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AS VILAS

DE SÃO JOÃO DA PARNAÍBA NO PIAUÍ

E

DE SANTA CRUZ DO ARACATI NO CEARÁ.

Comparando experiências urbanísticas portuguesas setecentistas.

A despeito da pouca rentabilidade da pecuária - economia que atribuiu forma e conteúdo às Capitanias do Ceará e do Piauí durante o século XVIII - vilas foram fundadas em seus territórios dando prosseguimento a centralização administrativa portuguesa nas terras brasileiras. Se por um lado, a região no nordeste do Estado do Brasil situada para além do litoral açucareiro despertou pouco interesse da Coroa, implicando baixo investimento de técnica nos procedimentos de adaptação de suas diretrizes urbanísticas aos condicionantes do lugar. Por outro, os diversos lugares localizados nesta zona de trânsito nordestina, compreendida entre a costa canavieira e o Estado do Maranhão e Grão Pará, foram alvo de diferentes níveis de inversão tecnológica. O texto tem como objetivo comparar as idéias e a implantação das idéias urbanísticas lusitanas nas vilas portuárias de São João da Parnaíba, no Piauí, e de Santa Cruz do Aracati, no Ceará. Ambas as vilas estão localizadas neste espaço de circulação entre o litoral produtor do açúcar e território maranhense. Frente às semelhanças das diretrizes urbanísticas, as similitudes econômicas, políticas e espaciais do processo de urbanização e a proximidade geográfica das duas Capitanias e vilas, quais condicionantes históricos levaram Parnaíba e o Aracati a possuírem desenhos tão diferentes? A análise reconhecerá seus riscos como procedimentos de intervenção do espaço com o objetivo de domínio territorial.

AS VILAS

DE SÃO JOÃO DA PARNAÍBA NO PIAUÍ

E

DE SANTA CRUZ DO ARACATI NO CEARÁ.

Comparando experiências urbanísticas portuguesas setecentistas.

O texto objetiva comparar as idéias e a implantação do ideário urbanístico português

nas vilas portuárias de São João da Parnaíba, no Piauí, e de Santa Cruz do Aracati, no Ceará. Frente às semelhanças das diretrizes urbanísticas lusitanas e as similitudes econômicas, políticas e espaciais do processo de urbanização de ambas as Capitanias e vilas, quais condicionantes históricos levaram Parnaíba e o Aracati a

possuírem desenhos tão diferentes? A análise reconhece seus riscos como procedimentos de intervenção do espaço com o objetivo de domínio territorial.

I - As idéias urbanísticas portuguesas.

A Pecuária e as Capitanias do Piauí e do Ceará.

A despeito da baixa rentabilidade da pecuária no sertão nordestino, a economia

atribuiu forma e conteúdo às Capitanias do Piauí e do Ceará. Expulsas do litoral açucareiro, as boiadas seguiram as margens dos principais rios do Nordeste em busca de novas pastagens. A região se mostrou violenta e somente passado o medo do sertão, os desbravadores construíram suas fazendas e levaram suas famílias. O medo era resultante da adversidade climática e da resistência indígena. Contudo, vilas foram criadas no território piauiense e cearense dando continuidade à centralização administrativa portuguesa nas terras brasileiras.

Razões para a fundação das vilas piauíenses.

No Requerimento de 23 de Janeiro de 1723 1 , o Ouvidor Geral da vila da Moucha no

Piauí, Antonio Marques Cardoso solicitou ao rei D. João V, perdão “g. al aos criminosos” para se facilitar a conquista do sertão e a autorização para criação de novas vilas na Capitania. Dever-se-ia vir vinte soldados do Maranhão acudindo “com segurança a qualquer excesso, que no d. o sertam acontecer”. Se os soldados fossem casados, conduziriam suas famílias para o “Certão” e formariam “povoaçam”. A presença dos soldados era

do gentio que he infalível” e “costuma fazer algumas

necessária “pella sogeyção [ hostilid. es

]

A Carta Régia de 19 de Junho de 1761 2 , do rei D. José I para o governador do Piauí João Pereira Caldas, elevou Moucha à condição de cidade e criou oito vilas na Capitania. Em 1762 foram instaladas as vilas de Parnaguá, Jerumenha, Campo Maior, Parnaíba, Marvão e Valença. As razões foram as mesmas do Requerimento de 1723; ou seja, a administração da justiça, pois sem justiça “não há Estado, que possa

subsistir [

]”.

