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NÚMERO - 01 JUNHO/2010 ESTANTE MÁGICA Ana Lúcia Merege A GENEALOGIA DO VAMPIRISMO Antonio Luiz
NÚMERO - 01 JUNHO/2010 ESTANTE MÁGICA Ana Lúcia Merege A GENEALOGIA DO VAMPIRISMO Antonio Luiz

NÚMERO - 01

JUNHO/2010

NÚMERO - 01 JUNHO/2010 ESTANTE MÁGICA Ana Lúcia Merege A GENEALOGIA DO VAMPIRISMO Antonio Luiz M.C.Costa

ESTANTE MÁGICA

Ana Lúcia Merege

A GENEALOGIA DO VAMPIRISMO

Antonio Luiz M.C.Costa

VALE A PENA LER CREPÚSCULO?

Ana Carolina Silveira

CONTOS: Adriana Rodrigues - Cenildon Muradi Jr - Rita Maria Felix

SENHORADOSVAMPIROS: ENTREVISTACOM GIULIAMOON

EXPEDIENTE REVISTADEFC,FANTASIAETERROR NÚMERO 01 - JUNHO/2010 IDEALIZADA POR ALEX BASTOS & LUCAS ROCHA “FANTAZINE:
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EXPEDIENTE

EXPEDIENTE
EXPEDIENTE REVISTADEFC,FANTASIAETERROR NÚMERO 01 - JUNHO/2010 IDEALIZADA POR ALEX BASTOS & LUCAS ROCHA “FANTAZINE:

REVISTADEFC,FANTASIAETERROR

NÚMERO 01 - JUNHO/2010

IDEALIZADA POR ALEX BASTOS & LUCAS ROCHA

“FANTAZINE: CELEBRANDO A IMAGINAÇÃO.”

Colunistas Ana Carolina Silveira

Colunistas Ana Carolina Silveira
Colunistas Ana Carolina Silveira

Ana Lúcia Merege Antonio Luiz M. C. Costa

Entrevistada Giulia Moon

Contistas Adriana Rodrigues Cenildon Muradi Jr. Rita Maria Félix

Contistas Adriana Rodrigues Cenildon Muradi Jr. Rita Maria Félix
Capa: pôster promocional do seriado True Blood Fonte: Internet

Capa: pôster promocional do seriado True Blood Fonte: Internet

Diagramação da Revista: Rita Maria Felix

Diagramação da Revista: Rita Maria Felix

Endereço Eletrônico: http://www.revistafantazine.blogspot.com

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SUMÁRIO

04
04

EDITORIAL Alex Bastos e Lucas L. Rocha saúdam os leitores e apresentam este primeiro número da revista Fantazine.

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ESTANTE MÁGICA Ana Lúcia Merege comenta as dificuldade em formar leitores no Brasil e explica o papel decisivo que a Literatura Fantástica pode desempenhar nessa questão.

07
07

A GENEALOGIA DO VAMPIRISMO

O

jornalista e escritor Antonio Luiz M.C. Costa discute o mito do vampiro ao longo

da História, Cultura e Literatura e apresenta o livro “O Vampiro Antes de Drácula”.

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VALE A PENA LER A SÉRIE CREPÚSCULO? Ana Carolina Silveira discute os méritos de uma das séries literárias mais bem sucedidas e polêmicas dos últimos tempos.

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ENTREVISTA: GIULIA MOON Fantazine conversa com a escritora do livro “Kaori, Perfume de Vampira”, Giulia Moon.

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CONTOS Histórias de vampiros escritas por Adriana Rodrigues, Rita Maria Felix e Cenildon Muradi Jr.

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BIBLIOTECA Conheça os livros “O Caçador” (Ana Lúcia Merege) e “Steampunk - Histórias de um Passado Extraordinário” (vários autores).

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PERFIL LITERÁRIO (I) Um dos maiores personagens de Fantasia, contudo pouco conhecido no Brasil:

Elric de Melniboné, obra-prima do britânico Michael Moorcock.

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PERFIL LITERÁRIO (II)

O

cadáver de Deus no Atlântico? Um homem que precisa reaprender a mentir?

Iguanas gigantes ameaçando o Japão? Conheça o genial escritor James Morrow.

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FANTAZINE JUNHO/2010

EDITORIAL

“O mal é sempre possível. E a bondade eternamente difícil.” (Anne Rice, Entrevista com o vampiro)

Muitos rejeitam veementemente as obras produzidas em nossas terras, não sabendo o que estão perdendo.

FantaZine tem a missão de apresentar a nova e boa literatura que abrange a Ficção Científica, a Fantasia e o Terror.

Sabendo que a diferença entre o diamante e o grafite é muito pequena, espero sinceramente que o conjunto apresentado para você seja o diamante.

Alex Bastos - www.twitter.com/lecobastos

Há, no Brasil, uma perspectiva errônea de que literatura nacional não tem tanta qualidade quanto a internacional. Seja por um sentido de inferioridade que remonta a um passado colonial, seja por simples comodismo ou quem sabe tudo não passe de puro preconceito, a verdade é que a nossa literatura ainda tem dezenas de caminhos prontos a serem descobertos pelos leitores.

Muito mais do que um aglutinado de contos e matérias focadas na literatura de gênero, o FantaZine vem também para mostrar o que muita gente já sabe:

novos autores e a literatura brasileira de Fantasia, Terror e Ficção Científica existem e estão aqui, ao alcance de qualquer um que tenha acesso à internet.

Deliciem-se com o que está nessas páginas, tenho a total certeza de que não irão se arrepender.

Lucas L. Rocha - www.twitter.com/lucaslrocha_

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FANTAZINE JUNHO/2010

´ Ana Lúcia Merege A o longo do último ano, não foram poucas as vezes

´

´ Ana Lúcia Merege A o longo do último ano, não foram poucas as vezes em

Ana Lúcia Merege

Ao longo do último ano, não foram poucas as vezes em que me envolvi em debates sobre leitura e leitores. O tema surgiu em duas situações: conversando

com outros escritores, que discutiam sobre a divulgação da fantasia nacional, e participando de cursos e palestras que

reuniam bibliotecários, professores e

mediadores de leitura.

Embora enveredassem por diferentes

caminhos, todas as discussões

chegando à mesma conclusão: por um conjunto de razões - que envolvem

até

questões econômicas, socioculturais e

políticas - as pessoas leem muito pouco. A média no Brasil é de 4,7 livros por ano e a

cifra cai para apenas 1,3 livro se

as

excluirmos as obras didáticas. E

pesquisas vão mais além, mostrando que, na faixa etária compreendida entre os 12

abandona o

e os 18 anos, muita gente

hábito da leitura adquirido na infância.

Tentando determinar as causas

dessa

rejeição, pesquisas realizadas em

instituições voltadas para a

leitura

mostraram que os livros oferecidos, ou

não

melhor, impostos aos adolescentes

costumam despertar seu interesse; que eles são apresentados aos clássicos

quando nem sempre estão preparados

para isso e que as atividades de

mediação

não são adequadas a sua faixa etária. O

resultado é um “abismo” entre as leituras

que viriam a interessá-los

da infância e as

quando adultos. E o que pode ajudar a construir uma ponte sobre esse abismo? Vamos brindar a isso:

os livros de conteúdo fantástico! Segundo

as pesquisas, são essas obras

acabavam

que,

juntamente com os livros de aventuras,

satisfazem o anseio dos jovens pelo

e pelo inusitado. Além disso, a leitura de

novo

fantasia e ficção científica é muitas vezes o ponto de partida para que os jovens ampliem seus horizontes literários, dentro e fora do gênero. Com base nessa observação, muitas bibliotecas começaram a incorporar títulos de literatura fantástica a seu acervo infantil e juvenil. A mais famosa é a Biblioteca Fantástica de Wetzlar, na Alemanha. Já no Brasil a Biblioteca Viriato Corrêa, em São Paulo, é especializada no gênero, embora não de forma exclusiva. Por sua vez, o mercado editorial brasileiro começa a perceber que a literatura fantástica dá retorno, e o número de publicações vem crescendo cada vez mais. A maior parte consiste, é verdade, em traduções, mas felizmente alguns editores já estão apostando nos autores brasileiros. É um momento propício para que apostemos também no leitor, e mais ainda no leitor em potencial, ou seja, o jovem. Não quero dizer que todos devam escrever para esse público – há obras que se destinam claramente a ser lidas por adultos – mas aqueles que o fazem devem buscar visibilidade maior do que a proporcionada pela Internet, seja com blogs, redes sociais, trailers de livros ou quaisquer outros meios. Eventos como convenções de fãs de anime ou jogadores de RPG são eficazes, mas ainda restritas, pois a maioria das pessoas que participa já conhece pelo menos algumas vertentes e desdobramentos do gênero. Para atingir os jovens de forma mais ampla, é importante buscar uma aproximação com os canais através dos quais os livros efetivamente chegam a eles. Fazer divulgação junto a escolas, com visitas, palestras e participação em

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FANTAZINE JUNHO/2010

ESTANTE MÁGICA

“semanas literárias” - inclusive para os professores, que pouco ou nada conhecem do gênero -, participar de eventos de promoção da leitura e até, no

caso das editoras, inscrever as obras nos planos de distribuição governamental são estratégias válidas para tentar chegar, como diz a canção, “aonde o povo está”. Concordo que é um trabalho de

é

formiguinha, mas, por outro lado

supergratificante chegar numa escola

a

garotada com seu exemplar na mão, doida por um autógrafo. E quem escreve só para adultos pode e deve ajudar. É um investimento, como

mostram as pesquisas: se uma pessoa atravessa a adolescência como leitor, é mais provável que continue a sê-lo ao longo da vida. E se continuar a ler

melhor

Fantasia e Ficção Científica ainda. ;)

onde seu livro

foi

adotado e ver

Ana Lúcia Merege é escritora, bibliotecária e mediadora de leitura. Adora crianças (está na cara); bichos, só se forem lobos e águias. Publicou os romances “O Caçador” (Franco, 2009) e “O Jogo do Equilíbrio” (Fábrica do Livro, 2005) e o ensaio “Os Contos de Fadas” (a ser republicado pela Nova Alexandria), além de contos e artigos. Atualmente trabalha na finalização de “O Castelo das Águias”, seu novo romance, que deve ser anunciado em breve.

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06

FANTAZINE JUNHO/2010

A

GENEALOGIA

DO VAMPIRISMO

Antonio Luiz M. C. Costa

Uma retrospectiva mitológica, histórica e literária sobre o mito dos vampiros.

