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Algumas considerações sobre a relação emocional entre as pessoas e o entorno projetado Some considerations

Algumas considerações sobre a relação emocional entre as pessoas e o entorno projetado

Some considerations on the emotional relationship between people and the designed world

Damazio, Vera; Drª, PUC-Rio, vdamazio@design.puc-rio.br; Dal Bianco, Bianca; bianca@dalbianco.com.br; Lima, Júlia; juliapclima@terra.com. br; Menezes, Cristiane de; menezescris@hotmail.com; Mestrandas em Design, Departamento de Artes, PUC-Rio.

Resumo

Este artigo traz uma reflexão teórica sobre a relação emocional dos usuários com o entorno construído, examinando os sentimentos presentes em algumas experiências de uso. Ele tem como cenário três situações singulares de investigações em andamento conduzidas através de métodos antropológicos de pesquisa, incluindo observação participante e entrevistas com usuários: (1) o processo de projetar em parceria; (2) o uso de algo pela primeira vez; (3) e marcas que trazem boas lembranças. Nesta perspectiva, sentimentos de co-autoria, auto-dependência e boas recordações surgem como pontos cruciais para entender como os artefatos são investidos de outros significados. Este artigo apresenta autores de distintas áreas do saber frequentemente citados pelo campo do Design e Emoção.

Palavras Chave: emoção, memória afetiva, relação emocional de uso.

Abstract

This paper brings a theoretical reflection about user-product emotional relationship and examines the feelings surrounding some user experiences. It takes as its basis three special ongoing situations and studies conducted through anthropological research including participatory observation and users interviews: (1) the process of designing in

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partnership; (2) the use of something for the first time; (3) and marks which bring back good memories. In this light, feelings such as co-authorship, auto-dependence and “memorability” emerge as crucial categories for understanding how artefacts are endowed with new meanings, enabling them to mediate change or even structure new outlooks. This article presents authors from distinct areas of knowing frequent cited by the field of the Design and Emotion.

frequent cited by the field of the Design and Emotion. Keywords : emotion, affective memory, useful

Keywords: emotion, affective memory, useful emotional relationship

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Algumas considerações sobre a relação emocional entre as pessoas e o entorno projetado Apresentação Os

Algumas considerações sobre a relação emocional entre as pessoas e o entorno projetado

Apresentação

Os artefatos têm participação ativa na vida cotidiana. Eles organizam práticas sociais, influenciam comportamentos, incorporam metas e se tornam inseparáveis daquilo que somos. Muito mais do que forma ou função, as coisas têm vida social, são palco de nossas experiências e são impregnadas de emoções. (Appadurai, 1986; Coelho, 2002; Csikszentmihalyi e Rochberg-Halton, 1991).

O encontro do Design e da Emoção estabeleceu um dos mais recentes e promissores campos da atividade: o “Design Afetivo” ou “Design Emocional” 1 . De acordo com grande parte dos adeptos desta nova abordagem, os produtos do Design têm competência emocional e desencadeiam toda sorte de emoções em seus usuários (Damásio, 2004). Assim sendo, objetos, marcas, mensagens, ambientes e todos os demais produtos que constituem o entorno construído não apenas podem, como devem ser projetados com foco na promoção de sentimentos positivos e condutas socialmente responsáveis.

O estudo da emoção no campo do Design é, portanto, novo e vem sendo conduzido a partir de variadas abordagens metodológicas e da interlocução de autores de formação igualmente variada.

Este artigo tem como objetivo colaborar com aparato teórico para o estudo da relação afetiva dos usuários com o entorno projetado, apresentando autores como o psicólogo Mihaly Csikszentmihaly e o neurocientista António Damásio recorrentemente presentes nos estudos deste campo. Para tanto, relata três situações que vem sendo investigadas através de métodos de pesquisa antropológica: (1) o processo de projetar em parceria; (2) o uso de algo pela primeira vez; (3) marcas que trazem boas lembranças.

Sobre Design em Parceria

Vera tem uma singularidade: é uma exímia nadadora, mas não pode contar com suas pernas para se locomover. Vera tinha um desejo: um objeto que a ajudasse a se deslocar pela areia da praia até o mar sem ser carregada no colo. Algo simples, leve e que modificasse de modo discreto o meio a sua volta. Vera procurou o Laboratório de Investigação em Living Design (LILD) da PUC-Rio e seu modo singular de projetar em parceria.

