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INSTITUTO UNIVERSITÁRIO DE PESQUISAS DO RIO DE JANEIRO

MARCIA COELHO DE SEGADAS VIANNA

A Discussão Histórica da Informalidade:

Significados e Formas de Representação

Rio de Janeiro

2006

MARCIA COELHO DE SEGADAS VIANNA

A Discussão Histórica da Informalidade:

Significados e Formas de Representação

Tese apresentada

Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro como requisito parcial para a obtenção do grau de Doutor em Ciências Humanas: Sociologia

ao

Rio de Janeiro

2006

DEDICATÓRIA

“Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isso não tem importância. O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado”.

Shakespeare Sonhos de uma noite de verão

Ao meu pai, Manoel (in memoriam), e à minha mãe, Thereza, por terem sempre me estimulado a cursar o Doutorado.

Ao José, por me apoiar e partilhar comigo esta realização de estudo, importante para a minha vida e para o meu aprimoramento profissional.

AGRADECIMENTOS

De início, quero manifestar o meu agradecimento a todas as pessoas que me auxiliaram, não só na área do conhecimento técnico, mas também com a compreensão e o carinho tão necessários nesta etapa importante da minha vida. De forma especial, à minha orientadora, Maria Celi Scalon, por ter inicialmente me aceito como sua orientanda, permitindo a minha inscrição no IUPERJ, em função do

aval dado ao meu projeto, e a possibilidade de concorrer a uma vaga nesta Instituição, sonho sempre acalentado e julgado por mim como improvável, até então. Reitero o meu reconhecimento à Celi, pela percepção fornecida através de seu “olhar”, sempre com uma leitura crítica e atenta, de questões muitas vezes por mim julgadas como claras e definitivas.

A todos os professores do IUPERJ, que tive a oportunidade de conhecer e de

quem pude obter contribuições e críticas, permitindo o meu conhecimento e aprimoramento na Sociologia, que, embora não seja a minha área de formação profissional, com certeza, o é de coração, pela afinidade com seu objeto de estudo. Aos professores que participaram da defesa do projeto de tese, Luiz Antônio

Machado da Silva (IUPERJ) e Jane Souto de Oliveira (FUNDAÇÃO IBGE), que, contribuindo com as suas sugestões e críticas, permitiram a minha reflexão sobre o tema da tese, liberando-os, é claro, do meu livre arbítrio de muitas vezes decidir sobre os caminhos adotados em sua realização. De novo, ao professor Luiz Antônio Machado da Silva, pelas aulas enriquecedoras, além de agradáveis, e por muito ter me ajudado com a sua experiência no tema em pauta, sempre me alertando, nas disciplinas ministradas, para os pontos importantes no desenvolvimento do problema de investigação por mim considerado. Aos professores Maria Alice Rezende de Carvalho e Nelson do Valle Silva, que em muito contribuíram para a reflexão dos capítulos da tese, com seus comentários e críticas, no curso das disciplinas referentes aos seminários de tese cursados.

A todos os funcionários do IUPERJ, que são decididamente atentos, eficientes e

carinhosos com o conjunto dos alunos e que tornam esta Casa mais agradável. Sem poder enumerar todos com os quais tenha tido contato, gostaria de citar aqueles com quem tive uma maior proximidade, sendo sempre gentis e eficazes em sua tarefa de nos auxiliar, quais sejam, Valéria de Souza (que, embora não esteja mais trabalhando no

IUPERJ, está sempre presente em nosso coração) e Lia Gonzalez, da Secretaria da Pós- Graduação.

À Sebastiana Rodrigues de Brito e à Zuleica Lopes Cavalcanti de Oliveira, por

muito ter aprendido com a sua convivência, em termos pessoais e profissionais, e pelo veemente incentivo à realização do curso de Doutorado. À Fundação IBGE, pela concessão da licença em tempo parcial; e à Coordenação de Emprego e Rendimento, então ocupada por Ângela Filgueiras Jorge, pelo reconhecimento da importância da realização do curso, quando da solicitação do meu afastamento, e à gerente do Grupo de Estudos e Análises, Marília Biangolino Chaves, pela compreensão recebida, sobretudo durante a preparação da tese.

À Biblioteca Setorial da Unidade Chile da Fundação IBGE, por ter atendido

sempre com presteza, eficiência e empenho às solicitações por mim efetuadas, permitindo a obtenção, com agilidade, de estudos necessários à realização da tese. A equipe da referida Biblioteca tem conseguindo feitos “heróicos”, mesmo enfrentando dificuldades com a interrupção do serviço de empréstimo entre bibliotecas, realizado através do “moto-boy”, tão importante para o enriquecimento das solicitações dos pesquisadores desta Instituição. Em função deste fato, viu-se obrigada a criar outras soluções, para manter, com desvelo, este tipo de atendimento. A toda a sua equipe, constituída por Odicéa Arantes Matos, Deyse Ferreira Alves, Isa Ribeiro Soares de Souza, Heloísa Helena Ribeiro Guedes e José Rosa dos Santos, agradeço, esperando que esta Biblioteca seja não só preservada como reconhecida em importância com um desejado, esperado e necessário aprimoramento de sua tecnologia e acervo bibliográfico

disponível. À Odicéa agradeço, ainda, a revisão e a correção minuciosas das referências bibliográficas da tese. Ao Arquivo Técnico da Coordenação de Emprego e Rendimento (COREN) da Fundação IBGE, representados por Luiz Carlos Ferrer Cardoso e Rodrigo Mariano Brito, o empréstimo e a preservação das pesquisas de trabalho e rendimento, tais como os referentes à Revisão da PNAD, da década de 1990, bem como de questionários e manuais da PNAD desde a sua criação.

À Vandeli dos Santos Guerra, da Fundação IBGE, que, com carinho, gentileza e

eficiência, me atendeu nos esclarecimentos das PNADs, sobretudo as anteriores à

década de 1990, sendo ela um ícone fundamental na memória desta pesquisa.

Ao Antônio de Ponte Jardim que, além de me apoiar na realização do curso de

Doutorado, procurou me auxiliar no decorrer da realização da tese não só com indicação de bibliografia, bem como em caminhos importantes a adotar no decorrer desta.

À Lucília de Fátima Rocha Valadão, sempre muito presente, me estimulando na

realização do Doutorado e que, à época da defesa do projeto de tese, muito me auxiliou com a sua experiência no tema.

À Maria Cristina Moreira Safadi que sempre me apoiou e a quem recorria nos

momentos de aperfeiçoamento da redação da tese, em função da extrema facilidade e clareza presentes nos textos por ela redigidos. Ao Miguel Farah Neto, pela atenção e gentileza na colaboração expressiva da revisão da tese.

À Iêda Siqueira, pelo auxílio nas dúvidas de tradução dos textos em francês.

À Sandra Helena de Souza Barros, pela presteza e eficiência nos trâmites

administrativos na renovação da licença parcial de Doutorado.

A todos os demais amigos e colegas de trabalho que me apoiaram na realização do curso de Doutorado.

À Dr a Tereza Neuman Alvear, por me estimular nesta fase importante,

equilibrando a todo o momento o sentido de atingir a plenitude, lembrando-me de que, como a perfeição não existe e um trabalho nunca é completo, realizamos o que é “possível”. Às minhas amigas Monteiro de Barros (Clara, Maria das Graças e Marília) e

minha prima Regina, que são irmãs de coração, pelo constante carinho e estímulo nesta etapa e em minha vida.

À minha família, agradeço pelo incentivo recebido durante a elaboração da tese

e ao longo da minha vida profissional, em especial aos meus irmãos, Claudia, Manoel e Teresa, e aos meus cunhados, Ana Vitória e Marco Aurélio.

À minha mãe, Thereza, e ao meu pai, Manoel (in memoriam), eternos

estimuladores deste curso e do meu estudo, obrigada pela educação, carinho e oportunidades em minha vida.

À querida Madame Suzana Célia Guthman Mesquita (in memoriam), com quem

tive aulas particulares de francês. A ela devo muita gratidão, respeito e admiração, pois

me forneceu exemplos, em função de sua longa vida (105 anos de idade), demonstrando

a importância de estar atualizada, por meio do trabalho e das amizades, que eram inúmeras. Ao José Rosa dos Santos, com quem tenho compartilhado os momentos da minha vida, por estar sempre ao meu lado, me apoiando na realização dos meus sonhos. Reconheço a calma e a paciência para me estimular e auxiliar nas inquietações e angústias vividas durante o curso, sobretudo na fase de elaboração da tese. A ele, o meu carinho.

RESUMO

O objetivo desta tese é a análise da metodologia da Pesquisa Nacional por

Amostra de Domicílios (PNAD), sobre a investigação do problema da informalidade, impondo o desafio de interligar as concepções teóricas deste fenômeno às representações concretas realizadas. As dificuldades de absorção da mão-de-obra no mercado de trabalho e o afastamento do paradigma de emprego capitalista tornam hoje, de suma importância, a discussão da informalidade nos estudos referentes à inserção dos grupos de trabalhadores no mercado de trabalho. A tendência crescente da informalidade e as novas questões revelam a utilização do conceito, como o de empregabilidade / empreendedorismo, em função dos novos significados da informalidade face às transformações no mundo do trabalho, provocadas pela globalização do capital As estatísticas da PNAD utilizadas são as da década de 1990, comparadas às das

décadas anteriores. A avaliação da pesquisa tem cunho teórico-analítico, tendo em vista a necessidade de as opções metodológicas adotadas na produção de dados sobre a realidade brasileira estarem em sintonia com suas especificidades, de forma a contribuírem para o seu desvelamento.

A partir desta análise, tornou-se clara a importância de uma reflexão sobre as

evidências empíricas oficiais do país no que concerne às novas questões sobre o tema de investigação.

Palavras-chave: trabalho informal, empregabilidade e PNAD.

SUMÁRIO

 

Pg.

INTRODUÇÃO

1

CAPÍTULO I: ORIGEM DO DEBATE DA QUESTÃO DA INFORMALIDADE

10

1.

O estudo sobre as atividades informais em Gana

15

O Informe do Quênia: um estudo de evidência do informal e contrapontos apresentados

2.

18

3.

Evidência da informalidade na década de 1970 no Brasil: mercado de

trabalho metropolitano manual e marginalidade

26

4.

Considerações sobre a origem do debate da informalidade

36

CAPÍTULO II: CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DA INFORMALIDADE

38

Considerações sobre as perspectivas teóricas da informalidade e sua representação ao longo do tempo

69

CAPÍTULO III: NOVOS SIGNIFICADOS DA INFORMALIDADE OU RECONSTRUÇÃO DE UM TEMA HISTÓRICO?

72

Considerações sobre os significados da informalidade

100

CAPÍTULO IV: A INVESTIGAÇÃO DA INFORMALIDADE: A ANÁLISE DA PRODUÇÃO DE EVIDÊNCIAS EMPÍRICAS

104

1.

A Produção do Questionário: Um Instrumento de Análise

106

1.1 - Processo de Reformulação da Pesquisa: histórico da sua construção

107

1.2 - As inovações da PNAD no tema “Trabalho” e suas contribuições para a

percepção da informalidade

113

1.3

- A busca da captação de uma produção de evidência empírica mais

adequada da informalidade na estrutura da PNAD

124

1.3.1 - Relevância do quesito Posição na Ocupação na apreensão da informalidade

135

1.3.2

- Relevância do quesito Local de Trabalho na apreensão da informalidade

143

1.3.3 - Relevância do quesito Tamanho do Empreendimento na apreensão da

informalidade

147

1. 4 - Considerações sobre a atualidade da investigação da informalidade na PNAD da década de 1990

150

CONSIDERAÇÕES FINAIS

153

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

165

ANEXOS

ANEXO I - POSIÇÃO NA OCUPAÇÃO E RAMOS DE ATIVIDADE

172

ANEXO II - ESTRUTURA DO QUESTIONÁRIO DA PNAD

178

ANEXO III - JUSTIFICATIVAS DAS VARIÁVEIS DA PNAD

188

QUADROS

Quadro I - Estudos sobre o Setor Informal Urbano na América Latina

56

Quadro II - Variáveis: Posição na Ocupação, Local de Trabalho e Tamanho do

Empreendimento, importantes para a captação da produção de evidências empíricas

sobre a informalidade na PNAD

130

1

INTRODUÇÃO

A configuração de uma nova ordem político-econômica internacional, a reestruturação produtiva e as inovações tecnológicas em curso desde meados dos anos 1970 traduziram-se, em termos das relações e processos de trabalho, em significativas mudanças no paradigma do emprego. É justamente este ponto que confere à discussão da informalidade acentuada importância no cenário atual dos estudos que focalizam a inserção dos grupos de trabalhadores no mercado de trabalho. Assiste-se hoje a um intenso debate que aponta para um grande contingente de trabalhadores engajado na denominada informalidade. Acrescente-se a este fato o reconhecimento que atualmente existe, qual seja, o de que os campos formal e informal não são dissociados, mas se encontram estreitamente interligados. As questões hoje discutidas mostram que a citada informalidade é objeto de estudo importante na Sociologia, como também na Economia e no Direito e, muitas vezes, necessita do inter- relacionamento destas ciências, entre outras, na busca de uma compreensão mais adequada de sua complexidade. Este tema tem sido alvo de vários estudos, desde final dos anos 1960, mas a sua investigação continua sendo relevante e instigante, não só pela dimensão crescente da absorção de um conjunto de população ativa na denominada informalidade como também pela sua continuidade, independente da conjuntura econômica do país. A dinâmica observada para o fenômeno tem levado ao questionamento de pressupostos anteriormente formulados, como o que relaciona o seu crescimento associado, sobretudo, aos períodos de crise econômica, quando haveria a expulsão de determinados segmentos da população do mercado denominado formal. A tendência de contínuo crescimento da informalidade não só contraria esta hipótese como indica a necessidade de se repensar as teorias existentes a este respeito e pesquisar os novos rumos adquiridos por este fenômeno. Em linhas gerais, na década de 1980, a idéia que prevalecia, a respeito do conceito de informalidade, era a de que este setor seria formado como resultado da exclusão de um determinado contingente da população do mercado de trabalho formal. Neste caso, a dinâmica do processo informal de trabalho esteve sempre associada àquela do mercado de trabalho capitalista que, em momentos de crise econômica, expulsava

