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Capa: Maurício Tizziani Pazianotto (pazmau2@yahoo.com.

br)

Diagramação: Antônio Augusto Diniz Vieira (gutopublicitario@yahoo.com.br)

FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA SEÇÃO TÉCNICA DE AQUISIÇÃO E TRATAMENTO


DA INFORMAÇÃO
DIVISÃO TÉCNICA DE BIBLIOTECA E DOCUMENTAÇÃO - CAMPUS DE BOTUCATU - UNESP
Bibliotecária responsável: Selma Maria de Jesus
Ensaios em Biociências / Ney Lemke[ et al...] - Botucatu : Instituto de
Biociências – Unesp, 2009.

98 p. : 21cm x29,7 cm

Bibliografia

1. Botânica 2. Farmacologia 2. Zoologia 4. Genética 5. Biometria


6. Biologia geral e aplicada I. Lemke, Ney et al, editores

CDD 580

Todos os direitos reservados para:


INSTITUTO DE BIOCIÊNCIAS DE BOTUCATU – UNESP
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18.618-000 – Botucatu – SP
VIII Workshop da Pós-graduação do Instituto de Biociências de
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Instituto de Biociências de Botucatu - UNESP

Programas de Pós-graudação em:


 Biologia Geral e Aplicada
 Biometria
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 Ciências Biológicas: Farmacologia
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 Ciências Biológicas: Zoologia

Pró-reitoria de Graduação – UNESP

Pró-reitoria de Pós-graduação – UNESP

Agradecimentos

Prof. Dr. José Roberto Corrêa Saglietti


Prefácio
O Workshop da Pós-Graduação é um evento anual e tem como objetivo discutir
temas pertinentes aos Pós-Graduandos, Docentes e Administração do Instituto de
Biociências de Botucatu, promovendo o amadurecimento político-científico, análise do
mercado atual para os egressos, aperfeiçoamento e conhecimento científico. Busca-se
apresentar experiências externas e mostrar possibilidades diferentes da carreira acadêmica.
Na oportunidade, facilita-se a formação de novas redes de trabalho e cooperação. Os
contatos e experiências vivenciados durante o evento são de plena importância para vida
profissional dos participantes. A organização do evento inclui a participação de docentes e
de discentes que elaboraram a programação e participaram ativamente da revisão dos
trabalhos aqui apresentados.
A oitava edição do evento ocorreu no Instituto de Biociências durante os dias 23, 24 e
25 de abril no Instituto de Biociências de Botucatu e contou com a participação de 200
inscritos.
A natureza do evento é interdisciplinar pois congrega os diferentes programas de
pós-graduação do Instituto de Biociências de Botucatu: Farmacologia, Botânica, Genética,
Zoologia, Biologia Geral e Aplicada e Biometria. O programa inclui mini-cursos ministrados
pelos pós-graduandos tratando de temas atuais de pesquisa, estes eventos incluem além
de exposições orais e oficinas, a produção de material de apoio que compõe este volume.
Entre os temas tratados neste volume destacamos a biodiversidade, toxicologia
aplicada a reprodução humana, biodiversidade, restauração ecológica, biologia floral,
embriologia e farmacocinética aplicada a testes clínicos. A diversidade dos tópicos tratados
ilustra a riqueza das atividades de pesquisa realizada no Instituto de Biociências de Botucatu.
Índice
CAPÍTULO 01
Desvendando a Biodiversidade: como
a biologia molecular pode contribuir?
Pág: 8
CAPÍTULO 02
Restauração
Tropicais
Ecológica de Florestas Pág: 24
CAPÍTULO 03
Desenvolvimento e Meio Ambiente: Pág: 31
Contradições e Desafios

CAPÍTULO 04
Professores Brilhantes, Aulas Fascinantes
Pág: 39
CAPÍTULO 05
Experimentos para
Bioequivalência média
Estudos de Pág: 47
CAPÍTULO 06
Programação Fetal: Conseqüências na Vida
Adulta
Pág: 56
CAPÍTULO 07
Biologia Floral, Recursos Florais e Síndromes
de Polinização
Pág: 62
CAPÍTULO 08
Toxicologia de Praguicidas e Metais Pesados Pág: 71
CAPÍTULO 09
Tópicos em Biologia e Toxicologia da
Reprodução Masculina
Pág: 83
CAPÍTULO 10
Tópicos em Biologia e Toxicologia da
Reprodução Feminina
Pág: 91
CAPÍTULO 11
Potencial Farmacológico de Plantas - Sistema
Nervoso Central, Trato Gastrointestinal, A-
Pág: 98
nalgesia e Inflamação
8
CAPÍTULO 01
DESVENDANDO A BIODIVERSIDADE: COMO A BIOLOGIA
MOLECULAR PODE CONTRIBUIR?

Luiz Henrique Garcia Pereira


Departamento de Morfologia – Instituto de Biociências – UNESP – Botucatu
luizhgp@ibb.unesp.br

Guilherme José da Costa Silva


Departamento de Morfologia – Instituto de Biociências – UNESP – Botucatu
costa_silva@ibb.unesp.br

Resumo: O conhecimento acerca da diversidade biológica é o ponto de partida para todos os estudos
básicos e/ou aplicados relacionados às ciências da vida. O grande número de espécies estimadas para o
planeta (10-15 milhões, 1,8 milhão conhecidas) frente ao impedimento taxonômico que se vive na
atualidade exige o desenvolvimento de novas ferramentas para o estudo da biodiversidade. Nesse
contexto a biologia molecular tem contribuído sobremaneira, abrangendo desde estudos no nível
individual/populacional até o estabelecimento de relações filogenéticas e na contextualização espaço-
temporal.

1 - Introdução 1992 define diversidade biológica como


sendo “a variabilidade de organismos vivos
O conhecimento acerca da diversidade de todas as origens, compreendendo,
biológica é o ponto de partida para todos os dentre outros, os ecossistemas terrestres,
estudos básicos ou aplicados relacionados marinhos e outros ecossistemas aquáticos e
às ciências da vida e o reconhecimento de os complexos ecológicos de que fazem
espécies, bem como a habilidade de parte; compreendendo ainda a diversidade
nomeá-las, é fundamental para o estudo da dentro das espécies, entre espécies e de
ecologia, comportamento, evolução e todas ecossistemas.” [4]. A diversidade dentro das
as outras disciplinas relacionadas aos espécies aqui apresentada deve ser
organismos [1]. entendida como toda a variação existente
Apesar de muito difundido nos dias entre indivíduos de uma população e entre
atuais, o termo diversidade biológica populações de uma mesma espécie a qual
começou a ser utilizado na literatura pode ser designada como diversidade
somente a partir da década de 1980 por genética. Assim, os termos diversidade
Norse e McManus [2]. O termo biológica ou biodiversidade englobam
biodiversidade tem seu uso mais recente, todos os níveis hierárquicos de
sendo utilizado pela primeira vez em 1985, variabilidade, desde os genes aos
por W. G. Rosen para uma reunião do Foro ecossistemas.
Nacional sobre biodiversidade americano e A diversidade biológica mundial é
tornou-se conhecido a partir, estimada entre 10-15 milhões de espécies,
principalmente, da publicação do livro das quais aproximadamente 1,8 milhão são
organizado por Wilson e Peter em 1988 [3], conhecidas e descritas formalmente [5; 6;
intitulado “Biodiversity”. Os dois termos são 7]. Para o Brasil são conhecidas
utilizados, hoje, como sinônimos e sua aproximadamente 200.000 espécies e
definição é ampla. A convenção sobre estima-se que a biodiversidade brasileira
Diversidade Biológica (CDB) realizada pela esteja compreendida entre 1,4 e 2,4
Organização das Nações Unidas (ONU) em milhões de espécies [8]. Entre 1978 e 1995
9
foram descritas 7.302 espécies para o www.iucn.org). Vale ressaltar que os dados
Brasil, cerca de 430 por ano [9]. Nesse ritmo aqui apresentados referem-se apenas às
seriam necessários aproximadamente espécies já descritas e reconhecidas.
4.000 anos para descrever as espécies Extrapolando esses valores para toda a
estimadas somente na fauna brasileira. O biodiversidade estimada para o planeta,
fator limitante nesse contexto é a falta de centenas a milhares de espécies devem se
especialistas para a descrição dessas extinguir por ano sem antes mesmo
espécies, principalmente para os grupos podermos conhecê-las. Estima-se que o
dos invertebrados, para o qual, em alguns planeta perca cerca de 0,25% de suas
subgrupos, não existe sequer um espécies por ano (cerca de 12.000 espécies)
especialista no Brasil. Mesmo para os [10] e pesquisadores já questionam a
grupos mais bem estudados, o número de possível ocorrência nos dias atuais da sexta
taxonomistas é insuficiente frente ao extinção em massa do nosso planeta [11].
número de espécies por descobrir e Diante desse cenário, novas
descrever (ver referências [8] e [9]. Esse metodologias se fazem necessárias para
problema se repete em todo mundo e é auxiliar as metodologias tradicionais no
conhecido como “Impedimento estudo e conhecimento da biodiversidade.
Taxonômico”. Várias ações no mundo todo Nesse contexto, a biologia molecular tem se
têm sido realizadas no intuito de resolver mostrado uma ferramenta valiosa,
esse problema. No Brasil, o Ministério da acelerando o processo de descoberta de
Ciência e Tecnologia, lançou em 2005 um novas espécies, bem como auxiliando no
programa de Capacitação em Taxonomia estudo e conservação das mesmas.
que previa a formação de 60 novos
doutores num período de sete anos. No 2 - Diversidade Molecular
entanto, sabe-se que a formação de
Como visto anteriormente a
especialistas nessa área é lenta e gradual e
biodiversidade engloba também toda
esse número, apesar de aumentar em 46% o
variabilidade encontrada dentro das
número de taxonomistas no Brasil, é ainda
espécies e dentro das populações de uma
insuficiente.
dada espécie, ou seja, a variabilidade
Outro fator relevante a cerca da
genética. Entende-se por variabilidade
biodiversidade é a questão da extinção. O
genética todo conjunto genômico de uma
livro vermelho da fauna brasileira lançado
espécie com suas variações. O componente
em 2008 aponta 627 espécies ameaçadas
genético da biodiversidade é fundamental,
de extinção. A lista da flora ameaçada,
pois é a variação genética que fornece o
também lançado em 2008, aponta 472
material básico para a seleção natural e,
espécies ameaçadas (ver site Ministério do
portanto, para a evolução de todas as
Meio Ambiente). Esses valores são
espécies [12]. Essa variação compõe a
reconhecidamente subestimados, uma vez
matéria bruta para os estudos moleculares
que, para muitas espécies ainda faltam
permitindo comparar indivíduos,
informações. No mundo, são estimadas,
populações ou espécies diferentes. Ela
segundo a União Internacional para a
permite verificar as afinidades e os limites
Conservação da Natureza e dos Recursos
entre as espécies, detectar modos de
Naturais (IUCN), 16.928 espécies
reprodução e estrutura familiar, estimar
ameaçadas de extinção entre animais,
níveis de migração e dispersão nas
vegetais e fungos (dados de 2008, fonte:
10
populações e até mesmo ajudar na dessas em suas relações de parentesco e
identificação de restos animais, como num contexto espaço-temporal (englobam
conteúdos estomacais e produtos identificação e discriminação de espécies,
industrializados de espécies ameaçadas de reconstruções filogenéticas, estudos
extinção [13]. Para isso faz-se o uso de filogeográficos e biogeográficos, dentre
marcadores moleculares, que são locos outros). É dentro dessa segunda subárea
gênicos que apresentam alguma que nos ateremos neste capítulo, visando
variabilidade no escopo do problema a ser demonstrar como a biologia molecular
estudado [13; 14]. Atualmente existe uma pode contribuir na descoberta e
gama de marcadores moleculares caracterização da biodiversidade.
desenvolvidos e utilizados nos mais
diferentes estudos envolvendo biologia 3 - Desvendando a Biodiversidade
molecular. Alguns deles são AFLP, RAPD,
3.1 - Identificação Molecular
isoenzimas, DS-PCR, minissatélites,
microssatélites, RFLP, seqüenciamento de Há algum tempo é do conhecimento
DNA, dentre outros. No entanto, não é geral que a diversidade de seqüências do
intuito desse capítulo descrever tais DNA, acessada direta ou indiretamente,
marcadores (para uma revisão detalhada através da análise de proteínas, pode ser
desses marcadores moleculares ver usada para discriminar espécies. Há mais de
referências [13]; [14]; [15]; [16]; [17]). 40 anos atrás, a eletroforese de proteínas
Porém, é importante ressaltar que os em géis de amido foi, pela primeira vez,
diferentes marcadores moleculares podem utilizada para identificar espécies [19]. Há
possuir taxas de substituição/evolução aproximadamente 30 anos atrás, a análise
diferentes, de modo que, através de uma de seqüências de genes de DNA
escolha criteriosa desses marcadores, ribossômico foi utilizada para investigar as
pode-se estudar desde problemas de relações evolutivas em níveis superiores
identificação de indivíduos à identificação [20] e as pesquisas em DNA mitocondrial
de espécies crípticas ou formulação de dominaram a Sistemática Molecular no final
hipóteses filogenéticas em grupos de da década de 70 e início da década de 80
categoria taxonômica elevada [18]. Os [13]. Atualmente um número considerável
critérios de escolha de alguns desses de trabalhos tem sido realizado,
marcadores serão discutidos mais adiante utilizando-se dos mais diversos
nesse capítulo. marcadores moleculares para a
A biologia molecular hoje tem figurado identificação de espécies. Há trabalhos que
em todas as áreas da biologia, mas por se utilizam de aloenzimas [21; 22],
simplificação vamos classificá-las em duas fragmentos obtidos por enzimas de
grandes subáreas para ilustração neste restrição (RFLP) [23], DNA arrays [24], SNPs
capítulo. Uma conhecida como Genética da (single-nucleotide polymorphism) [25],
Conservação, que engloba estudos PCR-Muiltiplex [26], sequências de DNA
ecológicos, populacionais, de estruturação dos mais variados genes [27; 28] dentre
familiar e social, padrões de migração e outros. No entanto, apesar dessas técnicas
dispersão, dentre outros; e outra responderem satisfatoriamente aos
denominada de Sistemática Molecular, que problemas propostos, o uso de diferentes
engloba estudos que vão desde a técnicas e/ou genes por diferentes
identificação de espécies até a organização laboratórios para diferentes grupos
11
taxonômicos inviabiliza a criação de um realizados por Hebert et al. [30] onde
sistema de identificação molecular analisaram 260 espécies de aves norte-
universal de espécies por não ser americanas e encontraram que todas
comparativo. Diante desse cenário e da apresentavam seqüências diferentes de
eficácia desses sistemas, Hebert et al. [29] COX I. Além disso, em 130 espécies, para as
propuseram, em 2003, que uma única quais havia mais de uma seqüência de COX
seqüência gênica poderia ser suficiente I, essas seqüências eram idênticas ou muito
para diferenciar todas, ou pelo menos a similares. Em linhas gerais as diferenças
vasta maioria, das espécies animais, e entre as espécies (divergência genética
propuseram o uso do gene mitocondrial interespecífica) foram até 18 vezes maiores
Citocromo Oxidase subunidade I (COX I) que as diferenças dentro das espécies
como um sistema global de identificação (divergência genética intra-específica).
para todos os organismos vivos. As Desde então inúmeros trabalhos vêm sendo
seqüências foram interpretadas como um realizados e publicados demonstrando a
código de barras (barcode), com espécies eficiência desse sistema de identificação
sendo identificadas por uma seqüência (ver www.barcodinglife.org).
particular ou por um conjunto de São apontadas pelo menos dez razões
seqüências muito similares. para a realização do projeto de Código de
Barras dos seres vivos [31], que são: 1.
3.2 - A vida em códigos de barras: Trabalho com segmentos - pequenos
DNA Barcode
pedaços ou fragmentos; material não
utilizado no processamento de plantas e
O sistema de identificação DNA Barcode
animais e produtos morfologicamente não
utiliza um pequeno fragmento de DNA
reconhecíveis, derivados de espécies
(aproximadamente 648 pares de bases) do
protegidas ou reguladas. 2. Trabalho com
gene COX I [29]. Sua escolha está baseada
todos os estágios do ciclo de vida - ovos ou
em suas características evolutivas (taxa de
sementes; larvas ou mudas; adultos. 3.
mutação) e por ser um gene já amplamente
Identificação de espécies similares –
estudado. Seu princípio se baseia no fato de
espécies crípticas. 4. Redução de
que, ao longo da história evolutiva das
ambigüidades - elimina o uso de descrições
espécies, as sequências de DNA vão
subjetivas baseadas em gradações de
acumulando mutações que as tornam
formas e cores, por exemplo. 5.
únicas para cada espécie e, ainda que exista
Possibilidade dos especialistas irem mais
alguma diferença entre indivíduos de uma
longe - Os cientistas podem fazer uso do
mesma espécie, essas são em média 10 a 20
Código de Barras para uma identificação
vezes menores que as diferenças
mais rápida dos organismos e também para
observadas entre espécies próximas (ver
facilitar um reconhecimento mais rápido de
trabalhos em www.barcoding.si.edu).
novas espécies que assim podem ser
Essas diferenças são denominadas de
descritas pelos métodos tradicionais. 6.
divergência genética e formam a base de
Democratização do acesso - Uma biblioteca
comparação entre as espécies. A eficiência
padronizada de Código de Barras
desse método de identificação foi testada
aumentará muito o número de pessoas
no trabalho que propôs seu uso [29] e
capazes de nomear as espécies em volta
diversos estudos têm sido conduzidos para
dela. 7. Abertura de caminhos para criação
testar o uso desse sistema em diferentes
de um dispositivo portátil para identificação
grupos. Os primeiros trabalhos foram
12
de espécies em campo. 8. Possibilita o (www.lepbarcoding.org), peixes
crescimento de novas folhas na árvore da (www.fishbol.org) e vida polar
vida - estabelecer as similaridades e (www.polarbarcoding.org) cujos objetivos
diferenças entre o Código de Barras das são concentrar as informações desses
estimadas 10-15 milhões de espécies de grupos e dar suporte nas pesquisas com os
plantas e animais ajudará a mostrar onde mesmos. Iniciativas menores são
suas folhas devem estar na árvore da vida. igualmente apoiadas pelo CBOL e podem
9. Demonstração do valor das coleções - A ser visualizadas no site do consórcio
compilação de uma biblioteca de Códigos (www.barcoding.si.org).
de Barra começa com os milhões de Foi criado, também, um banco de dados
espécimes em museus, herbários, para armazenar todas as sequências
zoológicos, jardins botânicos. 10. barcodes e democratizar o seu acesso. A
Compilação mais rápida da enciclopédia da função desse banco de dados não se
vida - Uma biblioteca de Código de Barras restringe apenas em armazenar as
ligada a espécimes nomeados ampliará o sequências, mas também analisar e validar
acesso do público ao conhecimento as mesmas. Até o momento da elaboração
biológico, auxiliando na criação de uma desse texto já haviam sido depositadas no
enciclopédia on-line da vida na Terra. banco de dados as sequências barcodes de
Os principais objetivos do projeto 553.129 espécimes representantes de
barcode são: criar um sistema de 52.980 espécies dos mais vários grupos de
identificação rápido e democrático para seres vivos. Informações detalhadas podem
todas as espécies já descritas e válidas do ser obtidas no site www.barcodinglife.org.
planeta e auxiliar na descoberta de
3.2.2 - Validando uma Sequência
possíveis novas espécies.
barcode
As sequências de DNA barcode passam
3.2.1 - Organizando os Dados
por um rigoroso processo de validação.
Juntamente com a proposta da criação
Aconselha-se o uso de, se possível, cinco
do sistema de identificação DNA barcode foi
exemplares de cada espécie para que seja
criado o Consortium for the Barcode of Life
contemplada a sua variabilidade intra-
(CBOL – www.barcoding.si.edu) cujos
específica (esse valor é em média de 0,5% -
principais objetivos são: desenvolver a
ver trabalhos em www.barcoding.si.org).
padronizar a obtenção do DNA barcode;
Para que uma sequência seja validada
criar parcerias com outras iniciativas de
exige-se que esta esteja atrelada a um
estudo da biodiversidade; promover a
espécime depositado em uma coleção
participação global através de encontros e
oficial, e que o mesmo tenha sido
treinamentos em pesquisa; desenvolver e
identificado por um especialista
dar suporte a campanhas globais para
(taxonomista tradicional). Além disso, se
obtenção de DNA barcode; incentivar novos
exige informações completas sobre o
projetos; acelerar o crescimento do banco
espécime (coordenadas geográficas do
de dados do DNA barcode e disseminar
ponto de coleta do exemplar, dados sobre
informações sobre o consórcio. A partir
biologia, estágio de vida, imagens, dentre
desse consórcio foram criadas outras
outros) e da obtenção das sequências
iniciativas visando o estudo de grupos
barcode (primers, equipamentos, arquivos
e s p e c í f i c o s c o m o : a v e s
de dados brutos). As seqüências enviadas
(www.barcodingbirds.org), lepidópteras
para o banco de dados passam, ainda, por
13
um rigoroso processo de reanálise, a fim de sugestão, devendo cada pesquisador
se evitar ambigüidades geradas por erros observar em seu trabalho os valores obtidos
de seqüenciamento. Esse protocolo de para se determinar o valor de corte mais
validação (disponível em apropriado de acordo com a história
www.barcodinglife.org.br) está evolutiva do grupo em estudo, a qual pode
padronizado e tem sido seguido nos ser recente ou muito antiga. Muitos
trabalhos de obtenção do DNA barcode para trabalhos têm sido publicados mostrando a
as diferentes espécies. Esse fato é eficiência do método barcode na
relevante, uma vez que torna o sistema de descoberta de novas espécies (ver
identificação confiável. referências [33]; [34]; [35]; [36]; [37]; [38]),
muitas das quais são confirmadas pelos
3.2.3 - Identificando Novas Espécies
métodos tradicionais. Assim, a
Hebert et al. [32] estudando 460
metodologia de identificação por DNA
amostras de borboletas da região nordeste
barcode pode acelerar sobremaneira a
da Costa Rica da espécie Astraptes
descoberta de novas espécies tornando-se
fulgerator, descrita em 1775, mostrou que
uma valiosa ferramenta para os
havia pelo menos dez espécies crípticas
taxonomistas.
nessa região. As diferenças encontradas
nas seqüências de DNA foram 3.2.4 - Problemas e Controvérsias
correspondentes à observação de que havia Como toda metodologia, o sistema de
diferentes padrões de coloração nas identificação por DNA barcode possui
lagartas dessa espécie. A partir desse algumas limitações. São quatro, as
estudo, os autores propuseram um valor de principais limitações encontradas [29]. 1 -
corte para a delimitação entre espécies. Eles nos casos onde há hibridização entre
sugerem que esse valor seja, pelo menos, espécies, o espécime analisado seria
10 vezes o valor da média de divergência atribuído a sua espécie materna, uma vez
intra-específica observada no grupo em que se utiliza um gene mitocondrial (COX I).
estudo. Os fundamentos para essa Nesses casos a associação com marcadores
proposição são simples de se deduzir. Está nucleares é necessária para a resolução do
baseado no fato de que a divergência problema. 2 - para alguns grupos a taxa de
genética entre os grupamentos formados divergência do COX I é baixa, não sendo
foi, em média, 10 vezes maior que a suficiente para discriminar espécies. De
divergência genética observada dentro de fato, para o Reino Vegetal, o COX I
cada grupamento [32]. Como apresentado apresenta essa característica. A adoção de
anteriormente, espera-se que a divergência regiões mais variáveis no genoma das
genética dentro de uma dada espécie seja plantas se faz necessária. Alguns trabalhos
baixa, uma vez que os indivíduos que a ([39]; [40]) tem proposto a utilização de
compõe compartilham da mesma história uma combinação de dois genes como
evolutiva. Outro valor relevante a ser padrão na identificação de plantas. 3 - há
observado é a divergência genética média grupos onde suas espécies, ou parte delas,
que é observada entre as espécies já divergiram recentemente. Assim o COX I
nominadas do gênero em estudo que pode não ter acumulado divergência
podem servir de referência para a suficiente para separá-las corretamente.
delimitação entre as espécies que o Nesse caso a utilização combinada com um
compõe. Vale ressaltar aqui, que o valor gene que possua uma taxa evolutiva maior
atribuído por Hebert é apenas uma pode ser suficiente para discriminar essas
14
espécies. 4 - há ainda a possibilidade da espécie, esta poderia ser identificada por
existência, para algumas espécies, de qualquer pessoa, a partir da comparação da
pseudogenes para o COX I. Durante a seqüência do exemplar que tem em mãos
amplificação do segmento de DNA barcode com as depositadas no banco de dados do
esses pseudogenes podem ser barcode. Com isso, os autores propõe um
amplificados conjuntamente. Normalmente acesso rápido e democrático à identificação
esses pseudogenes possuem uma taxa de de espécies, o que desafogaria os
mutação maior que a do gene verdadeiro. taxonomistas tradicionais, deixando-os
Dessa forma, as divergências genéticas com tempo para se debruçarem na
encontradas podem ser superestimadas descrição de novas espécies.
levando a separação errônea de espécimes Outra crítica que se faz ao sistema
pertencentes a uma única espécie. Nesses barcode é o seu uso na descoberta de novas
casos, a identificação desses pseudogenes espécies [45]. No entanto, como visto
e o desenho de primers específicos anteriormente, o uso desse sistema na
somente para o gene verdadeiro podem identificação de novas espécies é promissor
resolver a questão. e está baseado em severos critérios de
Outra questão importante a ser análise antes que uma suposta nova espécie
esclarecida nesse capítulo é a confusão de seja proposta. Ainda assim, os
conceitos entre Taxonomia de DNA e DNA pesquisadores ao se depararem com tal
Barcode. Paralelamente à proposição da situação sugerem a existência de uma nova
criação do sistema de DNA barcode, foi espécie, sendo de senso comum, salvo
lançada uma discussão sobre a criação de raras exceções, que a confirmação ou
um sistema de taxonomia baseado em refutação de tal sugestão seja feita por um
sequências de DNA [41; 42]. Sua proposta taxonomista tradicional. O objetivo
visa passar o DNA de uma posição auxiliar proposto por Hebert em seu trabalho é que
na descrição de espécies para uma posição o sistema de identificação barcode funcione
central a fim de se acelerar o processo como uma valiosa ferramenta na
descritivo frente à grande diversidade descoberta de candidatos a novas espécies,
estimada para o planeta e a falta de recursos mas sem substituir a forma de descrição
humanos para esse fim. Muitos tradicional. As espécies, uma vez
pesquisadores em todo mundo acabaram propostas, seriam encaminhadas a
por sinonimizar essas duas proposições e especialistas para sua confirmação ou
uma série de criticas foi lançada [43; 44; refutação. Com isso, o sistema barcode
45], cuja preocupação principal é a funcionaria como uma ferramenta auxiliar
substituição do método tradicional pelos nesse sentido, alavancando e valorizando o
métodos moleculares. No entanto, faz-se trabalho dos taxonomistas, uma vez que
necessário esclarecer que, embora as duas eles teriam acesso mais fácil e rápido a
propostas se utilizem da mesma ferramenta descoberta e proposta de novas espécies.
(sequências de DNA), seus objetivos são Como visto, sistemas de identificação
diferentes. No texto de Hebert et al. [30] fica molecular não são novidades. O que é novo
claro que a identificação molecular (DNA no projeto DNA barcode são a padronização
barcode) não visa substituir os métodos do método e a criação de um banco de
tradicionais num primeiro momento. No dados único para as sequências geradas de
entanto, uma vez estabelecida e validada a acesso público e democrático. O sistema
seqüência barcode de uma determinada barcode visa facilitar e acelerar o
15
levantamento e o acesso a diversidade Cladísta embasando-se na sistemática
biológica e tem se mostrado eficiente e filogenética. Toda a metodologia da
promissor. Como toda metodologia tem sistemática parte de duas necessidades, a
suas falhas e limitações, as quais deverão primeira da existência de marcadores,
ser sanadas e/ou minimizadas ao longo sejam eles de origem morfológica,
tempo. Em nenhum momento, os fisiológica, comportamental ou molecular e
pesquisadores envolvidos no projeto estão a segunda de que esses caracteres possuam
dissociados das ferramentas tradicionais e, origem embrionária comum, ou seja, os
salvo exceções, acreditam que a união marcadores devem ser homólogos. Além
dessas ferramentas (tradicionais e desses requisitos básicos é preciso
moleculares) será valiosa na descoberta e conhecer a evolução dos caracteres.
entendimento da biodiversidade. Dentro de caracteres moleculares de
DNA a fonte de variabilidade primária é a
4 - Organizando a Biodiversidade mutação. Outros eventos como
recombinação gênica, por exemplo, são
Para se realizar análises das mais
responsáveis por difusão e rearranjos dessa
diversas, a partir de dados moleculares, é
variabilidade. A taxa de mutação no DNA
interessante conhecer primeiro o grupo de
parece ser aproximadamente constante ao
organismos que se pretende estudar, tal
longo do tempo, porém isso nem sempre é
como o segmento de caracteres
verdade. Teorias que tentam entender a
moleculares com que se pretende trabalhar.
taxa de evolução do DNA são abundantes,
Para isso o conhecimento biológico deve
porém todas possuem limitações. Dentre
estar inserido em um grau de organização
essas teorias podemos destacar a evolução
que leve em consideração a biologia, as
ao longo do tempo, onde o DNA evolui em
características de diferentes origens, a
taxas constantes, sendo a forma de
distribuição espaço-temporal e a história
evolução molecular mais simples. Outra
evolutiva do grupo de organismos em
teoria estima que a taxa de evolução do
questão. A parte da ciência que tenta
DNA deva ser medida a partir do número de
elucidar tais questões é conhecida como
gerações, isso porque as mutações
sistemática filogenética. Com o
herdáveis são transmitidas através da
estabelecimento da sistemática filogenética
fecundação. Quanto maior o tempo da
por Willi Hennig em 1950 e sua difusão após
geração maior o tempo para transmitir a
a tradução para o inglês em 1966, a
mutação, consequentemente menor a
classificação biológica tornou-se mais
evolução do genoma ao longo do tempo.
precisa e fundamentada, baseada em regras
Essa teoria baseia-se em falhas que
práticas cujos fundamentos são de origem
ocorrem apenas durante a replicação do
“biológica e embriológica” e assim
DNA para formação dos gametas e não leva
propiciando o surgimento de uma nova
em consideração erros do mecanismo de
escola classificatória, a Cladística [46]. Essa
correção. Outro modelo de evolução do
escola foi fundamentada no conceito de
genoma baseia-se em erros do mecanismo
“navalha de Ockham” desenvolvido pelo
de reparo, porém também possui
filósofo inglês William de Ockham onde, a
limitações, como por exemplo, a não
hipótese que requer o menor número de
consideração do tempo de geração. Outros
passos seria aquele mais plausível de ter
modelos levam em consideração outros
acontecido. Com isso foi gerada a escola
fatores como metabolismo e taxa de
16
produção de gametas para tentar explicar microssatélites, devido a sua taxa de
as taxas de evolução dos genomas. evolução rápida, o que fornece caracteres
Contudo, independentemente de todas as comparáveis em espaços de tempo curto. Já
variáveis, os genomas tendem a evoluir em para análises filogenéticas entre grupos
taxas razoavelmente constantes, fato que separados há tempos mais remotos (por ex.
permite fazer algumas estimativas em táxons supra-específicos) recomenda-
relacionadas à cronologia entre os eventos se, na maioria dos casos, o uso de
evolutivos e de parentesco. (para ver mais sequências de DNA mais conservadas.
consulte a referência [47]). O estudo de sequências de DNA vem
crescendo muito nos últimos anos. Essas
4.1 - Sistemática Filogenética sequências estão sendo utilizadas em
grande escala na determinação de
A Sistemática Filogenética propriamente
hipóteses filogenéticas de diversos grupos
dita busca elucidar as relações de
de organismos. Um dos principais desafios
parentesco entre os seres vivos. Essa
na análise filogenética com base em
ciência nos últimos tempos ganhou o
caracteres moleculares está na escolha do
reforço da genética molecular para
conjunto de sequências a serem
hipotetizar as relações entre os grupos de
comparadas. São necessários
organismos. Embora a ferramenta
conhecimentos tanto de genômica
molecular possua uma história
evolutiva quanto da biologia dos grupos a
relativamente recente dentro da
serem estudados.
sistemática, ela já possibilita propor
A taxa de evolução do gene é de
hipóteses filogenéticas com bastante
importância vital para esse tipo de estudo,
acurácea. (para ver mais sobre sistemática
por exemplo, se utilizarmos genes com
filogenética consulte a referência [48].
uma taxa de evolução muito lenta para
Como nas análises de cunho morfológico os
compararmos grupos a pouco tempo
estudos moleculares lançam mão de
separados, corremos o risco de não
análises de parcimônia, mas também
chegarmos a conclusões satisfatórias, pois
proporcionam análises do tipo
como o período de separação é muito curto
probabilístico e de distância genética.
não houve tempo para o acúmulo de
Sendo que essas duas últimas serão
mutações suficientes ao ponto que
explanadas mais a diante.
possamos tecer comparações. Por outro
4.1.1 - Como Escolher os Marcadores lado, quando fazemos uso de sequências
Moleculares com taxa de evolução bastante elevada na
Como em todo estudo comparativo, seja inferência filogenética de grupos a muito
ele de fonte morfológica, molecular, tempo separados, corremos um forte risco
fisiológica, etc., são necessários de encontrarmos uma falsa topologia [47;
marcadores. Os de fonte molecular podem 49]. Em outras palavras, quando a taxa de
ser proteínas, isoenzimas, seqüências de mutação é em demasia elevada, com o
aminoácidos, seqüência de RNA e de DNA, passar de um tempo relativamente longo de
etc. De um modo geral para responder separação entre os grupos de organismos,
diferentes grupos de questões moleculares as mutações vão se acumulando,
são necessários diferentes tipos de propiciando inclusive que em uma mesma
marcadores. Por exemplo, para estudo de posição ocorra mais de uma mutação, com
populações têm sido muito utilizado os isso não se pode saber qual o estado
17
plesiomórfico, e caso na segunda mutação tipo transição. Essa pesagem diferencial
volte para o estado inicial (reversão), essa vem do fato de que as transversões são
informação não pode ser detectada. Nesse menos comuns do que as transições e por
caso consideramos que os dados estão isso as transversões receberiam uma
saturados e não confiáveis para uma análise pesagem maior.
comparativa [47; 49]. Para tentar amenizar Alguns trabalhos sugerem que apenas
dados saturados podem ser utilizados transversões sejam usadas. Outros, que
esquemas de pesagens. Vários são os apenas alterações na primeira base sejam
modelos e dentre eles podemos destacar; usadas, enquanto outros que apenas éxons
pesagem diferencial para cada posição do sejam usados. Contudo as regiões por
códon, pesagem diferencial para regiões do esses autores descartadas carregam
gene, pesagem diferencial para informações interessantes na comparação
transversões e transições, dentre outras. A de grupos mais recentes, possibilitando
pesagem diferencial entre as diferentes uma análise em diferentes níveis
posições do códon vem do fato de o código hierárquicos. Essa discussão de pesagens
genético ser degenerado, onde uma diferenciais encontra grande resistência
mutação que ocorre na primeira base do não apenas em análises moleculares, como
códon necessariamente provoca a troca do também em morfológicas, devido a sua
aminoácido transcrito por essa sequência, subjetividade. Mesmo o fato de se igualar o
enquanto que na segunda base a chance de peso para todos os caracteres é um tipo de
mudança de aminoácido, graças a uma pesagem e deve ser avaliado com cautela.
mutação, é menor. Já na terceira posição do
códon, na maioria das vezes, não se troca o 4.2 - Métodos de Reconstrução
Filogenética
aminoácido (mutações silenciosas). Sabe-
se também que alterações que ocorram nas
4.2.1 - Máxima Parcimônia
sequências de aminoácidos são bem menos A análise de parcimônia com dados
freqüentes do que aquelas consideradas moleculares possuem virtudes e limitações.
“silenciosas” e por isso nessa pesagem, Uma das limitações é quanto a polarização
mutações nas primeiras bases dos códons dos caracteres. O código genético possui
recebem maior peso do que as que ocorrem apenas quatro tipos de bases, isso implica
nas segundas bases do códon, que por sua que só haja os mesmos quatro estados de
vez recebem um peso maior do que aquelas caráter possível para cada posição e não
que ocorrem na terceira base do códon. permite que haja a identificação de estados
É possível também atribuir pesos intermediários. Outra limitação é o tempo
diferentes para regiões diferentes de um de análise de uma matriz de bases
mesmo gene, por exemplo, em genes que moleculares, pois o número de caracteres
possuem íntrons, uma mutação tem maior obtidos é muito grande. Por outro lado esse
chance de se fixar quando ocorre no íntron grande número de caracteres pode ser
do que quando ocorre no éxon. Por isso as bastante representativo para inferência
mutações que ocorrem em éxons recebem filogenética, além de fornecer menor
pesagens maiores do que aquelas que subjetividade na escolha dos caracteres,
ocorrem em íntrons. quando comparados às análises
Outro modelo de pesagem seria a morfológicas. As metodologias de busca da
atribuição de pesos diferenciais para árvore mais parcimoniosa podem ser de
substituições do tipo transversão do que do dois tipos; busca exaustiva ou busca
18
heurística. (ver mais sobre o método de árvore mais parcimoniosa é selecionada e
parcimônia na referência [48]). utilizada na próxima etapa de pareamento.
A busca exaustiva avalia todas as Esse procedimento continua até que toda a
possibilidades de parentesco e escolhe as politomia esteja resolvida.
árvores que apresentem o menor número Stepwise Adition: inicialmente um trio de
de passos, ou seja, de todas as árvores táxons arbitrários são selecionados, após
filogenéticas possíveis a partir da busca isso se adiciona os demais táxons um a um
exaustiva é possível encontrar aquela (ou testando-os em várias posições. A cada
aquelas) mais parcimoniosa. Porém, esse adição de táxon para cada posição o
tipo de busca requer um tempo número de passos é recalculado, as árvores,
computacional muito elevado. Uma que a cada passo de incorporação
alternativa seria a busca exaustiva apresentam o menor número de passos são
conhecida como branch-and-bound, onde selecionadas para o próximo passo de
uma heurística prévia é realizada incorporação. Isso acontece até que todos
determinando o número de passos X. Após os táxons sejam incorporados. O principal
essa etapa a busca exaustiva propriamente problema dessa metodologia é que o
dita começa e nessa os táxons são primeiro trio influencia toda topologia.
adicionados um a um e quando, o valor de Porém, esse problema pode ser amenizado
passos da árvore ultrapassa o valor X, essa testando-se vários trios iniciais.
árvore e todas as suas derivadas são Branch Swaping: é a baseada em quebras
eliminadas. Esse método reduz bastante o e junções de ramos. Nessa metodologia
tempo de busca, porém para aquelas uma árvore inicial é construída, essa árvore
matrizes que apresentem um número de tem um ramo “quebrado” e esse ramo é
homoplasias bastante elevadas o tempo novamente conectado à árvore, porém em
computacional é também e l e va d o posição diferente da inicial. Aquela árvore
comparando-se à busca exaustiva que apresentar um menor número de
convencional. passos é selecionada e então passa para
O tipo de busca heurístico é realizado uma nova etapa de quebra e re-conexão.
por vários algoritmos, cada um com Esse rearranjo ocorre até que a árvore com
virtudes e falhas. Porém, eles possuem em um menor número de passos (para a
comum o baixo tempo computacional. análise) seja encontrada.
Dentre eles podemos destacar: Min-mini: é o modelo de busca
decomposição da politomia, stepwise promovido a partir da eliminação das
adition, branch swaping e min-mini. árvores com as menores probabilidades de
Decomposição da politomia: serem as mais parcimoniosas, e a partir daí
inicialmente é gerada uma árvore executa-se a busca propriamente dita. Esse
completamente politômica, a partir desse método permite que se estipule o número
passo os táxons são agrupados formando de árvores que serão selecionadas, e o
pares. A árvore que apresentar o menor tempo aumenta com o acréscimo de maior
número de passos é selecionada para a número de árvores. Contudo nesse método
próxima fase. Nessa fase as duplas de as árvores selecionadas podem não ser as
táxons são tratadas como unidades, e então mais parcimoniosas. (ver mais detalhes
agrupa-se essas unidades novamente em sobre os modelos de busca heurísticas nas
duplas. Após essa etapa, o número de referências [47]; [49]).
passos é novamente calculado, e também a
4.2.2 - Máxima Verossimilhança
19
(Probabilística) Tajima e Nei; Tamura-3-parâmetros, etc.
O emprego de métodos probabilísticos O modelo de distância p baseia-se no
para construção filogenética vem crescendo número de diferenças pelo número de
nos últimos anos. Esses métodos possuem caracteres total, embora esse método
um embasamento teórico mais sofisticado pareça simples em demasia ele é o mais
quando comparados aos de distância e os indicado na construção de topologias para
parcimônia. Esses métodos baseiam-se, de matrizes que possuam taxa de divergência
modo geral, no teste de probabilidade para média menor ou igual a dois. Esse também é
cada substituição em uma determinada o modelo mais utilizado para taxas de
topologia, além do comprimento dos divergência constante, e por isso é bastante
ramos. Por esse motivo esse tipo de usada em relógios moleculares,
metodologia implica em um tempo (discutiremos sobre relógios moleculares
computacional muito elevado, tornando mais adiante nesse capítulo).
uma busca exaustiva de uma topologia com Já o modelo de distância Jukes-Cantor
muitos táxons terminais impraticáveis. [51] apresenta algumas diferenças. Uma
Contudo nesses casos tem sido comum o delas é que esse método responde melhor
uso de buscas heurísticas para encontrar as em matrizes de caracteres menos
topologias que se apresentem mais conservados do que o anteriormente
“prováveis” ou verossímeis. O método de mencionado. Porém, também possui
busca que tem sido mais empregado para limitações. Taxas de divergência superiores
encontrar a topologia com máxima a 0,75 não podem ser computadas. Para
verossimilhança é o de decomposição da esse problema existe cálculo de correção,
politomia. Esse método tem se mostrado mas não é muito utilizado, pois uma matriz
mais eficiente do que os de distância e o de com caracteres tão pouco conservados
parcimônia em alguns aspectos. Entre eles perde o sentido sistemático.
o método de Máxima Verossimilhança Alguns modelos de distância genética
apresenta uma variância menor, já que é levam em consideração outros parâmetros.
menos afetado por erros de amostragem, Um exemplo é o modelo de Kimura-2-
até mesmo com sequências curtas. Esse parâmetros [52], que leva em consideração
método também tende a ser mais robusto a a taxa de transversão e transição. Já o
violações do modelo evolutivo (ver mais na modelo de Tajima e Nei [53] leva em
referência [49]). Contudo o tempo consideração o conteúdo de citosina e
computacional é fator limitante para o guanina. O modelo de Tamura-3-
método. Outros métodos também estão parâmetros [54] leva em conta a divergência
sendo utilizados ultimamente para total, tal como as transversões, transições e
inferências filogenéticas, é o caso da análise a composição guanina/citosina. Embora
Bayesiana. (ver mais sobre análise esse último pareça o mais completo ele
bayesiana na referência [50]). possui uma variância maior do que os
demais. Outros modelos levam em conta
4.2.3 - Modelos Geométricos (Distância
Genética) não só o tipo, mas também a posição da
Para a construção de uma matriz de substituição como, por exemplo, o modelo
distância genética podemos fazer uso de de distância Gama-Poisson que parte do
vários modelos, dentre esses podemos fato de que todos os sítios de uma
destacar os: Distância p; simples; Distância sequência codificante qualquer não
de Juckes-Cantor; Kimura-2-parâmetros; possuam a mesma suscetividade a
20
alterações. Os modelos de distância podem tipo de análise encontra a árvore real.
ser testados a partir de cálculo estatístico Porém, na prática a topologia encontrada é,
de bootstrap [55] para a escolha do melhor na maioria das vezes, idêntica à encontrada
modelo para o seu conjunto de dados. por NJ.
Após a escolha do modelo de distância Existem modelos que testam as matrizes
genética deve-se escolher os algoritmos de de dados e ramos das topologias do ponto
reconstrução de topologia. Existem alguns de vista estatístico, dentre elas podemos
algoritmos bastante utilizados atualmente, destacar, índice de Bremer e bootstrap,
dentre esses podemos destacar: UPGMA, dentre outros.
agrupamento de vizinhos (Neighbour- O índice de Bremer quantifica o número
joining) e evolução mínima. de etapas necessárias para se decompor um
Os algoritmos de UPGMA [56] assumem determinado grupamento, ou seja, quanto
o relógio molecular (discutido mais a maior o número de caracteres que
diante) para inferir a topologia, ou seja, ele sustentam um determinado grupamento
parte do pressuposto que a taxa de maior será o número de passos necessários
mutação é constante e igual em todos os para sua decomposição e maior o índice de
táxons, agrupando os terminais que Bremer [59].
possuam a menor distância. Já o teste de Bootstrap [55] busca montar
Os algoritmos de agrupamentos de réplicas da matriz, porém essas réplicas
vizinhos (Neighbour-Joining) [57] são uma possuem alterações, onde alguns
variante do algoritmo de evolução mínima, caracteres aparecem em duplicata
porém nesse caso o tipo de busca realizada enquanto que outros são retirados. Com
é do tipo heurística. O tipo de busca é isso podemos observar a porcentagem de
bastante semelhante ao de decomposição matrizes que sustentam um determinado
de politomias discutido anteriormente, ou nó suportando assim estatisticamente esse
seja, a cada passo da busca procura-se os grupamento. Esse teste tem sido muito
vizinhos que minimize a somatória de utilizado em análises de cunho molecular.
passos para cada ramo. (ver mais detalhes sobre os modelos de
Os algoritmos de evolução mínima [58] busca heurísticas nas referências [47];
buscam as topologias com menor [49]).
comprimento de ramos, p o r é m a A partir de análises filogenéticas desses
busca exaustiva dessa topologia é bastante tipos mencionados (seja ela de Máxima
laboriosa e em conseqüência, requer um Parcimônia, Probabilística ou de Distância
grande tempo de cálculo. Quando se Genética) é possível reconstruir a história
executa busca heurística, encontra-se um evolutiva dos organismos analisados tal
resultado muito similar ao encontrado pelo como auxiliar no entendimento da história
método de Neighbour-Joining. Com isso evolutiva dos ambientes que esses
esse algoritmo sofreu alterações. Nessas organismos ocupam. O ramo da ciência que
alterações uma topologia inicial é une tais conhecimentos é a Biogeografia.
construída a partir de Neighbour-Joining. A
partir disso procura-se nas árvores mais
próximas rearranjos que diminuam o 5 - Organização Espaço-Temporal
tamanho total dos ramos. Testes
5.1 - Biogeografia e a Filogeografia
computacionais demonstram que se o
conjunto de dados não estiver viciado esse
A Biogeografia, também conhecida como
21
Geoecologia, é a ciência que estuda a quantidade de caracteres divergentes
distribuição geográfica dos seres vivos, acumulados a partir do último nó.
procurando entender padrões de Lançando-se mão desses conhecimentos e
organização espacial e os processos que de conhecimentos a cerca da história
resultaram em tais padrões. É uma ciência geológica da região que comporta certos
multidisciplinar que relaciona informações tipos de organismos é possível estimar a
de diversas outras ciências como geografia, taxa de divergência entre esses grupos [47;
biologia, climatologia, geologia, ecologia e 49].
evolução. A base da biogeografia baseia-se O relógio molecular é derivado da
nos conceitos de evolução das espécies e, equação da quantidade de divergências
em que diferentes condições ecológicas pelo tempo, ou número de divergências por
criam pressões seletivas diferentes. Estas geração, taxa de produção de gametas ou
pressões levam à coincidências entre as até taxa metabólica entre outros
transições ecológicas e os limites de (anteriormente discutidos). Porém o mais
distribuição de espécies aparentadas. amplamente utilizado é o de substituições
Filogeografia é o estudo dos processos pelo tempo. O relógio molecular pode ser
históricos que podem ser responsáveis pela testado de algumas formas, uma delas é
distribuição geográfica contemporânea de testando a razão de verossimilhança entre
indivíduos. Isto é obtido considerando a árvores com e sem as restrições do relógio
distribuição geográfica dos indivíduos sob molecular. Esse teste pode ser feito em
o ponto de vista da árvore genealógica dos diferentes programas como o Paup*4.0b10
mesmos. Este termo foi introduzido para [62]. Outro teste seria comparar os ramos
descrever sinais genéticos oriundos de um mesmo nó. Se eles
geograficamente estruturados dentro e apresentarem diferenças de tamanho
entre espécies. Ter um foco explícito na estatisticamente significativo, então o
biogeografia de uma espécie diferencia a relógio não é válido, pelo menos não é
filogeografia da genética populacional válido no modelo proposto. Nem sempre a
clássica e da filogenética. Alguns eventos taxa de divergência é constante, essa
passados podem ser inferidos a partir de constância tende a se dissipar conforme há
análises filogeográficas que incluem um aumento do tempo de divergência entre
expansão populacional, efeitos de gargalo, os táxons, requerendo nesse caso o uso de
vicariância e migração [60] (ver mais sobre relógios locais, ou mais particulares, ou até
biogeografia e filogeografia nas referências mesmo modelos que laçam mão de
[61]; [60], respectivamente). parâmetros além do temporal, como
mencionados anteriormente. Os relógios
5.1.1 - Relógio Molecular
moleculares devem ser calibrados. Para isso
A partir de análises de distância genética
faz-se o uso de conhecimentos prévios
é possível inferir sobre tempo de
como geológicos, biogeográficos,
divergência. Esse procedimento é
paleontológicos ou até mesmo
conhecido como relógio molecular. O
conhecimentos moleculares anteriores.
relógio molecular mais utilizado baseia-se
Esses conhecimentos devem, de alguma
em uma taxa de evolução constante dos
forma, carregar consigo datas, pois a partir
genes ao longo do tempo. Nesses casos o
dessas datas o relógio é calibrado. Tendo
comprimento dos ramos de uma
conhecimento, por exemplo, da data de
determinada árvore, construída a partir de
certo evento geológico, evento esse que
uma análise de distância representam a
22
tenha provocado a vicariância e por DC: National Academy Press, 1988.
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biológico: diversidade, evolução e herança. Editora
24
CAPÍTULO 02
RESTAURAÇÃO ECOLÓGICA DE FLORESTAS
TROPICAIS.
Pedro H.S. Brancalion
Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal - ESALQ/USP – Piracicaba - SP
pedrohsb@yahoo.com.br

