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Composto e Impresso nas Oficinas da CASA PÜBUCADOBA BATISTA Rua Silva Vale, 7S1 — Tomaz Coelho — Rio

LIVRO

DE

AMÓS

A. R Crabtiee, Th- D.

1 9

6 0

CA SA PTJBLICADORA BATISTA

Caixa Postal

de

320

Rio

Janeiro

ÍNDICE

Páginas

P r e fá c io

7

Introdução

Amõs de T e c o a

10

O Preparo para o Seu M in istério

12

A Chamada de A m 6 s

13

A Religião de Israel desde Moisés até o Tempo de

D

a v i

15

A Influência de Davi na R eligião de Israel

17

Característicos

da

Profecia

antes

de

Amõs

.

.

20

As

Condições

de Israel no Período

de

Amõs

e

 

O

s ê ia s

23

O

Fracasso da Religião de Israel

 

25

O

Livro de Amõs

 

28

O

Estilo Literário de Amõs

32

A

Teologia de A m õ s

34

A

m ó s

 

Texto, Exegese e E x p o siç ã o

 

47

 

I.

Oráculos contra as N a ç õ e s

 

47

II.

Três

Sermões

sôbre

o Destino

de Israel

 

72

III.

Uma

Série

de Visões,

a

Controvérsia

com

 
 

Amasias, o Pim do Ministério de Amõs, Epí­ logo

141

Pregações sôbre o Livro de Amõs

 

A

Vocação de Amõs

 

187

O

Julgam ento

D iv in o

191

O

Apêlo ao Senso M o ra l

192

A

Religião Meraimente

Cerimonial

e

a

Religião

V

erd a d eira

 

194

O

Encontro Inevitável com D e u s

 

195

Privilégio

e

R

196

Buscai-m e e V

esp on sab ilid ad e iv e i

197

O Rio Perene da J u s t iç a

 

198

A Visão de D e u s

199

^prefácio

Ê ste

comentário

foi

preparado

para os

pastores

e

das

verdades eternas das profecias do Velho Testam ento.

apresentar ©s eleimen-

tos básicos no estudo crítico do texto, da exegese e ex­ posição do hebraico e do vaior hom ilético da profecia.

O estudo crítico do texto do Velho Testam ento e s­

A obra representa

pregadores

que

desejam

o

aprofundar-se

de

no

estudo

esfôrço

sendo feito à luz da descoberta de novos manuscritos,

e

o novó conhecim ento da Arqueologia e da .H istória

A

ntiga, com entusiasm o e proveito. A s descobertas .ar­

queológicas nas ruínas de Sam aria verificam e escla­

recem condições sociais de Israel no período de Jero-

boão

O leitor notará como a tradução do hebraico da

profecia pelo aútor varia freqüentem ente das versões em português, especialm ente na form a presente de mui­

tos verbos na poesia, pois o tem po do verbo hebraico

principalm ente pelo contexto, e não sim ­

plesm ente

profecia é representada na form a poética em português, sem qualquer esfôrço de aperfeiçoar a sua form a poéti­ ca. A crítica, a exegese e a exposição apresentam-se, versículo por versículo, seguindo logo a versão do he­ braico .

pela form a gram atical. A poesia hebraica da

é determinado

23,

discutidas por A m ós.

Devido à repetição de certos ensinos do profeta, como de qualquer bom pregador, há tam bém repetições destas idéias no comentário, m as de pontos de vista diferentes que devem ajudar no melhor entendimento

cada

vez m ais im pressionado com o valor eterno de seus en­

sinos, e da sua aplicação universal.

A form a do comentário é a m ais sim ples possível

da m ensagem .

No

estudo

desta

profecia,

fica-se

para facilitar a leitura e o estudo da m ensagem . A Introdução é longa, m as apresenta informação sôbre

o ambiente histórico da profecia canônica e de vários

A .

R .

CRABTREE

outros assuntos relacionados com a vida, o caráter e a m issão de Amós, os seus ensinos teológicos e éticos e

o seu lugar na história da revelação divina. São poucas

as abreviações: RSV,

KJV,

The Revised

Standard

Version;

The King James Version;

SBB,

Socleãaãe Bíbli­

ca

do

Brasil.

Preciso reconhecer m ais um a vez, como em todos os meus outros livros, a valiosa colaboração da minha

incansável companheira, D . Mabel,

preparo da Obra para a im prensa. E lim itado » número dos leitores de uma obra des­ ta natureza, 'mas é oferecida aos pastores e pregado­ res evangélicos do Brasil c Portugal que tém poucos comentários em português, na esperança de que seja de valor aos seus estudos, e ao seu ministério na ins­

na leitura e no

trução do seu povo na exposição das verdades eternas dêste m ensageiro poderoso do Senhor, divinamente ins­

não som ente aos seus contem porâ­

pirado par'a falar

neos da Palestina, m as para todos os povos do mundo, em tôdas as épocas subseqüentes da história.

Rio

i

de

Janeiro,

15

■.

de Abril de

A.R.

1960

Crabtree

in tro d u ç ã o

A obra de Amós é a mais antiga das profecias escri­ tas que leva o nome do escritor. O seu ministério no rei­ no de Israel, na primeira metade do século oitavo antes de Cristo, foi o princípio de uma nova época na história da religião. Amós inaugurou o ministério dos profetas

canônicos que transmitiram ao povo as eternas verda­ des da revelação divina que orientavam os fiéis na reali­ zação do eterno propósito do Senhor na eleição de Israel. W. H. Robinson declarou em uma das suas obras que

o ensino ético dos profetas do Velho Testamento repre­

senta o maior passo no progresso do homem. Os ensinos ricos e profundos dos profetas sôbrè o caráter e o pro­ pósito de Deus na história prepararam os fiéis para so­ breviver à destruição nacional, e ao exílio da sua terra. Na maravilhosa providência divina, êstes fiéis voltaram

para a sua amada terra em ruínas, para preservar e trans­ mitir as Escrituras da revelação divina. Os estudantes criteriosos do Antigo Testamento e da história humana reconhecem o profeta Amós como um dos grandes homens do mundo . Observou Comill: “Amós

é um dos mais notáveis homens na história do espírito

humano.” A grandeza do profeta de Tecoa manifesta-se na esfera espiritual e moral da humanidade. O conceito da ética apresentado na mensagem de Amós relaciona-se direta e intimamente com o caráter revelado do Senhor Javé, o Deus de Israel. Esta ética bíblica é mais com­ preensiva, mais profunda e mais firme do que o sistema filosófico das responsabilidades morais do homem, de­ senvolvido pelos gregos, três e quatro séculos depois do

tempo de Amós.

10

A.

R .

CRABTREE

Amós de Tecoa

Como todos os grandes reformadores religiosos, Amós era produto e também representante da sua época. En­ quanto as fôrças e influências da história contribuem poderosamente na formação do caráter do homem, elas não podem oferecer uma explicação dos dons e talentos dos homens de gênio. Inatos são os característicos dis­ tintivos de qualquer pessoa, mas é o poder da persona­ lidade dtí homem de talentos superiores que introduz nò mundo novas fôrças para o desenvolvimento da históriá

e da cultura humana. Como o primeiro dos profetas ca­

nônicos, Amós apresentou ao mundo os princípios eter­

nos da justiça que contribuem para o desenvolvimento e

a preservação da cultura religiosa em tôdas as épocas da

história. O ambiente físico, há providência divina, influenciou

e

o

sa e austera, pouco habitada, ao sul de Belém, conhecida como o deserto da Judéia. Nos lados dos outeiros e nos vales tortuosos havia pastagem escassa, apenas para um número limitado de ovelhas. Tecoa, a aldèia de Amós, nove quilômetros ào sul de

Belém, foi uníi dos ltigarés fortificados por Roboao para

à proteção de Jerusalém (II Crôn. 11:6). Com a eleva­

ção dé 920 metros, servia dè lugar para tocar trombeta,

e assim transmitir sinais e anúncios ao povo (Jer. 6:1).

Era tecoíta a mulher sábia que, ao pedido de Joabe, per­ suadiu ao rei Davi que permitisse a volta de Absàlão, seu

filho desterrado, para Jerusalém (II Sâm. 14) . Mate tárde, tecoítas ajudaram na reconstrução dos iriüros de Jerusalém (Neem. 3:5,27). Foi, então, um lugar bem conhecido e de alguma influência, antes do tempo de Amós. Separada e silenciosa, a aldeia contribuiu para o desenvolvimento dos poderes de observar e refletir de

caráter, e até os ensinos teológicos de Amós. Êle viveu

trabalhou como pastor na região montanhosa, pedrego­

O

homens como Amós.

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DE

AMÕS

11

A aspereza física de Tecoa reflete-

se no caráter robusto de Amós, e ajudou no seu preparo para entender è interpretar a justiça divina pára com o povò infiel. A sua linguagem vigorosa refíèté âs experi­ ências da vida comò pastor e observador das leis da na­ tureza física. A linguagem figurativa do profeta reflete a sua ex­ periência como pastor. Êle tinha ouvido o bramido do leão,quando pegava a prêsa. Tinha visto os restinhos do animal morto e devorado ,pelas feras. Exposto ao calor do sol, e aos ventos frios da noite, o pastor conhecia a dureza da natureza física. Amós, porém, não foi homem rústico do campo, sem preparo e treinamento, como mensageiro do Senhor. Não podemos determinar com certeza como recebeu o seu pre­ paro literário. Mas o estilo rico, fulgurante e poderoso das suas mensagens mostra claramente que não era me­ ramente um homem de dons extraordinários, mas que tinha desenvolvido os seus dons de falar e escrever, ffi geralmente reconhecido que o conhecimento e o dom de falar entre os árabes e os hebreus não foràm limitados aos homens profissionais, de riqueza e cultura. Com observação cuidadosa e a faculdade de reter na memÓrià as tradições e a história transmitidas oralmente, muitos homens, sem a vantagem de unia educação fqrmal, ad­ quiriram profundo conhecimento prático da vida,. Alguém sugeriu que Amós, com a suá curiosidade intelectual, pudesse ter se encontrado freqiientemeiite çoi» as caravanas que passavam por Belém e pèrto de Tecoá, Recebendo, delas informaçõès importantes de outros paí­ ses Com o conhecimento de Israel; revelado no seu livro, e quase certo que êle tinha visitado ò reino setentrional varias vêzes antes de entrar ha sua missão prõfétícá, Ê claro que êle conhecia de perto as condições sôòiais e re­ ligiosas de Israel.

12

A.

R .

CRABTREE

O Preparo para o Seu Mtnistério

Amós possuía profundo conhecimento básico da his­ tória, de Israel. Sabia que o povo foi libertado da escra­ vidão do Égito pelo Senhor Javé, o Deus dos céus e da terra. Sabia que este povo foi escolhido para servir co­ mo nação sacerdotal entre todos os povos do mundo. Sa­ bia que o povo aceitara voluntàriamente os compromis­ sos de fidelidade ao Senhor do concêrto do Sinai que o seu Deus lhes oferecera no seu grande amor eletivo. Sa­ bia que o Senhor guiara o povo da sua escolha por qua­

renta anos através do deserto amorreus.

Com o seu conhecimento das condições religiosas de Israel, o pastor, sem dúvida, meditou em silêncio sôbre

a majestade, a grandeza e a justiça do Senhor em con­

traste com a ingratidão e a infidelidade de Israel. Pen­

sando sôbre o temperamento e a mentalidade religiosa do povo tão pervertido, o pastor, com a sua experiência

com Deus, ficou profundamente comovido. A perversão da justiça social, a avareza e a opressão cruel dos pobres,

o suborno dos tribunais da justiça, e a prostituição dos

cultos religiosos demonstraram a Amós o afastamento completo do povo de Israel do seu Deus. Usando a rique­

za adquirida por opressão e violência para subornar as instituições incumbidas de defender os direitos dos fra­ cos contra a injustiça dos ricos e poderosos, a dignidade

e ò valor do homem justo foi reduzido ao valor de um

par de sapatos. Julgando que pudesse aplacar o Senhor,

e ganhar o seu apoio e os seus favores com sacrifícios,

ofertas e festas religiosas, Israel tinha reduzido o seu Deus ao nível de um bom camarada de homens injustos, sem compreender a tolice da sua religião. Como os deu­ ses dos pagãos, o Deus de Israel existiu para servir ao seu povo, ficando subordinado aos ricos que lhe pudessem

e lheS dera a terra dos

O

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D E

AMÓS

13

oferecer os maiores sacrifícios e Celebrar as maiores fes­ tas em seu nome.

O povo egoísta assim procurava envolver o Senhor

Deus no seu próprio desprêzo da justiça e nas transgres­ sões e pecados que praticava para a satisfação dos seus

prazeres e apetites físicos. O Deus soberano dos céus

e da terra, que libertou o grupo de escravos dò poder do

Egito, e lhe revelou o seu eterno propósito na história pela eleição dêle como a sua nação sacerdotal, dará curso livre à sua eterna justiça. Na operação da justiça divi­ na, êste mesmo povo, injusto e rebelde, será completa­ mente destruído. Esta era a convicção abrasadora do pastor de Tecoa, antes de receber a sua chamada para entregar a mensagem dura ao povo de Israel.

A Chamada dé Amós

A chamada de Amós, bem como a sua mensagem,

relaciona-se não somente com a personalidade, os dons,

a cultura e as experiências religiosas do profeta, mas também com as condições políticas, econômicas, sociais

e religiosas do povo da época. Não há outro profeta co­

mo Amós que revele tão claramente as relações da sua mensagem com a sua personalidade e com as circunstân­ cias e condições da época. Todavia, a chamada vem do Senhor Deus da justiça, segundo a sua declaração explí­

cita, confirmada pelas verdades eternas da sua mensa­ gem .

O sacerdote hostil de Betei pensou que Amós era um

dos profetas que se dedicavam à pregação, um represen­ tante da escola dos profetas. Êstes eram pregadores de verdades morais da religião. Não eram profetas falsos, mas as suas pregações não contribuíram para o desenvol­ vimento da revelação divina que está preservada nas Es­

crituras do Veího Testamento. Amós representava um novo exemplar de profeta e

14

A.

R .

CRABTREE

pregador que o sacerdote Amásias não podia entender. Envolvido na injustiça social do seu poyo e preocupado com os seus próprios interêsses, mostrou logo a sua hos­ tilidade para com o pregador da justiça. Na experiência da chamada do profeta, êle ficou em comunicação direta com Deus. Inspirado pelo Espírito dô Senhor, ísaías viu no Templo o altar de fogo, e inter­ pretou a mensagem que proclamava ao povo de Judá. Aniós teve uma série de visões e, com o esclarecimento do Espírito do Senhor, êle interpretou a mensagem delas para o povo dè Israel. O pastor de Tecoa tinha a convicção firme e inabalá­ vel de que o Senhor ia lhe revelando a mensagem precisa para o povo de Israel naquele tempo. O fato de que está revelação concordava perfeitamente com as suas próprias observações e o seu raciocínio intelectual não diminuiu de maneira alguma a certeza absoluta de que o próprio Senhor estava falando ao povo de Israel por seu inter­ médio . Nenhum dos profetas teve mais certeza do que Amós da sua vocação divina. Êle declara positivamente: “O Senhor me tirou de após o rebanho, e o Senhor me disse:

Vai, profetiza ao meu povo Israel” (7:15) . Profetiza é a ordem do Senhor para o pastor. Recebe, entende e transmite ao povo de Israel, áo povo do Senhor, o orá­ culo, a, palavra de Deus. Tudo isto se encerra na pala­ vra hebraica, profetisa. O profeta declara ao inimigo Amasias: “Eu não era profeta, riem filho de profeta, mas pastor do meu rebanho e cultivador de siçômoros, quando recebi a ordem clara e positiva do Senhor.” Assim, de­ clara que não tinha vindo da escola dos profetas, mas da presença do Senhor. Não tinha recebido nenhum treina­ mento na música, nem na dança para induzir à êxtase . Receberá a mensagem bem còmo a ordem de proclamá-la, diretamente do Deus de Israel, o Senhor dos céus e da terra. É governado pela lei divina, de causa e efeito,

O

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AMÕS

15

o raciocínio intelectual, orientado e dirigido pela Inteli­ gência Suprema. Não buscara a incumbência de profeta. Pelo contrá­ rio, o Senhor Jãvé tomou a iniciativa, e lhe deu a incum­ bência de entregar a mensagem divina ao povo de Israel Não podia resistir à ordem do Senhor:

“O leão rugiu, quem não terá mêdo?

.

O Senhor falou,

quem não profetizará?”

(3:8) .

Não podia deixar de falar das coisas que tinha visto e

ouvido. Na sua dependência da revelação divina o pro­ feta reconheceu a profunda significação da profecia. “Certamente o Senhor Javé não fará coisa alguma sem revelar o seu segrêdo aos seus servos, os pro- fetas” (3:7).

A Religião de Israel desde Moisés até o Tempo de Dm%

Para entender o lugar de Amos em relação com a profecia hebraica, é necessário considerar ligeiramente ps característicos principais do movimento profético des­ de o tempo de Moisés. Os hebreus nunca puderam se es­ quecer por completo de que o Senhor os tinha libertado da sua miséria no Egito e os escolhera como o seu povo peculiar. O majestoso mensageiro do Senhor, Moisés, orientador do povo no período da formação, despertou nêle a inesquecível esperança de que o Senhor havia de guiar o povo da sua escolha no cumprimento da missão predeterminada. Ã luz das descobertas arqueológicas e do novo conhecimento dá história, é geralmente reconhe­ cida agora a veracidade da narrativa bíblica sôbre a li­ bertação do grupo de escravos hebreus do Egito, e a sua formação, sob a liderança de Moisés, como a nação sacer­ dotal entre os povos do mundo. O mundo deve a Moisés, o homem de Deus, a lei moral dos Dez Mandamentos, e a religião monoteísta do Senhor Javé, Criador e Controla­ dor dos céus e da terra.

16

A.

R .

CRABTREE

Desde o Monte Sinai o povo escolhido vacilou na sua fidelidade religiosa, mas se manteve mais ou menos fiel àp seu Deus no tempo de Moisés e Josué. Mas, éomeçan- áo no período dòs Juizes, os hebreus incorporavam cana- íieus, e adotavam vícios da sua civilizáção, incluindo ele­ mentos e práticas da religião fácil e irresistivelmente atraente na moralidade menos rigorosa. Enquanto o es­ critor de Juizes reconhecia os numerosos desvios morais do povo, ele mantinha o conceito fundamental da religião de Israel e as promessas do seu Deus. Podia haver perío­ dos, dè degenerescência política e religiosa do povo, mas

o Senhor nunca abandonaria o povo da sua escolha. Mas

gradualmente as relações religiosas dos hebreus para com os eananeus se tornaram tão complicadas que não pude­ ram ser perfeitamente esclarecidas, atê séculos depois,

à luz dos ensinos dos profetas canônicos.

Através de todos os períodos da história, desde Moi­ sés e Josué até à época de Amós, o grupo dos fiéis man­ teve a sua fé firme e vigorosa no seu Deus. Não perdeu

a coragem, nem a certeza da vitória final do propósito

do Senhor na escolha do seu povo. O cântico da poétisa

e estadista Débora revela o perigo das condições políti­

cas « religiosas na falta da unidade das tribos contra o inimigo, como também o fervor e a fé no triunfo final daqueles que amam e confiam no Senhor.