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uma parcela da população das relações de trabalho denominadas formais. A partir deste processo, este segmento da força de trabalho foi visto como marginalmente inserido na economia capitalista, bem como no processo de integração social. Na década de 1990, tem-se ainda o fato de que o informal demonstrou estar crescendo mesmo em períodos de crescimento econômico, evidenciando que outros fatores devem ser buscados como explicativos para este fenômeno. Hoje, assiste-se a um aumento das denominadas relações de trabalho parcial, por tempo determinado, sub- contratadas ou terceirizadas, que nem sempre - mas muitas vezes - significam perdas de direitos dos trabalhadores em relação às garantias legais e de cobertura social. Em função de novos dispositivos capitalistas, existe atualmente uma ameaça da dimensão securitária, que constitui a identidade social das formas capitalistas de acumulação. Há uma permanente tensão para o trabalhador referente à expectativa de segurança que espera obter associada ao desejo de autonomia. Em um mundo macro-econômico, idealmente constituído por uma sociedade de pleno emprego, a expectativa era, dentro de uma perspectiva de progresso, de um futuro mais adequado para os trabalhadores e suas famílias, tendo em vista que, através do reconhecimento público das desigualdades sociais, estas poderiam ser dirimidas por meio do acesso ao sistema escolar, que possibilitaria uma ascensão social igualitária. Houve um movimento que mostrou, no entanto, uma direção contrária entre o desenvolvimento do capitalismo e o da sociedade, na medida em que esta última foi afetada por um quadro desfavorável, que se manifestou por meio do empobrecimento da população, do crescimento do desemprego e da precariedade do trabalho, com aumento de mão-de-obra com contratos temporários e horários flexíveis e diminuição de custos despendidos com a proteção social, entre outros fatores. De um lado, as mudanças ocorridas tanto na vida econômica quanto na vida privada fazem com que o mundo familiar pareça, cada vez menos, capaz de funcionar como um espaço de proteção, tornando-se mais difícil aos pais assegurar aos filhos posições equivalentes às suas por meio da educação, instância que teve papel importante nesta reprodução, na década de 1960. Por outro lado, existem esquemas ideológicos que estão sendo mobilizados para justificar as transformações no âmbito familiar e na adaptabilidade nas relações de trabalho. Lautier (1991, p.49) destaca que o debate sobre o denominado ‘setor informal’ tem, talvez, escondido o essencial, qual seja, o fim do sonho, do mito, e da possibilidade

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mesmo de generalizar que o modelo de cidadania, que há quarenta anos surgia como se estivesse ao alcance de todos, reservava-se tão somente aos assalariados das empresas importantes. Desde o início dos anos 1980, não somente houve redução do emprego nas grandes empresas, como também da parte estatutária destas. O autor aponta que este

fato fez com que, tanto em nível ideológico quanto político, estivessem reunidos não só os assalariados “precários” das grandes empresas e dos que os sub-contratam, como também os assalariados de micro-empresas, os autônomos sem garantia de continuidade em sua atividade e os desempregados. “A assistência social não tem mais capacidade econômica, nem a capacidade política (já que ela é voltada em direção aos ‘excluídos’, enquanto que neste caso se trata de assalariados de firmas grandes ou médias) de reintegrar no modelo de socialização que veicula estes assalariados, que são ao mesmo tempo dentro e fora das normas”. Oliveira (1990b, p.42) enfatiza que as várias formas de organização de produção de situações de trabalho percebidas na informalidade revelam um denominador comum, qual seja, “o de não se enquadrarem nos moldes de produção capitalista, quer por razões de ordem econômica, propriamente dita, quer jurídica. Ou seja, o que aglutina essas atividades em torno de um mesmo conceito não é a proximidade que guardam entre si, mas o afastamento que todas mantêm do modelo de organização capitalista. Em termos das relações de trabalho, isso se traduz, basicamente, pela não correspondência ao ‘modelo de emprego total’ que, tendo nascido com a grande indústria, se desenvolveu pari passu à ação sindical e à legislação do trabalho”.

O interesse pela economia informal, conforme destaca Oliveira (1990a, p.16),

“transcendeu os circuitos acadêmicos para se inscrever nos debates ligados à esfera de planejamento e execução das políticas econômicas nacionais”. A autora segue

ressaltando que “daí parece ter resultado a preocupação, crescente e generalizada, com os sistemas de informação estatística: em que medida estariam eles aptos a captar as mudanças que vêm se processando na base produtiva e na configuração dos mercados de trabalho?”.

A diversidade existente na conceituação da informalidade e as dificuldades de se

obter um consenso a este respeito já vem sendo apontadas, ao longo do tempo. Um primeiro aspecto importante deste estudo torna-se, mais do que verificar a diversidade

existente na conceituação do informal, desvendar os novos significados, as categorizações e as articulações que estão presentes no debate sobre o tema, tendo

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sempre presentes as transformações provocadas no mundo do trabalho pela globalização do capital. Como um segundo aspecto importante, subsidiando o problema central da

conceituação do informal, pretende-se observar como as estatísticas oficiais do país, que vêm sendo muito utilizadas nos estudos que visam à captação deste fenômeno, particularizam e determinam o objeto de análise. Em relação à captação do tema informal, no referido campo das informações estatísticas, são estabelecidos desafios constantes, tendo em vista que estas tomam como referência, de um modo geral, o modelo de emprego tipicamente capitalista. A inserção da população no campo do informal aparece como oposição, ou por assim dizer, como contraponto. Mas, como já observamos, no mundo atual está se processando um afastamento do modelo de emprego, que se constitui no parâmetro, em geral, utilizado. Neste sentido, devem ser estabelecidas novas medidas para que possamos nos aproximar, cada vez mais, de uma adequada produção empírica a este respeito, por intermédio dos instrumentos utilizados para esta finalidade. Como dispositivo político-econômico de representação do fenômeno, as estatísticas oficiais sobre trabalho produzidas em uma pesquisa abrangem, de um lado, os aspectos gerais do mesmo, buscando aliá-los às recomendações internacionais, tendo em vista a sua comparabilidade com os diversos países. Por outro lado, em sua finalidade, são necessários ajustes para fornecer um quadro de evidências empíricas, satisfatório ou não, embora parcial, sobre a realidade nacional. A mensuração da informalidade não é uma tarefa fácil, por várias razões. Entre elas, encontram-se não só a sua composição bastante heterogênea, os limites entre trabalho e não-trabalho, difíceis de serem delimitados, e um leque de situações que estão no limite entre o formal e o informal, como também a qualidade dos instrumentos utilizados nesta produção. Ao longo do desenvolvimento do objeto de análise, qual seja, o problema de investigação da informalidade, serão apresentados diferentes enfoques adotados em seu estudo, que se refletem, em termos concretos, nas variáveis utilizadas para compor as evidências empíricas a este respeito. Nesse sentido, entende-se como importante buscar

a associação do sentido lógico-formal às tentativas de caracterização desta questão, que

é vista, dentre as fontes de dados existentes, através das estatísticas oficiais do país.

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O desafio que se estabelece, em um campo que nos parece pouco explorado, é a

tentativa de interligar os novos significados, as categorizações e as articulações no debate da informalidade - tendo sempre presentes as transformações provocadas no mundo do trabalho pela globalização do capital - às categorias de análise até então adotadas, contidas nas fontes de informações estatísticas.

A produção de evidência empírica, eleita como base de avaliação para o alcance

dos objetivos citados, é a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), desenvolvida na Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Fundação IBGE). A escolha da avaliação da qualidade desta pesquisa, pretendendo ser de cunho

teórico-analítico, reside no fato de que esta se constitui como uma das fontes estatísticas oficiais do país mais utilizadas por estudiosos na área social, em função de sua abrangência geográfica e temática, além de sua periodicidade anual. Destaca-se também a relevância deste tema para a comunidade acadêmica, bem como para os formuladores de políticas publicas na área do trabalho.

A proposta de estudo da informalidade, com base na PNAD, uma importante

fonte de dados para as Ciências Sociais, sobretudo no tema trabalho, nos parece ser oportuna em razão da mudança do paradigma produtivo que provocou profundas transformações no mundo do trabalho. Pressupõe-se que, em fontes de informações estatísticas oficiais como a PNAD, ainda permaneçam resquícios da herança de padrões estabelecidos em outros países, com formações sociais distintas de nossa sociedade, os quais estabelecem, como modelo vigente, a inserção da população no trabalho assalariado. Aliado ao fato de nossa experiência histórica, diferenciada da vivida por outros países mais desenvolvidos economicamente, incorporar um padrão de referência que não correspondia à realidade observada, acresce-se o de que esta é hoje também atingida por mudanças, que estão provocando, cada vez mais, a diminuição da inserção da população no referido modelo de emprego. Atualmente, são anunciadas novas questões sobre o trabalho, que mostram as dificuldades crescentes de absorção de mão-de-obra, em função das complexas transformações ocorridas no mercado de trabalho, provocadas pela globalização do capital. Tal fato nos leva a repensar a adequação destas estatísticas ao problema de investigação considerado, qual seja, o da informalidade, pois, embora as referidas questões não sejam determinantes do mesmo, o acentuam e fazem surgir novas

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demandas ao trabalhador para a sua inserção no referido mercado. Acrescente-se que não se pode perceber o problema da informalidade dissociado do denominado campo formal de trabalho. A hipótese central desta tese aponta que as profundas mudanças no mundo do trabalho afetam cada vez mais a absorção da mão-de-obra, acrescendo a estas o ritmo no qual estas estão sendo processadas. Tal fato traz obstáculos nas evidências empíricas geradas das estatísticas oficiais, como a PNAD, destinadas ao entendimento do crescimento/dinâmica da informalidade. Tendo em vista os aspectos anteriormente discutidos, o problema, desenvolvido nesta tese relaciona-se a investigar: em que medida as novas questões postas na discussão pública, sobre as dificuldades de absorção do trabalho, podem ser abordadas com base nas classificações oficiais nacionais, que buscam se adequar aos parâmetros indicados nas recomendações internacionais? Uma vez detectada a existência destas, ao se observar as mudanças ocorridas nas relações de trabalho na sociedade contemporânea e suas conseqüências para o trabalhador, é necessário analisar a sua representação e/ou viabilidade através de estatísticas oficiais, como a PNAD. Reconhece-se que descobertas importantes podem surgir da análise e interpretação dos motivos ou das justificativas, explicitados ou subjacentes, apresentados nas mudanças de variáveis nas estatísticas oficiais. Nesse sentido, aquelas que são consideradas, em geral, essenciais na definição da informalidade, bem como as justificativas apresentadas por estarem inseridas nesta pesquisa, constituem caminhos fundamentais nesta comprovação. Nas estatísticas oficiais, é preciso verificar que tipo de categoria estaria representando o funcionamento do conceito e retratando o desenvolvimento da conjuntura, estando permeadas, nesta discussão, as classificações adotadas. Esta tarefa torna-se crucial, pois, por um lado, a construção destas classificações pode não estar abrangendo as situações limiares que são estabelecidas ao se tentar delinear o campo do informal; por outro lado, a seleção de indicadores deve ser capaz de operacionalizar o conceito. Têm sido apontadas como variáveis indicadas para o estudo das novas tendências do informal, entre outras, aquelas relacionadas às mudanças no mercado de trabalho, provocadas pelas alterações qualitativas da demanda por força de trabalho, pela tendência de queda do emprego industrial e pelas formas de terceirização. As

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transformações no processo de trabalho e no gerenciamento da força de trabalho parecem ter como conseqüências, entre outras, um aumento do trabalho domiciliar, daquele exercido em tempo parcial e da terceirização. A pesquisa básica utilizada como base é a PNAD da década de 1990, em função

da ampla revisão realizada neste período, que visa captar a diversidade das relações de trabalho no país, gerando um amplo e diferenciado leque de variáveis, constantes do questionário, para o alcance deste objetivo. Além do mais, as questões discutidas, a partir dos anos 1990, têm um cenário diverso do que prevalecia em períodos de tempo anteriores, sendo importante observar este tema em suas mudanças de conteúdo. A produção das estatísticas da PNAD até a década de 1980 será utilizada comparativamente, quando for o caso, para destacar os possíveis avanços apontados em relação à questão investigada.

