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CAPÍTULO I O DESAFIO DA LOUCURA

No período revolucionário havia alguns milhares de loucos. Ainda em 1834 Ferrus enumera apenas dez mil. Isto é bem pouco se comparado aos dez milhões de indigentes, trezentos mil 1 mendigos, uns cem mil vagabundos, cento e trinta mil menores abandonados, etc. 2 Contudo, a maior parte desses "problemas sociais" agudos permanece sem solução legal, pelo menos até as primeiras "leis sociais" da Terceira República. A lei de 30 de junho de 1838, sobre os alienados, é a primeira grande medida legislativa que reconhece um direito à assistência e à atenção para uma categoria de indigentes ou de doentes. É a primeira a instaurar um dispositivo completo de ajuda com a invenção de um novo espaço, o asilo, a criação de um primeiro corpo de médicos- funcionários, a constituição de um "saber especial", etc. Por que a legislação relativa aos alienados antecipa em cinquenta anos e ultrapassa em sistematização todas as outras medidas de assistência? Que não se venha falar da necessidade de "recuperar uma força de trabalho", no momento em que centenas de milhares de indigentes, menos improdutivos, não têm ocupação, Que não se venha alegar o patético da loucura, quando as famílias ociosas nas tardes de domingo dão gorjeta aos guardas de Bicêtre para assistir às contorções dos furiosos.

A loucura colocou um desafio à sociedade nascida nas convulsões da queda do Antigo Regime. E a sociedade o aceitou porque estava em jogo a credibilidade de seus princípios e do equilíbrio de seus poderes. Negócios burgueses e sérios de ordem, de justiça, de administração, de finanças, de disciplina, de polícia e de governo, nos quais o patos da loucura seria propriamente deslocado. Os debates em que o louco era objeto só colocaram em cena os "responsáveis" encarregados de controlá-lo. Começaremos, portanto, a analisar essa divisão de responsabilidades e a interrogar as responsabilidades desta partilha no momento em que ela se institui na crise revolucionária * .

O Estado, a Justiça e a Família

Antes da Revolução, o poder judiciário e o poder executivo compartilhavam as responsabilidades da sequestração dos insanos. Seus procedimentos complexos e mal

1 G. Ferrus, Des alienes, Paris, 1834. 2 Cf. H. Derouin, A. Gary, F. Worms, Trailé thérique et pratique de l'Assistence publique, Paris, 1914. Cf., também, do ministro do Interior de Gasperin, Rapport au Roi sur les hôpitaux, les hospices et les services de bienfáisance, Paris, 1837. * Não nos mantivemos, na exposição, numa ordem estritamente cronológica. Cf. em anexo o quadro da sucessão dos principais acontecimentos, quer os estritamente médicos quer os relacionados com a problemática geral da assistência

unificados provocavam conflitos de competência, mas esses não colocavam em questão a base de direito das condutas repressivas.

As "ordens de justiça" consistiam em embargos ou sentenças de sequestração, em geral de duração ilimitada, dadas por uma das numerosas jurisdições competentes (parlamentos, tribunais de bailiado ** , prebostados *** , tribunal do Châtelet em Paris, etc). Às vezes o enclausuramento era decidido por uma "ordem particular" de magistrado, porém, essa medida, suspeita de comportar riscos de arbítrio, tendeu a cair em desuso no fim do Antigo Regime. O procedimento judiciário mais elaborado era o da interdição que será adotado tal qual pelo código napoleônico. Após demanda apresentada pela família (excepcionalmente pelo procurador do rei), o juiz proferia o embargo após recolher os testemunhos, fazer comparecer os protagonistas e interrogar o louco. A pessoa reconhecida insana podia, então (mas isto não era obrigatório), ser sequestrada em uma casa de detenção e seus bens eram colocados sob tutela 3 . A complexidade desse processo, seu custo elevado, a publicidade dos debates, tão temidos para a "honra da família", tornavam tal medida relativamente pouco solicitada. Adicionando as interdições e os outros modos de intervenção por via judiciária, pode-se avaliar que a proporção das sequestrações por causa de loucura que, no fim do Antigo Regime, provinham das "ordens de justiça" 4 , situava-se por volta de um quarto.

Os outros enclausuramentos, isto é, a maioria dentre eles, eram efetuados a partir de uma "ordem do rei" ou lettre de chachet. Essa ordem era outorgada por intermédio do ministro da Casa real, por iniciativa da autoridade pública ou por iniciativa das famílias. Deste forma, quando um insano perturbava a ordem pública, os serviços da chefia de polícia de Paris e os intendentes, nas províncias, podiam solicitar uma ordem de internação ao rei. Eles podiam até apoderar-se do louco, mas a sequestrarão provisória só passava a ser legal após a obtenção da lettre de cachet.

Uma "ordem do rei'' podia também ser obtida por solicitação da família. Esta justificava, numa "petição", as razões pelas quais solicitava o enclausuramento do insano (ou mais geralmente do perturbador da ordem familiar: pródigo, libertino, devasso, etc). Se o rei, por intermédio do ministro de sua Casa, fornecia a ordem, o insano passava a ser um desses "prisioneiros de família" que representavam aproximadamente nove décimos das lettres de cachet sob o Antigo Regime 5 .

O poder real desempenhava, assim, um duplo papel. Munido das prerrogativas do executivo ele intervinha para salvaguardar a ordem pública contra as perturbações causadas pelos insanos. Porém, frequentemente, ele era intermediário e um regulador no exercício do poder correcional das famílias. É ele quem legitima a demanda familiar e aprecia em última instância seus motivos. Algumas vezes a ordem não é dada apesar das

** N. do T. De bailio, antigo magistrado provincial.

*** N. do T.: Antigos tribunais de justiça militar.

3 Cf. P. Sérieux, M. Trenel, "L´internement des alienes par voie judiciaire sous l´Ancien Regime", Revue historique de droit français et étranger, 4ª série, 10º ano, julho-setembro, 1931; P. Sérieux, "L´internement par ordre de justice des alienes et

correctionnaires sous l´Ancien Regime", ibid., 4ª série, 11º ano, julho-setembro, 1932.

4 Cf. Ph. Chatelin, Contributions à l'étude des alienes et anormaux au XVII. et XVIII. siècle, Paris, 1923.

5 Cf. P. Sérieux, L. Libert, Les lettres de cachet, "prisionniers de famille" et "placements volontaires", Gand, 1912.

"humildes súplicas" da família. Neste caso os agentes do rei podem solicitar um inquérito suplementar ou aconselham a família a mover um processo de interdição 6 .

Certamente, um tal sistema não é simples. Mas também não é arbitrário. Expressa um equilíbrio, não isento de tensões, entre três poderes ― real, judiciário, familiar ― que se amparam mutuamente com diversas possibilidades de negociações, compromissos e permutações. Observa-se, assim, uma evolução significativa de suas relações durante as décadas que precedem a. queda do Antigo Regime.

Em sua luta contra os Parlamentos a autoridade real tenta, inicialmente, impor sua hegemonia, ao mesmo tempo em relação à justiça e às congregações religiosas suspeitas de negociar, algumas vezes diretamente com as famílias, a sequestração de seus insanos e outros susceptíveis de correção. Assim, em 1757, o ministro da Casa real quer suprimir as "ordens particulares dos magistrados" suspeitos de arbítrio. Em 1767, o poder real cria um novo espaço de detenção, os depósitos de mendigos, submetidos à autoridade direta dos intendentes, sem controle judiciário, apesar da viva oposição dos parlamentos. Os depósitos de mendigos herdam uma parte das funções dos Hospitais Gerais, cada vez mais saturados de velhos pobres e adquirem o hábito de acolher um número crescente de alienados 7 . Em 1765, o poder real impõe um regulamento draconiano às numerosas casas de "caridade" (de fato detenções) dos Irmãos de São João de Deus, que dirigem, entre outras, Charenton. O artigo primeiro estipula "que não se receba quem quer que seja, sob nenhum pretexto, nas casas de detenção da Caridade a não ser aqueles conduzidos por ordem do Rei ou da Justiça 8 . Ponto de equilíbrio, portanto, onde poder executivo e poder judiciário controlam paritariamente a legitimidade das sequestrações.

Entretanto, a partir de 1770, a oposição às lettres de cachet se reforça. Malesherbes, um dos principais artífices da campanha, quando ministro da Casa Real em 1775, cria os tribunais de família para dar uma caução judiciária ao maior número possível de enclausuramentos. No fim do regime, o conde de Bréteuil, ministro da Casa Real, edita em 1784, numa circular dirigida aos intendentes, diretrizes precisas para a promulgação das lettres de cachet e distingue, com mais cuidado, as categorias às quais eles podem se aplicar: "No que concerne às pessoas cuja detenção seja pedida por causa de alienação do espírito, a justiça e a prudência exigem que proponhais as ordens somente quando houver uma interdição pronunciada por julgamento; a menos que as famílias estejam absolutamente impossibilitadas de pagar os gastos do processo que deve preceder à interdição. Mas, neste caso, será necessário que a demência seja notória e constatada por esclarecimentos bem exatos" 9 .

A nova orientação, desde antes da queda do Antigo Regime é, portanto, fazer passar o máximo de práticas de reclusão, da jurisdição real para a autoridade judiciária,

6 Cf. A. Joly, Du sorl des alienes en Basse Normandie avant 1789, Caén, 1869.

7 Cf. Ch. Paultre, De la répression de la mendicité et du vagabondage sous l'Ancien Regime, Paris, 1906.

8 Citado in P. Sérieux, L. libert, "Le regime des alienes en France au XVIII. siècle", Annales médico-psychologiques, 1914, II, p.