“Assim pereçam, Senhor, todos os teus inimigos. Mas aquêles que te amam sajam como o sol quando sai na sua fôrça” (Jui­ zes 5:31). Os eananeus, representando vários povos, não fica­ ram unidos contra os israelitas, e êste fato facilitou o estabelecimento das tribos, mais ou menos independentes, na terra. Mas quando os filisteus, bem treinados na or­ ganização militar, entraram na terra, com o propósito de subjugar os habitantes e tomar posse da Palestina, os

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AMOS

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feráèlitas i^conhecéram a necessidade imperiosa de se ünirèm contra o inimigo perigoso. Depois de duas vitó­ rias dos filisteus e da morte do juiz Eli, surgiu rapida­ mente o sentimento em favor do, estabelecimento da mo­ narquia.

campanha

dè educação religiosa, e persuadiu o povo a tirar dentre êles os baalins e asterotes, e a preparar o coração para

o serviço do Senhor. Com êste preparo Israel ganhou a

famosa vitória de Ebenézer. O movimento político de uni­ ficar as tribos para combater os filisteus, sob a orienta­

ção do profeta Samuel, apelou a tôdas as tribos, e re­ sultou no avivamento da fé de Israel. Nem todos os mais nobres concordaram na escolha de um rei, mas prevaleceu o desejo da grande maioria

do povo, e a nova forma do govêrno foi estabelecida, com

O juiz-profeta Samuel fêz uma vigorosa

á

esperança dos fiéis de que o rei sempre seria para êles

o

representante fiel do Senhor. O profeta Samuel, com

mêdo da opressão dos reis, opôs-se à fundação da monar­ quia, mas continuou o seu ministério profético. Apoiou a escolha de Saul como o primeiro rei de Israel. Depois de ganhar algumas vitórias importantes para o seu povo,

desobedeceu à ordem de

Samuel, ficou desmoralizado na perseguição de Davi, c„ finalmente, morreu tragicamente no Monte de Gilboa. Saul conseguiu reter os filisteus na Palestina cen­ tral, e deixou ao seu sucessor Davi a responsabilidade de subjugar os filisteus e outros inimigos de Israel, e de de­ senvolver o seu povo numa grande e poderosa nação.

o rei, perturbado pelo

ciúme,

A Influência de Davi na Religião de Israel

Homem segundo o coração do Senhor na sua vida re­ ligiosa, Davi revelou-se como grande general na subju­ gação dos filisteus e de vários outros,povos em redor. Davi revelou os seus multiformes taleotqs conio: organi?-

L.

A.

2

18

"•A."1R . CRABTREE

zadoi estadista de visão e como homem profundamente religjoso, apesar das suas^fraquezas ;• A conquista da fortaleza dos jebuseus e o estabelecimento da capital po­ lítica e religiosa em Jerusalém, tiveram uma influência; poderosa e permanente na história do povo. À submissão de Davi à revelação do Senhor, por intermédio do profe­ ta Natã, contribuiu notàvelmente para o desenvolvimen­ to religioso de Israel. Davi- resolveu edificar uma casa para a habitação do Senhor (Sal. 132). Comunicou o seu desejo ao pro­

feta Natã que lhe deix logo o seu apoio,

consultar o Senhor, o profeta induziu o rei a deixar a obra para o seu filho. Mas em virtude do nobre propósi­

to, o rei. recebeu a promessa histórica de II Samuel 7:

11-15. Alguns pensam que a história do incidente foi escrito algum tempo depois de Davi, e embelezada pela imaginação do escritor. Comentando sôbre esta opinião, A. B. Davidson diz- “Em tôda a história da religião da humanidade, não há nada que possa ser comparado com

a obra profética em Israel.” 1 “Também o Senhor te declara que êle mesmo te fará uma casa. Quando fôrem completados os teus dias, e viéres a dormir com teus pais, então farei levantar o teu filho depois de ti, que sairá das tuaã entranhas, e estabelecerei o seu reino. Êle edifi­ cará uma casa ao meu nome, e eu estabelecerei pa­ ra sempre o trono do seu reino. Eu lhe serei pai, e êle me será filho. Se êle cometer a iniqüidade, castigá-lo-ei com a vara de homens, e com os açoi­ tes dos filhos do homem, mas o meu amor fiel ( h&sed) não tirarei dêle, como o tirei de Saul, a quem afastei de diante de ti” (II Sam. 7:llb-15) . Ô zelo religioso de Davi culminou na construção do Templo pelo seu filho Salomão. Resultou também ha

mas depois de

O

' LIV R O ' D E

AMÓS

19

produção de üma vasta literatura:de louvor ao Senhor nos Salmos, e teve grande influência na pregação dos profetas. Apesar das falhas e fraquezas de Davi, o seu reino acentuou o conceito de que o remo de Israel era

tipo do reino perfeito de Deus. Permaneceu na memória de Israel a idade áurea do reinado de Davi, e o profeta Amós, com a severa condo-, nação da apostasia do povo da época, ainda esperava que

o Senhor levantaria o tabernáculo caído do grande rei. A

influência de Davi na literatura profética é indicada pela

menção freqüente do seu nome, muitas vêzes com referên­ cia à promessa davídica: 87 vêzes nos Salmos; 10 em Isajas e 15 em Jeremias ; 4 em Ezequiel; 1 em Oséias; 2 em Amós; 6 em Zacarias. Não obstante as influências benéficas de Davi, duas fôrças contribuíram, no período do seu govêrno, para o progresso do baalismo. A religião dos povos subjugados por êle aumentou a influência e o desenvolvimento dêste baalismo, enquanto êste recebia apenas algumas influên­ cias da religião dos israelitas, O declínio moral e espi­ ritual de Davi foi influenciado pelo ambiente, e o exem­ plo dêle enfraqueceu as fôrças da religião do Senhor. Salomão, com as suas fabulosas riquezas e o seu poder ditatorial, diminuiu ou apagou o serviço dos pro­ fetas, e êle afastou-se gradualmente dos ideais democrá­ ticos e religiosos do seu povo. Com a ópressão política,

e a introdução de várias formas de paganismo na côrte,

êle preparou ò caminho para a divisão do reino, com a paganização cada vez mais poderosa dòs reis e do povo! A divisão do reino não produziu os bons resultados que os profetas e os fiéis esperavam. Os dois reinos fica­ ram enfraquecidos e mais sujeitos ao perigo da conquista pelos inimigos mais fortes. As alianças geralmente pre­ judicaram mais do que ajudaram os dois reinos. As guer­ ras entre Judá e Israel e as freqüentes revoltas nò reino de Israel sempre resultaram no enfraquecimento da- fé

A .

R .

CRABTREE

religiosa do povo. Potica importância tinha a religião, fora da política, para os reis dos dois reinos, com algu­ mas nobres exceções entre os reis de Judá. Quando Onri fêz aliança política com Tiro, por meio do casamento do seu filho Acabe com Jezabel, êle intro­ duziu no reino de Israel o baalismo fanático de Melquart de Tiro e o conceito da autoridade absoluta do rei. Jeorão rei de Judá, casoü-se com Atalia, filha de Acabe e Jeza­ bel, e assim levou a influência dêsse novo baalismo cor- rutor ao reino de Judá, A revolução de Jeú, na sua brutalidade cruel, con­ seguiu exterminar o baalismo importado de Tiro, com o

sacrifício

para purificar a fé de Israel da corrução do baalismo ca- naneu, tão severamente condenado mais tarde pelos pro­

fetas Amós, Oséias e Outros . Jeú fói muito além do

con­

selho dos profetas no método cruel de exterminar o ba­ alismo. Exterminou oS homens experimentados no go- vêrno, enfraqueceu o reino, e tinha que pagar tributo ao rei da Assíria por alguns anos. Nada conseguiu fazer para purificar è fortalecer a fé dé Israel no Senhor Javé.

Os profetas canônicos censuraram as injustiças e as in­ fidelidades da dinastia de Jeú mais severamente do que os profetas tinham censurado os reis da dinastia de Oriri.

do prestígio político de Israel,

mas nada fêz

Característicos da Profecia antes de Amós

Os maiores profetas do período desde Moisés até Amós, Samuel, Elias e Eliseu eram defensores corajosos do Senhor Javé, o Salvador de Israel, o Deus de justiça e misericórdia. Êstes, juntamente com muitos outros pro­ fetas do período, tinham à profunda convicção de que o Senhor os tinha chamado para defender e manter as ver- dadês divinas reveladas por intermédio de Moisés ê das experiências históricas de Israel com o seu Deus. Perma­ neceu em grande parte a influência do baalismo do pe­

O í.LIVRQ

DE

AMÓS

n

ríodo dos Juizes. Na conquista da Palestina por Davi, Os cananeus forara integrados como israelitas, com ce­ rimônias e práticas imorais da sua religião, gradualmen­ te reconhecidas pelo povo em geral como elementos da religião de Israel. É difícil de se avaliar a proporção da influência do baalismo sôbre os profetas dêste período, mas é geral­ mente reconhecido que 0 frenesi e as atividades físicas de alguns dos profetas, no reinado de Saul, representam algumas das influências dos cananeus, Estas influências exteriores não se harmonizara perfeitamente com a ope­ ração direta do Espírito do Senhor na consciência e na inteligência de Moisés e dos profetas canônicos. Êstes verdadeiros mensageiros do Senhor eram pastores do seu povo, Preocupados com os perigos das guerras com os inimigos,.êles não chegaram a entender tão claramente, como os profetas canônicos, que a fé de Israel não podia depender das fôrças políticas, Mas, perturbados pelos perigos políticos, êstes homens de Deus lutaram denoda­ damente para preservar a fé do seu povo. Os profetas Elias e Eliseu representam a luta de vida e morte entre Israel e o novo baalismo. Finalmente conseguiram eliminar, por intermédio de Jeú, o sangui­ nário, o baalismo de Melquart, mas 0 baalismo dos ca­ naneus, bem enraizado na vida do povo, ainda exercia a sua influência nos dois reinos, como se entende claramen­ te pelo estudo dos profetas canônicos.

Não houve distinção entre os cananeus subjugados e absorvidos pelo reino de Davi e os próprios israelitas. Assim não é possível determinar as superstições e as práticas religiosas que o povo de Israel recebeu dos ca­ naneus misturados com os israelitas. Mas o profeta Oséias nos declara que os israelitas não sabiam que os frutos que

ofereciam

de

Israel. Elias e Eliseu, com a reforma conseguida pór inter­

a Baal

eram

recebidos

do

Senhor

Deus

22

A.

R .

CRABTREE

médio de Jeú, não conseguiram eliminar a corrução que

finalmente levou à destruição o reino político de Israel,

e finalmente o de Judá. Êstes profetas se apresentaram

como reformadores, como também todos Os profetas sub­ seqüentes. Dedicaram o seu ministério ao esforço de eli­ minar as influências corrutoras do baalismo, proclaman­ do ao mesmo tempo os princípios da democracia e da jus­

tiça do Senhor Javé, o Deus de Israel . Elias entendeu cla­ ramente que os ideais da autoridade e do poder do rei, introduzidos por Jezabel, podiam destruir por completo

o

conceito de que o rei de Israel era o agente do Senhor

e

que 0 seu govêrno representava, embora imperfeita­

mente,-o reino de Deus na terra. Assim como o profeta Natã teve a coragem de confrontar o rei Davi com o pe­ cado de adultério ê assassínio, Elias condenou severa­ mente õ roubo e a morte de Nabote por Acabe. Segundo

o ponto de vista de Jezabel, a conselheira do marido, isto

não era pècado, e sim o direito absoluto do rei soberano de roubar e matar em favor dos seus próprios interêsses. Não obstante as imperfeições da reforma dos profetas Elias e Eliseu, os princípios da justiça do Senhor que êles pregaram são os mesmos que se encontram nas pro­ fecias canônicas, no seu maior desenvolvimento. Os pro­ fetas canônicos, em geral, lembrando-se das atividades políticas de Elias e Eliseu, perderam a confiança nos reis como representantes do reino do Senhor na terra. A revolução política orientada por Elias e Eliseu, e executada por Jeú (II Reis, caps. 9 e 10), representa o resultado do trabalho religioso e político dêsses podero­ sos profetas por alguns anos. Êles conseguiram colocar no trono de Israel a dinastia de Jeú que governou no período da decadência religiosa de Israel. Na sua crueldade brutal Jeú exterminou o baalis­ mo importado de Tiro, mas pouco se interessava na pu­ rificação da religião de Israel, fora da sua influência po­

lítica. Mais tarde Amós e Oséias e outros profetas con­

O

LIVRO

D E

AMÓS

23

denaram severamente o baalismo eananeu dó período da dinastia de Jeú. Jeú fracassou miseravelmente como re­ presentante do reino do Senhor Javé. Os profetas ca­ nônicos procuraram oferecer conselhos aos reis mas, com raras exceções, os reis não se incomodavam com a reli­ gião profética.

e

As

Condições Sociais de Israel no Período Oséias

de Amós

O povo hebraico teve a sua origem no ambiente de

três mil anos da civilização dos egípcios e dos mesopotâ- mios, como se sabe agora, à luz do conhecimento da Ar­ queologia e da História. A fonte principal da sua fé foi

a experiência miraculosa com o Senhor Javé no Egito,

mas o povo preservou também as tradições históricas de seus patriarcas, identificando o Todo-Poderoso de Abraãò com o Senhor Javé, o Redentor de Israel .

No século oitavo antes de Cristo, aquela parte dp

mundo conhecido no Ocidente como o Oriente Próximo

já tivera uma longa história, com várias formas de reli­

gião. A nação de Israel era ainda comparativamente no­ va entre os povos da região, mas já se ufanava de uma história notável. Lembrava-se, embora indistintamente, do seu grande libertador e estadista, Moisés, o mensa­ geiro da revelação do Senhor que a salvou das garras do Egito, e a escolheu como o seu povo peculiar, e a in* cumbiu da missão sacerdotal entre as nações do mundo. No esforço de desenvolver-se de acôrdo com os ensi­ nos religiosos e éticos, e os princípios da democraqia, re­

cebidos por intermédio de Moisés no Monte Sinai, os he­ breus tinham que lutar, desde o princípio da sua histó­ ria como povo, com as influências do seu ambiente his? tórico.

políticas da conquista da Palestina e

no desenvolvimento nacional, sob o govêrno de seus reis,

Nas

vitórias

A .

R .

CRABTREE

com pouco interêsse na religião forà da influência polí­ tica, Israel tinha sofrido um declínio social e religioso, No período de Amós o povo em geral tinha perdido a vi­ talidade da fé que havia contribuído como a fôrça prin­ cipal no seu desenvolvimento como nação. A perda do vigor religioso contribuiu também para o declínio po­ lítico, moral e social. A decadência política que seguiu a revolução de Jeú abriu o caminho para o povo aramaico da Síria, com a capital em Damasco, tomar uma parte do território de Israel (II Reis 10:32-33) e de Judá (II Reis 12:17-18) . Mas em 802 a.C. o poderoso Assírio, na campanha de expansão, tanto reduziu e enfraqueceu o poder dos sírios que Israel, no reinado de Jeoás, recapturou de Bene-Hadade as cidades de Israel que Hazael tinha sub­ jugado (II Reis 13:25), Por causa de problemas inte­ riores, o Império da Assíria tinha que abandonar, por algum tempo, o plano de conquistar as pequenas nações como Israel e Judá, situadas no seu flanco ocidental. A retirada dos assírios por alguns anos deixou Israel livre para desenvolver as propriedades reconquistadas do seu antigo inimigo, a Síria. Sob o govêrno de Jeroboão II, rei habilitado, Israel teve o seu terceiro e último período de prosperidade. Controlando os caminhos comerciais do mundo antigo, a nação se enriqueceu ràpidamente com os impostos que recebeu de negociantes de vários países. Nesse período de inatividade da Assíria, Jeroboão II, sal­ vador de Israel (II Reis 13:4, seg,; 14:26, seg.), apro­ veitou o ensêjo de aumentar o seu domínio. Numa cam­ panha agressiva, êle tomou da Síria o território antigo tíe Israel, a leste do Jordão, desde Hamate, no vale do Orontes ao norte, até ao Mar Morto no sul, capturando também a cidade de Damasco, capital dos sírios (II Reis 14:25,28). Nesse mesmo tempo da expansão de Israel, o rei de,Judá, Uzias, ia fortalecendo o reino do sul. O

O

LIVRO

DE

AMÕS

25

títmjunto dó território dos dois reinos foi o maior da história desde o tempo de Salomão. Esquecendo-se do perigo do gigante ao leste que por enquanto ficava inativo, Israel se regozijava no seu po­ der e na sua grande prosperidade (Amós), como se ti­ vesse certeza da sua segurança eterna. Como outras na­ ções da história, (Israel) chegou ao pico da prosperida­ de material pouco tempo antes da queda final. A fabulo­ sa prosperidade de Israel aumentou o seu orgulho e ar­ rogância, multiplicou as injustiças sociais, corrompeu os tribunais da justiça, honrou a prosperidade e o luxo dos opressores dos indefesos, como evidências de favores di­ vinos, enquanto julgava que pudesse ganhar os favores do Senhor com ofertas, dízimos, sacrifícios e festas reli­ giosas. Por muito tempo a decadência política e religio­ sa tinha se manifestado na vida nacional. Aumentou nes­ se período com novas influências de arrogância e hipo­ crisia.

do

declínio moral e religioso do povo desde o tempo de Sa­ lomão. Reconheceram que o govêrno opressivo de Sa­ lomão causou a divisão do reino, mas pouco entenderam as más conseqüências da divisão. Ê na literatura dos pro­ fetas do século oitavo em diante que se encontra o en­ tendimento claro das condições trágicas da sociedade e

Os

historiadores

dão

apenas

uma vaga

noção

da religião de Israel e Judá.

O Fracasso da Religião de Israel

No período de Amós Israel era muito religioso. A sua religiosidade foi uma indicação do fracasso da sua fé. O povo se ufanava de seus cultos elaborados, das suas ofertas, dízimos e sacrifícios que apresentava assi­ duamente ao seu Deus; e especialmente das festas sun­ tuosas que celebrava em o nome do Senhor. A prostituição da religião de Israel resultou do seu

26

A ,

R .

CRABTREE

conceito errôneo do Senhor Javé, o Deus de Israel. Is­ rael tinha absorvido dos vizinhos o conceito pagão do Senhor. O seu entendimento do caráter de Deus mudou-se gradualmente desde o período dos Juizes até ao período da prosperidade do reinado de Jeroboão II, quando che­ gou a aceitar dos vizinhos o conceito pagão do Senhor. Os israelitas nunca atribuíram ao Senhor Javé a imora­ lidade que os cananeus imputaram a Baal, mas julgavam que enquanto o Senhor recebia ofertas e adoração do seu povo, êle não se incomodava pela relação social entre o povo. Eram, portanto, muito zelosos na observação das cerimônias religiosas nos santuários. Traziam aos alta­ res holocausto,s, ofertas de cereais e ofertas pacíficas, de animais gordos em grande abundância (Amós 5:22). Observavam com alegria os sábados, a lua nova e tra­ ziam os dízimos de três em três dias e faziam ressoar os cânticos nos santuários (5:21, s e g .; 4:4, seg; 8:3; 5:10) . Confiavam nos seus privilégios como o povo d» Senhor (3:2; 9:7). Julgavam que o Senhor Javé, o seu Deus, estivesse sempre com êles, enquanto lhe oferecessem os holocaus- tos e as ofertas pacíficas, e observassem fielmente tôdas as festas e cerimônias religiosas para agradá-lo. A ma­ ravilhosa prosperidade de Israel era, para êles, prova ca­ bal das bênçãos e favores do seu Deus, Esperavam também o Dia do Senhor quando o Se­ nhor manifestaria a sua presença, o grande dia quando

o povo de Israel receberia a bênção especial do Senhor, e todos os inimigos seriam derrotados e subjugados à sua autoridade (5:14,18) . Para os veículos da revelação divina no Velho Tes­ tamento, e especialmente para os profetas canônicos, a devoção ao Senhor Javé, o Deus de santidade e justiça, abrange a harmonia e a comunhão espiritual com Deus

e a prática dos princípios éticos da justiça entre os ho­ mens. Nas outras religiões, a devoção aos deuses ficou

o.

