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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ

MANOEL URSINO TENÓRIO DE AZEVEDO JUNIOR

OS CAMINHOS DE FERRO: PATRIMÔNIO HISTÓRICO E TURISMO CULTURAL

NO ENTORNO DA ANTIGA ESTRADA DE FERRO DE ILHÉUS

ILHÉUS – BAHIA

2007

MANOEL URSINO TENÓRIO DE AZEVEDO JUNIOR

OS CAMINHOS DE FERRO: PATRIMÔNIO HISTÓRICO E TURISMO CULTURAL

NO ENTORNO DA ANTIGA ESTRADA DE FERRO DE ILHÉUS

Dissertação apresentada, para obtenção

do título de mestre em Cultura e Turismo,

à Universidade Estadual de Santa Cruz.

Área de concentração: Cultura/ Memória,

Identidade e Representações Culturais.

Orientadora: Profª. Drª. Janete Ruiz de

Macedo.

ILHÉUS – BAHIA

2007

MANOEL URSINO TENÓRIO DE AZEVEDO JUNIOR

OS CAMINHOS DE FERRO: PATRIMÔNIO HISTÓRICO E TURISMO CULTURAL

NO ENTORNO DA ANTIGA ESTRADA DE FERRO DE ILHÉUS

Ilhéus-BA, 30/03/2007.

Janete Ruiz de Macedo – Drª. UESC (Orientadora)

Reinaldo Dias – Dr. Centro Universitário – UNA (Examinador)

Daniel Francisco dos Santos – Dr. UNEB (Examinador)

DEDICATÓRIA

Aos meus pais, minhas filhas e meus amigos que sempre me incentivaram e

acreditaram em minha trajetória acadêmica, dedico.

AGRADECIMENTOS

Todos os funcionários e professores do Mestrado em Cultura e Turismo da UESC,

pela dedicação funcional.

Professora Dra.Janete Ruiz de Macedo, pela orientação e pelas suas brilhantes

intervenções na elaboração desta pesquisa.

Professora Dra. Sandra Sacramento, pela oportunidade de participar de seus

calorosos debates sobre cultura e literatura em sala de aula.

Julianna Torezani, por sua inestimável contribuição na realização deste trabalho.

Amanda Canário, pela paciência de está ao meu lado nos últimos dias da conclusão

da pesquisa.

Funcionária Brenda, por sua cordialidade e educação em atender a todos.

A todos os meus colegas do Mestrado em Cultura e Turismo da UESC.

OS CAMINHOS DE FERRO: PATRIMÔNIO HISTÓRICO E TURISMO CULTURAL

NO ENTORNO DA ANTIGA ESTRADA DE FERRO DE ILHÉUS

RESUMO

A história ferroviária nacional tem sido atualmente usada como suporte para um tipo de turismo denominado de Turismo Cultural Ferroviário, que consiste em utilizar o patrimônio das ferrovias históricas para fins de atividades turísticas. No destino turístico da Costa do Cacau, apesar de possuir um rico acervo histórico-ferroviário, ainda não foi explorado este tipo de atrativo. A sua história ferroviária foi iniciada com a construção da “The State Of Bahia South Western Railway Company Limited”, concessionária britânica fundada em Londres em 1908 e que mais tarde é denominada de Estrada de Ferro de Ilhéus. Esta pesquisa analisa o grande potencial deste conjunto histórico-arquitetônico regional para a construção de um roteiro turístico cultural ferroviário que, além deste atrativo, associe também o entorno natural e paisagístico da bacia do Rio Almada, localizada no Sul da Bahia. O roteiro está inserido nos municípios de Ilhéus, Itabuna, Uruçuca e Itajuípe.

Palavras-chave: Costa do Cacau – Ferrovia - Patrimônio Histórico - Roteiro Turístico.

THE IRON WAYS: HISTORIC PATRIMONY AND CULTURAL TOURISM AROUND

THE OLD RAILROAD OF ILHÉUS

ABSTRACT

National railroad history has been currently used as support for a type of called tourism of Railroad Cultural Tourism that consists of using the patrimony of the historical railroads for ends of tourist activities. In the tourist destination of the Coast of the Cacao, although to possess a rich quantity description-railroader, still this type of attractive was not explored. Its railroad history was started with the construction of “The State Of Bahia South Western Railway Company Limited” established British concessionaire in London in 1908 that later was called Railroad of Ilhéus.This research analyzes the great potential of this joint regional description-architectural for the construction of a tourist script cultural railroader that beyond this attractive one, it also associates natural sourrouding and landscape of the basin of the River Almada, located in the South of the Bahia. The script is inserted in the cities of Ilhéus, Itabuna, Uruçuca and Itajuípe.

Keywords: Coast of Cacao - Description Patrimony –Railway -Tourist Script.

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – Relação entre o crescimento da lavoura cafeeira e expansão de ferrovias

no Brasil

62

Tabela 02 – Movimento de passageiros de 1947-1955 da EFI

79

Tabela 03 – Distância quilométrica entre as estações ferroviárias

80

Tabela 04 – Relação entre a produção de cacau da Bahia e o transporte de

amêndoas de 1913-1929

83

Tabela 05 – Balanço contábil da Estrada de Ferro de Ilhéus de 1948-1957

85

LISTA DE FIGURAS

Figura 01 - Estação Ferroviária de Ilhéus - Bahia

Figura

02

-

movimento

Estação

Ferroviária

de

Itabuna-Bahia

em

dia

de

73

intenso

75

Figura 03 - Vista do antigo Porto de Ilhéus em conexão intermodal com a extinta

Ferrovia para escoamento da produção de cacau do sul da Bahia

76

Figura 04 - Veículo Automotriz estacionado na extinta Estação Ferroviária de Ilhéus

– Bahia

78

Figura 05 - Rodovia Ilhéus - Itabuna financiada pelo I.C.B. - Ponte sobre o Rio

Fundão

84

Figura 06 - Locomotiva a vapor modelo Ten Wheel - Fabricante Baldwin- Ano

1910

90

Figura 07 - Antiga Estação Ferroviária de Aritaguá-Ilhéus-Bahia

91

Figura 08 - Pequena Estação Férrea de Sambaituba-Ilhéus

92

Figura 09 - Pontilho de Urucutuca - Ilhéus – Bahia

93

Figura 10 - Ponte de Campinhos - Ilhéus - Bahia

94

Figura 11 - Estação da Fazenda Almada-Ilhéus-Bahia

95

Figura 12 - Distrito do Rio do Braço-Ilhéus-Bahia

96

Figura

13

-

Casario

do

Distrito

do

Rio

do

Braço-Ilhéus-Bahia

(Casa

da

Jacutinga)

 

96

Figura

14

-

Casa

do

Coronel

Pedro

Levino

Catalão-Rio

do

Braço-Ilhéus-

Bahia

97

Figura 16 - Ponte Ferroviária do Distrito do Banco do Pedro-Ilhéus-Bahia

98

Figura 17 - Estação Ferroviária de Uruçuca-Bahia

 

99

Figura

18

-

Antigo

armazém

no

entorno

da

extinta

Ferrovia

de

Ilhéus-

Bahia

100

Figura 19 - Estação de Sequeiro de Espinho-Itajuípe-Bahia

 

101

Figura 20 - Estação Ferroviária de Itajuípe-Bahia

 

102

Figura

21

- Ponte pênsil

de

pedestre sobre

o Vale do Rio Almada-Itajuípe-

Bahia

102

Figura 22 - Antiga Estação Ferroviária de Mutuns-Itabuna-Bahia

103

LISTA DE SIGLAS

ABOTTC

Associação Brasileira das Operadoras de Trens Turísticos e Culturais

ABPF

Associação Brasileira de Preservação Ferroviária

ANPF

Associação Nacional de Preservação Ferroviária

BAHIATURSA

Empresa de Turismo da Bahia S.A

BNDES

Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social

CMEF

Companhia Mogyana de Estrada de Ferro

CIAM

Congresso Internacional de Arquitetura Moderna

CBTU

Companhia Brasileira de Trens Urbanos

DPHAN

Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

E.F.I

Estrada de Ferro de Ilhéus

FAZCULTURA

Programa Estadual de Incentivo à Cultura

ICOMOS

Internacional Council On Monuments And Sites

ICB

Instituto de Cacau da Bahia

IPAC

Instituto Estadual do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia

IPHAN

Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

MPF

Movimento de Preservação Ferroviária

ONGS

Organizações Não Governamentais

ONU

Organizations of Nations United

RFFSA

Rede Ferroviária Nacional Sociedade Anônima

SPHAN

Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

UNESCO

United Nations Educational, Scientific and Cultural

Organization

SUMÁRIO

Resumo………… …………………… ………

 

vi

Abstract…………………………………………………

vii

1. INTRODUÇÃO

 

001

2. PATRIMÔNIO HISTÓRICO: UMA CONSTRUÇÃO CULTURAL

 

007

2.1.

A

cultura

como

elemento

construtivo:

gênese

da

preservação

patrimonial

 

007

2.2. Patrimônio Cultural: perspectiva conceitual no tempo e no espaço

024

2.3. O Patrimônio Cultural no Brasil: preservação e turismo

 

030

3.

O TREM APITA NAS MATAS: A HISTÓRIA DA FERROVIA DE ILHÉUS

043

3.1.

A conjuntura histórica mundial: o advento da Era do Vapor

 

043

3.2.

O trem atravessa a imensidão dos continentes

 

054

3.3.

O apito do trem rompe o silêncio das matas

063

4.

OS

CAMINHOS

DE

FERRO:

OPÇÃO

DE

ROTEIRO

TURÍSTICO

CULTURAL

 

087

5.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

105

REFERÊNCIAS

 

110

1. INTRODUÇÃO

A transformação no modo de produção da indústria e da agricultura tornou notadamente necessária uma transformação nos meios de comunicações e transporte. Os meios de comunicações e de transporte, legados pelo período manufatureiro, tornaram-se logo sérios embaraços à grande indústria, com sua rapidez vertiginosa de produção em alta escala, sua transferência contínua de capitais e de operários de uma esfera de produção para outras, seus constantes empregos no mercado mundial. Sem falar da transformação completa na construção de navios à vela, o sistema de transporte e de comunicações foi pouco a pouco adaptado ao modo de produção da grande indústria pela introdução de vapores fluviais, trens de ferro, transatlânticos, telégrafos. O Capital, Karl Marx

A Revolução Industrial que se processou na Europa, mais precisamente

na Grã-bretanha, eclodiu quando os meios de produção, até então dispersos

em pequenas manufaturas, foram concentrados em grandes espaços fabris

utilizando a máquina na produção de mercadorias. Operou uma transformação

radical e integral no sistema produtivo e operacional, passando a produzir em

série e em sistema de escala.

O

mercado

interno

dos

países

industrializados

não

era

capaz

de

absorver a magnitude da produção que se processava de maneira ininterrupta

e dava sustentação à própria dinâmica do sistema econômico capitalista.

A Revolução Industrial não seria completa se as invenções de modernas

máquinas apenas ficassem restritas no âmbito da esfera produtiva, necessário

se fazia revolucionar o setor de distribuição e circulação de mercadorias.

Para tanto, numerosos inventos surgiram na tentativa de resolver o

impasse entre a grande e incessante produção e a demanda de mercados

distantes e crescentes que precisavam de aparato logístico para transportes

das mercadorias e matérias-primas.

A grande invenção nascida dentro desta conjuntura histórica foi sem

dúvida a utilização do vapor como força motriz, energia capaz de deslocar à

época em uma velocidade nunca antes conhecida grandes quantidades de

mercadorias e pessoas.

A implantação das ferrovias com trens movidos a vapor viria solucionar a

necessidade produtiva da grande indústria que passaria agora a contar com um

moderno setor de transporte condizente com sua ascendente escala de

produção de bens de consumo.

A conseqüente expansão mundial dos “Caminhos de Ferro” foi fruto do

capitalismo industrial que apoiado na política expansionista do Imperialismo

“exportou” seu modelo hegemônico de dominação global, inserindo em todos

os níveis das relações humanas, ou seja, ideológico, social e econômico, sua

influência avassaladora como arauto da modernidade.

Consolidando-se institucionalmente e associada aos projetos do Estado burguês a partir da segunda metade do século XIX, a ferrovia foi uma das exigências primordiais da Revolução Técnica e Científica, agilizada pelo capital em movimento, sempre associada à concepção de modernidade em gestação (VIANNA POSSAS, 2001,

p.29).

A ferrovia não transportou apenas cargas e pessoas pelo mundo, levou

em seus trilhos a dominação das economias centrais através da submissão

imposta aos habitantes dos países periféricos e dependentes economicamente.

A implantação de ferrovias no Brasil seguiu a mesma lógica descrita

acima e a construção da Estrada de Fero de Ilhéus não foi um fato isolado do

contexto global e sim conseqüência direta do período e da dinâmica histórica

abordada nesta pesquisa. A divisão internacional do trabalho, conseqüência da

Revolução Industrial dividiu o mundo em dois blocos complementares e

interdependentes através do comércio mundial.

A chegada do trem de ferro na Região Cacaueira representou a

consolidação de um novo modelo no transporte, e sua implantação resultou do

interesse do capital transnacional em áreas tropicais fornecedoras de produtos

exóticos com crescente demanda no mercado internacional, como era o caso

do sul da Bahia.

A sua implementação foi um importante elemento na ampliação da

produção de cacau regional. O antigo sistema de transporte em lombo de

muares não atendia mais uma produção que já estava espalhada em um

grande espaço agrícola.

que já estava espalhada em um grande espaço agrícola. A ligação ferroviária entre os dois principais

A ligação ferroviária entre os dois principais pólos produtores de cacau,

ou seja, Itabuna e Ilhéus, significou uma nova fase na cacauicultura do sul da

Bahia, dinamizando o escoamento da produção de cacau rumo ao porto

exportador

de

Ilhéus,

que

em

1926

realizava

sua

primeira

remessa

diretamente para os mercados externos através do navio a vapor sueco

denominado de Falco.

No período de funcionamento da primeira etapa da ferrovia até a sua

total implantação, ou seja, nas três primeiras décadas do século XX, a lavoura

cacaueira vive sua fase áurea atingindo sua quase total expansão pelas matas

virgens do sul da Bahia.

O plantio do cacau segue sua interiorização tendo na ferrovia um agente

dinamizador e vai criando núcleos de povoamento e de fixação de pessoas que

irão mais tarde se transformar em cidades tais como Itajuípe, Uruçuca,

Ubaitaba.

A “The State Of Bahia Western Railway Company Limited”, primeiro

nome da ferrovia de Ilhéus, foi um capítulo importante na construção do modelo

agrário-exportador regional que perdura até hoje, apesar do esgotamento atual

deste modelo para atender aos anseios materiais da maioria da população.

Depois de seu ocaso, conseqüência histórica da nova hegemonia

mundial imposta pelos Estados Unidos da América que tem no transporte

rodoviário um marco na criação de um mercado gigantesco para sua indústria

automobilística, a mesma foi vista e interpretada até como um símbolo de

atraso e de obsolescência pelas elites que tinham no automóvel o novo ícone

do consumo “moderno”. Saímos da esfera da dominação do capital britânico e

entramos na dependência dos interesses econômicos americanos.

Não obstante, apesar de sua importância histórica impar, a extinta

Estrada de Ferro de Ilhéus não mereceu devido estudo e pesquisa pelos meios

acadêmicos locais, estando à margem dos trilhos da História Regional.

Desta sorte, procuramos mostrar nesta pesquisa, além da viabilidade da

utilização do Patrimônio Histórico da Estrada de Ferro de Ilhéus para fins

turísticos culturais, ressaltar sua contribuição e demonstrar que sua construção

foi

a

mais

legítima

conseqüência

da

política

de

expansão

do

capital

internacional em direção aos países periféricos, circunstância histórica global

que marcou profundamente o século XIX e primórdios do século XX.

Profissionais da História e do Turismo, portanto, lidam com a interpretação de culturas e as transformam em um produto de diversa categoria: um texto interpretativo para os primeiros e um plano de exploração turística para os segundos. Ambos podem se transformar em produtos comerciais, embora a natureza dos comércios seja distinta. Pode haver, entretanto, utilizações

partilhadas entre os dois profissionais. A produção de um serve a outro ou a interpretação pode ser feita de forma interdisciplinar. (MENESES, 2004, p.42)

O

Patrimônio

Ferroviário

Regional

foi

pesquisado

essencialmente

através da metodologia da abordagem histórica, tendo como vetor analítico o

instrumental marxista no exame das forças produtivas da economia capitalista

industrial àquela conjuntura mundial.

O conceito de modo de produção e relações sociais de produção é

básico neste tipo de análise, servindo como norteadores à pesquisa que tem

cunho

histórico

materialista

dialético.

Não

obstantemente,

se

faz

mister

ressaltar que a utilização destes instrumentais analíticos não denota em

momento algum consórcio entre a utilização de tais conceitos e um parâmetro

ideológico que ampare o comportamento político-partidário do pesquisador.

O célebre livro “O Capital” de autoria de Karl Marx, é marco incorruptível

e indelével

na

abordagem

da

formação

histórica

do

sistema

capitalista

internacional, sendo, portanto, a “estrela polar” na nossa “navegação” pelas

vagas

incessantes

da

História,

denominado

de

subestrutura

e

analisada,

assim,

pelo

pelas

esferas

adjacentes

âmbito

que

material,

formam

a

superestrutura ideológica, política e institucional.

No entanto, nossa óptica analítica não está fundamentada em uma

interpretação cega da História, puramente embasada pela vereda do Marxismo

Ortodoxo que a tudo atribui como resultado único e exclusivo a influência

independente da variável econômica, portanto, não desprezamos a influência

de outras dinâmicas existentes.

Interpretar a teoria materialista da história, à maneira de alguns críticos de Marx, como tendo afirmado que a introdução da máquina a vapor delineou toda a essência da civilização capitalista, é reduzir aquela teoria a injustificado absurdo. Incluir quase tudo no universo social, sob a força produtiva, como alguns adeptos de Marx fizeram, tentando salvar a teoria, é torná-la uma verdade evidente. Marx tencionava muito mais do que afirmar que a tecnologia determina a história, e muito menos do que dizer que tudo no universo social determina todas as coisas (BALYNKY, 1973, p.44).

No tocante à concepção de Patrimônio Histórico, no primeiro capítulo da

dissertação foi abordada com ênfase a evolução histórica deste conceito desde

sua gênese, nos primórdios do Renascimento Artístico e Cultural, até os dias

de hoje. Mostrando ao longo do texto que toda construção desta óptica é fruto

direto do alicerce cultural que embasa as diretrizes do pensamento ocidental ou

ocidentalizado.

Para

tanto

foi

utilizado

com

bastante

escala

a

Obra

de

Françoise Choay, mais precisamente o livro “Alegoria do Patrimônio”, além de

inúmeras obras de outros autores em uma apurada revisão bibliográfica sobre

o assunto.

No segundo capítulo foi realizada a pesquisa histórica da Estrada de

Ferro

de

Ilhéus,

sendo

estruturada

em

dados

primários

encontrados,

principalmente, nos arquivos da Rede Ferroviária Nacional S/A existente no

bairro do Engenho de Dentro na cidade do Rio de Janeiro, e em dados

secundários parcamente existentes, pois são raras obras acadêmicas que

tratem do respectivo assunto.

Por fim, no terceiro capítulo é apresentado um Roteiro Turístico Cultural

estruturado no antigo trajeto da Estrada de Ferro de Ilhéus, percorrendo a

margem esquerda da bacia hidrográfica do Rio Almada, sendo uma vereda de

belezas naturais da mata atlântica, além de contar com o Patrimônio Histórico

Ferroviário em sua plasticidade sólida que guarda em seu bojo parte da

História Regional.

A fim de levantamento do acervo patrimonial histórico da extinta ferrovia

foi realizada uma catalogação fotográfica onde está captado o patrimônio

móvel, imóvel e agregado, representados os mesmos por Pontes Metálicas,

Trilhos, Estações Ferroviárias, Paradas de Estribos, Locomotiva e Vagão

Ferroviário.

Na estruturação teórica da construção do roteiro é trabalhado o conceito

de Turismo Cultural Ferroviário e utilizado metodologia descritiva do Patrimônio

Histórico,

além

de

ser

apresentado

as

condições

atuais

e

os

suportes

institucionais existentes para implantação de produto turístico com tais fins.

2. PATRIMÔNIO HISTÓRICO: UMA CONSTRUÇÃO CULTURAL

2.1.

A

cultura

patrimonial

como

elemento

construtivo:

gênese

da

preservação

A cultura é um conjunto de símbolos construídos e utilizados por todos

os

grupos

sociais

e

se

apresenta

historicamente

em

uma

determinada

dimensão espaço-temporal. É essencialmente humano o ato de construir e

manter acesa a chama social através do dinamismo das relações culturais.

Na trajetória do ser humano sobre a face da terra a cultura é o “cimento”

que edifica e mantém coesa toda construção social, seja ela material ou

imaterial. Foi através dessa “argamassa simbólica” que o mesmo conseguiu

sua sobrevivência em um meio natural hostil e desafiante.

Diferentemente de outros animais que têm como arma principal de sua

conservação biológica o instinto geneticamente herdado e aperfeiçoado através

de gerações, o homem se arma do somatório das experiências sociais para

perpetuar sua espécie.

É também pela transmissão do legado cultural de gerações anteriores

que

o

homem

elimina

o

retrocesso

temporal

do

“descobrir

novamente”,

alcançando com isso estágios cada vez mais elaborados na sua tarefa

cotidiana do viver. “Cultura é para nós, tudo o que se constrói na vivencia

coletiva, fruto de difusões de culturas distintas e de criações e saídas novas

para problemas cotidianos” (MENESES, 2004, p.43).

O mundo cultural é um sistema de signos e significados já estabelecidos

por

outros

anteriormente.

No

entanto,

a

cultura

não

é

estática

e

hermeticamente fechada às mudanças, sofre transformações no decorrer de

sua existência, assim sendo, “Material ou imaterial, as construções culturais

são parte de um iníssono de experiências históricas, vivificadas de forma

integrada, portanto, dinâmicas no tempo” (MENESES, 2004, p.24).

Tais

transformações

são

incorporadas

às

práticas

culturais

anteriormente existentes e transmitidas às gerações posteriores, utilizando uma

das principais características da cultura que é o legado absorvido através da

herança transmitida e assimilada; isto se torna plausível nos grupos humanos

graças à utilização de um suporte instrumental imprescindível à construção

cultural: a linguagem.

A

linguagem é, por conseguinte, a sustentação emblemática do “edifício

cultural”

humano,

pois

na

produção

dos

processos

simbólicos

ela

está

intimamente ligada à representação imaginada do mundo real que nos cerca.

Se há um único aspecto da função mental humana que se liga de

forma mais íntima aos processos simbólicos do que outras, esse é certamente o nosso uso da linguagem. A linguagem é de fato a função mental simbólica suprema, e é virtualmente impossível

Portanto, se estamos

conceber o pensamento na sua ausência (

procurando por um único fato de liberação cultural que abriu caminho para a cognição simbólica, a invenção da linguagem é a candidata mais óbvia (TATERSALL, 2006, p.69).

)

Este mundo real é representado por símbolos mentais correspondentes,

que produzidos por processos simbólicos realizam o papel de substituidores

dos elementos encontrados em nossas experiências empíricas, na empreitada

da existência humana sobre o nosso planeta.

Quando falamos de “processos simbólicos” no cérebro ou na mente, estamos nos referido à nossa habilidade de abstrair elementos da

nossa experiência e representá-los com símbolos mentais individuais

) (

capazes de recriar constantemente na mente o mundo e aspectos individuais dele. E o que torna isso possível é a habilidade de formar e manipular símbolos mentais correspondentes aos elementos que percebemos dentro e fora de nós mesmos (TATERSALL, 2006,

p.72).

Ao separar os elementos dessa forma, os seres humanos são

É a capacidade de simbolizar sua vida sobre a face da terra que torna o

homem um ser único e peculiar dentre os outros que compõem o reino animal,

pois o mesmo é criador de uma forma de realização só encontrada no “mundo

cultural”.

Outra

ferramenta

simbólica

que

concedeu

ao

homem

a

plena

competência de outorgar seu legado cultural de forma mais precisa e dinâmica

no tempo e no espaço foi a escrita, sua criação fez com que os pensamentos

abstratos

pudessem

ser

preservados,

codificados,

decodificados

e

compreendidos,

sendo

transmitidos

às

gerações

posteriores.

Antes,

o

conhecimento, a tradição, as experiências, ou seja, os saberes e fazeres

culturais eram transmitidos oralmente.

Essa

ação

simbolizada

no

plano

abstrato

do

pensamento

e

das

representações mentais que é a cultura está materializada em todos os grupos

humanos, sem exceção alguma, havendo uma pluralidade de construções

culturais que compõem a diversidade de várias sociedades.

Esta pluralidade em nada remete à superioridade de uma cultura sobre a

outra, havendo diferentes realizações sociais em espaços e tempos históricos

distintos, que não se traduzem em vantagem alguma entre as mesmas.

Não há superioridade ou inferioridade de culturas ou traços culturais de modo absoluto, não há nenhuma lei natural que diga que as características de uma cultura a façam superior a outras. Existe, no entanto processos históricos que as relacionam e estabelecem marcas verdadeiras e concretas entre elas (SANTOS, 1996, p.16).

Desse modo, segundo Singer (apud RUSCHMANN, 1997, p.50) a

cultura

é

definida

como:

“Os

padrões

explícitos

ou

implícitos

do

comportamento, adquiridos ou transmitidos por símbolos que constituem o

patrimônio de grupos, inclusive sua materialização em artefatos”.

No entanto, sendo um mundo construído pela semiótica da constituição

simbólica do fazer humano, a cultura, além dos aspectos acima descritos, é

essencialmente

um

conceito

calcado

na

análise

dos

fenômenos

sócio-

históricos através da atitude interpretativa de seus signos e significados.

Acreditado, como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma ciência

experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado. (GEERTZ, 1989, p.15)

As manifestações culturais se apresentam sob duas dimensões, as que

se referem à cultura material, como os artefatos, monumentos históricos,

construções arquitetônicas, pinturas, esculturas, e as que se referem à cultura

imaterial, como as festas, os cultos religiosos e as crenças e tradições.

Uma forma de cristalização da manifestação cultural é a memória, nela

está presente intrinsecamente a preocupação em preservar acontecimentos

sociais e, também, construções materiais carregadas de símbolos e tradições.

Dessa maneira, a memória se afirma no resgate das realizações culturais

concretas e abstratas e de acordo com Marly Rodrigues “Reflete, também, a

valorização que a sociedade dá ao passado”. (In FUNARI; PINSK, 2003,

p.180).

Uma das realizações humanas que está fortemente marcada pelo

espaço de memória e pela dinâmica cultural é o monumento histórico. Ele é um

depositário de acontecimentos revelados e interpretados posteriormente como

relevantes devidos à sua importância impar no processo sócio-histórico, sendo,

por isso, merecedor de proteção e preservação.

O monumento histórico não é desde o princípio, desejado e criado como tal; ele é constituído a posteriori pelos olhares convergentes do historiador e do amante da arte, que o seleciona na massa dos edifícios existentes, dentre os quais os monumentos representam apenas uma pequena parte. Todo objeto do passado pode ser convertido em testemunho histórico sem que para isso tenha tido na origem, uma destinação memorial (CHOAY, 2001, p.25).

Não

obstantemente,

histórico

não

cabe

mais

na

contemporaneidade

o

semanticamente

como

fator

termo

monumento

de

motivação

da

preservação e proteção dos bens tidos como merecedores de políticas públicas

para tais fins. A noção de Patrimônio Histórico e Artístico é bem mais ampla e

condizente

com

as

mudanças

Segunda Grande Guerra.

materiais

e

mentais

ocorridas

depois

da

Portanto, não poderíamos adentrar na estrutura da construção cultural

germinada no continente europeu e que culminou com a noção de Patrimônio

Histórico e Artístico, sem, a priori, fazermos um pequeno comentário sobre a

evolução histórica da realização humana de conservar e/ou proteger suas

construções

materiais

ou

imateriais

que

foram

herdadas

de

gerações

anteriores.

Destarte, antes que fosse ocidentalmente erigida a idéia de Patrimônio

Histórico e Artístico, a preocupação da preservação esteve ligada intimamente

ao conceito de Monumento Histórico e Artístico, que, por sua vez, surgiu e se

concretizou sobre o alicerce cultural da peculiar característica humana de

construir símbolos que são perpetuados às gerações futuras.

Foi preciso, portanto, que a noção de monumento-no seu sentido moderno - fosse formulada, enquanto monumento histórico e artístico, para que a noção de patrimônio se convertesse em categoria socialmente definida, regulamentada e delimitada, e adquirisse o sentido de herança coletiva especificamente cultural (FONSECA, 2005, p.55).

A

fim

de

esclarecimentos

se

faz

mister

diferenciar

Monumento

e

Monumento Histórico e Artístico. Parece dúbio à primeira vista que façamos

uma

distinção

entre

os

dois

conceitos,

no

entanto,

os

mesmos

são

semelhantes

apenas

no

aspecto

plástico-construtivo,

pois

ambos

estão

emoldurados

e

representados

concretamente

em

materiais

erguidos

solidamente em um determinado tempo e espaço. “As duas noções, que hoje

muitas vezes se confundem, são, porém, em muitos aspectos oponíveis, senão

antimônicas” (CHOAY, 2001, p. 250).

Enquanto o Monumento tem por finalidade representar, mesmo que às

vezes inconscientemente, uma produção social vivida plenamente no presente,

não

dizendo

que

tal

presente

não

esteja

ligado

à

memória

existente

socialmente no espaço, também histórico, o Monumento Histórico e Artístico

adquire significado a posteriori à sua construção.

O monumento é inseparável do meio onde se encontra situado e, bem assim, da história da qual é testemunho. Procura-se, então, relacionar o bem cultural (o monumento, que, inclusive, pode ser uma obra modesta) com o seu meio ambiente, com sua área envoltória, com seu contexto sócio-econômico, recusando-se a encará-lo como trabalho isolado no espaço. (LEMOS, 1981, p.77)

Dessa forma, um é feito conscientemente e dirigido para tal fim, podendo

ser religioso, militar ou artístico, enquanto o outro é tipologicamente definido

segundo critérios interpretativos, ideológicos, históricos e políticos aplicados

posteriormente.

Os Monumentos fazem parte da trajetória humana sobre a face da terra.

As colossais pirâmides egípcias e suas similares maias na América Central, os

formidáveis Templos do Sol incas, a Estela de Tihuanaco no altiplano boliviano

e outros exemplos mais, atestam tal explanação. É fator existente em todas as

civilizações e não destoam verdadeiramente em sentido e intuito construtivos.

Chamar-se-á monumento tudo o que for edificado por uma comunidade de indivíduos para rememorar ou fazer que outras gerações de pessoas rememorem acontecimentos, sacrifícios, ritos e crenças. A especificidade do monumento deve-se precisamente ao seu modo de atuação sobre a memória. Não apenas ele trabalha e a mobiliza pela mediação da afetividade, de forma que lembre o passado fazendo-o vibrar como se fosse presente. Mas esse passado invocado, convocado, de certa forma encantado, não é um passado qualquer; ele é localizado e selecionado para fins vitais, na

medida em que pode, de forma direta, contribuir para manter e preservar a identidade de uma comunidade étnica ou religiosa, nacional, tribal ou familiar. (CHOAY, 2001, p.18)

Pois bem. Após as considerações acima expostas passaremos a

realizar um pequeno e breve comentário sobre a origem da preocupação

deliberadamente histórico-cultural da preservação patrimonial.

Para tanto, precisamos nos remeter ao recurso da análise histórica para

melhor

compreensão

do

tempo

e

do

espaço

social

que

forjaram

tais

mecanismos defensivos dos bens eleitos como merecedores da atenção por

uma parcela da sociedade ocidental.

Em história, ao se tentar ordenar o processo histórico como um todo, surge sempre uma tarefa primordial: periodizar, isto é, organizar a sucessão de diferentes períodos cronológicos (BORGES, 1981,

p.63).

No bojo do processo histórico veremos que são com transformações e

rupturas ocorridas no final da Idade Média que começam a ser modificadas as

bases materiais e ideológicas que culminam com uma profunda inversão

gnosiológica, que, por conseguinte, alcança e altera todos os segmentos sócio-

humanos no mundo ocidental.

A concepção teológica, marcada pela ótica do conhecimento advindo da

revelação divina, é substituída pelo antropocentrismo que muda o foco do

exame ontológico, antes, embasado na metafísica escolástica dos filósofos e

teólogos do cristianismo, agora, enraizado em valores humanistas oriundos do

legado da Antiguidade Clássica e que vê no racionalismo o verdadeiro caminho

do conhecimento humano.

As transformações associadas à modernidade libertaram o indivíduo de seus apoios estáveis nas tradições e nas estruturas. Antes se acreditava que essas eram divinamente estabelecidas; não estavam sujeitas, portanto, a mudanças fundamentais. O status, a classificação e a posição de uma pessoa na “grande cadeia do ser” - a ordem secular e divina das coisas - predominavam sobre qualquer sentimento de que a pessoa fosse um indivíduo soberano. O nascimento do “individuo soberano”, entre o Humanismo Renascentista do século XVI e o iluminismo do século XVIII, representou uma ruptura importante com o passado. Alguns argumentam que ele foi o motor que colocou todo o sistema social da “modernidade” em movimento (HALL, 2005, p.25).

Assim sendo, não há como adentrar diretamente no assunto sem antes

explanar

as

modificações

que

ocorreram

no

continente

europeu

para

a

construção de uma mentalidade ligada a valores leigos e não mais aos ditames

da religiosidade cristã.

A Europa na época feudal estava praticamente organizada em núcleos

econômicos autônomos e herméticos. O comércio se encontrava estagnado e

vivendo um período de grande recesso no tocante ao volume de transações,

tanto as transações por escambo como por via monetária foram reduzidas, e,

por conseguinte, todo o quadro estrutural das forças produtivas da sociedade

feudal era quase constante e pouco ou nada acontecia para alterar tal letargia

material.

A

partir do século XI o comércio começa a ganhar um novo dinamismo

e, junto com outros fatores, como a melhoria do clima e pequenas inovações

técnicas

agrícolas,

recebe

uma

ajuda

sem

precedentes

para

o

seu

renascimento com o surgimento do movimento das cruzadas.

Tais movimentos religiosos e sociais realizaram uma transformação

total do panorama material da sociedade feudal. O intercâmbio comercial

realizado entre o oriente e o ocidente, principalmente pelo mar Mediterrâneo,

fomentou o uso de novos produtos até então desconhecidos por ambas às

regiões, criando novos mercados que incrementaram e ampliaram as áreas

produtivas européias, que necessitam agora de produzir mais excedentes para

realizarem as trocas por especiarias orientais com demanda ascendente no

continente europeu.

O

surto

do

crescimento

comercial

acarretou

em

sua

estrutura

econômica a necessidade maior da utilização de um instrumento financeiro

que realiza o papel de mediador entre as trocas comerciais, isto é, o dinheiro.

Tal instrumento é a “mercadoria” por excelência que cristaliza o poder

primordial de realizar sem problemas as transações de troca e está presente

nas sociedades que produzem excedentes em grandes quantidades.

O respectivo renascimento do comércio foi acompanhado pelo aumento

da base monetária que se ampliou e com sua importância crescente criou uma

nova medida de valor na mentalidade feudal, antes centrada na posse da

terra, agora mais traduzida pela posse da moeda. É a nova importância da

riqueza mobiliária em detrimento à riqueza imobiliária que não mais consegue

acompanhar o ritmo e a dinâmica dos acontecimentos, cristalizando tal

pensamento podemos lembrar que:

O crescimento dos negócios, por meios da expansão dos mercados, levou a novas formas de vida econômica. Circulação monetária, aparecimento de bancos regulares, de novas operações financeiras, bem como as técnicas de escrituração mercantil, enfatizaram a importância dos bens móveis, afetando a terra, o símbolo do poder da aristocracia feudal (CANEDO, 1994, p. 24).

Um outro fato que estava totalmente atrelado ao renascimento do

comércio na Europa é o ressurgimento das cidades e vilas, que se localizavam

quase sempre nos locais de feiras ou em entroncamentos de rotas comerciais.

A nascente vida urbana era diferente, em meios e modos, da vida rural.

Os meios para sobrevivência estavam ligados, ou totalmente ou em

parte, à atividade comercial.

O modo de vida passa a ser mais refinado e

embasado em valores pessoais e já sem o aspecto da dependência grupal

extrema da sociedade feudal.

Aos arredores das fortificações cercadas de muralhas denominadas

burgos, surgem as principais cidades européias que têm quase sempre como

moradores mercadores que recebem a denominação de burgueses, que seria

mais tarde a nomenclatura para designar importante classe social.

A

importância

do

feudo,

enquanto

centro

mantenedor

da

estrutura

material da sociedade perde espaço e, respectivamente, a nobreza feudal

também começa a perder a direção política e econômica da sociedade.

Surgindo com a nova tônica do comércio uma classe emergente que detém a

forma de riqueza mobiliária, que é mais dinâmica e que traduz melhor o

momento de mudanças e transformações que sofre todo o conjunto do mundo

europeu.

Atrelada a estas transformações estruturais surge concomitantemente

mudanças

no

campo

das

elaborações

do

saber

humano,

sendo

o

Renascimento Cultural um paralelo na área das elaborações abstratas do que

ocorreu na base material da sociedade européia.

O arcabouço dos valores ideológicos medievais não mais servia a uma

sociedade que em parte está entranhada de modificações na sua força

estrutural produtiva. Dessa sorte, para suprir tal demanda axiológica, já em

meados do século XIV, os valores culturais são traduzidos por uma mudança

estética que vai saciar sua sede na cristalina fonte da Antiguidade Clássica e

elaborar um neo-humanismo europeu.

A Itália vai ser o berço do Renascimento Artístico que se alia a um

Humanismo que valoriza os padrões de apreciação do belo e do que é

verdadeiramente

representativo

da

natureza

enquanto

desprovida

de

interpretações teológicas.

 

No

rastro

desse

Humanismo

o

experimentalismo,

baseado

na

observação e na quantificação, dá os primeiros passos para a construção de

uma moderna ciência que viria a se edificar sobre os alicerces dessa nova ótica

da concepção racional do universo circundante.

É saliente ressaltar que a reestruturação econômica advinda dos fatores

expostos acima é condição essencial para todas essas inovações, pois não é

simplesmente

coincidência

que

as

cidades

da

península

itálica,

onde

o

comercio mais se desenvolveu como Genova, Florença e Veneza sejam focos

de geração deste movimento e irradiem seus valores e ações para todo o resto

do continente posteriormente.

Não foi por acaso que o Renascimento teve inicio na península itálica, centro do ativo comércio mediterrâneo e onde o pré- capitalismo teve grande desenvolvimento. Uma economia dinâmica e rica, geradora de excedentes que pudessem ser investidos na produção cultural, era condição essencial para esse notável movimento. Nessa empreitada, a burguesia passou a financiar artistas e pensadores que expressavam valores semelhantes aos seus, como o racionalismo e a crença nas potencialidades humanas para dominar a natureza (ARRUDA; PILETTI, 1999, p.162).

É importante argumentar que o Renascimento Cultural não é obra

apenas de um pequeno grupo de artistas que modificaram as concepções

estéticas européias. Pois é um movimento adotado por boa parte da sociedade,

principalmente das camadas urbanas, mudando, também, destarte o modo de

vida cotidiano do homem, anteriormente, enclausurado nos escuros cômodos

dos úmidos castelos, posteriormente, passando a se reunir em espaços

públicos ensolarados

a fim de discutirem a própria sociedade burguesa

emergente dos escombros feudais.

É na esteira dessa nova visão, embasada no racionalismo humanista

grego-romano, que surgem as primeiras ações verdadeiramente culturais da

preservação dos edifícios e obras da Antiguidade, sendo realizada a gênese do

conceito de monumento histórico.

Assim sendo, nesta visão, a preservação não está voltada para a

utilização ou reutilização pragmática do espaço, como o ocorrido na Idade

Média, onde algumas construções foram apropriadas pelo clérigo para fins

religiosos

cristãs.

Está,

sim,

imbuída

de

uma

perspectiva

histórica

de

interpretação de um passado que é valorizado e traduzido na plasticidade

concreta dos materiais que edificam e moldam os componentes utilizados nas

construções.

Nesta

conjuntura

histórica

eclode

um

movimento

de

intelectuais

conhecido como “Quattrocento”, chamado assim por ocorrer no século XIV. Tal

corrente do pensamento italiano é fortemente alicerçado pela conhecida escola

florentina, que recebe vultosas somas pecuniárias oriunda do mecenato dos

Médicis, importante família burguesa que financia artistas importantes da

época.

Este clima de efervescência cultural e artística tem como palco de suas

ações a cidade de Roma, que expõe o cenário, a céu aberto, do legado de

suas majestosas e portentosas construções. Estando a mesma emoldurada por

fantásticas obras de artes, como pinturas ou esculturas esculpidas em pórticos

magníficos que se espalham por alamedas que exalam o “saudoso perfume” do

passado clássico da outrora capital do mundo ocidental e “senhora – mor” do

Mar Mediterrâneo.

Pode-se situar o nascimento do monumento histórico em Roma, por volta do ano 1420. Após o exílio de Avignon (1305-1377) e, logo depois do Grande Cisma (1379-1417), Martinho V restabelece a sede do papado na Cidade devastada, cujo poder e prestígio ele pretende recuperar. Um novo clima intelectual se desenvolve em torno das ruínas antigas, que doravante, falam da história e confirmam o passado fabuloso de Roma, cujos esplendores Poggio Bracciolini e seus amigos pranteiam, condenando-lhes a pilhagem. (CHOAY, 2001, p.31)

Não que antes, em fins da Antiguidade Clássica e na Idade Média, não

tenha existido alguma reação ao vandalismo relativo ao monumento histórico,

não obstante, era diferente em essência, sendo uma decisão no campo do

concreto, já que não estava carregada da dimensão simbólica do passado; não

existindo o lapso temporal da interpretação histórica que dá um sentido

essencialmente cultural à preservação deste patrimônio edificado por gerações

anteriores.

Paralelo à preocupação da preservação concreta dos edifícios antigos,

existe, no movimento denominado de “Quattrocento”, uma simbiose entre o

preservar plástico e o simbólico, adquirindo, as duas dimensões humanas,

espaços comuns e indissociáveis que se traduzem, como uma interseção

matemática, em uma só ação: a preservação deliberada e impregnada do seu

sentido histórico-cultural.

Entretanto,

veremos

adiante

que,

apesar

dessa

nova

concepção

histórica do monumento, no movimento “Quattrocento” vai haver, também, uma

vontade

imperiosa

de

reviver

este

passado,

sendo,

portanto,

tal

ação

preservacionista, carregada de um “saudosismo romântico” (CHOAY, 2001).

Após

a

ação

inovadora

da

preocupação

preservacionista

dos

Humanistas, surge uma nova corrente erudita, fortemente influenciada pelo

caráter epistêmico do Iluminismo, que delega à plástica dos monumentos

antigos o seu sentido iconoclasta, valorizando, pela primeira vez na nascente

História da Arte, a essência e o significado superlativo da imagem sobre a

narrativa escrita ou oral da História.

Esta corrente é chamada de “Época dos Antiquários” e é responsável

pela realização, entre o século XVI e primórdios do século XIX, pelo gigantesco

inventário imagético das antiguidades (CHOAY, 2001).

Nessa enorme tarefa de catalogar e inventariar tais bens patrimoniais

contribui para o surgimento dos “modernos museus” que começam a se

espalhar pela Europa inteira, onde diferem dos antigos museus que tinham um

sentido único de coleção de pinturas, esculturas e outras formas do saber

material humano.

No

“museu

moderno”,

o

intuito

primordial

é

o

de

preservar

para

posteridade tais “bens culturais”, estando imbuído da democratização do saber

vangloriado pelo Iluminismo que tem como um dos expoentes máximos o

pensador Voltaire que acredita em uma “história da civilização”.

No século XVIII, numa sociedade em plena transformação, com a desestruturação final do sistema feudal e o avanço da ordem burguesa, surge o Iluminismo, corrente filosófica que procura mostrar a história como sendo o desenvolvimento linear progressivo e ininterrupto da razão humana (BORGES, 1981, p.28).

Pela primeira vez, também, surge a valorização e a catalogação de

Monumentos ditos históricos que não estavam localizados na península itálica

e

nem

faziam

parte

do

legado

grego-romano.

É

o

nascimento

de

um

sentimento cultural que engloba a questão da geopolítica emergente das

fronteiras nacionais européias, surgindo a concepção de antiguidade nacional.

Os países onde se valorizam mais estes Monumentos Históricos e

Artísticos Nacionais são a França e a Inglaterra. Na França, é realizada uma

releitura do legado gótico construído pela religiosidade cristã entre os séculos

VI

ao

XV.

na

Inglaterra é organizada a

criação de associações

de

antiquários que constituem verdadeiras ligas nacionais de proteção e estudo

dos Monumentos Nacionais, como a Sociedade de Antiquários de Londres.

Influenciados

por

prematuramente,

também

tais

ações

neste

país,

protecionistas

eruditas

aparecem,

medidas

oficiais

de

proteção

das

“antiguidades nacionais”, como, por exemplo, uma proclamação da rainha

Elisabeth I, em 1560, contra o vandalismo movido pelo afã da Reforma

Protestante que encontra no solo britânico um campo fértil para suas idéias

revolucionárias que abalaram as posições dogmáticas da Igreja Católica

Apostólica Romana.

Depois desta expansão européia, os responsáveis pelo inventário e

catalogação

começam

a

das

antiguidades,

tanto

inventariar

antiguidades

grego-romanas

e

monumentos

quanto

nacionais,

classificados

como

histórico, localizados em outros continentes. É o esboço de uma nascente

expansão “globalizada” da preservação patrimonial estruturada na perspectiva

histórica do passado da humanidade.

Apesar

de

todas

as

ações

realizadas

por

grupos

de

eruditos

e

intelectuais em diferentes épocas no continente europeu, é na Revolução

Francesa que paradoxalmente são instituídos juridicamente a proteção e

conservação do monumento histórico.

Paradoxal

porque

este

movimento

é

amplamente

conhecido

como

violento e radical em seu rastro total de destruição dos modelos materiais e

imateriais que tivessem um significado ligado à velha ordem feudal.

No entanto, neste rastilho de pólvora que a tudo parece querer devorar

pela chama, às vezes, insensata e incensada, da paixão revolucionária é que

são implantadas pelos Comitês Revolucionários, medidas que visam inventariar

e proteger os bens patrimoniais históricos da confusa França assolada por

tempestuosas convulsões sociais.

Em parte porque acontece uma ruptura jurídico-institucional no tocante

ao domínio da propriedade do clero e da coroa que é transferido ao nascente e

revolucionário estado burguês. Sendo esta deliberação um das primordiais da

Assembléia Constituinte realizada no dia 02 de outubro de 1789.

Assim sendo, medidas oficiais são urgentes e necessárias face ao caos

que transforma este país em um local impreciso e perigoso no que se refere às

estruturas ideológicas que a tudo domina e comanda. A fim de fazer frente à

destruição material do passado francês são criadas comissões chamadas “dos

Monumentos”

que

inventaria

e

tomba

as

distintas

categorias

de

bens

integradas

ao

patrimônio

jurídico

da

emergente

nação

francesa,

uma

verdadeira política de conservação do patrimônio monumental é dirigida a partir

da capital Paris, que é ensejada pelo Ministério do Interior.

Neste

contexto

da

Revolução

Francesa,

acontece,

ainda,

uma

importante mudança conceitual da designação da nomenclatura “Monumento

Histórico”. Há uma transformação, mesmo que pareça sutil, da estrutura

semântica das duas palavras, que anteriormente, era empregada para designar

as variadas antiguidades e, agora, carrega em si não só a lembrança e a

importância

histórica,

como,

também,

as

ações

práticas

e

jurídicas

que

amparam a conservação e proteção que passa a ter como gestor a jurisdição

estatal. Este caráter até hoje norteia as ações preservacionistas no mundo

ocidental ou ocidentalizado no que tange a políticas públicas em defesa do

Patrimônio Histórico e Cultural.

Após as mudanças ocorridas em solo francês que em muito influenciou o

pensamento contemporâneo em todos os aspectos e em todos os segmentos,

um novo fato histórico, também na Europa, só que em solo britânico, mudaria

para sempre o mundo como um todo: a Revolução Industrial.

As mudanças avassaladoras que se espalham rapidamente por toda a

Europa e que modifica assustadoramente o desenho urbano das cidades

localizadas neste continente, realizam destruições rápidas dos Monumentos

Históricos e Artísticos em nome do progresso material e da nova ordem

econômica inserida pela Revolução Industrial. A economia de escala baseada

na grande indústria que agora tem força motriz inovadora e autônoma para

mover as modernas e fantásticas máquinas é uma inovação material sem

precedentes na história do homem.

É

nessa

nova

dinâmica

histórica

que

surge

uma

preocupação

preservacionista

que

está

impregnada

de

uma

nova

atitude

marcada

inexoravelmente pelo sentimento de perda inerente, provocado pela destruição

do patrimônio edificado em nome do “progresso”. A interpretação do passado

ganha neste contexto histórico um significado mais amplo e profundo, pois este

“passado materializado” nos Monumentos Históricos e Artísticos urge de

proteção e conservação.

Em 1837 a França cria a Comissão dos Monumentos Históricos que

implementa uma ação de tombamento de vários edifícios. E no ano de 1887 é

promulgada

a

primeira

Lei

sobre

os

monumentos

históricos

franceses,

adquirindo a proteção um caráter, além de cultural, jurídico-institucional.

Essa

noção

de

proteção

dos

instituída

pela

associação

entre

o

Monumentos

Históricos

e

aspecto

jurídico-legislativo

Artísticos,

e

pelo

conhecimento erudito das elites intelectuais, vai direcionar todas as principais

ações de proteção até a década de sessenta do século vinte.

É quando o conceito de Monumento Histórico e Artístico não serve mais

a interpretação conjuntural da sociedade do pós-guerra no tocante às ações

humanas realizadas no passado e materializadas em construção arquitetônica.

Nesta conjuntura, como veremos a seguir, a noção e o respectivo

conceito de Patrimônio Histórico e Artístico é que vão direcionar as ações e

políticas publicas e privadas, no que tange à proteção deste legado construído

em dimensão espaço-temporal peculiar de cada etapa histórica do homem.

2.2. Patrimônio Cultural: perspectiva conceitual no tempo e no espaço

A construção do conceito de Patrimônio Histórico e Artístico seguiu uma

perspectiva construtiva alicerçada em um determinado tempo e espaço social.

Não

foi

uma

definição

conceitual

“insular”

que

estivesse

separado

do

“continente social” que fomentou o processo histórico. Também não foi um fruto

híbrido

saído

da

mente

de

um

teórico

inovador

que

com

lampejos

vanguardistas esteve à frente de seu tempo.

Todo o fomento para que fosse constituída a noção ocidental de

Patrimônio Histórico e Artístico foi oriundo da dinâmica histórica que envolveu o

continente

europeu

no

século

XVIII,

preservacionistas precedentes.

metamorfoseando

os

ditames

Como vimos anteriormente, no Renascimento Cultural é aplicado pela

primeira vez um distanciamento temporal em relação à plasticidade das obras

arquitetônicas. Entretanto, tal distanciamento não estava carregado de um

sentimento de “pertencimento” que envolvesse o anseio de que tais obras

fosse um patrimônio, no sentido jurídico e cultural, e deveria reportar-se à

sociedade herdeira deste legado sócio-histórico; antes, a noção artística e

histórica prevaleceu em contrapartida à questão de herança singular de

determinada nação ou sociedade.

A releitura e a ressemantização do Monumento Histórico e Artístico em

Patrimônio pertencente a uma determinada sociedade é essencialmente obra

do nascente nacionalismo europeu que culminou em uma relação moderna

entre o homem e as marcas de sua trajetória no tempo e no espaço. Na análise

desta trajetória é utilizada uma percepção nacionalista que agora envolve um

delimitado

espaço

identidade cultural.

geopolítico

e

um

sentimento

imaginado

de

nação

e

A construção discursiva desta nação e sua relação com o legado

deixado por atores sociais precedentes que ocuparam esse mesmo espaço

geofísico,

se

efetuam

pela

“apropriação”

desta

“herança”

pelos

agentes

públicos e/ou privados que vêem nesta ação uma forma de converter em

sentimento nacional tudo que diz respeito à formação sócio-historica singular

de cada país.

A noção de “apropriação” desempenha uma função central nos discursos do patrimônio cultural. Palavras como heritage (em inglês), patrimoine (em francês) ou patrimônio qualificam essa função

enquanto uma forma de propriedade herdada, em oposição a uma propriedade adquirida. Apropriarmo-nos de alguma coisa implica

uma atitude de poder, de controle sobre aquilo que é objeto dessa apropriação, implicando também um processo de identificação por meio do qual um conjunto de diferenças é transformado em

identidade (

Apropriar-se é sinônimo de preservação e definição

de uma identidade, o que significa dizer, no plano das narrativas nacionais, que uma nação torna-se o que ele é na medida em que se apropria do seu patrimônio (GONÇALVES, 1996, p.23).

)

A Revolução Francesa é fator primordial na elaboração desta moderna

concepção nacionalista que procura na leitura deste “patrimônio” construir uma

nova mentalidade calcada em diferentes valores e ações culturais, condizente

com a nova ótica de estado-nação que se consolidou amplamente em todo o

continente, redimensionando as forças políticas européias.

A noção de patrimônio é, portanto, datada, produzida, assim como a idéia de nação, no final do século XVIII, durante a Revolução Francesa, e foi precedida, na civilização ocidental, pela autonomização das noções de arte e história. O histórico e artístico assumem, nesse caso, uma dimensão instrumental, e passam a ser utilizados na construção de uma representação de nação. (FONSECA, 2005, p.37)

A idéia de nacionalismo e a construção da moderna concepção de

Patrimônio Histórico e Artístico Nacional foram filhas de um mesmo tempo e

espaço, ou seja, a formação histórica dos Estados Nacionais que se deu em

continente europeu.

Posteriormente,

mais

precisamente

em

começos

do

século

XX,

a

questão do Patrimônio adquire um sentido bem mais universal e procura se

dissociar das questões nacionalistas, recebendo a denominação de Patrimônio

Cultural.

Isto se dá em parte pela influência acadêmica advinda dos avanços da

Antropologia e da Ciência Histórica. Ambas trazem em seu foco de análise uma

nova perspectiva que leva em consideração os estudos das estruturas sociais,

na História, e o amplo campo de pesquisas que se realizam em culturas

primitivas pela Antropologia, valorizando as comunidades locais e inserindo as

mesmas

no

processo

histórico

que

antes

levava

em

sociedades localizadas no velho continente.

importância

as

Outro fator preponderante para que o conceito, e consequentemente, as

práticas de conservação e proteção do Patrimônio Cultural, ganhassem “ares

universalistas” foi a institucionalização de uma relação jurídica global que se

materializa no Direito Internacional, lidando o mesmo com sujeitos difusos que

antes não eram objetos de interpretação nas práticas jurídicas anteriores.

Para acompanhar mudanças jurídico-institucionais tão amplas é erigido

a partir da concepção ocidental o conceito de Humanidade, que vai nortear as

relações internacionais deste novo mundo saído dos escombros do pós-guerra.

A noção de patrimônio comum da humanidade pressupõe a

humanidade enquanto sujeito de Direito Internacional, isto é, titular

de direitos e obrigações, embora se trate de tema novo no Direito

Internacional, motivo de controvérsias na doutrina. ( SILVA, 2003,

p.35).

Nesta conjuntura histórica se realiza no ano de 1933 em Atenas, o

primeiro Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM), liderado pelo

renomado arquiteto modernista Le Cobusier, onde se redige a famosa “Carta

de Atenas” que defende o Patrimônio Histórico localizados em cidades que

necessitassem de reformas em seus respectivos planos diretores.

A

questão

da

criação

de

órgãos

internacionais,

como

a

ONU

(Organização das Nações Unidas) e seus respectivos organismo culturais

como a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a

Ciência e a Cultura), criado em Londres em 1945, corroboraram para que a

questão do Patrimônio novamente se transformasse e adquirisse novo vetor

conceitual.

A Declaração Universal dos Direitos do Homem elaborada pela ONU em

1948, reconhece em nível internacional o Direito de Cidadania em relação aos

Bens Culturais que passa a ser um direito difuso.

A Unesco é uma organização de caráter governamental vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU), especializada em promover uma política de cooperação cultural e educacional. As principais decisões são tomadas na Conferência - geral constituída pelos representantes dos Estados-menbros da Organização, que se reúne a cada dois anos (SILVA, 2003, p.55).

É

massa,

impreterível lembrar que os av anços de um padrão de consumo em
impreterível lembrar que os av anços de um padrão de consumo em
impreterível lembrar que os av anços de um padrão de consumo em
impreterível lembrar que os av anços de um padrão de consumo em
impreterível lembrar que os av anços de um padrão de consumo em

impreterível lembrar que os avanços de um padrão de consumo em

oriundo

da

internacionalização

mercadológica

capitalista

que

transformar tudo em mercadoria, também irão contribuir para a nova ótica que

transformar os Bens Culturais em objeto de desejo acessível aos consumidores

que se localizam em vários lugares do planeta e têm avidez por esta nova

demanda. “A formulação dessa demanda como direito só se tornou possível

depois que a instrução e a educação passaram a ser considerados bens

necessários e não apenas interesse de alguns” (FONSECA, 2005, p.73).

Nesta

reincidente

metamorfose

conceitual,

proveniente

de

fatores

conjunturais e estruturais, o Patrimônio Histórico e Artístico é suplantado pela

idéia de Patrimônio Cultural, adquirindo um tom universalista em detrimento à

circunscrita percepção geopolítica presa às amarras do nacionalismo. Não

obstante, apesar deste âmbito universal que adquire o Patrimônio Cultural, a

questão

nacional

tem

seu

espaço

enquanto

local

de

percepção

de

características culturais endêmicas que passam a ser valorizadas enquanto

pertencentes ao acervo cultural de toda a humanidade.

Esta nova percepção do passado materializado em obras históricas e

artísticas formou e forjou a moderna noção de Patrimônio Cultural.

Se a emergência da noção de patrimônio histórico e artístico nacional se deu no âmbito da formação dos Estados-nações e da ideologia do nacionalismo, sua versão atual, enquanto patrimônio cultural, indica sua inserção em um contexto mais amplo-o dos organismos internacionais- e em contextos mais restritos- o das comunidades locais (FONSECA, 2005, p.75).

Neste

contexto

histórico-político

global

cresce

consideravelmente

a

assistência internacional ao Patrimônio Cultural. A ação do citado organismo

pertencente à ONU (UNESCO) regulamenta e institui juridicamente esta

proteção à medida que realiza convenções em que são discutidas e elaboradas

práticas e políticas governamentais de preservação e proteção. “Assim, tem

início, na ordem jurídica internacional, a adoção de instrumentos jurídicos

instituídos exclusivamente para a proteção dos bens culturais. Até a fundação

da Unesco, a comunidade internacional era carente de instrumentos protetores

dos bens culturais”. (SILVA, 2003, p.56).

Na esteira desta circunstância histórico-cultural são realizadas diversas

convenções internacionais com fins de regulamentação e disciplina para

proteção do Patrimônio Cultural. Entre elas podemos citar a Convenção de

Haia, ocorrida na Holanda em 1954, com grande importância por introduzir pela

primeira vez o termo “Bens Culturais”; a Convenção Relativa à Proteção do

Patrimônio Mundial, Cultural e Natural, de 1972 que elabora uma inscrição em

que consta Bens Culturais tidos como pertencentes ao Patrimônio Mundial e

ainda a Convenção Relativa à Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático-

Unesco 2001.

A

concepção

contemporânea

da

proteção

jurídico-institucional

do

Patrimônio

Cultural

é

fortemente

marcada

por

esta

ótica

universal

que

adquiriram as obras materiais e imateriais erigidas pelo homem em sua

trajetória na História.

Nesta

conjuntura

existem

inúmeras

instituições

internacionais

que

promovem o amparo legal e material com fins de proteção, podendo ser

citados, entre outros, o Comitê Intergovernamental da Proteção do Patrimônio

Mundial,

Cultural

e

Natural,

o

Centro

Internacional

de

Estudos

para

a

Conservação e Restauração dos Bens Culturais e o Fundo do Patrimônio

Mundial, todos integrando o arcabouço institucional da UNESCO.

Existindo ainda órgãos como o ICOMOS (Conselho Internacional de

Monumentos e Lugares de Interesse Artístico e Histórico), organização não-

governamental fundada em Varsóvia na Polônia em 1965, que, inclusive,

conceitua a prática turística com fins de visitação do Patrimônio Cultural na

chamada Carta do Turismo Cultural, o qual define como:

O turismo cultural é aquela forma de turismo que tem por objetivo, entre outros fins, o conhecimento de monumentos e sítios históricos-artísticos. Exerce um efeito realmente positivo sobre estes tanto quanto contribui para satisfazer seus próprios fins-a manutenção e proteção. Esta forma de turismo justifica, de fato, os esforços que tal manutenção e proteção exigem da comunidade humana, devido aos benefícios sócio-culturais e econômicos que comporta para toda a população implicada (ICOMOS, 1988).

Existe

uma

consistente

relação

entre

Turismo

e

Cultura.

Várias

pesquisas e estudos realizados por especialistas demonstram a importância

de tal consórcio para a preservação das manifestações e bens culturais. Uma

possibilidade para o incremento do turismo cultural é a exploração do

patrimônio histórico. “A questão da memória, da busca identitária e da

apreensão do passado como patrimônio memorialístico apresenta-se como

uma rica fronteira entre a História e o Turismo” (MENESES, 2004, p.14).

O

Turismo

Cultural

se

revela

como

grande

fator

de

fascínio

e

deslocamento de pessoas à procura de contato com construções históricas

diversas, entre elas, arquitetura de ordem religiosa, militar, ruínas, esculturas.

Esta atividade, através da utilização do Patrimônio Histórico e de Bens

Culturais

como

atrativo,

tem

auxiliado

restauração dos mesmos.

na

preservação,

manutenção

e

A atual Constituição Brasileira, em seu artigo nº. 216, especifica os

Bens Culturais como: “Os bens de natureza material e imaterial, tomado

individualmente ou em conjunto, portadores de referencia à identidade, à

ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”.

Na Europa o Patrimônio Histórico há muito é utilizado como dispositivo

para deslocamento de pessoas com interesses turísticos. No Brasil alguns

sítios históricos foram revitalizados e seus espaços reutilizados para fins de

Turismo Cultural, entre eles, o centro histórico de Salvador, em especial o

Pelourinho, e o centro histórico do Recife, denominado de “Recife Antigo” e

que anualmente recebem milhares de turistas.

2.3. O Patrimônio Cultural no Brasil: preservação e turismo

As ações que levaram ao amparo preservacionista, tanto no âmbito

material quanto jurídico, do Patrimônio Cultural no Brasil não fugiram da

práxis consorciada entre os discursos de construção de uma nacionalidade e

as políticas governamentais que implementaram as condições legais e

institucionais para tais fins, já vistas anteriormente em outras latitudes.

Como

sempre

tais

ações

foram

realizadas

em

nosso

país

com

bastante atraso em relação aos países europeus. Foram precisamente nas

primeiras

décadas

do

século

XX

que

começaram

a

ser

norteadas

as

primeiras diretrizes concretas para o resgate do Patrimônio Histórico e

Artístico,

contando

para

tal

tarefa

com

a

atuação

do

aparelho

estatal

associado à elite intelectual vigente à época histórica.

Apesar de existirem algumas deliberações precedentes no tocante a

esta preservação em nosso país, são realmente no Governo Nacionalista de

Getúlio Vargas, mais precisamente a partir de 1937 com a instauração do

Estado Novo, que foram implantadas sólida e legalmente as bases para a

preservação e valorização do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Paradoxalmente o regime político que fechou o Congresso Nacional,

suprimiu eleições e a liberdade individual através da censura oficial, entra em

um processo de “sintonia cultural” com uma parcela da vanguarda intelectual

brasileira,

mais

precisamente

do

movimento

artístico

denominado

de

Modernismo que se afirmava antiburguês, apesar do regime político de

Vargas representar a burguesia nacional.

É duplamente incongruente, pois o

Modernismo brasileiro estava

assentado no Modernismo Europeu, não sendo, portanto, um movimento em

que o gênese teórico estivesse embasado em intelectuais nacionais, apesar

de se pretender livre de ingerências culturais alienígenas.

O movimento Modernista fica nacionalmente conhecido com o evento

denominado de “Semana de 22”, onde são apresentadas as novas direções

perceptivas de um grupo de artistas que não aceitavam mais a velha ótica da

estética clássica qual procurava reproduzir em nosso solo as criações

artísticas

européias.

Os

intelectuais

que

encabeçavam

este

movimento

procuravam no passado histórico da incipiente nação brasileira os indícios de

uma verdadeira e autentica cultura brasileira.

Neste semblante cultural paradoxal, os intelectuais são chamados para

participarem desse “projeto” de nacionalidade junto com o Estado, o qual

evoca para si o comando ideológico do que era verdadeiramente passível de

ser entendido como Patrimônio Nacional e que mereceria ser preservado e

conservado para posteridade.

É o discurso nacionalista implementado pelos primórdios da “Era

Vargas” em associação com um grupo de intelectuais sedentos e ávidos por

construírem uma cultura autenticamente tupiniquim que vão tornar possível

uma política oficial de preservação do Patrimônio Histórico e Artístico. A

construção

alegórica

desse

novo

homem

tupiniquim

está

tipicamente

representada pelo herói ou anti-herói Macunaíma, personagem de romance

homônimo escrito por Mário de Andrade, sem dúvida o maior expoente do

Modernismo no Brasil.

Nesta esfuziante atmosfera ufano-nacionalista, o romancista Mário de

Andrade é convocado para elaborar as bases de um projeto de Lei que

regulamentasse e criasse as condições jurídicas e orçamentárias para que o

Estado

Brasileiro

lançasse

seu

arcabouço

institucional

como

forma

de

implantar tal preservação. O romancista já tinha alguma experiência na esfera

política, pois na década de 30 foi diretor do Departamento de Cultura da

Prefeitura de São Paulo.

O projeto do escritor modernista trazia à época grande avanço e

sentido inovador tão característico à sua atuação, não obstante, a Lei de

novembro de 1937, nascida do projeto, não traduziu inteiramente a proposta

inicial

do

intelectual,

enfatizando

muito

mais

a

proteção

pelo

prisma

monumental das construções arquitetônico-religiosas e das obras de arte

eruditas.

A referida Lei deixou de lado a visão de entendimento do Patrimônio

Artístico Cultural também como produção da cultura popular, entendimento

este que estava presente na perspectiva do escritor.

No corpo do texto do

projeto de Lei Mário de Andrade afirmava que:

Entende-se por Patrimônio Artístico Nacional todas as obras de arte pura ou de arte aplicada, popular ou erudita, nacional ou estrangeira, pertencentes ao poderes públicos, e a organismos sociais e a particulares nacionais, a particulares estrangeiros, residentes no Brasil. (ANDRADE Apud LEMOS, 1981, p.38)

É sentido que na perspectiva do escritor a dimensão da criação

popular é realmente vista lado a lado com as expressões eruditas, além do

que ao conceituar o Patrimônio Nacional como obra de arte, o mesmo amplia

o conceito para os ditames de um caminho subjetivo que está apto a

classificar diversas manifestações da atividade intelectual humana.

Na esteira da reforma administrativa ocorrida após a consolidação do

Estado ditatorial de Vargas, mais conhecido como Estado Novo é criado no

âmbito do Ministério da Educação e Saúde o SPHAN (Serviço do Patrimônio

Histórico e Artístico Nacional) sob direção de intelectual brasileiro Rodrigo

Melo Franco de Andrade, nome que se tornaria um baluarte em prol da

cultura nacional.

O SPHAN passa a conceber um desenho de significação de uma elite

cultural que se achava apta a realizar a tarefa quase heróica de “salvar” o

passado histórico materializado em construções arquitetônicas e artísticas.

Além

deste

aspecto

consular

de

abrigar

as

idéias

tidas

como

inovadoras para o Brasil, explanadas por um seleto grupo de intelectuais, o

referido órgão serve também para delimitar os espaços de representações

simbólicas.

Estas

ações

são

amplamente

exploradas

pelo

Governo

Nacionalista de Getúlio Vargas, que procura homogeneizar a diversidade

cultural brasileira para fins de implantação de um novo projeto de nação

assentado em uma ideologia burguesa apoiada largamente no ufanismo.

Portanto, nada melhor que vangloriar o passado brasileiro presente na

plástica de suas construções históricas, através do consórcio advindo desta

conjunção de interesses conjunturais entre o Governo Vargas e a vanguarda

modernista brasileira.

É a ação de intelectuais cristalizada pelo instrumento legal do aparato

estatal que se materializa no SPHAN e tem poder político-institucional para

exercer a “pressão cultural” para a edificação de uma identidade brasileira.

Para dizer de forma simples: não importa quão diferentes seus

membros possam ser em termos de classe, gênero ou raça, uma cultura nacional busca unificá-los numa identidade cultural, para representá-los todos como pertencendo à mesma grande família

nacional [

lealdade, união e identificação simbólica. Ela é também uma

uma cultura nacional nunca foi um simples ponto de

]

estrutura de poder cultural. (HALL, 2005, p.59)

Através da regulamentação jurídica e da autoridade estatal o referido

órgão utiliza da faculdade legal da ação de tombamento para resguardar os

bens

culturais

nacional.

passiveis

de

representar

o

passado

O

instrumento

jurídico

do

tombamento

intervenção

do

Estado

na

escolha

simbólica

é

dos

histórico

e

artístico

a

materialização

da

bens

que

merecem

arcabouço preservacionista e que supostamente estariam em perigo face à

eminente condição de exposição de ações de toda ordem, refletindo, assim, o

controle cultural que a maquina governamental impõe em nome do bem

comum de toda uma sociedade.

O “Estado Novo” institui o tombamento pelo Decreto-Lei nº. 25 de

30/11/37. “Segundo o Decreto-Lei nº. 25/37, o tombamento é o instituto

jurídico pelo qual se faz a proteção do patrimônio histórico e artístico, que se

efetiva quando o bem é inscrito no livro de tombo” (SILVA, 2003, p.122).

O tombamento de um Bem Cultural pode se realizado pela ação

compulsória do Estado, neste caso a escolha segue critérios aleatórios a

quem de direito exerce o domínio da propriedade, ou pela própria requisição

do proprietário que, dessa sorte, se chama de tombamento voluntário e deve

ser avaliado pelo órgão competente.

No entanto, o pedido formulado pelo proprietário é raro face à limitação

do exercício dominial sobre o bem imóvel ou móvel, visto que o instituto do

tombamento restringe o exercício de certas faculdades possessórias e de

domínio, tais como alienabilidade, transmissão e reformas. O tombamento

pode ser realizado através das esferas municipais, estaduais e federais.

Para ser tombado o bem deve ser alvo de um processo administrativo

que após sua conclusão faculta a inscrição definitiva no Livro de Tombos. O

SPHAN regulamenta o tombamento através da inscrição em quatro tipos de

livros, a saber: o Livro do Tombo Histórico, o de Belas Artes, o de Tombo

Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico e o de Artes Aplicadas.

Em 1945 o SPHAN é atingido por uma reforma descentralizadora e se

transforma em DPHAN (Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional),

contando com quatro distritos localizados em diferentes lugares da nação. Até

1969

o

referido

órgão,

tinha

tombado

803

bens,

onde

predominava

as

inscrições do Livro de Belas Artes e no de Tombo Histórico.

Em 1970 recebe a denominação de IPHAN (Instituto do Patrimônio

Histórico e Artístico Nacional) passando a contar com nove diretorias regionais.

Posteriormente, mais precisamente em 1979, ocorreram novas mudanças na

estrutura organizacional do órgão, sendo criado a Fundação Nacional Pro-

memória, objetivando, assim, agilizar as ações da Subsecretaria do Patrimônio

Histórico e Artístico Nacional, então pertencente ao IPHAN, conjuntamente com

Secretaria da Cultura do Ministério da Educação e Cultura. Nesta óptica é dada

importância

relevante

à

restauração

e

revitalização

de

bens

móveis

e

integrados, com a criação, inclusive, de centros regionais para tais fins.

A fase da instituição na preservação do Patrimônio Cultural Nacional,

ou seja, que vai desde sua criação até o final da década de sessenta é

conhecida como “fase heróica”. Em parte devido a apaixonante maneira com

que toda sua cúpula, mais precisamente a pessoa de seu dirigente o

advogado e poeta Rodrigo Melo Franco de Andrade, se entrega à árdua

tarefa de implementar políticas publicas no Brasil para tais fins (FONSECA,

2005).

Atualmente o IPHAN adota uma nova percepção conceitual na questão

referente à política oficial de preservação e restauração do Patrimônio

Cultural em nosso país. Nesta nova fase, a ótica das manifestações culturais

é apreendida através da importância atribuída à diversidade encontrada em

todo o conjunto de nossa sociedade, assim também como a questão que

envolve

o

Patrimônio

Cultural

Imaterial,

anteriormente negligenciadas.

reverenciando

outras

esferas

Isto se torna evidente através do Decreto Federal nº. 3351 de agosto

de 2000, que redefine a ótica do Patrimônio Cultural em outras áreas não

passíveis de tombamento, visto o caráter imaterial do âmbito de suas

realizações. Não obstante, as mesmas são registradas em livros específicos,

dessa forma, o referido Decreto “Institui o registro de bens culturais de

natureza

imaterial

que

constituem

patrimônio

cultural

brasileiro,

cria

o

programa nacional do patrimônio imaterial e dá outras providências”.

Em toda sua trajetória histórica o IPHAN desenvolve um trabalho ímpar

em nosso país, merecendo por isso destaque na defesa de nosso patrimônio

cultural seja material ou imaterial.

O IPHAN tem sido desde sua criação, em 1937, sob os nomes sucessivos de Secretaria, Diretoria, Instituto, Subsecretaria e agora Secretaria, o defensor pertinaz e esclarecido de nosso patrimônio cultural (COSTA, 1987, p.1460).

Hoje em dia se observa uma etapa de relevante preocupação em

nosso país com a questão que engloba a preservação do Patrimônio Cultural,

despertando, inclusive, a elaboração de políticas governamentais nos níveis

municipal, estadual e federal. A iniciativa privada também tem desenvolvido

inúmeros projetos de apoio à recuperação e preservação das manifestações

culturais. A criação de Organizações Não Governamentais (ONG’s) com fins

específicos de apoio à cultura é uma realidade concreta.

No Estado da Bahia, o IPAC (Instituto do Patrimônio Artístico Cultural

da Bahia) realiza o Tombamento na esfera estadual, tendo o respectivo

instituto um acervo de prédios e obras artísticas anotados em seus Livros de

Tombos. Realizando, até mesmo, na Região Cacaueira, o tombamento do

antigo entreposto ferroviário do distrito do Rio do Braço, localizado na cidade

de Ilhéus, e que representa um marco na História Ferroviária Regional.

Existem também outras formas de incentivo à preservação de nosso

acervo cultural, como o FAZCULTURA (Programa Estadual de Incentivo à

Cultura) que procura, através de incentivos fiscais, dinamizar alguns aspectos

culturais de nosso povo, criando condições especiais para empresas que

estejam dispostas a investir em recuperações de patrimônios históricos e

promoção de atividades artístico-culturais.

O Turismo também surge como uma atividade econômica e social que

contribui

para

a

manutenção

dos

potenciais