A estruturação dos caminhos adotados para o alcance dos objetivos

estabelecidos culminou no desenvolvimento de quatro capítulos: 1) Origem do Debate da Questão da Informalidade; 2) Construção Histórica da Informalidade; 3) Novos Significados da Informalidade ou Reconstrução de um Tema Histórico?; 4) A Investigação da Informalidade: a Análise da Produção de Evidências Empíricas.

No primeiro destes, pretende-se destacar os estudos que detêm a primazia em

sua abordagem, realizados na década de 1970. O debate apresentado não esgota as questões existentes, em seus primórdios, sobre o tema da informalidade. Foram abordados alguns trabalhos pioneiros, tidos como precursores a este respeito. O objetivo é verificar como era analisada esta questão, entendendo-se que traços,

em sua origem, podem ser comuns na atualidade, perpassando diversos períodos analisados, além daqueles que se reportam especificamente a realidades diferenciadas no tempo. Os valores e representações, recebidos de nossa herança cultural, estão presentes, sendo também agregados na passagem e/ou transformação de novas formas capitalistas de acumulação.

No segundo capítulo, ao se discutir historicamente a informalidade, tem-se como

propósito não só apresentar uma análise estruturada que vem sendo realizada ao longo do tempo como também apontar as questões fundamentais sobre este tema. As perspectivas teóricas que têm sido historicamente adotadas mostram-se como ponto relevante para o entendimento dos rumos deste fenômeno. Procurar-se-á associá-las às

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representações concretas que são realizadas, pois estas constituem, em nosso caso específico, um importante objeto de análise.

O propósito é o estudo desta questão em cada período, à luz de vários autores,

destacando-a sob diferentes enfoques, metodologias de análise, variáveis utilizadas e controvérsias correntes. Ao longo do tempo, a percepção da informalidade vem sendo

apreendida por meio de perspectivas teóricas distintas, que resultam em uma variedade de estudos, com objetivos diferenciados.

É preciso destacar que o termo “informal” é mencionado, nesta parte, sob várias

denominações - setor informal, mercado não formalizado, setor não estruturado, entre outras -, de acordo com a nomenclatura atribuída pelos autores que o analisam. Esta, por sua vez, está relacionada, muitas vezes, às percepções diferentes que são atribuídas a este fenômeno no tempo. No terceiro capítulo, é percebido que, a partir dos anos 1980, em função de mudanças mundiais, entre outras, relacionadas às dificuldades de absorção da força de trabalho, que se refletem em nosso país, provocando, cada vez mais, um afastamento do modelo de pleno emprego. A noção de informalidade, sempre percebida como um contraponto a este padrão estabelecido, adquire novos significados, que, por vezes, são agregados na compreensão de seu conteúdo, ao mesmo tempo em que pode demonstrar a manutenção de antigas questões nesta discussão ou mesmo uma mescla de ambas as situações. A finalidade de reunir os citados significados é verificar, posteriormente,

sobretudo diante das novas questões postas na discussão pública sobre a absorção dos diversos segmentos de trabalhadores, a adequação atual e a possibilidade das estatísticas oficiais, como a PNAD, na captação do problema de investigação considerado. No quarto capítulo, entende-se como importante buscar a associação do sentido lógico-formal às tentativas de caracterização da informalidade, que pode ser vista, dentre as fontes estatísticas oficiais do país, na PNAD. Foram apresentados, até então, diferentes enfoques adotados em seu estudo, que se refletem, em termos concretos, nas evidências empíricas utilizadas para a consecução deste objetivo.

É importante se apreender como é construída a captação deste problema de

investigação da informalidade, na referida fonte de dados, constituindo-se em matéria

fundamental nesta comprovação, tanto as variáveis como os motivos de estarem inseridas nesta pesquisa.

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A PNAD da década de 1990 será confrontada, por vezes, com às das décadas anteriores, sobretudo em termos conceituais, com o intuito de se comprovar não só o avanço qualitativo realizado na abordagem deste tema, como também - quando este fato ocorrer - a sua atualidade ou a necessidade de fazê-lo, face às novas questões referentes à absorção dos trabalhadores no mercado de trabalho.

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CAPÍTULO I

ORIGEM DO DEBATE DA QUESTÃO DA INFORMALIDADE

Ao se discutir o debate da informalidade desde a sua origem, tem-se como propósito não só realizar uma análise estruturada a este respeito ao longo do tempo como também apontar as questões relevantes sobre o tema. Procurar-se-á associar as concepções teóricas deste fenômeno às representações concretas realizadas sobre o mesmo. Em nosso caso específico, foram eleitas as estatísticas oficiais do país, como um significativo alvo de estudo. As dificuldades de absorção da mão-de-obra potencialmente produtiva, no mercado de trabalho, já se constituíam em pontos de partida dos estudos desenvolvidos no final da década de 1960 e no início dos anos 1970. A falta de uma produção de evidência empírica capaz de retratar de forma mais adequada o problema da informalidade está presente nos estudos realizados na origem do debate sobre o tema. Assim, tal questão nos aproxima do problema a ser desenvolvido nesta tese, que implica observar em que medida as novas questões postas na discussão pública sobre as dificuldades de absorção do trabalho podem ser discutidas com base nas classificações oficiais, nacionais, presentes nas estatísticas oficiais do país, que procuram seguir recomendações internacionais a este respeito. As perspectivas teóricas historicamente adotadas constituem um ponto relevante para o entendimento dos rumos deste fenômeno. Entende-se que devem ocorrer traços comuns, que podem perpassar diversos períodos analisados, além daqueles que se reportam especificamente a realidades diferenciadas no tempo. Isto porque não se pode esquecer que valores e representações, recebidos de nossa herança cultural, estão presentes e são também agregados na passagem e/ou transformação de novas formas capitalistas de acumulação. Apesar de a ideologia dominante ser a do capitalismo, o sentido ou a natureza do fenômeno pode ser alterado, na medida em que o status que lhe é atribuído tende a se modificar: o que em uma fase é principal, na outra pode ser secundário. Este debate não esgota as questões a serem ressaltadas, em seus primórdios, sobre o tema da informalidade e nem mesmo todos os pontos analisados por seus

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autores. Foram abordados apenas alguns trabalhos iniciais, publicados no início da década de 1970, tidos como precursores. Desde o final dos anos 1960, a questão da informalidade constitui-se em objeto de preocupação, nos denominados países do Terceiro Mundo, sendo relacionada, conforme ressalta Oliveira (1990a, p.3), à presença de um significativo excedente de mão-de-obra e à dimensão da pobreza urbana. A autora observa que “foi exatamente o reconhecimento da importância que a pequena produção mercantil assumia nas economias do 3 º Mundo, a que se associava uma preocupação crescente com a dimensão da pobreza, em especial da pobreza urbana, nessas economias, o que, ao longo dos anos 70, levou diversos estudiosos e instituições de pesquisa a se debruçarem mais detidamente sobre o tema”. Enfatiza ainda que, tal investigação, ”afora cunhar o termo“ 1 , concretizou um amplo debate do “setor informal”, “através do qual diversas correntes de pensamento procuravam explicitar seus mecanismos de organização e funcionamento e marcar as diferenças com o ‘setor formal’” (OLIVEIRA, 1990a, p.3). Oliveira salienta que, em torno deste debate, estabeleceu-se uma revisão crítica que procurou contemplar a negação do caráter “dual” entre os setores formal e informal, segundo o qual estes eram vistos como estanques, sem apresentar interligação entre si, estabelecendo-se a existência de uma articulação entre ambos, em diferentes graus, mas subordinando-se o segundo ao primeiro. Um outro ponto central constituiu-se na verificação de que este setor informal apresentava uma acentuada heterogeneidade, no sentido de que absorvia diferentes formas de produção, bem como de trabalhadores. O setor informal passou a ser visto como um conjunto de formas de produção não-capitalistas, ocupando um espaço intersticial econômico, determinado pela expansão do capital, ainda não preenchido ou abandonado pela produção capitalista. Ao mencionar o caso da centralização dos capitais ou da atração do capital pelo capital, Marx (1990, p.727) já destacava que “os capitais grandes esmagam os pequenos. Demais, lembramos que, com o desenvolvimento do modo de produção capitalista,

1 A este respeito, reproduzo a nota 3, constante no trabalho de OLIVEIRA, Jane Souto de – O Espaço Econômico das Pequenas Unidades Produtivas: uma tentativa de delimitação. Rio de Janeiro: IBGE,

Diretoria de Pesquisas, fevereiro de 1990. 67 p. (Textos para discussão, n.27): “é comum atribuir-se a Keith Hart, o emprego, pela primeira vez do termo ‘setor informal’ no artigo ‘Informal Income opportunities and urban employement in Ghana’, apresentado na Universidade de Sussex, em setembro de

no Jounal of Modern African Studies em março de 1973. Contudo, a distinção

1971 e reproduzido

estabelecida por Machado da Silva (1971) entre os ‘mercados formal e não formalizado’, em sua tese de mestrado Mercados Metropolitanos de Trabalho Manual e Marginalidade deveria, a rigor, garantir-lhe a

precedência, o que provavelmente deixou de ser feito, em função da circulação mais restrita de seu trabalho”. págs. 49-50.

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aumenta a dimensão mínima do capital individual exigido para levar avante um negócio em condições normais. Os capitais pequenos lançam-se assim nos ramos de produção de que a indústria se apossou apenas de maneira esporádica ou incompleta. A concorrência acirra-se então na razão direta do número e na inversa da magnitude dos capitais que se rivalizam. E acaba sempre com a derrota de muitos capitalistas pequenos, cujos capitais ou soçobram ou se transferem para as mãos do vencedor”. Marx (1990) apontava ainda que, em um momento histórico, é possível a convivência de ambos os processos de produção simples de mercadorias e de produção de capital. Neste sentido, uma determinada estrutura produtiva pode refletir um processo, aparentemente contraditório, não só de concentração e centralização do capital, como de existência de outras formas que são denominadas de não-capitalistas. Existe um movimento do capital, segundo o autor, que age ao mesmo tempo dos dois lados. “Se sua acumulação aumenta a procura de trabalho, aumenta também a oferta de trabalhadores, ‘liberando-os’, ao mesmo tempo que a pressão dos desempregados compele os empregados a fornecerem mais trabalho, tornando até certo ponto independente a obtenção, a oferta de trabalho da oferta de trabalhadores” (p.742). A estruturação de um mercado de trabalho é continuamente afetada em sua configuração a partir desse movimento de atração e de repulsão da força de trabalho. Há a questão da formação de uma população trabalhadora excedente, que se constitui em um exército industrial de reserva disponível e que, se esta “é produto necessário da acumulação ou do desenvolvimento da riqueza no sistema capitalista, ela se torna por sua vez a alavanca da acumulação capitalista, e mesmo condição de existência do modo de produção capitalista” (MARX, 1990, p.733). Um ponto interessante é o de que o autor, que viveu no século XIX, já destacava, ao mencionar o caso da centralização dos capitais ou da atração do capital pelo capital, a concorrência existente com os capitais grandes esmagando os pequenos, ao mesmo tempo em que apontava ser possível, em um dado momento histórico, a convivência de ambos os processos de produção simples de mercadorias e de produção de capital. Tal fato demonstra que uma determinada estrutura produtiva pode refletir um processo, aparentemente contraditório, não só de concentração e centralização do capital como de existência de outras formas, que são denominadas de não-capitalistas. Em um momento atual, se, por um lado, continuamos a viver a concorrência dos grandes capitais que esmagam os pequenos, por outro, assistimos ao fato de que, de