LIVRO

D E

.AMÓS

21

divorciada das relações humanas . No tempo de Amós, a religião de, Israel ficou quase que completamente paga- nizada. Tôdas as manifestações da decadência religiosa de Israel, como a avareza, a soberba, a corrupção, a injus­ tiça e a hipocrisia resultaram da falta do entendimento do caráter do seu Deus. Há uma tendência moderna de se desprezar a teologia, mas a qualidade da vida religiosa resulta do entendimento do caráter de Deus . Alguns di­ zem que o homem cria a Deus conforme à sua própria imagem. É claro que Israel fêz isto, no tempo de Jero- boão II, para a sua própria destruição. Mas o Senhor Javé, Criador e Governador dos céus e da terra, se co­ municou com Amós, e os profetas subseqüentes do Velho Testamento e a revelação do caráter do Senhor que êles receberam apelam eternamente à inteligência e à cons­ ciência humana e contribuem para o desenvolvimento da justiça e da dignidade dos homens nas suas relações so­ ciais .

Ê a palavra de Deus mais aguda do que a espada

de dois gumes, que penetra até a divisão da alma e es­ pírito, e revela os pensamentos e as intenções do cora­ ção. Amós, o mensageiro do Senhor, entendeu claramen­

te a futilidade da religião cerimoniosa dos homens car­ regados de iniqüidade. Expõe com fôrça e clareza a in­ justiça de Israel à luz da justiça divina. Nesta exposi­ ção o profeta apresenta o conceito da justiça de Deus que exige a prática da retidão pelos homens nas suas rela­ ções sociais e nos seus negócios uns para com os outros.

O homem de Deus viu no esplendor da prosperidade

material do povo no remado de Jeroboão II a grande de­

sigualdade que existia entre as condições econômicas dos ricos e dos pobres. No estudo das condições nas visitas

à cidade de Samaria e ao santuário de Betei, êle chegou

a entender as condições religiosas e morais do povo, es­ pecialmente dos homens que ganharam as riquezas por

28

A

R.

CRABTREE

violência :e rapina e pela opressão dos pobres e necessi­ tados (Amós 3:10), Credores sem remorso vendiam os pobres como escravos (2:6-8) . Esmagavam os necessita­ dos e miseráveis. Usavam balanças enganosas e vendiam aos pobres o refugo do trigo. Até os juizes, responsáveis pela proteção dos fracos contra os fortes, aceitavam di­ nheiro dos ricos para tomarem decisões, injustas nas con­ tendas legais, contra os pobres (5:12) . As mulheres se mostravam tão duras e tão gananciosas e cruéis como os Jiomens. Exigiam dos maridos que oprimissem os pobres ■e quebrantassem os necessitados para adquirirem os meios de satisfazer a sua vaidade (4:1). Na vida pública, a decadência moral se manifestava abertamente nos negócios dos mais poderosos do povo. Jjstes tinham tanta influência que podiam praticar à von­ tade a injustiça sem restrição (8:5) . Desprezavam os mais nobres sentimentos humanos (2:8) . Não tolera­ vam repreensões das suas práticas. Odiavam aquêle que os reprovasse à porta e abominavam ao que falasse since- xamente (5:10) . Preocupados com a aquisição de rique­ zas e os seus prazeres, os oficiais e os ricos se mostra­ vam insensíveis à ruína do país (6:6), Ufanavam-se de poder e autoridade, e ficavam sossegados, sem pensar na possibilidade do julgamento vindouro (6:1,13) . Mos­ travam-se maduros para o castigo da justiça divina (8:

1-3),

O Livro de Amós

Amós é geralmente reconhecido como o autor do li­ vro, mas alguns críticos sustentam que várias anotações « ãdiçõès foram acrescentadas à obra por escritores sub­ seqüentes. Robert H. Pfeiffer, por exemplo, pensa que os glosadores ou comentaristas eram judeus de Jerusa­

as adiçõés entre 500 e 200 a.C. Se­

gundo a opinião dêle, êstes acrescentaram as doxologias,

lém que fizeram

O

LIVRO

D E

AMÓS

29

a passagem 9:11-15 e outros trechos. No The Interna­

tional Criticai Commentary, W. R. Harper declara:

“Quase a quinta parte do livro que leva o nome de Amós tem que ser posta de lado.” Mas os comentaristas não concordam na citação dos trechos que Amós não podia ter escrito. Julgam que as passagens foram acrescen­ tadas por razões teológicas e para esclarecimento ou de­

senvolvimento dos ensinos originais da obra. Em geral, êles começam com os seus próprios pontos de vista do entendimento e dos ensinos de Amós, e assim negam ao profeta tudo o que não concorda com êstes ensinos. Ê verdade que, em alguns casos, há indicações de estilo que favorecem a sua crítica, mas as suas opiniões são freqüentemente subjetivas. A tendência entre os comen­ taristas modernos é a de aceitar quase todo o livro como

a obra de Amós. Alguns não querem dar o devido apre­

ço à capacidade do profeta em desenvolver os seus pró­ prios ensinos. Não há base histórica, nem provas ex­ ternas, para se negar ao autor original qualquer porção

essencial do livro.

O profeta entendeu a história do povo de Israel, a

finalidade, o significado e a importância da eleição. O conceito da história e a esperança messiânica ligaram-se tradicionalmente com a finalidade e o propósito da esco­ lha de Israel« O fato de que Amós reconheceu as respon­ sabilidades espirituais de Israel na sua eleição divina não cancelou em absoluto o concêrto do Senhor com o povo.

Ê certo que o profeta não nega a possibilidade da

harmonia entre o juízo inexorável do Senhor contra o pecado e a misericórdia divina no perdão do pecador arj rependido.

“Pois assim diz o Senhor à casa de Israel:

Buscai-me e vivei” (5:4):

“Buscai o bem e não o mal, para que vivais;

30

A.

R .

CRABTREE

’ e assim o Senhor, o Deus dos Exércitos, estará convosco, como vós dizeis.

Odiai o mai, e amai

e estabelecei o juízo na porta; talvez o Senhor, o Deus dos Exércitos, tenha piedade do resto de José” (5:14-15).

o bem,

O profeta que apresentou ao povo êstes apelos, e

não há razão de se duvidar de que foi Amós, certamente

acreditava no perdão divino dos homens arrependidos.

A organização do livro é simples e clara. Tem três

divisões principais, ligadas pela unidade do plano do au­ tor. Ê provável que alguns poucos versículos estejam deslocados, ou ligeiramente modificados. Ê também pos­

sível que haja algumas poucas interpolações. Tais emen­ das não modificam os ensinos do livro, nem diminuem o seu eterno valor.

A primeira divisão abrange os capítulos um e dois.

Depois do título e dá proclamação solene da sua autori­ dade divina, o pregador denuncia as nações vizinhas de Israel, não por causa das injustiças cometidas contra o povo escolhido do Senhor, mas por causa dos crimes pra­ ticados, umas contra as outras, na violação das leis hu­ manitárias que tôdas elas não podiam deixar de reconhe­ cer. Prende o interêsse dos israelitas com a menção dos crimes de cada um dos vizinhos em particular. Condena severamente a crueldade das nações contra outros povos na guerra, como a violação de alianças e a escravização dos conquistados e várias outras formas de perversida­ de. Os israelitas podiam dar os seus apoios, enquanto o profeta condenava os seus inimigos. Ganhando o inte* rêsse e a simpatia dos ouvintes pela condenação justa de Damasco, Filístia, Tiro, Edom, Amom e Moabe, o pre­ gador da justiçá denuncia também o reino de Judá, im ã de Israel, porque tinha rejeitado a lei do Senhor e não guardava os seus estatutos. Começa cada um dêstes orá»

O

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DE

AMÔS

31

eulos com a frase, “Assim diz o Senhor”, e pronuncia o castigo divino que cada uma das nações há de sofrer,

reforçado geralmente

Os capítulos três a seis, uma série de discursos, orá­ culos do Senhor, constituem a segunda divisão. Três doa oráculos são introduzidos pela expressão: “Ouvi esta pa­ lavra” (3:1; 4:1; 5:1). As partes destes capítulos intro­ duzidas pela frase, “Ai de vós” (5:18; 6:1), podem ser consideradas como subdivisões do terceiro discurso, ou talvez como pequenas mensagens proferidas em ocasiões diferentes. Alguns pensam que a profecia escrita é o

rçsumo de várias pregações preservadas e produzidas na

forma da obra como a que temos.

pode precisar quantas vêzes o profeta prègou ao povo de Israel. Esta segunda divisão da obra trata de vários as­ suntos, sempre acentuando o pecado e a culpa de Israel. Como todos os pregadores, Amós repetia freqüentemen­ te os seus princípios mais importantes. Os argumentos geralmente terminam com a ameaça de castigo, intro­ duzida pela palavra Portanto (3:11; 4:12; 5:11). Na terceira divisão, capítulos 7 a 9:10, o pregador apresenta uma série de visões que apontam a infidelidade e a destruição nacional de Israel. A história da luta do profeta com o sacerdote Amasias de Betei, 7:10-17, se­ gue a terceira visão. Depois da quarta visão há mais outra condenação dos pecados de Israel, 8:4-14. A últi­ ma visão é introduzida pelas palavras, “Vi estar o Senhor junto ao altar.” As visões reforçam, em linguagem sim-1 bólica, os argumentos dos discursos. Segundo as primei­ ras duas visões, a destruição de Israel foi evitada pela intercessão de Amós em favor do povo. A visão do pru­ mo demonstra a perversidade nacional que merece a des­ truição completa. O cesto de frutos dé verão significa que Israel está bem maduro para o desastre. O profeta contempla finalmente a destruição dos israelitas reunidos no templo para o culto .

pelas palavras, “diz o Senhor” .

Neste

caso não se

32

A .

R .

C RA B TR K E-

O epílogo, 9:11-15, promete a restauração do taber­ náculo caído de Davi, e a renovação da felicidade do povo fiel na sua terra sob a proteção do Senhor.

O Estilo Literário de Amós

Estudantes cuidadosos do hebraico e das línguas se­

míticas têm verificado que grandes porções da profecia do Velho Testamento foram escritas na forma de poesia. Não é fácil distinguir entre a prosa retórica dos hebreus

e árabes e a sua poesia. Nota-se que o verso em hebraico divide-se em secções pequenas com uma sílaba de cada frase acentuada. O verso, ou a linha, pode ter duas ou três destas pequenas secções, ou metros. O paralelismo

de dois versos, ou de duas linhas, é a construção mais co­ mum da poesia hebraica. Quanto ao ritmo, a tendência

é para o tetrâmetro, isto é, dois versos com duas sílabas acentuadas em cada um, 2:2. O hexâmetro pode ter dois

ou três versos, 3:3 ou 2.2:2. O pentâmetro tem dois ver­ sos, com cinco sílabas acentuadas, 3:2 ou 2:3. Encon­ tra-se raramente o heptâmetro, 3:2:2. O ritmo mais co­ mum é 2:2 ou 3:3. Os poetas não se sentiam obrigados

a limitar-se a um só ritmo na poesia inteira. Há duas

qualidades de ritmo. Quando os dois versos têm o mes­ mo número de sílabas acentuadas, o ritmo é balançado. Mas os poetas gostavam de usar também o ritmo de idéias, ou de eco, fazendo desiguais o número das síla-; bas acentuadas nos dois versos, 2:2 e 3:3. O ritmo ba­ lançado é bem ilustrado no segundo versículo do primei­ ro capítulo de Amós.

“yeo-vá miç-çi-yón yis-ság u-mi-ru-sha-lám yit-tén qo-ló vea-bhelú nêóth ha-ro-ím veya-bhésh rósh hak-kar-mél. ”

O

‘LIVRO

D E

AMÓS

a»

“O Senhor ruge de Sião,

e de Jerusalém faz ouvir a suà voz;

as pastagens dos pastores choram,,

e seca-se o cume de Carmelo.”

Os escritores bíblicos gostavam de usar a aliteração na poesia, bem como na prosa, para embelezar a conbina- ção dos sons. Há três tipos de estilo literário na profecia,, usados em proporções variadas. Os oráculos, ou as mensagens proféticas, são geralmente apresentadas em linguagem poética, nas formas variadas de poesia. As paite bio­ gráficas e narrativas aparecem em forma de prosa. A prosa biográfica é representada em Amós pelas conver­ sas entre o profeta e o sacerdote, no capítulo sete e na parte introdutória das visões. Preservamos em nossa versão da profecia, através do comentário, as partes de prosa e de poesia. A linguagem de Amós é lacônica, incisiva,, direta, vigorosa e freqüentemente cintilante. O estilo, como no caso de todos os profetas, adapta-se ao sentimento do autor e ao seu ensino da justiça entre 03 homens. Re­ vela-se no livro não somente 0 talento literário do autor, como também a grandeza do seu espírito e da sua men­ sagem . As ilustrações são escolhidas dentre as experi­ ências do pastor, dentre as observações inteligentes da natureza, e dentre os característicos dos homens. O carro* cheio de feixes, 0 rugido do leão com a prêsa, os restan­ tes do animal que 0 pastor tira da bôca do leão, a ave* caída no laço, os estragos do gafanhoto e do fogo devora­ dor são exemplos das figuras que usa com destreza e en­ tendimento . Êle descreve nitidamente as fraquezas hu­ manas, o egoísmo, o orgulho, a injustiça, e a crueldade de homens e mulheres, no desprêzo da dignidade da pes­ soa e dos direitos do pobre. Tem conhecimento prático

Si

L.

A.

3

a ; r . GKABtfKEE

dos princípios básicos de argumentação'. Diz R. H. Pfeif- fer, na Introduction to the Old Testament:

“A sua grandeza como pensador religioso e re­ formador é igualada pela sua capacidade extraor­ dinária de escritor. Com a exceção de Isaías, nas . peças mais excelentes, nenhum dos profetas hè- breus é igual na pureza da linguagem e na simpli­ cidade clássica do estilo.” Nos oráculos contra as nações, nos discursos e nas visões, o profeta demonstra conhecimento profundo de princípios retóricos. Amós é mestre no uso da linguagem ém transmitir ao povo os seus ensinos que tinha recebido

do Senhor. Declara Julius A.

Bewer, na The Literature

óf the Old Testament:

“Notamos com grande surpresa o estilo literário de Amós. Todos os seus discursos são apresenta­ dos em linhas cadenciosas e claras, geralmente em estrofes. Na exaltação do espírito do profeta as palavras correm de seus lábios na regularidade rít-

ç mica . Com Amós o poder poético combina-se com a perícia retórica. ”

A' Teologia de Amós

NènhUm escritor bíblico apresenta na sua obra li­ terária uma teologia sistemática mas todos êles eram teólogos. Do ponto de vista do desenvolvimento da teo­ logia, a mensagem de Amós é de importância especial, fi a mais antiga de uma série de obras religiosas que se destacám na literaturá do mundo. Pelo estudo cuidadoso da profecia, fica-se cada vez mais impressionado com* as siias verdades de etèrno valor e de aplicação universal. Entende-se mais claramente a teologia da profecia no ambien té histórico da sua produção, em contraste com <os conceitos teológicos do povo da época. A teologia.de

O

LIVRO

DE . AMÓS

35

Amós é de valor permanente justamente porque se apre­ senta para reforçar os seus ensinos éticos, É o primei­ ro dos grandes profetas que lidavam com os problemas religiosos relacionados com o declínio e á queda da reli­ gião de nacionalismo. Até hoje o nacionalismo é a reli­ gião principal de multidões de pessoas. Antes de apresentar os ensinos teológicos, propria­ mente ditos, apresentamos, primeiro alguns dos ensinos do profeta que ficam arraigados na teologia. O profeta revela a sua convicção profunda de que Deus se relacio­ na com a vida humana. O seu conceito de Deus é o re­ sultado da sua comunhão entranhada com o Espírito do Senhor. A religião verdadeira não pode ser divorcia­ da das circunstâncias da história e da vida social entre os homens. A mensagem dêste homem de Deus visa não somente as opiniões falsas e o fracasso da religião do povo em geral, como também os sentimentos perversos nas práticas dos reis ê dos sacerdotes que se interessa­ vam em justificar e agradar ao povo com o pleno apoio dos cultos cerimoniais de opressores e ladrões.

O profeta expõe com clareza, sem mercê, a teologia

falsa dos seus contemporâneos que produziu a corrução moral de Israel como nação. Demonstrou a perversida­ de e a hipocrisia da religião que procurava comprar os favores do Senhor por meio de ofertas, dízimos e festas, com o privilégio de continuar no desprêzo da dignidade humana das suas vítimas e na abominação do Senhor Deus da justiça.

seguintes doutrinas

teológicas de eterno valor.

O profeta

Amós

dá ênfase às

(1)

O seu conceito ão Senhor Javé. Não resta mai

dúvida de que o profeta era monoteísta. Mas esta decla­ ração não expressa o profundo conceito que êle teve do Criador e Controlador (9:5-6). No exercício da sua von­

tade, Javé põe em movimento os céus em cima e o mar embaixo (5:8-9). Como explico no comentário, é geral­

36

A .

R .

CRABTREE

mente reconhecido agora que Amós é o autor dos cânti­ cos 4:13; 5:8-9; 9:5-6, que põem ênfase na majestade do Senhor, mas a grandeza e a glória de Deus são reco­ nhecidas através da profecia nas atividades e nas mani­ festações do seu poder e autoridade.

O Senhor Javé se apresenta como o Deus da his­

tória. Maravilhosa como fôsse esta doutrina no oitavo século antes de Cristo, ela não se originou com Amós. Revela-se no propósito da eleição de Israel, no Monte Si­ nai, como nação sacerdotal entre as nações do mundo. O goal da história é o estabelecimento do reino de Deus entre todos os povos do mundo, O esquecimento, a ne­ gligência, e a falta de dar a devida importância à sua nobre missão, foram o maior fracasso do povo escolhido i

Mas o Senhor Javé, nas suas atividades na História, não é limitado pela escolha de Israel. Se o Senhor trou­ xe Israel do Egito, trouxe também os filisteus de Caftor e os sírios de Quir. Todos os povos estão sujeitos aos seus planos e propósitos. “Pois eis que levantarei contra vós uma nação,

ó casa de Israel, diz o Senhor dos Exércitos;

e êles vos oprimirão desde a entrada de Hamate até o ribeiro de Arabá” (6:14) .

Assim o Senhor operava não somente entre os vizi­ nhos de Israel, como é indicado nos capítulos 1 e 2, mas vai levantar a poderosa nação da Assíria como instru­ mento do seu julgamento. As nações vizinhas de Israel tinham que prestar contas perante o tribunal da justiça divina. O Senhor determinou o curso dos eventos no Egi­

to para a libertação de Israel.

nem o Baal da Palestina poderiam impedir o Senhor na

direção da história dos povos do mundo.

