Sei sulla pagina 1di 191
egurança pública idadania
egurança pública idadania

egurança pública

egurança pública idadania

idadania

egurança pública idadania





Copyright 2008 - ANP

  Copyright  2008 - ANP Revista Brasileira de Segurança Pública & Cidadania Revista da

Revista Brasileira de Segurança Pública & Cidadania Revista da Academia Nacional de Polícia (ANP) Brasília, v. 4, n. 2, p. 1 - 189, jul./dez. 2011. ISSN 1983-1927

Editor rEsponsávEl

Guilherme Henrique Braga de Miranda

Comissão Editorial

Guilherme Henrique Braga de Miranda, Célio Jacinto dos Santos, Eliomar da Silva Pereira, Emerson Silva Barbosa, Gilson Matilde Diana, Manuela Vieira de Freitas, André de Almeida Oliveira.

ConsElho Editorial

Adriano Mendes Barbosa (ANP), Carlos Roberto Bacila (UFPR, PCPR), Cláudio Araújo Reis (UnB), Fábio Scliar (DPF), Fernando de Jesus Souza (Perito Criminal), Guilherme Cunha Werner (DPF), Guilherme Henrique Braga de Miranda (ANP), Helvio Pereira Peixoto (DPF), Jander Maurício Brum (Juiz - TJMG), José Pedro Zaccariot- to (UNIP, PCSP), José Roberto Sagrado da Hora (DPF), Manuel Monteiro Guedes Valente (PSP - Portugal), Marcello Diniz Cordeiro (DPF), Mirânjela Maria Batista Leite (DPF), Nelson Gonçalves de Sousa (PMDF), Rodrigo Carneiro Gomes (DPF), Wagner Eduardo Vasconcelos (MPES).

vvvvv

Ministério da Justiça Ministro: José Eduardo Cardozo

Departamento de Polícia Federal Diretor-Geral: Leandro Daiello Coimbra

Diretoria de Gestão de Pessoal Diretor: Maurício Leite Valeixo

Academia Nacional de Polícia Diretor: Disney Rosseti

Célio Jacinto dos Santos Coordenador da CESP

vvvvv

ISSN 1983-1927

ISSN 1983-1927 egurança pública idadania Segurança Pública & Cidadania, v. 4, n. 2, jul/dez 2011.
ISSN 1983-1927 egurança pública idadania Segurança Pública & Cidadania, v. 4, n. 2, jul/dez 2011.

egurança pública

ISSN 1983-1927 egurança pública idadania Segurança Pública & Cidadania, v. 4, n. 2, jul/dez 2011.

idadania

ISSN 1983-1927 egurança pública idadania Segurança Pública & Cidadania, v. 4, n. 2, jul/dez 2011.

Segurança Pública & Cidadania, v. 4, n. 2, jul/dez 2011.





Copyright 2008- ANP

  Copyright  2008- ANP Revista Brasileira de Segurança Pública & Cidadania Revista da Academia

Revista Brasileira de Segurança Pública & Cidadania Revista da Academia Nacional de Polícia (ANP) Brasília, v. 4, n. 2, p. 1 - 189, jul./dez. 2011. ISSN 1983-1927

Os conceitos e idéias emitidos em artigos assinados são de inteira responsabilidade dos autores, não representando, neces- sariamente, a opinião da revista ou da Academia Nacional de Polícia.

Todos os direitos reservados

Nos termos da Lei que resguarda os direitos autorais (de acordo com a Lei nº 9.610 de 19 de fevereiro de 1998 - Lei dos Direitos Autorais), será permitida a reprodução parcial dos artigos da revista, sempre que for citada a fonte.

vvvvv

Correspondência Editorial Revista Segurança Pública & Cidadania Rodovia DF 001 - Estrada Parque do Contorno, Km 2 Setor Habitacional Taquari, Lago Norte-DF CEP - 71559-900 - Brasília-DF E-mail: revistacaesp.anp@dpf.gov.br

Publicação Semestral Tiragem: 1000 exemplares Projeto Gráfico e Capa: Gilson Matilde Diana e Gleydiston Rocha Editoração: Guilherme Henrique Braga de Miranda

vvvvv

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Biblioteca da Academia Nacional de Polícia

351.759.6 Segurança Pública & Cidadania - Revista Brasileira de Segurança Pública e Cidadania/Acade-

R 454

mia Nacional de Polícia. - v. 1, n. 1, 2008 -

v. 4, n. 2, jul./dez. 2011.

189p.

. Brasília: Academia Nacional de Polícia,

ISSN 1983-1927 Semestral 1. Segurança Pública - Periódico. 2. Cidadania. I. Brasil. Ministério da Justiça. Departamento de Polícia Federal. Academia Nacional de Polícia.

SUMÁRIO

ARTIGOS

ARTIGOS

Ética Policial

13

Renan Marçal Rodrigues

Missões Policiais e a Polícia Federal Brasileira

43

Altair Aparecido Galvão Filho

O Delegado de Polícia no Sistema Jurídico Brasileiro: das origens inquisitoriais ao garantismo

penal de Ferrajoli

77

Franco Perazzoni

O Inquérito Policial como Instrumento de Segurança Jurídica: um olhar sobre suas características

e finalidades

111

Anderson de Souza Daura e Carlos César Pereira de Melo

O Inquérito Policial como Instrumento Democrático de Investigação: análise da estrutura da

investigação criminal em dez países da América do

141

Polícia: segurança pública e

Nelson Edilberto Cerqueira

167

Lenimar Alves de Oliveira

ARTICLES CONTENTS Police Ethics 13   Renan Marçal Rodrigues Police Tasks and Brazilian Federal Police

ARTICLES

CONTENTS

Police

Ethics

13

 

Renan Marçal Rodrigues

Police Tasks and Brazilian Federal Police

43

Altair Aparecido Galvão Filho

The "Delegado de Polícia" and the Brazilian Criminal Justice: from inquisitorialism to the criminal garantism of Ferrajoli

77

Franco Perazzoni

111

Police Inquiry as an Instrument of Legal Safety: a look at its characteristics and purposes

Anderson de Souza Daura e Carlos César Pereira de Melo

"Inquérito Policial" as an Instrument for Democracy Investigation: structural analysis of the crimi-

nal investigation in ten countries in South America

141

Police: public security and citizenship

Nelson Edilberto Cerqueira

167

Lenimar Alves de Oliveira

Editorial

Este segundo número do quarto volume da revista Segurança Pública e Cidadania, referente ao segundo semestre de 2011, é quase um número especial, pois foi integralmente confeccionado a partir de alguns dos melhores artigos científicos produzidos durante o I Curso de Especialização em Ciências Policiais e Investigação Criminal da Acade- mia Nacional de Polícia, no período de 2010/2011. Assim, desta vez, as reflexões trazidas são resultantes do esforço de difusão da Ciência Poli- cial realizado na ANP, no ambiente da sua Escola Superior de Polícia.

Desta forma, a argumentação consistente e o desenvolvimento coerente dos trabalhos apresentados marcam as páginas seguintes, des- tacando temas e autores e indicando um futuro promissor para essa pri- meira geração de especialistas em Ciências Policiais, já nesses primeiros passos trilhados no caminho do conhecimento.

São seis artigos que tratam de diversos temas relacionados à Segu- rança Pública, como a ética policial, a investigação, a função do Delegado de Polícia e do inquérito policial, entre outros. A exposição trazida pelos autores traz combustível para a chama do saber, estimulando a discussão saudável e o debate de alto nível, tão necessários e adequados ao cresci- mento do conhecimento científico.

O primeiro artigo publicado é intitulado Ética Policial, de autoria de Renan Marçal Rodrigues, e aborda questão fundamental na atividade policial, dando ênfase à importância do respeito à dignidade da pessoa humana, aos direitos humanos e aos direitos e garantias individuais na investigação crimi- nal que deve primar pela busca da verdade. O autor destaca os fundamentos e virtudes essenciais que norteiam a atividade profissional numa sociedade democrática, conforme os pressupostos da ética policial, ressaltando que o importante é que o processo judicial reproduza o panorama fático apurado na investigação criminal, demonstrando a lisura do trabalho policial.

apurado na investigação criminal, demonstrando a lisura do trabalho policial. Brasília, v. 4, n. 2, jul./dez.

Brasília, v. 4, n. 2, jul./dez. 2011.

9

No artigo seguinte, cujo título é Missões Policiais e a Polícia Federal Bra- sileira, Altair Aparecido Galvão Filho expõe a classificação doutrinária das missões policiais (judiciária, segurança, ordem e inteligência), analisando a definição dos papéis e o enquadramento das atividades da Polícia Federal e outras polícias brasileiras à luz da Carta Magna. O autor conclui que, levan- do-se em conta a grande extensão territorial brasileira e a abrangência das atividades policiais e administrativas da Polícia Federal, pode-se considerar que essa organização atua em toda a gama de missões policiais.

O terceiro artigo publicado, O Delegado de Polícia no Sistema Jurídico

Brasileiro: das origens inquisitoriais ao garantismo penal de Ferrajoli, de Franco Perazzoni, apresenta uma revisão histórica do papel do delegado de po- lícia na sistemática processual penal brasileira comparando sistemas de investigação criminal e buscando a reafirmação da figura do delegado como autoridade policial. Na sequência, o autor conduz o leitor a refletir sobre a evolução desse papel, em conformidade com a corrente doutri- nária garantista de Ferrajoli e com a Constituição Federal de 1988.

O quarto artigo, O Inquérito Policial como Instrumento de Segurança

Jurídica: um olhar sobre suas características e finalidades, de Anderson de Souza Daura e Carlos César Pereira de Melo, retoma a discussão sobre o uso do inquérito policial como instrumento de garantia de aplicação correta, estável e previsível do direito visando o acesso dos cidadãos à Justiça. Os autores apontam a origem conceitual legal do inquérito policial, descre- vem e analisam suas características mais relevantes, bem como sua liga- ção estreita com o princípio da segurança jurídica, sendo salvaguarda de erros/equívocos na busca da verdade real dos fatos e garantia de justiça na persecução penal.

O Inquérito Policial como Instrumento Democrático de Investigação: aná- lise da estrutura da investigação criminal em dez países da América do Sul, de Nelson Edilberto Cerqueira é o quinto artigo desta revista. Mantendo o foco no inquérito policial e seu papel na investigação criminal, o autor realiza uma análise comparativa da estrutura da investigação na América do Sul, sob o ponto de vista do legislador, listando aspectos

10

na América do Sul, sob o ponto de vista do legislador, listando aspectos 10 Brasília, v.

Brasília, v. 4, n. 2, jul/dez 2011.

relevantes quanto à responsabilidade pela investigação, aos mecanis- mos de controle impostos à presidência do processo investigativo e aos atos vinculados ao mesmo, ao nível de participação do investigado na colheita de elementos de prova, aos objetos de investigação, aos atos próprios da polícia e quanto ao arquivamento.

No sexto artigo, Polícia: segurança pública e cidadania. de Lenimar Alves de Oliveira traz a debate a discussão sobre o conceito constitucional de polícia, considerando aspectos vinculados à defesa dos direitos humanos e aos dispo-

sitivos que guardam os direitos e garantias fundamentais. O artigo trata da mo- dernização desse conceito e das repercussões no plano de segurança pública do Estado brasileiro e nos segmentos da sociedade relacionados. São tecidas considerações sobre sociedade, crime, direitos humanos, polícia e segurança pública no momento brasileiro atual, sem desconsiderar o contexto histórico e

as perspectivas próximas.

Esperamos estar fechando este quarto volume da Revista Bra-

sileira de Segurança Pública e Cidadania, mantendo nossa marca de qualidade, ao passo que buscamos conquistar cada vez mais espaço para

a discussão séria e apropriada das questões de destaque relacionadas à segurança pública e à atividade policial.

Até breve,

GUILHERME HENRIQUE BRAGA DE MIRANDA Editor

e à atividade policial. Até breve, GUILHERME HENRIQUE BRAGA DE MIRANDA Editor Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 2, jul./dez. 2011.

11

Ética Policial

Renan Marçal Rodrigues

D

RESUMO

A investigação policial se materializa através da ação do policial e, por essa razão, está suscetível aos caprichos da imperfeição humana, cujo aperfeiçoamento se traduz na preocupação primeira da ética. A aplicação da ética impõe o respeito à dignidade da pessoa humana, aos Direitos Huma- nos e aos direitos e garantias individuais, tendo a busca da verdade como o seu imperativo ético. Por esse prisma os pressupostos da ética policial na sociedade democrática são fundamentados no profissionalismo, na responsabilidade, na legitimidade e na autonomia, tendo como alicerces

as virtudes da prudência, da coragem, da justiça, da lealdade e da honestidade.

P alavras - chave : Ética. Investigação Policial.

introdução

A investigação criminal é a atividade estatal preliminar, que se revela como primeira fase da persecução penal, com caráter prepara- tório e informativo, cujo objetivo é propiciar ao Estado, como titular do direito de punir, de exercitar o seu direito, quando alguém infringe a norma penal, procurando os elementos comprobatórios do fato in- fringente da norma e seus autores, entregando essas informações ao órgão do Ministério Público para promover a competente ação penal (RIBÓ et al., 2006, p. 36).

Este conceito é derivado da síntese de opiniões de proces- sualistas nacionais a respeito da providência que a Polícia Judiciária realiza através do procedimento formal e escrito chamado Inquérito Policial e do Termo Circunstanciado de Ocorrência, que são os úni-

Recebido em 28 de dezembro de 2010. Aceito em 1º de outubro de 2011.

em 28 de dezembro de 2010. Aceito em 1º de outubro de 2011. ISSN 1983-1927 Brasília,

ISSN 1983-1927

Brasília, v. 4, n. 2, p. 13-41, jul/dez 2011.

13

Ética Policial

cos meios investigativos legítimos disponíveis à Autoridade Policial e aos seus agentes, para coligir as provas e os documentos que forem produzidos no decorrer da investigação policial.

Portanto, a investigação criminal é atividade estritamente asso-

ciada ao Inquérito Policial e ao Termo Circunstanciado de Ocorrência e

o Delegado de Polícia ao presidi-los e conduzir as investigações, com o

auxílio de seus agentes da autoridade, o que faz é aplicar o direito. Para tanto, utiliza-se do seu conhecimento jurídico aplicado, com a utiliza- ção de raciocínio lógico, conjugado com uma visão ética e social que obtém no cenário do crime a ser apurado. O uso da razão servirá para

a escolha da melhor linha de ação a ser aplicada no caso concreto, ou mesmo para fazer a correta adequação do fato à norma legal.

A aplicação da ética impele que a ação investigativa seja desenvolvi- da com fundamento no respeito da dignidade da pessoa humana, dos quais os Direitos Humanos é pressuposto inerente e desempenhada de tal forma que não colida com os direitos e garantias individuais, na concepção cons- titucional de que não são limitados por rol taxativo. Como ela se materializa através da ação do policial, está suscetível aos caprichos da imperfeição hu- mana, cujo aperfeiçoamento se traduz na preocupação primeira da ética.

O homem constrói os seus valores éticos fundamentais (justiça, probidade, honestidade, benevolência, cordialidade, respeito, autodisci- plina, moderação, amizade, generosidade, diligência, imparcialidade, con- fiança, compaixão, prudência, cooperação, coragem, lealdade, tolerância) ao longo de seu amadurecimento como ser humano, no relacionamento com a família, amigos e na escola. Os valores e princípios éticos que o policial precisará para resolver os dilemas que irá defrontar na sua labuta diária, os quais servirão como fundamento para o seu correto discernir no momento em que estiver diante de um conflito de valores, em que terá de decidir na situação concreta, sobre qual valor deverá predominar, só serão desenvolvidos pelo conhecimento teórico, através da formação

e capacitação, e pelo conhecimento prático, durante a sua carreira na ins- tituição, por meio da experiência profissional.

14

sua carreira na ins- tituição, por meio da experiência profissional. 14 Brasília, v. 4, n. 1,

Brasília, v. 4, n. 1, p. 13-41, jan/jun 2011.

Renan Marçal Rodrigues

Por aí se vê que a ética, considerada como uma das áreas mais importantes da tradicional filosofia, é tema que desperta interesse na sociedade e na polícia, pois diariamente o policial se defronta com um problema que muitas vezes não é fácil encontrar solução e que leva a uma reflexão ética. Isto ocorre tanto no âmbito da sua vida privada, quando analisa situações de seu próprio interesse, cujos efeitos da decisão atingem somente a sua pessoa, mas que pode também trazer repercussão na sua instituição; quanto no âmbito público, quando, por exemplo, tem que decidir, como representante do Estado, assun- to que vai alcançar o interesse de outrem ou de uma coletividade.

1. Ética, Moral E dEontologia

Como salienta o Caderno Didático de “Ética e Deontologia Policial”, adotado pela Academia Nacional de Polícia, não é uma ta- refa muito fácil definir o que é ética, haja vista que será sempre rela- cionada ao conceito de moral. Ambas significam hábito ou costume, que vem de ethos, em grego, e de mos, mores, moralis, em latim, e que quer dizer, maneira de ser, caráter (2010, p. 7). É traduzida no grego como lugar, hábito e, figurativamente, como o local onde se reuniam os animais (toca), lugar onde se reuniam os homens (polis) e o interior (âmago) de onde brotam os atos dos homens.

A ética trata das finalidades do agir, é de natureza teleológica, isto é, estuda a teoria dos fins. Ela visa a auxiliar o julgamento do ho- mem e guiá-lo no comportamento da ação, cujo fim é realizar o bem.

Em um sentido amplo, o estudo da ética visa determinar o que é certo ou errado, bom ou mau, permitido ou proibido, para analisar se uma ação será considerada ética, tendo como base o conjunto de valores e normas admitidos pela sociedade. Com esse escopo, surgiram os códigos de ética profissional, justamente para sistematizar os princípios de orientação para os seus profissionais (MARCONDES, 2007, p. 9).

de orientação para os seus profissionais (MARCONDES, 2007, p. 9). Brasília, v. 4, n. 2, p.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 13-41, jul/dez 2011.

15

Ética Policial

O exame ético é influenciado pelos valores adotados durante

o processo histórico da sociedade. Nas palavras do Professor Michel

Renaud, valor é o que vale a pena ser realizado na medida em que, sendo as- sim praticado ou realizado, realiza ao mesmo tempo a nossa existência humana naquilo que esta tem de mais profundo e específico. No mesmo sentido, valor é o que se torna, para nós ou para outros seres humanos, o fim de uma actividade que a nossa consciência e que a nossa liberdade consideram como “valiosa”, como merecendo uma atenção especial de um ponto de vista não só teórico, mas prático, isto é, como digna de ser realizada (RENAUD, 2008, p. 2).

Ao passo que são os valores os norteadores da ação ética e que eles devem ser considerados como relativos à época e ao contexto de sua descoberta na história dos seres humanos, é natural que sofram variações com o tempo. Os mais básicos são os que mais variam as formas de sua vivência, enquanto que os mais elevados se tornam mais estáveis, consagrando-se como aqueles que mais valem a pena a todos os seres humanos.

A moral é o conjunto de normas de conduta prescrito por

um grupo social, sugerida por um determinado autor, imposta pela religião ou corrente de pensamento, que dispõe o homem para, no âmbito de sua consciência e no uso de sua razão, distinguir entre o bem e o mal, para fazer as suas escolhas. Ela possui fundamento no dever e, por essa razão, ressalta a importância da ética, no tocante à análise da finalidade do agir, ao indicar as prioridades a respeito das finalidades mais importantes.

A palavra deontologia foi criada por Jeremy Bentham e refe-

re-se ao estudo dos deveres definidos pela situação profissional, é

a ciência ou teoria (logos) do que é preciso fazer (deon), do conjunto dos deveres próprios das pessoas que exercem uma determinada profissão (SILVA, 2001, p. 22).

16

das pessoas que exercem uma determinada profissão (SILVA, 2001, p. 22). 16 Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 1, p. 13-41, jan/jun 2011.

2. a Ética na Visão dos FilósoFos

Renan Marçal Rodrigues

A tradição ocidental entende que a filosofia como forma de pensa-

mento científico nasceu na Grécia Antiga, por volta do século VI a.C., para possibilitar o homem a tentar entender o mundo natural que o cerca.

Ao questionar do que o mundo é feito, estabeleceu os fun- damentos da metafísica. Ao se preocupar com o que o homem deve fazer ou não, deu azo aos estudos da ética e da moral. Ao propor o que é bonito e belo, definiu a estética. Ao querer descobrir o que é verdadeiro ou falso, criou a epistemologia.

No campo da ética, aprofundou-se em suas questões mais essen- ciais, discutindo “a natureza do bem; as virtudes como características da natureza humana; a liberdade ou livre-arbítrio; a responsabilidade, que resulta da liberdade em nossas escolhas e ações, e a consciência moral, que nos torna conscientes dos pressupos- tos e das conseqüências de nossos atos” (MARCONDES, 2007, p. 11).

É bom destacar que apesar da abstração das teorias filosóficas,

estas devem ser analisadas considerando o cenário histórico da época em que foram concebidas, sendo resultantes do esforço dos pensadores em encontrar soluções para as questões e desafios com que se depara- ram durante as fases do desenvolvimento humano. Por terem um valor universal, não são restritas aos problemas da antiguidade e transcendem para serem aplicadas aos dilemas éticos enfrentados na atualidade. Isso não quer dizer que se devem aplicar, pura e simplesmente, as teorias éticas no enfrentamento das questões éticas, mas sim entender a forma que os filósofos desenvolveram “a sua forma de argumentar os questionamen- tos que formulam, o modo como encaminham a discussão dos problemas éticos”, de modo a proporcionar o homem atual a “desenvolver a capacidade de superar, pelo pensamento, o modo de refletir e decidir, na medida do possível, os condicionamentos e limites do contexto em que vivemos” (MARCONDES, 2007, p. 11).

A construção de um mundo mais justo, em que prepondere o

Estado Democrático de Direito, exige que o homem adote uma postura

o Estado Democrático de Direito, exige que o homem adote uma postura Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 13-41, jul/dez 2011.

17

Ética Policial

verdadeiramente crítica que o habilite a aplicar os valores éticos na sua vida cotidiana. Para tanto, deverá se abster de ser um simples repetidor e reprodutor de valores e padrões impostos pela sociedade.

O professor Danilo Marcondes, em seus Textos Básicos de Éti-

ca (MARCONDES, 2007), apresenta uma sinopse dos pensamentos dos principais filósofos que abordam as grandes questões e corren- tes da ética na tradição filosófica. Com base no estudo desse livro, cujos conceitos são resumidamente apresentados neste trabalho, é possível classificar as naturezas das éticas de acordo com os funda- mentos do pensamento doutrinário de cada filósofo.

A Ética dos Valores é desenvolvida por Platão (428-348 a.C.),

Aristóteles (322-22 a.C.), Santo Agostinho (354-430) e São Tomás de Aquino (1224-74).

Platão é o primeiro grande filósofo grego a abordar a ética,

através dos “diálogos socráticos”, em que apresenta as idéias de seu mestre Sócrates, nas discussões com outros personagens. A ética de Platão é denominada “Metafísica do Bem”, em que a forma do bem

é

a causa de tudo que há de reto e de belo. Ele prega que será sábio

e

capaz de agir de forma justa aquele que conhecer o bem através

da dialética, que é a ascensão da alma até um plano mais elevado e

mais abstrato do real. Conhecendo a forma do bem, irá conhecer também a Verdade, a Justiça e a Beleza, sendo a forma do bem o fundamento da ética.

A ética platônica decorre do autocontrole, de “governar-se a

si mesmo”. O agir corretamente e tomar decisões éticas depende de

um conhecimento do Bem, que se obtém por meio de um longo e lento processo de amadurecimento espiritual, “a ascensão da alma”. O indivíduo que exerce o poder sobre outras pessoas deve ser capaz de controlar a si mesmo, para que possa agir de modo justo e equili- brado. Neste contexto, predomina a razão, em que faz o homem ser capaz de decidir com mais acuidade e ter maior autocontrole.

18

o homem ser capaz de decidir com mais acuidade e ter maior autocontrole. 18 Brasília, v.

Brasília, v. 4, n. 1, p. 13-41, jan/jun 2011.