De acordo com este documento, o problema consistia na imensa dispersão e na dificuldade de aplicação das leis. Para a Coroa, as leis não poderiam ser observadas, nem se poderia colher os frutos das mesmas em decorrência da,

“vastidão da mesma Capitania, vivendo seus habitantes em grandes distancias huns dos outros sem communicação como inimigos da Sociedade Civil e do Commercio humano padescendo assim os discomodos e as despesas de hirem buscar os Magistrados a Lugares muito remotos e longínquos”.

A dificuldade na administração dos sacramentos contribuía para a urgência da criação das vilas.

“E acrescendo a tudo q´até a Religião padesce não só pela falta de administração dos Sacramentos, mas também pela propagação do Sancto Evangelho”.

Razões para a fundação das vilas cearenses.

1 Projeto Resgate. Documentos Avulsos do Piauí. AHU_ACL_CU_016. Cx. 1. D. 19.

2 Projeto Resgate. Documentos Avulsos do Piauí. AHU_ACL_CU_018, Cx. 8, D. 457.

Como no Piauí, o Estado Português justificou, no século XVIII, a criação de vilas 3 no Ceará vinculando uma idéia de justiça a uma preocupação de ordem econômica.

Em 13 de fevereiro de 1699, o Governador pernambucano Caetano de Melo e Castro recebeu ordens do Reino para “q’se crie uma villa no Ceará”, evitando-se “muitos prejuisos”, decorrente da falta de “modos de justiça” (STUDART, 2001, p.114).

Na segunda metade do século XVIII, persistiu o vínculo entre justiça e economia validando a fundação das vilas. D. José I expediu, em 22 de julho de 1766, uma Ordem Régia 4 obrigando a todos os que se achavam “vagabundos, ou em sítios volantes”, vivendo como “feras separadas da sociedade civil e commercio humano” nos ditos sertões, que se acomodassem em “povoações civis” com mais de cinqüenta “fogos”.

Diretrizes urbanísticas para as vilas piauienses.

A Carta Régia de 1761 que propôs elevação da vila de Moucha à cidade e a criação de novas vilas no Piauí determinava que após a escolha do lugar da praça, se levantasse o pelourinho e se assinalasse área para “huma Igreja capas de Receber hum competente numero de Freguezes quando a Povoação se augmentar”. Também ordenava a demarcação do terreno para a Casa de Câmara e Cadeia, que as casas dos moradores fossem delineadas “por linha recta” e que as ruas fossem “Largas e direitas”. Para a garantia da formosura da vila, as novas casas deveriam possuir a “mesma figura uniforme pela parte exterior”, ficando o espaço interno a critério do morador. A Carta Régia reproduziu o padrão português das Cartas fundacionais de inúmeras vilas fundadas no século XVIII em território brasileiro.

Diretrizes urbanísticas para as vilas cearenses.

Os documentos fundacionais das vilas de Nossa Senhora da Expectação do Icó (1736) e de Santa Cruz do Aracati (1748) no Ceará confirmaram o padrão português quanto às normas urbanísticas. Escolhido o sítio, demarcava-se o lugar da praça de

3 Após a restauração, Rossa (2000) acentua que a criação das vilas e cidades tornou-se essenciais “para a afirmação da soberania portuguesa”. Segundo Reis (1968) o processo de urbanização foi uma etapa do

processo de colonização do Brasil.

4

Ordem Régia transcrita nos Autos de elevação da vila de Quixeramobim (OLIVEIRA, 1890).

onde sairiam ruas retas e regulares. Na praça demarcar-se-ia a Casa de Câmara e Cadeia e a Matriz.

Na segunda metade do século XVIII, a ação pombalina fundou na capitania cearense seis vilas tendo como base antigos aldeamentos indígenas.

Em 1764, o Ouvidor Geral, Victorino Soares Barbosa 5 criou a Vila de Monte-mór o Novo da América, atual Baturité. A praça foi demarcada com 80 por 45 braças. Cada lado da praça possuía 48 casas e a igreja 80 por 40 palmos. Estabeleceu, ainda, o tamanho dos lotes da Casa de Câmara e Cadeia e a largura das ruas. Baturité foi a única vila cearense rigorosamente implantada segundo as diretrizes urbanísticas.