AGENEALOGIADOVAMPIRISMO

Antonio Luiz M. C. Costa

ó r i n o

século XVIII. As

mais antigas

menos

vampirescos, como os lilu e as lili ou lilitu

as

estriges dos romanos. Mas a concepção e

o nome dos vampiros propriamente ditos

da tradição literária ocidental provêm

(de

cuja língua provém a palavra vampir) e até fins do século XVII era pouco

especificamente do folclore sérvio

dos sumérios, as lâmias dos gregos e

mitologias citam seres mais ou

a

A

h i

cadáver de unhas compridas, boca aberta, barba malfeita e rosto vermelho e inchado, envolto numa mortalha. Corpos aparentemente conservados quando deveriam ter apodrecido, de aparência roliça e saudável, com a boca ensangüentada, confirmavam o diagnóstico de vampirismo. Na verdade, a temperatura e as características do solo permitiam a preservação de cadáveres por mais tempo que o habitual, o inchaço do corpo por gases da decomposição davam a impressão de que o morto “engordara”. Junto com o vazamento de líquidos de decomposição misturados com sangue pela boca, davam conta da aparência impressionante desses cadáveres. Ao se despachar o vampiro de acordo com a tradição,

o u

trespassando-os com uma estaca, os gases que inchavam o corpo eram liberados, com um som que

dava a impressão de que o cadáver gemia e gritava, ao mesmo tempo que revertia ao tamanho normal. Em 1746, o beneditino francês Augustin Calmet – uma espécie de Padre Quevedo de sua época – escreveu uma dissertação a respeito do tema no qual rejeitava vários dos supostos casos, mas admitia que alguns podiam ser reais e teve grande impacto na intelectualidade européia. Já em meados do século XVIII, porém, as mentalidades na Europa Ocidental já evoluíam na direção do iluminismo. Em 1755, quando uma suposta vampira foi exumada na fronteira da Silésia com a Morávia, no Império Austro-Húngaro, a Imperatriz Maria

s t

p r i n c i p i a

CAPA DE “O VAMPIRO ANTES DE DRÁCULA”

conhecidos fora da cultura eslava. De 1718 a 1739, porém, o coração da

Sérvia ficou sob domínio dos Habsburgos

chamou a

da Áustria e a lenda eslava

a

t e n ç ã o

d e

 

o u v i d o s

o

c i

d

e n t

a

i

s .

D u a s

“Os vampiros chegaram

à literatura em prosa em 1816 no mesmo desafio entre amigos no qual Mary Shelley criou

Frankestein”.

d e c a p i t a n d o - o s

mortandades em 1725 e uma terceira em 1731 foram atribuídas a vampiros e esta

última levou o

austríaco

comissão de médicos

militares para investigar o assunto. Com uma mentalidade ainda mais barroca do que iluminista, os médicos acabaram confirmando a condição vampírica de vários corpos exumados, que foram decapitados e

queimados, tendo suas cinzas lançadas no rio Morava. Supunha-se que os vampiros eram

seus

túmulos para sugar o sangue de vítimas

como

eles, deflagrando uma epidemia. Nessa

mais

freqüentemente, o cadáver de um pobre

camponês era um ser repugnante, um

concepção, o vampiro –

que, ao morrerem, se tornavam

mortos-vivos que saíam à noite de

governo

uma

e

a

enviar

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FANTAZINE JUNHO/2010

A GENEALOGIA DO VAMPIRISMO

morrido virgem por exigência da mãe convertida ao cristianismo, saía do túmulo a cada noite para seduzir os jovens e

investigar o caso a fundo. sugar seu sangue e que lhe pedia para ser

queimada em uma pira com seu amado, para que pudesse partir para junto dos antigos deuses. Tratava-se de uma adaptação de uma narrativa do grego antigo Filóstrato, embora neste não houvesse a temática religiosa – neste, a lâmia era uma criatura demoníaca, exorcizada por um sábio mago pagão. Os vampiros chegaram à literatura em prosa em 1816. No mesmo desafio entre amigos no qual Mary Shelley criou Frankestein, o colega Lord Byron esboçou um conto vampiresco. Outro participante, seu médico e secretário John Polidori (que escrevera outro conto, hoje perdido) desenvolveu a história incompleta e a publicou como O Vampiro, depois de romper com o ex-patrão, que ridicularizava sua pretensão de portar-se como um intelectual romântico. Numa aparente vingança, o vampiro de Polidori, Lord Ruthven, era um aristocrata sombrio, ambivalente, romântico e sedutor à imagem e semelhança da persona de Byron.

Além disso, foi

autorização para lidar com tais questões,

Teresa – uma das clássicas “déspotas esclarecidas” – encarregou seu médico, o holandês Gerard van Swieten, de

Esse precursor de Van Helsing concluiu

que tudo não passava de histeria popular

e seu relatório levou à proibição da decapitação e do estaqueamento de cadáveres nos domínios habsburgos.

retirada dos párocos a

transferidas para a responsabilidade do governo. Mas a polêmica já tinha excitado a imaginação dos escritores. Em 1748, o alemão Heinrich August Ossenfelder publicou um poema chamado O Vampiro com esse tema, seguido por vários outros

até o início do século XIX. Curiosamente,

já em Ossenfelder aparece o tema do

erotismo, explicitamente associado a algumas entidades vampíricas da Antiguidade mas não às da lenda eslava – nesta, os vampiros inspiravam pesadelos, terrores noturnos e sensação de sufocação e “peso no peito”. No poema, um amante rejeitado por uma jovem piedosa e respeitável ameaça visitá-la à noite, beber-lhe o sangue como vampiro e

provar-lhe que seus ensinamentos são Ironicamente, o editor da New Monthly melhores que os da mãe. Magazine, ao qual o manuscrito foi

mostrado por uma amiga comum, publicou seu conto como sendo do próprio Byron, por engano ou para tirar proveito de sua fama. Tanto Byron quanto Polidori ficaram bastante irritados, mas não conseguiram desfazer o equívoco. Por décadas, o nome do grande poeta do romantismo ajudou a difundir e prestigiar o primeiro conto de vampiro por toda a Europa. A mania estava lançada e até hoje não nos deixou.

ao morcego hematófago sul-americano, Não foi à toa que Byron se aborreceu

chamou-o de “vampiro”. com a atribuição da autoria. Embora o

Em 1797, Goethe publicou outro poema vampírico digno de nota, A Noiva de Corinto, no qual uma jovem, tendo

tema fosse inédito e provocativo, do ponto de vista da técnica literária, o conto de Polidori – no qual o vampiro se compraz a

Vale notar que é nesse período, em 1766, que a idéia de vampiro foi associada pela primeira vez ao morcego. Na Europa, nunca existiram morcegos hematófagos:

essa espécie está confinada à América do Sul. Supunha-se que as lâmias podiam tomar forma de serpentes, as estriges de corujas e o vampiro na Europa Oriental às vezes se confundia com a figura do lobisomem, mas jamais com o morcego. Foi o naturalista Buffon que, ao se referir

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A GENEALOGIA DO VAMPIRISMO

provocar a ruína e perdição dos homens e

a sedução e morte de belas virgens,

inclusive a amada e a angelical irmã do narrador – está abaixo de medíocre. Certamente é o mais fraco da coletânea, embora sua importância para a história do

tema o torna indispensável. uma versão raramente traduzida dessa

obra de Maupassant, anterior e mais curta, na qual a história é narrada do ponto de vista de um médico que cuida do suposto doente e acaba por concluir que ele tem razão. Essa versão tem menos ambigüidade fantástica para se aproximar da Ficção Científica – trata-se mesmo de um humanóide invisível mas material, superior ao ser humano, que de alguma maneira emergiu espontaneamente da evolução em uma natureza exótica e tropical para tomar o lugar da velha humanidade e destruí-la. Por que do

sob as formas mais variadas. Brasil? Talvez porque já fosse visto como o

país do futuro e também uma terra paradoxal, tanto de maravilhas naturais quanto do horror da escravidão e das doenças tropicais.

A l e x a n d r e

e vegetais, carnais e espirituais, humanos e pós-humanos. Edgar Allan Poe,

Vampiro antes de Drácula, por outro lado, vão de bons a geniais, reunindo exemplos de vampiros masculinos e femininos, heterossexuais e homossexuais, animais

Na versão mais conhecida, o conto toma a forma de um diário da vítima do Horla, de uma maneira a deixar o leitor na incerteza sobre se trata de loucura, de uma doença tropical contraída pelo narrador ou de um ser misterioso. Mas a coletânea optou por

Todos os outros contos reunidos em O

D u m a s

p a i ,

G u y

d e

Maupassant, Alexei Tolstoi, Anne Crawford, Arthur Quiller-Couch, Phil Robinson, Eric Stenbock e H. G. Wells mostram claramente a influência do vampiro pseudo-byroniano e de sua contrapartida feminina, a femme fatale,

A temática erótica está presente na maioria das histórias – as exceções são o vampiro vegetal de Wells, o vampiro animal de Robinson e o misterioso Horla

de Maupassant – mas um fator ainda mais E m b o r a n ã o p a r e ç a s e r

constante (com exceção de Poe) é que o vampiro vem quase sempre de algum lugar mais primitivo e selvagem que a pátria dos protagonistas, geralmente a pragmática e esclarecida Inglaterra ou a França iluminista. Não é obrigatório que o vampiro venha da sua verdadeira terra de origem na Europa Oriental: pode vir da Grécia, da Itália, ou dos trópicos. A bela orquídea de Wells vem do sudeste Asiático, o vampiro de Robinson, enorme

pterossauro que suga sangue à maneira Antes de ser um sugador de sangue ou

dos morcegos sul-americanos, vem da Amazônia peruana e o Horla vem do Brasil, mais precisamente da província de São Paulo. Este último é talvez o mais estranho e atípico da antologia, mas ainda assim pertence claramente à mesma temática.

de qualquer forma de energia vital, o vampiro é um ser ambíguo – entre a vida e a morte, entre o humano e o animal, entre o belo e o horrendo, entre o passado e o futuro. Não é obrigatoriamente erótico, mas tem o vigor do primitivo, que pela sensualidade ou pela força superior

particularmente atraído por belas donzelas, o Horla – cujo nome provavelmente deriva do francês hors la (“lá fora”) é fascinado por tudo o que é branco, belo e inocente. Bebe leite e água, devora rosas brancas, aparentemente dirige-se para a casa do narrador porque é branca e (na segunda versão) o navio brasileiro no qual é levado à França é branco e especialmente alegre e bonito, a ponto de entusiasmar o narrador.