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certa forma, esses ainda subsistem, seja em articulação com os grandes, muitas vezes por meio de novas práticas, como a subcontratação de determinados serviços das pequenas unidades produtivas pelas grandes, seja nos mostrando a necessidade de pesquisar a abertura ainda existente, atualmente, para as atividades autônomas. Estas podem estar sendo estabelecidas em função da configuração de uma nova ordem político-econômica internacional, da reestruturação produtiva e de inovações tecnológicas que, em curso desde os anos 1970, se traduziram, em termos das relações e dos processos de trabalho, em significativas mudanças do paradigma do emprego. Melo e Telles (2000, p. 6) destacam que “o debate sobre a questão da informalidade iniciou-se na literatura das ciências sociais na década de 70, com o programa de pesquisa da OIT. Este se desenvolveu com o estudo sobre o Quênia [(1972)] e, na América Latina, com o trabalho sobre o emprego na República Dominicana [OIT (1973)], prosseguindo com os trabalhos do Programa Regional del Empleo para América Latina y el Caribe (Prealc) que, a partir de meados dos anos 70, dedicou-se ao estudo da questão [ver Prealc (1974)]”. A missão de emprego da OIT (Organização Internacional do Trabalho) marcou, pela primeira vez, o surgimento do termo setor informal em um documento oficial. É preciso enfatizar que o termo “informal” é aqui mencionado sob várias denominações (setor informal, mercado não-formalizado, setor não-estruturado), pois não se pretende, neste momento, modificar a nomenclatura atribuída pelos autores que o analisam, a qual se relaciona, freqüentemente, às percepções diferentes deste fenômeno no tempo. O conceito do informal, como ressalta Cacciamali (1999, p.1), tem sido objeto de análise diferenciada e alvo de muitos debates. A percepção da informalidade pode ser apreendida, desta maneira, por meio de marcos teóricos distintos que, com objetivos diferenciados, podem levar a objetos múltiplos de estudo. Em relação à noção de informalidade, Silva (2002, nota 1, p.81) ressalta que, apesar deste estudo da OIT ter tornado esta noção canônica e muito difundida, “Peattie (1987:853), entre outros, atribui a criação a Keith Hart, que a gerou durante suas pesquisas em Gana (cfr. também Miras, 1991). Creio, porém, que a noção se desenvolve ao mesmo tempo na América Latina e desde o início esteve, em ambos os continentes, ligada ao reconhecimento das restrições de capital no processo de mobilização produtiva do trabalho e suas conseqüências. Eu próprio, em longa pesquisa concluída no início de 1971, falava de ‘mercado formalizado’ e ‘mercado não formalizado’ com um

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sentido próximo ao produzido a partir dos estudos de países africanos (Machado da Silva, 1971)”. Silva (1971), já destacava o surgimento deste setor, através da análise de “mercado formalizado” e “mercado não-formalizado”, abordando, na época, um tema de presença constante no pensamento sociológico latino-americano, qual seja, a marginalidade ou o processo de marginalização. A partir deste, o modo de inserção dos trabalhadores envolvidos no sistema global era visto segundo as condições do mercado de trabalho. Aqueles trabalhadores que não conseguiam ser inseridos no processo produtivo eram vistos como alijados desse processo produtivo, denominados de marginalizados e, nesse sentido, eram vistos como os não-integrados à sociedade. Silva (2002, p.83) enfatiza que “desde sua origem, ‘informal’ tem sido uma noção orientada para discutir ‘o outro lado’ da problemática, se não exatamente do emprego, ao menos da mobilização ativa do trabalho – ou seja, ela foi proposta para analisar as dificuldades e distorções da incorporação dos trabalhadores ao processo produtivo em contextos onde o assalariamento era pouco generalizado. Em conseqüência, sempre tendeu a focalizar prioritariamente seus estratos mais desfavorecidos e a desenvolver, em torno deles, um debate sobre a natureza, as condições e os limites de sua integração econômica, lidos como adaptação desses grupos à estrutura social à qual pertencem, isto é, de seu papel (ou função, ou necessidade) na produção da riqueza”. O enfoque da informalidade, em sua origem, tinha como ponto central desvendar a estratégia de sobrevivência utilizada por uma camada da população que se encontrava em condições sociais e econômicas desfavoráveis. Aliado a este fato, que dificultava a sua inserção no processo produtivo, acrescia-se que, em muitos países, o assalariamento não era majoritário no mundo do trabalho. Neste sentido, procurou-se entender como se estabelecia o ingresso de uma parcela de trabalhadores não englobados no contexto “formal” do mercado de trabalho. Entende-se que, também no caso do Brasil, se, de um lado, a inserção dos trabalhadores em um mercado formalizado não contempla, historicamente, um contingente significativo destes, de outro, na atualidade, este padrão se torna cada vez mais distante da realidade do país. Isto porque as mudanças observadas no paradigma produtivo ocasionaram, cada vez mais, um afastamento do modelo de emprego.

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Cabe destacar que não só a questão do desemprego, que ainda se configura como objeto de inquietação no mundo de hoje, mas também as dificuldades de absorção da força de trabalho, objeto do estudo em pauta, já se constituíam em pontos de partida nestas análises desenvolvidas no final da década de 1960 e no início dos anos 1970.

1. O estudo sobre as atividades informais em Gana

É também atribuída a Hart (1973), antropólogo britânico, conforme já mencionado, a criação do termo “setor informal”. Peattie (1987, p.853), interpretando Hart, destaca que este “começa dizendo que os ganhos e as despesas em tal cidade não prontamente se encaixam nas categorias usadas pelos economistas, e que a política de governo voltada para a economia urbana não tem funcionado em seu desempenho”. Hart estuda um grupo de migrantes, situado na parte setentrional de Gana, originário de Frafa, que se desloca para as áreas do sul deste país. Muitos dos migrantes moram em áreas pobres do norte, cujo centro é Nima. Nesta cidade, segundo o Censo de População de 1960, 40% dos homens ativos e 95% das mulheres ativas não se encontravam engajados em um emprego assalariado. O objetivo de Hart (1973, p.61) é o de ”descrever as atividades econômicas de uma parte da força de trabalho de baixa renda em Acra, qual seja, o sub-proletariado urbano no qual a maioria dos migrantes de Frafa não qualificada e sem instrução está representada”. O período analisado, conforme observado, refere-se à década de 1960, sendo Acra uma cidade antiga, sem um desenvolvimento industrial significativo. A questão factual a ser respondida pelo autor é a seguinte: “o ‘exército de reserva de desempregados urbanos e subempregados’ de fato constitui um passivo, uma maioria explorada em cidades como Acra, ou suas atividades econômicas informais possuem alguma capacidade autônoma para gerar crescimento nos rendimentos do pobre urbano (e rural)?”. Segundo Peattie (1987, p.853), Hart (1973, p.65) responde a esta questão basicamente de forma afirmativa, quando ressalta que “’o desequilíbrio crônico entre o rendimento do emprego assalariado e as necessidades de consumo’ é encontrado em uma variedade de expedientes classificados desde um capitalismo primitivo ao furto os quais, tomados em conjunto, podem ser tratados como ‘setor informal’. (Na visão de Hart, ‘a distinção entre as oportunidades de rendimento do formal e do informal está

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baseada essencialmente naquelas entre os ganhos salariais e os do auto-emprego’)”. A

variável principal, neste caso, segundo o autor, é o grau de racionalização de trabalho, ou seja, o fato de que o trabalho pode ou não ser estabelecido com o recebimento de uma base permanente e regular de rendimentos fixos. No estudo de Gana, é ressaltado que muitos trabalhadores se encontram fora da força de trabalho organizada, mas que os serviços por estes desempenhados são extremamente essenciais para a cidade na qual são ofertados. Hart apresenta uma tipologia que distingue atividades legítimas e ilegítimas do setor informal, enfatizando que esta enfoca as atividades e não as pessoas. Os indivíduos podem ser encontrados não só em múltiplas atividades, muitas vezes, trabalhando em uma jornada intensa, como também, concomitantemente, engajados ou não, como força de trabalho organizada, entendida como uma relação formal de trabalho.

O informal é também visto como substituto ou, ainda, como uma possibilidade

desta população urbana sub-proletariada complementar formas de emprego nas quais recebem baixos salários. No entanto, podem ocorrer situações nas quais os rendimentos das atividades desenvolvidas no informal sejam elevados, mas, freqüentemente, estes são combinados com aqueles obtidos em um trabalho formal.

O emprego assalariado representa a segurança almejada pelo trabalhador em sua

atividade. Por um lado, no entanto, alguns indivíduos almejam ingressar no informal ou gostariam de aí permanecer em função de rendimentos, muitas vezes, mais elevados, sem, no entanto, abandonar o emprego assalariado. É raro encontrar um indivíduo que detenha uma só fonte de renda, em função não só da insegurança no trabalho desenvolvido como também pelo fato de os rendimentos serem variáveis ou irregulares. Deste modo, é comum para os trabalhadores o recebimento de várias fontes de rendimentos, por meio do desenvolvimento de atividades combinadas, como uma estratégia mais segura de sobrevivência. Por outro lado, é salientada, ainda, a importância do grau de regularidade com o qual os trabalhadores se encontram engajados nas atividades informais. É enfatizado que, somente no caso de um envolvimento regular de trabalho, poder-se-ia estar diante de um denominado “emprego informal”, que seria distinto de uma relação de trabalho casual com rendimentos obtidos também de forma esporádica (Hart, 1973, p.69).

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Peattie (1987, p.853) acrescenta que, segundo Hart (1973, p.84), o ponto em debate do desemprego, em sua totalidade, perde a sua proeminência quando se observa que tanto há pessoas que, não tendo trabalhos assalariados, obtêm o seu sustento, por longos períodos, através de arranjos “informais” de rendimento quanto o típico baixo salário recebido pode também ser complementado por uma variedade de outras

atividades. E ainda destaca que, no estudo de Gana, “a questão da pobreza e dos níveis de rendimento em geral torna-se mais relevante do que a definição de subemprego”.

Em suma, o informal é visto como importante segmento de trabalho e não deve

ser pensado que os trabalhadores que aí se inserem somente o fazem em função de não

terem sido bem-sucedidos na obtenção de um trabalho assalariado. O rendimento assalariado constitui somente parte da estrutura de oportunidades urbanas. O informal é visto como provedor de oportunidades de trabalho, tanto para os que estão aí inseridos como para aqueles que estão desempregados, que o encaram como uma possibilidade de sobrevivência.

A cidade possui uma força magnética, que “pode estar derivada da

multiplicidade de oportunidades de rendimentos mais do que simplesmente por níveis de assalariamento. Uma decisão de migrar para a cidade pode então ter algum motivo racional objetivamente se, a despeito da escassez de oportunidades de emprego formal e do baixo teto de remunerações de salário, o migrante pode vislumbrar uma perspectiva de acumulação, com ou sem um trabalho (assalariado) 2 , na economia informal de áreas mais pobres urbanas” (HART, 1973, p.88). Nesse sentido, a cidade é vista pelos migrantes como um local propício que pode lhes fornecer uma possibilidade mais adequada de sobrevivência O citado autor responde, em relação à questão factual por ele apresentada, que o exército de reserva de subempregados e de desempregados nas cidades pode ou não ser o desastre econômico, como é freqüentemente pensado. Isto porque o entendimento é de que o informal pode ser uma estratégia de sobrevivência tanto para os que já estão inseridos como para os sem-trabalho, que poderão nele obter a sua possibilidade de subsistência.

2 O termo assalariado foi por mim incluído para melhor entendimento da tradução apresentada.

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2.

O Informe do Quênia: um estudo de evidência do informal e contrapontos apresentados

O

relatório do Quênia (EMPLOYMENT

,

1972) foi produzido pela

Organização Internacional do Trabalho, devendo-se ressaltar, inicialmente, que o Programa de Emprego Mundial da referida Organização foi lançado, em 1969, na Conferência Internacional do Trabalho. Como parte do Programa, as missões-piloto dos

países visavam estudar, com a ajuda de outras agências no sistema das Nações Unidas, as causas do desemprego naqueles (denominados de Terceiro Mundo) com tipos de problemas específicos e ressaltar o que necessitava ser feito, tanto em nível internacional quanto nacional.

Na década de 1970, o desemprego já vinha sendo apontado como crônico e

intratável em quase todos os países em desenvolvimento. De um lado, podia-se destacar que, em geral, os países industriais teriam conseguido reduzir o desemprego aberto (entendido como ausência de postos de trabalho) em torno de 3% a 6% de sua força de trabalho. De outro, em outras partes do mundo, este se situava freqüentemente com percentuais acima de 10%, acrescidos de uma série de outros problemas graves de emprego. Além disso, o relatório aponta que parte da dificuldade era estrutural, no sentido de que muitos destes problemas não seriam sanados simplesmente pela aceleração da taxa de crescimento. Este trabalho enfatiza o fato de que, no processo de acumulação dos anos 1960, percebia-se que tais problemas de emprego estavam estreitamente relacionados às desigualdades de renda e de oportunidades, que não se situavam apenas entre suas conseqüências, mas também entre suas causas. Tal fato constituía-se, em parte, no aprofundamento e, freqüentemente, no crescimento dos contrastes entre as oportunidades e os padrões de vida rurais e urbanos. Na estrutura de renda urbana, este é o fator explicativo apontado não só para o grande movimento de migração em direção às cidades como também para as altas aspirações entre os jovens educados e o esforço na procura de um trabalho mais bem remunerado. O problema principal refere-se ao emprego mais do que ao desemprego. Ao lado das pessoas que não recebem nenhum rendimento, constata-se um grupo de pessoas, em maior número, que são, por estes autores, denominadas de “os pobres que trabalham”, possivelmente exaustivamente, mas percebendo uma baixa remuneração.