Renan Marçal Rodrigues

Sócrates defende a idéia de que o indivíduo que comete in- justiças e causa danos a outro também sofrerá um dano, no que diz respeito a sua reputação e convívio na sociedade, pois será visto como injusto e perverso. Ele sentencia que não se pode ser feliz fazendo o mal e que o malfeitor escolheria praticar o bem se sou- besse a felicidade que isso lhe proporcionaria. Daí surge a máxima socrática de que “É melhor sofrer uma injustiça que praticá-la”. Assim, o homem que comete o mal só vai redimir o seu erro na sociedade e, por consequência, voltar a ser feliz, se expiar a sua culpa aceitando a punição que esta sociedade lhe impingiu.

Para Platão, a virtude deve ser inata ao ser humano. Ela per- manece adormecida no indivíduo, cabendo ao filósofo despertá-la. Dessa forma ela não pode ser ensinada, mas sim despertada. No en- tanto, carece a virtude de uma definição geral ou de um conceito a ser buscado, para que possa ser compreensível através de exemplos e aplicável a casos particulares de um tipo geral.

Outro ponto relacionado a ética de Platão é a Justiça, que se resume na escolha do método correto de conduzir a vida. Ele afirma que os homens só são justos porque temem o castigo. Havendo a cer- teza da impunidade iriam cometer todo tipo de atos condenáveis.

Para ser justo e virtuoso, o homem deve conhecer a forma do bem, afastando-se das aparências, rompendo com as cadeias de precon- ceitos e condicionamentos e direcionando a sua vida para buscar o verda- deiro conhecimento. Para Platão, aquele que conhece a justiça não pode deixar de agir de modo justo.

Da mesma forma, quem comete o mal não reconhece verda- deiramente o bem, pois se reconhecesse o bem, iria praticá-lo. Por isso, para que saibam o que é o bem, deverão ser ensinados.

Aristóteles estuda a natureza humana no que a caracteriza no ponto de vista ético, que o exame das virtudes, mais precisamente no conceito de virtude moral (areté), ou excelência de caráter.

no conceito de virtude moral ( areté ), ou excelência de caráter. Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 13-41, jul/dez 2011.

19

Ética Policial

A sua principal obra sobre o tema foi “Ética a Nicômaco”, a

qual foi dedicada ao seu filho Nicômaco. De acordo com o Profes- sor Marcondes, esta obra foi o primeiro tratado de ética da tradição filosófica ocidental e também o pioneiro no uso do termo “ética”, no sentido em que o empregamos até hoje, como um estudo sistemáti- co sobre as normas e os princípios que regem a ação humana e com base nos quais essa ação é avaliada em relação a seus fins. Por essa razão, marcou profundamente a discussão subsequente sobre ética, definindo as linhas gerais de discussão filosófica acerca desta temáti- ca. (MARCONDES, 2007, p. 38).

A ética aristotélica é caracterizada como “ética eudaimônica”, por

atribuir fundamental importância ao conceito de felicidade. Tal carac- terização também se estende às éticas influenciadas por Aristóteles. Ao contrário de Platão, Aristóteles afirma que a virtude não nasce com o ser humano, pois é resultante do hábito e ,por essa razão, pode ser ensinada. Cabe à filosofia transmitir esse ensinamento, para incentivar o indivíduo a praticá-la e a exercê-la efetivamente para se tornar virtuoso.

Um dos princípios fundamentais da ética de Aristóteles é o conceito do meio-termo ou justa medida. Na sua visão ética a ação correta deve ser caracterizada pelo equilíbrio, evitando-se os extre- mos, tanto o excesso como a falta. A sabedoria prática consiste na capacidade de corretamente definir essa medida, cuja determinação poderá variar de acordo com a percepção e dependerá das circunstân- cias específicas e situações envolvidas.

O estagirista sentencia que é uma rude tarefa ser virtuoso, por-

que sempre é um labor encontrar um meio, em fazer o que se deva, no momento que se deva, como se deva, para o que se deva, em face do

que se deva, tanto quanto se deva, pelo resultado do que se deva.

Santo Agostinho é o filósofo católico responsável pela primeira síntese entre a filosofia grega e o cristianismo, principalmente a discus- são da sabedoria de Platão à luz da doutrina cristã. É fundamentada nas

20

da sabedoria de Platão à luz da doutrina cristã. É fundamentada nas 20 Brasília, v. 4,

Brasília, v. 4, n. 1, p. 13-41, jan/jun 2011.

Renan Marçal Rodrigues

teorias éticas de origem grega e romana, destacando o estoicismo do filósofo romano Lúcio Aneu Sêneca (4 a.C. -65 d.C) e do filósofo Cícero (106-43 a.C), preocupando-se basicamente com dois temas: a origem do mal e o livre-arbítrio ou liberdade individual.

O mal é a ausência ou privação do bem e está ligado ao fato

de que o homem, por ser inferior ao seu criador, é imperfeito e fini- to, perecível, marcado pelo pecado original, derivando-se daí, o mal como falha, imperfeição.

O livre-arbítrio é a característica do ser humano que o torna

responsável por suas escolhas e decisões, criando-lhe a liberdade para agir eticamente ou não. Conclui que o livre-arbítrio vem de Deus e quando se age mal é porque se fez a escolha errada. O mal é falha, queda, desvio, corrupção e não uma substância real como o bem.

São Tomás de Aquino é o filósofo católico que discute a sa- bedoria de Aristóteles sob o olhar do cristianismo, demonstrando a compatibilidade do pensamento do estagirista com a doutrina cristã. A sua ética se contrapõe à visão de Santo Agostinho, pois se funda- menta na concepção aristotélica da virtude e da idéia de que a na- tureza humana pode ser aperfeiçoada através de hábitos virtuosos. Entretanto, o seu conceito de virtude se baseava nas virtudes teolo- gais, como a fé, a esperança e a caridade, tendo o ser humano como objetivo principal a beatitude, ou seja, o encontro com Deus por meio da revelação e da graça, enquanto que, para Aristóteles, o objetivo primordial do ser humano é a felicidade (eudaimonia).

Defendia que o mal não é algo, uma entidade, mas que ele faz parte da natureza, como fruto da imperfeição ou da corrupção das coisas criadas, que podem ser perecíveis e imperfeitas. O livre-arbítrio é originário da própria racionalidade humana, no contexto de que é um pressuposto da ética diante da possibilidade de escolha daquilo que é bom em detrimento do que é mau.

possibilidade de escolha daquilo que é bom em detrimento do que é mau. Brasília, v. 4,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 13-41, jul/dez 2011.

21

Ética Policial

A Ética do Livre-Arbítrio é conhecida também como ética

cartesiana, pois tem o filósofo Descartes, considerado como um dos fundadores da filosofia moderna, como principal defensor. A ética cartesiana é fundamentada na utilização racional do livre-arbítrio e da generosidade, no uso correto da liberdade, entendida como a mais elevada das virtudes.

Descartes afirma que o erro não é fruto das faculdades men- tais do ser humano, mas do mau uso da vontade, quando esta é in-

fluenciada por ideias que não são claras e distintas. Para evitar o erro,

é necessário que o indivíduo guie a sua vontade pela razão e não pelas

paixões, para possibilitar que venha a agir com equilíbrio e, assim, distinguir o certo do errado e o bem do mal. A ação baseada no co- nhecimento da verdade culmina com ações mais justas.

A Ética Racionalista é representada por Baruch de Spinoza

(1632-1650), que idealiza uma teoria sobre a natureza humana, in- dicando a beatitude como objetivo final do homem em sua jornada de vida. Ele propõe que a felicidade consiste no “amor intelectual de Deus”, que é interpretado como o reconhecimento do lugar do in- divíduo no Universo, propugnando que Deus não é o Ser Supremo, criador e transcendente das religiões e, sim, um princípio metafísico. Ele é a substância infinita e a causa primeira que coincide com a realidade ou a própria natureza.

A virtude é tudo aquilo que contribui para o indivíduo con-

servar o seu ser, na busca pela sua autopreservação. Neste contexto,

o homem livre é aquele que busca o bem e evita o mal, onde o bem é

caracterizado como aquilo que conhecemos como útil e o mal, como tudo o que impede o bem.

A Ética Empírica é originada do empirismo radical do pensa-

mento de David Hume (1711-1776), que o conduz a uma filosofia cé- tica. A moral do agir depende da associação com alguns sentimentos humanos, como a simpatia, a benevolência e a compaixão. Entende

22

humanos, como a simpatia, a benevolência e a compaixão. Entende 22 Brasília, v. 4, n. 1,

Brasília, v. 4, n. 1, p. 13-41, jan/jun 2011.

Renan Marçal Rodrigues

que são os sentimentos que explicam as ações do indivíduo e dão-lhe

o caráter moral, pois a ação depende mais do desejo do que da razão.

A conclusão é a que não é legítimo que devemos agir de determina- do modo porque algo é de determinada maneira, pois o juízo moral não pode ser derivado do juízo factual, pois são valorativos e não se baseiam em fatos, que podem ser verdadeiros ou falsos. São de sua

lavra as expressões: “a razão é, ou deveria ser, apenas a escrava das paixões”

e “uma vez que o vício e a virtude não são descobertos apenas por meio da razão, deve ser graças a um sentimento que estabelecemos a diferença”.

A Ética Utilitarista é defendida por John Stuart Mill (1806-1873),

na forma que é preconizada por Jeremy Bentham. Ele defendia o “prin- cípio da utilidade” como critério do valor moral de um ato e que o bem seria aquilo que maximiza o benefício e reduz a dor ou sofrimento. O útil

é aquilo que contribui para o bem-estar geral, sendo as ações de mais valor aquelas que beneficiam um número maior de pessoas possível.

Trabalha com a ideia de princípios universais, da “máxima felicida- de” que se traduz em “uma existência livre, tanto quanto possível, de dor e a mais rica possível em prazeres, tanto em relação à quantidade como à qualidade” e o da “autopreservação” (MARCONDES, 2007, p. 118).

O padrão do utilitarismo é que a felicidade que dirige a ação do

indivíduo não é apenas para a sua satisfação, mas de todos os envolvidos.

A perfeição ideal da moral utilitarista era fazer ao próximo o que gostaria

que fosse feito para si, como amar o próximo como a si mesmo.

A Ética da Razão tem como principal ícone Immanuel Kant

(1724-1804) que é conhecido pela influência que causou aos pensado- res da ética no período moderno. Ele se destaca por propugnar uma

ética de princípios e pelo seu racionalismo, tendo como pressuposto fundamental a autonomia da razão, em que a ação moral está ligada

à capacidade de autodeterminação, onde o que se deve fazer, a sua força moral, derivam da própria razão.

o que se deve fazer, a sua força moral, derivam da própria razão. Brasília, v. 4,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 13-41, jul/dez 2011.

23

Ética Policial

Segundo Kant, a razão, no aspecto teórico, é o conhecimento legítimo da realidade com base na distinção entre o entendimento e o conhecimento e, no âmbito prático, fundamenta-se a escolha livre dos

seres racionais de submeterem suas ações à lei moral, que por sua vez

é

o fruto da razão pura em seu sentido prático.

Para coroar as suas reflexões sobre a ética, Kant formulou

o

princípio que se tornou célebre por firmar-se como imperativo

categórico: “age somente de acordo com aquela máxima pela qual possas

ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal”. Ao reconhe- cer a validade incondicional dos deveres morais, que não admitem exceção, a ideia kantiana é a de que, independentemente do que

o indivíduo fizer, a ação só será ética se puder ser universalizada (MARCONDES, 2007, p. 87).

Ao tratar da liberdade, Kant a concebe como sendo caracte- rística do indivíduo que atingiu a maturidade, isto é, quando ele ad- quiriu a autonomia do exercício da própria razão e a estabelece com

a máxima que preconiza: “raciocine o quanto quiser e sobre o que quiser –

mas obedeça!”. Quanto ao limite desta liberdade, diz: “Um maior grau de liberdade civil parece ser vantajoso à liberdade do espírito do povo, no entanto lhe impõe limites que não podem ser ultrapassados”.

A Ética Existencialista é proposta pelo filósofo Soren

Abbye Kierkegaard (1813-1855), cuja obra é marcada pelas suas an- gústias em relação a questão religiosa e pela oposição à filosofia de Hegel, em vista de questionar o seu universalismo e seu caráter abs- trato e por valorizar a importância da subjetividade e da experiência individual, base de seu existencialismo.

O existencialismo de Kierkegaard compreende a experiência

subjetiva radical e o processo pelo qual o indivíduo, diante do ab- surdo do mundo e do silêncio de Deus, vê-se compelido a buscar ele próprio o sentido de sua existência (MARCONDES, 2007, p. 94).

24

ele próprio o sentido de sua existência (MARCONDES, 2007, p. 94). 24 Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 1, p. 13-41, jan/jun 2011.

Renan Marçal Rodrigues

A questão ética consiste na necessidade de o indivíduo fazer

escolhas e decidir de forma racional, sem ter a possibilidade de ter certeza da realidade e de poder justificá-las e, por isso, tendo que se apoiar na fé, situação que o transporta para além do espectro da racionalidade, justificação ou compreensão. Na maioria das vezes o conflito se dá entre a ética e a fé, entre o que compreendemos e o que não compreendemos, mas em que cremos.

A Ética Genealógica é defendida por Friedrich Nietzsche

(1844-1900), que foi um dos críticos mais radicais da moral tradicio- nal, desde a filosofia grega até o cristianismo. No tocante à ética, ele procura mostrar que ela não se fundamenta na razão.

Na sua idéia, o indivíduo deve se libertar dos preconceitos e va- lores tradicionais, para redescobrir os valores afirmativos da vida, que permitem o desenvolvimento do que há de mais nobre em sua natureza, para que possa superar a si mesmo em direção ao “homem do futuro”.

Através do método genealógico, ele mostra que esses concei- tos e valores tradicionais, que são apresentados como universais, são na verdade resultantes dos sentimentos e instintos humanos, oriundos da história, da cultura e da educação, que foram recebidos de forma acrítica, na concepção da culpa e do pecado como características de sua natureza, a qual denominou de a “moral dos fracos”, limitadoras da vontade, sensibilidade e criatividade humanas.

O método genealógico busca recuperar essas origens e des-

mascarar a aparente objetividade dos valores e conceitos, o que acon- tece em casos como a “moral do rebanho” da tradição judaico-cristã, que impõe valores como compaixão e submissão aos fortes como

forma de dominá-los (MARCONDES, 2007, p. 107).

3. Ética no sErViço Público

Os servidores públicos federais, categoria na qual se incluem os servidores policiais e administrativos da Polícia Federal, estão

os servidores policiais e administrativos da Polícia Federal, estão Brasília, v. 4, n. 2, p. 13-41,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 13-41, jul/dez 2011.

25

Ética Policial

submissos as normas éticas, deontológicas, regimentais e disciplina- res dispostas aos funcionários públicos federais de uma forma geral e, algumas vezes, em particular.

É o caso do Regime Jurídico Único do Servidor Público Federal

(Lei nº 8.112/90), que dispõe sobre direitos, deveres e punições a trans- gressões disciplinares e que alcança a todos os servidores da União.

De modo particular ao servidor do Poder Executivo Fede- ral, existe a Lei nº 1.171/94, que estabelece o Código de Ética do Servidor Público afeto àquele poder da República. A atividade do servidor público federal é regulamentada pelo Decreto nº 6.029 de 1º de fevereiro de 2007.

No âmbito do Ministério da Justiça foi criada através da Portaria nº 848, de 01º de junho de 2007, Comissão de Ética com as funções de aconselhamento e de orientação ético-profissional de seus servidores.

Para os policiais civis da União, que englobam a Polícia Federal e a Polícia Civil do Distrito Federal, existe ainda a Lei nº 4.878/65, que, reservadamente à carreira policial das duas instituições, faz pre- visão sobre as transgressões e penas disciplinares.

O Código de Ética Profissional do Servidor Civil do Poder Execu-

tivo Federal foi editado com o objetivo de proporcionar ao servidor uma reflexão sobre a importância da sua atividade e de despertar a sua consciên- cia ética na conduta pública, criando assim incentivos à prática da solidarie- dade social voltada para a consolidação efetiva do Poder, estabelecendo em torno da autoridade a colaboração espontânea da cidadania, em decorrên- cia da consequente obtenção de serviços públicos mais satisfatórios.

Tal idéia encontra respaldo na Constituição Federal, que em seu preâmbulo enfatiza que é incumbência do Estado “assegurar o exer- cício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade

26

a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade 26 Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 1, p. 13-41, jan/jun 2011.

Renan Marçal Rodrigues

fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprome- tida, na ordem internacional, com a solução pacífica das controvérsias”. Sob o mesmo diapasão, o artigo 1º da Carta Política assegura que a Repúbli- ca Federativa do Brasil “constitui-se um Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos a soberania, a cidadania e a dignidade da pessoa humana”.

A Comissão Especial constituída para elaboração da proposta do referido Código de Conduta, ao fazer a exposição de motivos, lem- bra que a Constituição Federal recomenda à Administração Pública, através de seus servidores, a obediência aos cânones da lealdade e da boa fé, idéia que é reforçada pela doutrina administrativa, sob o enfo- que de que deverá proceder, em relação aos seus administrados, sempre com sinceridade e lhaneza, sendo-lhe proibido qualquer comportamen- to astucioso, eivado de malícia ou produzido de maneira a confundir, dificultar ou minimizar o exercício de direitos (MELLO, 1990, p. 71).

No mesmo sentido, o professor francês Maurice Hauriou, citado por Hely Lopes Meirelles, dá a dimensão da importância da atuação do agente administrativo no exercício de sua função pública, asseverando que “o agente administrativo, como ser humano dotado de capacidade de atuar, deve, necessariamente, distinguir o Bem do Mal, o honesto do desonesto, não podendo despre- zar o elemento ético de sua conduta. Assim, não terá que decidir somente entre o legal e o ilegal, o justo e o injusto, o conveniente e o inconveniente, o oportuno e o inoportuno, mas também entre o honesto e o desonesto” (MEIRELLES, 1993, p. 84).

O entendimento reinante é de que o Código de Ética surge como alternativa de corrigir certas anomalias de condutas de que pade- cem diversos setores do serviço público, que não são superadas pelas normas disciplinares. O seu propósito é acabar com os atos de desres- peito ao ser humano, usuário do sistema público, que algumas vezes é encarado pelo servidor público como sendo um inimigo ou adversário. Tal postura faz com que o cidadão vá perdendo a fé nas instituições e aceitando como normais os maus tratos recebidos, imaginando que os servidores estejam no exercício regular de um direito de não serem incomodados com os seus problemas.

regular de um direito de não serem incomodados com os seus problemas. Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 13-41, jul/dez 2011.

27

Ética Policial

Por essa razão, a iniciativa de se estabelecer um código de con- duta vem corroborar a idéia de que a Administração Pública só pode- rá proporcionar a solidariedade social, como forma de fortalecimento do Estado de Direito, se possibilitar que seus agentes desenvolvam uma conduta pautada na ética e na moralidade administrativa, de for- ma a inspirar na sociedade a confiança e o respeito ao serviço pú- blico. Esta pretensão em desenvolver a consciência ética na conduta pública, com a restauração da sua dignidade e da sua honorabilidade, criando assim incentivos à prática da solidariedade social, tem por fundamentos básicos a probidade, decoro no exercício da função pú- blica e os direitos da cidadania, de não sofrer dano moral enquanto usuário desses mesmos serviços.

A preocupação com a verdade é estampada no Código de Éti- ca, precisamente no inciso VIII, que afirma:

VIII – Toda pessoa tem direito à verdade. O servidor não pode omiti-la ou falseá-la, ainda que contrária aos interesses da própria pessoa interessada ou da Administração Pública. Nenhum Estado pode crescer ou estabilizar-se sobre o poder corruptivo do hábito do erro, da opressão ou da mentira, que sempre ani- quilam até mesmo a dignidade humana quanto mais a de uma Nação.”

Adotando como premissa a idéia que a conduta do servidor pú- blico está diretamente ligada a imagem da instituição que ele representa, é dever do agente público preservá-la e, agindo com esse objetivo, estará preservando o que há de melhor em uma Nação. No mesmo sentido não podem as instituições serem reféns dos desvios de condutas de seus integrantes, devendo eles estarem sempre modelando as suas ações nos preceitos éticos pregados pela administração pública, sugeridos por sua instituição e pelas virtudes de seu caráter.

Como ensina o professor Bandeira de Mello, a supremacia do inte- resse público sobre o privado trata-se de verdadeiro axioma reconhecível no moderno Direito Público. É princípio que “proclama a superioridade do interesse da coletividade, firmando a prevalência dele sobre o do particular, como condição até mesmo, da sobrevivência e asseguramento deste último” (MELLO, 2009, p. 69).

28

sobrevivência e asseguramento deste último ” (MELLO, 2009, p. 69). 28 Brasília, v. 4, n. 1,

Brasília, v. 4, n. 1, p. 13-41, jan/jun 2011.

Renan Marçal Rodrigues

Tal princípio traduz-se no dever do agente público de zelar pelo bem comum e pela coisa pública e de desenvolver a sua atividade com o escopo de atender ao interesse público.

4. dEontologia Policial

O propósito deste trabalho é trazer à análise assunto revela- dor de preceitos éticos aproveitáveis ao policial, nomeadamente, ao policial encarregado de realizar a investigação criminal, cujo princí- pio de obrigatoriedade do procedimento ético e moral no exercício da função pública não tem por fundamento apenas a coercibilidade jurídica, representada pelo regime disciplinar do servidor público previsto nas normas administrativas. Por essa razão não se preocu- pou em examinar as transgressões capituladas nas leis disciplinares.

No tocante à atividade policial, algumas iniciativas para de- finição de um código de ética policial foram realizadas por algu- mas organizações policiais do mundo, geralmente fundamentadas nas normas gerais definidas por organismos internacionais ligados à proteção dos direitos humanos, das quais se destacam a “Decla- ração Universal de Direitos Humanos da ONU”, editada após o término da Segunda Guerra Mundial; o “Código de Conduta para funcionários de fazer cumprir a lei”, editada através da Resolução nº 34/169, da Assembléia Geral da ONU; a “Convenção Interamerica- na de Direitos Humanos”, conhecida como “Pacto de São José”; e a “Declaração sobre a Polícia”, adotada pela Assembléia Parlamentar do Conselho da Europa, na 31ª Sessão Ordinária, em 08 de maio de 1979, mediante a Resolução nº 690/1979.

No âmbito policial, convém citar a “Ata da Polícia Metropolitana de Londres”, de 1829; o “Projecto de Código Deontológico do Serviço Policial”, datado de 2000, do Ministério de Administração Interna de Portugal; e o “Código de Ética da Polícia de Investigações do Chile”.

e o “Código de Ética da Polícia de Investigações do Chile”. Brasília, v. 4, n. 2,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 13-41, jul/dez 2011.

29

Ética Policial

No Brasil, especificamente com relação à Polícia Federal, verifi- ca-se que não há ainda uma condensação dos preceitos éticos e normas deontológicas norteadoras da conduta do policial no desempenho de suas funções, principalmente no que se refere à investigação policial dos crimes de sua alçada, muito embora a Lei nº 8.112/90 (Regime Jurídico Único do Servidor Público Federal) e o Decreto nº 1.171/94 (Código de Ética do Servidor Público do Poder Executivo Federal), a que os policiais federais estão submetidos, prevejam algumas normas delineadoras da boa conduta do servidor público federal.

Igualmente a Lei nº 4.878/65 (Regime jurídico peculiar aos funcionários policiais civis da União e do Distrito Federal) e demais atos normativos internos da PF também trazem casos de deontologia aplicados ao servidor policial, prevendo, inclusive, punições adminis- trativas a transgressões desses dispositivos legais.

O principal ato normativo que trata do assunto no âmbito da

Polícia Federal é o denominado “Preceitos Éticos do Policial Federal”, constante do Anexo V da Portaria nº 1.204/99-DG/DPF, de 16 de no- vembro de 1999, que determina como um valor a ser considerado “res- peitar a dignidade da pessoa humana”, previsto em seu item II e que tem como base os estatutos internacionais de defesa dos direitos do homem.

