bush foi à África, especialmente à África Ocidental, para ver o seu petróleo. Nas Américas, o seu Plano “Colômbia” (ela tem petróleo também) foi estendido para toda a região andina (o Equador também exporta petróleo), mas ele tem ainda outro plano para a Amazônia (talvez algum petróleo possa ser achado lá e, nesse ínterim, ele constrói aí uma imensa base, su- postamente para a Nasa – a Agência Espacial Norte-Americana –, o que não é desconhecido, para utilizá-la em aventuras militares), um plano para “garantir” que o Banco Mundial socorra o maior depósito subterrâneo de água doce do mundo, nas Cachoeiras do Iguaçu, onde Brasil, Argentina

e Paraguai se encontram, e ele está já agora novamente treinando 40.000

militares latino-americanos nas bases internas do Tio Sam, e ele tem mais

meia dúzia delas fora da sua costa. Tudo isso é uma gigantesca base global, econômica, política e militar sobre a qual se pode manter o Esquema Ponzi financeiro do Conto do Vi- gário, e baratear duas vezes o preço para aqueles que acabam por possuir dólar, enquanto possam pagar por tudo com o dólar-papel feito em casa, o que, até agora, também mantém o negócio global de Ponzi. Não somente o Tio Sam precisa comprar cada vez mais petróleo, agora com o seu próprio dólar, mas talvez amanhã com euros ou yuan. Ele tam-

11 O Likud permaneceu no poder durante o governo do primeiro-ministro Ariel Sharon, entre 2001 e 2005. Em novembro de 2005, Sharon abandona o Likud, funda um novo partido, o Kadima, dissolve o parlamento e convoca novas eleições legislativas que consolidarão a lideran- ça do Kadima e de Ehud Olmert, que o substitui como primeiro-ministro. (N.E.)

Apresentando o Tio Sam – sem roupas

105

bém tenta se certificar de ter sua mão sobre qualquer torneira para contro- lar quem mais pode e, especialmente, quem não pode comprá-lo. Essa é a

razão por que podemos vê-lo tentando o controle político e financeiro do dólar das torneiras de petróleo, onde quer que ele ainda possa, uma pre- sença militar na Ásia Central, ou o seu poder militar para entrar no Iraque. Usá-lo como uma alavanca de controle e/ou para advertir seus vizinhos sobre o que pode acontecer a eles se eles não continuarem a concordar com

o Tio Sam. Felizmente para ele, a maior parte da Ásia Oriental e, especial- mente, a China também parecem que estão obrigadas a comprar o petróleo estrangeiro, mesmo se amanhã talvez não mais com dólar, mas com yen ou yuan. Por outro lado, é também verdadeiro que o maior vendedor de petró- leo do mundo é a Rússia, cujas torneiras permanecem fora do controle do Tio Sam. Mas, como poderia o Tio Sam continuar a pagar e manter todas essas audaciosas aventuras suas em Defesa da Liberdade com esse próprio dólar de papel – se ninguém o aceita mais? E por que alguém deveria?

A grande causa do Tio Sam no Iraque: dar seus 30 bilhões de dólares para Halliburton e outros Dos 18 bilhões de dólares que o Congresso do Tio Sam destinou para

a “reconstrução” do Iraque, não mais do que 388 milhões de dólares – ou

2,15% – desse dinheiro do Tio Sam tinham sido gastos. E somente 5 bi- lhões de dólares desse dinheiro tinham sido orçados pelo Tio Sam no Ira- que, na época em que o pró-cônsul Brenner do Tio Sam voltou para casa com a tarefa bem-cumprida. O Bom Tio achou que era melhor ter gastado 13 bilhões dos 20 bilhões de dólares dos fundos iraquianos. Isso era 65% do dinheiro iraquiano comparados com somente 2% do montante aproxima- damente equivalentes do dinheiro original do Tio Sam. Na época em que o novo governo iraquiano assumiu a direção de algumas tarefas do Tio Sam, que o colocou lá, eles descobriram que um total de 20 bilhões de dólares dos seus fundos tinham sido gastos, 11 bilhões das vendas de petróleo (In- ternational Herald Tribune). Como vieram? – podemos perguntar. Muito simples foi a resposta do funcionário financeiro “responsável”, o almirante Oliver do Tio Sam: “Eu sei que gastamos algum dinheiro do fundo (ira-

106 A América Latina e os desafios da globalização

quiano). Isso porque nós não tínhamos mais o dinheiro do Tio Sam” – do

qual havia simplesmente outros 17,5 bilhões não gastos. Deveríamos ima- ginar que o bom general tinha sido instruído em Clausewitz sobre a guerra

e ocorreu descobrir seu bom conselho de fazer a vítima conquistada pagar

por sua própria ocupação militar, nesse caso pelo Tio Sam. O representante iraquiano para o desembolso do fundo e o comitê de supervisão foram somente a uma das suas 43 reuniões; mas, por que se envolver com mais, quando a maioria dos gastos foi autorizada abso- lutamente sem qualquer reunião? Então, embora os fundos do Tio Sam tenham sido orçados para todo tipo de projetos, eles foram pagos pelos fundos iraquianos. Desses fundos, muitos gastos foram mesmo feitos sem qualquer contrato; em um único caso foram 1,4 bilhões de dólares. A maio- ria dos outros ocorreu sem qualquer concorrência múltipla, também não com uma proposta aberta. Os fundos do Tio Sam, por outro lado, conti- nuaram virtualmente sem gastos no Iraque. Talvez o almirante Oliver “não tivesse mais o dinheiro do Tio Sam” no Iraque porque este permaneceu com o Tio Sam em casa, em Washington; e se foi realmente desembolsado, simplesmente mudou de mãos e de contas bancárias exatamente lá. Além

do mais, isso é muito mais eficiente do que seria mandá-lo de um lado para

o outro, e uma parte dele não voltar. Isso nada mais é do que aquilo que o

Tio Sam faz com o Terceiro Mundo: empresta ou mesmo “dá” a esses países, justamente com o intuito de deixar os dólares em casa, a quem ele pertence

e para onde deverá retornar de uma maneira ou de outra. Mas isso não im-

porta, o Congresso do Tio Sam já havia se apropriado de outros 30 bilhões de dólares para “preparar a transição para as eleições” que ocorreram no Iraque em janeiro de 2005.

