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HUBERTO ROHDEN

ÍDOLOS OU IDEAL?

PENSAMENTO AVULSO SOBRE DEUS, O HOMEM E O UNIVERSO

UNIVERSALISMO

ADVERTÊNCIA

A substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criar

é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização e

dispensa esforço mental mas não é aceitável em nível de cultura superior,

porque deturpa o pensamento.

Crear é a manifestação da Essência em forma de existência criar é a transição de uma existência para outra existência.

O Poder Infinito é o creador do Universo um fazendeiro é criador de gado.

Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores.

A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea e nada se aniquila, tudo se transforma”, se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certa mas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa.

Por

convenções acadêmicas.

isto,

preferimos

a

verdade

e

clareza

do

pensamento

a

quaisquer

ÍDOLOS OU IDEAL?

O título e o conteúdo deste livro nos colocam diante de um impasse existencial.

Iremos adorar ídolos ou iremos viver um Ideal? Cada um de nós, num determinado momento de nossas vidas, chega a essa filosófica pergunta. E a resposta e vivência dessa pergunta determinará a qualidade e a finalidade de

nossa existência.

Devemos aprender com a sabedoria milenar dos tempos: Somos livres para semear, mas somos obrigados a colher aquilo que semeamos. A escolha é da responsabilidade de cada um. Essa é a inexorável lei cósmica que rege a harmonia do Universo.

A mensagem deste livro nos ajuda a fazer a escolha melhor. Gradativa e didaticamente, Rohden vai nos mostrando, através de pensamentos sobre Deus, o homem, o universo, a vida, o verdadeiro caminho existencial que todo o ser humano pode e deve percorrer na sua evolução.

O livro oferece a vantagem de não exigir uma leitura contínua e concentrada.

Num minuto podemos “pegarum fragmento, uma metáfora, um aforismo e lê-

lo isoladamente até à assimilação inconsciente, para que fique fermentando e

programando nosso agir cotidiano. Esses fragmentos condicionadores de atos

e atitudes positivas e de “correto agirsão de grande valia para atingirmos nossa grandeza humana e espiritual.

Intuitivamente Rohden começa nos ensinando a importância de “Fechar o Circuito”. Diz ele: “Se o circuito elétrico não for completo, da usina e para a usina, a lâmpada não acende, não importa o ponto onde a corrente esteja interrompida. Para haver luz, força ou calor, a lei cósmica exige que o misterioso fluido tenha circuito completo, ida e volta.

Assim, se alguém só quer receber e não quer dar, devolvendo à usina divina o que dela recebeu, interrompe o fluxo contínuo e sua vida fica sem luz, força e calor. Feche, pois, o circuito dos dons divinos, distribuindo aos homens o que de Deus recebeu. „De graça dai o que de graça recebestes.

Onde não há efluxo de bens na horizontal, não pode haver influxo na vertical:

homem que não dá a seus irmãos não pode receber do Pai celeste. A falta de fluxo contínuo é suicídio lento por asfixia moral.”

O supremo ideal do homem deve ser sua própria auto-realização.

PRELIMINARES

Sou carpinteiro, nas horas vagas. Depois de terminado algum trabalho maior, fica o soalho da carpintaria cheio de pedaços e pedacinhos de madeira, tábuas

e sarrafos de diversos tamanhos e feitios. Em vez de jogar fora ou usar como

lenha essas sobras, reúno as melhores e delas faço algum objeto útil ou de simples enfeite: uma casinha para as corruíras fazerem ninho, uma cadeirinha ou mesinha para crianças, uma casinha de bonecas, ou algum vaso para flores.

Durante quase meio século escrevi e publiquei umas dezenas de livros, sobre filosofia universal, filosofia do Evangelho, assuntos de religião, biografias e divulgação científica; mas os meus livros não-publicados são mais numerosos que os que andam nas mãos dos leitores: e mais numerosos ainda são os cadernos de pensamentos vários, impressões de fora e experiências de dentro um mundo de coisas heterogêneas, fragmentos de todas as espécies.

Ora, em vez de deixar às traças, ou à arbitrariedade dos pósteros, esses fragmentos da minha carpintaria literária, resolvi reunir algumas dessas idéias avulsas e dispersas, na esperança de que, talvez, algum leitor se encontre a si mesmo nesses ecos multiformes e multicores da minha alma.

Não procure, portanto, o leitor unidade ou sequência lógica entre os capítulos de um livro que não tem pretensão alguma de ser um todo homogêneo ou logicamente concatenado. Abra este volume em qualquer página e leia o que lhe cair sob os olhos. Verá que, não raro, necessita precisamente daquilo, para seu alimento interior, o que casualmente encontra.

De resto, nessa febricitante lufa-lufa da civilização moderna, sobretudo nas grandes metrópoles, poucos leitores têm paciência e lazer para estudar um volume que desenvolva coerentemente uma determinada idéia; muitos preferem um bric-a-brac de assuntos que possam ler em cinco ou dez minutos. Pois bem, neste volume de “fragmentos” – e, se Deus quiser, em mais alguns

volumes futuros encontrará o leitor o desejado alimento em bocados de fácil

e rápida ingestão.

* * *

Não me é possível precisar até onde vai a minha paternidade literária no tocante a muitos dos pensamentos deste volume. Quem passa pelo mundo de olhos abertos e espírito alerta; quem passou longos anos fora da terra natal;

quem entrou em contato mental e espiritual com numerosos pensadores e leu grande número de livros, em diversas línguas não está em condições de discriminar, no fim, qual a porcentagem de idéias próprias e quais as de origem alheia. Em certo sentido, todos os nossos pensamentos são alheios, embora, em outro sentido, sejam nossos, uma vez que cada pensamento pensado por outrem, e repensado por nós, assume o colorido do nosso ego personal e, assim, o filho adotivo passa a ser filho próprio. Servindo-nos da terminologia aristotélica, diríamos que, embora a matéria das nossas idéias seja de todos, a forma é nossa, e, sendo aquela o elemento determinável, e esta o fator determinante, todos os pensamentos que mergulharam nas profundezas da experiência pessoal são mais daquele que lhes deu forma determinante do que daqueles que forneceram apenas a matéria determinável.

Apagam-se cada vez mais as fronteiras materiais dos povos, nessa idade dos aviões a jato e diluem-se cada vez mais as fronteiras mentais, nesse avanço da cultura universal.

O leitor que possua suficiente fidelidade a si mesmo não se deixará influenciar por pensamentos alheios ao ponto de perder essa auto-fidelidade, deixando de ser o que é para se tornar o que não é; assimilará o que for assimilável e rejeitará o inassimilável. Diariamente, ingerimos determinados alimentos e até hoje ninguém virou batata, arroz, feijão, pão, manteiga, ou outro manjar que tenha ingerido milhares de vezes, porque o organismo, quando normal e vigoroso, é fiel a si mesmo, transformando em si o objeto, sem se deixar transformar pelo objeto.

Faça o leitor o mesmo com estes “fragmentos” – assimile o que corresponder ao estado da sua evolução interna e deixe de parte o resto.

FECHAR O CIRCUITO!

Se o circuito elétrico não for completo, da usina e para a usina, a lâmpada não acende, não importa o ponto onde a corrente esteja interrompida. Para haver luz, força ou calor, a lei cósmica exige que o misterioso fluido tenha circuito completo, ida e volta.

Assim, se alguém só quer receber, e não quer dar, devolvendo à usina divina o que dela recebeu, interrompe o fluxo contínuo e sua vida fica sem luz, força e calor. Feche, pois, o circuito dos dons divinos, distribuindo aos homens o que de Deus recebeu; porquanto, “o que fizerdes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim é que o fazeis”.

O SEGURO MORREU DE VELHO

Todo homem “seguro” – que muito segura o que tem e não o partilha com ninguém morre de “velho”, dia a dia, embora pareça moço; porque egoísmo é velhice moral, decrepitude senil.

De graça dai o que de graça recebestes!” (Jesus.)

Temos em nossas mãos bens demasiados.” (Emerson.)

Onde não há efluxo de bens na horizontal, lá não pode haver influxo na vertical:

o homem que não dá a seus irmãos não pode receber do Pai celeste. E falta de fluxo contínuo é suicídio lento por asfixia, arteriosclerose moral.

SEGURO DE VIDA

Sim mas da vida dos outros. Eu não posso fazer um seguro de vida pessoal sem fazer um seguro de vida universal. Quem quiser salvar-se individualmente, talvez que entre no céu mas esse céu é povoado de refinados egoístas como ele, que quiseram salvar-se sem os outros, ou à custa dos outros. Todos eles estão num céu infernal. Prefiro estar num inferno celestial

Não posso ser feliz no meu céu enquanto um único ser humano for infeliz no seu inferno e não tenha a possibilidade de entrar no céu da felicidade. Detesto esse céu! Quero sair dele! Prefiro sofrer no inferno com o grosso da humanidade a gozar nesse céu com uma elite de refinados egoístas.

Onde eu possa fazer bem a meus semelhantes, mesmo entre sofrimentos, ali é o meu céu.

DEUS EM TI

Despoja-te de toda e qualquer cobiça! O que, depois disto, sobrar de ti, isto é Deus(Meister Eckhardt). A soma total das tuas cobiças, físicas e mentais, não são o teu verdadeiro Eu são apenas a tua máscara ou a tua “persona”*.

Esse pseudo-Eu da personalidade humana revela-se, precipuamente, de dois modos: pelo instinto de conservação e pelo instinto de propagação, ou seja, pelo egoísmo individual e pelo egoísmo sexual.

Deus no homem chama-se a alma, o Emanuel, o Cristo interno, o Espírito santo que habita no templo do corpo.

* A palavra latina “persona” (pessoa) quer dizer “máscara”. “Persona”, composto de “per” (através) e “sonare” (soar, falar), era, entre os romanos aquela máscara de boca aberta através da qual os atores do palco falavam. Desempenhar a “persona” ou máscara do rei, do vilão, do mendigo, equivalia à nossa expressão hodierna “desempenhar o papel” de

A pessoa ou personalidade do homem não é, pois, o seu verdadeiro Eu, senão apenas um invólucro, uma máscara fictícia e temporária da sua verdadeira individualidade humana. O seu verdadeiro Ego é sua alma.

ESPELHO OU JANELA?

O profano egoísta acha-se no meio duma sala cujas paredes são espelhos, como no célebre museu de Grevin, de Paris; para onde quer que ele se volte, só vê o seu Eu, sempre seu próprio Eu isto é, o seu pseudo-Eu físico-mental que ele erroneamente identifica com o seu verdadeiro Eu espiritual. Que admira que esse homem fique egocêntrico?

De repente, enojado desse Eu, quebra um dos espelhos-parede e abre caminho para o mundo objetivo! E fica livre da obsessão do seu estreito egocentrismo. Abriu uma janela!

INTROSPECÇÃO NÃO É EGOCENTRISMO

Há quem pense que a meditação ou introspecção favoreça o egocentrismo, obrigando o homem a girar em torno de si mesmo. É engano! A introspecção ensina ao homem a ultrapassar o seu ego físico-mental, estreito e unilateral, e encontrar o seu grande Ego espiritual, vasto e onilateral como o próprio Deus

de infinita amplitude. Quanto mais o homem se concentra no seu Eu espiritual, na sua alma divina, tanto mais ele se universaliza e diviniza. A consciência universal, porém, é o amor universal e absoluto.

CRISTO E CRISTIANISMO

Ambos nasceram no Oriente próximo, em sua forma humana mas o cristianismo eclesiástico é criação típica do Ocidente, que o Oriente jamais aceitará. Se o nosso cristianismo teológico se converter no cristianismo evangélico, também o Oriente se tornará cristão.

ASSIM FALOU MAHATMA GANDHI

Stanley Jones, o grande missionário norte-americano da Índia, pediu a Gandhi

o orientasse sobre o melhor modo de fazer com que os hindus vissem no

cristianismo algo seu, e não um elemento alheio ao espírito da Índia. Ao que o

Mahatma respondeu:

1) “Antes de tudo, aconselharia aos cristãos que vivessem assim como o Cristo viveu.

2) Que transformassem a religião em atos, sem lhe fazer violência nem a degradar.

3) Que pusessem ênfase especial na prática do amor, porque o amor é o centro e a alma do Cristianismo. Entendo por amor não algum sentimento emocional, mas uma força creadora, a força do universo moral.

4) Que os cristãos estudassem com mais simpatia as religiões e culturas não- cristãs, para descobrir o que nelas-há de bom e adquirir a faculdade de se aproximar do oriental com maior compreensão.”

FALA UM GRANDE INDIÓLOGO

Escreve o dr. Erwin Baktay, exímio conhecedor da Índia: “O dr. Stanley Jones ousou dar o passo decisivo; concede, aberta e corajosamente, que mais aprendeu da Índia do que pôde ensinar à Índia. Aprendeu a verdade essencial

de que a essência do cristianismo é unicamente o próprio Cristo todo o resto

é aditamento humano, são pontos de vista e sistematizações eruditamente

excogitados, e que só em determinadas circunstâncias peculiares têm um direito relativo à existência. A Índia nada pode ter de comum com as guerras de

religião do Ocidente, com as controvérsias teológicas e com todo o curso do desenvolvimento do cristianismo segundo o gênio do Oeste; nada pode ter de comum com os problemas locais relacionados com a cultura ocidental tanto mais, porém, tem a Índia que ver com o Cristo e seu Evangelho. Se o mundo ocidental tinha o direito de desenvolver as correspondentes formas religiosas segundo a sua própria concepção, consoante as circunstâncias da sua evolução compete à Índia pelo menos o mesmo direito de desenvolver o cristianismo a seu modo, tanto mais que o seu profundo entusiasmo com que, há milênios, vai em busca de Deus, e sua insaciável sede da verdade transformaram o subsolo espiritual do indiano num humus fecundo, muito mais propício à recepção da pureza do Evangelho do que a Europa de outrora, em parte dominada pela cultura heleno-romana, isto é, pagã; em parte dominada pelo barbarismo; mais propício também do que o Ocidente de hoje, obsessionado pelo materialismo, pela ânsia do poder, e que por isto vai definhando num caos de sistemas eruditamente excogitados.”

ESPÍRITO DO ORIENTE E DO OCIDENTE

O Oriente trilha, por via de regra, o caminho individual do saber, isto é, da

experiência religiosa pessoal; mas isto é privilégio de uma pequena elite; as massas são incapazes de realizar esse encontro pessoal com Deus, contentando-se com os invólucros vazios de yoga, que para elas são meras fórmulas sem conteúdo.

O Ocidente desenvolveu o caminho coletivo do amor, inteligível às massas, a

qualquer creatura, por mais destituída de inteligência e preparo crianças e analfabetos, doentes no fundo do leito ou operários nas fábricas para todos eles é inteligível a linguagem do amor, e, de fato, só aceitam o cristianismo quando lhes vem na forma internacional e interconfessional do amor.

Infelizmente, o Ocidente, em geral, não deu importância ao encontro pessoal com Deus, sem o qual todo amor social e coletivo é superficial, meramente emocional, acabando naquilo que temos visto e estamos vendo: guerras, ódio

de

classes, extermínio de raças, conflitos religiosos.

O

Oriente não pode aceitar o cristianismo teológico do Ocidente, mas abraçará

com entusiasmo o cristianismo do Evangelho, porque vê no Cristo o divino

Logos, o eterno Super-Eu, a alma do homem e do universo.

Assim, a Índia jamais aceitará um Deus vingativo, como aparece na teologia ocidental; nem a idéia de castigos eternos e a absoluta impossibilidade da conversão; nem tampouco a doutrina do pecado original, de um pecado cometido por outra pessoa e pelo qual eu seria responsável; nem a teologia

horripilante da redenção pelo sangue de um homem inocente injustamente trucidado pelos pecadores.

CICLOS CÓSMICOS

Um ano mundial (aion) abrange cerca de 25.920 anos terrestres. Um mês mundial corresponde a cerca de 2.160 anos terrestres.

Cada mês mundial inaugura na terra uma nova era, cujo fim é sempre acompanhado de grandes tribulações e tempestades de todo gênero expira um inverno tormentoso para dar lugar a uma nova primavera de evolução.

O Antigo Testamento decorre sob o signo de Capricórnio, símbolo de violência.

Estamos no signo de Peixes, que começou com o nascimento de Jesus; e vamos em breve entrar no signo de Aquário.

A era de Peixes é assinalada pela onda cósmica do amor, pelo Cristo, o

misterioso “ichthys” (peixe) das catacumbas.

A

era de Aquário virá a ser o domínio da universalidade, assim como a água é

o

elemento mais universal na terra, sem a qual nenhuma vida orgânica é

possível.

Os maus espíritos, que são soltos no fim de cada ciclo cósmico, não são maus em absoluto, mas sim relativamente maus assim como são más as tempestades que preludiam o advento da primavera e quebram os galhos podres e arrancam as folhas secas, a fim de preparar a grande ressurreição da natureza.

Era da serpente rastejante Lúcifer.

Era da serpente exaltada Cristo individualizado em Jesus.

Era do espírito universal Cristo cosmificado no espírito santo.

INDIVIDUAL COLETIVO

O coletivismo só pode ser perfeito pela união de homens individualmente perfeitos, irradiando amor desinteressado. O indivíduo só pode ter possibilidade de ulterior evolução das suas faculdades, através de uma vida fundada num coletivismo perfeito desse gênero. A missão da sociedade está em garantir ao indivíduo, não só a maior segurança, mas também todos os meios necessários para o seu aperfeiçoamento.

O maior perigo do coletivismo mal orientado está na tendência de querer

suprimir o indivíduo e coibir a livre expansão das suas faculdades e talentos. Valores reais se perderiam deste modo, o que, cedo ou tarde, redundaria em detrimento do Todo Social.

O Oriente possui o segredo da evolução individual, mas não conseguiu

desenvolver uma vida coletiva para as massas que lhes assegurasse um bem- estar dignamente humano; e por isto milhões de seres humanos vegetam e sofrem em condições indizivelmente tristes.

No Ocidente houve mais coletivismo, mas, devido à falta de cultura individual, o próprio coletivismo degenerou em maldição.

Quando surgirá o homem completo, integral, o homem cósmico?

Já apareceu, mas são poucos que conseguiram trilhar o mesmo caminho.

Eu vim para abundância.”

que os homens tenham a vida

e

a tenham em

maior

A RELIGIÃO DE EINSTEIN

A minha religião diz ele consiste numa humilde admiração do espírito supremo, ilimitado, que se revela nos pequenos detalhes que somos capazes de perceber com a nossa mente débil e fraca: a presença de um Poder Racional superior, revelado no universo incompreensível é o que é a minha idéia de Deus.”

O COSMOS É INDIVISÍVEL

Escreve o grande cientista contemporâneo, Dr. Gustavo Stromberg: “Temos razões para crer que todos os atributos do cosmos sejam interrelacionados e formem um Todo unificado. O cosmos em si mesmo é um e indivisível; e é devido a uma peculiaridade da nossa mente e do nosso sistema nervoso que o apreendemos na forma de categorias (quer dizer: fenômenos concretos). Matéria, vida e consciência têm as suas raízes num mundo além de tempo e espaço.”

CONTINUA O MISTÉRIO DO UNIVERSO

Escreve Lincoln Barrett, na obra The Universe of Dr. Einstein: Permanece o mistério fundamental. Toda essa marcha da ciência rumo à unificação dos

conceitos a redução da matéria a elementos, a uns poucos tipos de partículas, a redução das forças ao simples conceito de energia tudo isto continua ainda a locar-nos ao Desconhecido.”