97.

9 Circular Bréteuil, março de 1784, citada in F. Funck-Brentano, Les lettres de cachet à Paris, Paris, 1903, p. XLIV.

tendência que prepara a tentativa de fazer garantir, pela interdição, todas as reclusões de alienados. Mas essas garantias, recentemente exigidas, dependem da possibilidade de engajar um processo de interdição e, portanto, da fortuna das famílias. Aos demais, aplicam-se as regras resumidas por Des Essarts em seu Dictionnaire universel de police:

"Aqueles que têm a infelicidade de serem atingidos por essas doenças devem ser guardados por seus parentes, ou às suas custas, de maneira que a tranquilidade pública não seja perturbada por esses desafortunados. Quando as famílias não têm condições para pagar uma pensão, os oficiais encarregados da manutenção da ordem devem conduzir essas espécies de doentes para os hospitais ou outros lugares destinados pelo governo para recebê-los. Os parentes podem ser processados a fim de reparar os danos ocasionados pelas pessoas loucas, furiosas ou dementes; mas só se pode mover contra eles uma ação civil". 10

Existe, portanto, uma oscilação entre a legitimação das reclusões pelo poder real e pelo poder judiciário, e passagem da preponderância do primeiro para o segundo. Mas de certa forma eles permanecem complementares pelo esboço de uma divisão do trabalho: garantias da justiça para os ricos e repressão pelos agentes do executivo para os pobres. E, sobretudo, sob estas mudanças o espírito geral da legislação da loucura no Antigo Regime continua a fazer da loucura, na medida do possível, uma "questão de família". E só negativamente, na ausência, na carência ou impotência da família ou, positivamente, sob sua demanda, é que uma instância exterior intervém. Mais precisamente, três casos podem se apresentar.

Primeiro caso, a família assume totalmente a tarefa de manutenção e de neutralização do louco. Este caso faz parte, avant la lettre, da categoria dos "alienados intratáveis" que os psiquiatras construirão quando um sistema unificado de assistência for instaurado na primeira metade do século XIX. Por enquanto, trata-se de um anacronismo: esses "alienados intratáveis" são de fato, normalmente assistidos ou pelo menos tolerados por seus grupos primários de participação, família e circuitos de vizinhança; Eles escapam melhor a um "encargo" pelo exterior quanto mais rica for a família e/ou mais integrada, quanto maior número de redes de clientelas e de linhas de conivência existirem em torno dela. Donde esta implicação decisiva: pretendendo propor uma política global e "democrática" de assistência; sob a forma de um serviço público, a medicina mental, de fato, visará prioritariamente categorias particulares da população:

os indigentes mais do que os ricos, os errantes mais do que os integrados, os urbanos mais do que os rurais.

Segundo caso: a família não quer ou não pode assumir essa função de vigilância porque a presença do louco lhe coloca problemas demasiado difíceis em função de seus meios de controle (caso dos "furiosos", por exemplo), ou então porque as iniciativas irresponsáveis do insano ameaçam a salvaguarda do patrimônio familiar. Ela tem, então,

10 Des Essarts, Dictionnaire universal de police, Paris, 1789, t. IV, artigo "Folie, fureur, démence".

a escolha entre duas possibilidades que são de fato dois modos de delegação de seu poder mas, através de procedimentos dentro dos quais ela conserva a iniciativa. Pode dirigir-se à autoridade judiciária para obter uma ordem de internação, e mesmo solicitar a interdição. Esse procedimento leva a uma situação clara de tutelarização do louco pela qual a gestão de seus bens cabe à família. Essa solução era escolhida, de preferência, pelas famílias mais ricas e era até necessária quando o objetivo consistia em obter uma tutelarização civil do louco sem sequestração, pois a interdição não impunha a internação fora da família. Segunda possibilidade: a "ordem do rei" permitia obter a sequestração através de um processo mais sumário. Em sua solicitação, a família propunha em geral o lugar da internação, em função sobretudo do total da pensão que ela consentia em pagar. Através desse procedimento a família se poupava da "desonra" (e dos custos) de um processo de interdição. Mas a lettre de cachet representava o contrário de um ato arbitrário já que era requisitado pelos parentes, juízes naturais dos interesses familiares.

Terceiro caso: o louco escapava completamente ao controle familiar, ou porque não possuísse família, ou porque fosse surpreendido a "vagar" fora do seu âmbito de vigilância. Neste caso a iniciativa da repressão incumbia às autoridades responsáveis pela manutenção da ordem pública. Estas (em Paris e nas grandes cidades, os serviços de polícia; em outros lugares, os dos intendentes) podiam solicitar uma "ordem do rei". O mais frequente é que interviessem primeiro e, em seguida, solicitassem a ordem que legalizava sua intervenção. Isto, em princípio. De fato, a legalização dessas internações compulsórias precoces, através do recurso direto à autoridade real não parece ter sido a norma. Por exemplo, Piersin, "guarda dos loucos" em Bicêtre, em uma carta à Comissão das Administrações Civis e dos Tribunais que inquiria (10 frimário, ano III) sobre as modalidades de internações dos insanos detidos desde o Antigo Regime, constata somente vinte e três, em duzentos e sete, admitidos por "ordem do tirano" (e somente cinco por "decreto do ex-parlamento") 11 . A maior parte dos outros insanos era internada por iniciativa dos administradores da polícia ou dos estabelecimentos hospitalares. Mas não existe aí nada de escandaloso: sob o Antigo Regime, frequentemente, os agentes do executivo assumiam, através de delegação implícita, as prerrogativas do poder real. O importante é a legitimidade que essas intervenções extraem da antiga síntese entre o administrativo e o judiciário. Isso está claro em Des Essarts: "Deve-se distinguir, no chefe de polícia, o magistrado e o administrador. O primeiro é homem da lei, o segundo é homem do governo" 12 . Antes que a revolução denuncie, nesta justaposição, o escândalo do despotismo, ela funda em direito as práticas de reclusão dos loucos no Antigo Regime. 13

11 Cf. A. Tuetey, C Assislence publique à Paris pendant la Révolution, documents inédits. t. III, Paris, 1898, p. 368.

12 Des Essarts, Dictionnaire de police, op. cit.

13 Des Essarts faz, em 1789, uma autocrítica bastante significativa: "Ao reler, no mês de abril de 1789, esse artigo redigido em 1784, devo acrescentar que a nação almeja que essa parte da administração seja destruída, ou pelo menos modificada, de forma que a liberdade dos cidadãos seja assegurada da maneira mais inviolável".

Por essa razão não deve surpreender que as mesmas disposições valham para os loucos e para as outras categorias de pessoas susceptíveis de correição: pródigos, libertinos, e mesmo espiões ou jansenistas. As "ordens" são tomadas contra o desvio familiar ou contra ameaças à segurança pública: crimes de Estado, indisciplina militar ou religiosa, questões de polícia. Os problemas referentes aos insanos representam apenas uma sub-espécie dessa categoria de delitos que provocam a intervenção do poder executivo. Os diferentes tipos de desvio são, portanto, menos confundidos do que reunidos sobre a base da repressão comum que eles exigem.

Da mesma forma não deve surpreender que esses diferentes tipos de pessoas susceptíveis de correição se encontrem reunidas nos mesmos estabelecimentos já que "ordens" comuns aí as colocam. O que deve causar surpresa é o fato de descobrir neles o esboço de uma diferenciação dos regimes internos, ao passo que as medidas legais de admissão dos reclusos proporcionavam-lhes um mesmo estatuto. Não obstante, a indiferenciação do grande enclausuramento nunca foi absoluta. Desde 1660, ou seja, quatro anos apenas após a fundação do Hospital Geral, o parlamento de Paris decidia que um pavilhão especial estaria reservado à "reclusão dos loucos e das loucas" 14 . A partir do início do século XVIII, distinções cada vez mais apuradas começam a operar no seio da categoria geral de insano 15 . Mas tais diferenciações dizem respeito às exigências de gestão e de disciplina interna e não à preocupação de realizar diagnósticos e tratamentos.

Se, portanto, uma percepção de tipo médico não é estritamente incompatível com o sistema de repressão da loucura sob o Antigo Regime, as finalidades e o equilíbrio interno deste último não dependem de seu grau de medicalização. Os objetivos que ele procura e as tensões que o atravessam são de ordem social, jurídica e política. Quando a pedra de toque do edifício for derrubada é que a coexistência dos elementos que o constituem passará a ser antagônica. A referência médica terá, então, um sentido inteiramente diverso: de subordinada passará a ser preponderante já que constituirá o eixo do novo equilíbrio.

pela

Esquematicamente coerência da antiga síntese:

pode-se

identificar

três

focos

de

ruptura

mantidos

1. A dualidade das instâncias responsáveis pela sequestração. O executivo e o judiciário compartilham, portanto, o direito de baixar "ordens" legitimando o enclausuramento. Tratando-se também da loucura, a concorrência que os opõe, no final do Antigo Regime, origina inúmeros conflitos. Mas o antogonismo não explode em contradição de princípio enquanto permanece, no cume da pirâmide dos poderes, a instância de soberania capaz de arbitrar em último recurso. "Toda justiça provém do rei", mesmo que ele delegue suas prerrogativas a seus "oficiais". Assim, em seu Traité des

14 Decreto citado in J. C. Simon, L´Assistence aux malades mentaux, histoire et problèmes modernes, tese de medicina, Paris,

1964.