5. a Ética FundaMEntada na dignidadE HuMana

A Constituição Federal proclama que o Brasil constitui-se em um Es- tado Democrático de Direito e tem como um dos fundamentos a dignidade da pessoa humana (art. 1º), além de enfatizar o respeito à fiel observância dos direitos e garantias fundamentais (Título II, Capítulo I, art. 5º).

A dignidade humana se constitui no poder do ser humano de

exigir a satisfação de suas necessidades universais, que são funda- mentais à sua existência, alimentação, vestuário, moradia, igualdade, liberdade, trabalho, segurança, educação, etc., de acordo com o que lhe couber e, portanto, está intimamente ligada a sua vontade, depen- dendo do grau valorativo que devotar a cada uma delas. Entretanto,

30

dendo do grau valorativo que devotar a cada uma delas. Entretanto, 30 Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 1, p. 13-41, jan/jun 2011.

Renan Marçal Rodrigues

por estar inserido em um contexto social, que envolve a sua família, o grupo social onde convive e, de uma forma mais ampla, o Estado, é natural que sua vontade seja avaliada em consideração a vontade dos outros indivíduos, para a manutenção de uma convivência harmônica

e pacífica, que é delineada pela existência dos deveres.

Como a dignidade humana é inerente aos Direitos Humanos, de que o indivíduo é titular pelo simples fato de ser humano, é de se exigir que a análise do comportamento humano seja feita com cautela, levando-se em consideração à aspectos da imperfeição humana, que se traduz na preocupação primeira da ética.

Quanto ao respeito ao ser humano é bom lembrar o ensina- mento atribuído ao filósofo Emanuel Levinás, em que enfatiza que se deve respeito ao rosto do ser humano pois este, invisivelmente, exige este respeito, porque é símbolo de um além-rosto. O rosto exprime a condição do infinito do ser humano e a transcendência divina.

Partindo do princípio que não cabe ao Estado criar leis morais, isto é, que não cabe a ele regular os atos internos de cada homem, em respeito ao princípio da liberdade inerente a cada ser humano, a fun-

ção do Estado se anuncia na preservação dos aspectos de moralidade oriundos do direito natural, cuidando para que seja observado nas leis

o mínimo ético indispensável a uma vida digna ao ser humano.

A afirmação acima é de lavra do professor Germano Marques

da Silva, que enfatiza o afastamento da vontade estatal na elaboração do arcabouço ético que envolve os seres humanos, ao analisar a De- claração Universal dos Direitos do Homem da ONU. De acordo com

o renomado mestre português, o artigo 1º, ao declarar que “todos os

homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos” e que “dotados de razão e de consciência devem agir uns para os outros em espírito de fraternidade”, pre- tende realçar que os fundamentos de todos os direitos, liberdades e garantias residem na consciência ética dos homens e dos povos e não tem como origem a vontade do Estado (SILVA, 2001, p. 37).

povos e não tem como origem a vontade do Estado (SILVA, 2001, p. 37). Brasília, v.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 13-41, jul/dez 2011.

31

Ética Policial

Conclui o preclaro doutrinador lusitano que os direitos fun- damentais do homem, dos quais se destacam os direitos à vida, à

integridade física e moral, à intimidade da vida privada, à liberdade

e segurança, serão os que servirão de critério para julgar a moralida- de das instituições públicas e o comportamento de seus servidores, pois surgem para firmar a dignidade da pessoa humana que o Esta- do impõe reconhecer, independentemente dos regimes políticos. Da mesma forma, os altos valores morais vão além do foro íntimo das pessoas, ligando-se às virtudes cívicas voltadas para a promoção do bem comum e da causa pública, sendo apanágio para determinar as condições da vida da comunidade num Estado Democrático de Direi- to, amparado nos conceitos ditados pela moral e os bons costumes.

6. PrEssuPostos gErais da Ética Policial

Adverte o professor Marques da Silva que os fundamentos da ética policial num Estado Democrático são os próprios elementos da democracia (soberania do povo, respeito dos direitos humanos e culto da liberdade e da legalidade) conjugados com as funções consti- tucional e legalmente atribuídas à polícia e seus pressupostos de ética

policial, que são o profissionalismo, a responsabilidade, a legitimidade

e a autonomia (SILVA, 2001, p. 76-77 e 89).

O profissionalismo está ligado ao desenvolvimento de com- petências específicas e ao correto uso de meios e equipamentos no

cumprimento das responsabilidades inerentes à atividade policial. A consecução desse fim exige a admissão de candidatos vocacionados e

o treinamento de policiais dispostos a usarem a sua capacidade mental

para corretamente decidir perante situações concretas, devidamente norteados por uma ética e deontologia policial que impeçam a preci- pitação e os erros e, perante as situações de tensão emocional e mo-

mentos de stress, os abusos violadores dos deveres legais contrários

a dignidade humana e aos direitos fundamentais do homem, base do Estado Democrático de Direito.

32

direitos fundamentais do homem, base do Estado Democrático de Direito. 32 Brasília, v. 4, n. 1,

Brasília, v. 4, n. 1, p. 13-41, jan/jun 2011.

Renan Marçal Rodrigues

O profissionalismo leva à responsabilidade. O policial está em

permanente contato com o mal e com a miséria humana, fomenta- dora do crime, da violência física e moral que fustigam a sociedade. Mas, não é por esta razão que será investido do direito de desrespeitar a dignidade natural do ser humano. O policial deve pautar suas ações com o devido equilíbrio, encontrar o meio termo, a justa medida para não desenvolver sentimentos de “aversão, desilusão, impotência, fatalismo e desencanto na sociedade, a ponto de contrapor-se aos aspectos da suprema digni- dade da pessoa humana” (SILVA, 2001, p. 87).

Marques da Silva, citando Aristóteles, ensina que uma pessoa responsável: “é aquela que procura fazer bem as coisas, que tem um entendi- mento claro do que é correcto e tem plena consciência das alternativas que podem considerar-se na actuação correcta. Uma pessoa responsável é aquela que não procura evadir-se de sua responsabilidade, procurando desculpas para as suas insuficiências, incapacidades ou erros” (SILVA, 2001, p. 87).

Portanto, é inaceitável o uso de meios escusos, por quem tem por missão promover o bem dos cidadãos. A filosofia ensina que, por mais he- diondo que seja um crime cometido por uma pessoa, a punição não deve ser dirigida ao homem, mas deve ser restrita ao ato que ele praticou.

O profissionalismo e a responsabilidade nascem da vocação.

O conceito de vocação é encontrado na reunião dos ensinamentos do

mestre Coriolano Nogueira Cobra e de Miguel Ayala, autor do livro “Procedimentos de Investigacion Criminal”, o qual é citado pelo Delegado de Polícia Civil, Antonio Carlos de Castro Machado, em artigo da re- vista da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo, que trata das qualidades inerentes a um bom policial. Assim, para os citados autores, vocação é a inclinação natural que se sente por de-

terminado trabalho. Quando uma atividade nos atrai, temos grande

prazer em executá-la, porquanto sentimos vocação para ela. Dentre

as profissões que maior dose de vocação exigem, desponta, inequi-

vocadamente, a carreira policial, eis que nela se experimentam, por igual, alegrias, emoções, decepções e dissabores. Para seguir a carreira

alegrias, emoções, decepções e dissabores. Para seguir a carreira Brasília, v. 4, n. 2, p. 13-41,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 13-41, jul/dez 2011.

33

Ética Policial

policial é necessário sentir, no seu íntimo, um grande carinho por ela. Na atividade policial a vocação deve se fazer acompanhar de certas faculdades naturais, indispensáveis ao bom policial. A orientação e o estímulo para o desenvolvimento dessas faculdades na preparação e cultura se constituem o alicerce que o policial construirá a sua ativi- dade profissional. Assim, o policial deve fazer uma autoanálise para se conscientizar das faculdades naturais de que é dotado, com objetivo de aferir se possui verdadeira vocação policial e, partir disso, deve se esforçar para alcançar as qualidades de que seja carecedor para a sua capacitação plena (COBRA, 1965, p. 28; MACHADO, 1994, p. 57).

A legitimidade faz referência ao sentimento que a sociedade nutre

pela instituição policial, encarregada de assegurar a segurança do cida- dão, tanto nas ações preventivas, quanto nas repressivas, ao promover a investigação visando levar os infratores da lei a responder por seus atos perante a justiça. A confiança da sociedade exige a ação imparcial e eficaz do policial, que não pode lançar mão de expedientes imorais ou ilegais no exercício de suas funções em prol da segurança pública.

Em razão de a autonomia policial estar mais intimamente ligada à atividade do policial de investigação, este tema será desenvolvido no próximo tópico.

7. PrEssuPostos da Ética do Policial dE inVEstigação

Acima foram mencionados os valores éticos gerais formado- res do caráter do policial e os valores que eles agregam ao desenvolvi- mento de suas virtudes profissionais, nomeadamente, para dirigir suas ações sob a ótica do respeito a dignidade da pessoa humana, como princípio dos Direitos Humanos muito bem definidos pela Constitui- ção Federal e pela Declaração dos Direitos do Homem da ONU. Tais valores éticos também são aplicáveis ao policial de investigação.

O profissionalismo é também um pressuposto ético do policial

de investigação, cuja atividade é muito bem definida pela Polícia de

34

de investigação, cuja atividade é muito bem definida pela Polícia de 34 Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 1, p. 13-41, jan/jun 2011.

Renan Marçal Rodrigues

Investigações do Chile, em seu Código de Ética. Assim, no conceito da polícia chilena, a máxima do trabalho investigativo é “investigar para deter e não deter para investigar”, valorizando antes toda a verdade, que consiste na correspondência dos juízos profissionais com a realidade dos fatos. Igualmente, enaltecem o uso da ciência e da tecnologia no desvendamento dos crimes, asseverando que o “investigador policial deverá respaldar seu trabalho profissional com o emprego da ciência e tecnologia como modelo transparente da busca pela verdade criminalística, no entendimento que o trabalho científico técnico é a outorga de credibilidade, objetividade e solidez da investigação criminal” (tradução livre – artigo 2º).

A autonomia policial é influenciada pela discricionariedade carac-

terística da ação do policial e, portanto, amparada pelos critérios de pro- fissionalismo acima comentados. O policial encarregado das funções de Polícia Judiciária não está ligado a métodos rígidos de investigação, pois

a todo o momento se depara com situações novas, previsíveis e imprevi-

síveis, em que deverá exercitar a sua criatividade para superá-las, devendo agir amparado da autonomia que é natural a sua atividade. É óbvio que a sua ação só será considerada válida sob o ponto de vista ético se respeitar

a dignidade da pessoa humana e os seus direitos fundamentais.

Além do mais, o homem que realiza a investigação criminal deve cultivar algumas virtudes e empregar um sentido ético nas suas ações de uma forma mais proeminente da que é exigida de outros ato- res encarregados da persecução penal estatal. Apesar de dever obe-

diência absoluta a lei, a sua atividade é essencialmente discricionária, isto é, age com total liberdade para desvendar o crime e, por essa ra- zão assume o papel de guardião de sua consciência, devendo cumprir

o

seu dever com respeito e proteção da dignidade humana, mantendo

e

apoiando os direitos fundamentais de todas as pessoas. É adotar

o

comportamento moldado por Immanuel Kant em seu imperativo

categórico: “age somente de acordo com aquela máxima pela qual possas ao

mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal”. Por este diapasão,

é imperioso que o policial de investigação proceda de tal forma a

é imperioso que o policial de investigação proceda de tal forma a Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 13-41, jul/dez 2011.

35

Ética Policial

enaltecer a prudência, a coragem, a justiça, a lealdade e a honestidade, como corolário de seu comportamento virtuoso.

A prudência, de acordo com Aristóteles, é a disposição que

permite decidir corretamente sobre o que é bom ou mau para o ho- mem, desconsiderando as suas percepções íntimas e as concepções de forma geral e considerando o mundo como ele é e a situação concre- ta, para assumir o correto discernimento sobre o que se deve fazer.

A prudência configura-se na virtude da decisão e do discerni-

mento, que será empregado pelo policial quando estiver diante de um dilema relacionado a um conflito de valores, em que deverá escolher qual deverá sobressair, a fim de lastrear a sua decisão para escolher entre a ação e a omissão.

Ela define como saber aplicar as verdades morais universais na vida prática, haja vista que diferentemente da ciência que busca a verdade, a prudência tem como objetivo a busca do bem.

A prudência, enquanto virtude intelectual, requer experiência, tato moral, humildade, sagacidade e bom uso da razão; enquanto virtude moral requer previdên- cia, circunspecção e precaução (SILVA, 2001, p. 91/92).

A coragem é a virtude ligada à superação do medo através da von-

tade voltada para a realização de um fim moralmente bom. Não se refere à negação do medo, mas se constitui na firme convicção da ação virtuosa de suplantá-lo através da ação prudente. É o desejo da alma de vencer o perigo, de animar o justo a combater a injustiça, a vontade de perfeccionis- mo moral e, no aspecto ético, no foro íntimo do ser humano, a busca da perfeição, a realização de um valor que vale a pena ser vivido.

Age com coragem o policial que, no cumprimento do dever, arrisca a sua própria vida, ou coloca em risco um interesse pessoal, para salvar a vida alheia ou para favorecer o interesse de outrem ou coletivo. A ação corajosa tem como escopo um fim moralmente bom.

36

ou coletivo. A ação corajosa tem como escopo um fim moralmente bom. 36 Brasília, v. 4,

Brasília, v. 4, n. 1, p. 13-41, jan/jun 2011.

Renan Marçal Rodrigues

A Justiça é a principal virtude e que se distingue por englobar

todas as outras, desde que estejam orientadas para a consecução do bem comum. Assim, de nada adianta agir com prudência, coragem, le-

aldade, honestidade e tolerância, se esta ação não for moralmente justa

e que decorra da lei moral natural, pressuposto do regramento da vida social para atendimento das necessidades da natureza humana.

Ulpiano concebe a justiça como “a vontade permanente e constante de dar a cada um o que é seu”, da qual prepondera como premissa única

a realização do bem comum, revelado na intransigente defesa dos direitos e deveres do ser humano.

Marques da Silva ensina que a “Justiça pressupõe o direito que é seu objeto e este, o Direito, não é senão, ou não deve ser senão, a ordenação da vida social segundo a Justiça” (SILVA, 2001, p. 96).

O Direito, tendo como fonte primária a Lei, é o caminho da Justiça.

A Lealdade corresponde à forma de se relacionar com as pes-

soas, tratando-as com o devido respeito que merecem, como seres humanos que são, em defesa da dignidade humana.

No âmbito da investigação policial, esta virtude deve se verificar no tratamento entre o policial e o cidadão, quer seja ele vítima, testemu- nha ou investigado; entre os policiais que procedem a investigação, entre esses policiais e o seu chefe imediato e entre todos eles e a Direção-Geral da polícia, sendo imanente à investigação policial a relação de confiança.

A lealdade vai além do compromisso funcional estabelecido entre

chefes e subordinados e alcança o campo da honestidade, buscando um comprometimento com a verdade, afastando a corrupção e a malícia.

O compromisso do policial de investigação com a lealdade

é definido no Código de Ética da Polícia de Investigação do Chile,

que ressalta que os membros da instituição deverão lealdade à mis- são que a Polícia de Investigação cumpre com a sociedade e devem

são que a Polícia de Investigação cumpre com a sociedade e devem Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 13-41, jul/dez 2011.

37

Ética Policial

requerê-la de seus superiores e exigi-la de seus subalternos, cabendo aos superiores dar o exemplo de lealdade através de suas ações e resoluções (artigo 9º).

A honestidade é sinônima da retidão moral que impede o indiví-

duo de satisfazer as suas necessidades em detrimento aos interesses de outrem, ou que o servidor público aproveite do poder que lhe é atribu- ído como representante de um ente público para deturpar a normalida- de de seu funcionamento visando o seu locupletamento pessoal.

A corrupção é o vício que se opõe à virtude da honestidade e

sob alguns aspectos deriva da crise ética que envolve a situação políti- ca do país e do mundo e diz respeito as formas desmedidas de poder. Os desvios de ordem política se devem à paixão arraigada ao poder, que estimula a corrupção vulgar e a complexa. No conceito do pro- fessor Fábio Konder Comparato, o primeiro tipo se refere à compra da consciência alheia, ou à venda da própria. O segundo estimula a loucura moral, em que o indivíduo se utiliza de todos os sentimentos altruístas (amor, compaixão, generosidade, lealdade, espírito de ser- viço, solidariedade) para atingir os seus fins legítimos ou ilegítimos (COMPARATO, 2006, p. 583-585).

A corrupção é considerada uma traição à sociedade que de-

positou no policial a sua confiança e um ultraje à justiça, que não transige com a desonestidade e com a mentira e que só admite a pro- positura de atos ordenados de forma a elevar a própria justiça.

O policial arrebatado pela corrupção que vende o exercício da autoridade perde a sua dignidade, o respeito a si mesmo, a sua integridade moral, pressuposto da ética maior que deveria animar a sua vontade.

O artigo 7º do Código de Ética da polícia chilena assevera que

os policiais de investigação deverão ter sempre clara consciência de sua responsabilidade individual pelos atos que executam no cumprimento de sua profissão. Prosseguem com a lembrança de que sendo a institui-

38

de sua profissão. Prosseguem com a lembrança de que sendo a institui- 38 Brasília, v. 4,

Brasília, v. 4, n. 1, p. 13-41, jan/jun 2011.

Renan Marçal Rodrigues

ção um escudo protetor da sociedade contra os perigos da corrupção, seus integrantes atuarão em todo momento com probidade e honradez, rechaçando vigorosamente e denunciando toda a ação ou omissão que possa conduzir a uma conduta corruptiva (tradução livre).

8. conclusão

Como foi dito no limiar deste artigo, o objetivo principal deste trabalho foi apresentar a importância da ação ética do policial na rea- lização da investigação criminal na busca pela verdade.

Genericamente, pode-se dizer que a investigação policial objetiva, fundamentalmente, a descoberta da verdade (Princípio da Verdade Pro- cessual ou Aproximada), apurar a infração penal e a sua autoria, captar a prova de materialidade da infração penal e recuperar os bens obtidos ilicitamente. Por este prisma, o policial tem a busca da verdade como imperativo ético da investigação, que o impele a não produzir provas ilí- citas, estando obrigado a não fazer distinção entre prova de acusação ou defesa, agindo sempre de forma imparcial, em nome do Estado.

Os pressupostos da ética policial na sociedade democrática são fundamentados no profissionalismo, na responsabilidade, na legitimi- dade e na autonomia, tendo como alicerces as virtudes da prudência, coragem, justiça, lealdade e honestidade.

O policial encarregado da investigação criminal deverá usar desses fundamentos e virtudes para controlar a sua vontade e a sua razão para desempenhar a sua função com eficiência e responsabili- dade, sem se descuidar da intransigente defesa da dignidade da pessoa humana, dos direitos humanos e das garantias individuais, para que a sua ação não degenere para um ambiente em que prepondere o direi- to penal do inimigo. Por mais que seja afetado pela miséria humana, pela corrupção, pela violência gratuita, pelo excesso de trabalho, pelas atitudes de incompreensão de seus superiores hierárquicos e muitas vezes por uma parcela da sociedade, não pode se afastar dos elevados

vezes por uma parcela da sociedade, não pode se afastar dos elevados Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 13-41, jul/dez 2011.

39

Ética Policial

valores que animam a sua alma e que devem ser senhores de seus atos. Como dito acima, é impensável que em razão desse quadro venha a desenvolver sentimentos de “aversão, desilusão, impotência, fatalismo e de- sencanto na sociedade, a ponto de contrapor-se aos aspectos da suprema dignidade da pessoa humana” (SILVA, 2001, p. 111).

A sua atividade exige que aja com imparcialidade, de modo a reproduzir por meio da investigação policial a realidade fática do ato investigado e suas circunstâncias, para que este se preste tanto para confirmar a culpabilidade do indivíduo investigado, quanto para, se for o caso, isentá-lo de uma acusação injusta. O que importa é que o pa- norama fático apurado na fase de investigação seja reproduzido na fase processual e nos tribunais, demonstrando a lisura do trabalho policial.

RENAN MARÇAL RODRIGUES

Delegado de Polícia Federal, Coordenador de Ensino da Academia Nacional de Polícia

rEFErências bibliográFicas

AYALA, M. J. V., tradução de MACHADO, A.C.C., Qualidades Inerentes a um bom policial, Revista ADPESP – Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo, São Paulo, v. 15, nº 19, 1994.

BRASIL. Lei nº 1.171/94, que estabelece o Código de Ética do Servidor Público do Poder Executivo Federal.

CHILE. Código de Ética Profesional de La Policía de Investigaciones de Chile.

COBRA, C. N.,Manual de investigação policial, 3ª edição. São Paulo: Coletânea Acácio Nogueira – Vol. VI, SSP/SP, 1965.

, Manual de investigação policial, 7ª edição. São Paulo, Saraiva, 1987.

COMPARATO, F. K., Ética, direito, moral e religião no mundo moderno. 2ª edição, São Paulo, Companhia das Letras, 2006.

HAURIOU, M., Précis élementaires de droit administratif, Paris, 1926, pp. 197 e ss., apud MEIRELLES, H. L., Direito administrativo brasileiro, 18ª edição, atualizada por Azevedo, E. A., Aleixo, D. B., e Filho, J. E. B. Filho, São Paulo, Malheiros Editores, 1993.

40

D. B., e Filho, J. E. B. Filho, São Paulo, Malheiros Editores, 1993. 40 Brasília, v.

Brasília, v. 4, n. 1, p. 13-41, jan/jun 2011.

Renan Marçal Rodrigues

MARCONDES, D. Textos básicos de ética – de Platão a Foucault, 3ª edição. Rio de Janeiro, Zahar, 2007.

MELLO, C. A. B. de, Elementos de direito administrativo. 2ª edição, São Paulo, Editora Revista dos Tribunais, 1990.

MELLO, C. A. B. de, Curso de direito administrativo. 26ª edição. São Paulo: Malheiros, 2009.

RENAUD, Michel, Viver a cidadania. Lisboa, 2008.

RIBÓ, A. ; RODRIGUES, R.M. ; PUJOL, S. A. C., Particularidades da investigação de competência do Departamento de Polícia Federal nos delitos cometidos em detrimento das forças armadas: inquérito policial e inquérito policial militar. Campinas-SP. Monografia do XIII Curso Superior de Polícia, 2006.

SILVA, G. M. da, Ética policial e sociedade democrática. 1ª edição, Lisboa, ISCPSI, 2001.

policial e sociedade democrática . 1ª edição, Lisboa, ISCPSI, 2001. Brasília, v. 4, n. 2, p.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 13-41, jul/dez 2011.

41

MissÕEs Policiais E a PolÍcia FEdEral brasilEira

Altair Aparecido Galvão Filho

D

RESUMO

As missões de polícia podem ser definidas em quatro categorias: polícia de segurança, polícia de ordem, polícia judiciária ou criminal e polícia de inteligência. Na Europa, onde surgiu a polícia como força de defesa do Estado e da sociedade, existem organizações com papéis mais definidos, cada qual para o cumprimento de um tipo de missão policial, mas não é o que ocorre no Brasil. Enquanto as Polícias Militares dos Estados ficam com quase todas as tarefas de polícia de segurança e de ordem, as Polícias Civis trabalham como polícia judiciária, no que tange aos crimes que não afrontam bens ou serviços da União. A polícia de inteligência em sua forma clássica, como subsídio para os programas do governo, é exercida pela Agência Brasileira de Inteligência - ABIN. Por seu turno, a Polícia Federal se apresenta com a evidente tarefa constitucional, determinada pelo art. 144 da Carta Magna, de exercer com exclusividade a polícia judiciária da União, contudo o mesmo artigo lhe dá a missão de polícia de segurança em áreas específicas, como os aeroportos, áreas marítimas e fronteiras. Além disso a corporação exerce também polícia de ordem nos locais acima, onde atua na maioria das vezes de forma isolada, recuperando a normalidade do meio social quan- do necessário, bem como trabalha como polícia de inteligência a serviço de suas investigações, embora sem motivação política.

P alavras - chave : Missões policiais. Segurança pública. Papel das polícias. Polícia Federal.

introdução

O presente artigo aborda o tema das missões de polícia, com a breve exposição da doutrina relativa ao tema e de seus atores em nos- so país e, por fim, o enquadramento das atividades da Polícia Federal na consecução desses misteres.