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Depois de muitos encontros, conversas, trocas, testes e protótipos, o seu desejo tomou a forma de um objeto “deslizador” de coeficiente mínimo de atrito com a areia. Vera relembra o processo do qual participou ativamente:

Vera relembra o processo do qual participou ativamente: Nós fizemos vários testes e fomos à praia

Nós fizemos vários testes e fomos à praia várias vezes. Os primeiros objetos não foram muito bons e fomos mudando até chegar a um

) Eu

bom resultado. Eu o usei muito e ainda o tenho guardado. ( ajudei a construir este objeto, disto eu não tenho dúvidas.

Assim como Vera, muitas outras pessoas procuraram o LILD e foram beneficiadas pela prática do Design em Parceria. Como bem observa José Luiz Mendes Ripper - coordenador do LILD -, projetar a partir de demandas apresentadas pelas pessoas pode revelar situações impensadas e necessidades singulares. É o que ilustra seu relato:

Lembro de um projeto que desenvolvemos com uma menina que não podia mover as mãos e queria pegar um picolé e passar

batom sem ajuda. ( ) Este negócio de necessidade básica é muito relativo. Muda de pessoa para pessoa.

Praticamentetodasasnossasatividadescotidianassãointermediadas por objetos. Eles estão a nossa volta diariamente e a todo o momento, facilitando ou dificultando nossas ações. Isso posto, há de se concordar que “bom desenho” é aquele que permite que nossas atividades cotidianas sejam realizadas de maneira espontânea, como se não estivessem sendo mediadas por objetos. (Frascara, 1998). Para o designer argentino Jorge Frascara, a atividade do Design não está na produção e distribuição de seus produtos e sim no seu efeito sobre as pessoas. Considerando o campo das mensagens visuais, Frascara (1998:23) sugere que a atividade de Design se ocupe da construção de coisas “com o propósito de afetar o conhecimento, as atividades e o comportamento das pessoas”. Entre as estratégias práticas apresentadas para que o designer mude de forma efetiva a vida das pessoas, Frascara ressalta as associações entre profissionais e seu público alvo. Para o autor:

É muito importante ter o público como parceiro em todo o processo

de mudança que o afete. (

Se não existe uma associação entre

produtores e intérpretes em relação aos objetivos desejáveis, as

atitudes não mudam. (Frascara, 1998:50).

)

Enfatizando a importância do trabalho em parceria e defendendo os benefícios desta prática, Frascara completa:

São nas situações de associações onde as relações são éticas, onde os melhores talentos rendem seus frutos, onde se pode realizar projetos complexos e ambiciosos e onde os designers podem

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desempenhar o papel de catalisadores e colaboradores na criação de um ambiente cultural e conceitual

desempenhar o papel de catalisadores e colaboradores na criação de um ambiente cultural e conceitual em constante desenvolvimento. (Frascara, 1998:50).

“Ter o público como parceiro” está no “nome”, na prática e na razão de ser do Design em Parceria. E trata-se de uma ação presente não somente no desenvolvimento do projeto, mas também e, principalmente, na formulação do problema como ilustra o relato de Vera:

A idéia do deslizador surgiu porque eu queria um objeto que deslizasse pela areia até chegar à água do mar. Até onde eu soubesse, este objeto não existia. Eu gostaria, então, que existisse. Foi um projeto em conjunto, no qual estudávamos juntos as possíveis soluções.

O processo do Design em Parceria caracteriza-se pelo fazer “com”,

ao contrário de “por” ou “para” as pessoas e, também, pela convivência

entre designers e futuros usuários e por uma dinâmica em que cada participante influencia e é influenciado pela experiência e ponto de vista dos outros. Caracteriza-se, ainda, pelo desenvolvimento de objetos únicos

e singulares que atendem necessidades igualmente únicas e singulares,

mas nem por isso menos necessárias. Como esclarece Ripper (in Couto, 2003) “trata-se de um modo de projetar que prioriza a lógica do usuário e

não a lógica da indústria”.

O resultado deste processo é fruto do que poderíamos chamar de

autoria partilhada. Em resumo, o Design em Parceria não apenas tem o

público como parceiro, mas como co-autor.

E como é a relação das pessoas com algo que passou a existir com

sua colaboração direta? O que as pessoas sentem quando são co-autoras de um processo de Design?