15 Cf. M. Foucault, Histoire de la folie, Paris, 1961, 111, cap. II, "Le nouveau partage".

seig-neuries (1613) Loiseau coloca no primeiro plano dos quatro direitos soberanos da realeza (os regulia) o de "ser a última alçada na justiça" (os três outros são: "fazer leis", "criar oficiais", "arbitrar a paz e a guerra". 16 Por exemplo, quando, em 1757, o ministro da Casa Real quer abolir as "ordens particulares dos magistrados" que permitiam às famílias negociar, diretamente com os juízes, a reclusão de um de seus membros, sem controle do executivo, justifica assim a medida: "Sua Majestade julga que a liberdade é um bem demasiado precioso para que algum dos seus súditos possa dela ser privado extra-judiciariamente sem que, ela própria, tenha ponderado as causas". 17 O imperium real pode, portanto, em uma última instância, "ponderar as causas" de uma derrogação do direito que, por isso, deixa de ser ilegal. Os parlamentos protestam ou mesmo não tomam conhecimento. Mas enquanto subsiste o princípio da monarquia absoluta o conflito ainda não é uma contradição aberta.

2. A dualidade dos gêneros de estabelecimento onde são enclausurados os insanos e as pessoas passíveis de correições. Além dos hospitais de tratamento como o Hôtel- Dieu pode-se identificar, no final do Antigo Regime, quatro ou cinco tipos de estabelecimentos que acolhem os insanos: fundações religiosas (as numerosas casas de "caridade" dos Irmãos de São João de Deus e também os conventos dos Cordeliers, dos Bons-fils, dos Irmãos das Escolas cristãs, da casa de São Lázaro fundada por São Vicente de Paula etc, e mais uma dúzia de conventos de mulheres recebendo ao mesmo tempo pessoas passíveis de correição, loucas e "moças arrependidas"); prisões do Estado como a Bastilha ou a fortaleza de Hâ; Hospitais Gerais, sobretudo Bicêtre e a Salpêtrière, onde são enclausurados mais da metade dos loucos do reino; enfim, pensões mantidas por leigos, em Paris existiam mais ou menos vinte, dentre as quais a mais famosa foi a pensão Belhome onde Pinel travou suas primeiras batalhas. 18

Contudo existe um princípio de clivagem entre essas fundações que não está, de forma alguma, em seu caráter mais ou menos médico, mas sim em sua direção ou em seu controle mais ou menos público ou privado. Certas prisões do Estado, os Hospitais Gerais e os depósitos de mendigos são fundações reais, colocadas sob o controle direto dos agentes reais e administradas por um pessoal leigo. As outras instituições são geralmente fundadas e geridas por congregações religiosas que aceitam com má vontade as diversas modalidades de controle pelos parlamentos e pelos serviços dos intendentes ou do chefe de polícia. Essa dualidade institucional autoriza diferentes políticas, particularmente no que diz respeito à iniciativa deixada às famílias. Já nesse momento o poder do Estado tenta homogeneizar tanto os processos de admissão quanto de vigilância. Mas as disparidades subsistirão por muito tempo, provocando conflitos cujas implicações modernas se manifestarão nas discussões da lei de 1838.

16 Cf. P. Goubert, L´Ancien Regime, t. II, Les pouvoirs, Paris, 1973.

17 Citado in F. Funck-Brentano, op. cit., p. XXXIII.

18 Cf. por exemplo, P. Sérieux, L. Libert, "Le regime des alienes en France au XVIII siècle", loc. clt.; "Un asile de súreté sous L´Ancien Regime", Annales de la Société médicale de Gand, junho de 1911; A. Bigorre, L´admlssion du maladè mental dans les établissements de soin de 1789 à 1838, tese de medicina, Dijon, 1967.

3. A dualidade das "superfícies de emergência" da loucura. O louco é um pertubador por quem o escândalo se manifesta, seja no espaço familiar, seja no social. Isto origina duas políticas bem diferentes a respeito da loucura. Esta coloca um problema de ordem pública, por causa da "divagação" dos insanos, em um no man's land social. Um vaguear perigoso que suscita uma intervenção, na maioria das vezes violenta, em nome da segurança das pessoas, da salvaguarda dos bens da decência, etc. Mas coloca também um problema de repressão privada, cuja eficácia poderia economizar' custosos recursos face ao fato consumado da desordem. Donde a questão da instauração de controles familiares e do controle dos controles familiares. A forma mais insatisfatória da relação entre essas duas superfícies é aquela pela qual a família, incapaz de fazer à sua própria polícia, toma a iniciativa de delegar seu poder a uma instância exterior, administrativa ou judiciária. A medicalização do problema introduzirá a uma dialética muito mais sutil entre o que é prerrogativa dos parentes e o que cabe ao poder do Estado na tarefa de conservar e de reproduzir a ordem sócio-familiar. O conceito de prevenção como verá mais tarde, será portador dessa esperança médica que consiste em intervir antes que seja necessária a repressão pela força pública e antes que a própria família se despoje de seu poder, e isto simultaneamente. Essa mesma concepção da prevenção desqualificará também a intervenção da justiça, cujo formalismo exige que somente se sancione fatos consumados. Dessa forma, todo o sistema passará da repressão de atos cometidos para a antecipação de atos a serem cometidos, e a reparação de uma desordem objetiva para o encargo de estruturas subjetivas em vias de alteração. O resultado desse longo processo suporia a subordinação dos três poderes, jurídico, administrativo e familiar à instância médica. Antes desta última, esses poderes compartilhavam a responsabilidade de neutralizar a loucura. Mas é neste ponto que o processo tem início, no momento em que esse quarto poder se insere em cunha na falha aberta pelo desequilíbrio político dos outros três.

A Soberania, o Contrato e a Tutela

Assim, o dispositivo de controle da loucura, no século XVIII, só parece tosco se o medirmos com o metro do monopólio médico. Mas ele é frágil porque reparte as responsabilidades entre aparelhos concorrentes por meio de procedimentos complexos e desarmônicos. Essa síntese barroca irá, portanto, se desfazer no momento em que a instância de arbitragem, o poder real, for qualificada de arbitrária. Trata-se aqui, de um ponto fundamental: inicialmente não são tanto as práticas que serão levadas a mudar mas seu princípio de legitimação; e a impossibilidade de legitimar as antigas práticas enquanto tais suscitará as novas ― ou imporá antigos procedimentos, que até então só tiveram um papel subalterno, no centro do sistema ― assegurando dessa forma, por meio de um longo desvio, o triunfo da medicalização da loucura.

Apressado em abolir as lettres de cachet, Luís XVI dirige-se aos Estados Gerais em 23 de junho de 1789 nos seguintes termos: "O Rei, desejoso de assegurar a liberdade pessoal de todos os cidadãos, de maneira sólida e durável, convida os Estados Gerais a

procurar e proporcionar-lhe os meios mais convenientes para conciliar a abolição das ordens conhecidas pelo nome de lettres de cachet, com a manutenção da segurança pública e com as precauções necessárias, seja para poupar em certos casos a honra das famílias, seja para reprimir com presteza inícios de sedição, seja para defender o Estado contra os efeitos de uma coalisão criminosa com as potências estrangeiras". 19

O problema é, portanto, efetivamente colocado: não, suprimir o conjunto das práticas repressivas cobertas pelo poder real com sua legitimidade, mas contornar a suspeita de arbítrio que, a partir daí, recai sobre as formas empregadas. Além disso, o artigo 1º da lei que decreta a supressão das lettres de cachet permanece bem restritivo quanto às categorias de "vítimas do despotismo" que libera pura e simplesmente: "No espaço de seis semanas após a publicação do presente decreto, todas as pessoas detidas nas fortalezas religiosas, casas de detenção, de polícia ou quaisquer outras prisões, através das lettres de cachet ou por ordem dos agentes do poder executivo, a menos que sejam legalmente condenadas ou sentenciadas de aprisionamento, que tenha havido queixa contra elas na justiça por crimes passíveis de pena de mortificação, ou que seus pais, mãe, avós, ou outros parentes reunidos tenham solicitado e obtido sua detenção de acordo com solicitações e relatos apoiados em fatos graves, ou enfim que elas sejam enclausuradas por loucura, serão colocadas em liberdade". 19bis Portanto, só são diretamente invalidadas as sequestrações por negócios de Estado, ou seja, pouquíssimos casos. Por exemplo, em mil lettres de cachet promulgadas em Paris em 1751, Funck- Brentano encontra apenas um ou dois a terem classificados sob esta rubrica.

No essencial as "ordens do rei" fundavam em direito intervenções cuja necessidade permanece urgente aos olhos dos contemporâneos, mesmo após terem perdido sua justificação legal. Se a abolição das lettres de cachet libera algumas inocentes "vítimas do arbítrio", ela coloca sobretudo o difícil problema de justificar em direito a manutenção do maior número de sequestrações.

