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SAMIZDAT www.revistasamizdat.com Saiba como o camelo ganhou sua corcova 20 setembro 2009 ano II ficina
SAMIZDAT www.revistasamizdat.com Saiba como o camelo ganhou sua corcova 20 setembro 2009 ano II ficina

SAMIZDAT

www.revistasamizdat.com

Saiba como o camelo

Saiba como o camelo ganhou sua corcova
Saiba como o camelo ganhou sua corcova

ganhou sua corcova

Saiba como o camelo ganhou sua corcova
Saiba como o camelo ganhou sua corcova
Saiba como o camelo ganhou sua corcova
Saiba como o camelo ganhou sua corcova
Saiba como o camelo ganhou sua corcova
Saiba como o camelo ganhou sua corcova
20
20
setembro 2009 ano II ficina
setembro
2009
ano II
ficina

SAMIZDAT 20

setembro de 2009

Edição, Capa e Diagramação:

Henry Alfred Bugalho

Revisão Geral

Caio Rudá

Assessoria de Imprensa Mariana Valle

Autores Barbara Duffles Carlos Alberto Barros Eder Ferreira Giselle Natsu Sato Guilherme Rodrigues Henry Alfred Bugalho Joaquim Bispo José Espírito Santo Jú Blasina Léo Borges Marcia Szajnbok Mariana Valle Maristela Scheuer Deves Simone Santana Sheyla Smanioto Macedo Volmar Camargo Junior Wellington Souza

Autores Convidados José Guilherme Vereza Tatyanny Nascimento

Textos de:

Monteiro Lobato

Rudyard Kipling

Imagem da capa:

http://www.flickr.com/photos/

vpolat/3300028598/sizes/o/

www.revistasamizdat.com

Editorial

Reclama-se muito que o brasileiro não lê.

Este é um problema muito complexo, enraigado em um longo processo histórico de dominação e exclusão cultu- ral. O brasileiro não lê porque o livro não pertence a seu universo de entretenimento, não faz parte de seus hábitos cotidianos, como assistir a um jogo de futebol ou ir ao baile funk.

A escrita e a literatura são formas de cultura ainda reser-

vadas a uma elite, que muitas vezes se considera superior aos

demais por causa disto. Como modificar este cenário?

Inevitavelmente, incentivar a leitura passa por várias medi- das governamentais, como criação de bibliotecas, redução de impostos para venda de livros, eventos literários em escolas, autores que saibam desenvolver um vínculo com quem os lê, mas, o mais importante, é criar uma nova geração de leito- res, que estabeleçam uma relação íntima e prazeirosa com a leitura e que carreguem este hábito através da idade adulta.

O futuro da literatura em língua portuguesa depende dos

novos leitores, destes jovens que hoje se vêem obrigados a dividir o tempo entre a TV, a internet, o videogame e, quem sabe, um livro.

Esta edição da SAMIZDAT fala para estes novos leitores.

Henry Alfred Bugalho

Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.

Todas as imagens publicadas são de domínio público, royalty free ou sob licença Creative Commons.

Os textos publicados são de domínio público, com consenso ou autorização prévia dos autores, sob licença Creative Com- mons, ou se enquadram na doutrina de “fair use” da Lei de Copyright dos EUA (§107-112).

As idéias expressas são de inteira responsabilidade de seus autores. A aceitação da revisão proposta depende da vontade expressa dos colaboradores da revista.

Sumário

Sumário Por quE Samizdat?   6   Henry Alfred Bugalho ComuNiCado   SAMIZDAT Especial de
Sumário Por quE Samizdat?   6   Henry Alfred Bugalho ComuNiCado   SAMIZDAT Especial de
Sumário Por quE Samizdat?   6   Henry Alfred Bugalho ComuNiCado   SAMIZDAT Especial de

Por quE Samizdat?

 

6

 

Henry Alfred Bugalho

ComuNiCado

 

SAMIZDAT Especial de Mistério e Suspense

8

ENtrEViSta

 

Selène d’aquitaine

 

10

rEComENdaÇÕES dE LEitura Como me tornei estúpido

14

 

Guilherme Augusto Rodrigues

autor Em LÍNGua PortuGuESa

 

a

cigarra e as duas formigas

16

 

Monteiro Lobato

miCroCoNtoS

 

Eder Ferreira

 

20

CoNtoS

 

Jey Fyu e a floresta das almas tortas

22

 

Carlos Alberto Barros

o

coelhinho medroso

26

Joaquim Bispo

Voz da consciência

 

28

 

Wellington Souza

a

menina que não queria crescer

32

Jú Blasina

o

pé de macaca

35

Jú Blasina

ursinho Joca e os pardais

 

36

Volmar Camargo Junior

a última fada 38 Volmar Camargo Junior o pergaminho esquecido 42 Henry Alfred Bugalho do
a última fada 38 Volmar Camargo Junior o pergaminho esquecido 42 Henry Alfred Bugalho do
a última fada 38 Volmar Camargo Junior o pergaminho esquecido 42 Henry Alfred Bugalho do

a

última fada

38

Volmar Camargo Junior

o

pergaminho esquecido

42

Henry Alfred Bugalho

do reino da carochinha

44

 

Simone Santana

arrependimentos

46

 

Guilherme Augusto Rodrigues

Esmeralda, Jade e rubi

48

 

José Espírito Santo

as amaranthas

52

 

Sheyla Smanioto Macedo

um lugar para viver

54

 

Léo Borges

Casal moderno

59

 

Mariana Valle

remorso

60

 

Barbara Duffles

um conto de fadas

62

 

Giselle Sato

autor CoNVidado Ensaboando a minha cabeça

66

 

José Guilherme Vereza

Poemas

70

 

Tatyanny Nascimento

traduÇÃo

 

Como o camelo ganhou sua corcova

72

 

Rudyard Kipling

tEoria LitErÁria Os desafios da autopublicação

78

Henry Alfred Bugalho

 

CrÔNiCa

a

faixa branca

84

Joaquim Bispo

Brasiléiros e brasiléiras 87 Volmar Camargo Junior repaginando as Havaianas 88 Henry Alfred Bugalho
Brasiléiros e brasiléiras 87 Volmar Camargo Junior repaginando as Havaianas 88 Henry Alfred Bugalho

Brasiléiros e brasiléiras

87

Volmar Camargo Junior

repaginando as Havaianas

88

Henry Alfred Bugalho

Criança tem cada uma

90

Maristela Deves

adolescentes (não) leem

92

Marcia Szajnbok e Amanda Szajbok de Faria

PoESia Laboratório Poético: Limericks

94

Volmar Camargo Junior

Poesias bestas

96

Ju Blasina

asas

98

Marcia Szajnbok

Noé em sua arca

100

Wellington Souza

SoBrE oS autorES da Samizdat

102

Por que Samizdat? “Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por
Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico,
distribuo e posso ser preso por causa disto”
Vladimir Bukovsky
Henry Alfred Bugalho
inclusão e Exclusão
henrybugalho@hotmail.com
se converte em uma ditadu-
ra como qualquer outra. É a
microfísica do poder.
Nas relações humanas,
sempre há uma dinâmica de
inclusão e exclusão.
O
grupo dominante, pela
própria natureza restritiva
do poder, costuma excluir ou
ignorar tudo aquilo que não
pertença a seu projeto, ou
que esteja contra seus prin-
cípios.
Em reação, aqueles que
se acreditavam como livres-
pensadores, que não que-
riam, ou não conseguiam,
fazer parte da máquina
administrativa - que esti-
pulava como deveria ser a
cultura, a informação, a voz
do povo -, encontraram na
autopublicação clandestina
um meio de expressão.
Em regimes autoritários,
esta exclusão é muito eviden-
te, sob forma de perseguição,
censura, exílio. Qualquer um
que se interponha no cami-
nho dos dirigentes é afastado
Datilografando, mimeo-
grafando, ou simplesmente
manuscrevendo, tais autores
russos disseminavam suas
idéias. E ao leitor era incum-
e
ostracizado.
As razões disto são muito
bida a tarefa de continuar
esta cadeia, reproduzindo tais
obras e também as passando
simples de se compreender:
o
diferente, o dissidente é
perigoso, pois apresenta
alternativas, às vezes, muito
melhores do que o estabe-
lecido. Por isto, é necessário
suprimir, esconder, banir.
adiante. Este processo foi
designado "samizdat", que
nada mais significa do que
"autopublicado", em oposição
às publicações oficiais do
regime soviético.
A
União Soviética não
foi muito diferente de de-
mais regimes autocráticos.
Origina-se como uma forma
de governo humanitária,
igualitária, mas
Foto: exemplo dum samizdat. Corte-
sia do Gulag Museum em Perm-36.
logo

E por que Samizdat?

A indústria cultural - e o

mercado literário faz parte dela - também realiza um processo de exclusão, base- ado no que se julga não ter valor mercadológico. Inex- plicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maio- res do que o lucro.

A indústria deseja o pro-

duto pronto e com consumi- dores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mes- mo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado.

E a autopublicação, como em qualquer regime exclu- dente, torna-se a via para produtores culturais atingi- rem o público.

Este é um processo soli- tário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes apa- ratos midiáticos - como TV,

revistas, jornais - onde ele possa divulgar seu trabalho.

O

único aspecto que conta é

o

prazer que a obra causa no

leitor.

Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro lado, concede ao criador uma

liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua pala- vra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros,

é quem recebe os louros por seus acertos.

E, com a internet, os au-

tores possuem acesso direto

e imediato a seus leitores. A repercussão do que escreve (quando há) surge em ques- tão de minutos.

A serem obrigados a

burlar a indústria cultural,

os autores conquistaram algo

que jamais conseguiriam de outro modo, o contato qua-

se

pessoal com os leitores,

o

diálogo capaz de tornar a

obra melhor, a rede de conta-

tos que, se não é tão influen-

te quanto a da grande mídia,

faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há gran-

des tiragens que substituam

o prazer de ouvir o respal-

do de leitores sinceros, que

não estão atrás de grandes autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos.

Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pós-

modernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição que vise rotular e definir a

orientação dum grupo. São apenas escritores interessados

em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim

a heterogeneidade.

Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de auto- publicação, mas “Samizdat” porque também é um modo

de contornar um processo

de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica mensal, escrita, editada e publicada pelos integrantes da Oficina de Escritores e Teoria Literária. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profis- sionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

www.revistasamizdat.com

poemas, resenhas literárias e muito mais. www.revistasamizdat.co m www.revistasamizdat.comwww.revistasamizdat.com 77

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77

poemas, resenhas literárias e muito mais. www.revistasamizdat.co m www.revistasamizdat.comwww.revistasamizdat.com 77

Comunicado

Comunicado Samizdat Especial m istério e Suspense http://www.flickr.com/photos/ericmorse/454379200/sizes/l/ 8

Samizdat

Especial

m
m

istério e Suspense

http://www.flickr.com/photos/ericmorse/454379200/sizes/l/

Estamos preparan- do a quinta edição do SAMIZDAT Especial, contemplando o gênero Mistério e Suspense.

1 - Todos os colabora-

dores fixos do E-Zine po- dem participar e sugerir autores colaboradores;

2 - Também serão

aceitos textos enviados voluntariamente por autores externos, para as seguintes seções do E- Zine:

a - Resenha de Livros;

5 - Por se tratar duma

obra de divulgação, não serão pagos direitos

autorais. A publicação e

a distribuição do E-Zine

não acarretará, tampouco,

em custos para os autores participantes.

6 - O SAMIZDAT Espe-

cial - Mistério e Suspen-

se será publicado durante

o mês de setembro no

blog, e na edição em .PDF em 1 de outubro. Por isto, solicita-se aos autores interessados que entrem em contato até o

final de agosto, através do e-mail

b - Teoria Literária ou

de Mistério e Suspense;

c - Autor convidado

(prosa ou poesia);

d

- Traduções;

e

- Crônicas;

3

- Serão seleciona-

dos, ao todo, entre 3 e 5 textos para cada uma das seções acima, mas a edição do E-Zine possui o direito de selecionar mais ou menos obras.

4 - Não há limites

de palavras, mas como se trata duma publica- ção voltada para o meio digital, solicita-se que não sejam enviados tex- tos mais extensos do que umas 2500 palavras.

revistasamizdat@hotmail.com

Indicando, no assunto

do e-mail, SAMIZDAT Especial 5, e em qual se-

ção o texto se enquadra (ver item 2).

Abraços a todos,

Equipe da SAMIZDAT

www.revistasamizdat.com

Entrevista

SELèNE d’aquitaiNE

Nascida no dia 20 de maio de 1992 na cidade Amparo, interior de São Paulo.

Seu nome de batismo é Adriana ­Barbosa­Ferreira,­mas­prefire­seu­ nome literário, Selène.

Descobriu sua paixão pela escrita quando estava com quase doze anos. Nessa idade, começou a escrever um livro de aventura, mas seu computador pegou um vírus e acabou perdendo a maquina inteira. Tentou mais uma vez com treze anos, bolou outro livro e mais uma vez seu computador pegou vírus e ela perdeu tudo. Com catorze anos,

decidiu escrever um livro a mão. Até hoje, Selène não sabe onde foi parar

o

caderno onde estava escrevendo

o

livro.