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Neste relatório, a crença é de que não há somente uma causa do problema do emprego, mas várias A maior parte destas revela, de uma maneira ou de outra, aspectos de desequilíbrios “entre o crescimento da força de trabalho, a população urbana e a educação e o crescimento como um todo da economia, e o desequilíbrio entre as aspirações e as expectativas de trabalho das pessoas e a estrutura de rendas e de oportunidades existentes” (p.2). Estes tipos de desequilíbrio estão relacionados às tendências básicas e às características da economia do Quênia. O ponto de partida do relatório é o da pobreza como um todo deste país e de sua estrutura produtiva, inevitavelmente ainda influenciada pela era colonial. Embora os laços coloniais estivessem sendo rompidos, a influência mundial se fez sentir, sob várias maneiras, mais acentuadamente desde a independência do Quênia. Esta influência exerceu um desejo de “modernização”, particularmente entre as pessoas mais jovens, mas por extensão em toda a população, mesmo para aquelas situadas em áreas remotas do país. No entanto, esta foi acompanhada de expectativas de melhoria, nem sempre alcançadas, pela falta de um suporte necessário para atingir tal intento, embora o Quênia tenha sido foco de ajuda internacional e de investimento estrangeiro privado. A ênfase deste relatório é não só a busca de correção dos desequilíbrios, mas também a da eqüidade, em substituição às flagrantes desigualdades encontradas, entre outras, nas rendas, na educação e, espacialmente, entre regiões e distritos, bem como entre os indivíduos (p.3). No Quênia, na época estudada, com 90% da população total originária de área rural, a questão crucial passava a ser, mais do que a existência de trabalho remunerado realizado para outras pessoas, a disponibilidade de terra, aliada ao conhecimento e aos serviços de suporte, no sentido de obter uma renda razoável. A realidade dos habitantes deste país, principalmente dos que dependiam da agricultura, era diferente regionalmente, além do fato de os ganhos provenientes de uma atividade estarem freqüentemente associados à natureza sazonal da demanda. Alguns trabalhadores procuravam um trabalho assalariado, em função da falta de colheitas para poderem realizar suas vendas. Para os que não conseguiam subsistir nestas áreas, em função da falta de oportunidades de emprego ou por terem outras aspirações de vida, a alternativa era migrar para as cidades. Em geral, os que o faziam

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eram particularmente os jovens e educados (estas duas categorias tendiam a coincidir), em busca de trabalhos nas cidades, para acrescentar outros ganhos de salários urbanos, mantendo ainda a maior parte destes grupos laços estreitos com o seu meio rural. Havia um grande movimento de migração em direção às cidades, onde ambos os setores da economia formal e informal ofereciam oportunidades de obtenção de rendimentos. Neste trabalho sobre o Quênia, é observado um extremamente importante ponto em comum com o problema investigado neste estudo, qual seja, a realidade observada e as estatísticas que procuram retratar a mesma. Ao ressaltar a divisão do trabalho por sexo, assinala-se que o quadro existente neste país contrasta profundamente como as aproximações estatísticas sobre esta questão. Era apontado, através do Kenya Statistical Digest, June, 1971, que 45% das mulheres encontravam-se engajadas regularmente em atividades econômicas. É observado que, quando estas não o faziam, deveriam ser consideradas usualmente ativas, pois realizavam tarefas domésticas em seus domicílios. Os autores constatam que, na mensuração do emprego, “as estatísticas são incompletas, cobrindo a maior parte do emprego assalariado e do auto-emprego nas firmas mais organizadas, mas omitindo uma série de assalariados e de pessoas auto- empregadas, tanto homens como mulheres, que denominamos como ‘setor informal’”

(p.5).

“A visão popular das atividades do setor informal é a de que estas são primariamente as de pequenos comerciantes, vendedores ambulantes, meninos engraxates e outros grupos ‘subempregados’ nas ruas das grandes cidades. As evidências, apresentadas neste relatório, sugerem que a maior parte do emprego no setor informal, longe de ser somente marginalmente produtivo, é economicamente eficiente e rentável, embora pequeno em escala e limitado por uma tecnologia simples, pouco capital e falta de laços com o outro setor (‘formal’)” (p.5). Dentro da parte mais recente do informal, citam que se encontra uma variedade de carpinteiros, pedreiros, alfaiates e outros comerciantes, como os cozinheiros e os taxistas, que, por meio de suas habilidades, procuram prover bens e serviços para um amplo, embora pobre, segmento da população. Freqüentemente, as pessoas terminam por perceber a dimensão da produção eficiente, em termos econômicos, no setor informal, em função dos rendimentos baixos recebidos pela maior parte dos trabalhadores aí inserida. Uma interpretação comum das causas destes baixos rendimentos (em comparação com a média dos níveis de salários

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no setor formal) tem sido presumir que o problema encontra-se dentro do setor informal. Segundo esta perspectiva, o informal é assumido como estagnado, não-dinâmico, além de se constituir como uma rede para os desempregados e os ociosos, disfarçados de uma forma sutil, como não tendo outra opção do que nele permanecer. Os autores deste relatório surpreendem-se sobre o modo como esta visão foi disseminada e fortalecida no meio acadêmico. Entretanto, este informe sobre o Quênia alerta para o fato de que se deve perceber o setor informal como sendo uma atividade econômica próspera, além de uma fonte de futuro bem-estar deste país. Há ainda o destaque de que este relatório não deve ser encarado como uma tentativa de solucionar o problema de emprego deste país, mas é inteiramente voltado para a evidência do setor informal. Esta revela que, provavelmente, o informal tem crescido, em grande parte, mais rapidamente do que o emprego no setor formal. Este estudo enfatiza, de forma marcante, a alardeada importância da ligação entre as atividades informais e formais. No entanto, a idéia presente é a de que as atividades informais não estão confinadas à periferia das grandes cidades, mas correspondem a ocupações específicas, ou mesmo a determinadas atividades econômicas. Neste sentido, mais do que atividades informais que representam um modo de produzir, estas apresentam as seguintes características: (a) facilidade de entrada; (b) apoio em recursos próprios; (c) empresas de propriedade familiar; (d) operação realizada em pequena escala; (e) trabalho intensivo e tecnologia adaptada; (f) habilidades adquiridas fora do sistema formal de ensino e (g) mercados não regulados e competitivos. Em relação às características das atividades do setor formal, são apontadas: (a) dificuldade de entrada; (b) freqüente apoio com recursos externos; (c) propriedade corporativa; (d) operação realizada em grande escala; (e) capital intensivo e, freqüentemente, tecnologia importada; (f) habilidades adquiridas formalmente, freqüentemente repatriadas e (g) mercados protegidos (por meio de tarifas, quotas e licenças comerciais). O relatório busca realizar uma “estratégia de redistribuição de crescimento com o propósito de estabelecer laços que estão atualmente faltando entre os setores formal e informal. Uma transferência de rendas de grupos de rendimentos mais elevados para os pobres que trabalham poderia resultar em novos tipos de investimentos de trabalho intensivo em ambas as áreas urbana e rural. Isto deve não somente gerar demanda de

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produtos do setor informal, mas também encorajar inovações em técnicas de trabalho intensivo neste setor. As recomendações constantes deste relatório têm intenção de reduzir o risco e incerteza dos que estão engajados no setor informal e assegurar um crescimento dinâmico deste amplo segmento da economia do Quênia” (p.6). O desemprego é freqüentemente analisado apenas como o resultado de um desequilíbrio básico, entre um crescimento muito rápido da força de trabalho, acompanhado por outro, mais lento, do número de oportunidades de trabalho. Mas, mesmo com uma igualdade perfeita, o desemprego pode surgir. Em relação ao Quênia, os autores destacam que devem ser consideradas algumas questões primordiais, quais sejam: (1) a maior parte da população do Quênia trabalha na terra e não em trabalhos com ganhos salariais; (2) enquanto o emprego, citado na afirmação acima, diz respeito às estatísticas de crescimento do emprego no setor formal, ignora-se aquele que abrange um contingente amplo e, aparentemente, crescente, inserido no “setor informal” e (3) as oportunidades, através das quais possam ser obtidos rendimentos razoáveis, devem ser consideradas como um ponto importante ao invés da ênfase atribuída exclusivamente aos trabalhos (p.7). Sem dúvida alguma, são várias as desigualdades existentes no mundo do trabalho citando-se, entre outras, as de sexo e idade, além das regionais e sazonais. Podem ser apontadas também aquelas entre “a relativa segurança e níveis de rendimento daqueles com trabalhos assalariados em grandes empresas e aqueles ocupados no setor informal. Estas profundas desigualdades inevitavelmente criam fortes ambições para que as pessoas migrem em direção às cidades, esforçando-se para atingir uma educação mais elevada, tendo em vista obter um trabalho. Tanto mais estes desequilíbrios extremos persistam, o mesmo sucederá ao desemprego, uma vez que grandes diferenciais irão atrair uma margem dos que procuram por trabalho em direção às cidades, próximas das chances de bons trabalhos, com a esperança de consegui-lo. Isto explica porque a análise da desigualdade é fundamental para a explicação dos problemas de emprego no Quênia” (p.7-8). Neste trabalho, percebe-se que vigora a "teoria da modernização". Esta, como ressalta Silva (2002, p.86), “sublinhava que o baixo nível de capitalização dos países subdesenvolvidos desequilibrava a estrutura do emprego urbano. Esta era vista como uma situação transitória, caracterizando uma espécie de pré-incorporação ao trabalho assalariado dos contingentes migrantes, cujas atitudes e modos de vida ainda não eram

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adequados aos padrões moderno-industriais, mas também já não eram inteiramente tradicionais”. No âmbito acadêmico, Tokman destaca que o informe do Quênia “foi o primeiro a introduzir o setor informal e sua principal inovação foi o conceito dos pobres que trabalham. Em certo sentido consistiu em uma análise da força de trabalho como unidade de produção e sua articulação com o resto da economia” (1987, p.513). O principal argumento sobre a origem do setor foi o excedente de mão-de-obra, ou seja, “em sua maioria indivíduos que emigravam de zonas rurais às urbanas e que não podiam encontrar trabalho nos setores modernos. Enfrentada a necessidade de sobreviver tinham que desempenhar qualquer atividade que os permitisse obter um rendimento”. Tokman ressalta que, neste trabalho, foi visto que a massa dos subempregados, que trabalhava em múltiplas atividades, tinha conseguido sobreviver em condições desfavoráveis. A partir deste fato, procurou-se examinar não só o tipo de trabalho realizado, mas também a sua constituição, que ocorria, sobretudo, em operações unipessoais. Em suma, o trabalho passou a ser identificado como a unidade de produção. Um outro ponto importante, conforme salientado por Tokman, é a suposição de que existia uma relação funcional com o resto da economia, “baseada no fato de que os trabalhadores informais poderiam proporcionar bens e serviços, ainda que sob severas formas de persecução. Daí se postulou que se não existisse esta interferência seria possível elevar o nível de rendimentos das pessoas ocupadas no setor informal” (1987,

p.513).

No estudo em pauta, devem ser ressaltados pontos abordados por Tokman que, no nosso entender, são atuais e comuns com as preocupações e conclusões em pauta ainda hoje. O primeiro deles diz respeito ao setor informal ser extremamente importante na sobrevivência das pessoas. O segundo ponto relaciona-se à questão do trabalho ser visto como unidade de produção, constituindo-se, sobretudo, daquelas unipessoais. Sob este aspecto, são enfatizadas as particularidades e a forma de organização da produção, ao invés da ótica da inserção do indivíduo no mercado de trabalho, que está contida nos conceitos sobre emprego, desemprego ou subemprego.