HARMONIA CÓSMICA DOS GRANDES GÊNIOS RELIGIOSOS

Escreve o filósofo Erich Fromm, em seu livro Psychoanalysis and Religion:

Quando tentamos dar um quadro da atitude humana que serve de substrutura ao pensamento de Lao-Tse, de Buda, dos Profetas, de Sócrates, de Jesus, de Spinoza e dos filósofos do Esclarecimento, fere-nos a atenção o fato de que, não obstante notáveis diferenças, existe um centro de idéias e normas comuns em todos esses ensinamentos. Sem pretendermos apresentar uma formulação completa e precisa, passaremos a descrever, aproximadamente, esse centro comum:

1) deve o homem esforçar-se para atingir a verdade, e o homem só pode ser plenamente humano na proporção que realizar essa sua missão;

2) deve o homem ser independente e livre, um fim em si mesmo, e não um meio para os propósitos de quem quer que seja;

3) deve estabelecer entre si e seus semelhantes uma relação de amor; se lhe faltar o amor, não passará de um invólucro vaio (empty shell), mesmo que possuísse todo o poder, todas as riquezas e toda a inteligência;

4) deve conhecer a diferença entre o bem e o mal, e deve aprender a ouvir a voz da consciência e tornar-se capaz de segui-Ia.”

O PERIGO DE NÃO FAZER NADA

“Entre as grandes coisas que não podemos fazer, e as pequenas coisas que não queremos fazer, existe o perigo de não fazermos coisa alguma.” (Adolphe Monod.)

PALAVRAS FORTES CAUSA FRACA

Palavras fortes e amargas indicam, geralmente, uma causa fraca.” (Victor Hugo.)

O MESMO NEM SEMPRE É O MESMO

Quando duas pessoas fazem a mesma coisa, a coisa não é a mesma.” (Publius Syrus.)

ALTO MAS NÃO DEMAIS

Ascende acima das restrições e das convenções do mundo mas não tão alto que as percas de vista!” (Richard Garnett.)

CRIMES E VÍCIOS

Crimes, quase sempre nos chocam demais vícios, quase sempre, nos chocam de menos.” (C. Hare.)

EXCESSIVAMENTE CLARO

Dizem uns: O homem de hoje paga os seus débitos de ontem.

Opinam outros:

humanidade.

O homem

de

hoje

paga os débitos do pai comum

da

Acham outros: O homem de hoje não paga débito algum, mas nasceu simplesmente nesse estado inferior.

Essas três teorias, sobretudo a primeira e a segunda, são demasiadamente simples e claras, para serem aceitáveis. Coisa que a inteligência possa facilmente compreender e que não deixe margem para dúvidas e obscuridades, é suspeita de estar aquém da verdade integral. As grandes verdades são certas, intuitivamente, mas não analisáveis, intelectualmente. Podemos intuí- Ias com a razão espiritual, mas não inteligi-Ias com a mente.

Felizmente, nem é necessária essa análise intelectual. Muito mais importante do que esquadrinhar o donde e o porquê do sofrimento é saber o para quê do mesmo e o como da atitude a assumir em face dele, para que promova a nossa evolução rumo às alturas.

A VOZ DA INTUIÇÃO

Um senso íntimo e indefinível me diz:

1) que não fui o que sou, e que posso vir a ser mais do que sou;

2) que aquilo que posso vir a ser depende de uma integração no Todo, de um serviço prestado ao Universo, ao Todo, a Deus;

3) que todo isolamento ou separatismo é pernicioso, mau, pecador, infeliz;

4) que a integração no grande Todo é feito pelo Amor, por um amor racional, espontâneo, radiante, jubiloso;

5) que esse grande Todo me é acessível, diariamente, na forma da humanidade, de cada um dos meus semelhantes, e da própria natureza infra- humana;

6)

compreensível, não no plano intelectivo, mas sim o plano intuitivo, que é o

verdadeiro saber.

torna

que,

à

luz

desse

Amor

Universal,

o

passado

do

homem

se

Tudo isto que estou dizendo a meus leitores, digo-o em primeiro lugar a mim mesmo. Eu sou o meu leitor e ouvinte número um o meu pequeno Eu físico- mental está sentado como dócil discípulo aos pés do Mestre, que é o meu Eu espiritual, o meu Cristo interno, o meu Emanuel.

QUEM PROVA A EXISTÊNCIA DE DEUS É ATEU

Deus é aquela Realidade Universal, Absoluta, Infinita, Eterna, Única, que ultrapassa todas as fronteiras das nossas análises intelectuais. Para além dos extremos horizontes de todos os nossos mais arrojados silogismos começa Deus, que não é isto nem aquilo, nem a soma total de todos os fenômenos do universo. Só sei de Deus pela experiência íntima do meu próprio Eu divino.

Quem julga ter provado a Deus pelo intelecto é ateu.

E quem adora esse Deus demonstrado é idólatra.

A VIDA NÃO É UMA TEORIA

Há quem se diga agnóstico, há quem se chame ateu. Ambos ignoram a Deus; mas o agnóstico ignora-o sem quebra da lógica, ao passo que o ateu o ignora assassinando a lógica, porquanto afirma conhecer algo que, segundo ele, não existe como se o inexistente, o puro nada, pudesse ser objeto de conhecimento!

Na prática, porém, não há nem agnósticos nem ateus. Em teoria é possível manter-se alguém numa atitude de suspensão ou neutralidade, porque a teoria

é um esqueleto inerte; na prática, porém, todo homem assume atitude ou positiva ou negativa a neutralidade é uma simples ficção mental, inexistente

no plano da realidade concreta da vida humana.

CRER OU DESCRER NADA RESOLVE

Crer em Deus não resolve os problemas da vida descrer dele, ainda menos. Mas o crer torna suportáveis os sofrimentos da existência, ao passo que o descrer os torna insuportáveis.

A única coisa que realmente resolve os problemas é o saber, isto é, a

experiência íntima da realidade de Deus. Em face do saber desmaiam a noite

do descrer e o crepúsculo matutino do crer, assim como as trevas e penumbras

fogem diante do sol nascente.

Entretanto, o crer é de suma importância, porque é o prelúdio do saber. Ninguém pode saber sem primeiro crer.

HARMONIZAR O AGIR COM O SER

No meu íntimo SER sou Deus; por isto, no meu externo AGIR também devo ser como Deus. Devo combinar a horizontal da minha ética com a vertical da minha mística, a fim de ser redimido por essa cruz, de ser positivo, mais, infinito, como esse sinal simbólico. Todo o mal da minha vida vem da discrepância entre o meu AGIR e o meu SER.

UNO E MÚLTIPLO

Deus é um ou uno em sua essência, no seu eterno SER porém múltiplo na

sua existência, no seu AGIR temporário. Os mundos múltiplos são a expressão

do Deus uno e único.

CARREGO COMIGO A MINHA CAVERNA”

Um brâmane, cultor da mística estática das cavernas solitárias, insistia com Mahatma Gandhi que se retirasse do bulício do mundo e da política para o silêncio duma caverna, a fim de se salvar; ao que Gandhi replicou: “Trago essa caverna dentro de mim.”

BUDISMO, BRAMANISMO, ROMANISMO RELIGIÕES PARA ELITE

Essas religiões são para pequenas elites, seitas, irmandades piedosas, não para a humanidade como tal. No catolicismo romano, só uma pequena elite, os sacerdotes, frades e freiras, com os seus votos separatistas, é que são considerados cristãos de primeira classe; os leigos e casados são tolerados, como seres de segunda classe.

De modo análogo, no budismo e bramanismo.

O cristianismo, porém, é universal; exige de todo e qualquer homem uma santidade e perfeição completa, uma religião da vida inteira, e não apenas de certas horas devocionais.

A única consolação que as religiões ascéticas orientais, e o romanismo clerical

do Ocidente, podem dar ao homem no meio do mundo é ter pena dele e augurar-lhe melhor sorte numa futura reencarnação, ou então recomendar-lhe que se resigne com um lugarzinho secundário no céu, deixando os lugares de honra, na imediata vizinhança de Deus, aos heróis da renúncia do mundo de Deus. Para todos eles, a perfeição não está em usar corretamente as coisas que Deus nos deu, mas em recusá-Ias com soberano desdém.

PAZ INTERNACIONAL SÓ NO CEMITÉRIO

Depois da primeira guerra mundial, alguém, visitando a Europa devastada, viu por toda a parte cemitérios e mais cemitérios de soldados mortos americanos, ingleses, alemães, franceses, italianos, russos, israelitas todos eles pacificamente sepultos uns ao lado dos outros e não havia guerra entre eles

Será

semelhantes?

que

quando

morto

pode

o

homem

estar

em

paz

com

seus

Sim, só depois de morto ou morto para a vida do corpo, ou então morto para

a vida do seu egoísmo. Se não quiser morrer para o egoísmo, terá de morrer para a vida corpórea, se é que quer ter paz com seus irmãos humanos.

Só a pleni-vida do espírito, em vez dessa semi ou pseudo-vida do corpo e da mente é que lhe poderiam garantir perfeita paz no meio duma vida abundante.

Eu vim para que os homens tenham a vida, e a tenham em maior abundância.”

“Dou-vos a minha paz”

Isto vos disse para que minha alegria esteja em vós, e seja perfeita a vossa alegria

PEIXINHOS EM POÇAS D’ÁGUA DA PRAIA

Cada grupo de peixinhos nessas poças que a maré deixara na arenosa praia discutia com os inquilinos de outras poças, afirmando ser a sua poça o mar e serem eles os únicos habitantes legítimos do oceano.

De repente, enorme vagalhão levou de roldão todas as pocinhas d‟água juntamente com seus orgulhosos íncolas, abismando-os nas profundezas do mar.

E os peixinhos viram que eram todos irmãos e habitantes do mesmo oceano.

BUROCRATIZANDO OU VOLATILIZANDO O CRISTIANISMO

São estes os dois grandes perigos da atualidade. O sectário estreito burocratiza o espírito de Cristo, procurando encerrá-lo em fórmulas doutrinárias. O liberal superficial volatiza a alma do cristianismo, difundindo-a pelos vastos areais da sua indiferença religiosa, até não sobrar nada da divina essência do Evangelho.

Respeitar a infinita verticalidade do Evangelho, e ao mesmo tempo horizontalizá-lo até aos últimos confins do universo isto é tremendamente difícil, porquanto o vertical da profundidade e sublimidade parece negar o horizontal da amplitude e universalidade. Assim parece aos profanos liberais e aos estreitos sectaristas mas o verdadeiro iniciado sabe por experiência

íntima que não há antagonismo real entre o vertical da experiência individual e

o horizontal da organização social. Mas, para unir permanentemente a barra

horizontal com o tronco vertical, requer-se tamanha força espiritual que poucos conseguem essa suprema realização, filha do encontro pessoal com Deus.

ADULTERAÇÃO DA BÍBLIA

A Bíblia, sobretudo no mundo protestante, foi transformada numa simples coletânea de preceitos éticos ou numa teologia escolástica, em uma espécie de dose de ópio destinada a manter pacientemente submissas as bestas de carga humanas; dos misteriosos surtos de experiência mística que produziram a Bíblia, desse vastíssimo incêndio do espírito divino de que as palavras

humanas são apenas cinzas frias disto nada sabem nem suspeitam os cultores da “letra morta”. A “bibliolatria”, como lhe chama Harry Émerson Fosdick, é a pior inimiga da Bíblia.

REALISMO IDEALISMO

O Cristianismo é um vasto realismo horizontal, animado por um profundo

idealismo vertical.

O

MUNDO EM DEUS OU O MUNDO SEM DEUS

Ou

o homem tem experiência de Deus e neste caso vê a Deus no mundo e o

mundo em Deus; ou não tem experiência de Deus e neste caso vê o mundo sem Deus. No meio desses dois extremos estão os que, embora não tenham experiência de Deus, têm contudo a boa vontade de a possuir, e isto é crer. O

crente não vê a Deus no mundo, nem o mundo sem Deus mas adivinha Deus para além do mundo.

Para o descrente e o insciente, Deus é inexistente.

Para o crente, mas ainda insciente, Deus é existente, porém ausente.

Para o experiente ou sapiente, Deus é ao mesmo tempo imanente no mundo e transcendente ao mundo. Este é o homem integral, cósmico, crístico.

TOTALITARISMOS CATÓLICO

E PROTESTANTE

O catolicismo tem sustentado o nazismo, o fascismo, o integralismo, e todas

as outras formas de totalitarismo político, porque ele mesmo é o totalitarismo

por excelência, e numa esfera mil vezes pior que a esfera política, na espera

espiritual da consciência. Os países de preponderância católica são invariavelmente aqueles em que o comunismo medra mais espantosamente.

O protestantismo tem sustentado o capitalismo e todas as formas de

totalitarismo econômico, embora, em teoria, invoque os direitos do indivíduo

humano.

Só uma profunda e completa remodelação da mentalidade individual, católica e

protestante, é que poderá salvar a civilização cristã do Ocidente(adaptado).

MARIA PRIMEIRA REVOLUCIONÁRIA MÍSTICA-SOCIAL

Maria, tocada pelo Espírito Santo, tornou-se a primeira revolucionária em prol do reino de Deus, na era cristã, quando exclamou:

Serviu-se do poder do seu braço para dispersar os soberbos na mente do seu

coração e exaltar os humildes

sublimou os pequeninos

Encheu de bens os famintos e mandou embora

Depôs dos seus tronos os orgulhosos e

vazios os ricos.” (Lc. 1,51-53.)

TODA REVOLUÇÃO EFICIENTE É MÍSTICA

Toda e qualquer revolução que venha apenas como um belo movimento ético ou social está derrotada mesmo antes de começar, porquanto toda a ética é, em si mesma, difícil, cruciante, sacrificial e estas coisas não têm garantia de solidez e perpetuidade. Só as coisas experimentadas como fáceis, espontâneas e deliciosas é que possuem essa solidez e perpetuidade.

Toda revolução construtiva tem de ser baseada, portanto, numa compreensão profunda da realidade do homem e do mundo, numa luminosa visão da essência central das coisas, numa veemente revelação de dentro, porque só esse contacto direto e imediato com a Realidade Eterna do homem e do mundo, essa visão mística do Todo, é que torna a ética fácil e a virtude deliciosa, ateando no homem um incêndio cósmico de amor e de entusiasmo pela verdade e pelo bem.

Só se eu conseguir transformar o meu deserto em um oásis, é que estarei disposto a habitar nesse deserto, transformado, pela intuição da verdade oculta, num paraíso de vida e beleza.

Felizmente, essa transformação não é filha da ilusão, mas é uma realidade infinitamente mais real do que todas as pseudo-realidades da superfície, uma vez que a onipresença de Deus e sua imanência em todas as coisas, também no deserto, é um fato, e não uma fantasia. Não experimentar essa imanência de Deus em tudo é ver no deserto um deserto de fastidiosa monotonia e vacuidade mas, desde o momento que o homem experimenta o Deus onipresente e oni-imanente, deixou o deserto de ser uma vacuidade inerte e se transformou numa exuberante plenitude vital. O que mudou não foi o deserto que nunca esteve “deserto”, mas sim o homem, que de cego se tornou vidente, de ignorante se tornou sapiente, de profano se tornou iniciado, de morto se tornou vivo.

INTERPRETAÇÕES HISTÓRICAS DO CRISTIANISMO ETERNO

Nos três primeiros séculos não existe, propriamente, interpretação do Cristianismo, porque todo cristão experimentava e vivia diretamente essa estupenda realidade. O fato da invasão do mundo espiritual no mundo material era para eles uma realidade objetiva; subjetivamente vivia em toda a sua plenitude, profundidade e amplitude.

No início do quarto século, porém, tinha essa experiência de Deus arrefecido a tal ponto que se tornou necessária uma teoria escolástico-teológica sobre essa grande realidade fogo bem pintado em vez de fogo real. E esse fogo artificial da teologia teve de substituir o fogo natural do Evangelho, e o cristão foi obrigado a crer na realidade desse fogo irreal na tela teológica, sob pena de ser excomungado da igreja de Cristo. A fim de dar maior realce à ilusão do fogo artificial como sendo fogo real, foram invocados todos os recursos da política, do militarismo, da sociologia, da psicologia, do ritualismo externo, e da força bruta cruzadas, inquisições, excomunhões, etc. Mas o fogo artificial da teologia não se transformou no fogo real do Evangelho. Os “hereges”, excomungados, passaram a excomungar os seus excomungadores e seguiu- se o caos eclesiástico ao cosmos evangélico.

Com Constantino Magno, esse imperador pseudo-converso, surgiu, no setor romano do Cristianismo, o ideal da ditadura dos corpos e das almas, que até hoje continua, pelo menos como ditadura das almas, já que os governos modernos negaram aos teólogos eclesiásticos a ditadura dos corpos.

Aparece, no século 16, a tentativa de uma interpretação democrática do

Cristianismo: cada indivíduo tem o direito de saber por si mesmo, graças a seus inalienáveis direitos humanos, o que é Deus, o Cristo, a vida eterna, sem

a necessidade de interrogar o infalível pontífice de uma igreja hierarquizada.

Mas a democracia eclesiástica do protestantismo acabou em anarquia religiosa por quê? porque eram pouquíssimos os homens espiritualmente maduros e adultos para encontrarem a Deus por si mesmos e em si mesmos. O que encontraram foi o Lúcifer do ego em vez do Espírito de DEUS, porque não cavaram bastante fundo, não atingiram até ao centro da revelação divina, mas pararam na periferia da interpretação intelectual da Bíblia. Prevaleceu a exegese teológica sobre a experiência mística. E assim a tentativa da interpretação democrática do Cristianismo falhou, como falhara a interpretação ditatorial.

Aparecem então os ascetas escatológicos que aliás sempre tinham existido

e tentaram interpretar o Cristianismo como negação radical da vida e do

mundo; quanto mais longe do mundo, tanto mais perto de Deus, e vice-versa.

Tentaram transformar o mundo de Deus num mundo sem Deus, ou num Deus sem mundo, numa longínqua e solitária e desnuda Tebaida, onde o homem desiludido do mundo se pudesse enamorar e inebriar de Deus, em mística solitude e perpétuo êxtase.

Outros, cansados de fracassos, resolveram abrir mão de todas as lucubrações teológicas e contentar-se com um Cristianismo puramente ético-social,

horizontalista, superficial. Para que investigar a origem das nascentes, quando

se pode beber das suas águas em qualquer ponto do percurso da torrente?

Basta que o homem seja bom, justo, correto, honesto, caridoso, afável, amigo

de todos, para ser um cristão perfeito e integral. Triunfou então a propínqua

superficialidade da ética humanitária sobre a longínqua profundidade da mística divina. Entretanto, as almas mais profundas não valeram sopitar dentro

de si as saudades do abismo, a nostalgia do Infinito, o silencioso clamor da sua

anima naturaliter christiana; insatisfeitas com as águas derivadas da ética

cotidiana, subiram às montanhas eternas para saber onde nasciam essas águas, de que rochedos brotavam, puras, incontaminadas, inderivadas e

muitos desses pioneiros do Infinito nunca mais voltaram às planícies do finito; inebriados da nascente divina, esqueceram-se de todos os rios humanos. Outros, porém, continuaram a beber das águas, mais ou menos turvas, dos rios

da ética, inexperientes da linfa puríssima da sua nascente.

Quando aparecerá sobre a face da terra o homem cósmico? O homem integral, o homem crístico, que dispense interpretação do Cristianismo, pelo fato de o experimentar e viver em toda a sua plenitude, profundidade, sublimidade e amplitude?

Já apareceu, esse homem cósmico, o filho do homem; nasceu no ano 1 da

nossa era, e foi crucificado no ano 33

Entretanto, ele está conosco todos os dias até à consumação dos séculos, cheio de graça e de verdade

NÃO HÁ CRISTIANISMO TEÓRICO

Não, há cristianismo-teoria.

há cristianismo-fato.

O

cristianismo é uma realidade eterna, é realismo a 100%. Por falta de

realismo e excesso de irrealismo é que o homem deixa de ser cristão.

Antes da Encarnação, o Cristo, o eterno Logos, era Theoria (palavra grega que quer dizer “visão”); depois da Encarnação, essa eterna Theoria ou “Visão” se

tornou Praxis, isto é, “Ação”, atualizou-se, tornou-se realidade palpável, visível; o espírito divino do Cristo materializou-se na carne humana de Jesus.