Nem os deuses do Egito,

O Senhor Javé dos Exércitos é o Deus da natureza

física. Tôdas as fôrças misteriosas, como os terremotos, as pestilências e as calamidades, como a sêca e a fome

O

LIVRO

D E

AMOS

37

sãò mánifestações da potência dò Senhor (4:10-11). O poder soberano do Senhor foi reconhecido antes do tem­ po de Amós (I Reis 8:12 da LXX), mas os contemporâ­ neos do profeta deram ênfase somente às atividades di­ vinas que pudessem servir ao seu próprio conforto físi­ co. No declínio religioso, muitos dos israelitas tinham chegado ao ponto de vista dos cananeus, de que o seu Deus existia para servir à vontade do povo da sua esco­ lha. O profeta acentua o poder soberano do Senhor Javé,

o Deus dos Exércitos, no céu e na terra, sôbre tôdas as

nações e povos, e tôdas as fôrças físicas da natureza (4:

6-12; 7:1-3). ■“Não'sois vós para mim como os filhos de Etiópia, ó filhos de Israel? diz o Senhor. Não fiz eu subir a Israel da terra do Egito, os filisteus de Caftor e os sírios de Quir?” (9:7).

O Senhor Javé é o Deus da Justiça. Êste é o atributo

o povo de

Israel, na sua infidelidade e injustiça, estava desprezan­ do e blasfemando da personalidade do Senhor, não sim­

plesmente com a prática da injustiça, mas porque jul­ gavam que tinham o apoio e o favor do Senhor nas in­ justiças cruéis que praticavam. As riquezas que pos­ suíam eram prova da sua iniqüidade, e não do favor di­ vino. Os seus cultos religiosos eram uma abominação para o Senhor, porque foram oferecidos para comprar o favor divino e a participação do Senhor nas suas injus­ tiças. É claro que esta doutrina da justiça do Senhor não se originou com Amós, mas foi apresentada em cir­ cunstâncias que magnificaram a sua significação para a humanidade. “Não fará justiça o Juiz de tôda a terra?” (Gên. 18:25). O profeta Elias condenou severamente

a injustiça de Acabe: “Mataste e apoderaste” (I Reis

21:19).

do Senhor mais acentuado na? profecia, porque

Êste grande Deus de justiça falou ao Israel injusto

38

A.'

R .

:G R A B T R E E - s

e-pronünciou o seu destino inevitávél. ;Não há ninguém

que possa

“Embora cavem até o Sheol, de lá o s tirará a minha mão; embora subam ao céu, de lá os farei descer. Embora se escondam no cume do Carmelo, de lá buscá-los-ei, e os tirarei; embora se escondam dos meus olhos no fundo do mar, de lá darei ordem à serpente é ela os morderá”

escapar do juízo

divino

(2:14-15).

(9:2-3).

Assim o profeta de Tecoa fala da majestade do úni­

co Deus verdadeiro.

céus e da terra é o Criador da natureza e o Controlador da História. Ninguém pode fugir da presença dêle, nem

escapar do seu julgamento.

O Senhor Deus dos Exércitos dos

(2)

Deus se faz conhecido nas suas atividades e po

Êle se revelou na liberta­

ção e na escolha.de Israel, com o propósito de fazer-se

Amós reconhe­

ceu que Deus se revela nos eventos naturais. Os eventos cataclísmicos da natureza são revelações do poder de Deus (4:6-11). Êle deu a Israel “limpeza de dentes” e “falta de pão” para os admoestar e chamar ao arrependi­ mento, “contudo não vos convertestes a mim, diz o Se­ nhor.” A fome, a falta de chuva, o crestamento e a fer­ rugem das hortas e vinhas, a pestilência da guerra, as pragas e o fogo eram manifestações do desprazer do Se­ nhor para com Israel, admoestações e chamadas ao ar­ rependimento, mas a nação infiel não quis se converter '

:

conhecido a tôdas as nações do mundo.

intermédio dos seus profetas.

.

:

.

Mas Deus se manifestou não somente na natureza» mas também nos eventos da História. Israel foi especial­ mente favorecido pela. intervenção indisputável na: sua

O

LIVRO

D E

A^IÓS

39

vicJa;;n0 Egitó,’ no êxodo, :nas peregrinações pelo deserto e no estabelecimento do povo na Terra Prometida. Na escolha de Israel e na direção da sua história, o Senhor se revelou como o Controlador da história de- todos os povos. A interpretação errada dos eventos da História foi uma grande .tragédia do povo escolhido. Mas Deus não somente se revelou nos eventos da História; êle levantou profetas para interpretar o signi­

ficado

dos eventos,. Ost profetas corrigiram as interpre­

tações erradas dos eventos históricos feitas pelo povo. As grandes manifestações do novo interêsse pelos cultos cerimoniais no tempo de Jeroboão II foram interpreta­ das erroneamente pelo povo como sendo o pleno cumpri­ mento: da justiça. Mas o mensageiro do Senhor entendeu e explicou ao povo os seus grandes erros na interpreta­ ção do significado da prosperidade material de Israel; i

“Certamente o Senhor Javé náò faz coisa alguma sem revelar o seu conselho aos seus servos, os profetas. Já rugiu o leão, quem não terá mêdo? O Senhor Javé tem falado, quem pode deixar de profetizar?” (3:7-8).

Deus se revela na natureza e nos eventos da histó­ ria, e levanta os seus servos, os profetas, para interpre­ tar e explicar o significado de tais revelações. O profeta foi incumbido para chamar o povo' ao arrependimento e

à volta ao Senhor . Quando o povo se recusou a ouvir as admoestações divinas, o profeta teve que anunciar a nulidade do concêrto e o julgamento iminente do, Senhor. E foi justamente isto que o profeta Amós fêz,

-

.

(3)

A natureza da eleição.

Discutimos êste assunto

no comentário, mas é um elemento importante na teologia de Amós. Nas relações sociais com os cananeus, os is­ raelitas. foram influenciados pelo conceito do Senhor co-

40

A.

R .

C R A B T R É E >

ttio Déus nacional'. Ê sigrtificativò Amós não usar a êx- pressão o Deus de Israel. Mas o povo ficou imbuído da certeza de que o Senhor era o Deus de Israel, e que êle

se interessava especialmente pelo povo da sua escolha.

A pregação do julgamento e do castigo iminente de Is­

rael pelo Senhor parecia incrível ao povo, com os seus preconceitos, e especialmente com o entendimento do sig- nificado da sua eleição.

Esqueceram-se de que foram eleitos para um servi­ ço especial, e não somente para gozar de privilégios o bênçãos especiais. Privilégios e bênçãos sempre acarre-

tafn responsabilidades. O profeta Isaías põe em relêvo êste ensino (5:17); e o Mestre ensina a mesma verdade na, parábola dos talentos (Mat. 25:14-30) . Com o des­ prezo da responsabilidade da eleição, Israel não somen­

te

anulou as bênçãos da sua escolha, mas trouxe sôbre

si

o julgamento severo do Senhor.

“De tôdas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido; portanto, visitarei sôbre vós tôdas as vossas iniqüidades” (3:2). Jesus confirmou a lógica de Amós nos seguintes têrmos:

“De qualquer, a quem muito é dado, muito será exigi­ do” (LuC. 12:48, V. particular) . O motivo do Senhor na eleição de Israel é representado pela palavra hesed, amor não merecido. Israel respondeu ao amor do Senhor com a promessa de hesed, amor leal, que nasceu'no es­ pírito de gratidão. Mas o seu primeiro amor ia se en­ fraquecendo, e finalmente desfaleceu, e a infidelidade trouxe a destruição que Amós tinha que anunciar. Assim Amós dá ênfase ao fato de que o povo eleito podia perder os privilégios e as bênçãos da eleição por Suà infidelidade, ficando assim como se nunca fôsse elei­ to (Sal. 78:67). O profeta não tentou explicar o mis­ tério dá eleição de Israel, mas não teve dificuldade em esclarecer por que esta nação eleita foi rejeitada pelo

O

LIVRO’ DE

AMÕS

41

a propósito de estender as bênçãos do seu reino pór in­ termédio dêle. Surge, então, uma pergunta sôbre o escopo da vi­ são de Amós. O profeta entendeu, ou não, que o propó­ sito da eleição seria realizado por intermédio de um res­

tante fiel? Se êle escreveu o epílogo da profecia, 9:11-15,

de realizar o

Senhor.

O Senhõr escolheu Israel

fim

é

claro que entendeu êste ensino esclarecido por Isaías

e

outros profetas subseqüentes. Mas muitos pensam que

êste trecho foi acrescentado ao livro mais tarde por ou­ tro escritor. Os israelitas ligaram ao seu entendimento da elei­ ção a sua esperança fervorosa da vinda do dia do Se­ nhor. Baseando-se na premissa falsa de que o povo es­ colhido do Senhor era justo, especialmente em relação com outros povos, os contemporâneos de Amós julgavam que o Dia do Senhor traria para êles a vitoria completa sôbre todos os seus inimigos. Mas, longe de estar em condições de representar o ideal do reino de Deus, Israel está debaixo da condenação terrível da justiça divina. O mensageiro do Senhor abalou os seus ouvintès com a sua explicação do significado do Dia do Senhor.

“Ai de vós que desejais o Dia do Senhor! Para que desejais o Dia dô Senhor? Ê dia de trevas e não de luz” (5:18) . O culto e a vida religiosa. Discutimos o fraca

(4)

so da religião de Israel em outra secção. Precisamos acrescentar apenas uma breve explicação sôbre o con­ traste entre 0 interêsse e o entusiasmo dô povo pela re­ ligião cerimoniosa (4:4-5; 5:21-23; 8:14), e o fracasso absoluto na prática do amor e da justiça, que são o fru­ to da verdadeira religião. Os cultos cerimoniosos fica­ ram Completamente divorciados da prática dos princípios da religião na vida social. Em tôdas as formas do ceri- monialismo o povo procurava agradar ao Senhor e ga­

42

A .

R .

GRABTREE

nhar o seu favor, porém nas condições pessoais e egoístas que realmente negavam e desprezavam a justiça divina;

O homem de Tecoa proclamava o Senhor dos Exér­

citos, o Deus que não se agradava de sacrifícios, festas, cânticos e bajulice, pois deseja a retidão e a justiça. O culto sem qualquer relação com a vida da justiça não tem valor nenhum . É blasf êmia contra Deus. Os homens que

moravam em casas de luxo e praticavam os pecados de injustiça, avareza, corrução, embriaguês, imoralidade e hipocrisia insultavam o Senhor da justiça com a sua

religiosidade (6:4-6) . O culto hipócrita era o. cúmulo dp

seu pecado

O Senhor requer do seu povo as virtudes ele­

mentares de honestidade, integridade, justiça e consi­ deração humana para com os fracos e necessitados.

O Senhor rejeita os cultos de festas, cerimônias é

sacrifícios que não representem o amor da verdade e o desejo de andar com Deus. “Pois assim diz o Senhor à casa de Israel :

“Buscai-me, e vivei mas não busqueis a Betei, e não entreis em Gilgal, nem passeis a Berseba.

porque Gilgal certamente irá ao cativeiro,

(5:4-5).

e Betél será desfeita em nada”

:

,

.

O Senhor deseja do seu povo uma resposta de co­

munhão pessoal com êle.

“Antes corra o juízo como as águas,

(5)

e a justiça como ribeiro perene”

(5:24) .

A natureza do pecado na teologia de Amos. Pa

ra o profeta Amós, o pecado era a rebelião contra a bon­ dade do Senhor. Êle usa freqüentemente a palavra pesha para descrever o pecado contra Deus, a mesma palavra que significa rebelião política. Nã,o é apenas o ato per­ verso que Amós condena; é a natureza pecaminosa que produz a revolta contra a bondade do Senhor . Deus re­

O

LIVRO

DE

AMÓS

43-

dimiu a Israel, deu-lhe o Concerto de amor não merecido, com a terra prometida, e levantou entre o povo profetas

e nazireus para ensiná-lo e guiá-lo no caminho de fideli­

dade e justiça (2:9-11) . Mas Israel, levado pelo egoísmo-

na aquisição dos bens para. satisfazer os seus desejos, foi arrastado pelo espírito de avareza a praticar a opressão

e a crueldade, e finalmente a rebelião absoluta contra

a justiça divina e contra o seu próprio Deus. O pecado de Israel caracterizou-se pela decepção que produziu ,a hipocrisia e o otimismo enganador. Chegou ao cúmulo do pecado pela perversão do culto, no esforço de enganar a Deus, ou reduzi-lo ao seu nível da injusti­ ça. Assim os israelitas eram muito religiosos, mas não permitiam que os seus cultos interferissem de qualquer màneira no pleno exercício da sua iniqüidade. Para êste mensageiro do Senhor, o pecado era o coração corrom­

pido. (6) A renovação da vida com o Senhor A mensa gem do homem de Tecoa não foi limitada à proclamação do desastre de Israel, em conseqüência da sua infidelida­ de para com o Senhor, como dizem alguns comentaristas. Na pregação da justiça divina ao povo infiel daquela época, o profeta viu claramente a necessidade imperiosa de anunciar a,s conseqüências da infidelidade, mas êle não deixou de reconhecer e considerar a alternativa da injus­

tiça. Um bom grupo de literatos pensa que Amos não es- créveu o trecho 9:8b-15, mas fora desta passagem ò pro­ feta explica como Israel poderia renovar a vida de co­ munhão com Deus . O Deus vivo e justo é a fonte de tôda vida, e como mensageiro do Senhor o profeta exortou o povo a buscar o Senhor e viver. Os princípios da justiça eram verdades eternas que prendèram e seguraram o profeta pelá sua fôrça moral, mas a prática da justiça depende do conhecimento pessoal de Deus, e de comu­ nhão com êle. “Buscai ao Senhor e vivei, pára que não

44

a :

r .

c r a b t r e e

irrompa como fogo na casà de José” (5:6). O povo car­ regado de iniqüidade, e revoltoso contra a justiça, não pôde buscar ao Senhor. Não se pode buscar o Senhor sem o desejo de encontrá-lo no espírito de harmonia com a sua santidade, amor e justiça. “Buscai o bem e não o mal, para que vivais: e assim o Senhor, o Deus dos Exércitos, estará con­ vosco, como dizeis. Odiai o mal e amai o bem,

e

estabelecei a justiça na porta; talvez o Senhor,

o

Deus dos Exércitos,

se compadeça do restante

de José” (5:14-15). impossível buscar a Deus

sem reconhecer a ne­

cessidade imperiosa de praticar a justiça

relações humanas. As leis morais e os princípios de jus­ tiça divina são eternos e imutáveis, e a violação delas traz a punição certa sôbre o desobediente. O profeta conhece a. misericórdia do Senhor, e explica como o povo pode escapar da destruição por meio do arrependimento pela sua arrogância e hipocrisia. O profeta assim expõe a operação das leis espirituais do Senhor, em perfeita har­ monia com o seu amor e solicitude para com o povo da sua escolha,

as

É

em tôdas

(7)

A natureza do homem. Como já notamos, o pro

feta não apresenta doutrinas sistemáticas, mas encerra­ do em tôda parte da mensagem está o alto conceito do homem, indicado pela livre vontade de viver em harmonia com o Senhor, ou de se revoltar contra o Criador e Controlador do mundo. É uma criatura limitada pelo am­ biente físico e pelas leis da criação, mas em virtude da sua relação com o Senhor é claramente a obra suprema do Criador. É capaz de receber e entender a revelação da vontade do Senhor nas relações sociais, e mediante as responsabilidades pessoais perante o Criador. Na condenação severa dos sacerdotes e do seu siste­ ma elaborado, de ofertas e festas solenes, o profeta acen­

O

LIVRO

DE

AMÓS

45

tua a soberania do Senhor e a responsabilidade direta do homem para com êle. Na condenação severa da opres­ são dos pobres e necessitados, o profeta reconhece a dig­ nidade e o valor do homem como tal. Ao mesmo tempo êle reconhece como a arrogância, o orgulho, o egoísmo e outras formas de pecado podem operar no espírito do ho­ mem para a destruição da sua personalidade. No esforço de despertar a consciência deturpada do homem pela pregação da palavra de Deus, o profeta mos­ tra que o homem é livre e responsável perante o Senhor.

Como ficamos repetidamente

nos dêste profeta do século oitavo antes de Cristo, e do

ensi­

valor dêstes ensinos para os nossos dias! Podemos tam­ bém notar os seus pensamentos sôbre a natureza, os ca­ racterísticos e as potencialidades morais do homem, que têm importância para o psicólogo e o teólogo dos tempos modernos.

surpreendidos

pelos

A M Ó S

TEXTO, EXEGESE E EXPOSIÇÃO

De vários pontos de vista esta profecia merece aten­ ção especial. Sendo a mais antiga entre as profecias ca­ nônicas, tem importância no estudo da história da reli­ gião de Israel. O profeta também entendeu e denunciou a.s influências das crenças religiosas dos cananeus na vi­ da espiritual dos israelitas.

por

Amós não é inteiramente original, o seu sistema ético,

enraizado na justiça divina,

da revelação divina, 400 anos antes da justiça filosófica

desenvolvida pelos grandes pensadores gregos. A expe­ riência humana prova que a ética bíblica é mais podero­ sa para resolver os problemas da injustiça social do que •qualquer raciocínio filosófico.

O profeta apresenta também um novo entendimen­

to da natureza do Senhor Javé de Israel como o Deus de tôdas as nações. O Deus de Israel, segundo Amós, é o Senhor dos exércitos dos céus e da terra, das leis da natureza física, com autoridade sôbre todos os povos do mundo. Tem autoridade e poder sôbre tôdas as fôrças físicas e sôbre os movimentos e destinos das nações.

Enquanto

a

doutrina

da

justiça

apresentada

é o esclarecimento bíblico

I.

ORÁCULOS CONTRA AS NAÇÕES, 1:1-2:16

O

sobrescrito dá o título do livro, o nome e a ocupa­

ção do autor, e o lugar onde morava quando rècebeu a

«çhamada divina.,

O Sobrescrito e o Tema ão Livro, 1:1-2

“As palavras de Amós que era entre os pastores

o ; de Tecoa, que ele viu a .respeito de Israel,. no3 dias

48

A.

R .