Aos­quinze­anos,­finalmente­con-

seguiu concluir seu primeiro livro. Sua mãe, que não acreditava que ela fosse conseguir acabá-lo, havia se proposto a enviá-lo para as editoras quando concluído. O original foi remetido para quase 12 editoras.

À princípio, não foi fácil conseguir

uma editora. Selène não sabia pre- parar o manuscrito e acabou fazendo muitas coisas erradas. Algumas editoras chegaram a devolver o manuscrito por estar fora do padrão. Mesmo assim, foi aceita em 4 editoras.

Acabou fechando contrato com a Ícone Editora e lançou seu primeiro livro, “ Diário de Rabiscos” no dia 1º de Dezembro de 2008. Neta épo- ca, já havia começado a escrever o segundo livro, “ O Jardim das Rosas Negras”. Seu editor, Luis Carlos Fa-

10

foto: Arquivo pessoal
foto: Arquivo pessoal

nelli, se apaixonou pela protagonista da obra, Samantha, e concordou em

publicá-la. O lançamento do livro “O Jardim das Rosas Negras” foi dia 23 de maio de 2009. A escrita deste segundo livro tomou quase oito ou dez meses, enquanto o primeiro havia sido escrito em seis meses. Selène também escreve contos e crônicas.

Atualmente, trabalha em uma trilogia sobre dimensões paralelas. O primeiro volume está pronto. No momento, escreve o segundo. Possui também dois outros projetos parcialmente elaborados para depois de concluída esta trilogia.

Selène D’Aquitaine é um pseudônimo ou um he- terônimo? É a criadora, ou uma criatura? Selène - Selène D’Aquitaine é um heterô- nimo criado especialmen- te para eu assinar meus livros. Eu escolhi esse nome, pois gosto muito da sua sonoridade e da sua escrita. Eu também esco- lhi esse nome, pois queria algo que combinasse com os meus livros. Você tem se dedicado

ao gênero de Fantasia. Como você percebe a influência do cinema, de filmes como “O Senhor dos Anéis” e “Crônicas de Nárnia” naquilo que você escreve? Você acredita que o cinema contribui para também nos aproximar dos livros que deram origem ao filme? O que a levou para a literatura de Fantasia? SD - “As Crônicas de Nár- nia” é das séries de livros que eu mais amo. Nárnia já me serviu de inspiração para criar um novo mun- do, um mundo de criatu- ras mágicas e seres supe- riores. O cinema ajuda a gente a “visualizar” a his-

tória do livro, e sim, acre- dito que as vezes o cinema nos aproxima dos livros. Porém, o livro sempre é melhor que o filme, contu- do é legal quando você leu um livro, imaginou toda

a

e

cinema a tudo aquilo que você leu e imaginou. Desde pequena, eu sou fascinada pelo mundos mágicos, seres místicos e sempre sonhei em criar as minhas próprias histórias. Às vezes, eu me imaginava nesses mundos. A Fantasia explora nossa imaginação de um jeito muito louco. Uma coisa é você imagi- nar um gato preto, outra coisa é você imaginar um gato rosa, esquelético, com rabo de coelho e olhos de água.

história na sua mente

depois você assiste no

Como é o mundo de O Jardim das Rosas Ne- gras? É um mundo alter-

nativo, em que os perso- nagens não tem contato com o “nosso mundo”, como a Terra-Média, ou um mundo paralelo, como Nárnia, em que os personagens viajam “des- te mundo” para “aquele mundo”? SD - Em “O Jardim das Rosas Negras” a história

se passa em um mundo

alternativo. Lá há seres como fadas, bruxas, gno-

mos, e até mesmo huma- nos. Eles convivem juntos, seres mágicos e seres não-mágicos, porém eles não possuem um conta-

to íntimo com o “nosso

mundo”.

Como é o processo cria- tivo de seus romances? Você cria primeiro o cenário e depois narra as histórias ambientadas nele, ou cria-os à medida que a narrativa progri- de?

SD - Primeiro a ideia vem na minha mente. Depois eu faço um pequeno resu- mo com os pontos princi- pais da história. A partir

disso eu escrevo a história propriamente dita. Porém,

a maior parte da história

eu vou criando a medida que a narrativa progride.

O resumo que eu faço

é uma base. Eu também

faço uma lista de nomes dos personagens para cada livro que eu escrevo. Isso ajuda muito.

Dizem que, no início da carreira de escritor, é natural imitarmos o estilo de nossos autores preferidos. Você concor- da com isso? E, se con-

corda, quem são os es- critores que a inspiram - e que, indiretamente, ajudam-na a escrever? SD - Sim, acho que as vezes um escritor nova-

to acaba imitanto seus

autores preferidos. Eu, por exemplo, tenho meus autores favoritos: J.K Ro- wling, C.S Lewis, Philip

Pullman, Juliet Marillier.

O

é

o

volve a narrativa, descreve um certo ambiente e as

emoções dos personagens.

mais favorito de todos

o Philip Pullman. Adoro

modo como ele desen-

Qual tem sido a maior dificuldade na sua car- reira literária? Quais são os seus projetos futuros? Você tem algum projeto literário em outros gêne- ros que não sejam Fan- tasia? Caso sim, como você se prepara para ele (leituras, autores, ofici- nas literárias)? SD - A maior dificuldade tem sido a divulgação. Muitas pessoas vão nas livrarias e não encontram

os meus livros expostos

nas lojas, apenas por enco- menda. Os livreiros, acre-

dito, só estão aceitando expor os livros dos auto- res conhecido e, em geral,

estrangeiros.

Meus projetos futuros:

estou trabalhando em uma trilogia sobre mun- dos paralelos. O primeiro volume já está pronto, es- tou escrevendo o segundo volume. Eu também penso em fazer contos que de romance, não necessaria- mente Fantasia. Também penso em trabalhar com roteiros de teatro, novela e

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11

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pesquisas históricas.

Como é sua relação com as editoras? SD - A relação é muito boa, eu e o meu editor, Luís Carlos Fanelli somos muito amigos. Ele foi a primeira pessoa a acre- ditar e apostar nos meus livros e no meu talento.

Você considera o fato de ser escritora uma habilidade que faz parte de sua vida, ou será este o seu ofício, a sua pro- fissão? Qual o papel da literatura em sua vida? SD - Ser escritora é tudo para mim, é trabalho, compromisso, dedicação, e sim, profissão. A literatura é a minha vida, a minha arte, meu ofício. A litera- tura também é o modo pelo qual eu procuro ajudar as pessoas, através dos meus livros, dos meus personagens.

O fato de começar a escrever - e publicar - tão cedo lhe dá maior segurança na hora de preparar um livro? Ou você sente uma pressão maior? Sua precocidade literária é um atrativo na hora de divulgar seu trabalho? SD - Na verdade, o fato de ser precoce não me inti- mida muito; aliás ajuda, ainda mais na hora da divulgação.

Em seu blog, há a ex- pressa proibição para aqueles que quiserem copiar seus textos. Plá- gio, violação de direitos

autorais, pirataria: este é um assunto que a preo- cupa? Como você vê o futuro da literatura na era digital? SD - Sim, roubo de textos me preocupa um pouco, afinal é o meu trabalho,

a minha ideia, minha

vida. Se um texto não

está registrado, protegido

e alguém o roubar

difícil para o autor ori- ginal provar sua autoria. Não sei se a literatura tem futuro na era digital talvez sim, afinal hoje em dia o mundo esta ficando cada vez mais informati- zado. Livros são eternos, na minha opinião. É mui- to bom tocar na capa de

um livro, virar as páginas, apertá-lo junto ao peito

e poder levá-lo na bolsa para qualquer canto.

fica

Também em seu blog, você menciona as suas amigas como sendo a fonte de inspiração para as personagens de Diário de Rabiscos. O que elas, as suas amigas, acharam de se “verem” em uma obra de ficção? SD - Elas adoraram! Sentiram-se lisonjeadas pelo homenagem! Minhas amigas sentiram-se impor- tantes e amadas.

Costuma-se afirmar que os brasileiros, especial- mente os jovens, não possuem o hábito da leitura. Você, como uma jovem escritora, com- partilha desta opinião? Qual é a relação de seus amigos ou colegas de escola com a leitura? SD - Isso depende. Os

jovens, pelo menos pelo que eu observo, possuem certas preferências em relação a literatura. Acho que os jovens de hoje em dia não costumam ler o suficiente, ou então ficam apenas com os livros que estão na moda. Muitas ve-

zes um jovem lê um livro de qualquer jeito, apenas

passando os olhos pelas

páginas. Ele não compre- ende, de fato, a história,

o contexto, o conflito das

personagens

realmente prestar atenção. Porém há jovens que são amantes dos livros. E são até muitos esses jovens, eu acho. No meu grupo de amigo tem gente que lê muito e tem gente que lê pouco, assim como na mi-

nha escola. Tem gente que

gosta de ler e tem gente que não gosta de ler.

Lê sem

Nós, da Revista SAMI- ZDAT, agradecemos a Selène D’Aquitaine pela entrevista.

Coordenação da entrevista:

Henry Alfred Bugalho

Perguntas feitas por:

Henry Alfred Bugalho Volmar Camargo Junior

http://www.flickr.com/photos/32912172@N00/2959583359/sizes/o/

O lugar onde

a boa Literatura

é fabricada

ficina www.oficinaeditora.com

ficina

www.oficinaeditora.com

www.samizdat-pt.blogspot.comwww.revistasamizdat.com

recomendação de Leitura

Como

me tornei

Estúpido

Como me Tornei Estúpido Autor: Martin Page Editora: Rocco Ano: 2003

Como me Tornei Estúpido Autor: Martin Page Editora: Rocco Ano: 2003

14 14

SAMIZDAT setembro de 2009

SAMIZDAT setembro de 2009

Page Editora: Rocco Ano: 2003 14 14 SAMIZDAT setembro de 2009 SAMIZDAT setembro de 2009 Guilherme
Page Editora: Rocco Ano: 2003 14 14 SAMIZDAT setembro de 2009 SAMIZDAT setembro de 2009 Guilherme
Guilherme Augusto Rodrigues
Guilherme Augusto Rodrigues
Guilherme Augusto Rodrigues

Guilherme Augusto Rodrigues

Guilherme Augusto Rodrigues

http://www.flickr.com/photos/dborman2/3258378233/sizes/l/

O lugar onde

http://www.flickr.com/photos/ooocha/2630360492/sizes/l/

Como me Tornei Estúpi- do conta a história de An- toine, um jovem de 25 anos que leva uma vida modesta, gosta de filosofia, artes e tem amigos que o adoram. Desiludido e sabendo que admirar a simplicidade, a amizade e as artes não trará nada de vantajoso para si, resolve investir em sua idiotice.

Depois de fracassar ao tentar o alcoolismo e o suicídio, para finalmente curar-se da doença: a in- teligência; tem a brilhan- te ideia de ganhar muito dinheiro. Determinado, consegue um excelente emprego na empresa de um velho amigo do tempo de escola, o Raphi, e com ele aprende as artimanhas do mundo dos negócios. Simplesmente, esquece-se dos livros, do cinema, da filosofia que tanto adorava e era profundo conhecedor e dos queridos amigos: Ganja, Charlotte, Aslee e Rodol- phe. Ganha muito dinheiro, aprende a investir na Bolsa para duplicar sua fortuna, compra carro importado e muitos utensílios de última moda que nunca usará. An- toine vira um exemplo, um homem de sucesso, invejado e, enfim, aceito pela socie- dade. Porém, entre doses de Felizac, remédio para deixá-lo na estupidez, e a realidade, Antoine se torna

uma criatura vulnerável de sua inteligência e espírito crítico, e a volta à vida de antes se dá num momento mágico, inspirador e surre- alista.

é fabricada

O escritor francês Martin

Page escreveu o livro após ter lido o Eclesiastes – cuja autoria é atribuída a Salo- mão por muitos relatos se corresponderem aos da sua vida – que conta a história de um filósofo em conflito existencial, comenta sobre suas desilusões e do mate- rialismo epicureu de que não há nada melhor que o gozo carnal dos prazeres mundanos.

O livro de uma leitu-

ra agradável nos induz a profunda reflexão sobre a superficialidade da socie-

dade, dos sentimentos e da vida que levamos. Aparen- temente simples, irônico

e recheado de piadas que

produzem inúmeras risadas,

é na verdade uma grande

bofetada na cara ao mostrar que o verdadeiro valor é saber apreciar as minúcias do cotidiano, coisas que não damos valor, como um dia

de outono, os pássaros, as flores ou um amor simples

e verdadeiro, que para tal

efeito, Page em certos mo-

mentos abusa dos detalhes.

as flores ou um amor simples e verdadeiro, que para tal efeito, Page em certos mo

ficina

a boa Literatura

www.oficinaeditora.org

15 15

autor em Língua Portuguesa

autor em Língua Portuguesa Monteiro Lobato a cigarra e as duas formigas 16 16 SAMIZDAT setembro
autor em Língua Portuguesa Monteiro Lobato a cigarra e as duas formigas 16 16 SAMIZDAT setembro

Monteiro Lobato

a cigarra e as

duas formigas

16 16

SAMIZDAT setembro de 2009

SAMIZDAT setembro de 2009

http://www.flickr.com/photos/kwazar/2494808551/sizes/l/

a cigarra e a formiga boa

Houve uma jovem ci- garra que tinha o costume de chiar ao pé dum formi- gueiro. Só parava quando cansadinha; e seu diverti- mento então era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas. Mas o bom tempo afinal pas- sou e vieram as chuvas. Os animais todos, arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas. A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em grandes apuros, deliberou socorrer- se de alguém. Manquitolan- do, com uma asa a arrastar,

lá se dirigiu para o formi- gueiro. Bateu - tique, tique,

tique

ga, friorenta, embrulhada num xalinho de paina.