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A GENEALOGIA DO VAMPIRISMO

apesar do apelo erótico, a religião tinha

morais e religiosas do Ocidente. um papel vital na derrota do vampiro: nas

demais, o mal era vitorioso ou sua derrota era fruto da bravura inspirada pela razão. No Drácula de Stoker, porém, fica explícito que o propósito do vampiro é dominar Londres, o british way of life está em risco e todos os seus recursos morais, religiosos e científicos de sua civilização

Convidado de Drácula, escrito na década de 1890, mas publicado apenas em 1914,

é do próprio Bram Stoker. Nele, ao que

tudo indica, o mais famoso dos vampiros apareceu pela primeira vez – antes do

famoso romance de 1897, ao qual poderia

servir de prólogo. são convocados a enfrentar o perigo, no

qual se confundem a emancipação da mulher (as pacatas vitorianas mordidas p o r D r á c u l a t o r n a m - s e f e r o z e s dominadoras), a ameaça da sensualidade primitiva e a ameaça das novas potências que emergiam da Europa Continental, colocando em risco a hegemonia britânica. Apesar da aparência de aristocrada John Seward, psiquiatra aliado de Van Helsing, refere-se ao vampiro como "o pai ou promotor de uma nova ordem das coisas". No vampiro, o medo do futuro escondeu-se sob a máscara do passado.

recursos da modernidade para combatê- Graças à ênfase na ação, aos golpes de

lo, incluindo transfusões de sangue,

efeito e à economia de personagens e

fonógrafo, taquigrafia e psiquiatria. cenários - Stoker escrevia como se

pensasse em uma peça de teatro - Drácula tornou-se, como conclui a coletânea, eminentemente filmável.

contrário dos vampiros românticos, não Embora o autor não vivesse para ver

mata por fúria, prazer ou capricho, mas para se apoderar das vítimas e colocá-las

a seu serviço. Age

planejador, reunindo vastas fortunas para

realizar seu plano de domínio mundial. quando Anne Rice deu à lenda um novo

isso, os filmes baseados em sua obra conquistaram o mundo a partir dos anos 20 e fixaram a imagem do vampiro no imaginário ocidental até os anos 80,

Não ficam embasbacados, mas agem com estratégia, valendo-se da ciência de Van Helsing. Por seu lado, Drácula, ao

forte como vinte homens, mais ardiloso que os mortais, capaz de comandar os mortos, os animais e a metereologia, tomar inúmeras formas e ficar invisível. Por outro, seus inimigos reúnem todos os

ameaça a frágil civilização e as convicções

O último conto da coletânea, O

Com o Drácula de 1897, o tema que parecia já estar desgastado e caindo no ridículo ou no esquecimento, tomou novo impulso – a ponto de que muitos fãs de histórias de vampiros de hoje têm a impressão de que Stoker foi o primeiro a introduzi-las na literatura. A novidade em relação aos anteriores é que, por um lado, o vampiro torna-se muito mais poderoso:

também como um

Das histórias da coletânea, só na do

retoque.

popularesco Dumas, preocupado com a Mas isso já é outra história. aceitação da história pelo grande público

Ana Carolina Silveira Adorada por multidões de fãs e condenada por multidões de intelectuais, a
Ana Carolina Silveira Adorada por multidões de fãs e condenada por multidões de intelectuais, a

Ana Carolina Silveira

Adorada por multidões de fãs e condenada por multidões de intelectuais, a série de livros Crepúsculo prossegue como um grande e polêmico sucesso. Ana Carolina analisa os méritos da obra de Stephenie Meyer

Fonto: Kristen Stewart (Bella Swan) e Robert Pattinson (Edward Cullen), atores da versão cinematográfica para a série Crepúsculo

Ana Carolina Silveira Escritos pela americana Stephanie Meyer, os quatro livros da série Crepúsculo acumulam

Ana Carolina Silveira

Ana Carolina Silveira Escritos pela americana Stephanie Meyer, os quatro livros da série Crepúsculo acumulam fãs,

Escritos pela americana Stephanie Meyer, os quatro livros da série Crepúsculo acumulam fãs, sucesso e pesados questionamentos sobre a qualidade das histórias.

A primeira e mais óbvia coisa a se

falar sobre Crepúsculo é de seu público-

Se

você já saiu da adolescência, ou não é

mulher, é pouco provável que se

se

sentido, é um caso excepcional. Inclusive,

é fácil identificá-lo com um estilo literário

conhecido lá fora como “chick

por

mulheres para mulheres e que se

identifica com

sexo feminino. Agora, vamos a Crepúsculo. A

sinta

alvo: adolescentes do sexo feminino.

adolescente, tem uma visão bastante distorcida de si mesma – autoestima baixa, insegurança, todos esses dramas. A história começa quando ela se muda da cidade grande para Forks, sua cidadezinha natal, para poder morar com seu pai. Com uma nova casa, uma nova rotina, e uma nova escola passa a fazer parte dela. E, lá, ela encontra-se com seu príncipe encantado: Edward, um garoto muito bonito e misterioso. E um vampiro.

Não é muito difícil entender por que a história é tão atraente: Bella é a garota- padrão, aquela que qualquer leitora poderia ser, e Edward é o namorado ideal:

atraído por essa leitura – e, caso tenha

lit

“literatura de mulherzinha”, escrita

clichês identificados com o

essas “Não é muito difícil entender por que a história é tão atraente: Bella é
essas
“Não é muito difícil entender por
que a história é tão atraente: Bella é a
garota-padrão, aquela que qualquer
leitora poderia ser, e Edward é o
namorado ideal: lindo, carinhoso,
dedicado, companheiro, cortês,
meu estilo)
romântico, completamente
apaixonado… Qual garota não
desejaria um namorado assim? “

constante

no

Charlaine

alturas, você deve saber que é a história

de uma adolescente que se apaixona

perdidamente por um vampiro. Ah, o mito

do vampiro… Talvez, do grande leque

temático da fantasia, é o mais aprazível e

próximo do grande público. É um ícone

tanto da imortalidade – o vampiro, afinal,

é o “morto que não morreu” – da

bestialidade inerente a cada um de nós e

também da luxúria, da sede insaciável. É

monstro, mas seduz

público leitor, também.

para caçar. Seduz o

Vampiros

são

uma

mercado: estão sempre na moda. Vide

best sellers como Anne Rice e

Harris – e, aqui entre nós, André Vianco,

as séries de quadrinhos, os filmes…

Crepúsculo é um pouco disso

fundido com o romance adolescente. E, claro, com uma boa dose de moralismo

para

agradar mamães e papais mais

puritanos.

a

Bella

é

a

garota-média: não é

cheerleader, não é a nerd-esquisita-do-

canto-da-sala. Como

toda boa

lindo, carinhoso, dedicado, companheiro,

cortês, romântico, completamente

apaixonado… Qual garota não desejaria

um namorado assim? (apesar que,

pessoalmente, o Jacob faz muito mais o

No primeiro livro da série, vemos uma

Bella deslumbrada, até irritante ao repetir

milhares de vezes o quão lindo, maravilhoso, perfeito, supremo, magnânimo, inigualável, absoluto, salve salve Edward é. Mas, tirando os exageros, ela não me parece muito diferente de uma adolescente padrão – lembrando que o amor adolescente é mais intenso, imediato e exagerado do que em qualquer outra fase da vida

tudo, Por falar em “amor adolescente”, não

mencionei um ponto importante: Edward é de uma família de vampiros bonzinhos que não caçam humanos, mas só animais. Tudo perfeitamente pasteurizado. Da

mesma forma, Edward deseja Bella mas, como é um vampiro bonzinho, educado, de boa família e aprovado pelos pais, não

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FANTAZINE JUNHO/2010

VALE A PENA LER CREPÚSCULO?

morderá seu pescocinho. Tirem as presas

e o sangue da história: o namorado

perfeito que luta contra seus desejos

carnais

i n t a c t a .

suficientemente claro na passagem do

passeio no campo, onde eles se acariciam

e ele revela o quanto ela atiça seus

desejos e é uma tentação, mas que a ama

o suficiente para resistir. Bella é a

tentação perfeita, mas Edward será forte

o bastante para provar apenas o amor, e

não

determinada

dificuldades para chegar ao casamento virgem. Bom, vale ressaltar sobre os vampiros que brilham ao sol e a

teve

namorada

f i c a

Lobisomem: O Apocalipse – sim, ambos partiram do mesmo mito original das

tribos xamânicas norte-americanas – mas

s u a

organização, atributos e relação com vampiros. E, claro, Jacob, como personagem,

funciona muito

figurinhas de álbum Bella e Edward. Inclusive, ele é o responsável por mostrar o lado humano dos dois: as dúvidas, os

medos, os questionamentos, o que se questiona ao se deparar com duas rotas opostas em seu caminho. É ele que os aproxima de uma realidade que não possuem, de uma humanidade. Jacob é o elemento humano, é a tensão da série – e também um de seus melhores pontos.

as

f a l o

e

mantém

A c h o

a

sua

e s p e c i a l m e n t e

s o b r e

q u e

i s s o

melhor

do

que

o

corpo. Não sei. Desconfio que

autora

mórmon

Stephanie Meyer
Stephanie
Meyer

ser um

absoluta pasteurização do ambiente: fica difícil para quem

definitivo o papel de vértice do triângulo amoroso. E, para Bella, não é apenas entre o vampiro e o amigo: é também o momento para tomar sua decisão interna sobre qual caminho deseja trilhar. Sem

ou, no mínimo, Underworld – dúvidas é o melhor livro da

também está ali para quem quiser ver. A

culpa que Edward sente por

imortal lembra muito das agruras internas de Louis e mesmo outros detalhes que vemos sobre a “mitologia vampírica” de Rice podem ser facilmente encontrados. Das referências assumidas, também dá para encontrar muito do gótico de O Morro dos Ventos Uivantes – taí um livro que eu acho que valha uma resenha no

futuro

mas em um mundo onde

livro,

Finalmente Bella pode

Anne Rice. E, quanto a esta última, a Meyer pode negar o quanto quiser, mas os ecos de Lestat, Louis e amigos estão ali para quem quiser ver. Uma boa pitada de World of Darkness

leu Bram Stocker ou mesmo Em Eclipse, ele assume em

série. A trama é bem desenvolvida, em comparação com os demais livros da série, vários personagens aparecem e

fazem parte dela,

harmonicamente,

construindo o que precisa ser contado e

toda a tensão dos últimos dois livros está para ser resolvida. Satisfatoriamente, em minha opinião.