Sergius Gandolfi
Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal - ESALQ/USP – Piracicaba - SP
sgandolf@esalq.usp.br

Ricardo Ribeiro Rodrigues


Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal - ESALQ/USP – Piracicaba - SP
rrr@esalq.usp.br

Resumo: Este capítulo apresenta alguns dos principais conceitos e práticas envolvidos na restauração
ecológica de florestas tropicais. Foi discutida, ao longo do texto, como a ecologia da restauração evoluiu
como ciência e como tal evolução se traduziu em modificações na forma de se restaurar ambientes
degradados. A prática da restauração ecológica foi apresentada por meio de uma chave para a
definição de metodologias específicas para cada situação encontrada, definidas a partir do diagnóstico
ambiental, além de terem sido apresentados alguns dos métodos utilizados na avaliação e
monitoramento de áreas em processo de restauração.

1 – Degradação ambiental e a comprometendo a resiliência natural dos


demanda pela restauração ecológica mesmos [3]. Contudo, outros biomas
brasileiros, tal como o Cerrado e a
A restauração ecológica de ambientes
Amazônia, estão passando atualmente por
naturais tem se destacado cada vez mais
um processo de degradação semelhante ao
como uma forma de reverter a atual
que a Mata Atlântica foi submetida nas
situação de degradação ambiental e
últimas décadas, gerando extensas áreas
promover a conservação da biodiversidade
com necessidade de ações de restauração.
e dos recursos naturais para o uso das
Em função da intensidade do processo
gerações presentes e futuras [1] [2]. Nesse
de degradação histórica dessas áreas, pode
sentido, a sociedade tem demandado cada
ser necessário um maior nível de
vez mais ações que não só minimizem os
complexidade nas ações de restauração
impactos das atividades antrópicas no
ecológica para que se produzam
ambiente, mas também iniciativas de
comunidades vegetais auto-sustentáveis e
recuperação dos ecossistemas que foram
com alta diversidade de espécies nativas,
irregularmente degradados no passado.
restabelecendo as interações ecológicas e
Particularmente na Mata Atlântica, onde
os serviços ambientais, produto de
a ocupação histórica é mais antiga e intensa
ecossistemas equilibrados.
em comparação com os demais biomas
Diante desses desafios, a ciência da
brasileiros, os elevados níveis de
restauração ecológica tem evoluído
degradação e fragmentação ambiental
consideravelmente nos últimos anos e
alteraram profundamente a estrutura e o
buscado uma visão mais integrada do
funcionamento de seus ecossistemas,
processo, como pode ser observado na
25
definição da Society for Ecological termo “restauração” passou a ser mais
Restoration International: “restauração empregado, justamente por se buscar a
ecológica é a ciência, prática e arte de reestruturação do ambiente degradado tal
assistir e manejar a recuperação da como ele era antes das perturbações.
integridade ecológica dos ecossistemas, Além do uso de elevada diversidade
incluindo um nível mínimo de florística regional, passou-se também a
biodiversidade e de variabilidade na incorporar conceitos da dinâmica florestal
estrutura e funcionamento dos processos na reconstrução de florestas nativas em
ecológicos, considerando-se seus valores ambientes degradados, com destaque para
ecológicos, econômicos e sociais”. a sucessão ecológica.
Assim, muito mais do que meros De forma geral, a sucessão ecológica
plantios de árvores, a restauração ecológica pode ser descrita como um fenômeno no
tem evoluído no sentido de restabelecer qual uma dada comunidade vegetal é
parte significativa da diversidade florística e progressivamente substituída por outra ao
genética das espécies vegetais de uma dada longo do tempo e em um mesmo local.
região, restabelecendo as complexas Baseados nas teorias de dinâmica de
interações ecológicas que geram em populações desenvolvidas em florestas
mantêm a biodiversidade em ambientes tropicais, nas quais se observou que a
tropicais. sucessão florestal se dá a partir da
substituição gradual de espécies com
2 – Evolução da restauração diferentes comportamentos [4], os
ecológica como ciência
pesquisadores passaram a interpretar as
No princípio dos trabalhos de áreas em restauração principalmente sob a
restauração no país, tinha-se como objetivo ótica da dinâmica de clareiras.
principal a mitigação dos impactos Após a classificação das espécies nos
ambientais decorrentes do uso e ocupação grupos ecológicos, o passo seguinte foi
irregulares do solo. Assim, a formação de aplicar o entendimento do processo de
uma fisionomia florestal já era suficiente substituição dessas espécies na sucessão à
para que tais problemas fossem prática da restauração florestal. Chegou-se
parcialmente equacionados. a conclusão de que os locais a serem
Nesse período, o uso de espécies restaurados representavam áreas em fase
arbóreas exóticas, e muitas vezes inicial da sucessão, cujo caminho a ser
invasoras, era uma realidade, já que o seguido para a formação de uma floresta
plantio de espécies de maior rusticidade e madura deveria passar, necessariamente
de crescimento mais vigoroso reduzia o por esse processo de substituição de
custo e o tempo para que formasse uma espécies no tempo.
floresta na área. Além disso, confirmou-se que a inserção
Contudo, com a evolução do do conceito de sucessão florestal nesses
conhecimento, a ecologia da restauração projetos permitia um recobrimento mais
passou a ter uma dimensão mais rápido do solo a partir do desenvolvimento
abrangente, contribuindo não só para a da copa das espécies pioneiras plantadas,
mitigação dos impactos ambientais, mas, reduzindo consequentemente os custos de
sobretudo, para a conservação da manutenção e, mais do que isso, o tempo
biodiversidade regional. necessário para a formação de uma
A partir dessa nova visão do processo, o fisionomia florestal.
26
Contudo, os bons resultados obtidos estrutura, organização e funcionamento.
com o uso de espécies pioneiras nos Dessa forma, as espécies pertencentes
reflorestamentos estimularam o uso aos diferentes grupos sucessionais
excessivo de espécies desse grupo inseridas nas áreas em restauração
sucessional nos plantios. Em função disso, serviriam de substrato para que a sucessão
esses reflorestamentos entraram em florestal operasse e levasse a comunidade a
declínio com a senescência e morte das atingir o clímax, de forma ordenada e
espécies pioneiras após cerca de dez anos previsível.
da implantação, e voltaram a ser ocupados Em função dessa base conceitual, a
por gramíneas invasoras, de forma que maioria dos projetos de restauração
todo o tempo e recurso investidos para a florestal foi desenvolvida nessa fase dentro
restauração dessas áreas foram perdidos. do conceito de cópia de uma floresta
Embora tais equívocos tenham resultado madura e da busca por um clímax único e
em grandes perdas financeiras e baixo pré-definido, baseando-se na implantação
retorno ecológico, eles certamente de módulos de plantio que continham
estimularam uma maior reflexão sobre espécies de diferentes grupos sucessionais.
como a ecologia da restauração deveria ser Apenas recentemente os distúrbios
conduzida para que houvesse sucesso nas naturais foram reconhecidos como
ações [5]. fenômenos freqüentes e que exercem
Para os conceitos da época, a sucessão
marcante influência na dinâmica de
florestal operava sempre no sentido de
desenvolvimento da vegetação, dando
conduzir a vegetação de uma condição de
origem ao “Paradigma Contemporâneo da
maior instabilidade para uma de maior
estabilidade, em um sentido unidirecional e Ecologia” [7] (figura 1).
constante de substituição de grupos Sucessão Ecológica
sucessionais no tempo, que convergia em
uma comunidade clímax. Sob esse ponto de
vista, áreas desprovidas de vegetação
Visão Tradicional
seriam inicialmente ocupadas por espécies
pioneiras, as quais dariam lugar
progressivamente a espécies pertencentes Visão Contemporânea

aos grupos mais avançados da sucessão até


que as espécies climácicas dominassem a
comunidade vegetal, mantendo a vegetação
estabilizada em um estado de equilíbrio [6].
Esse jeito de entender o Figura1: Esquema ilustrativo dos trajetos possíveis

desenvolvimento dos ecossistemas, que a sucessão ecológica pode seguir a partir dos

denominado de “Paradigma Clássico da Paradigmas Clássico e Contemporâneo da restauração


Ecologia”, interpretava os diferentes ecológica.
ambientes como sistemas fechados e auto-
ajustáveis, nos quais os distúrbios naturais A partir de então, o processo sucessional
e os impactos antrópicos tinham passou a ser considerado como um produto
importância minimizada, uma vez que eram de eventos estocásticos, os quais não
considerados elementos externos ao operavam em um sentido pré-estabelecido
sistema e que não determinavam sua e também não conduziam a área restaurada
27
a um único clímax, mas sim criavam sustentabilidade econômica dessas
inúmeras possibilidades de trajetórias que iniciativas de restauração [9].
levariam a comunidade vegetal a diferentes Muitos desses outros aspectos da
níveis de organização e estrutura [8]. restauração têm sido discutidos e testados
A partir dessa mudança de paradigma, pela ecologia da restauração, mas ainda de
outras estratégias de restauração passaram forma muito incipiente, como iniciativas
a ser consideradas, baseadas em processos isoladas e aplicadas em pequena escala,
estocásticos e não previsíveis, tal como a que não permitem traduzi-las em
condução da regeneração natural, a metodologias replicáveis de restauração
transposição do banco de sementes com maior amplitude.
alóctone e a semeadura direta (figura 2).
3 – A prática da ecologia da
restauração

No processo decisório sobre qual a


melhor estratégia de restauração ecológica
a ser adotada, é essencial aliar a Ciência ao
conhecimento prévio da área de estudo.
Para isso, além de dados secundários da
região que tratem de características
ambientais, é preciso realizar uma série de
Figura 2: Métodos para restauração ecológica,
desde aproveitamento do potencial de regeneração ações que, genericamente, podem ser
local, passando pelo monitoramento da chegada de chamadas de diagnóstico ou zoneamento
propágulos, até o plantio de mudas.
ambiental.

Contudo, muitos avanços ainda são Esse diagnóstico conduz basicamente


necessários na restauração florestal para se ao estabelecimento de ações que resultem
garantir que as florestas restauradas na conservação, manejo e restauração
exerçam o efetivo papel de mantenedoras, ambiental.
junto com as florestas remanescentes, de Considerando que se deseje realizar
biodiversidade. O grande desafio é fazer trabalhos de recuperação de áreas
com que as florestas restauradas assumam degradadas, é importante que nesse
gradualmente características próximas de diagnóstico sejam reconhecidas as
florestas naturais, exercendo uma ampla potencialidades de auto-recuperação de
gama de serviços ambientais, como a cada situação ambiental, de forma a
proteção de nascentes e cursos d'água, da permitir a definição de ações de restauração
preservação de encostas, e principalmente que possam aproveitar o máximo desse
da interligação dos fragmentos potencial, sendo capazes de desencadear
remanescentes na paisagem. e/ou conduzir os processos naturais de
Esses avanços devem incluir não apenas regeneração.
a restauração e manutenção da diversidade Através deste estudo é possível
de espécies, incluindo as diferentes formas diagnosticar, mapear e quantificar as áreas
de vida, os microorganismos, mas também legalmente regulares e as áreas que
da diversidade genética, da rede de apresentam alguma inconformidade com a
interações, dos grupos funcionais, dos legislação ambiental vigente e/ou com as
ciclos biogeoquímicos e até a condições ambientais e propor alternativas
28
para a sua adequação legal e/ou conservação, manejo e restauração para
ambiental. cada uma das situações identificadas,
Normalmente o zoneamento ambiental é conforme os potenciais de auto-
iniciado através da análise de imagens recuperação apresentados.
aéreas ou de satélite do local, Para facilitar a tomada de decisão e a
preferencialmente as mais recentes, com escolha do(s) método(s) de restauração
resolução menor que 2,5m2/pixel e com mais apropriado(s) para cada situação
escala que permita uma boa visualização ambiental em particular, será apresentada
(se possível menor que 1:15.000). Esse uma Chave para a definição das ações de
processo, denominado de restauração ecológica para áreas
fotointerpretação, é realizado através de degradadas.
softwares compatíveis, especialmente
aqueles que permitam a construção de um Exemplo de chave para a definição das
Sistema de Informações Geográficas (SIG), ações de restauração ecológica de áreas
onde é possível gerar bancos de dados com degradadas (LERF/LCB/ESALQ/USP)
nomes das situações, área, características
1. Condições do solo do local
específicas ou quaisquer outras
1a. Solo degradado ........................item 7a
informações, conforme objetivos do
1b. Solo não degradado ....................item 2
trabalho.
2. Ocupação da área
A checagem de campo é a atividade
2a. Campos úmidos ........................ item 7j
subseqüente à fotointerpretação. Consiste
2b. Áreas abandonadas ................... item 3
em visitas de campo às áreas abrangidas no
2c. Pastagens .................................. item 3
trabalho de adequação, tendo em mãos
2d. Áreas agrícolas .......................... item 3
cópia dos mapas, preferencialmente já
2e. Florestas comerciais .................. item 5
fotointerpretados, para confirmar as
2f. Formações naturais .................... item 6
situações identificadas em computador,
3. Espécies exóticas invasoras
atualizá-las em relação ao uso atual (já que
3a. Presença de espécies exóticas invasoras
as imagens geralmente são alguns de
...................................................... item 7e
alguns anos antes), detalhá-las com mais
3b. Ausência de espécies exóticas invasoras
precisão e corrigir eventuais falhas
....................................................... item 4
ocorridas durante a análise das imagens.
4. Estado de desenvolvimento da
Essas correções podem ocorrer devido
regeneração natural (áreas abertas ou sub-
às alterações de uso da área posteriores à
bosque)
data dessas imagens, ou mesmo a erros de
4a. Ausência de regeneração natural
interpretação no momento da análise da
...................................................... item 7f
foto. Importante registrar a data da
4b. Baixa expressão da regeneração natural
realização da checagem para que conste no
........................................ itens 7g, 7h e 7i
mapa final. Quanto mais detalhada for a
4c. Alta expressão da regeneração natural,
checagem de campo, mais fiel será o mapa
com baixa diversidade florística
final.
.............................................. itens 7g e 7i
O zoneamento ambiental é o ins-
4d. Alta expressão da regeneração natural,
trumento essencial do programa de
com alta diversidade florística
adequação ambiental e de planejamento da
..................................................... item 7g
implantação de ações de restauração
5. Florestas comerciais
ecológica, possibilitando que sejam
5a. Sem regeneração natural de espécies
adotadas ações diferenciadas de
29
nativas no sub-bosque ................ item 7b desenvolvimento do projeto de
5b. Com regeneração natural de espécies restauração, de forma que eventuais
nativas no sub-bosque, em áreas de difícil problemas com o mesmo possam ser
acesso ........................................... item 7c diagnosticados e corrigidos antes que todo
5c. Com regeneração natural de espécies o trabalho se perca, tal como ocorreu no
nativas no sub-bosque, em áreas de fácil passado com o uso excessivo de espécies
acesso .......................................... item 7d pioneiras.
6. Estado de conservação da vegetação De forma geral, a avaliação (ato ou efeito
nativa de avaliar) e o monitoramento (mensuração
6a. Fragmentos de vegetação nativa com contínua de certos parâmetros ambientais
necessidade de restauração....................... ou populacionais, indicadores do
..................................... itens 7g, 7h, 7i e 7j funcionamento e dinâmica de ecossistema)
6b. Fragmentos de vegetação nativa de áreas em processo de restauração
passíveis de restauração ........... itens 7i e 7j abrangem aspectos mais amplos do que
6c. Fragmentos de vegetação nativa apenas a avaliação puramente fisionômica
conservados da área restaurada, mesmo que periódica.
7. Ações de restauração florestal Os indicadores de restauração devem
7a. Recuperação do solo .................. item 2 avaliar também a reconstrução dos
7b. Colheita da madeira por meio de processos ecológicos mantenedores da
técnicas tradicionais ...................... item 7e dinâmica vegetal, de forma que áreas
7c. Morte das árvores em pé ............. item 4 restauradas sejam sustentáveis no tempo.
7d. Retirada da madeira com técnicas de Os indicadores de avaliação e
baixo impacto ................................. item 4 monitoramento de áreas em processo de
7e. Eliminação de espécies exóticas restauração podem ser divididos em três
invasoras ........................................ item 4 subgrupos:
7f. Introdução de espécies nativas em área
total (sementes ou mudas) Fase de implantação (1–12 meses)
7g. Condução da regeneração natural Fase pós-implantação (1-3 anos)
7h. Adensamento Fase de vegetação restaurada
7i. Enriquecimento (4 ou mais anos)
7j. Controle de processos erosivos e
restauração florestal do entorno (zona Na Fase de Implantação (1 a 12 meses
tampão) após adoção de ações de restauração, como
8. Ações complementares isolamento e condução da regeneração
8a. Implantação de corredores ecológicos natural, plantio total, etc.), são utilizados
8b. Implantação de poleiros naturais e/ou parâmetros como a avaliação do solo-
artificiais substrato, existência de cobertura vegetal
Embora as metodologias de restauração na área (mesmo que herbácea), cobertura
ecológica tenham avançado do solo por gramíneas exóticas agressivas,
consideravelmente nos últimos anos, as profundidade da cova (no caso de plantios)
chances de insucesso nessa atividade ainda e avaliação dos indivíduos plantados ou
são grandes, principalmente em paisagens regenerantes naturais (identificação
altamente fragmentadas. taxonômica; altura dos indivíduos e
Em função disso, é primordial que se cobertura da área conferida pela copa dos
realize o acompanhamento do mesmos; classificação quanto à
30
regionalidade, grupos sucessionais e Atlantic Forest. Biological Conservation, 2009
(no prelo).
síndrome de dispersão; indícios de ataque
por formigas e de deficiências nutricionais,
densidade e riqueza).
Na Fase Pós-implantação (1-3 anos),
praticamente são avaliados os mesmos
parâmetros da Fase de Implantação, mas
adicionalmente é também avaliada a
cobertura da copa dos indivíduos
regenerantes ou plantados, e o
florescimento e frutificação dos mesmos.
Já na fase de vegetação restaurada (4 ou
mais anos), passa-se também a avaliar os
aspectos fisionômicos da vegetação, tal
como a presença ou não de estratos na
floresta, a identificação e a densidade de
indivíduos do sub-bosque, do sub-dossel,
do dossel e emergentes. Além disso,
também é contemplada a avaliação da
chegada de outras formas de vida na área
restaurada (espécies herbáceas, arbustivas,
epífitas, lianas) e o resgate da fauna nativa
do local.

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31
CAPÍTULO 03
DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE:
CONTRADIÇÕES E DESAFIOS
Evandro Mateus Moretto
Docente da Escola de Artes, Ciências e Humanidades EACH – USP – São Paulo – SP
Docente do Programa de Pós-graduação em Ciências da Engenharia Ambiental – USP – São Carlos – SP
Coordenador do Grupo de Pesquisa em Planejamento e Gestão Ambiental – PLANGEA – USP – São Paulo - SP
evandromm@usp.br

Resumo: As políticas atuais de desenvolvimento têm preconizado principalmente o crescimento


econômico a partir de fortes demandas de energia e recursos naturais, afetando negativamente os
ecossistemas, ameaçando a biodiversidade, gerando impactos negativos nos centros urbanos,
comprometendo o equilíbrio climático em escala global, dentre outros, ainda que empresas e governos
declarem constante comprometimento social e ambiental. As contradições fruto deste modelo de
desenvolvimento relacionado às questões ambientais atuais são analisadas neste capítulo, à luz dos
desafios para o equacionamento dos problemas ambientais atuais e de bases teóricas e conceituais do
campo da Economia e da Ecologia que resultem na melhor compreensão das relações entre o modelo
atual de desenvolvimento e as principais questões ambientais decorrentes – perspectiva essencial para
profissionais das Ciências Biológicas interessados em participar de abordagens integradoras para
análise e proposição de práticas de planejamento e gestão ambientais. É certo que este capítulo não tem
a pretensão de esgotar este tão complexo e controverso tema, mas sim apresentar aspectos gerais do
assunto em questão. O texto que se segue tem, acima de tudo, o intuito de provocar e chamar ao debate
as mentes interessadas nas controvérsias e nos desafios que o binômio desenvolvimento e meio
ambiente guarda.

1 – Apresentação organização do modelo atual de


desenvolvimento a partir, principalmente,
Nas últimas três décadas, as questões da Revolução Industrial no século XVIII –
ambientais têm emergido de forma pressuposto essencial para a compreensão
sistemática e definitiva na percepção sistêmica das questões ambientais.
humana, seja a partir de problemas Neste contexto, o objetivo do presente
vivenciados na escala local - como aqueles capítulo é prover um cenário de análise
relacionados aos grandes centros urbanos, sobre o modelo atual de desenvolvimento e
ou aos territórios rurais onde se emprega a suas relações com as principais questões
práticas agropecuárias extensivas - ou ambientais, como uma forma de verificar os
mesmo em escala planetária - como é o desafios existentes para o redire-
caso de projeções que apontam para o cionamento deste modelo no sentido das
aumento expressivo da temperatura no premissas do desenvolvimento sustentável,
âmbito global nos próximos 50 anos. ainda que este seja ainda um ideário e,
Ainda que, historicamente, o início das portanto, dotado de incertezas técnico-
preocupações acerca dos problemas científicas acerca de sua real efetivação,
ambientais date da segunda metade do como destaca Veiga [1].
século XX, sua construção está Assim, por se tratar de temática
profundamente relacionada com a própria controversa e complexa, o texto que se
32
segue não pretende esgotar as sociedade.
perspectivas de análise que existem sobre a Porém, o aumento da oferta de bens de
matéria e tampouco encerrar as consumo não gerou, necessariamente, o
possibilidades de futuras discussões. Tem, aumento da demanda pelo consumo de tais
acima de tudo, o intuito de provocar e bens pela sociedade. De acordo com Branco
chamar ao debate as mentes interessadas [2], é aqui que se estabeleceu um primeiro
nas controvérsias e nos desafios que o problema para o sistema econômico em
binômio desenvolvimento e meio ambiente expansão: como o ciclo do processo
guarda. produtivo pode ser completo se a
disponibilidade de bens de consumo está
2 - Breve histórico do desen- muito além da demanda pelo consumo por
volvimento parte da sociedade?
A solução ao problema foi o aumento da
A compreensão dos problemas demanda por meio do incentivo ao
ambientais atuais passa necessariamente consumo dos bens, concebendo-se e se
por uma incursão às bases teóricas e palicando o conceito da descartabilidade
conceituais que organizam o atual modelo dos materiais, pelo qual se diminui a vida
de desenvolvimento, adotando-se aqui útil de parte ou mesmo do todo de um
como ponto de partida histórica o período determinado bem de consumo,
da Revolução Industrial, junto à qual incentivando a sociedade a substituí-lo
estiveram também acopladas revoluções mais rapidamente e, portanto, aumentar a
paradigmáticas nos campos científico, sua demanda.
tecnológico, do planejamento e da gestão Esta, dentre outras estratégias aplicadas
das políticas públicas. para a melhoria do funcionamento dos
A partir deste momento histórico, o meios de produção e, em última análise, do
modelo atual de desenvolvimento próprio sistema econômico, permitiu o
consolidou-se como um sinônimo de equacionamento entre oferta e demanda,
crescimento econômico, preconizando-se culminando na amplificação da escala da
o aumento da escala da economia e do economia e no conseqüente aumento dos
acúmulo de capital, o qual passou a ser produtos internos brutos das organizações,
empregado no aumento da própria escala das economias locais, dos Estados e,
da economia e não na melhoria da sobretudo, da economia global.
qualidade de vida do coletivo da sociedade. Para a manutenção de tal modelo, as
No campo das ciências, a abordagem políticas públicas dos países também
reducionista de análise da realidade e a estiveram voltadas ao planejamento e a
fragmentação do conhecimento permitiram gestão de setores específicos responsáveis
soluções tecnológicas cada vez mais pelo crescimento econômico e pelo
especializadas que foram responsáveis, e aumento do produto interno bruto destes,
ainda o são, pelo aumento da eficiência de em aderência às abordagens reducionistas
produção de setores específicos da e à fragmentação do conhecimento em
economia, resultando num aumento da curso no mesmo período.
disponibilidade de bens de consumo para a
33
É preciso destacar aqui que grande parte qualidade de vida das populações e as
deste capital acumulado em decorrência do relações humanas na sociedade) seja uma
crescimento econômico foi e ainda continua evidente externalidade negativa do
ser utilizado para a amplificação da própria funcionamento do sistema econômico,
escala da economia e não para auxiliar na deve-se também compreender que ela é
reorganização das relações humanas comumente desconsiderada dentre as
deterioradas pelo próprio ganho de escala políticas de desenvolvimento, já que estas
da economia mundial [1]. estão muito mais focadas no
Assim, é possível resumir que o modelo comportamento dos produtos internos
atual de desenvolvimento foi construído e brutos, como os estandartes do modelo
está pautado, sobretudo, no crescimento tradicional de desenvolvimento.
econômico, não preconizando diretamente Veiga [1] mostra que atribuir esta
que seus benefícios sejam prontamente dimensão ao produto interno bruto, ou seja,
estendidos à melhoria das condições resumir o desenvolvimento apenas ao
humanas. crescimento econômico, implica a
desconsideração da depreciação de ativos
2 – Contradições do atual modelo que resulta do processo produtivo na
de desenvolvimento equação do desenvolvimento, como é o
caso, por exemplo, da deterioração da
Mas quais são as implicações de se qualidade de vida da sociedade, do
considerar desenvolvimento tão so- aumento da vulnerabilidade ambiental dos
mente como crescimento econômico, ecossistemas ou da própria perda global da
representado principalmente pela busca biodiversidade.
contínua no incremento dos produtos Por fim, revela-se um paradoxo
internos brutos? termodinâmico contido no funcionamento
Além de não reorientar seus benefícios do processo produtivo, de acordo com o
para a melhoria das relações humanas, pensamento econômico tradicional:
como já destacado, é importante conceber Ÿse a economia deve sempre ter
que o aumento da escala da economia, de sua escala de funcionamento amplificada
acordo com os moldes tradicionais, para prover acúmulo de capital responsável
amplifica de forma acelerada a depleção pelo desenvolvimento;
Ÿe se para isto, o funcionamento
dos estoques de recursos naturais (dotados
da economia converte formas de matéria e
de baixa entropia) e a deposição de matéria
energia de baixa entropia em formas mais
residual e energia com alto grau de
entrópicas a taxas sempre crescentes;
entropia, o que de acordo com Branco [2]
∴ Como pode o sistema econômico
são formas expressas de degradação
sustentar-se, se o seu funcionamento
ambiental. Ou seja, há produção de
resulta em aumento acelerado do seu
entropia em taxas crescentes pelo sistema
próprio grau de entropia e, portanto, na sua
econômico.
própria desorganização interna?
Ainda que a degradação ambiental (aqui
Para resolver este problema e não
considerada também a dimensão social, a
desrespeitar tão frontalmente a segunda lei
34
da termodinâmica, o pensamento aumento da escala dos produtos
dominante da economia tradicional tratou internos e que desconsidera os
de reduzir o seu universo de análise a um compartimentos ambientais que servem de
sistema fechado praticamente restrito aos fonte de recursos ou de depósito de matéria
processos produtivos, deixando para fora residual e energia entrópica. Por outro lado,
dos limites o compartimento ambiental a Ecologia comprometeu-se com um
onde repousa a crescente quantidade de universo de análise com limites mais
entropia produzida pelo próprio sistema amplos, considerando os compartimentos
econômico. Além disso, tratou de que o Economia tradicional de contemplar
considerar o compartimento ambiental historicamente.
como se fosse dotado de capacidades Em resumo, o incremento científico e
ilimitadas de suportar os processos tecnológico baseado numa abordagem
produtivos e de assimilar a matéria residual reducionista e altamente especializada, o
e a energia de alto grau entrópico dele estabelecimento de um padrão de consumo
derivadas. na sociedade e o contínuo aumento da
Portanto, de acordo com a construção da escala da economia sem considerar a
economia tradicional, se a crescente degradação ambiental derivada de seus
entropia produzida repousa em um próprios processos produtivos, foram os
compartimento externo aos limites do elementos estruturantes do atual modelo
sistema econômico e se este com- de desenvolvimento, do qual derivam o
partimento é dotado de capacidade aumento contínuo das solicitações de
ilimitada para assimilar tal grau de entropia, recursos naturais e das pressões para o
estar-se-ia desfeito o aparente paradoxo meio ambiente.
termodinâmico e o sistema econômico não E por fim, como a economia tradicional
tenderia ao caos na sua organização concebe que o sistema econômico funciona
interna. a partir da existência de fontes inesgotáveis
Embora evidentemente equivocada, esta de recursos naturais e da capacidade
concepção foi e até hoje está vigente no ilimitada de assimilação de matéria residual
pensamento econômico dominante, ainda ou energia entrópica, resultante dos
que esteja claro que o sistema econômico processos produtivos e do consumo [3], por
não está em hipótese alguma isolado de sua muito tempo não se reconheceu, portanto,
própria entropia produzida, como já têm a degradação ambiental decorrente do
muito propriamente preconizado as funcionamento do próprio sistema
abordagens da economia ecológica econômico e os limites naturais para o
iniciadas ao final do século XX. crescimento.
E também não foi por outro motivo que a
Economia e Ecologia dicotomizaram-se ao 3 – A emergência das questões
longo da sua história. A Economia tratou de ambientais e de um novo paradigma
analisar os fluxos de matéria e energia em
um sistema fechado, circunscrito ao A partir de meados do século XX, com o
processo produtivo, comprometido com o aumento expressivo das economias de
35
diversos países e, portanto, da escala do 1970, a discussão entre
próprio sistema econômico, os problemas desenvolvimento e meio ambiente esteve
ambientais decorrentes das intensas mundialmente polarizada por duas
solicitações e pressões sobre o meio posições ideológicas controversas, de
ambiente tornaram-se mais evidentes e acordo com Sachs [5] e Veiga [1]:
puderam ser melhores compreendidos Ÿos otimistas (panglossianos ou