Recebido em 24 de novembro de 2010. Aceito em 1º de outubro de 2011.

em 24 de novembro de 2010. Aceito em 1º de outubro de 2011. Brasília, v. 4,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

ISSN 1983-1927

43

Missões Policiais e a Polícia Federal Brasileira

A pesquisa abordará estudos comparativos com os dados das for- ças policiais de outros países, como Portugal, França e Inglaterra, que contam com diferentes organizações policiais, mas que podem contribuir com exemplos válidos para consecução das funções em comento.

Por fim, será considerada a forma de cumprimento das mis- sões de polícia no Brasil e, de forma breve, como a Polícia Federal exerce seu papel e atribuições, tocando inclusive funções policiais que aparentemente não lhe são típicas.

1. MissÕEs dE PolÍcia

Para poder definir quais suas missões, necessário inicialmente sa- ber o significado moderno do termo polícia. Segundo Wolfgang Kunkel (apud BAYLEY, 2002, p. 41), as forças ligadas à segurança remontam da antiguidade, servindo como exemplos os homens comandados pelo Senador que ocupava o cargo de praefectus urbis, entre eles o praefectus vigilium - chefe de polícia -, na Roma antiga, assim como o posse comitatus e o constable na Grã-Bretanha da Idade Média, que foram os precursores dos agentes especializados em preservar a lei e ordem (BAYLEY, 2002, p. 51), mas sua instituição como força organizada pelo Estado, dedi- cada à manutenção da ordem e ao combate a ilícitos, somente se deu com a industrialização na Europa. Nessa oportunidade, em que massas populacionais migraram para as cidades em busca de trabalho, surgiu um contingente populacional que, na falta de empregos, migrou para atividades não permitidas, criando a necessidade de uma resposta dos governos à sociedade, na tentativa de recuperar a normalidade.

Na doutrina contemporânea, ao abranger a polícia em geral, o mestre Manuel Valente leciona com propriedade:

A Polícia, que outrora fora a “expressão "administração pública": era, en- tão, toda acção do Príncipe dirigida a promover o bem-estar e comodidade dos vassalos”, que passara por expressar uma “atividade extensa, e por muitos bene- mérita, em diversos domínios relativos ao progresso moral, económico e cultural da Nação”. Esta actividade extensa desenvolve-se através de meios arbitrários e que,

44

actividade extensa desenvolve-se através de meios arbitrários e que, 44 Brasília, v. 4, n. 2, p.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

Altair Aparecido Galvão Filho

com a Revolução francesa, deixara de constituir ou ser suporte de um Estado su- bordinado ao direito ou mundo jurídico. A Polícia é ou deve ser, hoje, um garante da liberdade do cidadão face às ofensas ilícitas concretizadas e produzidas quer por outrem quer pelo próprio Estado (VALENTE, 2009, p. 44).

Abordando todo o sistema de aplicação do Direito em que se insere a polícia, considerando no conceito outros entes que participam da manutenção da ordem, observou o sociólogo Pedro Scuro Neto:

O fluxo se inicia com a atividade da polícia e encerra com a reintegração do in-

frator à sociedade. O “campo vetorial” é a extensa cadeia produtora de legislação,

o network, a rede de profissões e complexas organizações (funcionários e equi-

pamentos) do Executivo, Legislativo, Ministério Público e Judiciário. O sistema

está estruturado para garantir a segurança interna (ou “segurança pública”), i.e.,

a

atividade estatal para o funcionamento normal das instituições democráticas e

o

regular exercício das liberdades e direitos fundamentais. No sentido estrito isto

quer dizer manutenção da ordem, da integridade física e tranqüilidade pública, proteção das pessoas e dos bens mediante contenção ou remoção de riscos amea- çantes, prevenção da criminalidade (em especial crime organizado, espionagem, sabotagem e terrorismo), impedir infiltração no território nacional e expulsar estrangeiros que representem risco aos interesses e valores legalmente protegidos (SCURO NETO, 2009, p. 228).

Por fim, Maria Sylvia Di Pietro, também encarando a questão por um prisma mais genérico e emparelhado com seus ensinamentos na seara do direito administrativo, ilustra: “Pelo conceito moderno, adotado pelo direito brasileiro, o poder de polícia é a atividade do Estado consistente em limitar o exercício dos direitos individuais em benefício do interesse público” (DI PIETRO, 2001, p. 110).

Apresentadas essas definições, impende colocar que as mis- sões de polícia podem ser entendidas como os misteres, os diferentes papéis a serem exercidos pelas forças de segurança para a consecução dos objetivos acima mencionados pela doutrina, quais sejam a ma- nutenção da integridade do Estado, da ordem pública e dos direitos individuais e coletivos. Assim, nota-se com clareza que a polícia, por manter essas missões em sua agenda, constitui organização essencial aos Estados modernos.

em sua agenda, constitui organização essencial aos Estados modernos. Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

45

Missões Policiais e a Polícia Federal Brasileira

Segundo a destacada lição de Jean-Claude Monet (2002, p. 103- 104), em todos os países europeus analisados em suas pesquisas, as legislações orientam as missões policiais em duas direções, uma para proteção de bens e pessoas, prevenção e repressão da criminalidade e outra relativa à manutenção da ordem, do direito de todos de goza- rem das liberdades públicas. Ainda coloca que essas duas orientações se repartem em dois ramos, em suma resultando para todos os corpos policiais da Europa, mesmo que com organizações diversas, quatro missões: polícia de segurança, polícia de ordem, polícia criminal e polícia de informações.

O estudioso francês (MONET, 2002, p. 105) expõe que a pri- meira e principal missão de polícia é a de garantir a segurança pública, tarefa que mobiliza a maioria dos contingentes e que geralmente é efe- tuada por agentes uniformizados. Diz ainda que essa vem a ser a mis- são policial primordial pois é aquela que faz com que os atores da law enforcement mais se aproximem do cidadão comum, que possivelmente em toda sua vida manterá contato com a polícia apenas nessa modali- dade. Como exemplo, podemos tomar o daquele trabalhador que nunca esteve implicado em investigações policiais, mas que necessita do aten- dimento de milicianos de plantão quando da invasão de sua residência por furtadores, ou na hipótese em que tem roubados seu veículo ou documentos pessoais. Ainda, Monet (2002, p. 105) observa que as ati- vidades compreendidas como componentes da missão de segurança pública são determinadas pela tradição de cada polícia, abrangendo no velho mundo desde a vigilância da higiene, a tranquilidade das ruas, a proteção de bens e pessoas contra delinquentes, a vigilância nas pro- ximidades das escolas, até o consumo de bebidas, a escolta de bens e detidos e a organização do trânsito de veículos, etc.

Contudo, assevera o professor que as atividades abarcadas pelo aparato estatal no anseio de assegurar a segurança da coletividade di- ferem conforme a época, local e circunstâncias experimentadas no momento. Isso é assim pois o centro de poder político determina o

46

no momento. Isso é assim pois o centro de poder político determina o 46 Brasília, v.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

Altair Aparecido Galvão Filho

escopo final das ações policiais; ou melhor, a noção de ordem busca- da pelos agentes da lei nas ruas é aquela que quer a camada dominante responsável pelos destinos da organização estatal.

Vale, nesse ponto, lembrar de novo as lições de Manuel Valen- te (2009, p. 47-48), para quem as forças de segurança garantem a or- dem pública e o direito dos cidadãos, porém dessas funções resultam quase sempre restrições às liberdades individuais e coletivas, motivo pelo qual o aparato estatal que emprega a força somente pode agir com autorização legal. De outro viés, destaca o docente português que a regência das polícias pela lei na consecução de seus objetivos aumenta sua legitimidade democrática no quadro constitucional.

Já a segunda missão policial, que pela quase semelhança pode motivar indevida confusão com a primeira, é a de manutenção da or- dem pública. Ainda segundo o entendimento de Monet (2002, p. 110- 111), tal confusão pode existir porque geralmente essa missão policial é levada a termo pelos mesmos corpos uniformizados que realizam as atividades da primeira missão, relativa à segurança pública. Con- tudo, ensina que a prática de manutenção da ordem difere da polícia de segurança porque os agentes daquela contam com treinamento e equipamentos para contenção de manifestações coletivas de protesto, como as de estudantes e trabalhadores. Como exemplo apresenta as polícias montadas, tropas de choque e outras, que ocupam seu tem- po, quando não há agitação social, com treinamentos especializados e também na execução de atividades corriqueiras. Observou ainda o citado professor francês que em países com menor tradição militar a especialização das forças para a manutenção da ordem é menor; é a situação que encontramos no Brasil, em que as Polícias Militares nos diferentes Estados da federação possuem seções de seus batalhões para atividades especiais e contenção de distúrbios civis. De forma similar, mesmo na Polícia Federal o fenômeno se apresenta, pois muito embora a organização não possua uma divisão especial para o Controle de Distúrbios Civis, de regra possui agentes treinados que

o Controle de Distúrbios Civis, de regra possui agentes treinados que Brasília, v. 4, n. 2,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

47

Missões Policiais e a Polícia Federal Brasileira

podem coordenar de forma rápida os demais policiais do efetivo para atuação contundente em caso de manifestações em pontos sensíveis onde é exercida sua atribuição, como é o caso da contenção dos fre- quentes protestos na região da Ponte da Amizade, em Foz do Iguaçu/ PR, na fronteira com o vizinho Paraguai.

Jean-Claude Monet (2002, p. 111) fecha sua exposição sobre essa segunda missão de polícia relatando que os batalhões especializa- dos na manutenção da ordem pública são técnicos no emprego coleti- vo da força controlada e ainda que, por sua faceta de polícia diferente das demais, preparada para seletas intervenções, os custos gerados com sua criação e manutenção, além do comprometimento de parte do efetivo policial, constantemente em preparo e treinamento, podem ser tidos pela sociedade como desvio de recursos e pessoal para a área de mais visibilidade, da manutenção da segurança pública.

Como terceira missão das forças policiais, Monet (2002, p. 113-114) traz à baila a chamada polícia criminal ou judiciária, que para o grande público e mesmo para os próprios agentes da lei seria a “verdadeira” polícia; o professor francês explica ainda que o vocábulo mais escorreito seria o de polícia criminal, deixando o de polícia judi- ciária para quando a força de segurança em questão estiver diretamen- te subordinada ao Ministro da Justiça ou autoridade equivalente. A polícia criminal fornece, portanto, material para o funcionamento da Justiça Criminal, contando com duas faces, uma que opera na repres- são da criminalidade comum (v.g. roubos, furtos, estelionatos, fraudes em geral etc.) e outra que concerne à repressão da delinquência que exige, para seu combate, conhecimento mais especializado, tais como o tráfico de drogas, o crime organizado etc.

Monet (2002, p. 114) ainda observa que a polícia em sua missão criminal dissuade novos delinquentes e coloca alguns criminosos fora de circulação; no entanto, igualmente protege bens e pessoas, cumprindo as- sim as expectativas da população. Contudo, na verdade as aspirações do povo quanto à atuação das polícias frequentemente são diversas daquelas mantidas pelos integrantes do Poder Judiciário e do Ministério Público.

48

pelos integrantes do Poder Judiciário e do Ministério Público. 48 Brasília, v. 4, n. 2, p.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

Altair Aparecido Galvão Filho

Coloca o mesmo doutrinador que em todos os países pesqui- sados as forças da lei recebem do ordenamento poderes para cumprir a função de polícia criminal, tais como: o controle de suspeitos no es- paço público, o direito de interrogar e de apreender objetos de prova para o processo penal; em alguns lugares esses direitos são conferidos para exercício de forma direta e, em outros, com autorização do Juiz ou do Ministério Público (MONET, 2002, p. 115). Anota ainda que a natureza militar da corporação não impede que ela atue executando missões de polícia criminal (MONET, 2002, p. 122).

Por derradeiro, a missão final é a de polícia de informações, que de acordo com Jean-Claude Monet (2002, p. 123) vem a ser a modalida- de de atuação secreta, política, voltada a conseguir informações para o governo; contudo deve-se notar que o termo polícia secreta se acha mais associado a regimes totalitários, como ocorreu na Alemanha durante a II Guerra, que mantinha a famigerada Gestapo, pelo que Monet assevera que o termo mais preciso na realidade atual seria o de polícia política.

O raciocínio de David H. Bayley se encaixa com precisão no tema acima tratado:

O papel que a polícia desempenha na vida política dos países provavelmente atraiu mais atenção que qualquer outro tópico nos estudos comparativos de po- liciamento. As razões são óbvias. A polícia está para o governo, assim como a lâmina está para a faca. O caráter do governo e a ação policial são virtualmente indistinguíveis. O governo é reconhecido como autoritário quando sua polícia é repressora e como democrático quando sua polícia é controlada. Não é por coin- cidência que os regimes autoritários são chamados de “Estados policiais”. A atividade policial é crucial para se definir a extensão prática da liberdade humana (BAYLEY, 2002, p. 203).

Retornando a Monet (2002, p. 124), esse esclarece que a atual polícia política não atinge o status infame das polícias secretas de ou- trora em razão de alguns anteparos que modernamente estão cada vez mais desenvolvidos: os controles institucionais, o profissionalismo dos agentes e principalmente o papel da imprensa. Exemplificando no contexto europeu, o professor demonstra que na França a polícia

no contexto europeu, o professor demonstra que na França a polícia Brasília, v. 4, n. 2,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

49

Missões Policiais e a Polícia Federal Brasileira

vem a ser apenas política, tendo como objeto tão-somente informa- ções, mas não pode exercer a citada força repressiva, que pertence às polícias que executam as outras missões de segurança, pelo que, quando a polícia de informações reúne os dados precisos sobre as atividades indevidas investigadas, repassa-as à Polícia Judiciária, que faz a investigação oficial como se tratasse o caso de crime comum, com as sujeições legais usuais. Isso também ocorre no Reino Unido, conforme a lição do mestre em comento.

2. tiPos dE atuação Policial E a rEalidadE brasilEira

No Brasil, conforme a tradição constitucionalista, o arcabouço das atividades policiais se encontra na Carta Magna, que no Capítulo III de seu Título V, que trata “Da defesa do Estado e das instituições democráticas”, traz o art. 144, denominado “Da segurança pública”, o qual transcrevemos abaixo:

Art. 144. A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos:

I - polícia federal;

II - polícia rodoviária federal;

III - polícia ferroviária federal;

IV - polícias civis;

V - polícias militares e corpos de bombeiros militares.

§ 1º A polícia federal, instituída por lei como órgão permanente, organizado e mantido pela União e estruturado em carreira, destina-se a:

I - apurar infrações penais contra a ordem política e social ou em detrimento de

bens, serviços e interesses da União ou de suas entidades autárquicas e empresas

públicas, assim como outras infrações cuja prática tenha repercussão interestadual

ou

internacional e exija repressão uniforme, segundo se dispuser em lei;

II

- prevenir e reprimir o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o con-

trabando e o descaminho, sem prejuízo da ação fazendária e de outros órgãos públicos nas respectivas áreas de competência;

50

e de outros órgãos públicos nas respectivas áreas de competência; 50 Brasília, v. 4, n. 2,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

Altair Aparecido Galvão Filho

III - exercer as funções de polícia marítima, aeroportuária e de fronteiras;

IV - exercer, com exclusividade, as funções de polícia judiciária da União.

§ 2º A polícia rodoviária federal, órgão permanente, organizado e mantido pela

União e estruturado em carreira, destina-se, na forma da lei, ao patrulhamento

ostensivo das rodovias federais.

§ 3º A polícia ferroviária federal, órgão permanente, organizado e mantido pela

União e estruturado em carreira, destina-se, na forma da lei, ao patrulhamento ostensivo das ferrovias federais.

§ 4º - às polícias civis, dirigidas por delegados de polícia de carreira, incumbem, ressalvada a competência da União, as funções de polícia judiciária e a apuração de infrações penais, exceto as militares.

§ 5º - às polícias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da ordem

pública; aos corpos de bombeiros militares, além das atribuições definidas em lei, incumbe a execução de atividades de defesa civil.

§ 6º - As polícias militares e corpos de bombeiros militares, forças auxiliares e

reserva do Exército, subordinam-se, juntamente com as polícias civis, aos Gover- nadores dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios.

§ 7º - A lei disciplinará a organização e o funcionamento dos órgãos responsáveis pela segurança pública, de maneira a garantir a eficiência de suas atividades.

§ 8º - Os Municípios poderão constituir guardas municipais destinadas à prote-

ção de seus bens, serviços e instalações, conforme dispuser a lei.

§ 9º A remuneração dos servidores policiais integrantes dos órgãos relacionados neste artigo será fixada na forma do § 4º do art. 39.

Assim, de plano se pode vislumbrar que, muito embora no dia- a-dia policial não exista inquebrável divisão de atribuições entre os integrantes das diferentes forças de segurança, até porque membros das forças de garantia de segurança e ordem públicas auxiliam nas missões de polícia criminal (como quando figuram como condutores e testemunhas em Auto de Prisão em Flagrante Delito, p. ex.) e o mes- mo ocorre de forma inversa (i.e., quando policiais civis em missões externas de natureza investigativa surpreendem marginais praticando crime de forma fortuita, ou quando a circulação com uso de viatura caracterizada contribui para a manutenção da ordem em determinado local), é desejável que cada qual guarde suas áreas e atividade de for- ma organizada e delimitada. Como observou Emerson Silva Barbosa,

de for- ma organizada e delimitada. Como observou Emerson Silva Barbosa, Brasília, v. 4, n. 2,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

51

Missões Policiais e a Polícia Federal Brasileira

“o funcionamento harmonioso de um 'sistema de segurança pública' pressupõe o exercício regular de suas atribuições específicas por cada um dos seus componentes e não a superposição de atividades, muitas vezes, sobre o mesmo fato ou objeto” (BARBOSA, 2010, p. 195).

Em seguida, se faz mister colocar que se o caput do artigo de- fine a segurança pública como dever do Estado e direito de todos, na mesma esteira aponta que a mesma vem a ser responsabilidade dos

demais setores do governo e de toda sociedade. Quanto à responsabili- dade da população, de nada adiantariam os esforços do Estado e mes- mo de corpos policiais treinados e com recursos abundantes quando

o próprio destinatário da segurança que se pretende proporcionar não

contribui - e até mesmo trabalha em contrariedade - com os programas

levados a efeito pelos governos locais e federal. Exemplo disso pode ser colhido em determinadas áreas, mormente nas grandes metrópoles brasileiras, onde as organizações criminosas detêm reconhecido poder

e autoridade, com beneplácito dos moradores da região dominada, que

passam de reféns dos barões do crime a massa de fiéis apoiadores de sua agenda, em troca de ilusórias melhorias e da pretensa proteção que alegam proporcionar às comunidades atingidas.

No trecho abaixo, o constitucionalista Tercio Sampaio Ferraz Jr. aborda o problema com precisão:

] [

apenas às polícias, mas dizem respeito a todos os órgãos governamentais que se integram, por via de medidas sociais de prevenção ao delito. A comunidade não deve ser afastada, mas convidada a participar do planejamento e da solução das controvérsias que respeitem a paz pública (apud MORAES, 2002, p. 1641).

devemos conscientizar-nos que os temas da segurança pública não pertencem

Isto posto, na sequência se faz mister comentar sobre a distri-

buição brasileira das missões ou tipologias de polícia de acordo com

o art. 144 de nossa Constituição Federal.

Segundo o § 5º do dispositivo acima, as duas missões iniciais das forças policiais pátrias, de garantia da segurança e da ordem pública, incumbem às Polícias Militares dos Estados da federação, visto que

52

incumbem às Polícias Militares dos Estados da federação, visto que 52 Brasília, v. 4, n. 2,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

Altair Aparecido Galvão Filho

menciona as funções de polícia ostensiva e a preservação da ordem pú- blica. Muito embora a hermenêutica não se trate de atividade estanque de equívocos, por vezes incapaz de encontrar com certeza a mente do legislador na confecção de cada artigo de lei ou norma constitucional, fica claro na hipótese em comento que foi pretendido pelo constituinte que as citadas polícias, tradicionalmente uniformizadas e doutrinadas pelos princípios militarísticos, fizessem a maioria das incursões, bem como as demonstrações de força e presença do Estado, para prevenção

da criminalidade e devolução do status de tranquilidade ao meio social. Como adiante se observará, não se trata de excluir das demais polícias

e mesmo de outras esferas administrativas o papel de forças ostensivas de prevenção dos ilícitos, mas sim de dotar um aparelho organizacio- nal como especificamente dedicado e preparado para a consecução em tempo integral dessa importante necessidade coletiva.

Necessário aqui fazer dois adendos, o primeiro sobre a situ- ação dos Policiais Militares que ocupam funções de Corpo de Bom- beiros, os quais exercem atividade de defesa civil, mas que em situa- ções diversas podem aparecer como atores diretos na manutenção da ordem pública e da segurança. Isso pode se dar quando em serviço observarem a ocorrência de crimes e tiverem obrigatoriamente que atuar por força do art. 301 do Código de Processo Penal; além do que, funcionam como reserva do Exército, da forma que determina o próprio art. 144 da Constituição cidadã, em seu § 6º, nesse caso sendo por óbvio passíveis de atuar em funções diferentes daquelas que lhe são típicas, em prol da manutenção da ordem em casos extremos.

Ainda no mesmo parêntese, como segunda observação, impe-

rativo abordar brevemente a situação da Polícia Rodoviária Federal,

a qual tem idêntica missão de atuar na manutenção da ordem e segu-

rança públicas, contudo em local específico, determinado constitucio- nalmente no § 2º do dispositivo acima; o mesmo se observa quanto

à Polícia Ferroviária Federal, ainda existente em nosso país mas en-

fraquecida pela diminuição de contingente e pela parca utilização de

fraquecida pela diminuição de contingente e pela parca utilização de Brasília, v. 4, n. 2, p.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

53

Missões Policiais e a Polícia Federal Brasileira

nossa malha ferroviária. O papel de ambas nas rodovias e ferrovias federais em nada discrepa daquele efetuado pelas Polícias Militares em seus Estados de origem, no entanto essas atuam sem a mesma limitação territorial. Observa-se ainda a importância que tem o pa- trulhamento das rodovias, o que inclusive inspira as Polícias Militares dos Estados, que geralmente formam companhias com semelhantes atribuições para execução do policiamento das rodovias estaduais.

Na sequência, no que tange à manutenção da ordem - lem- brando a doutrina acima referida de Jean-Claude Monet, que por seu turno comenta sobre as forças policiais na Europa, em realidade di- ferente da nossa -, pode-se notar que não existe uma corporação es- pecífica nacional ou nos Estados para a consecução dessa missão e que normalmente as diferentes Polícias Militares mantêm batalhões e seções próprias para isso, como é o caso das tropas de choque, po- lícias montadas, grupos anti-bombas e anti-sequestros etc. Há de se notar que se aplica a observação de Monet (2002, p. 111), segundo a qual muitas vezes esses batalhões ou polícias especiais podem ser alvos de críticas, pois desviam material humano e recursos da ativi- dade mais corriqueira de manutenção da segurança, o que no Brasil se afigura mais agudo, pois as Polícias Militares, criando divisões especiais para a recuperação da ordem, atuação em manifestações e outros eventos urbanos, realmente desviam policiais de uma mesma corporação, que tem como seu papel mais importante o policiamen- to ostensivo geral em nossas cidades.

Como exemplo, podemos tomar a Polícia Militar do Paraná, que em material informativo online sobre sua Companhia de Polícia de Choque apresenta as seguintes diretrizes e argumentos de existência e atuação, que se coadunam com o que até agora foi colocado:

Segundo a Lei Estadual n° 6774 de 08 de Janeiro de 1976, a LEI DE ORGANIZAÇÃO BÁSICA DA POLÍCIA MILITAR, a Companhia de Polícia de Choque é encarregada do policiamento ostensivo visando ao restabe- lecimento da ordem já perturbada, com o emprego de força. Sua ação será exer- cida nos eventos que requeiram atuação pronta e enérgica de tropa especialmente

54

que requeiram atuação pronta e enérgica de tropa especialmente 54 Brasília, v. 4, n. 2, p.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

Altair Aparecido Galvão Filho

instruída e treinada para missões de contraguerrilha urbana e rural; sempre que as necessidades exigirem, pode ser empregado em outros tipos de policiamento, a critério do Comandante-Geral. 1

Necessária, ademais, a seguinte colocação: a natureza do povo brasileiro, em momentos de normalidade e na maioria das regiões do

país, de não se inflamar nas dificuldades e de se abster de manifestações públicas veementes contra governos e outras vicissitudes sociais, faz com que a tradição europeia de gigantescas forças policiais de choque e tra- tamento de manifestações populares aqui não se repita, disso resultando que tal tipo de polícia de resguardo da ordem no Brasil esteja confinado

a pequenos grupos sobrevivendo nas estruturas das Polícias Militares.