Chegamos então

Amanhecer.

ao

último

realizar seu grande sonho. E, novamente,

alcança a

plenitude depois de um determinado fato específico. Só depois dele é que suas

inseguranças todas vão embora – ou seja, uma mulher só se torna uma mulher verdadeira depois que determinado fato

da

acontece em sua vida. Não gostei

a moral puritana: Bella só

-,

e

of

Heathcliff e Catherine podem ficar juntos. Passamos então para o livro dois, Lua

Nova,

novos

personagens: lobisomens. Novamente,

World

(ou no mínimo

Underworld) – os lobisomens de Meyer

l e m b r a m b a s t a n t e a q u e l e s d e

pela

introdução

de

Darkness

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14

FANTAZINE JUNHO/2010

VALE A PENA LER CREPÚSCULO?

mostrá-las!!! Apenas uma batalha é mostrada com detalhes, as outras não são vistas ou acontece algo de sobrenatural – olha Deus dando tchauzinho de fora da máquina – para impedi-las.

jogados, sem serem aproveitados. Não O público não reclamaria se tivesse

mais ação! Por fim, é uma série que vale a pena

p e l a d i v e r s ã o

descompromissada – ninguém lê Crepúsculo esperando encontrar uma obra literária que vá perdurar os séculos, pelamor – e também, principalmente,

para penetrarmos um pouco no hype do momento – e, quem sabe, naquilo que seu público espera.

conclusão da saga – além da história ter um dos maiores anticlímax que já li, vários personagens são mal-explorados, ficam perdidos no decorrer da trama, não possuem “o seu momento” – estão lá,

sei o quanto os editores pressionaram para que esse livro saísse rápido, mas ele merecia ser melhor trabalhado, alguns fatos melhor esclarecidos, alguns personagens melhor aproveitados. É um final satisfatório, mas faltou bastante tempero nele. Outra coisa que incomoda na série: em apenas uma ocasião podemos ver uma batalha – e com seres como vampiros e lobisomens andando por aí, por que não

s e r

l i d a

t a n t o

Ana Carolina Silveira é mineira, advogada, blogueira, leitora e escritora, não necessariamente nesta ordem. Participou dos livros Espelhos Irreais (Multifoco) e Meu amor é um vampiro(Draco). Conheça mais em http://leituraescrita.wordpress.com

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FANTAZINE JUNHO/2010

SENHORADOSVAMPIROS

Fantazine entrevista a escritora de “Kaori, Perfume de Vampira”

GIULIAMOON

ENTREVISTA: GIULIA MOON FantaZine – Quem é Giulia Moon? Giulia Moon - Sou paulistana, moro

ENTREVISTA: GIULIA MOON

FantaZine – Quem é Giulia Moon? Giulia Moon - Sou paulistana, moro no bairro da Aclimação a cinco minutos da Avenida Paulista e do bairro da Liberdade. Sou formada em Publicidade e Propaganda, já fui ilustradora, diretora de arte, redatora e sócia de agência de promoção. Nessa área, fiz alguns trabalhos legais, como a criação dos personagens da Marisol - Lilica Ripilica e Tigor T. Tigre. Giulia Moon é um nickname que inventei no ano 2000, quando estava um pouco entediada com a minha carreira e estava à procura de emoções novas. Eu criei o nome para participar de um grupo de discussão do Yahoo chamado Tinta Rubra, de escritores amadores que se dedicavam exclusivamente a escrever histórias de vampiros.

chamou a minha atenção. Já pensou, um vampiro falando com você? Legal! Não era um vilão qualquer, mas alguém que pensava, era cínico, sentimental e, vejam só, se achava lindo! Comprei o livro e só o larguei na última página. Tornei-me fã de Rice e li todos os livros da sua série vampiresca. Mas “O Vampiro Lestat” continua a ser o meu favorito. O que me

sobressaindo nos últimos tempos. atraiu nas obras de Rice foi o

aprofundamento no psique de um personagem sobrenatural, tornando-o real, palpável, crível, próximo do leitor.

FZ – Dentre todos os vampiros da literatura, qual o seu preferido e por quê? GM-Eu adoro Lestat. Mergulhar dentro da cabeça de Lestat, um vilão, assassino, mas também um sonhador, um louco, um irresponsável, foi uma experiência fascinante. Adoro também Carmilla, de Sheridan Le Fanu, uma vampira insidiosa e inquietante. E, fora da literatura, gosto do Alucard do anime Hellsing. E, claro, Drácula, tanto do livro de Bram Stocker quanto o dos filmes. Ele é o clássico dos clássicos!

autores

FZ

onde eu costumava passar o

Livraria Cultura do Conjunto Nacional,

escondidinho numa das estantes

Lestat” de Anne Rice. Encontrei o livro

pelo personagem ao ler “O Vampiro

quadrinhos, mas eu me apaixonei

GM-Para mim, os vampiros sempre foram figuras legais em filmes, animes,

entraram na sua morte deles?

sede por sangue humano. Como

ao mesmo tempo em que fascinam por seu erotismo e sedução, amedrontam por suas atitudes e sua

FZ – Os vampiros são criaturas

Nesse grupo, conheci amigos importantes como Adriano Siqueira e Martha Argel, e foi lá que percebi que as minhas histórias tinham um público e que talvez valesse a pena investir meu tempo numa nova atividade: a literatura. Por isso, Giulia Moon é, para mim, o meu lado literário, noturno, vampiresco. Um lado que está, cada vez mais, ocupando espaço e se

que,

eles

vida,

ou

você na

mesmo

da

tempo

garimpando livros interessantes. Era uma época anterior ao lançamento do filme “Entrevista com o Vampiro”, que fez sucesso com Tom Cruise e Brad Pitt e ajudou a tornar Anne Rice e seus vampiros mais populares. Bem, lá estava o livro e eu o abri e li a primeira página. Era narrado em primeira pessoa, e isso

X

favoritos? De que forma eles são importantes para a sua formação como escritora?

GM-Na minha adolescência, apaixonei-

me pela

literatura de terror graças a

Quais

são

os

seus

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17

FANTAZINE JUNHO/2010

ENTREVISTA: GIULIA MOON

mais belas que já tive oportunidade de ouvir.

X

FantaZine – Qual sua opinião sobre a literatura brasileira atual, em que FC, Fantasia e Terror crescem? GM-Acho que as sementes que vinham sendo plantadas há alguns anos estão florescendo. Essa geração de garotos e garotas que curtem RPG, games e internet é criativa, inteligente e cheia de energia. Um público grande, ávido para ler livros de Fantasia, Terror e FC, está mostrando a cara e acho que os autores brasileiros têm talento para provar que têm capacidade de produzir obras de qualidade igual ou melhor do que os estrangeiros. Há, claro, muitos livros ruins, como em qualquer mercado. Mas temos – só para citar escritores de ficção vampírica – excelentes autores como Martha Argel, André Vianco, Kizzy Ysatis e Nazarethe Fonseca. É um time que não faz feio em qualquer lugar do mundo. Sem cair em xenofobia ou nacionalismo exaltado, eu diria que, se você gosta de ler literatura fantástica, dê uma boa olhada nas estantes da literatura brasileira antes de se decidir a comprar os

influenciam na hora de escrever? bestsellers estrangeiros. Você não vai se

Edgard Allan Poe e seus contos

extraordinários. Meus primeiros contos, escritos na época do colégio, foram

inspirados neles. Depois, passei por

fase de FC, quando li muito Clarke,

Asimov e – principalmente – Ray Bradbury. Um autor que admiro e gosto

de ler é Stephen King. Tanto nos

contos quanto nos seus romances, há idéias excelentes, muito criativas. Sou apaixonada pelos romances, HQs e contos de Neil Gaiman. O clima noturno que ele confere às suas histórias faz com

que você mergulhe num

diferente, bizarro e estranho com naturalidade e prazer. Fora esses, leio e gosto de histórias de detetives: as aventuras de Sherlock Holmes, romances de Agatha Christie e as histórias de

Arsène Lupin. E, claro, Anne Rice!

tantos outros livros e autores que eu

gosto que não daria tempo

enumerá-los. Todos eles me ensinaram

alguma coisa, mas, principalmente, que a

melhor forma de escrever é

que você, como leitor, gostaria de ler.

X

FantaZine – Além da literatura, quais são as outras mídias que te

uma

seus

mundo

Há

para

escrever algo

GM-Eu gosto muito de animes e mangás, e não há nada mais estimulante do que ver uma boa história sendo conduzida à

Hayao

Miyazaki como “A Viagem de Chihiro”, “Princesa Mononoke” e o “Totoro”. “Ghost

é

muito legal. A junção de roteiro-música-

é

excepcional. E no terror, o mangá “O

Vampiro que Ri” é arrepiante. E o anime “Death Note” tem uma história muito

bem conduzida. Outra coisa que

inspira na hora de escrever é a música. Desde o início de 2009, tenho ouvido sem cessar um roqueiro japonês chamado Gackt, cuja voz de barítono é uma das

me

desenho de “Cowboy Bebop”

in The Shell” de Masamune Shirou

sua frente. Adoro os filmes de

arrepender.

X

FantaZine – Como você é tratada e recebida pelos leitores? GM-Muito bem. Tenho recebido e-mails e conversado pessoalmente nos eventos

com leitores que me acompanham há anos. E, com o lançamento de “Kaori”, o

número dos meus leitores cresceu muito. O meu contato direto com o público na última Bienal veio confirmar algo que eu já sabia: os brasileiros adoram ler. Achei maravilhoso conversar com mais de trezentas pessoas durante uma semana, olhar nos seus rostos, saber do que gostam, e, principalmente, perceber que boa parte dessas pessoas continua me

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ENTREVISTA: GIULIA MOON

acompanhando hoje, através do Orkut, do meu blogue e do Twitter. Sinto-me muito à vontade com elas, e adoro esse contato permanente, apesar de não ter tempo para dispensar toda a atenção que eu gostaria.

x

FZ – A história de “Kaori: Perfume de Vampira” se passa paralelamente na São Paulo atual e no Japão do século XVIII, durante a Era Tokugawa. Como foram as pesquisas para compor o romance?