como falhas ou externalidades negativas do maníacos pelo crescimento): baseados na


funcionamento do próprio sistema visão otimista de que era naturalmente
possível conciliar o modelo vigente de
econômico.
desenvolvimento com a adequada proteção
Não foram raros os episódios
ambiental;
catastróficos que ilustraram o
Ÿe os pessimistas (catastrofistas):
funcionamento falho do sistema alicerçados na previsão alarmante do “Os
econômico, como foi o caso do evento Limites do Crescimento”, de que o sistema
crítico de poluição atmosférica na cidade de econômico estava à beira de um colapso
Donora nos Estados Unidos, em 1948, pelo fato dos limites naturais estarem
quando centenas de pessoas morreram em sendo ultrapassados.
poucos dias e diversas unidades industriais Neste contexto ideológico, foi realizada
de um pólo siderúrgico foram paralisadas. a Conferência das Nações Unidas sobre o
Outros de natureza crônica, como os Meio Ambiente Humano, em 1972, na
efeitos inter e intra-geracionais cidade de Estocolmo na Suécia, como um
decorrentes da contaminação por mercúrio marco internacional de mobilização política
das águas da baía de Minamata no Japão, de representantes de países, da
entre os anos de 1941 e 1971, resultando comunidade científica e da sociedade civil,
em distúrbios neurológicos, em mortes e no sentido da busca de alternativas para a
em malformações genéticas em cerca de reorganização da relação entre
3.000 pessoas, o que levou o Estado a desenvolvimento e meio ambiente que
obrigar a empresa Chisso-Minamata a compatibilizasse crescimento econômico,
indenizar a população afetada e, conservação ambiental e qualidade de vida.
posteriormente, a encerrar as suas Foi nesta ocasião que começou a se
atividades [4]. organizar o novo ideário para o
No caso dos países semi- desenvolvimento cunhado inicialmente
industrializados, como o Brasil, o como Ecodesenvolvimento, até a edificação
crescimento vultoso vivenciado na segunda mais completa como Desenvolvimento
metade do século XX pela economia Sustentável, por meio da publicação “Nosso
também não se traduziu em distribuição de Futuro Comum” pela Comissão Brundtland,
renda e em melhoria da qualidade de vida, em 1988 [6].
ou seja, não tratou de reorganizar as Se para o mundo, a Conferência de
relações humanas deterioradas pelo Estocolmo em 1972 foi um marco positivo
próprio ganho de escala da economia na busca de um novo ideário para o
mundial. desenvolvimento, para o Brasil este não foi
Ainda durante as décadas de 1960 e o sentimento predominante, uma vez que a
36
representação oficial do governo bipolaridade criada pelos otimistas pelo
brasileiro assumiu publicamente ao crescimento e pelos catastrofistas, como
contexto internacional que o país detinha aponta Veiga [1], surge um grupo de
plena capacidade de suportar as atividades profissionais comprometidos com a busca
poluidoras e que, quando fosse necessário, de estratégias que permitam o
teria ainda tempo suficiente para recuperar redirecionamento do modelo atual de
a sua qualidade ambiental [5]. desenvolvimento no sentido do ideário da
Esta disposição política certamente fez sustentabilidade, ainda que este seja um
com que o país experimentasse situações conceito ainda dotado de vasta incerteza
de significativa degradação ambiental técnico-científica.
decorrente de grandes projetos de infra- Para isto, o Brasil conta com diversos
estrutura ao longo dos últimos trinta anos, instrumentos de planejamento e gestão
quando as ações de planejamento e gestão ambiental instituídos, desde 1981 pela
sempre estiveram focadas em agendas Política Nacional do Meio Ambiente, mas
setoriais, sem a adequada consideração da que, de fato com pouca efetividade,
dimensão ambiental no momento de lograram no trato do redirecionamento do
concepção das estratégicas de modelo atual de desenvolvimento.
desenvolvimento. Desde então, a estratégia de gestão
Como exemplo, tem-se a agenda de ambiental brasileira esteve sempre focada
geração de energia, para a qual a estratégia em alguns poucos instrumentos, como é o
brasileira de desenvolvimento econômico caso do licenciamento ambiental que
esteve, e certamente estará por longo preconiza a análise projeto a projeto.
tempo, alicerçada na construção de grandes Embora o licenciamento ambiental seja um
usinas hidrelétricas [7], como Itaipu, instrumento fundamental e irrenunciável na
Balbina, Tucuruí e Sobradinho, e mais estrutura sistêmica de gestão ambiental do
recentemente Santo Antônio e Jirau no rio país, o seu emprego individualizado não é
Madeira, cujas construções sempre foram e capaz de equacionar toda a complexidade
continuam sendo responsáveis por inerente à discussão de modelo de
significativa degradação ambiental de desenvolvimento face à necessidade de
abrangência regional e intra-geracional. proteção ambiental.
Neste contexto, a partir de 2000,
4 – Desafios fortaleceram-se os esforços para a
qualificação da gestão ambiental brasileira,
Pelo exposto, um desafio claro é como se de acordo com uma abordagem sistêmica
deve dar o adequado equacionamento entre de planejamento provida por outros
desenvolvimento e meio ambiente, o que instrumentos de política ambiental, como é
significa necessariamente discutir e definir- da avaliação ambiental estratégica, da
se claramente qual o modelo de avaliação ambiental integrada de bacia
desenvolvimento a ser seguido e que se hidrográfica, do zoneamento ecológico-
pretende com o meio ambiente. econômico e, dentre outros, da criação de
No espectro que existe entre a indicadores de sustentabilidade e
37
ambientais que possam medir melhor o ambiental acerca da vulnerabilidade
estado de desenvolvimento no qual se ambiental dos territórios; representa uma
encontra o Brasil. oportunidade efetiva para a integração da
As avaliações ambientais estratégica e a própria realidade do planejamento setorial
integrada podem ser definidas, de maneira de projetos do país, como uma condição
geral, como um processo que compatibiliza metodológica da política ambiental
o conhecimento e a tomada de decisão para brasileira orientada ao desenvolvimento
identificação, análise e avaliação dos sustentável, ainda que, de acordo com
processos socioambientais relevantes para Veiga [1], permaneçam limitações técnicas
uma determinada ação de intervenção e incertezas metodológicas em qualquer
humana em uma escala estratégica [8]. exercício de integração do sistema
Ultimamente, este instrumento vem sendo econômico com a conservação ambiental.
empregado, ainda que de forma tênue, pela Por fim, sejam quais e quantas forem as
Empresa de Pesquisa Energética (EPE) do estratégias de redirecionamento do modelo
Governo Federal com o objetivo de avaliar o atual de desenvolvimento no sentido do
estado ambiental das grandes bacias desenvolvimento sustentável, elas deverão
hidrográficas brasileiras que já possuam necessariamente atender a uma premissa
barramentos ou que ainda apresentem básica: deverão tratar de inserir
potencial para sua instalação, como as adequadamente a dimensão ambiental no
bacias dos rios Paranaíba, Doce, Paraíba do momento de tomada de decisão acerca do
Sul, Tocantins, Parnaíba e Uruguai. funcionamento do próprio sistema
Com abordagem semelhante, o econômico. E tal adequação requer
zoneamento ecológico-econômico é um certamente o redimensionamento da
instrumento de planejamento estratégico própria dimensão econômica, o que pode
que permite a identificação das não significar necessariamente menor
potencialidades e fragilidades do território escala para a economia, mas sim o emprego
em relação à sua ocupação por diversas de parte do capital acumulado para a
tip o lo gia s de e mp r e e nd ime nto s e reorganização das relações humanas já
atividades [6], auxiliando às tomadas de deterioradas, para o provimento de
decisão posteriores, como a escolha das resiliência nos mais diversos recortes
alternativas locacionais durante a avaliação territoriais já dotados de alta
de impacto ambiental de projetos. vulnerabilidade ambiental, para o emprego
Moretto [9] discute que o encadeamento de estratégicas de proteção da
lógico e integrado de instrumentos de biodiversidade em seus mais diversos
gestão voltados ao momento do níveis, enfim, para a preponderância do
planejamento das ações de interesse da coletividade acerca do futuro
desenvolvimento, como as avaliações da própria sociedade.
ambientais estratégicas, avaliações
ambientais integradas, zoneamentos 5 – Referências bibliográficas
ecológicos-econômicos e a composição de
[1] VEIGA, J.E. Meio Ambiente e Desenvolvimento. 2ª
bases informacionais de referência ed. São Paulo. Editora SENAC. 2006. 182p.
38
[2] BRANCO, S.M. Ecossistêmica: uma Abordagem
Integrada dos Problemas do Meio Ambiente. 2ª
reimpressão. São Paulo. Editora Edgard Blüncher LDTA.
2002. 202p.
[3] MÜLLER, C.C. Os Economistas e as Relações entre
o Sistema Econômico e o Meio Ambiente. Brasília.
Editora UNB. 2007. 561p.
[4] BRAGA, B.; HESPANHOL, I.; CONEJO, J.G.; BARROS,
M.T.L.; VERAS, Jr., MILTON, S.; PORTO, M.F.A.; NUCCI,
N.L.R.; JULIANO, N.M.A.; EIGER, S. Introdução à
Engenharia Ambiental. São Paulo. Prentice Hall. 2002.
318p.
[5] SACHS, I. Sociedade, Cultura e Meio Ambiente.
Mundo & Vida. Vol 2(1): 2000, p. 7-13.
[6] SANTOS, R.F. Planejamento Ambiental: Teoria e
Prática. São Paulo. Oficina de Textos. 2004. 184p.
[7] FURTADO, C. O Mito do Desenvolvimento
Econômico. Rio de Janeiro. Paz e Terra. 1974. 117p.
[8] TUCCI, C.E.M.; MENDES, C.A. Avaliação Ambiental
Integrada de Bacia Hidrográfica. Brasília. Ministério
do Meio Ambiente. 2006. 302p.
[9] Moretto (2008). Análise da argumentação dialética
que considera o Licenciamento Ambiental um
impeditivo ao Desenvolvimento Econômico do país:
premissas, interesses e possibilidades de superação.
Livro de Resumos do IV Encontro Nacional da
Associação Nacional de Pesquisa e Pós –graduação
em Ambiente e Sociedade. 2008.
39
CAPÍTULO 04
PROFESSORES BRILHANTES, AULAS FASCINANTES.
Paulo Roberto da Fonseca
Professor, pedagogo, consultor e especialista em educação empresarial
professorpaulo@professor.sp.gov.br

Resumo: Nossa preocupação com este pequeno ensaio é apresentar de forma clara e objetiva um
material que apresentará um pequeno resumo das apresentações e as diretrizes básicas para
organização e preparação de palestras como também de condução de aulas, visando com isso formar
complementarmente palestrantes, monitores, coordenadores no domínio de técnicas básicas de
apresentação em público e comentários sobre o domínio de salas que podem ser usadas desde o Ensino
Fundamental até a Universidade

1 – Introdução mini-curso na minha área de atuação,


que quis realmente fazer este trabalho. Mas
Vida de professor cansa! Pois é, muitas durante estes meses de preparação para o
vezes meus alunos me perguntam mini-curso, fiquei refletindo e também
“Professor o Senhor Não trabalha não?”, preocupado em trabalhar com os
respondo “E como”, chego muitas em casa participantes que se imaginam como eu, no
às 23h (e já havia saído às 06h30minh). E passado, “quando nunca havia dado uma
muito diferente de como muitos pensam, às aula na vida”.
vezes passo o dia todo “vendendo” aulas e Mas tirem a preocupação do coração,
ainda tenho outros trabalhos para terminar. pois é disso que vamos tratar, e hoje já se
Mas ser professor faz parte da minha sabe que podemos hoje aprender 90% do
vida e isso tudo também faz parte da vida de que se vai usar no dia-a-dia pela internet e
professor, certo? Mas às vezes parecer pior livros, posso falar, pois isto é uma realidade
quando você tem diversos trabalhos ou para mim.
escolas onde é professor, e aí você entra E foi a partir daí que “caiu a ficha” que de
mais cedo ainda em sala e sai bem tarde, repente teria de perguntar a mim mesmo:
pois têm que dar conta de suas aulas, em “Como ensinar dar aulas, a quem já tem
várias escolas, palestras consultorias e acesso a uma gama tão grande e
publicações, e aí lá se vai o fim de semana. diversificada de informações e ainda por ser
Mas adoro o que faço, principalmente um centro de excelência da produção
quando participo de feiras e congressos, cientifica?”
Marina Faleiros em seu texto para o Jornal O Que parte pequena e importante eu
Estado de São Paulo e publicado no site poderia discutir com esse público, que
www.universia.com.br, fala muito da agregue novos conhecimentos, ou mesmo
experiência que nós encontramos quando técnicas, lembrando ainda que como tudo
damos aula, a capacidade de nos renovar, esta tão disponível, foi aí que me lembrei da
de voltar ao estado da arte, do assunto que noção do humano, do relacionamento
vamos tratar e também como é importante e pessoal, que não temos com as maquinas e
revigorador o ambiente universitário, onde que os livros ainda não podem nos ensinar
as idéias fluem. com calor humano e fazer concorrência.
Foi a partir dessas reflexões que quando, A noção de que muitos aqui estão aqui
neste mês, que fui convidado pelos para, complementar sua formação, ampliar
organizadores do evento para ministrar um novos horizontes, mas não quero colocar
40
ninguém numa fôrma, pois a todo o bem como sou especialista em educação
momento novas formas de produção de empresarial, repasso neste pequeno artigo
conhecimento pipocam a todo instante pelo dicas do que encontrei se sucesso até hoje.
mundo.
Nossa preocupação então sobre caiu: 2.1 – Trate como gostaria de ser
como nós aqui podemos aprender a posar tratado
na frente da sala destilando um "blá blá blá"
Quando comecei a dar aulas os alunos
de uma hora que poderia ser capturado por
estranharam de me desculpar quando
qualquer um deles, a qualquer momento,
errava e por várias vezes escutei o
em centenas de fontes diferentes e ainda se
comentário “Puxa! Você é o único professor,
tornar brilhante e interessante.
aqui, que trata a gente de igual para igual”.
Será que eu era muito educado ou tratava-
2 – Vinte dicas para usar em
reuniões, em sala de aula e na escola. os como “responsáveis”?
Bem na verdade algumas dicas ajudam
Muita gente me pergunta sobre dicas muito. Podemos citar, por exemplo, criar
para dar aulas, fui executivo de um grande vínculos é uma delas, e sempre quando for
banco e responsável por recursos humanos falar com as pessoas em particular (não
por um período e agora sou professor durante a exposição) abaixe o tom da sua
mesmo, cumprindo desafios no Ensino voz, nunca fale mais alto que seu
Médio Estadual, na Educação Empresarial e interlocutor, fique na altura da voz deles.
em faculdades, efetivamente desde 2005. Também não trate os ouvintes como
As coisas vêm mudando muito daquela “desconhecidos” ou ainda de “zerados” de
época para cá! Um exemplo é a informática, conhecimento, isto ajuda bastante.
os micros mais rápidos eram Pentium III, o Outra coisa que também ajuda é usar
Speedy estava engatinhando com sua super imagens e figuras: na sala de aula isso
velocidade de 256kbps, a moda em sites aguça a imaginação e ajuda muito. Ouvir
eram aberturas gigantescas em Flash, música ou colocar músicas que chamem a
ninguém conhecia o Orkut, Blogs eram atenção também, em aula dinâmica deve
diários pessoais, profundo não? fazer parte. E às vezes tem até que fazer
Porém o que mais mudou nesses quatro uma coreografia e até decorar a
anos chama-se “Inclusão Digital”. Desse coreografias como "Ragatanga", fica
tempo para cá, computadores venderam realmente interessante. Resumindo, use o
como água (em 2007, venderam mais que humor também.
televisores) e a maioria das casas passaram
a ter um computador. A nova geração as 2.2 – A importância do convívio
crianças nasceram com um computador em
casa e usam o celular diariamente. Entender como funciona a cabeça dos
É por esse motivo que dar aulas para as discentes é outro fator importante. A
gerações mais novas não é apenas mostrar experiência de conviver com eles sempre
como são os equipamentos da informática bem de perto é muito diferente de apenas
“isso é um mouse”, “isso é um monitor”. Dar chegar encima da hora todo dia.
aulas é muito mais é aprender a se Principalmente porque são pessoas e as
relacionar com as pessoas geralmente de pessoas gostam de se conhecer e os
uma geração “mais moderna” que a sua, sentimento uns dos outros. Isso explica
porque muitos alunos sempre partem para
41
a agressão física no Ensino Médio, pois tem argumentos para falar. E se nada der
desconhecem muitas vezes um ao outro. certo daí peça intervenção de alguém de
Mas depois que começamos a dialogar fora, uma coordenadora, mas sem causar
saber quem são e que o estamos fazendo tumulto.
ali, eles nos entendem muito mais do que
podemos imaginar. 2.6 – Mantendo a postura

2.3 – Cuidando da concorrência Outra falha que há de professores são


decisões pessoais de posturas que não são
Seres humanos são por si só muito comuns a todos. Assim antes de encarar a
curiosos, principalmente por coisas que turma, é bom conversar com o
elas nunca viram! Ou seja, nunca use um coordenador, com outros professores,
projetor multimídia, TV ou datashow para palestrantes que já conhecem o local, visitar
mostrar alguma coisa, se quer a atenção o ambiente antes para saber sobre o público
delas, pois, elas só vão prestar atenção nas seu. Além de você evitar “dar foras”, você
imagens, que você nem de longe é pode ficar mais atento com os alunos que
concorrente possuem déficit de atenção ou outros
Em compensação, se você tiver algo problemas de aprendizado.
quebrado, de desmontar de montar, leve-o
para a aula. Eles vão adorar mexer, 2.7 – Fazendo ajustes
tornando a aula assim mais interessante,
podendo ocorrer até com aulas de Bem não é segredo para ninguém
matemática, física e química, tornando-as sempre em tudo que a gente começa as
bem divertida primeiras semanas são um caos Há muita
dúvida, ajustes a serem feitos assim
2.4 – Usando a curiosidade procure identificar aqueles alunos,
participantes que causarão problemas e não
Nós adoramos usar computadores para tire o olho deles, o inimigo deve ser
jogos, internet e criar imagens e mídias, colocado na frente e não no fundo.
aproveite isso ao seu favor. Existem vários
jogos de matemática, português ou ciências 2.8 – Gritar não adianta.
bem interessantes. Fale com professor de
cada área, já que eles sempre recebem E gritar! Não adianta muito, mas todo
cartas com empresas divulgando esses sites mundo grita uma vez ou outra. Mas como
e você incrementa a sua aula. eu estabeleça que esse seja método a ser
usado por último. O que funciona muito é
2.5 – No controle, perto de você ficar parado de braços cruzados na frente
da sala sem dar uma palavra. Alguém vai
Outra coisa que não funciona quase nada falar “Gente, o professor ficou bravo”. Elas
é mandar aluno para fora da sala de aula, respeitam se você mostrar respeito,
você arruma problemas para outros e não respeito, aliás, deve ser à base de nossa
resolve o seu. Então converse com ele sociedade.
tranqüilamente e mostre que ele está
atrapalhando. Combinar tudo antes de 2.9 – Você não é pai, mãe ou tio
iniciar uma palestra, curso ou aulas, é muito
bom, pois ninguém se sente traído e você Seja amigo de seus alunos, nem pai, nem
42
mãe, muito menos tio ou tia: não temos Prometeu cumpra, tenha um caderninho,
laços familiares, isso realmente precisa use sua agenda, procure cumprir
ficar claro. Você pode dar atenção, motivar cronogramas, datas de avaliações ou
(até sentar com eles de vez em quando no horários de apresentações, se você não
intervalo), mas evite dar liberdades em sala fizer isso cairá no descrédito. E o
de aula, tanto pessoais como de ações como “caderninho” servirá ainda para registrar as
tomar sucos, ouvir celulares, etc. durante as ocorrências “as pisadas na bola” que mais
aulas tarde você poderá cobrar.

2.10 – A troca de idéias 2.14 – Participe

Aulas é didática e didática é Participe de todas das atividades da


transferência, trocam de idéias e escola, das reuniões de pais, chame os pais,
conteúdos, ocorrendo isso suas aulas fale com eles, se apresente, os alunos vão
ficaram sem dúvidas mais interessantes e saber que você se interessa e vão te
você manterá a sala e platéia sob controle e valorizar mais.
poderá cumprindo o seu papel.
E mais, como me aconselharam 2.15 – Mantendo o relacionamento
reproduzo um conselho: assista "Super
Nanny" (reality Show no SBT)! Você vai Com seus colegas procure ser solicito,
entender muito mais de psicologia e atender as ansiedades, quebrar galhos de
relacionamento interpessoal, vez em quando e participe ativamente de
principalmente se você cair em salas do todas as reuniões de professores, inclusive
ensino fundamental. criticando pessoalmente o que você não
concorda, não entre em panelinhas.
2.11 – Como deixar a sala
2.16 – Redundante, mas, ler é
Você poderá deixar sua sala, mas deixe importante
claro onde foi e se demorará ou não e como
devem agir; lembre-se passando dos Outra dica: leia bastante psicologia e a
horários ou fazendo algo diferente você terá bíblia, aprenda que o amor é uma dica
problemas de disciplina na sala. fantástica no relacionamento com seres
humanos só fará você crescer. Procure na
2.12 – Brinquedinhos escola também normalmente na
coordenação há vários livros sobre didática,
Brinquedinhos todos nós carregamos. é bom conhecer.
Não adianta ficar perturbado com o uso em
sala; brigar aguçará ainda mais a 2.17 – Obtendo apoio
curiosidade pelos “brinquedinhos”. Sempre
quando você os vir usando equipamentos, Ter apoio é bom procure os antigos
converse, explique que estão em aula e que professores, quem já deu aula, O
não podemos nos dispersar com isso, não coordenador que todo mundo diz ser
“dê muita bola”, senão... “antigo” pode dar várias dicas sobre a escola
e os alunos
2.13 – Promessa é dívida
2.18 – Primeiro dia em sala de aula
43
como você pode acabar com isso?
Simples, domínio do assunto essa é a frase
Caso você nunca tenha dado aula e vai
mágica que faz com que o nervosismo
ser sua primeira experiência, peça para
desapareça num passe de mágica. Mas para
coordenadora estar presente ou passar
combater então esse mal, é necessário
sempre por ali (não muito também) é nessa
dominar o conteúdo, muito estudo e
hora que um curso de extensão sobre
dedicação.
Didática e Pedagogia vão fazer falta.
Precisamos saber que o nervosismo é
uma conseqüência de medo. Que dispara
2.19 – Discipline-se
nossas glândulas supra-renais liberam

E discipline-se sempre que possível, adrenalina no organismo para enfrentar o

monte seu cronograma de aulas em cima do perigo e fortalecer os músculos, ação

cronograma de aulas factível de outros primitiva que nos prepara para fugir

professores para tornar tudo mais rapidamente de uma situação de perigo.

interessante, mas siga-o, isso chama Então é normal veja: ficamos com medo

transversalidade. de que? do público está ali na nossa frente


aguardando que façamos a nossa
2.20 – Respeitando apresentação. Assim, como não nos
movimentamos como deveríamos nos
A dica mais importante lembre-se são movimentar se estivéssemos fugindo, a
pessoas, gostam de respeito e serem adrenalina não é metabolizada e permanece
respeitados, são amorosos por natureza, mais tempo do que deveria no organismo e
Deus os fez assim, procure mostrar provoca esse nervosismo todo.
também que você é humano e Deus está Conhecer o assunto com a maior
presente na sua vida, sem entrar muito na profundidade possível e ordená-lo de
religiosidade. Apenas seja sincero e reto, e forma lógica e concentrada; Treinar
leia a Bíblia, no mínimo você sempre terá bastante o uso da palavra em público para
uma história pra contar. ter prática e adquirir experiência; Aprender
a identificar as qualidades de comunicação
3 – Falando em público que você possui.
Mas existe um ponto positivo da
Escolhi este tipo de recurso discursivo adrenalina ao nosso favor, ao contrário, um
para poder atender às expectativas da pouco de adrenalina não atrapalha, até
maioria dos leitores, um roteiro com ajuda, pois se transforma em energia
respostas às perguntas mais comuns positiva e ajudá-lo a falar com mais
formuladas. Vou apresentar as mais disposição e entusiasmo.
comuns organizando-as por ordem de
relevância 3.2 – E as mãos

Quem já não percebeu que ao falar em


3.1 – Ficar nervoso
público as mãos sobram, o que fazer com
elas? Não se preocupe: suas mãos não vão
Quando vamos falar em público ficamos
cair. Use-as como você estivesse em uma
todos muito nervosos, o coração acelera, as
conversa com a família e amigos e é até
mãos suam, as pernas tremem, a voz
permitido gesticular muito. Só temos que
enrosca na garganta, e até os pensamentos
tomar cuidado com os gestos, pois muitos
somem, como também a concentração. E aí
sem querer fazem gestos de sentido dúbio e
44
até obscenos, o que pode ser sanado gravada ela é sua verdadeira voz é como
com muito ensaio. Mas se tiver de optar as pessoas ouvem.
entre a falta e o excesso de gesticulação, Uma coisa importante, porém na voz é
prefira a falta. trabalhar a dicção. Quanto mais clara for a
Procure também ensaiar gestos pronúncia das palavras mais facilmente as
moderados, acima da linha da cintura e sem pessoas irão compreender suas
pressa de voltar com as mãos a uma posição informações e mais credibilidade você terá
de apoio. Nossa preocupação será agir de pela demonstração de bom preparo e boa
forma mais normal possível. De forma educação.
objetiva e simplificada, a regra é usar as O outro aspecto que deve ser dado
mãos para explicar com as mãos e com ênfase é no volume, a altura deve
moderação, ajudando o que você está corresponder ao ambiente, por isso
dizendo. chegamos cedo aos salões e muitos de nós
nos encontramos gritando. Muitos usam
3.3 – Onde ficar
um gravador no fundo da sala para verificar
Onde se posicionar diante do público? a chegada do som, importante isso, sem
Podemos nos movimentar? Uns falam que dúvida.
devem e outros falam que não, parado é Também não podemos esquecer-nos da
melhor, qual será então o ideal? velocidade quando mais lenta com
Ambos os pontos de vista estão corretos, entonação melhor. Assim, recite poesia, é
mas se você ficar imóvel diante do público, sensacional.
dificilmente conseguirá a atenção dos
3.5 – Vocabulário
ouvintes, mas se você se movimentar
demais, poderá perder a objetividade, e sua
imagem será de alguém inseguro, hesitante Embora tenhamos medo de não saber o
e sem convicção. que falar e que vocabulários usar, mas pare
Assim, o melhor é posicionar-se de se preocupar, tenha uma atitude positiva
naturalmente sobre as duas pernas, com em relação à platéia “Eles vão me entender”,
muito equilíbrio, sobre o seu corpo e seja você mesmo, mas tente evitar
procure se movimentar quando houver regionalismos, mesmo que o regionalismo
realmente necessidade como ao para alguns palestrantes é sua marca
aproximar-se da platéia que fica desatenta, registrada
ou dar ênfase a determinadas informações Assim não queiram ser diferentes disso
importantes. sim poderá causar problemas e
constrangimentos, fale como você conversa
3.4 – A voz não é bonita sem constrangimentos
Muitas pessoas para ampliar o
Realmente muito poucas pessoas
vocabulário passam a ler revistas com um
gostam de ouvir sua própria. Voz mesma
dicionário perto ou anotam palavras para
que seja gravada e assim não a usam com
depois verem seu significado passando
eficiência, mas Isso ocorre porque quando
usar depois em seus textos e conversar
falamos ouvimos a voz pela ressonância
diárias.
óssea dentro da nossa cabeça e a voz
Mas evitem sim gírias e palavrões
gravada é propagada por ondas no ar, por
pesados.
isso, muito diferente daquela que ouvimos
quando falamos, acostume-se com a voz
45
3.6 – Encantando a platéia – a e tema apresentado ou discutido, pois
seqüência conclusões complexas causam muitas
vezes um descontrole e um mal estar,
Não há segredo, para se iniciar não há
melhor evitar.
outro caminho “Tem que se começar do
início”, temos que antes jogar no papel ter o Depois de algum tempo desenvolvi junto
tema principal ou fonte como abertura e a com colegas as técnicas para praticar uma
partir daí ordenar o pensamento nessa apresentação, cujo resumo eu passo a
ordem, pois você saberá automaticamente vocês:
o que dizer mesmo que tudo falhe (mídia,
retroprojetor e flip-chart), a idéia principal ŸFaça apresentações curtas, de um
então é “organizar as idéias”. minuto e meio a dois minutos, em uma sala
fechada.
A seqüência que eu sempre trato e acho ŸFale de uma viagem interessante que
aproveitável é entre introdução e conclusão realizou, de como conquistou seu emprego,
passando por: de um desafio que tenha enfrentado e
ŸIntrodução - você deve ter uma superado.
introdução ao assunto ŸVocê poderá também fazer uma
ŸHistórico - contar qual é o assunto; homenagem a um amigo ou a uma pessoa
ŸProblema - Detalhar um problema conhecida. .
(se houver) a ser solucionado ou refazer um ŸImagine que as pessoas estejam na
histórico do tema atual; sala assistindo à sua apresentação e
ŸSolução - Dar a sugestões para certifique-se de que elas estariam ouvindo
problema ou falar do presente. Usando e entendendo bem sua mensagem.
sempre argumentos de que dispõe e ŸSiga as orientações dadas para a voz,
defendê-los. Você deve conhecer muito do para o vocabulário e para a expressão
assunto, lembre-se. corporal. Observe também a seqüência
ŸConclusão - Concluir pedindo que sugerida para a ordenação da fala.
reflitam ou aceitem a proposta. ŸTreine várias vezes a mesma
apresentação até sentir que está falando
É natural usar em cada um desses, itens
com desenvoltura.
que fortalecem as apresentações das
mensagens como pesquisas, gráficos, Então aqui neste pequeno ensaio nos
frases, que quebram muito as resistências preocupamos em que vocês possam
ao tema. receber informação nossa e com certeza
Ao iniciar use um quebra gelo, usando usar as dicas e técnicas de apresentação
elogios sinceros a ouvintes ao local, talvez com seus futuros alunos e ouvintes Assim
contanto uma pequena história que possa vamos aproveitar nossas aulas que serão
ligar ao assunto tema, isso fará que surja apenas neste final de semana e bolar uma
uma reflexão desde o início dos trabalhos, forma diferente de torná-los bons
mas não se esqueça cumprimento todos professores, palestrantes e coordenadores
novamente mesmo que o grupo seja de salas a partir de uma experiência lúdica e
pequeno é uma cordialidade necessária prática sobre o relacionamento humano e
cristão aplicado em sala de aula, nos
Na conclusão final, peça aos
tornando professores brilhantes com aulas
participantes um reflexão sobre a proposta
interessantes.
46

4 – Agradecimentos

Agradeço a Deus por ter estendido


minha vida para que pudesse cooperar em
divulgar meu trabalho, louvando
primeiramente Seu Nome.
A minha esposa Ana Maria a atenção e a
cuidadosa revisão feita por ela, cuja
colaboração foi importante na elaboração
deste material.
A meu filho Paulo que me incentivou a
atender este projeto.

11 – Referências bibliográficas

[1] CARNEGIE, Daile – Como fazer amigos e


influenciar Pessoas, - Nacional - São Paulo -1999.
[2] CURY, Augusto – Pais brilhantes, professores
fascinantes, - Sextante - São Paulo 2007.
[3] LEAL, José – A Arte de falar em público, Campus -
São Paulo - 2005
[4] VOLI, Fano – A Auto-estima do professor, Loyola -
São Paulo - 2006.
47
CAPÍTULO 05
EXPERIMENTOS PARA ESTUDOS DE
BIOEQUIVALÊNCIA MÉDIA
Mauricio Bedim dos Santos
Pós-Graduação em Biometria - Instituto de Biociências de Botucatu – Botucatu – SP
Biocinese – Centros de Estudos Biofarmacêuticos
mabedim@ibb.unesp.br

Luzia Aparecida Trinca


Departamento de Bioestatística - Instituto de Biociências de Botucatu - UNESP – Botucatu – SP
ltrinca@ibb.unesp.br

Míria Cristina Kuhn


Biocinese – Centro de Estudos Biofarmacêuticos
miriack@yahoo.com.br

Resumo: O objetivo dos ensaios de bioequivalência é comparar duas ou mais formulações de um


tratamento com relação as suas biodisponibilidades. Em geral, os estudos comparam uma formulação
teste (T) com uma formulação padrão, chamada de referência (R). Neste trabalho, uma introdução é
apresentada para as várias etapas envolvidas nos experimentos: clínica, analítica e estatística. As
definições de bioequivalência são apresentadas e enfoque é dado para o caso de bioequivalência média.