Assim, logo após o decreto de 27 de março de 1790, o prefeito de Paris, Bailly, escreve à Assembléia Constituinte solicitando, pelo menos, prorrogar sua aplicação:

"Não seria perigoso, neste momento, devolver à Cidade dos homens, sem refletir, aqueles que dela foram afastados, sem legalidade é verdade, mas quase sempre com justos motivos?". 20 A falta de pressa em liberar os loucos é igualmente nítida. Em janeiro de 1790, havia em Charenton, segundo um comunicado do prior à Assembléia Nacional, noventa e dois detidos por "ordem do rei", rotulados de "imbecis", "loucos", "loucos periódicos", "loucos perigosos", "loucos maus", "loucos furiosos", "em demência", "alienados". Somente um fora detido por "má conduta" e um outro por "causa desconhecida". O nonagésimo terceiro é o marquês de Sade a propósito de quem o prior havia anteriormente "suplicado à Assembléia livrá-lo de semelhante pessoa". Em novembro de 1790 permanecem oitenta e nove detidos. Sade foi liberado desde 27 de

19 Citado por F. Furtck-Brentano, op. cit., p. XLV. 19bis Ibid. Salvo menção em contrário, as passagens sublinhadas são do autor. 20 Citado in A. Tuetey, l´Assistence publique à Paris pendant la Révolution, op. cit., I, p. 200.

março. Uma comissão de inspeção vai a Charenton após uma queixa do Comitê das lettres de cachet junto à municipalidade de Paris relatando internações arbitrárias. Presidida por um médico, a comissão só assinala um caso suspeito, para o qual solicita liberação: o que havia sido internado sob a rubrica "causa desconhecida". Tratava-se, de fato, de um cidadão italiano suspeito de cumplicidade num caso de falsificação de moeda e detido sem julgamento havia quatro anos. Assim, em Charenton, em noventa e três sujeitos internados no pavilhão dos alienados, por ordem do rei só serão liberados pelo decreto de março de 1790, Sade (e não por muito tempo), um suspeito de trapaça e talvez dois outros detidos, a menos que não tenham morrido entre-mentes. 21

Trata-se, pois, de um problema quantitativamente sem importância, mesmo se se objetar que Charenton era particularmente bem administrado. Mas é problema crucial, na medida em que questiona os fundamentos da nova ordem social. Na sua solução está em jogo a possibilidade de passar de um equilíbrio de poderes que repousa, em última instância, sobre a soberania real, para uma sociedade contratual. Por esta razão a questão da loucura se revestiu de importância capital no fim do século XVIII e no início do século XIX. Ela se situou no centro de uma contradição insolúvel para a nova ordem jurídica que se instaurava. Aparentemente, a loucura não deveria constituir um grande problema social já que vários outros problemas eram mais importantes e mais urgentes:

a mendicância, a vagabundagem, o pauperismo, os menores abandonados, os doentes indigentes, etc, constituem, como já dissemos, populações infinitamente mais numerosas e em grande parte, igualmente perigosas. Contudo, os alienados "beneficiaram-se" do primeiro encargo sistemático, reconhecido como direito e sancionado por uma lei que antecipa toda a "legislação social" que virá cinquenta anos depois. Não se compreenderia esta originalidade se não a situássemos na linha divisória de uma problemática fundamental para a sociedade burguesa nascente. Sobre a questão da loucura, por intermédio de sua medicalização, inventou-se um novo estatuto de tutela essencial para o funcionamento de uma sociedade contratual.

Uma revolução política não faz tabula rasa do passado. A restruturação do poder de Estado que sancionará a nova ordem burguesa esboçou-se progressivamente a partir da Idade Média quando, por sob as relações de fidelidade entre súdito e soberano, instaurou-se, pouco a pouco, uma estrutura administrativa centralizada obedecendo a critérios de racionalidade técnica. Setores de atividade cada vez mais preponderantes ― extração das riquezas pelo imposto, circulação dos bens pelo comércio, coleta dos conhecimentos por meio dos grandes inquéritos estimulados pelo poder central, etc. ― passam, dessa forma, a ganhar autonomia. Em última análise, o poder de Estado constituiria apenas o garante desses intercâmbios estabelecidos por contatos. Mito liberal da separação completa do social e do econômico que asseguraria o livre jogo das leis do mercado.

A essa autonomia das leis que regem a troca das riquezas e a produção de bens, corresponde a racionalização dos mecanismos que presidem à circulação dos homens, à organização técnica de suas atividades, ao controle de suas iniciativas. Mito de uma

21 Documentos in A. Tuetey, op. cit., t. III, p. 229-238.

perfeita territorialização dos cidadãos que é paralelo ao de uma perfeita circulação dos bens e que o Estado Napoleônico tentará incarnar instaurando uma vasta estrutura administrativa subdividida em tantos setores quantos forem as atividades sociais do sujeito, de tal sorte que em sua existência de cidadão ele se veja destinado a quadros geográficos encaixados uns nos outros, administrado por responsáveis dependentes do poder central, vigiado permanentemente na realização da totalidade de seus deveres sociais.

A ficção jurídico-administrativa sobre a qual repousa todo este edifício, como sabemos, é o contrato. Cada cidadão é sujeito e soberano, ou seja, é, ao mesmo tempo, assujeitado a cada um de seus deveres cuja não obediência é sancionada pelo aparelho de Estado e, sujeito que participa das atividades regida pela lei e retira seus direitos dessas práticas, cuja realização define sua liberdade. Assim, um perfeito cidadão jamais encontrará a autoridade do Estado sob a sua forma repressiva. Assumindo seus deveres, ele desenvolve sua própria soberania e reforça a do Estado. Dizer que se trata aí de uma simples "ideologia" pela qual a sociedade burguesa nascente tenta justificar em direito seu funcionamento de fato ― ficção das liberdades formais, realidade da exploração econômica ― é deixar escapar o essencial.

Em primeiro lugar, se há ficção não se trata de uma qualquer mas sim, daquela que abre um espaço autônomo necessário ao livre desenvolvimento de uma economia de mercado. Intervindo no quadro dos contratos para garanti-los, o Estado, de fato, garante a propriedade privada e a circulação das riquezas e dos bens, fundamento de uma economia mercantil.

Em segundo lugar, administrando os indivíduos em quadros objetivos cuja intercambialidade se opõe à fixação territorial, fundamento das antigas relações de soberania e de clientela, o Estado organiza uma "livre" circulação dos homens paralela à "livre" circulação dos bens e necessária para alimentá-la. Mas como essa liberdade é regida pelas leis, o Estado pode assumir ao mesmo tempo suas tarefas de vigilância e de polícia na base de um esquadrinha-mento racional gerenciável tecnicamente pelo menor custo.

Em terceiro lugar, o "não-intervencionismo" dos teóricos liberais adquire, assim; o seu sentido preciso que não é de forma alguma o da atenuação do poder coercitivo do aparelho de Estado, mas sim, o da delimitação precisa das situações em que ele pode e deve intervir, e isso tanto mais impiedosamente porquanto assim elimina qualquer arbítrio e pronuncia o direito. O Estado deve respeitar a liberdade dos cidadãos, seus contratos fundados sobre a propriedade privada, a livre realização das trocas sob as leis do mercado. Inversamente, ele pode e deve sancionar qualquer transgressão dessa ordem jurídico-econômica. Sua função de conservação social e de repressão política

realiza-se fazendo respeitar a estrutura contratual da sociedade. Esta última não é a ordem do direito no seio do qual consciências soberanas fazem a experiência de sua intercambialidade. Ela é a matriz jurídica através da qual se exerce a violência do Estado e se impõe a exploração econômica.

Não obstante, apesar de seu caráter formal, nem todos os súditos da república entram sem problema nesse quadro contratual. A verdadeira especificidade do louco é a de resistir a essa redução, a tal ponto que, para inscrevê-lo na nova ordem social, será preciso impor-lhe um estatuto diferente e complementar àquele, contratual, que rege a totalidade dos cidadãos.

O Criminoso, a Criança, o Mendigo, o Proletário e o Louco

Em relação a essa concepção do direito, cinco grupos de indivíduos colocam problemas especiais.

1. Inicialmente os criminosos. Michel Foucault mostrou de que maneira a transformação do direito de punir, no início do século XIX, efetuou-se em torno do nascimento da prisão. 22 A novidade da forma-prisão não deve, contudo, dissimular o fato de que as inovações jurídicas se inscrevem em uma evolução dos fundamentos do direito que precede à época revolucionária. Essa evolução colocou a responsabilidade pessoal em primeiro plano 23 , O ato criminoso é o resultado de um cálculo pelo qual um indivíduo escolhe seu interesse pessoal contra os direitos de outrem. Cálculo errôneo se o criminoso se deixar prender, mas cálculo racional pelo qual é totalmente responsável. A sanção que o atinge está, portanto, fundada em direito, seu objeto é a transgressão de contratos que a lei tem por função garantir. A abolição das lettres de cachet não coloca, portanto, nenhum problema de princípio para transferir do executivo ao judiciário a parte de repressão criminal que o primeiro ainda exercia. Dessa forma, sob ò Antigo Regime, uma "ordem do rei" poupava, às vezes, o escândalo de um processo, permitindo enclausurar sem julgamento um indivíduo (geralmente de boa família) cujo caso, de fato, seria da alçada dos tribunais. Assumindo-os por si sós, doravante, estes nada mais fazem do que retomar a plenitude de suas prerrogativas.