O cristianismo é uma permanente Encarnação: o Verbo, ou Logos, se faz carne

sem cessar e habita entre nós.

Também a vida de cada cristão é uma incessante Encarnação do Verbo, do divino Logos da Alma eterna que se individualiza ou materializa na pessoa de Pedro, Paulo, Maria, Isabel, etc.

A visão mística encarna-se diariamente na ação ética e nasce o homem

cósmico, o homem integral.

DO CRISTIANISMO AO CRISTO

Não é o cristianismo que pode salvar o mundo, mas só o Cristo. O cristianismo

é, hoje em dia, teoria e teologia humana, o Cristo é realidade divina.

Qualquer reforma religiosa eficiente consiste no abandono das teorias e teologias humanas e no retorno real e total ao Cristo.

O

mundo de hoje nada tem que esperar do cristianismo, tudo tem que esperar

do

Cristo.

O

nosso cristianismo é ficção o Cristo é fato.

O

nosso cristianismo é um fogo pintado o Cristo é um fogo real.

DA CARIDADE AO AMOR

Se houvesse entre nós mais amor, não haveria necessidade da caridade, porque a caridade é filha da miséria, mas a miséria é filha da nossa falta de amor. O egoísmo humano, que é falta de amor, cria a miséria, a indigência, a pobreza, a fome, a desnudez; e, em face dessa numerosa prole gerada por nosso desamor, faz-se mister a caridade. A caridade não remedia os males da sociedade, apenas os atenua temporária ou parcialmente; é uma espécie de injeção, de anestésico, de soporífero, de pomada ou cataplasma que o homem egoísta que desejaria ser altruísta aplica às dolorosas chagas abertas pelo egoísmo e desamor dos homens. Se não houvesse exploradores, não haveria explorados, e, se não houvesse exploradores nem explorados, não haveria mi- séria e não haveria ambiente propício para exercer a caridade. O triunfo do amor tornaria impossível o exercício da caridade a não ser em casos excepcionais, catástrofes inesperadas, terremotos, incêndios, enchentes, e outros fenômenos não dependentes da maldade dos homens; nessas ocasiões

excepcionais seria necessária a caridade, mesmo entre homens cristificados pelo amor; mas a caridade não seria uma necessidade normal, permanente, da nossa sociedade.

Pobres, sempre os tereis convosco; a mim, porém, nem sempre me tereis.”

Será que não deveríamos traduzir: “Pobres, sempre os tereis convosco, se não me tiverdes a mim”? A miséria sempre estará presente onde o Cristo está ausente, e, por haver miséria gerada pela ausência do Cristo, faz-se mister a caridade como lenitivo dessa miséria.

A abolição radical e definitiva da miséria está na proclamação e vivência do

amor.

Entre os primeiros discípulos do Cristo, referem os Atos dos Apóstolos, não haveria um só indigente porque havia o espírito do Cristo, que é amor.

CARIDADE, NÃO JUSTIÇA, SIM

Numa das minhas viagens pelo Nordeste brasileiro, fui convidado a falar num centro operário; ao entrar no recinto, verifiquei sobre a porta a legenda: “Não queremos caridade – queremos a justiça do trabalho!”

Onde há amor, lá existe a justiça do trabalho, o trabalho devidamente remunerado, de maneira que a pobreza não encontre terreno para prosperar, e torne a caridade desnecessária. O cristianismo doentio dos nossos dias canta apoteoses à filantropia, filha da pobreza e neta do egoísmo essa filantropia humanitária, talvez a mais perversa heresia dentro do cristianismo ocidental. Tão grande é a sagacidade do nosso inextirpável egoísmo que chega a

camuflar em virtude os seus vícios, cantando entusiásticos hinos à caridade e filantropia a fim de poder continuar impunemente, por detrás dessa cortina de fumaça, as suas torpes manobras de descaridosa exploração e aumentar cada vez mais a miséria sob o rótulo hipócrita de caridade! E destarte, barrado por essa satânica filantropia, não pode o amor do Cristo entrar no coração do

homem

“caritativo”

E a miséria continua

JESUS DEU ESMOLA?

Não consta. O que consta é que preparou um grupo de homens, como fermento da massa profana, que tornasse desnecessária a esmola, porque aboliria a pobreza pelo amor. Mas os cristãos, abolindo o amor, criaram a pobreza, e, como consequência, a necessidade da esmola. E neste círculo

vicioso se debate a humanidade até hoje até que triunfe o espírito do Cristo, que é amor e justiça.

DEUS NÃO ENTRA NA ALMA

Encontramos em todas as grandes filosofias e religiões a doutrina sobre a imanência de Deus no homem. Essa imanência divina é chamada o Emanuel (Deus em nós), o Cristo interno, a centelha divina no homem, o alicerce da alma, a voz interior, a luz interna, o espírito santo que habita no templo do corpo, o Eu central, a faculdade intuitiva, o Logos, a Razão, a Consciência Cósmica, o chamamento interno, etc.

O certo é que Deus não entra nem necessita de entrar na alma; porquanto ele está na alma desde o início, ou melhor, ele mesmo é essa alma. O que importa é que esse Deus objetivamente presente na alma pela realidade ontológica se torne também subjetivamente presente pela percepção lógica; isto é, que o homem se torne consciente dessa imanência de Deus. Enquanto o homem ignorar essa presença íntima de Deus, ele é mau, pecador, egoísta, porque não renasceu ainda pelo espírito, não se despojou ainda do homem velho, nem se revestiu do homem novo; mas no dia e na hora em que ele se tornar consciente da realidade interna da imanência de Deus nele, esse homem passará das trevas à luz, da morte à vida, do egoísmo ao amor, do pecado à santidade. Não é possível que um homem que tenha conhecido o seu verdadeiro Ser divino viva, por muito tempo, em desarmonia com essa realidade por ele conhecida; cedo ou tarde, o seu Agir se conformará com o seu Ser; a sua Ética se revestirá das cores da sua Mística; a sua Vida será sintonizada pela sua Fé, se é que essa Fé é uma experiência íntima, e não apenas a encampação externa de opiniões alheias.

APREENDER E COMPREENDER DESCOBRIR FATOS, REALIZAR VALORES

Aprende-se e apreende-se mentalmente compreende-se espiritualmente.

Aprender e apreender é um processo analítico, silogístico, sensitivo-intelectual.

Não há nada no intelecto que não tenha estado no senso”, diz o velho adágio filosófico. O que os sentidos percebem fisicamente, o intelecto o concebe e elabora metafisicamente; mas essa elaboração metafísica do intelecto não despoja a percepção física do seu caráter visceralmente individual e unilateral.

Só quando o homem compreende – isto é, “prende totalmente” – é que ele sabe de fato o que a coisa é em si mesma: Mas esse compreender não é um processo analítico-silogístico, um ato sensitivo-intelectivo; o compreender é um fato simultâneo, repentino, um lampejo de dentro, uma revelação ou iluminação interna, e não uma aquisição externa. A compreensão não é derivada dos objetos externos, mas do sujeito interno, do grande, eterno e infinito SUJEITO, que é Deus, e que, em sua forma humana, se chama alma. Aprende-se de fora, compreende-se de dentro. O aprender é feito pelo ego físico-mental o compreender é feito pelo ego racional-espiritual, pelo Emanuel, pelo Cristo interno, por Deus em nós.

Para aprender necessita o homem de uma vasta expansão em sentido centrífugo para compreender requer-se uma profunda concentração em sentido centrípeto.

A quantidade dos fatos externos apreendidos torna o homem erudito,

inteligente a qualidade do valor interno compreendido torna o homem bom e

santo.

Nenhuma religião promete o céu aos homens inteligentes todas prometem o céu aos homens bons; porquanto, descobrir fatos fora de mim me faz apenas erudito, mas não me faz bom; ao passo que realizar valores dentro de mim me faz realmente bom. Eu sou o descobridor de fatos alheios, e isto não atinge a essência do meu ser mas eu sou também o criador de valores próprios, e isto atinge a íntima essência do meu Eu humano.

Ainda que eu descobrisse todos os fatos objetivos do mundo externo, e fosse assim um cientista a 100%, seria feliz? Não! Por que não? Porque não teria criado nenhum valor humano dentro de mim, e, como a minha felicidade é essencialmente idêntica a essa criação de valores internos, nenhum descobrimento de fatos externos afetará o íntimo quê do meu ser; são fatos periféricos, na superfície longínqua do meu Eu; é uma luz fria fora de mim, mas não uma força cálida dentro de mim. O céu da minha felicidade não é fabricado com a matéria-prima impessoal de fatos objetivos, que minha inteligência descobre, mas sim com a força pessoal de valores subjetivos que minha alma cria e realiza.

Satanás é o rei da inteligência mas é infeliz, porque o seu mundo é feito de fatos descobertos por sua poderosa inteligência, mas não de valores realizados por seu espírito. E, por isto mesmo, o seu céu intelectual é o seu inferno espiritual um céu infernal.

Nenhum fato externo me pode fazer feliz ou infeliz só uma realização interna é que me abre as portas do céu ou do inferno.

Eu sou o criador do meu céu eu sou o autor do meu inferno!

É nisto que está o meu maior privilégio e o meu maior perigo

Quão estupenda era a filosofia cósmica daquele que disse: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se chegar a sofrer prejuízo em sua própria alma?”

Que aproveita ao homem descobrir e possuir todos os fatos externos, pela luz da inteligência se com isto perder um único grau do seu valor interno, que só

a alma pode realizar?

A ciência descobre os objetos a consciência realiza o sujeito!

Eu sei do conteúdo da minha ciência mas eu sou o conteúdo da minha consciência! O que me faz feliz não é aquilo que eu sei, mas aquilo que eu

sou

e aquilo que eu sei então serei perfeita e perenemente feliz

Quando se fundirem numa grandiosa unidade cósmica aquilo que eu sou

“O DESERTO VIVENTE”

É este o título de uma das mais maravilhosas películas naturistas de Walt Disney, The living desert (em vernáculo: “O drama do deserto”).

A vida de todo homem que atingiu certa altura de evolução interior é um “deserto vivente”. A sua solidão externa cresce na razão direta da sua vitalização interna. Os ruídos profanos da sociedade o atraem cada vez menos; as deslumbrantes vacuidades do mundo profano deixam-no indiferente. Todas as antigas bonecas de celulóide, soldadinhos de chumbo, aviõezinhos de mola, pistolinhas de ar comprimido e outras maravilhas do jardim de infância com que muitos se divertem a vida inteira, embora com nomes mais pomposos, deixaram de lhe atrair a atenção e o interesse, desde que, no campo visual da sua experiência interna, despontou um novo mundo de grandezas e formosuras. Instintivamente, esse homem busca a solidão, não por algum espírito de misantropia ou acerbo pessimismo, mas pelo irresistível fascínio que esse novo mundo de estupendas maravilhas exerce sobre ele. É que ele fez a experiência de que esse mundo imaterial é tanto mais visível, audível e sensível quanto mais se calarem os ruídos profanos do mundo material. E ele escuta, embevecido, a misteriosa sinfonia desse mundo e percebe a inefável sacralidade da sua vida transbordante de beatitude

Vai-se atrofiando, não raro, a vida material e social desse feliz vidente de universos supra-sensíveis e ultra-intelectivos; a sua vida econômica declina Feliz dele se uma pessoa de posses materiais e de compreensão espiritual

entrar na vida desse homem!

Entretanto,

Do contrário, acabará o seu contenedor

material por sucumbir sob a veemência do seu conteúdo espiritual

mesmo assim, continuará ele a ser feliz, porque possui o principal da felicidade,

a realização

externos

dos

valores

internos,

mesmo

com

O seu deserto é vivo, transbordante de vida

o

sacrifício

dos

fatores

ACEITAR A DIVINDADE DE CRISTO O QUE É?

Acabo de escutar, numa estação emissora de Washington, um diálogo entre um teólogo romano e um juiz sobre a divindade de Cristo. Afirmava o teólogo que a maior desgraça era a negação da divindade de Cristo da parte de milhares de cristãos do presente século.

Respondeu o juiz que ele considerava uma calamidade fazer depender a salvação ou condenação da aceitação ou rejeição de um dogma como este. Que quer dizer, afinal de contas, aceitar ou não-aceitar a divindade de Cristo? Não consiste num ato de inteligência e vontade? E não depende esse ato da maior ou menor clareza com que fulano ou sicrano percebe as razões pró ou contra esse dogma? E não depende essa maior ou menor clareza de uma instrução eclesiástica e certo grau de interesse neste ou naquele sistema teológico? E que tem isto a ver com Deus, com salvação ou condenação?

Sou eu mais crístico e mais amigo de Deus depois de dizer “sim”, e menos espiritual depois de dizer “não” a uma pergunta sobre a divindade de Cristo? Na realidade, o meu “sim” ou o meu “não” nada tem que ver com o meu verdadeiro cristianismo, se por cristianismo se entende a união com o espírito de Deus, e não este ou aquele grupo eclesiástico a que pertenço por força de nascimento ou de outras circunstâncias externas fortuitas.

O que decide sobre o fato de eu ser crístico ou não-crístico é a minha vida, a

profunda e permanente atitude do meu interno ser e do meu externo agir em perfeita sintonia com o espírito de Cristo. Esse espírito, porém, nada tem que

ver com a forma deste ou daquele credo, mas resume-se nos dois grandes mandamentos do amor de Deus e do próximo, nos quais “consistem toda a lei

e os profetas”. O “sim” ou “não”, verbal ou mental, em nada modifica a minha

atitude de ser e de agir, e é profundamente deplorável que uma grande parte

do

cristianismo eclesiástico do Ocidente dê maior importância a essa profissão

de

fé teológica imposta por seu grupo do que à realidade da sua vida emanada

do

espírito de Cristo.

E,

para salvar esse credo eclesiástico, os seus adeptos, através de séculos,

têm cometido, e continuam a cometer os maiores atentados ao espírito de Cristo, matando infiéis e hereges, excomungando dissidentes, inculcando a seus filhos o desprezo para com os que não professam o mesmo credo

teológico matam o espírito de Cristo para salvar uma teologia pseudo- cristã!

Enquanto eu não puder dizer, com absoluta verdade “Já não sou eu que vivo

o Cristo é que vive em mim”, não aceitei o espírito de Cristo, embora professe a

mais ortodoxa das fórmulas sobre a divindade de Cristo. Mahatma Gandhi nunca aceitou nenhum credo eclesiástico; Albert Schweitzer é conhecido como herege pelas igrejas cristãs protocolares mas dificilmente encontraremos dois homens que vivam com maior pureza e fidelidade o espírito de Cristo, em profundo amor de Deus e vasta caridade dos homens.

É de urgente necessidade que o mundo cristão se torne crístico, vivendo

realmente o espírito de Cristo, em vez de apenas professar teoricamente este

ou aquele dogma sobre a divindade de Cristo.

O HOMEM ESPIRITUAL É ATRAENTE?

Talvez não. Possivelmente, é mais repelente do que atraente. Nem é necessário que o homem espiritual seja atraente. Geralmente, ele não atrai outros a si – antes os “transtrai” para além de si. É como um desses marcos quilométricos à beira da estrada ou setas nas encruzilhadas, cuja finalidade não é fazerem-se adorados pelos viandantes, mas sim abandonados, depois que o transeunte tomou direção certa.

O homem espiritual não deve ser como um espelho, que prende em si a

pessoa que nele se mira deve ser como uma janela aberta através da qual a gente enxerga as belezas da paisagem e vastos horizontes além. O nosso egoísmo, naturalmente, insinua-nos a sermos espelhos atraentes ao passo que a verdadeira espiritualidade nos ensina a sermos janelas transcendentes. Alguns dos discípulos de João Batista se escandalizaram com o fato de ser o

mestre abandonado por seus antigos seguidores, que foram em seguimento do

Nazareno, ao que o precursor respondeu: “Eu sou apenas o paraninfo, mas ele

é o esposo, convém que ele cresça e que eu desapareça” – isto era ser janela aberta para o Cristo, e não espelho atraente para si mesmo.

O homem espiritual não faz com que outros tenham satisfação nele, mas

contribui para que os homens sintam insatisfação de si mesmos, vejam a sua

imperfeição e tenham desejo de maior perfeição.

O homem espiritual é um veículo, uma ponte, um canal, um dedo estendido

rumo ao Infinito.

O homem espiritual é uma passagem, e não uma parada; é uma entrada e uma saída para Deus. A sua simples presença é um chamariz, um desafio, por vezes um ultimatum e um doloroso exame de consciência.

O homem espiritual não é, em geral, uma fascinante personalidade, como

certos cavalheiros dos nossos salões elegantes. Possivelmente, é ele mais repelente do que atraente, porque a sua retilínea lealdade aos princípios eternos é inquietante para muitos. Sentem-se perturbados em sua presença, como o Evangelista diz de Herodes em face do Precursor encarcerado. Em

presença do homem espiritual, muitos começam a pensar em coisa séria, alguns até aprendem a orar. O campo magnético que circunda o homem espiritual faz oscilar todas as agulhas que não estejam devidamente polarizadas pelo norte divino e ninguém sabe o que vai acontecer depois, nas

almas receptivas

Pentecostes

sagrados, caiam dos seus pedestais

Pode ser que muitos ídolos e fetiches, tidos por intangíveis e

Pode haver terremotos, tempestades, incêndios de

Segue-me!

Deixa que os mortos sepultem os seus mortos tu, porém, vai e proclama o reino de Deus!”

Vai, dá todos os teus haveres aos pobres e segue-me!”

Pode ser que alguém ouça, no silêncio de sua alma, coisas terríficas como esses trovões, quando sai da presença de um homem espiritual.

Cuidado! Alta-tensão!

Perigo de vida!

Mantenha distância!

Aí está um homem espiritual!

DOIS TIPOS DE PREGADORES

Do sermão de um deles, diz Vieira, retiravam-se os ouvintes, ruidosamente satisfeitos com o brilhantismo do orador da presença do outro retiravam-se todos em silêncio, insatisfeitos consigo mesmos e esquecidos do pregador.

Um deles era pregoeiro de si mesmo o outro era arauto do reino de Deus.

TRANSCENDENTE, ENCARNADO, IMANENTE

O século 18 foi o século do “deísmo”, sistema filosófico-teológico que considerava a Deus como o “grande Arquiteto do Universo”, transcendente a seu mundo, como o artífice existente fora do seu artefato.

O século 19 foi o século do “Logos”, do Deus encarnado em Jesus, na forma do Cristo, o Deus universal individualizado em homem.

O século 20 parece ser o século do Deus “imanente”, isto é, o Deus Universal que, individualizado em Jesus, se universalizou no Espírito Santo (“santoquer dizer “universal”). Em sua íntima essência, todas as coisas são Deus, porque não há nada real fora de Deus, a única Realidade; existencialmente, todas as coisas são inferiores a Deus, porque nenhuma delas, individualmente, é Deus. (Os ingênuos, incapazes de pensar logicamente, afirmam que isto é “panteísmo”, porque não sabem distinguir entre “monismo e panteísmo”; todos os grandes mestres espirituais da humanidade pensavam em termos de monismo absoluto.)

Deus criou o mundo?

Certamente!

De quê? Do nada?

Sim, do nada do mundo mas do Todo de si mesmo. Do nada da existência mas do Todo da Essência. O mundo foi criado não só por Deus, mas também de Deus.

Então, o mundo é idêntico a Deus?

Não!

É separado de Deus?

Nem tampouco. O mundo não é idêntico nem separado de Deus mas é distinto dele, um com Deus pela eterna essência, diverso de Deus pela existência temporal.

CREIO NA COMUNHÃO DOS SANTOS

Comunhão não pode ser criada artificialmente, ad hoc; ela é o resultado espontâneo e natural de uma união que vai além dessa com-união (comunhão). Onde não há união com um centro comum não pode haver com- união entre os raios divergentes.