Aparece uma formi-

- Que quer? - perguntou,

examinando a triste mendi- ga suja de lama e a tossir.

- Venho em busca de um

agasalho. O mau tempo não cessa e eu

A formiga olhou-a de alto a baixo.

- E o que fez durante o

bom tempo, que não cons- truiu sua casa?

A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu depois de um acesso de tosse:

- Eu cantava, bem sabe

- Ah!

exclamou a

formiga recordando-se. Era você então quem cantava nessa árvore enquanto nós

labutávamos para encher as

tulhas?

- Isso mesmo, era eu

- Pois entre, amiguinha!

Nunca poderemos esque- cer as boas horas que sua cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraía

e aliviava o trabalho. Dizía-

mos sempre: que felicidade ter como vizinha tão gentil cantora! Entre, amiga, que aqui terá cama e mesa du- rante todo o mau tempo.

A cigarra entrou, sarou

da tosse e voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol.

a cigarra e a formiga má

Já houve, entretanto, uma

formiga má que não soube

compreender a cigarra e com dureza a repeliu de sua porta. Foi isso na Euro- pa, em pleno inverno, quan- do a neve recobria o mun-

do com o seu cruel manto

de gelo. A cigarra, como

de costume, havia cantado sem parar o estio inteiro, e

o inverno veio encontrá-la

desprovida de tudo, sem casa onde abrigar-se, nem

folhinhas que comesse.

Desesperada, bateu à porta da formiga e implorou - emprestado, notem! - uns miseráveis restos de comi- da. Pagaria com juros altos

aquela comida de emprés-

timo, logo que o tempo o

permitisse. Mas a formiga

era uma usuária sem entra- nhas. Além disso, invejosa. Como não soubesse cantar, tinha ódio à cigarra por vê- la querida de todos os seres.

- Que fazia você durante

o bom tempo?

- Eu

- Cantava? Pois dance

eu cantava!

agora

ta no nariz.

Resultado: a cigarra ali morreu estanguidinha; e

quando voltou a primavera

o mundo apresentava um

aspecto mais triste. É que

faltava na música do mun-

do o som estridente daquela cigarra morta por causa da avareza da formiga. Mas se

a usurária morresse, quem daria pela falta dela?

Os artistas - poetas, pintores e músicos - são as cigarras da humanidade.

- e fechou-lhe a por-

Fonte: http://br.geocities. com/turmadajuli/historias.

htm#lobato

Monteiro Lobato A 18 de abril de 1882 em Tauba- té, estado de São Paulo,

Monteiro Lobato

A 18 de abril de 1882 em Tauba- té, estado de São Paulo, nasce o filho de José Bento Marcon- des Lobato e Olímpia Augusta Monteiro Lobato. Recebe o nome de José Renato Monteiro Lobato, que por decisão própria modifica mais tarde para José Bento Mon- teiro Lobato desejando usar uma bengala do pai gravada com as iniciais J. B. M. L.

Juca era assim chamado – brin- cava com suas irmãs menores Ester e Judite. Naquele tempo não havia tantos brinquedos; eram toscos, feitos de sabugos de milho, chuchus, mamão verde, etc

Adorava os livros de seu avô ma- terno, o Visconde de Tremembé.

Sua mãe o alfabetizou, teve depois um professor particular e aos sete anos entrou num colé-

gio. Leu tudo o que havia para crianças em língua portuguesa. Em dezembro de 1896, presta exames em São Paulo, das maté- rias estudadas em Taubaté. Aos 15 anos perde seu pai, vítima de congestão pulmonar e aos 16 anos sua mãe. No colégio funda vários jornais, escrevendo sob pseudônimo. Aos 18 anos entra para a Faculdade de Direito por imposição do avô, pois preferia a Escola de Belas-Artes. É anti-

http://guisalla.files.wordpress.com/2008/09/machado1.jpg

convencional por excelência, diz sempre o que pensa, agrade ou não. Defende a sua verdade com unhas e dentes, contra tudo e to- dos, quaisquer que sejam as con- seqüências. Em 1904 diploma-se Bacharel em Direito, em maio de 1907 é nomeado promotor em Areias, casando-se no ano se- guinte com Maria Pureza da Na- tividade (Purezinha), com quem teve os filhos Edgar, Guilherme, Marta e Rute. Vive no interior, nas cidades pequenas sempre es- crevendo para jornais e revistas, Tribuna de Santos, Gazeta de Notícias do Rio e Fon-Fon para onde também manda caricaturas e desenhos. Em 1911, morre seu avô, o Visconde de Tremembé, e dele herda a fazenda de Buquira, passando de promotor a fazen- deiro. A geada, as dificuldades, levam-no a vender a fazenda em 1917 e a transferir-se para São Paulo. Mas na fazenda escre- veu Jeca Tatu, símbolo nacio- nal. Compra a Revista Brasil e começa a editar seus livros para adultos. Urupês inicia a fila, em

1918.

Surge a primeira editora nacio- nal Monteiro Lobato & Cia, que se liquidou transformando-se depois em Companhia Editora Nacional sem sua participação. Antes de Lobato os livros no Brasil eram impressos em Portu- gal; com ele inicia-se o movi-

mento editorial brasileiro. Em

1931, volta dos Estados Unidos da América do Norte, pregando

a redenção do Brasil pela ex-

ploração do ferro e do petróleo. Começa a luta que o deixará po- bre, doente e desgostoso. Havia interesse oficial em se dizer que no Brasil não havia petróleo. Foi perseguido, preso e criticado porque teimava em dizer que no Brasil havia petróleo e que era preciso explorá-lo para dar ao seu povo um padrão de vida à altura de suas necessidades. Já em 1921, dedicou-se à literatura infantil. Retorna a ela, desgosto- so dos adultos que o perseguem injustamente. Em 1945, passou a ser editado pela Brasiliense onde publica suas obras completas, reformulando inclusive diversos livros infantis.

Com Narizinho Arrebitado lança

o Sítio do Pica-pau Amarelo e seus célebres personagens.

Através de Emília diz tudo o que pensa; na figura do Visconde de Sabugosa critica o sábio que só acredita nos livros já escritos.

Dona Benta é o personagem adulto que aceita a imaginação

amanhã, abertas a tudo, que- rendo ser felizes, confrontando suas experiências com o que os

mais velhos dizem, mas sempre

acreditando no futuro. E assim, o Pó de Pirlimpimpim continuará

a transportar crianças do mundo

inteiro ao Sítio do Pica-pau Amarelo, onde não há horizontes

limitados por muros de concreto

e de idéias tacanhas.

Em 5 de julho de 1948, perde-se esse grande homem, vítima de colapso, na Capital de São Pau- lo. Mas o que tinha de essencial, seu espírito jovem, sua coragem, está vivo no coração de cada criança.

Viverá sempre, enquanto estiver presente a palavra inconfundível “Emília”.

Biografia do Livro O Saci de Monteiro Lobato, publicada no boletim Circulação Cultural, Ano I, n. 13, ago. 1999.

Fonte: http://kplus.cos- mo.com.br/materia.

asp?co=32&rv=Literatura

criadora das crianças, admitindo as novidades que vão modifi- cando o mundo, Tia Nastácia

é o adulto sem cultura, que vê

no que é desconhecido o mal, o pecado. Narizinho e Pedrinho são as crianças de ontem, hoje e

Contos

20 20

Eder Ferreira
Eder Ferreira
Contos 20 20 Eder Ferreira Minicontos SAMIZDAT setembro de 2009 SAMIZDAT setembro de 2009

Minicontos

Contos 20 20 Eder Ferreira Minicontos SAMIZDAT setembro de 2009 SAMIZDAT setembro de 2009

SAMIZDAT setembro de 2009

SAMIZDAT setembro de 2009

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assistente de mágico

Era uma profissional tão dedicada que passou a levar trabalho para casa. Tru- que preferido: desaparecimento. O marido, compreensivo, entendeu.

a honra acima de tudo

Devendo até o único par de meias que tinha, toda manhã estufava o peito e dizia para sua mulher: “O dever me chama!”

Esquizofrenia animal

A vaca foi pro brejo. Achava que era um porco.

Chavesmaníaco

Sua vida se resumia em um único lema: “Deus ajuda quem assiste o madruga”.

O lugar onde

a boa Literatura

é fabricada

o madruga”. O lugar onde a boa Literatura é fabricada ficina www.oficinaeditora.com www.revistasamizdat.com 21
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Contos

Jey Fyu e

a
a

Floresta das

a lmas tortas

22 22

SAMIZDAT setembro de 2009

SAMIZDAT setembro de 2009

e a Floresta das a lmas tortas 22 22 SAMIZDAT setembro de 2009 SAMIZDAT setembro de
e a Floresta das a lmas tortas 22 22 SAMIZDAT setembro de 2009 SAMIZDAT setembro de

Carlos Alberto Barros

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o Guerreiro das Nuvens

Jey Fyu era um exímio Guerreiro das Nuvens. Com sua lâmina escarlate, cortava céus e mares feito vespa rai- nha em mato-de-alvarenga. Em noites de três sóis e duas luas, chamadas Noites Quin- cas, era impossível não se ver no horizonte sua armadura alada bailando com cabeça de dragão. O bravo com- batente era o protetor das almas tortas da Terra do Fim, um dos reinados do grande Pai-pai.

Quando não estava medi- tando em sua nuvem colossal ou desfilando pelos ares, Jey Fyu descia à Floresta das Almas Tortas para tomar leite de anta e comer lascas de tacho azul – os alimentos principais da região.

O guerreiro conhecia todos que ali habitavam e, a cada um, oferecia amor ini- gualável. Sempre que estava na floresta, sentia seu espí- rito engrandecer. E as almas, quando recebiam sua visita, brilhavam como mosquitos- de-fogo.

Assim era em todos os reinados do Imperador Pai-pai. Cada Guerreiro das Nuvens ficava responsável por um deles, fazendo preva- lecer a harmonia do Império. Jey Fyu era responsável pela Floresta das Almas Tortas, protegendo-as no caminho de volta à Terra do Início.

Após infinitas eras ser- vindo a Pai-pai, Jey Fyu teve sua honra e coragem reco- nhecidas, sendo convidado a tornar-se chefe da guarda da Nuvem Cinzenta, a mo- rada do Imperador. As almas tortas, então, viram o grande dragão dançar no céu, mes- mo não sendo Noite Quinca.

Uma forte tempestade en- charcou a floresta de tristeza

– eram as lágrimas angustia-

das do guerreiro por ter que abandonar o povo que tanto amava.

Jey Fyu visitou as almas, uma a uma, fazendo questão de se alimentar com leite e

tacho de todas elas. As visitas aumentaram-lhe a tristeza e deixaram claro que ele não podia abandonar o lugar. Na verdade, não conseguiria ir. Decidiu-se por não aceitar

a oferta do Imperador, já

sabendo das consequências irreversíveis em que isso im- plicaria. Ele ou Pai-pai teria que morrer. Estava disposto a enfrentar seu destino.

O Imperador recebeu a

notícia com naturalidade, como se já previsse que assim seria. Convocou seus dois maiores lutadores, Len Lan e Shouryo Ken, e mandou-os ao caminho da Floresta das Almas Tortas. As ordens foram claras: lutar no

Caminho, sem a presença das almas da Floresta; matar Jey Fyu sem piedade; trazer sua armadura de volta à Nuvem Cinzenta.

o Caminho das Penúrias

Jey Fyu seguiu para o Caminho sem tristeza nem remorsos. Lutaria até suas energias se findarem e, caso tivesse que sucumbir, seria em razão de seu amor pelas almas tortas.

O Caminho das Penúrias

era a única via de acesso en- tre qualquer dos reinados de Pai-pai. Árvores com troncos imensos atingiam as nuvens

e faziam da estrada uma

eterna penumbra. Apenas os merecedores podiam trilhar

por suas entranhas, e Jey Fyu era um deles.

O grande guerreiro tinha

um objetivo: destronar o Im- perador Pai-pai. Só assim po- deria continuar zelando por

suas amadas almas. Seguiu pelo Caminho das Penúrias, em direção ao portal de entrada da Nuvem Cinzen-

ta. Enquanto avançava entre

as árvores colossais, ouvia o

som macabro dos espíritos perdidos e via o tom escarla-

te de sua espada ser abraça-

do pelas sombras.

Jey Fyu seguia atento, punho preparado, visão de dragão. Percebeu que, além da lamúria dos espíritos, havia um ruído diferente surgindo. Parecia o rugir de uma grande fera. Aos pou- cos, ficava mais estrondoso. Segurou com as duas mãos sua espada, postura de luta. Estava preparado.