Além do mais, se os grupos especializados já são alvos de duras críticas no velho mundo, onde sua utilização é menos rara, pois passam a maior parte do tempo em treinamento e aguardando por manifestações coleti- vas que geralmente sequer ocorrem, no Brasil, onde todas as camadas da população clamam por melhor atuação do Estado na esfera da segurança pública (em que pese sem muito conhecimento da real situação e se fur- tando em dar a parcela de contribuição exigida pelo Texto Maior), não poderia ser diferente, com o modesto desenvolvimento de tais grupos e

a inexistência de corporações policiais dedicadas apenas a esse propósito, uma vez que a prioridade tanto para o Governo quanto para a sociedade

é o trabalho policial ostensivo nas ruas.

Por fim, no que tange às polícias que se coadjuvam na manuten- ção da segurança e ordem públicas, resta comentar sobre as Guardas

Municipais, com criação facultada às municipalidades brasileiras pelo

§ 8º do art. 144 da Carta Magna. Muito embora o texto do disposi-

tivo em questão deixe claro que as Guardas criadas devem atuar na proteção dos bens públicos da cidade em que atuam, entende-se que não se pode afastar sua natureza de ente de segurança pública, até pela posição normativa no título que trata do assunto e também porque a utilização de fardamento e mesmo de armas de fogo, em grande parte

1 Disponível em: <http://www.policiamilitar.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=775>. Acesso em: 08/10/2010.

Acesso em: 08/10/2010. Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011. 55

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

55

Missões Policiais e a Polícia Federal Brasileira

das municipalidades que adotaram sua criação, implicam em sua atua- ção, mesmo que secundária, como executores de policiamento de se- gurança e responsáveis pela manutenção e recuperação da mesma em casos pontuais, frequentes no dia-a-dia de seus agentes. Mais uma vez, remonta o exemplo da cidade limítrofe de Foz do Iguaçu/PR, onde a

par da atuação das Polícias Militar, Civil e Federal e ainda da Receita Federal, na luta contra o descaminho e o tráfico de drogas, é habitual

a atuação da Guarda Municipal local, que não pode se omitir quando

em sua atividade se depara com flagrantes dos delitos mencionados, praticados em profusão na região.

Quanto à terceira tipologia policial, chamada de polícia judi-

ciária ou criminal, é executada pelas Polícias Civis dos Estados e, na esfera da União, pela Polícia Federal, conforme a Carta Magna de- termina no artigo acima transcrito. Essa dualidade de corporações existe em razão da divisão do Poder Judiciário em Estadual e Federal,

o que ocorre em razão da matéria. Contudo isso se dá apenas por

necessidade de organização, haja vista que os poderes e sujeições le- gais, tanto dos diferentes juízes quanto dos policiais civis e federal, são os mesmos, mudando apenas sua esfera de atuação, determinada pelo espectro de situações constitucionalmente definidas para cada

um desses aparatos de controle da criminalidade.

Apenas diferem as Polícias Civis de sua co-irmã Polícia Federal

à medida que esta recebe taxativamente da Constituição, no § 1º do

mesmo art. 144, funções expressas, quais sejam a de polícia judiciária da União, com a responsabilidade de combater certos crimes como

o tráfico de drogas, contrabando e descaminho, os delitos com re-

percussão internacional e interestadual, bem como a incumbência de executar ações de polícia aeroportuária, marítima e de fronteiras.

Anderson Daura explica com propriedade as razões para a reserva de matérias que compete à Polícia Federal, inspiradas pelo imperativo de prote- ger um núcleo de interesses a garantir a integridade do Estado brasileiro:

56

um núcleo de interesses a garantir a integridade do Estado brasileiro: 56 Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

Altair Aparecido Galvão Filho

Como se percebe, o constituinte, seguindo as regras de fixação de competências, enumerou de forma taxativa aquelas que são atinentes a um dos órgãos federais encarregados da Segurança Pública, objeto do presente, a Polícia Federal. As- sim, pela simples leitura do Texto Maior percebemos que estas atribuições são estrategicamente primordiais à própria manutenção: a) da integridade do Estado (repressão às infrações contra ordem política e social); b) da relação do Estado brasileiro com outros Estados ou com a comunidade internacional (repressão a crimes de repercussão internacional e a crimes previstos em tratados internacionais cuja execução ou resultado ocorra sob a égide das leis processuais nacionais); c) da preservação das fronteiras e do tráfego de pessoas e objetos nestes locais e; d) outros interesses da União aqui não expressamente mencionados, mas não menos importantes. (DAURA, 2009, p. 20-21).

Importa ainda comentar sobre as recentes discussões relativas

à prática de certos atos de investigação por outros órgãos que não os

dedicados à missão de polícia judiciária, ou seja, as Polícias Civis e a Po- lícia Federal. No momento atual a resolução de celeumas dessa ordem

é primordial para definir a posição constitucional dos órgãos de polícia

judiciária como indispensáveis para a efetivação do estado de direito e não meros órgãos repressores e auxiliares de protagonistas maiores.

O que se nota é que cada vez mais as instituições que atuam na seara criminal procuram assumir institutos que dizem respeito à atividade-fim das polícias judiciárias, em tentativa de ganharem mais importância no sistema de persecução criminal pátria. Uma das razões para a parca ou ausente defesa das missões e prerrogativas das polícias pátrias está na incipiente literatura e ciência policial, o que dificulta as justificativas das corporações ou mesmo do Estado na manutenção ou atribuição de novos poderes às forças de segurança. Essa é uma luta de todos os policiais e estudiosos do tema, assumindo o desafio de inserir no meio acadêmico a experiência de campo e as razões dos policiais que justificam sua existência e as práticas por eles esposadas.

Como exemplo das tentativas de assunção de funções que somente

cabem em nossa ordem jurídica às Polícias Civis ou à Polícia Federal, conforme

o objeto do crime, impende trazer à baila as oportunidades recentes em que se

levantou a hipótese de lavratura pela Polícia Militar de Termos Circunstancia- dos criminais, da Lei nº 9.099/95 e mesmo de Autos de Prisão em Flagrante

criminais, da Lei nº 9.099/95 e mesmo de Autos de Prisão em Flagrante Brasília, v. 4,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

57

Missões Policiais e a Polícia Federal Brasileira

Delito. Guardado o devido respeito que merecem os combativos integrantes das diversas Polícias Militares brasileiras, não se pode entender como correto tal aumento de atribuições dos milicianos, a uma por interpretação meramente gramatical, eis que o art. 304 do Código de Processo Penal e seu § 1º determi- nam que a autoridade competente deve lavrar o Auto respectivo. A duas, na mesma esteira e, em que pese que o art. 301 do mesmo diploma adjetivo reze que a autoridade e também seus agentes devam prender pessoas em flagrante de crime, é de se notar que a lavratura do Auto em questão é tratada de forma es- pecífica no citado art. 304 e seguintes, onde fica claro que a figura do delegado de polícia, com formação jurídica mensurada em concurso público próprio e afeito às rotinas de lógica e ao procedimento da investigação criminal, é o mais indicado para presidir o ato que resulta em grave constrição excepcional, sem a necessidade de ordem judicial para tanto.

Em caso de Auto de Prisão em Flagrante Delito lavrado dire- tamente por policiais militares, decidiu no mesmo diapasão a Justiça Federal de primeiro grau catarinense:

Trata-se de comunicação de prisão em flagrante de J. F. S. 2 , pela prática, em tese, do delito previsto no art. 334, do Código Penal. O comunicado foi lavrado por 'autorida-

de de polícia administrativa', integrante dos quadros da Polícia Militar (evento 1).

Após transcrição do art. 144 da Carta Magna, prossegue o magistrado prolator:

A Constituição foi clara ao reservar às polícias civil e federal as atividades

de polícia judiciária, responsáveis pela apuração das infrações penais e de sua autoria, consoante dispõe o artigo 4º, do Código de Processo Penal, e às polícias militares as funções de polícia ostensiva e a preservação da ordem pública (art. 144, §§ 1º, 4º e 5º). Além disso, delegou ao legislador o funcionamento dos órgãos responsáveis a fim de garantir a eficiência das atividades (art. 144, § 7º).

A distinção entre polícia judiciária e repressiva não é leviana e tem reflexos profundos na estrutura acusatória do processo destinado a apurar o ilícito criminal e a garantir os direitos individuais do investigado, tratado como sujeito e não mais como objeto da ação estatal.

Optamos por apresentar apenas as iniciais do nome do indivíduo preso.

2

58

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

Altair Aparecido Galvão Filho

Ainda, com esteio na legislação processual, continua o Juiz monocrático:

O Código de Processo Penal também foi cristalino ao dizer que “a polícia judiciária

será exercida pelas autoridades policiais no território de suas respectivas circunscri- ções e terá por fim a apuração das infrações penais e da sua autoria” (art. 4º).

O diploma processual vincula o termo autoridade policial ao exercício das funções investigativas

inerentes ao inquérito policial, que podem ser iniciadas com a prisão em flagrante (art. 8º).

Conclui, por fim, o magistrado, para ao final determinar “o relaxamento imediato da prisão em flagrante, nos termos do art. 5º, LXV, da Constituição”:

Portanto, nos casos de prisões decorrentes de flagrante delito, a polícia militar deve, no exercício da atividade repressiva, apresentar o preso à autoridade competente para o exercício das funções de polícia judiciária e, portanto, para a lavratura do auto de prisão em flagrante, nos termos do art. 304, do Código de Processo Penal.

E, em razão da interpretação sistêmica dos artigos 4º, 6º e 304, do Código

de Processo Penal, à luz do artigo 144, da Constituição, entenda-se por au-

toridade competente os ocupantes do cargo de delegado de polícia de carreira, referidos pelo § 4º, desse dispositivo.

Não se trata de formalidade dispensável ao bel prazer do intérprete.

A

formação dos delegados de polícia, acadêmica e decorrente de treinamen-

to

específico, é imprescindível para o adequado desempenho das atividades

descritas pelos artigos 6º e 304 da lei processual penal (como, por exemplo,

a oitiva de testemunhas e do ofendido, o interrogatório do acusado, o reco-

nhecimento de pessoas e coisas, a realização de acareações e determinação de perícias) e para o resguardo das garantias constitucionais do flagrado. 3

A expressão autoridade policial ainda aparece no art. 69, caput da Lei nº 9.099/95, pelo que se entende mais uma vez, por representar sinal de inserção do dispositivo no sistema de persecução criminal de nosso país, que a mesma solução se impõe com a lavratura de todos os Termos Circunstanciados pelos delegados de polícia de carreira, sejam

3 Decisão exarada em 03/02/2010, nos Autos de Comunicação de Prisão em Flagrante nº 5000011- 41.2010.404.7211/SC (Processo Eletrônico), Juiz Subst. Eduardo Correia da Silva. Disponível na internet em: <http://www3.jfpr.jus.br/consulta/acompanhamento/resultado_pesquisaphp?txtValor

=50000114120104047211&selOrigem=SC&chkMostrarBaixados=&todasfases=S&selForma=N

U&todaspartes=&hdnRef Id=&txtPalavraGerada=>, link em Despacho/Decisão de 03/02/2010 às 19:24. Acesso em 14/10/2010.

link em Despacho/Decisão de 03/02/2010 às 19:24. Acesso em 14/10/2010. Brasília, v. 4, n. 2, p.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

59

Missões Policiais e a Polícia Federal Brasileira

da esfera estadual ou federal. Muito embora em sua atuação cotidiana os Policiais Militares façam uso de noções jurídicas quando da prisão de indivíduos e do cumprimento de outros misteres, somente a autoridade policial tem preparo jurídico aferido mediante rígido concurso público, além de originalmente atuar em diversos tipos de investigações, em que inclusive postula por medidas preparatórias criminais, portanto se mos- tra a mais indicada para, da mesma forma que nos flagrantes de crimes de maior potencial ofensivo, realizar a precisa adequação penal possí- vel, de acordo com a situação urgente apresentada pelos condutores em plantão policial. Trata-se de garantia inclusive para o detido, que vai ter a situação em que está envolvido examinada por um profissional mais afeito às questões criminais que se fizerem surgir.

Outro exemplo de ações de outros órgãos, que buscam diminuir

ou abalar a legitimidade e exclusividade da polícia judiciária para investigar na fase pré-processual da persecução penal, vem a ser o relativo à possibi- lidade de investigação pelo Ministério Público. Muito embora o tema não

se encaixe no espectro do presente trabalho, por exceder seus limites, insta apenas colocar que deve ser questão analisada sem as paixões atuais, sem que os envolvidos, mormente integrantes da polícia e membros do parquet,

se digladiem apenas pela ocupação de uma faixa de poder que se disputa,

mas sim sendo desejável que a discussão ocorra de forma técnica, à luz da Constituição, que deve ser o guia para a resolução do problema.

Importa ainda colocar que a posição de interpretação adotada em nosso país pode ser dada pelo Supremo Tribunal Federal, guardião da Lei Maior, que até o momento da elaboração desse trabalho não

definiu de forma final e categórica sobre o poder do Ministério Público investigar. Em muitas decisões em Plenário e em suas Turmas, todavia,

o Pretório Excelso vem sinalizando pela possibilidade do Parquet se

enveredar na preparação da ação penal, em casos especiais quando sua participação é requerida, ou quando necessária para a complementação das investigações levadas a termo pela Polícia. É o que se observa no

60

investigações levadas a termo pela Polícia. É o que se observa no 60 Brasília, v. 4,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

Altair Aparecido Galvão Filho

Habeas Corpus nº 91661 4 , cuja ementa deixa expresso que “É perfeita- mente possível que o órgão do Ministério Público promova a colheita de determinados elementos de prova que demonstrem a existência da autoria e da materialidade de determinado delito.”

Contudo, a decisão acima mencionada apresenta um contra- ponto ao anteriormente aventado, ao decretar que:

Tal conclusão não significa retirar da Polícia Judiciária as atribuições previstas consti- tucionalmente, mas apenas harmonizar as normas constitucionais (arts. 129 e 144) de modo a compatibilizá-las para permitir não apenas a correta e regular apuração dos fatos supostamente delituosos, mas também a formação da opinio delicti.

Assim, é de se entender essa corrente como a mais acertada, segundo a qual, no ordenamento pátrio como se apresenta hodier- namente, não se pode vislumbrar o Ministério Público presidindo inquéritos policiais originariamente confiados às polícias judiciárias, ou seja, exercendo a atividade de modo a alijar do procedimento as forças de segurança constitucionalmente criadas para tanto. Deve se tratar a investigação pelo Ministério Público, portanto, fenô- meno possibilitado apenas em certos casos, por interpretação da Constituição de 1988 que possibilita sua atuação isolada na seara pré-processual quando em jogo a efetividade da justiça criminal em casos especiais. Isso porque, como foi colocado acima, a Carta Mag- na elaborou sistema de justiça criminal que precisa ser respeitado quando em estado de normalidade institucional, para funcionamen- to de nosso modelo acusatório com o devido respeito às garantias dos cidadãos, resultante da divisão dos atores que de maneira inde- pendente investigam, interpõem a ação penal, além de realizarem o julgamento e a defesa do acusado.

Por fim, no que diz respeito à quarta missão policial em nosso país, aparece a Agência Brasileira de Inteligência - ABIN como opera- dora maior da polícia de informações. A Lei nº 9.883, de 1999, instituiu

4 Supremo Tribunal Federal, Habeas Corpus nº 91661, 2ª Turma, Relatora Ministra Ellen Gracie, julgado em 10/03/2009, publicado no DJE de 03/04/2009, decisão unânime.

em 10/03/2009, publicado no DJE de 03/04/2009, decisão unânime. Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

61

Missões Policiais e a Polícia Federal Brasileira

o Sistema Brasileiro de Inteligência, o qual “integra as ações de planeja- mento e execução das atividades de inteligência do País, com a finalidade de fornecer subsídios ao Presidente da República nos assuntos de inte- resse nacional” e criou a citada Agência, que por sua vez é destinada pelo diploma citado a “planejar, executar, coordenar, supervisionar e controlar as atividades de inteligência do País, obedecidas à política e às diretrizes superiormente traçadas nos termos desta Lei”.

Ainda incipiente no Brasil, a polícia de informações, ao mesmo tempo em que luta por estruturação e desenvolvimento de suas ativi- dades, passa em nosso país por dificuldades de legitimação e aceitação popular, haja vista o preconceito desenvolvido desde os anos de chum- bo, com a pejorativa expressão “arapongagem” aplicada a todo tipo de atuação velada do Estado para abastecer-se com informações, o qual até mesmo progrediu negativamente com os recentes escândalos no Gover- no Federal, onde chegaram à mídia denúncias de espionagem que estaria ocorrendo nos palácios e sedes de Ministérios de Brasília, com escopo de uso partidário dos elementos de inteligência colhidos.

Quanto às polícias tradicionais, no caso as Polícias Militar, Ci- vil, Federal e Rodoviária Federal, não se pode enquadrar suas ativida- des como colhidas na definição de polícia de inteligência antes apon- tada, retirada da obra de Jean-Claude Monet (2002). Isso em especial pelo direcionamento das informações obtidas na atividade, que como presente na citada Lei nº 9.883/99 vem a ser de fornecer à presidência subsídios para tratamento de assuntos de interesse nacional, o que não se observa, pelo menos em primeiro plano, nas polícias citadas. Os escritórios de inteligência policial da Polícia Federal e das diversas Polícias Civis trabalham com informações para o combate ao crime em suas localidades, tendo objetos definidos e sempre com o desígnio de preparar material de instrução a futura ação criminal, que preten- de proporcionar a condenação dos criminosos acompanhados. Já nas polícias da área da segurança e ordem pública, quando há alguma divisão de inteligência (como é o caso da célebre P2, existente em al-

62

de inteligência (como é o caso da célebre P2, existente em al- 62 Brasília, v. 4,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

Altair Aparecido Galvão Filho

gumas das Polícias Militares), essa atua com o objetivo de auxiliar em seu campo de atividade, antecipando movimentos de criminosos ou organizações que podem representar perigo à normalidade da socie- dade que buscam proteger. De tal maneira, em ambos os casos, não têm o mesmo móvel que a ABIN, por exemplo, preza em seu dia-a- dia, subordinada à Presidência da República e dedicada a fortalecer sua agenda com o material que se esforça em produzir.

3. a PolÍcia FEdEral cuMPrindo as MissÕEs dE PolÍcia

Delineadas as missões de polícia segundo a doutrina atual e brevemente apresentadas as principais organizações responsáveis pelo cumprimento de cada uma delas no Brasil, resta ao presente trabalho perquirir quando a Polícia Federal se conduz de forma a cumprir, se não de forma principal, mas ao menos incidental, cada uma das tipologias policiais aqui explanadas.

Inicialmente, abrimos pequeno parêntese para observar que não será analisada nesse capítulo a função de polícia judiciária por parte de Polícia Federal. Dessa forma, não há que se fazer muitas con- siderações sobre o cumprimento da missão de polícia judiciária pela Polícia Federal, pois cotidianamente a maioria de seu pessoal atua na condução de inquéritos policiais e de medidas outras de polícia judici- ária, sendo essa tipologia definida como sua atividade-fim, conforme o citado art. 144 da Carta Magna. Ademais, de ver-se que nesse que- sito a força de segurança federal trabalha, por vezes, com abrangência ainda maior do que a determinada pela Lei Maior.

Esse fenômeno se apresenta em nosso ordenamento em fun- ção da Polícia Federal atuar na sua competência de investigar os cri- mes que atentam contra os interesses ou patrimônio da União, con- forme o § 1º do supracitado artigo da Constituição de 1988 e, em adição, acaba investigando delitos que originalmente não seriam de sua atri-

acaba investigando delitos que originalmente não seriam de sua atri- Brasília, v. 4, n. 2, p.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

63

Missões Policiais e a Polícia Federal Brasileira

buição e sim das Polícias Civis. Isso porque em crimes conexos, prevalece a competência da Justiça Federal, atraindo a causa para o aparato judicante federal, hipótese em que a Polícia Federal como polícia criminal da União atua na investigação de fatos que, isoladamente, seriam investigados pe- las autoridades estaduais. Nesse sentido, a Súmula nº 122 da Jurisprudên- cia do Superior Tribunal de Justiça, que de forma expressa propugna que “Compete à Justiça Federal o processo e julgamento unificado dos crimes conexos de competência federal e estadual, não se aplicando a regra do art. 78, II, 'a' do Código de Processo Penal”. 5 Segundo a lição de Mirabete, esse “É também o entendimento do Supremo Tribunal Federal, que dá prevalência à competência da Justiça Federal, que tem sede constitucional, em detrimento da Justiça Comum Estadual, que é residual” (1998, p. 181). Outrossim, como adiantado acima, a reboque desse entendimento, hoje consagrado e, em razão da competência definida para a Justiça Federal, a Polícia Federal vem a atuar como polícia judiciária nos casos em que um ou mais crimes conexos são federais, expandindo seu espectro de atuação sobre os demais delitos que não seriam de sua responsabilidade.

Feita a constatação acima, de que se afigura predominante a destinação constitucional da Polícia Federal como polícia judiciária da União, é de se prosseguir para considerar a função policial de prover segurança à população. Malgrado essa afirmação, porém, não se vis- lumbra que essa seja apenas uma missão secundária da força federal em comento. Isso porque a contribuição do citado órgão para a ga- rantia da segurança pública, se não ocorre sempre de maneira eviden- te e com prioridade em sua agenda, ocupa posição relevante em quase todos aspectos do cotidiano de seus integrantes.

Primeiramente e observando sua faceta mais óbvia, a atuação da polícia federal, mesmo na função de polícia judiciária e em outros misteres do cotidiano funcional, representa com a visibilidade de seus resultados importante instrumento de prevenção de crimes, que em

5 Disponível na internet em: <http://www.stj.jus.br/SCON/sumulas/toc.jsp?tipo_visualizacao=RESUMO&livre =%40docn&&b=SUMU&p=true&t=&l=10&i=350>. Acesso em 18/10/2010.

64

Acesso em 18/10/2010. 64 Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

Altair Aparecido Galvão Filho

última instância dissuade novos criminosos em seus planos espúrios e desestimula delinquentes mais experimentados de tentarem novas empreitadas indevidas. O professor luso Manuel Valente, discorrendo sobre o assunto, assevera com precisão:

a prevenção criminal, “incluindo a dos crimes contra a segurança do Estado”

- previstos e punidos pelos artigos 308.º e ss. do CP - é função primordial da POLÍ- CIA e apresenta-se como instrumento funcional para garantir a segurança interna, ou seja, esta apenas se garante eficiente e eficazmente se forem evitadas as violações às regras do Estado de direito democrático, quando aquelas se verificarem, se desco- brirem e responsabilizarem os seus agentes (VALENTE, 2009, p. 115).

] [

Obviamente, essa particularidade da aura preventiva que en- volve as ações policiais não é exclusiva da Polícia Federal, eis que é observada no âmbito de todas as Polícias Civis da federação brasi- leira. Contudo, a partir do começo desse milênio, a prática da polí- cia judiciária da União de deflagrar megaoperações policiais tendo como escopo diferentes tipos de delitos, em especial aqueles ligados à corrupção e às lesões aos cofres públicos, bem como o tráfico de drogas interestadual e mesmo internacional, elevaram a um nível mais agudo o poder preventivo de suas investigações e das medidas policiais e judiciais delas decorrentes. Felizmente, a organização ini- cialmente adotada pela Polícia Federal vem sendo encampada pelas coirmãs da esfera estadual, com claros benefícios para a sociedade, eis que o combate aos criminosos vem ocorrendo de forma mais organizada e metódica, assim como com maiores graus de contun- dência e precisão na localização dos autores, dos produtos e coro- lários do crime, com produção de provas mais qualificadas e a final condução dos suspeitos às barras dos tribunais.