Também em 1764, Victorino Soares Barbosa criou a Vila Real do Crato 6 com uma praça central de trinta braças quadradas e uma igreja de 50 por 100 palmos; além de 11 ruas com 40 palmos e 222 moradias.

Nas cartas de instalação das outras “vilas de índios” - as vilas de Soure (Caucaia), Viçosa Real, Arronches (Parangaba) e Messejana 7 - as diretrizes ordenadoras se limitaram à determinação do lugar da praça no largo da Matriz, que devia ser “medido e balizado” para a construção dos edifícios públicos.

Após 1750, nas Cartas Régias de fundação das demais “vilas de Brancos” quase não foram explicitadas preocupações urbanísticas.

II – O lugar das vilas da Parnaíba e do Aracati nas Capitanias do Piauí e do Ceará.

O Piauí, o rio Parnaíba e o lugar da Vila de São João da Parnaíba.

5 Ver “Registros dos autos da erecção da real vila de Monte-mór o Novo da América”. Revista do Instituto do Ceará. T. V. 1891. 6 A Carta Régia da Vila Real do Crato foi parcialmente transcrita por Freire Allemão, chefe da comissão científica que correu o Ceará na segunda metade do século XIX. Anaes da Biblioteca Nacional. Localização: I, 28, 9, 10.

7 As Cartas Régias das vilas de Soure, Viçosa, Arronches e Messejana foram publicadas por Studart

(1892).

De acordo com “Dezcrição do certão do Peauhy Remetida ao Ill. mo e Rm. o S. or Frei Francisco de Lima Bispo de Pernambuco” 8 , de 1697, e escrita pelo padre Miguel de Coutinho, futuro vigário da “nova Freg. a de N. S. da Vitoria”, os primórdios da ocupação do território piauiense concentrou-se nas margens dos rios Canindé e Piauí, no sul da Capitania.

Ainda segundo o documento, o rio Parnaíba era “muito grande” sendo capaz de “se

navegar da Barra [

criar gado. O vale do Parnaíba não estava povoado “por cauza do m. to gentio bravo”;

razão porque “senão tem augmentado m. to esta povoação pellas beiras daquelles famozos Rios, Parnahiba, e Goroguca”, embora fossem “abundantes de pastos”.

athe 200 legoas ao Certão”. Em toda sua extensão era possível

]

Mas o rio Parnaíba já despertava a atenção dos agentes da Coroa no final do século

XVII.

Segundo Parecer do Conselho Ultramarino de 7 de janeiro de 1699, o governador de

Pernambuco deveria mandar “sondar o Rio Parnaíba” e saber “a qualidade do porto [ ]

de se povoar”. Em 18 do mesmo

mês, uma Carta Régia foi dirigida ao governador pernambucano recomendando - em virtude da segurança do Estado do Maranhão e do povoamento do rio Parnaíba e Paraim - o exame do “porto da Parnaíba, a entrada que tem, e se é capaz de ser fortificado, e o fundo assim do mar, como depois de entrado no rio, a largura da Barra, e os baixos que tem” (COSTA, 1974).

se é capaz de ser fortificado, e as conveniências [

]

Entretanto, tais procedimentos não foram empreendidos. Por volta de 1723, o Ouvidor- Mor Antonio Marques Cardoso 9 enumerou uma série de problemas concernentes ao território piauiense. Entre eles, a falta de porto para exportação das couramas dos gados, “o que se poderá facilitar examinandosse as possibilid. e da barra da Parnaiba”.

Em 1772, o Ouvidor Antonio José Morais Durão em sua Descripção da Capitania de S. José do Piauhi 10 afirmou que a vila da Parnaíba estava assentada a quatro léguas da costa, na margem oriental do rio Iguarassú, braço do rio Parnaíba.

8 Projeto Resgate. Documentos Avulsos do Piauí. AHU_ACL_CU_016, Cx. 1, D.2. A “Descrição do Sertão do Piauí” foi transcrita por ENNES (1938).

9

10

Projeto Resgate. Documentos Avulsos do Piauí. AHU_ACL_CU_016, Cx. 1, D. 19.