Sobre o sentimento de co-autoria

Em artigo intitulado Design and Order in Everyday Life 2 , Mihaly

Csikszentmihalyi (1995) comenta os resultados de sua pesquisa sobre o significado dos objetos domésticos. O pesquisador conta que no princípio buscava compreender o significado dos objetos de arte para as pessoas

e de que forma eles traziam ordem para suas vidas. No entanto, em suas

entrevistas iniciais, constatou que os objetos de arte não pareciam ter grande importância na vida de seus espectadores. Segundo Csikszentmihalyi, mesmo nas raras ocasiões em que os entrevistados mostraram-se sensíveis aos atributos estéticos de seus objetos de arte, estes não se apresentaram como especiais por causa de sua qualidade estética, mas pela capacidade do entrevistado de reconhecer esta qualidade. O autor explica que apreciar um objeto é um modo de

participar de sua criação. O que apresenta como sentimento de “co- autoria” promovido por esta apreciação é o que levava um trabalho de arte a ter importância na vida de alguém.

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Csikszentmihalyi constatou, também, que as pessoas demonstravam forte apego por objetos domésticos sem qualquer valor estético e passou

a investigar suas razões. Dentre as situações observadas, o pesquisador destacou o envolvimento das pessoas com os objetos que elas próprias construíam. Este sentimento de co-autoria é exemplarmente ilustrado pelo depoimento de Vera a respeito do deslizador que ajudou a construir:

de Vera a respeito do deslizador que ajudou a construir: Eu gostava muito de nadar e

Eu gostava muito de nadar e fiquei muito contente com o deslizador, fiquei satisfeita. Porque foi uma coisa que eu não poderia ter comprado pelo fato de não existir. Então a única maneira de eu tê-lo era trabalhando para isso. Eu acho que este trabalho que nós fizemos foi um sucesso.

As palavras de Vera demonstram, ainda, que o Design é uma atividade que, de fato, pode transformar realidades existentes em outras mais desejáveis. (Frascara, 1998:19). Pode-se, então, concluir, dos resultados obtidos até o momento, que o Design em Parceria - e sua capacidade ímpar de atender o “singular” – é uma importante via para a construção de um entorno físico mais inclusivo e plural.

Sobre o primeiro e o novo

Romeu, médico recém formado, gosta muito de carros esportivos, porém sempre teve que dividir os carros com sua mãe. Quando entrou na residência médica, todos seus colegas tinham um carro. Ele também

queria seu próprio carro, pois precisava se identificar com o seu grupo. Conversou com seu pai sobre a compra do carro, mas na época ele não pode ajudá-lo. Então Romeu, com seus próprios recursos, encontrou

o carro que queria: um carro usado, mas que para ele era como novo, conforme comenta:

O primeiro carro que eu comprei com o meu dinheiro foi um carro

Era o

carro que eu sempre quis ter, tinha tudo que eu precisava. (

melhor de tudo, eu não precisei de ninguém pra comprar. Comprei

com o meu dinheiro, diferente dos outros que eu tive carro muito especial para mim.

E o

usado, mas pra mim era novo. Estava em estado de zero. (

)

)

Foi um

O sentimento de Romeu em relação a um objeto comprado com seus próprios esforços está evidenciado também no relato de uma mulher em relação a um vestido:

) (

Que sentimento de alegria, de auto-dependência, de auto-confiança

foi criado por esse esforço. (Eisler in Stallybrass, 2004:32).

o primeiro vestido que foi ganho por meus próprios esforços!

Tal como nos ajuda a entender Peter Stallybrass, “o esforço”

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na aquisição de um objeto é um dos responsáveis pela alegria, e mais precisamente, pelo

na aquisição de um objeto é um dos responsáveis pela alegria, e mais precisamente, pelo sentimento de independência que pode ser gerado a partir da relação das pessoas com seus objetos. O sentimento de independência parece ter enorme importância na vida cotidiana e na nossa relação com o entorno projetado. Conforme defende o neurocientista António Damásio (2004), a partir do momento que nos tornamos independentes passamos a decidir o que queremos ter a nossa volta. Para o autor, o ato de escolha e de tomada de decisões passa pelas emoções. Em passagem bastante ilustrativa sobre a relação entre emoção, decisão, escolha e os objetos que nos cercam, Damásio afirma que:

) (

ou não fazer parte do nosso ambiente, quais os objetos e quais as

situações nos quais queremos investir tempo e atenção. (Damásio,

2004:59-60).

podemos decidir quais os objetos e as situações que podem

Ao longo de nossas vidas estamos sempre tomando decisão em relação aos objetos e vivendo experiências novas intermediadas por eles. Todas as pessoas passam pela experiência de usar algo pela primeira vez. Como bem observa Damásio:

Seja como for, um dos sinais da nossa chegada à idade adulta é o de que poucos objetos neste mundo, ou mesmo nenhum, mantêm qualquer inocência emocional. É muito difícil imaginar objetos emocionalmente neutros. (Damásio, 2004:64).