1 – Introdução dos medicamentos antes da sua


comercialização, devido ao catastrófico fato
Estudos de bioequivalência têm como
ocorrido com o medicamento Sulfanilamida
intuito demonstrar a intercambialidade de
em 1937, utilizado no combate de infecções
medicamentos, garantindo a premissa de
por estreptococos. [1] [2]
eficácia, segurança e qualidade, além da
Apesar desse acontecimento, no final da
disponibilização de medicamentos de
Segunda Guerra Mundial, médicos alemães
menor preço.
utilizavam as pessoas como “materiais
Até o ano de 1906, os medicamentos não
humanos” a fim da obsessão ao
apresentavam qualquer comprovação
desenvolvimento de medicamentos. [1] [3]
quanto sua eficácia e segurança, assim
Em resposta, foi criado o Código de
como a venda e propaganda não obedeciam
Nurnberg, na década de 40, que introduziu
qualquer regulamentação. [1]
o conceito de consentimento por parte dos
Neste mesmo ano, nos EUA, criou-se o
sujeitos da pesquisa, a fim de efetuar a sua
órgão regulamentador FDA (Food and Drug
proteção e livre escolha de participação. [3]
Administration), responsável pela
regulação da produção, do transporte e da
A partir da década de 60, a indústria
venda destes produtos, mas não exigia
farmacêutica de medicamentos recebeu a
qualquer outra regulamentação quanto a
iniciativa do governo dos Estados Unidos
sua eficácia e segurança.
para comprovação da segurança e eficácia
Já em 1938, o Congresso Americano
de medicamentos produzidos até então,
aprovou uma nova regulamentação a qual
realizando-se testes in vivo para
propunha a apresentação de testes que
comprovação da eficácia dos
comprovassem cientificamente a segurança
medicamentos. Este acontecimento foi
48
essencial para o inicio do patrocínios de indústrias farmacêuticas
desenvolvimento dos medicamentos em busca de garantir a qualidade e buscar
genéricos. [4] marketing de seus medicamentos. [8] [9]
O código de Nurnberg não foi suficiente
para eliminar os abusos ocasionados na Foi somente a partir de 1993 que ocorreu
pesquisa com seres humanos. Foi com este a primeira iniciativa legal a favor dos
intuito que surgiu a Declaração de Helsinki medicamentos genéricos no Brasil, já que
em 1964, em que foram estabelecidos os somente o FDA e EMEA (Agência Européia
princípios para proteção de indivíduos nas de Medicamentos) possuíam
pesquisas clínicas por profissionais regulamentação referente a estudos de
qualificados. Na mesma foram definidas as biodisponibilidade/bioequivalência, pois
responsabilidades referentes ao até o momento não existia nenhuma
investigador, comitês de ética, assim como regulamentação pela legislação brasileira.
a criação do consentimento livre e [8]
esclarecido. Hoje, a Declaração de Helsinki A partir daí começaram a serem
constitui-se o documento universal de
implantadas novas normas para condução
proteção aos voluntários. [1] [3]
dos estudos clínicos que apresentassem
Em 1969 iniciou-se a utilização de
conformidade com os padrões éticos e
estudos de bioequivalência, no Canadá,
científicos, implementando os comitês de
através de uma legislação para registro
ética em pesquisa (CEP e CONEP) e
compulsório de medicamento. Em 1977 o
responsabilidades por parte dos
FDA publicou diretrizes para a realização
pesquisadores na condução dos estudos.
destes estudos. [5]
[1]
Em virtude da expansão da pesquisa
Em 1999, foi promulgada a lei 9.787 que
clinica e das indústrias farmacêuticas na
estabeleceu diretrizes, normas e critérios
evolução dos estudos in vitro e in vivo, a
para a implantação dos medicamentos
partir de 1970, começou a serem utilizados
genéricos no Brasil, ao mesmo tempo foi
e desenvolvidos métodos de análise mais
publicada uma resolução que estabelecia a
sensíveis, exatos e precisos para a
regulamentação técnica para registros de
determinação dos princípios ativos dos
medicamentos genéricos determinando
medicamentos, tanto em matrizes simples
que estes devem apresentar testes: in vitro
como em amostras biológicas, o que
(equivalência farmacêutica), in vivo –
representou um avanço notável na
(biodisponibilidade relativa/bioequivalên-
quantificação dos processos de absorção e
cia). [9]
sua correlação com os fatores de
formulação da dosagem adequada. [6] [7] Os estudos de bioequivalência entre

Em 1989, foram iniciados no Brasil pelo medicamentos tem como objetivo a


Prof. Dr. Gilberto De Nucci na unidade de comparação entre dois produtos
pesquisa de Farmacologia da Unicamp, os (medicamento teste e medicamento
estudos de biodisponibilidade, ou seja, a referência) contendo o mesmo princípio
taxa e a extensão que uma molécula após ativo, na mesma concentração, mesma
sua absorção torna-se disponível em seu forma farmacêutica que, ao serem
sitio de ação, medindo-se a concentração administrados na mesma dose molar, nas
do princípio ativo no sangue, soro ou outro mesmas condições experimentais e pela
fluido biológico, em função do tempo. mesma via. São avaliados parâmetros
Estes estudos foram incentivados com farmacocinéticos relacionados a
49
biodisponibilidade, ou seja, a do estudo, número de voluntários,
quantidade absorvida e a velocidade do delineamento, forma de confinamento,
processo de absorção. Assim dois administração do medicamento, dieta,
medicamentos são considerados tempos de coleta , verificação de sinais
bioequivalentes quando estes vitais, o sistema de armazenamento e
apresentarem mesma ou similar quantificação das amostras, parâmetros
disponibilidade segundo limites pré- estatísticos utilizados, entre outras
estabelecidos. [10] informações. O protocolo deve ainda
Os estudos de bioequivalência de apresentar termo de consentimento livre e
medicamentos genéricos devem esclarecido. Após sua elaboração, o mesmo
contemplar três etapas: clínica, analítica e é submetido para aprovação do CEP ou
estatística, as quais serão descritas ainda pela ANVISA (Agencia Nacional de
posteriormente.
Vigilância Sanitária), sendo que após a
aprovação pode ser inicializada a etapa
2- Etapa Clínica
clínica do estudo. [10] [11] [12] [13]
A etapa clínica compreende desde a A etapa clínica inicia-se a partir do
seleção dos voluntários até a alta hospitalar recrutamento dos voluntários os quais são
e o último retorno para acompanhamento. avaliados quanto aos critérios de inclusão e
Necessita seguir critérios regidos pelas exclusão. São alguns dos critérios de
Boas Práticas Clínicas, a qual expõe os inclusão: ter idade entre 18 e 60 anos, não
critérios e padrões de qualidade para a apresentar nenhuma patologia, não tomar
estruturação, condução, relato e registro de algum medicamento de uso contínuo,
todos os estudos realizados com humanos, apresentar índice de massa corporal (IMC)
a fim de garantir o bem estar, a ética e a dentro dos parâmetros normais, entre
credibilidade de acordo com os preceitos da outros.
Declaração de Helsinki. [11] Após esta primeira avaliação, estes
Antes da execução da Etapa Clínica é voluntários são submetidos a consultas
necessária a elaboração e aprovação do clínicas e exames laboratoriais para
protocolo de pesquisa para o estudo de avaliação da aptidão na participação dos
bioequivalência. O protocolo de pesquisa é estudos.
um documento que necessita ser aprovado Os voluntários aptos são convidados a
por um Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) participar de determinado estudo,
devidamente credenciado junto ao Comitê
assinando um termo de consentimento livre
Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP)
e esclarecido e, se for de seu interesse é
sendo que, deve conter todas as
encaminhado a unidade para realização da
informações referentes ao estudo a ser
etapa clínica, onde ficará confinado durante
realizado. Entre estas citam-se: nome do
o período estimado no estudo.
fármaco, a dosagem, a forma farmacêutica,
A área de confinamento deve apresentar
nome dos fabricantes dos medicamentos
instalações de segurança à realização dos
teste e de referência, local da pesquisa,
procedimentos, tratamento de possíveis
responsabilidades do patrocinador do
intercorrências (como situações de
estudo, descrição detalhada do projeto de
emergência) e conforto aos voluntários,
pesquisa, incluindo revisão bibliográfica
além de supervisão médica durante todo o
dinâmica sobre a farmacocinética e
farmacologia do medicamento, critérios de período do confinamento. [4]
inclusão e exclusão de voluntários, duração Os voluntários recebem os
50
medicamentos conforme o método bioanalítico.
delineamento do estudo, juntamente com Os estudos de bioequivalência
volume de líquido (geralmente água) empregam a utilização de humanos, e os
padronizado. Após a administração do mesmos não podem ser envolvidos no
medicamento os voluntários sofrem coletas estudo sem uma certeza que os fluídos
de sangue ou urina conforme tempos biológicos obtidos serão devidamente
preconizados em protocolo e que analisados. Com isso, o método bioanalítico
compreendam o período de 3 a 5 meias deve ser previamente validado [15].
vidas de eliminação do fármaco ou A validação do método bioanalítico é um
metabólito ativo. processo dinâmico e contínuo que inicia nas
Caso o experimento envolva aplicação fases de seleção, desenvolvimento e
de outra dose do medicamento, o intervalo otimização de metodologias, qualificação
entre os períodos de administração deve
de equipamentos, materiais e pessoal. Um
compreender, pelo menos, sete meias-
processo de validação bem definido e
vidas de eliminação do fármaco ou do
documentado fornece evidências objetivas
metabólito, quando o mesmo for ativo.
de que o sistema e o método atendam as
A equipe médica deve preencher um
exigências das aplicações analíticas, sendo
formulário de registro de eventos adversos
adequado para o uso pretendido.
quando estes forem evidenciados e
A validação é a execução de todos os
relacionar os procedimentos realizados
parâmetros preconizados pelo órgão
para controle ou tratamento dos mesmos.
regulador, os quais são: Especificidade
[9]
(HPLC) e Seletividade (LC-MS/MS),
Após o término do estudo os voluntários
Linearidade, Precisão, Exatidão, Diluição,
recebem a alta da equipe médica, porém,
Limite de Quantificação (LQ), Limite de
estes realizarão uma nova avaliação
Detecção (LD exceto para sistema LC-
(incluindo exames e avaliação médica) a fim
de garantir a integridade da saúde dos MS/MS), Robustez e Estabilidade. [1] [15]
mesmos. [12] Durante o desenvolvimento analítico,
As amostras coletadas são estocadas em antes do início da validação do método, são
congeladores com controle de temperatura definidas e testadas as concentrações da
em tempo integral e são encaminhadas a curva de calibração e as concentrações dos
etapa analítica onde serão processadas para controles de qualidade (controle de
obtenção dos valores de concentração qualidade baixo, médio e alto) utilizados
plasmática. [4] como monitoramento das análises quanto a
Todas as atividades realizadas nesta precisão e exatidão das análises,
etapa necessitam ser documentadas em comparadas a uma curva de calibração.
fichas clínicas, de confinamento e reações O estudo de estabilidade (parâmetro que
adversas e arquivadas por um tempo faz parte da validação) visa determinar se o
determinado para consulta, auditoria e analito (princípio ativo ou metabólito)
outras avaliações efetuadas pelo órgão de mantém-se quimicamente inalterado numa
fiscalização competente. [1] [4] dada matriz biológica sob condições
específicas, em determinados intervalos de
3 – Etapa Analítica tempo e tentam reproduzir as reais
Na etapa analítica os fármacos são condições de manuseio e de análise das
quantificados, a partir das amostras amostras biológicas. [1]
coletadas durante a etapa clínica por um Dentre os parâmetros utilizados na
51
validação podemos destacar a formulações de um tratamento com
linearidade a qual corresponde a relação as suas biodisponibilidades. Em
capacidade do método de fornecer geral, os estudos comparam uma
resultados diretamente proporcionais a formulação teste (T) com uma formulação
concentração da analito em estudo. A curva padrão, chamada de referência (R).
de calibração para análise de amostras Existem três definições de
biológicas deverá contemplar no mínimo bioequivalência entre formulações:
seis pontos quantificáveis, podendo bioequivalência média, bioequivalência
aumentar conforme necessidade analítica e populacional e bioequivalência individual. A
extensão da curva que se pretende utilizar e bioequivalência média restringe-se a
para determinação da linearidade. comparar as médias das medidas
Através da curva de calibração obtêm-se farmacocinéticas, enquanto que a
uma reta de regressão que será utilizada na bioequivalência populacional compara as
quantificação das concentrações distribuições das medidas
plasmáticas dos voluntários. Para cada fármacocinéticas. Já a bioequivalência
grupo de voluntários (geralmente de 1 a 3 individual considera também a
voluntários) é preparada uma nova curva de variabilidade intra-indivíduos das
calibração, dependendo das condições formulações teste e referência e suas
analíticas. interações. [5] [14] Nesse texto apenas a
Para aceitação da curva de calibração, o bioequivalência média será abordada. 4.1.
coeficiente de variação entre as Delineamento e parâmetros
determinações devem ser menor ou igual a farmacocinéticos
15% para todos os pontos exceto para o O delineamento do experimento com os
limite de quantificação, que pode ter um voluntários deve permitir distinção entre o
coeficiente de variação de até 20%. A efeito da formulação e outros efeitos que
exatidão em relação a concentração podem afetar a resposta. O delineamento
nominal deve ficar entre 85-115% para cada cruzado (cross-over), com duas sequências
ponto, exceto para o limite de e dois períodos é o mais usado. Neste
quantificação, onde são aceitos valores delineamento, os indivíduos são
entre 80-120%. O coeficiente de correlação aleatoriamente separados em dois grupos.
linear deve ser igual ou superior a 0,98. Em Um dos grupos recebe a sequência de
caso de heterocedasticidade, a ponderação tratamentos RT e o outro recebe a
mais adequada é a que apresenta o menor sequência TR. Entre os dois períodos deve
valor para a soma dos erros relativos dos haver um intervalo de tempo de descanso
valores nominais dos padrões de calibração longo o suficiente para que toda a
versus seus valores experimentais obtidos substância administrada no período 1 seja
pela curva de calibração. [15] eliminada (washout).
Após a validação da metodologia as Após a administração da droga, medidas
amostras de plasma dos voluntários serão da concentração da substância no plasma
processadas as respostas submetidas a são tomadas ao longo do tempo (de 0 a t)
análise na etapa estatística. gerando uma curva para cada indivíduo em
cada período. As amostras dentro do
4 – Etapa Estatística intervalo de tempo de 0-t devem permitir a
adequada estimação da taxa e extensão da
O objetivo dos ensaios de
absorção (exposição total) e da taxa de
bioequivalência é comparar duas ou mais
52
eliminação. Medidas farmacocinéticas, duas formulações. Dado duas
derivadas do perfil de concentração ao hipóteses, o procedimento estatístico de
longo do tempo, são calculadas como: teste de hipóteses tem o objetivo de, com
ASC0- : área sob a curva no intervalo 0 -
t;
t base em resultados experimentais, fornecer
ASC : a área sob a curva extrapolada para indicativa na tomada de decisão em favor de
t® ¥ ; Cmax: a concentração máxima uma das hipóteses. As hipóteses envolvidas
obtida; t max : tempo para atingir a são chamadas de “nula” (H0) e “alternativa”
concentração máxima no plasma. (HA). No caso de bioequivalência, uma das
A área sob a curva de concentração é hipóteses afirma bioequivalência e a outra
a medida universalmente aceita para não bioequivalência. A natureza aleatória
caracterizar a exposição total à droga, já das respostas faz com que este
que uma relação fundamental da procedimento esteja associado a dois tipos

f´ dose de erros: Tipo I - Rejeitar H0 quando na


farmacocinética diz que ASC = realidade ela é verdadeira e Tipo II – não
Ke ´Vd
rejeitar H0 quando ela é falsa. O erro Tipo I
Vd é o
( K e é a constante de eliminação; tem probabilidade controlada (fixa) (α), mas
volume de distribuição, cl =
Ke ´Vd é o a probabilidade do erro Tipo II (β) é uma
clearance; 'dose' é a dose administrada e f é função dos valores dos parâmetros
a fração absorvida), ou seja, o efeito da satisfazendo HA. Fazendo uma analogia
formulação ( f ) é proporcional à ASC . com testes de hipóteses em outras áreas,
Comparando-se a ASC s para as suponha que H0 seja a hipótese de
duas formulações, a biodisponibilidade bioequivalência e HA a de não
relativa de T versus R, num mesmo bioequivalência. A probabilidade de
erroneamente concluir pela não
ASCT fT ´
doseT ´
clR
indivíduo, é = que bioequivalência (risco do fabricante) estaria
ASC R f R ´ doseR ´
clT
controlada (α) enquanto que a
se reduz a
ASCT fT quando as doses e
= probabilidade de erroneamente concluir
ASC R f R
pela bioequivalência (risco do consumidor)
clearances são iguais. Esta relação não está controlada. Por esta razão, as
multiplicativa sugere o uso da hipóteses são trocadas de maneira a se
transformação logarítmica nos dados de controlar o risco do consumidor
ASC . Em termos de distribuições de (erroneamente concluir pela
probabilidade, a variável ASC é associada à bioequivalência). Assim, as hipóteses são:
distribuição Lognormal cuja transformação H0: As formulações T e R produzem, em
logarítmica normaliza a variável. [1][16][17] média, exposições diferentes do fármaco
(μ T ¹
μ R ) e HA: As formulações T e R
4.2. Hipóteses produzem, em média, exposições
equivalentes (μ T =
μ R ) , em que é μi
Hipóteses são afirmações sobre a esperança ( média populacional ) de
parâmetros populacionais, por exemplo, ASCi (i =
T ou R). No entanto, o proce-
sobre as médias das biodisponibilidades de dimento padrão em bioequivalência tem
53
sido demonstrar que, em média, a Se D é um estimador não ten-
exposição na formulação teste está entre dencioso para h
T -
h
R , com um desvio
20% da média da referência, na escala padrão s
D e seu estimador dado por SED
logarítmica, ou seja, (não tendencioso e com r graus de liber-
ì ì μ μ
ï H0 : T £
ï 0,80 ou T ³ 1,25 D-
(h -h
R)
H 0 : não bioeq
ï μR μR dade), tem-se que t = T segue
ï ï
ï SED
í Þ
í
ï
H A : bioeq ï μT
ï ï
H A : 0,80 < <1,25 a distribuição t com r graus de liberdade.
ï
î ï
î μ R

D-
(-0,2231)
A relação entre as distribuições Lognormal Assim, t = é uma
SED
e Normal indica que, para variâncias iguais
nas duas formulações, a razão de médias de estatística de teste para as hipóteses em 1 )
lognormais é igual a diferença de médias
D-0,2231
de normais. Esse resultado vem da relação e t= para as hipóteses em 2 ).
2 SED
m
i =
exp(h
i +
s T , R em que, h
/ 2), i = i

é a média da variável logarítmizada Se ambas as hipóteses nulas são


(Normal). Assim, as hipóteses acima podem rejeitadas ao nível α, declara-se que as
ser escritas como formulações são equivalentes. [16]
H 0 :h
ì T -h R £-0,2231 ou h T -
h
R ³
0,2231 Outra alternativa é a construção do
ï
í intervalo de confiança 100(1-2α)% dado
ï
HA : -0,2231 <h
î T -
h R <
0,2231 por: D -
ta
; r SE D ; D +
ta
; r SE D .
Assim, o intervalo (0,80; 1,25)
define os limites de equivalência para a 4.3. Estimação
razão de médias de ASC e (-0,2231;
Considerando o delineamento cruzado e Yijk
0,2231) para a diferença das médias na
o log da ASC do i-ésimo indivíduo na k-ésima
escala log. Os procedimentos para testar seqüência no j-ésimo período, pode-se associar
hipóteses relacionadas a diferenças de o modelo: Yijk =
μ+
ξ ik + π+ τ + l k +eijk em

médias de populações normais são básicos x


que µ é a média geral;ik
é o efeito aleatório do
i-ésimo indivíduo na k-ésima seqüência (i =1, 2,
(neste texto, apenas o caso de variâncias
..., nk e k =1 (TR), 2 (RT)); p
é o efeito fixo de
iguais será considerado). período, (j = 1, 2); t
é o efeito fixo da formu-
Para testar as hipóteses de interesse lação e l
k é o efeito residual da formulação ad-
pode-se usar dois testes unilaterais de nível ministrada no período 1 sobre a resposta no
período 2.
α (teste de Schuirmann), um para:
O método da análise de variância é utilizado
H 01 : h
ì T -
h
R £
-0,2231 para estimar a contribuição de cada fonte de
1) í
H A1 : h variação no modelo.
î T -
h
R >
-0,2231

e outro para

H 02 : h
ì T -
h
R ³
0,2231
2) í
H A2 : h
î T -
h
R <
0,2231
54
Tabela 1. Análise de Variância para um o nível de significância, o poder do teste
delineamento cruzado
e o coeficiente de variação (CV) intra-
Font e g.l. SQ QM
Int er-indiv idual
individual. O CV é, em geral, obtido em
Residual (sequencia)
Resíduos (inter)
1
n1+n2-2
SQResid
SQInte r
QMResid
QMInter
estudos apresentados na literatura. Existem
Int ra-indiv idual na literatura tabelas contendo tamanhos de
Formulação 1 SQForm QMForm
Período 1 SQPer QMPer amostra aproximados. [1]
Resíduos (intra) n1+n2-2 SQInt ra QMIntra
Total 2(n1+n2)-1 SQTota l É de suma importância que o estudo
tenha um número suficiente de voluntários,
O QM I n t r a é uma estimativa não prevendo a existência de possíveis
2
tendenciosa de σ . Através da estatística F desistências durante a realização do
pode-se testar se o efeito residual é experimento. O órgão regulador exige que
significativo. Em caso de significância deste o tamanho de amostra mínimo em estudos
efeito, tem-se que o período de descanso de bioequivalência seja 12 voluntários. [10]
não foi suficientemente longo. O órgão
5 – Referências bibliográficas
regulador requer justificativas para avaliar a
aceitação do estudo. [1] ANVISA. Manual de Boas Práticas em
Biodisponibilidade: Bioequivalência. Agência
O efeito estimado de formulação é uma Nacional de Vigilância Sanitária. Gerência-Geral de
Inspeção e Controle de Medicamentos e Produtos.
realização de D , que, no caso de expe- 2002.
[2] MELO, D. O. RIBEIRO, E. ; STORPIRTIS, S. A
rimentos balanceados, coincide com a Importância e a História dos Estudos de Utilização de
Medicamentos. Revista Brasileira de Ciências
diferença entre as médias observadas nas Farmacêuticas. v. 42, n. 4, p. 475-485, out. 2006.
[3] LUNA, F. Consentimento Livre e Esclarecido:
duas formulações. O erro padrão é obtido ainda uma ferramenta útil na ética em pesquisa.
pela fórmula usual, usando o QMIntra. Para Revista eletrônica de Comunicação. Informação &
Inovação em Saúde. v.2, Sup.1, p.Sup.42-Sup.53,
experimentos não balanceados, a es- Dez., 2008.
[4] ABREU, L. R. P. Estudos de Farmacocinética
timativa do efeito de formulação é obtido Comparada em Voluntários Sadios. 2003. Tese de
Doutorado. Faculdade de Ciências Médicas,
pela diferença entre as médias ajustadas Universidade Estadual de Campinas, Campinas.
[5] MOURA, P. C. S. S. Intervalo de Confiança para
(médias de mínimos quadrados). Essas Avaliação de Bioequivalência Individual Utilizando
a medida Kullback-Leibler. 2004. Instituto de
estimativas são então usadas nos Matemática, Estatística e Computação Científica,
Universidade Estadual de Campinas, Campinas.
procedimentos de testes e construção de [6] SALOMÃO, P. A. V. Estudo de Bioequivalência
intervalos de confiança apresentados entre duas formulações de Azitromicina utilizando
cromatografia liquida de alta eficiência acoplada a
anteriormente. [1] [13] [16] espectrômetro de massas. 2000. Tese de Doutorado.
Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual
de Campinas, Campinas.
[7] PEREIRA, A. S.; BICALHO, B., LILLA, S., DE NUCCI,
4.4. Tamanho das amostras G. Desafios da química analítica frente às necessidades
da indústria farmacêutica. Química. Nova. São Paulo.
Existem várias maneiras para se calcular v.28, p S107 -S111. 2005
[8] MENDES, G. D. Planejamento e avaliação de
o tamanho da amostra para estudos de estudos de biodisponibilidade relativa para
medicamentos genéricos. 2007. Tese (Doutorado).
bioequivalência, contudo em todos os casos Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual
é necessário informações sobre a de Campinas, Campinas.
[9] BRASIL. Lei nº. 9.787, de 10 de Fevereiro de
variabilidade biológica do fármaco dentre 1999. Dispõe sobre a Vigilância Sanitária,
Estabelece o Medicamento Genérico, dispõe sobre a
outras informações. Um método muito utilização de nomes Genéricos em Produtos
utilizado que fornece um tamanho de Farmacêuticos e dá outras Providências. Agência
Nacional de Vigilância Sanitária. 1999.
amostra aproximado para experimento [10] ANVISA. Resolução nº1170 de 19 de abril de
2006, Guia para Provas de Biodisponibilidade
cruzado é baseado nos dois testes t Relativa/Bioequivalência de Medicamentos. Agência
Nacional de Vigilância Sanitária. 2002.
unilaterais de Schuirmann. [17] [18] Este
[11] ICH/GCP. Harmonised Tripartite Guideline
cálculo é obtido iterativamente, fixando-se for Good Clinical Practice. Brookwood Medical
Publicacion; 1996.
55
[12] ANVISA. Resolução nº196 de 10 de Outubro
de1996. Estabelece os requisitos para a realização
de pesquisa clínica em produtos para a saúde
utilizando seres humanos. Agência Nacional de
Vigilância Sanitária. 2002.
[13] PITTA, L. R. Estudo dos Métodos Estatísticos
na Análise da Biodisponibilidade
Relativa/Bioequivalência para o registro de
Medicamentos no Brasil. 2004. Dissertação de
Mestrado. INCQS/FIOCRUZ. Rio de Janeiro.
[14] OLIVEIRA, R. A. Métodos Estatísticos
Aplicados a Bioequivalência Média. 2003. Instituto
de Matemática, Estatística e Computação Científica,
Universidade Estadual de Campinas, Campinas.
[15] ANVISA. Resolução no. 899 de 29 maio de
2003, Guia para Avaliação de Métodos Analíticos e
Bioanalíticos. Agência Nacional de Vigilância
Sanitária. 2003.
[16] HAUSCHKE, D.; STEINIJANS. V.; PIGEOT, I.
Bioequivalence Studies in Drug Development:
Methods and applications. John Wiley & Sons.
Alemanha. 2007.
[17] Chow, S. C.; Liu, J. P. Design and Analysis of
Bioavailability and Bioequivalence Studies, 2a ed.
Marcel Dekker, New York, 2000.
[18] SCHUIRMANN, D. J. A Comparison of the Two
One-sided Test Procedure and the Power Approach
for Assessing the Equivalence of Average
Bioavailability. Journal of Pharmacokin. Biopharm. v
17, 687-650, 1987.
56
CAPÍTULO 06
PROGRAMAÇÃO FETAL: CONSEQÜÊNCIAS NA VIDA
ADULTA.

Ludimila Canuto Cabeço


Departamento de morfologia do Instituto de Biociências de Botucatu - UNESP – Botucatu – SP
luzdimila_bio@yahoo.com.br

Camila de Campos Juliani


Departamento de Clínica Médica - UNICAMP – Campinas – SP
cajuliani@bol.com.br

Profa Dra Patrícia Aline Boer


Departamento de morfologia do Instituto de Biociências de Botucatu - UNESP – Botucatu – SP
alineboer@yahoo.com.br

Resumo: Esse material aborda aspectos gerais da programação fetal, devido a grande importância
desse fenômeno para muitas patologias atuais, como hipertensão, doenças cardíacas e obesidade.
Durante a programação fetal, o impacto de variados estímulos pode acarretar alterações significativas
em padrões moleculares e morfofisiológicos do organismo, sendo que as respostas adaptativas que
ocorrem nesse período podem ser memorizadas e fixadas permanentemente provocando patologias a
longo prazo.

1 – Visão Geral Vem aumentando o reconhecimento


mundial sobre a relevância da nutrição
Muitas patologias que atualmente vêem como pilar básico para o desenvolvimento
sendo consideradas epidemiológicas, estão econômico e social. O nascimento de
sendo associadas a insultos ocorridos crianças com baixo peso, é reconhecido
durante o período gestacional. De fato, como importante problema de saúde
quando o feto é colocado sob a influência de pública mundial, com efeitos devastadores
determinados estímulos durante o no desenvolvimento, na sobrevivência e na
desenvolvimento embrionário, as respostas saúde humana. Milhares de crianças no
adaptativas que ocorrem nesse período mundo têm seu crescimento retardado pela
podem ser memorizadas e fixadas má nutrição. Estas apresentam maior
permanentemente [1]. A esse fenômeno probabilidade de baixo desenvolvimento
dá-se o nome de programação fetal (Figura cognitivo e de danos neurológicos, além de
1). menor resistência a doenças. Na idade
Programação Fetal adulta, apresentarão maior risco de
Dieta materna
GENES
Po limorfismos desenvolver doenças cardiovasculares,
Metabolismo genômicos
Status endócrino Fatores hipertensão arterial, diabetes,
Epigenéticos
PRODUTO GÊNICO
dislipidemias e complicações renais. Um
CRESCIMENTO EMBRIONÁRIO INICIAL estudo recente estima que cerca de 53% da
TRAGETÓRIA DO CRESCIMENTO FETAL
mortalidade perinatal é atribuída ao baixo
peso [2]. Restrições nutricionais maternas
Demanda de nutrientes Suprimento de nutrientes durante o desenvolvimento intra-uterino
Adaptações placentárias e
Adaptações fet ais
são reconhecidas causa de mortalidade ao
cardiovasculares e metabólicas
maternas
PESO AO NASCER
boas ou ruins
nascimento [3] e estão associadas à
Dieta Crescimento disfunções renais pós-natais [4], ao risco de
pós-natal pós-natal
PATOLOGIA
57
desenvolvimento de hipertensão arterial patologias associadas à obesidade [12].
e a doenças cardiovasculares na idade Os mecanismos que garantem a
adulta [5; 6;7]. Esta predisposição à transformação morfofuncional do feto para
hipertensão arterial pode ser determinada maior capacidade a sobreviver sob
pelo desenvolvimento anormal dos rins [8]. condições agressivas estão sendo bastante
Estudos epidemiológicos indicam que o estudadas nas diversas vertentes da
baixo peso ao nascer está associado à biologia. Acredita-se que o organismo tem
elevação da pressão sanguínea durante a a capacidade de se programar durante as
infância e adolescência e ao aumento na fases primordiais do desenvolvimento
incidência de hipertensão arterial no adulto quando submetido a alterações ambientais.
[5; 6;7]. Essas alterações poderiam ter impacto
O interesse no potencial de doenças tamanho que levariam a modificações
humanas serem programadas no útero tem moleculares, estruturais e funcionais sobre
crescido demasiadamente nos últimos o sistema fisiológico [1].
anos. As implicações para a saúde pública, Contudo, muitos trabalhos têm
em países desenvolvidos e em demonstrado que essas modificações, a
desenvolvimento, tem gerado o interesse longo prazo, provocam disfunções
de grande numero de pesquisadores fisiológicas associadas ao metabolismo,
experimentais unidos a epidemiologistas crescimento e neurodesenvolvimento [16].
com a finalidade de explorar a natureza do Poderíamos nos questionar: Qual a
problema e desvendar os mecanismos vantagem de um organismo ao se adaptar,
biológicos e moleculares da programação. durante o desenvolvimento, em função de
A grande massa de pesquisadores algum mecanismo agressor, se suas
internacionais nesse campo promoveu a funções estarão negativamente alteradas a
fundação de uma sociedade voltada para o longo prazo?
estudo das origens fetais das doenças da A flexibilidade fenotípica, descrita como
vida adulta [9]. a capacidade do animal apresentar
A desnutrição, por exemplo, quando mudanças comportamentais, fisiológicas e
imposta no período fetal, pode predispor o morfológicas reversíveis que garantam
indivíduo adulto a doenças vantagem de sobrevivência quando
cardiovasculares e diabetes tipo II, ou variáveis do meio interferem em sua vida
mesmo a fatores que estão associados à durante um determinado período crítico de
hipertensão, intolerância a glicose e sua vida [17] é um fenômeno bastante
hiperlipidemia [10;11;12;13;14; 15]. Esse relevante quando consideramos a
fenômeno, segundo Hales e Barker [12], é perpetuação da espécie pela seleção
uma resposta que o organismo apresenta natural, visto que o mais apto a modular
ao se adaptar inicialmente ao ambiente suas funções em meio a fatores adversos
intra-uterino escasso e adverso, se estaria garantindo progênie. Contudo,
modulando de forma a aproveitar o máximo eventos ocorridas durante fase crítica do
do nutriente disponível naquele dado desenvolvimento fetal, e que provocam
momento para sua sobrevivência. Contudo, alterações morfofuncionais naquele
quando esse período passa e a determinado período, são fixadas
disponibilidade de nutriente aumenta, o permanentemente, levando a longo prazo a
metabolismo desse organismo fica conseqüências deletérias a vida do
propenso a desenvolver, por exemplo, indivíduo[18; 19]. Outra questão bastante
58
discutida, em estudos de programação reguladas por proteínas e fatores
fetal, é como a memória dos eventos que transcricionais se tornarão células
ocorrem durante o desenvolvimento é especializadas ou funcionais [22].
armazenada e perpetuada ao longo da vida Essa fase do desenvolvimento é o
por meio da divisão e diferenciação celular momento mais delicado onde qualquer
[19]. Segundo Lucas [16], um ambiente mecanismo agressor poderia estimular ou
nutricional prévio pode estimular a seleção inibir vias celulares, fatores transcricionais
clonal adaptativa ou proliferação e e a expressão de proteínas. Todos esses
diferenciação celular de forma que a eventos poderiam provocar alterações com
quantidade e proporção de células em um repercussão no sistema biológico do
tecido são permanentemente afetadas. De indivíduo. De fato, inúmeros trabalhos têm
fato, muitos trabalhos têm demonstrado os demonstrado que estímulos como a
efeitos da programação gestacional sobre influência da nutrição e da exposição
diversas vias moleculares, expressão ambiental a agentes tóxicos e ao estresse
gênica, tecido e órgãos. durante o período fetal e neonatal [23]
O que regularia, então, essas alterações? provocam mudanças biológicas
Segundo Young [20], os genes precisam de significativas, desde mudanças na
condições específicas para poderem ser expressão gênica de proteínas essenciais
expressos em proteínas fundamentais para como na morfofisiologia de tecidos e
o funcionamento do sistema biológico e órgãos.
que muitos genes nunca serão expressos
porque nunca encontrarão condições 3 – Programação fetal e patologias
associadas.
adequadas de expressão. Dessa forma, a
influência de fatores múltiplos no ambiente
O conceito de “programação fetal”
fetal poderia controlar a expressão dos
sugere que o feto pode ser programado
genes nessa fase. A influência do ambiente
durante o desenvolvimento intra-uterino
na expressão do código genético é
para desenvolver doenças na idade adulta
conhecida como epigenética [20].
[9; 24]. Este novo paradigma também
Mecanismos epigenéticos como
sugere que a susceptibilidade a doenças,
modificação de histonas e metilação do
incluindo doenças e disfunções
DNA foram observados em filhotes em
reprodutivas, é resultado da influência da
resposta a diferentes condições
nutrição e da exposição ambiental a
gestacionais maternas [21].
agentes tóxicos e ao estresse durante o
período fetal e neonatal [23].
2 – Aspectos Epigenéticos
FORSDAHL (1967) foi o primeiro autor a
Mecanismos epigenéticos como relacionar as condições dos primeiros anos
metilação do DNA e modificação de de vida ao desenvolvimento de doenças na
histonas são as chaves fundamentais na idade adulta [25]. Em seguida, uma série de
regulação da transcrição gênica, por meio investigações epidemiológicas demonstrou
do silenciamento e ativação dos genes [22]. correlações entre a pressão sangüínea
Esses eventos são fundamentais para materna e de sua prole, sugerindo ser este
regulação da divisão e diferenciação celular um fator determinante. Vários modelos de
no início do desenvolvimento fetal, uma vez subnutrição fetal foram desenvolvidos, nos
que após fecundação inicia-se a divisão das quais o baixo peso da prole no nascimento
células ainda indiferenciadas e que era associado a elevação pressórica na
59
idade adulta [26; 27; 28; 29]. As alterações, em resposta ao insulto
Posteriormente, BARKER (1998) mostrou a gestacional, são detectadas nas primeiras
associação entre o peso ao nascer e o etapas do desenvolvimento embrionário.
desenvolvimento de doenças Um trabalho com ratos mostra que restrição
cardiovasculares no adulto [30]. Outros nutricional materna, durante período de pré
estudos demonstraram relação direta entre implantação, causa anormalidades no
o peso da criança ao nascer, o peso blastocisto e programa o animal para
placentário e níveis pressóricos na idade hipertensão pós natal [35]. Sob essa mesma
adulta. Desta forma, indivíduos que condição, o rato também apresenta
apresentavam baixo peso ao nascer, restrição no crescimento intrauterino e essa
associado a aumento no peso da placenta, resposta pode estar associada à expressão
quando adultos, desenvolviam pressão alta. prejudicada de GLUT-3 placentário [36]. O
Além disso, a pressão sistólica em crianças comportamento também é afetado na
de 4 anos foi inversamente relacionada ao programação gestacional. Determinados
peso no nascimento e diretamente testes demonstram que a restrição protéica
relacionada ao peso da placenta [31]. Desta na fase gestacional pode alterar o
forma, existe hoje ampla aceitação que comportamento exploratório em fêmeas
tanto as fases gestacionais quanto os [37], bem como alterar interação social em
primeiros anos de vida são determinantes ratos jovens [38]. De acordo com Massaro e
no desenvolvimento de doenças equipe [39], a restrição é capaz de alterar o
metabólicas e cardiovasculares na idade comportamento materno e o
adulta [32]. desenvolvimento dos filhotes.
Em 1999 LANGLEY-EVANS et al Em termos morfofuncionais, foi
estabeleceram que a prole de ratas prenhas observado que dieta com baixo teor de
submetidas à dieta isocalórica com proteína durante gestação afeta o
moderada restrição protéica, apresentava desenvolvimento cerebral em ratos [40],
menor massa renal indicando efeito bem como o metabolismo de gordura e taxa
específico da restrição protéica na de crescimento [41]. Além disso, que a
ontogênese [33]. Ratos neonatos exposição à desnutrição fetal determina a
apresentavam menor número de distribuição de gordura corporal, atividade
glomérulos maduros e tal diminuição locomotora e consumo alimentar em ratos
persistia nas quatro primeiras semanas de adultos [42] e que distúrbios na
vida mesmo se recebessem alimentação homeostase do colesterol tem origem
normal. Desta forma, a redução no número intra-uterina [43]. Existem evidências
de néfrons e/ou na superfície de filtração experimentais sugerindo que a restrição
glomerular poderia resultar em menor protéica gestacional leva à expressão
excreção urinária de sódio, aumento da aumentada de alguns receptores
pressão arterial sistêmica, hipertensão hormonais na prole [44].
glomerular e nefroesclerose progressiva A desnutrição, quando imposta no
que perpetuaria a situação hipertensiva. período fetal, pode predispor o indivíduo
Hoje várias evidências indicam que tanto adulto a doenças cardiovasculares e
os rins quanto o sistema nervoso central diabetes tipo II, ou mesmo a fatores que
são vulneráveis a diversas influências em estão associados à hipertensão,
estágios de desenvolvimento embrionário intolerância a glicose e hiperlipidemia [10;
[34]. 11; 12; 13; 14; 15].
60
As respostas ou mecanismos biológicos [17] - PIERSMA T, DRENT J. Phenotypic flexibility and
the evolution of organismal design. Trends Ecol Evol,
que orientam e/ou provocam a v.18, p:228-233, 2003.
[18] - BOGIN, B. Evolutionary perspective on human
programação gestacional ainda são pouco growth. Annu Rev Anthropol, v.28, p.109-153, 1999.
[19] - WELLS, J.C. The programming effects of early
explorados. Um conjunto de técnicas growth. Early Hum Dev, v. 83, n. 12. P. 743-748, 2007.
histológicas, morfométricas, citoquímicas, [20] - YOUNG, L.E. Imprinting of genes and the Barker
hipothesis. Twin Res, v.4, p.3007-317, 2001.
imunocitoquímicas, bioquímicas, ultra- [21] - SMITH, F.M.; GARFIELD, A.S.; WARD. A.
Regulation of growth and metabolism by imprinted
estruturais e da expressão gênica devem genes. Cytogenet Genome Res, v. 113, p. 279-291,
2006.
ser alocadas para melhor explicar esse [22] - GAN, Q.; YOSHIDA, T.; MCDONALD O.G.;
fenômeno de importância mundial. OWENS, G. Epigenetic Mechanisms. Contribute to
Pluripotency and Cell Lineage Determination of
Embryonic Stem Cells. Stem cells, v.25, p: 2–9, 2007.
4- Referências bibliográficas [23] - HEINDEL JJ. Role of exposure to environmental
chemicals in the developmental basis of disease and
dysfunction. Reprod Toxicol, 23(3):257-9, 2007.
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62
CAPÍTULO 07
BIOLOGIA FLORAL, RECURSOS FLORAIS E SÍNDROMES
DE POLINIZAÇÃO

MSc. Inara Regiane Moreira Coneglian


Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Ciências Biológicas (Botânica), do Instituto de Biociências de
Botucatu - UNESP – Botucatu – SP
iconeglian@yahoo.com.br

Natália Arias Galastri


Professor Assistente I da Faculdade de Tecnologia de Jahu, Jaú-SP
Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Biologia Vegetal, do Instituto de Ciências Biológicas da
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – Belo Horizonte – MG
nagalastri@yahoo.com.br

Resumo: As angiospermas apresentam flores com características morfológicas e funcionais


diversificadas, que podem estar associadas a sistemas de polinização, incluindo espécies polinizadas
pelo vento, pela água, por insetos como besouros, borboletas, mariposas e abelhas, por aves como o
beija-flor e por mamíferos como o morcego. Este capítulo trata de questões básicas sobre biologia floral
e polinização.