Quando dois ou mais homens se unem em Deus pela mística nasce entre eles com-união pela ética. Os raios de um círculo aproximam-se uns dos outros na razão direta que se aproximam do centro comum do círculo, e distanciam-se uns dos outros na razão que se distanciam do centro. Não pode haver comunhão (com-união) sem união. A paternidade única de Deus crea a fraternidade universal dos homens. Querer estabelecer a fraternidade humana

sem a paternidade divina é tão absurdo como querer fazer um círculo sem centro ou um edifício sem alicerce.

A união é o atributo dos santos a desunião é o característico dos pecadores.

Não há comunhão entre os maus só pode haver comunhão entre os bons, porque o mal é dispersivo por natureza, como os raios divergentes de um círculo. Vigora secreta afinidade entre todos os santos, da terra e do universo, embora os componentes dessa invisível Irmandade Branca não sejam individualmente conhecidos uns aos outros. Eles atuam em silêncio, porque têm onipresença cósmica. Quem faz parte dessa Irmandade Branca dos Irmãos Anônimos sabe-a nas profundezas de sua alma e comunica-se com seus semelhantes, a despeito de tempo e espaço, porque ele é um grande “liberto” – a Verdade o libertou

Quem puder compreendê-lo compreenda-o!

QUE É PERSONALIDADE?

A personalidade principia com o ego

petrificado Cristo é o mais vigoroso Eu.

e

culmina

no

Um cão, uma vaca não têm ego nem Eu.

Eu. Satã

é

o ego

O homem profano desenvolveu o seu ego, mas não cultivou o seu Eu.

Quando o ego personal culmina no Eu individual, então desaparece a ilusão do separatismo entre o homem e Deus e surge o grande unismo, o senso nítido “Eu e o Pai somos um”, o grande “Eu sou”, o fascinante “Tat twam asi” (isto és tu).

Toda a redenção está na transição do ego para o Eu e toda a perdição está

na estagnação do ego no plano do ego.

Um só é o Eu do homem muitos podem ser os seus egos.

Eternamente idêntico a si mesmo é o nosso divino Eu variáveis são os nossos humanos egos.

Eu sou o divino Eu eu tenho humanos egos.

O ego é “persona”, isto é, “máscara” – mas o Eu é “indivíduo”, isto é, “indiviso”, não-dividido, inseparável da Realidade eterna.

Quando o nosso ego personal nos sugere separação da Infinita Realidade

“Deus”, então começa a tendência centrífuga: o homem procura criar um reino

à parte, dele, só dele – e isto é “pecado”*.

* “Pecado” e “separado”, em diversas línguas, têm o mesmo radical. Em alemão o vocábulo sondern (separar) é filologicamente idêntico a suenden (pecar). Também em inglês assunder (separado) e sin (pecado) têm o mesmo radical. Pecar é considerar-se separado do grande Centro Cósmico, Deus. A redenção consiste no movimento contrário, “Eu e o Pai somos um.”

DESCOBRIMENTO OU REVELAÇÃO?

O homem inteligente descobre pequenas coisas grandes coisas são reveladas ao homem espiritual, suposto que ele seja receptivo, que possua espaços internos assaz amplos em que possa jorrar a plenitude do Além.

Será que eu conheço a Deus e o mundo espiritual assim como alguém que, depois de muito pesquisar e varrer o céu com o telescópio, descobre, finalmente, um astro? ou será como quem levanta o fone do aparelho telefônico e escuta o que alguém está dizendo do outro lado? Será que eu descubro a Deus ou que Deus se revela a mim?

O homem inteligente, escreveu Einstein, descobre aquilo que é (das was ist)

o homem espiritual realiza aquilo que deve ser (das was sein soll). Descobrir se refere aos fatos objetivos da natureza externa realizar tem que ver com os valores internos dentro do próprio sujeito.

Quem sabe o que é Deus, não descobriu um objeto de fora teve uma revelação do seu sujeito de dentro, uma vez que “o reino de Deus está dentro de vós”.

Revelação, inspiração, vem a mim, subitamente, espontaneamente, é verdade

mas (e aqui começa o grande mistério) não vem sem mais nem menos,

automaticamente, sem nenhuma cooperação da minha parte. Eu, é verdade, não sou o autor e a causa desse subitâneo relâmpago em plena noite, mas tenho de contribuir algo do meu para que esse relâmpago venha. Não há descarga elétrica se não houver pólo negativo que, com a sua veemente vacuidade, chame a plenitude complementar. Não sou causa da revelação, mas sou condição indispensável. Se eu nada faço, Deus nada faz. Daí conclui

o ignorante que é ele mesmo o autor e a causa do efeito espiritual. Confunde

causa com condição. O abrimento duma janela condiciona a iluminação da sala

mas não causa essa iluminação. O abrimento duma torneira condiciona o jorrar da água mas a torneira aberta não é causa dessa água.

Tenho de agir intelectualmente como quem usa telescópio e depois tenho de portar-me espiritualmente como quem escuta um telefonema. Tenho de ser intelectualmente ativo e espiritualmente passivo essa atividade passiva, ou passividade dinâmica, é que é o segredo das grandes inspirações.

O espírito de Deus atua espontaneamente mas não arbitrariamente.

Tudo acontece segundo leis eternas.

A graça, embora seja de graça, não é um fenômeno arbitrário.

Deus não é capricho Deus é a Lei.

Devo trabalhar intensamente, como se tudo dependesse de mim e ao mesmo tempo devo orar intensamente, como se tudo dependesse de Deus. Sintetizar esses dois pólos, aparentemente antitéticos, é tarefa trágica na vida humana. É tão fácil ser extremista, para a direita ou para a esquerda mas é tremendamente difícil ser centralista. Há milhares e milhões de homens que esperam tudo só de Deus ou só de si mesmos mas há pouquíssimos que esperam tudo de Deus através de si mesmos, que saibam unir a causa divina com a condição humana.

Da união desses dois pólos, divino e humano, positivo e negativo, é que nasce toda a luz e toda a força da vida humana.

CERTEZA TEOLÓGICA NÃO É NECESSÁRIA NEM SUFICIENTE

Se não tenho certeza infalível de certas verdades básicas, como a existência de Deus e a imortalidade, é impossível a salvação, porque estou sujeito a erros

e aberrações.

Assim diz certa teologia eclesiástica. E conclui: “Por isto, é necessário que haja, através dos séculos, um homem infalível neste mundo, que possa decidir com clareza e precisão o que é verdade e o que é erro.”

Muitos adotam essa espécie de “lógica”.

Entretanto, essa “lógicaé um grande ilogismo.

Antes de tudo, que quer dizer “certeza”? E donde vem ela?

É verdade que determinada pessoa me pode dar certeza de uma realidade

espiritual, pelo fato de afirmar simplesmente “isto é assim”, “isto não é assim”?

Será que, depois de ouvir essa afirmação ou negação, eu tenho uma certeza que antes não tinha? Se eu não tinha certeza da existência de Deus, e uma pessoa infalível afirma “Deus existe” – é verdade que agora tenho certeza desse fato?

Neste ponto, Buda era bem mais lógico do que certos teólogos. Quando alguém perguntava ao grande iluminado o que era Deus, Buda não respondia. Por que não? Porque, se o consulente não sabia por experiência própria o que

era Deus, nem o saberia depois de ouvir uma definição da parte de alguém que

o sabia; mas, se o consulente sabia o que era Deus, a afirmação de um

terceiro não lhe daria certeza, nem a sua negação lhe tiraria a certeza que ele possuísse.

Quem sabe por experiência interna que há Deus pode tranquilamente escutar todas as negações desta verdade nada modifica a sua experiência interna, que lhe dá certeza.

A grande e gloriosa verdade é esta: Ninguém me pode dar experiência que não

tenho e ninguém me pode tirar a experiência que tenho. A certeza, porém, vem da experiência interna, e não de argumentos externos. Quem tem experiência é invulnerável em sua certeza. A experiência não é transferível

nem auferível. Ela não vem de fora da alma ela brota das divinas profundezas da alma.

Por isto, é profundamente ilusório querer dar certeza a alguém por intermédio de um homem infalível. Suposto mesmo que esse homem infalível tivesse, ou tenha, essa certeza experiencial, nem por isto poderia ele dar aos filhos da sua igreja essa certeza, que é absolutamente intransferível. Transferíveis são as coisas externas, de corpo e da mente, os argumentos, as provas científicas, as demonstrações analíticas mas nada disto me dá certeza real de Deus e da vida eterna. Quem não tem experiência interna não tem certeza de uma realidade espiritual.

O único auxílio que fatores externos nos podem prestar, nesse plano, é o fato

de aplainarem o caminho que leva a essa certeza definitiva. Mestres, educadores, escritores, oradores, diretores espirituais podem apontar-nos o caminho certo onde nós possamos ter certeza espiritual mas nenhum deles

nos pode dar essa certeza. Todos eles são como setas na encruzilhada, marcos à beira da estrada, que indicam o rumo certo, mas não obrigam o viandante a seguir caminho certo.

O rumo indicado pelo maior dos mestres da humanidade, nas páginas áureas

do Evangelho, sobretudo no Sermão da Montanha, possui o máximo de certeza que se possa imaginar, e a sua linguagem é absolutamente clara e precisa; querer criar uma instância de certeza acima da certeza dada por Jesus Cristo é

procedimento absurdo, e até arrogante. Não há nada mais infalível que as palavras de Jesus, no Evangelho.

Daí, porém, não se segue que todo homem que leia o Evangelho da certeza tenha certeza daquilo que Jesus afirma. Enquanto o leitor for apenas leitor, não terá certeza alguma; só se passar a viver, por experiência íntima, o espírito do Evangelho, é que ele terá certeza. A certeza não vem da inteligência vem da vivência. Quem não vive a alma do Evangelho não tem certeza das verdades por ele proclamadas. Saber não quer dizer ter ouvido dizer, ter lido, ter

decorado; saber quer dizer literalmente saborear. Saborear, porém, não é um processo mental, mas uma experiência vital. Quem não saboreia a realidade espiritual não sabe como é que ela sabe, que sabor tem, porque lhe falta a experiência vital da realidade espiritual.

A certeza teológica não é necessária nem é suficiente.

PENSAMENTO SINTETIZADO

Escrevi um livro tão grande disse alguém porque não tive tempo para escrever um livro pequeno.” De fato, para condensar devidamente em 100 páginas o que está derramado em 1.000, requer-se mais tempo e, sobretudo, maior intensidade de pensamento do que para ser difuso e prolixo.

ORAÇÃO ESSÊNCIA DE TODAS AS RELIGIÕES

Não há hereges em matéria de oração. Todos os homens espirituais de todas as religiões do mundo concordam em que a oração é a quintessência nas relações do homem com Deus.

Duas coisas são absolutamente certas: 1) que a oração, quando genuína, é sempre um elemento positivo e benéfico na vida do homem; 2) que ignoramos totalmente como a oração atua sobre a vida humana; a sua técnica peculiar nos é de todo desconhecida. Sabemos apenas o “quê” – ignoramos o “como

da oração.

Ninguém sabe se a sua oração vai ser eficiente na direção em que ele deseja ou espera; ignora se aquilo que ele tem em mente vai acontecer ou não. A

oração parece algo como um jogo de azar, totalmente arbitrária. Na realidade,

é certo, a oração obedece a leis invariáveis mas o homem não conhece essas leis.

O MISTÉRIO DA ORAÇÃO SUPERIOR

A verdadeira oração, inteiramente pura e autêntica, não é peticionária, é

simplesmente afirmativa; não pede nada, afirma apenas uma grande realidade.

Todas as grandes religiões conhecem a oração afirmativa o Budismo, o Brahmanismo, o Judaísmo, o Cristianismo, o Islamismo, o Taoísmo, o Zoroastrianismo.

A oração inferior ou peticionária é, fundamentalmente, egocêntrica ao passo que a oração superior, afirmativa, é essencialmente teocêntrica. Nesse estágio superior de experiência, o homem ultrapassa o próprio Eu e se perde em Deus; emigra do pequeno indivíduo e imigra no grande Universal. A oração superior tem algo de nirvânico, porque nela o homem perde a consciência objetiva do ego e se dilui totalmente na consciência subjetiva do Todo.

Nessa total ego-evacuação e nessa intensa teo-plenificação, que o místico experimenta como divina embriaguez, o homem se identifica com a suprema

Realidade e diz silenciosamente: Santificado seja o teu nome

reino

Venha o teu

Seja feita a tua vontade

Essa oração afirmativa supõe uma constante e inalterável experiência da Suprema Realidade, onipresente e onipenetrante.

Nessa zona, qualquer pedido, por mais altruístico, seria impossível e absurdo. Quem pediria? O que pediria? Falta tanto a consciência do “quem” ou sujeito, como também a noção do “quê” ou objeto, porque essa polaridade é criação da pequena consciência físico-mental, que, nesse plano, não funciona.

Uma vez que a minha consciência individual submergiu irrevogavelmente no oceano da grande Consciência Universal como poderia eu sofrer tamanha decadência ao ponto de pedir algo? Mesmo o algo mais perto de mim, o meu ego, deixou de existir quanto mais os algos mais distantes de mim, os objetos do mundo externo.

É, pois, evidente que o homem imerso na oração superior é incapaz de pedir algo a Deus, e isto não por virtuosidade, mas sim por grande compreensão e sabedoria. O seu único desejo é a crescente identificação com a Realidade Infinita.

Venha o teu reino

Seja feita a tua vontade

* * *

Entretanto, cada um deve orar no nível em que vive, sem orgulho nem presunção. A total realização do nível em que vive de momento é a melhor preparação para a ascensão a um nível superior.

Conformidade e não-conformidade é esta a grande lei da evolução. Deve o homem conformar-se plenamente com o nível da sua evolução atual e ao mesmo tempo não-conformar-se de modo que nele encontre definitiva satisfação. Se não se conformar com o que tem, vai ser tragado impiedosamente pelo ambiente em permanente luta se, depois de se conformar, não se inconformar, entrará em estagnação e morte.

* * *

A razão por que não podemos entender como a oração atua é o fato de que

“entender” representa um “menos”, algo individual, unilateral ao passo que a oração em si mesma tem que ver com um “mais”, com a ordem cósmica,

universal, onilateral, com o grande TODO. O “menos” não pode jamais “compreender” (prender, abranger, totalmente), mas tão-somente “entender”, e assim a maior parte do “compreender” fica fora da sua zona e jurisdição.

Por isto, o benefício da oração é certo, mas o modo como ela atua é incerto, e nunca será certo, à luz do intelecto analítico. A oração nunca será objeto de uma investigação ou técnica científica.

O mundo fenomenal jamais poderá compreender o mundo numenal, embora

este domine aquele.

Pela oração, o homem, primeiramente, entra para seu interior, para dentro da Realidade; daí ele toma rumo ao mundo exterior, levando consigo a luz de dentro e transfigurando com esta luz todas as coisas do mundo externo.

Graças a essa completa identificação com a Última Realidade, a oração superior adquire, ou antes recebe, uma compreensão total da Realidade, que é Sabedoria Cósmica, Sabedoria que, até essa data, lhe era oculta.

O requisito preliminar e a condição sine qua non desse estágio superior de experiência é não somente uma caridade geral, no sentido ético, mas também uma irrestrita reverência e lealdade para com todas as formas de vida. Essa constante e espontânea afirmação de todas as formas de vida, irradiações da Vida Universal, cria na alma um clima de profunda paz, uma completa ausência de ansiedade, e, por isto, uma alegria e uma beatitude que ninguém conhece que não tenha submergido nesse luminoso oceano da Suprema Realidade.

Para o homem identificado com a Suprema Realidade já não existe, nem pode existir, medo, porque medo supõe inferioridade, que nasce da ignorância ele, porém, é um sapiente,

Essa experiência divina, que é o fruto maduro da oração, faz o homem totalmente livre, e, portanto, onipotente.

Por meio da oração volta o homem, perifericamente disperso, a um TODO central; e esse sentir-se-um com o grande TODO lhe dá indizível segurança e felicidade. Todo o dualismo causa insegurança-e infelicidade.

Pela oração, eu me afasto do pluralismo do mundo objetivo e incerto e me aproximo do monismo do mundo subjetivo e certo. O resultado desse afastamento do caos não é monotonia, mas sim harmonia.

Mas só o verdadeiro iniciado sabe o que é harmonia; para os outros é apenas uma bela palavra ou um lindo ideal.

A oração me faz saborear o grande Além-de-dentro que é o grande Além-de-

fora; depois de cruzar a fronteira da minha consciência. “Eu e o Pai somos

um”

A FASCINANTE AVENTURA DA ORAÇÃO SUPERIOR

A prece, nos seus estágios superiores, aparece sempre aureolada de um tal ou

qual espírito aventureiro a tendência de abandonar o que é familiar, confortável, facilmente compreensível e atingível, e o anseio de explorar mundos ignotos e dificilmente conquistáveis. Velhas garantias e seguros tradicionais são ultrapassados, e, em lugar deles, surge o espírito pioneiro de uma grande mobilidade através de zonas de estranha incerteza inicial.

Desaparecem os estreitos trilhos do instinto rotineiro e aparecem as tateantes

Desperta na alma outonal a tendência Sem saber exatamente para onde vai,

sente a necessidade de abandonar as conhecidas querências de antanho Não há largas avenidas em perspectiva há tão-somente ínvias florestas a desbravar, desertos anônimos a cruzar, onde, de longe em longe, aparecem rastos incertos de algum solitário viajor que por aí tenha passado em tempos

idos

A oração, humilde

e intensa, lhe é um fio de Ariadne através de todos os labirintos

interrogações do vasto mundo da fé migratória da sua íntima natureza

Mas a alma migratória confia em sua intuição divina

Com efeito, a íntima essência da oração superior é suprema libertação. É a

voluntária renúncia a velhos hábitos rijamente solidificados através de séculos

Assim, em tempos pré-históricos, deve o homem dos sentidos ter

lutado, no processo da sua intelectualização, para se emancipar de hábitos subconscientes em prol da sua entrada no mundo consciente

e milênios

A transição da estreiteza e passividade da consciência gregária, própria de

todos os rebanhos humanos, para a consciência individual, e desta para a consciência universal é um drama multimilenar de estupenda grandeza e tragicidade, desde os abismos do homem meramente sensitivo, através dos planos do homem mental rumo às alturas do homem espiritual e não há nada que lhe possa garantir êxito nessa jornada ascensional senão a verdadeira oração.

Há, nessa silenciosa epopéia, uma sucessão de trevas e de luzes.

Da noite total dos sentidos para a penumbra do intelecto.

Da semi-luz matutina do intelecto, através do misterioso eclipse da fé, para o sol meridiano da experiência direta de Deus.

É esta a fascinante aventura da oração superior

OS SANTOS PROVAM A VERDADE DUMA IGREJA?

O argumento de que uma igreja que produz santos seja santa em si mesma,

como igreja organizada, é insustentável à luz da lógica imparcial. Os verdadeiros santos pouco ou nada têm que ver com os arranjos artificiais duma organização, que, em qualquer hipótese, é uma criação da inteligência. Os dirigentes duma organização eclesiástica são, não raro, extremamente maus. Francisco de Assis e Tomás de Aquino viveram, ambos, no século 13, ambos dentro do mesmo organismo eclesiástico mas são de gênio tão diverso como

o dia e a noite, e os dirigentes da igreja desse tempo pertencem aos piores que

a história conhece. O teólogo napolitano, de acordo com a mentalidade da

época, aprova e defende, em sua “Summa Theologiae” e Summa contra Gentiles”, a liceidade da pena de morte e do extermínio violento de hereges ao passo que o poverello da Umbria, na sua vasta intuição mística, é amigo de

todos os seres vivos do mundo.

Há santos em todas as religiões o que não prova que essas religiões sejam boas como um todo. Santidade é atributo do indivíduo, e não duma coletividade.

VERDADEIRA CATOLICIDADE

Todo o verdadeiro monoteísta, ou melhor, monista, que realize pela ética a sua mística, é genuinamente “católico”, quer dizer, “universalista”. Católico não- universalista é pseudo-católico.