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O terceiro está centrado na relação deste setor com o restante da economia. Este último ponto é baseado no fato de que os trabalhadores podiam proporcionar bens e serviços no mercado, ainda que enfrentando formas desfavoráveis para atingir este objetivo. Ao supor a relação deste setor com o restante da economia, estar-se-ia constatando não só a inter-relação do informal no funcionamento da economia como um todo como também a constatação da sua importância neste contexto. A principal desvantagem do estudo do Quênia, segundo Tokman, foi a falta de um marco conceitual para definir o setor. Este foi definido em oposição às atividades formais e, em particular, por sua falta de acesso aos recursos produtivos e aos mercados (1987, p.514). Em relação a este ponto acima citado, deve-se destacar que, de um lado, persiste até hoje uma falta de consenso na definição da informalidade. Silva (2002, p.84-85) salienta que “o ‘quase-conceito’ desempenha uma função de mediação que, de um lado, realiza a crítica interna (ou, como se verá, o simples ajustamento), motor da trans- formação de modelos conceituais formais, obrigando-os a incorporar novos fenômenos não como ‘acontecimentos’ singulares -- portanto descartáveis como excepcionais e/ou negadores do esquema teórico --, mas como ‘variações’ típicas; e, de outro, fornece referências cognitivas mais ou menos estabilizadas (pela formalização conceitual), capazes de influir sobre a percepção orientada para as atividades práticas. É esse papel poroso, a meio caminho entre a percepção social típica de cada conjuntura e a reflexão conceitual mais abrangente e rigorosa, que pode explicar por que a noção de informalidade, empiricamente tão confusa e analiticamente tão ambígua 3 , sobreviveu, com popularidade crescente, por mais de uma década”. Por outro lado, esta oposição entre as atividades formais e as informais, vista no informe da OIT sobre o Quênia, pode ser ainda observada, através das décadas, em grande parte dos estudos acadêmicos. No entanto, a percepção da relação entre estas foi sendo alterada, ao longo do tempo. Hoje se reconhece tanto uma forte ligação entre

3 A seguir, reproduzo a nota 5 de seu trabalho: Pode-se ter uma idéia desta confusão somando à citação de Miras (1991) incluída na nota 2 com o que diz L. Gallino, em trabalho sobre a Itália no início dos anos

a difusão de atividades informais é simultaneamente: a) um resultado inescapável do

desenvolvimento da economia capitalista avançada; b) uma escolha livre e criativa de inovação social; c)

um conjunto de pequenas receitas de sobrevivência; d) um retorno a relações sociais pré-modernas com o suporte de modernas tecnologias” (L.Gallino apud Mingione, 1991:91, tradução minha). E, mais recentemente: “Mesmo sendo uma realidade imprecisa, com contornos incertos, suas [da informalidade] manifestações intuitivas podem ser vislumbradas nos dois hemisférios, nos países desenvolvidos do Norte ou nas nações subdesenvolvidas do Sul (Malaguti, 2000, grifo meu)”.

1980: “

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estas como o fato de o informal se articular com o formal, mas não no sentido de subordinação a este segmento de mercado. Certamente, o requisito mais importante é a facilidade de entrada no setor, que determina as características com relação à organização da produção e à inserção no

mercado. Tokman ressalta que, em sua origem, era destacada a falta de capital físico e humano tanto dos migrantes como dos que ingressavam, pela primeira vez, no mercado de trabalho. O referido autor aponta que tal fato tem, como conseqüência, o seguinte fluxo de características:

a) o tipo de atividade;

b) a facilidade de entrada no setor, apontada como o requisito mais importante;

c) as características da organização da produção e a inserção no mercado,

determinada pela facilidade de entrada no setor.

d) a organização rudimentar: sem clara divisão de trabalho, nem de propriedade

dos meios de produção, pouco capital comprometido e com poucas exigências em termos de habilidades por parte dos grupos aí envolvidos. No nosso entender, esta facilidade de entrada no setor, em momentos de crise econômica, permanece ainda hoje como um fator importante, utilizado pela população desfavorecida que, muitas vezes, nele reconhece uma estratégia possível para a sua sobrevivência. Esta apontada facilidade de entrada estaria sendo determinada, sobretudo, não apenas pelo fato de este setor ser composto por atividades com baixa exigência de capital, mas também, freqüentemente, por operar com tecnologia simples. Atualmente, ocorre uma relativização destas condições de funcionamento do informal, apontadas pelo informe do Quênia. Cacciamali (1993. p.218) aponta que os estudos empíricos realizados sobre este tema revelam que “cada uma dessas condições pode vir a criar um conjunto de atividades informais, cujas características organizacionais e de funcionamento podem não cumprir as demais condições enunciadas”. Destaca que “é a partir dessas condições que se pode afirmar, por exemplo, que a hipótese de facilidade de entrada quase sempre não se realiza em sua totalidade; que a participação em mercados supostamente não regulamentados ocorre, muitas vezes, com o fito precípuo de evadir impostos e/ou outros custos; que a propriedade familiar não é unívoca; que os recursos utilizados podem não ser totalmente próprios; e assim por diante”.

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Tal argumento é também corroborado por Peattie (1987, p.855), sobre o referido relatório, ao questionar “como é possível determinar, sem uma pesquisa extensiva e complicada, que tipos de ocupações são atualmente caracterizados por uma ‘facilidade de entrada’?”.

3. Evidência da informalidade na década de 1970 no Brasil: mercado de trabalho metropolitano manual e marginalidade

1972) foi bastante divulgado como

sendo o primeiro documento oficial que procurou mostrar evidências da existência do denominado “setor informal”. Além disso, como já mencionado, foi atribuída também a Keith Hart a criação da noção de informalidade, no início dos anos 1970.

A primazia do pioneirismo deste termo “setor informal” é compartilhada com

outros autores, igualmente importantes, que, na década de 1970, realizaram estudos sobre este tema, mas, como destaca Oliveira (1990a), devido à circulação mais restrita

de seu trabalho, não obtiveram tal distinção à época. Neste sentido, insere-se o trabalho de Silva (1971), publicado anteriormente ao informe do Quênia, que em muito contribuiu para a elucidação de um tema importante que, então, começava a despontar. O próprio Silva (2002), conforme já visto anteriormente, destaca que a noção de informalidade, no início, esteve ligada ao reconhecimento das restrições de capital no processo de mobilização produtiva do trabalho e suas conseqüências. Cita que ele mesmo se referia ao ‘mercado formalizado’ e ao ‘mercado não formalizado’ com um sentido próximo ao produzido a partir dos estudos de países africanos. Nesta dissertação, Silva (1971) aborda um tema de presença constante no pensamento sociológico latino-americano: a marginalidade, ou o processo de marginalização. Sobre a delimitação do universo de análise, trata-se do trabalho manual urbano (“metropolitano”), qualificado e não-qualificado. De forma extremamente sucinta, pode-se dizer que o trabalho qualificado constitui-se aquele no qual o treinamento formal (curricular) não é condição indispensável para a formação técnico- profissional do trabalhador.

O “trabalho manual urbano” é investigado tendo como finalidade as questões

relacionadas à marginalidade, de modo que está centrado, conforme ressalta o autor, não

só sobre os setores menos “sofisticados” da mão-de-obra (o trabalho pouco ou nada

O estudo do Quênia (EMPLOYMENT

,

27

qualificado), como também sobre a atividade econômica em geral (a que se caracteriza pela reduzida formalização jurídico-institucional). Considera-se importante ressaltar que determinados trabalhadores se inserem em atividades consideradas “marginais”, apesar de serem essenciais, sobretudo em países que apresentam não só um menor nível de desenvolvimento, como também de independência econômica. O próprio autor, em uma de suas conclusões, ressalta que “nem todas as atividades do mercado não-formalizado podem ser vistas como marginais, tanto em termos de sua importância para o sistema quanto em relação ao

nível de controle do mercado de trabalho dos trabalhadores delas dependentes” (SILVA, 1971, p.132).

O autor explica que o material empírico sobre o tema se encontrava praticamente

baseado em dados censitários, cuja análise “não se fundava no conhecimento direto do cotidiano dos grupos envolvidos; e, nos poucos trabalhos de campo, o distanciamento entre o observador e os grupos observados era total, havendo sempre a mediação de instrumentos formais de coleta” (p.5). De um lado, o tema da marginalidade, ou do processo de marginalização,

naquela época estudada, era muito complexo, em função, entre outros fatores, de se constituir em uma recente área particular de preocupação. De outro, segundo Silva (p.3), “a bibliografia a respeito é quase inesgotável (e em boa parte de difícil acesso), não obstante a escassez de dados estatísticos fidedignos e a insuficiência de investigações empíricas, lamentados por quase todos os que tratam do tema”.

O modelo do estudo esteve referido às grandes cidades brasileiras, quais sejam,

Recife, Salvador, Fortaleza e, em especial, Rio de Janeiro, na qual foi realizada a maior parte das investigações, contemplando determinados problemas da marginalidade, como o modo de inserção dos trabalhadores envolvidos no sistema global, a partir das condições do mercado de trabalho. Segundo o autor, o referido modelo “assume uma perspectiva que enfatiza o consenso (integração – não-integração, participação no sistema)” (p.12). Conforme ressaltado por Coelho e Valadares (1982, p.19), este modelo serviu como base analítica para uma série de outros estudos, desenvolvidos ainda na década de 1970. Percebeu-se que havia uma discordância das formulações em pauta, que deveria ser atribuída a uma distorção da ‘ótica’ que presidia certas interpretações e não ao

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conteúdo dos modelos apresentados. Nestes, havia uma completa falta de vivência da realidade estudada. Silva (1971) destaca que, quando o seu estudo salienta “o ponto de vista dos trabalhadores”, esta afirmativa ”só pode ser entendida analiticamente, isto é, que os trabalhadores são tomados como referência no contexto de uma análise sócio- antropológica”. Enfatiza que era preciso conhecer o significado das condições de mercado para os grupos envolvidos, ou seja, “era preciso conhecer como estes percebiam o setor da realidade que era objeto de análise” (p.8). Acrescenta que os depoimentos pessoais “não podem ser vistos como ‘dados’ (‘provas’), mas sim como ilustrações que buscam tão somente esclarecer e facilitar a compreensão dos problemas apresentados” (p.10). Ao analisar a estrutura dos mercados metropolitanos de trabalho manual, o autor (p.13) ressalta enfoques importantes e diferenciados no estudo da informalidade. Tendo em vista “os modos de atuação por parte do trabalhador, isto é, de suas manipulações no sentido do ‘controle do emprego’ (atual ou potencial), o mercado apresenta uma diferenciação básica, determinada por dois tipos polares de empregador: a ‘firma’ e o ‘indivíduo’. Por indivíduo, entende-se o agente econômico (pessoa, família, etc.) que é antes ‘consumidor’ de serviços que ‘empresário’, e que portanto não tem existência jurídica como empregador. Por firma, entende-se a empresa registrada, cuja atuação se orienta em consonância com o aparato legal vigente: legislação trabalhista, tributária, etc. “

Destaca-se que, em torno desses pólos, anteriormente mencionados, “o mercado de trabalho organiza-se em dois sub-sistemas, aqui denominados, por oposição, ‘mercado formal’ (MF) e ‘mercado não formalizado’ (MNF). Ambos os sistemas são altamente institucionalizados, de modo que a dicotomia formal/informal indica neste contexto apenas a explicitação ou não das alternativas de comportamento sob a forma de normas jurídicas. Esta explicitação é importante porque implica numa menor flexibilidade dos modos de conduta nos empregos ligados ao MF” (p. 13, grifo nosso). Em termos do mercado formalizado, as características básicas são a proteção e a legalização do emprego. Os trabalhadores que assim se enquadram estão vinculados a um único empregador tendo a posse de carteira de trabalho assinada (contrato assinado pelo empregador e registrado no Ministério do Trabalho). O empregado com carteira de trabalho assinada possui uma série de benefícios ligados à previdência social. No caso

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dos funcionários públicos, não há a posse de carteira de trabalho assinada. No entanto, determinados direitos são garantidos a estes trabalhadores, em função da contribuição que realizam para a previdência social. Silva já ressaltava, na década de 1970, aspectos atuais neste tema, quais sejam, a heterogeneidade existente dentro do que se denomina como o emprego típico do mercado formalizado e a tendência de não se cumprir determinadas exigências para a legalização de algumas firmas, sobretudo daquelas de pequeno porte, em função do ônus embutido neste procedimento. O referido autor destaca que “em resumo, o emprego típico do MF proporciona, através da carteira assinada, proteção legal e ‘reconhecimento social’. No entanto, não se pode dizer que o MF compõe-se exclusivamente de empregos desse tipo. Isto porque, mesmo considerando apenas o empregador tipicamente capitalista do MF - ou seja, a firma registrada -, o volume de irregularidades jurídicas nas relações de trabalho é enorme. Quanto menor o porte da empresa e mais deficientes seus métodos de administração, maior a tendência de burla à legislação, que serve de recurso para problemas os mais diversos do empregador: aumento da margem de lucro, dificuldades financeiras, etc. Todas essas irregularidades provavelmente têm origem no fato de que o ônus com os encargos trabalhistas chega a equivaler a 50% sobre a folha de pagamentos da empresa, o que provoca fortes repercussões sobre os custos de produção” (p. 18). São ressaltadas as categorias de emprego que compõem o MF. Em primeiro lugar, o emprego público, depois, a categoria de empregos privados, que é muito ampla e variada, existindo subtipos como os empregos em grandes empresas ou pequenas empresas. No entanto, é enfatizado que, embora estes termos façam um apelo direto ao tamanho da empresa, este possui importância muito reduzida para o problema. “A própria noção de ‘tamanho’ é ambígua, pois não há relacionamento necessário entre, por exemplo, o valor da produção, a área do estabelecimento e o volume de capital, ou entre este e o número de empregados, etc” (nota 9, p.25). Embora adotado, até hoje, em vários estudos sobre este tema e passando sua divisão pelo número de pessoas ocupadas, o tamanho de um empreendimento pode ser considerado também um corte arbitrário. Reconhece-se, como destaca Valadão (2000, p.3), “que o caráter informal de uma determinada atividade não é dado apenas por seu tamanho, mas, principalmente, pela particular divisão técnica e social do trabalho, que ali se estabelece”. Ou seja, pode ocorrer muitas vezes, em uma unidade produtiva do