Projeto Resgate. Documentos Avulsos do Piauí. AHU_ACL_CU_016. Cx. 12. D. 684.

O Ceará, o rio Jaguaribe e o lugar da Vila de Santa Cruz do Aracati.

de 1697 sugeriu a inexistência de caminhos

pelo sertão ligando o território piauiense à Pernambuco em decorrência da presença dos “gentios bravos”. Mas segundo a carta 11 de Domingos Sertão Mafrense 12 ao

governador Geral do Brasil, Dom João de Lencastro, de 15 de janeiro de 1702, o Ceará já era atravessado no sentido oeste leste, desde os últimos anos do século

XVII.

A “Descrição do certão do Peauhy [

]

“A cidade da Bahia ia uma estrada coimbrã pela Jacobina até o rio São

Francisco [

coimbrã [

povoado distavam umas 40 léguas [

estrada para o Ceará, Rio Grande, Paraíba e Pernambuco,[ paragens havia muitos currais de gados”.

da mesma povoação partia uma

] todas aquelas

Da entrada do rio São Francisco aos currais de gado do primeiro

uma outra estrada, também

]

].

Dali se seguia para o Norte, [

]

]

Por cruzar quase todo o território cearense, a ocupação do rio Jaguaribe foi imperativa para a colonização da Capitania. A Vila de Santa Cruz do Aracati foi fundada em 1748, a quinze quilômetros da foz do Rio Jaguaribe.

III – O desenho das vilas da Parnaíba e do Aracati.

A

vila de São João da Parnaíba.

O

sítio escolhido para implantação da vila da Parnaíba foi o de Testa Branca, “um

lugarejo insignificante, com quatro fogos apenas, oito pessoas livres e onze escravas”,

a uma légua da atual cidade (COSTA, 1974). Diante das condições físicas do

povoado, o Governador do Piauí, João Pereira Caldas, instalou o pelourinho na povoação dos “Porto das Barcas”, até que no lugar de Testa Branca se construíssem as primeiras edificações para sediar a incipiente burocracia portuguesa.

Em 20 de dezembro de 1762, o governador remeteu ao senado “uma planta para regular o arruamento da vila” em Testa Branca e ordenou a “edificação de casas” para

11 A carta encontra-se transcrita por Goulart (1963). 12 O português Domingos Affonso Mafrense chegou a possuir 50 fazendas de gado no Piauí.

efetivar o estabelecimento do novo núcleo. Iniciou-se a construção de algumas moradias que não foram concluídas (COSTA, 1974).

Em 12 de outubro de 1763 13 , o Pres. do Senado da vila da Parnaíba ponderou que a “planície da Testa Branca” era a única que havia para se “pastorar os gados, que carregão as embarcaçoens, que todos os annos frequentão este Porto da Parnaíba”. Afirmou que a fundação da vila naquela planície comprometeria o comércio dos derivados da pecuária, pois se ocupando a área com “cazas” não mais seria possível continuarem “as ditas embarcações, por lhe faltar onde possão sustentar os animaes que unicam te vem buscar todos os annos mais de dez embarcaçoens que consumão m to mais de três mil boys [

Além disto, havia a “desconveniencia de serem as agoas do rio salobras em occasião de maré cheya e inda de vazia”. Existiam, também, pragas de mosquitos. Com isto

afirmava que a área era “inabitável e incapaz de morar gente”. Por fim, concluiu que a câmara era contra a transferência da vila para o sitio de Testa Branca, pois com o

das terras” e o senado perderia “a

tempo poderia haver “contenda com o Senhor [ pensão que anualm te lhe pagão os Barcos”.

]

No lugar da Testa Branca ainda não se havia demarcado o lugar da praça em 19 de outubro de 1763 14 .

“Diz o Capitam Mór Diogo Alz’ Ferreira, que elle assignou termo de fazer

huma Casa nesta Villa de São João da Parnaiba, a qual se mandou erigir no

Campo chamado Testa branca, [

senado da Camara lhe Conceda Licença, e juntam. te lhe vá assignar lugar [ ] ou demarcar a Praça da dita Villa // Pede a V.M. ces sejão servidos conceder ao Supp. te a dita Liçença e Sir-lhe assignar a Praça da dita Villa para o supp. te

o não pode fazer, sem que este nobre

],

saber o lugar, e forma da creação da dita Caza [

]”

O Ouvidor Luis José Duarte Freire 15 - no relatório de sua correição da Capitania piauiense de 13 de julho de 1765 enviado ao secretário de Estado da Marinha e Ultramar Francisco Xavier de Mendonça Furtado - afirmou ter presenciado a demarcação da vila da Parnaíba no lugar dos “Porto dos Barcos”.