Os novos problemas colocados pela reestruturação do direito de punir se devem às dificuldades em instaurar uma tecnologia eficaz da sanção e não em inventar-lhe um fundamento legal. Deter, vigiar, corrigir, reeducar o criminoso. E mesmo medicalizá-lo, aspiração que aparece muito cedo como revela Cabanis: "Não ignorais que a natureza de várias espécies de prisões as aproxima muito da dos hospitais: tais são, por exemplo, as casas ditas de correição, onde as disposições viciosas da juventude são submetidas a tratamento regular: tais serão, um dia, as prisões para os indivíduos condenados a uma reclusão mais ou menos longa pelos tribunais criminais. De fato, essas prisões poderão

22 M. Foucault, Surveiller et punir', Paris, 1975. 23 Cf. C. B. Beccária, Traité des délits et dês peines, trad. francesa, Lausanne, 1766.

tornar-se facilmente verdadeiras enfermarias do crime: nelas se tratará essa espécie de doença, com a mesma segurança de método e com a mesma esperança de sucesso que as outras perturbações do espírito. 24

Texto extraordinário para uma época em que a medicina mental não tinha ainda nascido oficialmente. Contudo, não deve induzir-nos em erro. A lógica que conduz à medicalização do criminosos é diferente, em seu princípio, daquela que vai impor a medicalização do louco. Se o direito de punir pretende humanizar-se, pedagogizar-se e mesmo medicalizar-se, trata-se de variantes em relação a um direito de corrigir, perfeitamente fundado a partir de seus axiomas iniciais: o equilíbrio entre os delitos e as sanções inscreve-se em um sistema racional porque o criminoso é responsável por seus atos. O louco coloca um problema diferente. Nenhum vínculo racional une diretamente a transgressão que ele realiza com a repressão a que é submetido. Não poderia ser sancionado mas sim, deverá ser tratado. Sem dúvida o tratamento será, frequentemente, uma espécie de sanção. Mas ainda que seja sempre assim com o louco, doravante a repressão só pode progredir disfarçada. Ela deve ser justificada pela racionalização terapêutica. É o diagnóstico médico que se supõe impô-la, ou seja, que lhe fornece a condição de possibilidade. Diferença essencial: em um sistema contratual, a repressão do louco deverá construir para si um fundamento médico, ao passo que a repressão do criminoso possui imediatamente um fundamento jurídico. Somente muito mais tarde (após a medicalização ter inicialmente sido imposta sob a forma de um estatuto do alienado diferente do criminoso e, posteriormente, ter começado a se generalizar, patologizando os setores mais diversos do comportamento, ou seja, por volta do fim do século XIX) é que a medicalização do criminoso, por sua vez, mudará de sentido. Ela não será mais uma intervenção a posteriori para ajudar a melhor aplicar a sanção, mas sim uma tentativa de fundar a legitimidade da punição a partir de uma avaliação psicopatológica da responsabilidade do criminoso (cf. infra, cap. IV). Por enquanto, são os legalistas que bloqueiam a via da descoberta da nova solução. Pretendendo dar ao aparelho judiciário a prepoderância (cf. abaixo os debates sobre a necessidade de uma interdição preliminar à sequestração dos insanos), travam de fato um combate de retaguarda e serão progressivamente ultrapassados pelo desenvolvimento das novas práticas legitimadas do ponto de vista médico, a respeito da loucura. A analogia entre as instituições (prisão-asilo) e as tecnologias de disciplinarização (reeducação penal - tratamento moral) não deve, portanto, dissimular o antagonismo de princípio entre o direito de punir e o dever de dar assistência. A solução do problema social da loucura não pode ser encontrada no prolongamento daquela que vai prevalecer para a criminalidade, muito ao contrário. Não que as homologias entre as soluções sejam acidentais. Mas elas ganharão sentido, como veremos, após ter sido constituída uma legitimidade médica diferente da justiça. Aí então, a psiquiatria poderá tocar a sua partitura no grande concerto da vigilância e da disciplinarização que remodela, na época, todas as instituições. Mas antes, deverá conquistar seu espaço de intervenção ao lado de e, sob certos aspectos, contra o espaço da justiça.

24 "Opinião de Cabanis, deputado de Paris, sobre a necessidade de reunir num único sistema comum a legislação das prisões e a da assistência pública", Corps législatifs, Coriseil des Cinq-Cents, 7 messidor, ano VI, p.6.

2. A segunda categoria para a qual a abolição das lettres de cachet colocou problemas específicos é a que era da alçada de uma justiça das famílias. Durante a discussão da lei de 16-27 de março de 1790 na Assembléia Constituinte, o representante Pétion declara: "Não forçareis as famílias a receber em seu seio os celerados que poderiam nelas semear a desordem" 25 . A cumplicidade direta entre poder executivo- poder das famílias, pela qual a autoridade real colaborava com a autoridade familiar se rompe, que doravante ela é identificada ao "arbítrio" real. Será necessário reconstituir um equilíbrio entre poder judiciário-poder familiar, cuja fórmula será dificilmente encontrada. A instituição (ou melhor a reanimação), durante o período revolucionário, dos tribunais de família, que deixavam aos parentes as maiores prerrogativas com possibilidade de apelo diante da jurisdição ordinária, fracassará. O século XIX tentará corroer progressivamente os privilégios familiares até à lei de 1889, sobre a perda do pátrio poder, pela qual o juiz pode confiscar uma parte do poder familiar tradicional.

Reencontraremos essa evolução mais tarde na medida em que, a partir de um certo limiar de medicalização, a patologização de certos conflitos familiares alarga a brecha aberta no direito das famílias: o médico-perito arbitra decisões que, anteriormente, eram da alçada da tutela familiar. Essa tutela se desfaz e o juiz, por um lado (juiz de tutelas e juiz de menores), o médico, por outro (sobretudo psiquiatras e psicanalistas) herdam algumas das suas prerrogativas 26 . Mas essa intervenção do médico na intimidade familiar, via real da psiquiatrização futura, supõe uma maturidade da tecnologia psiquiátrica que só surgirá no final do século XIX, realizando-se plenamente

com a psicanálise. A primeira psiquiatria não enfrentou o problema da infância a não ser

a partir de Esqui rol, e por um rodeio ― o atraso do desenvolvimento (a idiotia) ― e não

a partir da loucura. Dentre as numerosas razões teóricas e práticas para isto existe a

seguinte: a controle da criança não coloca questões jurídicas agudas pelo fato dela já estar sob tutela (familiar) ao passo que o louco é como uma criança (cf. infra), porém, ele ainda não encontrou seu tutor legal. Que será o médico.

3. Os delitos de vagabundagem e de mendicância. Sob o Antigo Regime, a neutralização das massas vagabundas era uma prerrogativa do poder soberano, guardião da ordem pública. Para fundar o Hospital Geral ou condenar os vagabundos às galeras, basta uma ordem real (o problema diante do qual a realeza fracassou consistiu na sua impotência em fazer aplicar tais medidas sempre reiteradas e todas as vezes desviadas 27 . Mas também aqui a imposição de uma estrutura contratual generalizada revela uma contradição coberta pelo imperium real. Se doravante qualquer punição só deve sancionar as transgressões responsáveis, ela só pode aplicar-se a um sujeito que não é obrigado a cometer o delito pelo qual é susceptível de ser condenado. Se a miséria, que

25 Citado por P. Sérieux, L. Libert, Les lettres de cachet, "prisionniers de famille" et "placements volontaires", op. clt., p. 51.

26 Cf. J. Donzelot, La police des familles, em vias de publicação.

27 Cf. Ch. Paultre, De la répression de la mendícité el du vagabondage sous l'Ancien Regime, op. cit.

equivale a um destino, lança o vagabundo nas estradas e obriga o miserável sem trabalho a mendigar, de que direito poder-se-á sancioná-lo?

O Comitê de Mendicância da Assembléia Constituinte empreende seus trabalhos

a fim de aliviar os pobres, sem dúvida, mas também a fim de estabalecer essa

reciprocidade entre o direito de punir e a possibilidade de não transgredir. Somente o direito à assistência e ao trabalho pode impor deveres aos miseráveis e fazer de seus atos associais, delitos: "Lá onde existe uma classe de homens sem subsistência existe uma violação dós direitos da humanidade; aí se rompe o equilíbrio social" 28 . Cabanis formula claramente essa contradição de uma repressão da miséria que atingiria os inocentes se o mínimo de possibilidades objetivas de escapar à sanção não lhes fosse outorgado: "A mendicância forma o primeiro grau, não digo de delito, mas se se pode expressar assim, de disposição para os atos que perturbam a ordem social: é o primeiro termo a ser considerado na questão da repressão que, por sua vez, deve ser encarada como o primeiro objeto da legislação penal. Mas a repressão da mendicância encontra- se tão estreitamente ligada à organização da assistência pública que, sem dúvida, é impossível separá-las. Pois bem! Como se poderia dizer, efetivamente, que a mendicância é um delito se o poder público não estabeleceu, em nome da nação, ajudas suficientes para prevenir a miséria ou para diminuí-la; se não garantiu trabalho a todo indivíduo que não o tem ou que diz não tê-lo? 29

Dentro dessa lógica a Assembléia Constituinte proclama que ela "coloca no nível dos mais sagrados deveres da nação a assistência aos pobres em todas as idades e em todas as circunstâncias da vida". Com isso, ela segue as recomendações do Comitê de Mendicância, cuja argumentação legalista e um tanto embaraçada merece atenção: "A igualdade dos direitos é o princípio fundamental de vossa Constituição. Será que esse princípio comum a todos os cidadãos pode cessar de ser aplicável àqueles que, não tendo senão misérias e necessidades, têm o direito de reclamar assistência à sociedade, assistência que ela própria tem o dever de só dar dentro do estrito necessário?" A Convenção vai mais longe quando inscreve, na declaração dos direitos do homem de 1793, artigo 23: "A subsistência é uma dívida sagrada da sociedade; cabe à lei determinar sua extensão e sua aplicação". 30

Nobres princípios mas que permanecerão letra morta: as assembléias

revolucionárias não terão tempo, nem meios, para garantir sua realização. Não obstante,

a exigência é tão imperiosa que o Estado Napoleônico retoma-a em novos moldes. A

administração imperial apaga a dimensão generosa de um direito generalizado dos pobres à assistência pública, para acentuar aquilo que pode justificar o direito de reprimi-los. Assim, a lei de 5 de julho de 1808, sobre a "extirpação da mendicância" reúne significativamente duas medidas: interdição da mendicância em todo território do Império e estabelecimento, em cada Departamento, de um depósito de mendigos no qual "os indigentes encontrarão asilo, subsistência, trabalho, estabelecimentos paternais

28 Citado in F. Dreyfus, Un philanthrope d'aulrefois, La Rochefoucault Liancourt, Paris, 1903, p. 173.

29 "Opinião de Cabanis sobre a necessidade de reunir num único sistema

30 Cf. J. Imbert, Ledroit hospitalier de la Rêvolution et de l'Empire, op. clt., p. 26 ss. Para uma análise mais aprofundada das relações entre a nova política da assistência, o direito ao trabalho e o estado real do mercado de trabalho, cf. infra, cap. III.