Os objetos, não raro, “inauguram” novas fases: garfo e faca, bicicletas sem rodinha, relógios de ponteiro, estojos de maquiagem, barbeadores, sapatos de salto alto, carros, fogões, bengalas. Os objetos são importantes agentes nos “rituais de passagem” como ilustram os relatos de duas jovens universitárias a seguir:

Eu estava na 3ª série. Eu lembro quando a minha turma deixou de usar lápis pra usar caneta. Lembro do anúncio de que isso iria acontecer, sabe? Foi muito marcante. Foi como se fosse assim

um ritual de passagem: vocês cresceram então vão usar a caneta ao invés do lápis! (Gabriela)

um

Comigo foi diferente. Eu estava na 3ª série também, mas a mudança do lápis pra caneta foi meio torturante, porque nunca chegava a

minha vez

letra estivesse bonita e a minha letra era linda, maravilhosa, toda redondinha. Só que várias pessoas passaram na minha frente. ( ) Um dia a professora disse: a partir de amanhã você pode trazer a

parece que

caneta que você já pode usar. Eu senti um alívio, ai

A professora decidia quem podia usar caneta se a

foi um ritual de passagem, eu também senti: nossa, já não sou mais criança. (Elaine)

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A passagem do uso do lápis para o da caneta, em ambos os relatos, foi percebida como um ritual de passagem, evocando o sentimento diretamente associado à vontade de “não ser mais criança” ou de estar crescendo, amadurecendo. Vale destacar aqui a importância dos objetos que participam de nossas primeiras experiências de uso. Afinal, nossas decisões parecem estar diretamente influenciadas pelos sentimentos evocados pelo uso de alguma coisa pela primeira vez. Manuela conta que não sabia que profissão ia seguir até usar pela primeira vez o computador que ganhou de sua mãe:

A primeira vez que eu liguei o IMac que minha mãe me deu e vi aquela interface, eu pensei: é isso que eu quero fazer na minha

vida! Quero fazer qualquer coisa relacionada a esse computador!

foi muito

emocionante. Desde então eu sou completamente apaixonada,

muito apaixonada pela empresa…

(

)

eu me senti muito estimulada, muito motivada

(

)

( ) eu me senti muito estimulada, muito motivada ( ) Manuela decidiu ser designer. E

Manuela decidiu ser designer. E seu depoimento ficou como exemplo de que o “bom design” é aquele que proporciona experiência de uso gratificante. Tão gratificante que dos objetos não queremos mais nos separar

Sobre marcas que marcam

Quando criança, Júlia era fascinada pela latinha de fermento Royal.

Lembra com carinho de sua mãe fazendo bolo e ela, olhando a latinha bem de perto, encantada com o rótulo que traz em um círculo o desenho de

Imaginava que um dia

conseguiria ver a última latinha! Hoje, quando quer fazer um bolo, Júlia usa o mesmo fermento. E a cada bolo toda aquela cena parece se repetir:

sua mãe na cozinha, ela olhando a latinha bem de perto, o cheiro de bolo no ar, sua casa, sua infância. Muitos têm uma história de “marca que marca” para contar: do refrigerante preferido, da primeira bicicleta, do mingau que comia na casa da avó. Muitas marcas fazem parte de nossas vidas: acordamos de manhã e lá estão elas nos “olhando”. No creme dental, na caixa de leite, na roupa que vestimos, nos outdoors nas ruas, estamos de fato cercados por marcas. Elas são “espectadoras” das cenas de nosso cotidiano, e algumas vezes coadjuvantes ou até mesmo personagens principais de passagens

outra latinha e dentro desta, outra e outra e outra

importantes de nossa história. Mas como escolhemos as marcas com as quais passamos a conviver diariamente, em casa, no trabalho, com a família, com os amigos? Por que algumas passam a ser tão queridas? Os estudos de Damásio (1996) sobre o papel das emoções nos processos de tomada de decisão podem trazer grandes contribuições para a busca destas respostas entre outras formuladas no campo do Design e

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Emoção. Em seu livro O Erro de Descartes , Damásio defende a idéia de que