Nenhum dos grandes místicos da chamada igreja católica concorda com a cosmologia e teologia dessa igreja ao passo que todos concordam admiravelmente com a orientação espiritual de seus irmãos de outras religiões, mesmo fora do Cristianismo organizado. Há uma grande afinidade entre os maharishis da Índia e os sufis da Arábia, por um lado, e os verdadeiros místicos cristãos, quer católico-romanos, quer evangélico-protestantes. Todos pertencem à “comunhão dos santos”, à “irmandade branca dos irmãos anônimos”. São João da Cruz, por um triz foi condenado como herege, e o texto dos seus livros espirituais, por muito tempo, apareceu mutilado pela

autoridade eclesiástica. Luiz de Granada esteve quatro anos nas cadeias da Inquisição por causa da sua explicação do “Cântico dos Cânticos”. Meister Eckhart, o maior dos místicos medievais, sempre foi suspeito de heresia e seus livros foram proibidos após a morte dele.

Aceitar um santo ou místico deste ou daquele grupo espiritual não equivale a aceitar o grupo como tal, porque a santidade, sendo atributo do indivíduo, nada tem que ver com o grupo organizado. Todos os místicos do mundo, dentro e fora do Cristianismo organizado, formam uma espécie de super-ecclesia, porque representam a legítima ekklesia, palavra grega composta de ek e kaléo (chamar para fora, selecionar) e cujo sentido exato é eliteou seleção”. O sentido de “igreja” não é massa, mas elite; é aquele pusillus grex ou pequeno rebanho, de que fala Jesus. A igreja é universal cósmica. Uma igreja sectária é uma pseudo-igreja. A verdadeira catolicidade cósmica abrange judeus, hindus, árabes, taoístas, budistas, cristãos, etc., suposto que eles tenham verdadeira experiência de Deus e manifestam essa sua mística divina na ética humana. O primeiro mandamento, que é a mística, e o segundo, que é a ética, sintetizam toda a religião, como diz o Nazareno.

PROCESSO DE INCUBAÇÃO

A vida humana é, a bem-dizer, um processo de incubação, transição de um

estado de consciência a outro. A nossa consciência espiritual, ainda hoje em estado de latência, tem de passar da sua potencialidade para a atualidade. E o calor necessário para promover essa longa incubação se chama “oração”.

A LEI DA EVOLUÇÃO

O íntimo quê da evolução, sobretudo no mundo espiritual, não é segurança, estabilidade, calma, mas sim o desejo de ultrapassar todas as fronteiras da vida já vivida e conhecida e isto significa aventura, perigo, incerteza; é o abandono de todos os Iitorais familiares e o salto mortal para dentro de um mundo totalmente ignoto.

É também este o íntimo quê do amor, que deseja arriscar algo e ultrapassar o

seu próprio Eu conhecido. O amor é essencialmente cósmico.

INSTINTO FILTRO SELETIVO

O instinto é uma espécie de filtro seletivo; o animal sabe com infalível certeza o

que lhe convém e o que não convém. Com o advento do intelecto humano

perdeu-se esse filtro, e não pode ser reavido. Uma vez consciente, o homem não consegue voltar a ser subconsciente. Mas o seu intelecto consciente não funciona com a mecânica infalibilidade do instinto; é extremamente móvel e variável, como a corda de um violino, que pode produzir ilimitada variedade de tons e semitons, ao passo que um disco de gramofone produz unicamente os sons que estão gravados nele; o disco tem infalibilidade sem variabilidade; o violino tem variabilidade sem infalibilidade.

Quando, um dia, o homem atingir a consciência cósmica, possuirá infalibilidade máxima com variabilidade máxima. Não existe instrumento no mundo material que simbolize esse estado de suprema segurança e suprema mobilidade. É o estado da harmonia cósmica, feita de unidade e diversidade.

TRÊS ESTÁGIOS DE ORAÇÃO

No princípio, oramos em prol de nós mesmos, com o desejo de alcançar algum objeto que, em nossa ignorância, julgamos necessário para a nossa felicidade.

Mais tarde, oramos pelo bem de outras pessoas, para as libertar de algum mal e conseguir-lhes algum bem.

Finalmente, não oramos por objeto algum, mas tão somente pela progressiva identificação do sujeito individual Eu com a Realidade Universal, Deus. E todo

o nosso desejo se resume no anseio de estarmos muito tempo na luminosa

presença de Deus, assim como a planta deseja estar envolta e penetrada pela luz solar. Todo o nosso impuro desejo de “ter” acabou no puro desejo de “ser”.

E então só conhecemos esta grande melodia: Deus, santificado seja o teu

nome

venha a nós o teu reino

seja feita a tua vontade

EMBRIÃO MATERIAL EMBRIÃO ESPIRITUAL

O embrião material do homem leva 9 meses para seu desenvolvimento no seio

materno o embrião espiritual leva cerca de 900 meses, ou 70 anos, para atingir suficientemente evolução, independente do seio materno da natureza físico-mental; mas a sua evolução continua indefinidamente.

A NATUREZA: É DEMOCRÁTICA OU ARISTOCRÁTICA?

A natureza não faz caso de massa, mas sim de elite. Produz milhões e bilhões

de seres inferiores, para, finalmente, produzir um único ser superior. A massa

serve apenas de pedestal para a elite. A vasta horizontal tem de servir à alta vertical. A natureza visa qualidade, e para isto ela se serve de quantidades.

Isto é aristocracia? Ou, quem sabe, antes hierarquia

PODE VOCÊ SOLVER O MISTÉRIO DA VIDA?

Pode dizer-me por que está aqui? Donde veio? Para onde vai? me a última razão de todo esse sofrimento?

Pode dizer-

Pode uma lagarta solver o problema da sua vida? Pode dizer-nos por que vive

a comer sem cessar? Por que morre? Porque repousa no interior do casulo?

Não! A lagarta não pode dar resposta a essas perguntas, porque não sabe o porquê dos seus atos; só depois de virar borboleta, e olhando para trás, é que pode solver os enigmas da sua vida de lagarta.

E você julga poder saber agora por que vive, sofre e morre? Você, que ainda é muito “lagarta”? Solver de verdade só se pode de cima para baixo, não de baixo para cima, só do superior para o inferior, e não vice-versa.

Agora, meu amigo, você pode apenas crer numa solução definitiva saber só pode depois de passar para um plano superior de experiência e vivência.

DEUS MANDA DOENÇAS?

Jesus admite a relativa imperfeição do Antigo Testamento: “Foi dito aos antigos

– eu, porém, vos digo” levá-los à perfeição.”

“Eu não vim para abolir a lei e os profetas mas para

Uma das maiores imperfeições da Lei Antiga é a idéia de que Deus mande aos homens doenças para os “castigar”. Jesus ensina que as doenças são “obras de, Satanás”, isto é, da inteligência não devidamente iluminada pelo espírito. Não tornes a pecar, para que não te aconteça coisa pior.” “Tem confiança (disse ao paralitico) os teus pecados te são perdoados”. No caso da mulher encurvada havia 18 anos, afirma o texto sacro: “Satanás a mantinha presa, havia 18 anos” – Deus, ou Satanás?

O nosso Lúcifer intelectual, mal orientado, transgride as leis da natureza, que são as leis de Deus; e provoca doenças o Cristo divino em nós derrota o nosso Lúcifer e promove a cura.

Se doenças fossem provas do amor divino, por que não consta de uma única doença de Jesus?

Verdade é que, uma vez doentes por causa da nossa inteligência unilateral, o melhor, que podemos fazer é aceitar o sofrimento como castigo e remédio, a fim de alcançarmos redenção.

O “PAI NOSSO” EM ARAMAICO

Aparece em afirmações positivas, e não em pedidos.

Pai nosso, que estás nos céus!

Santificado é o teu nome.

O teu reino vem.

A tua vontade é cumprida na terra como nos céus.

Tu nos dás hoje o nosso pão de cada dia.

Tu nos perdoas as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.

Tu não nos induzes em tentação.

Tu nos livras do mal.

ANÁLISE PSICOLÓGICA E SÍNTESE METAFÍSICA

Estas duas ciências, aquela do Ocidente, esta do Oriente, abrem o caminho para um conhecimento melhor de Deus e do homem. Dão, pelo menos, a linha reta que o homem deve manter para chegar ao destino, preservando-o dos inúteis ziguezagues.

No princípio, o homem está numa união inconsciente com o Grande Todo, como toda a natureza inferior (o homem do Éden).

Depois, entra na zona de uma desunião consciente com grande Todo (o homem nos domínios de Lúcifer).

E, finalmente; sobe às alturas duma união consciente com o Grande Todo (o homem no reino do Cristo).

CURA PELO PODER ESPIRITUAL

Por que é tão rara, hoje em dia, a cura espiritual? Quando é evidente que Jesus legou esse carisma a todos os seus discípulos?

É porque o mundo cristão de hoje não é realmente crístico, salvo raras exceções. Uns professam um Cristianismo puramente externo, liberal, de simples conveniências sociais, sem nenhuma convenção pessoal; outros pertencem a um Cristianismo estreitamente sectário. Estes são verticais sem horizontalidade, aqueles são horizontais sem verticalidade; nenhum deles é vertical-horizontal, isto é, crístico ou cósmico.

O verdadeiro discípulo de Cristo deve possuir profunda experiência de Deus e vasta benevolência para com todos os filhos de Deus então terá ele nas mãos o poder de Deus e curará qualquer doença física e mental.

Profundidade e amplitude são o segredo do poder.

POR QUE SEGUIMOS GUIAS ESPIRITUAIS?

Em última análise, quem se entusiasma por um guia espiritual, entusiasma-se por seu próprio Eu divino ou Cristo interno, porque, potencialmente, todo homem é o que alguns já são atualmente. Dentro de cada um de nós dorme um gênio metafísico e místico; quando então aparece, no plano objetivo, um gênio espiritual, nós sentimos, nas incônscias profundezas da nossa natureza humana; que aquilo somos nós em germe; percebemos o eco de uma voz longínqua, as vibrações de uma luz, o calor de um fogo que também está em nós, mas ainda implicitamente, quando naquele gênio espiritual esse fogo já arde explicitamente. Todo combustível lenha, carvão, gasolina, etc. é fogo potencial, assim como o fogo é combustível em estado atualizado.

Se o olho não fosse solar diz Goethe – jamais poderia contemplar o sol.”

Da mesma forma, se a alma não fosse divina ou crística, jamais poderia responder à voz de Deus ou do Cristo.

Por isto, o cristianismo – ou “cristismo” – da alma humana entra em vibração quando outra alma, já em adiantado estado de cristificação, aparece no cenário assim como a semente, no fundo da terra, começa a vibrar quando percebe, em plena escuridão, as misteriosas vibrações do calor solar.

Em última análise, o nosso guru ou guia espiritual externo é o nosso Eu divino ou Cristo interno, personificado casualmente no mestre A, B ou C.

COMO PODERIA EU GOZAR NO CÉU QUANDO OUTROS SOFREM NO INFERNO?

O homem comum, de visão curta e sentimento obtuso, pode achar compatível

a idéia de um céu eterno para ele e seus amigos com a consciência de um

inferno para outros seres humanos ao passo que o verdadeiro místico, ou homem cósmico, não se sente plenamente remido e bem-aventurado enquanto sobrar um único ser humano ainda irredento e em sofrimento. Para ele, não pode haver céu e inferno, mas tão-somente céu ou inferno.

A tese teológica de que os bem-aventurados mereceram o seu céu, e os

condenados mereceram o seu inferno é tranquilamente aceita pelos profanos, exotéricos e analfabetos da experiência cósmica mas atua como horripilante monstruosidade sobre a apurada consciência de qualquer homem que tenha chegado à experiência da paternidade única de eus e da fraternidade universal da humanidade.

Como poderia eu sentir-me integralmente salvo enquanto um só dos meus irmãos humanos continua ainda necessitado de salvação?

Um bem-aventurado capaz de gozar o seu céu, sabendo que milhares de seus irmãos estão sofrendo o seu inferno, deve ser mesmo um requintado egoísta. Se assim fosse, eu, por mim, simpatizaria mais com os egoístas no sofrimento infernal do que com os egoístas no gozo celestial.

Quando deixará a nossa teologia de ser tão unilateralmente teórica e se tornará onilateralmente cósmica?

AMOR FRUSTRADO

Se amor fosse simplesmente atração sexual, um superficial sex-appeal, não poderia haver verdadeira frustração, nesse plano, porquanto o mundo está cheio de seres masculinos e femininos, de maneira que, falhando um, o frustrado ou frustrada poderia escolher outro e acabaria a frustração.

Mas o verdadeiro amor é algo muito mais além do simples macho e da simples fêmea. No mundo animal não há frustração, porque não existe verdadeiro amor. Quanto mais humano é o homem ou a mulher, maior possibilidade existe para uma frustração amorosa trágica, mortífera. O verdadeiro amor é algo

cósmico, místico, único e irrepetível, do qual não se pode fazer, sem mais nem menos, uma segunda ou terceira edição; ele está para além do nosso alcance;

é algo que nos acontece, e não está em nosso poder fazer com que

aconteçapela segunda ou terceira vez. Algo se partiu nesse delicado cristal

Se os nossos romances e películas

da alma que amava, e não há conserto

cinematográficas substituem, em cinco ou dez minutos, um amor por outro amor, provam apenas a sua horripilante superficialidade, e, para cúmulo do nosso barbarismo civilizado, essa banalidade é considerada como um progresso

EXPERIÊNCIA CÓSMICA

É algo para além da mística, ou então uma mística universal. O místico foge do

mundo para se encontrar com Deus, mas o homem da experiência cósmica penetra tão profundamente na alma do universo, que atinge o Deus do mundo no mundo de Deus. Naturalmente, não é o homem que realiza essa experiência – ela lhe “acontece” com um contato vital com a própria Vida do Universo. Daí por diante, todo o seu antigo “dever” ético se transforma num novo “querer” místico, numa fome e sede, num flamejante entusiasmo, numa irresistível paixão por essa estupenda Realidade que está para além de todos os nomes, como a Vida, o Espírito, o Amor, a Beatitude

Para o mundo profano em derredor, esse homem deve necessariamente parecer um louco ou alucinado, um anormal e, de fato, anormal ele é, se por normal se entende essa cegueira habitual dos inexperientes e essa insensibilidade paquidérmica dos profanos. Esse homem é normal “para cima”, supra-normal, e não anormal “para baixo”, infra-normal, como certos doentes. Mas, como o homem comum nada sabe do supra-normal, ao passo que tem algum conhecimento do infra-normal que admira que coloque o supra-normal no plano dos infra-normais? Cada um pensa e fala segundo a medida do seu conhecimento ou da sua ignorância, porquanto “o conhecido está no cognoscente segundo a capacidade do cognoscente”. O homem normal pode conhecer o infra-normal, que para ele é um “menos”, mas não pode saber o que seja supra-normal, porque é para ele um “mais”. Ninguém pode conceber coisa maior do que ele mesmo é; o nosso “ser” é a bitola do nosso “conhecer” – agere sequitur esse (o agir segue o ser).

Entretanto, são esses homens de experiência cósmica os únicos que garantem

a continuidade do fogo da espiritualidade sobre a face da terra. São como

impetuosos incêndios de fogo autônomo, de cuja alma os outros recebem luz e calor, alguma centelha ou algum clarão emitidos pelo vasto incêndio da experiência cósmica desses poucos que alimentam os muitos.

TRANSUBSTANCIAÇÃO NA ERA ATÔMICA

Com a afirmação de que, na hóstia consagrada, não exista mais a substância do pão, mas existe a substância do corpo de Jesus, aventurou-se a teologia eclesiástica na perigosa vizinhança da física nuclear. Nos outros dogmas, puramente espirituais e transcendentes, não existe esse perigo; estão a salvo de qualquer experiência de laboratório ou reator atômico.

A física nuclear dos nossos dias não admite substâncias, no plural; conhece uma única substância, que, segundo a matemática de Einstein, é a luz universal. Substâncias, no plural, seriam as diversas formas da luz, como, por exemplo, os 92 elementos naturais da química, desde o hidrogênio (H) até ao urânio (U). Entretanto, é possível provar experimentalmente que, após a consagração, a substância do pão continua presente na hóstia, inalterada, e não foi substituída por nenhuma outra substância. Logo, no plano objetivo, ontológico, não houve nenhuma “transubstanciação”, como o dogma afirma.

Objetam os fiéis que a verdadeira substância do pão não é acessível às experiências de laboratório, que atinge apenas os acidentes, como a cor, o sabor e o cheiro do pão. É absurda essa evasiva. Ninguém se pode alimentar de acidentes dessa natureza mas quem comesse suficiente número de hóstias consagradas poderia viver desse alimento; idem, quem bebesse bastante vinho consagrado ficaria bêbado. Logo, ainda persiste a substância do pão e do vinho, como aliás, é fácil verificar por uma análise química.

Entretanto, não negamos a presença real do Cristo sob essas espécies; mas essa presença é criada pela fé do crente, é uma presença subjetiva, e não objetiva. Portanto, uma presença fictícia, ilusória? De forma alguma! As criações da nossa fé não são irreais; são até mais reais que as coisas objetivas. O sujeito consciente é muito mais poderoso do que os objetos inconscientes, ou apenas subconscientes.

MATEMÁTICA FÍSICO-MENTAL VERSUS MATEMÁTICA ESPIRITUAL

No plano físico-mental, o efeito é diretamente proporcional à sua causa; se bato um prego com 10 graus de força ele entrará na madeira numa profundidade correspondente exatamente a esses 10 graus. Coisa análoga também acontece no terreno mental. O resultado é diretamente proporcional à atividade do agente.

No plano espiritual, porém, não acontece o mesmo; aqui, o resultado é diretamente proporcional à passividade, e inversamente proporcional à atividade do agente.

Por quê?

Porque, no mundo físico-mental, o homem é a verdadeira causa eficiente do resultado; há um rigoroso paralelismo entre causa e efeito ao passo que, no mundo espiritual, o homem é apenas condição preliminar do resultado. Aqui se requer receptividade, e quanto maior for esta receptividade tanto maior será o efeito, cuja verdadeira causa está alhures, no Infinito, no Universal, no grande Todo, em Deus.

Receptividade que é isto?

É uma passividade dinâmica (e não simplesmente estática); é, por assim dizer,

uma “vacuidade faminta”. O homem tem de criar dentro de si esse “vácuo de sucção”, que atrai a plenitude. Essa “vacuidade faminta” é a “fé” – a plenitude é a “graça”. Não basta esvaziar-se dá consciência do ego, é necessário também clamar pela plenitude de algo além do ego.

Esse “algoe, geralmente, chamado “Deus”; mas, como é tanto transcendente como imanente, esse Deus é idêntico ao meu eterno Eu, ao meu Cristo interno, ao “espírito de Deus que habita em mim”, no dizer de São Paulo.

Quanto mais o homem se esvaziar do seu pequeno ego, tanto mais será plenificado pelo grande Eu; já não viverá ele (o ego) humano, mas o Cristo (o divino Eu) viverá nele.

Esta receptividade dinâmica é, aliás, o último segredo de todas as coisas grandes também nos gênios da ciência e da arte. O homem é talento na proporção da sua dinâmica atividade e é gênio na razão da sua dinâmica passividade. Aquela é o clamor do pequeno ego esta, a voz do grande Eu.

Sê quieto – e sabe que eu sou Deus!”

Em quietude e confiança está a tua força.”

Em muda súplica, ergue a planta ao sol as verdes mãozinhas de suas folhas heliotrópicas, orando, a fim de receber vitalidade e beleza; a medida da sua vitalidade depende do grau da sua receptividade solar.

A matemática físico-mental é meramente “transitiva, atuando “linearmente” – a

matemática espiritual é “transitiva-reflexiva”, e atua “esfericamente”, isto é, cosmicamente.