CRABTREE

de Uzias, rei de Judá, e nos dias de Jeroboão, filho de Joás, rei de Israel, dois anos antes do terre­ moto . ” Amós precedeu, por poucos anos, o seu contemporâ­ neo Oséias. O profeta de Tecoa, com os seus oráculos e visões, foi reconhecido, desde o princípio do seu minis­ tério, como mensageiro austero e corajoso. Mas o povo de Israel, sentindo-se seguro na prosperidade material que, segundo o seu ponto de vista, representava o apoio e o favor do seu Deus como recompensa de seus sacri­ fícios e festas religiosas, não quis ouvir a mensagem dura dêste pastor de Tecoa. Alguns pensam que o sobrescrito foi preparado, pe­ lo menos em parte, algum tempo depois de Amós, mas reconhecem que é apropriado e concorda com a mensa­ gem do livro. Todavia, a frase, que era entre os pastores de Tecoa, talvez fôsse interpolada entre Amós e que êle viu, porque complica a estrutura do período. A frase, As palavras de Amós que êle viu, dá ên­ fase à original e é característica da sua mensagem, A palavra ntPl tem o sentido de ver, perceber, enten­ der, distinguir e receber a mensagem do Senhor. O pro­ feta assim declara que tinha experimentado no íntimo do seu espírito a comunhão com Deus e a verdade da mensagem que transmite aos seus ouvintes. Há evidências dentro da própria Bíblia de que os profetas pré-canônicos, ou pelo menos alguns dêles, fo­ ram influenciados pelas práticas dos profetas dos povos vizinhos, especialmente no espírito de nacionalismo, e também pela idéia de que o espírito profético podia 'ser motivado pela música, e por meio de exercícios físicos como a dança (I Sam. 3.0:5-13) . Mas êste fato não jus­ tifica a tendência de alguns escritores modernos de exa­ gerar as semelhanças entre a profecia bíblica e os va­ ticínios de outros povos, sem qualquer reconhecimento

O

LIVRO

DE

AMÓS

49

Testa­

mento.

videntes, CHV-1 Começando com Amós,òs profetas apre­ sentam um novo conceito do profeta. Para os profetas canônicos a revelação do Senhor concorda perfeitamente com a ordem moral do mundo criadó e dirigido por Deus, segundo o seu eterno propósito de estabelecer e aperfei­ çoar o seu reino entre todos os povos do mundo. Os con­ temporâneos dêstes mensageiros do Senhor freqüente­ mente julgavam que êstes não eram patriotas, e às vêzes os consideraram traidores da pátria, como no caso de Jeremias. Amós exerceu o seu ministério no reinado de Jero- boão II de Israel e de Uzias de Judá. Israel era mais for­ te do que Judá nesta época, mas os dois reinos eram prós­ peros durante a maior parte da primeira metade do sé­ culo oitavo antes de Cristo. A palavra IpIUl em 7:14 pastor, significa que o profeta era o dono do rebanho que pastoreava, mas isto não quer dizer que fôsse rico, segundo Uma tradição dos judeus. O seu vocabulário in­ dica que ganhou a vida pelo cuidado do seu rebanho.

das qualidades distintivas

da profecia

do Velho

Os profetas

pré-canônicos

foram

denominados

Tecoa, conhecida agora como Tecu, fica 19 quilô­ metros ao sul de Jerusalém, numa elevação de 920 me­ tros, cercada de três lados por outeiros, com a vista do Mar Morto ao lado oriental. A região é conhecida como o deserto da Judéia. É lugar pedregoso e desolado, mas produz pastagem limitada para ovelhas. A linguagem do profeta, como a de João Batista, que era da mesma re­ gião, reflete a influência da aspereza do deserto.

1.

O

O vidente tinha o dom de ver e reconhecer verdades divinas, enquanto o chosé recebia em visões diretas do Senhor a re­ velação da vontade divina, com a incum bência de transm iti-la ao seu povo, embora lhe causasse perseguição e sofrimento, como no caso de Jerem ias. Contudo, alguns dos videntes eram profetas verdadeiros, e alguns dêles sofreram a perseguição.

têrm o

vidente

usava-se

ctímo

sinônim o

de profeta

(chosê) .

L.

A.

4

50

A.

R .

CRABTREE

Amos recebeu a sua chamada “dois anos antes do terremoto” . O profeta Zacarias, 14:5, aparentemente se refere ao mesmo terremoto, assim indicando que fôra de intensidade excepcional, mas não se pode determinar o ano exato em que se deu. Sabe-se, por outras referências» que Amos profetizou, mais ou menos entre 760 e 747 a.C.:

“E êle disse:

O Senhor brama de Sião,

e

de Jerusalém faz ouvir a sua voz;

os

prados

dos

pastores

lamentam,

e

seca-se o cume de Carmelo” (1:2) .

A estrofe poética é de quatro linhas, de ritmo ba­

lançado, com três acentos em cada linha. Ê semelhante, em parte, a Joel 3:16 a. Alguns pensam que os dois pro­ fetas citam palavras de um profeta anterior. Outros pen­ sam que á estrofe foi interpolada por um redator da obra. Ê mais provável ser de Amós,2 pois serve perfei­

tamente como lema da profecia inteira. Javé brama de Sião. O contexto indica o tempo pre­

sente dos verbos. O têrmo Sião foi usado primeiro para designar o outeiro entre os vales Tiropoeon e Oedrom. Mais tarde designou o lugar do Templo de Salomão, e finalmente tôda a cidade de Jerusalém. Para os fiéis, até de Israel, Jerusalém era o centro da vida nacional. O profeta se apresenta em tôda parte como apenas o trans­ missor da mensagem do Senhor (Ver Is. 2:2). Ao manifestar-se o poder do Senhor, tôda a nature­ za física sente a sua influência. Em tôda parte do livro, o Deus de Israel é o Senhor de tôdas as fôrças físicas da natureza. Até os prados, fY)&l, não as habitações dos pastores, lamentam.

A palavra Carmelo significa jardim ou vinha e re­

2.

Norm an

Book

H .

Snaith,

erudito

a

exposição

no

hebraico,

do

versícu lo.

of Amos, defende

uma

autenticidade

do

é

claram ente

na

sua

obra,

The

versículo.

O livro

O

LIVRO

DE

AMÓS

51

fere-se ao outeiro que se estende dos outeiros de Samaria até ao Mar Mediterrâneo. O cume do Carmelo èleva-se 170 metros acima do pôrtõ de Haifa. O monte inteiro é de 24 quilômetros de cumprimento e, em alguns lugares, tem a altura de 560 metros. Ê um dos lugares mais bo­ nitos e mais férteis da Palestina, mas as suas oliveiras

e outras árvores frutíferas estão destinadas a murchar.

Profecias contra os Povos Vizinhos de Israel, 1:3-2:5

A missão principal de Amós é a de proclamar a men­

sagem do Senhor ao povo de Israel, mas os oráculos con­ tra as nações vizinhas são teologicamente importantes.

O julgamento do Senhor da justiça alcançará as nações

inimigas de Israel. O anúncio do castigo divino dos ini­ migos cruéis de Israel ganhou logo o interêsse, o apoio

e o entusiasmo dos ouvintes. O Senhor Javé é o Juiz de

todos os povos. O profeta recebeu atenção especial e pleno apoio, sem dúvida, enquanto falava do castigo di­ vino dos inimigos de Israel. O profeta terá uma mensa­ gem especial do Senhor para o seu próprio povo? A cidade de Damasco era a capital do reino da Sí­ ria. Por uma grande parte do século tinha havido guer­ ra entre a Síria e Israel. Começando com a Síria, o pro­ feta declara que é inevitável o castigo divino contra as terríveis injustiças dêste povo.

Juízo sobre Damasco, 1:3-5

“Assim diz o Senhor:

Por três transgressões de Damasco,

e por quatro, não revogarei a punição;

porque trilharam a Gileade com trilhos de ferro. Assim mandarei fogo sôbre a casa de Hâzael,

e êle consumirá as fortalezas de Benè-Hadâde.

52

A.

R .

CRABTREE

Quebrarei o ferrôlho de Damasco

e

exterminarei os moradores do Vale de Ãven,

e

ao que tem o cetro de Bete-Êden;

e o povo da Síria será levado em cativeiro a Quir, diz o Senhòr” (1:3-5) .

A frase, Por três transgressões e por quatro, repeti­ da nos capítulos um e dois, na condenação dos pecados dos vários povos, significa as transgressões habituais. Pelos pecados costumeiros, as nações tinham formado o seu caráter pecaminoso. A palavra é usada para descrever a rebelião política. “Assim se rebelou Israel contra a casa de Davi” (I Reis 12:29) . Damasco, a ca­ pital da Síria, tinha demonstrado o espírito revoltoso contra a justiça. O Senhor não fará voltar para trás o castigo de Damasco. O Senhor da justiça não podia re­ vogar a punição merecida. No reinado de Hazael, e no de seu filho Bene-Hadade, os sírios cometeram barbaridades desumanas contra as pessoas capturadas na guerra. Afrontaram o Senhor, trilhando Gileade com trilhos de ferro. Sôbre os corpos dos cativos, prostrados no chão, os vencedores arrasta­ ram instrumentos pesados de ferro, com dentes, usados para cortar palha e debulhar cereais, mutilando assim a carne convulsiva das vítimas. O território da Síria já ficou reduzido no tempo de Amós, e a dinastia de Hazael estava em declínio, mas tudo que restava da casa de Hazael, e dos palácios e for­ talezas de Bene-Hadade, seria destruído pelo fogo. O ferrolho de Damasco, figura da sua fôrça antiga, não terá valor nenhum na defesa contra a jüstiça do Senhor. O Vale do Éden provàvelmente se refere à planície larga e fértil do Rio Abana, a fonte das riquezas, em grande pãrte, dos arameus. O que tem o cetro de Bete-Êden fi­ cou encarregado de defender a pátria. O profeta declara que as fortificações, os palácios e as cidades serão com­

O

LIVRO

DE . AMÕS

53

pletamente destruídos, e os habitantes levados em cati­ veiro a Quir, o lugar donde vieram originalmente (9:

7) . A palavra significa cativeiro nacional. A profecia foi cumprida por Tiglate-Pileser da Assíria, o primeiro conquistador na História que adotou a política brutal de genocídio, a destruição nacional dos povos conquistados .

Juízo sôbre a Filístia, 1:6-8

“Assim diz o Senhor:

Por três transgressões de Gaza,

e por quatro, não revogarei a punição;

porque levaram em cativeiro um povo inteiro para o entregarem a Èdom. Assim mandarei fogo sôbre os muros de Gaza,

e êle consumirá as suas fortalezas.

Exterminarei os moradores de Asdodé,

e ao que têm o cetro de Ascalom;

volverei a minha mão contra Ecrom;

e o resto dos filisteus perecerá, diz o Senhor” (1:6-8) .

Desde o tempo de Samuel e Saul até às vitórias de Davi, os filisteus eram rivais dos israelitas no , esforço de tomar posse da terra de Canaã. A monarquia de Is­ rael foi fundada principalmente para unir o povo. na de­ fesa contra os filisteus. Os filisteus vieram de Caftor, bem organizados e experimentados na guerra. Tentaram primeiro estabelecer-se no Egito, mas derrotados, enfra­ quecidos e expulsos do Egito, entraram no sul da Pales­ tina com o propósito de subjugar os israelitas e tomar posse da terra. Parecia, por algum tempo, que estavam realizando o seu plano . Gaza, sendo a maior cidade dos filisteus, e situada no caminho entre a Síria e o Egito, como grande centro do tráfico de escravos, é mencionada primeiro. Os ha­ bitantes de Gaza serão castigados porque levaram em

54

A.

R .

CRABTREE

cativeiro um povo inteiro e o entregaram a E\dom. O he­ braico não está claro. A palavra aparentemente significa um cativeiro pacifico, ou a venda de pessoas de nações que viveram em paz com êles. Invadiram lugares populosos e levaram os habitantes para vendê-los aos edu- meus. O tráfico dos escravos foi muito comum nas civi­ lizações antigas. Escravos construíram as pirâmides do Egito, e muitas outras obras das grandes nações. Os cativos de guerra foram escravizados para fazer tais obras. Mas os filisteus cativaram povos pacíficos, como o fizeram várias nações nos tempos modernos com o tráfico de africanos. Não demorou o castigo de Gaza, cidade antiga no caminho das caravanas de Damasco, Ti­ ro, Jerusalém, para o sul até Arábia e Egito. Foi seve­ ramente castigado no ano 734 a.C. pelo exército de Ti- glate-Pileser.

A cidade de Asdode era o centro do culto de Dagom

(I Sam. 5:1-7), bem fortificada, ao sul de Ecrom. O Rei Acazias recebeu do profeta Elias uma severa repreensão (II Reis 1:3), porque consultou o oráculo de Baal-Ze- bube de Ecrom ao invés de consultar o Senhor. Asque- lom, na costa, isolada das outras cidades dos filisteus, é mencionada em Juizes 14:19. O resto dos filisteus, in­ clusive as suas arrogantes cidades, perecerá às mãos do

Senhor da justiça.

Juízo sobre Tiro, 1:9-10

“Assim diz o Senhor:

Por três transgressões de Tiro,

e por quatro, não revogarei a punição;

porque entregaram todos os cativos a Edom,

e não se lembravam da aliança de irmãos.

Assim mandarei fogo sôbre o muro de Tiro,

e êle consumirá as suas fortalezas” (1:9-10) .

A cidade de Tiro, a capital da Fenícia, era o grande

O

LIVRO

DE

AMÓS

55

centro comercial do mundo antigo. No capítulo 28 de Ezequiel, o profeta descreve o comércio de Tiro que enri­ queceu o povo, e desenvolveu nêle o espírito de orgulho que quis até usurpar o trono de Deus. Mas nem a magni­ ficência de Tiro poderia escapar ao julgamento do Se­ nhor da justiça. Os palácios e as fortificações de Tiro, bem como os de Damasco e dos filisteus, seriam devora­ dos pelo fogo. Os palácios, construídos pelos escravos, simbolizavam para o profeta a injustiça social de Israel e dos povos contemporâneos. Os fenícios, como os filis­ teus, escravizaram os seus cativos e os venderam a Edom. Como os sírios, os israelitas e os edumeus, os fenícios eram semitas. •/ Os fenícios também não se lembravam da aliança dos irmã,os.3 Refere-se o profeta aparentemente às relações amistosas entre Salomão e Hirão (I Reis 5:12) . A re­ lação entre os israelitas e os fenícios no tempo de Davi e Salomão ofereceu vantagens para os dois povos (I Re’s 5:13-18) .

Juízo sobre E d o m 1:11-12

“Assim diz o Senhor:

Por três transgressões, de Edom,

e por quatro, não revogarei a punição;

porque perseguiu o seu irmão à espada,

e baniu tôda a misericórdia,

3.

Deterioram -se as relações entre os fenícios e os israelitas de­

con­

4 .

pois da divisão do reino, e ainda m ais com a vinda dc Jezabel para a Samaria como a espôsa de A cabe. A lguns pensam que êste juízo dos fenícios foi interpolado algum, tempo de­ pois de Am ós. Quase todos os com entaristas julgam que esta profecia

tra Edom se refere à invasão

de

Judá

pelos

edumeus

logo

depois da queda de

Jerusalém

em

586.

N este

caso,

foi

inter­

polada na profecia de Am ós por um

judeu/ talvez

dépois

da

volta do cativeiro.

56

A.

R .

CRABTREE

e a sua ira despedaçou perpètuamente, e êle consumirá as fortalezas de Bozra” Assim mandarei fogo sôbre a Temã, e êle consumirá as fortalezas de Bozra”

( 1 :11-12) .

Os cananeus, descendentes de Esaú, eram, dos povos vizinhos, o mais consangiiíneo de Israel. Gênesis 36:31 in­ dica que o reino de Edom foi organizado antes do esta­ belecimento da monarquia de Israel. O território de Edom se estendia da costa sudeste do Mar Morto até o Golfo de Aquaba, uma região montanhosa, mas rica em depó­ sitos minerais e outros recursos. Foi subjugada por Davi, e muitos dos seus recursos aproveitados por Salomão. Mais tarde, com a queda de Jerusalém e a dissolução do reino de Judá, os edumeus aproveitaram o ensêjo de vin­ gar-se. Invadiram o território dos antigos opressores, e despojaram o povo fraco e indefeso. O escritor dá ênfase ao fato de que Edom praticon crueldade contra o seu irmão. Perseguiu a seu irmão à espada, e pôs de lado tôda a compaixão. A palavraÍ1ÍW significa corromper ou destruir. Edom ãesfêz a sua com­ paixão. Na palavra VttrH» sua compaixão, há qualquer associação com a palavra DlVt >ventre de mãe, assim cha­ mando atenção ao sentimento que deve existir entre ir­ mãos uterinos. A vingança de Edom intensificou-se por causa da crueldade que Israel (Jacó) tinha praticada contra êle. A sua ira despedaçava, SníD’’ (impf.), perpè­ tuamente; conservou para sempre a sua ira. As cidades de Temã e Bozra representam o poder de Edom (Jer. 49:7; Is. 34:6). Elifaz, um dos amigos de Jó, era de Temã, cidade conhecida pela sua sabedoria. Antes do tempo de Amós os reis de Edom pagaram tri­ buto à Assíria, e pouco tempo depois da profecia tinha, que submeter-se e pagar tributo a Tiglate-Pileser.

\

O

LIVRO

DE

AMõS

5?

Juízo sobre os Amonitas, 1:13-15

“Assim diz o Senhor:

Por três transgressões dos amonitas, e por quatro, não revogarei a punição; porque rasgaram o ventre às grávidas de Gileade, para dilatarem os seus próprios têrmos. Assim meterei fogo aos muros de Rabá, e êle consumirá as suas fortalezas, com alarido no di,a da batalha, com tempestade no dia do turbilhão. O seu rei irá para o cativeiro, êle e os seus príncipes juntamente, diz o Senhor” (1:13-15).

O território dos amonitas ficava ao lado do Jordão, contíguo à terra de Israel na região de Gileade. Com as

transgressões repetidas dos amonitas,

ventre às grávidas de Gileade, para dilatarem os seus têrmos. É provável que os amonitas tenham cometido esta barbaridade quando Naás sitiou a Jabes-Gileade (1 Sam. 11:1). Êste crime horrível foi cometido freqüen­ temente pelos povos antigos em tempo de guerra (Os. 13:

16; II Reis 15:16). Por causa dos crimes dos amonitas, o Senhor da justiça porá fogo ao muro de Rabá, cidade capital e fortaleza dos filhos de Amom. Os gritos de guerra do inimigo vitorioso meterão mêdo ao espírito dos amonitas, enquanto o invasor devastará a terra como redemoinho. Pouco tempo depois de Amós, o grande exército de Tiglate-Pileser III, da Assíria, invadiu as terras dêstea vários inimigos de Israel, saqueou as suas cidades, e le­ vou em cativeiro os mais importantes de seus habitan­ tes. Ainda no tempo de Neemias, os amonitas se mostra­ vam hostis para com os israelitas (Neem. 4:3) .

êles rasgaram

o

58

A ,

R .

CRABTREE

Juízo sobre Moabe, 2:1-3

“Assim diz o Senhor:

Por três transgressões de Moabe,

e por quatro, não revogarei a punição;

porque queimou os ossos do rei de Edom,

até os reduzir

a cal.

Assim mandarei fogo sôbre Moabe,

e êle consumirá as fortalezas de Queriote,

e Moabe morrerá entre grande estrondo, alarido e o som de trombeta. Exterminarei o juiz do meio dêle,

e a todos os seus príncipes com êle matarei, diz o Senhor” (2:1-3) .