Emoção. Em seu livro O Erro de Descartes, Damásio defende a idéia de que o grande filósofo errou ao afirmar que razão e emoção seriam coisas totalmente distintas. O autor esclarece que quando começou a escrever esse livro tinha o intuito de:

) (

de nós pensa que é ou desejaria que fosse, e que as emoções e os sentimentos podem não ser de todo uns intrusos no bastião da razão, podendo encontrar-se, pelo contrário, enredados nas suas teias, para o melhor e para o pior. (Damásio, 1996:12).

propor que a razão pode não ser tão pura quanto a maioria

Embasado em suas descobertas, Damásio acrescenta que os sentimentos também participam das escolhas que fazemos, influenciando nossas decisões para o bem ou para o mal, de acordo com as experiências passadas a que estão associados. Como explica Damásio (1996:15):

“os sentimentos acabam por se tornar ‘qualificadores’ dessa coisa que é percebida ou recordada.” Elaborando a idéia de que é impossível tomar decisões somente com base na razão, Damásio explica que quando precisamos fazer

escolhas, tendemos a imaginar cenários futuros, a avaliar as conseqüências das possíveis opções e a analisar suas vantagens e desvantagens. Quando uma opção provoca uma sensação desagradável, funciona como um alerta para o perigo daquela escolha e tendemos a eliminá-la. Quando a opção provoca uma sensação agradável, funciona como um incentivo e tendemos a considerá-la. Damásio chama essas sensações boas ou ruins,

de marcadores-somáticos. Tal como explica:

Como a sensação é corporal, atribuí ao fenômeno o termo técnico de estado somático (em grego, soma quer dizer corpo); e, porque

o estado “marca” uma imagem, chamo-lhe marcador. (Damásio,

1996:205).

Damásio acrescenta que os marcadores-somáticos aumentam

a previsão e a eficiência do processo de decisão, uma vez que reduzem

o número de opções e ainda nos protegem de prejuízos futuros. Resumindo:

Os marcadores-somáticos não tomam decisões por nós. Ajudam

o processo de decisão dando destaque a algumas opções, tanto

adversas como favoráveis, e eliminando-as rapidamente da análise subseqüente. Você pode imaginá-los como um sistema de qualificação automática de previsões, que atua, quer queira ou não, para avaliar os cenários extremamente diversos do futuro que estão

diante de você. (Damásio, 1996:206).

Quando associamos determinadas situações ou objetos a sensações agradáveis ou desagradáveis, essas sensações ficam registradas, sendo

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acessadas pela mente toda vez que nos encontramos numa situação de escolha. Nossas escolhas, portanto, seriam influenciadas por experiências anteriores, emoções já vividas. Levando a discussão para o contexto das marcas, poderíamos afirmar que nossas escolhas são influenciadas por sentimentos que associamos à marcas. O sabão em pó que a mãe usava e o sentimento de zelo, de ser querido; o picolé que o pai comprava antes do almoço e o sentimento de cumplicidade; o extrato de tomate que a avó usava em sua deliciosa macarronada e o amor com que ela cozinhava para a família; o primeiro carro e o sentimento de independência. Fácil localizar em nossas lembranças exemplos desta natureza e concordar que muitas de nossas escolhas são influenciadas por marcadores- somáticos. Porém, Damásio alerta que:

por marcadores- somáticos. Porém, Damásio alerta que: Ao associar emoções positivas com pessoas, objetos ou

Ao associar emoções positivas com pessoas, objetos ou lugares, de forma indiscriminada e freqüente, acabamos por nos sentir mais tranqüilos do que deveríamos em relação a muitas situações. (Damásio, 1996:193).

As associações afetivas que estabelecemos com algumas marcas podem ser muito perigosas, chegando a provocar perda do senso crítico. É como se essas marcas nos fizessem sentir mais seguros, prejudicando nossa capacidade de avaliar seus aspectos negativos, tal como quando estamos apaixonados por alguém e “apagamos” seus defeitos. O médico Dráuzio Varella, em seu artigo Mercurocromo, Merthiolate e outras crenças, reforça o alerta de Damásio:

Quando o Ministério da Saúde resolveu proibir produtos que contêm mercúrio em sua formulação, o leitor reclamou no jornal:

“Que mal pode haver neles, se minha avó já os usava”. 3

Mesmo quando sabemos que o produto pode ser prejudicial à saúde, os sentimentos que associamos à marca falam mais alto. O depoimento de um internauta reforça ainda mais essa idéia:

Acabaram com o Mirabel

Agora foi o Merthiolate

O que mais eles vão tirar de nós? 4

O Hipoglós

Fácil acreditar que existe uma relação estreita entre nossas experiências mais significativas e a escolha das marcas que farão parte de nosso cotidiano. As marcas com as quais escolhemos viver são marcas, também, destas experiências e dos sentimentos que elas evocam. Fácil, ainda, acreditar que as marcas, que se importam com nosso bem estar, têm muito mais chances de acionar favoravelmente nossos marcadores- somáticos. Fácil concluir, finalmente, que “boa marca” é aquela que promove experiências memoráveis e o bem estar de seu público, da sociedade e do planeta.