“A área da mesma V. a se demarcou com sincoente brassas em quadro, o q’ foy feyto na minha presença, no meyo da qual área ficou o pelourinho, assinalandosse na parte de Leste lugar compet. e p. a o edificio da Igreja Matriz e na banda de Oeste foy taobem abalizado huma porção de terra sufficiente,

13 Projeto Resgate. Documentos Avulsos do Piauí. AHU_ACL_CU_018, Cx. 8, D. 490. 14 Projeto Resgate. Documentos Avulsos do Piauí. AHU_ACL_CU_018, Cx. 8, D. 457. 15 Projeto Resgate. Documentos Avulsos do Piauí. AHU_ACL_CU_016, Cx. 9, D. 550.

p. a cazas de Câmera e Cadea, lugar [

],

em q’ se hade edificar o templo,

repartindo-se no mesmo tempo terreno para as cazas dos Povoadores, o q’ tudo foy executado com Regularidade, e conforme a planta, partecipada p. S. or Gov. or á Câmera, achando-se a V. a ate o tempo, em q’ della me Retirey, com seis propriedades”.

lo

Quatro anos depois, em 1769, a câmara de Parnaíba proibiu qualquer construção em Testa Branca. Em 1770, a sede da vila de Parnaíba foi oficialmente instalada no sitio chamado “Feitoria”, ou “Porto das Barcas”, onde se localizava a zona de produção de carne salgada 16 (COSTA, 1974).

Em sua Descripção da Capitania de S. José do Piauhi, de 1772, o Ouvidor Durão descreveu a problemática urbana de Parnaíba.

“ o principal negócio que nela se faz consiste nos que se matam nas feitorias e estas ficam arrimadas à Vila, é natural padeçam as epidemias que quase todos os anos experimenta, porque o fétido que causa o sangue espalhado e mais miúdos de tantos milhares de reses que se matam no pequeno espaço de um até dois meses, corrompe o ar com muita facilidade e produz o dano apontado. As moscas e outras savandijas são tão inumeráveis que causam inexplicáveis moléstias aos habitantes [

O Mapa exacto da Villa d’São João da Parnaíba de 1798 (figura 01) evidencia que as diretrizes urbanísticas da Carta Régia de 1761 foram seguidas. Nele pode-se identificar a praça central, de onde saíam ruas retas, o pelourinho e a Igreja Matriz. A Cópia da Villa de S. João da Parnaíba, que mandou tirar o Ill. mo S. or Carlos Cézar Burlamaqui, Gov. or da Cap. a do Piauhi, por José Pedro Cesar de Menezes, em 1809, (figura 02) confirma a presença da praça no centro da vila com ruas retas e regulares.

16 A salga da carne foi desenvolvida na pecuária nordestina como alternativa econômica do comércio de gado em pé. A travessia do sertão fazia com que as boiadas chegassem às feiras paraibanas e pernambucanas magros, com baixo valor de revenda.

As rugosidades setecentistas no traçado atual da cidade de Parnaíba (figura 03) confirmam a determinação
As rugosidades setecentistas no traçado atual da cidade de Parnaíba (figura 03) confirmam a determinação

As rugosidades setecentistas no traçado atual da cidade de Parnaíba (figura 03) confirmam a determinação dos agentes envolvidos na implantação da vila em seguir as orientações da Carta Régia de 19 de junho de 1761.

dos agentes envolvidos na implantação da vila em seguir as orientações da Carta Régia de 19

A

Vila de Santa Cruz do Aracati.