Sendo esse o caso, seria, naturalmente, de todo indesejável que os fun- dos do Iraque, deixado o Tio Sam livre, fossem esbanjados em qualquer serviço da velha dívida externa do Iraque com outros. Essa era, de fato, a ló- gica para os fortes aliados que não podem já remediar a perdida dívida do Tio Sam para com eles, e também perdoar a dívida iraquiana. Isto é, como podemos lembrar do que foi dito, embora o Tio Sam ainda insista em que

o resto do Terceiro Mundo deva continuar a manter em dia suas dívidas

Apresentando o Tio Sam – sem roupas

107

para com ele! Deus nos livre de que qualquer novo pagamento da dívida do Iraque fosse para aqueles russos irreligiosos, franceses traidores ou mesmo para os melhores amigos chineses, que mais investiram no Iraque, o que é, antes de tudo, uma coisa covarde de fazer, quando o Tio Sam tem muito mais valiosas causas para o dinheiro iraquiano. Mas podemos perguntar: quais são essas mais altamente valiosas cau- sas do Tio Sam? O maior único pagamento de 1,4 bilhões de dólares foi naturalmente para a mesma Halliburton do vice-presidente Cheney. Con- tudo, sabemos agora que, ao mesmo tempo, ele estava também trapace- ando lateralmente, inclusive contra o seu generoso benfeitor Tio Sam, em outras centenas de milhões de dólares, comprando petróleo por dólares no Kwait e vendendo-o no Iraque a um preço de cinco a 10 vezes maior, além de outras fraudes dissimuladas. No todo, a Halliburton obteve os contratos do Iraque por um descarado de 10 bilhões de dólares – mais o troco (In- ternational Herald Tribune). (Cheney também tem interesse na Unocal, 12 que há muito tem desejado construir um oleoduto da Ásia Central ao Oce- ano Índico através do Afeganistão, primeiramente com a ajuda do Talibã,

a quem o Tio Sam tinha posto a cargo exatamente com esse propósito e

a quem depois ele convidou para o Texas para conversações, embora eles

ainda parecessem estar fazendo o trabalho que lhes foi atribuído. De fato,

eles também visitaram inocentemente a equipe da “pesquisa acadêmica” afegã na Universidade de Nebraska em Omaha. Mas, que pena, o Talibã não estava cumprindo a tarefa que lhe foi conferida de manter a ordem para a construção do oleoduto, por isso tinha de ser afastado. Agora o Tio Sam e Unocal usariam, em vez disso, os bons ofícios do novo presidente do Afeganistão e do embaixador do Tio Sam lá, “ocorrendo” ambos serem justamente as primeiras (?) pessoas da Unocal.)

12 A Unocal é uma empresa petrolífera da Califórnia, fundada em 1890 e incorporada pela Chevron em 2005, empresa da qual Condoleeza Rice foi diretora entre 1991-2001, e com quem a Halliburton tem contratos multimilionários.

108 A América Latina e os desafios da globalização

A “Medalha de Liberdade” do Tio Sam para Brenner, Franks, Tenet – por uma tarefa bem feita de roubar o Iraque em benefício de Cheney e de outros Sem sombra de dúvidas, a maior parte dos outros abundantes dólares

iraquianos e até agora esparsos do Tio Sam, gastos no Iraque, foram para as mãos de outro amigo íntimo do Tio Sam. Algumas migalhas caídas da mesa para corporações do Reino Unido e mesmo para indivíduos privados

e militares que tinham seus dedos na caixa registradora. Que pena, nunca

saberemos quem são eles; já que, conforme o inspetor-geral do Tio Sam, “eu estava candidamente não interessado em ter auditores militares porque achava que tínhamos de penetrar sorrateiramente no sistema iraquiano tão rapidamente quanto possível”. Francamente, não sendo eu um militar e na condição de um anti-militarista, eu próprio não li Clausewitz. Então, não sei que bom conselho que ele dá em confiar na corrupção como sendo o primeiro princípio para cortar e dividir o bolo conquistado. Toda esta minha “especulação” foi escrita antes de o Conselho Con- sultivo e de Monitoramento para o Desenvolvimento das Nações Unidas no Iraque (International Advisory and Monitoring Board for Development

in Iraq) ter publicado um relatório das suas investigações sobre a adminis- tração do Tio Sam. Depois que conseguimos o relatório, devemos ter em mente que o FT observa diplomaticamente que “as Nações Unidas têm se mostrado relutantes em incumbir publicamente o Tio Sam dos seus gastos dos fundos iraquianos”. O FT cita diretamente do relatório: “Houve fraque-

zas de controle (

gular de acordo sobre procedimentos contratuais e observância de registro inadequada.” O International Herald Tribune também faz o seu próprio re-

sumo do mesmo relatório: “Houve amplas irregularidades, incluindo má

administração financeira, falha em cortar o contrabando (saída do petróleo

e de outras propriedades físicas iraquianas; ninguém sabe a que preço e

para benefício de quem) e dependência excessiva de contratos não declara- dos.” O FT, por seu turno, oferece um traço específico a mais do relatório:

“Particularmente importantes (

de dólares que foram conferidos às companhias do Tio Sam, tais como a

foram os contratos de às vezes bilhões

)

sistemas de contabilidade inadequados, aplicação irre-

)

Apresentando o Tio Sam – sem roupas

109

Halliburton, saídos dos fundos iraquianos sem proposta de concorrência.” Ontem, o presidente Bush do Tio Sam deu o certificado mais elevado do Tio Sam, a Medalha de Liberdade, para L. Paul Bremer III, o pró-cônsul civil do Tio Sam que examinou isso tudo, e para o general Tommy Franks, que, principalmente, conduziu a invasão que tornou tudo isso possível. George Tenet, o diretor da CIA que forneceu toda a informação adulterada de Tio Sam para “legitimar” todo o seu empreendimento que ele iria come- çar e que foi, desde então, desacreditado e forçado a renunciar, também não foi esquecido e recebeu o terceiro prêmio. O International Herald Tribune publicou uma fotografia cerimonial de todos três sorrindo com George W. Bush, que estava sorrindo também. Enfim, esse é o reconhecimento devido por um trabalho bem-feito. Graças a vocês, podemos descansar seguros como aqueles que estão a serviço da “Liberdade” (para quem e o quê?, podemos perguntar).