PENSAMENTO E SENTIMENTO

Tudo na vida opera sob o signo do pensar e sentir. Aquele é luz, este é força.

A luz mostra o caminho a força põe em movimento.

Pensar sem sentir é fraqueza cria teoristas.

Sentir sem pensar é cego cria fanáticos.

Pensar e sentir é um poder luminoso, uma luz poderosa cria o homem cósmico.

CONHECE-TE E CONHECERÁS OS OUTROS!

Quem conhece intuitivamente o seu próprio Eu divino conhece, dentro desse reflexo de Deus, também os outros reflexos divinos, seus semelhantes e conhece até os reflexos divinos do mundo infra-humano.

Neste sentido, tinham razão os antigos filósofos da Grécia, quando diziam “ánthropos métron pânton(o homem é a medida de todas as coisas); porquanto a íntima essência de todas as coisas é Deus; uma vez conhecido em mim, esse reflexo divino se me torna conhecido em todos os seus recipientes, humanos ou infra-humanos; o meu próprio conteúdo divino é a chave que me revela Deus em todos os outros contenedores divinos.

Esta

identificador.

verdade

é

equidistante

do

dualismo

separatista

e

do

panteísmo

A VERDADEIRA CATOLICIDADE ESSA DESCONHECIDA

Por ocasião da comemoração do “dia do papa”, disse o arcebispo de Porto Alegre, V. S., com muita oratória e pouca verdade:

Suspiramos pela hora em que o mesmo Evangelho que se anuncia na catedral de São Pedro em Roma, seja proclamado na igreja do Castelo de Wittenberg, na Hagia-Sophia de Constantinopla e na Igreja Alta de Westminster.”

Resumiu, num engenhoso paralelismo, os quatro setores históricos do Cristianismo: o setor romano, protestante, ortodoxo e anglicano.

Mas esse “suspironão se realizará, enquanto não se operar uma mudança radical no setor a que o sr. arcebispo pertence. Se na basílica de São Pedro,

em Roma, fosse proclamado o Evangelho de Jesus Cristo, sem adições nem deduções, estaria removido um dos grandes obstáculos que dificultam a verdadeira Catolicidade, isto é, a Universalidade do Cristianismo. Mas, onde quer que prevaleçam interesses de classe sobre a causa sagrada da Verdade, é impossível essa Catolicidade. A Verdade não tem partido nem credo, não conhece classes nem interesses; ela é universal como a luz, a vida, o espírito. Qualquer aditamento restritivo à gloriosa palavra “católico” ou “universaladultera o sentido dela; não pode haver “catolicidade romana”, assim como não pode haver “universalidade parcial”. Só pode haver catolicidade sem aditamento algum, universal, ilimitada, irrestrita.

Enquanto o sacerdócio continuar a ser uma profissão, em vez dum puro ideal, não é possível o triunfo do Evangelho, nessa sociedade eclesiástica.

Toda a sociedade tem por base o direito; mas direito é sinônimo de egoísmo. Se Jesus tivesse fundado uma sociedade eclesiástica baseada na idéia do direito, não seria a sua igreja o reino de Deus, mas sim uma criação do egoísmo humano.

Suspiramos pela hora feliz em que todos os parcialismos eclesiásticos se fundam no universalismo do Cristo!

Na verdadeira Catolicidade do reino de Deus

O SEGREDO DA CURA PELA FÉ

É fato histórico universalmente reconhecido que as forças espirituais do homem curam doenças corporais e mentais. Jesus recomenda a seus discípulos essa terapia como normal e única, e todos os grandes mestres espirituais da humanidade afinam pelo mesmo diapasão.

Em que consiste essa cura pela fé?

Consiste simplesmente na firme convicção e profunda experiência de que o homem tanto o curador como o curado é, no seu íntimo ser, perfeita saúde e sanidade; que o seu verdadeiro Eu é o “espírito de Deus que nele habita”, no dizer de São Paulo; que a íntima essência humana é idêntica à essência do próprio Universo, que é o próprio Deus.

Ora, é evidente e lógico que a essência de Deus e a alma do Universo não possam estar doentes; Deus e o Cosmos são perfeita saúde e sanidade.

Quem é que está doente?

Doente está algo que eu tenho, e não aquilo que eu sou; algo nas minhas periferias, no meu ego ou na minha persona, é que está desarmonizado mas

eu sou perfeita saúde e sanidade, porque eu, na minha essência, sou a essência de Deus e do Universo, que não estão nem podem jamais estar doentes.

A cura consiste, pois, em re-harmonizar o meu ego externo com a harmonia do

meu Eu interno; fazer o meu ego humano (persona) à imagem e semelhança do meu Eu divino (indivíduo).

Se eu conseguir essa re-harmonização, estarei curado.

Mas como realizar esse processo?

Aqui é que bate o ponto!

Antes de tudo, não basta pensar, nem simplesmente querer essa re- harmonização, porque tanto o pensar como o querer são do ego, que é fraco e está doente doente não cura doente. É necessário que eu viva integralmente esse processo de re-harmonização e essa profunda vivência é do meu verdadeiro e divino Eu, que não está doente, e pode, portanto, curar o ego doente.

Mas é precisamente aqui que terminam todas as teorias e técnicas. Aqui não há mestre nem discípulo aqui deve atuar uma profunda e misteriosa vivência ou experiência da última realidade do próprio homem.

Por que é tão rara e tão difícil essa profunda vivência da verdade sobre o nosso verdadeiro Eu?

É porque o regime do nosso ego é multimilenar, da parte dos nossos antepassados, e conta com alguns decênios, da parte da nossa própria vida individual e esse ego personal é visceralmente separatista: sente-se como algo separado do grande Todo divino-cósmico, e isto precisamente por ser “persona”, palavra latina para “máscara”. Assim como a máscara que o ator usa no palco para desempenhar o papel do rei, do ladrão, do assassino, etc., não é o seu verdadeiro indivíduo ou Eu, mas tão-somente o seu pseudo-Eu ou ego da mesma forma o nosso ego representa um papel separatista, falso, quando a verdadeira natureza do homem é in-separatista ou indivídua, isto é, indivisa, não-dividida, não-separada do grande Todo.

O separatismo permite doença o in-separatismo exclui doença.

A transição da ilusão do separatismo, criado pelo ego, para a verdade do in-

separatismo, criada pelo Eu é nisto que consiste o último segredo da cura

pela fé.

A cura pela fé é, na realidade, uma cura pela Verdade assim como a doença

vem da in-verdade, ou do erro.

Enquanto o ego separatista se mantiver nessa ilusão e nessa prepotência, e enquanto o Eu for vítima da sua impotência, nada via acontecer; a doença continua, porque continua o erro. Só quando o Eu conquistar plena vitória sobre o ego, derrotando as trevas do erro com a luz da Verdade então terminará a doença, porque a Verdade é essencialmente libertadora.

O exercício diário da meditação abismal, isto é, a intensa e diuturna focalização

do verdadeiro EU SOU, ajudará grandemente a aplainar o caminho,

enfraquecendo a ilusão do ego e fortalecendo a verdade do Eu.

Além disto, o que, não raro, é decisivo nesse processo é um grande sofrimento, porque o sofrimento, devidamente compreendido e espontaneamente aceito, possui uma extraordinária força purificadora e redentora; purifica-nos do erro e redime-nos para a verdade.

No dia e na hora em que eu aceitar plenamente a verdade sobre mim mesmo, serei curado de todas as minhas enfermidades, filhas da ignorância e do erro.

Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará.”

O MAIS PROFUNDO DESEJO DO HOMEM

Qual é?

O

sexo diz Freud.

O

poder exclama Nietzsche.

Riquezas opinam muitos.

Nada disto representa o supremo e mais veemente desejo do homem.

É o anseio de se ultrapassar a si mesmo, o grau de evolução em que ele se

acha agora e atingir um plano possível, porém ainda distante. O que o homem de hoje atualizou não representa ainda 10% das suas potencialidades latentes. Todo homem sente, de algum modo, obscura e longinquamente, que ele não é

plenamente o que poderia ser, que as suas potências implícitas são muito maiores do que as suas realizações explícitas.

Sente também, ou adivinha com seguro instinto, que nessa direção está a sua felicidade, a consecução do seu grande destino.

Esse cosmotropismo da sua ignota e abismal natureza não deixa o homem descansar.

De fato, o homem é muito mais aquilo que pode vir a ser do que aquilo que ele é, no plano das suas realidades objetivas e históricas. A sua verdadeira

“natura” é aquela coisa “na(sci)tura”, aquilo que vai nascer, porque foi concebido e anda em gestação no seio misterioso do seu ser.

O homem é

realidades conhecidas.

muito mais as suas idéias e os

seus ideais do

que as suas

Se a Madalena do Evangelho tivesse sido realmente aquela “pecadora pública possessa de sete demônios”, como diz mestre Lucas e como afirmava a

opinião pública, nunca teria vindo a ser aquela ardente discípula do Nazareno;

da era, certamente, aquela pecadora, no foro externo, no “átrio dos pagãos” e

dos profanos, isto é, no plano histórico das suas realidades objetivas acessíveis ao público mas no foro interno, no sancta sanctorum do seu verdadeiro ser, ela era pura e virgem. E quem sabe se ela, tão pouco virgem de

corpo, não era muito mais virgem de alma do que as mais castas virgens do seu tempo? Com muitos homens se havia ela acasalado mas não casa com nenhum deles; as suas verdadeiras núpcias foram celebradas unicamente com o “Filho do homem”, e não com os filhos dos homens

O Nazareno enxergava para além de todas as realidades objetivas do corpo da

Madalena e contemplava a atitude subjetiva de sua alma. Sabia o que ela era atualmente, impura mas sabia melhor ainda o que ela era potencialmente,

pura.

Mas

o que aí vai escrito é perigoso para os profanos só deve ser lido pelos

iniciados

Para aqueles é veneno para estes é alimento.

AGONIA DAS PRIMAVERAS

Com este título encontrará o leitor um capítulo no meu livro Problemas do espírito, que trata por extenso do assunto deste parágrafo.

Por que é que todos os grandes movimentos espirituais desmerecem e decaem

da sua pureza e poesia inicial, na razão direta em que se distanciam da sua

origem?

É porque os epígonos dos gênios cósmicos que iniciam essas torrentes de

espiritualidade, não possuindo a mesma inspiração divina, substituem essa falta por organizações humanas, que exigem mentalização e verbalização, em forma de estudos jurídicos e burocráticos. Ora, toda e qualquer mentalização analítica e toda a verbalização material é necessariamente uma deturpação de degradação. A verdade do contato direto com Deus, 100% genuína e virgem na sua origem intuitiva e envolta em profundo silêncio e anonimato, não, pode ser manifestada sem que perca grande parte da sua pureza e autenticidade. Essa sacralidade inicial, vivida por algum profeta, místico ou vidente, quando exteriorizada, perde o mais belo dos seus encantos. Também, como seria

possível apanhar uma borboleta e espetá-Ia num museu sem que ela perdesse

o mais delicado da sua etérea beleza? Como seria possível dizer com palavras humanas aos homens aquilo que o santo nem soube dizer em místicos arroubos a Deus?

Todo pensar é profanação.

Todo falar é prostituição.

Somente a intuição espiritual, impensada e indita, é que é pura e virgem.

Quando uma revelação de Deus chega a ouvidos humanos, já foi duplamente

adulterada e terceira deturpação lhe acontecerá, provavelmente, ao transpor

o limiar da consciência alheia. Deixou de ser fogo real, para se converter num fogo pintado.

Pior ainda quando essa revelação divina é passada de boca em boca, escrita, traduzida, interpretada repetidas vezes, em diversas línguas. No fim, é ela tão impura e adulterada com as águas dum rio, quando, após um percurso de milhares de quilômetros, atingem o seu estuário final.

E quem poderá discriminar das impurezas humanas a pureza divina?

Somente alguém que possua experiência divina igual à do gênio espiritual que, de início, recebeu essa mensagem da Divindade.

Quando então essa revelação divina é, juridicada e burocraticamente, elaborada e organizada e posta a serviço dos interesses humanos então atinge a estupração dessa vestal celeste o ínfimo grau da sua degradação.

E é, em geral, nessa forma que as grandes religiões chegam ao conhecimento das massas.

Que admira que muitos, e dos melhores, não queiram saber de “religião”? Que a considerem “ópio para o povo” e ridícula “superstição”?

É bem de admirar que ainda haja, sobre a face da terra, quem se entusiasme

pela religião, depois de tão horripilantes deturpações.

Se a alma humana não fosse inextinguivelmente crística em sua íntima

nosso

natureza,

cristianismo?

como

poderia

ela

descobrir

ainda

o

Cristo

dentro

do

Através de todas as agonias causadas pelos erros humanos, vislumbra a alma os fulgores da Verdade divina

AUTO-REALIZAÇÃO OU ALO-REALIZAÇÕES?

Disse alguém ao grande apóstolo japonês, Toyohiko Kagawa, durante uma longa enfermidade do mesmo: “Deve ser aborrecido ficar inativo por tanto tempo.” Ao que Kagawa respondeu: “De forma alguma! A minha principal atividade consiste em me realizar a mim mesmo, e isto me é perfeitamente possível durante a doença.”

Realizar-se a si mesmo ou realizar coisas fora de si!

Aqui é que a humanidade se divide em dois campos. São milhões e milhões os homens que consideram a sua principal, talvez única, tarefa, aqui na terra,

realizarem alguma coisa no mundo externo um edifício, uma fábrica, uma máquina, uma invenção, um grande capital, ou então uma família ou o seu próprio corpo. Pouquíssimo são os homens que se convenceram definitivamente de que a sua principal missão é realizarem-se a si mesmos, isto

é, levarem à mais alta evolução e perfeição o seu divino Eu, a sua alma.

Quanto às coisas externas, Deus as pode realizar sem nós, e até muito melhor; não necessita de nenhum de nós para realizar as mais estupendas maravilhas

da ciência e técnica das organizações sociais e prodígios de arte. A única coisa

que Deus não pode realizar sem nós é o nosso próprio Eu. Este, em virtude da nossa consciência e liberdade, está, por assim dizer, fora da jurisdição divina.

Na zona onde eu sou livre Deus não manda sou eu que mando. Nessa zona isenta eu sou Deus, autônomo, onipotente; o que eu fizer de bom ou de mau, nessa zona livre, sou eu, e só eu, quem o faz; aqui, sou eu o único responsável, porque o dom da liberdade que Deus me concedeu me isentou do alcance da sua jurisdição.

Se eu não me realizar devidamente, nessa zona de isenção, ninguém me pode realizar. Fico devendo à justiça cósmica o que ninguém pode pagar por mim;

OS CARACTERÍSTICOS DO HOMEM CÓSMICO

O homem que atingiu consciência cósmica: 1) é iluminado por uma luz de

dentro; 2) vive numa permanente elevação moral, espontânea e fácil; 3) sente-

se mentalmente iluminado, porque a luz intensa da consciência cósmica lança

os seus benéficos reflexos sobre a sua vida intelectual; 4) perde todo e qualquer temor da morte, porque sabe experiencialmente da sua imortalidade; 5) ultrapassa a noção do pecado e condenação, que são da zona do ego, que ele transcendeu; 6) irradia estranha fascinação pessoal, que atrai as creaturas receptivas e que se sentem bem na presença do homem cósmico.

OS DONS DA CONSCIÊNCIA CÓSMICA

Com o despontar da consciência cósmica: 1) adquire o homem plena certeza de que o Universo não é um bloco de matéria morta, mas sim uma presença viva; 2) que, no seu íntimo ser e no seu externo agir, o Universo é essencialmente bom e benéfico; 3) que a existência individual do homem pode ser prolongada para além de todas as mortes.

Esses conhecimentos não são o produto de estudos científicos, mas sim o resultado imediato e espontâneo de uma luz que nele está e sempre estava, embora oculta até esse momento, e agora manifesta. Graças ao despertar da consciência cósmica, sente-se o homem em qualquer ponto do Universo como no seu lar e na sua natural querência, e está sempre no coração de todas as coisas; a sua própria essência divina, uma vez plenamente vivida, vive essa mesma essência em todos, os seres, seus irmãos e amigos. Esse homem sente em si as pulsações de todas as creaturas do mundo, e por isto as pode afirmar e amar espontaneamente, sem nenhum ato de volição heróica ou senso de virtuosidade ética. Ama todos os seres com a mesma sapiência e benevolência com que Deus os ama, porque esse homem, sentindo-se um com o Deus do mundo, sente-se um também com todos os mundos de Deus.

AMOR UNIVERSAL SEGREDO DA CONSCIÊNCIA CÓSMICA

Ninguém pode atingir consciência cósmica sem que primeiro atinja amor universal, ou, pelo menos, o desejo dinâmico desse amor: A ordem ética precede à ordem metafísica e mística.

Por quê?

Para que o Universo possa subsistir como um Cosmos.

Como assim?

Se alguém adquirisse consciência cósmica antes de ter adquirido amor universal, poria em perigo a estabilidade do Universo, porque a consciência cósmica é, praticamente, idêntica ao poder universal, e este, sem o amor, seria um poder universalmente destruidor.

A magia mental que é poder sem amor tenta destruir o Universo, mas acaba sempre destruído o próprio mago mental, uma vez que a magia é do Intelecto, e todo o Intelectualismo sem o amor é auto-destruidor.

Por isto, a sapiência da Constituição Cósmica não permite que alguém adquira consciência universal sem que possua amor universal.

A chave para aquela é este.

cosmicamente.

quem

ama

cosmicamente

é

que

é

maduro

para

saber

e

poder

O amor é o postulado fundamental da unidade e segurança do Universo.

Por isto, só o Cristo, e não Satã, possui a plenitude da consciência cósmica, porque ele é amor supremo.

Deus só entrega o sinete do seu poder a uma creatura de absoluta confiança e fidelidade.

QUEM COMPREENDE A DEUS IGNORA TODAS AS COISAS

É esta uma das mais estranhas e paradoxais afirmações do grande místico espanhol, São João da Cruz. E, no entanto, quando bem compreendida, é uma grande verdade.

Arrebatado em êxtase escreve ele estava eu fora de mim, e todos os meus sentidos ficaram sem sentido. Meu espírito estava repleto de compreensão mas eu estava para além de toda a ciência

Quanto mais eu subia às alturas, tanto menos entendia as coisas cá de baixo.

É a nuvem escura que ilumina a noite. Por isto, aquele que compreende não

entende nada está para além da ciência

Quem atinge as grandes alturas aniquila-se a si mesmo, e todos os seus conhecimentos antigos lhe parecem cada vez menos e menos; a tal ponto aumenta a sua compreensão que ele não entende mais nada porque está além de toda a ciência

E essa compreensão, que nada entende, é tão poderosa em sua veemência

que nenhum dos eruditos a pode derrotar com a sua erudição, porque os

conhecimentos destes nunca atingem a compreensão daqueles que nada entendem porque estão para além da ciência

Tão transcendente e soberana é essa sabedoria que nenhuma faculdade ou ciência podem alcançar aquele que supera a si mesmo, sabendo que nada sabe para além de toda a ciência

E, se escutares a voz dessa soberana sabedoria, saberás que ela consiste num senso profundo da essência de Deus; é um ato da divina comiseração que nos deixa sem nada entender para além de toda a ciência

PARAFRASEANDO OS INICIADOS

Há uma consciência local mas há também uma consciência ultra-Iocal.

“Gosto” significa para o homem comum uma coisa localizada na ponta da língua mas para o artista significa uma experiência universal, resultado de uma certa atitude e receptividade intensa do Eu total do homem. Ninguém o pode receber de outrem, nem o pode dar a alguém. O senso artístico não é uma faculdade individual localizada num determinado órgão é o Eu total enquanto acessível a um certo aspecto da Realidade Total; é o próprio Eu secundum quid, permanentemente orientado rumo ao Todo Cósmico.