Em seguida, importa relembrar o papel da Polícia Federal na seara administrativa em nosso país, o qual muito embora não este- ja especificado na Constituição Federal, tradicionalmente vem sendo ocupado e exercido com combatividade pelo órgão. Indo de encontro com a tradição da maioria dos países, como se pode visualizar, v. g., no caso dos Estados Unidos da América, onde existem “polícias” e

no caso dos Estados Unidos da América, onde existem “polícias” e Brasília, v. 4, n. 2,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

65

Missões Policiais e a Polícia Federal Brasileira

agências específicas para cada um dos temas relevantes, tais como

a fiscalização sobre produtos químicos, armas de fogo e munições,

segurança privada, emissão de passaportes e registro de estrangeiros, representação da INTERPOL, além de outros, no caso brasileiro to- das essas atribuições são colecionadas por uma só força, a mesma que ostenta também a posição de polícia judiciária da União.

Na mesma esteira, portanto, em tal modalidade de atuação

a Polícia Federal contribui para manter a segurança no seio da so-

ciedade, de forma secundária como colocamos acima, à medida que mantém controle sobre a aquisição, venda e depósito de insumos químicos, os quais podem ser usados para fabricação e refino de tó- xicos, além da relação óbvia que os mesmos guardam com a confec- ção de explosivos; também repercute da mesma maneira sua atribui- ção administrativa, gerando garantia de segurança aos cidadãos por meio de uma atuação mais uniforme do Estado, quando exerce as funções de bureau competente para registro de armas e munições, gerindo o Sistema Nacional de Armas - SINARM, recente conquis- ta que proporcionou a unificação do cadastro de armas de fogo em nosso território, mister que antes cabia a cada uma das Polícias Civis dos Estados. Igualmente, no controle da segurança privada

a Polícia Federal realiza controle sobre empresas e vigilantes, que

usam de armas de fogo e outros recursos para prover segurança adi- cional a corporações e instalações privadas, impedindo que pessoas não qualificadas ou com intenções perversas detenham esse tipo de poder; ainda, figurando como representação da INTERPOL e emitindo passaportes, realizando rotinas de migração e controle de estrangeiros, o órgão impede a entrada e permanência de indivíduos estrangeiros irregulares ou com restrições na ordem internacional, bem como faz o municiamento das polícias e de seções do governo em geral com informações para a persecução e cumprimento de ordens de prisão contra estrangeiros condenados ou mundialmente procurados pelo envolvimento com delitos graves em investigação.

66

procurados pelo envolvimento com delitos graves em investigação. 66 Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

Altair Aparecido Galvão Filho

Entretanto, insta considerar, com base no fundamental art. 144 da Carta Magna, que ao lado da principal função da Polícia Fe- deral no inciso IV, de exercer com exclusividade a polícia judiciária da União, outra de suas atribuições e não menos importante, é a de prover a segurança pública por meio do policiamento das fronteiras, dos aeroportos e do espaço marítimo brasileiro, conforme decreta o inciso III do mesmo dispositivo constitucional. De certo não deter- mina a Lei Maior que a Polícia Federal atue apenas na investigação de crimes ocorridos nesses ambientes, mas sim que exerça policiamento ostensivo em tais locais e empregue a força do Estado, se necessário, para o retorno do status quo ante ao cometimento de delitos ou de movimentos tendentes à sua prática.

Nesse diapasão, comenta Anderson Daura:

a Polícia Federal se reveste, por vezes como polícia preventiva (atuação como polícia

marítima, aeroportuária e de fronteiras) atuando na restrição e fiscalização de atividades e outras, na sua maioria, como polícia judiciária (investigação de crimes) que, via de regra, vão a julgamento perante a Justiça Federal de 1º grau (DAURA, 2009, p. 22).

] [

Portanto, contrariando a tendência das Policias Civis dos Es- tados, entende-se a Polícia Federal como um órgão híbrido, que per- segue a realização das funções de polícia de segurança e de polícia judiciária, ambas como missões principais em sua atuação cotidiana. Essa realidade se expõe, por exemplo, pela atual existência das Dele- gacias de Polícia Marítima (DEPOM) na corporação, as quais foram concebidas em Unidades localizadas em pontos sensíveis de nosso território, situadas no litoral ou onde existem lagos ou rios relevan- tes, como são os casos das cidades de Foz do Iguaçu/PR, Guaíra/ PR, Santos/SP, Rio de Janeiro/RJ e Itajaí/SC. Essas chamadas dele- gacias não possuem obrigatoriamente inquéritos e investigações em andamento e não aguardam a prática de crimes para tão-somente apurar os culpados, uma vez que rondam o território de atuação, munidos de viaturas aquáticas e armamento considerável, buscando prevenir o tráfico de drogas e armas, contrabando e descaminho, além de uma série de outros crimes passíveis de ocorrerem nas res-

além de uma série de outros crimes passíveis de ocorrerem nas res- Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

67

Missões Policiais e a Polícia Federal Brasileira

pectivas regiões. Com esse espectro de atuação ainda diferenciado daquele de uma organização somente dedicada à polícia judiciária, essas Unidades confirmam a natureza constitucional também de polícia de segurança que a Polícia Federal ostenta após 1988. Do mesmo modo se pode notar, ainda que sem a existência em todas as cidades de Delegacias especializadas, que a atuação da polícia da União nos aeroportos é igualmente destacada e difere da polícia do tipo criminal ou judiciária, lidando não somente com crimes já consumados, mas igualmente com ameaças ainda não acontecidas e também com a segurança dos passageiros mediante a fiscalização das instalações e a presença ostensiva de seus agentes, em tais locais de evidente importância, dada a circulação nacional e muitas vezes internacional de bens e pessoas.

Em seguida aparece a função policial de manutenção e recu- peração da ordem pública. Diferentemente da modalidade anterior, em que pelo próprio texto da Carta Maior se nota a vocação e o mister da Polícia Federal em prover a segurança pública de forma preventiva, em algumas áreas selecionadas pelo texto constitucional, no caso da polícia de ordem pública isso não se observa. Abra-se pa- rêntese para lembrar que alguns estudiosos entendem que a polícia de segurança e a de manutenção da ordem se entremeiam, formando uma tipologia única de atuação policial; para esses pesquisadores o fato de atuar nas fronteiras, espaços marítimos e aeroportos já en- quadraria a Polícia Federal como força de prevenção com o cumpri- mento da missão de segurança em questão e também de recuperação da ordem pública, ao fazer-se presente nos citados ambientes.

Como não adotamos a visão do parêntese acima, podemos observar que mesmo nas modalidades de policiamento preventivo do art. 144, inciso III da Constituição cidadã, a corporação federal em comento somente de forma secundária trabalha na recuperação da ordem pública, ou como polícia de ordem. Isso porque, confor- me a precisa definição de Monet comentada no início desse estudo,

68

me a precisa definição de Monet comentada no início desse estudo, 68 Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

Altair Aparecido Galvão Filho

a polícia de ordem em sua acepção é a polícia dedicada a confron-

tos com movimentos hostis, especializada e sempre em treinamen- to para pronto emprego. Apenas como corolário de sua obrigação Constitucional de defender os espaços mencionados no inciso III do dispositivo e pela obrigação de seus agentes de agirem pronta-

mente em defesa da sociedade, os policiais em serviço nas frontei- ras, aeroportos e espaços marítimos tendem a atuar contra ameaças

à ordem pública, recuperando-a em caso de necessidade e quando

possível, de acordo com o caso concreto. Até porque, infelizmen- te, o efetivo da Polícia Federal não apresenta números passíveis de permitir a formação de divisão ou grupo diferenciado, presente em todo território e sempre concentrado para atuar somente nessas oportunidades. De novo, cabe como exemplo da participação da Polícia Federal como força que recupera a normalidade do meio so- cial nos casos em que ocorrem manifestações ou perturbações po- pulares nas faixas de fronteira brasileiras, como é o caso célebre das várias oportunidades em que compristas e mototaxistas entenderam por bem interditar a Ponte Internacional da Amizade, na fronteira Brasil-Paraguai, tentando fazer valer suas reivindicações e protes- tando contra a fiscalização das forças de segurança; nesse momen- to, a organização presente no local e com atribuição mais próxima para resolver a situação é a Polícia Federal, que mesmo sem possuir divisão dedicada a esse mister deve se socorrer de todos os homens disponíveis, com treinamento específico ou não, demonstrando o poder do Estado contra os manifestantes que praticavam ilícito ao alijar os cidadãos de ambos os países da divisa internacional de exer- cerem o direito de circular no local.

Mesmo considerando esses aspectos, a Polícia Federal, como as polícias civis, mantém em sua estrutura apenas uma unidade de pronto emprego, o Comando de Operações Táticas - COT, localiza- do na estrutura do Departamento sob a Diretoria-Executiva - DI- REX. A doutrina e as práticas do grupamento são semelhantes aos das unidades táticas europeias, diferindo nesse caso pois atende todo

das unidades táticas europeias, diferindo nesse caso pois atende todo Brasília, v. 4, n. 2, p.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

69

Missões Policiais e a Polícia Federal Brasileira

o território nacional e mormente é empregado em casos de opera-

ções policiais, quando envolvidos alvos de alta periculosidade e com

a existência de certo tempo de planejamento e da possibilidade de

deslocamento de integrantes do grupo para atuação em data previa- mente marcada. Como narrado acima, nas fronteiras e em outros pontos sensíveis, como em aeroportos e portos, quando de manifes-

tações e situações de conflito não previstas, a Polícia Federal dispõe apenas dos servidores lotados no local, que devem agir com a máxi- ma rapidez para assegurar a efetividade das medidas e também que

a demonstração de força do Estado seja contundente e eficiente.

Nada impede, porém, que o conhecimento e táticas do COT sejam repassados periodicamente aos policiais lotados nas mais diferen- tes localidades, para que em situações onde geralmente é inviável o deslocamento do grupo de elite, os demais policiais possam agir de forma a debelar os conflitos urgentes. Ademais, destaque-se que é prática das Policiais Civis dos Estados, que também têm natureza de polícias judiciárias, a manutenção de grupos semelhantes, o que ocorria antes mesmo da popularização da utilização do COT pela força federal. Os mais conhecidos são o Grupo de Operações Es- peciais - GOE, da Polícia Civil de São Paulo, o agrupamento Tático Integrado de Grupos de Repressão Especiais - TIGRE, da Polícia

Civil paranaense e mesmo a Coordenadoria de Recursos Especiais - CORE, da Polícia Civil do Rio de Janeiro, que se trata de estrutura

superior que abriga vários grupos especializados, entre eles o Servi- ço de Operações e Táticas Especiais, a Seção de Operações Táticas,

o Grupo de Operações Especiais, a Seção de Operações Aéreas, a Seção de Operações Marítimas e Ribeirinhas, além de outros.

Aqui cabe atentar para o tema da participação da Polícia Fe- deral no policiamento de grandes eventos, como se deu com o Pana- mericano de 2007 realizado no Rio de Janeiro e que se prevê para a Copa do Mundo FIFA de 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016, tam- bém na capital fluminense. Em um misto de polícia de segurança ou preventiva, quando atua em atividades de exame pŕevio de locais de

70

ou preventiva, quando atua em atividades de exame pŕevio de locais de 70 Brasília, v. 4,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

Altair Aparecido Galvão Filho

reuniões e competições, ou quando faz a segurança de equipes es- portivas e altos dignitários e que ainda lida com a sempre frequente ameaça de conflitos envolvendo grupos de torcedores, em que é de- mandada a atuação de polícia de ordem, essa participação da força federal em comento se afigura como parte de questão mais ampla, não sendo abrangida pelo objeto do breve trabalho, mas que desde

já demonstra como a Polícia Federal tem cada vez mais atribuições

no ordenamento brasileiro.

Por derradeiro, no que toca à missão policial de inteligência,

em sua forma clássica, com o fornecimento de subsídios para as ações

e estratégias do governo - como comentado acima para o caso da

ABIN no Brasil -, a Polícia Federal seguramente não tem esse esco- po quando realiza seus levantamentos, acompanhamentos de alvos

e relatórios nessa esfera. A força policial em questão, assim como

suas coirmãs da Polícia Civil, atuam na área de inteligência apenas para subsidiar sua ação como polícia judiciária, ou seja, com o móvel de iniciar um trabalho a culminar em inquérito policial e por fim de instruir processo judicial capaz de prover as condenações de pessoas que comprovadamente praticaram delitos. Assim se dá o trabalho de inteligência do órgão, tanto nos Núcleos de Inteligência das diferen- tes Delegacias pelo Brasil, quanto nas Superintendências Regionais.

Nem mesmo secundariamente podemos entender que a produção de conhecimento e provas pela Polícia Federal, mediante o trabalho dos agentes lotados em seus órgãos de inteligência, pode servir de subsídio ao governo e seus programas, uma vez que esse auxílio ao poder vigen- te obrigaria o prisma da atividade de polícia ser outro naqueles setores, qual seja um prisma político, mais preocupado com atividades nocivas à ordem política do que com a prática de eventuais crimes. Apenas no caso de detecção de alguma atividade subversiva ou que atente contra a ordem do Estado e instituições (por exemplo, descoberta de organização se- paratista em interceptação telefônica autorizada pela Justiça, por outros

em interceptação telefônica autorizada pela Justiça, por outros Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

71

Missões Policiais e a Polícia Federal Brasileira

motivos) a atuação preventiva de polícia judiciária pode ser feita, com o consequente conhecimento das áreas competentes do Executivo e pro- teção dos programas e da normalidade do governo daquele momento. Contudo, seja Polícia Federal ou mesmo as Polícias Civis dos Estados, nunca podem agir desde início com esses objetivos.

Fechando esses breves comentários, em que foram apontadas

as funções de polícia levadas a efeito pela Polícia Federal brasileira, algumas delas apenas de forma reflexa, faz-se necessário argumen- tar que muito embora cada polícia em nosso ordenamento tenha seu papel definido, para a população, cliente último do sistema de se- gurança cujo funcionamento todos pretendem proporcionar, pouco importa quais dos atores se incumbem de cada missão ou excerto da atividade de manter a paz social. De tal modo, é importante lembrar

a pertinente lição do mestre Álvaro Lazzarini, resgatada por Emer-

son Barbosa, para quem “O que determina, portanto, o exercício de uma função de polícia por uma organização policial não é o rótulo que a instituição ostenta, mas atividade de polícia em si exercida” (2010, p. 195). Portanto, importa administrativamente para cada or- ganização e para a Polícia Federal atuar em suas esferas de atribui- ção, no entanto o que interessa ao cidadão é que a segurança seja

mantida e recuperada a ordem pública, sempre que algum ator ou fenômeno lhe façam frente.

conclusão

Com o término do trabalho em mesa vislumbramos que aos governantes e, em última instância, ao cidadão e à sociedade como um todo, em especial nos centro urbanos, pouco importa quais são e

quem exerce as atividades das diferentes tipologias policiais. Contu- do, ao aparato estatal é necessário que exista especialização, estudo

e conhecimento sobre o papel de cada ente do sistema de segurança, para que a árdua missão de prover tão caro estado de normalidade seja cumprida com precisão.

72

de prover tão caro estado de normalidade seja cumprida com precisão. 72 Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

Altair Aparecido Galvão Filho

Feito o esclarecimento do que são as missões de polícia, amparado na doutrina esposada por Jean-Claude Monet, busca-se explicitar que a compre- ensão dos papéis cumpridos pelas forças de segurança pode ajudar as organi- zações e os policiais que elas integram a realizar seus misteres de forma mais precisa e especializada. Assim as cúpulas das corporações podem vislumbrar, como demonstrado no âmbito da Polícia Federal, que em muitas oportuni- dades, em locais e momentos em que possuem atuação exclusiva, as polícias coirmãs podem assumir, ainda que secundariamente, excertos das missões policiais que originalmente cabem a outras forças de segurança. E como foi adiantado acima, à sociedade não diz respeito a divisão de tarefas policiais, mas interessa que o meio social reste resguardado; por isso é primordial que todos os entes policiais saibam dessa particularidade e estejam preparados para agir de acordo, atendendo aos anseios do meio social.

Nesse ponto o estudo sobre a Polícia Federal se mostra válido, pois com a larga extensão territorial do teatro onde atua e a abrangência das matérias policiais e administrativas que lhe incumbem, se mostra como organização que praticamente cumpre todas as missões policiais, eis que exerce com exclusividade a Polícia Judiciária da União, atua no policiamen- to de segurança em aeroportos, no ambiente marítimo e nas fronteiras, onde eventualmente resguarda a ordem pública contra abalos e manifesta- ções coletivas, atuando também como bureau de inteligência permanente - muito embora sem motivação política e de governo. O órgão estudado mostra, portanto, como deve ser a polícia que atende à sociedade de forma completa, do modo que deseja a população, o que explica os altos índices de aprovação nas recentes pesquisas sobre a corporação.

ALTAIR APARECIDO GALVÃO FILHO

Delegado de Polícia Federal desde 2006, atualmente lotado em Maringá/PR. Também atuou por dois anos na Delegacia de Polícia Federal em Foz do Iguaçu/PR, onde presidiu in- vestigações de crimes previdenciários, descaminho e tráfico internacional de entorpecentes.

E-mail: galvao.aagf@dpf.gov.br

tráfico internacional de entorpecentes. E-mail: galvao.aagf@dpf.gov.br Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011. 73

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

73

Missões Policiais e a Polícia Federal Brasileira

POLICE TASKS AND BRAZILIAN FEDERAL POLICE

ABSTRACT

Police missions can be defined in four categories: security police, order police, judicial or criminal police and intelligence police. In Europe, where the police appeared as a defense force of state and society, there are organizations with more defined roles, each for the fulfillment of one type of police mission, but that is not what happens in Brazil. While Military Police of the brazilian states are left with almost all the tasks of security and order police, the Civil Police work as judicial police, in relation to crimes that not taunt the goods or services of the Union. Intelligence police, in its classic form as a subsidy for government programs, is exer- cised by the Brazilian Intelligence Agency - ABIN. In turn, the Federal Police is presented with the clear constitutional task, determined by Art. 144 of the Brazilian Constitution, to exercise sole judicial police on federal matters, yet the same article gives it the duty of security police in specific areas such as airports, maritime and border areas. In addition the corporation does also order police in the above places, where it works mostly in isolation, recovering the normal social environment when necessary, and works as an intelligence police on the behalf of their investigations, although with no political motivation.

Keywords: Police missions. Public safety. Role of police forces. Brazil's Federal Police.

Referências

BARBOSA, Emerson Silva. Funções de polícia: O que faz a Polícia Federal brasileira? Revista Brasileira de Ciências Policiais. v. 1, n. 1, 2010, p. 181-212.

BAYLEY, David H. Padrões de Policiamento: uma análise internacional comparativa. Tradução de Renê Alexandre Belmonte. 2ª edição. São Paulo: Edusp, 2002.

DAURA, Anderson Souza. Princípios Hierárquicos na Polícia Federal. Edição do autor. Disponível na internet em: <http://dominiopublico.qprocura.com.br/dp/101720/ Principios-hierarquicos-na-policia-federal.html>. Acesso em: 03/09/2010.

DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. 13ª edição. São Paulo: Atlas,

2001.

MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo Penal. 8ª edição. São Paulo: Atlas, 1998.

MONET, Jean-Claude. Polícias e sociedades na Europa. Tradução de Mary Amazonas Leite de Barros. 2ª edição. São Paulo: Edusp, 2002.

74

de Mary Amazonas Leite de Barros. 2ª edição. São Paulo: Edusp, 2002. 74 Brasília, v. 4,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

Altair Aparecido Galvão Filho

MORAES, Alexandre de. Constituição do Brasil Interpretada e Legislação Constitucional. São Paulo: Atlas, 2002.

SCURO NETO, Pedro. Sociologia Geral e Jurídica: introdução à lógica jurídica, instituições de Direito, evolução e controle social. 6ª edição. São Paulo: Saraiva, 2009.

VALENTE, Manuel Monteiro Guedes. Teoria Geral do Direito Policial. 2ª edição. Coimbra: Almedina, 2009.

Geral do Direito Policial . 2ª edição. Coimbra: Almedina, 2009. Brasília, v. 4, n. 2, p.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 43-75, jul/dez 2011.

75

o dElEgado dE PolÍcia no sistEMa JurÍdico brasilEiro: das origEns inquisitoriais ao garantisMo PEnal dE FErraJoli

D

Franco Perazzoni

RESUMO

A partir de seu surgimento, ainda no período imperial, como autoridade escolhida dentre magis-

trados e, portanto, detentora de poderes e atribuições legais não apenas policiais, mas também judiciais, a história do delegado de polícia, no Brasil, se funde com a própria evolução paulatina de nossa persecutio criminis e da posição ocupada pelos diferentes autores que nela atuam (juiz, acusado e acusação). Em que pese, na maioria dos outros países, a função exercida pelo delegado de polícia (o Estado-investigação) estar nas mãos de magistrados ou membros do ministério pú- blico, a leitura atenta dos preceitos e normas constitucionais que regulam a matéria, bem como os avanços e retrocessos obtidos por essas mesmas nações nestas últimas décadas, apontam pela correta opção do constituinte ao garantir à Polícia Judiciária, através do delegado de polícia, a titularidade do Estado-investigação. Isto porque, o inquérito policial, conduzido pelo delegado, afigura-se, s.m.j, dentre os demais, o modelo investigativo que melhor se adéqua não apenas às pe-

culiaridades territoriais do nosso país, mas, sobretudo, ao próprio Estado Democrático de Direito

e aos ideais de um sistema jurídico que se propõe a ser garantista.

P alavras - c have : Polícia Judiciária. Delegado de Polícia. Autoridade Policial. Estado Democrático de Direito. Garantismo Penal.

introdução

Este artigo almeja realizar uma análise das origens, evolução histórica e do atual papel desempenhado pelo ocupante do cargo de delegado de polícia na ordem jurídica brasileira, partindo desde o seu surgimento, ainda no período imperial, como autoridade escolhida dentre magistrados e com poderes não apenas investigativos, mas,

Recebido em 8 de dezembro de 2010. Aceito em 1º de outubro de 2011.

em 8 de dezembro de 2010. Aceito em 1º de outubro de 2011. ISSN 1983-1927 Brasília,

ISSN 1983-1927

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

77

O Delegado de Polícia no Sistema Jurídico Brasileiro

também, tipicamente jurisdicionais (daí sua natureza claramente in- quisitorial), passando pela intensa evolução legislativa da República, até a sua correta manutenção pela Constituição Cidadã de 1988 como titular do Estado-investigação, por ser, indubitavelmente, o modelo do que melhor se adéqua não apenas às peculiaridades territoriais do nosso país, mas, sobretudo, ao próprio Estado Democrático de Direi- to e ao legítimo sistema acusatório, fundamentado primordialmente na exigibilidade de efetiva paridade de armas entre defesa e acusação e, portanto, a exigir que a autoridade investigante não se confunda com as partes e/ou seus atores processuais.

Partiremos, portanto, da premissa de que não há como se em- preender uma escorreita análise de nossa autoridade policial, desvin- culando-a de sua própria história, razão pela qual buscaremos trazer alguns dos aspectos principais que influenciaram a sua criação e mol- daram sua jornada em nosso ordenamento pátrio.

A seguir, passaremos a esmiuçar alguns aspectos muito pecu- liares, porém pouco estudados, acerca da referida autoridade, notada- mente no que se refere à posição por ela ocupada na persecutio criminis extra juditio, inclusive através da comparação com os demais modelos investigativo-estatais vigentes em outras nações.

Por fim, serão trazidos à baila alguns dos principais aspectos do moderno processo penal, notadamente no que se refere ao garantismo penal de Ferrajoli e à necessária releitura constitucional dos fins a que se destina a investigação criminal preliminar, bem como do papel desempe- nhado pelo Delegado de Polícia sob esse novo paradigma ético-jurídico.