Len Lan

Jey Fyu notou que a penumbra do ambiente se transformava em trevas infin- dáveis. O rugir, mais alto, era insuportável. Estava numa completa escuridão quando foi atingido. Não era nenhum monstro: uma das árvores foi atirada sobre ele. O enorme tronco, de diâmetro gigan- tesco,, bloqueou a entrada da pouca luz que alcançava

o

Caminho das Penúrias.

O

som bestial provinha da

incrível velocidade com que

a

árvore cortava o vento.

O

impacto foi como uma

explosão dos deuses. Jey Fyu fora atingido. Sobre o tronco, a imagem de um guerreiro

com cabeça de lagarto sorria. Era Len Lan.

O inimigo recém-chegado

mal teve tempo de se alegrar com o ataque bem sucedido. Sentiu um arrepio nas costas e viu um fio de luz vermelha riscar seu corpo, dividindo seu sorriso ao meio e se estendendo por toda a árvore sob seus pés. A luz se liber- tou com violência de dentro do tronco que, partindo-se em dois pedaços, levava con- sigo cada metade do corpo de Len Lan.

Shiva Kung

Jey Fyu continuou sua jornada pelo Caminho das Penúrias fortalecido. A pri- meira vitória aumentou sua convicção, no entanto, sabia que maiores provações ainda estavam por vir.

Não demorou muito para avistar seu próximo obstá- culo. A uma distância que não enganavam os olhos, avistou Shouryu Ken. Como já imaginava, o novo oponen- te não estava sozinho: trazia seu animal de estimação, Shiva Kung, o Gorila de Dez Membros.

A luta não seria fácil. Em

cada um dos membros, Shiva Kung trazia uma Lâmina do Sol. Jey Fyu sabia que, contra aquilo, sua armadura de nada serviria. Teria que ser preciso nos golpes.

O gorila avançou em

saltos frenéticos. Mesmo com todo seu tamanho, era incrivelmente veloz. Jey Fyu invocou a alma de sua espa- da, transformando-a em duas. Tendo uma em cada mão, esperou a fera se aproximar. Os espíritos perdidos prosse- guiam com a melodia funes- ta. A penumbra fazia Shiva Kung ainda mais negro. Jey Fyu fixou seus olhos draco-

nianos na fera. Não podia errar, não podia errar.

Ao longe, Shouryu Ken via sua mascote decepar o braço esquerdo de Jey Fyu

e, em seguida, perder todos

seus dez membros. A lâmina escarlate penetrou lentamen- te o coração do gorila. Shiva Kung estava morto.

o imperador Pai-pai

Apesar de perder um braço, o protetor das almas tortas não se abateu. Sentia- se mais poderoso a cada vitória. Sem clemência, iria até o fim.

Jey Fyu avançou em fúria sobre seu adversário. Shou- ryu Ken aguardava estático, parecendo não querer lutar.

Quando os dois estavam frente a frente, ouviram uma voz de trovão: “Parem”. O Im- perador Pai-pai chegara. “Não quero perder meus maiores guerreiros”, disse ele, “Deve- mos seguir os preceitos da Lei dos Ancis e restabelecer a harmonia de nosso reino”.

Jey Fyu sabia que aquilo não era possível. Se parasse ali, teria que abdicar da Flo- resta das Almas Tortas, e isso, nunca faria.

“Meu Imperador, sabemos

o que a Lei diz. A morte é

a recompensa dos que não

seguem as ordens superio-

res. Mas

conseguiu terminar a frase. Enquanto falava, uma lâmi- na veloz atravessou o corpo de Pai-pai. Shouryu Ken o assassinara.

– Jey Fyu não

retorno às almas

“Não desejo lutar, gran-

de Guerreiro das Nuvens”, disse Shouryu Ken a Jey Fyu. “Há tempos Pai-pai levava o Grande Império à decadên- cia. Não podíamos permitir

que continuasse por mais tempo. Alguém deveria agir. Assumirei o trono e preten- do contar com sua ajuda em meu Império”, continuou.

A confusão tomou conta

de Jey Fyu. Não esperava por aquilo. Achava que teria que lutar até a morte. “E o que deseja de mim neste novo Império?”, perguntou.

“Volte para a Floresta das Almas Tortas. Lá sempre foi seu lugar. As almas precisam de você”, falou Shouryu Ken.

Jey Fyu paralisara, pen- sativo. Pai-pai estava morto à sua frente, não fazia mais sentido continuar lutando. Voltaria para o seu povo e continuaria a viver em sua nuvem. Era o que deseja- va desde o início. Decidiu, assim, devolver sua espada escarlate à bainha. Havia perdido um braço, mas tinha suas almas de volta, e isso era o que importava.

O grande Guerreiro das

Nuvens retornou pelo Cami- nho das Penúrias satisfeito. Chegou à sua Floresta sendo recebido com grandes feste- jos. A primeira atitude que teve foi sentar-se junto às

suas amadas almas para to-

mar leite de anta com tachos azuis.

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Ele tinha diante de si a mais difícil das missões:

cumprir a vontade de Deus

Henry Alfred BugAlHo

ORei dos Judeus
ORei dos
Judeus
a vontade de Deus Henry Alfred BugAlHo ORei dos Judeus ficina www.oficinaeditora.com www.revistasamizdat.com 25
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Contos

o coelhinho

medroso

Contos o coelhinho medroso Joaquim Bispo 2626 26 SAMIZDATSAMIZDAT SAMIZDAT agostosetembrode setembro
Contos o coelhinho medroso Joaquim Bispo 2626 26 SAMIZDATSAMIZDAT SAMIZDAT agostosetembrode setembro
Joaquim Bispo
Joaquim Bispo

Joaquim Bispo

Joaquim Bispo

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Era uma vez um coe-

 

E

assim, durante a tarde

   

lhinho cinzento que vivia num campo de beringelas. Durante o dia, corria e

saltava feliz, comia e dor- mia à sombra das plantas;

à

inteira, com muita paci-

 

Um detetive

 

ência e ternura, ensinou o coelhinho a preparar uma toca, para que ela não lhe caísse em cima. Ensinou-o

a

escolher um bom local

Uma loira gostosa

Um assassinato

noite tremia de frio, e de medo de ser apanhado e comido por algum monstro. Dormia ao relento, porque jamais entrara numa toca, com medo que ela lhe caís- se em cima e o esmagasse. Até a vista de um buraco numa árvore o assustava, por não saber o que tinha lá dentro.

meio escondido pelas ervas,

a

afastar a terra, a abrir

caminho com as patinhas,

E o pau comendo entre as máfias italiana e chinesa.

a

alisar as paredes com pe-

quenas marradinhas. Quan- do a toca já estava de bom tamanho e com aspecto confortável, disse a menina:

— Agora, coragem co- elhinho! Esta toca está muito bem preparada e de

certeza que não vai cair-te em cima. Entra à vontade,

   

Certa vez, passou por aquele lugar uma menina de vestido branco e lon- gos caracóis castanhos, que

andava a passear, porque se aborrecia de estar em casa,

e

encontrou o coelhinho,

 

O COvil dos inOCentes

   

coelhinho!

E

dava-lhe palmadinhas

de encorajamento. O coe-

lhinho, vendo como a toca parecia segura e acolhe- dora, e cheio de confiança pelo incentivo da menina, esticou o peito, em atitude resoluta, e entrou.

com cara infeliz, aninhado entre dois troncos.

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Por que estás triste,

coelhinho cinzento? — per- guntou ela.

 

Gostava de ter uma

Na verdade, a toca era

toca para me recolher, como os outros coelhinhos, mas tenho medo que a toca me caia em cima e me esmague — respondeu o coelhinho, timidamente.

o

local mais confortável e

seguro onde alguma vez já tinha estado. Apetecia-lhe ficar lá dentro para sem- pre. Nem acreditava como

tinha passado tantas noites

 

Por que é que havia de

a

tiritar de frio e de medo.

 

 

te cair em cima, coelhinho?

Quando saiu para agrade- cer à menina, esta pegou nele ao colo, e despediu-se com um abraço apertado. O coelhinho, comovido, não pôde evitar uma lágrima de ternura e gratidão. Desde então, todas as noites se recolhe à toca, confiante e feliz.

Sê corajoso! — animou a menina — Não sabes prepa- rar uma toca?

 

Não — lamentou-se o

coelhinho cinzento — nun- ca ninguém me ensinou.

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Oh! — condoeu-se a

menina, fazendo-lhe uma festinha na cabeça — eu ensino-te.

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Contos

Voz da CoNSCiÊNCia

Wellington Souza
Wellington Souza

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- Sabe o que é

Acho

que não estou mais te fa- zendo bem.

Nunca soube terminar, acho que é porque nunca

gostei de terminar nada. Mas não pelo fim em si – logo arrumo outra coisa

para fazer

triste saudade que virá. Existem as saudades alegres. Aquelas coisas que a gente fez bem desde o começo dão uma saudade alegre. Sorrio ao me lembrar que era boa jogadora de hande- bol durante o ensino fun- damental e, quando acertei uma bolada no rosto da rouba-namorado de propó- sito, não senti – nem sinto – remorso em ver seus lábios sangrarem e seu aparelho dentário sendo desgrudado deles. Mas há a saudade ruim também, de coisas que poderíamos ter feito melho- res, mas fomos displicentes e saiu tudo porco, sujo, e essa sujeira volta de novo pra gente, em ressacas que não escolhem lua.

No fim, a tristeza é mais pela saudade ruim do que pelo recomeço.

Estamos lado a lado num banco-de-praça no shopping. As pessoas que passam são tão sem-poesia. A única arte daqui está nos bancos-de-praça.

Isso não está mais me fazendo bem. Mas não é por isto também que es- tou aqui, prestes a por um fim, mudar de parágrafo. Tem coisas que são ruins e irremediáveis: se terminar fosse pior ainda que conti-

– e sim pela

nuar o calvário, então não faria sentido interromper assim o curso das coisas:

está ruim e só pode é pio- rar. Estou bem aqui. Sempre me ensinaram que se for para mudar, que seja para melhor! e é isso que prendo fazer. Acho.

Ele não me olhava, nem de relance nem de soslaio. Parecia que mirava uma formiga ou contava quantos pés passavam por ali e se concentrava neste cálculo mental.

- Acho que não te peguei

de surpresa, né? Não estou bem com o meu ‘eu’, e acho que, parte disso é por divi- di-lo assim, todo. Não sei

mais o que ‘eu quero’, existe

o que ‘queremos’, o ‘nós’, e

só. Sinto falta de pensar ‘eu’

e

de ouvir ‘você’.

Pauso, respiro.

Respira.

- Todos chamam “ve-

nham cá em casa” ou per- guntam “viram tal filme”? Ontem minha tia pergun- tou se “gostávamos de uva- passa na maionese”. Res- pondi mal pra ela, falei que eu não era você, daí ela me retrucou indignada por eu não saber se você gostava da merda das uvas-passsas na maionese!

Pauso.

Continuo.

- Não é possível que você

esteja feliz assim. Um leão necessita de mais de mil quilômetros quadrados para se sentir à vontade. Acho que não estamos respiran- do. Vamos acabar morrendo

afogados, juntos.

Grande parte do drama humano vem das nossas relações, é fruto delas. Por isso que os orientais que querem atingir o enten- dimento se refugiam dos outros. E os sábios são Zaratustras, que descem em corpo, mas mantêm suas almas lá no cume da mon- tanha à prova de questiona- mentos inúteis ao seu saber. À prova de questionamen- tos inerentes aos homens, acho até que o nosso nome

científico deveria ser homo-

quaestonis. Assim eles podem viver em paz na realidade que criaram, sem esses choques-de-mundos que nos dão a sensação de

que o que fazemos, inde- pendente de como fizemos, está errado.

Continua parado, parece que esse discursinho sem- vergonha que fiz não lhe

abalou em nada. Talvez esteja pensando em algu- ma pergunta em que não irá se humilhar. Sei quanto de orgulho e fragilidade há ai dentro. Ainda assim esperava, da parte dele, resistência, luta, diálogo, revolta, até grito, apesar do lugar público. Talvez só isto colocasse razão nisso que estou fazendo. Mas como ele aparentemente hasteou a bandeira-branca, tenho que criar uma justificativa

para o nosso futuro que evaporou como se, sob a minha guarda, a chama se apagasse por vento ou falta de combustível, tanto faz. Resta um esclarecimento de minha parte, e talvez um

“Perdão” por todos os peca- dos do mundo e por ser, em vez de anjo, mulher.

Vira-se sem retirar os cotovelos dos joelhos e olha-me não diretamente, mira algo que está atrás de mim, mas o suficiente para ver que a inaptidão de amante está pintada em minha face. Depois desce um pouco e percebe que, com as unhas de uma mão, eu lasco uma da oposta.

“Você nunca fez isso”, diz.

Tenho a impressão que meus músculos faciais se contorcem, como se eu

quisesse sumir diminuindo

o rosto. Gelo e interrompo

a ação, deixando a unha

por terminar de ser aparada junta à carne.

- Nunca me deparei com

o fim, assim, tendo que

executá-lo. Perdão.