O território de Moabe ficava ao leste do Mar Morto, e se estendia até o limite da terra de Edom. Como se nota, estas profecias contra as nações seguem o mesmo plano geral, com a mesma "introdução e a mesma forma de castigo, mas o pecado de cada um dos povos contra a justiça divina é claramente especificado. Os moabitas eram semitas, descendentes de Ló e sua filha primogêni­ ta, segundo Gênesis 19:36-37. O dialeto dos moabitas foi semelhante ao hebraico. Quemós e Baal-Peor de Núme­ ros 25:1-5, era o seu deus, o mesmo que os israelitas ado­ raram com ritos lascivos no caminho para Canaã. Não há qualquer evidência de que os moabitas tenham de­ senvolvido um sistema ético semelhante ao dos hebreus. A Pedra Moabita descreve a vitória de Messa, rei dos moabitas, sôbre os reis de Israel e Judá (II Reis 3:

4-27) . Pela ordem do seu deus, Messa ofereceu o seu fi­ lho primogênito, para se libertar do poder de Israel (II Reis 5:27) . Moabe será castigado, como as outras na­ ções mencionadas, por seus muitos pecados, mas espe­ cialmente porque queimou os ossos do rei de Eêom, até

O

LIVRO

D E

AMÓS

59

os reduzir a cal.5 Para os judeus e as outras nações an­ tigas, qualquer ofensa contra os mortos era um dos pio­ res pecados que o homem podia cometer (Deut. 21:23;

II Reis 23:16; Is. 14:19).

iMoabe será destruída pela guerra devastadora, o foco consumirá os palácios e fortalezas ée Queriote. Es­ ta cidade geralmente se identifica com Ar (Núm. 21:

15; Is. 15:1), uma das cidades principais de Moabe. Ê mencionada na linha 13 da Pedra Moabita como sendo a sede de Quemós, ou do seu santuário.6 Assim como a cidade de Damasco representa a nação Síria, também Queriote representa a nação dos moabitas. Moabe mor­ rerá com grande estrondo, alarido e o som de trombeta.

O sonido da trombeta representa a vitória sôbre a cidade

vencida e destruída. Cortarei, ou exterminarei o juiz, o

governador, e matarei todos os seus príncipes. Moabe é mais um dos países que a Assíria subjugou.

Ameaças contra Judá, 2:4-5

“Assim diz o Senhor:

Por três transgressões de Judá,

e por quatro, não revogarei a punição; porque rejeitaram a lei do Senhor,

e não guardaram os seus estatutos, antes se deixaram errar por suas próprias mentiras, após as quais andaram seus pais. Assim mandarei fogo sôbre Judá, e êle consumirá as fortalezas de Jerusalém”

(2:4-5).

Os oráculos contra os povos vizinhos serviam de ba­

5,'

N ão há dúvida de que M essa sacrificou

o

seu

próprio

filho,

e

não

o

filho

de

Edom

que

capturou

na

batalha,

segundo

a

opinião

de

alguns.

 

6.

Ver

a

Arqueologia

Bíblica

do

autor,

2’

E d .,

p .

142.

60

A.

11.

CRABTREE

se, e prepararam o caminho para a condenação severa dos pecados de Israel. As profecias contra as nações prova­ velmente foram proferidas em dias sucessivos, no prin­ cípio do ministério de Amós. Ao ouvirem estas mensa­ gens, os israelitas não podiam deixar de reconhecer que o profeta estava transmitindo a mensagem do Senhor Javé, o Deus de Israel, sôbre a condenação justa dos pe­

cados de seus inimigos. Tudo que o profeta disse sôbre os pecados e a condenação dos vizinhos recebeu o pleno apoio do povo de Israel. A mensagem seria aceita com especial satisfação por que representava o poder sobera­ no do seu próprio Deiis.

que os ouvintes tenham reco­

nhecido nos discursos do profeta um sinal de admoesta­ ção para a nação de Israel. Se o profeta viu na agressão do poderoso exército da Assíria o transtorno dos inimi­ gos, qual seria, então, a sorte de Israel? O seu Deus so­ berano protegeria o seu povo escolhido contra o poder militar da Assíria? Vários estudantes da profecia pensam que esta pas­ sagem sôbre o julgamento de Judá foi interpolada mais tarde na mensagem de Amós. Segundo esta opinião, am­ bos os reinos, o do norte e o do sul, constituíram para Amós um só povo (3:2), e a sua mensagem foi dirigida aos dois reinos. Neste caso, esta passagem teria sida desnecessária do ponto de vista do profeta. Se esta men­ sagem contra, Judá fôsse proferida por Amós, Israel sa­ beria logo que o profeta ia condenar também os seus peca­ dos. Se a passagem fôsse introduzida na profecia mais tarde, isto indicaria o grande prestígio de Amós nas ge­

rações subseqüentes. Além dos outros pecados, Judá tinha rejeitado a lei>

JVnfi- -A- palavra torah usa-se em vários sentidos. Ê da

do Senhor, e não tinha guardado os seus estatutos, raiz que significa ensinar. Usa-se, às vêzes, no senti­ do de incluir todo o Velho Testamento (Jo. 10:34; 12:34;

Ê provável, todavia,

O

LIVRO

DE

AMÓS

61

15:25) . 0,s judeus designavam os primeiros cinco livros do Velho Testâménto como a Lei Mosaica. Os Dez Man­

damentos geralmente se

Mas qualquer instru­

ção ou direção do Senhor para o seu povo é reconhecida como torah ou lei, e assim o têrmo chega a significar a revelação divina, Is. 2:3. Ê também reconhecida como lei a direção técnica dos sacerdotes sôbre a observação

apresentam como o âmago da

lei

(Êx.

20:3-17; Deut.

5:6-21).

dos sacrifícios e cerimônias (Lev. 11:46; Jer. 2:8; Miq:

3:11) . A mensagem do profeta apresenta-se freqüente­

Senhor (Is. 1:10; 8:16) . A lei do

Senhor, às vêzes, é o equivalente de palavras do Senhor.

O sentido da palavra estatutos é de vez em quando in­

cluído no têrmo lei (II Reis 17:19) . Esta palavra é usa­ da também no sentido de juízos, mandamentos, testemu­

nhos, ou como o equivalente de leis cerimoniais, morais e civis (Deut. 4:1; 5:1; 6:20; Deut. 7:1-5; 7:12,14). Os profetas em geral condenam a Judá porque re­ jeitaram a Lei do Senhor e não guardaram os seus esta­ tutos (Is. 5:24) . Nem os bons reis de Judá, Asa, Josa- fá, Joás e Amasias chegaram a tirar os altos do povo

de Israel. Outros reis se opuseram ao culto do Senhor.

Amós e os profetas subseqüentes entenderam mais clara­ mente do que os historiadores a justiça do Senhor e a apostasia do povo de Judá e Israel.

mente como a lei do

Êles se deixaram errar por suas próprias mentiras.

A frase as mentiras próprias pode significar os ensinos

dos profetas falsos,

astu­

ciosamente, as transgressões e a idolatria do povo. Por­ tanto, o julgamento virá sôbre Judá, mostrando-se par­ ticularmente contra as fortalezas de Jerusalém. Esta ameaça podia despertar os israelitas, pois Jerusalém re­ presentava o povo escolhido do Senhor, o Deus verda­ deiro das duas nações. Davi capturou a cidade de Jerusalém dos jebuseus,

falsos mensageiros desculparam,

e aceitos àvidamente, porque êstes

ou

justificaram

62

A.

R .

CRABTREE

e ali estabeleceu a capital política e religiosa das tribos unidas. Nos reinos prósperos de Davi e Salomão, e com a construção do Templo, a cidade, já antiga e famosa, ganhou fama maior e mais duradoura, não obstante to­ das as vicissitudes da sua história. Assim o profeta condenou a injustiça dos vizinhos de Israel de acôrdo com a palavra do Senhor Javé, o Deus de Israel. Apresentou, pela primeira vez na história hu­ mana, a gravidade dêste problema eterno da injustiça social, a praga de tôdas as nações, seja qual fôr a forma do seu govêmo, ou a estrutura da sua sociedade. A jus­ tiça divina exige a justiça social entre os homens e en­ tre as nações.

Ameaças contra Israel, 2:6-16

Ê quase certo que o povo de Israel ouviu com gran­ de alegria, logo no princípio, a condenação dos pecados cruéis de seus vizinhos, sem compreender o alcance do ensino ético do mensageiro do Senhor. Ouviu, sem dúvi­ da, com profundo desapontamento a condenção severa da sua própria injustiça, depois de ter apoiado tão arden­ temente a condenação e o castigo severo da injustiça dos outros povos. Um dos característicos do nacionalismo exagerado de qualquer nação é a tendência de condenar os pecados de outras nações, e ficar cego aos seus pró­ prios delitos. A profecia de Amós, portanto, é uma ad­ moestação para todos os povos, em tôdas as épocas da História, aplicável às injustiças sociais que operam cons­ tantemente entre tôdas as classes, e freqüentemente en­ tre povos assiduamente religiosos, como os israelitas. No período do seu declínio moral, o povo de Israel pratica­ va escrupulosamente as cerimônias religiosas, e ao mes­ mo tempo oprimia cruelmente os pobres e necessitados. Enquanto os ouvintes, indignados, sentiam-se emba­ raçados, o mensageiro intrépido do Senhor enumerava e

O

LIVRO

DE

AMÓS

63

denunciava as injustiças que êles praticavam na revolta contra a justiça de Javé, o seu próprio Deus.

“Assim

diz o Senhor:

Por três transgressões de Israel,

e por quatro, não revogarei a punição;

porque vendem o justo por dinheiro,

e o necessitado por um par de sapatos” (2:6) .

Assim o profeta introduz a sua mensagem a Israel com a mesma fórmula que tinha usado nas profecias con­ tra as nações, Por três transgressões. Mas emprega a declaração apenas uma vez nos vários discursos sôbre a rebelião, dêste povo privilegiado, contra o seu Deus. Co­ meça imediatamente com a condenção dos pecados dos ricos contra os pobres, porque êles vendem o justo por prata e o necessitado por um, par de sapatos.

o pro­

feta se refere aos atos corrutos dos juizes na opressão dos pobres. Nos casos de litígio, os juizes começam a condenar o pobre, em favor do rico, por dinheiro, e as­ sim ficam cada vez mais corrompidos. Finalmente êles chegam a praticar a. injustiça cruel contra o pobre por apenas o preço de um par de sapatos. Mas o verbo vender, "Dfi, é o mesmo usado no sentido de vender uma pessoa como escrava (Gên. 37:28; Êx. 21:16) . Êste é o signifi­ cado natural do verbo neste versículo. O profeta se refe­ re em outro lugar (5:12) à corrução dos juizes, mas aqui fala do credor que aproveita a vantagem de vender o de­ vedor como escravo, de acôrdo com a injustiça social da época, para pagar uma pequena dívida. O justo é aquê- le que quis pagar a dívida, mas não podia dentro do pra­ zo especificado, por causa da opressão dos pobres pelos ricos. Assim o rico ganancioso, sem compaixão, aperta­ va o devedor até ao ponto de vendê-lo logo que tivesse o direito legal de fazê-lo.

Segundo a opinião de alguns comentaristas,

64

A.

R .

CRABTREE

“Os que suspiram pelo pó da terra na cabeça dos pobres, e pervertem o caminho dos mansos; um homem e seu pai entram à mesma jovem para profanarem o meu santo nome” (2:7) .

Os que suspiram pelo pó da terra na cabeça dos pobres é a tradução correta do Texto Massorético do hebraico, mas o sentido do hebraico não é claro. Lendo , pisar ao invés de , suspirar, a Septuaginta traduz, Os que pisam no pé da terra a cabeça dos pobres. Esta tradução concorda melhor com a segunda linha, e desviam o caminho dos mansos . Neste contexto mansos traduz melhor o sentido de do que aflitos. Em contraste com a prática dos opressores brutais, os man­ sos esperam humildemente a direção e o cuidado divino. Parece que esta significação da palavra aqui, e no Sal. 25:9, preparou a base para o grande preceito de Mat. 5:5. Os ricos e poderosos roubaram aos mansos os pri­ vilégios e os direitos que lhes pertenciam, e assim os des­ viaram da vereda na qual êles desejavam andar. A segunda acusação contra o espírito revoltado de Israel é a do fato de que um homem e seu pai entravam à mesma jovem, e assim profanavam o santo nome do seu Deus. Falta a palavra mesma no hebraico, mas o artigo definido pode dar êste sentido. Êles entravam no mesmo santuário. O procedimento vergonhoso nos san­ tuários é mais uma prova da perversidade de Israel, e da sua rebelião contra a vontade do Senhor Javé, o Deus de Israel. Afastando-se da pureza dos ensinos da Lei do Senhor, o povo escolhido estava seguindo a prática abo­ minável de prostituição no Santuário, o lugar do culto, segundo a prática dos cananeus. Na adoração das fôrças <3a natureza, os cananeus concentravam o seu culto no processo da geração da vida. Alguns israelitas se deixa­ ram seduzir por esta forma do culto pagão, mas não che­

O

LIVRO

D E

AMÒS

65

garam à baixeza da bestialidade que a literatura ugarí- tica atribui a Baal, e que os seus sacerdotes praticaram abertamente.7 Mas a prostituição religiosa, tão repugnan­ te para a verdadeira religião do Senhor (Deut. 23 : 17, no hebraico v. 18), já se tornara escandalosa entre os is­ raelitas. Oséias fala até da prostituição de filhas israe­ litas, nos lugares altos, e debaixo das árvores frondosas (4:13-14) . Êle usa o têrmo queãhasha, “prostituta sa­ grada”, mas a palavra wofrah, “môça”, usada por Amós significa a mesma coisa. Assim no seu culto paganizado, os israelitas profanavam o Santo Nome do Senhor Javé. O Nome do Senhor significa a sua personalidade. Qual­ quer ato que não está em harmonia com o caráter de Deus

é profanação do seu Nome.

tidade} capítulos 17 a 26 de Levítico,

Fala-se no Código d,e San-

sôbre muitos pe­

cados que profanam o Nome do Senhor. Nos atos de culto, os jovens e velhos, no espírito de leviandade, freqüentavam o mesmo santuário, e coabi­ tavam com a mesma 'prostituta sagrada (queãhasha) . Na sua insensibilidade espiritual, êles praticavam as for­ malidades agradáveis à religião de seus vizinhos, os ca- naneus. Na satisfação de seus desejos carnais, êstes is­ raelitas perverteram o culto e corromperam o espírito religioso. Assim, na prostituição e no modo cruel de tra­

tar os pobres e fracos, os israelitas chegaram a desprezar

o valor do homem criado à imagem de Deus.

“Êles se deitam ao lado de qualquer altar sôbre roupas recebidas em penhor; e na casa de seu Deus êles bebem

o vinho dos que foram multados”

(2:8).

Segundo a lèi (Êx. 22:26-27, no Hebraico 25:26), o

recebido do próximo em penhor, tinha

o único

vestido,

que ser devolvido antes

do pôr

do

sol,

sendo

7.

Cyrus H ;

Gordon,

Olã Testanvent

Times, p .

88.

L.

A.

5

|56

A i;R .

CRA.BTREE;

cobertor do pobre. Amós emprega a palavra roupas, , vestidos ou cobertores de várias qualidades, to­

Quando o devedor não as podia res­

gatar dentro do prazo marcado, o credor aproveitava-se sem demora da vantagem legal de possuí-las e vendê-las com lucro. O sentido da frase, o vinho dos que têm sido multa­ dos, é também obscura. Parece que significa o vinho recebido em penhor, e perdido ao credor porque não foi resgatado dentro do tempo marcado. E o vinho que o credor ganha do devedor infeliz, êle o bebe na casa do Senhor, provàvelmente com satisfação orgulhosa da sua própria astúcia. Assim, nos lugares de culto, êstes ho­ mens aproveitavam-se das leis injustas do país, pratican­ do ao mesmo tempo os costumes perversos da época em orgias abomináveis nos cultos hipócritas.

Gomo o Deus de Israel se Revela na História, 2:9-12

mados em penhor.

“Todavia, eu destruí diante dêles o amorreu, cuja altura era como a dos cedros, e que era forte como os carvalhos; mas destruí o seu fruto por cima,

e as suas raízes embaixo.

Também vos fiz subir da terra do Egito,

e quarénta anos vos guiei no deserto,

para possuir a terra do amorreu” (2:0-10).

Nos versículos 9 a 12 o profeta explica as ativida­ des do Senhor na História em favor de Israel. O Senhor tinha liberto Israel do poder do Egito, e o guiado através do deserto para possuir a terra do amorreu. Tinha des­ truído os amorreus diante dêle. Assim o Senhor tinha re­ velado a sua natureza ao povo de Israel, e lhe tinha de­ monstrado o seu poder. E fizera tudo isto em contraste com a ingratidão e a perversidade do povo.

O

LIVRO

DE. AMÕS

<67

Eu destruí diante dêles o ctmorreuJ A palavra Eu é enfática e positiva. Considerando a impossibilidade da libertação de Israel pelo próprio poder, críticos lançam dúvidas sóbre a autenticidade da história bíblica, porque não acreditam no milagre. Agora, a veracidade da his­ tória do Êxodo de Israel do Egito é geralmente aceita. É fato de grande significação o de a Bíblia apresentar o primeiro entendimento da finalidade da história huma­ na, na missão dêste povo escolhido. Ê também notável que nenhum conceito filosófico da História tem podido satisfazer o raciocínio humano. Portanto, muitos erudi­ tos modernos perdem interêsse no estudo da História. Os amorreus eram semitas, habitantes de Canaã jun­ tamente com os jebuseus e outros povos. No período do Êxodo êles moravam nas montanhas (Núm. 13:29), e õs cananeus ocupavam a costa do Mediterrâneo e a terra ao lado do Jordão. Segundo a tradição, os amorreus eram de grande estatura (Núm. 13:32), intrépidos e valentes na guerra. A êste povo, forte como os carvalhos, o Se­ nhor exterminou em favor dos israelitas. Amós cita e apoia a linguagem poética da tradição, para mostrar ao povo de Israel o imenso poder do Senhor e ao mesmo tempo prepará-lo para entender a sua própria impotência perante a potência da justiça divina. Na exterminação dos amorreus, o Senhor demonstrou o seu poder destrui­ dor, mas logo em seguida Amós descreve a soberania de Deus em fazer o povo de Israel subir do Egito, e em guiá- lo por quarenta anos através do deserto para possuir a terra dos amorreus.

“E

dentre vossos filhos

levantei profetas,

e dentre os vossos jovens, nazireus.

8.

N as

escavações

de

Mari

e

Nüzu,

André

Parrot

achou

m ilha­

res

de tábuas de

barro,

com

amplas descrições sôbre os amor-

r

reus.,

Ver

a

Arqueologia

Bíblica

do

autor,, p .

321.

 

68

A .

E .

CRABTREE

Não é isto assim, ó filhos de Israel, diz o Senhor.

Mas vós aos nazireus destes a beber vinho, e aos profetas ordenastes, dizendo: Não profetizeis” (2:11-12) .

O Senhor mostra o seu poder, a sua bondade e so­ licitude, levantando, dentre os filhos de Israel, mestres para lhes interpretar a significação da sua escolha e en­ sinar-lhes o propósito divino na direção das atividades de todos os povos. Mas ao invés de mostrar-se digno das

bênçãos recebidas, Israel se esqueceu da majestade trans­ cendente do poder e da grandeza do Senhor a quem devia

a sua própria existência. Desprezaram os mensageiros

que lhes interpretaram a vontade do Senhor, e corrom­ peram os nazireus, separados e consagrados ao serviço divino. Os profetas explicaram ao povo que êles tinham recebido a sua incumbência diretamente do Senhor para lhe mostrar o caminho da verdadeira religião, admoestá-

lo

contra os perigos da iniqüidade e orientá-lo no servi­

ço

de retidão e justiça. Não há nenhum paralelo na his­

tória do profetismo iniciado por Amós, e representado nas profecias bíblicas. Deus revelava os seus conselhos aos profetas, e êles transmitiam o que tinham recebido

para a orientação do povo.