O

parecer do Conselho Ultramarino 17 de 1746 sobre a criação da vila do Aracati

apresentou diretrizes urbanísticas a serem adotadas no momento de sua instalação. O ouvidor Manoel José de Farias foi indicado para implantá-la. Ele deveria dirigir-se ao antigo povoado do “Porto dos Barcos” e escolher um sítio livre das inundações. A vila

deveria estender “uma face [

praça, com uma “tal proporção” que não parecesse “acanhada” quando a vila aumentasse de tamanho. No seu centro estaria o pelourinho e em seu entorno, com “espaços proporcionados”, a “casa de câmara e cadeia”. Da praça sairiam ruas “retas

e iguais”, com não “menos de vinte pés de largo”. Para garantir a “formosura” de seu “aspecto público”, além da manutenção da “mesma largura das ruas”, as novas

edificações deveriam ser “pello exterior [

encargo do morador. Também o curral e o matadouro público estariam junto ao rio, a sotavento da vila, evitando o “mau cheiro” e as “imundices” provenientes das charqueadas. Tão logo a antiga igreja não mais servisse, ela deveria ser construída noutro lugar, com “adro” ou “alguma forma de praça ante a sua porta principal”. A nova igreja deveria ser grande para receber o maior número de fieis.

todas iguaes”. O espaço interno ficaria ao

ao longo do Ryo”. Em seguida se delimitaria o lugar da

]

]

O

lugar do Aracati Porto dos Barcos foi criado como vila em 10 de fevereiro de 1748 18 .

O

ouvidor Manuel José de Faria foi encarregado de sua instalação. O sítio chamado

Cruz das Almas, localizado a 1100 metros ao sul do antigo núcleo do “Porto das Barcas”, foi escolhido para sua implantação por ser mais livre das inundações. A praça demarcada media 1050 por 585 palmos.

Os três principais problemas urbanos do Aracati, na segunda metade do século XVIII, foram a presença das oficinas de carne, o arruamento público e a não padronização das fachadas da vila. A presença das oficinas criava “immudices que gerão e fétidos” que causão muitas doenças, promovendo a morte de muitos. As ruas encontravam-se totalmente desalinhada, sem continuidade, e as fachadas ainda não possuíam um padrão definido a ser seguido.

17 Projeto Resgate. Documentos Manuscritos Códices I. AHU_ACL_CU_Códices 266. Pág. 308v a 309.

18 A Carta Regia do Aracati encontra-se transcrita na Revista do Instituto do Ceará, Tomo 9.

Para o inglês Henry Koster (2003), em 1810, a vila consistia “principalmente n’uma

longa rua, com varias outras de menor importância”. Segundo o botânico inglês Gardner (1975), em 1836, a vila resumia-se “quase só de uma rua longa e larga”, com

“quatro belas igrejas” e casas, com “geralmente [

descrições, a imagem que fica é a de uma grande rua sem a praça.

dois andares”. Em ambas as

]

A presença da rua comprida paralela ao rio Jaguaribe é confirmada na Planta do porto e da Vila do Aracati (figura 04) elaborada pelo engenheiro-mor do Reino Antonio José da Silva Paulet em 1815 e na Planta da Barra e rio de Jaguaribe (figura 05) do Capitão do Imperial Corpo de Engenheiro João Bloem, em 1825, que contém em detalhe o desenho do Aracati. O desenho de Paulet apresenta uma vila extremamente alinhada, reta e sem interrupções, não chegando às minúcias dos becos e travessas que cortavam a rua principal. No risco de Bloem, o alinhamento não é tão rigoroso e são demarcadas as várias transversais que cortavam a rua principal. Também no desenho de ambos não há sinal da praça, demonstrando que ela não foi formalmente estruturada.

principal. Também no desenho de ambos não há sinal da praça, demonstrando que ela não foi
principal. Também no desenho de ambos não há sinal da praça, demonstrando que ela não foi

As rugosidades setecentistas no traçado atual da cidade do Aracati (figura 06) confirmam a não determinação dos agentes envolvidos na implantação da vila, em seguir as orientações urbanísticas lusitanas.

da vila, em seguir as orientações urbanísticas lusitanas. IV - Comparando experiências. As consonâncias. A atividade

IV - Comparando experiências.

As consonâncias.

A atividade econômica da pecuária atribuiu forma e sentido à Capitania do Piauí e do Ceará e às vilas litorâneas da Parnaíba e do Aracati. A maioria das vilas de ambas as Capitanias estavam situadas nos caminhos das boiadas. No entorno do “Porto das Barcas” de Parnaíba e do Aracati produzia-se carne seca e couramas que eram transportados para Recife, Salvador e Rio de Janeiro.