1 - Biologia Floral gineceu (conjunto de carpelos).


O cálice é o verticilo floral mais externo,
A Biologia Floral compreende todas as constituído por sépalas e responsável,
manifestações da vida da flor, ou seja, todos principalmente, pela proteção dos outros
os eventos que ocorrem desde a abertura do verticilos. Geralmente, após a fertilização,
botão floral até a ocorrência da fertilização. as sépalas caem, porém, em algumas
Assim, observações sobre a morfologia e o plantas, o cálice é persistente e, portanto,
funcionamento da flor, bem como encontrado no fruto.
observações sobre os animais visitantes, A corola é o verticilo floral responsável
fazem parte da Biologia Floral. pela atração dos agentes polinizadores, por
isso, apresenta muitos atrativos, como
2 - Morfologia da Flor
cores e odores.
Cálice e corola, quando distintos um do
As flores são formadas por verticilos
outro, constituem o perianto. Muitas vezes,
estéreis e/ou verticilos férteis inseridos em
sépalas e pétalas não apresentam
um receptáculo, de forma cíclica (flores
diferenças, sendo chamadas de tépalas e
derivadas) ou acíclica (flores primitivas).
constituintes do perigônio.
Os verticilos estéreis são aqueles
O androceu é constituído pelo conjunto
responsáveis pela proteção das estruturas
de estames da flor e é responsável pela
reprodutivas, bem como pela atração de
produção dos grãos de pólen. Cada estame
agentes polinizadores. São eles o cálice
é formado pelo filete, pelo conectivo e pela
(conjunto de sépalas) e a corola (conjunto
antera. O conectivo une o filete à antera
de pétalas).
onde ocorre a produção dos grãos de pólen.
Os verticilos férteis são aqueles
O gineceu, centralmente localizado na
diretamente relacionados à reprodução, ou
flor, é o conjunto de todos os carpelos.
seja, o androceu (conjunto de estames) e o
Cada carpelo é constituído pelo ovário, pelo
63
estilete e pelo estigma. O estigma é a (flores unissexuais, apresentando
região onde os grãos de pólen caem ao apenas androceu) e femininas ou pistiladas
acaso ou são depositados pelo agente (flores unissexuais compostas apenas por
polinizador. O estilete é por onde o tubo gineceu).
polínico se desenvolve carregando os Quanto à expressão do sexo na planta,
microgametas. E o ovário é a região onde se ela pode ser hermafrodita (plantas
localizam os óvulos, podendo ser súpero, unicamente com flores hermafroditas),
ínfero ou semi-ínfero, dependendo da sua monóica (flores masculinas e femininas
inserção no receptáculo. No óvulo é que se distribuídas na mesma planta ou indivíduo),
formará o megagametofito que contém a andróica ou masculina (planta com flores
oosfera, o gameta feminino. masculinas apenas), ginóica ou feminina
Em algumas plantas, externamente aos (planta apenas com flores femininas),
verticilos, podem ocorrer brácteas, que são andromonóica (planta com flores
folhas modificadas que podem ter a função hermafroditas e masculinas), ginomonóica
de atração de agentes polinizadores. (planta com flores hermafroditas e
As estruturas florais podem estar livres femininas) e trimonóica (planta com os três
ou concrescidas entre si. A fusão das peças tipos de flores).
florais pode ser por adnação ou por Na natureza podemos encontrar
conação. Na adnação, existe diferenças na expressão do sexo dentro das
concrescimento entre peças florais de populações de plantas. Espécies
verticilos diferentes, como estames e hermafroditas são aquelas formadas
pétalas. Na conação, o conscrescimento apenas por plantas hermafroditas. Espécies
ocorre entre peças do mesmo verticilo monóicas consistem apenas de plantas
floral. monóicas. Espécies dióicas são as que
Algumas flores apresentam ginóforo e apresentam plantas unissexuais femininas
andróforo, que são estruturas que elevam o e unissexuais masculinas. Espécies
gineceu e o androceu respectivamente. androdióicas apresentam plantas
Quando gineceu e androceu são elevados hermafroditas e plantas masculinas. E
pela mesma estrutura, esta é denominada espécies ginodióicas são as constituídas
androginóforo. por plantas hermafroditas e femininas.
As flores podem apresentar todos os Outras combinações também ocorrem na
verticilos florais (flores completas), mas um natureza, mas são mais raras.
ou mais verticilos podem estar ausentes Cerca de 80% das plantas é hermafrodita
(flores incompletas). e, apenas 10% apresentam indivíduos com
Se a flor apresentar cálice e corola, ela é sexos separados.
chamada diclamídea, podendo ser
homoclamídea (cálice e corola idênticos) ou 3 - Síndromes de Polinização
heteroclamídea (cálice e corola distintos);
A polinização é o principal evento que
se apresentar apenas o cálice ou a corola é
ocorre na vida das flores. Consiste no
dita monoclamídea; e, se não possuir
transporte do grão de pólen das anteras de
nenhum verticilo estéril, é denominada
uma flor até o estigma da mesma ou de
aclamídea.
outra flor. Nas angiospermas, acontece sob
As flores podem ser hermafroditas
grande variedade de formas, podendo
(flores bissexuais com gineceu e androceu
demonstrar alto grau de especialização e
funcionais), masculinas ou estaminadas
64
adaptação. visitante uma reação que incita ou
Os agentes polinizadores podem ser satisfaz necessidades básicas como
abióticos ou bióticos. Os agentes abióticos alimento, abrigo, proteção e local para o
são o vento (anemofilia) e a água (hidrofilia). acasalamento.
Nesses casos de polinização, as flores Existem dois tipos de atrativos florais, os
apresentam adaptações que favorecem a primários e os secundários. Os atrativos
polinização por aquele determinado primários são aqueles que satisfazem
agente. diretamente as necessidades básicas dos
Os agentes bióticos são os animais animais, como pólen, néctar, óleos, tecidos
(zoofilia) como, insetos (entomofilia), aves florais, dentre outros. Os atrativos
(ornitofilia) ou mamíferos. Entre os insetos, secundários são os que apenas iniciam uma
os polinizadores mais comuns são os reação direta ou indireta ao nível do aparato
besouros (cantarofilia), as moscas sensorial do animal, como odor, forma, cor,
(miofilia), as abelhas (melitofilia), as temperatura, dentre outros.
borboletas (psicofilia), as mariposas Existem vários tipos de flores, de acordo
(falenofilia) e as vespas. Dentre os com a forma e o acesso aos recursos
mamíferos, os morcegos (quiropterofilia) (néctar, pólen, tecidos florais, dentre
são os agentes mais comuns, mas existem outros).
mamíferos não voadores que também Flores com acesso livre aos recursos
podem realizar a polinização (terofilia). Em podem ser: flores abertas, em forma de
cada um desses casos, podemos observar disco ou prato (o que permite que qualquer
co-adaptações entre as plantas e os animal as visitem); flores abertas, do tipo
agentes polinizadores. Isto é, existe uma escova, com grande quantidade de estames
correspondência entre o tamanho, a forma, (o que faz a atração dos polinizadores); e
a cor, o odor da flor e os tipos de flores abertas, pendentes, com perianto
polinizadores. Desta forma, é possível reflexo (nesse caso, os animais tem que
identificar um conjunto de características pairar no ar para obter os recursos florais,
florais que constituem a “preferência” de portanto, animais que pousam não
cada polinizador, garantindo a visita deste, conseguem visitar essas flores).
a chamada de síndrome de polinização. Flores com acesso restrito aos
A entomofilia foi extremamente polinizadores podem ser: flores tubulares
importante para o sucesso evolutivo das (que formam um tubo que restringe o
angiospermas, pois permitiu uma maior acesso ao néctar); flores em forma de
eficiência na polinização sobre condições bandeja (apresentam uma superfície de
ambientais variadas além de um maior pouso para os animais e um tubo com o
potencial na polinização cruzada. As néctar no fundo, restringindo o seu acesso);
maiores famílias de angiospermas flores com espora ou cálcar (o néctar fica
apresentam grande diversidade de retido no fundo do cálcar por capilaridade,
polinizações entomófilas, com exceção de restringindo esse recurso aos polinizadores
Poaceae que tem como principal a de aparato bucal correspondente à
polinização anemófila. profundidade do cálcar); flores com anteras
No caso da polinização realizada por tubulares (o polinizador tem de fazer
animais, a relação flor-visitante deve ser movimentos vibratórios para que o pólen
estabelecida por meio de um atrativo que, seja liberado, são anteras poricidas e os
para ser efetivo, deve desencadear no polinizadores, geralmente, são abelhas);
65
flores com estigma côncavo (comum em 4 - Principais características das
orquídeas, pois há o concrescimento do diferentes classes de flores quanto à
gineceu e do androceu); flores com vários polinização
acessos ao néctar (os animais têm de ficar
Flores anemófilas (vento): flores
circundando a flor para obter o recurso em
reduzidas, não vistosas, podendo estar
todos os seus acessos, assim, conseguem
reunidas em inflorescências; antese diurna;
entrar em contato com grande quantidade
pólen farináceo (grãos de pólen pequenos,
de pólen); flores com néctar disposto
lisos e secos) e produzido em grande
circularmente (maracujá); flores
quantidade; superfície estigmática grande
papilionadas (o pólen fica protegido pela
(aumenta a probabilidade de captação do
quílea e o néctar fica no fundo); flores
pólen); ausência de néctar.
bilabiadas (a corola se abre como uma boca
Flores melitófilas (abelhas): antese
na extremidade); flores armadilha (o animal
diurna; cores vivas (geralmente branco,
entra e fica preso na flor por um tempo
amarelo ou azul); presença de guias de
suficiente para que a polinização ocorra,
néctar; odores frescos, geralmente não
depois são liberados, embora muitos não
muito fortes; superfícies adequadas para o
consigam mais sair e morrem).
pouso dos visitantes (plataforma de pouso).
Além disso, as flores podem ser
Flores psicófilas (borboletas): flores
classificadas quanto ao local que o pólen
eretas, radiais e com anteras fixas;
gruda no corpo do polinizador. Nas flores
extremidades florais com poucos recortes;
esternotríbicas, o pólen gruda na parte
antese diurna; odor fraco, geralmente
ventral do corpo do agente polinizador. Nas
agradável; coloração viva como amarelo,
flores nototríbicas, o pólen é depositado na
vermelho e azul; néctar relativamente
parte dorsal do corpo do animal. E, nas
abundante e incluso em tubos ou esporas.
flores pleurotríbicas, o pólen gruda nas
Flores falenófilas (mariposas): flores
partes laterais do corpo do polinizador.
brancas, pardas ou descoradas, com lobos
As flores podem ser efêmeras, quando se
profundamente recortados; antese
abrem apenas em um período e fecham
noturna; odores fortes e doces, emitidos
noutro, ou persistentes, quando
apenas durante a noite; flores horizontais
permanecem abertas mesmo após a fase
ou pendentes; néctar relativamente
funcional.
abundante e localizado em longos tubos ou
Os animais podem apresentar
esporas.
comportamento especializado, quando só
Flores miófilas (Diptera): antese diurna;
visitam um determinado tipo de flor, ou
flores regulares, simples, de cores
comportamento generalizado, quando
geralmente claras, mas pálidas; odor
visitam muitos tipos florais.
imperceptível; presença de guias de néctar;
As flores podem apresentar
néctar exposto e de fácil acesso; órgãos
especializações que permitem que apenas
reprodutivos florais bem expostos.
um único animal faça a polinização ou
Flores sapromiófilas (moscas): flores
podem não apresentar especializações,
com profundidade, com guias para
sendo visitadas por uma ampla variedade
armadilhas; cores opacas, escuras, do
de animais.
marrom ao púrpura, com manchas escuras;
presença de janelas transparentes; odores
desagradáveis, semelhantes ao odor de
66
carne em putrefação; ausência de néctar;
órgãos reprodutivos florais ocultos.
Flores cantarófilas (besouros): antese 5 - Biologia Floral e polinização em
Annonaceae
diurna ou crepuscular; flores com pouca
atração visual, geralmente grandes, de fácil
A família Annonaceae compreende um
acesso e em forma de prato; odores fortes,
grande número de gêneros e espécies,
parecidos com odores de frutos; pólen de
geralmente situadas em regiões de clima
fácil acesso; órgãos reprodutivos florais
tropical e subtropical [1].
expostos.
A maioria das espécies de Annonaceae
Flores ornitófilas (aves): antese diurna;
apresenta flores hermafroditas e
cores vivas, freqüentemente escarlates ou
protogínicas, com receptáculo plano ou
com cores contrastantes como vermelho,
hemisférico. As flores variam grandemente
amarelo e verde; flores com margens ou
em tamanho e podem ser esbranquiçadas,
bordas ausentes ou recuadas para trás;
creme-amareladas, esverdeadas,
flores tubulares e/ou pendentes,
alaranjadas e até vinho [2]. São flores com
resistentes e duras, com filetes firmes;
perianto trímero, composto por três sépalas
ausência de odores; néctar em abundância;
livres ou levemente concrescidas e por dois
ovário protegido.
verticilos de três pétalas cada, o externo
Flores quiropterófilas (morcegos):
com pétalas mais espessas e carnosas que o
antese noturna; coloração esbranquiçada,
interno [2; 3; 4; 5]. As pétalas externas
parda ou com sombras esmaecidas de verde
apresentam-se valvares enquanto as
e/ou púrpura; odor forte, desagradável à
internas são imbricadas. Em função das
noite, semelhante a odores de frutos ou de
pétalas carnosas e espessas, as flores de
material em fermentação; flores grandes,
muitas Annonaceae são vistas por animais
fortes, geralmente solitárias e localizadas
como fonte de alimento, embora elas sejam
fora da folhagem (expostas); grande
suficientemente duras para resistir ao
quantidade de néctar diluído e de pólen.
hábito de seus visitantes, que, em alguns
Flores terófilas (mamíferos não
casos, são grandes besouros.
voadores): flores de coloração forte e
Uma característica marcante das flores
escura; néctar abundante, concentrado e
dessa família é o fechamento das pétalas
rico em sacarose; odor semelhante ao das
internas sobre os órgãos reprodutivos
flores visitadas por morcegos; flores
durante a antese, formando um espaço
robustas e fortes.
denominado “câmara de polinização” ou
A hidrofilia é rara, pois o pólen não pode
“câmara floral”, que apresenta importantes
entrar em contato com a água, já que na
funções durante a polinização [5; 6].
água ele apresenta embebição e pode
Segundo Souza & Lorenzi [1], outra
estourar. Dessa forma, as flores hidrófilas
particularidade morfológica das
são flutuantes e vão boiando até que uma
Annonaceae é o fato das flores de muitas
flor masculina encontra uma flor feminina e
espécies se abrirem antes de terem suas
o pólen entra em contato com o estigma,
peças reprodutivas completamente
sem tocar a água.
maduras.
Características da Biologia Floral e de
O androceu é formado por numerosos
eventos da polinização de Annonaceae e
estames e produz grãos-de-pólen
Myrtaceae serão discutidas a seguir.
monosulcados, podendo ser apresentados
em tétrades ou políades. Os estames,
67
freqüentemente, estão fortemente vez que há evidente dicogamia, ou seja,
unidos devido aos conectivos das tecas, que fases pistilada e estaminada nitidamente
são duros e achatados e ajustam-nas umas distintas [5; 6; 10].
às outras de modo a formar uma camada Os odores liberados pelas flores variam
sem espaços, considerada intransponível. O muito entre as espécies e são, junto ao
gineceu é composto por três a numerosos aumento da temperatura floral
carpelos arranjados espiraladamente, (termogênese), os principais atrativos aos
normalmente livres [3; 5]. Maas et al. [7] polinizadores. Existem quatro tipos de
descreveram o estigma de Duguetia como agentes polinizadores em Annonaceae:
séssil, distinto e alongado. De acordo com tripes, moscas, abelhas e besouros.
Gottsberger & Silberbauer-Gottsberger [5], Poucas espécies de Annonaceae
Annonaceae apresenta carpelos com apresentam tripes como polinizadores
estigmas sésseis, porém, existem outros exclusivos ou adicionais [10].
trabalhos que relatam a presença de um A polinização por moscas,
estilete com estigma terminal. Segundo provavelmente ocorre em espécies do novo
Briechle-Mäck [8], para os gêneros Annona e do velho mundo, ainda que não muito
e Rollinia, existem três tipos de estigmas: bem documentado anteriormente. No
no primeiro tipo, as papilas estigmáticas passado, bem como hoje, polinização por
apenas se tocam e são completamente moscas em Annonaceae é inferida quando
recobertas por secreções; no segundo, os as flores apresentam caracteres típicos da
estigmas são alongados e síndrome, como odor de carne e coloração
aproximadamente do mesmo diâmetro, vermelha [10].
com suas partes basais conatas pela O fenômeno de polinização por abelhas
epiderme; e, no terceiro tipo, as partes foi recentemente descoberto na família
basais dos estigmas apresentam estruturas Annonaceae para a espécie amazônica
que se tocam, provocando a fusão Unonopsis guatterioides [11], polinizada
epidérmica. efetivamente por machos de uma espécie
O ovário é súpero e a placentação de abelha da tribo Euglossini.
parietal, podendo ocorrer de um a vários São poucas as famílias de plantas que
óvulos por carpelo. Nectários e tecidos apresentam besouros como polinizadores
carnosos estão presentes, em geral, nas predominantes ou únicos, uma dessas é a
pétalas internas [3]. Segundo Souza & família Annonaceae. Plantas desta família
Lorenzi [1], a placentação é ereta ou evolutivamente basal são adaptadas à
marginal e o gineceu é dialicarpelar ou, polinização por besouros de uma forma
muito raramente, gamocarpelar, como em fascinante [5].
Isoloma monodora. De acordo com Setten & Entre as espécies de Annonaceae do
Koek-Noorman [9], a placentação é basal ou cerrado, existem basicamente dois tipos de
lateral, raramente apical ou laminar. polinização: a polinização realizada por
A antese ocorre em duas etapas dois grupos de insetos (Thysanoptera e
distintas, devido à diferença temporal entre Coleoptera) e a polinização efetuada
a receptividade estigmática e a liberação do exclusivamente por coleópteros. O gênero
pólen, evitando, desta forma, a Annona apresenta flores polinizadas por
autopolinização. Supõe-se que a maioria grandes besouros, enquanto que em
das espécies seja autocompatível, mas a Xylopia, Cardiopetalum e Duguetia, a
polinização cruzada se faz necessária uma polinização é feita por pequenos besouros
68
das famílias Nitidulidae, Staphylinidae, termogênese que pode atingir até 12ºC
Chrysomelidae e tripes [5; 6]. acima da temperatura ambiente, o que
Os principais polinizadores são os aumenta a liberação dos compostos
coleópteros de diferentes famílias, que são odoríferos [2; 5]. De acordo com Judd et al.
atraídos até as flores na fase em que os [3], as flores de Annonaceae apresentam
estigmas estão receptivos (fase pistilada ou especializações aos polinizadores,
feminina) e permanecem no interior da incluindo flores relativamente fechadas,
“câmara de polinização” alimentando-se de tecidos comestíveis, odores, pétalas
pétalas e utilizando as flores como local de carnosas e espessas, e estruturas
acasalamento. Quando o pólen é liberado, protetoras dos órgãos reprodutivos.
os insetos entram em contato com este, Gottsberger & Silberbauer-Gottsberger
ficando aptos a transportá-lo para outras [5] relataram, para espécies polinizadas por
flores receptivas. Terminada a liberação do grandes besouros, estruturas
pólen, as pétalas caem, obrigando os especializadas na superfície adaxial ou nas
insetos a voarem; nesta ocasião, flores na margens das pétalas internas, que são
fase pistilada liberam odores que irão atrair ingeridas pelos besouros visitantes;
os insetos, efetivando-se a polinização [5; segundo os autores, podem ser formados
6; 10]. corpos de alimentação e tecidos nutritivos,
As espécies polinizadas por besouros, que apresentam células ricas em amido,
normalmente apresentam flores pêndulas lipídios, taninos e mucilagem, embora nem
ou inclinadas, amarelas, verdes ou todas essas substâncias estejam,
avermelhadas e produzem um forte e necessariamente, presentes ao mesmo
desagradável odor apimentado de fruta. Um tempo. Aparentemente, esse é o único
dos mais interessantes caracteres florais é a alimento disponível para os besouros no
câmara de polinização, formada, como dito estágio inicial da fase pistilada, pois o pólen
anteriormente, pelas pétalas internas que é liberado e pode ser consumido apenas na
se fecham sobre o centro da flor durante a fase estaminada, que é posterior. Amido e
antese. Nesta câmara floral, odores lipídios nas pétalas, além de serem
específicos são produzidos para atrair os alimentos para os besouros, comumente
besouros, que encontram um ambiente apresentam importante papel durante a
aquecido, repleto de alimento (tecidos do termogênese, em que a degradação de
perianto e pólen); insetos de ambos os carboidratos e lipídios promove a liberação
sexos para a cópula, além de encontrarem de calor. Thien et al. [13] já destacaram que
abrigo e proteção contra a luz solar e as fragrâncias florais e o calor
predadores, como destacado por Ratnayake desempenham importantes papéis nos
et al. [12]. O tamanho da câmara, a sistemas reprodutivos das angiospermas
quantidade de alimento disponível e a basais, em que os odores podem sinalizar,
espessura das pétalas estão não apenas o alimento e local para
correlacionados com o tamanho, o número reprodução, mas também a fonte de calor.
e a voracidade dos besouros associados.
Considera-se que a função primária dessa 6 – Biologia Floral e polinização em
Myrtaceae
restrição é selecionar e limitar os besouros
visitantes, protegendo os órgãos
As Myrtaceae são tradicionalmente
reprodutivos [5; 6;10].
divididas em duas subfamílias: Myrtoideae,
Muitas espécies apresentam
que possui frutos carnosos e distribui-se
69
em partes tropicais e subtropicais que, quando as anteras liberam pólen, o
do globo terrestre, particularmente estigma não está mais receptivo.
América do Sul [14] e trópicos do Velho A andromonoicia é comum em
Mundo [15], e Leptospermoideae, com Leptospermoideae [17], porém ainda não
frutos secos, limitada, com exceção da detectada em Myrtoideae [16].
subtribo Metrosiderinae, à Austrália [15]. A dioicia clássica é pouco reportada em
Myrtoideae é constituída por 60 gêneros e Myrtaceae, embora provavelmente ocorra
2.375 espécies, e Leptospermoideae, por [16]. Em Leptospermoideae, dioicia não tem
72 gêneros e 1.300 espécies [16]. sido encontrada, e aparentemente limita-se
Pesquisas indicam a presença de vários ao pequeno gênero Carpolepsis, restrito à
tipos de sistemas de reprodução em Nova Caledônia (ilhas no sul do Oceano
Myrtaceae [16]. O tipo de dicogamia Pacífico). Em Myrtoideae, este fenômeno
presente na grande maioria das espécies também parece estar restrito às espécies da
hermafroditas de Myrtaceae é a protandria Nova Caledônia.
[16; 17]. Em espécies de Leptospermoideae, Os atrativos visuais são os mais
as flores apresentam intervalos de dias, e conspícuos nas flores de Myrtaceae. São
até semanas, separando claramente as eles as pétalas e/ou os estames [17], sendo
fases masculina e feminina [17]. Em estes numerosos e de coloração
Myrtoideae, a dicogamia não é facilmente contrastante com o restante da flor.
detectada, porque várias espécies desta A recompensa da maioria das Myrtoideae é
subfamília apresentam flores de vida curta,
o grão de pólen, nos quais há lipídeos e
nas quais, inclusive, pode haver
açúcares, tornando-os interessantes aos
sobreposição de fases femininas e
masculinas, fornecendo, assim, potencial visitantes [17]. Em Leptospermoideae, a

para auto-polinização. Entretanto, parece produção de néctar é difundida [18]. Em


improvável que a separação temporal de Myrtoideae, apenas algumas espécies
fases femininas e masculinas seja apresentam pequenas quantidades de
difundida, porém indetectável, em
néctar, que, quando presentes, são a
Myrtoideae com flores de vida curta,
principal recompensa dos visitantes.
embora este fenômeno ainda seja pouco
reportado [16]. Uma outra recompensa possível é o
O gênero Myrcianthes é a única fluído secretado pela cavidade secretora do
referência confiável de protandria em ápice do conectivo da antera. Tal fluído é
Myrtoideae [16]. Em algumas espécies deste ricamente lipídico e solidifica-se, podendo
gênero, o estigma permanece curvado até a
servir como recurso alimentar para insetos
liberação da maior parte do pólen por
polinizadores. Tal função já foi constatada
fendas longitudinais direcionadas para
fora; só então, o estigma torna-se ereto e em Leptospermoideae, porém é pouco
aparentemente receptivo. estudada em Myrtoideae [16].
Em Myrciaria dubia (Myrtoideae), é Apoidea são os polinizadores mais
reportada a presença de protoginia [16], comuns de Myrtaceae. Há, também, uma
pois o estigma exibe-se primeiro e os forte associação entre Myrtaceae e
filetes das numerosas anteras expandem- Colletidae, que são consideradas as mais
se depois; a antese ocorre pela manhã e as primitivas abelhas visitantes de flor; tal
flores são receptivas por 4-5 horas, sendo relação é mais comum na Austrália, onde
70
metade das espécies de abelhas floresta de terra-firme na Amazônia Central.
Manaus: Inpa. 1999.
pertence a Colletidae, mas provavelmente [3] JUDD, W.S.; CAMPBELL, C.S.; KELLOG, E.A.;
STEVENS, P.F. Plant Systematics: a phylogenetic
também ocorra nos Neo-trópicos. O approach. Massachusetts: Sinauer Associates. 1999.
[4] PONTES, A.F.; BARBOSA, M.R.V.; MAAS, P.J.M.
comportamento das abelhas durante a
Flora Paraibana: Annonaceae Juss. Acta Bot. Bras.,
polinização é variável. A polinização por v.18, n.2, p.281-293, 2004.
[5] GOTTSBERGER, G.; SILBERBAUER-
vibração (“buzz-pollination”) foi reportada GOTTSBERGER, I. In the evening when the beetles
come: Pollination in Annonaceae e Philodendron. In:
para algumas espécies [16]. Polinização EDITORES. (Eds.). Life in the Cerrado: a South
sem vibração ocorre em várias espécies, American Tropical Seasonal Vegetation. Local>
Editora, 2006. v.2. p.138-159.
como Campomanesia pubescens, [6] GOTTSBERGER, G. As Anonáceas do cerrado e
sua polinização. Rev. Bras. Biol., v.54, p.391-402,
Campomanesia velutina, Eugenia 1994.
dysenterica, Myrcia linearifolia, Psidium [7] MAAS, P.J.M.; WESTRA, L.Y.Th.; CHATROU, L.W.
Duguetia (Annonaceae). Flora neotropica, v.88, p.1-
firmum e Plinia glomerata polinizadas por 274, 2003.
[8] BRIECHLE-MÄCK, M. Aspects of floral ontogeny
Bombus spp. and comparative anatomy of gynoecium and fruit in the
A polinização por pássaros é menos genera Annona and Rollinia. Annonaceae Newsletter,
v.9, p.48-50, 1993.
freqüente em Myrtoideae que em [9] SETTEN, K. van; KOEK-NOORMAN, J. Fruits and
seeds of Annonaceae. Morphology and its significance
Leptospermoideae [16]. Pássaros são os for classification and identification. Bibl. Bot., v.142,
visitantes vertebrados mais comumente p.1-101, 1992.
[10] SILBERBAUER-GOTTSBERGER, I.;
observados em Syzygium cormiflorum e S. GOTTSBERGER, G.; WEBBER, A.C. Morphological and
functional flower characteristics of New and Old World
tierneyanum na Austrália e sugeriu-se que Annonaceae with respect to their mode of pollination.
eles sejam os mais importantes Taxon, v.52, p.701-718, 2003.
[11] CARVALHO, R.; WEBBER, A.C. Biologia floral de
polinizadores. Unonopsis guatterioides (A.D.C.) R.E. Fr., uma
Annonaceae polinizada por Euglossini. Rev. Bras. Bot.,
Beardsell et al. [17] declararam que o v.23, n.4, p.421-425, 2000.
[12] RATNAYAKE, R.M.C.S.; GUNATILLEKE, I.A.U.N.;
florescimento caulifloro de várias espécies WIJESUNDARA, D.S.A.; SAUNDERS, R.M.K. Pollination
de Syzygium poderia facilitar o acesso às ecology and breeding system of Xylopia championii
(Annonaceae): Curculionid beetle pollination,
flores por grandes marsupiais, que sobem e promoted by floral scents and elevated floral
temperatures. Inter. J. Plant Sci., v.168, p.1255-1268,
descem os caules (em Leptospermoideae), e 2007.
que morcegos (noturnos e não facilmente [13] THIEN, L.B.; AZUMA, H.; KAWANO, S. New
perspectives on the pollination biology of basal
estudados), poderiam ser os mais angiosperms. Inter. J. Plant Sci., v.161, p. S225-S235,
2000.
importantes polinizadores de algumas [14] RYE, B.L.; JAMES, S.H. The relationship between
Myrtaceae. dysploidy and reproductive capacity in Myrtaceae.
Austr. J. Bot., v.40, p.829-848, 1992.
Muitas especulações foram feitas [15] SCHMID, R. Comparative anatomy and
morphology of Psiloxylon e Heteropyxis, and the
inicialmente com relação à polinização subfamilial and tribal classification of Myrtaceae.
anemófila, embora nenhuma tenha sido Taxon, v.29, p.559-595, 1980.
[16] NIC LUGHADHA, E.; PROENÇA, C. A survey of
confirmada. Foram inicialmente citadas the reproductive biology of the Myrtoideae
(Myrtaceae). Ann. Miss. Bot. Gard., v.83, p.480-503,
como anemófilas Myrciaria dubia, Acca 1996.
sellowiana, entre outras, embora outros [17] BEARDSELL, D.V.; O'BRIEN, S.P.; WILLIAMS,
E.G.; KNOX, R.B.; CALDER, D.M. Reproductive biology
estudos contradigam esta afirmação. of australian Myrtaceae. Austr. J. Bot., v.41, p.511-
526,1993.

7 – Referências Bibliográficas
[1] SOUZA, V.C.; LORENZI, H. Botânica Sistemática:
guia ilustrado para identificação das famílias de
Angiospermas da flora brasileira, baseado em APG
II. Nova Odessa: Instituto Plantarum, 2005. p.82-85.
[2] RIBEIRO, J.E.L.S.; HOPKINS, M.J.G.; VICENTINI, A.;
SOTHERS, C.A.; COSTA, M.A.S.; BRITO, J.M.; SOUZA,
M.A.D.; MARTINS, L.H.P.; LOHMANN, L.G.; ASSUNÇÃO,
P.A.C.L.; PEREIRA, E.C.; SILVA, C.F.; MESQUITA, M.R.;
PROCÓPIO, L.C. Flora da Reserva Ducke: guia de
identificação das plantas vasculares de uma
71
CAPÍTULO 08
TOXICOLOGIA DE PRAGUICIDAS E METAIS PESADOS

Antonio Francisco Godinho


Centro de Assistência Toxicológica (CEATOX), UNESP de Botucatu, Instituto de Biociências, Botucatu – SP
godinho@ibb.unesp.br

Alaor Aparecido Almeida


Centro de Assistência Toxicológica (CEATOX), UNESP de Botucatu, Instituto de Biociências, Botucatu – SP
alaor@ibb.unesp.br

Resumo: Este capítulo apresenta dois grupos químicos de toxicantes, o dos praguicidas e o dos metais
pesados, de relevada importância toxicológica devido à sua toxicidade e ao alto grau de contaminação
ambiental provocando a exposição de humanos e animais, através de alimentos, água e ar
contaminados. São apresentados os principais grupos químicos destas duas classes de toxicantes, sua
classificação toxicológica, os mecanismos moleculares da ação tóxica, os principais efeitos tóxicos e
suas implicações sobre a saúde, bem como as principais formas de tratamento indicadas. Evidencia-se
o problema das intoxicações crônicas devido ao elevado índice de exposição ocupacional e as suas
conseqüências.