“Digo, isto com a unha, sempre foram tão bem feitas.” Relaxo e rio. Uma amarelidão me toma por completa. Ah, a unha.

“Não queria te sufocar, não era essa minha inten- ção.” Não há como contro- lar a reação em cadeia que nossas explosões causam. “Não entendo isso que você sente, não me sinto assim. ”É que você é materialista, Estou para você como o fu-

tebol ou o seu carro. “Você não é o meu mundo, ou não era, mas era o mundo para aonde eu ia me refu- giar do mundo.” Mas você é

o meu, e tenho que abdicar

do mundo para evoluir. ‘En- terre seus pais’, Buda disse e coloquei no meu Orkut.

Assume postura ereta, mas olhando para frente.

“Acho que você era o meu futuro, meu sonho. Imaginei-te grávida e ve- lha.” “Mas agora está ai, fria, dizendo coisas que deveria estar gestando há meses”. “Não tenho mais nada a fa- lar. Seu pai não vai ligar em vir te buscar de carro, né?” “Adeus.” “Tenho um futuro para editar.”

Fala isso tudo olhando para os meus joelhos, que agora tremem.

Não quero mais ficar sozinha, enjoei. Já me perdi na vastidão fria da unidade,

infinita e vaga. Uma reta

não é nada além de um traço, m esboço. Somente forma-se – formam – um plano e deste plano, formas.

Levanta-se.

Seguro em sua mão com as minhas duas. Entrelaço as três num nó-de-mari- nheiro.

Ele desata-se e some en- tre as crianças que sorvem sorvetes e saltos-altos que olham vitrinas.

Minha mãe me disse que namorar meninos mais velhos é diferente de meni- nos da minha idade. Estes, eu apenas beijava e nossos planos não iam além do fim de semana. Começar a beijar outras pessoas era um sinal de que o relacio- namento não ai bem.

Desdobro o papel que

tenho em mãos, e que não consegui passar para a dele. Leio.

PLURAIS

Hoje sejamos nós, apenas.

Sem lembrarmo-nos de um futuro

em que certamente lem- braremos

das noites perdidas destes dias

em que nele não pensá- vamos,

e vivíamos feito bichos

nos cativeiros de nós mesmos.

Hoje, estejamos nós

cientes apenas deste tempo

e um da persona do outro

que como num palco

amam-se ardentemente,

mas são estéreis.

Sem lembrarmo-nos do futuro que fantasiávamos.

Amasso e jogo no ces- to ao lado. Confirmei que uma ruptura nunca é suave. Transição é eufemismo, mudança é mudança. Ele nem olhou por uma última vez nos meus olhos.

Vou dar uma volta, de- pois ligo pro papai vir me buscar.

Queria pensar como uma menina de quinze anos novamente. É difícil ter quinze anos, mas ser pre- coce. Antes ser precoce que ser póstuma. Nossa! Nada a ver isso.

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O lugar onde

a boa Literatura

é fabricada

O lugar onde a boa Literatura é fabricada ficina www.oficinaeditora.com A Oficina Editora é uma
ficina www.oficinaeditora.com

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A Oficina Editora é uma utopia, um não-

lugar. Apenas no século XXI uma vintena de autores, que jamais se encontraram fisicamente, poderia conceber um projeto semelhante.

O livro, sempre tido em conta como uma

das principais fontes de cultura, tornou-se apenas um bem de consumo, tornou-se um elemento de exclusão cultural.

A proposta da Oficina Editora é resgatar o

valor natural e primeiro da Literatura: de bem cultural. Disponibilizando gratuitamente e-books e com o custo mínimo para livros impressos, nossos autores apresentam

a demonstração máxima de respeito à Literatura e aos leitores.

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Contos a menina que não queria crescer Ju Blasina http://www.flickr.com/photos/kohler/2076235814/sizes/l/
Contos
a
menina que
não queria crescer
Ju Blasina
http://www.flickr.com/photos/kohler/2076235814/sizes/l/

Aninha não queria cres- cer.

Estava decidida e firme nesta decisão, já não era de hoje. Todos que a conhe- ciam, conheciam também seus planos, quase que simultaneamente. Aninha definitivamente não era uma menina silenciosa. Era aquilo que os adultos cha- mam de “tagarelas” — pala- vra divertida — pensava ela, sorrindo encantada cada vez que a ouvia. E a ouvia muito!

Sua mãe era, a seu ver, al- gum tipo de super-heroína. Daquelas que saem à noite para combater as forças do mal. E ultimamente as forças do mal já não res- peitavam mais nada — não tinham hora para roubar- lhe a mãe: era noite, dia e até nos feriados — o telefo- ne tocava e lá ia sua mãe, salvar o mundo outra vez.

— Quantas vezes será que o mundo precisa ser salvo? — pensava Ana, ao ver a mãe correndo pra cá, correndo pra lá.

Por ironia ou sabedoria do destino, quem lhe fazia companhia na maior parte do tempo era a vovó: com- pletamente surda! Não era sua avó de verdade, mas a julgar pela idade e algo no seu cheiro de biscoitos, certamente, devia ser a avó de alguém — era sua “avó de aluguel”, mas tudo bem — Aninha não se importava em cuidar de vovozinhas:

— Melhor do que ter que

ficar de olho na moça do telefone — “moça do telefo- ne” era como chamava sua antiga babá — Eca, babás são para bebês! — Aninha queria ser criança para sempre, mas não um bebê, “bebês fedem”.

Havia vantagens e des- vantagens na companhia da vovó surda. Vantagem: ela nunca interrompia os deva- neios de Aninha e ainda fa- zia ótimos biscoitos e coisas de lã. Desvantagem: ela não contava estórias e Aninha adorava estórias. Como solução, começou a contar

estórias para si mesma. No início lia livros em voz alta, embora não conhecesse to- das as palavras, afinal tinha seis anos e queria ficar com nove para sempre, não com

seis:

— Com seis não se pode

andar em quase nada no Parquinho. É um absurdo!

Para tudo ela tinha solu- ção: Quando não entendia

a palavra, inventava uma

nova ou um novo signi-

ficado para aquele grupo de letras desconhecido. Às vezes apenas lia os dese- nhos. Com o tempo, passou

a

inventar novas estórias

e

desenhar seus próprios

livros. Chamavam-se: “As fantásticas estórias secretas de Aninha” — que de se- cretas só tinham o nome, pois ela contava para todo mundo.

Infelizmente a vovó pa- recia não ouvir e a mamãe

não prestar muita atenção.

A professora não lhe deixa-

va contar em aula e os ami- guinhos só queriam fazer coisas de rua. Contava para

as bonecas — seu público

mais atento.

Aninha gostava de ser alegre, de suas sardas, suas maria-chiquinhas e de fazer desenhos coloridos, mas nem sempre tinha vonta- de de sorrir. Sabia que no mundo havia dois tipos de “gentes e coisas”: As “do bem” e as “do mal”. Ela não era uma menina medrosa, só não gostava dos “do mal”, afinal eram eles que davam tanto trabalho para sua mãe e provavelmente tinham sido eles que roubaram os ouvidos da vovó.

Precisava fazer alguma coisa a respeito. Algo que só uma criança poderia fazer para mudar o mun- do e definitivamente não era crescer — disso tinha

certeza. Viu muito bem o que aconteceu a sua prima,

Silvinha, quando resolveu crescer: Antes, era uma menina meiga e feliz, ago-

ra virou uma tal de “Silvia

Maria” que não tem tempo para abraços e ainda anda

com meninos! — Ah, adul- tos!

Existiam outras razões para que Aninha não qui- sesse crescer — razões secretas que ela só revelava em suas estórias — e como até hoje ninguém havia per- guntado, ela não sabia ex- plicar direito, só desenhar.

Sentia uma coisa estranha no peito toda vez que pen- sava nisso, então, fazia um desenho e mostrava para a mãe. A mãe sempre dizia

algo como “Que lindo, filha”

e Aninha não entendia

bem o porquê. Achava que

a mãe tinha um estranho

gosto para desenhos e saia

resmungando:

— Adultos não entendem

“nadica de nada” mesmo.

A mãe respondia: — Olha a língua! — e ela até

tentava obedecer, mas olhar

a própria língua era uma

tarefa difícil! Acabava guar- dando o papel junto aos outros desenhos secretos e se emburrando pelo resto do dia.

Até que um dia surgiu a

ideia. Uma ideia brilhante! Outra delas, afinal, tinha muitas ideias brilhantes, mas esta parecia realmente

especial:

— O que é que só uma

criança pode fazer para mudar o mundo? Imaginar!

Precisava imaginar algu- ma coisa que combatesse as

forças do mal. Assim, pode- ria deixar sua mãe em casa

e trazer os ouvidos da vovó

de volta. Se sua mãe ficasse em casa, poderia abraçá-la com bastante força e, as- sim, nunca mais precisaria crescer! Se não crescesse,

a mamãe não viraria uma

vovó e a vovó não iria à parte alguma! Contariam estórias o dia todo e todos os dias. Comeriam biscoitos

e seriam felizes para sem- pre

Até mesmo no dia dos pais, quando os coleguinhas entregavam os presentes feitos na escola, enquanto

ela levava mais um daque- les “presentes idiotas” para

casa, aumentando a coleção sobre a estante, à espera de um pai que nunca vinha

Era isso: faria um pai imaginário! O mais perfeito dos pais, que combatesse

as forças do mal e ainda ouvisse suas estórias. Me-

lhor que isso: ele contaria novas e incríveis aventuras

e nunca se esqueceria do seu próprio dia.

E assim Aninha começou

o mais lindo desenho que

alguém já havia criado. Um desenho feito de sonhos, esperanças e fantasia: um desenho mágico!

Levou uma eternidade terminando o tal desenho,

escolhendo as cores certas, fazendo pássaros e flores ao redor e quando, enfim, ter- minou, correu para mostrar

a todo mundo, começando pela mãe:

— O desenho secreto de

Aninha.

Pena que naquele dia sua mãe demorou tanto

para chegar, que ela aca- bou adormecendo no sofá

a sua espera, agarrada ao

desenho. Não viu a chegada da mãe, mas se visse, não entenderia a sua reação: Ao ver o desenho que a filha segurava, já amassado, junto

ao peito, ela não disse “que lindo”. Não dessa vez.

Pegou-o, sentou-se e olhou cada detalhe com a atenção que nunca antes havia dado a nenhum dos inúmeros desenhos da filha — era mesmo um desenho especial — lágrimas rola- ram enquanto seus olhos percorriam cada traço do “desenho secreto de Ani- nha”:

Ele trazia flores e pás- saros e, como sempre, era muito colorido. Trazia também, no centro, três bo- necas de mãos dadas: uma

menina de sardas e maria- chiquinhas; uma maior, de pijamas, chinelos e longos

cabelos soltos e uma menor, encurvada, de óculos, em- bora sem orelhas. Sob elas havia plaquinhas identifi- cadoras dizendo, respecti- vamente: “aninha, mamãe e vovó” e sobre elas voava um homem de rosto borrado. Ele apresentava vastos bigo- des e capa. Carregava um par de orelhas em uma das mãos tinha e um bolo de

dinheiro na outra. Na capa estava escrito em letras grandes e coloridas “meu superpai”.

A mãe a abraçou for- te, acordando-a e naquele momento Aninha soube: “o desenho funciona!”

Sentiu-se muito feliz nos braços da mãe. Foi como se o tempo parasse.

Agora, ela nunca mais precisaria crescer

http://www.flickr.com/photos/def110/2823385328/sizes/l/

Homenagem à Luana e Stela, amigas macacas. Ju Blasina o pé de macaca
Homenagem à Luana e
Stela, amigas macacas.
Ju Blasina
o pé de
macaca

Era uma vez

Uma menina loirinha, um pouco sardenta, outro pouco tímida e “um tan- tinho" medrosa. Tá bom, bastante medrosa. Temia até as moscas — paradas! Até que num belo dia de sol foi levada por sua mãe para um passeio especial: O circo

— E seria esta uma estó-

ria feliz, não fosse por ela:

a macaca das unhas verme- lhas.

A garota viu a macaca

e a macaca viu a garota.

Não só a viu, como gamou. Queria um beijo, a qual- quer preço! A menina lá, toda encolhida no banco do circo, enquanto sua mãe

tentava persuadir a maca- ca a deixá-la em paz, até porque, cá pra nós, devia ter um bocado de micróbios, não na mãe, na macaca! A mãe era paranóica com mi- cróbios. Paranóico é como se chama alguém que cisma com uma coisa sem sentido.

E assim a menina tornou- se paranóica. Não com ma- cacos de forma geral, mas quanto a unhas vermelhas,

independente do pé em que se encontrem.

—A macaca do pé ver-

melho me pediu um beijo.

Macaca

Pediu

Pé de

macaca!

O trauma não foi beijar a macaca, foi ver bicho ves- tido de gente e convencido

disso.

Muitos anos se passa- ram e a menininha, — que já deixou de ser "inha" há mais tempo do que gosta de admitir — até hoje, não pode ver um pé de unhas vermelhas que logo sente um arrepio e pensa:

— Pé de macaca: Ahhhh- hhhh!