X

GM-A parte japonesa exigiu

m a i s p e s q u i s a , c l a r o . Primeiro estudei um pouco a História do Japão, para saber exatamente em que ano eu situaria a primeira parte da história de Kaori, e também para compreender um pouco como era o dia-a- dia das pessoas da época feudal japonesa. Como sou descendente de japoneses,

j á

a l g u m respeito,

pois assisti, desde pequena,

conhecimento

p o s s u í a

a

muitos

filmes

de

época,

o

conhecimento p o s s u í a a muitos filmes de época, o F Z

FZ Como surgiu a história para o seu mais recente

romance,

de Vampira? GM-Kaori já vinha nascendo aos poucos, dando as caras aqui e ali em alguns contos como uma

a d o l e s c e n t e j a p o n e s a belíssima, uma garota de

p r o g r a m a

pagamento em sangue. Há cerca de uns quatro anos, comecei a desenvolver uma noveleta com ela, recriando a sua origem e contando como se deu a sua transformação em vampira na Era Tokugawa, no Japão. Mas eu não havia me empenhado

a fundo nisso, até que, em final de 2007,

surgiu o convite, feito pela Giz Editorial, para participar de uma coletânea de

contos

Vampiro”. Eu havia criado uma cena para

o romance “Kaori”, onde a vampira seduz

de vampiros chamada Amor

Kaori: Perfume

q u e

e x i g e

animes, mangás. E era

necessário uma atenção especial para a parte final da trama japonesa, pois esse

marca

também o fim da era dos samurais e o início da ocidentalização do Japão. Mas a

d e

comportamento ocorriam em Edo, a capital, e outras cidades maiores. No meio das montanhas, onde se passa a

história, os hábitos pouco mudavam, ainda mais em se tratando de criaturas sobrenaturais que precisavam se manter ocultas e não conviviam com as pessoas normais. A diferença se nota mais nas atitudes do samurai Kodo, que é, acima de tudo, um homem pragmático, apesar

de

ao seu amo. Pesquisas na

m a i o r p a r t e d a s m u d a n ç a s

período, final do

século

XIX,

um cliente enquanto é observada, na surdina, por outro homem e resolvi, a partir dessa cena, desenvolver a trama do vampwatcher Samuel e o seu encontro

com a vampira Kaori. O conto se chamou “Dragões Tatuados” e fecha a coletânea, que fez bastante sucesso, merecendo uma reimpressão em 2009. Durante a Bienal do Livro de SP, em 2008, numa

conversa com o

Procópio, fechamos a publicação de um romance. E Kaori me pareceu a escolha lógica, pois o conto no “Amor Vampiro” fizera sucesso, e eu já tinha um início promissor para a trama. Foi assim, em poucas palavras, que surgiu “Kaori”.

Ednei

editor da Giz,

ser fiel

internet e em livros especializados me auxiliaram também a descrever detalhes como o tipo da vegetação do cenário, a mudança das estações e a exuberante paisagem das montanhas japonesas. À medida que ia escrevendo a trama, fui

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FANTAZINE JUNHO/2010

ENTREVISTA: GIULIA MOON

complementando as informações,

pesquisando, procurando quem pudesse me auxiliar. Por fim, entre os meus leitores beta, incluí um amigo, Lúcio

Kubo, que é tradutor e também

grande

conhecedor da cultura japonesa para

fazer uma leitura crítica. Ele me

apontou

alguns erros em detalhes de nomes,

costumes e atitudes dos personagens

para “Kaori”. Estou agora mergulhando nesses projetos e pretendo me dedicar a eles durante os próximos meses.

x

FZ – Terminamos agradecendo pela entrevista e pedindo uma dica para autores que querem trilhar o mesmo caminho que você. GM-Bem, acho que todo mundo tem o seu próprio caminho, cada um diferente do outro. Não sei se sou a melhor pessoa para dar uma dica, mas vamos lá. Acho que a melhor coisa a se fazer é ser sempre honesto consigo mesmo. Faça o seu melhor e tenha o sangue frio para enxergar todos os defeitos e qualidades. Depois, multiplique as qualidades e corrija os defeitos. Parece simples, mas não é. Antes de qualquer coisa, pense na qualidade do seu trabalho, tanto na forma quanto no conteúdo. Pense nele como algo que você, se fosse um leitor exigente, gostaria de ler. E que, daqui a dez anos, ainda se orgulharia de mostrar. O resto vem depois!

japoneses

que

foram corrigidos sem

grandes problemas.

cenas

de ação, as minhas pesquisas se

armas

e munições, técnicas de luta e um pouco

de física e química para produzir

ajuda

do escritor e computólogo Roberto Melfra,

sobre

os mais assuntos variados. Contei também com a ajuda dos biólogos e escritores Martha Argel e Humberto Moura, para criar a bióloga Beatriz e Fauna urbana fantástica que ela observa.

a

concentraram mais em detalhes de

Na parte brasileira, que tem mais

explosões, etc. Nessas áreas, tive a

que é uma verdadeira enciclopédia

x

FZ – Você tem algum projeto futuro que gostaria de comentar? Para conhecer mais de GM-Tenho alguns convites para fazer Giulia Moon visite parte de coletâneas e estou escrevendo http://www.giuliamoon.com.br/ mais um livro dentro do universo criado http://phasesdalua.blogspot.com/

TRECHO DE KAORI, PERFUME DE VAMPIRA

p o t . c o m / TRECHO DE KAORI, PERFUME DE VAMPIRA Kaori, na

Kaori, na ilustração de Thiago (T.A.D.)

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Cap. II. - O Temeroso Encontro com a Mulher-Corva (trecho)

x

"(

a menina sentada à sua frente. Ela era ainda mais bonita de perto. Um rosto de criança, a boca pequena e carnuda, os cabelos brilhantes e o corpo

Pequenas e delicadas

como uma pintura. Esta garota não era uma roceira qualquer. Era uma fina boneca, digna dos clientes mais exigentes. A sua iniciação como oiran seria tardia, pois a maioria das cortesãs iniciava o aprendizado com cinco anos. Mas a mama-san estava convicta de que valia a pena possuir a jovem filha

de Gombei.

x

Kaori examinava sutilmente cada detalhe da madama do Kim-Dama-Ya. Ali estava uma mulher muito bela, mas que falava alto com a voz estridente. Palavras ocas. Mentiras. Subterfúgios. Uma fachada barulhenta que ocultava intenções escusas. Uma corva agourenta e traiçoeira. Entendia as razões que fizeram seu pai se indispor com ela. Mas não pretendia se esquecer das suas próprias razões, que a levaram até ali, arriscando tudo numa jogada decisiva. Curvou-se numa profunda reverência, tocando a testa no tatami, e disse: ”

esguio. E as mãos! Mãos abençoadas pelos deuses

Num dos aposentos do Kim-Dama-Ya, Missora olhava com cobiça para

)

CONTOS

Os Bandeirantes do Conservatório

Adriana Rodrigues

A floresta era sombria, talvez pelo grande número de árvores, todas muito próximas umas das outras. A Natureza luxuriante pedia para ser desbravada.

Em uma clareira dessa floresta, o bravo bandeirante, incapaz de se mover, lança seu

brado

“SOCORROOOO!”

“Que gritaria é essa, Derek?”

Quando Strix ia visitar o Conservatório, Diego juntava suas revistas em quadrinhos

e se trancava no banheiro. Daquela vez, porém, os gritos de Derek acabaram por despertar

sua curiosidade. Afinal, o garoto agüentava calado todas as torturas

brincadeiras

ou melhor,

a que Strix o submetia.

Aparentemente, daquela vez, a loirinha tinha se superado. Derek estava amarrado dos pés à cabeça ao encosto de uma cadeira da sala de estar, de pé e sem conseguir se mexer.

“Ah, Diego, é você

Pode me soltar?”

“Ora, tenha dignidade! Você é um vampiro, arrebente as cordas.”

“São aquelas cordas mágicas, que anulam poderes.”

“Onde a Strix consegue essas coisas?”

“Sei lá.”

“Mas

Por que ela amarrou você?”

“Foi o seguinte: estamos brincando de bandeirantes que procuram esmeraldas em Minas Gerais. A Strix é o Fernão Dias e eu sou o filho dele. Estávamos explorando a floresta, caçando, procurando esmeraldas e tal. Então, de repente, a Strix disse que tinha ouvido um ruído estranho e entrou por uma das salas de aula. Esperei um pouco. Quando fui olhar o que tinha acontecido, ela saiu de lá toda pelada, com o rosto pintado e uma corda na mão. Estava gritando que era uma tupinambá ou algo parecido. Isso não me

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FANTAZINE JUNHO/2010

CONTOS

cheirou bem. Tentei correr, mas ela me laçou pelo pescoço e me derrubou. Me puxou até aqui e me amarrou no encosto da cadeira. Como se não bastasse, começou a dançar em volta da cadeira, falando que ia me cozinhar. Depois, disse que ia buscar umas ervas na floresta e sumiu. Isso já faz um tempo, por isso, comecei a gritar.”

“Essa garota tem sérios problemas

E que nó é esse?”

Intrigado com o modo como a corda estava cruzada, Diego puxou uma das pontas do nó. Imediatamente, Derek soltou um gemido.

“Você apertou mais!”

“Tô fazendo o que posso! Nunca vi um nó doido desse!”

“SOLTE MEU FILHO, SELVAGEM MALDITO!”

Diego e Derek levaram um susto. Strix surgira na porta da sala, apontando uma arma de água para Diego. Pelo menos, pensou o garoto, estava completamente vestida. Usava um chapéu e dois cintos masculinos cruzados no peito, imitando cartucheiras.

“Você ficou doida, menina?!”

“BANG!”

Ao “bang” se seguiu um esguicho da arma. Diego sentiu uma ardência ao ser atingido e um cheiro esquisito, que parecia ser

“Alho?! Strix, você sabe que eu sou alérgico a essa porcaria

“Estou dizendo para se afastar do garoto, ou vai comer chumbo da minha escopeta! Bang! Bang! Bang!”

Enquanto dava novos esguichos de água com tempero, Strix foi se aproximando de Diego, que saiu correndo pela porta, tentando se desviar das rajadas. Seu rosto, que recebera a primeira carga, já estava vermelho.

“Vou contar para o seu pai!”

“Isso! Fuja, pagão dos demônios!”, ela ergueu os punhos para ele. Vendo que sumia no corredor, virou-se sorridente para Derek. “Está livre, meu filho.”

Ela apenas puxou uma ponta da corda e o nó se desfez imediatamente, libertando o garoto.

“Como você fez isso?!”

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FANTAZINE JUNHO/2010

CONTOS

“É o nó do salteador, lembra? Um dos nós de escoteiro que o Lucius ensinou pra gente. Alôô? Uma ponta aperta o nó e a outra o desfaz, é fácil. Quer que eu demonstre?”

“Já demonstrou, obrigado.”

“Então vamos continuar a bandeira? Vou pegar essa corda, pode nos ser útil se os selvagens atacarem de novo.”

Strix enrolou a corda e pendurou no ombro. Saíram andando pelos corredores sombrios do Conservatório, examinando o chão à procura de “esmeraldas”. Derek estava muito pensativo. Em certo instante, tomou coragem e abordou a irmã.

“Strix

Digo

Papai

“Claro. O que é?”

Me responde uma coisa.”

“Enquanto eu estava amarrado, lembrei do que a professora falou a respeito de

Fernão Dias não foi aquele cara que

bandeiras e bandeirantes e fiquei com uma dúvida

enforcou o próprio filho, por ter feito parte de uma rebelião da tropa?”

Strix olhou para ele, para a corda no ombro, e a atirou para o lado com um sorriso amarelo.

“Estraga-prazeres!”

Adriana Rodrigues é escritora amadora e graduanda de Química nas horas vagas. Participou das antologias “Pacto de Monstros” (2009) e “Paradigmas 4” (2010). Mantém o blog de tirinhas Bram & Vlad, e deseja espalhar um pouco mais de bom humor pela face da Terra.

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FANTAZINE JUNHO/2010

CONTOS

Espada de Madeira e Lágrimas

Rita Maria Felix da Silva

O cinema e a literatura de ficção ajudaram a perpetuar o mito de que um vampiro,

ao morrer, dissolve-se em fumaça ou pó. Se assim fosse verdade, naquela noite de janeiro,

Dona Etelvina não estaria enterrando seu filho, Diogo, num subterrâneo secreto na periferia de Belo Horizonte, uma das cinco cidades tidas como sagradas pela espécie vampírica.

Devido à fama de seu marido, Alexandre, morto há uma década, ao funeral de Diogo compareceram vampiros importantes de todo o mundo. Entre eles, ela podia ver Argus Angelopoulos, da Ilha de Náxos, Grécia.

— Etelvina, venho, em nome do Comitê Europeu de Vampiros, apresentar nossos pêsames. Lamentamos muito sua perda — disse Argus.

— Eu agradeço. — ela respondeu e ofereceu a ele a taça de sangue da qual bebera

todos os presentes, um ritual comum em sepultamentos vampíricos. — Sei que ainda

me odeia por eu ter escolhido Alexandre e não você. Não pensei que viria.

Argus, após provar da taça, devolveu-a a Etelvina:

— Meus sentimentos não importam nesse caso. Estou aqui como representante

Se as coisas tivessem sido

oficial do Comitê. Eu

Eu me solidarizo com sua perda

diferentes, esse rapaz, que estamos enterrando hoje, seria meu filho.

Dos olhos dela escaparam lágrimas. Argus abraçou-a, procurando consolá-la.

— Desculpe-me, eu devia agir com mais dignidade — explicou ela.

Afinal, sou a anfitriã hoje e

Não cobre demais de si mesma, — aconselhou Angelopoulos — deseja que eu faça

a elegia?

Sim, eu agradeceria.

O

esquife foi baixado no túmulo. Argus pediu licença a todos e entoou um discurso

de cinco minutos, em linguagem vampírica, um dialeto não conhecido por humanos e derivado do Latim, Grego e Hebraico. As palavras, belas e profundas, fizeram Etelvina chorar ainda mais. Ao fim, a sepultura foi fechada e todos começaram a se despedir.

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FANTAZINE JUNHO/2010

CONTOS

— Se desejar, posso acompanhá-la até em casa — ofereceu-se Argus.

Ela não teve forças para recusar.

De carro, os dois foram ao centro de Belo Horizonte, até o Edifício Junampandi, onde Etelvina morava.

— Por favor, — disse a vampira — fique um pouco, quero conversar com alguém, senão acho que enlouqueço.

Argus sentou no sofá e Etelvina numa poltrona perto. Ela colocou a bolsa numa mesinha ao lado, mas antes tirou de lá e acendeu um cigarro.

— Embora sejamos imunes às doenças da humanidade, — interferiu Argus — Esse ainda é um hábito terrível deles, você não devia

— Isso aqui pode até ser deselegante, mas acabo de enterrar meu filho, não estou

nem aí para a elegância. Eu havia parado de fumar há cinco anos. Comecei logo depois que Alexandre

— Alexandre

Seu marido

Foi um grande exemplo para nossa espécie. Um herói.

Não é a toa que você o escolheu ao invés de mim, que sou apenas um burocrata.

— Meu marido morreu naquela emboscada feitas por caçadores de vampiro em

Gênova. Que mundo injusto é esse em que heróis morrem, mas burocratas continuam vivos? — ela sorriu de forma amarga.

Uma onda de indignação e revolta percorreu o rosto de Argus, mas, ele se controlou e apenas disse:

— Eu

Entendo que esteja abalada por ter perdido seu filho e de modo tão trágico,

por isso vou relevar o que disse. Se deseja que eu vá embora

— ela disse e olhou para ele com olhos em que caberia

toda a tristeza do mundo — Perder Alexandre quase me matou, agora Diogo morrer dessa

forma

— Não, não, desculpe-me

Acho que isso está me enlouquecendo. Perdoe-me.

— Tudo bem. Fico só imaginando como você está se sentido. Um modo tão horrível

de morrer. Suicídio. Isso é um tabu entre os humanos, mas para um de nós, é quase Inconcebível.

— Sim. Diogo atravessou o próprio coração com uma espada de madeira. Coisa estúpida! Não entendo porque fez isso.

Argus ponderou as palavras que deveria usar:

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FANTAZINE JUNHO/2010

CONTOS

— Pelo que li, seu filho estudava Magia, não era? Algo bem incomum. Nossa espécie não tem aptidão para as Artes Mágicas.

— Diogo amava o pai mais que todo mundo. Quando Alexandre morreu, meu filho

ficou estranho. Mal falava comigo. O tempo todo enfiado naqueles livros esquisitos. Umas

das poucas vezes que conversamos durante todos esses anos, sabe o que ele disse?

— O que? — indagou Argus.

— “Vou fazer algo importante pela nossa espécie, uma coisa que faria papai se orgulhar de mim para sempre”. Aquilo me pareceu tão anormal que não respondi.

— Analisei tudo o que tínhamos sobre seu filho. Eu não diria que ele era louco

Parecia-me um gênio, mas estava lidando com coisas que nem mesmo entendemos. Ele acreditava numa guerra de nossa espécie contra a humanidade, sabia disso? Dizia que ia ser logo, que cedo ou tarde, seríamos expostos ao mundo e que precisávamos de uma vantagem contra os humanos.

Gênio

?

— acrescentou amargamente Etelvina — O cérebro de meu menino

derreteu quando o pai dele se foi. Só isso. Não ia fazer nada de grande pelo nosso povo, estava só se enganando com toda aquela maluquice sobre Magia.

Se entendi bem, ele acreditava no que estava fazendo. Realmente

tinha esperança de chegar a algo bem significativo

Praticamente incompreensíveis e olhe que temos alguns dos melhores especialistas

trabalhando nisso e não deduziram muita coisa, exceto puro e simplesmente.

Como te falo isso? Não foi suicídio

— Eu não sei

Porém, as anotações dele

— Como assim, Argus? Diogo se matou. Se não foi isso, o que foi?

— Um ritual. — explicou o grego — Ou melhor, a conclusão de um bem complexo,

cujo ápice era o sacrifício de um vampiro. Não sei e nem posso imaginar o que Diogo queria

com essa cerimônia, mas ele se matou para completá-la.

— Um ritual

— balbuciou Etelvina — Meu filho era realmente louco ou

for, acha que ele conseguiu o que queria?

Argus suspirou:

Seja o que

— Não. Estamos falando de Magia. A maior parte dos humanos e quase a totalidade

de nós não acredita nessas coisas. De qualquer modo, fosse o que fosse, temo que jamais

saibamos quais eram as intenções dele

— Perdoe-me, Etel, tenho que ir, preciso fazer os preparativos para voltar a Grécia amanhã.

— ficou em silêncio por um instante, levantou-se

Etel

— ela disse, pôs os restos do cigarro num cinzeiro e também se levantou —

Você não me chama assim há

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FANTAZINE JUNHO/2010

CONTOS

— Há bastante tempo, eu acho.

— Por favor, — ela suplicou, aproximou-se dele e segurou-lhe a mão — fique aqui

esta noite, amanhã quando o sol se puser você vai. Eu perdi tudo que amava, não quero

ficar sozinha

Argus nada disse e ficou no apartamento de Etelvina, que, semelhante a qualquer moradia da sua espécie, era perfeitamente lacrado contra a luz do sol.

Futuramente, ela justificaria para si mesma que estava muito abalada pela morte do filho, só assim teria se permitido a algo desse tipo logo após o funeral. Etelvina e Argus dormiram juntos e, enquanto faziam amor, a vampira se lembrava de Alexandre e de que já se passavam dez anos desde que ela permitira a alguém tocá-la. Antes de adormecer, uma parte dela, mais curiosa que as outras, indagou-se o que realmente Diogo pretendia fazer. Ignorou isso. Argus tinham razão: certamente nunca saberiam.

Mas, eram 08h00min da manhã mais magnífica que já se viu, quando ela e Argus acordaram. Ambos, sem saber por que, fizeram como os outros vampiros por todas as

partes do mundo onde o dia brilhava naquele momento: não resistiram ao impulso e saíram às ruas, sob a luz solar e expostos aos terríveis raios que deveriam queimá-los até as cinzas. Porém, nada lhes aconteciam. Felizes como crianças, vampiros de todos os lugares abraçaram-se sob aquela estrela que haviam temido por milênios. Não mais. Agora

e para sempre eram imunes ao Sol.

Dona Etelvina sorriu e compreendeu que a dádiva de Diogo, pela qual ele sacrificara

a vida, havia se tornado realidade.

FIM

Dedicado a Camila Fernandes

Rita Maria Félix da Silva é professora de Química, Física e Matemática. Já teve contos publicados na Scarium e nos fanzines Elefante Bu e na revista grega Universe Pathways.

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FANTAZINE JUNHO/2010

CONTOS

"O lado mais escuro de tua alma"

Cenildon Muradi Jr.

Os sons chegavam até Paulo através da escuridão.

Já não suportava mais permanecer naquele estado, dominado pelas trevas e podendo apenas contar com quatro dos cinco sentidos para perceber o mundo a sua volta.

Vozes murmurantes misturadas ao som de passos discretos e o tilintar de objetos metálicos se espalhavam pelo ambiente. E o cheiro. Sabia que aquele odor nauseante de amoníaco, éter e sangue ficaria marcado para sempre como uma queimadura na sua memória olfativa, recordando-o daqueles quinze dias que passara recuperando-se do transplante de córnea no hospital de olhos de São Paulo.

“Queratocone. Sinto muito, mas sua carreira de boxeador acabou.”, havia dito o médico um ano atrás.

Ao que tudo indicava a predisposição à doença havia sido acelerada pelos repetidos golpes do violento esporte. Se levasse uma vida normal, sentiria os primeiros sintomas apenas na velhice, mas a realidade era que tinha apenas dezenove anos e já estava cego como um morcego.

Seu pai, influente, havia providenciado para que não tivesse que ficar muito tempo na fila de espera do transplante. Após alguns contatos e subornos, a operação se realizou apenas um ano após o diagnóstico.

Dali a alguns instantes iria retirar as ataduras e descobrir se havia recuperado a visão. Os médicos estavam otimistas, pois a cirurgia havia sido perfeita e ao que tudo indicava Paulo recuperaria totalmente a visão. Entretanto, nem essas boas notícias o animavam, pois sabia que mesmo a nova visão não o colocaria de volta no ringue. A federação nunca permitiria que ele, um transplantado, lutasse novamente.

– Paulo, vou cortar suas ataduras agora, tudo bem? – perguntou a enfermeira.

Ele apenas assentiu com a cabeça. Enquanto sentia o gentil toque da mulher livrando-o dos curativos, pensava no que faria daquele dia em diante. O boxe era sua vida e não sabia fazer outra coisa. Ficou imaginando seu futuro gerenciando uma das fábricas de seu pai.

– Pronto. Quando estiver preparado, pode abrir os olhos. – pediu a jovem.

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CONTOS

As vozes ao redor calaram-se num incômodo suspense.

Por um momento sentiu muito medo de abrir os olhos e ver apenas escuridão. Percebeu que apesar de não poder mais lutar, não conseguiria evitar a felicidade de enxergar novamente. Soube naquele momento que tinha mais medo de permanecer cego do que de nunca mais poder lutar. Abriu os olhos.

Instantaneamente uma luz branca o ofuscou de uma maneira tão voraz que seus olhos queimaram. Era como olhar diretamente para mil sóis. Rapidamente fechou os olhos e gritou:

– Por favor! Apaguem essa luz!

Alguns momentos de silêncio se fizeram antes de haver uma resposta, tornando óbvio o fato de que alguma coisa havia saído muito errado.

– Mas Paulo, as luzes já estão todas apagadas…

No dia seguinte já havia voltado para sua casa. Não havia mais motivo para permanecer no hospital, pelo menos não até que os médicos descobrissem o que havia acontecido com os seus olhos. Eles não quiseram admitir, mas até Paulo conseguiu perceber, pela insegurança em suas vozes, que eles não faziam idéia do que estava acontecendo.

Estava cansado, mas não conseguia dormir. Só pensava que ficaria cego para o resto de sua vida.

Tocou as ataduras em seus olhos e de repente foi tomado por um maremoto de emoções confusas. Em desespero quis tirar aquelas bandagens. Não aguentava mais aquilo. Em meio a arranhões e com a respiração ofegante, rasgou as ataduras retirando-as com violência do rosto até não restar nenhuma.

Quis abrir os olhos, mas o temor de sofrer um daquela luz torturante não permitia que ele movesse as pálpebras. Mas era um lutador, pensou. Nunca temera um adversário e não seria agora que começaria a viver sua vida com medo. Os olhos se abriram e a luz branca tornou a massacrá-los. Ele gritou e se contorceu na cama. O esforço era tamanho que o suor lhe brotava por todo corpo, ensopando os lençóis, mas ele não fechou os olhos. Estava determinado a vencer aquele oponente.

Então algo aconteceu.

Lentamente a intensidade daquele brilho insuportável foi diminuindo e, com ele, a dor lancinante que sentia. Aos poucos aquela cegueira branca foi dando lugar a uma luz vermelha e morna, quase laranja e, como num milagre, ele percebeu que estava enxergando novamente.

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CONTOS

Olhou ao redor e contemplou seu quarto sob um novo olhar. Sabia que a luz estava apagada, mas mesmo assim ele podia ver tudo que ali estava.

Estava enxergando normalmente na mais completa escuridão. Na verdade podia enxergar melhor do que nunca. Mesmo os pequenos detalhes dos objetos na estante do outro lado do quarto não passaram despercebidos ao seu olhar.

Estava muito eufórico para permanecer parado, então saiu às pressas do quarto. Antes que pensasse no que estava fazendo já havia ganhado as ruas e só percebera que estava descalço e vestia apenas a calça do pijama quando não mais reconheceu as vizinhanças. Porém, não se importou. Estava enfeitiçado por aquela nova visão.

Conseguia ver os pequenos animais que se esgueiravam pelos cantos da cidade como se fosse um documentário de televisão. No fundo de um beco escuro, um mendigo o encarava. Toda a cidade brilhava ao seu redor com uma gama de cores vivas e radiantes, um espetáculo que ele não se cansou de assistir até sentir um toque áspero em seu ombro.

- Olha aí o filhinho de papai todo assustado! Tá perdido preibói? Vai tê que pagá um

pedágio pra nóis se quisé sair adando, figura! – disse o maior dos três homens que o cercavam.

- Não tenho nada. Não quero confusão. – disse Paulo tentando cruzar o cerco sem encarar os marginais.

- Se não tem grana, vai pagá com sangue!

A ameaça veio acompanhada de um soco que mirava o rosto de Paulo.

Foi então que ele percebeu como aquela visão que ele recebera do destino era mais especial do que podia imaginar, pois ele pôde acompanhar aquele golpe que se dirigia a ele como se estivesse em câmera lenta. O novo olhar lhe permitiu esquivar-se do ataque com a mesma facilidade que um falcão captura um filhote de codorna.

Da mesma maneira, esquivou-se do segundo golpe, do terceiro, do quarto e de todos os outros que o marginal tentou lhe atingir. Um sorriso estava estampado em seu rosto. Nem precisou reagir aos ataques, pois os assaltantes perceberem que aquela não era uma vítima indefesa e fugiram sem olhar para trás.

Mas ele queria mais. Depois de tanto tempo parado, havia sentido novamente o prazer de um combate. Ele tinha que lutar. Tinha que lutar com aqueles novos olhos e sabia de um lugar onde conseguiria um adversário.

Não demorou muito para o amigo o encontrar no telefone público do qual ligara.

- Paulo! Cara, você tá maluco! Você acabou de sair do hospital, tá fazendo o quê… o que aconteceu com os seus olhos! Estão amarelos!

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CONTOS

- Me leva pra Arena, Carlinhos. – ordenou Paulo com determinação.

- Quê? Nem a pau que eu…

- Não era você que sempre me chamou pra lutar lá! Me leva pra lá agora! – esbravejou.

- Cara, você deve estar louco se pensa que eu vou te levar.

- Faz o que eu to pedindo. Você me deve. Hoje você vai assistir a minha volta ao

mundo do boxe. – completou olhando no retrovisor para admirar seus olhos que estavam

amarelos como os de um felino.

A Arena era um clube de lutas clandestinas que funcionava num dos inúmeros

casarões dos Jardins, um dos bairros mais nobres da cidade. Um local onde dois rapazes da alta sociedade paulistana não encontrariam nenhuma dificuldade para entrar.

Apenas uma hora depois de se encontrar com o amigo, Paulo já estava prestes a começar sua luta dentro da piscina vazia usada como arena de batalha.

Sua primeira luta durou pouco mais de dez segundos, pois com um movimento de pêndulo perfeito ele evitou o primeiro ataque do oponente e então usou sua visão inumana para desferir um cruzado fatal diretamente na ponta do queixo do adversário que foi a nocaute no mesmo instante.

Ele se movia com precisão, pois tinha muito tempo para pensar seus movimentos. Entendia perfeitamente as investidas do oponente, o que permitia que encarasse a luta como se fosse um maestro regendo sua orquestra, e assim venceu a segunda luta sem maiores esforços, sob os olhares fanáticos e os gritos alucinados do público.

Foi apenas na terceira luta que percebeu algo diferente acontecendo. Paulo sempre gostara de lutar, mas estava sentido um prazer diferente. Era como se aquele homem na sua frente o enfrentando tivesse deixado de ser um oponente e passasse a ser algo diferente. Algo mais fraco, mais vulnerável. Uma criatura que não podia se defender contra ele. Uma vítima. Uma presa.

Ele não queria mais apenas vencer o homem com quem lutava. Queria apreciar aquele momento, usando sua superioridade para zombar daquele combatente inferior, como um gato brincando com um inseto antes de matá-lo. Deliciava-se a cada golpe que infligia, saboreando cada espasmo de dor em que o rosto do outro se contorcia.

Ele cuidava para que seus golpes apenas minassem as defesas do adversário, sem finalizá-lo. Como um toureiro que aos poucos vai sangrando o touro, Paulo ia maltratando o oponente.

O cheiro de sangue se espalhou pelo ambiente e então sua visão começou a se

aguçar ainda mais. Agora ele não conseguia ver mais nada a não ser aquela figura

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CONTOS

ensanguentada à sua frente.

Foi então que ele percebeu que sua nova visão estava permitindo que ele visse além da carne. Ele podia ver todo o fluxo de sangue do homem a sua frente, como rios de lava brilhando no escuro, correndo pelas veias, espesso e quente. Suculento e irresistivelmente delicioso.

Então algo gutural despertou dentro dele. Um lado primitivo, que ele pensava existir apenas nas estórias de terror, se fez mais forte que sua própria vontade e quando ele se deu conta estava estraçalhando a jugular do oponente com seus dentes. E ele adorou aquele momento.

Quando voltou a si, a primeira coisa que sentiu foi o gosto de sangue na boca. Era doce e cheio de culpa.

Olhou ao redor e viu que o casarão estava vazio, com sinais de destruição por toda parte, como se uma multidão enlouquecida tivesse passado por ali. Aos seus pés, vários corpos ensangüentados, cheios de fraturas expostas, hematomas e marcas de mordida. Ele os reconheceu, eram os seguranças do local. Alguns tentavam se mover com gestos débeis e outros permaneciam totalmente inertes. Entre eles viu o corpo de seu amigo com a cabeça esmagada contra o chão.

Será que foi ele o causador de tudo aquilo? Sentiu um misto de culpa e orgulho.

Olhou para as próprias mãos e notou que estavam cobertas de sangue. Todo seu corpo estava coberto de sangue.

- Você aprontou uma bela confusão por aqui. – disse uma voz as suas costas.

Paulo se virou para deparar-se com um sujeito pálido vestindo uma jaqueta de couro preto

com listras brancas e vermelhas nos braços.

O homem parecia ter saído de lugar nenhum e o encarava de uma maneira profunda,

fazendo-o ter certeza de que ele era o causador de todo aquele massacre.

- Quem é você?

- Acho que você devia perguntar isso a si próprio. Quer dizer, que tipo de pessoa é capaz de fazer algo assim? – questionou o estranho, olhando ao redor.

- Não! Eu não queria… eu não sei… eu não sou uma pessoa má! São esses olhos! Eles são malignos! Eles me fizeram fazer isso!

- Em parte, isso é verdade. Você não devia ter recebido essas córneas, ninguém

devia. Nisso você deu mesmo azar. Mas sabe, dizem que os olhos são o espelho da alma. Mesmo que estes sejam olhos malignos, será que eles tornaram sua alma maligna, ou será que eles apenas foram a janela para libertar um lado seu que até você mesmo

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CONTOS

desconhecia? Um lado obscuro que todas as pessoas possuem, mas preferem ignorar?

- Os olhos! A culpa é dos olhos! – respondeu Paulo, em desespero.

- amaldiçoados, não é mesmo? – completou o estranho, aproximando-se dele.

Bem, nesse caso

você não vai

achar ruim

se

eu

te

livrar desses olhos

Após um breve momento de hesitação, Paulo saltou para longe do homem pálido com seu rosto deformado pelo ódio.

- Nunca! São meus agora! Não importa que eu tenha matado essas pessoas! Para

ficar com esses olhos eu mataria mais mil se precisasse. Não vou deixar que você os tire de mim! Veja o que eu fui capaz de fazer aqui. Eu sou invencível! – esbravejou cheio de ódio.

- E assim se revela o lado mais escuro da tua alma. – retrucou o homem, avançando para cima de Paulo.

Novamente Paulo usou seus olhos para ver os movimentos de seu oponente. Porém o desespero lhe dominou quando percebeu que mesmo podendo acompanhar os movimentos do estranho com seus olhos, seu corpo não conseguia acompanhar sua velocidade, pois aquele que lhe atacava era muitas vezes mais veloz que um homem comum.

O misterioso homem aproximou-se de Paulo e o segurou pela garganta, levantando-

o do chão com apenas uma das mãos.

- Você pode ter os olhos, garoto, mas eu tenho o pacote completo. – completou o

estranho, com os olhos amarelos e um sorriso no rosto lhe deixava aparecer os longos

caninos pontiagudos.

Com um único salto, o estranho de jaqueta preta venceu o alto muro da mansão e sumiu noite adentro levando consigo o dom da visão que Paulo havia recebido do destino, deixando para trás apenas um garoto cego que conheceu e foi engolido pela escuridão da sua própria alma.

A escuridão onde teria que viver até o final de seus dias.

Cenildon Muradi Junior nasceu em 1975 e graduou-se em Design Gráfico pela Unesp de Bauru. Direcionou seus estudos em Design para o campo dos Jogos (tabuleiro, card

game, rpg e jogos digitais) onde atua como ilustrador, animador, diretor de arte e diretor de criação. Atualmente mora na cidade de São Paulo onde trabalha com criação de jogos e toca, paralelamente, outros projetos pessoais, como os livros do Mundo Místico de Hevendor e as tirinhas Cocozitos. Blogs e sites: http://www.ampy.com.br/ http://cenildon.deviantart.com

http://hevendor.com/

http://cocozitos.com/

http://contaconto.wordpress.com/

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Biblioteca Sinopses,SinapseseLivros.
Biblioteca Sinopses,SinapseseLivros.

Biblioteca

Sinopses,SinapseseLivros.

BIBLIOTECA

BIBLIOTECA O Caçador Em um conhecido conto de fadas, a rainha ordena ao caçador que leve

O Caçador

Em um conhecido conto de fadas, a rainha ordena ao caçador que leve sua enteada para a floresta e a mate, trazendo seu coração como prova. Todos sabem o que aconteceu depois,

mas

Partindo dessa pergunta, o livro inventa uma trajetória para o personagem que passa por mil peripécias e participa incidentalmente de vários contos de fadas até encontrar aquele em que irá desempenhar o papel principal.

apenas com a rainha e a princesa. O que teria acontecido com o caçador?

Serviço:

Autora: Ana Lúcia Merege Blog: http://www.estantemagica.blogspot.com/ Ilustrações: Neli Aquino 100 páginas - 14,8x21 cm ISBN: 978-85-7671-112-4 Editora Franco http://www.francoeditora.com.br/

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BIBLIOTECA

BIBLIOTECA Steampunk – Histórias de um passado extraordinário simpatia se for inofensiva, caso contrário, torna-se

Steampunk – Histórias de um passado extraordinário

simpatia se for inofensiva, caso contrário, torna-se uma maldição. Roberto Causo transporta o leitor para uma viagem repleta de escaramuças pelas selvas de nosso país, mas não entre as árvores, mas acima delas, mostrando Santos Dummont de uma forma inusitada. Claudio Villa arremessa o leitor para o mar, singrando suas águas acima e abaixo, em busca de um tesouro que leva o leitor aos ares do terror lovecraftiano. Jacques Barcia nos dá um conto “estranho”, unindo o drama da guerra, máquinas quase humanas e seres inacreditáveis da mitologia em um caldo que realmente proporciona uma nova criação. Romeu Martins transporta o leitor para um ambiente de faroeste a brasileira, com o clima típico desse estilo de folhetim, mas com heróis e bandidos extremamente vaporosos.

perigosas: a medicina. E Flávio Medeiros encerra as páginas da obra com

com ambições até mesmo maiores e mais

maquinidade. Antônio Luiz rompe as amarras do metal, trabalhando avanços em outra área de estudo,

sociedade

uma visão fascinante de um futuro onde a

primorosa do complexo de Frankenstein, com

Fábio Fernandes apresentou uma

Steampunk é um gênero narrativo muito bem definido, é difícil conseguir variações que ainda assim mantenham a linha necessária para agradar tanto aos leigos como aos puristas. Gianpaolo Celli trouxe uma história clássica, com referências históricas reais misturadas com ação e intrigas, envolvendo sociedades secretas e o prelúdio do que se tornou a guerra Franco-Prussiana.

adaptação

divide seu espaço com a

Alexandre Lancaster cedeu uma narrativa com ares de ficção científica, onde a ciência aponta que somente pode ser vista com

chave de ouro, mostrando os clássicos dirigíveis e submergíveis em um drama de honra que certamente agradará muito aos apreciadores do gênero.

Serviço:

Autoria: Vários Autores – Org. Gianpaolo Celli - ISBN: 978-85-61541-14-9 Páginas: 184 - Formato: 14×21cm - Ano: 2009 - http://tarjaeditorial.com.br

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Perfil

Literário (I)

personagem

Perfil Literário (I) personagem autor (a) “Arioch! Arioch! Sangue e almas para meu senhor Arioch!” (Tradicional

autor (a)

“Arioch! Arioch! Sangue e almas para meu senhor Arioch!” (Tradicional grito de guerra de Elric. Arioch é o demônio patrono desse herói, bem como de seu povo, os melniboneanos)

Elric de Melniboné

Elric é um anti-herói trágico e consciencioso, um feiticeiro albino de constituição fraca,

ú l t i m o

moribundo Império de Melniboné e o infeliz portador de Stormbringer - também chamada de Espada Negra ou Devoradora de Almas - uma

arma sapiente que se alimenta (e a Elric) das almas

daqueles que morrem por sua lâmina. Elric foi criado pelo escritor britânico Michael Moorcock como uma paródia aos clichês

de fantasia vigentes na época,

particularmente uma resposta

ao Senhor dos Anéis (de J.R.R.

Tolkien) e Conan, o Cimério

(de Robert E. Howard), duas

obras cujos autores Moorcock desgosta.

A primeira aparição de Elric

ocorreu na novela “The Dreaming City”, publicada em Science Fantasy # 47, de J u n h o / 1 9 6 1 . N ove l a s posteriores foram reunidas no livro Stormbringer (1975) e, em 1973, foi lançado Elric of Melniboné. Outros livros seguiram-se a esses e o personagem acabou se tornando a mais famosa das criações de Michael Moorcock.

s o b e r a n o d o

No Brasil, de Elric foram apenas publicados a minissérie em quadrinhos “Navegante dos Mares do Destino” (adaptação do livro “The Sailor on the Seas of Fate”) a Graphic Novel “A Cidade dos Sonhos” e um encontro do personagem com Conan, o Bárbaro, na saudosa revista Super-Aventuras Marvel. Em Portugal, Stormbringer foi publicada como “A Espada Diabólica”. Saiba mais em http://en.wikipedia.org/wiki/Elric

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Perfil

Literário (II)

Perfil Literário (II) personagem X autor (a) James Morrow (JamesKennethMorrow,nascidonaPennsylvaniaem1947) J ames

personagem

X
X

autor (a)

James Morrow

Literário (II) personagem X autor (a) James Morrow (JamesKennethMorrow,nascidonaPennsylvaniaem1947) J ames
Literário (II) personagem X autor (a) James Morrow (JamesKennethMorrow,nascidonaPennsylvaniaem1947) J ames

(JamesKennethMorrow,nascidonaPennsylvaniaem1947)

James Morrow se define como um “humanista científico”, enquanto a crítica especializada rotulá-o de “autor de ficção”. Suas obras satirizam tanto a religião quanto o ateísmo. Seus livros mais conhecidos são aqueles que compõem a trilogia Godhead: Towing Jehovah (1994), Blameless in Abaddon (1996) e The Eternal Footman (1999)

Towing Jehovah, o cadáver gigante de Deus é encontrado

flutuando no Oceano Atlântico e o capitão de um superpetroleiro é incumbido secretamente pelo Vaticano de rebocar o corpo até uma tumba no Ártico, mas um complicador aparece quando um grupo de ateus extremistas planeja atacar e destruir o cadáver. Blameless in Abaddon, a continuação, lida sobre um magistrado que decide colocar Deus em julgamento por crimes contra a humanidade. Figuras bíblicas, como Jesus e o Demônio, aparecem no livro, e o advogado de defesa de Deus é uma paródia de C.S. Lewis (o autor de Crônicas de Nárnia). The Eternal Footman tem como enredo uma epidemia de “percepção da morte” que assola o mundo, agora que Deus está morto. Fora dessa trilogia, mas também lidando com temas religiosos, Morrow lançou em 1990 Only Begotten Daughter, que trata do nascimento da irmã de Jesus, a filha de Deus, no mundo moderno.

Em

Outras obras de Morrow: City of Truth (1990), que trata de uma cidade distópica onde todos só dizem a verdade literal, até que um pai precisa reaprender a mentir como a única forma de salvar a vida de seu filho; e Shambling Towards Hiroshima, que satiriza os filmes de monstros gigantes japoneses: no final da Segunda Guerra Mundial, Syms Thorley, um ator americano de filmes B, é contrato por seu governo para, dentro de um roupa de borracha, interpretar o terrível “Gogartis” que destrói uma miniatura de Tóquio num filme. A idéia dos americanos é assustar os japoneses e fazê-los se render, caso contrário soltarão em terras nipônicas sua mais recente arma biológica: iguanas gigantes, mutantes e cuspidores de fogo!

Saiba mais em:

http://en.wikipedia.org/wiki/James_Morrow

http://www.jamesmorrow.net/

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FANTAZINE JUNHO/2010

SONHOS, TERRORES DESLUMBRAMENTO

ACEITE O CONVITE PARA O Nº 02 DE

SONHOS, TERRORES DESLUMBRAMENTO ACEITE O CONVITE PARA O Nº 02 DE “FANTAZINE: CELEBRANDO A IMAGINAÇÃO” BREVE
SONHOS, TERRORES DESLUMBRAMENTO ACEITE O CONVITE PARA O Nº 02 DE “FANTAZINE: CELEBRANDO A IMAGINAÇÃO” BREVE

“FANTAZINE:

CELEBRANDO A IMAGINAÇÃO”

BREVE