As Cartas Régias que criaram as vilas seguiram o padrão dos demais documentos fundacionais das vilas brasileiras setecentistas.

Embora tendo sido o lugar de Testa Branca o escolhido para a implantação da vila da Parnaíba, o núcleo organizou-se no entorno da antiga povoação do “Porto das Barcas” nas margens do rio Iguarassú.

No caso da vila do Aracati, o lugar escolhido para a implantação do núcleo foi o Sítio Cruz das Almas. Contudo, a vila organizou-se no entorno do velho povoado jaguaribano, também denominado “Porto das Barcas”.

Tanto Testa Branca como o sítio Cruz das Almas estava distante dos lugares de produção da carne seca, localizados próximos aos antigos núcleos do “Porto das Barcas”, onde as vilas foram de fato instaladas.

As dissonâncias.

A vila de Parnaíba foi criada em conformidade com as diretrizes urbanísticas da Carta Regia de 19 de junho de 1761. A praça ocupava uma posição central no núcleo e estruturava a malha urbana. Na praça achava-se o pelourinho e em seu entorno a Igreja Matriz e a Casa de Câmara e Cadeia. Da praça saiam ruas retas e regulares.

A vila do Aracati não foi criada em plena conformidade com as diretrizes urbanísticas do Parecer Ultramarino de 1746 e da Carta Regia de sua fundação de 1748. No início do século XIX, a vila constituiu-se de uma única rua, paralela ao rio Jaguaribe. A praça não estruturou a malha urbana. Tanto a Casa de Câmara e Cadeia como a Igreja Matriz não se encontravam na praça.

Uma questão de escala - A importância geopolítica e econômica de ambas as Capitanias e vilas para a ocupação do território brasileiro.

Primeiro, na escala do território brasileiro, a diferente importância geopolítica de ambas as Capitanias no contexto da ocupação lusitana em direção à América Espanhola.

Embora fosse o Piauí a última fronteira sertaneja na direção do Maranhão, era também a porta de entrada para Estado do Maranhão e Grão Pará dos boiadeiros

provenientes da Bahia. O Ceará não era nada mais do que uma imensa zona trânsito denominada de sertão.

Tanto a situação geográfica do Piauí para a geopolítica expansionista como o despertar das possibilidades econômicas da Capitania levaram à sua emancipação da Capitania do Maranhão, em 1758, 41 anos antes da emancipação do Ceará de Pernambuco, ocorrida somente em 1799.

A emancipação política do Piauí revelou a urgência de sua representação cartográfica; ou seja, investimento de técnica. Em 1760, o engenheiro militar Henrique Antonio Galuzzi 19 foi encarregado de cartografar o território piauiense. Segundo o engenheiro 20 , a Capitania foi desenhada com extremo rigor geométrico.

“medi, e arrumei exactam. te , e configurei geometricam. te toda a Costa maritima, q’ medea entre a Cidade do Para, e a do Maranhão, fazendo

Parti

repetidas observações de Latitudes por hu methodo exactissimo [

daquella Capitania p. a o Piauhy já na Idea de empreender desde logo a

construção do Mappa Geografico [

observando miudam. te os rumos das

estradas, medindo suas distancias, e tomando freqüentem. te as alturas p. a

Latitude, e fazendo todas as observações de Longit.

; e logo no principio deste ao

a as partes do Nascente, de

acabei de adquerir todos

os elementos precizos p.

onde atravessando as cabiceiras de m. tos Rios [

Sul athé o Parnaguá [

No fim do ano passado foy ao Norte da Capp.

]

]

de

q’ me foy pussivel [

nia

]

Depoes da Pascoa fou p.

]

a a cosntrucção do Mappa Geografico de toda a

].

Capp. nia o qual logo entrei a por em medida, e arrumar, [

Até 1799, quando foi separada da Capitania de Pernambuco, a Capitania do Ceará não possuía suas fronteiras políticas definidas. O engenheiro naturalista João da Silva Feijó foi o autor da primeira Carta Geográfica do Ceará, no início do século XIX. Em decorrência do desconhecimento técnico ou pela inexistência de instrumentos capazes de representar com rigor o território, a Capitania foi desenhada de uma forma bastante alterada, “achatada”, principalmente na região sul. O desenho do Ceará só adquiriu os contornos de sua atual configuração territorial após 1812, nas cartas do engenheiro Antonio José da Silva Paulet.