*baseado em uma história real. Os nomes das persona- gens envolvidas foram troca- dos para proteger a identida- de das vítimas. A macaca se chama Xita. Bem, na verdade eu não lembro, inventei este agora. Vou perguntar para a minha mãe!

Contos

(dedicado a Marcia Szajnbok, pela parceria,

e a Joaquim Bispo, o ver- dadeiro Ursinho Joca).

parceria, e a Joaquim Bispo, o ver- dadeiro Ursinho Joca). Volmar Camargo Junior ursinho Joca e
Volmar Camargo Junior
Volmar Camargo Junior

Volmar Camargo Junior

Volmar Camargo Junior

ursinho Joca

e os Pardais

http://www.flickr.com/photos/rick_leche/571461525/sizes/l/

Era um tempo difícil para os habitantes da flo- resta. Os Pardais enfiaram na cabeça que eram os me- lhores cantores do mundo, e, querendo convencer mais alguém além deles próprios, resolveram começar a can- tar nas portas das tocas dos outros bichos. Alguns nem prestavam atenção, outros se chateavam um pouco, outros ainda até achavam bonito aquela cantoria – sobretudo os gatos-do-mato, que tinham uma simpatia, digamos, ancestral pelos passarinhos. Os Pardais, coitados, até que tinham ta- lento. Mas todos cantavam cada um em seu tom, com seu timbre particular, e al- guns, tentando atingir notas mais altas que os outros, esqueciam completamente a noção de harmonia. Po- rém, um dos moradores da floresta ficou extremamente irritado com a nova mania dos Pardais: o Ursinho Joca.

Dentro de sua toca, o Ursinho Joca não fazia outra coisa senão dedicar- se à perfeição, em tudo o que fizesse. Se colhia frutas, todas eram idênticas, ou no mínimo, muito parecidas. Se roubava mel, tinha o cuidado de escolher a col- méia que dava o mel mais transparente e sem aqueles pedacinhos de abelha. Se caçava animaizinhos as- sustados, e esses tinham motivos de sobra para morrerem de medo, Joca os preparava com muito zelo, deixava-os impecavelmente

limpos e penteados para, só então, abocanhá-los. E

ainda, se chegava o inverno,

o Urso Joca tinha de dormir

os exatos noventa dias, nem

um dia a mais ou a menos.

Foi justamente num in- verno desses que os Pardais empoleiraram-se à entrada

da caverna do Ursinho Joca, quando ainda lhe restavam vários dias até a primavera. Obviamente, o metódico Urso saiu de lá muito, mui- to contrariado. Sem perder

a compostura, porque era

um ursinho muito polido, parou diante dos Pardais, endireitando os óculos na

ponta do focinho redondo

e preto. Em um instante,

arquitetou um plano para voltar a ter paz.

Como não sabia falar pardalês, nem se deu ao trabalho de falar com os

cantadores. Foi direto até o oco de árvore onde morava

a Professora Coruja, para

tomar umas aulas do dito idioma. Depois de aprender

o suficiente para se co-

municar, era um cursinho instrumental de sessenta horas, o Urso Joca foi tomar umas lições, imaginem só, de canto e teoria musical com o Maestro Cigarra. Como o assunto era demais interessante, deixou o curso trancado para voltar assim que resolvesse um assunto com uns certos passarinhos.

Retornou à sua toca. Para chamar a atenção dos Par-

dais cantadores, Joca pôs-se

a cantarolar e a assoviar,

como os passarinhos, que finalmente ficaram quietos. Assim que percebeu que

estavam prestando atenção,

o Urso parou de cantar e

entregou a cada um deles um caderno de partituras. Como aprendeu bem o par- dalês, ensinou aos Pardais

tintin-por-tintin a notação musical, todas as escalas e os acordes maiores, meno- res, em sétima dominante

e em sétima diminuta.

Arriscou-se até a organizar

com os pardais um coral de três vozes. Assim, Joca pode voltar para sua caminha, e dormir os tantos dias que ainda faltavam à hiberna-

ção daquele ano.

Joca não ficou menos irritadiço com as imperfei- ções alheias, nem com as suas. Mas, quando a pri- mavera chegou e ele saiu para dar o primeiro passeio depois dum longo sono, se

bem que interrompido no meio de um sonho, sentiu- se muito bem quando ouviu os Pardais se arriscando a compor umas músicas eles mesmos a partir das pre- ciosas dicas que ele trouxe do Maestro Cigarra. A vida dos habitantes da floresta não ficou menos difícil, mas certamente ficou bem mais suportável: os Pardais agora, queriam mostrar a todos que, além de serem os me- lhores do mundo, também tinham muita noção de teoria. E a música deles até que ficou bem melhor.

Contos

Contos Volmar Camargo Junior a última fada 38 SAMIZDAT setembro de 2009
Volmar Camargo Junior
Volmar Camargo Junior

Volmar Camargo Junior

Volmar Camargo Junior

a última fada

dedicado ao Henry, à Denise e especialmente

por muitos anos, mas desde que abandonou sua terra natal, fugindo como uma criminosa pelas formidáveis muralhas mágicas da Cidade Argêntea, suas premonições não eram mais as mesmas.

à Bia, a última fada

A fuga das fadas da Cida- de Argêntea deixou a popula- ção em pânico. Sabia-se que tempos difíceis viriam; era inevitável. Nenhum dos cris- tais mágicos restou na Torre do Tempo. As tempestades, a fome, as feras, a discórdia e a morte, coisas desconhecidas do Povo de Prata, atingiriam aquele fabuloso país-cidade. Sem as fadas, que eram as únicas capazes de ouvir e interpretar os cristais, mesmo os habilidosos Senhores do Tempo não passavam de fa- zedores de truques. A última esperança dos poderosos era em uma criança-fada cha- mada Anaxya. Mas um dia, como seria de imaginar se os Senhores da Torre do Tempo fossem dados à imaginação, sua última esperança fugiu.

Se ela não fosse encontra- da, a Cidade Argêntea pas- saria a ser um lugar como todos os outros.

***

 

O

sol já se pusera, mas

um fiapo de luz baça ainda entrava pela ampla porta de pedra. Os braços nus arrepiaram-se ao toque da brisa. Sabia que permanece- ra naquele lugar por tempo demais. A relva que cobria como um manto as costas

da colina baixa onde ficava

o

edifício decrépito ainda

estava molhada – e caminhar no barro é como traçar uma linha entre o perseguido e o

perseguidor. Uma última vez, antes que a claridade acabas- se por completo, desenrolou

o

trazia oculto na faixa em sua cintura. Assim que Anaxya descobriu a minúscula esfera de cristal, ouviu o canto que lhe era tão familiar, audível somente aos de sua raça.

pequeno embrulho que

 

A

memória de sua infân-

cia, da infância de seu espí- rito, de todas as suas vidas e das vidas de todas as criatu- ras estavam naquela canção. Admirou-a, e desejou ficar presa naquele instante para sempre, deleitar-se com a aurora do mundo e a dança dos sons do Universo em sua cabeça. Mas a jovem sabia que esse era um dos muitos prodígios da pedra, que não

Anaxya acordou-se de um sono estranho, e percebeu que anoitecia. As ruínas onde se refugiara foram uma pro- teção segura para a tempes- tade daqueles dias, mas não seria em hipótese alguma empecilho para o faro de seus perseguidores. Sua intui- ção fora uma guia confiável

Foto: Henry Alfred Bugalho

era boa nem má, mas era pe- rigosa. Teve de impor a sua vontade à da jóia para não ser fascinada. O que preci- sava naquele momento era a visão do caminho que deve- ria seguir, e só conseguiria

tal visão se dominasse a jóia.

E isso ela sabia fazer com alguma proficiência.

O que Anaxya não sabia era a importância do lugar onde estava.

Assim que proferiu as palavras secretas que abri- riam os olhos de sua mente,

e isso dependia mais dela

própria que do cristal má- gico, Anaxya percebeu uma ligeira modificação no ar, nas paredes, no teto, em um cír- culo do qual ela era o centro. Era como se estivesse mer- gulhada em um fluido. Podia se mover, mas não era como antes. Sentiu-se lenta como num sonho, irresistivelmente letárgica, e sustentar-se em pé ficou impossível. Sentiu-se caindo, mas era como se flu- tuasse, ficando mais e mais na horizontal, e os olhos fecharam muito devagar. A esfera de cristal escapou-lhe pelo vão dos dedos e caiu no chão como uma gota na su- perfície intacta de uma bacia cheia d’água. Com a queda, tudo dentro das ruínas se consumiu num clarão.

Os perseguidores da criança-fada encontraram com alguma facilidade a trilha deixada por ela até as

ruínas. Era um lugar agou- rento, proibido às pessoas comuns pelos Senhores do Tempo, mas proibido sobre- tudo às fadas. Era uma sede dos cultos antigos, quando o Tempo não existia e as fadas eram as soberanas. Mesmo

amedrontados, os dois caça- dores seguiram colina aci- ma e viram o grande domo, chamuscado como que por um incêndio arrasador. Bem no centro, encontraram os poucos pertences de Anaxya, carbonizados. E, junto deles, as duas metades de um pe-

queno globo de cristal.

***

— Essa é uma história muito bonita, Tom.

— Gostou? E você não vai

me perguntar o que aconte-

ceu com a fadinha fujona?

deixa eu

— Hmmmmm

adivinhar: o caminho que ela devia seguir não era no Mundo Mágico, mas na Ter- ra. Então, seu espírito de fada caiu na Terra, e ela renasceu em uma linda cachorrinha que mora em South Harlem. Pelo latão do McDonnald’s! Você já contou essa história um zilhão de vezes!

— Você fala como se não gostasse de ouvir

que eles chamam aniversário. Eles dizem que até eu tenho um, mas eu nunca entendi

isso direito. Eu, ele e a chefa vamos tirar umas fotos. Quer

dizer

eu vou junto. Querem vir?

— Não, não. Gracias. A

gente vai ficar por aqui mesmo. Daqui a pouco vai passar o carro do correio, e a gente quer desempatar isso hoje.

Eles vão tirar fotos, e

— Ok. Até.

— Tchau, Bia. Adorei a coleira nova.

Depois que o trio com- posto por Bia e o casal de humanos que a acompanha- va se afastou, Tom e Rocky voltaram a confabular.

— Será que ela esqueceu tudo mesmo?

— Olha. Não sei. Mas

enquanto isso, a gente fica de

olho nela.

— Eu, por mim, preferia

que ela não lembrasse de nada, nunca mais.

— Eu também. Até tenho

saudades de casa. Mas eu adoro Nova Iorque.

pô,

— Olha! É o carteiro!

— Pega! Pega!

— Ei! Quieto! Ela tá vindo

aí! – cochicha Rocky, disfar- çando-se todo. – Oi, Bia! Vai passear?

— Oi, pulguentos! O chefe

tá de folga hoje, uma coisa

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O lugar onde

a boa Literatura

é fabricada

ficina www.samizdat-pt.blogspot.comwww.revistasamizdat.com www.oficinaeditora.com
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Contos

O Pergaminho Esquecido

Contos O Pergaminho Esquecido Henry Alfred Bugalho Para Denis da Cruz 42 42 SAMIZDAT setembro de
Henry Alfred Bugalho Para Denis da Cruz
Henry Alfred Bugalho
Para Denis da Cruz

42 42

SAMIZDAT setembro de 2009

SAMIZDAT setembro de 2009

http://farm1.static.flickr.com/26/58422505_ae7945b41d_o.jpg

Kzar parou diante da bifurcação na trilha da montanha e refletiu.

Por doze meses, ele per- correu o mundo em busca do pergaminho esquecido:

havia enfrentado bandidos, gigantes, dragões, feiticei- ras e necromantes. Or- ganizando as peças deste quebra-cabeça sem fim, tentando encontrar a pista definitiva, que lhe indicas- se o paradeiro da relíquia.

O último adversário

— um elfo negro — só revelou o que sabia após tortura. Kzar, sempre um nobre combatente, não se reconhecia nos méto- dos que tinha de utilizar. Para alcançar seu objetivo, tinha de jogar o jogo dos inimigos.

nha

No cimo da monta- — o elfo murmu-

No cimo da monta - — o elfo murmu -

rou, enquanto sua vida se esvaía junto ao sangue que jorrava dos membros decepados — É lá que está o que busca.

Mas agora Kzar estava diante dum impasse — a bifurcação na trilha da montanha. Um dos ca- minhos levava para cima, para o cume, para onde ja- zia o pergaminho, o outro levava para o vale, para a cidadela, para onde mora- vam sua família e amigos.

— Doze meses! — Kzar

arfava — Doze meses longe

dos que amo! Vale a pena tanto esforço por causa dum mero rolo de papel?

Esta era a pergunta que ele se fazia desde o pri- meiro dia em que partiu em viagem. Não sabia qual era o conteúdo do perga- minho, mas os boatos di- ziam que quem o possuís- se dominaria céus e terra, seria louvado pelas nações, sua fama seria eterna.