Em conclusão: Tio George W. Sam diz que o único direito dos nos- sos rapazes é colocar suas vidas em jogo para proteger a liberdade de a Halliburton roubar o Iraque. Podemos estar seguros de que os outros que têm suas mãos na caixa registradora e na sarjeta estão entre aqueles a quem, podemos lembrar, o Doutor Greenspan do Federal Reserve rotulou como sendo os 20% ganha- dores superiores de renda do Tio Sam. Eles são os maiores superconsumi- dores privilegiados, que são totalmente (ir)responsáveis pela subpoupança do Tio Sam, disse ele, e também pelo crescente deficit comercial, o qual o Doutor recentemente lamentou em Berlim. Se examinarmos a distribui- ção de renda do Tio Sam um pouco mais, poderemos bem aprender que, entre esses 20%, a parte do leão desses dólares, como a maior parte dele do Pentágono, termina nos bolsos dos 2% superiores mais superprivilegia- dos, na medida em que eles podem superconsumir ainda mais da nata da terra. Quem negaria a eles que isso é seguramente uma causa valiosa para a proteção da Liberdade a qualquer preço? Isso inclui o convite (in)fame do presidente Bush para os iraquianos “deixá-los vir para o Tio Sam”. É difícil compreender o presidente quando ele incentiva os iraquianos “a vir”

110 A América Latina e os desafios da globalização

quando eles estão já em casa no Iraque e quando foi o próprio Tio Sam que mandou suas tropas para lá. Mas talvez Faluja explique o que o presidente tinha em mente sobre os iraquianos “virem” para o Tio Sam. Mas, como o próprio presidente Bush do Tio Sam disse ao mundo, é um direito exclu-

sivo “nosso” excluirmos os outros países da sarjeta e da caixa registradora no Iraque. Afinal, ele explicou que, quando os iraquianos aceitaram o seu convite, foram “os nossos rapazes que puseram suas vida em jogo”. Eu de- sejaria que a personificação do Tio Sam tenha também explicado para que

e para quem. Os poucos números que não estão geralmente disponíveis, ou no cita- do FT de 10 e 15 de dezembro de 2004 e em outras fontes, como o Interna- tional Herald Tribune, também de 15 de dezembro, e o Economic and Politi- cal Weekly (Mumbai: 4 de dezembro de 2004, p. 5.189) são de “A economia

de imperialismo do Tio Sam na virada do século XXI”, de Gerard Dumenil & Dominique Levy, na Review of International Political Economy, 11 de 4 de outubro de 2004, p. 657-676. O autor ficou agradecido a eles em Paris, a Jeffrey Sommers em Riga, William Engdahl em Frankfurt e Mark Weisbrot em Washington por seus úteis e muito usados comentários do Tio. Barry Gills em Newcastle insistiu em que eu me refiro apenas a Tio Sam e propôs

a divisão do trabalho mundial entre os consumidores e produtores do Tio

Sam em todo lugar e me referiu a Clausewitz. Os leitores serão mais gratos

a Arlene Hohnstock por ter tornado tudo isso um conto legível. Natural-

mente, nenhum deles tem qualquer responsabilidade pelo uso da forma rosquinha frita (doughnut) que eu fiz deles. Muito mais das minhas – atra- vés dos olhos deste menininho – observações podem ser encontradas no meu website em <rrojasdatabank.info/agfrank/new_world_order.html> e <http://rrojasdatabank.info/agfrank/online.html#current>.

111

Neo-imperialismo, dependência e novas periferias na economia mundial

Adrián Sotelo Valencia*

Introdução O presente ensaio 1 pretende ser uma modesta contribuição ao co- nhecimento da nova configuração histórico-estrutural da dependência e do subdesenvolvimento no contexto do sistema capitalista globalizado. Ele parte da avaliação da teoria da dependência no seu filão marxista no século XXI, assim como das inestimáveis contribuições teóricas, metodológicas e políticas que no seu desenvolvimento trouxe Ruy Mauro Marini, a quem agora rendemos homenagem neste livro. O trabalho se divide em quatro partes. A primeira trata da lei do valor e da superexploração do trabalho; a segunda versa sobre o contexto estru- tural e histórico do surgimento das novas periferias; a terceira se situa na análise da política de deslocamento de empresas européias para os países do ex-bloco socialista; finalmente, a quarta parte reflete sobre o impacto da tendência que essa nova divisão internacional do trabalho e do capital acarreta para as economias dependentes da América Latina.

* Sociólogo, professor titular do Centro de Estudios Latinoamericanos da Universidade Nacional Autônoma do México (Cela/Unam). Um dos principais assistentes de Ruy Mauro Marini nos anos 1970-80, é autor de vários livros e dezenas de artigos em várias línguas. 1 Este trabalho constitui parte de um projeto de pesquisa sobre as novas periferias que chega- ram à economia mundial depois da queda da União Soviética e do bloco socialista na Europa Oriental no final da década de 1980. Nele, faço uma avaliação do seu impacto tanto nas velhas periferias dependentes da América Latina como particularmente no mundo do trabalho e nas suas projeções de futuro.

112 A América Latina e os desafios da globalização

1. Premissa teórica: duas hipóteses e um resultado A hipótese central com que lidamos neste ensaio é a de que a base material, política e econômica da globalização do sistema capitalista con- temporâneo é a lei do valor e a sua generalização para o conjunto do sis- tema econômico. Além disso, como segunda hipótese, depreende-se que o regime de superexploração do trabalho, que Marini circunscreveu no seu livro Dialética da dependência basicamente às economias subdesenvolvidas e dependentes da periferia do capitalismo, começa a se estender significa- tivamente aos países desenvolvidos, embora com formas particulares, nas suas novas periferias surgidas no bojo da desintegração do bloco socialista. Esta última proposta, objeto de estudo deste ensaio, é causa de debates e de reflexão. No entanto, ela encontra respaldo no pensamento de Marini, particularmente no texto publicado no meio de um trabalho coletivo (cf. Marini, 2000, p. 48-68. In: Marini & Millán, v. IV, 2000), no qual ele resume as seguintes formulações:

1 a ) A economia mundial capitalista entrou em uma nova fase carac- terizada pela progressiva diminuição das fronteiras econômicas nacionais (globalização), para se estender a mercados cada vez mais amplos e com- plexos, o que produziu uma intensificação da concorrência intercapitalista entre as grandes empresas, com o intuito de obter aqueles lucros extra- ordinários que são o verdadeiro motor do desenvolvimento histórico do capitalismo. 2 a ) Nesse contexto, foi gerada uma tendência caracterizada pelo fato de que a difusão tecnológica tende a padronizar as mercadorias para faci- litar o seu intercâmbio em escala global que, com o passar do tempo, (a) provocou (como tendência) a homogeneização dos processos produtivos; (b) a igualação da produtividade do trabalho e, concomitantemente, da sua intensidade. Das afirmações anteriores, Marini conclui que (c)

paralelamente, o notável avanço alcançado em matéria de informação e comunicação proporciona uma base muito mais firme do que antes para conhecer as condições da produção e, portanto, para estabelecer os preços relativos. O mercado mundial, pelo menos nos seus setores produtivos mais