Os nazireus eram homens consagrados ao serviço do Senhor. A raiz da palavra nazar, significa d&ãicar ou consagrar. Êles assumiam o compromisso solene de não tomarem bebidas alcoólicas, de não cortar o cabelo, de evitar o contato com corpos de mortos, e de não comer qualquer coisa imunda. Acharam as leis para o govêrno

de seus ideais no livro de Números

Pois não é assim, ó filhos de Israelf Ninguém po­ dia negar as acusações, porque os israelitas estavam pra­ ticando abertamente, e sem escrúpulo, os pecados men­ cionados. É o oráculo, a declaração positiva do Se­

6:1-21.

O

LIVRO

DE

AMÕS

nhor, o Deus de Israel, transmitido ao povo pelo mensa­ geiro divino.

O Julga/mento Iminente de Israel, 2:13-16

Depois de ouvir a exposição da sua iniqüidade, e a história do seu desprêzo da bondade do Senhor na orien­ tação profética da vida nacional, o povo tinha que ouvir também a pena da infidelidade e da revolta contra a jus­ tiça do seu Deus. “Eis que eu vos apertarei no vosso lugar, como se aperta um carro cheio de feixes. De nada valerá a fuga ao ágil, e o forte não corroborará a sua fôrça, nem o valente salvará a sua vida.

E

não ficará em pé o que leva o arco, nem o ligeiro de pé se livrará, nem tampouco o que vai montado a cavalo salvará a sua vida.

E

o mais corajoso entre os valentes

fugirá nu naquele dia, diz o Senhor” (2:13-16) ,

Bis que eu vos apertarei no vosso lugar. Esta é a tradução mais exata do hebraico, mas a linguagem não satisfaz a alguns dos comentaristas, nem a todos os tradutores. Mas não consta que êles possam justificar as modificações do texto. As palavras pTX, oprimir, e PIB» cambalear ou oscilar, sugeridas por alguns, não são melhores do que o texto p iy . apertar ou fazer pressão. Mas seja qual fôr o sentido exato da linguagem figura­ tiva do versículo, o contexto indica um desastre terrível. Os versículos 13 a 16 apresentam-se como declarações en­ fáticas, oráculo do Senhor. É introduzida a declaração com ênfase pela palavra Eis, reforçada pelo pronome pes­ soal do Senhor, Eu,

70

■A.

R .C R A B T R E E

No transtorno inevitável, e no desbaratamento de Is­ rael perante o inimigo, a fuga do mais ligeiro de nada valerá; o mais forte não terá fôrças, e o mais valente não poderá sâlvar-se a si mesmo. Repete-se no versículo 16 em palavras diferentes o pensamento do versículo anterior, para dar ênfase à im­ possibilidade da salvação de Israel. A fuga é de fato uma debandada. Naquele dia significa no dia do Senhor que

o profeta descreve em 5:18. Assim termina, nesta descrição do julgamento de Israel, a exposição básica da mensagem do livro. Não

obstante as bênçãos recebidas do seu Deus, Israel não

é melhor do que as nações vizinhas. Tinha pecado grave­ mente contra o Senhor com o tratamento injusto e a

opressão cruel dos pobres e necessitados para satisfazer

à sua própria voracidade. O seu modo perverso de pro­

ceder já chegou até à profanação do Santo Nome do Se­

nhor.

O cúmulo das transgressões de Israel é a ingratidão

e a infidelidade para com o seu Senhor que o salvou da

escravidão e o guiou do Egito até Canaã, dando-lhe a terra como herança. O Senhor também levantou mes­ tres para ensinar e orientar o povo no caminho de reti­

dão e justiça, mas Israel preferiu andar no caminho da perversidade.

O profeta explica como o Senhor tinha revelado o

propósito da justiça, não somente na vida de Israel, mas também no castigo da crueldade dos seus inimigos e vi­ zinhos. Assim, na operação inexorável da justiça divina; na direção de todos os povos, o Senhor Deus de Israel podia aproveitar-se do poder agressivo do grande Impé­ rio da Assíria para transtornar os povos que recusaram

ouvir a sua voz, e praticaram a crueldade desumana no tratamento para com os seus vizinhos. No caso de Israel, o procedimento dos homens que dirigiam a vida nacio­ nal violou não somente os princípios básicos da justiça

o

Liv r o

d e

à m ò s

71

na vida política e social, mas demonstrou até nos cultos religiosos a sua avareza e sensualidade. Já se tornara impreterível a destruição de Israel. Inesperadamente, òs israelitas, na prosperidade e sos- sêgo, têm que responder às exigências da justiça do seu Senhor. Nem a fôrça física, nem a destreza na guerra pôde salvar a nação das conseqüências dos seus pecados. Assim se apresentam, logo no princípio da profecia, os princípios básicos da sociologia do Velho Testamento.

Universal

Israel Desprezou a Sóberafoia e a Autoridade do Senhor Javé} o Seu Deus.

do seu povo a integrid a-

de para reconhecer e praticar a justiça nas suas rela­ ções sociais e nos seus negócios uns para com os outras. O culto cerimonial, as festas religiosas, as ofertas e sacrifícios oferecidos ao Senhor por homens que come­ tem pecados desumanos contra o seu semelhante não têm mérito nenhum. São antes abominações que suscitam a ira do Senhor da justiça, o Deus de Israel. Tôdas as nações e todos os homens são moralmente responsáveis perante o tribunal da justiça do Senhor. Até as nações, que não tiveram o privilégio de re­ ceber a revelação divina que Deus tinha dado a Israel, são moralmente responsáveis perante o tribunal do Se­ nhor Soberano de todos os povos da terra. Estas são convicções básicas do profeta, fundamen­ tadas, em parte, nos ensinos conhecidos e apresentados pelos profetas anteriores. Ma,s o profeta recebeu as suas credenciais, a sua incumbência e a sua mensagem dire­ tamente do Senhor. E, na sua pregação, a doutrina da justiça de Deus é mais claramente entendida e explica­ da, à luz da experiência pessoal de comunhão entranhada com o Espírito do Senhor e Governador dos céus e da terra. O profeta mostra como o Senhor da justiça con­

O Deus justo exige no culto

72

A .

R .

CRABTREE

dena a nação de Israel, altamente privilegiada, mas es­ cravizada por seus desejos pecaminosos. A ênfase de Amós no julgamento divino de Israel, e no seu entendimento da operação do princípio moral na História, é uma das provas da grandeza de Amós, e do va­ lor universal e eterno da sua mensagem.

TRÊS SERMÕES SÔBRE O DESTINO DE, ISRAEL,

3:1-6:14

Na segunda parte do liv*ro, o profeta desenvolve o tema apresentado nos capítulos um e dois. Os ouvintes tinham ouvido, com surprêsa e decepção, as declarações do profeta sôbre o julgamento divino de Israel. Com as provas evidentes das bênçãos de Deus na prosperidade de Israel, e com os preconceitos teológicos do povo, pare­ cia-lhe impossível que o Deus de Israel pudesse castigar o seu próprio povo. Política e economicamente, tudo ia maravilhosamente bem, especialmente para os dirigen­ tes do govêrno e dos negócios nacionais. Como se podia imaginar a possibilidade de que o Senhor Javé pudesse fazer cair qualquer desastre sôbre o povo da sua esco­ lha? Todavia, não se podia esquecer das palavras cor­ tantes do mensageiro corajoso sôbre os delitos de Israel. Tinha falado com sinceridade, e tinha exaltado a subli­ midade da justiça do Deus de Israel no castigo merecido de seus inimigos, e os ouvintes tinham apoiado jubilosa­ mente a sua mensagem dura a respeito das outras na­ ções. Cegos até então pelo próprio egoísmo, quanto à in­ justiça da opressão dos pobres e fracos pelos ricos e po­ derosos, alguns ouvintes começaram a sentir a fôrça da mensagem dura do profeta, e a reconhecer algumas-ver­ dades obstinadas na acusação de Israel. Aproveitando-se das dúvidas suscitadas no pensa­ mento dos ouvintes, e da excitação da consciência ador­

II.

O

LIVRO

D E

AMÓS

73

mecida por tanto tempo, o profeta procede no desenvol­ vimento das acusações contra Israel, acentuando cada vez mais, nestes três discursos, a arrogância, a avareza, a injustiça, a hipocrisia, a ingratidão e a infidelidade do povo que tinha recebido tantas bênçãos imerecidas do seu Senhor e Salvador. Encontra-se nestes capítulos o pri­ meiro profundo esclarecimento da vindicação da justiça divina na época cataclísmica da história de Israel.

O Profeta Explica a Relação de Israel para com Deus,

3:1-8.

“Ouvi esta palavra que o Senhor fala contra vós, o’ filhos de Israel,

subir da terra do

De tôdas as famílias da terra a vós somente tenho conhecido, portanto eu vos punirei por tôdas as vossas ini- qüidades” (3:1-2).

A primeira parte do versículo, Ouvi a palavra que o Senhor fala, é o princípio de um novo discurso. Com estas palavras de admoestação o profeta procura desper­ tar o povo para entender a razão e o motivo da sua pre­ gação, e que êle está transmitindo fielmente a mensagem do Senhor Javé, e não dizendo meramente as suas pró­ prias palavras. Proferida nos dias prósperos de Jeroboão II, a mensagem representa um contraste notável entre o ponto de vista do Senhor e o dos israelitas, a respeito das relações existentes entre Deus e o povo da sua escolha. Há um contraste significativo entre a justiça divina e a injustiça de Israel. O profeta entende e explica o grande contraste entre a condição perigosa de Israel e a certeza dos poderosos do povo de estarem firmemente seguros em Sião.

contra tôda a família que fiz

Egito, dizendo:

74

A i

R .

C RÁ BTREE'

Amós dirige a sua mensagem aos filhos de Israel, que na profecia geralmente significa o Reino do Norte. Mas as palavras, contra tôda a família que fiz subir da terra dó Egito, referem-se também, òu abrangem o povo de Judá. Ê provável que esta frase tenha sido acrescen­ tada por um redator subseqüente, indicada pela mudan­ ça da pessoa, que eu fiz subir. Judá sobreviveu à queda de Israel, devido à influência do profeta Isaías (II Reis 19:1-34), mas sempre ficava sob o mesmo julgamento da justiça divina. O profeta apresenta uma interpretação espantosa da eleição de Israel. Alarmante é o contraste entre a ex­ plicação profética e o ponto de vista de Israel sôbre o significado da eleição, fi repugnante o anúncio de que Israel, o povo escolhido de Deus, estará sujeito ao mes­ mo julgamento divino que os povos vizinhos que ,não re­ conhecem o Senhor Javé como. seu Deus, e adoram a Baal e outros deuses. Se o poderoso Império da Assíria ameaçasse a se­ gurança de Israel, não seria mais forte ainda o Senhor Javé, o Protetor de Israel? Não protegeria o seu próprio povo, tão intimamente relacionado com êle pela liberta­ ção do poder do Egito, e pela orientação histórica da sua vida nacional? A resposta a êste modo de pensar é dura para os ou­ vintes, e até para alguns leitores modernos da profecia, à luz dos ensinos bíblicos em geral, sôbre a doutrina da eleição. Mas o profeta invoca o princípio da justiça de que privilégios especiais também importam em respon­ sabilidades maiores perante Deus. Somente a vós vos tenho conhecido de tôdas as famílias da terra. Os ou­ vintes concordavam perfeitamente com esta declaração profética. Êles, porém, acrescentariam, “Portanto, vos perdoarei os vossos pecados.” Mas o profeta declara:

“Portanto, eu vos punirei por tôdas as vossas iniqüida- des”, a mensagem positiva do Senhor da justiça.

O

LIVRO

D E . AMÕS

75

A frase, a vós vos tenho conhecido> expressa o pro­

fundo sentido da bondade do Senhor e da sua relação especial para com Israel, o que é indicado pela palavra

w . Esta palavra fala da experiência íntima do amor

imutável do Senhor, que salvou Israel da miséria no Egi­

to e dêle fêz a sua própria nação, com uma incumbência nobre e honrosa. Tinha dirigido a vida nacional do povo através dos perigos que tinha de enfrentar, segundo as obras e os princípios revelados ao seu Libertador Moi­

sés.

Assim

Israel tinha recebido

a plena instrução

so­

bre

as atividades do poder do Deus da justiça, do Senhor

da natureza e do Doador da vida. Assim também se ha­

via manifestado a escolha de Israel, não somente pela

promessa do Senhor, mas também pela entranhada co­ munhão do propósito e da vida do Senhor na vida do seu povo. Do profundo entendimento da natureza da justiça do Senhor, e de tudo que êle tinha feito em favor de Israel, o profeta reconhece, no esforço de reclamar c apoio e as bênçãos divinas na vida de avareza e injus­ tiça, pelos israelitas poderosos e arrogantes, o acúmulo da injustiça. Portanto, foi inevitável a punição dos pe­ cados que tinham pervertido o sentido da justiça, e até da natureza de Deus, assim anulando a própria relação espi­ ritual com o seu Deus. Declara-se com ênfase, não so­ mente o princípio da responsabilidade encerrado no pri­ vilégio, mas expõe-se também a soberania do Senhor da justiça.

A fôrça da mensagem de Amós é reforçada pela cer­

teza de que êle tinha conhecimento da natureza e do pro­

pósito do Senhor dos céus e da terra, e algum entendi-, mento da história do destino espiritual do homem. Na

sua teologia a eleição de Israel é fato de profunda signi­

ficação, amplamente verificada pela História. Mas o pro­ feta apresenta uma verdade ignorada pelo povo de Israel, e nem sempre entendida perfeitamente por alguns teólo­

76

A .

R .

CRABTREE

gos modernos: A eleição é sempre eticamente condicio­ nada, O profeta, é claro, dá ênfase especial sôbre o fra­ casso moral do povo eleito. Mas é um ensino fundamen­ tal da Bíblia o fato de que Israel foi escolhido pelo Se­ nhor para prestar um serviço especial ao mundo. Mas quando Israel se esqueceu do princípio da justiça encer­ rado na eleição, a doutrina gradualmente se tornou uma mera superstição. Nos versículos 3 a S o profeta expõe as exigências da justiça divina.

“Andam dois juntos, sem estarem de acôrdo? Ruge o leão no bosque sem que haja prêsa? Levanta o leãozinho no covil a sua voz, se nada tenha apanhado? Cai a ave no laço em terra, se não houver armadilha para ela? Levanta-se o laço da terra, sem apanhar alguma coisa?” (3:3-5) .

Estudantes entendem os versículos 3 a 8 de pontos de vista diferentes. Alguns pensam que o profeta está apresentando um argumento para provar a sua autori­ dade como mensageiro de Deus. Mas a defesa da auto­ ridade do profeta simplesmente faz parte do argumento lógico contra o entendimento errado do acôrdo do Senhor com Israel. O profeta apresenta êstes exemplos da rela­ ção entre a causa e o efeito, como a base do argumento lógico de que Israel será destruído como nação, por cau­ sa da sua infidelidade para com o acôrdo que aceitou vo- luntàriamente do seu Deus. A pergunta retórica, Andam dois juntos sem esta­ rem de acôrdo? é dirigida ao povo infiel. Israel pode an­ dar com o Senhor da justiça, no desprezo da justiça di­ vina? Deus e Israel não podem andar juntos, enquanto

O

LIVRO

D E

AMÓS

77

Israel persistir na prática da injustiça. A Septuaginta lê , se não se conhecerem:, ao invés de VlJMJ, se não es­ tiverem, de acôrdo. Israel, na sua injustiça e hipocrisia se afastara para tão longe do Senhor, que não tinha co­ nhecimento do Espírito de Deus. Mas o Texto Massoré- tico é melhor. A justiça divina, pela sua própria natureza, exige o castigo dos pecados e da infidelidade de Israel, porque o povo tinha violado o berith, o Concêrto do Senhor, re­ pudiando os compromissos solenes que tinham aceitado voluntariamente perante o Senhor. Isto significa a dis­ solução do acôrdo entre Deus e Israel. Deus não muda na sua natureza, nem modifica os seus planos e propósitos para com a humanidade. A santidade, a justiça e o amor do Senhor operam constantemente em perfeita harmonia para a realização dos seus eternos propósitos. Israel jul­ gava que a pregação de Amós representava a mudança do propósito do Senhor na eleição de Israel. Mas Israel tinha pervertido tanto a sua própria natureza moral que não era mais possível andar com o Senhor da justiça. O profeta está se referindo ao }V"]3 , berith, entre o Senhor e Israel. Precisamos reconhecer que a rejeição de Israel, como nação, por causa da sua infidelidade, não cancelou, de modo algum, o propósito do Senhor na escolha de Is­ rael. A amorável benignidade do Senhor para com Israel apresenta um exemplo permanente da operação da pro­ vidência divina. A finalidade da eleição de Israel foi rea­ lizada em parte na revelação apresentada na Palavra de Deus, e em parte no cumprimento da missão do Restante dos fiéis. Amós não desenvolveu a doutrina do Restante, mas reconheceu no fim da sua mensagem o propósito de Deus no levantamento do tabernáculo caído de Davi. Para ilustrar mais ainda a seqüência de causa e efei­ to, no castigo dos pecados de Israel, o profeta apresenta exemplos do leão e da ave que êle tinha observado na sua experiência como pastor no deserto.

78

a .

r ;

c r a b t r e e

Ruge o leão no bosque, sem que haja prêsa ? A tra­ dução dos verbos pelo presente ao invés do futuro nestes versículos, talvez represente melhor a fôrça das ilustra­ ções. De Teeoa, aldeia no outeiro pedregoso, vinte qui­ lômetros ao sul de Jerusalém, Amós tinha observado cui­ dadosamente a operação normal das leis do Senhor. Não fazia, como o homem moderno, uma distinção definitiva entre as leis da natureza física e as leis éticas do Senhor. Tôdas as leis do Deus dos céus e da terra são justas e inexoráveis. A experiência com a aspereza física do de­ serto e o conhecimento da perversidade e da injustiça so­ cial de Israel prepararam o espírito do homem de Deus para entender e interpretar o desastre iminente de Israel perante a justiça divina. Quando o leão ruge está pronto para apanhar a prê­ sa . A vítima já está nas garras da morte. A linguagem é forte para representar o destino calamitoso de Israel. Na visão do profeta, Israel está condenado perante o tri­ bunal da justiça do Senhor, e o povo já está no poder da Assíria, o leão cujo rugido a vítima não quer ouvir nem entender. Fas soar o leãozinho no covil a sua voz, se nada tiver apanhado? é a segunda linha do paralelismo que reforça a lógica, ou a seqüência de causa e efeito. Outro exemplo do efeito que segue inevitavelmente a causa: Cai a ave no laço na terra, se não houver arma­ dilha para ela? Levanta-se o laço da terra, sem que te­ nha apanhado alguma coisa? Neste caso o presente dos verbos simplifica a linguagem. As duas partes do pa­ ralelismo proclamam em palavras variadas, e pontos de vista diferentes, a ilustração do desastre do povo. No entendimento do profeta, a nação está completamente desmoralizada, caída, sem possibilidade de se levantar, apanhada no laço poderoso da Assíria. Nada acontece por acaso. Para qualquer efeito há sempre uma causa. É impossível escapar a punição justa do pecado. Há per­ feito acôrdo entre o sentido da mensagem de Amós e a

O

LIVRO

d e

AMóS

79

seguinte declaração do apóstolo Pauio: “Não vos enga­ neis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gál. 6:7). Nesta série de perguntas retóricas o profeta apre­ senta ilustrações da seqüência de causa e efeito que os ouvintes não poderiam deixar de entender. As ilustra­ ções são escolhidas para dar ênfase ao desastre iminente e inevitável de Israel, se êle persistir na infidelidade pa­ ra com o Senhor. Os ouvintes puderam concordar per­ feitamente com a lógica das ilustrações de Amós, mas negaram que tivessem aplicação ao povo dè Israel. Ê o caso do ouvinte desviado que concorda com o sermão do pastor, mas aplica o ensino ao vizinho. A punição vem do Senhor da justiça, mas não sem avisar ao povo por intermédio do profeta.