1 - Introdução 2 – Praguicidas

A necessidade de produzir alimento em 2.1 - Classificação


larga escala devido ao aumento da
Praguicidas têm sido uma das
população mundial juntamente com o
importantes preocupações da toxicologia
crescimento industrial, fez surgir uma
moderna por causa da sua vasta utilização
grande quantidade de substâncias
em plantas, animais e no ambiente
químicas, orgânicas e inorgânica, de alta
doméstico.
agressividade contra os organismos
Um dos grupos desses agentes inclui os
daninhos.
praguicidas biológicos [1], que são os seres
Por outro lado, uma melhoria no
vivos ou seus produtos que têm se
desempenho das técnicas extrativas de
mostrado eficazes para combater os
minérios e o crescimento industrial
organismos nocivos. Constituem-se em um
acelerado provocaram uma expansão
grupo heterogêneo, grande parte do qual
desordenada e desequilibrada da utilização
ainda está sob experimentação. Entre eles,
de metais, incluindo os metais pesados,
temos os que se comportam como inimigos
alguns deles como o chumbo, por exemplo,
naturais ou predadores, inseticidas virais,
que já eram utilizados como praguicidas no
bacterianos ou fúngicos, hormônios de
passado.
metamorfose e crescimento dos mesmos
Atualmente, estes dois grupos de
insetos e ferormonios que servem entre os
substâncias toxicantes encontram-se
insetos como meio de comunicação e que
fortemente disseminados pelo meio
podem ser manipulados.
ambiente e, apesar dos benefícios de sua
Outro grupo são os praguicidas
utilização, os efeitos desastrosos sobre a
químicos [1], os quais podem ser de origem
saúde do homem e o equilíbrio dos
natural ou sintéticos.
ecosistemas ainda continuam a serem
Naturais: a maioria são extratos de
bastante debatidos.
plantas do tipo alcalóide (estricnina,
72
nicotina) ou não (piretrina, rotenona). não forem reparadas, provocarão o
Em geral sua utilização tem sido muito quadro de toxicidade [2].
diminuída, sendo hoje minimamente Em geral os tipos de efeitos tóxicos
utilizados, em detrimento aos produtos de provocados dependem do tipo de
síntese. exposição que ocorre e das reações
Sintéticos: são os mais utilizados resultantes (imediatas e tardias, locais e
atualmente, e entre eles se destacam uma sistêmicas, reversíveis e irreversíveis).
série de famílias. Na tabela 1 pode-se Alguns dos efeitos tóxicos são
observar a classificação mais comum específicos (inflamação, necrose,
utilizada; tendem a serem classificados neurotoxicidade incluindo distúrbios do
correlacionando o organismo vivo comportamento, distúrbios da reprodução,
envolvido no seu emprego com a sua do desenvolvimento etc...). Outros são
estrutura química. inespecíficos (cefaléia, diarréia, tontura,
reações alérgicas e de hipersensibilidade,
2.2 – Vias de exposição
imunodepressão, idiosincrasias etc...).
Para a classificação toxicológica dos
Como vias de exposição são entendidas
agentes praguicidas, os parâmetros
as rotas pelas quais ocorre o contato do
utilizados são:
organismo com o toxicante. A exposição
A- Toxicidade relativa: são os dados
não intencional aos praguicidas se dá
toxicológicos agudos (DL50 intraperitoneal,
principalmente pelas vias dérmica,
oral e dermal, CL50 inalatória);
respiratória e digestiva, sendo as duas
B- Dados toxicológicos crônicos:
primeiras mais relacionadas às situações
toxicidade a curto e a longo prazo;
ocupacionais, e a última relacionada à
C- Dados sobre:
população em geral.
- Lesões oculares;
Tabela 1: Classificação dos principais praguicidas de - Dérmicas;
acordo com as pragas que combatem.
- Sensibilização dérmica;
- INSETICIDAS
- Neurotoxicidade;
- HERBICIDAS
- FUNGICIDAS - Propriedades carcinogênicas e
- RODENTICIDAS
- LARVICIDAS mutagênicas;
- OVICIDAS
- Efeitos tóxicos à reprodução e
- ACARICIDAS
- PENTACLOROFENOL desenvolvimento (pré e pós-natal).
- OUTROS
- Efeitos especiais (imprinting e
desregulação endócrina)

2.3 - Toxicidades dos praguicidas Na toxicidade relativa, o parâmetro dose


letal, obtido através da relação dose-
O mecanismo geral de ação tóxica é resposta, é o mais utilizado para expressar
semelhante a outros grupos químicos de a toxicidade dos agentes químicos.
toxicantes. Uma vez que o agente tóxico é Neste sentido, os praguicidas podem ser
absorvido e distribuído para o organismo, classificados de acordo com esta sua
ele vai interagir com moléculas alvo e, na toxicidade relativa, segundo a tabela 2.
seqüência, provocar alteração do
microambiente biológico, levando a
disfunções e lesões celulares, as quais, se
73
Tabela 2: Classificação dos praguicidas segundo sua A.1- derivados do cloro-benzeno: DDT,
dose letal.
DDE, dicofol, pertane, metoxiclor,
CATEGORIA DL50 (mg/kg)
metoclor, anofex, diclorfano, gesapon etc...
Extremamente tóxico ≤1 A.2- derivados do benzeno e
Altamente tóxico 1 - 50
Moderadamente tóxico 5 - 500 ciclohexanos clorados: HCE, HCH, lindade
Ligeiramente tóxico 500 - 5000
(gama BHC) etc...
Praticamente não tóxico 5000 - 15000
Relativamente inofensivo ≥ 15000 A.3- derivados policíclicos clorados:
aldrin, endrin, dieldrin, heptacloro,
clordano, mirex, endossulfan,
Outra classificação bastante utilizada, clordecone etc...
principalmente para os praguicidas de uso A.4- derivados canfenos clorados:
doméstico, é a por tarja de cores, onde o toxafeno, estrobano etc...
vermelho significa extremamente tóxico, o Os organo-clorados tipo DDT e análogos
amarelo altamente tóxico, o azul prolongam o tempo de abertura de canais
medianamente tóxico e o verde pouco de sódio; já os do grupo do lindane,
tóxico. toxafeno e os ciclodienos, inibem o fluxo de
A fase cinética de interação com o cloro regulado pelo GABA (inibidores
organismo é muito importante, pois após a competitivos); os organo-clorados também
exposição, nesta fase são determinados os interferem com o cálcio celular, por
fatores que permitem a interação ou não do modificarem a atividade da enzima
toxicante com a molécula alvo ou receptora Ca++/Mg++ ATPase de membrana e com a
e as alterações conseqüentes a que calmodulina. Além destas ações, produzem
chamamos de intoxicação, onde são efeito de bioacumulação no oraganismo, e
observados os sinais e sintomas clínicos. alguns, são potentes indutores enzimáticos
Aqui, é de suma importância o papel do hepáticos.
fígado como órgão metabolizador. Os sinais e sintomas clínicos de
Particularmente três fenômenos intoxicação mais evidentes são [1;2]:
importantes estão envolvidos neste - distúrbios neurológicos: parestesias
processo [2]: a eliminação metabólica, que da língua, face e lábios; apreensão,
diminui bastante a probabilidade de hiperexcitabilidade a estímulos, tonturas,
intoxicação por via alimentar; o fenômeno distúrbios do equilíbrio (marcha), tremores,
da indução enzimática hepática, fibrilações e espasmos musculares,
responsável pela ativação do metabolismo e mioclonias, convulsões tônico-clônicas,
relacionada à resistência nos organismo confusão mental, coma;
alvos e não alvos; e o fenômeno da inibição - ansiedade, alterações no EEG, artralgia,
enzimática hepática, relacionado à perda de memória;
interação entre toxicantes, com o perigo - vômito, cólicas abdominais, diarréia,
inclusive de potenciação da resposta tóxica. salivação, dor retroexternal (mais evidente
em casos de ingestão);
2.4 - Classificação química, - estimulação enzimática hepática
mecanismos de ação tóxica e efeitos
(crônica);
dos principais grupos de praguicidas
e os tratamentos preconizados [1;3]: - carcinogênese (DDT, aldrin, heptaclor);
- mutagênese (aldrin);
2.4.1- Inseticidas
- perda de peso, anorexia, anemia,
Quimicamente podem ser divididos em:
tremores;
A- Inseticidas organo-clorados
74
- sobre reprodução: diminuição drástica - inibição tardia da esterase neurotóxica
da espermatogênese. (ataxia, paralisias de braços e pernas e
O tratamento do envenenamento por parestesias).
organo-clorados é sintomático, uma vez A avaliação da intoxicação pode ser feita
que neste caso não existe antídoto pela dosagem da atividade da enzima
específico. Nas intoxicações, é possível colinesterase sanguínea sobre seu
controlar o estado convulsivo com substrato acetilcolina [4]. Para atividade
barbitúricos (gardenal) em casos mais entre 20 e 90%, sugere-se afastar o
graves ou benzodiazepínicos (diazepan) indivíduo da fonte de exposição e
quando forem moderadas ou leves. desenvolver medidas sintomáticas; entre
10 e 20%, sugere-se que seja feito
B- Inseticidas organo-fosforados e antidotismo severo, medidas gerais e
carbamatos
sintomáticas. O antidotismo é feito à base
Os organo-fosforados são derivados
de atropina (bloquear no receptor da
químicos do ácido fosfórico e seus
acetilcolina) e pralidoxima (contration)
congêneres (tiofosfórico e pirofosfórico)
(reverter a ligação do organo-fosforado à
[1;3;4]. Exemplos: malation, paration
enzima liberando-a para novamente atuar
(etílico e metílico), diazinon, fention, etion,
sobre a acetilcolina).
DDVP (diclorvós), clorpirifós, dimetoato,
metamidofós, folidol, azodrin, nuvacron,
C- Inseticidas piretróides
tamaron etc... Este é um grupo de toxicantes que é
Os carbamatos são derivados químicos bastante utilizado em vários níveis:
do ácido N-metilcarbâmico. Exemplos: - Agricultura – nas lavouras de algodão,
carbaril, carbofuran, temik, metiocarb, café, laranja, maça, figo, cebola, tomate,
furadan, sevin, propoxur etc… arroz, fumo e em grãos armazenados e
Ambos, organo-fosforados e silos. (cipermetrina, deltametrina,
carbamatos, são inibidores da colinesterase permetrina);
(acetil, butiril) sanguínea incapacitando a - Veterinária – como acaricida, bernicida,
mesma de exercer sua função, ou seja, ovicida, mosca do chifre (flumetrina,
desdobrar a acetilcolina circulante em deltametrina, permetrina, cialotrina);
colina e ácido acético. Por se ligarem - Campanhas de Saúde Púlbica – dengue,
predominantemente ao centro esterásico dedetizações (cipermetrina;
da enzima, os organo-fosforados são - Uso doméstico – estermínio de
inibidores irreversíveis, enquanto que os pernilongos, baratas, etc. (permetrina,
carbamatos são reversíveis. tetrametrina, ciflutrina, deltametrina);
Os sinais e sintomas clínicos de - Escabiose e Pediculose (deltametrina e
intoxicação são derivados da crise permetrina).
colinérgica resultante: Os inseticidas piretróides possuem em
- sialoréia, lacrimejamento, náusea, sua molécula uma estrutura básica
vômito, diarréia, aumento de secreção composta por um álcool, um éster e um
brônquica; ácido. Os compostos de origem natural são
- bradicardia, sudorese, fasciculação, piretrinas, jasmolinas e cinerinas os quais
tremores musculares, dispnéia, depressão foram extraídos, originariamente, do
respiratória; crisântemo e possuíam baixo poder de
- miose, hiperatividade, convulsões, toxicidade. Os inseticidas piretróides hoje
coma e morte;
75
utilizados são derivados sintéticos e Não existem antídotos específicos para
possuem maior grau de toxicidade. os inseticidas piretróides. O tratamento é
Quimicamente podem ser divididos em sintomático e segue a mesma linha do
piretróides do tipo I e do tipo II. A diferença tratamento feito para os organo-clorados,
entre os dois grupos é que o tipo II possui já que o mecanismo é muito semelhante.
um radical alfaciano (CN-) na molécula. Isto D- Inseticidas fumigantes
faz com a relação estrutura/atividade seja São toxicantes utilizados na forma de
alterada, incluindo a metabolização, meia- gases, para controle de pragas de silos e
vida e toxicidade destes compostos. sacarias. O mais utilizado é o fosfeto de
Seu mecanismo de ação tóxica ocorre alumínio, cuja exposição, por sua natureza
por inibição do fluxo de cloro regulado pelo gasosa, ocorre por via pulmonar [1].
GABA (funcionam, à semelhança dos Os sintomas clínicos apresentados
inseticidas organo-clorados, como quando há intoxicação por este grupo de
inibidores competitivos do GABA); também agentes são: náuseas, vômito, cefaléia,
interferem com o cálcio celular, irritação pulmonar (gera dispnéia), fadiga,
provavelmente por modificarem a atividade icterícia, convulsão, coma e morte.
da enzima Ca++/Mg++ ATPase de membrana, O tratamento é sintomático e medidas de
que faz a extrusão do cálcio celular [1;3;6]. suporte, pois não existe antídoto
Os piretróides do tipo I provocam uma específico.
síndrome chamada síndrome “T”
caracterizada por tremores involuntários; Uso da associação de agentes
os do tipo II, provocam uma síndrome As finalidades do uso em associação
chamada síndrome “CS”, caracterizada por seriam principalmente duas:
coreoatetose e salivação. - diminuir o espectro de toxicidade;
De modo geral o efeito tóxico mais - manter/aumentar a eficácia tóxica.
proeminente e danoso é a neurotoxicidade Um exemplo destas associações é o
excitatória, a qual inclui o sistema cerebral, produto Ectoplus® utilizado em veterinária,
medula espinhal e elementos do sistema que é uma associação entre o organo-
periférico (gerando dificuldades de fosforado DDVP (também conhecido como
locomoção). diclorvós) e o piretróide cipermetrina.
Os sinais e sintomas clínicos mais
comuns da intoxicação por piretróides são: Resistência aos inseticidas
- Cutâneos: parestesia (ação direta nos Responsável pela diminuição da eficácia
nervos sensoriais periféricos), dormência, nos insetos. Ocorre devido a uma
coceira, ardência ou formigamento da pele diversificação que ocorre nas isoenzimas
(provoca insensibilidade da pele). do citocromo P450, que fazem a
Dermatite alérgica, erupção com prurido, metabolização dos inseticidas. Demonstra
urticária na face, braços, troncos e pernas. a importância do fígado como órgão
- Olhos: dor, lacrimejamento, fotofobia, metabolizador implicado neste processo
congestão, edema da conjuntiva, lesão da [2].
córnea.
- Ingestão: dor epigástrica, náusea, 2.4.2 – Herbicidas
vômitos prolongados com cólicas e diarréia. As substâncias deste grupo são bastante
Convulsões, coma e morte por paralisia utilizadas em agricultura para o controle de
respiratória. ervas daninhas, como reguladores do
76
crescimento foliar [1;3]. Daí a sinonímia resultando em extravasamento
de agrotóxicos. sanguíneo.
Quimicamente os herbicidas são Os sinais e sintomas característicos são
originariamente derivados de duas fenômenos hemorrágicos, isto é, epistaxe,
estruturas principais: púrpuras, petéquias, hematúrias etc. Nos
- Ácido clorofenóxiacético: cujos envenenamentos graves observa-se
agentes mais utilizados são o 2,4D (ácido também uma intensa palidez cutânea. Nos
2,4 diclorofenóxiacético), o 2,4,5T (ácido achados de necropsia, as evidências
2,4,5 triclorofenoxiacético) e o MCPA (ácido hemorrágicas podem estar difusas ou
2cloro, 4metil-fenoxiacético). Como circunscritas.
curiosidade, estes agentes tiveram ampla O tratamento específico é feito à base de
utilização na guerra do Vietnã como vitamina K e suporte.
desfoliantes e contém dioxina.
B – Urêicos
- Bipiridilo: glifosato (roundup), Foram sintetizados a partir de
Paraquat e Diquat. compostos contendo a uréia na molécula
O mecanismo de ação tóxica dos agentes química. Os dois mais utilizados são ao
herbicidas é causar morte celular por ANTU (alf-naftil-tiouréia) e o piriminil (N-
provocar intensa proliferação lipídica e (4-nitrofenil)-N-3(piridinilmetil) uréia) [1].
depleção do cofator NADPH. Estes toxicantes provocam principalmente
Os sinais e sintomas clínicos são: perturbações respiratórias, com dispnéia,
sensação de queimação na boca, náusea e cianose e edema pulmonar. Ocorre
vômito, dor abdominal, diarréia, dispnéia secreção brônquica e traqueal,
(com hipoxemia), irritação ocular, caracterizada pela coloração branca e
desordens da consciência, torpor, edema aspecto espumoso. O ANTU provoca edema
pulmonar. pulmonar e efusão pleural.
O tratamento não é específico e deve ser
2.4.3 – Rodenticidas feito sintomáticamente.
São substâncias químicas utilizadas para
exterminar roedores no ambiente urbano e C – Compostos do flúor
também no agrícola [1]. Os principais compostos derivados do
Estes compostos podem ser divididos flúor utilizados como rodenticidas são flúor
e/ou classificados de acordo com o seu acetato de sódio, a fluoracetamida e o MNFA
mecanismo de ação tóxica em: (N-metil-N-(naftil)fluoroacetamida [1].
Estes compostos agem no organismo de
A – Cumarínicos e Indênicos vertebrados mimetizando a ação do
São produtos sintéticos que apresentam acetato, incorporando-se no ciclo de Krebs,
em comum a estrutura fundamental da 4 transformando-se em flúor citrato, um
hidroxicumarina exibindo, por isso, ação i n i b i d o r d a a c o n i t a s e e
anticoagulante. succinatodesidrogenase, enzimas
Seu princípio de ação tóxica se baseia na responsáveis pelo metabolismo do citrato e
inibição da síntese dos fatores vitamina K- do succinato, respectivamente. Como
dependentes (fatores VII, IX e X). Ainda inibe conseqüência, ocorre o bloqueio no ciclo
a síntese de protrombina (fator II) no fígado, dos ácidos tricarboxílicos, ocasionando
precursor plasmático da trombina. uma baixa produção de energia, com
Associados a esta ação, ainda exercem uma redução no consumo de oxigênio e da
ação vasodestrutiva, com danos capilares, concentração celular de ATP, especialmente
77
nas células cardíacas e do sistema sedação).
nervoso central. Também para este grupo de toxicantes,
A morte pode ser causada devido à não existe um tratamento específico e o
parada respiratória, em conseqüência de tratamento é sintomático e de suporte.3 –
convulsões intensas, falha cardíaca gradual METAIS PESADOS
ou fibrilação, e depressão progressiva do
sistema nervoso central, com falha 3.1 - Introdução
respiratória ou cardíaca como evento
O termo metais pesados não é uma
terminal.
definição da química ou da física.
Os sinais e sintomas clínicos são
Historicamente, fazem parte desse grupo o
principalmente gastrintestinais, precedidos
chumbo, mercúrio, arsênio e o cádmio.
por náuseas, vômitos e dores abdominais,
Atualmente, incluem-se no termo vários
seguidos posteriormente de agitação,
outros elementos, como exemplos o
ansiedade, espasmos musculares, estupor
alumínio e antimônio. Os metais são
e coma. Pode ocorrer ainda hipotensão e
onipresentes na crosta terrestre em
taquicardia ventricular, ou fibrilação. Ainda,
quantidades variáveis dependendo da sua
pode ocorrer insuficiência renal aguda
localização. A toxicidade de um metal
reversível.
resulta de sua ligação a grupos químicos em
O tratamento das intoxicações por estes
moléculas metabolicamente ativas, cruciais
compostos é sintomático e de suporte.
para a produção de energia ou transporte
Alguns autores recomendam ainda a
de oxigênio nas células. Esses grupos
administração endovenosa de gluconato de
químicos podem ser: carboxila (-COOH),
cálcio e de monoacetato de glicerol
amina (-NH2), sulfidrila ou tiol (-SH), fosforil
(monoacetin). Barbitúricos podem ser
(-HPO3), imino (-NH) ou hidroxila (-OH)
utilizados com precaução no controle das
[1,3].
convulsões, já que podem potencializar os
efeitos depressores no centro respiratório. 3.2 - Toxicologia do chumbo (Pb)

2.4.4 – Fungicidas 3.2.1 – Introdução


Este é um grupo de substâncias bastante O Chumbo está contido na natureza na
utilizado no meio agrícola principalmente e forma inorgânica em diferentes minérios,
também no pecuário [1]. São derivados principalmente no galena (sulfeto de Pb) e
químicos sintéticos de diversos grupos: na forma orgânica: Pb-tetraetila e Pb-
- Cloronitrobenzeno tetrapropila. A sua mobilização natural para
- Ftalimidas (Dicarboxamida - Captan) o ambiente decorre principalmente da
- Fungicidas contendo metais (cobre, erosão das rochas e de atividade vulcânica
boro, etc.) que, juntas, liberam cerca de 200 mil
- Triazólicos (Soprano), Clorotalonil. toneladas ao ano. Em nossos dias, foram
Sua sintomatologia clínica de relacionados 113 atividades industriais que
intoxicação compreende: expõem trabalhadores ao chumbo, dentre
- Eritema, Edema e Erupções vesiculares estas atividades destacamos: cerâmicas,
- Sensibilização cutânea produção de baterias automotivas,
- Náuseas, Vômitos estabilizadores para plásticos, pigmentos
- Distúrbios do tipo neurológicos de tintas, vernizes, lacas, betumes, soldas,
moderados (com hiperexcitabilidade ou tubulações, projéteis de cargas para
78
cartuchos, revestimentos protetores duros (fâneros – pelo, unhas, cabelo) e
contra radiações X, vidros cristais, cerâmica principalmente naqueles (90%) onde a
vitrificada, brinquedos, cigarros, forma de ligação bivalente é extremamente
metalurgia, fundição, alimentos enlatados, estável. A excreção é de 90% do chumbo
praguicidas, jornais, laminação, ingerido, pois, é pequena absorção pelo
esmaltação, raspagem, óleos lubrificantes e organismo humano adulto sendo excretado
na gasolina de automóveis, como aditivo nas fezes, sob forma de sulfetos insolúveis
anti-detonante (Pb-tetraetila e Pb- [3,4].
tetrapropila - 0,74 g/L). Há presença
também na própria alimentação, ou 3.2.3 – Toxicodinâmica
manuseio de tintas para pinturas e outros A toxicidade do Pb é resultante,
objetos, os quais podem promover a principalmente, de sua interferência no
intoxicação crônica denominada de funcionamento das membranas celulares e
saturnismo (plumbismo) em alusão enzimas, formando complexos estáveis
astrológica à influência de Saturno [2,3]. com ligantes contendo enxofre, fósforo,
nitrogênio, ou oxigênio (radicais: =C=O -
3.2.2 – Toxicocinética SH, -H2PO3, -NH2 e -OH) que funcionam
O chumbo existente no ambiente natural como doadores de elétrons. Destacam-se:
e ocupacional pode ser introduzido no as interações bioquímicas do chumbo com
organismo por meio de inalação (ar radical sulfidrila (–SH) e a sua habilidade em
atmosférico) ingestão (contaminação da competir com o cálcio nas diferentes
água, alimentos e solo) ou por via cutânea atividades bioquímicas que exerce, de
(compostos orgânicos do Pb). Sua absorção grande importância toxicológica [3,5].
não dependerá apenas de sua concentração
e tempo de exposição, mas também, de 3.2.4- Sinais e Sintomas da Intoxicação
fatores relacionados às propriedades Aguda e Crônica pelo Chumbo
físico-químicas dos compostos, isto é, Aguda - São raros os casos de
forma inorgânica ou orgânica. Na forma intoxicações agudas por este metal,
orgânica, a absorção ocorre de forma eficaz todavia, os sintomas relatados são os
mesmo na pele íntegra, e no trato seguintes: náusea, vômito, gosto metálico,
gastrointestinal (TGI) em um indivíduo sialorréia, cólicas abdominais, constipação
adulto normal é de 5 a 10% . A absorção pelo intestinal. A ingestão e absorção de grande
TGI em crianças é bem maior de 40 a 50%; quantidade de chumbo, particularmente em
No sangue liga-se aos eritrócitos em 90%, crianças, podem causar encefalopatia
sendo considerado este fato de grave, desânimo, irritabilidade, ataxia,
fundamental importância na utilização letargia, coma e morte.
desse tecido como indicador endógeno de Crônica – (Saturnismo) - Em adultos, os
exposição, sendo indicativo para o sintomas mais comuns são os seguintes: no
diagnóstico de intoxicação aguda e crônica SNC, fadiga, cefaléia, redução da memória e
pelo Pb. A distribuição do chumbo no aprendizado, anorexia, incoor-denação
organismo faz-se em dois principais motora, encefalopatias (menos freqüentes
compartimentos: o compartimento de nos adultos), diminuição da libido e
permuta sangue e tecidos friáveis (mole), impotência sexual; no trato
tais como fígado, rins e pulmões e o gastrointestinal, cólica abdominal, náusea,
compartimento de armazenamento, vômitos e dor epigástrica; alterações
constituído pelos tecidos não friáveis ou hematológicas, anemia normocítica ou
79
microcitica hipocrômica; alterações Mercúrio Inorgânico (HgCl2): A absorção
cardíacas, arritmia cardíaca, fragilidade oral de mercúrio inorgânico é moderada (7 –
capilar, ataxia, convulsão e morte [2,3,5]. 15%). A absorção dérmica e alveolar pode
causar toxicidade. Essa forma de mercúrio
3.2.5 - Níveis de Plumbemia
não atravessa a barreira hematoencefálica.
Em relação ao nível de Pb no sangue, a
A excreção é principalmente fecal (via bile) e
norma regulamentadora (NR-7/MT)
renal. Esta última crescendo em
considera o nível Pb normal sangüíneo ou
participação após exposição prolongada. O
valor de referência (V.R.) = 40,0 ug/dL,
tempo de meia-vida é de 40 – 60 dias [3,9].
Índice Biológico Máximo Permitido (IBMP) =
Mercúrio Orgânico (Hg-CH3): O mercúrio
60,0 ug/dL [3,5,6].
orgânico é bem absorvido por via oral
3.2.6 - Tratamento – (Saturnismo) (>90%), por inalação de vapores e por via
O tratamento com a agente quelante é dérmica. Para os organomercuriais a
realizada empregando-se o Versenate biotransformação ocorre por clivagem na
(CaNa2EDTA), Dimercaprol (BAL), Succimer ligação Hg-alquil gerando a forma oxidada
ou DMSA (ácido 2,3-dimercapto-succinico) Hg++, excretada via fezes (90%) e via urina.
[6,7,8,9]. No fígado, o metilmercúrio forma um
complexo solúvel com a cisteína e com o
3.3 - Toxicologia do mercurio (Hg) glutationa. Esse complexo é excretado pela
bile, podendo ser reabsorvido pelo trato
3.3.1 – Introdução
A maior fonte ambiental de mercúrio é o gastrintestinal. A circulação entero-
desgaste da crosta terrestre seguido pela hepática é responsável pelo tempo de meia-
atividade de mineração, que liberam para vida de cerca de 70 dias para o
atmosfera quase 10.000 toneladas por ano. metilmercúrio [3,9].
O mercúrio é utilizado: soda cáustica e gás
cloro, lâmpadas p.135-41fluorescentes,
3.3.3 - Toxicodinâmica
baterias e instrumentos científicos (Exs:
termômetros, barômetros). A exposição ao Existem 3 formas de mercúrio:
mercúrio também é possível na preparação elementar, inorgânico e orgânico, cada qual
com sua toxicidade e efeitos tóxicos
de amálgamas para restauração de dentes
característicos. O mercúrio orgânico
[9]. presente nos peixes, é transformado em
cloreto de metilmercúrio por ação do suco
gástrico e, dessa forma, é absorvido pelo
3.3.2 – Toxicocinética
homem. As formas de mercúrio mais
comuns na exposição ocupacional são a
Mercúrio Metálico (Hg0): O mercúrio
metálica e a inorgânica. A afinidade do
metálico é bem absorvido por inalação
mercúrio por grupos sulfidrila é
(80%) e muito pouco absorvido por via oral
responsável por sua ligação a biomoléculas,
(<0,01%). No sangue, parte do Hg0 é
com conseqüente inibição de uma grande
distribuída para os tecidos e parte é oxidada
variedade de enzimas e mecanismos de
a Hg++. O mercúrio metálico atravessa a
síntese e transporte de proteínas, que
barreira hematoencefálica e seu acúmulo no contribuem para sua toxicidade. A tríade
cérebro é maior que em qualquer outro clássica para a exposição crônica a níveis
tecido. A forma oxidada é excretada elevados de mercúrio metálico é: aumento
primariamente pela urina e fezes (via bile), da excitabilidade, tremores e gengivite.
com tempo de meia-vida de 35 – 90 dias Para níveis de média intensidade, foram
[3,9]. observados tremores finos, inicialmente
80
nas mãos, que mesmo afastada a
exposição, podem levar anos para regredir. 3.4 - Toxicologia do arsênio (As)
A exposição crônica de baixa intensidade
tem sido associada com sintomas menos 3.4.1 – Introdução
pronunciados de eretismo, incluindo O arsênio encontra-se amplamente
fadiga, perda de memória e depressão. A distribuído na natureza, presente em mais
tríade clássica para exposição crônica a de 150 minerais diferentes. Alguns
organomercuriais inclui: disartria, ataxia e organismos marinhos extraem o As da água
diminuição do campo visual. A
e acumulam o metal sob a forma inorgânica
neurotoxicidade pode tornar-se irreversível
ou, mais comumente, sob a forma orgânica
(sequela). Para a forma inorgânica, o órgão
alvo é o rim. Em exposição crônica os (dimetilarsenato, arsenobetaina,
efeitos tóxicos podem evoluir de uma arsenocolina ou diferentes arseno-
proteinúria, reversível após afastamento de açúcares). Sob o ponto de vista da
exposição, até evoluir para síndrome exposição ocupacional os principais
nefrótica [3,9].
compostos seriam a arsina, o trióxido de
arsênico e o pentóxido de arsênico. A
3.3.4 - Monitorização Biológica exposição pode ocorrer no refinamento do
Só existe correlação entre níveis As e produção de inseticidas e outros
biológicos de mercúrio no sangue e urina e compostos contendo arsênio; na indústria
níveis de exposição ao metal, cerca de um de semicondutores e dispositivos
ano após exposição contínua, quando se eletrônicos, na produção de ácido sulfúrico
estabelece o equilíbrio entre absorção e e na produção do vidro [3,9a].
excreção.
Mercúrio no sangue (Hg-S): Hg-S é um 3.4.2 – Toxicocinética
indicador de exposição recente. O sangue A absorção do arsênio pode ocorrer por
pode ser colhido em qualquer momento via oral ou pulmonar. A via oral é mais
durante a jornada de trabalho. Na literatura importante na exposição não-ocupacional,
especializada encontramos como VR: < enquanto que a pulmonar prevalece no
1μg/dL. O I.B.M.P. é 2μg/dL (NR7/MT) [3,9]. ambiente de trabalho. A absorção oral do
Mercúrio na urina (Hg-U): Hg-U é um trióxido de arsênio é grande (>90%)
bom indicador para exposição a mercúrio enquanto os compostos menos solúveis são
inorgânico. Níveis elevados de Hg-U estão pouco absorvidos (<30%). A absorção
bem correlacionados com sintomas. A pulmonar é restrita à fração respirável e
avaliação de mercúrio na urina só é útil para depende da solubilidade do composto. Para
monitorização quando os indivíduos são os compostos hidrossolúveis como o
expostos por tempo suficiente para que o trióxido de arsênio, a absorção é rápida. Os
estado de equilíbrio seja alcançado. Esse compostos insolúveis como arsenato de
período de latência pode chegar a 10 dias cálcio, arsenato de chumbo, entre outros,
para exposições elevadas e 6 meses para tendem a ficar retidos nos pulmões. O
exposições brandas. VR: até 5μg/g arsênio inorgânico trivalente pode ser
creatinina. IBMP: 35μg/g creatinina. biotransformado a As pentavalente, mas a
(NR7/MT) [3,9]. principal via de biotransformação envolve a
metilação, produzindo acido metil e dimetil
3.3.5 – Tratamento arsônico, que são menos tóxicos que o As
O tratamento é feito à base de agentes inorgânico. A forma pentavalente é
quelantes -Dimercaprol (BAL), DMSA, e reduzida à forma trivalente e
Versenate [3,6,10].
81
posteriormente metilada. Após tóxicos decorrentes da exposição em
exposição ao arsênio trivalente, nas longo prazo em: neuropatia periférica,
primeiras horas de excreção, prevalece a angiopatia periférica e disfunção hepática e
forma inorgânica na urina, tanto trivalente renal. A arsina é um gás altamente tóxico. O
quanto pentavalente. Após cerca de 8 principal mecanismo que conduz à
horas, prevalecem as formas metiladas, fatalidade é uma extensiva hemólise
sendo o ácido dimetilarsônico o principal intravascular. Compostos inorgânicos de
metabólito (50 – 80%). A eliminação urinária arsênio podem conduzir a uma
é trifásica: 65% do arsênio é eliminado nos neurotoxicidade tanto central quanto
dois primeiros dias, 30% com 9,5 dias e periférica, que se inicia com alterações
5,7% em 38 dias. O arsênio inorgânico sensoriais, parestesia, seguida de fraqueza
acumula-se nos tecidos ricos em queratina, muscular, progredindo dos grupos
como a pele, unhas e cabelos. Os musculares proximais para os distais. No
compostos orgânicos de arsênio, como os caso de exposição ocupacional, pode
que ocorrem nos alimentos demorar vários anos para que os efeitos
(dimetilarsenato, arsenobetaina, tóxicos apareçam, sendo difícil estabelecer
arsenocolina ou diferentes arsenoaçúcares) uma relação dose/resposta [3,9a].
sã o , em sua ma i o r i a , excretados
inalterados. Eles não são significativamente 3.4.5 - Monitoramento Biológico
biotransformados em arsênio inorgânico, O arsênio no sangue desaparece logo
ou compostos metilados, no organismo após o pico de absorção, por conta de sua
humano [3,9a]. rápida distribuição para os tecidos. Por essa
razão, a dosagem desse metal no sangue
3.4.3 – Toxicodinâmica não é útil como indicador biológico de
Várias proteínas e enzimas contendo exposição ocupacional. O arsênio na urina é
grupos sulfidrila têm sua ação alterada por o indicador de escolha. Os valores de
exposição ao arsênio. Um dos mecanismos referência não excedem a 100μg/g
responsáveis pela toxicidade é a inibição de creatinina quando as pessoas se abstêm de
enzimas do sistema da piruvato alimentos de origem marinha. Na exposição
desidrogenase. Como conseqüência dessa ocupacional a 0,05mg/m3 obteríamos o
interferência, a respiração celular é valor médio de 170μg/L de arsênio urinário.
comprometida, bem como a produção de Se utilizado o método que separa as formas
energia para manutenção dos processos As3+ e As5+, analisando-as separadamente,
vitais. Os seres humanos são mais sensíveis em vez de todos os metabólitos, veríamos
ao trióxido de arsênio do que várias que o teor de arsênio inorgânico na urina é
espécies de animais (DL50 de 1-2 mg/ Kg muito baixo. Isto acontece porque 80-90%
peso corpóreo) [3,9a]. do As é absorvido e excretado na forma As-
CH3 (CH3-H3C, CH2-COO-),
3.4.4 - Sinais e Sintomas da Intoxicação
Aguda e Crônica pelo Arsênico principalmente como dimetilarsina. O
Aguda - a injúria hepática manifesta-se método de análise por geração de hidretos e
inicialmente como icterícia, progredindo espectrometria por absorção atômica. VR:
para cirrose ou ascite. A doença vascular até 10μg/g creatinina; IBMP: 50μg/g
periférica pode progredir para gangrena creatinina (NR-7/MT) [3,9a].
das extremidades inferiores.
Crônica - Podemos resumir os efeitos
82
Paulo, Editora Atheneu, p.203-231, 2003.
[10] GOYER, R.A., CLARKSON.T.W. Toxic Effects of
3.4.6 – Tratamento Metals: In: Toxicology - The Basis Science of
O tratamento é feito à base de agentes Poisoning. CASARETT, S. L., DOULL, J. (Eds.) Sixty ed.
New York, McGraw-Hill, p. 812- 837, 2001.
quelantes, Dimercaprol (BAL), DMSA, e
Versenate [3,6,9a,10].

4 - Referências Bibliográficas

4.1 - Referências da seção 2


[1] LARINI, L. (Ed.). Toxicologia dos Praguicidas.
Manole, São Paulo, 230p., 1999.
[2] GREGUS, Z. & KLAASS, C.D. Mechanisms of
Toxicity In: KLAASEN, C.D. (Ed). Casarett and Doull's
Toxicology. The basic science of poisons. Sixty
Edition, Mc Graw-Hill, New York, p.35-82, 2001.
[3] ECOBICHON, D.J. Toxic Effects of Pesticides. In:
KLAASEN, C.D. (Ed.). Casarett and Doull's Toxicology.
The Basic Science of Poisons. Sixty Edition, Mc Graw-
Hill, New York, p.763-810, 2001.
[4] CHAMBERS, J.E. & LEVI, P.E. (Ed.)
Organophosphates. Cmemistry, Fate, and Effects.
Academic Press Inc., San Diego, 443p., 1992.
[5] COYE, M.J.; LOVE, J.A. & MADDY, K.T. Biological
Monitoring of Agricultural Workers Exposed to
Pesticides I. Cholinesterase Activity Determi- Nations.
J. Occup. Med., v.28, p.619-627,1986.
[6] SODERLUND, D.M.; CLARK, J.M.; SHEETS, L.P.;
MULLIN, L.S., et al. Mechanisms of Pyrethroid
Neurotoxicity: Implications for Cumulative Risk
Assessment. Toxicology, v.171, n.1, p.3-59, 2002.

4.2 – Referências da seção 3:

[1] DOUGLAS, W.G. The Saturnine Curse: a History


of Lead Poisoning. J. South Méd., v.78, p.48-51,
1985.
[2] BUSCHINELLI, J.T., BARBOSA, C.Q., TRIVELATO,
G. C. Saturnismo - Chumbo X Trabalhadores - Um
Jogo Lento e Fatal. Rev. Proteção., v.2, março, p. 42-
50, 1990.
[3] LARINI, L. SALGADO, P.E.T., LEPERA, J.S. Eds.
Metais. In: Toxicologia, Manole, São Paulo, p.135-41,
1987.
[4] CONRAD, M.E., BARTON, J.C. Factors Affecting
the Absorption and Excretion of Lead in the Rat.
Gastroenterology. v.74, p. 731-40, 1978.
[5] MOREIRA, F.R , MOREIRA, J.C. Os Efeitos do
Chumbo Sobre o Organismo Humano e seu
Significado Para a Saúde. Rev. Panam. Sal. Públ. v.2, p.
119-29, 2004.
[6] ELLENHORN, M. J., BARCELOUX, D. G. LEAD Eds.
In: Medical Toxicology Diagnosis and Treatment of
Human Poisoning. Elsivier, New York., p. 1030-40,
1988.
[7] COUNTER, S. A., ORTEGA, F., SHANNON, M. W.
et. al. Succimer (meso-2,3 Dimercaptosuccinic Acid -
DMSA) Treatment of Andean Children with
Environmental Lead Exposure. Int. J. Occup. Environ.
Health, v.9, p.164-8, 2003.
[8] GRAZIANO, H., LOLACONO, N., MOULTON.T., et
al. Controlled Study of Meso-2,3-
Dimercaptosuccinic Acid for the Management of
Childhood Lead Intoxication. J. Pediatr. v. 120, p.133-
39, 1992.
[9] AZEVEDO, F.A.; CHASIN, A.A.M. Mercúrio. In:
Metais. Gerenciamento de Toxicidade. 1ª. Ed., São
Paulo, Editora Atheneu, p.299-344, 2003.
[9a] AZEVEDO, F.A.; CHASIN, A.A.M. Arsênio. In:
Metais. Gerenciamento de Toxicidade. 1ª. Ed., São
83
CAPÍTULO 09
TÓPICOS EM BIOLOGIA E TOXICOLOGIA DA
REPRODUÇÃO MASCULINA.

Juliana Elaine Perobelli


Programa de Pós-Graduação em Biologia Celular e Estrutural - UNICAMP - Campinas - SP
jperobelli@gmail.com

Carla Tatiani Teixeira


Graduanda do Curso de Ciências Biológicas do Instituto de Biociências - UNESP - Botucatu - SP
carlinha_teixeira@yahoo.com.br

Glaura Scantamburlo Alves Fernandes


Programa de Pós-Graduação em Biologia Celular e Estrutural - UNICAMP - Campinas - SP
glaura_sf@yahoo.com.br

Resumo: Desde o início dos anos 90, grande atenção tem sido dada aos agentes químicos que
apresentam potencial de mimetizar ou antagonizar os efeitos dos hormônios esteróides. A exposição a
estes compostos químicos, chamados desreguladores endócrinos, associado ao estilo de vida, têm sido
apontados como fatores responsáveis pelo número crescente de problemas reprodutivos na população
masculina. Este capítulo visa apresentar noções básicas sobre Biologia e Toxicologia da Reprodução
Masculina, enfatizando as linhas de pesquisa desenvolvidas no Laboratório de Biologia e Toxicologia da
Reprodução e do Desenvolvimento – IBB/Unesp (ReproTox), coordenado pela Profa. Dra. Wilma De
Grava Kempinas.