Neo-imperialismo, dependência e novas periferias na economia mundial

113

integrados, caminha assim no sentido de nivelar de maneira cada vez mais efetiva os valores e, tendencialmente, de suprimir as diferenças nacionais que afetam a vigência da lei do valor. (Marini, 2000, p. 64; grifo meu)

3 a ) Além disso, a introdução e a aplicação de nova tecnologia trazem como resultado a extensão do desemprego e do subemprego, o que provoca um aumento da exploração dos trabalhadores ocupados, através do aumento da jornada de trabalho, de sua intensificação, assim como da remuneração da força de trabalho abaixo do seu valor, elementos que hoje são avaliados praticamente na maior parte das estruturas produtivas do mundo. 4 a ) Dessa forma, conclui Marini: “generaliza-se em todo o sistema, in- clusive nos centros avançados, o que era um traço distintivo (ainda não operativo) da economia dependente: a superexploração generalizada do trabalho” (2000, p. 65). Tão importante e simbólica é essa extensão da superexploração em escala planetária, que autores como Hardt & Negri reconhecem que: “é pre- ciso ser geógrafo para traçar o mapa topográfico da exploração” (2004, p. 195), sem menoscabo de sustentar posturas pós-modernistas muito pró- ximas do neoliberalismo (desses autores, ver seus livros Império, 2002, e Multidão, 2004). E no mesmo sentido se expressa Ulrich Beck quando, ao afirmar a existência da sociedade do risco na Europa avançada, do capital e das corporações, diz também que

quanto mais as relações de trabalho são “desregulamentadas” e “flexibili- zadas”, mais rapidamente se transforma a sociedade laboral em uma socie-

a insegurança endêmica será o traço que caracterizará

no futuro o modo de vida da maioria dos homens, inclusive das camadas médias, aparentemente bem situadas! (2000, p. 11)

dade de risco (

)

A extensão da lei do valor e do regime de superexploração do trabalho está moldando a nova fisionomia que as estruturas produtivas e as socie- dades do século XXI terão de adotar. Os trabalhadores – que continuam existindo produzindo valor, mais-valia e lucros para o capital, apesar das

114 A América Latina e os desafios da globalização

evidentes mudanças das estruturas e das formas organizativas de tipo flexí-

veis do mundo do trabalho – inserem-se nessa nova conjuntura com orga- nizações sindicais e políticas fracas, situação que possibilitou a saraivada de golpes sistemáticos desfechados pelo neoliberalismo em todo o mundo no curso das duas últimas décadas do século XX. Isso, juntamente com o ciclo de crise e recuperação capitalista, contribuiu para introduzir o regime de superexploração do trabalho nos centros dos países avançados e em suas respectivas periferias “endógenas”.

O esquema que Wallerstein elaborou na sua teoria do moderno siste-

ma mundial, baseado na existência de centros, periferias e semiperiferias, diversifica-se com as novas periferias surgidas da transição do socialismo para o capitalismo na Europa Oriental na última década do século passado. Hoje, essa nova divisão internacional do trabalho está redefinindo e pres- sionando as antigas periferias dependentes da América Latina para ado- tarem mudanças de ordem econômica, produtiva e trabalhista de acordo com a (nova) lógica da mundialização do capital, caracterizada pela simul- taneidade dos seus ciclos econômicos (produção-circulação-produção) e pelo predomínio do neo-imperialismo como forma dominante do modo de produção.

O mundo do trabalho e os seus protagonistas, os trabalhadores, terão

de travar suas lutas em torno da restituição de suas condições de vida e de trabalho, que o capitalismo neoliberal lhes arrebatou através da imposição

da desregulação e da flexibilização do trabalho. Estes últimos regimes, que abrem totalmente as portas da superexploração do trabalho, são essenciais para a sobrevivência do capitalismo como modo de produção e de explo- ração universal.

2. Contexto histórico-estrutural do surgimento das novas periferias

A desintegração da União Soviética no final do século XX desenca-

deou uma série de acontecimentos e transformações econômicas e políticas que estimularam, entre outros processos, a formação de novas periferias na economia internacional capitalista em crise sistêmica. Ao ficarem vincu- lados à dinâmica da acumulação e da centralização do capital dos centros

Neo-imperialismo, dependência e novas periferias na economia mundial

115

dos países imperialistas da União Européia – Alemanha e França, princi- palmente – e dos Estados Unidos, assim como à influência de empresas transnacionais, como a Siemens ou a Volkswagen, os países e economias anteriormente do bloco comunista, incorretamente chamados “em transi- ção”, transformaram-se em autênticas plataformas produtoras e importa- doras de mercadorias e de serviços estrangeiros com muito baixos salários, altos índices de exploração do trabalho e intensos ritmos de atividade. Fenômenos como a globalização do capital, a reestruturação produtiva

e tecnológica, a concorrência muito aguda entre países e empresas capita-

listas em escala mundial, a concentração e centralização de ativos, capital

e tecnologia na esfera dos circuitos de acumulação do G-7, o enorme e

crescente desemprego, assim como a dinâmica própria do ciclo da crise capitalista, estão provocando a transformação paulatina, mas iminente, das

velhas periferias dependentes e subdesenvolvidas que se constituíram his- toricamente desde meados do século XIX na América Latina e no Caribe (Marini, 1973; Halperin, 1993). Como está amplamente documentado pela análise socioeconômica

e a ciência histórica, essas periferias em boa medida foram responsáveis

pela expansão capitalista durante todo o século XX. Entre outros efeitos desses processos de expansão-destruição capitalista das novas periferias surgidas do desastre dos sistemas socialistas, figura o fenômeno que Jorge Isaac (2004, p. 168) caracteriza como um “severo processo de esvaziamento produtivo do espaço econômico”, quando estuda o caso mexicano, mas que pode ser estendido muito bem ao conjunto da periferia latino-americana, concomitantemente ao ascendente processo de desindustrialização de amplas regiões, países e localidades da periferia do centro capitalista (Sotelo, 2004). Em virtude da instauração de relações político-econômicas de domi- nação e de dependência entre o centro e a periferia, os países dependentes desempenharam o papel predominante como produtores de matérias-pri- mas e alimentos para abastecer a crescente demanda dos centros imperiais, sendo ao mesmo tempo veículo para acelerar a passagem do eixo de acu- mulação de capital da produção da mais-valia absoluta para a produção da