“Toca-se a trombeta na cidade, sem que o povo tenha mêdo? Sucede algum mal à cidade, sem que o Senhor o tenha feito?

(3:6) .

Quando se tocava inesperadamente a trombeta na cidade, o povo estremecia de mêdo, sabendo que era o

sinal de qualquer calamidade. A incerteza aflitiva da na­ tureza do desastre, indicada pelo sinal, aumentou o ter­ ror do povo. Tocava-se a trombeta para dar o alarme contra animais destrutivos (Joel 2:1), ou para avisar, ao povo, do assalto do inimigo (Os. 5:8; Jer. 6:1; Ez. 33:

3 ). Por que, então, os ouvintes não ouvem

ções do profeta, e não seguem a orientação do mensagei­ ro do Senhor? A palavra mal, njn.» neste versículo, não se refere ao mal moral, mas ao infortúnio, ou o desastre iminente (I Sam. 6:9; Jer. 1:14; Is. 45:7). O Senhor Javé é soberano, governador de tudo que acontece, do bem e do mal.

A estrutura do versículo sete não cabè bem no seu

as admoesta­

80

A.

R .

CRABTREE

contexto poético. Alguns comentaristas acham que foi acrescentado por um escritor subseqüente. Todavia, a declaração representa perfeitamente o sentimento e a teologia de Amós. “Certamente o Senhor Javé não faz coisa alguma, sem revelar o seu conselho aos seus servos, os profetas” (3:7) .

Os profetas são os servos do Senhor, e ao mesmo tempo os servos mais nobres do povo. Êles recebem e transmitem ao povo as mensagens e os propósitos de Deus. A palavra T)D pode significar discurso confiden- dal, conselho ou segrêão. Significa aqui o conselho se­ creto, ou as verdades ãa revelação divina que o homem não pode descobrir pela sua própria inteligência. A pa­ lavra assim tem quase o mesmo sentido de ^vcrTripiov,

o propósito secreto do Senhor em Efésios 3:9.1 “Já rugiu o leão ; quem não terá mêdo? O Senhor Javé tem falado; quem pode deixar de profetizar?” (3:8) . Neste paralelismo o leão é o próprio Deus, represen­ tado por seu servo Amós. O bramido do Senhor é á mensagem do profeta, dirigida a Israel para despertar a

sua consciência adormecida no sono da morte. Amós re­ cebera a sua mensagem do Senhor e não podia deixar de entregã-la. Êste resumo do argumento lógico do profe­ ta liga-se com os versículos três, quatro e seis, e chama

a

atenção para a providência do Senhor na admoestação

e

no apêlo ao povo. “Deus não deixa eternamente o homem nas trevas da ignorância, mas vem com a palavra segura da

profecia para satisfazer os anelos do coração.

A

1.

A palavra tem profundo sentido no Novo Testam ento:

M ar.

4:11; A poc. 17:5; E f. 5:32; A poc.

1:20;

17:7;

I

Tim .

3:9.

Ver

o

Lexicon, de

Thayer.

O .UYRQUjQE. :AMÚS

revelação divina é o remate da natureza religiosa do homem. O caráter da:profecia bíblica é a pro­

va

final e suficiente da sua origem divina.” 2

Mas no caso de Israel, a natureza religiosa, alimen­ tada por esperanças falsas, não podia receber' o conse­ lho do Senhor. Não é fácil analisar satisfatoriamente as operações da inteligência do homem de Deus. Podemos entender as eternas verdades que êle proclama, mas co­ mo êle fica prêso ao Espírito do Senhor, na comunicação com o Senhor, e tem o discernimento espiritual de ouyir a mensagem de Deus para o povo, e de distingui-la de seus próprios pensamentos, os teólogos não sabem explicar perfeitamente. Mas não temos dificuldade em entender que o Deus da justiça deu a sua mensagem a Israel, por intermédio do profeta de Tecoa, e que as verdades eter­ nas da sua profecia têm mais aceitação hoje do que ti­ nham nos dias do reinado de Jeroboão II.

A Destruição Total de Samaria, 3:9-12 ,

Os versículos 9 e 10 descrevem os pecados de opres­ são e injustiça dos habitantes da cidade, e OS 11 e 12 fa­ lam das conseqüências terríveis dos pecados do povo na destruição completa da grande e orgulhosa métrópolè‘. A cidade foi fundada por Onri, no outeiro de quase cem metros de altura, cercado por montanhas, em três lados. Apreciei o, sítio magnífico na visita recente às ruínas co­ bertas quase que completamente pela terra. A cidade foi fortificada por Acabe. Tornou-se mais tarde uma fortár leza poderosa, defendida com tanta fôrça que resistiu por três anos ao sítio do poderoso exército da Assíria. “Fazei ouvir isto nas fortalezas de Asdode, e nos palácios da terra do Egito,

 

.

e dizei: Ajuntai-vos sôbre os montes dé Samaria,

2.

A

Esperança

Messiânica, do autor, p .

10.

,

L.

A.

6

82

- '

.

A .

R .

CRABTREE

vêde os grandes tumultos dentro dela,

e as opressões no meio dela.

Êles não sabem fazer o que é reto, diz o Senhor,

os que vão entesourando nos seus palácios

a violência e o roubo” (3:9-10).

A Septuaginta traz Assíria ao invés de Asdode, mas Asdode representa a Filístia, inimiga poderosa de Israel por muitos anos. Israel tinha experiência amarga da injustiça e crueldade de ambos, a Filístia e o Egito. Estas nações, que não tinham o padrão moral de Israel,

ficarão espantadas pelos crimes praticados dentro dos múros de Samaria, cidade capital de Israel. O hebrai­ co traz o têrmo montes ao invés do monte da Septuaginta. Se montes é o texto original, a palavra se refere aparen­ temente aos montes Ebal e Gerizim. Do cume dêstes po­ dia vér o monte de Samaria. Mas é mais provável que monte seja o têrmo original, e se refira à própria Sama­ ria. O singular cabe melhor no contexto e concorda com

o uso em 4:1 e 6:1. Os tumultos sao as discórdias, as

agitações, as lutas sociais e as perturbações que resulta­ ram cias atividades pecaminosas dos ricos e poderosos da cidade, da arrogância, e crueldade das suas injustiças, do suborno dos juizes, do roubo e da hipocrisia.

Os profetas chamam freqüentemente a atenção para

o fato de que o povo hebraico, com todos os seus privi­

légios religiosos, era mais pecaminoso do que os pagãos.

O profeta ainda fala à consciência das pessoas religiosas

dá nossa época que praticam assiduamente as suas for­ malidades religiosas, ou assistem aos cultos nas suas

igrejas nos domingos, e nos dias da semana cometem pe­ cados escandalosos no meio dos vizinhos que não profes­ sam qualquer religião, mas dão testemunho da vida de honestidade e retidão. Infelizmente os incrédulos têm alguma razão na censura da vida de membros das igre­

jas.

,fí

r:.

■■■■.

,

O LIVRO DE AMÓS

83

Um dos resultados trágicos do pecado é a sua in­ fluência na personalidade do pecador. Na cegueira espi­ ritual, êle vai ganhando entendimento prático do mal, enquanto o seu espírito fica gradativamente paralisado na incapacidade de perceber e praticar á retidão e a jus­ tiça. O profeta reconhece que êste princípio opera na vi­ da nacional, bem como na vida pessoal. O particípio he­ braico descreve a ação linear, e diz, os que vão entesou- rondo a violência e o roubo inevitàvelmente sufocam a consciência. O profeta Jeremias também descreve o es­ tado dos que ficam espiritualmente asfixiados pela prá­ tica, por muito tempo, do mal.

“Deveras o meu povo está louco, êles não me conhecem; são filhos néscios,

e não têm entendimento;

peritos são em praticar o mal,

e não sabem fazer o bem”

(4:22).

freqüentemente

As coisas entesouradas

se

perdem,

mas o espírito ganancioso cresce na sua natureza peca­ minosa pela aquisição dos bens tão ardentemente dese­ jados (Rom. 2:5).

“Portanto, assim diz o Senhor Javé:

Um adversário cercará a terra,

derribará as tuas poderosas defesas,

e os teus palácios serão saqueados.

Assim diz o Senhor:

Como o pastor livra da bôca do leão duas pernas, ou um pedaço de orelha, assim serão salvos os filhos de Israel, que habitem em Samaria, com apenas o canto dà cama e parte do leito” (3:11-12) .

84

A.

R

C R A B T R E E

Há um ditado antigo que diz: “Os moinhos dos deu­ ses, moem devagar, mas trituram bem.” Na observação de muitos homens modernos, parece que a . providência de Deus, no castigo do pecado, opera muito devagar, ou deixa de manifestar-se por qualquer maneira, até que ve­ nha uma calamidade como a guerra para acordá-los. Os profetas de Deus entendem melhor as leis da justiça di­ vina que operam na história humana. Êste “Portanto” de Amós baseia-se na exposição da história de Israel, e corresponde no seu rico significado aos “portantos” do apóstolo Paulo. Apesar das grandes fortificações de Samaria, um ini­ migo poderoso cercará a terra e fará descer tôdas as suas poderosas defesas e apagará tôdas as suas esperan­ ças ilusórias. Os magníficos palácios, construídos à cus­

ta da opressão de vizinhos, e cheios de riquezas adquiridas pela rapina e roubo, vão ser completamente saqUeados

Se a destruição de Israel resulta da situa­

ção política da época, o profeta reconhece nisto a opera­

ção das leis da justiça divina que operam constantemente na vida dos homens e na história das nações. Os podero­ sos opressores dos pobres e fracos não podem escapar ao devido castigo da sua crueldade. O profeta descreve o desastre dos opressores que mo­ ram nos palácios, de luxo e esperam ganhar o favor de Deus com os seus ritos religiosos e o sacrifício de animais nos altares de Betei. Responde às perguntas que pudes­ sem surgir no pensamento do povo. A destruição será completa? Ninguém escapará? Os nossos cultos e as nos­ sas ofertas não têm valor? Sim, a destruição nacional será completa. Como o pastor arranca da bôca do leão os restinhos do animal de­ vorado, assim serão libertos os habitantes de Samaria, com wpenas o canto da cama e parte do leito. É incerto

e destruídos.

o

significado da palavra , parte, mas aparentemen­

te

se refere a qualquer parte do leito luxuoso do rico, tal-

0

: L1VKO

D E

ÀMÓS

85

vèk sló tecião dê sêâü, com desehhòs artísticos, f abricado em Damasco. Mas alguns traduzem a palavra perna do leito. A referência chama a atenção para o contraste en­ tre a vida abundante dos ricos e a Vida miserável dos pobres. Há interpretações diferentes sôbre os habitantes li­ bertos do desastre de Samaria. Pensam alguns que os' que se salvaram representam um restante dos fiéis ao Senhor, mas esta interpretação é forçada e não concorda com o pensamento da passagem. Êste profeta não fala do restante fiel, uma doutrina desenvolvida mais tarde. Israel foi completamente destruído como,nação, mas per­ maneceram alguns fiéis entre os samaritanos è outros israelitas que sofreram da destruição nacional, mas so­ breviveram. O profeta recebe ordéní de Deus para ouvir e testi­ ficar contra a casa de Jacó e anunciar o destino de Betei, o santuário dos reis e do povo de Israel. Não vejo razão para a declaração de Fosbroke 3 de que os versículos 13 a 15 interrompem a seqüência dos oráculos dirigidos a Sa­ maria . Betel era a capital religiosa de Israel, como Sa­ maria era a capital política. As duas capitais eram igual­ mente corrutas, e os moradorès de Samaria praticavam1 a sua hipocrisia em Betel, bem como na cidade de Sama­ ria. Foi em Betel que os hipócritas blasfemavam do No­ me do Senhor no esforço de suborná-lo com òfertas e dízimos. “Ouvi e dai testemunho contra a casa de Jacó, diz o Senhor Javé, o Deus dos Exércitos, que no diá em que eu. punir as transgressões de Israel, visitarèi também os ajtares de Bete!; e as pontas do altar serão cortadas,

3 .

e cairão port terra”

H ugbell É .

798

W .

Fosbroke,

The In terpreters Bible, Vol." VI, p.

■"''

m

A. R. CRABTREE

A destruição dos altares de Betei apagará completa­ mente qualquer esperança de salvação por meio de uma religião hipócrita que chega a blasfemar do Nome de Deus. Como a cidade de Samaria representava a degene­ rescência política e moral de Israel, Betei era o foco da hi­ pocrisia. Êste centro do culto era venerado pela casa de Jacó, por causa da experiência tida pelo patriarca naque­

le lugar com Deus (Gên. 28:10-22; 35:1-7). Havendo

perdido o conceito espiritual de comunhão com Deus, Is­ rael, como as nações, julgava que poderia ganhar a pro- , teção e as bênçãos do seu Deus por meio de sacrifícios de

animais e de cultos cerimoniais, e assim ficar livre para continuar a prática de seus negócios pecaminosos. O cen­ tro do culto nacional será tão completamente destruído como a càpital política. O Senhor da justiça demolirá o santuário com todos os seus acessórios. As palavras punir ou visitar e transgressões re­ petem-se através da mensagem de Amós, e acentuam

o tema da sua pregação. Alguns pensam que a pala­

vra altares, n ir a t » , deve ser mudada para o singular a fim de ficar em harmonia com o têrmo na segunda linha. Outros sugerem que a palavra original seria pilar ou

Os pilares sagrados tinham uma influên­

cia poderosa no culto de Israel, como se nota no estudo da profecia. A masseba, coluna, é proibida em Deut. 16:

21 e Lev. 26:1. As palavras do profeta, as pontas do altar serão cortadas e cairão por terra, soaram aos ou­ vidos do povo como blasfêmia. Foi destas pontas que o homem pegava em busca de refúgio do inimigo (I Reis 1:50). Os altares históricos de Betei, associados com Abraão e Jacó (Gên. 12:8; 35:7), tiveram uma santida­ de peculiar para os israelitas. Através da sua história, o povo tinha oferecido sacrifícios no altar de Betei (I Sam. 10:3; I Reis 12:28-31; 13:1; Amós 9:1; Os. 4:15; 10:

1,2,8). O profeta Oséias falou de Betei, casa de Deus, co­ mo Bete-Aven, casa de iniqüidade.

c o h m a JISXD .

O

LIVRO

D E

AMÓS

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“Derrubarei a easa de inverno com a casa de verão; e as casas de marfim perecerão, e as grandes casas terão fim, diz o Senhor” (3:15). As descobertas modernas dos arqueólogos nas ruínas de Samaria concordam perfeitamente com a descrição das casas de inverno e de verão do profeta. As ruínas de um dêstes palácios suntuosos mostram que foi construído com grandes pedras lavradas, tendo uma forte tôrre re­ tangular, e um jardim espaçoso em redor. Os arqueólo­ gos julgam que teria sido construído por Jeroboão II. Acharam-se nas ruínas numerosos marfins. Muitos dês­ tes ficaram em pedaços, mas alguns tinham a forma de placas e painéis que se embutiam na mobília e nas pare­ des da casa. Foram gravados com figuras artísticas que representam a cultura da época: lótus, lírios, plantas, leões, veados, figuras de pessoas aladas, esfinges e fi­ guras de deuses egípcios, como Isis e Horus.4 Para os ricos, com o seu conceito pagão de Deus, desprêzo dos direitos humanos e a falsa noção de que os seus sacrifícios podiam ganhar os favores divinos, os magníficos palácios eram evidências visíveis-das bênçãos do Senhor. Mas o Senhor da justiça, o Deus dos céus e da terra, derrubará êstes palácios de luxo, adquiridos e mobiliados à custa das vítimas que tinham oprimido e roubado.

A Avareza das Mulheres de Samaria, 4:1-3

’ “Ouvi esta palavra, vacas de Basã, que estais no monte de Samaria,

4

A

as opressoras

necessitados, que dizeis a vossos maridos,

Dai cá, para que bebamos!

dos pobres,

as

esmagadoras

A rq u e ologia

B íb lica ,

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200-201

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GÂZ

R . CRABTREE'

”v»vK/Juj-flíij. © Senhor Javé pela sua; santidade:

Eis que vêm dias sôbre vós, quando vos levarão com anzóis,

até a última com fisga de pesca.

- Saireis pelas, brechas, cada uma ,em frente de si; e sereis lançadas para Hermom,

• ^

diz o Senhor” (4:1-3) í

As mulheres elegantes, arrogantes, avarentas e aqui­ sitivas, na sua perversidade, incitavam os maridos a opri­ mir os pobres e esmagar os necessitados para satisfazer à suá vaidàde extravagante. Com os particípibs defini­ tivos, o hebraico diz: as opressoras dos pobres, as es­ magadoras dos necessitados. Portanto elas sofrerão: jun-:

tâníente còm os homens o castigo da süa injústiça im­ piedosa ! Ouvi esta palàvra, vacas de Basã. Está brève:

mensagem, dirigida às senhoras, é a mais vitriólica con­ denação dá injustiça dos israelitas pela exposição da jus­ tiça divina'. Os israelitas pensavam de Basã, ao leste do Mar da Galiléia, como sendo terra de montanhas, de car­ valhos, leões, gado de tamanho enorme e homens rudes

é vigorosos, ’ gigantes,

ou refains.

,

,

,

Ver Is.

2:13;

Miq.

7:14; Déut. 32:14. O gado é representado como gòrdo é feroz. O pejorativo vacas de Basã é bastante forté e pi­

cante, mas indica também o poder e a influência das mulheres elegantes na corrução da vida social e econô­ mica do povo de Israel. O texto hebraico dêstes três versículos e,stá em con­ fusão. Traz o masculino imperativo do verbo ouvir, co­ mo também o sufixo masculino com o têrmo maridos, còííi á !preposição sôbre e com o sinal do objeto direto. As outras formas são femininas e concordam gramatical­ mente com vacas de Basã. Tambétn a' mudança abrupta da imagem de vacas, no primeiro versículo, para a de peixe, no segundo, complica a construção. Mas apèàar da

o:L IV R O '

DE .AMÔS

mexplicávèl fálta de;concordância gramatical nos porme­ nores,* 0 destino1das mulheres de Samaria é bastante cla­ ro, pois é decretado pelo juramento do Senhor Javé. © Senhor tinha jurado pela sua santidade, o característico^ ou 0 atributo essencial, da sua natureza. Os dias da re­ tribuição das transgressões das vacas de Basã estavam:

chegando, de acôrdo com a jüstiça divina. ’ No sítio e na destruição de Samaria, os inimigos vos levarãô com anzóis, até a última de vós, com fisga de pesca. A frase até a última de vós é mais clara e traduz melhor o hebraico do que e as vossas restantes, ou