1 – Introdução sexo masculino, utilizando


avaliações espermáticas (aspectos
O interesse pelo estudo da Biologia e quantitativos e qualitativos), análises de
Toxicologia da Reprodução Masculina vem biomarcadores de fertilidade, dosagens
crescendo nos últimos anos, especialmente hormonais, avaliações histopatológicas e
porque, na espécie humana, tem sido morfométricas, testes de fertilidade,
descrito o decréscimo progressivo na comportamento sexual, acasalamentos
densidade espermática, devido, pelo naturais e inseminação artificial.
menos em parte, pela exposição a fatores Com o passar dos anos vem
ambientais [1]. Além disso, nas últimas crescendo nosso interesse sobre a Biologia
décadas, foi registrado o aumento da Epididimária, sendo que os trabalhos
incidência de hipospadias e experimentais acabam por desvendar, além
criptorquidismo. dos efeitos tóxicos, aspectos da
Estão disponíveis na literatura histofisiologia normal deste importante
excelentes artigos e revisões sobre esse órgão do aparelho reprodutor masculino.
tema, inclusive detalhando os efeitos e No momento, estão em andamento no
mecanismos de ação de diferentes classes Laboratório estudos sobre metais pesados,
de agentes tóxicos, como metais pesados, drogas antineoplásicas e anorexígenas,
solventes orgânicos, agentes físicos, praguicidas, plastificantes, distúrbios
praguicidas e outras substâncias químicas, metabólicos (diabetes, obesidade e
além de técnicas de estudo [2-4]. restrição protéica) e biologia e toxicologia
Há 21 anos nosso Laboratório do epidídimo, temas que serão abordados a
estuda, em animais experimentais, os seguir.
efeitos reprodutivos de agentes tóxicos no
84
2 – Metais redução da capacidade reprodutiva de
homens [8].
Os metais são compostos encontrados O arsênio tem sido utilizado como uma
naturalmente na crosta terrestre, sendo terapia alternativa para o tratamento da
também provenientes da mineração, leucemia promielocítica aguda (APL), no
erosão do solo, descarga industrial, entanto, seus efeitos colaterais sobre a
praguicidas, poluição radioativa, entre reprodução masculina ainda foram pouco
outros. Entre estes compostos, estão os estudados. Porém já foi demonstrada uma
metais pesados que, em sua maioria, ação inibitória sobre o testículo causando
apresentam alta solubilidade em água e são diminuição nas concentrações sanguíneas
facilmente absorvidos pelo tecido de de LH e FSH [9,10].
plantas e animais, se ligando a Atualmente estão sendo desenvolvidos
biomoléculas como proteínas e ácidos os projetos intitulados: “Exposição de ratos
nucléicos, prejudicando suas funções. O machos adultos ao metilmercúrio:
mercúrio, o chumbo, o cádmio e o arsênio parâmetros reprodutivos e histofisiológicos
são metais pesados extremamente tóxicos, associados à fertilidade e quantificação das
que não possuem nenhuma função dentro diferentes espécies químicas de mercúrio”;
dos organismos e a sua acumulação pode “Avaliação de parâmetros reprodutivos de
provocar graves doenças, sobretudo no ratos machos adultos expostos ao
aparelho reprodutor masculino [5]. metilmercúrio”; “Avaliação de parâmetros
Estudos recentes demonstram que o reprodutivos de ratos machos, púberes e
metilmercúrio, forma orgânica do adultos, expostos ao cádmio in útero e
mercúrio, é um agente agressor ao durante a lactação”; “Toxicidade
aparelho reprodutor masculino que reprodutiva do trióxido de arsênio sobre a
acarreta danos na espermatogênese, estrutura do trato genital e função
diminui peso de órgãos reprodutores e reprodutiva de ratos machos adultos”.
reduz os níveis plasmáticos de testosterona
[6]. 3 - Drogas
Os efeitos deletérios do chumbo sobre a
reprodução masculina são conhecidos há 3.1 – Antineoplásicas
muito tempo, porém são escassos e
O câncer tornou-se uma das mais
inconclusivos, até mesmo contraditórios.
importantes doenças da modernidade,
Em trabalho realizado por KEMPINAS et al.
sendo alvo de inúmeros estudos de
[7] foram observadas alterações
diagnóstico e tratamento. Várias drogas
neuroendócrinas em ratos expostos ao
antineoplásicas são utilizadas e têm sua
chumbo, sugerindo que a interferência com
capacidade terapêutica comprovada, porém
a inervação autônoma seja um dos
os efeitos colaterais promovidos por estas
mecanismos envolvidos com os efeitos
são, em muitos casos, tão importantes
desse metal sobre as vias espermáticas e
quanto à eficácia, especialmente sobre o
glândulas sexuais acessórias.
sistema reprodutor masculino.
O cádmio é um metal que pode afetar
A cisplatina é um dos agentes
diretamente os testículos, e mesmo após
antineoplásicos mais amplamente
exposição moderada há um aumento na
utilizados na oncologia clínica, para o
morfologia anormal dos espermatozóides,
tratamento de vários tipos de tumores
diminuição da motilidade espermática e
sólidos [11], especialmente os testiculares,
85
que acometem indivíduos bastante a carência de informações na literatura
jovens [12]. Como o tratamento destes sobre os efeitos reprodutivos da
pacientes jovens tem resultado em altos sibutramina, atualmente em nosso
índices de cura [13] torna-se Laboratório está sendo desenvolvido o
extremamente importante conhecer os projeto intitulado: “Efeitos da sibutramina
reais efeitos reprodutivos causados por sobre o sistema reprodutor masculino de
estes agentes e a possibilidade de ratos obesos”.
recuperação destes efeitos, visando a
melhoria da qualidade de vida dos 4 – Praguicidas
pacientes curados.
Considerando esta problemática, Os praguicidas (fungicidas, herbicidas e
atualmente encontra-se em inseticidas) são contaminantes químicos
desenvolvimento em nosso Laboratório o ambientais e potenciais desreguladores
projeto intitulado “Avaliação imediata e endócrino, ou seja, são capazes de
tardia da função reprodutiva, mimetizar ou antagonizar os efeitos dos
desenvolvimento da progênie e fertilidade hormônios endógenos [17]. Estudo
da prole masculina adulta de ratos tratados realizado com altas doses do inseticida
com cisplatina durante a puberdade”. fenvalerato (40mg/Kg) administradas a
ratos adultos causaram diminuição do peso
3.2 – Anorexígenas do testículo e epidídimo, bem como da
contagem espermática nesses órgãos [18].
A obesidade está rapidamente se Fernandes et al. [19], mostraram que o
tornando uma epidemia mundial, herbicida diuron, na dose de 125mg/Kg
contribuindo para o aumento da incidência causou diminuição na fertilidade de ratos
de problemas cardiovasculares, diabetes e machos adultos. Porém, sua administração
hipertensão [14]. Fatores genéticos, dieta e in útero, lactação e pré-puberdade nas
estilo de vida são os principais doses de 500, 750 e 1250ppm não causou
responsáveis pelo desenvolvimento da alteração no sistema reprodutor masculino
obesidade. Pesquisas estatísticas revelam da prole [20]. A administração da mistura de
que o problema da obesidade tem praguicidas (dicofol, diclorvos, permetrina,
aumentado 12-20% nos homens e 16-25% endosulfan e dieltrin) em baixas doses
nas mulheres nos últimos 10 anos [15]. (NOEL) e em doses efetivas (LOEL/LOAEL)
Muitos pacientes têm dificuldade de causou redução da motilidade espermática
perder peso e mantê-lo, quando o perdem, de ratos adultos [21].
é apenas através de dietas e exercícios. Atualmente, nesse contexto, o projeto
Contudo, o tratamento médico inclui em andamento em nosso Laboratório é
somente alguns tipos de drogas como, por intitulado “Mistura de praguicidas em
exemplo, a sibutramina, recentemente baixas doses: efeitos sobre o trato
utilizada para o tratamento da obesidade reprodutivo de ratos machos, com ênfase
em muitos paises. sobre o epidídimo e a próstata”.
A ação da sibutramina sobre órgãos do
aparelho reprodutor masculino aponta a 5 – Plastificantes
ejaculação anormal como um efeito
adverso [16]. Os ftalatos são ésteres utilizados na
Considerando a crescente utilização de fabricação de plásticos transparentes
fármacos para o tratamento da obesidade e empregados em indústrias e são
86
amplamente encontrados como mecanismo seria o aumento do estresse
substâncias contaminantes no ambiente. oxidativo causado pela hiperglicemia. Ratos
Eles são aditivos químicos que, adicionados adultos hiperglicêmicos tiveram a redução
ao cloreto de polivinila (PVC), conferem-lhe dos níveis de estresse oxidativo e do
maleabilidade. O PVC maleável é utilizado número de espermatozóides malformados
na fabricação de bolsas de sangue, de soro após tratamento com vitaminas
e de soluções intravenosas, cateteres, antioxidantes (C e E, sozinhas ou
máscaras para inalação de oxigênio, luvas, associadas) [30]. Outro mecanismo pode
tubos, dentre outros produtos médico- ser a redução dos níveis de testosterona,
hospitalares, além de serem utilizados na contudo a suplementação de testosterona
fabricação de embalagens plásticas não restabeleceu os prejuízos da
maleáveis de uso comercial como espermatogênese em ratos adultos
mamadeiras, brinquedos, garrafas de hiperglicêmicos [31]. Em estudo
refrigerante e outros [22]. gestacional, o meio intra-uterino
Em estudos realizados sobre os efeitos hiperglicêmico causa na prole masculina
dos ftalatos no trato genital masculino atraso na descida testicular e separação
encontrou-se atraso na descida testicular prepucial, e na vida adulta, diminuição das
[23], aumento do volume do tecido reservas espermáticas e do tempo de
intersticial do testículo [24], hipospadias, trânsito espermático na região da cauda do
malformações no epidídimo, ducto epidídimo [32].
deferente, vesícula seminal e próstata O projeto em execução em nosso
dorsolateral e ventral [25, 26]. Fisher et al. Laboratório, no momento, intitula-se
[27] demonstraram que o testículo fetal é “Antioxidantes (vitaminas C e E): uma
diretamente afetado pelos ftalatos. alternativa para diminuir os danos
reprodutivos causados pela hiperglicemia
6 - Distúrbios metabólicos em ratos machos adultos?”

6.1 – Diabetes
6.2 – Obesidade

O diabetes é uma síndrome metabólica


A obesidade está rapidamente se
hiperglicêmica crônica, causada pela
tornando uma epidemia mundial, sendo
ausência, ou redução, na síntese de insulina
uma grande contribuinte para o aumento da
pelas células beta () das ilhotas
incidência de problemas cardiovasculares,
pancreáticas ou por alteração nos
diabetes e hipertensão [33].
receptores para insulina nas células-alvo
A obesidade está relacionada com
[28]. De ambos os modos, os níveis de
significativos distúrbios no ambiente
glicose no sangue aumentam e o estado
hormonal, o que pode afetar o sistema
hiperglicêmico é atingido. Em relação ao
reprodutivo. Essa relação é clara em
sistema reprodutor masculino, sabe-se que
mulheres, mas em homens ainda é pouco
a hiperglicemia sustentada causa
caracterizada [34]. Em homens, a obesidade
diminuição na produção diária de
tem sido relacionada a uma diminuição dos
espermatozóides e de testosterona,
níveis séricos de testosterona total e livre
oligospermia epididimária, alterações no
[35], à baixa qualidade espermática e a uma
comportamento sexual e diminuição da
tendência a oligospermia [36]. Em estudos
fertilidade [29], contudo os mecanismos
experimentais com ratos, a indução da
envolvidos são incertos. Um possível
87
obesidade induzida por glutamato já observaram atraso na puberdade [40],
monossódico no período neo-natal leva a redução da fertilidade e da contagem
diminuição da contagem espermática, dos espermática e também alterações
níveis de testosterona e dos pesos dos endócrinas na prole masculina de ratas
órgãos reprodutores [37], contudo a desnutridas [41]. Em ovelhas, a subnutrição
obesidade induzida por ingestão de dieta materna prejudicou o desenvolvimento
hipercalórica não alterou a contagem testicular [42] e reduziu a taxa de ovulação
espermática [38]. [43] dos filhotes.
Inserido nesta problemática, Os projetos em andamento nessa área
atualmente em nosso Laboratório está em nosso Laboratório são “Restrição
sendo desenvolvido o projeto intitulado protéica in utero: desenvolvimento sexual e
“Função reprodutiva em ratos machos histofisiologia do sistema reprodutivo de
obesos por consumo de dieta ratos machos” e “Desenvolvimento físico e
hipercalórica”. sexual da prole de ratas submetidas à
restrição protéica em diferentes períodos
6.3 - Restrição protéica da prenhez e lactação”.

Desnutrição é um termo genérico que 7 - Biologia e toxicologia do


indica a ausência de algum(s) ou de todos epidídimo
os elementos nutricionais na dieta de um
indivíduo. Pode ser causada pela falta de O epidídimo é um órgão do sistema
alimentos (desnutrição alimentar), ou por reprodutor masculino formado por um
uma má-alimentação o que acarreta em ducto único, longo e altamente enovelado
algum déficit nutricional como, por [44,45]. Em geral, é dividido em cabeça,
exemplo, menor ingestão de proteína corpo e cauda, sendo que a cabeça possui
(desnutrição protéica). No Brasil a uma região inicial conhecida como
prevalência da desnutrição está em torno segmento inicial. Estas porções são
de 10,5%, variando de acordo com a região subdivididas histologicamente em zonas
[39]. que são designadas de acordo com a altura
O desenvolvimento pré - natal é um do epitélio e a distribuição e quantidade dos
processo complexo que se completa até tipos celulares. O epitélio
anos após o nascimento na maioria dos pseudoestratificado ciliado possui seis
mamíferos. Assim, o estado nutricional tipos celulares: basais, principais, estreitas,
materno durante a gestação e a lactação halo, claras e apicais [45].
são de suma importância para o A função primária do epidídimo é o
desenvolvimento normal do indivíduo. transporte dos espermatozóides que
Na literatura há muitos estudos chegam do testículo, além de ser
relacionando a subnutrição gestacional responsável pela estocagem, proteção,
com o desenvolvimento do sistema concentração e maturação dos gametas
cardiovascular e a propensão da prole [44,45]. A função secretora e de reabsorção
desenvolver hipertensão, diabetes e das células principais, juntamente com as
obesidade na vida adulta. Porém, são junções oclusivas entre elas, garantem a
escassos os estudos que associam a manutenção do micro-ambiente
subnutrição materna a aspectos intraluminal onde ocorre a maturação dos
reprodutivos da progênie. Alguns autores espermatozóides.
O tempo da passagem dos gametas pelo
88
ducto epididimário é espécie- Entretanto, poucos estudos se
específico. Durante o trânsito dos atentaram para as possíveis conseqüências
espermatozóides pelo epidídimo ocorre a sobre o epidídimo e maturação espermática
maturação espermática, de forma que uma de um rato que sofreu tal exposição no
alteração no tempo da passagem dos período pré-puberal, momento em que o
gametas pelo ducto pode alterar este epidídimo passa por mudanças que
processo [46,47]. Fernandez et al. [48], resultam no desenvolvimento de um ducto
concluíram que a aceleração do tempo de único que se diferencia em algumas regiões
trânsito espermático no epidídimo pareceu com morfologia, função, atividade e
prejudicar a maturação normal dos expressão gênica particulares [52]. A
espermatozóides nos ratos, diminuindo a puberdade constitui um conjunto de
qualidade espermática e a capacidade fértil, transformações somáticas cujos
de maneira andrógeno-dependente. mecanismos primários ainda não estão
Durante o trânsito espermático pelas totalmente esclarecidos, mas parecem
diferentes porções do epidídimo ocorre a resultar de interações entre fatores
translocação e o aumento da expressão de genéticos, hormonais e ambientais [53]. A
uma proteína espermática, de origem exposição a contaminantes ambientais tem
testicular, denominada SP22 [49]. Esta sido apontada como um dos fatores
proteína tem sido correlacionada com a responsáveis por alterações no
fertilidade [49] e com alguns parâmetros desenvolvimento infantil resultando em
espermáticos [50]. Assim, alterações no precocidade ou atraso na puberdade.
processo de maturação dos Enfocando esta problemática, nosso
espermatozóides podem ser identificadas Laboratório está desenvolvendo os projetos
pela análise da expressão de SP22, que é de pesquisa intitulados “Morfo-fisiologia
considerada um biomarcador de epididimária de ratos púberes e adultos
fertilidade. sujeitos à privação de andrógeno durante o
Há um aumento do interesse público a período pré-puberal” e “Puberdade
respeito da possibilidade do declínio na retardada no rato macho: correlações entre
qualidade do sêmen humano estar indicadores externos e internos e
relacionado a exposições a compostos repercussões sobre a qualidade
químicos ambientais e a produtos espermática e fertilidade”.
farmacêuticos. Esses químicos, chamados
desreguladores endócrinos, podem
8 - Considerações finais
mimetizar ou antagonizar o efeito dos
Com o advento de técnicas modernas, a
hormônios esteróides do organismo. Se
Toxicologia da Reprodução é uma ciência
pesquisas futuras confirmarem que este
que vai se desenvolver expressivamente
suposto declínio está de fato acontecendo,
nos próximos anos, além do que novas
e a exposição a compostos químicos está
substâncias químicas continuam a ser
relacionada à qualidade espermática, o
desenvolvidas e colocadas no mercado e em
epidídimo deve, certamente, ser
contato com os seres vivos e o meio
considerado um possível órgão alvo [51].
ambiente. As perspectivas futuras do
A literatura já apresenta dados sobre a
Laboratório são continuar investigando os
exposição a agentes químicos durante a
aspectos normais e anormais da
vida pré-natal e adulta e suas
reprodução masculina, aprimorar as
conseqüências sobre o epidídimo.
metodologias já utilizadas e investir na
89
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91
CAPÍTULO 10
TÓPICOS EM BIOLOGIA E TOXICOLOGIA DA
REPRODUÇÃO FEMININA.

Ana Paula Alves Favareto


Programa de Pós-Graduação em Biologia Celular e Estrutural - UNICAMP - Campinas - SP
anafavareto@yahoo.com.br

Marina Trevizan Guerra


Programa de Pós-Graduação em Biologia Celular e Estrutural - UNICAMP - Campinas - SP
trevizan@ibb.unesp.br

Wilma De Grava Kempinas


Departamento de Morfologia, Instituto de Biociências de Botucatu - UNESP - Botucatu - SP
kempinas@ibb.unesp.br

Resumo: Nas últimas décadas tem crescido a atenção dos cientistas, agências regulatórias e público
em geral no que diz respeito aos prejuízos sobre a saúde reprodutiva de seres humanos, animais
domésticos e selvagens em função das alterações ambientais provocadas pela atividade humana. Neste
capítulo, que é complementar ao seguinte, serão tratados temas pertinentes à área de Biologia e
Toxicologia da Reprodução Feminina, tomando por base os trabalhos e linhas de pesquisa do
Laboratório de Biologia e Toxicologia da Reprodução e do Desenvolvimento (ReproTox) do Dep. de
Morfologia do Instituto de Biociências de Botucatu, UNESP.

1 – Introdução equipe do Laboratório de Biologia e


Toxicologia da Reprodução e do
A Toxicologia da Reprodução e do Desenvolvimento (ReproTox) do Dep. de
Desenvolvimento é uma disciplina ampla, Morfologia do Instituto de Biociências de
que investiga o desenvolvimento dos Botucatu - UNESP realiza estudos que visam
organismos, desde a célula germinativa até investigar aspectos normais e os efeitos de
o adulto sexualmente maduro (ciclo agentes tóxicos sobre os tratos
reprodutivo completo), e os efeitos reprodutores masculino e feminino, sobre a
adversos sobre a reprodução que podem fertilidade, os produtos da gestação e o
resultar da exposição a contaminantes desenvolvimento sexual, utilizando-se
ambientais [1]. As contaminações mais especialmente roedores como modelo
importantes acontecem no ambiente experimental. As Linhas de Pesquisa atuais
ocupacional, mas a população em geral está compreendem a Biologia da Reprodução, a
exposta a substâncias tóxicas pela dieta, ar, Toxicologia da Reprodução Masculina e
água, produtos domissanitários, Feminina, a Toxicologia do
cosméticos, medicamentos, além de outras Desenvolvimento e o Ensino à Distância.
fontes. Nas últimas décadas tem Desde a formação do grupo, o potencial
aumentado a incidência de problemas tais tóxico de diferentes agentes tem sido
como endometriose, câncer de mama, avaliado. Já foram e estão sendo realizados
distúrbios puberais e existem indícios de trabalhos com metais pesados, praguicidas
que essas alterações são decorrentes, pelo supostamente desreguladores endócrinos,
menos em parte, à exposição a plantas medicinais, além de outras
contaminantes ambientais. Há 21 anos a substâncias químicas. É interessante notar
92
que ao se investigar respostas tóxicas, A obesidade é uma doença que está
muitas vezes são desvendados processos rapidamente se tornando uma epidemia
normais da reprodução. Mais mundial, sendo uma grande contribuinte
recentemente, nos envolvemos com a para o aumento da incidência de problemas
elaboração um ambiente virtual para o cardiovasculares, diabetes, hiperlipidemia
ensino/aprendizagem de Embriologia e hipertensão [2,3].
Comparada. Também se espera, para breve, O tecido adiposo desempenha um papel
a disponibilização de um ambiente no estoque de energia, no isolamento
colaborativo, na Internet, para térmico e na proteção de pequenos
pesquisadores das áreas de Biologia e traumas, além de funcionar como um órgão
Toxicologia da Reprodução (ReproLine). A endócrino [4], envolvido no controle do
equipe do Laboratório, que é composta metabolismo, do balanço energético e de
por pesquisadores de diferentes funções reprodutivas, através da secreção
graduações, está constantemente engajada de hormônios [5]. Quando o número de
na organização de cursos e eventos nas calorias ingeridas é maior do que a energia
áreas de Biologia e Toxicologia da Repro- gasta (exercícios físicos, aumento de
dução, conforme pode ser verificado temperatura corpórea), as calorias são
no sítio do ReproTox na Internet: estocadas no corpo como gordura,
http://www.ibb.unesp.br/departamentos/ glicogênio e proteína, resultando em um
Morfologia/lab_pesq_reprotox.php. No que aumento de peso corpóreo [6]. Assim,
diz respeito ao tema do presente capítulo, fatores genéticos, dieta e estilo de vida são
atualmente encontram-se em andamento os principais responsáveis pelo
estudos enfocando drogas anorexígenas, desenvolvimento da obesidade [2]. Apesar
desreguladores endócrinos e a toxicologia do aumento do número de pessoas com
do desenvolvimento. sobrepeso e obesidade, o tratamento
As técnicas utilizadas no Laboratório médico inclui somente alguns tipos de
para o estudo da Biologia e Toxicologia da drogas [7].
Reprodução Feminina são: avaliação do A sibutramina é uma das drogas
ciclo estral, dosagens hormonais, anorexígenas utilizada no tratamento da
morfologia e morfometria de órgãos do obesidade. Esta droga provoca inibição da
trato reprodutivo, avaliação do recaptação de noradrenalina e de
comportamento sexual, testes de serotonina [8] e consequentemente ocorre
fertilidade, avaliação da performance elevação do metabolismo, aumento de
reprodutiva e dos produtos da gestação, gasto energético [9] e diminuição da
dentre outras. O estudo da Toxicologia do ansiedade e aumento da saciedade [10].
Desenvolvimento será abordado no item 4 Estudo utilizando 15 mg/dia de
deste capítulo. sibutramina em pacientes obesos verificou
perda significativa de peso corpóreo, além
2 - Drogas anorexígenas de reduções significativas no IMC (índice de
massa corporal) e na circunferência da
Nosso Laboratório trabalha com o
cintura [11]. Outro estudo, realizado por
estudo da obesidade, drogas anorexígenas
Chapelot [10] observou os efeitos objetivos
e outras drogas que possam influenciar no
(ingestão de alimentos) e subjetivos
desenvolvimento causando malformações
(sensações de fome) da sibutramina,
congênitas.
confirmando a redução no consumo
93
calórico. refrigerante e água. Os outros 10% são
Existem poucos relatos do uso de utilizados em produtos diversos como
sibutramina durante a gravidez e a maioria adesivos, solventes, lubrificantes, loções
dos estudos refere-se ao primeiro trimestre corporais, esmaltes, perfumes e produtos
de gestação [12,13]. farmacêuticos.
Considerando-se a carência de Vários trabalhos têm demonstrado
informações na literatura sobre os efeitos que os ftalatos podem afetar negativamente
reprodutivos e teratológicos da a função reprodutiva de animais de
sibutramina, assim como a discrepância laboratório [16,17]. Alguns estudos
entre alguns resultados, atualmente esta sugerem uma associação entre exposição
sendo realizado no nosso Laboratório o humana a ftalatos e alterações nos
estudo intitulado “Performance reprodutiva parâmetros reprodutivos [18]. Avaliando-
em ratas tratadas com sibutramina”. se o sexo e a idade mais propensos a
exposição ao ftalato, descobriu-se que
3 - Desreguladores endócrinos mulheres em idade reprodutiva podem
chegar a uma exposição até 20 vezes maior
Desde o início dos anos 90, grande
que a população de um modo geral, acima
atenção tem sido dada aos agentes
dos níveis seguros estabelecidos [19].
químicos que apresentam potencial para
Os ésteres de ftalato possuem a
alterar o sistema endócrino de animais,
capacidade de atravessar a placenta e
incluindo o homem. O campo de estudo
passar também pelo leite materno,
destes compostos, chamados de
tornando- se, assim, um risco significante
desreguladores endócrinos, tem crescido
para exposição de fetos em
rapidamente e engloba diversas áreas,
desenvolvimento e recém-nascidos. Além
como imunologia, toxicologia, fisiologia da
disso, os ésteres de ftalato são
reprodução, comportamento e ecologia
plastificantes suspeitos de apresentar uma
[14]. Estes compostos desreguladores
atividade hormonal desregulatória,
endócrinos pertencem a diferentes
podendo atuar como agentes anti-
categorias e origens, incluindo praguicidas,
androgênicos e estrogênicos.
químicos industriais, farmacêuticos e
Considerando-se a importância
fitoquímicos [15].
destes compostos devido a sua ampla
utilização e contínua exposição humana, foi
3.1 – Ftalatos
desenvolvido no Laboratório ReproTox o
trabalho “Função reprodutiva de ratas
Uma classe de produtos químicos que
expostas ao ftalato in utero e lactação” que
vem chamando a atenção por ser
visou avaliar os possíveis efeitos da
amplamente encontrada como substância
exposição aos ftalatos sobre o sistema
contaminante no meio ambiente são os
reprodutor feminino, em ratas cujas mães
ésteres de ftalato. Aproximadamente 90%
foram expostas a este composto durante o
da produção global de ftalatos é destinada
período gestacional e lactacional. O artigo
para uso em plástico PVC (cloreto de
completo encontra-se em apreciação por
polivinila) para fabricação de diversos
revista internacional.
materiais, como materiais médico-
hospitalares e embalagens plásticas
3.2 - Propionato de testosterona
maleáveis de uso comercial como
mamadeiras, brinquedos e garrafas de
94
Existem vários indícios de que os ratas expostas a propionato de
distúrbios reprodutivos femininos vêm testosterona in utero e durante a lactação”,
aumentando nos últimos anos. Este fato é para tentar esclarecer os efeitos do
atribuído a mudanças culturais (como uso tratamento com agentes androgênicos
de anticoncepcionais), mas a exposição a durante a fase de desenvolvimento do
substâncias presentes no ambiente sistema reprodutor feminino.
também podem contribuir para efeitos
negativos no desenvolvimento e função do 4 - Toxicologia do desen-
trato reprodutivo feminino, especialmente volvimento
se esta exposição ocorrer em períodos
Até 1940, acreditava-se que, no homem
críticos de desenvolvimento (como período
e em outros mamíferos, o embrião e o feto
intra-uterino e pós-natal). Seres humanos
eram tão eficientemente protegidos pelo
são expostos a uma variedade de químicos
organismo materno de influências externas
ambientais durante o período intra-uterino,
adversas que, nesses casos, as
nas concentrações similares àquelas que
malformações só poderiam ser atribuídas a
apresentam aumento na incidência de
fatores genéticos. Esta crença começou a
disfunções em animais de laboratório.
ser abalada pelas observações de Gregg em
O sistema reprodutor feminino pode
1941. Este autor relacionou a ocorrência de
ser alvo de andrógenos, tanto como
aumento na freqüência de aparecimento de
resultado da exposição a químicos
defeitos congênitos (alterações cardíacas,
ambientais, quanto por condições
oculares, auditivas e retardo mental)
patológicas (como síndrome do ovário
associada à infecções maternas causada
policístico ou hiperplasia congênita da
por uma epidemia do vírus da rubéola. A
adrenal). Embora pesquisas iniciais tenham
idéia de que as malformações humanas se
demonstrado estrógenos e anti-
deviam essencialmente a causas genéticas
androgênicos ambientais, compostos com
só foi descartada quando a ingestão de
atividade androgênica têm sido
talidomida durante a gravidez foi associada
encontrados como contaminantes de rios e
ao aparecimento de defeitos congênitos. A
em animais destinados a alimentação
talidomida constituiu um marco da história
humana nos Estados Unidos e Europa [20,
da Teratologia porque mostrou, de forma
21]. Embora houvesse suspeitas desde
dramática, que o embrião humano poderia
1970, a presença de andrógenos de origem
ser afetado adversamente pela exposição
antropogênica no ambiente só foi
materna a substâncias químicas [23]. Outro
confirmada nos últimos anos [22].
evento marcante na Teratologia foi o
Os estudos dos efeitos de andrógenos
aparecimento de câncer de vagina e
são importantes para o entendimento da
malformações do aparelho reprodutor em
fisiologia normal, pato-fisiologia e
descendentes de mulheres que utilizaram
desenvolvimento do sistema reprodutor
dietilestilbestrol durante a gestação [24].
feminino. Usualmente, pouca atenção é
A constatação de que agentes químicos
desprendida em relação ao estudo de
podem interferir com o desenvolvimento
efeitos androgênicos no eixo reprodutivo
embrionário levou à realização de testes em
feminino. Assim sendo, encontra-se em
animais de Laboratório e de estudos
desenvolvimento, no Laboratório
epidemiológicos. Esses estudos têm como
ReproTox, o trabalho intitulado “Estrutura
finalidade identificar substâncias
do trato genital e função reprodutiva de
95
embriotóxicas que a população esteja ou de fetos vivos) / nº implantações] x 100
venha a estar exposta [1]. Dentre os (Damasceno et al., 2008). Na ausência de
protocolos utilizados está a investigação pontos de implantações visíveis no útero, o
das anomalias congênitas, estudada pela órgão é imerso em solução de Salewski para
Teratologia. coloração e confirmação destes eventuais
Teratologia (do grego “terato”, que pontos [26].
significa “monstro”), é um ramo da ciência Os fetos e suas respectivas placentas são
que estuda o desenvolvimento pré-natal imediatamente retirados, pesados e
anormal em todos os seus aspectos, analisados quanto às anomalias externas
incluindo as causas e os mecanismos pelos (observação minuciosa dos olhos, boca,
quais são produzidas as anomalias implantação de orelhas, conformação
congênitas. A Toxicologia do craniana, membros anteriores e
Desenvolvimento é o ramo da Toxicologia posteriores, cauda e perfuração anal) [27].
que estuda a cinética e os efeitos de agentes Após o exame externo, metade dos recém-
químicos que interferem com o nascidos de cada ninhada é processada
desenvolvimento pré e pós-natal, assim para análise de anomalias viscerais,
como os mecanismos subjacentes. A utilizando-se o método de secção seriada
toxicidade para o desenvolvimento de Wilson [27]. A outra metade dos recém-
manifesta-se como malformação nascidos é processada para análise das
estrutural, retardo do crescimento, prejuízo anomalias esqueléticas segundo técnica de
funcional e a morte do organismo. Staples e Schnell [28]. Os pontos de
Comparada à Teratologia, a Toxicologia do ossificação (esternébrios, falanges
Desenvolvimento é considerada uma anteriores e posteriores, metacarpos,
ciência relativamente nova [25]. metatarsos e vértebras caudais) são
Para o estudo das anomalias congênitas observados e contados para avaliação do
em nosso Laboratório são utilizadas ratas. desenvolvimento fetal, conforme método
Para o acasalamento, essas ratas são proposto por Aliverti et al. [29].
colocadas na presença de um rato macho Diversos estudos podem ser realizados
durante o período noturno. Na manhã utilizando as técnicas acima descritas,
subseqüente, são feitos os esfregaços dentre elas a utilização de substâncias
vaginais para confirmação da prenhez. químicas (plantas - tanto as de uso
Antes do nascimento, as ratas são medicinal, quanto as de uso abortivo -
anestesiadas submetidas à laparotomia, metais pesados, agrotóxicos, drogas de
com exposição dos cornos uterinos para abuso, medicamentos, etc.), fatores físicos
observação e contagem dos pontos de (radiação, temperatura, exercício físico,
implantações, nódulos de reabsorção e do etc.) e fatores biológicos (por exemplo,
número de fetos vivos e mortos. Os ovários doenças infecciosas e doenças
são retirados e observados com auxílio de metabólicas).
lupa para a contagem dos corpos lúteos Umas das linhas de pesquisa de nosso
[25]. grupo é o estudo dos efeitos de plantas na
A taxa de perdas pré-implantação é gestação. Uma das plantas utilizadas foi o
calculada pela fórmula [(nº corpos lúteos nº óleo essencial de Citrus aurantium L.,
implantações) / nº corpos lúteos] x 100. A conhecida popularmente como laranja-
porcentagem de perdas pós-implantação é amarga, usada para diversos tratamentos
calculada pela fórmula [(nº implantações nº como, por exemplo, redutor de peso.
96
Portanto, o trabalho objetivou verificar o CAPES e Fundunesp) aos projetos
efeito desta planta na prenhez de ratas. Foi realizados no Laboratório ReproTox, aos
verificado que o óleo essencial da planta membros atuais e anteriores da equipe do
não promoveu efeitos maternos tóxicos, Laboratório, além dos pesquisadores
não alterando, portanto, o desempenho colaboradores no Brasil e exterior.
reprodutivo e a incidência de anomalias
fetais [30]. 7 - Referências bibliográficas
Outra planta utilizada foi a Bauhinia [1] KEMPINAS, W.G. Test methods in reproductive and
developmental toxicology. In: SILVA A.A.M.R. (Ed). BR
forficata (Pata-de-vaca), utilizada Monographs of reproduction & catalogs group. São
popularmente para o tratamento do Paulo: Art & Ciência, 2001. p.135-147.
[2] DESPRÉS, J.P.; LEMIEUX, I.; PRUD'HOMME, D.
diabete. Foi constatado que o tratamento Treatment of obesity: need to focus on high risk
abdominally obese patient. BMJ, v.322, p.716720,
com a planta não alterou nenhum 2001.
parâmetro materno e fetal em ratas [3] TAN, H.M.; GUNDLACH, A.L.; MORRIS, J.M.
Exaggerated feeding response to central galanin-like
normais. Nos animais diabéticos, houve peptide administration in diet-induced obese rats.
Neuropeptides, v.39, p.333-336, 2005.
uma menor incidência de anomalias fetais, [4] BUENO, A.A. et al. Lipid metabolism of monosodium
devido ao efeito da planta em diminuir o glutamate obese rats after partial removal of adipose
tissue. Physiological Res., v.54, p.57-65, 2005.
estresse oxidativo [31]. [5] NOGUEIRAS, R. Novel expression of resistin in rat
testis: functional role and regulation by nutritional
Um outro aspecto da utilização de status and hormonal factors. J. Cell. Sci., v.117,
plantas é seu uso como abortivo. Plantas p.3247-3257, 2004.
[6] NAKAGAWA, T. et al. Effects of chronic
utilizadas dessa maneira podem não causar administration of sibutramine on body weight, food
intake and motor activity in neonatally monosodium
o aborto, mas induzir ao aparecimento de glutamate-treated obese female rats: relationship of
anomalias. Atualmente está sendo testada a antiobesity effect with monoamines. Exp. Anim., v.49,
n.4, p.239-249, 2000.
planta Himatanthus sucuuba, [7] CATERSON, I.D. What should we do about
overweight and obesity? Med. J. Aust., v.171,
popularmente usada como abortiva. 599–600, 1999.
[8] HANSEN, D.L. The effect of sibutramine on energy
expenditure and appetite during chronic treatment
5 - Considerações finais without dietary restriction. Int. J. Obes. Relat. Metab.
Disord., v.23, n.10, p.1016-1024, 1999.
[9] WALSH, K.M.; LEEN, E.; LEAN, M.E. The effect of
Com o advento de técnicas modernas, a sibutramine on resting energy expenditure and
adrenaline-induced thermogenesis in obese females.
Toxicologia da Reprodução é uma ciência Int. J. Obes. Relat. Metab. Disord., v.23, n.10, p.1009-
que vai se desenvolver expressivamente 1015, 1999.
[10] CHAPELOT, D. et al. Modalities of the food intake-
nos próximos anos, além do que novas reducing effect of sibutramine in humans. Physiol.
Behav., v.68, n.3, p.299-308, 2000.
substâncias químicas continuam a ser [11] CUELLAR, G.E. et al. Six-month treatment of
desenvolvidas e colocadas no mercado e em obesity with sibutramine 15 mg; a double-blind,
placebo-controlled monocenter clinical trial in a
contato com os seres vivos e o meio Hispanic population. Obes. Res., v.8, n.1, p.71-82,
2000.
ambiente. As perspectivas futuras do [12] DE SANTIS, M. et al. A. Early first-trimester
Laboratório são continuar investigando os sibutramine exposure: pregnancy outcome and
neonatal follow-up. Drug. Saf., v.29, n.3, p.255-259,
aspectos normais e anormais da 2006.
[13] ZREIK, T.G. et al. Sibutramine in pregnancy. Eur. J.
reprodução e do desenvolvimento, Obstet. Gynecol. Reprod. Biol., v.122, p.243–251,
aprimorar as metodologias já utilizadas e 2005.
[14] HOTCHKISS, A.K.; OSTBY, J.S.; VANDENBERGH,
investir na implementação de novas J.G.; GRAY, JR. Androgens and environmental
antiandrogens affect reproductive development and
técnicas in vitro e de biologia molecular. play behavior in the Sprague-Dawley rat. Environ.
Health Perspect., v. 110, n.3, p.435-439, 2002.
[15] GRAY, L.E. JR.; OSTBY, J.; FURR, J.; WOLF, C.J.;
6 - Agradecimentos LAMBRIGTH, C.; PARKS, L., et al. Effects of
environmental antiandrogens on reproductive
development in experimental animals. Hum. Reprod.
Os autores agradecem o apoio financeiro Update, v.7, p.248-264, 2001.
[16] HEINDEL, J.J.; GULATI, D.K.; MOUNCE, R.C.;
das agências de fomento (FAPESP, CNPq, RUSSELL, S.R.; LAMB, J.C. 4TH. Reproductive toxicity of
97
three phthalic acid esters in a continuous breeding
protocol. Fundam. Appl. Toxicol., v.12, p.508-518,
1989.
[17] DAVIS B.J.; MARONPOT, R.R.; HEINDEL, J.J. Di-(-2-
ethylhexyl) phthalate suppresses estradiol and
ovulation in cycling rats. Toxicol. Appl. Pharmacol.,
v.128, p. 216-223, 1994.
[18] TABACOVA, S.; LITTLE, R.; BALABAEVA, L. Maternal
exposure to phthalates and complications of
pregnancy. Epidemiology, v.10, n.S127, 1999.
[19] BLOUNT, B.C.; SILVA, M.J.; CAUDILL, S.P.;
NEEDHAM, L.L.; PIRKLE, J.L.; SAMPSON, E.J.; LUCIER,
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urinary phthalate metabolites in a human reference
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[20] PARKS, L.G.; LAMBRIGTH, C.S.; ORLANDO, E.F.;
GUILLETTE, L.J.,JR; ANKLEY, G.T.; GRAY, L.E., JR.
Masculinization of female mosquitofish in Kraft mill
effluent-contamined Fenholloway River water is
associated with androgen receptor agonist activity.
Toxicol. Sci., v.62, p.257-267, 2001.
[21] ORLANDO, E.F.; KOLOK, A.S.; BINZCIK, G.A.;
GATES, J.L.; HORTON, M.K.; LAMBRIGTH, C.S.; GRAY,
L.E.,JR; SOTO, A.M.; GUILLETTE, L.J., JR. Endocrine-
disrupting effects of cattle feedlot effluent on an
aquatic sentinel sensitive species, the fathead minnow.
Environ. Health Perspect.,v.112, p.353-358, 2004.
[22] GRAY, L.E.,JR.; WILSON, V.S.; STOKER, T.;
LAMBRIGHT, C.; FURR, J.; NORIEGA, N.; HOWDESHELL,
K.; ANKLEY, G.T.; GUILLETTE, L. Adverse effects of
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female reproductive system. In: NAZ, R.K. (Ed).
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reproductive system. New York: CRC Press, 1999.
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[25] DAMASCENO, D.C.; KEMPINAS, W.G.; VOLPATO,
G.T.; CONSONI M.; RUDGE, M.V.C.; PAUMGARTTEN,
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Experimentais. 1.ed. Coopmed: Belo Horizonte, 2008.
99p.
[26] SALEWSKI, E. Farbemethode zum
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[27] WILSON, J.G. Methods for administering agents
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fetal bone. Stain Technol., v.39, p.61-63, 1964.
[29] ALIVERTI et al. The extent of fetal ossification as an
index of delayed development in teratogenic studies
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[30] ASSUMPÇÃO, T.A. Effects of Citrus aurantium
essential oil on reproductive outcome of pregnant rats.
Anim. Reprod., v.3, n.2, p.330, 2006.
[31] VOLPATO, G.T. Effect of Bauhinia forficata
aqueous extract on the maternal-fetal outcome and
oxidative stress biomarkers of streptozotocin-induced
diabetic rats. J. Ethnopharmacol. v.116, p.131-137.
2008.
98
CAPÍTULO 11
POTENCIAL FARMACOLÓGICO DE PLANTAS - SISTEMA
NERVOSO CENTRAL, TRATO GASTRINTESTINAL,
ANALGESIA E INFLAMAÇÃO

Carlos Alberto da Silva Ribeiro


Departamento de Farmacologia - Instituto de Biociências de Botucatu - UNESP – Botucatu – SP
carlaorib@hotmail.com

Filipe Galvão Ferreira


Departamento de Farmacologia - Instituto de Biociências de Botucatu - UNESP – Botucatu – SP
filipe.galvao@gmail.com

Raquel de Cássia dos Santos


Departamento de Fisiologia - Instituto de Biociências de Botucatu - UNESP – Botucatu – SP
rsantos@ibb.unesp.br

Resumo: Encontrar atividades farmacológicas a partir de plantas tem sido foco de muitas pesquisas
nos últimos anos. Inúmeras são as indicações populares de plantas para uso em distúrbios do sistema
nervoso central ou do trato gastrintestinal e a pesquisa cientifica tem dedicado esforços para
comprovar essas indicações. Este capítulo enumera algumas possibilidades de ensaios farmacológicos
para se validar o potencial de plantas de uso medicinal, como são obtidas essas preparações e como
pode ser feita a escolha do material a ser estudado.