— Vale a pena? — Kzar

repetiu, e sua voz retornou em ecos pela imensidão. Veio-lhe à mente o rosto

da esposa e dos filhos:

Lívia faria aniversário em poucas semanas e Kalel já deveria estar aprendendo

o

manejo do arco com

o

avô. Recordou-se dos

anos que se refugiou nos pastoreio, para escapar de

seu destino de guerreiro. Mas não se pode fugir de

sua natureza, ele concluiu,

e viu mais sangue nestes

últimos meses do que em toda sua vida pretérita. Mesmo que eu jamais ob- tenha o pergaminho, meus feitos serão cantados pelos vates. Derrotei os mais te- midos oponentes, pisei nos territórios mais longín- quos, vi coisas que outros olhos não sobreviveriam para ver — Basta! — Kzar se decidiu — Voltarei para os meus.

O herói desceu a mon-

tanha e chegou à cidadela.

Foi saudado com festivi- dades nunca vista antes naquela região.

Kzar retornou à vida pacata, dos dias sem sur- presa, mas de afeto e

conforto. No entanto, todas as noites, após seus filhos terem ido dormir, após ter amado sua companhei- ra, Kzar subia ao sótão e narrava suas histórias em pergaminhos que seriam encerrados num baú.

Numa destas histórias, ele narrou a decisão dian- te da bifurcação na mon- tanha, mas, apenas desta

vez, ele optou pela trilha do topo e dos perigos que guardavam o pergaminho esquecido, dos monstros que enfrentou lá em cima

e da grande glória obtida.

O que Kzar não poderia

esperar é que, um dia, du- rante uma faxina, sua es- posa encontraria o manus-

crito e, impressionada com

a história, a mostraria ao

sábio da cidade, que leva-

ria ao Duque, que, por sua vez, ordenaria a impressão

e encadernação daquela

história em códices.

Kzar jamais havia visto ou conquistado o perga- minho esquecido, mas a história que ele escreveu conquistou os ouvidos e corações de todos os po- vos e, hoje, ela é até mais conhecida do que a lenda do pergaminho: as aventu- ras de Kzar são contadas nas praças públicas, para crianças antes de elas irem dormir, nos teatros e nos salões da corte.

A imaginação venceu

o pior dos inimigos — a

realidade.

Contos

Contos Do Reino da Carochinha Simone Santana 44 44 SAMIZDAT setembro de 2009 SAMIZDAT setembro de

Do Reino da Carochinha

Simone Santana
Simone Santana
Contos Do Reino da Carochinha Simone Santana 44 44 SAMIZDAT setembro de 2009 SAMIZDAT setembro de

44 44

SAMIZDAT setembro de 2009

SAMIZDAT setembro de 2009

http://www.flickr.com/photos/cuppini/2291627023/sizes/o/

Havia uma menina que catava afli- ções em jornais e esperanças em pape-

lões. Nestes, ela reciclava estrelas que lhes pousavam escondidas durante a noite, e enfeitavam as paredes de zin- co, seu dossel de caixote, sua cama de plástico. Havia essa menina e havia nela, menina, muitos sonhos, catados aqui e acolá, que aprendera em frente

à TV que via na loja de eletrodomés-

ticos, nos livros velhos que encontrava, nas luzes vivas que a fitavam. De pés descalços menina. Sem ter que ter, sem ter que vestir e comer. Sonhava com sapatinhos, um vestidinho, com uma rendinha só, um bordadinho, o teci- do podendo ser de chita. Essa menina sonhava. O Sonho se compadeceu dela

e sonhou dia e noite sem parar até vi-

rar realidade. Desceu um homenzinho muitas léguas e subiu outras tantas até o reino da Carrocinha onde a menina catava aflições em jornais e esperanças em papelões. Comprou seus pés descal- ços por duas centenas de notas reais lá do reino da Carochinha, e, puxando-a pela mãozinha, subiu léguas, desceu algumas, e chegou até onde os pés se confortam. Fez-lhe festa, na menina. O homem grande, a mulher grande, o menino, outra menina. Que tinha que lavar, passar, cozinhar, sem provar. Em troca um sapatinho, um vestidinho com um bordadinho, sendo o tecido de chi- ta. A menina já não catava papelões em

que fazia estrelas, jornais em que colhia angústias. O senhor Sonho, de bom ou mal, foi fenecendo. Cabelinhos brancos,

já nem suspiro à noite. Soninho pesado

de dar dó. Boquinha aberta. A menina

dos olhos verdes, que tudo via, se enrai- veceu do Sonho, e o acordou com um safanão. Fez de novo sonhar a menina, mesmo que ela já não fizesse questão. Sonhou então o senhor Sonho no cere- brinho dela e ela cogitou na idéia de uma casa grande, espaçosa, onde pudes-

se gozar seu vestidinho, seu sapatinho.

Bateu na porta uma mulher cheirosa, em um dia de chuva, e a convidou con- sigo levando. Em troca a menina teria que ser muito carinhosa. Tanto carinho dava e recebia que a menina já não se dava conta de que crescia, e de que já não era menina. Era só flor murchan- do dia a dia sufocada de tanto cheiro estranho, apertos de noite e de dia. A menina dos olhos verdes se enraiveceu novamente, resgatou o sonho que fugia.

A menina moça florinha desceu léguas,

subiu algumas, e chegou sozinha ao reino da Carrocinha, onde voltou a co- lher angústias em jornais e esperanças em papelões, dia, noite, noite, dia.

Contos Guilherme Augusto Rodrigues arrependimentos Foram certeiros, assim tudo retomou a paz e alegria de
Contos
Guilherme Augusto Rodrigues
arrependimentos
Foram certeiros, assim
tudo retomou a paz e
alegria de outras épocas.
Bateu a porta e saiu
raiva, exaurida, já se en-
contrava na chácara com
os dois filhos, um casal.
casa se tornarem insu-
portáveis.
Ele estava arrasado,
havia acabado de brigar
com a mulher. O casa-
mento não ia bem. Per-
deu a beleza, a alegria e a
vida. E vieram sucessivas
brigas, sem explicações,
sem soluções.
Devia ser o começo do
fim. A mulher furiosa de
O marido sozinho em
casa pensativo. Refletiu
sobre suas atitudes, como
tem agido. Não tem sido
bom nem para a mulher,
nem para os filhos e nem
para si. Durante esses
últimos anos acumu-
lou coisas desagradáveis
e que em outra época
condenava. Fez a vida da
família e o ambiente em
Resolveu subir ao
sótão, lugar em que guar-
daram durantes anos as
lembranças, objetos de
valor pessoal de todos e
outras velharias. O apo-
sento estava empoeira-
do, cheirando a mofo e
muito bagunçado. Numa
rude mesinha de madeira
pegou um porta-retrato,
tirou a sujeira e desa-
cobertou uma foto de
http://www.flickr.com/photos/blackbutterfly/3347334602/sizes/l/

quando eles ainda namo- ravam. Esqueceu-se de

como o sorriso e olhos dela eram lindos e que se mantêm até hoje. Ainda pode lembrar do dia em que os viu pela primei- ra vez como se fossem ontem; foi na fila do cinema, encantado com

a beleza e o jeito dela,

apostou com os amigos que a beijaria. Costuma- va dizer que os olhos e o sorriso foram a fagulha que acendeu esta grande chama que agora luta para se manter.

Perto da janela, em

uma estante, encontrou

o Juvenal, um ursinho de

pelúcia, que há algumas

semanas costumava ficar no quarto, na penteadeira. Foi o primeiro presente que deu a ela. Mudado de lugar há pouco tempo

e já se esquecera. Tam-

bém nem lembrava que foi o primeiro presente. Cida mantinha um cari- nho especial com ele que hoje está sujo.

Abriu algumas gave- tas da estante, encontrou alguns brinquedos da sua infância: soldadinhos de chumbo, índios, caubóis, carrinhos e mais uma porção. Achou sua cole- ção de selos e de moedas que começou a colecio- ná-los desde pequeno e agora estão bagunçadas, sem o menor cuidado.

Uma lágrima escorreu de um olho ao ver que

deixou de ser aquele me- nino tão angelical e cheio de vida. Outrora poderia ver beleza nas menores coisas. O mundo era sempre novo, o seu quin- tal e vivia brincando por todas as partes. Adorava

o bosque a alguns minu-

tos da sua casa de infân-

cia e ali se perdia na sua

imaginação e sonhos.

Num armário encon- trou, esquecido, o álbum de casamento. Como aquele dia foi feliz para ele. Os dois estavam sor- ridentes e cheios de vida. Cida mantinha a mesma beleza de quando casou,

porém, ele deixou de perceber.

Continuou a vasculhar

o cômodo. Cada lem-

brança, uma agulhada no coração. Pensou que não valia nada. Traiu a famí- lia e enganou a si. O que estava fazendo?

Cida e as crianças estavam na chácara. Os pequeninos, que antes não escondiam o desa- pontamento, já descon- traídos brincavam com os animais. Cida veio pensando pelo caminho na sua adolescência, o primeiro e único namo- rado, momentos felizes, brigas e tristezas. Logo, o casamento.

Olhou ainda pensativa

para os filhos brincando,

a chácara, o jardim, o po-

mar, a casa, tinha empre-

go estável, um bom carro. Foram conquistando tudo com muito esforço, mas, o que significa? Algum valor? Quantas vezes teve de se segurar. Não era mesmo o que tinha sonhado. E um enorme

vazio tomou conta de si.

Estava amargamente arrependida. Não haverá mais tristezas. Deixou os filhos e voltou para casa para encontrar seu mari- do.

Ele já estava pronto para ir para a chácara e recomeçar. Já fazia planos para uma viagem, uma férias em família. Dispos- to a mudar.

-Que bom que volta- ram! Ia atrás de vocês. Desculpe, querida, estou muito arrependido -disse com lágrimas no rosto, visivelmente abatido.

-Eu também estou!

Deu dois tiros de es- pingarda no peito dele. Agora sim abatido. Ela não podia dizer que nunca o amou, mas esta- va arrependida. Cansada dessa vida.

Sorria.

Dois tiros certeiros, as- sim tudo retomou a paz e alegria de outras épocas. Bateu a porta e saiu

Contos

Esmeralda, Jade e rubi

Esmeralda, Jade e rubi

48 48

SAMIZDAT setembro de 2009

SAMIZDAT setembro de 2009

Contos Esmeralda, Jade e rubi 48 48 SAMIZDAT setembro de 2009 SAMIZDAT setembro de 2009 José
Contos Esmeralda, Jade e rubi 48 48 SAMIZDAT setembro de 2009 SAMIZDAT setembro de 2009 José
José Espírito Santo

José Espírito Santo

http://www.flickr.com/photos/gagilas/1669499737/sizes/l/

Em tempos que já lá

vão, num país que fica muito, muito longe, vivia

o homem que sabia qua-

se tudo. Como ele sabia muitas coisas, as pessoas faziam-lhe imensas per- guntas. E ele respondia sempre com as respos- tas certas. As pessoas ficavam muito admira- das com tal sabedoria - chamavam-lhe o Senhor SABE TUDO.

Sabia quantos são dois mais dois e quarenta mais sessenta e até mil milhões mais mil mi- lhões. Sabia os nomes de

todos os rios e aves e pei- xes e animais. Conhecia todas as terras, todos os príncipes e reis e rainhas

e princesas.

Ele vivia numa peque- na casa feita de pedra que ficava no cimo do monte e tinha para com- panhia um gato branco de longos bigodes, um cão pequeno de pelo cur- to, castanho e um papa- gaio amarelo. Era peque- nino, com cara redonda,

barba comprida e um grande nariz. Falava baixo

e estava sempre sorriden-

te, parecia muito feliz.

Quando as pessoas chegavam para fazer per- guntas o cão dava saltos, erguia as orelhas e dizia

“ão, ão”, o gato corria para esconder-se e o papagaio gritava alto e bom som

“Ó da casa, ó da casa”.

Nesses tempos que já lá vão e país que fica muito, muito longe vivia também um Rei forte

e poderoso. Ele habita-

va um palácio belo e grande no cimo de uma alta montanha. E era tão grande, mas tão grande o Palácio, que tinha (ima- ginem) dez mil e uma salas.

Existiam salas para as várias estações, e a da Primavera, bem colorida

e alegre, destacava-se pela sua beleza. Existiam as

salas dos sentimentos e a da Amizade era de todas

a mais bonita. Existiam também salas para a

maior parte dos animais

e plantas conhecidos.

Apesar de serem mui- tas as riquezas e mara- vilhas, a maior alegria do velho Rei eram as suas três filhas, às quais tinham sido dados no- mes de pedras preciosas. Esmeralda, a mais velha

possuía olhos verdes e longos cabelos negros e era como o silêncio da noite e a elegância da garça. Jade, a do meio, pequenina, de cara re- donda e olhos brilhantes,

enchia de alegria toda a casa. Rubi, a mais nova

e preferida do pai, tinha cabelo vermelho e olhos pequenos azuis claros.

O tempo passou e as

princesas mais velhas casaram – primeiro Es-

meralda, depois Jade. Só faltava a mais nova. Por

fim, a vez dela iria chegar

e

marcou-se o baile para

o

primeiro dia de Verão.

Viriam pretendentes dos mais variados pontos do mundo. Todos estavam entusiasmados ocupando- se com os preparativos.