", loc. cit., p. 3.

onde a beneficência atenuará a conduta através da meiguice, manterá a disciplina através da afeição e conduzirá ao trabalho despertando um sentimento de vergonha salutar. Em prêmio a esses esforços, o governo acredita que, dentro de alguns anos, a França oferecerá a solução, tão inutilmente procurada até agora, para o problema da extinção da mendicância num grande Estado".

Mesma distância entre os princípios e sua realização. Ainda em 1890, serão pronunciadas 32.822 condenações por vagabundagem, embora só existam trinta e três depósitos de mendigos em toda a França 31 . Ainda mais: o código penal (art. 274) prevê penas de três a seis meses de prisão para os mendigos detidos em lugares onde exista

um depósito de mendigos mas prevê também penas reduzida à metade (art. 275) nos lugares onde não exista nenhum estabelecimento de assistência. Aqui, o direito burguês encontra-se no limite da violação de sua própria legalidade: dispensa a cobertura jurídica mínima da injustiça estabelecendo uma reciprocidade puramente formal entre a letra da lei e a existência, no papel, de uma assistência que permitiria, aos miseráveis de boa vontade, escapar a seus rigores. Se, entretanto, essa ficção juridicamente capenga funciona, é porque é reiterada por uma concepção da "filantropia" de que voltaremos a tratar adiante. O direito à assistência perde seu rigor quando se pode atribuir aos

defeitos do indivíduo (ociosidade, devassidão, imprevidência

uma situação na qual ele é quase obrigado a infringir a lei. Os miseráveis podem ser.socorridos, porém sem obrigação, e em função de seus méritos ou do caráter lastimável de seu desamparo. Eles também podem ser punidos ou pelo menos submetidos (é a "moralização das massas") em função de seus defeitos ou do perigo de desordem que representam. É a prudência política que vai dosar repressão e beneficência: não colocar em questão, pelo reconhecimento de um direito dos pobres, os fundamentos de uma sociedade liberal, mas intervir antes que uma miséria demasiada não permita outra alternativa às vítimas do sistema, do que a da revolta. O apelo à beneficência pública, menos caprichosa do que a caridade, porém, menos obrigatória do que a justiça, sistematizada numa verdadeira política para os miseráveis é, assim, a contrapartida necessária do juridicismo de uma sociedade de classes, pelo menos para os espíritos mais "esclarecidos".

a responsabilidade por

)

4. Poder-se-ia acrescentar toda a classe dos proletários a esses primeiros grupos que são problema no que diz respeito a legalidade contratual. Em uma estrutura social fundada sobre a propriedade privada e a "liberdade" das trocas econômicas, somente os proprietários são, no sentido pleno da palavra, cidadãos, é o que o sufrágio censitário transcreve no nível político. Felizmente existe uma escapatória. Para o trabalhador sem recursos (o "pobre válido", mas provido de ocupação), a ficção do contrato ainda pode funcionar, já que existe um "mercado de trabalho" no qual sua força pode ser "vendida". Existe, portanto, troca, reciprocidade regulada, contrato (ou pseudo-contrato) entre explorador e explorado. O proletário é ainda um sujeito de direito porque se pertence. Ele não é escravo nem alienus (alienado). Proprietário de si próprio ele pode adquirir.

31 F. Dreyfus, "Le vagabondage et la mendicité dans les campagnes", in Miseres sociales el études historiques, Paris, 1901.

Sendo o salário uma propriedade privada, ele permite a acumulação e o acesso à posse dos bens: é uma questão de coragem, de economia, de moralidade.

Assim, se o esquema ideal de igualdade das pessoas for desmentido pelos fatos, pode-se ainda atribuí-lo à responsabilidade do sujeito que tem alguma coisa a ver com sua miséria, mesmo se não é penalmente culpado. Cai-se, então, em sã consciência, na política da assistência, que esmaece as manifestações extremas do desamparo sem ter com isso que realizar uma obrigação formal. De fato, essa construção é perfeita demais. Ela corresponde à época eufórica do início do liberalismo, quando seus teóricos ainda acreditavam que bastava liberar as condições de acesso ao trabalho para resolver, em seu princípio, a "questão social". A descoberta da necessidade do pauperismo como condição estrutural do funcionamento do capitalismo, substituindo a condenação moral da mendicância, vai levar a transformar a problemática da assistência especializada em política de sujeição generalizada das classes populares. Esta será a segunda etapa do processo, para a qual, a medicina mental, representando, então, o cume tecnologizado da filantropia, será um parceiro essencial (cf. cap. 111). Mas ainda estamos, aqui, no momento da constituição dessa problemática, quando o legalismo está, ao mesmo tempo, perfeitamente seguro da legitimidade de seu próprio fundamento, e convencido de que comporta os princípios universalizáveis a partir dos quais pode-se edificar e defender uma ordem social raciona. 32

5. A assistência à loucura inscreve-se nessa lógica contratual mas leva-a a um ponto de ruptura. Exige, assim, a invenção de uma solução mais rigorosa.

No final do século XVIII a loucura é objeto de urna dupla percepção contraditória. O louco é a figura generalizada da associabilidade. Ele não transgride uma lei precisa como o criminoso, pode violá-las todas. O louco reativa a imagem do nômade que vagueia numa espécie de no maris land social e ameaça todas as regras que presidem à organização da sociedade. "Divagação" assimilada à dos animais ferozes até por uma assembléia tão "progressista" como a Constituinte que, pela lei de 16-24 de agosto de 1790, "confia à vigilância dos corpos municipais os acontecimentos deploráveis que possam ser ocasionados pelos insanos ou furioso deixados em liberdade e por animais daninhos e ferozes. 33 O código penal, artigo 479 ainda justapõe "o efeito da divagação dos loucos ou furiosos, ou de animais nocivos ou ferozes, ou da velocidade ou má direção ou da carga excessiva dos carros, cavalos, animais de tração, de carga ou de montaria". A necessidade absoluta de reprimir a loucura é inscrita nessa natureza que rompeu todos os controles e empurra o louco para o lado da animalidade e mesmo da

32 Para ser completo seria preciso acrescentar que a ficção do contrato só funciona no quadro da soberania nacional e, unicamente, para os cidadãos do Estado-nação. A política internacional é o exercício autorizado da violência, pólo antagônico do contrato. Da mesma forma, fora das fronteiras, os liberais não têm nenhum escrúpulo em ser protecionistas quando isso é exigido por seus interesses. A política colonial inventou, por contra própria, um e mesmo vários estatutos de tutela para os autóctones. Estes, normalmente, pagam a vantagem de se colocarem, sob a autoridade tutelar da potência civilizadora, com o preço de sua própria autonomia. 33 Legislaiton sur les sliénés et les enfanis assistes, op. cit., 1, p. 3.

cegueira destrutiva das coisas, que, como um carro ladeira abaixo, só obedece à lei da gravidade.

Mas essas imagens evocadoras de medos fantasmáticos ou reais o são também de irresponsabilidade. Ao mesmo tempo que perigoso, o louco é também lastimável. É um miserável, um "desafortunado" que perdeu o atributo mais precioso do homem, a razão. Ele representa, assim, um pólo de imoderação sem reciprocidade ao qual a racionalidade da sanção não pode se fixar. Não se pertencendo mais a si mesmo, não é susceptível de participar do processo de produção e de aquisição. A lógica contratual, que justifica plenamente a repressão do criminoso é que inventa um compromisso aceitável a fim de sancionar a mendicância e a vagabundagem esbarra, aqui, com uma especificidade insuperável.

Diante da ambivalência de horror e piedade suscitada pelo louco, a medicina mental dará a cartada da benevolência. Com isso controlará o pólo do perigo. Já que o louco, ao mesmo tempo perigoso e inocente, escapa às categorizações jurídicas de uma sociedade contratual, a filantropia irá encarregar-se dele. Mas o humanismo filantrópico nada mais é do que o auxiliar do juridicismo, é o seu último recurso nas situações-limites onde a universalidade formal do direito de punir encontra-se num impasse. A compaixão foi, portanto, à atitude constante do movimento alienista a respeito dos insanos que "longe de serem culpados que se deva punir, são doentes cujo estado penoso merece todas as considerações dadas à humanidade sofredora e cuja razão perdida devemos procurar os meios mais simples de restabelecer. 34 Somente após Morel e Magnan, quando as noções de degenerescência e de constituição colocaram em primeiro plano uma "perversidade" do doente mental, é que a psiquiatria se orientará para uma espécie de racismo anti-louco. Até por volta de 1860, o que prevalece é uma forma de paternalismo. Nele, a benevolência é iluminada pelo saber e se desenvolve numa relação institucional de dominação.