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setor informal, a utilização de instrumentos de trabalho que não pertençam exclusivamente à empresa, mas sejam instrumentos pessoais do proprietário, não se podendo definir, neste caso, uma nítida divisão entre o capital e o trabalho. Ao adotar este procedimento de análise das pequenas unidades produtivas, as hipóteses centrais que, em geral, se encontram embutidas, pelos estudiosos, pressupõem que nestas unidades produtivas prevalece o fator trabalho em relação ao capital, tecnologia nacional e relações de trabalho, estabelecidas com base em laços pessoais, familiares ou de amizade, que se sobrepõem, muitas vezes, à busca de racionalidade econômica tão esperada em uma organização produtiva que vise maximizar a obtenção de lucros. Lautier (1991, p.25) aponta ser este critério puramente empírico, sendo considerado, no cômputo geral, o conjunto das unidades de menos de onze pessoas ocupadas e, às vezes, menos de seis. No entanto, a sua proposição pelas organizações regionais da Organização Internacional do Trabalho (como o Programa Regional de Emprego para a América Latina e o Caribe – PREALC) fez com que a maior parte dos institutos nacionais de estatísticas, seguindo estas normas internacionais, procurasse adotá-lo 4 . Silva (1971, p. 27) ressalta que existe uma tendência à concentração dos empregos “típicos” do MF - os “empregos regulares e permanentes” - nas grandes empresas. Mas, identificando este fato, alertou para a questão de que não se pode ignorar que, paralelamente, existe uma quantidade ponderável de “casos desviantes” nas grandes firmas, em especial nos níveis mais baixos de qualificação, como também é grande o número de “empregos regulares e permanentes” em firmas menores e/ou “quase-familiares”, inclusive as que não têm existência jurídica. Alerta para este fato, pois, muitas vezes, há um desconhecimento desses problemas, o que leva a uma simplificação exagerada. A falta de inserção plena no sistema jurídico-institucional em empregos (que poderiam ser incluídos no MF) em firmas não-registradas constitui-se em um sério

4 No Brasil, o conceito de setor informal, adotado pela Pesquisa da Economia Informal Urbana (ECINF) da Fundação IBGE, em 1997, refere-se às características das unidades produtivas (empresas), nas quais as atividades se desenvolvem, abrangendo os trabalhadores por conta própria e os empregadores com até cinco empregados, seguindo recomendações da OIT (Statistical of employment in the informal sector – fifteenth international conference of labour statisticians – Report III - 1993. Genebra: International Labour Organization, 1993).

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obstáculo, tanto para a estabilidade de funcionamento das mesmas quanto pelos reflexos equivalentes sobre os empregos que são gerados por estas.

O caráter familiar ou “quase familiar” desses estabelecimentos, com ligações

pessoais do trabalhador com o empregador (que tem neste o seu único patrão), além do envolvimento deste no desempenho da própria firma, permite ao trabalhador a manutenção do emprego, desde que esta esteja apresentando condições plausíveis de sobrevivência. Quando não há um funcionamento adequado da mesma, o trabalhador acaba substituindo, muitas vezes, a relevância da proteção legal do emprego que, neste caso, se situa no limiar entre o MF e o MNF, dada sua ambigüidade. Ao analisar o mercado não formalizado, Silva (p.29) salienta que, por oposição ao MF, “depreende-se que este sub-sistema é ‘invisível’, no sentido de que existe à

revelia do aparato jurídico-institucional. Portanto, é num contexto sem qualquer tipo de reconhecimento oficial que as ocupações do MF devem ser entendidas”. Neste caso, entende-se que “a procura de amparo legal proporcionado pela carteira assinada, como modo de produção de emprego, é substituída no MNF pela distribuição de riscos, através da diversificação de patrões”. Destaca que “não se deve esquecer que o traço de ‘invisibilidade’ jurídico-institucional de boa parte desses contingentes e das próprias atividades aumenta sua viabilidade econômica. Em certos casos, é esta condição de ‘invisibilidade’ que responde pelas possibilidades de competição no mercado” (nota de pé de página, p. 130). Na situação acima descrita, o patrão seria um consumidor de serviços pessoais, uma vez que contrata não um empregado, mas uma tarefa específica e determinada (em geral de curta duração). Os laços entre o patrão e o trabalhador são finalizados ao término da tarefa.

É enfatizado que, apesar desta relação ser, em princípio, interpessoal, o

trabalhador acaba se esforçando para criar os denominados laços “de clientela”, “a fim de obter uma posição segura no mercado, isto é, de evitar períodos em que seja incapaz de encontrar trabalho remunerado”. Segue o autor, destacando que esta “personificação” da atividade econômica é a característica fundamental do MNF. Estes laços de clientela, embora em caráter mais restrito, são também encontrados no mercado formalizado, tais como os que são estabelecidos entre o empregador (ou chefe imediato) e o empregado. No entanto, a situação de emprego submete-se às normas gerais, que se abstraem do caráter impessoal, sendo universalistas, estando representadas pelo sistema legal, e a

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burocratização da atividade econômica encontra-se representada pela “firma” como instituição (p.30).

O autor ressalta que “o que se afirma como típico do MNF é, em primeiro lugar,

o forte significado econômico das relações pessoais, e em segundo que o trabalhador torna-se cliente de um número variável de patrões, embora estes não sejam os únicos consumidores de seus serviços. Os laços de clientela são cruciais, na medida em que proporcionam uma garantia de venda mínima da força de trabalho -, e porque trazem uma série de outras vantagens econômicas (pequenos empréstimos, alimentos, roupas, apresentação a novos consumidores, etc.) que constituem uma importante fonte subsidiária de remuneração” (p.31). Em função das características citadas, percebe-se que cabe ao próprio trabalhador um papel fundamental de atuação, que irá respaldar a sua inserção no mercado de trabalho. Silva (p.31) aponta que “a invisibilidade legal aliada à ‘personificação’ da atividade econômica, concorrem para a extrema flexibilidade que o MNF apresenta”. Acrescente-se ainda que esta flexibilidade do MNF se encontra expressa por variações relacionadas à criação de vínculos indiretos e informais de trabalho. Estas dizem respeito, de um lado, à segurança da ocupação (ou seja, a estabilidade) do trabalhador, que está relacionada ao fato de se poder assegurar compradores para os bens e/ou serviços produzidos. Por outro lado, o trabalhador “acumula a responsabilidade de ‘comercializar’ a mercadoria de que dispõe, isto é, de julgar e influenciar pessoalmente o preço de seu trabalho, para o que necessita de informações de toda espécie sobre as condições de mercado” (p.34). Ressalta ainda que, “de modo geral, pode-se dizer que existe no MNF uma

relação inversa sobre a segurança da ocupação, entre a influência da qualificação profissional e das variáveis ligadas à ‘personificação’: quanto maior a habilidade técnica necessária ao desempenho da ocupação, menor a importância relativa das relações pessoais” (p.36).

A análise do MNF diz respeito, em resumo, às: (a) ocupações não-reconhecidas;

(b) exercidas e controladas individualmente e (c) ligadas ao setor de serviços - isto é, às

ocupações “típicas” do MNF. Silva (1971) descreve os tipos de ocupações pertencentes ao MNF:

1) O primeiro é o dos trabalhadores “por conta própria” (p.42) que o autor adota em diferenciação ao de “trabalhador autônomo” (que seria o trabalhador por conta

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própria com situação regularizada, que, no seu entender, é um caso-limite desta categoria de ocupações). O trabalhador autônomo é definido como aquele que paga o imposto sobre serviços (ISS), qual seja, uma taxa anual fixa que incide sobre qualquer tipo de atividade não-assalariada. O pagamento do ISS “proporciona um certo reconhecimento legal e social: o trabalhador pode filiar-se ao INPS 5 , a polícia aceita o recibo como substituto da carteira de trabalho” (p.23). “As ocupações por conta própria referem-se aos casos de ‘auto-emprego’, ou seja, aqueles em que o trabalhador dispõe de um certo grau de independência no mercado, tanto de empregadores (firmas) quanto de patrões (rede de contatos). Embora sua atuação se situe no contexto do MNF, a subordinação aos laços de clientela é menos marcante que nas demais categorias desse sub-sistema, uma vez que as habilidades profissionais e a posse dos instrumentos de trabalho colocam-no numa posição vantajosa no mercado (o trabalhador por conta própria está sempre nos níveis mais qualificados de sua profissão, embora esta possa ser relativamente ‘rudimentar’ - no sentido, por exemplo, de que exige pouca ou nenhuma escolarização, não requer treinamento formal, etc.)” (p. 43). Destaca ainda que estes trabalhadores apresentam um alto grau de estabilidade, pois se ocupam em tempo integral e ininterruptamente e o nível de renda é, muitas vezes, superior ao daqueles que se encontram no MF. 2) O segundo é o do biscateiro que, em geral, pode ser descrito como aquele que “não dispondo de instrumentos de trabalho e/ou tendo um nível de qualificação mais baixo ou inexistente, sua dependência da ‘personificação’ das relações econômicas é muito grande, e quase sempre a única forma de controle do mercado” (p.44). A sua inserção permanente no mercado de trabalho não ocorre de forma freqüente, devido à concorrência existente. Neste sentido, a manutenção de sua clientela e de contatos pessoais é extremamente importante para a segurança de sua ocupação. Mas, entre os biscateiros, há casos em que muitos conseguem obter uma remuneração mais elevada que a dos empregados no MF com nível de qualificação equivalente. 3) O terceiro seria composto pelas atividades domésticas, que se enquadram em um tipo de serviços pessoais, desagregando-se em duas categorias de ocupações: (a) “serviços domésticos” e (b) ”empregos domésticos” (p. 44-45).

5 INPS – Instituto Nacional de Previdência Social hoje denominado de INSS – Instituto Nacional de Seguridade Social.

34

Nos serviços domésticos, destaca-se o fato de este segmento estar constituído, basicamente, pelas mulheres, além de, muitas vezes, poder exercer as tarefas no próprio domicílio. Existe um número limitado de patrões e a duração das tarefas é indefinida, de modo que deixa a possibilidade de ocorrer uma longa e contínua relação de trabalho, diferente das outras categorias, limitadas à duração da tarefa (p. 45). No caso dos empregos domésticos, o trabalhador (embora seja em maioria do sexo feminino, não o é exclusivamente), além de ter um único patrão, é muito freqüente que tenha a obrigação de dormir no local de trabalho. “Com isso, fica eliminada a oportunidade de as tarefas serem executadas na residência do trabalhador, bem como reduzem-se as possibilidades de distribuição dos riscos pela diversificação de patrões” (p. 46). No entanto, o nível de remuneração pode aumentar quando a alimentação está incluída, bem como “presentes” e outros itens. Nesta relação de trabalho, o autor ressalta que há uma relação que, estabelecida face-a-face, estimula a “intimidade” do contato entre o trabalhador com o patrão, podendo se tornar bem aprofundada. As características particulares descritas distinguem os dois subsistemas (mercado formalizado e mercado não-formalizado), diferenciando-se as diversas situações de trabalho entre e dentre estes, mas é destacado que as condições do mercado metropolitano de trabalho criam esses dois subsistemas, dotados de vantagens e desvantagens relativas, que, na verdade, configuram um todo único. O próprio autor aponta que a análise não ficaria completa sem algumas referências às respectivas articulações. Neste sentido, enfatiza “o imenso turnover de mão-de-obra entre os tipos de emprego/ocupação no interior de cada um, de que apenas se excluem os empregos públicos. (Quanto a estes, o alto grau de segurança e o nível relativamente alto de renda proporcionam vantagens que colocam seus ocupantes em posição privilegiada; uma vez obtido um emprego público, normalmente ele só é abandonado por aposentadoria)” (p. 47). Há ainda um outro aspecto, a ser considerado, que se relaciona à possibilidade de concomitância existente entre ocupações/empregos que oscilam, de um lado, na estabilidade de um determinado emprego e, por outro lado, na complementação de renda fornecida por outro tipo de ocupação/emprego, tais como os casos existentes de “empregados (públicos e privados) que fazem biscates, trabalhadores por conta própria que fazem biscates em outras profissões ou ‘empregadas domésticas’ que executam ‘serviços domésticos’ à noite ou nos fins de semana, etc.” (p. 51-52).

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Esta oscilação entre a inserção dos membros da família alternando-se entre estes dois subsistemas, bem como a concomitância de atividade em ambos, revela uma estratégia de sobrevivência dos trabalhadores, pois, neste caso, do ponto de vista orçamentário, a unidade econômica básica não é o indivíduo, mas a família. A tentativa por parte da família é no sentido de garantir a sua reprodução, diminuindo possíveis riscos existentes entre algumas situações de trabalho e auferindo ganhos maiores ou complementares proporcionados por outras. “Não há dúvida de que, do ponto de vista da situação de trabalho, há sempre um salto implicado na passagem de uma para outra, mas ele é amortecido pelas condições existentes no que se chamou aqui de ‘espaços limiares’ - cujo conceito procura exatamente apreender essa interpenetração de situações de trabalho diversas. Esse aspecto é um tanto menor no interior do MF e na passagem deste para o MNF, devido às definições formais-legais das categorias, mas a limiaridade permanece por intermédio dos diversos níveis e tipos de irregularidades e situações semi-legalizadas” (SILVA, p.