116 A América Latina e os desafios da globalização

mais-valia relativa (e depois para a articulação dessas duas categorias em condições histórico-concretas de produção) nas economias dos países im- perialistas (Marini, 1973, p. 23 e segs.; Martins, 1999, p. 121-138). Em meados do século XVIII, essa articulação virtuosa, entre outros fenômenos, desencadeou a primeira revolução industrial na Inglaterra, que mais tarde se estendeu aos principais países mais desenvolvidos da Europa Ocidental e, posteriormente, aos Estados Unidos e ao Japão, sob a forma de fordismo, pós-fordismo e taylorismo flexíveis. Com a generalização do sistema industrial e produtivo no curso do século XX e, particularmente, depois da Segunda Guerra Mundial, os países da América Latina e outros do Terceiro Mundo conseguiram desenvolver suas forças produtivas, instaurar alguns segmentos da indústria, primeiro leve e depois pesada – especialmente de produção de meios de produção –,

e, ao mesmo tempo, adotar e desenvolver nichos de produção e de mercado

de tecnologia de ponta. Esse foi o caso do Brasil, do México e de outros como

a Coréia do Sul no curso da década de 1970, quando se desencadearam os

processos de substituição de importações e quando, neste último, o Estado impulsionou as exportações. Mas na década seguinte foi imposto o padrão de acumulação de capital de matiz neoliberal e desindustrializador (Sotelo, 2004), ao lado do influxo das políticas de ajuste estrutural do neoliberalis- mo. Na década seguinte, esse processo seria completado em escala universal, particularmente depois do Tratado de Maastricht (1992) na Europa, quando deu início o processo de desmoronamento do Estado de bem-estar.

) (

trodução do euro e estendiam o mercado único. A ampliação para os novos Estados-membros da Europa Central levou este processo adiante, ao exercer uma pressão externa sobre os salários e os direitos trabalhistas com a chan- tagem dos deslocamentos. A precariedade e a concorrência desregulada

sob o golpe de políticas econômicas neoliberais que preparavam a in-

com os trabalhadores emigrantes estão sendo a última fase deste processo, que não somente está reestruturando a própria composição da classe operá- ria européia, mas também as suas identidades e as suas lealdades políticas. (Búster, 30 de maio de 2005)

Neo-imperialismo, dependência e novas periferias na economia mundial

117

A pressão que a política de unificação exerce de cima por parte das

burguesias européias a partir de Bruxelas aponta nesta direção: tornar precário o mundo do trabalho, flexibilizá-lo, pressionar os salários para baixo e estender o regime de superexploração do trabalho ao conjunto das classes operárias dos países da União Européia. Sobre essas tendências, pressiona a crise capitalista, que agora, com o recente “não” e a rejeição majoritária (55% do total de votos) dados pela cidadania francesa à Cons- tituição da União Européia (29 de março de 2005), assim como com o “não” no mesmo sentido dos holandeses em uma proporção de 62% do padrão nacional, engendra, além disso, uma crise de legitimidade do pro- jeto neoliberal nessa região. Ambas as crises possuem raízes estruturais e subjetivas, como postula Búster (30 de maio de 2005), quando afirma que:

O processo de reestruturação neoliberal da economia européia, iniciado na sua fase atual com o Tratado de Maastricht, responde e agrava por sua vez um já baixo nível de crescimento econômico e da capacidade de concorrer na economia global com os Estados Unidos e o Japão. De acordo com este autor, o mecanicismo que o capital europeu encontrou desde os anos 1990 para contrabalançar a queda da taxa de lucro que, entre outros fatores, resulta do baixo crescimento da produtividade da economia européia e que, por sua vez, segue o fraco investimento em tecnologia, é o “aumento da exploração do trabalho, ou diretamente reduzindo salários e aumentando as horas de trabalho, ou desmantelando o chamado ‘modelo social europeu’”. (Búster, 30 de maio de 2005)

À lógica neoliberal mercantilista, que restringe os países latino-ame-

ricanos a estas duas funções: abastecimento de matérias-primas para os centros industrializados e transferências de valor e de mais-valia exclu- sivamente em benefício destes, deve-se acrescentar a função de ter-se constituído em exportadores de mão-de-obra – principalmente para os Estados Unidos – e em plataformas de transformação do capital produtivo em capital fictício, entendido este como o conjunto dos “meios de circulação

118 A América Latina e os desafios da globalização

imaginários”, como na sua época J. W. Bosanquet o denominou. 2 Claro e evidentemente, trata-se da especulação que hoje representa uma das ca- racterísticas da economia capitalista mundial. O fato realmente importante aqui é que o capital fictício serve para reciclar o capital de maneira rentável para os países industrializados e informatizados do sistema neo-imperia- lista, provocando, em contrapartida, um crescente endividamento externo na maior parte dos países latino-americanos, que, por essa via circular e contraditória, mantêm-se prostrados diante dos organismos financeiros e monetários internacionais. Uma quarta função complementar do neoliberalismo pode ser obser- vada nas mudanças que se deram na configuração da economia mundial e na divisão internacional do trabalho, sintetizadas na nova mudança da função histórica do subdesenvolvimento, que indica que “este deixou de ser um desenvolvimento subordinado, caótico-elitista, complementar às necessidades dos países centrais, para se transformar em depredação das forças produtivas, aniquilamento de populações” (Beinstein, 9 de agosto de 2004). Para grandes partes da África, da Ásia e da América Latina, o surgi- mento das novas periferias nos centros imperiais e sua possível expansão como espaços consolidados de superexploração do trabalho e de produção de valor, como pilares da globalização do capital, representam enormes de- safios e grandes problemas para as populações e os trabalhadores dessas regiões. Eles terão de enfrentar fortes desvalorizações de suas economias, de suas exportações e sobretudo de seus salários e rendas, com todas as conseqüências sociais e políticas que isso representa. Entre outros efeitos desastrosos na ordem social e cultural para as po- pulações desses países e regiões, destaca-se o fato de que os Objetivos do Desenvolvimento da ONU para o Milênio, que foram estabelecidos expli- citamente pelas Nações Unidas (a respeito disso, ver na Internet: <http:// www.un.org/spanish/milleniumgoalsl>) e com os quais ela presume reduzir