Porém, nenhuma contradição entre compaixão e ciência, nem entre benevolência e autoridade. A piedade não é um simples movimento do coração. Para Jean-Jacques Rousseau, ela "nos conduz sem reflexão ao socorro de quem vemos sofrer". Mas essa espontaneidade não se deve ao instinto cego "é ela que, no estado de natureza, faz função de lei, de costumes e de virtude com a vantagem de que ninguém é tentado a desobedecer à sua doce voz". 35 A piedade indica o lugar da lei lá onde a lei não pode se manifestar sob sua forma própria. Ela é o analogon da lei, sua metáfora, seu suplemento. 36 Suplemento e suplente. A compaixão para com os "desafortunados", que está na base da atitude filantrópica, supre em relação a eles, as lacunas da lei. Ela instaura, com aqueles que escapam ao legalismo, uma nova relação que não é mais de reciprocidade formal e sim de subordinação regulada. Uma relação de tutela. Tal é a matriz de toda política de assistência. Relação de dominação, sem dúvida, mas que participa ainda da utopia de uma troca racional geral e a mimetiza, mesmo quando um

34 Ph. Pinel, Traité médico-philosophique sur l'aliénation mentale, 2ª ed., Paris, 1809, p. 202.

35 J. ― J. Rousseau, Discours sur l'origine et les fondemerits de l'inegalité parmi les hommes. 1754, ed. Pléiade, III, p. 156.

36 Cf. o comentário de J. Derrida, De la grammatologie, Paris, 1967, p. 247 ss.

dos pólos da reciprocidade está ausente. Também a violência que aí se exerce participa da boa consciência da razão: ela se desenrola para o bem dos submissos. Os contemporâneos, pelo menos os mais lúcidos, perceberam essa função de substitutivo da tutelarização em relação à contratualização. Muito significativamente, foi num relatório feito ao Conselho de Paris em 6 de agosto de 1791, sobre a situação dos alienados da Salpêtrière, que Cabanis sublinhou, pelo menos implicitamente, a concepção de uma minoria social compartilhada pelas crianças e os loucos:

"Quando os homens atingem a idade em que suas forças são suficientes para a sua existência, quis a natureza que eles não fossem mais submetidos a qualquer autoridade coercitiva. A sociedade deve respeitar e cumprir esta sábia disposição na medida em que os homens gozem de suas faculdades racionais, ou seja, na medida em que não estejam alteradas a ponto de comprometerem a segurança e a tranquilidade de outrem ou de expô-los, eles mesmos, a verdadeiros perigos. Ninguém tem o direito, nem mesmo a sociedade inteira, de atentar, no que quer que seja, contra a sua independência". 37

O indivíduo é sujeito autônomo enquanto for capaz de se dedicar a intercâmbios racionais. Ou então sua incapacidade de entrar num sistema de reciprocidade o isenta de responsabilidade e ele deve ser assistido. O fundamento contratual do liberalismo impõe a aproximação entre o louco e a criança 38 , a grande analogia pedagógica da medicina mental, no seio da qual, toda sua história vai se desenvolver. Familiarismo ou tutelarização por um mandato público, não haverá, para ela, outra alternativa.

O Juiz, o Administrador, o Pai e o Médico

Essa transferência, para a medicina, das prerrogativas essenciais do encargo da loucura está, contudo, bem longe de constituir uma evidência, por ocasião da queda do Antigo Regime. Pois o estado embrionário de desenvolvimento das práticas médicas em matéria de loucura tornava-as, desde logo, inaptas a assumir, de um dia para o outro, um tal mandato. A solução médica, ao contrário, aparecerá como um último recurso após terem fracassado as instâncias mais tradicionais na divisão das antigas atribuições do executivo real. Constata-se assim, até os últimos anos do século XVIII, e mesmo um pouco mais tarde, um florescimento de tentativas divergentes.

1. Uma primeira tendência ― que já inspirava a circular de Bréteuil em 1784 ― consistiria em fazer da instância judiciária a garantia exclusiva da totalidade do processo de neutralização da loucura. Se fosse realizável, esse modelo apresentaria uma dupla vantagem: ofereceria a solução mais próxima daquela já aplicada ao problema da criminalidade; poderia retomar o processo de interdição já praticamente maduro sob o Antigo Regime. Às custas de um remanejamento mínimo do aparelho judiciário poder-

37 Relatório citado na íntegra in A. Tuetey, L'Assistence publique à Paris sous la Révolution, op. cit., p. 489-506. 38 Como inspira a analogia entre o pobre e a criança, cf. infra, cap. III.

se-ia, portanto, legalizar o encargo da loucura. É esta solução que o Código Civil, artigo 489, parece ratificar: "O maior de idade que se encontra num estado habitual de imbecilidade, demência ou furor deve ser interditado, mesmo quando esse estado apresentar intervalos lúcidos". Portanto, tutela jurídica, cujo estatuto é perfeitamente definido pelo código e cujas garantias são perfeitamente asseguradas pelo aparelho da justiça.

De fato, até a votação da lei de 1838 a interdição constituiu o único procedimento verdadeiramente legal de sequestração dos loucos. Além disso, a necessidade de recorrer à interdição foi perpetuamente lembrada, em particular por diferentes ministros da justiça. Mas sempre de um modo que prova que ela era constantemente traída: "Observei, nos relatórios analíticos dos prefeitos que, muitos, por sua própria autoridade, detiveram insanos para serem, sob sua ordem, enclausurados em casa de detenção. Acredito dever, para prevenir esses abusos, lembrar-vos os princípios e as regras nessa matéria. Segundo a lei de 22 de julho de 1791, conforme, nesse ponto, aos antigos regulamentos os parentes dos insanos devem velar por eles, impedi-los de vagar e atentar para que não provoquem nenhuma desordem. A autoridade municipal, segundo a mesma lei, deve evitar os inconvenientes que resultem da negligência com a qual os particulares cumpram esses deveres. Os furiosos devem ser colocados em lugar seguro, mas só podem ser detidos em virtude de um julgamento que a família deve provocar. O Código Civil indica, com muitos detalhes, a maneira pela qual se deve proceder para a interdição dos indivíduos prostados num estado de demência ou de furor. Somente aos tribunais ele confia o dever de constatar seu estado. As leis que determinaram as consequências dessa triste enfermidade cuidaram para que não se suponha arbitrariamente que um indivíduo dela sofre; elas quiseram que sua situação

fosse estabelecida por meio de provas positivas com formas precisas e rigorosas. (

vos conjuro a vos conformardes a esses princípios. Deveis velar com cuidado para que as

autoridades que vos são subordinadas nunca deles se afastem "

Eu

)

39

Como vemos, na prática, frequentemente a autoridade administrativa se substituía à autoridade judiciária. Os insanos colocam problemas de ordem pública que devem ser resolvidos com urgência. A intervenção administrativa ultrapassa a lentidão do aparelho judiciário. Além disso ela é mais "democrática", no sentido de que não exige nenhum gasto nem iniciativa das famílias. Enfim, ela é mais segura, visto que leva necessariamente à sequestração, ao passo que uma interdição sem internação permite deixar um indivíduo perigoso sob o controle aleatório da família. Não somente a interdição é de aplicação difícil, como também não sela completamente o destino social do louco, como o lembrará uma carta do ministro da justiça em 1º de novembro de 1821: "O ministério público deve provocar a interdição de um louco furioso, porém, como essa medida não ocasiona de pleno direito a sequestração daquele que dela é objeto, a autoridade administrativa pode e deve mantê-lo em prisão enquanto for reclamado por sua família e sua liberdade oferecer perigo". 40

39 Circular de Portalis de 30 de frutidor, ano XII, citada in G. Bollotte, "Les malades mentaux de 1789 à 1838 dans Pouvre de P.

Sérieux", Information psychiatrique, 1968, n? 10, p. 916.

40 Citado in M. Gillet, Analyse des circulaires, instructions et décisions émanéesdu ministère de la justice, Paris, 1892, nº 1559.

Em suma, o procedimento legal imediatamente disponível não é aplicável à totalidade dos problemas colocados pelos insanos. Assim, Georget, constata em 1825:

"Quase todos os alienados são enclausurados sem serem interditados em virtude da lei de 24 de agosto de 1790" 41 . Em 1835, ano médio, apenas vinte e nove sentenças de interdição foram pronunciadas em toda a França 42 .

2. Visto que é a autoridade administrativa que assume a maior parte das tarefas práticas da sequestração dos insanos, por que não legalizar suas iniciativas? Esta segunda tendência pôde encontrar um suporte legislativo na lei de 16-24 de agosto de 1790, que confia à vigilância dos corpos municipais "o cuidado de evitar ou de remediar os acontecimentos perturbadores que possam ser ocasionados pelos insanos ou furiosos deixados em liberdade" 43 . Essas funções administrativas, inicialmente reservadas às autoridades locais, serão logo confiscadas pelo poder central, ministério do interior e prefeitos. Os representantes diretos do poder do Estado falam, naturalmente, em nome dessa orientação. O anteprojeto de lei de 1838 fora concebido, dessa forma, pelo ministro do interior como meio de legalizar essas prerrogativas da administração: "Já segundo a lei de 16-24 de agosto de 1790 esta atribuição lhe pertence em princípio. ( ) Trata-se essencialmente de medidas de segurança pública de ordem pública. Aliás, as medidas de precaução relativas à sequestração exigem ordinariamente uma extrema presteza, prudência e discreção, que dificilmente se conciliam com a lentidão e a solenidade das formas judiciárias, mas são fáceis e naturais às operações administrativas". 44

A fim de fornecer à repressão da loucura uma eficácia máxima basta, portanto,

legalizar a internação administrativa. Mas em sua resposta ao ministro, um deputado da

oposição denuncia, nessa orientação, o retorno do "princípio (

das lettres de cachet,

aquela, entre todas as leis, que nos tempos calamitosos suspenderam por algum tempo a liberdade individual" 45 . O artigo 7 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão

proclama que "nenhum homem pode ser preso ou detido a não ser nos casos determinados pela lei e segundo as formas por ela prescritas" ― ou seja, quando cometeu um delito. A loucura não é um delito. Ela coloca a justiça frente a uma aporia insuperável mas impede também que o executivo se ocupe da loucura salvo para cair no arbitrário das "ordens do rei".