Recebemos ondas de experiência de todas as coisas ao redor de nós do nosso povo, da nossa nação, da nossa igreja, da “comunhão dos santos” – de todos os seres para cujas vibrações se acharem afinadas as nossas antenas. Esse recebimento nada tem que ver com algum sentido físico; é algo como uma “luz interna”, uma iluminação (in-lumine, dentro da luz).

Esta visão atinge as coisas pelo lado de dentro, assim como elas são, de fato,

na

sua realidade, e não como parecem ser segundo as suas aparências. Vêem

as

coisas no seu verdadeiro ser, e na sua verdadeira ordem.

Essa experiência provém da completa união entre o sujeito vidente e o objeto visto.

Essa união (unio, de uno), ou identificação, é possível, porque a Realidade é uma só; não há realidades. Se estou unido ao Grande Todo, e se esse Grande Todo é a essência de todas as coisas, então, pelo fato de ser um com o Todo, sou também um com cada uma das suas partes; porquanto a essência de cada uma das partes é idêntica à essência do Todo – são todos “concêntricos”.

A nossa experiência sensorial não passa dum jardim de infância em face

daquela outra experiência, ultra-sensorial e ultra-mental que é a experiência

do Eu central e universal.

Essa experiência cósmica e panorâmica do meu Eu universal me faz, realmente, “são” e “santo”; whole e holy, heil e heilig), porque “sanidadee santidadesão universalidade, ao passo que “insanidade” e “insantidade(doença e pecado) resultam duma falta de universalidade, por serem aspectos

de parcialidade.

A intuição cósmica confere ao homem um senso de tranquilo poder, de

profunda paz de espírito, de inefável felicidade, e, não raro, influencia outros como que pela irradiação de um misterioso magnetismo.

NO CÉU E NO PURGATÓRIO

O homem de consciência cósmica, no mundo presente, está no céu mas

continua a viver no purgatório. Os sofrimentos do ego continuam, mas são permeados pela leveza e serenidade da luz interna da experiência celeste. O quê, ou fato, do seu sofrer é o mesmo que o dos outros mas o como desse sofrer é muito diferente. Esse homem pode sofrer gozosamente, pode ser feliz no meio do sofrimento assim como o profano pode ser infeliz no meio dos seus gozos.

Por isto, o homem de consciência cósmica não pede a Deus que o liberte do sofrimento, mas que lhe intensifique cada vez mais a luz da visão interna, que, graças à sua misteriosa alquimia, transforma tudo e permeia todas as coisas externas, de maneira que estas, de opacas que eram, se tornam transparentes como límpidos cristais.

MÍSTICA E ÉTICA

Nem sempre a ética do homem corresponde ao grau da sua mística, enquanto

ele se acha ainda em vias de evolução. Por vezes, os seus altos vôos místicos têm de arrastar consigo o peso morto de uma ética ainda sacrificial e precária. Tão densa é a opacidade multimilenar do velho ego que a luz do novo Eu não consegue, logo de início, lucificar plenamente as paredes espessas desse invólucro egoísta e essa incapacidade é o maior tormento para o Eu divino no homem em vias de cristificação. Por vezes, o seu humano ego geme em cruel

agonia: “Pai, se possível, passe de mim este cálice sem que eu o beba!”

logo o seu divino Eu ressalva: “Contudo, não se faça a minha, e sim a tua

vontade

Mas

CONSCIÊNCIA CÓSMICA É MAIS QUE MORALIDADE

Quando um homem altamente ético ou moral consegue um amor que abrange todos os seres, é isto, para ela, uma espécie de talento, ou uma virtude heróica, da qual tem plena consciência, porque é o resultado de tremendos

esforços e dolorosos sacrifícios; é o termo final de processo de auto-disciplina de longos anos.

Essa suprema conquista do homem eticamente virtuoso pode gerar nele um senso de orgulho e auto-complacência.

Bem diferente é a atitude do homem de consciência cósmica; não é um talento, mas um gênio, embora nem ele seja, em geral, dispensado do tirocínio preliminar da ética sacrificial. A sua consciência cósmica é algo como uma perfeição biológica, como um divino carisma. Por isto, nunca lhe vem a tentação de se orgulhar dessa grandeza, porque ela é a sua própria natureza, a regra geral do seu ser, e não apenas uma exceção dessa regra, em forma de um agir.

O amor universal com que ele abrange todos os seres o Real e os realizados não é, para ele, uma virtude, um heroísmo ético, um talento moral, mas sim uma profunda e vasta natureza. Como ele se sente integrado no Grande Todo do Cosmos, nenhum merecimento há nesse fato de integração, porque é o seu clima, a sua atmosfera vital, a sua beatitude.

Esse homem não é talentosamente virtuoso ele é genialmente sábio.

ENTRE SCHOPENHAUER E NIETZSCHE

Disse o primeiro que o desejo fundamental do homem é a “vontade de viver” (der Wille zum Leben); proclamou o segundo que o mais profundo anseio do homem é a “vontade de dominar” (der Wille zur Macht).

Schopenhauer disse meia verdade Nietzsche enunciou uma verdade total, embora talvez num sentido unilateral. O certo é que nenhum ser, menos de todos o homem, se satisfaz com o simples fato de viver, todos o homem, se satisfaz, no plano horizontal, e continuar a viver onde está. Quanto mais consciente de si é um ser, tanto mais se transforma o seu simples desejo horizontal de viver numa linha ascensional de viver poderosamente, porque poder é felicidade, e a plenitude do poder é a plenitude da felicidade. Em última análise, toda a felicidade consiste fundamentalmente num senso de poder, que dê segurança e liberdade, sem as quais nenhuma felicidade verdadeira é possível. Quem vive poderosamente é feliz. Felicidade é vida abundante. E essa vida abundante é impossível na fraqueza; exige poder.

Entre a linha horizontal do simples viver e a linha vertical do viver poderosamente são possíveis inúmeras linhas ascensionais, de maior ou menor grau de distanciação da horizontal e aproximação da vertical. Uma minhoca no fundo da terra, comendo humus a vida inteira, deve viver bastante satisfeita, porque as suas potencialidades rumo à vertical são mínimas, uma

vez que a sua consciência se acha no ínfimo grau de autonomia. Não sabemos até onde vai a “vontade de dominar”, der Wille zur Macht, de uma minhoca.

Mas, uma águia no espaço ou um leão na floresta revelam uma “vontade de dominar” notavelmente superior, porque vivem mais abundantemente, e seu grau de felicidade deve ser muito maior que o de um verme da terra.

Está na íntima natureza do homem viver abundantemente. “Eu vim para que os homens tenham a vida disse o maior dos mestres da humanidade e que a tenham na maior abundância.”

Todo homem tem o veemente desejo de se realizar plenamente, isto é, de atualizar as suas potencialidades, como dizemos em terminologia filosófica; o anseio de ser explicitamente aquilo que ele já é implicitamente, de ultrapassar

o plano evolutivo em que hoje se acha e subir a um plano superior, mais

sentido e intuído do que propriamente sabido e inteligido. Quanto mais consciente de si se torna o homem, tanto mais ele adivinha que sua existência compreende numerosas etapas evolutivas, que ele tem de passar por muitas metamorfoses, nascimentos, vidas e mortes assim como uma lagarta, depois de nascer do ovo sabe biologicamente que terá de morrer como lagarta, nascer como crisálida, e depois morrer como crisálida e nascer como borboleta; sabe que a sua epopéia vital é uma sucessão de luzes e treva, de expansão e contração, de atividade e passividade, de vigílias e dormências rumo a uma meta que a consciência individual do inseto ignora, mas que a consciência universal do cosmos conhece desde o princípio dessa cadeia evolutiva.

O inseto, como aliás todos os seres infra-humanos, não vivem propriamente

mas são vividos pela grande vida cósmica; têm vida, mas falta-lhes a vivência;

não possuem autocracia vital, toda a sua vida é alo-crática; não se governam, mas são governados pelo impacto da grande Vida Universal do Cosmos. E por isto também não são responsáveis por seus atos o responsável é o próprio Cosmos. Esses seres alo-cráticos, ou exo-cráticos, não conhecem ética, nem para a direita nem para a esquerda, nem para o bem nem para o mal, porque ética supõe auto-cracia, auto-nomia, endo-cracia.

Só com o advento do homem começou, neste planeta Terra, o fenômeno da autonomia do ego, e, portanto, a consciência ética, a possibilidade do bem e do mal.

Mas o homem eticamente consciente dos nossos dias sabe que ele é um viajor de regiões longínquas, um peregrino do Infinito; sabe que, por mais que ele se tenha distanciado do mundo infra-humano do mineral, do vegetal e do animal muito distante se acha da meta final, da plena realização de todas as suas potencialidades latentes. E talvez que haja dois seres humanos que se acham no mesmo ponto de evolução ascensional; uns realizaram 10 graus, outros 20, outros talvez 50 graus de despertamento das suas potências dormentes.

Parece que, até hoje, um único homem atingiu a plenitude da sua perfeição, e por isto se chamava ele o filho do homem”, quer dizer o pleni-homem, o homem integral.

Se a lagarta pudesse raciocinar, quem sabe se não teria medo de se enclausurar no misterioso invólucro da crisálida que é o ataúde da lagarta e vai ser o berço da borboleta? Felizmente, a grande Inteligência cósmica pensa pela lagarta, e assim a pequena inteligência do inseto não teme a morte, porque uma voz de dentro lhe diz que este ocaso de hoje é o prelúdio da alvorada de amanhã.

SOLUÇÃO ÚLTIMA DE TODOS OS PROBLEMAS

Resume-se essa solução suprema, mais ou menos, nos seguintes termos:

Homem, renuncia ao eu pessoal e submerge no nós universal esse nós que, em seu primeiro estágio, se chama humanidade, e, no último, Deus.

São os dois mandamentos, o primeiro do amor de Deus, e o segundo do amor do próximo. Mas, na execução prática, temos de começar pelo segundo, que é o mandamento da ética, a fim de atingirmos o primeiro, que é o mandamento da mística. Uma vez passado pela mística, a ética difícil e compulsória se transforma na ética fácil e espontânea e então está solucionado o último problema da vida humana.

Para atingir essa meta, ó homem, observa o seguinte:

Não exijas nada sempre pronto para tudo!

Não reclames direitos cumpre somente obrigações!

Não te arvores em credor de alguém considera-te devedor de todos!

Não te delicies em perdoar ofensas esquece-as!

Não procures receber e ser servido dá e serve onde puderes!

Mantém dentro de ti um clima de serena tranquilidade que se revele em suave benevolência para com todas as creaturas de Deus!

Realiza com a maior perfeição e com jubiloso amor todos os teus trabalhos, sem jamais esperar reconhecimento, aplausos, gratidão, nem aguardares resultados visíveis!

Se assim fizeres, o teu velho ego protestará, indignado, afirmando que a tua vida é um absurdo e tu és um tolo; pois, como poderias renunciar ao maior

triunfo de milhares e milhões de anos de evolução, que é o teu ego? Que valor teria ainda a tua vida sem os encantos do ego, que se nutre de elogios, aplausos e resultados palpáveis dos seus trabalhos?

Esse protesto, não te esqueças, é o protesto de um cego ou dum míope. O teu ego é incapaz de perceber que, na realidade, essa “renúncia” não é uma perda, mas sim um lucro, não um menos, sim um mais; entregas um 10 para receberes um 100. O pequeno ego, porém, devido à sua pequenez, não percebe que o 10 está contido no 100, e que este é um gloriosa ambição daquele.

O grande Eu divino em ti sabe dessa matemática cósmica, que o pequeno ego

humano ignora. Por isto, o grande Eu divino tem de se manter firme e inabalável, no meio de todos os protestos, porque é pelo bem do próprio ego que seja dirigido pelo Eu, pois assim ganha em vez de perder.

É o maravilhoso “Stirb und werde!” de Goethe.

É o glorioso Se o grão de trigo não morrer

”,

do divino Mestre.

A NOITE TENEBROSA DO MÍSTICO

É este, talvez, o mais inexplicável fenômeno que todo místico conhece, na sua

jornada ascensional rumo a Deus: depois de alcançar total purificação, depois

de atingir elevado grau de iluminação, pouco antes de cruzar a misteriosa fronteira para a definitiva união com Deus passa ele pela chamada “noite tenebrosa da alma”. São João da Cruz e sua grande discípula, Santa Tereza de Jesus, são mestres na descrição desse fenômeno.

Dizem os psicólogos que essa treva é uma reação do cansaço causado pela passagem através dos dois primeiros estágios evolutivos, da purificação e da iluminação, que, necessariamente, precedem a União.

Entretanto, a mais profunda razão não é apenas psíquica, e sim mística ou cósmica. Em transição para a definitiva união com o Infinito, ocorre um egocídio, a morte irrevogável do “homem velho”, e esse morrer é experimentado como uma escuridão, como um eclipse total da personalidade separatista e luciférica.

De resto, não pode haver experiência genuína do mundo espiritual sem o “batismo de sangue”, sem a passagem pelo “mar vermelho” de um grande sofrimento e a morte definitiva do ego é, sem dúvida, o maior dos sofrimentos. O sofrimento é o último e supremo fator de iniciação. Depois que o homem compreendeu tudo que era compreensível, tem de ser aniquilado, reduzido a zero, antes de poder ver o Todo. Se entre a vida consciente do ego

e a vida superconsciente do Eu não medeasse o abismo do nada, do absoluto

niilismo, que se revela como sofrimento, poderia a subsequente união com Deus parecer o produto de alguma engenhosa ou genial atividade do ego; mas, depois que este foi reduzido a zero, crucificado, morto e sepultado, nenhuma tentativa pode haver de o homem considerar as núpcias místicas da alma com

o divino Esposo como algo merecido ou produzido pela personalidade do ego.

Para que essa união mística apareça em todo o esplendor da verdade daquilo que ela é na realidade, isto é, uma puríssima graça de Deus deve a grande escuridão acampar no limiar do santuário.

Para que nenhum homem se glorie

Depois de passar por essa treva espessa, está a alma definitivamente adulta e madura para ingressar no reino de Deus.

Aqui está a linha divisória entre a espiritualidade meramente devocional de certos místicos poéticos e líricos e a experiência criadora de uma alma que, de fato, foi empolgada pelas veementes tempestades de Deus. Há, na genuína experiência mística, algo profundamente trágico, quase mortífero; a alma, chegada a essa fronteira última entre dois mundos, sabe e sente que se trata de vida ou morte, que é chegado o momento da grande crise, de uma decisão suprema, da qual não há regresso

Escusado é dizer que uma experiência dessas causa profundas modificações também na vida externa do homem.

Quando alguém, após esse encontro com Deus, volta ao meio da sociedade, no princípio não enxerga nada, não compreende mais a linguagem dos outros,

embora veja e ouça tudo materialmente. A sua alma continua distante, muito

Depois, obrigado a retomar o fio da sua vida profissional, tem a

Por

que toda essa correria em derredor? Por que essa desenfreada lufa-lufa, a pé, de carro, de avião a jato? Que querem esses bonecos humanos? Será que têm de realizar algo de importante? Evidentemente, são vítimas de uma alucinação

distante

impressão de estar num jardim de infância, ou num teatro de fantoches

Ninguém sabe, propriamente, por que

Será que

Esses homens

importantes parecem-se com formigas que tiveram desmanchado o seu formigueiro e põem-se a correr estonteadamente em todas as direções, sem

saber por que e para quê

coletiva, que eles tomam muito a sério

corre, grita, ri, chora, gesticula, acumula dinheiro e mais dinheiro

eles não percebem que estão montando museus de zeros?

“O meu reino não é deste mundo”

É esta a voz que ecoa, sem cessar, na alma do místico que teve o seu encontro com Deus. E, se alguém lhe oferecesse “todos os reinos do mundo e sua glória”, não se daria ele ao trabalho de estender a mão para se apoderar

dessas sombras e dessas bonecas de celulóide, que formam o cobiçado alvo da desenfreada lufa-lufa e das guerras dos profanos

Deslocou-se o seu centro de gravitação

A sua órbita deixou de ser geocêntrica, egocêntrica tornou-se heliocêntrica, teocêntrica, cosmocêntrica

Perdeu de vista as praias e os litorais de outrora e deixou-se arrebatar pelas exultantes ondas dos mares de Deus

Para onde?

Não interessa saber

Deus o sabe e isto basta

PARTURIÇÃO MÍSTICA

Entre a iluminação da alma e sua definitiva unificação com Deus, jaz o tremendo mistério da parturição do homem cósmico. No meio dessas dores de parto agoniza a alma, sofrida de Deus e sofrida de si mesma

Outrora, sabia o homem algo sobre Deus e isto era delicioso; agora sabe ele a Deus e isto é terrífico, porque esse saber é um viver e um ser e isto é algo mortífero e vivificante

Essa alvorada de Deus é o ocaso do ego – a “noite tenebrosada desegoficação, a queda no vácuo, o naufrágio no vasto oceano da divindade, o regresso à eterna origem

Tenho de des-nascer do ego, para o qual outros me fizeram nascer, decênios atrás a fim de poder re-nascer para Deus

Tenho de me tornar conscientemente a Realidade que sou inconscientemente.

O meu semi-eu tem de se tornar um pleni-Eu e isto é agonia, que submerge na morte, para emergir na vida

REGRESSANDO DE DEUS PARA O MUNDO

Ah! como me tornei flexível e plasmável, depois que passei pelas mãos de

Deus! Como me sinto leve e luminoso e desprendido de tudo!

vou roçando apenas, mui de leve, com asas de andorinha, as coisas da vida

material

Parece que

Os objetos, antes

tão opacos, parecem todos transparentes, como se dentro deles ardesse uma

luz

E que halo estranho envolve tudo que me rodeia!

Tudo que vejo, ouço e sinto me

parece uma discreta mensagem d‟Ele, meu divino Amor, um murmúrio dos seus lábios, um aceno dos seus olhos, um eco da sua voz, uma pulsação do seu coração, um presente das suas mãos

Estou de amores divinos com o mundo inteiro

Este mundo é tão belo, depois que vi a eterna Beleza

E eu me sinto imensamente livre

E Verdade me libertou

Foi abolido o inferno, desde que o paraíso tomou conta de mim. Também,

como poderia haver inferno lá onde Deus está? eclipsou a presença do inferno

A onipresença do céu

Foi também abolida a morte, pois como poderia haver morte, lá onde impera a vida?

Abolida foi a presença do pecado pela onipresença do amor.

Pecado, morte, inferno em parte alguma!

Amor, vida, paraíso por toda a parte!

NÃO SOU ALTRUÍSTA!

“Altruísmo” é uma palavra equívoca e perigosa. “Alter” quer dizer “outro”. Será que eu devo amar os outros em vez de me amar a mim? Fazer uma permuta de amores?

Absolutamente não! Devo amar a todos assim como me amo a mim. Se eu não amasse a mim, não teria norma para o amor aos outros. Devo ser absolutamente solidário no meu amor. Devo amar-me em tudo e tudo em mim. Eu e o Universo somos um. Sinto em mim as pulsações da vida universal, e faço pulsar no universo a minha própria vida. Eu vivo a vida cósmica, e a vida cósmica me vive e vitaliza.

A palavra “altruísmo” sugere algo como hipocrisia, virtuosidade, orgulho espiritual, farisaísmo auto-complacente.

Se eu amasse algo ou alguém em vez de mim, deixaria de amar a mim mesmo o que seria profundamente inético e anti-cósmico. Eu devo afirmar tudo o que Deus afirma mas Deus me afirma com o mesmo amor com que afirma a todas as outras creaturas. Com que direito, pois, poderia eu des-afirmar, e até negar, algo que Deus afirma? Será que eu sou mais santo que Deus? Devo eu desamar o que Deus ama?