Era noite e chovia

muito lá fora. Ao longe ouviam-se os sons dos trovões e podiam ver-se os relâmpagos. De repen-

te, bateram à porta: Toc, toc, toc. Era uma velhinha vestida com um manto

cinzento. E estava molha- da. Debaixo do capuz, os olhos eram negros como duas grandes azeitonas. A pele era enrugada. Pediu que lhe dessem uma sopa

e um pouco de pão e a

abrigassem ali até ser de manhã.

O Rei, que não esta-

va muito bem disposto nesse dia porque a sua equipa de futebol tinha perdido, recusou a ajuda. Ora, acontece que a velha era nem mais nem me-

nos que uma bruxa má e poderosa. E logo ali fez o seu feitiço:

“Como não quiseste ajudar-me, vou tirar-te aquilo que mais gos- tas. Mas irei dar-te uma oportunidade: Todos os anos, no primeiro dia vi- rei aqui à tua porta fazer três perguntas. Se conse- guires responder certo a todas elas, então devolve- rei a tua filha querida.”

E, dizendo isto, largou uma risada e desapare- ceu. O Rei mandou cha- mar Rubi mas, por mais que procurassem em todas as dez mil e uma salas, não conseguiram encontrar a princesa.

Ficou inconsolável e mandou arautos a to- dos os pontos do reino. Quem soubesse onde se encontrava a princesa receberia dez mil moedas de ouro. Ao fim de dois meses, todos voltaram sem novidades. O baile foi cancelado e o velho rei passou a viver quase não saindo da sala da Tristeza.

O tempo passou até que chegou a primeira noite de inverno. O som forte da chuva foi inter- rompido pelo bater no portão: Toc, toc, toc. Era

a bruxa e fez saber que

estava ali para as pergun- tas. Quando o rei chegou

e não conseguiu respon-

der, ela não quis saber dos choros e pedidos. Disse: “Para o ano que vem estarei outra vez. Por isso, prepara-te”

O Rei, não sabendo

bem o que fazer, man-

dou chamar todos os

seus conselheiros. Mas as ideias que eles apresen- tavam eram más. Deses- perado, mandou chamar

o Bobo da Corte. Como

toda a gente achava que

o bobo era muito burro,

ele era o único que ainda não tinha sido consulta- do.

“Senhor, uma prima da minha mulher ouviu falar de um homenzinho muito sábio. Lá na ter- ra todos lhe chamam o

Sabichão. Talvez ele possa

ajudar”

O Rei, que já tinha

tentado tudo o que podia, decidiu que não custava nada tentar mais aquela solução. Enviou os emis- sários para trazer o sá- bio. Dois dias depois, ele chegou.

Esperava um senhor de lunetas e ar importan- te. Por isso, quando viu

o anão de cara rosada

a rir, acompanhado do

pássaro, do cão e do gato, perguntou ao conselheiro

se tinha a certeza, se era mesmo aquele o sábio.

Mas acalmou-se quan- do soube do plano que iriam seguir. Passaram-se os dias e o Rei já não

estava tão triste pois

acreditava que a ideia iria funcionar. Finalmente, chegou a altura, a noite das perguntas e, quando

a velha tocou, o Sabichão,

vestido com vestes de

criado foi abrir a porta.

“Onde está o teu se- nhor?” disse a bruxa

“O meu senhor está na cama, doente. Mas man-

dou que viesse eu respon- der às perguntas. Se não te importares…” disse

o Sabichão

A bruxa desconfiou um pouco mas olhou para o aspecto do ho- mem. Com o cão e o gato e o papagaio empo- leirado no ombro. Parecia um boneco. De certeza que não ia conseguir responder. Então mostrou um pequeno saco e fez a primeira pergunta

“Estás a ver este saco? Quero que me digas quantos grãos de areia estão dentro dele”

O Sabichão olhou para

ela e disse: “Está bem. Mas para isso vou ter de lhe pegar”. Tirou o saco das mãos da velha

e abriu-o. Então, encheu

a mão uma, duas, três

vezes, atirando a areia para o chão. Finalmente, virou o saco ao contrário, despejando toda a areia restante. Respondeu

“O teu saco tinha exactamente quatro mãos cheias de grãos de areia”.

A bruxa fez uma ca-

reta. Estava contrariada. Era a primeira vez que alguém conseguia res- ponder aquela pergunta. Mas à próxima questão ele não iria conseguir responder. Perguntou

“O que é que existe

quando é escondido e desaparece quando o

mostram?”

O sabichão ergueu o

nariz e fez um ar pensa- tivo. Pensou, pensou até que disse

“Já sei. É fácil. É o segredo. Quando mos- tramos um segredo ele deixa de ser segredo”

Desta vez a bruxa fez uma cara ainda mais feia. Estava mesmo arreliada. Mas sabia que era quase impossível responder à

próxima questão. Então disse

“Se me responderes certo a esta última per-

gunta, liberto a Princesa.

E a pergunta é… O que

é que eu estou a pensar?”

Aí o sabichão deu uma gargalhada e disse

“Ora. Essa é muito fácil. Estás a pensar que eu sou um criado do Rei. Mas não sou. Eu sou o sabichão do reino”

Nesse mesmo momen- to, a bruxa desapareceu como que por artes má- gicas e apareceu no seu lugar a princesa. Estava mais bela que nunca e muito feliz porque tinha sido salva ainda a tempo de ver a novela das sete.

O sabichão foi premia-

do com um baú cheio de moedas de ouro e foi no- meado “Conselheiro Mor” do Reino, o que significa “conselheiro mais impor- tante do reino”.

O baile realizou-se

exactamente no primeiro dia do verão e a princesa conheceu o príncipe dos seus sonhos. Seis meses depois, casaram e foram de lua-de-mel para as Caraíbas.

Contos as a maranthas Sheyla Smanioto Macedo http://www.flickr.com/photos/xlight/828445191/sizes/o/
Contos
as a
maranthas
Sheyla Smanioto Macedo
http://www.flickr.com/photos/xlight/828445191/sizes/o/

Quando ainda não nos preocupávamos em conter o tempo em am- pulhetas, caos e ordem se imbricavam na tessitura do mundo que, por isso, ainda cabia na Poética- palavra do Primeiro Criador. Hoje, porém, as palavras sussurram entre si, segredando, a falibili- dade da pretensa Ordem imposta pelos aparatos tecnocratas dos Elfos Me- nores e eu, que as ouço dizer, devo contar a você.

Elfos Menores têm um vazio em forma de sensatez: toda vez que os dentes de um Vampiro cravam em um pescoço élfico, para levá-lo da vida à não-vida, nosso mundo se confunde com o dos Vampiros – per- demos um Nobre para ganhar um nobre-amaldi- çoado.

Criaturas feitas do caos na união de extremos dicotômicos, valeram-se dessa intimidade para controlá-lo pela ordena- ção em tempo-palavra:

diz-se que, escondido no espaço que há entre as palavras e as coisas, construiu pequenas má- quinas capazes de sonhar uma ordem e impô-la ao mundo.

São ampulhetas cujos grãos, que na inércia se ordenam, retornam ao caos e se reorganizam conforme a dança de quem as sacode: suspen-

sos os limites entre-coi- sas, mergulham o mundo numa correnteza sem- tempo em que as coisas se confundem, indefiní- veis, para com sua força defini-las.

Dizem, em palavras que só o vento pode levar, que são quatro as ampu- lhetas que, com sua força, são capazes de mover o tempo: chamamo-las de Amaranthas. Quatro para um equilíbrio perfeito; quatro para que se mude

o tempo sem deixar me-

mória

Na ausência de uma das ampulhetas, falhas se espalham pelo plano,

e ele pode ser percebido,

tal qual o vidro-trincado que se deixa perceber. Três ampulhetas dese- quilibram um círculo cuidadosamente plane- jado e arquitetado. Duas ampulhetas nada fazem sem que os olhos Maio- res os vejam. E uma ampulheta nada mais é do que uma ampulheta. Quatro ampulhetas: uma para cada Raça Maior, ou as quatro para um único Elfo Menor. O que as Amaranthas mudam, uma Amarantha retoma. Se são quatro, a ampu- lheta maior. Se forem três, a ampulheta errante. Se forem duas, a errante maior.

Resolvemos confiar as Amaranthas a almas boas de elfos preparados

e escolhidos pelo próprio

Conselho Supremo, au- toridade maior entre os elfos; quatro, um da cada Raça Maior élfica, para guardar, controlar e utili- zar, caso fosse preciso, as Amaranthas.

Eis que fora criada ‘A Ordem das Amaranthas’:

de 49 em 49 anos, os re- presentantes sacerdotais de cada uma das quatro grandes linhagens élficas se encontrariam para atualizar o tempo divino

no mundo pela apresen- tação dos escolhidos para os Endeusados e para os demais sacerdotes.

Deixaríamos os anos

passarem sem que os demais habitantes de Nea conhecessem a existência dessas ampulhetas, por- que poderiam ambicioná-

las, ou enlouquecer sobre

a idéia incontestável de

que não passavam de fagulhas de caos ordena- das ao sabor de quem as pode dominar.

Fechou-se, então, um contrato entre os céus

e os sábios Elfos, que se

comprometeram a con- trolar essa maldição. Esconderíamos as quatro ampulhetas, para que aos Elfos Maiores coubesse usá-las; e torceríamos para que as usassem com sabedoria, ou que, com mais sabedoria ainda, não as usassem. Mas não foi bem assim que as coisas fluíram

Contos Léo Borges u m lugar para viver O silêncio de uma noite amena no
Contos
Léo Borges
u
m
lugar para viver
O silêncio de uma noite
amena no Monte Kofa, sudo-
este do Arizona, Estados Uni-
dos, era novamente cortado
por estampidos penetrantes.
Com as folhagens das árvo-
e perspicaz não encontrava
defesa contra armas de fogo
de cruéis caçadores e seus
cães farejadores. Os pares
da linhagem accipitridae já
haviam sido dizimados e de
res próximas sacudidas pelos
tiros, o terror mais uma vez
entrava pelos ouvidos sensí-
veis daquela criatura.
sua espécie ela era uma das
únicas em Sonora.
das colinas era um pouco
mais de pânico para suas
asas carregarem. Seu porte
nobre e magnânimo cedia
lugar a um semblante de
ave comum, e isso a irritou
profundamente.
Outrora caçadora de
subsistência, a onipotente
aquila chrysaetos se via agora
encurralada por assassinos
frios, que a desejavam apenas
como um portentoso troféu
empalhado, da mesma forma
como já haviam feito com
outros de sua família. Ainda
que aquele fosse seu habitat,
um lugar de paisagens belas,
não obstante considerado
hostil pelos invasores, lhe es-
capava motivos para perma-
necer. Seu espírito guerreiro
Voou. Um voo longo e
sem rumo. Não sabia para
onde ir, apenas queria fugir,
encontrar um lugar que a
acolhesse. Sentia-se agora
como uma de suas presas,
perdizes ou pequenos lagar-
tos, que corriam assustados
quando viam a sombra ágil
planando por perto. O mer-
gulho da ave de rapina era
uma morte quase certa para
qualquer um desses seres. No
entanto, agora era ela quem
experimentava a sensação
de fragilidade e medo. Cada
quilômetro que se afastava
Lembrou-se do que certa
vez um camaleão, que fora
uma de suas refeições, lhe
havia dito pouco antes de
virar almoço: “Você não pas-
sa de um pombo rupestre!
Queria ver se manteria essa
pompa numa cidade como
Nova York! Lá você morreria
de fome, pois na Big Apple
as aves comem pipoca dos
turistas e você não teria
uma única lagartixa para se
servir!”. De certo foram as
últimas palavras do réptil
audacioso, mas que feriram
fundo a ave de garbosa penu-
gem amarronzada.
http://www.flickr.com/photos/brianscott/1465695576/sizes/o/

“Ora! Comparar-me com um pombo! Uma ave repug- nante, primo em sexto grau que vive à mendicância nas metrópoles!”. Aquela pito- resca conversa com o bicho gelado voltou com força em sua mente. Se pássaros tão inferiores se adequaram a tal situação desfavorável, por que ela não conseguiria

passar por semelhante mime-

tismo?

Decidiu que iria voar milhares de quilômetros em

direção à costa do Atlântico

e que se estabeleceria exa-

tamente na chamada Capi- tal do Mundo. Não sabe se seria algo inédito em termos ecológicos, mas se os homens invadiam seu território para

caçar indiscriminadamente, por que ela não poderia fazer

o inverso? O caminho era

longo e extenuante, porém,

parques, indústrias, shoppin- gs, fumaça e barulho. Tudo lhe parecia muito estranho, ainda mais quando viu mul- tidões de humanos andando de um lado para o outro, como formigas operárias. Enfurnados em veículos em autovias ou entalados dentro de trens e ônibus, eles fer- vilhavam no solo; foi nessa hora que a ave agradeceu a natureza por suas asas. “De- vem estar felizes”, pensou a águia, sem muito crer. “Mas, se vivem bem nesse caos, por que alguns se desgarram e

vão nos matar lá nas monta- nhas?”. Viu letreiros lumino- sos com as palavras coloridas “burguer” e “grill” e estas informações a fizeram juntar as peças: “então, essas pessoas comem vacas e bois assados, mas não águias”.

O pensamento intrigou a