3. Haveria ainda um terceiro caminho: remeter à família a responsabilidade do controle dos insanos. Esta tendência pode também reivindicar um apoio legislativo, a lei de 19-21 de julho de 1791, que prevê penas correcionais para aqueles que permitiam seus loucos "divagar", disposição esta retomada nos artigos 475 e 479 do Código Penal. Fazendo-se, dos parentes, os responsáveis pelo comportamento do insano, juridicamente, mantém-se este sob a dependência familiar, salvo se a família, ao solicitar

)

41 E. J. Georget, Considérations médico-légales sur la liberte morale, Paris, 1825, p. 38.

42 G. Delangre, De la condition des alienes en droit romain et en droit françats, Paris, 1876.

43 Législation sur les alienes et les enfahts assistes, op. cit., t. I, p. 2.

44 Législation sur les alienes et les enfants assistes, op. cit., t. II.

45 Ibid., II, p. 72.

a interdição, legalizar essa situação de minoridade do alienado. Da tutela familiar à tutela jurídica, o alienado encontraria, sem transformar a lei, o fundamento de um estatuto que o isenta de responsabilidade.

Mas essa solução familiar não é mais universalizável do que as duas precedentes.

Como vimos, a família só pode controlar uma das superfícies de emergência da loucura,

a patologia doméstica. Ela se encontra desmunida de fato quando a loucura acede ao

cenário social. Mas só pode ser desapossada de direito através de uma interdição, frequentemente inaplicável e que, nos melhores casos, não pode abranger todos os problemas práticos colocados pela loucura. Em suma, as "ordens do rei" fazem falta no momento histórico em que mais se sente sua necessidade: quando a passagem de uma

civilização rural para uma civilização urbana multiplica o número de famílias dissociadas

e de indivíduos isolados, quando o começo da industrialização exige que se organize uma circulação regulada dos homens, incompatível com o nomadismo sem limite da loucura.

Dessa forma, o insano escapa cada vez mais ao controle das famílias para vagar em novos terrenos baldios da sociedade. A justiça embaraçada pelo peso de seus procedimentos não pode suprir as carências familiares. A autoridade administrativa cuida do mais urgente, mas suas intervenções, outrora cobertas pela soberania real, contradizem os novos fundamentos jurídicos da ordem social. Uma dupla exigência começa a se impor. Inicialmente, suprir as insuficiências do controle familiar e do que se poderia chamar ordem da vizinhança. A loucura, sobretudo, quando está associada à indigência (e cada vez mais é o que ocorre) coloca problemas de ordem pública, cuja repressão deve ser reorganizada de modo homogêneo a nível nacional. Em segundo lugar, suprir as insuficiências do juridicismo, escapando ao arbítrio. Entre os sistemas de fidelidades tradicionais e o dos contratos livremente engajados (com sua contrapartida de sanções justamente merecidas) a instituição de um novo modo de dependência abre caminho. Visa a categoria dos desviantes irresponsáveis por oposição à dos criminosos que merecem punição. Não obstante, essa nova relação que será tão indispensável ao funcionamento de uma sociedade contratual quanto a sanção jurídica não pode, como esta, apoiar-se num aparelho já comprovado. A nova relação de tutelarização vai se definir e se modificar através da instauração e da transformação do dispositivo da medicina mental.

Repetimos, com o risco de ser acusado de legalismo e mesmo de idealismo jurídico: quando se trata de compreender a genealogia da instância de controle psiquiátrico, o essencial não se deve ao que se passou ao nível dos problemas concretos colocados pelos loucos. É evidente que a própria loucura é inoportuna. Improdutiva, perigosa, indecente, inquietante, o vazio institucional e legislativo diante do qual ela se encontra no final do século XVIII ― ou a disparidade das leis e a diversidade das instituições que a concernem indiretamente ― levantam cotidianamente inúmeras questões: qual autoridade se encarregará de deter o perturbador? Em que estabelecimento ela o colocará? Qual administração se encarregará dos gastos de sua manutenção se for indigente? Qual responsável se encarregará de prolongar ou interromper sua sequestração, etc? Porém, nesses períodos conturbados, improvisam-se

facilmente soluções ou expedientes que com frequência têm quantitativamente mais importância do que a de selar o destino de 5 a 10 mil indivíduos. Além do mais, a incidência econômica da improdutividade de alguns milhares de pessoas é quase nula num momento em que vagabundos e mendigos, menos inaptos ao trabalho, contam-se aos milhares.

Ao contrário, se existe um princípio com o qual uma sociedade liberal não pode jogar é o respeito ao fundamento jurídico que a institui e justifica sua injustiça ― a não ser violando-o no sentido permitido por sua própria legalidade formal, e é nisso que o juridicismo se sobressai. Se atualmente esta maneira de colocar o problema pode suscitar reservas é porque, com o liberalismo avançado, esse legalismo arrefeceu. Mas por que? Porque se difundiram modalidades mais generalizadas e mais sutis de controle através do todo social permitindo, frequentemente, economizar o recurso à sanção legal:

porque novas técnicas de sujeição podem tornar inútil o exercício de uma repressão inscrita nos códigos. Em suma, porque se multiplicaram os modos legítimos de tutelarização, reduzindo pouco a pouco a oposição dicotômica entre o contrato "livremente" aceito e a sanção penal "justa", contrapartida de sua transgressão. Em resumo, porque a medicina mental, agora, faz parte de nossa paisagem social.

A importância crucial da questão da loucura no momento da instauração da sociedade burguesa se deve, inicialmente, ao fato dela ter concretamente revelado uma lacuna da ordem contratual: o formalismo jurídico não pode controlar tudo, existe, pelo menos, uma categoria de indivíduos que deve ser neutralizada por outras vias do que aquelas de que dispõe o aparelho jurídico-policial. Mas essa importância se deve, também, ao fato de que o novo dispositivo instaurado para suprir essas carências vai desenvolver um novo modelo de manipulação, de plasticidade quase infinita. A maior parte dos novos modos de controle, das novas técnicas de sujeição, das novas relações de tutelarização vão ser afetadas por um índice médico (e posteriormente médico- psicológico, médico-psicanalítico, etc.). A crise imposta pelo problema da loucura às instâncias mais tradicionalmente implantadas e; sobretudo, à justiça, revela, assim, três coisas.

Em primeiro lugar, a justiça, mesmo restaurada, e a administração, mesmo modernizada, fracassam em assumir a herança do poder real para controlar tecnicamente a loucura. Em segundo lugar, é preciso apelar para uma outra instância para estabelecer novas relações entre esses aparelhos. Terceiro, e mais importante, através da resolução da crise, a nova instância médica vai reduzir a prova (ainda localizada, no começo) de sua flexibilidade. Diante da rigidez da justiça e da administração, deixa transparecer sua capacidade de desenvolver um modelo de exercício do poder alternativo ao da autoridade coercitiva.

A problematização esboçada neste capítulo não implica, portanto, de forma alguma, em que o encargo da loucura não tivesse outras implicações senão jurídicas. De certa forma, pelo contrário. Essa tutelarização dos loucos operou-se através de séries de

transformações práticas bem precisas, cujas peripécias será preciso acompanhar:

transformações dos dispositivos institucionais, recondicionamento dos códigos teóricos, refinamento das tecnologias disciplinares, constituição de novos papéis profissionais, etc. Isto é o mais importante, se não esquecermos que a constituição destas práticas instaurou e, posteriormente, dividiu os poderes de uma nova relação de dominação que coexistiu com a ordem legal antes de suplantá-la parcialmente, a fim de normalizar setores cada vez mais significativas da vida cotidiana.

Um membro da Assembléia Legislativa formulou, desde a época revolucionária, com uma impressionante lucidez, a contradição que corrói o legalismo: "Sabe-se muito bem que a lei só atinge as ações que podem interessar à ordem estabelecida por ela; mas deve-se acrescentar que ela não pode ficar indiferente às ações que, sem atacá-la abertamente levam, entretanto, a provocarem desordens na sociedade. Se a sociedade tem o direito de velar pela conduta física de seus membros, não é menor o de inspeção sobre sua conduta moral" 46 .

Essa "inspeção sobre a conduta moral" ― esse controle interior ― escapa ao formalismo da lei, sendo ao mesmo tempo necessário para que ela assuma realmente sua tarefa de conservação da ordem social. A menos que se recaia no arbítrio do despotismo ― entretanto, a condenação do despotismo não está somente inspirada por princípios morais, ela é a condição necessária para o estabelecimento da nova sociedade burguesa ― o legalismo, suas pompas e suas obras, suas declamações verbosas e seus efeitos teatrais, seu cerimonial ridículo ou sangrento, exige sua contrapartida discreta em tecnologias brandas e receitas prosaicas de sujeição: a clandestinidade dos adestramentos nos bastidores do teatro da justiça. O aparelho da medicina mental irá fornecê-los. Ele surge à sombra do legalismo. Inicialmente nutriu-se de suas contradições a fim de conquistar seu próprio espaço de intervenção. Posteriormente ele se desenvolveu mantendo, com a justiça, uma relação aparentemente polêmica mas, de fato, dialética. O instável equilíbrio entre as duas instituições conspira para a realização do mesmo fim. Quer se trate de justiça ou de medicina é a mesma ordem que está em jogo. Uma impõe sua manutenção inscrevendo-a na objetividade das leis e combatendo suas transgressões através de sanções. A outra detecta em cada pessoa uma distância com relação às suas normas e tenta anulá-la com remédios.

46 Bernard d'Airy, Rapport sur l'organisalion gênêrale des secours publics, Assembléia legislativa, 13 de junho de 1792, p. 86-

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