Por óbvio, estas são apenas tentativas acadêmicas de se realizar uma análise histórica e evolutiva da importante função desempenhada pelo de- legado de polícia em nosso país, pontuando-as com as nossas perspectivas e experiências pessoais, mas sempre à luz do ordenamento vigente e das modernas correntes doutrinárias que vêm se firmando no campo do direi- to processual penal, notadamente em sede de investigação preliminar.

78

to processual penal, notadamente em sede de investigação preliminar. 78 Brasília, v. 4, n. 2, p.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

Franco Perazzoni

Se, por um lado, o tema se revela solo extremamente fértil, além de atual e palpitante, por outro, somos inclinados, infelizmente, a reconhecer que doutrina pátria apenas começou a dar seus primeiros passos para a efe- tiva compreensão do papel desempenhado pelo delegado de polícia, esta fusão entre funções tipicamente policiais e jurídicas, na maior parte das ve- zes, sobejamente incompreendido por ambos os mundos em que milita.

Nesta esteira, longe de esgotar tão importante tema, o que se propõe aqui é uma panorâmica: por vezes, simplesmente trazendo à baila algumas considerações que julgamos importantes, por outras, formulando questões ainda pendentes de respostas.

1. origEns da PolÍcia Judiciária E da carrEira dE dElEgado dE PolÍcia no brasil

A doutrina é uníssona em afirmar que o direito brasileiro, escudado ini- cialmente nas Ordenações vigentes na metrópole e, posteriormente, a partir da edição de normas pátrias, sempre previu alguma forma de investigação prelimi- nar, sendo corrente a menção aos institutos da devassa, querela e denúncia, como as formas de investigação vigentes durante o Brasil - colônia.

Sobre esse estes três institutos, podemos resumi-los conforme a seguir:

A denúncia era uma declaração, feita em juízo, de crime público, para que se

procedesse contra o imputado oficiosamente. Era aplicada apenas nos delitos não sujeitos à devassa, e nem nos crimes denominados particulares.

A querela, por seu turno, era comparável à querela de hoje em dia, aplicável

aos crimes de iniciativa privada; destinava-se ao entendimento, sob juizado, entre acusado e acusador em delitos de pequena monta.

A

devassa era a comunicação de delito levada ao juiz, que a levava a termo

(

)

foi um modelo largamente utilizado para finalidades de maquinação estatal

como na devassa sobre a Inconfidência Mineira que findou com a execução de Tiradentes (PEREIRA, 2010).

(

)

Importante ter em mente que a devassa era uma investigação ordinária, sem preliminar indicação de autoria ou de indícios de autoria

sem preliminar indicação de autoria ou de indícios de autoria Brasília, v. 4, n. 2, p.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

79

O Delegado de Polícia no Sistema Jurídico Brasileiro

delituosa, ao passo que a querela era uma investigação sumária, ou seja, com prévia indicação de autoria ou seus indícios (ALMEIDA, 1973, p. 195-197), estando ambas a cargo do próprio juiz que julgaria o feito.

O que se verifica, portanto, é que as funções judicantes e de investi-

gação criminal, nesse período, se concentravam na figura do magistrado.

E mais: durante a colônia, apesar de terem surgido alguns

grupos organizados com funções de polícia ostensiva (guarda esco- cesa, quadrilheiros etc.), não havia, efetivamente, um corpo policial com funções especificamente investigativas, mesmo que submetido ao comando do magistrado.

as ZACCARIOTTO, 2005, p. 53):

Neste

sentido

são

lições

de

Kfoury

Filho

(apud

) (

le político-administrativas, incumbiram às Câmaras Municipais, cabendo aos capitães-mores, aos alcaides, aos quadrilheiros e aos almotocés auxiliar os Juízes Ordinários e de Fora, além dos Corregedores e Ouvidores, na faina criminal.

por longo tempo as atividades jurídico-policiais, a par daquelas de índo-

Apenas posteriormente, em 1808, com a chegada da Corte portuguesa no Brasil, foi criada a Intendência Geral de Polícia, cuja chefia era desempenhada por um desembargador, nomeado Inten- dente Geral de Polícia, com status de ministro de Estado.

Dadas as peculiaridades e extensão do território nacional, o in- tendente podia autorizar outra pessoa a representá-lo nas províncias, surgindo desta atribuição o uso do termo "delegado" no Brasil.

Este “delegado” exercia, contemporaneamente, funções típicas de autoridade policial (tanto administrativa como investigativa) e judiciais.

Pouco após nossa independência, já em 1827, foi implementa- da sensível alteração no sistema de persecução penal que, nos dizeres de Maria da Gloria Bonelli (2003, p. 6-7):

80

penal que, nos dizeres de Maria da Gloria Bonelli (2003, p. 6-7): 80 Brasília, v. 4,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

Franco Perazzoni

introduziu o juiz de paz previsto na Constituição de 1824, com atribuição

policial e judiciária, e extinguiu os delegados de polícia. A principal diferença

entre os delegados de polícia e os juízes de paz vinha da origem da autoridade judi- cial. Enquanto a autoridade do intendente e do comissário emanava do monarca,

a do juiz de paz vinha da eleição na localidade.

A idéia, como é fácil perceber, era afastar o poder central da investigação e apuração de ilícitos penais.

) (

Ocorre, entretanto, que tal qual o modelo anterior, este sistema ainda pecava por conferir à mesma pessoa poderes típicos de autorida- de policial e judiciária, o que, aliás, foi mantido pelo novel Código de Processo Criminal, promulgado em 29 de novembro de 1832 1 .

Esta descentralização política na função policial, pós-Inde- pendência, perdurou até a reforma processual de 1841, quando:

A Lei 261, de 03 de dezembro, determinou que os chefes de polícia seriam

escolhidos entre os desembargadores e juízes de direito, e que os delegados e os sub- delegados podiam ser nomeados entre juízes e demais cidadãos, tendo autoridade para julgar e punir. A lei estabeleceu as funções de polícia administrativa e de polícia judiciária. Na primeira, os delegados assumiam atribuições da Câmara Municipal, como as de higiene, assistência pública e viação pública, além daquelas

de prevenção do crime e manutenção da ordem. Na função judicante, podiam con-

ceder mandados de busca e apreensão, proceder a corpo de delito, julgar crimes com penas até seis meses e multa até cem mil-réis. O regulamento de julho de 1842 ,

instituiu o controle civil sobre a polícia militar, que foi reforçado pelo regulamento

de janeiro de 1858 (HOLLOWAY, 1997, p. 170).

É, portanto, a partir da Lei nº 261 de 03.12.1841, que o ordenamento pátrio passa a prever, expressamente, os poderes e atribuições legais das Autoridades Policiais, as quais deveriam ser nomeadas dentre Juízes 2 e cidadãos respeitáveis, bem como passa

1 Para uma mais profunda análise das atribuições dos Juízes de Paz e o modelo investigativo adotado naquele período, remetemos o leitor à obra da profª. Marta Saad, constante de nossas referências bibliográficas.

2 É interessante constatar que, conforme o Estatuto Criminal de 1832, as funções do órgão acusador, representado pelo Promotor Público, ainda não eram privativas de graduados em Direito, embora recaíssem, preferencialmente nos que “fossem instruídos em leis”, nomeados por três anos, mediante proposta das Câmaras Municipais (art. 36), ao passo que os cargos de Chefe de Polícia eram exclusivamente preenchidos por Desembargadores e/ou Juízes de Direito, bacharéis em Direito (arts. 6º e 44). Com a Lei 261/1841 e a passagem das atribuições anteriormente

e 44). Com a Lei 261/1841 e a passagem das atribuições anteriormente Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

81

O Delegado de Polícia no Sistema Jurídico Brasileiro

adotar, oficialmente, as denominações Chefe de Polícia, Delegado de Polícia e Subdelegado de Polícia.

Posteriormente, o regulamento nº 120/1842 veio a estabelecer a distinção formal entre Polícia Administrativa e Polícia Judiciária, prevendo dentre as funções desta última prender denunciados, ex- pedir mandados de busca e apreensão, proceder ao corpo de delito e julgar crimes de sua alçada 3 (MACHADO, 2010 p. 50).

Neste sentido, convém trazer à baila o precioso escólio do Prof. José Pedro Zaccariotto:

À polícia judiciária de então, quase sempre exercida por magistrados toga- dos, competia mais que a apuração das infrações penais (função criminal), cabendo-lhe também o processo e o julgamento dos chamados “crimes de po-

lícia” (função correcional) [

Falhou a reforma, destarte, precisamente por

não realizar a separação, já há tempo veementemente reclamada, entre as

funções judiciais e policiais (executivas), que continuaram em mãos únicas

Quase três decênios de protestos e inúmeros projetos legislativos foram

necessários para reverter os excessos perpetrados por meio das mudanças em

]

] [

comento [

]

(ZACCARIOTTO, 2005, p. 60-61).

Com efeito, apenas com o advento da Lei n. 2.033, de 20 de setembro de 1871 e do consequente Decreto n. 4.824, de 22 de novembro de 1871, é que se concretizou a eficaz separação entre funções judiciais e policiais, vedando-se às autoridades policiais o julgamento de quaisquer ilícitos penais e consagrando-se, no orde- namento pátrio, o inquérito policial como principal modelo legal de apuração de fatos criminosos.

Note-se que, com a proclamação da república em 1889 e promul-

conferidas aos Juízes de Paz às Autoridades Policiais, os cargos de Delegado e Subdelegado também passaram a ser preenchidos, preferencialmente, por quaisquer juízes (municipais e/ou de direito, sempre bacharéis, porém com requisitos específicos quanto ao tempo de prática forense) ou, na sua ausência, demais cidadãos.

3 Apesar de possuir alguns poderes típicos de Autoridade Judiciária, a regra era que a Autoridade Policial, após concluir as investigações, deveria remeter todos os dados, provas e esclarecimentos obtidos acerca do delito para o juiz competente, o qual julgaria o feito (art. 4º, parágrafo 9º, da Lei 261, de 03.12.1841), o que sinaliza para o início da separação entre as funções judicante (Estado-juiz) e investigativa (Estado-investigação), o que, veremos oportunamente, teve forte incremento com a Lei 2.033/1871, mas só veio a se sacramentar, definitivamente, em data muito posterior, com o advento da CF/88.

82

definitivamente, em data muito posterior, com o advento da CF/88. 82 Brasília, v. 4, n. 2,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

Franco Perazzoni

gada a novel Constituição Federalista de 1891, a criação e manutenção das forças policiais passou a ser responsabilidade dos estados-membros. 4

As linhas gerais do modelo definido em 1871, entretanto, foram mantidas até a presente data, inclusive com a manutenção da autorida- de policial (concentrada na tradicional figura dos Delegados de Polícia 5 ), assim como do inquérito policial na posterior reforma do Código Penal, em 1941 6 (arts. 4º a 23 do Decreto Lei 3.689, de 03.10.1941).

Por óbvio e tendo em mente que o Código de Processo Penal vigente foi editado em pleno regime ditatorial, “no qual se defendia a eficiência da persecução criminal a todo custo e o imputado era tratado como mero objeto da investigação” (MACHADO, 2010, p. 52), faz-se necessá- ria toda uma nova releitura não apenas da sistemática que envolve a persecutio criminis extra juditio, especialmente o inquérito policial, mas, sobretudo, o papel que desempenha o Delegado de Polícia a partir da Constituição de 1988, de inspiração flagrantemente garantista.

Para tanto, estabelecidas, em linhas gerais a origem e a evolução, até aqui, do cargo de Delegado de Polícia (e, por conseguinte, da própria Polícia Judiciária, por ele exercida), passaremos a esmiuçar um pouco mais detidamente o papel que lhe compete na sistemática processual penal, sob alguns daqueles que reputamos como sendo seus principais aspectos.

4 Para uma mais profunda compreensão da criação e estruturação das polícias estaduais, notadamente no estado de São Paulo, tendo em vista os estreitos limites deste singelo trabalho, remetemos o leitor à obra de Hermes Viera e Oswaldo Silva: História da Polícia Civil de São Paulo. Companhia Editora Nacional, 1955 e/ou à obra do Prof. José Pedro Zaccariotto, constante de nossas referências.

5 Note-se que o termo “delegado” é hoje empregado muito mais em face da herança histórica e da familiaridade que a população em geral detém, do que da efetiva natureza do cargo e origem dos respectivos poderes. O delegado de polícia (civil ou federal) exerce a autoridade policial (Estado-investigação) por expressa disposição constitucional e legal (art. 4º do CPP c/c art. 144 da CF/88), nos limites de sua circunscrição, não mais por “delegação” do antigo Intendente Geral de Polícia (1808) ou dos Chefes de Polícia (1841). No que se refere aos Chefes de Polícia (ou diretores-gerais), o que se afigura é justamente o contrário: necessariamente deverão ser integrantes da carreira de delegado de polícia civil ou federal, conforme o caso.

6 Em 1936 chegou-se a cogitar pela substituição do inquérito policial pelo juizado de instrução. Após intenso debate, manteve-se o procedimento apuratório a cargo da autoridade policial por ser mais adequado à realidade fática e jurídica brasileira. Para maiores esclarecimentos, recomenda-se a leitura dos respectivos trechos da exposição de motivos ao CPP, subscrita pelo então Ministro da Justiça, Francisco Campos.

ao CPP, subscrita pelo então Ministro da Justiça, Francisco Campos. Brasília, v. 4, n. 2, p.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

83

O Delegado de Polícia no Sistema Jurídico Brasileiro

2. o PaPEl do dElEgado dE PolÍcia na sistEMática ProcEssual PEnal brasilEira: o Estado-inVEstigação 7

2.1 Considerações preliminares

Em que pese a já longa escalada histórica da Polícia Judiciária e do Delegado de Polícia em nosso ordenamento, o que se verifi- ca é que referida autoridade, suas funções e a posição que ocupa no sistema jurídico-penal brasileiro são ainda pouco conhecidas e difundidas, não apenas ao público em geral, mas mesmo no meio jurídico e policial. 8

A falta de conhecimento acerca dos diferentes sistemas de in- vestigação preliminar vigentes no mundo, bem como do papel desem- penhado pela Polícia Judiciária em cada um desses distintos modelos, faz com que, naturalmente, o delegado de polícia seja simplesmente visto como o dirigente de uma unidade policial, um equivalente ao “xerife” norte-americano, ou aos comissários e inspetores de polícia judiciária de alguns países europeus, a exemplo da Itália 9 .

Tal concepção é deveras equivocada e não corresponde, se- quer em parte, ao verdadeiro e importante papel que desempenha o ocupante do cargo de delegado de polícia, na condição de autorida- de policial, no ordenamento pátrio.

7 Já há algum tempo, a terminologia Estado-investigação vem se consagrando no meio jurídico para designar o poder/dever atribuído às autoridades de polícia judiciária para a apuração dos fatos supostamente tidos como delituosos em oposição ao Estado-acusação (cujas atribuições legais são desempenhadas pelo Parquet) e o Estado- juiz (a cargo do Poder Judiciário).

8 O que se constata, aliás, é que apenas a partir dos primeiros passos dados pelo Ministério Público na tentativa de reproduzir, aqui no Brasil, o sistema investigativo continental europeu (também conhecido como sistema do “promotor-investigador”) é que, de fato, surgiram os primeiros estudos sérios no sentido de atribuir ao inquérito policial, à Polícia Judiciária e à autoridade policial, a sua verdadeira posição e importância na ordem jurídica brasileira.

9 Essa visão é fortemente influenciada pelo cinema estrangeiro, em especial os filmes policiais norte-americanos e europeus que, por seu turno, raras vezes se ocupam de exibir a investigação criminal nesses países como efetivamente prevista nos respectivos ordenamentos.

84

nesses países como efetivamente prevista nos respectivos ordenamentos. 84 Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

Franco Perazzoni

A fim de melhor esclarecer essa afirmativa, passaremos a se-

guir, de forma pouco mais que perfunctória, a analisar os diferentes modelos de investigação preliminar existentes em todo o mundo, de acordo com o órgão que o preside. 10

Logo a seguir, faremos rápida análise acerca de dois assuntos totalmente distintos, porém que resultam, com frequência, grave confusão em que incorrem muitas pessoas, inclusive delegados: I. A posição que ocupa o Delegado de Polícia na hierarquia funcional das Polícias Judiciárias em relação aos demais integrantes da carreira policial, inclusive outros Delegados (a denominada relação “chefe subordinado”); e II. A Autoridade e respectivos poderes de que, por expressa previsão constitucional e legal, o ocupante do cargo de Delegado de Polícia está investido, para o exercício das funções de Polícia Judiciária e a natureza do vínculo que existe, neste caso, entre a Autoridade Policial e todos os demais ocupantes de cargos de natureza policial que integram a Polícia Judiciária, na condição de agentes da Autoridade e/ou seus auxiliares.

de agentes da Autoridade e/ou seus auxiliares . Com essas singelas, porém importantes considerações,

Com essas singelas, porém importantes considerações, pode- remos, efetivamente, nos lançar, em oportuno momento, à análise mais detida do tema em epígrafe, qual seja, o papel do Delegado de Polícia no Estado Democrático de Direito.

2.2 Sistemas de investigação criminal

A investigação criminal possui natureza jurídica complexa, pois

pode ser composta por atos administrativos e/ou jurisdicionais. A natu- reza jurídica de determinada modalidade de investigação criminal depen- de, portanto, da própria natureza jurídica dos atos predominantes.

Vê-se, portanto, que a investigação criminal pode se afigurar como sendo um procedimento judicial ou administrativo, caso o órgão encarrega- do pela investigação pertença ou não ao Poder Judiciário, respectivamente.

10 Tendo em vista que os estreitos limites deste singelo trabalho não nos permitem um maior aprofundamento, recomendamos fortemente a leitura das obras específicas constantes de nossas referências.

a leitura das obras específicas constantes de nossas referências. Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

85

O Delegado de Polícia no Sistema Jurídico Brasileiro

Na primeira hipótese, encontramos os sistemas de juizados de instrução, conduzidos pela Autoridade Judiciária, cujos atos, na- turalmente, são judiciais.

Na segunda, temos o inquérito policial, cujas investigações são titularizadas pela Autoridade de Polícia Judiciária.

Importante ter em mente que essa classificação da instrução prévia como judicial ou administrativa, considera apenas a natureza do próprio órgão incumbido de investigar (o Estado-investigação).

Ocorre, entretanto, que se focarmos nossa atenção na finalidade da própria investigação estatal, qual seja, a de persecutio criminis extra juditio, com vistas ao esclarecimento de fatos e circunstâncias acerca de uma possível prática delituosa, até mesmo o inquérito policial pode e deve ser visto como um procedimento judicial (PITOMBO, 1987, p. 21-22).

Feitas essas considerações iniciais, passaremos, a seguir, a abordar, brevemente, cada um dos modelos ou sistemas de investi- gação criminal vigentes no mundo moderno, a saber: a) o juizado de instrução; b) o inquérito ministerial; e c) o inquérito policial.

2.2.1 Do Juizado de Instrução (Juiz-investigador)

Neste sistema, a presidência da investigação criminal é ti- tularizada por um magistrado, denominado juiz de instrução, juiz- instrutor ou juiz-investigador. A Polícia Judiciária se afigura, neste caso, como mero órgão auxiliar, diretamente subordinada ao magis- trado no plano funcional. Dentre as atribuições do juiz instrutor encontram-se, por exemplo, proceder ao formal interrogatório do suspeito, determinar medidas cautelares pessoais ou reais, colher todos os elementos de convicção necessários ao esclarecimento do fato noticiado e requisitar perícias.

86

ao esclarecimento do fato noticiado e requisitar perícias. 86 Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

Franco Perazzoni

A iniciativa e os poderes instrutórios encontram-se inteira-

mente concentrados na figura do juiz instrutor. A participação da defesa e do órgão acusador limita-se a simples solicitação da reali- zação de diligências, as quais poderão ser deferidas ou não, a seu talante (LOPES JR, 2003, p. 72).

Conforme já abordado alhures, cogitou-se seriamente, quan- do da edição do Código de Processo Penal vigente, pela adoção deste sistema no Brasil.

Dentre as principais desvantagens apontadas para este sistema, afigura-

se destacadamente o excesso de poderes conferidos a uma única pessoa. 11

Adotam este sistema, atualmente, a França e a Espanha.

2.2.2 Do promotor-investigador (Sistema Continental Europeu)

É o sistema adotado na maioria dos países da Europa conti-

nental e nos EUA. 12

No sistema do promotor-investigador, o órgão acusador é que preside as investigações, cabendo à Polícia Judiciária, como no siste- ma do juizado de instrução, apenas auxiliá-lo.

Tomando-se como exemplo a Itália (país que até 1988 adotava

o sistema de juizado de instrução, passando a adotar, desde então, o promotor-investigador), podemos ter uma razoável panorâmica desse modelo de investigação prévia.

11 Isto porque, além de presidir os autos investigativos em si, o juiz-instrutor é quem autoriza as medidas cautelares necessárias à apuração do fato supostamente tido como delituoso. Tal característica, a nosso ver, desvirtuaria o sistema acusatório esposado na CF/88, pois, obviamente, não pode o mesmo ator que preside e executa a investigação, avaliar a legalidade dos atos restritivos de direitos e garantias fundamentais.

12 Segundo Bruno Calabrich (2007, p. 79-80), o modelo adotado pelos norte-americanos apresenta, dentre todos os

vigentes, o que se desataca com a maior preponderância do Ministério Público na investigação preliminar, pois não há qualquer “controle judicial valorativo no correr da fase investigativa nem no caso de seu arquivamento

e mesmo negociar com o investigado a troca de uma admissão de

culpa por uma pena reduzida ou por uma desqualificação do delito para tipos com sanções menos severas (‘plea bargaining’)”.

(

)

Seu poder discricionário permite (

)

(‘plea bargaining’)” . ( ) Seu poder discricionário permite ( ) Brasília, v. 4, n. 2,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

87

O Delegado de Polícia no Sistema Jurídico Brasileiro

As investigações (“indagini preliminari”) têm início a partir da notícia-crime, cabendo ao Ministério Público a apuração dos fatos.

As atribuições do promotor-investigador encontram-se previstas nos arts. 358 a 378 da Lei de Processo Penal Italiana, dentre elas, desta- cadamente: a) receber a notícia-crime e decidir sobre a instauração de procedimento investigativo; b) efetuar todas as diligências investigativas necessárias ao exercício da ação penal; c) interrogar o investigado e ouvir testemunhas; d) nomear peritos para realização de exames; e) ordenar, em caso de urgência, acareações, inspeções, sequestros, buscas pessoais e locais, além de interceptações; e f) oferecer acusação formal.

Por seu turno, o caráter de mero auxiliar atribuído à Polícia Judi- ciária fica bastante evidenciado das atribuições que lhe são previstas nos arts. 347 a 357 do mesmo diploma legal, senão vejamos: a) receber a no- tícia-crime e transmiti-la ao Ministério Público; b) assegurar as fontes de prova, conservando o estado de lugares e coisas úteis à reconstrução dos fatos e individualização do suspeito; c) tomar declarações espontâneas do suspeito, que não poderão ser utilizadas em juízo (fase de “dibattimento”), salvo exceções previstas em lei; d) realizar busca pessoal ou local, em caso de flagrante delito ou fuga, encaminhando os resultados ao Minis- tério Público em quarenta e oito horas, para convalidação; e) apreender correspondências e documentos e encaminhá-los, intactos, ao Ministério Público; f) elaborar relatório das atividades desenvolvidas e colocá-lo à disposição do Ministério Público.

O Código de Processo Penal Italiano (art. 373) prevê que to- dos os atos que integram as investigações serão registrados na forma escrita, bem como que os respectivos autos serão conservados junto ao cartório do Ministério Público.

Também é de suma importância ressaltar-se que os atos que in- tegram as andagini preliminari não são produzidos sob o crivo do contra- ditório (a exemplo do que ocorre no juizado de instrução e no inquérito policial) e, via de regra, não são aproveitáveis na fase judicial.

88

policial) e, via de regra, não são aproveitáveis na fase judicial. 88 Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

Franco Perazzoni

O que se verifica, portanto, é que as características gerais dos

procedimentos investigativos (sigiloso, inquisitório, escrito e de cog- nição sumária), tanto no juizado de instrução, como na investigação conduzida pelo Parquet, não diferem em praticamente nada das carac- terísticas do inquérito policial, conduzido pelo delegado de polícia.