CURRUÍRAS E MARIPOSAS AMIGAS

Ontem à tarde, 3-9-1950, entre 4 e 5 horas, quando eu estava sentado no bosque lendo Yogananda, Auto-biography of a Yogi, justamente no capítulo onde o autor fala do maravilhoso cientista místico Luther Burbank, vieram de repente três curruíras, no meio de extraordinária festa de risadinhas e bater-de- asas, ao redor de mim, quando não havia passarinho algum pela vizinhança; e uma delas veio pousar tranquilamente sobre o meu joelho esquerdo, olhando para mim meio minuto, com olhares interrogativos, enquanto as outras duas me olhavam lá da cerca próxima.

Por que essa amizade e confidência? Será porque eu, engolfado naquele capítulo sobre um místico que conversava com a natureza como Francisco de Assis, me achava envolto em auras de simpatia cósmica?

Quando o homem vive em Deus, todas as creaturas, que também vivem em Deus, confraternizam com o homem. Desaparece a hostilidade criada pelo intelecto luciférico e aparece a amizade que nasce da razão crística; todas as longínquas transcendências se fundem numa propínqua imanência

Eu e o universo somos um

Muitas vezes, à noite, quando leio, vêm dançar sobre as páginas do livro umas pequenas mariposas vestidas de seda branca, que eu chamo “noivinhas”; pousam sobre o papel e se quedam, estáticas, vibrando apenas as minúsculas antenas. A luz as põe numa espécie de samadhi, e elas, misticamente inebriadas de luz, se sentem no “terceiro céu”. Falo com as delicadas noivinhasde alvíssimo enxoval, e lhes entrego a minha mensagem para o Pai de toda luz, vida e amor

Foi o que fiz também com as três curruíras.

EU ESTOU EM TUDO E TUDO ESTÁ EM MIM

Vamos substituir a palavra “Deus”, tão abusada, pela palavra “Vida”, tão querida.

A Vida é a essência de todas as coisas. Eu, pelo fato de estar vivo, participo da Vida Universal, que está em todos os seres vivos.

Por isto, eu vivo em todos os seres vivos, em virtude da Vida, e sou amigo de todos os meus irmãos viventes.

Fazer “milagre” é um simples corolário desta minha união com a Vida Universal. Nada é impossível a quem se torna consciente dessa universal “simbiose”, dessa grande “convivência cósmica”.

PROPINQUIDADE E LONGINQUIDADE

Quando uma pessoa de consciência individual está comigo, eu sinto deleitosamente a sua tépida propinquidade mas, quando uma pessoa de consciência cósmica está comigo, sinto-lhe, para além da grata proximidade individual, a solene longinquidade universal, sinto-a como que envolta numa aura de indefinível sacralidade

E essa bi-polaridade formada pelo perto e pelo longe dessa pessoa, de

imanente amizade e transcendente majestade, me enche dum paraíso de

anônima beatitude

esse gozo sofrido é algo de indescritível fascinação

Gozo a presença e sofro a ausência dessa pessoa e

ALMA EM DIVINA GESTAÇÃO

Skyland, 20-9-1950. Mais uma vez estou nestas maravilhosas alturas, em plena natureza, como no ano passado, quando minha alma gemia em dores de

parto por ti, meu Deus, sempre presente e sempre ausente, sempre nascituro e

jamais nascido e minha alma sempre em dolorosa gestação

Nunca sei se,

de

fato, nasceste ou não, se és uma prole nata ou inata

Tenho a impressão

de

que és um eterno nascituro

Ontem à noite, das solitárias alturas do “Stony Man”, ponto culminante de

Sentia-me

inefavelmente um com o Grande Todo, fundido em compreensão e amor e, ao mesmo tempo, sangrando dolorosamente das chagas da minha

Skyland, fui invadido por uma onda de consciência cósmica

insuficiência

Estou em ti

tu estás em todos os seres

logo, eu também estou em todos os

seres

Universo!

Nós estamos todos em ti, nós, a tua grande família cósmica, ó Pai do

Embora todos distintos de ti, não estamos separados de ti, Espírito

Divino, que unificas todas as diversidades, sem as identificares

Meu ignoto Amigo e Senhor! Ando sempre à tua procura, porque te achei, e nunca te acho plenamente. Quanto mais te acho mais te procuro, porque o

meu pequeno finito anda sempre faminto do teu grande Infinito, e quanto mais

Deus do céu! Será que esta

me alimento de ti, tanto mais fome tenho de ti

fome progressiva que tua progressiva posse me dá não acabará por me aniquilar e dissolver em ti totalmente? Será que não acabarei em dulcíssima

eutanásia mística, diluindo-me todo em ti, ó divino Oceano sem praias nem fundo? Se assim for adeus, pequenina onda do meu Eu! Volta em paz para

donde vieste!

Que

o meu pequeno Eu, limitado de nome e forma, se dilua no infinito Pélago, sem

nome nem forma! grande Todo! Universal!

Desprende-te das praias da

efêmera existência e afoga-te nos abismos da eterna Essência

Deixa de existir e volta a ser

Adeus!

Nirvaniza-te, pequeno Algo, abisma-te no Nada, no seio do

Des-nasce para o teu existir individual e nasce para o Ser

E minha alma continua em gestação, sofrida de mesma

AÇÃO ADORAÇÃO

Duas asas que me levam às alturas.

Que vale ação sem adoração?

Que vale adoração sem ação?

Que vale atividade?

Que vale passividade?

Deus

e

sofrida de si

Só vale passividade dinâmica imensa vacuidade invocando intensa plenitude.

Adoração é a mais alta forma do amor, o “primeiro e maior de todos os mandamentos”, é a grande vertical da mística divina, sem a qual todas as horizontais da ética humana são estéreis.

Todo o meu externo agir poderia ser feito por Deus, e muito melhor mas o seu interno adorar e amar não pode ser feito por Deus em meu lugar.

Tanto vale a minha ação quanto vale a minha adoração. As minhas ações são outros tantos zeros sem o algarismo positivo “1” da minha adoração, que valoriza com a sua plenitude todas as vacuidades dos zeros: 1 000 000.

Na própria palavra “adoração” está contida a palavra “ação”, como parte integrante dela; e no meio, entre “adoração” e “ação”, está “oração”, elo mediador que une a mística e a ética.

Adoração, oração, ação

EM PERSPECTIVA OU EM PANORAMA?

Toda verdade espiritual é falsa, quando analisada intelectualmente, porque é vista em perspectiva, e não em panorama. Quando contemplo um círculo obliquamente, o círculo me aparece como elipse, tanto mais alongada quanto mais oblíqua for a minha posição; quando contemplo em perspectiva duas linhas paralelas, como os trilhos duma estrada de ferro, essas paralelas aparecem como convergentes.

Todos os nossos conhecimentos, físicos e mentais, nos aparecem em perspectiva linear, unilateral, devido à imperfeição das nossas faculdades cognoscitivas.

Mas uma verdade conhecida espiritualmente aparece em visão panorâmica, assim como ela é de fato, parecida com uma visão esférica, onilateral; é uma intuição”, ou visão de dentro, porque é a visão da própria essência.

A visão mental não pode ser corrigida por si mesma, senão apenas por uma visão superior, intuitiva, panorâmica.

O ILOGISMO DA CONSCIÊNCIA MÍSTICA

Exigir que a mística seja lógica é absurdo, porque parte duma falsa premissa suposto que entendamos a lógica no sentido tradicional, intelectual. Nenhuma experiência mística pode ser intelectualmente lógica, sob pena de deixar de ser mística. Toda mística é necessariamente ilógica. “Credo quia absurdum” estas palavras do grande Tertuliano contêm uma grande verdade. O objeto da fé é necessariamente absurdo, ou ilógico, isto é, ultra-intelectual. Não pode haver fé na zona da inteligência.

Do ponto de vista científico, o estado místico é flagrantemente ilógico, a- científico, porque não concorda com a lógica científica do intelecto.

Tudo que é cientificamente lógico não é real, mas aparente, porque a ciência trata apenas dos fatos, mas não da realidade. Os fatos estão para a realidade assim como um objeto refletido no espelho está para esse reflexo.

ESTUPRO ESPIRITUAL

Querer impor a outros uma crença ou experiência espiritual é crime de violência ou estupro, e isto em dois sentidos.

Primeiro, porque nenhuma experiência espiritual coincide com a Realidade.

Segundo, porque a Realidade experimentada por A não pode ser experimentada por B ou C do mesmo modo, uma vez que cada indivíduo experimenta segundo a sua capacidade individual a Realidade Universal.

Esse estupro espiritual é, talvez, o maior crime que certas igrejas dogmáticas cometem contra a humanidade, consoante a norma “Crê ou morre!”

QUIETUDE É PUREZA

Como tornar clara uma água turva?

Deixando-a quieta e ela se clarificará por si mesma.

Todo o ruído, tanto físico como mental, é impureza e profanidade ao passo que o silêncio e a quietude são pureza e sacralidade.

Depois de dois ou três dias de contínuo silêncio e meditação, entra a alma numa grande receptividade espiritual, de maneira que qualquer sementinha de verdade brota com espontânea facilidade. O terreno à beira da estrada, entre pedras ou no meio dos espinheiros, se transforma em terra fértil, arada, adubada, chovida, como aquela da parábola do semeador que produziu 30, 60, 100 por um.

Deus é eternamente inativo e, no entanto, não deixa nada por fazer.

Homem! Pratica inação e não haverá nada que não possa ser feito!

Deixa que cada coisa siga seu curso natural e não interfiras com coisa alguma e tudo sairá certo!

Todas as coisas da natureza operam silenciosamente e Deus é o rei do silêncio

COMPREENDER É SER

Não fales de oceano a uma poça d‟água!

Não fales de gelo a uma cigarra de estio!

Não fales de astros a um tatu!

Não sabes que ninguém pode compreender coisa maior do que ele mesmo é?

VERDADES PARADOXAIS

Se quiseres ser grande humilha-te!

Se quiseres ser sábio aceita parecer tolo!

Se quiseres ser livre serve voluntariamente!

Se quiseres viver morre antes de ser morto!

Se quiseres ser feliz renuncia à tua felicidade!

MINHA CONSCIÊNCIA É O MEU MUNDO

Nada sei do mundo objetivo, lá fora só sei do meu mundo subjetivo, dentro de mim. O meu mundo começa e termina lá onde começa e termina o meu consciente. Embora existam milhares de mundos, objetivamente para mim só existe o mundo da minha experiência subjetiva; os outros são inexistentes para mim.

Se a minha consciência grau 10 se alargasse para grau 20 ou 50, tão diferente seria a minha filosofia sobre o universo!

EXPERIÊNCIA E MÍSTICA DA NATUREZA

O verdadeiro místico se torna um com o grande Todo e com cada parte desse

Todo um com Deus e um com qualquer creatura de Deus.

O profano, quanto mais goza tanto mais incapaz se torna de gozar, e, por fim,

expira o último resquício da sua capacidade de gozar e então só lhe resta um inferno de tédio, o manicômio ou o suicídio. O próprio gozo impossibilita o gozo é esta a maldição de todo o gozo profano.

O místico, porém, graças à bendita disciplina da renúncia, abre infinitas portas

para um gozo intenso e puro e sem fim. Deus é um, como a luz incolor, mas as revelações de Deus são sem conta nem medida, como as cores criadas pela

luz, e cada novo aspecto de Deus causa nova alegria ao homem espiritual.

O verdadeiro místico exulta ao contemplar uma pedrinha, um inseto, uma ave,

um peixe, uma planta, uma gota de orvalho, porque vê a Realidade eterna

através dessas roupagens efêmeras.

Celebra a sua liturgia cósmica em milhares de catedrais, sobre inúmeros altares.

Ó folhinha de capim! como te agradeço porque existes!

Ó besourinho verde-claro! como sou feliz porque tu vives!

Ó nuvens do céu! como alegrais a minha existência!

Ó florzinha à beira da estrada! bendita sejas pelo bem que me fazes!

Ó ventos e chuvas, relâmpagos e pirilampos, montanhas e mares! que seria a

minha vida sem vós?

Recebei, todos vós, o preito da minha gratidão, porque existis na minha existência!

O HOMEM INFINITO

O homem não é um ser finitus, findo, acabado ele é infinitus, não-findo, não-

acabado, porque ele é uma sinfonia inacabada.

Os problemas duma lagarta não acabam com a lagarta, mas sim com a borboleta, porque a lagarta é uma sinfonia inacabada. A lagarta é a borboleta infinita”, não finda, por acabar

Quanto mais me aproximo do Infinito, menos finito me sinto e mais desperta em mim a consciência do meu ser “infinito”, inacabado

Quanto mais me aproximo da Luz, mais largas e espessas são as sombras que projeto após mim, porque mais nítida se torna a consciência da minha finitude

O teu Infinito, Senhor, intensifica em mim a consciência da minha finitude

quanto mais te gozo mais te sofro

Quanto mais te possuo, mais te procuro

Quanto mais me delicio em ti, mais fome tenho de ti, Senhor

EU E O UNIVERSO SOMOS UM

Hoje, pelas 10 horas da noite, ao voltar do meu solitário Shangri-la, no bosque de Washington, após intensa meditação, parei uns momentos, no meio do trilho que conduz ao campo da Universidade onde leciono e sobreveio-me intensa

luz, que me envolvia e permeava, uma luz imaterial de dentro

E fui inundado

pela grande Verdade, que é suprema Felicidade, de que eu e o Universo

somos um

Vivia a minha íntima união com Deus, que parecia total

identidade

E, como Deus é a essência de todas as coisas, também eu estava

essencialmente em todas as coisas, vivia em cada uma das creaturas de Deus

ao redor de mim, que estavam em mim pedras, plantas, insetos, aves, ar,

terra, música de grilos e cigarras meus irmãos, minhas irmãs dormentes,

semi-dormentes

misterioso dormitório de Deus

E eu, o único irmão maior vígil, acordado, no meio desse

Boa noite, irmãozinhos, irmãzinhas!

consciência maior

grato odor ao meu Deus e vosso Deus, nosso Pai e nosso Senhor.

Eu vos faço participantes da minha

Ponho-vos todos sobre o altar do meu Eu consciente, em

E celebramos a nossa inefável liturgia cósmica, no meio de grande silêncio e solenidade

Eu e o Universo somos um

QUANDO MORRE O “DEVER

Uns nunca chegaram a conhecer o imperativo do “dever”.

Outros conhecem-no e procuram agir de acordo com ele.

Outros ainda agem em perfeita harmonia com o seu “dever”, mas nada sabem desse senso compulsório, porque toda a sua consciência está empolgada por um delicioso e espontâneo “querer”. Estes resolveram o problema central da vida: querer o dever. Eles sabem o que Gandhi quis dizer com as estranhas palavras: “A Verdade é dura como diamante e delicada como flor de pessegueiro.” A objetiva dureza do dever se lhes converteu na subjetiva delicadeza do querer

Esses estão definitivamente remidos de todas as irredenções

Deles é o reino dos céus

RELIGIÃO E MORALIDADE

Não há nenhum nexo direto entre religião e moralidade, contanto que como religião se entenda a mística, a experiência cósmica da Infinita Realidade.

Indiretamente, é verdade, a moralidade é beneficiada pela religião, como também esta se desenvolve melhor no ambiente daquela.

A religião, o “primeiro e maior de todos os mandamentos”, se refere diretamente a Deus; a moralidade, o “segundo mandamento”, semelhante, mas não igual àquele, tem que ver com os nossos semelhantes.

O homem religioso se abisma em Deus, goza a Deus, sente-se um com Deus, dilui-se num oceano de amor e beatitude, com toda a alma, com todo o coração, com toda a mente e com todas as suas forças.

A moralidade prática pode ser estabelecida independente de qualquer

religiosidade, embora, nesse estado a-religioso, a ética nunca deixe de ser difícil e sacrificial: por isto, muitos homens procuram ser éticos por vaidade e ostentação, ou pela inconsciente necessidade de encontrarem um substituto e lenitivo para sua falta de religião; não raro, o ateísmo vem enflorado de filantropia; a caridade procura encher os vácuos do Amor, reprimindo com perfumosos anódinos os sintomas de um mal cujas raízes profundas continuam

a viver

Depois de passar pela experiência mística, o homem continua a ser ético, mas a sua ética perdeu o colorido moral do “dever”; esse homem já não é ético por virtude, por um imperativo categórico de consciência, “tu deves”, mas sim como um suave e espontâneo transbordamento da sua experiência com Deus, “eu

quero

Não ama a seu semelhante como a si mesmo porque veja nisto uma

obrigação moral, um preceito ético, mas simplesmente porque o mar do seu amor divino lança suas ondas impetuosas sobre todas as praias e ilhas humanas e infra-humanas dos arredores

Esse homem faz o bem por ser bom, nem pode deixar de fazer o bem, porque

o seu ser-bom é a sua íntima natureza, que ele, finalmente, descobriu. A sua

alteridade ética no meio dos homens não é incompatível com a sua identidade

mística com o grande Todo da Divindade, porque ele vê todas as partes nesse Todo. Solitário em Deus, não pode deixar de ser solidário com todas as creaturas de Deus, porque vê o Deus do mundo no mundo de Deus.

A ética meramente horizontal e humana enquadra o homem na sociedade mas a experiência mística vertical torna o homem indizivelmente feliz, e a sua benevolência e beneficência humana não é senão o impetuoso transbordamento dessa sua profunda e anônima felicidade.

Na simples ética humana, o homem apenas dá, e isto é doloroso, porque é sinônimo de perder e empobrecer.

Na mística divina, o homem recebe, e por isto pode dar jubilosamente e sem limites, porque esse dar humano nascido do receber divino é lucro que faz enriquecer.

No

recebimento místico, a alma concebe como esposa do Infinito.

Na

distribuição ética, a alma dá à luz como mãe no meio de muitos finitos.

Na concepção mística, o homem recebe muito das profundezas do tesouro cósmico.

Na distribuição ética, o homem dá um pouco do seu pequeno ego humano.

GUARDA O QUE TENS E PASSA ALÉM!

É esta a grande lei do processo evolutivo!

Conforma-te com os elementos positivos da tradição e depois desconforma-

te e procura conformar-te com os elementos positivos da evolução!

Conformidade e desconformidade!

Satisfação e insatisfação

CREDO DINÂMICO

Não pode haver credo estático, passivo. O meu crer depende do meu poder, e

o meu poder depende do meu ser individual.

Ora, o meu ser está em contínuo crescimento; logo, também o meu poder e meu crer são processos dinâmicos, em contínuo crescimento. Quem crê hoje apenas aquilo que creu ontem, quem aos 50 anos crê apenas o que cria aos 5,

e nada mais, sofre de paralisia infantil ou então virou múmia! Quem hoje crê mais o que cria ontem, goza de vigorosa saúde espiritual e moral.

O TODO É SIMULTÂNEO AS PARTES SÃO SUCESSIVAS

Os estágios sucessivos da nossa consciência são aspectos parciais do grande Todo total e simultâneo.

Um viajante da Arábia, montado num elefante, encontrou-se com quatro cegos. Cada um deles quis saber o que era um elefante.

O primeiro apalpou a tromba do animal, e concluiu que elefante era um tubo

roliço e flexível.

O segundo tocou-lhe nas enormes orelhas, e achou que elefante era uma

espécie de chapa.

O terceiro puxou-lhe o rabinho, e disse que elefante era algo parecido com uma

corda.

O quarto tentou abraçar-lhe a volumosa barriga, e opinou que elefante era uma

espécie de barril.

Por fim, falou o viajante montado no paquiderme e declarou que elefante não era nada disto, embora tudo aquilo fizesse parte do animal. Faltava aos cegos

a intuição do Todo orgânico e vivo.

Também como poderia uma análise sucessiva e parcial compreender o Todo simultâneo e total?

Como poderia um homem armado de ferramentas puramente intelectuais saber

o que é o Espírito divino?

MECANIZAÇÃO DA NOSSA CULTURA

A humanidade democrática do Ocidente está vivendo um dos seus períodos

mais perigosos: procura manufaturar uma cultura padronizada, pré-fabricada,

feita sob medida, cultura niveladora de personalidades, que se possa servir automaticamente em pastilhas, comprimidos e injeções.

Todos são iguais perante a lei” – está certo, na ordem social.