Considerações finais

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Os resultados parciais de nossas investigações indicam que o estudo da relação emocional entre as

Os resultados parciais de nossas investigações indicam que o estudo da relação emocional entre as pessoas e o meio material encontra valioso aparato metodológico e teórico no pensamento de autores de campos variados do saber e, sobretudo, na fala dos usuários. Revelam, ainda, que os artefatos não existem fora das relações sociais. Eles são mediadores das ações da vida cotidiana, elos entre as pessoas, testemunhas de nossas vivências e como tal evocam sentimentos de toda ordem. Eles trazem noções cruciais para o Design e subsídios inéditos para sua capacidade de transformar as realidades existentes em outras mais desejáveis e dar existência não apenas a objetos e mensagens, mas a sentimentos positivos e, sobretudo, a uma sociedade mais responsável e fraterna.

Referências

APPADURAI, A. Introduction: commodities and the politics of value, in Appadurai, Arjun, (ed.) The Social Life of Things – commodities in cultural perspective. Cambridge: Cambridge University Press, 1986.

COELHO, Luiz Antonio. Tal objeto tal dono. In: LOPES, Luiz Paulo da Moita; BASTOS, Liliana Cabral (orgs.). Identidades: recortes multi e interdisciplinares. São Paulo: Mercado de Letras, 2002.

COUTO, Rita Maria. Memórias sobre o Design em Parceria na PUC- Rio. Editorial, Rio de Janeiro, 2003.

CSIKSZENTMIHALYI, M. “Design & Order in Everyday Life”. In:

MARGOLIN, V. & BUCHANAN, R. The Idea of Design. Cambridge:

MIT Press, 1995.

CSIKSZENTMIHALYI, M. e ROCHBERG, E. The Meaning of Things. New York, Cambridge University Press, 1991.

DAMÁSIO, António R. O Erro de Descartes: Emoção, Razão e o Cérebro Humano. Companhia das Letras, São Paulo, 1996.

Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

FRASCARA, Jorge. Diseño gráfico para la gente. Comunicaciones de masa y cambio social. Ediciones Infinito. Buenos Aires, 1998.

NORMAN, Donald. Emotional Design: Why we love (or hate) everyday things. New York: Basic Books, 2004.

RIPPER, José Luiz Mendes. Entrevista. 2005, (transcrita).

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STALLYBRASS, Peter. O casaco de Marx: roupas, memórias e dor. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.

roupas, memórias e dor. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. VARELLA, Dráuzio. Merthiolate, Mercurocromo e outras

VARELLA, Dráuzio. Merthiolate, Mercurocromo e outras crenças.

Disponível em: http://www.drauziovarella.com.br/artigos/mercurocromo.asp/

Acesso em 14 de Março de 2006, às 22h46min.

Blog Stimpy. Disponível em: http://www.stimpy.com.br/2001_04_01_old. shtml/

Acesso em 14 de Março de 2006, às 23h25min. (Footnotes)

1 O primeiro encontro exclusivamente voltado para a discussão da relação entre emoção e design e seus efeitos aconteceu em 1999 na Holanda. O evento organizado pela Escola de Desenho Industrial da Universidade de Tecnologia de Delft e reuniu pesquisadores de áreas distintas do conhecimento, designers e representantes do setor produtivo de variados países. Na ocasião, os participantes fundaram também a “Design & Emotion Society”, que estabeleceu como missão a promoção do diálogo entre pesquisadores, designers e as indústrias e a integração de temas relevantes sobre experiência emocional com a prática do design. Conferir www.designandemotion.org

2 Design e Ordem na Vida Cotidiana (tradução nossa).

3 Conferir: http://www.drauziovarella.com.br/artigos/mercurocromo.asp

4 Conferir : http://www.stimpy.com.br/2001_04_01_old.shtml

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