Na verdade, o que diferencia esses sistemas é apenas a auto- ridade pública que detém a titularidade da investigação e o papel (de mero coadjuvante ou de efetivo titular da investigação) que desempe- nha a Polícia Judiciária em cada um deles.

Outro fato, desconhecido por muitos, é de que nos países que adotaram a investigação ministerial, nestes últimos anos, surgiram duas novas situações que nos remetem à reflexão.

A primeira delas é que, mesmo nos ricos e pouco extensos

países europeus, o Ministério Público não dispõe de membros sufi- cientes e eficazmente capacitados para instaurar e acompanhar todas as investigações criminais em curso.

A consequência é óbvia: embora formalmente esse modelo de- fina o Ministério Público como responsável pela investigação crimi- nal, na prática, a investigação é conduzida pelas polícias, que, entre- tanto, não são dotadas dos poderes, prerrogativas e da independência necessária ao fiel cumprimento dessa tarefa.

Este fenômeno, denominado em Portugal de “policialização da investigação criminal”, já há alguns anos gera diversas discussões no meio jurídico lusitano, notadamente no que se refere à validade, sob o prisma constitucional, de investigações que não tenham sido efetivamente conduzidas pelo Ministério Público, órgão incumbido constitucionalmente de tal mister. 13

13É interessante saber que, em Portugal, face ao referido fenômeno, o que se verifica é uma forte tendência pela redução do papel desempenhado efetivamente pelo Parquet na investigação preliminar, inclusive com a delegação

pelo Parquet na investigação preliminar, inclusive com a delegação Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

89

O Delegado de Polícia no Sistema Jurídico Brasileiro

A outra situação, hoje corrente, é de que a titularidade da investi- gação pelo Ministério Público, nos países que adotam o referido sistema, não guarda efetiva consonância com os ditames de um sistema verdadei- ramente acusatório, muito pelo contrário, senão vejamos.

Acusatório não é apenas o sistema processual que concebe

o juiz como um sujeito distinto das partes, mas, principalmente

aquele que garante, efetivamente, uma contenda entre iguais, restando, sobretudo, a figura do juiz como um moderador imparcial (FERRAJOLI, 1995, p. 564).

Nesta esteira, irretocáveis os ensinamentos de Aury Lopes Jr. (2001, p. 97), alertando-nos dos graves perigos em que incorre o ór- gão ministerial ao aventurar-se como investigador:

Na prática, o promotor atua de forma parcial e não vê mais que uma direção. Ao se transformar a investigação preliminar numa via de mão única, está-se acentuando a desigualdade das futuras partes com graves prejuízos para o sujeito passivo. É convertê-la em uma simples e unilateral preparação para a acusação, uma atividade minimista e reprovável, com inequívocos prejuízos para a defesa.

Nessa esteira de entendimento, aliás, é que surgiu, na Itália, a Lei 397/2000, que alterou substancialmente diversos artigos do Có- digo de Processo Penal Italiano, buscando, com isso, viabilizar, uma maior paridade de armas entre as partes na persecução penal, pre- vendo ao defensor a possibilidade de realizar a chamada investigação defensiva, ou seja, realizar atos investigativos cujo valor probatório seja equiparado juridicamente àqueles produzidos pela acusação.

Na prática, entretanto, temos de reconhecer que diversamen-

te do titular da investigação que dispõe da coercitividade do poder

estatal para a obtenção da prova, a defesa continua a figurar numa

posição bastante vulnerável. 14

para a presidência do inquérito para as Polícias Criminais. Neste sentido é a Lei da Organização da Investigação Criminal (Lei nº 21/2000, de 10-8), bem como a reforma de 1998 no art. 270º do Código de Processo Penal Português (COSTA, 2003).

14Por outro lado, se a investigação preliminar for dirigida pela Polícia Judiciária, a investigação defensiva, a princípio, não seria imprescindível, em razão do dever de imparcialidade deste órgão (MACHADO, 2010, p. 46).

90

razão do dever de imparcialidade deste órgão (MACHADO, 2010, p. 46). 90 Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

Franco Perazzoni

2.2.3 Do inquérito policial (Sistema Inglês)

É o sistema adotado no Brasil e tem suas origens no modelo

Inglês de investigação preliminar.

O modelo inglês (“inquérito policial”) distingue-se nitidamen-

te do sistema continental (“inquérito ministerial”) uma vez que as investigações neste modelo são conduzidas pela Polícia, a qual age em virtude de um poder que lhe é próprio.

Na Inglaterra, ainda hoje, tanto a abertura como a conclusão e o eventual arquivamento das investigações compete única e exclusivamente à polícia. Ao ‘Chief Officer’ (equivalente ao nosso delegado de polícia), além do arquivamento das investigações, compete, ainda, dar início à ação penal, pas- sando a acusação (‘Crown Prosecutor’) a agir apenas após iniciada a ação penal.

Tem-se, portanto, que o inquérito policial é o nomem juris do mo- delo investigativo em que, a exemplo do adotado na Inglaterra, incumbe única e exclusivamente à Autoridade Policial definir a linha investigativa, praticando diretamente os atos pertinentes ao esclarecimento dos fatos tidos como delituosos, exceto os que impliquem restrição a direitos e garantias fundamentais, que exigem a prévia autorização judicial.

No Brasil, o inquérito policial se rege pelo princípio da informali- dade não havendo, necessariamente, uma cadeia de atos a serem desem- penhados pela autoridade que o preside, muito embora, a lei processual estabeleça, em linhas gerais, em seu art. 6º, um rol mínimo e exemplifi- cativo de diligências e ações a serem tomadas pelo delegado de polícia a partir do conhecimento da prática de uma infração penal.

A determinação legal de que seja escrito e autuado segue, con-

forme vimos, a mesma lógica adotada para os demais modelos investi- gativos adotados no mundo hodierno e a crítica que muitas das vezes se faz à prática cartorária em sede de polícia judiciária decorre natu- ralmente da própria titularidade das investigações, pois, como vimos,

da própria titularidade das investigações, pois, como vimos, Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

91

O Delegado de Polícia no Sistema Jurídico Brasileiro

por exemplo, no caso das indagini preliminari italianas, em que, sendo

o Ministério Público o titular da investigação preliminar, cabendo-lhe

realizar as diligências investigativas, inclusive oitivas e interrogatórios, produzir o caderno apuratório, autuá-lo, também, por óbvio, lhe cabe manter o respectivo cartório (arts. 358 a 378 do CPP Italiano).

A exigência de formação jurídica do Delegado de Polícia, au-

toridade incumbida da persecutio criminis extra juditio, por seu turno, se afigura não apenas em estrita consonância com uma investigação garantista e imparcial, mas, sobretudo, com os modelos investigativos adotados no mundo moderno e com a tradição do direito brasileiro, marcadamente de matizes romanas.

Isto porque, nos países que adotam tradição jurídica seme- lhante, as investigações e os demais atos de polícia judiciária, histori- camente, são dirigidas e coordenadas por magistrados (juízo de instru- ção) ou membros do ministério público (promotor-investigador), o que, aliás, restou bastante evidenciado ao longo deste singelo trabalho, notadamente das origens do próprio cargo em terras brasileiras, suas funções e do fato que, originalmente, os designados para o exercício dessas funções eram escolhidos dentre magistrados.

O delegado de polícia, no Brasil, não pode nem deve ser visto como

o simples chefe de uma unidade policial, a agir por determinação do verda-

deiro titular da investigação criminal, como se afigura na esmagadora maio- ria das instituições policiais no mundo, mas sim, como o próprio titular do Estado-investigação, exercendo, aqui, funções, que em todos os demais países, são exercidas por magistrados e membros do ministério público.

Não se trata, por assim dizer, de um policial-jurista (ou seja, um

servidor policial cuja exigência mínima de ingresso na carreira seja

a posse do diploma de Direito), mas na verdade um jurista-policial.

Uma autoridade pública, cuja atribuição legal é eminentemente jurídi- ca, mas que, por acertada opção legislativa e constitucional, deixou de integrar, historicamente, a carreira da magistratura para tomar assento

92

integrar, historicamente, a carreira da magistratura para tomar assento 92 Brasília, v. 4, n. 2, p.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

Franco Perazzoni

no âmbito da própria instituição policial, como um sujeito autônomo

e distante da futura relação processual, imparcial, em plena consonân- cia com um sistema jurídico verdadeiramente acusatório.

A adoção desse sistema, no Brasil, possui, portanto, impor- tante reflexo na fase pré-processual ou investigativa, notadamente no que se refere ao claro estabelecimento dos papéis específicos a serem desempenhados pelo Parquet e pela Polícia Judiciária nesta fase.

De fato, se à Polícia Judiciária coube a investigação e apuração das infrações penais (art. 144 da CF/88), ao Ministério Público foi atribuído o exercício do controle externo da atividade policial (art. 129 da CF/88).

De fato, caso o próprio Parquet realize a investigação criminal, quem seria o responsável pelo seu controle externo? Certamente não seria a própria instituição ministerial, pois, assim agindo, não haveria controle externo e sim interno.

Note-se que, ao acumular o Parquet as funções de órgão acusa-

dor, investigador e fiscalizador (interno?), violado estaria claramente

o princípio da igualdade das partes, enunciado que se reveste no principal sustentáculo de todo o sistema acusatório.

Nem se diga que o próprio juiz poderia intervir diretamente na investigação ministerial, exercendo o seu controle externo, pois tal fato seria, de fato, o golpe de misericórdia com vistas ao completo desvirtuamento do sistema acusatório.

Isto porque, neste caso, a Autoridade Judiciária se envolveria

diretamente com a investigação, comprometendo sua imparcialidade

e fragilizando, de vez, todo o sistema.

Destarte, por todo o exposto, reputamos que não restam dúvidas de que o sistema do inquérito policial, assim como previsto no ordenamento pá- trio, é o que melhor se adéqua ao sistema acusatório consagrado na CF/88.

é o que melhor se adéqua ao sistema acusatório consagrado na CF/88. Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

93

O Delegado de Polícia no Sistema Jurídico Brasileiro

A uma, por respeitar e celebrar o princípio da igualdade das

partes, pilar de todo o referido sistema, ao: a) evitar que se atribua pode- res em demasia ao órgão acusador, sem qualquer controle externo; e b) impedir que a investigação preliminar se converta em mera preparação para a acusação, com inequívocos prejuízos ao investigado e sua defesa.

A duas, pois, assegura que intervenção da Autoridade Judiciá-

ria durante as investigações se dê apenas para a apreciação de medidas judiciais necessárias à efetiva apuração dos fatos noticiados, quando direitos e garantias fundamentais estejam em jogo, ou ainda para coibir quaisquer abusos e ingerências no curso das mesmas, sem, contudo, que o magistrado se envolva diretamente na investigação e colheita de provas, comprometendo sua imparcialidade, em total dissonância

com os mais comezinhos princípios do sistema acusatório.

2.3 O Delegado como Autoridade Policial

2.3.1 A Autoridade Policial, seus agentes e auxiliares

O conceito de autoridade está intrinsecamente ligado ao de

poder estatal.

Isto porque Estado é o titular do poder público exercendo-o por meio de pessoas físicas que a lei investe daquele poder.

Com efeito, dispõe o art. 4º do CPP: “A polícia judiciária será exercida pelas autoridades policiais no território de suas respectivas cir- cunscrições e terá por fim a apuração das infrações penais e de sua autoria”.

Da mesma forma, o art. 5º e seguintes do CPP relacionam as diversas atribuições de Polícia Judiciária a serem exercidas, sempre, pela Autoridade Policial.

Ocorre, entretanto, que nem todo servidor público é Autorida- de, da mesma forma que nem todo o policial é Autoridade Policial.

94

de, da mesma forma que nem todo o policial é Autoridade Policial . 94 Brasília, v.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

Franco Perazzoni

Neste ponto, convém trazer à baila os preciosos ensinamentos de Hélio Tornaghi (2010):

Existe entre os servidores do Estado, que diz respeito ao poder público, uma escala que pode ser assim reduzida à expressão mais simples.

- servidores que exercem em nome próprio o poder de Es-

tado. Tomam decisões, impõem regras, dão ordens, restringem bens jurídicos e direitos individuais, tudo dentro dos limites traçados por lei. São as au- toridades;

- servidores que não têm autoridade para praticar esses atos por iniciativa própria, mas que agem (agentes) a mando da autoridade. São os agentes da autoridade.

- servidores que se restringem à prática de atos administrati- vos e não exercem o poder público; não praticam atos de autorida- de, nem por iniciativa própria, nem como meros executores que agem a mando da autoridade. Não são autoridades nem agentes da autoridade. Exemplos dos primeiros: juízes, delegados de polícia.

Exemplos dos segundos: oficiais de justiça, membros da força Pública. Exem- plos dos últimos: oficiais judiciários, oficiais administrativos. (grifos nossos).

Note-se, portanto, que apenas o ocupante do cargo de Delega- do de Polícia, no âmbito das Polícias Judiciárias, se encontra investido dos poderes de decisão e mando, bem como da possibilidade de res- tringir bens jurídicos e direitos individuais, na forma da Lei. 15

Neste mesmo sentido, o art. 13 do CPP estabelece que incum- be à Autoridade Policial, no âmbito das Polícias Judiciárias, dentre ou- tras medidas, fornecer às autoridades judiciárias as informações ne- cessárias à instrução e julgamento dos processos, realizar diligências requisitadas pelo juiz ou pelo Ministério Público, cumprir mandados e representar acerca da prisão preventiva.

15Por igual razão, somos da opinião que toda e qualquer função de chefia ou de administração superior que exerça funções típicas de autoridade policial só poderá ser exercida por titular do cargo de delegado de polícia, sendo, possível e salutar, entretanto, que as demais funções de natureza eminentemente cartorária, operacional ou técnico- científica sejam ocupadas por integrantes das respectivas carreiras de agentes e auxiliares da autoridade.

das respectivas carreiras de agentes e auxiliares da autoridade. Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

95

O Delegado de Polícia no Sistema Jurídico Brasileiro

Resta claro, portanto, que, no âmbito das Polícias Judiciárias, todos os poderes relacionados diretamente à sua atividade-fim (Estado-investigação) são de titularidade, exclusiva, do detentor de cargo de Delegado de Polícia.

Os demais integrantes de seus quadros, como a própria nomen- clatura indica, não exercem poderes próprios, mas atuam, nos termos da lei, sob o mando e coordenação direta da Autoridade, esta a única legiti- mada, efetivamente, à realização dos atos de Polícia Judiciária.

A relação aqui não é de subordinação hierárquica, de caráter ad- ministrativo, mas legal, de fundo constitucional e infra-constitucional.

Atuam os agentes da autoridade como “longa manus” ou “ór- gãos-meiosà disposição da Autoridade.

Neste ponto, convém trazer à baila novamente os ensinamen- tos de Helio Tornagui (2010):

Não é, por exemplo, autoridade policial um perito, ainda quando fun-

cionários de polícia, ou um oficial da Força Pública, uma vez que as corporações

) Podem

esses servidores, eventualmente atuar como agentes da autoridade, mas não são eles próprios autoridades. Para ficar dentro do exemplo citado: um perito é um instrumento ao serviço da polícia judiciária (contingentemente, da polícia de se- gurança); a Força Pública é uma arma posta a serviço da polícia de segurança (esporadicamente, da polícia judiciária).

a que pertencem são órgãos-meios postos à disposição da autoridade (

agente da

Autoridade não se funda na hierarquia funcional e com ela jamais deve ser confundida.

Note-se, portanto, que a relação Autoridade

confundida. Note-se, portanto, que a relação Autoridade Isto nos resulta muito claro, aliás, dos poderes de

Isto nos resulta muito claro, aliás, dos poderes de que dispõe a Autoridade Policial de nomear peritos, intérpretes e escrivães ad hoc, requisitar laudos periciais ao Instituto de Criminalística ou valer-se do auxílio prestado por integrantes dos demais órgãos de Segurança Pública no cumprimento de mandados.

96

dos demais órgãos de Segurança Pública no cumprimento de mandados. 96 Brasília, v. 4, n. 2,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

Franco Perazzoni

Em todas estas hipóteses parece-nos óbvio não haver ascen- dência funcional entre o Delegado de Polícia e estes agentes e cola- boradores da Autoridade (ainda que eventuais), notadamente porque, em muitos desses casos, estamos diante de particulares, sequer inte- grantes dos quadros da administração pública e, em outros, apesar de serem efetivamente servidores públicos, pertencem a instituições distintas à Polícia Judiciária (Civil ou Federal).

Isto se dá porque, quando investido da condição de Autoridade Policial, ou seja, no exercício típico das atribuições que lhe conferem os arts. 4º a 23 do CPP, a relação que se estabelece entre o Delegado de Polícia e as demais pessoas acima relacionadas, na condição de agentes e auxiliares da Autoridade, decorre não de simples hierarquia funcional, mas dos próprios poderes de que dispõe o Estado-investi- gação para a apuração da verdade.

Daí decorre o fato de que, no exercício da Autoridade Policial, o ocupante do cargo de Delegado possui completa independência na condução da investigação policial, o que desautoriza qualquer deter- minação contrária à sua convicção, no âmbito de suas atribuições.

O mesmo raciocínio se aplica ao Ministério Público que no

decorrer da investigação fica jungido a executar apenas o controle externo determinado pelo constituinte, podendo, inclusive, requisitar diligências imprescindíveis à formação de sua opinio delicti.

2.3.2 A Autoridade Policial e a hierarquia funcional

A hierarquia é um dos princípios a nortear toda a adminis-

tração pública.

Nestes termos, a hierarquia deve ser entendida como sendo uma relação pessoal, obrigatória, de natureza pública, que se estabelece en-

pessoal, obrigatória, de natureza pública, que se estabelece en- Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

97

O Delegado de Polícia no Sistema Jurídico Brasileiro

tre os diversos titulares de cargos ou funções públicas, configurando-se no poder de dar ordens e no correlato dever de obediência, tendo como objetivos o favorecimento do controle e eficiência administrativas.

É, portanto, um vínculo de natureza administrativa, estabeleci-

do na conhecida relação superior

estabeleci- do na conhecida relação superior subordinado . Note-se, entretanto, que a ascendência pouca

subordinado.

Note-se, entretanto, que a ascendência pouca ou nenhuma in- fluência exerce sobre o Delegado de Polícia no exercício típico das atividades de Autoridade de Polícia Judiciária.

O poder hierárquico deve ser interpretado sistematicamente,

verificando-se a compatibilidade do exercício desse poder com a na- tureza da função do Delegado de Polícia.

Isto porque:

Pode haver distribuição de competências dentro da organização administrativa,

excluindo-se da relação hierárquica com relação a determinadas atividades (

Trata-se de determinadas atividades que, por sua própria natureza, são incompa- tíveis com uma determinação de comportamento por parte do superior hierárquico (DI PIETRO, 2003, p. 92-93).

)

Assim, o Delegado-chefe de uma delegacia tem a prerrogativa de distribuir notícias-crime entre seus substitutos e/ou adjuntos, mas não pode, de maneira alguma, determinar qual a diligência a ser feita em determinado caso ou direcionar o rumo das investigações.

Como se vê, surge cristalina a conclusão de que o poder hie- rárquico da Administração não se aplica na condução do inquérito e no exercício das funções típicas de autoridade policial, salvo algumas poucas situações excepcionais expressamente previstas no ordena- mento pátrio 16 , estando o agente responsável pela ingerência indevida sujeito às penalidades administrativas, criminais e cíveis pertinentes.

16 É o caso do poder de avocação de inquéritos conferido a algumas autoridades policiais em razão da função de chefia ou administração superior que exercem, da atividade correcional quando relacionada à prática de atos típicos de autoridade policial e/ou do recurso ao Chefe de Polícia insculpido no art. 5º, parágrafo 2º, do CPP, dentre outras.

98

Polícia insculpido no art. 5º, parágrafo 2º, do CPP, dentre outras. 98 Brasília, v. 4, n.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

Franco Perazzoni

3. PolÍcia Judiciária, dEMocracia E garantisMo: o PaPEl do dElEgado dE PolÍcia no Estado dEMocrático

3.1 A Constituição Cidadã, a investigação criminal e o garantismo de Ferrajoli

3.1.1 O que é garantismo?

A expressão garantismo foi cunhada pelo jusfilósofo italiano Luigi Ferrajoli em sua obra “Direito e Razão”.

Refere-se, em apertada síntese, ao conjunto de teorias a respei- to do direito penal e processual penal concebido pelo referido autor, segundo o qual toda norma jurídica deve ser lida e interpretada em conformidade com seus princípios formadores (e, portanto, garanti- dores de sua própria vigência, validade e eficácia normativas).

Segundo Ferrajoli, o garantismo surge exatamente do descom- passo existente entre os princípios formadores da ordem jurídica pos- ta e as práticas que deveriam por eles ser direcionados.

Segundo Antônio Scarance Fernandes (2002, p. 40), o garan- tismo se liga umbilicalmente à idéia do devido processo legal em seus aspectos subjetivos (garantias das partes, essencialmente do investiga- do/indiciado/acusado) e objetivos (garantias de justo processo).

Ocorre, entretanto, que em sua consagrada obra, Luigi Ferra- joli constrói um modelo ideal garantista, composto por dez axiomas deontológicos que seriam condições imprescindíveis à efetiva respon- sabilização penal e condenação do indíviduo.

Por se tratar de um modelo teórico, o próprio autor reconhe- ce que se trata de “um modelo-limite”, jamais plenamente atingível (FERRAJOLI, 2002, p. 74-75).

jamais plenamente atingível (FERRAJOLI, 2002, p. 74-75). Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

99

O Delegado de Polícia no Sistema Jurídico Brasileiro

A antítese do garantismo é a doutrina do utilitarismo proces- sual cujo intuito é o combate à criminalidade por meio de um proce- dimento expedito, no qual haja uma redução dos direitos e garantias individuais do cidadão, em prol do interesse estatal de apurar e punir com celeridade os infratores (AURY LOPES JR., 2003, p. 23), o que, entretanto, não se afigura, obviamente, como uma opção aceitável diante da vigente ordem constitucional.

Parece-nos, portanto, que, na esteira dos ensinamentos de doutrinadores do escol de Antônio Scarance Fernandes (2002, p. 40), a melhor opção é a síntese entre ambas as doutrinas, ou seja, um meio termo entre eficiência pregada pelo utilitarismo, sem contudo, abrirmos mão dos direitos e garantias fundamentais, conforme instituído pelo garantismo.

Feitas essas considerações iniciais, passaremos a seguir a anali- sar a investigação criminal no Brasil sob a ótica do garantismo.

3.1.2 Inquérito policial e garantismo

Em que pese a estranheza que isso possa causar a alguns, a doutrina especializada é praticamente uníssona em relação ao caráter garantista de que se reveste o inquérito policial. 17

Isto porque, ao contrário de parte da doutrina, a investigação criminal não busca comprovar a infração penal. Seu objetivo não é confirmar a tese acusatória, mas verificar a plausibilidade da imputação evitando processos desnecessários, daí dizer-se que “a investigação criminal não se volta mais à comprovação de um delito, do que para excluir imputações descabidas e aventuradas” (CARNELUTTI, 2001, p. 113).

17 Na verdade, aqueles que se opõem ao garantismo do inquérito policial não o fazem com críticas direcionadas ao instrumento em si, mas ao fato de que a investigação policial, no Brasil, ainda se revela tendencialmente acusatória e com forte restrição à participação da defesa, o que, entretanto, também ocorre nos demais modelos de investigação, conforme já mencionado alhures (MACHADO, 2010, p. 46).

100

conforme já mencionado alhures (MACHADO, 2010, p. 46). 100 Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110,

Brasília, v. 4, n. 2, p. 77-110, jul/dez 2011.

Nelson Edilberto Cerqueira

Note-se, entretanto, que para não perder esse caráter garantis- ta, bem como revestir-se da necessária eficiência (celeridade), a inves- tigação não pode se aprofundar a ponto de pretender formar juízo de certeza sobre a imputação, o que só deve ocorrer em juízo.

Sobre o assunto, indefectíveis os ensinamentos do Prof. Dr. Luiz Flávio Gomes e do colega delegado federal Fábio Scliar: