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Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro Disciplina Eletiva:

“Cultura, Imagem e Corpo: uma genealogia do capoeira”

Orientação: Ivana Bentes Oliveira

Apresentação ao pequeno texto sobre a filosofia da malandragem, o samba, e a capoeira

Alo pessoal, td bem? Curti muito nossa primeira aula (4af, 15h, 28/8/2013, na sala 105A). O Bruno, o Ramúsyo e eu gostaríamos de dar um curso tão interessante quanto o assunto que escolhemos: Cultura, Imagem e Corpo: uma geneologia do capoeira. Uma de nossas ideias é apresentar, talvez em todas as aulas, um audio-visual. Na próxima 4af ( 4/9/2013) assistiremos ao Mestre Leopoldina, o último bom malandro (50 min., 2008). Demerval Lopes de Lacerda (1933-2007), o Mestre Leopoldina, é um ícone da capoeira e da malandragem alto-astral carioca. Eu o conheci bem: foi ele quem me iniciou na capoeiragem em 1965. Com o passar dos anos, ficamos amigos; participamos de muitas rodas, shows para turistas - correndo atras do vil metal -, palestras "culturais", e viagens no Brasil e no estrangeiro - Leopoldina era o cara.

Para bem entender mestre Leopoldina; para bem entender o imbricamento entre a filosofia da malandragem, o samba, e a capoeira - visão seminal de nosso curso -; creio que o pequeno texto abaixo vai ajudar.

Espero que vcs curtam o texto, o documentário, e a próxima aula: os 5 "blocos" do documentário, e as intervenções do Bruno e do Ramúsyo. Tudo de bom, Nestor Capoeira.

CAPOEIRA a construção da malícia e a filosofia da malandragem

1800-2010

Trilogia do Jogador, vol. 1 de Nestor Capoeira

© 2001

© 2011

(no prelo)

2.3.3 - O malandro e o sambista 1920-1950

No início dos 1900s, não havia rádio nem televisão; as experiências, as vivências, e o "saber" dos capoeiras de uma cidade não influía diretamente e on line sobre os capoeiras das outras cidades.

Ainda assim, estas capoeiras não eram completamente estanques e isoladas. Já havia uma troca de saberes, e havia canais de comunicação . Especialmente porque o Rio e Salvador e Recife eram cidades portuárias com enorme movimento de navios e marinheiros; e um dos espaços privilegiados da capoeira - dos 1800s e início dos 1900s - era justamente a área portuária das três cidades, com seus navios e marinheiros que iam de um local ao outro. Por volta de 1920 e mais fortemente a partir de 1930, o Rio era a capital da República e o grande centro irradiador de cultura; tudo que acontecia por lá ressoava pelo resto do país.

Nas cidades os viciados elegantes absorvem o ópio, a cocaína, a morfina; por aqui ainda há pessoas que fumam liamba (canabis sativa)

Estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho. O futebol, o boxe, o

turfe, nada pega

esportes regionais que estão aí abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois,

o salto, a cavalhada e. melhor de tudo, o

cambapé, a rasteira

Reabilitem os

E se algum de

vocês tiver vocação para a política, então sim, é a plena certeza de vencer com o auxílio dela. É aí que ela culmina.Não há político que não a pratique.

Graciliano Ramos, jornal O Índio, Palmeira dos Índios, Alagoas, 10/9/1921.

Mesmo em 1921, na longíncqua Palmeira dos Índios (AL), a rasteira era conhecida e, até mesmo, "cultuada". E não apenas como um golpe para ser usado numa luta. Como podemos ler no texto do (então) jovem e desconhecido repórter, Graciliano Ramos, a rasteira já representava a esperteza e o "enganar". A "filosofia da malandragem" carioca começou a ser divulgada através dos "sambas de malandro", que estavam sendo gravados em disco e tocados no rádio, que já existia nesta época, com grande sucesso em todo o país.

No Rio de Janeiro dos 1920s, enquanto segmentos sociais hegemônicos cariocas tentavam mudar, no imaginário, a imagem da capoeira transformando-a de atividade criminal em "Luta Nacional" (arrancada de suas raízes negras e marginais); observava-se também a reação das "classes populares" com a construção, popularização, e consagração do "malandro".

O Malandro vai atravessar horizontalmente toda a

cultura, e maneira de ser, do carioca - e, em última

instância, do brasileiro -; e, verticalmente no tempo, vai também ser vetor ativo e atuante na formação da atual "filosofia da capoeira" - a malícia.

O Malandro vai se tornar tema de muitos sambas até

que, com a política de Vargas de valorização do trabalho na década de 1930 (52), ele começará a apresentar-se como o "malandro redimido".

O Malandro era o herdeiro destronado e solitário das

maltas de capoeira cariocas extintas pela perseguição

policial na virada do século XIX para o XX. "Solitário": agindo individualmente e sem o poder do grupo, não se tornou um risco para a polícia e para o novo Regime Republicano, como tinham sido as maltas de capoeira do Império. "Destronado": sem o apoio de algum político poderoso; como (no passado) o rico parlamentar

conservador, monarquista, e abolicionista, Luiz Joaquim Duque-Estrada Teixeira, o Nhô-nhô da Gloria, que patrocinava a malta Flor da Gente.

O malandro era um elemento fragilizado que contava

apenas com sua esperteza, sua lábia, seu charme, seu know-how do jogo e das mulheres, sua capacidade de apelar inesperadamente para a capoeiragem e para a navalha quando se via acuado e sem possibilidades de resolver a situação "na conversa".

Apesar desta herança - o Malandro -, a verdade é que a ação policial apos 1890 conseguiu atomizar as maltas dos 1800s. Não mais grupos, mas indivíduos isolados. Por outro lado, era a vitória - dentro da derrota - da estratégia de Manduca da Praia (aprox. 1870), que "não recebia influências da capoeiragem local nem de outras freguesias, fazendo vida à parte, sendo capoeira por sua conta e risco". Nós veremos muitos mestres, em Salvador e também no Rio e São Paulo, nas décadas de 1950 e 1960, que seguiram esta mesma dinâmica: eram indivíduos que ensinavam capoeira "à parte, por sua conta e risco", como o Manduca da Praia de cem anos antes - 1870. Mas já em 1970, vemos o reaparecimento de grandes grupos de capoeira, principalmente no Rio e São Paulo, que amealhavam dezenas e, a partir dos 1990, centenas de professores (e alguns milhares de alunos).

A capoeira das maltas cariocas de 1800s quase não deixou registro de mão própria - exceto pelos relatos de Plácido de Abreu (1886) -; os registros que temos são de outros atores, como "a pena do escrivão de polícia". Por sua vez, a malandragem seminal do comecinho dos 1900s também não deixou registro próprio, exceto pelas falas de Kalixto e de Ciríaco. Sobrou principalmente a voz do sambista.

As letras de samba por muito tempo constituiram o principal, senão o único, documento verbal que as classes populares do Rio de Janeiro produziram autônoma e espontaneamente. (53)

Provavelmente (e, aqui, com este "provavelmente", entro no terreno das suposições e da "invenção de tradição"), os capoeiras de Salvador e Recife perceberam que aquela "malandragem" carioca - veiculado pelos marinheiros e músicos que aportavam vindos do Rio; e mais tarde, a partir dos 1930s, veiculada pelos sambas que tocavam no rádio -, era algo bastante "familiar". "Familiar" mesmo, no sentido de ser algo da mesma família. E rapidamente adotaram, absorveram, e encarnaram aquele "saber", e até mesmo parte de seu elegante e espalhafatoso visual - terno de linho branco, camisa de seda vermelha, chapeu panamá, sapato de duas cores, anel com falso brilhante.

Inicialmente o samba era composto grupalmente, era uma atividade comunitária. Mais tarde aparece o indivíduo "autor/compositor de samba" (vemos uma certa semelhança com as maltas de capoeira que eram grupais, em oposição à estratégia de Manduca da Praia

que obrava "por conta e risco"). Talvez pudéssemos dizer o mesmo das rodas de capoeira, em Salvador, por volta de 1920 - era uma coisa grupal, como a turma que iniciou Noronha -; até o aparecimento do "mestre" com sua "academia", após a década de 1930 com mestre Bimba.

Sinhô, o primeiro músico popular a se distinguir na sociedade global como autor-compositor de sambas, realiza a conjunção ambivalente do coletivo com o individual que caracterizaria mais tarde o samba malandro, do qual aliás pode ser considerado precursor. Se o desejo de ascender socialmente ou de ganhar dinheiro, orientava-lhe a conduta no momento de registrar e promover seus sambas, tal individualismo não chegava a determinar seu modo de produção, que permanecia vinculado aos fundamentos "comunalistas" - para retomar a expressão de Muniz Sodré - do músico negro-proletário. (54)

Geraldo Pereira, por sua vez, constituiu um modelo de malandro e sambista daquela época: sambista, compositor, valente, mulherengo, mas com emprego

como motorista da Limpeza Urbana.

Geraldo Deodoro Pereira nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, a 23 de abril de 1918. Vindo ainda garoto para o Rio, foi morar em Mangueira, e depois no Engenho de Dentro por volta dos 18 anos. Em 1939, já morador da Lapa, teve sua primeira composição gravada pelo cantor Roberto de Paiva. Era o samba Se você sair chorando, de parceria com Nelson Teixeira. Em 1940 começa sua associação com Ciro Monteiro, seu grande amigo até o final e principal intérprete. Trabalhou em boates e teatros, sendo também cantor, melodista e letrista. De sua autoria, gravaram-se cerca de sessenta sambas em 78 rpm, e ao todo mais de 70 composições, embora muita coisa sua ainda permaneça inédita.

Morreu precocemente, ao que se diz em consequência de uma briga com o afamado Madame Satã. Em 4 de maio de 1955, foi internado com hemorragia intestinal no Hospital dos

Servidores Públicos, como funcionário público que era, motorista da Limpeza Urbana. Morreu no dia 8, um domingo, aos 37 anos de idade. Ciro Monteiro custeou seu enterro. Geraldo deixou viúva, Eulíria Salustiano Pereira e o filho Celso Salustiano Pereira.

O jornalista Jorge Aguiar considerou Geraldo 'o maior sambista de sincopados que já apareceu', fazendo 'sambas diferentes de tudo o que se fazia na época, usando a língua dos trens de subúrbio, das gafieiras, das rodas de malandragem da Lapa, das subidas sinuosas dos morros'. Chamou-o também de 'malandro autêntico dos anos 30', esclarecendo: 'como malandro que era até a raiz dos cabelos (não confundir com vagabundo que é outra coisa), sempre na estica daquele linho branco amarrotado, balanceado naqule ginga de valente calmo e boa gente, quase dois metros de altura, forte como um touro, isso tudo fazia de Geraldo Pereira dois tipos de que nunca se afastou: o mulherengo incontrolado, sempre cobiçado pelas cabrochas mais

disputadas, e um valente invulgar As histórias de valentia de Geraldo Pereira enchem o folclore carioca'. (55)

A filosofia da malandragem estava, então, fina e legitimamente representada nos sambas de Geraldo, e outros, que eram excelente compositores, talentosos sambistas, e genuínos malandros. Vejam estes sambas, da década de 1930, quando o malandro já era o "rei da Lapa" - o bairro da vida noturna do Rio de Janeiro, cheio de bares, cassinos, casas de jogo e de prostituição.

"Meu chapéu de lado Tamanco arrastando Lenço no pescoço Navalha no bolso Eu passo gingando Provoco e desafio Eu tenho orgulho De ser tão vadio" (Lenço no pescoço, Wilson Batista,

1936)

"Lá vem o Chico Brito Descendo o morro nas mãos do Peçanha

É mais um processo
É mais uma façanha

Chico Brito faz do baralho O seu melhor esporte

É valente no morro

Dizem que fuma Uma erva lá do norte" (Wilson Batista e Afonso Teixeira)

A Lapa, por sua vez, era o habitat perfeito para o malandro:

A Lapa boêmia começou a crescer por volta de 1910 e atingiu seu período de ouro mais ou menos entre o final dos

anos quarenta (1940)

o Café Colosso, o Capela, o Café Bahia,

o Imperial. Os cabarés: o Apolo, o Royal Pigalle, o Vienna Budapeste, o Novo

México, o Casanova, e o incrível Cu da Mãe. O Cassino High Life Parisienses, polacas e brasileiras. Leonor Camarão, que morreu enquanto tomava um banho de champanhe. Boneca, por quem mais de um homem se matou

Os bares: o Siri,

Mas outros lugares como o Mangue, a

Saúde, a Praça Onze e o Cais do Porto também abrigaram muitos malandros Meia-Noite, Beto Batuqueiro, Edgar, Sete-Coroas, Miguelzinho e muitos

outros

(56)

Quando, em 1937, Getúlio Vargas e o Estado Novo instituem "a ideologia do culto ao trabalho e uma política simultaneamente paternalista e repressiva em relação à cultura popular" (57), os compositores foram incentivados "a louvar os méritos e recompensas do trabalhador, ao mesmo tempo que se interditam e censuram os casos e façanhas do malandro" (58). Além disto, muitos malandros vão morrendo.

Meia-Noite morreu assassinado por um desafeto em 1938. Miguelzinho morreu aos dezoito anos de morte natural. Joãozinho da Lapa foi assassinado por um companheiro de malandragem por volta de 1939. Edgar morreu aos 26 anos de idade. (59)

Então, como já dissemos, na década de 1940 aparece:

a figura ambígua do 'malandro regenerado', sempre às voltas com a

polícia, falante, problemático, defensivo, dizendo-se trabalhador honesto mas sempre carregando os estigmas e emblemas da malandragem

(60)

Vejam este samba de Wilson Batista, típico desta

época:

Seu Martins Vidal Eu moro no Lins e sou o tal que há muito tempo exerço uma fiel profissão Eu não sou mais aquele antigo trapalhão (Averiguações, Wilson Batista, 1941)

Mas o malandro já tinha fundado sua dinastia dentro do samba. Na minha juventude, tivemos figuras como Bezerra da Silva, João Nogueira, Zé Keti; e atualmente,

ilustres e talentosos representantes em Martinho da Vila

e Zeca Pagodinho; apesar dos versos de Chico Buarque

e de requiens e sentenças definitivas de estudiosos vários.

Eu fui na Lapa e perdi a viagem pois essa tal malandragem

não existe mais. (Chico Buarque)

Não tenho dúvidas quanto ao desaparecimento, nos dias atuais, do suporte sociológico que ancorou a vadiagem na música popular.

(61)

Os malandros que viveram nas primeiras décadas do século XX, e "protegeram" a Lapa, são um estranho elo de ligação entre as maltas cariocas do século XIX - das quais o malandro era o herdeiro - e as academias de capoeira que irão começar a se alastrar no Rio, e logo também em São Paulo, e depois por todo o Brasil. As mais conhecidas, no Rio de Janeiro, foram:

- na década de 1930 (ate aprox. 1960), Sinhozinho,

inicialmente no centro e depois em Ipanema (capoeira- luta sem berimbau ou ritual);

- na de 1950 (até aprox. 1975), Artur Emídio, nos

subúrbios cariocas (capoeira de Itabuna, similar à de mestre Bimba, em Salvador - capoeira objetiva com berimbau);

- na de 1960 (até nossos dias), o Grupo Senzala, na

rica zona sul carioca (já apresentava o modelo e a infra- estrutura da "academia de capoeira" que, após 1970, se

espalhou pelo Brasil e já está em mais de 185 países).

Apesar do obscurecimento dos atores e cenários da capoeiragem das maltas dos 1800s - geralmente, a

Bahia é que é considerada a "terra da capoeira", embora sua capoeira só se tornou visível após 1900 -, houve uma herança que se transmitiu de maneira não-causal e não-linear.

O saber da capoeiragem dos 1800s "enxameou" a

malandragem do início dos 1900s; assim como o universo do samba carioca; e tambem a capoeiragem carioca das décadas de 1930, 40, 50, e 60; e, em consequência o grande movimento de expansão, poderíamos até dizer "explosão" da capoeira, que vai começar na década de 1960.

2.3.4 - A descontrução do malandro, dentro da própria malandragem

A malandragem, e os "verdadeiros malandros",

ironizam "espertos" e "golpistas" metidos a malandro, chamando-os de "malandro-agulha"; uma denominação que vem com seu poético epiteto - "toma no buraco (ânus), sem perder a linha" -; primo-irmão do "malandro- otário", e do "falso malandro". Na verdade, existem várias categorias de malandro na marginália, e que, contudo, são muito distintas de

outras variedades e tipos, como o 171 (escroque), o golpista, o punguista (batedor de carteira), o vadio, o

mendingo, o ladrão que se especializa no furto (em oposição ao que é especializado no roubo), o assaltante de banco, o valente, o pistoleiro, o matador, o 281 (traficante),etc. Evidentemente, estas categorias não aparecem "puras" nas pessoas de carne e osso. Muitos destes, apesar de "especializados", tem muito a ver com a malandragem - melhor dizendo, são, todos eles, trespassados pela "filosofia da malandragem". Isto complica o entendimento do que seria a Malandragem, e o Malandro.

Outro problema na abordagem do Malandro é que, muitas vezes, o estudioso não tem conhecimento desta diversidade de categorias; não tem conhecimento prático do submundo. Conhece apenas as representações feitas pela classe média e burguesia; e confunde alhos com bugalhos; confunde a grande obra de arte do mestre Picasso, com a grande pica de aço do mestre de obras.

Este cenário se torna mais complexo, ainda, pela descontrução do malandro dentro da própria malandragem. "Malandro não existe!", afirma o malandragem que, há menos de vinte minutos atrás, encostado no balcão de um botequim no Buraco Quente do Morro da Mangueira (no Rio de Janeiro), mandou passear um malandro-otário que queria ficar na aba do seu (do

malandragem) chapéu, filando cerveja gelada e cigarro:

"Sai fora, mané! Em casa de malandro, vagabundo não pede emprego!"

Esta negação, da existência do malandro dentro da própria malandragem, é antiga. Noel Rosa, p.ex., cantava:

"No século do progresso,

o revólver teve ingresso

para acabar com a valentia"

Poderíamos pensar: o que Noel quer é, justamente, separar e explicitar as categorias: "malandro é malandro, valente é valente". Tudo bem. Mas o assunto é ligeiramente mais complexo, tanto é assim, que Noel também canta:

"Malandro

é palavra derrotista, que só faz deturpar

o nome do sambista"

Ou seja, não só o descolamento do malandro do valente; mas também a separação entre o malandro e o sambista.

E o mesmo samba conclui:

"Proponho, ao povo civilizado, não mais te chamar de malandro, mas, sim, de rapaz folgado"

Enfim, levando em consideração que Noel Rosa era, ele mesmo, um príncipe sem navalha da malandragem, poderíamos pensar: paradoxo é o que não falta.

Se usarmos o enfoque de Eduardo Coutinho (62) sobre "a dialética da tradição" onde ele analisa "o sentido da tradição na obra de Paulinho da Viola", creio que teremos mais facilidade em destrinchar e desovar o presunto. A tradição (no caso, a tradição da malandragem) não é um saber "congelado", como uma estátua, ou uma pintura pendurada na parede de um museu. A tradição é um "processo dialético", no qual as questões e problemas do presente são resolvidas por um "saber" do passado. Mas este "saber" do passado, se modifica e se adapta, mantém um diálogo com o contexto presente (que é diverso do contexto onde o "saber" originalmente foi forjado), para poder resolver os problemas e as situações da atualidade.

Então, durante um certo período, as maltas cariocas de capoeira tiveram sucesso e se desenvolveram usando

uma "estratégia de violência". Este saber foi passado ao herdeiro das maltas: o malandro. Este malandro obviamente era malandro e também valente (como eram os capoeiras das maltas). Mas eis que o samba, que nasce mais tarde, por volta de 1920, no mesmo caldeirão cultural e geográfico, começa a fazer sucesso. E eis que o malandro/valente/sambista percebe que é melhor "aposentar a navalha", como explicitou Chico Buarque. Melhor dizendo: mantê-la escondida no cós da calça; e, para uso externo, veicular um discurso que condene a navalha (e tudo que simbolisa), como foi feito por Noel:

"Deixa de arrastar este tamanco, que tamanco nunca foi sandália. Tira o lenço branco do pescoço, compre terno e gravata, jogue fora esta navalha, que te atrapalha". (Noel Rosa)

Então, creio que é melhor esquecer por um breve momento o Malandro, que é uma figura camaleônica, quase utópica; o Malandro é algo como uma meta, uma direção e um gol para os malandros (de carne e osso). Esqueçamos, então, o Malandro; e vamos tentar entender a Malandragem como uma Escola Filosófica que mantém um "processo dialético" com a tradição (os

valores herdados das maltas cariocas dos 1800s). Isto, da mesma forma que Paulinho da Viola, que é um "inovador" respeitado pelos jovens e pela Velha Guarda, mantem um "processo dialético" com a tradição do samba. Então, a Malandragem é uma Escola Filosófica baseada na "dialética da tradição". Uma Escola filosófica que tem uma práxis, usada no dia-a-dia. Uma Escola Filosófica que faz evoluir o corpo, a mente, e a alma. Uma Escola Filosófica que, em grande parte, é constituída de uma sabedoria corporal (aprendida com o corpo, e não com a mente); algo que existe no jogar capoeira, e tambem no dançar o samba, no tocar instrumentos musicais, na incorporação dos médiuns da umbanda e do candomblé (este tipo de sabedoria corporal tambem existe em práticas de culturas muito diferente da nossa, como a yoga na India, algumas artes marciais do Oriente, etc.). Uma Escola Filosófica que atua vericalmente através do tempo; e, horizontalmente, no espaço geográfico, trespassa todo o submundo e também toda a sociedade brasileira, em menor ou maior grau; mas nunca em estado de "pureza", pois a "pureza" é característica dos saberes teóricos.

Por outro lado, o Malandro, seria aquele ser utópico

que se formaria, "puro", nesta Escola Filosófica. Uma impossibilidade, já que é uma escola imbricada seminalmente ao corpo e à "vida real", às esquinas, ao mundo da rua - e portanto "impura"; um malandro (de carne e osso) sempre tambem é uma outra coisa - golpista e 171, cafetão, músico, jogador de futebol, estivador, trabalhador do Jogo do Bicho, policial, capoeirista, leão-de-chácara, sambista, etc. - e traz consigo muitas características desta(s) sua(s) outra(s) atividades(s).

O Malandro é, portanto, uma figura mítica, virtual; um

gol, uma direção na qual seguem os estudantes desta escola. Malandro não existe!

O

que existe, então?

O

que existe são pessoas que entraram em contato

com esta Escola, com este saber - malandragem - e utilizam-no no seu dia-a-dia. Geralmente são pessoas das classes populares, trabalhadores ou bandidos; e eventualmente podem ser das classes mais abastadas economicamente. Alguns poucos são artistas talentosos, a maioria não

é.

Alguns são espiritualizados e alto-astral, a maioria não é. Alguns são filósofos ou inteligentes por natureza, a

maioria não é

cavalo tem muito, São Jorge é um só.

NOTAS:

(52) A partir de 1930, com Vargas no poder, os sambistas são orientados a louvar o "trabalho honesto", ou seus sambas não tocariam no rádio nem seriam gravados. Ver: MATOS, Claudia. Op. cit., 1982. (53) MATOS, Claudia. Acertei no milhar. RJ: Paz e Terra, 1982, p.22. (54) Ibidem, p.20. (55)Jorge Aguiar, Folha de São Paulo, 29 de março de 1979 in MATO (56) DURST, Rogério. Madame Satã. São Paulo:

Brasiliense, 1985. (57) MATOS, Claudia. Acertei no milhar. RJ: Paz e Terra, 1982, p.14. (58) Ibidem, p.14. (59) DURST, Rogério. Madame Satã. São Paulo:

Brasiliense, 1985, pp. 9-16. (60) MATOS, Claudia. Op. cit., 1982, p.14. (61) VASCONCELOS, Gilberto in MATOS, 1982, op. cit., p.15. (62) COUTINHO, Eduardo Granja. Velhas histórias, memórias futuras; o sentido da tradição na obra de Paulinho da Viola. Rio de Janeiro: UFRJ-ECO. Tese de Doutorado em Comunicação e Cultura, 2000.