2 Metalic, paper and credit currency. Londres, 1842. Apud Marx. O capital. México: FCE, 2000. t. 3, cap. XXV, p. 382.

Neo-imperialismo, dependência e novas periferias na economia mundial

119

em 50% o nível de pobreza no mundo para 2015, simplesmente não serão cumpridos, ou melhor, praticamente ficarão postergados indefinidamente devido aos efeitos e à lógica perversa da aplicação das políticas microeco- nômicas e macroeconômicas do neoliberalismo. Essas dimensões (queda da rentabilidade, deterioração crescente e constante dos preços dos produtos de exportação e contração da demanda interna pelo influxo da diminuição geral das rendas da sociedade) consti- tuem a contrapartida perversa das exigências das grandes empresas trans- nacionais e dos Estados imperialistas, para se decidirem investir nos países da periferia do capitalismo dominante. Como estímulo dessas transformações, figuram a revolução tecnoló- gica e a sua monopolização nesses Estados e empresas, e ainda as determi- nações econômicas e políticas que o capital financeiro (fictício) acarreta na

dinâmica das economias dependentes, entre outras coisas, que provocam graves e recorrentes crises estruturais e financeiras e ciclos de desacumulação de capital (desindustrialização); transferência de valor e de mais-valia a que se vêem submetidas as economias subdesenvolvidas para poder continuar sendo “sujeitos de crédito” dos organismos internacionais do Fundo Mone- tário Internacional e do Banco Mundial; a dinâmica e o ciclo das migrações maciças de força de trabalho dos países dependentes aos desenvolvidos, que atualmente se transformaram em peças-chave do padrão de acumula- ção capitalista dependente neoliberal; e as pressões e ameaças imperialistas de utilização da força militar, quando esta se transforma na última garantia de manutenção da ordem imperialista imposta pela supremacia militar dos Estados Unidos, como de resto exemplarmente indica a situação de ataque

e ocupação de países pobres como o Afeganistão e o Iraque por tropas de

intervenção norte-americanas. Nos últimos anos, as políticas do capital, a reestruturação produtiva e

a força desagregadora do capitalismo financeiro de matiz especulativo, com

sua onda de bolhas financeiras, provocaram o surgimento de um conjunto de fenômenos que podem ser resumidos em três vertentes: a desregulação do trabalho, a implementação da flexibilidade do trabalho e, finalmente, o fenômeno conhecido e detectado pelos trabalhadores e estudiosos de pers-

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pectiva crítica concernente à precarização do trabalho. Esses três elementos articulados constituem um novo regime que, de maneira progressiva, ten- dencial e inexorável – na medida em que não seja contrabalançado pelas lutas dos trabalhadores e da sociedade – está se impondo praticamente em todo o mundo e em todas as dimensões das relações sociais e humanas: nas fábricas, nas oficinas, na indústria, nas localidades, regiões e países, assim como na vida cotidiana, que cada vez mais fica exposta às vicissitudes que marcam e sobredeterminam a lógica do capital na sua vertente neoliberal e mercantilista. A queda da União Soviética no final da década de 1980, no sécu- lo passado, acontecimento que, diga-se de passagem, ficou marcado na mundialização do capital e na confirmação dos Estados Unidos como neo-imperialismo unilateralista; a derrota dos levantes revolucionários na América Central; a arremetida imperialista através do decálogo do Con- senso de Washington e de suas políticas neoliberais; a implementação da democratização formal dos regimes políticos ditatoriais latino-america- nos a partir de meados da década de 1980; o início da guerra preventiva dos Estados Unidos depois da primeira Guerra do Golfo, em 1991, são fenômenos que, da perspectiva da sociologia crítica e da economia políti- ca marxista, abriram novos mercados e ampliaram o raio de ação da acu- mulação e reprodução do capital em escala planetária, para tentar resolver de maneira duradoura os graves problemas de acumulação e reprodução de capital e produção de lucros extraordinários que se apresentaram no período anterior. Explica-se, assim, nesse contexto, que as “novas áreas liberadas”, tal como as pertencentes ao velho sistema estatal-socialista e planificado que existiu na Europa Oriental até o final da década de 1980, no contexto da formação da União Européia, estejam se abrindo e se configurando como novas periferias no contexto e no espaço econômico-político e territorial dos centros capitalistas imperiais. Isso assinala enormes reptos e desafios (teóricos, metodológicos, analíticos e políticos) para as velhas zonas sub- desenvolvidas e dependentes da periferia do capitalismo desenvolvido, particularmente em função do mundo do trabalho, das migrações e re-

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messas (exportação de força de trabalho) que o novo modo de reprodução capitalista neoliberal está provocando praticamente em todos os países e regiões do planeta. 3 As novas e as velhas periferias estão se estruturando em função dos, cada vez mais freqüentes, deslocamentos do capital e de suas empresas transnacionais, que, partindo dos países dinâmicos do centro imperialista, como Alemanha e França – países que até agora são a coluna vertebral da

União Européia –, estão sendo levados a cabo para impor novas formas organizativas e de exploração das relações sociais, trabalhistas e políticas entre o capital e o trabalho, com absoluto prejuízo deste. Dessa forma, os deslocamentos (outsourcing) estão mudando a corre- lação econômica e política da antiga dependência com o surgimento nos próprios centros de periferias capitalistas, porque esse novo modo de pro- dução e de dominação do capital está articulando novas formas de conceber

a dependência e o atraso, estabelecendo, ao mesmo tempo, enormes desa-

fios para a compreensão dessa nova etapa do desenvolvimento histórico do capitalismo universal no despontar do século XXI. As novas migrações que se desenvolvem praticamente por todos os países e regiões do mundo; o crescente e paradigmático envio de remessas dos trabalhadores estrangeiros dos países desenvolvidos a seus países de origem; o processo de fragmentação dos sistemas produtivos que se desen- volve de maneira concomitante com os chamados processos de integração (TLC, Mercosul, Alca); o despovoamento de grandes extensões e regiões do sul da Europa, da Espanha (particularmente em regiões como a Galícia), de Portugal e outros, como a Estônia e a Lituânia, e o seu repovoamento com

contingentes humanos de força de trabalho provenientes da África, da Ásia

e da América Latina, são características que o surgimento e a expansão das novas periferias vão consolidar no futuro mediato.

3 Para avaliar a importância do fenômeno migratório e do envio de remessas para a América Latina, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) calcula que, nos próximos 10 anos, a América Latina receberá em torno de 300 bilhões de dólares a esse título, dos quais 80%, cerca de 240 bilhões de dólares, caberão ao México, à América Central e ao Caribe. Ver López Espinoza [s.d.].

122 A América Latina e os desafios da globalização

A Organização Internacional do Trabalho reconhece que os deslocamen- tos não transferem empregos de uma parte a outra do mundo e que o aumen- to da produtividade nos países desenvolvidos não se traduz necessariamente em aumento de emprego. Pelo contrário, provocam “a destruição de empre- gos que não são substituídos, particularmente no setor manufatureiro” (OIT, 12 de dezembro de 2004), mas, ao contrário, aumentam os investimentos:

O deslocamento dos postos de trabalho para países com salários muito mais

baixos aumenta o ritmo dos investimentos alemães no estrangeiro, ao passo que diminuem os que ficam na Alemanha: de 90 bilhões de euros na segun- da metade de 2000 passaram a 71 bilhões na primeira metade de 2004. E isso apesar de o Governo não ter outra política de emprego a não ser aumentar o lucro empresarial (baixa de impostos, moderação salarial), a única que ele considera adequada para que os investimentos cresçam, e com eles os postos de trabalho. (Sotelo, 8 de janeiro de 2005)

James Petras constata que o aumento da dependência também de al- guma maneira, deriva do forte aumento dos investimentos, que, por sua vez, são produtos dos deslocamentos e da expansão das novas periferias na economia mundial:

A Europa e o Japão estão investindo fortemente no Irã, na Rússia, na Líbia e na

África para garantir o fornecimento de energia. Essa concorrência interimpe-

rial aprofunda a dependência da América Latina, no seu papel tradicional na divisão internacional do trabalho como um fornecedor de matérias-primas e importador de artigos industriais. (Petras, 28 de dezembro de 2004)

Por sua vez, Chossudovski também constata que:

O capitalismo alemão está se expandindo para além do [rio] Oder-Neisse

até o seu Lebensraum 4 de antes da guerra. Nas montadoras da Polônia, da

4 Termo alemão que significa “espaço vital”. A expressão foi cunhada pelo geógrafo alemão Friedrich Ratzel e posteriormente adotada pelos geopolíticos da primeira metade do século XX.

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Hungria e das repúblicas Tcheca e Eslováquia, o custo da mão-de-obra [da ordem de 120 dólares por mês] é essencialmente menor do que na União Européia. Diferentemente, os trabalhadores das montadoras de automó- veis alemães têm salários da ordem de 28 dólares por hora. (Chossudovski, 2002, p. 90)

Um dirigente da Confederação Intersindical da Galícia (CIGa) subli- nha as causas da precarização do trabalho, concretamente na província da Galícia no Estado espanhol:

As causas e os fatores que alimentam e estendem a precariedade e criam um âmbito maior de superexploração estão relacionados à expansão universal

e às necessidades do modelo neoliberal, à sua doutrina de desintegração

do sistema de economia mista na redução máxima da economia pública estatal, à aplicação de reformas trabalhistas para desregular o mundo do

trabalho, flexibilizando a contratação temporária e causal e intensificando, flexibilizando e ampliando a jornada de trabalho, à externalização e tercei- rização do sistema produtivo e de serviços, igualmente nos setores públicos

e privados, e à criação de um universo subsidiário de microempresas, com

o conseqüente aprofundamento da estratificação trabalhista e de classe, à diminuição da produção de valor e mais-valia no sistema produtivo com

a conseqüente crise do padrão de acumulação de capital, com queda livre

de salários e das condições de trabalho nos países subdesenvolvidos e sua derivação magnética desse metabolismo aos países centrais do capital, as- sim como pelo desvio dos investimentos de capital para o terreno financeiro especulativo, o que poderia explicar que, durante esse período de recessão

prolongada na economia produtiva, os valores financeiros, em situação con- trária, tenham um constante decréscimo e rentabilidade. (Alcántara, 2004)

Adolf Hitler utilizava essa palavra para descrever a necessidade que o III Reich alemão tinha de encontrar novos territórios para onde se expandir, especialmente à custa dos povos eslavos da Europa Oriental (Biblioteca de Consulta Microsoft, Encarta, 2005).

124 A América Latina e os desafios da globalização

Um dos efeitos desses processos de reestruturação e deslocamento exerce um impacto negativo nos mercados de trabalho. Na literatura con- vencional, os mercados de trabalho tradicionais se consideram estrutu- rados quando 70 a 80% da força de trabalho se encontram ocupados em postos formais, em relação de dependência para com o capital. No entan- to, agora, os empregos formais em relação de dependência estão em vias de diminuir e, em alguns casos, estão em extinção. Em vastas regiões do mundo, predomina o trabalho “golondrina” (barco), os contratos são de curta duração, por contratação, e, em outros países desenvolvidos, é o te- letrabalho. Aumentaram o número de trabalhadores por conta própria, os empregos informais e transitórios. Inclusive os trabalhadores qualificados, com altas rendas e títulos universitários, diminuíram e estão submetidos à instabilidade do emprego e a regimes de precarização e superexploração do trabalho. 5 Enquanto nas décadas anteriores, na América Latina, geralmente mais de 80% dos postos de trabalho eram de longa duração, com contratos in- tegrais e com prestações, agora, ao contrário, calcula-se que o setor não estruturado dos mercados de trabalho, constituído por trabalhadores por conta própria, empresas familiares, ocupados em microempresas e serviço doméstico, represente 85 de cada 100 empregos na década de 1990, ao passo que os empregos modernos vêm diminuindo e, cada vez mais, registra-se uma criação menor de emprego nas grandes empresas (Aspiroz, Fossati & Mendoza, [s.d.]). Confirma-se, assim, a passagem de uma economia capitalista que crescia com a criação de postos de trabalho em relação de formalidade jurídico-trabalhista com o capital para o predomínio de uma economia com crescentes dificuldades para prosperar e que, quando o faz, a geração de empregos tende a ser precária e a diminuir os direitos e as prestações dos trabalhadores, que são submetidos ao império da superexploração do trabalho.

5 Entende-se aqui por precarização do trabalho o processo crescente de perda de direitos e prestações para os trabalhadores, com o objetivo de submetê-los a regimes de exploração do trabalho, ao livre-arbítrio dos patrões e das empresas.