1 Introdução: procura por novos compostos ativos.


substâncias naturais
1.1 Escolha da espécie
Plantas e seus derivados são grandes
fontes de novas drogas, movimentando A escolha da espécie a ser utilizada pode
cerca de 30% do mercado farmacêutico [1]. ser feita pelos métodos etnofarmacológico,
Entre os anos de 1981 e 2005, por volta de quimiotaxonômico ou randômico: a escolha
49% das 877 novas moléculas introduzidas etnofarmacológica consiste em eleger uma
no mercado eram substâncias isoladas de planta com base em dados obtidos de sua
produtos naturais, semi-sintéticos, utilização popular; já o método
derivados de produtos naturais ou quimiotaxonômico é feito com base em
moléculas sintetizadas, tomando como dados químicos e taxonômicos de espécies
modelo estruturas de origem natural [2]. que já tenham efeitos conhecidos; e no
Em um levantamento [3] foi mostrado método randômico, como o próprio nome
que de 122 compostos com estrutura diz, a planta é obtida ao acaso. Dentre esses
química definida, obtidos de 94 espécies de métodos, o mais conhecido e o mais
plantas, 80% possuem uso idêntico ao provável de encontrar atividade biológica é
relatado pelo uso popular para as espécies baseado no conhecimento da medicina
de onde foram isolados. Além disso, a popular [5].
possibilidade de se encontrar novas
moléculas a partir de produtos naturais é 1.2 Obtenção do extrato
imensurável [4], o que permite esse tipo de
pesquisa potencializar a descoberta de Após a escolha ter sido feita, é realizada
uma coleta em campo com auxílio de um
99
especialista (mateiro). A extração desse
Tabela 1. Solventes cromatográficos em ordem
material é realizada a partir de qualquer
crescente de polaridade.
parte da planta que seja potencialmente
Éter de petróleo
ativa (raiz, caule, folhas, flores etc.). A parte
Ciclohexano
aérea é a mais comumente utilizada. Uma
Tetracloreto de carbono
vez que a coleta é feita, o material é
devidamente seco numa estufa e triturado Benzeno

em moinho de faca. Cloreto de metileno

Nesse estágio, o triturado seco é Clorofórmio

colocado em recipientes contendo solvente Éter etílico


hidroalcoólico. Na possibilidade dessa Acetato de etila
primeira preparação apresentar efeito
Piridina
biológico, o metanol é o solvente mais
Acetona
adequado para obtenção do extrato bruto,
Álcool n-propílico
uma vez que é o solvente que mais aproxima
Etanol
de chás utilizados popularmente. Então é
Água
deixado em descanso por sete dias. A
solução é filtrada a vácuo e, a seguir, é Ácido acético

concentrado pelo processo de evaporação


em rotaevaporador a 45 C. Após esse
2 Utilização em ensaios
procedimento, esse material pode ser
neurocomportamentais
particionado com diversos tipos de
solventes, obedecendo uma ordem de
polaridade (Tabela 1), para obter uma 2.1 VISÃO GERAL
separação semipurificada das substâncias.
Há muito tempo são conhecidas as
Após esse procedimento, os extratos
substâncias químicas que exercem seus
semipuros são submetidos à analise
efeitos no sistema nervoso central e que de
cromatográfica para que se possa purificar e
alguma forma influenciam a vivência e
isolar os compostos ativos [7].
o psiquismo, ou seja, promovem
1.3 Obtenção do óleo essencial modificações comportamentais, no hu-
mor ou nos aspectos emocionais. A
Uma vez escolhida a planta, o material é psicofarmacologia é a parte da
coletado e triturado. Então, o óleo essencial farmacologia voltada para o estudo do
é extraído através de um hidrodestilador, no efeito de fármacos que atuam no sistema
qual o triturado é colocado em um balão nervoso central, gerando alterações das
volumétrico e submetido a um aquecimento funções mentais [8].
de uma manta térmica. O vapor resultante é A farmacologia comportamental surgiu
resfriado em uma serpentina até que durante a década de 50 da necessidade de
condense em um compartimento onde o estudar fármacos com efeitos
óleo pode ser separado facilmente da água. comportamentais específicos que
O óleo pode ser submetido à análise pudessem tratar com sucesso certos
cromatográfica para identificação e distúrbios psiquiátricos. Atualmente, as
purificação dos compostos. áreas de investigações comportamentais
mais intensas incluem a dos transtornos
100
psiquiátricos, como. por exemplo, transtornos mentais [13]. Atualmente os
esquizofrenia, depressão, ansiedade, modelos animais tem sido considerados a
epilepsia; e doenças com manifestações espinha dorsal da pesquisa de novos
neurológicas (mal de Parkinson e fármacos [14] contribuindo de forma
Alzheimer) [9]. decisiva no desenvolvimento dos
Dentre os tratamentos tratamentos atuais da depressão e
medicamentosos para distúrbios mentais esquizofrenia [15]. A importância da
disponíveis no mercado, encontramos pesquisa pré-clínica pode ser constatada
algumas classes com alta eficácia no grande paralelismo existente entre o
terapêutica e baixo risco de intoxicação, aumento deste tipo de abordagem e os
entretanto, podem levar ao uso abusivo, avanços no conhecimento. Mais de 70% dos
desenvolvimento de tolerância, síndrome principais avanços biomédicos estão
de abstinência e de dependência pelos relacionados à experimentação com
usuários crônicos, o que reduz sua animais (tabela 2) [16].
segurança de uso, em especial na vigência
Tabela 2. Modelos animais mais utilizados em
de fatores de risco. Além disso, podem
neurociências.
apresentar interações importantes com
Modelos Animais
outros fármacos que atuam no sistema
Atividade ansiolítica -Labirinto em cruz elevado*
nervoso central, e a grande incidência de
-Caixa claro-escuro*
efeitos colaterais. Com isso, faz-se -Placa perfurada*
necessário a continuidade da pesquisa pré- -Teste de esconder esferas

clínica e clínica neste campo [10]. (TOC)**

A validação de plantas medicinais Atividade -Teste do nado forçado de


constitui uma estratégia alternativa na antidepressiva Porsolt
-Teste de suspensão da calda
procura de novas substâncias com
potencial terapêutico. Preparações de Atividade -Convulsão induzida por PTZ#
cascas, flores e folhas de diversas plantas anticonvulsivante -Eletrochoque máximo

vem sendo utilizadas popularmente para


Atividade sedativa -Sono induzido por éter etílico
minimizar desordens do sistema nervoso
central. Atividade geral -Barra giratória
Numerosas plantas medicinais são -Campo aberto

reconhecidas como ativas sobre o sistema


* TAG – Transtorno de ansiedade generalizada
nervoso central, e possuem potencial para ** TOC – Transtorno obsessivo compulsivo
interferir em processos crônicos como a #
PTZ – Pentilenotetrazol
ansiedade ou depressão, que não
respondem bem aos tratamentos 2.2 Ensaios farmacológicos em
modelos animais
convencionais [11;12].
A pesquisa pré-clínica, ou seja, com
2.2.1 Atividade ansiolítica
animais, vem sendo utilizada
principalmente com objetivo de: iniciar a 2.2.1.1 Labirinto em cruz elevado
avaliação da segurança, tolerabilidade e ( L C E )
possível eficácia de novos fármacos; O modelo do LCE é adequado para
estudar o mecanismo de ação de mensuração de ansiedade de roedores e
psicofármacos; e auxiliar na elucidação dos usado extensivamente na descoberta de
mecanismos neurobiológicos dos novos agentes ansiolíticos [17;18]. O
101
procedimento é baseado na proposta de ansiolíticos como também reduz a
Pellow [19] para ratos e validado por Lister probabilidade de resultados falso positivos
[20] para camundongos. ou negativos [24;25]. Estas categorias são
O aparato do LCE consiste numa denominadas comportamentos etológicos
plataforma com dois braços abertos os quais incluem:
perpendiculares a dois braços fechados. Os - Rearing (empinada): comportamento
braços abertos e fechados medem 30 cm de exploratório no qual os camundongos
comprimento por 5 cm de largura, e as apóiam-se nos membros posteriores, com
paredes dos braços fechados têm 25 cm de o tronco perpendicular ao piso, adquirindo
altura. A altura do labirinto em relação ao posição vertical, mantendo as patas
solo é de 45 cm. anteriores movimentando-se no ar ou
Os braços abertos são considerados encostadas contra a parede do braço
aversivos a roedores devido à altura e [21;25].
ausência de proteção lateral. Segundo - Head dipping (mergulho de cabeça):
Espejo [21] a entrada no braço aberto, não também caracterizado como
protegido, é os melhores parâmetros comportamento exploratório, no qual o
utilizados para medir ansiedade em animal examina a lateral do labirinto (braço
camundongos expostos a este modelo, que aberto) em direção ao chão, sugerindo
parece refletir o transtorno da ansiedade movimento vertical [26;24]. Este
generalizada [22]. comportamento pode ser executado a
O protocolo experimental consiste em partir de um local protegido (braço fechado
colocar o animal no centro do labirinto, com ou plataforma central) sendo denominado
a cabeça voltada para um dos braços head dipping protegido ou a partir de um
fechados sendo-lhe permitido explorar local não protegido (braço aberto),
livremente o aparelho por 5 minutos. denominado head dipping não protegido
Posteriormente, o aparelho é limpo com [21]. O head dipping caracteriza-se como
pano embebido em álcool 10% para um comportamento de avaliação de risco
assepsia do local e colocação do próximo (risk assessment). Alguns resultados
animal. São registrados os parâmetros mostram que BZD e agonistas 5-HT1A
tradicionais desse modelo: número de reduzem o padrão da avaliação de risco em
entradas, bem como o tempo de camundongos e ratos expostos ao teste.
permanência nos braços abertos e nos Esta redução é interpretada como um efeito
braços fechados. Estes índices mostram ansiolitico [24].
grande sensibilidade para drogas
2.2.1.2 Caixa claro-escuro (CCE) [27]
ansiolíticas e ansiogênicas que agem no
A CCE constitui-se numa arena
complexo receptor GABAA/BZD [23], porém,
construída de acrílico com dimensões
drogas serotonérgicas tem apresentado
exteriores de 46 x 27 x 30 cm
resultados contraditórios e até mesmo
(comprimento x largura x altura) dividida
ausência de resultado [24].
em dois compartimentos: um com paredes
Em adição as medidas tradicionais,
pretas com 1/3 da maior extensão e outro
outras categorias comportamentais têm
com paredes brancas com 2/3 da maior
sido mais recentemente investigadas no
extensão. A divisória possui uma abertura
labirinto em cruz e a incorporação destas
de 7,5 x 7,5 cm, ao nível do chão, que
categorias não somente aumenta a
possibilita o trânsito entre os
sensibilidade do modelo para novos
compartimentos. O compartimento claro é
102
iluminado diretamente por uma lâmpada 2.2.1.4 Teste de esconder esferas [29]
fluorescente de 20W, enquanto a parte O teste consiste em colocar cada
escura é dotada de uma tampa preta com 16 camundongo individualmente em contato
x 28 cm, que impede a entrada de luz. com 25 esferas de vidro espalhadas sobre
Cada animal é colocado individualmente uma camada de 5 cm de maravalha em uma
no centro da parte clara, de frente para a caixa medindo 27 x 16 x 13cm, onde
abertura, e permanece no aparato por 5 permanecem durante 30 minutos. Os
minutos após sua primeira entrada no roedores exibem o comportamento
compartimento escuro. A CCE é limpa com defensivo de esconder as esferas (objeto
pano embebido em álcool 10% para assepsia desconhecido e potencialmente ameaçador)
do local e colocação do próximo animal. sob a camada de maravalha. A intensidade
Durante a permanência do animal no deste comportamento apresenta grande
aparato são registrados: o número de variação individual, motivo pelo qual os
transições entre os dois compartimentos; o animais são pré-selecionados. São
tempo gasto no compartimento claro e o utilizados no procedimento experimental
número de empinadas (rearings) realizados aqueles que em três sessões consecutivas
no compartimento claro. Fármacos ativos como descrito anteriormente esconderem
contra o transtorno de ansiedade pelo menos 13 das 25 esferas.
generalizada são capazes de aumentar o Diferentemente dos comportamentos
tempo de permanência e o comportamento apresentados na CCE, a quantidade de
de exploração no compartimento claro, esferas escondidas tende a permanecer
assim como o número de transições entre os constante para cada animal, independente
compartimentos. do número de exposições ao procedimento.
Além disso, camundongos expostos às
2.2.1.3 Placa Perfurada esferas de vidro exibem intensa atividade de
O equipamento é constituído de uma esconder, mesmo na ausência delas. Estas
placa de acrílico medindo 40 x 40 cm, características, aliadas ao fato de que
revestida em preto, com 16 buracos de 3 cm fármacos ativos no tratamento do
de diâmetro igualmente espaçados. O transtorno obsessivo compulsivo reduzem
aparelho possui apoios que o mantém 25 o comportamento de esconder esferas
cm acima do chão. A avaliação da tornam o modelo adequado para avaliar
ambulação exploratória associada à este tipo de transtorno [30].
mensuração de comportamentos como o
mergulho de cabeça até a altura dos olhos 2.2.2 Atividade antidepressiva
em qualquer buraco da placa, empinada e o
comportamento de auto-limpeza 2.2.2.1 Teste do nado forçado [31]
O procedimento experimental consiste
(grooming) [28]. O procedimento
em colocar os animais, individualmente, em
experimental consiste em colocar cada
cilindros plásticos (altura = 35 cm; diâmetro
camundongo individualmente no centro da
= 24 cm), contendo 13,5 cm de água, por
placa perfurada, por um período de 5
um período de 5 minutos, no qual é
minutos, onde são registrados a latência
registrado o tempo total de imobilidade
para o primeiro mergulho em algum buraco
para cada animal, além da latência para
e o número total de mergulhos.
apresentação de tal comportamento. Os
antidepressivos, em geral, aumentam a
latência para a imobilidade e reduzem o
103
tempo de imobilidade apresentado pelos submetidos ao eletrochoque transcorneal
animais. máximo (60Hz, 50mA, 0,2s). Neste
procedimento são registrados o tempo de
2.2.2.2 Teste da suspensão pela cauda
flexão, o tempo de extensão e o de
[32]
Camundongos machos adultos são pré- recuperação das convulsões induzidas,
tratados (1h) com os diferentes compostos. além da incidência de convulsões e da sua
O procedimento experimental consiste em letalidade.
suspender os animais pela cauda, por um Fármacos que impedem o aparecimento
período de 6 minutos, no qual é registrado o das convulsões ou bloqueiam o
tempo total de imobilidade para cada componente extensor dessas convulsões
animal, além da latência para apresentação correlacionam-se, em geral, com aqueles
de tal comportamento, a partir do segundo empregados na clínica em epilepsias do tipo
minuto. tônico-clônica generalizadas [33].

2.2.3 Atividade anticonvulsivante 2.2.4 Atividade sedativa

2.2.3.1 Convulsões induzidas por PTZ 2.2.4.1 Sono induzido por éter etílico
Após uma hora do tratamento com as Camundongos pré-tratados (30 min)
diferentes preparações, os camundongos com a substância em estudo ou o veículo
recebem PTZ 80mg/kg, s.c. e são colocados são colocados em uma câmara saturada
em gaiolas para observação. São (30cmx20cm de diâmetro), de vidro
observados e registrados o tempo para transparente hermeticamente fechada. A
manifestação da primeira convulsão, assim câmara é saturada com uma bola de algodão
como a duração da mesma. A incidência e a (6g) embebido com 5 mL de éter etílico
grau da convulsão são observados até 30 colocada em um recipiente a 20 cm do chão
minutos após a administração do PTZ. Para dentro da câmara, 10 minutos antes da
isso, utiliza-se a seguinte escala: realização do teste. Após a saturação, os
0 – sem convulsão; animais são colocados na câmara
1 – abalos mioclônicos; individualmente, onde são registrados a
2 – crises clônicas sem perda do reflexo; latência e a duração do sono induzido pelo
3 - crises clônicas com perda do reflexo; éter etílico. O sono é caracterizado pela
4 – extensão tônica das patas pos- perda do reflexo postural do animal, o qual
teriores; permanece por mais 1 minuto na câmara
5 – extensão tônica com morte. após a perda desse reflexo. Após esse
Fármacos que impedem essas período, o animal é retirado da câmara e
convulsões ou aumentam a colocado em decúbito dorsal para o registro
latência/diminuem a duração ou a da duração do sono, cujo término é
letalidade das mesmas correlacionam-se caracterizado pela recuperação da postura
positivamente com fármacos empregados normal [34].
no tratamento da epilepsia do tipo crise de
2.2.5 Atividade geral
ausência em humanos [33].
2.2.5.1 Teste da Barra Giratória [35]
2.2.3.2 Indução por eletrochoque O procedimento da barra giratória avalia
máximo
a integridade do sistema motor. O
Uma hora após o tratamento com
procedimento consiste em colocar o animal
preparações, os camundongos são
sobre um barra que gira a uma velocidade
104
fixa (5 r.p.m.), sobre a qual o animal deve fatores dietéticos, representados pelo
permanecer durante 1 minuto, sendo consumo excessivo de café, refrigerantes e
permitidas até duas reconduções após condimentos [38], presença da bactéria
queda. A habilidade em se manter sobre a Helicobacter pylori, motilidade
barra sofre variação individual, deste modo, gastroduodenal, ácido gástrico e pepsina
os animais serão selecionados 24 horas [39].
antes do teste, e serão submetidos a ele O crescente interesse na úlcera péptica
aqueles que em condições normais, ou seja, foi sempre acompanhado por uma
sem nenhum tratamento, mostrarem-se variedade de teorias etiológicas. Mas
hábeis em manter-se em equilíbrio sobre a determinar a etiologia da úlcera péptica
barra. apresentou-se como um empreendimento
extraordinariamente difícil devido à grande
2.2.5.2 Teste do Campo Aberto [36]
heterogeneidade dessa doença.
O campo aberto consiste de uma arena
Sabe-se que a úlcera péptica é uma
circular construída em acrílico branco com
doença comum com grande incidência
50 cm de diâmetro e paredes com 40 cm de
clínica, com chance de cura maior a 95%,
altura sobre o qual se localiza uma lâmpada
mas a chance de reincidência está entre 65-
fria de 20W. O piso da arena é dividido por
80% um ano após a cura e quase 100%
três linhas concêntricas e linhas radiais em
depois de dois anos. O tratamento e cura de
19 segmentos de área semelhante. Os
recidivas ainda é um sério problema no
animais são colocados individualmente no
campo médico [40]. Ela é importante causa
centro da arena, onde permanecem durante
de morbidade e custos com saúde. As
3 minutos em movimentação livre, período
estimativas de gastos com faltas ao
durante o qual os comportamentos são
trabalho, hospitalização e cuidados com
registrados. Enquanto o número de linhas
pacientes, excluindo custos com
cruzadas com as quatro patas é um
medicamentos, somam mais de US$ 5
indicador de ambulação espontânea, o
bilhões por ano nos EUA [41].
maior tempo gasto na periferia da arena, em
O tratamento da úlcera péptica passou
relação ao seu centro, é indicado como um
por diversas experimentações, inicialmente
parâmetro de ansiedade.
com a introdução no mercado dos
3 Utilização em ensaios gas- antagonistas de receptores H2, do tipo
trintestinais cimetidina e ranitidina [42]. Porém, o uso
freqüente deste tipo de medicamento
3.1 Úlcera péptica
durante tratamento crônico aumenta
3.1.1 Visão Geral significativamente os riscos de câncer
As úlceras pépticas são lesões na gástrico.
mucosa gástrica e duodenal provocadas por Posteriormente, as drogas
um desequilíbrio entre os fatores citoprotetoras, como o misoprostol, um
protetores (secreção de muco, produção de análogo da PGE1, foram introduzidas no
bicarbonato, fluxo sangüíneo adequado) e mercado, atuando na inibição da secreção
lesivos (excesso de pepsina ou ácido ácida e estimulando os fatores de proteção
clorídrico) [37]. Este desequilíbrio pode da mucosa gástrica [43]. Porém, os efeitos
ocorrer pelo consumo de bebidas colaterais decorrentes de seu uso, como
alcoólicas, tabagismo, estresse, uso de exemplo a diarréia, e a sua utilização como
drogas antiinflamatórias não-esteroidais, abortíferos potentes resultou, pela
105
vigilância sanitária, em sua completa diversos mecanismos, que reduzem o fluxo
retirada do mercado nacional. sanguíneo gástrico, e esta isquemia
Posteriormente, a descoberta dos contribui para o desenvolvimento de
inibidores da bomba H+/K+ ATPase, como hemorragia e de necrose ao dissolverem
o omeprazol ou lanzoprazol, e das drogas constituintes do muco estomacal.
anticolinérgicas muscarínicas seletivas ao
receptor M1, como a pirenzepina, da 3.1.2.2 Indução de Lesão Gástrica por
Antiinflamatórios
mesma época, apareceram como O uso de DAINEs (drogas
alternativa para o tratamento da úlcera antiinflamatórias não-esteroidais) está
péptica nesta década. A bactéria freqüentemente associado com toxicidade
Helicobacter pylori [44] é uma das gastrointestinal. Além de ser utilizado para
principais responsáveis pelas úlceras alívio da dor, as DAINEs estão cada vez mais
pépticas, além de estar relacionada com o sendo utilizadas para prevenção de
câncer gástrico e linfomas gástricos. Na neoplasias, acidente vascular cerebral, pré-
atualidade, sabe-se, que uma grande eclâmpsia, doença de Alzheimer e muitas
parcela da sociedade sofre de distúrbios no outras doenças.
trato gastrointestinal que podem culminar No mundo todo, estima-se que 35
em sérias doenças. Nos Estados Unidos, milhões pessoas consomem DAINE
25% da população já tiveram, em algum diariamente e cerca de 30% desses usuários
momento de suas vidas, sintomas de podem desenvolver toxicidade no trato
doenças gastrointestinais. Estas doenças gastrointestinal decorrente desse uso. Um
levam ao consumo de um número elevado terço do custo do tratamento de pacientes
de medicamentos de supressão ácida para o com artrite são referentes a efeitos
tratamento de alguma forma de dispepsia secundários às DAINEs [48].
por parte desses pacientes [45]. Segundo Estudos têm demonstrado que a
dados recentes, o custo direto e indireto indometacina, uma destas DAINEs, quebre
das úlceras pépticas é de cerca de 3.4 a barreira mucosa, levando à difusão de
bilhões de dólares [46]. Contudo, o debate íons de hidrogênio e extensos danos na
sobre tratamento e patogênese continua mucosa, através de vários processos, como
em discussão, considerado que ainda não a inibição da síntese de prostaglandinas.
existe uma droga que evite sua reincidência O protocolo experimental envolvendo
e resulte numa cura total das úlceras tanto o Etanol absoluto [49] quanto à
gástricas e quem concomitantemente, exposição do antiinflamatório
apresente efeitos colaterais reduzidos. Indometacina [50], consiste na prévia
administração do fármaco padrão ou
3.1.2 Ensaios farmacológicos
droga-teste, seguida do agente lesivo.
3.1.2.1 Indução de lesão gástrica por
etanol absoluto 3.1.2.3 Avaliação de efeito cicatrizante
A administração oral de etanol causa Desde que o modelo caracterizado de
edema, necrose na mucosa, e pode romper úlcera gástrica induzida por ácido acético
a parede dos vasos sanguíneos, o que foi estabelecido há mais de 30 anos atrás
resulta nas hemorragias que são [51], o mesmo tem sido considerado como
observadas nesse modelo [47]. A formação o modelo que mais se aproxima da úlcera
de lesões na mucosa gástrica por agentes gástrica humana.
necrosantes tais como Etanol envolve Os estômagos dos animais são expostos
106
ao ácido acético e durante 14 dias, todos os fortalecimento as pontes de dissulfeto e
animais recebem fármaco padrão ou redução da formação de radicais livres
droga-teste. Após este período, os animais derivados de oxigênio, relacionando-se
são mortos e as lesões são quantificadas com a proteção celular [53]. A redução dos
macroscopicamente (paquímetro) e segue- níveis normais de SH tem impacto
se com análise microscópica a partir da significativo na mucosa, tornando-a
histologia do material. A partir da susceptível ao ataque de substâncias
realização deste modelo, outras ulcerogênicas, afetando o mecanismo
mensurações importantes, de agentes defensivo da mucosa e dessa forma,
gastroprotetores, podem ser mensurados, facilitando a formação de lesões gástricas .
tais como a presença de Superóxido O protocolo para verificação dos agentes
Dismutase, Cicloxigenase 2 , formação de citoprotetores óxido nítrico e compostos
novos vasos – angiogênese ou proliferação sulfidrilas segue o mesmo modelo [54]. Os
celular, que são indicativos dos animais são separados em grupos, que vão
mecanismos pelos quais o fármaco padrão ou não, ter esses agentes inibidos. Após a
ou droga-teste conseguem revitalizar o inibição, os animais passam por tratamento
tecido lesado. do fármaco padrão ou droga-teste e segue-
se com a administração do agente lesivo
3.1.2.4 Determinação do papel do (etanol). Os animais são mortos, e os
Óxido Nítrico (NO) na citoproteção
estômagos removidos para quantificação
Estudos indicam o envolvimento de NO
das lesões.
na preservação da mucosa em modelos
experimentais de úlcera por promover
3.1.2.6. Determinação dos níveis de
vasodilatação, redução da peroxidação prostaglandina E2
lipídica e também seu envolvimento como As prostaglandinas são produtos do
agente antiinflamatório nos tecidos. De metabolismo do ácido aracdônico, as quais
acordo com Wallace & Miller [52], o NO é são liberadas a partir dos fosfolipídios das
também um importante regulador da membranas celulares pela atividade da
secreção de muco no estômago e seus fosfolipase A2, em resposta aos estímulos
efeitos são produzidos pela estimulação da químicos, físicos e neuro-hormonais. A
guanilato ciclase nas células epiteliais. O citoproteção da mucosa do trato
NO é responsável tanto pela mediação das gastrintestinal é dependente dos níveis de
funções teciduais normais, quanto pelas prostaglandinas do tipo E, F e I, que
lesões na mucosa gástrica. O NO, portanto, estimulam a secreção de muco e
é um mediador das defesas e do reparo na bicarbonato, além de aumentar o fluxo
mucosa gastrointestinal, porém também sangüíneo, a que possibilita a remoção de
pode contribuir com as injúrias teciduais substâncias nocivas à mucosa, aumentando
em algumas doenças digestivas e alterar a também a demanda de oxigênio e
motilidade gástrica. nutrientes para os tecidos. A lesão gástrica
deste modelo [55], é induzida pelo
3.1.2.5 Determinação da participação antiinflamatório Indometacina. Os animais
do grupamento sulfidrila na citoproteção
são mortos e os estômagos passam por
Um fator que contribui para a
centrifugação e posterior teste
integridade da mucosa gástrica é a
colorimétrico para a quantificação dos
formação de compostos sulfidrilas (SH) que
níveis de prostaglandina no tecido.
tem como finalidade básica o
107
3.2 Diarréia 3.2.2.2 Motilidade intestinal
A diarréia pode ser causada por um
3.2.1 Visão Geral aumento da carga osmótica dentro do
Apesar do avanço na compreensão das intestino, excessiva secreção de eletrólitos
causas, do tratamento e da prevenção de e água no lúmen intestinal, exudação de
doenças como a diarréia, aproximadamente proteínas e fluidos pela mucosa, infecção e
4.6 milhões de pessoas, incluindo 2.5 inflamação, e alteração da motilidade
milhões de crianças morrem em decorrência intestinal, resultando em um transito
da diarréia por ano particularmente em rápido. Neste modelo experimental, os
países em desenvolvimento. É uma das mais animais recebem carvão ativado, como
prevalentes desordens humanas e marcador, para se verificar o deslocamento
compreensivelmente sua cura ocupa um do mesmo no intestino após a
lugar especial nos anais de medicina [56]. A administração do fármaco padrão ou
diarréia apresenta-se como potencial causa droga-teste [59].
de morbidade e mortalidade, especialmente
em crianças e animais jovens em países em 3.2.2.3 Acúmulo de Fluido Intestinal
desenvolvimento. Plantas medicinais são A diarréia pode ser o resultado de um
promissoras fontes de drogas transtorno na função intestinal, na qual
antidiarrêicas. A diarréia pode ser existe o prejuízo da absorção intestinal,
classificada como aguda ou crônica, sendo a secreção excessiva de água e eletrólito e
diarréia aguda a forma mais comum de transito intestinal rápido [60]. O óleo de
doença, sendo causada geralmente por rícino produz alterações na permeabilidade
agentes infecciosos, embora drogas, na membrana mucosa do intestino e perda
venenos (incluindo toxinas bacterianas) ou de eletrólitos que resultam em evacuações
reações inflamatórias possam contribuir aquosas. Isto ocorre devido ao efeito
para essa doença [57]. irritante do ácido ricinoleico derivado do
rícino e liberado por lipases pancreáticas.
3.2.2 Ensaios farmacológicos em Neste modelo, verifica-se se a droga-teste é
modelos animais capaz de reverter esse feito do óleo de

3.2.2.1 Indução de diarréia por óleo de rícino, verificando se existe acúmulo de


rícino fluido intestinal, o que resultaria numa
O óleo de rícino induz a diarréia por diminuição de água nas evacuações[61].
causar aumento da secreção de fluídos e
eletrólitos no lúmen intestinal através da 3.3 O u t r a s Atividades Far-
mucosa intestinal, resultando um acúmulo macológicas
de fluído e num conteúdo luminal aquoso
3.3.1 Inflamação e Dor
que flui rapidamente através do intestino. O
protocolo experimental [58] consiste na 2.3.1.1 Contorção Abdominal
administração do agente catártico após a A contorção abdominal induzida por
administração do fármaco padrão ou ácido acético é um modelo de dor visceral,
droga-teste. As fezes são quantificadas e onde ocorre à liberação de ácido aracnóide e
classificadas de acordo com a aparência a biogênese de prostaglandinas que tem um
(sólida, semi-sólida ou aquosa). O tempo papel importante no mecanismo
entre a administração do agente catártico e nociceptivo [62]. Estudos postularam que o
o surgimento das primeiras fezes aquosas é ácido acético atua indiretamente induzindo
quantificado. a liberação dos mediadores endógenos que
108
estimulam os neurônios nociceptivos considerado seletivo para compostos
sensíveis as DAINEs e opióides. Embora a opióides em várias espécies animais. Este
contorção abdominal induzida pelo ácido método é satisfatório para mensuração de
acético represente um modelo periférico de efeitos analgésicos opióides, mas não é
nocicepção, este não é um modelo sensível ao efeito de analgésico de agentes
específico, desde que diversos compostos antiinflamatórios não-esteroidais [65],
como analgésicos [63], entre outros, mas outras drogas com efeito central,
também inibem as contorções induzidas incluindo sedativos e relaxantes
pelo ácido acético. No entanto, o modelo é musculares, também mostraram atividade
utilizado como uma triagem inicial para a neste teste [66]. Neste modelo, os animais
droga-teste. são colocados em placa aquecida e verifica-
se o tempo entre o primeiro contato com o
3.3.1.2 Atividade Antiinflamatória – calor e indícios de dor (lambida de pata ou
Edema de pata por carragenina
remoção da mesma da placa).
A inflamação é a resposta dos tecidos
vivos a lesões, envolvendo uma complexa 3.3.1.4 Atividade Antinoci-ceptiva –
disposição de ativação enzimática, Edema de Pata por formalina
liberação de mediadores, extravasamento O modelo mais específico de dor aguda é
de fluidos, aumento da permeabilidade caracterizado pelo teste de formalina [67].
vascular, migração de granulócitos e células Este modelo possui uma resposta distinta
mononucleares, além de proliferação de (bifásica) de resposta de dor: 1) Fase inicial:
tecido granulócito. Indometacina e inicia-se logo após a administração de
diclofenaco de sódio, como a maioria de formalina e desaparece após
compostos anti-inflamatórios não- aproximadamente 5 minutos. É uma fase
esteroidais, inibem a biossíntese de indicativa de dor neurogênica (mecanismo
prostaglandinas e este efeito pode explicar central), que sofre ação principalmente de
sua atividade anti-inflamatória em edema drogas narcóticas (opióides), a dor é
de pata induzida por carragenina. Neste resultado da estimulação direta das fibras
protocolo experimental, os animais são sensoriais do tipo C amielínicas (relacionada
tratados com a droga-teste e têm uma das com a resposta de ´´licking´´) e as fibras
patas submetida à inflamação, através de Aδ perivasculares juntamente com os
injeção de carragenina (agente indutor da receptores H3 (relacionados com a resposta
inflamação). O volume que a pata com ´´flinching´´. 2) Fase tardia: inicia-se entre
edema desloca no aparelho e a diferença 15-30min após administração de formalina
desta pata com a outra (não-tratada) é que e permanece até cerca de 60min. Esta fase é
vai indicar se a droga-teste é capaz de indicativa de dor inflamatória, e sofre ação
conter o edema produzido pela carragenina de drogas periféricas (DAINEs) e narcóticas.
ou não [64]. É caracterizada pela sensibilização
periférica através de mediadores
3.3.1.3 Atividade Antinociceptiva – inflamatórios modulados pela medula
Placa Quente espinhal.
O teste da placa quente (hot plate), que
envolve a ativação térmica de nociceptores, 4 Bibliografia
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Pósfácio
Os tópicos tratados e a maneira como são desenvolvidos demonstram o foco da
Instituição em realizar pesquisa básica de alto nível, mas sempre visando sua intervenção na
solução de problemas da nossa sociedade, sejam eles o manejo sustentável do ambiente, o
teste de novas drogas, a influência de poluentes na saúde humana e animal ou ainda a
influência da programação fetal no desenvolvimento de doenças na vida adulta.
Uma preocupação que permeou esta edição do Workshop foram os efeitos da
atividade humana sobre a saúde humana e sobre o ecossistema. Este tema foi tratado nos
capítulos: Toxicologia de Praguicidas e Metais Pesados”, “Tópicos em Biologia e Toxicologia
da Reprodução” Feminina”, “Tópicos em Biologia e Toxicologia da Reprodução Masculina”,
Restauração Ecológica de Florestas Tropicais” e de forma mais indireta em “Desvendando A
Biodiversidade: Como A Biologia Molecular Pode Contribuir? “ e em “Programação Fetal:
Conseqüências Na Vida Adulta”.
A preocupação com a relação entre o desenvolvimento econômico e suas implicações
sobre o meio ambiente e a saúde humano são tópicos em voga nestes dias em que existe
uma visão compartilhada universalmente que o nosso modelo econômico é insustentável.
Por outro lado surgiu na sociedade brasileira um fenômeno novo, a consciência que o Brasil
deve desempenhar um papel de protagonismo, não apenas político e econômico mas
também científico no cenário mundial.
Caberá aos recursos humanos oriundos de nossas instituições universitárias
recolocarem a relação da economia com a biologia em outros patamares. Não se trata aqui de
demonizar a tecnologia e nem o mercado, mas a percepção que somente o conhecimento
científico poderá colocar estas forças a serviço de uma vida humana com mais qualidade e
que seja sustentável em um bioma com uma crescente densidade populacional humana. Mas
este desafio passa necessariamente por um conhecimento muito mais aprofundado sobre
estas relações, o que só poderá ser realizado com o desenvolvimento de pesquisa básica de
alto nível que seja aplicável em nossa realidade.