Em segundo lugar, na escala da região nordeste, apontamos a diferente importância econômica das Capitanias do Piauí e do Ceará para Portugal.

19 O italiano Galuzzi foi um dos estrangeiros contratados no reinado de D. João V para servir na demarcação das fronteiras com a América Espanhola. Também é de sua autoria a “Planta da praça e villa de S. José de Macapá”. Ver Viterbo, p. 407 a 410. 20 Projeto Resgate. Documentos Avulsos Piauí. AHU_ACL_CU_016, Cx. 7, D. 437.

O sul do Piauí desde o final do século XVII estava interligado por estradas das boiadas

com a cidade de Salvador. O território cearense foi ocupado somente no século XVIII.

A “Descripção do certão do Peauhy [

fundamentais para os primórdios do comércio interno brasileiro, já chamando a atenção do Estado Português. Com a morte de Domingos Mafrense Sertão em 1711 e

de 1697 enumerou 129 fazendas piauienses,

]

a doação por testamento de trinta fazendas para os jesuítas do Colégio da Bahia, o

Estado Português definitivamente tomou conhecimento das possibilidades econômicas

da pecuária na Capitania piauiense.

Um ano antes da expulsão dos jesuítas do Brasil, em 1759, o secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Tomé Joaquim da Costa Corte Real, em seu Ofício de 2 de Agosto de 1758 21 ao governador do Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado justificou a elevação do Piauí à Capitania autônoma, reconhecendo o território piauiense como importante para subsistência de outras capitanias, além da urgência de proteger os sertões da dominação dos jesuítas.

“a importância de que he a Capitania do Piauhy para Subsistencia da Bahia e

fortificarnos nos Centros dos

Certens do Brazil depois que se manifestou que por elles pertensião aruinar e dominar aquelle Estado so Religiozos Jizuitas”.

Pernambuco; e ao muito que importa [

]

O diferenciado investimento tecnológico.

As Capitanias do Ceará e do Piauí ocupavam uma parte da imensa área de transito denominada de sertão.

Elas não foram fundamentais para a ocupação lusitana em direção à América Espanhola devido à dificuldade na travessia do sertão, a maior facilidade de se alcançar a região amazônica por mar saindo diretamente de Lisboa para Belém ou São Luis e em decorrência da pouca lucratividade da pecuária se comparada com o açúcar e a mineração.

21 Projeto Resgate. Documentos Avulsos Piauí. AHU_ACL_CU_5, D. 359.

Contudo, elas motivaram interesses distintos no contexto local da estratégia expansionista portuguesa. Na esfera econômica e geopolítica, o território piauiense despertou uma maior atenção do Estado português que o Ceará.

O desenho da vila da Parnaíba, a existência de uma cartografia urbana e territorial setecentista no Piauí, além da presença do engenheiro da importância de Galuzzi na Capitania piauiense, sinaliza para o diferente grau de interesse político lusitano diante das duas Capitanias e para um diferenciado investimento técnico no domínio e conhecimento da região, a despeito das semelhanças nos processos de organização espacial de seus territórios e de suas vilas.

No Piauí, o mesmo investimento na elaboração da cartografia de delimitação de suas fronteiras com o Estado do Maranhão e Grão Pará no ano de 1760, 40 anos antes da definição dos limites territoriais cearenses, pode ser observado no diferenciado rigor tecnológico na implantação das diretrizes urbanísticas de ambas as vilas e na execução da cartografia da vila da Parnaíba. Os procedimentos rigorosos expressos no registro cartográfico do espaço da vila ainda no século XVIII, ao contrário da vila do Aracati cartografada somente no século XIX, reforçam a sua maior importância no domínio territorial se comparada com a vila aracatiense.

A vila do Aracati não passou de um entreposto comercial dos derivados da pecuária do sertão cearense, cuja rentabilidade era bastante inferior que a rentabilidade da economia açucareira e da mineração.

A vila da Parnaíba além de ser o último porto do litoral norte nordeste do Estado do Brasil, situado na foz do rio Parnaíba que fazia fronteira com o Estado do Maranhão e Grão-Pará, era a no litoral nordestino, a porta de entrada do território brasileiro situado para além do sertão.

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