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3. Deslocamentos e novas periferias na economia mundial No contexto do desaparecimento de empresas, da perda de postos de trabalho e da crise econômica,

as autoridades governamentais e os sindicatos discutem sobre a necessi- dade de renunciar a certas conquistas alcançadas, especialmente no marco do chamado Estado de bem-estar. Assim, discutem sobre a urgência de es- tabelecer maior flexibilidade da jornada de trabalho e aumentar as horas de trabalho, sem que isso necessariamente conduza a aumentos de salário, o que ocorre já há muito, em detrimento da situação da classe trabalhadora. (Swiney González, 23 de agosto de 2004)

Por isso, foi colocada a reforma trabalhista na União Européia para

alcançar “(

para poder adaptá-la ao longo do ano às condições que o

mercado exigir a fim de melhorar a produtividade” (ibid.). Empresas transnacionais como a Siemens conseguiram, sob pressão e chantagem, deslocar a sua produção para a Hungria (onde o salário médio em 2004 é de 3,8 euros por hora, comparado com 26,5 euros na Alemanha), em junho de 2004, e fazer um acordo com a direção do sindicato IG Metall no sentido de um aumento da jornada de trabalho de 35 a 40 horas por semana para quatro mil trabalhadores no ramo da telefonia móvel, sem compensação salarial e com a renúncia explícita ao pagamento a título de benefício natalino (abono) e férias. O exemplo, com seus matizes particu- lares, está sendo seguido pela Mercedes Benz, Volkswagen, Continental e outras companhias que oferecem essa modalidade de emprego para 25% dos trabalhadores alemães. O efeito de demonstração da Siemens veio em cascata na Alemanha e, por extensão, promete se estender por toda a Europa. É assim que, para “salvar o emprego”, a empresa Daimler Chysler, com o consentimento da direção sindical, aceitou aumentar as horas de trabalho semanais com re- dução salarial em torno de 3% em média, com o único objetivo de conse- guir da empresa a promessa de garantia de emprego pelo menos até o ano

ção das horas (

a flexibilidade na jornada de trabalho com ênfase na amplia-

)

)

126 A América Latina e os desafios da globalização

2012 e manter os postos de trabalho na casa dos 160 mil. O mesmo está ocorrendo nas companhias Mercedes Benz (que ameaçou se transferir para

a África do Sul), na Volkswagen, na Continental e em outras empresas des-

se país. Na França, os trabalhadores da companhia Bosch Vénissieux (que

ameaçou se transferir para a República Tcheca) “aceitaram” trabalhar uma hora a mais em troca da manutenção do emprego. A empresa Opel estuda

a possibilidade de aumentar a jornada de trabalho para 40 horas semanais

sem compensação salarial. Recentemente, em novembro de 2004, a trans- nacional Volkswagen, na Alemanha, conseguiu um acordo com a direção sindical para congelar os salários dos trabalhadores durante 28 meses, com o pagamento, em uma única vez de 1.000 euros para cada trabalhador. Dessa forma, a jornada de trabalho de 35 horas se transformou em um verdadeiro pesadelo para o patronato europeu. Esses acontecimentos, cifrados em deslocamentos, em reorientação dos investimentos, na arrogante política da chantagem patronal, na des- regulação, flexibilidade e precarização do trabalho, estão levando a uma verdadeira reversão histórica das conquistas operárias, que tinham con- seguido se materializar, entre outras conquistas, na redução da jornada de trabalho, no seguro contra o desemprego, nos aumentos importantes dos salários globais e em um conjunto de prestações que permitiram a estudio- sos e direções sindicais caracterizar o Estado como sendo de bem-estar, o qual, justamente em razão desses acontecimentos, está hoje em crise e em processo de destruição. 6 Na França, a situação é complexa: o patronato e o governo conserva- dor de Jacques Chirac ameaçavam os trabalhadores com levar a cabo uma reforma trabalhista para reverter a legislação das 35 horas (a única que na Europa está regulada por lei), com o objetivo de codificar juridicamente

6 As políticas do capital assentadas na privatização e na desregulação, além de provocarem crises catastróficas no mundo do trabalho, incidem também na crise econômica. Nesse sentido, referindo-se à crise nos setores de telecomunicações, de eletricidade e do sistema bancário dos Estados Unidos, diz Stiglitz (2003, p. 127): “Embora o decréscimo econômico de 2001 só tenha sido uma manifestação benigna destas doenças mais virulentas, não há dúvida de que esta que- da econômica foi em grande parte atribuída à desregulação dos anos de 1990.”

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o aumento da jornada, reduzir a massa salarial e aumentar a intensida- de do trabalho (elementos, certamente, do regime de superexploração do trabalho que Marini formulou nos seus textos fundamentais para o caso da América Latina). À medida que isso ocorresse, estar-se-ia assistindo à quebra definitiva do Estado de bem-estar, tal como este surgiu depois da Segunda Guerra Mundial do século passado, e à transição para um regime específico de superexploração do trabalho no capitalismo avançado. Exemplo paradigmático dos embates dos deslocamentos empresa- riais, estimulados pela feroz concorrência intercapitalista e pela lógica neo- liberal de direção imperial da União Européia, é a ameaça de extinção dos estaleiros espanhóis, sob as pressões que a direção da União Européia em Bruxelas vem exercendo para que o governo do Estado espanhol retire em torno de 300 milhões de euros a título de subsídios, que até agora vinham sendo feitos para esse importante ramo da economia espanhola. Outro ele- mento que trabalha contra a existência dos estaleiros estatais é a enorme competitividade dos asiáticos que ameaça colocar na rua mais de 45.000 trabalhadores, que não terão outra saída senão imiscuírem-se nas corren- tes migratórias da União Européia, concorrendo com trabalhadores prove- nientes do Marrocos e, em geral, dos países africanos e latino-americanos. Outro ângulo do problema pode ser observado em regiões inteiras, como a Galícia, onde, segundo o coletivo Mulheres(em)causaencantada. org, aproximadamente 60.000 mulheres trabalham em oficinas clandesti- nas, sem luz natural, durante 12 horas e com soldos de 200 euros por mês para a empresa Inditex, que é a matriz de marcas como Zara, Stradivarius, Oysho, Pul & Bear, Bherska, Massimo Dutti e Kiddy’s (apud Corpas, 7 de maio de 2005). Além disso, ocorre um outro fenômeno derivado do processo de des- locamento de empresas na Galícia:

as empresas de moda já ocupam mais trabalhadoras fora do que dentro da comunidade autônoma. Mais da metade da produção se instalou no estran- geiro, em países com mão-de-obra muito mais barata e em condições de trabalho deficientes, como são Marrocos, Romênia, Peru, Paquistão, Índia e

128 A América Latina e os desafios da globalização

Malásia. O deslocamento, que prejudica mais de 400 oficinas de confecção

instaladas na Galícia, permitiu aos 15 maiores industriais galegos, encabe- çados por Inditex, Adolfo Dominguez, Caramelo, Lonia e Roberto Verino,