52).

Na distinção dos contextos diferenciados do MF e do MNF pode-se dizer ainda, de forma simplista, que se encontra, de um lado, no MF, a questão da estabilidade e de uma renda determinada por normas jurídicas e, de outro, no MNF, a tensão permanente em busca de uma constante atividade e o nível de renda limitado pela habilidade pessoal. Ao discutir o modelo apresentado em sua utilidade e no significado do mesmo, o citado autor destaca a distinção existente entre os campos do MF e do MNF e dentro destes sub-campos, que seriam as categorias de emprego/ocupação, cujos contornos estão caracterizadas por situações limiares, ou seja, pouco diferenciadas entre si. Acrescenta que a caracterização destes campos é fornecida pela importância relativa de certas características do mercado. “O fato de determinados traços definirem um segmento ou um grupo de trabalhadores não implica necessariamente que é aí que eles se manifestam. Assim, por exemplo, os laços de clientela não são exclusivos do MNF, mas apresentam maior importância na maior organização e na dinâmica deste setor; por outro lado, uma certa formalização jurídico-institucional não está ausente do MNF, embora nele seja periférica, ao passo que essencial no MF” (p. 109-110). Em suas conclusões, em relação à noção de estabilidade/instabilidade, é observado que esta não pode ser entendida em termos jurídicos e formais, uma vez que

36

ocupações ‘inexistentes’ do ponto de vista jurídico-institucional podem ser estáveis, e vice-versa. Desta forma, “a estabilidade do emprego/ocupação pouco tem a ver com os níveis diferenciais de formalização nas diversas áreas do mercado de trabalho” (p.132).

4. Considerações sobre a origem do debate da informalidade

Em suma, ao se recapitular sobre a origem do tema da informalidade, percebe-se

que, desde o final dos anos 1960, esta questão constituía-se em objeto de preocupação nos denominados países do Terceiro Mundo, sendo o principal ponto de debate o nível de pobreza.

No início da década de 1970, já era salientado o papel desempenhado pelo setor

informal na sobrevivência da população pobre, sobretudo de áreas subdesenvolvidas. Neste sentido, encontram-se os estudos produzidos no início da década de 1970, sobre o Quênia e sobre Gana. Foi verificado que as oportunidades de sobrevivência para a população menos capacitada, em geral residente em áreas rurais, eram propiciadas, muitas vezes, nas cidades, em ocupações específicas ou em determinadas atividades econômicas que foram denominadas de “informais”. Estas podiam ocorrer ou como atividade principal ou secundária de trabalho, constituindo-se em formas vitais de sustento de um expressivo número de famílias. Em estudo pioneiro no Brasil, sobre a informalidade, Silva destaca que, em sua tese, referia-se ao ‘mercado formalizado’ e ao ‘mercado não-formalizado’ com um sentido próximo ao produzido a partir dos referidos estudos de países africanos. A perspectiva adotada enfatiza a participação e a integração ou não no sistema. A dicotomia formal/informal indica a explicitação ou não das alternativas de comportamento sob a forma de normas jurídicas, o que se traduz em uma menor flexibilidade nos empregos ligados ao mercado formalizado. Em relação ao mercado não-formalizado de emprego, um ponto importante apontado é a sua característica de “invisibilidade”, pois existe independente do aparato jurídico-institucional, o que aumenta a sua viabilidade econômica.

A oscilação da inserção das pessoas que compõem a família entre os

subsistemas, o formal e o informal, bem como o exercício concomitante de atividade em ambos, revela uma estratégia familiar de sobrevivência dos trabalhadores que indica, de

37

um lado, a procura de estabilidade de um determinado emprego e, de outro, a complementação de renda fornecida por outro tipo de ocupação/emprego. Estas questões podem ser consideradas recorrentes, no cenário de hoje, quando se constata a permanente tensão na vida do trabalho entre a autonomia, que se espera obter, associada a uma expectativa de segurança. Acrescente-se ainda a permanência, na atualidade, da existência de situações de trabalho, observadas no debate da origem da informalidade, que se encontram no limiar entre os denominados campos formal/informal. Na PNAD atual, permanecem traços comuns, evidenciados no debate sobre a origem da informalidade, em suas evidências empíricas a este respeito, referentes às citadas estratégias de sobrevivência dos trabalhadores e à interligação entre as atividades formais e informais. Entre outras questões, podem ser apontados não só a investigação das pessoas em uma relação de trabalho formal ou informal, tarefa, muitas vezes, não tão simples, como também o exercício de atividade em mais de um trabalho. Além do mais, os tipos de ocupações dos trabalhadores por conta própria e os das atividades domésticas, constantes das referidas estatísticas e objeto de estudo em estudo pioneiro sobre a informalidade no país, constituem hoje, junto com outras categorias de posição na ocupação, objeto importante para o entendimento do tema.

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CAPÍTULO II

CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DA INFORMALIDADE

Neste capítulo, busca-se discutir as formas como, ao longo do tempo, o fenômeno da informalidade vem sendo estudado por vários autores, sob diferentes enfoques e metodologias de análise, além das controvérsias suscitadas pelo tema. É preciso destacar que o termo “informal” é aqui mencionado sob várias denominações - setor informal, mercado não-formalizado, setor não-estruturado, entre

outras -, de acordo com a nomenclatura atribuída pelos autores que o analisam, a qual, por sua vez, está freqüentemente relacionada às diferentes percepções que lhe são atribuídas ao longo do tempo. Entende-se também que, além destas, traços comuns perpassam os diversos períodos analisados, por meio de valores e representações que, estando presentes, se agregam na passagem e/ou transformação de novas formas capitalistas de acumulação.

Ao se procurar discutir historicamente a informalidade, tem-se como propósito

não apenas apresentar uma análise estruturada sobre o que vem sendo realizado ao longo do tempo, mas também apontar as questões relevantes sobre este tema. Procurar-

se-á associar as concepções teóricas deste fenômeno às suas representações concretas, que se constituem, em nosso caso específico, em um significativo alvo de análise.

No decorrer do tempo, tem se verificado que a percepção da informalidade vem

sendo apreendida através de marcos teóricos distintos, que, com objetivos diferenciados, geram múltiplos objetos de estudo. Cacciamali (1999, p.1) enfatiza que os debates teóricos e técnicos sobre a informalidade, embora possuam enfoques diversos, não divergem nas suas áreas de domínio.

O primeiro deles está centrado na dinâmica capitalista da economia

contemporânea, suas mudanças estruturais e a geração de um processo de informalidade que se manifesta de duas formas: (a) novas e recriadas articulações entre grandes empresas e pequenos negócios e (b) manutenção de um espaço intersticial ocupado por pequenos negócios e trabalhadores por conta própria para aqueles excluídos da nova dinâmica. O segundo mostra aspectos relativos às diferentes manifestações de pequenas unidades produtivas que, por operarem com pouco capital, além de outras restrições, apresentam baixo nível de produtividade. Na verdade, estes dois enfoques se inserem

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em uma única problemática, que, como ressalta a autora, é o cenário econômico contemporâneo, com seu processo de acumulação, em sua dinâmica e características. Cacciamali (1999, p. 2) aponta para o fato de que os anos 1970 mostraram, sobretudo no caso brasileiro, que o crescimento econômico, ao mesmo tempo em que é fundamental para ampliar as oportunidades econômicas e sociais dos mais desfavorecidos, é, entretanto, insuficiente na criação de empregos e de circunstâncias adequadas de trabalho e de renda para todos. A autora destaca a necessidade de implementação, paralelamente ao crescimento econômico, “de um conjunto amplo de programas sociais complementares e articulados entre si, como educação e capacitação profissional; habitação e saneamento, saúde preventiva e higiene, etc.”. A partir do reconhecimento da importância deste tema em economias como a nossa, a discussão sobre o “mercado informal” esteve no centro das preocupações dos estudiosos do mercado de trabalho no Brasil, sobretudo na década de 1970 (SILVA, 1971 e SOUZA, 1978), conforme já observado anteriormente e apontado em estudos desenvolvidos sobre a questão do emprego, subemprego e desemprego no país, tais como o de Rinaldi et alli (1991) e constantes do anteprojeto de revisão da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (RINALDI; VIANNA; BRITO,1990. Na década de 1970, Prandi (1978), ao analisar o trabalhador por conta própria, procura entender o sentido desta categoria no contexto do processo de transformação da sociedade, que é determinado pelas regras fundamentais da acumulação capitalista. No seu entender, as relações de produção de molde tipicamente capitalista, bem como as que não são assim de todo caracterizadas como tal, ou seja, não tipicamente capitalistas, não se constituem como duas realidades independentes, operando conjuntamente. “Uma não independe da outra na determinação de sua existência. Ambas estão determinadas num só processo, que é o processo de acumulação do capital. Não é legítimo afirmar que o trabalho por conta própria faz parte das relações de produção capitalista nem que aquele tipo de relação de produção esteja fora do circuito capitalista de produção” (p. 155). Esta afirmação pode parecer paradoxal, na medida em que se afirma que o trabalho por conta própria é um elemento de reprodução do capital, pois o contraponto, normalmente considerado como expressão das relações capitalistas, é o trabalho assalariado. A solução do paradoxo é apontada pelo autor, quando destaca que “o trabalhador por conta própria não produz somente bens e serviços para o mercado de bens e serviços mas produz também força de trabalho barata para o capital, colaborando

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para a produção e reprodução do proletariado em geral. Sua participação na produção capitalista não é imediata, da mesma maneira que não o é a participação de assalariado não produtivo” (p. 156). Ao comparar, em sua tese, a categoria de trabalhador assalariado, que aparece como a expressão das relações capitalistas por excelência, com a de conta própria, que não é identificada com o capitalismo, destaca que esta última: “não pode ser pensada como algo anormal, impróprio, estranho às relações sob o capital, a menos que se imaginasse que a única forma de exploração do trabalho pelo capital se desse através da extração da mais-valia. Ora, a extração da mais-valia é a forma capitalista por excelência da exploração do trabalho e o mecanismo fundamental para a acumulação capitalista. Sendo, no entanto, fundamental, há que se investigar que outras formas de exploração permitem uma melhor e mais rentável maneira de acumulação pela extração do produto do sobretrabalho; e que relações de trabalho permitem e propiciam os modelos de expansão da exploração capitalista do trabalho” (p. 156-157). Neste sentido, é enfatizada a importância desta categoria não como algo “anormal”, mas inserida nas relações sob o capital. “O problema do significado do trabalho autônomo deve ser visto como elemento propiciador, não somente da acumulação em si, mas da reprodução da sociedade brasileira como sociedade capitalista” (p. 35). Prandi (p. 85) enfatiza que “na impossibilidade de vir a se transformar em empregador, o trabalho autônomo traz em si a oportunidade de negar, pelo menos, a condição de assalariado. Mas o trabalho por conta própria significa também a possibilidade de trabalho para os que não conseguem ser assalariados”. Segue concluindo que, no primeiro caso, o agente sai do mercado de trabalho por opção e, no segundo caso, dele é expulso, sendo que, na prática, estes dois processos ocorrem freqüentemente conjugados, o que, de modo simplificado, indica que a expulsão pode estar mascarada pela opção, sendo que esta última só é possível se o trabalho específico for socialmente útil. A possibilidade de opção, segundo o autor, assim é determinada. “Quando o trabalho deixa de ser socialmente útil, ele é destruído ou coagido a se deslocar para uma outra região em que ainda possa ser aproveitado”. A distinção dos dois processos, quais sejam, a transferência do agente para o trabalho por conta própria, seja esta caracterizada como “por opção” ou como “por expulsão” - que parece ser mais facilmente identificada em um plano analítico -, não o é, da mesma forma, na prática, com a conjugação destes processos que, conforme já

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visto, aparecem, com freqüência, interligados. Isto porque, “muitas vezes, um deles consiste na situação de fato, enquanto o outro atua como suporte ideológico daquele fato” (p. 86), o que significa reforçar o fato de que a expulsão pode estar mascarada pela opção. Além do mais, a transferência por opção só pode ser observada entre aqueles que possuem algum treinamento profissional em atividades consideradas socialmente necessárias. A parte teórica de seu trabalho trata “do problema da articulação do trabalho autônomo à estrutura das classes sociais, analisando-se seu significado no contexto das mudanças sociais que redefinem as relações de trabalho e os mecanismos de expropriação no capitalismo periférico, não se perdendo de vista que as mudanças sociais são expressão do processo de acumulação do capital, e que este vem se dando no Brasil por meio de uma estratégia definida através do rebaixamento do preço da força de trabalho” (p. 20). Na análise desenvolvida, a sociedade brasileira é o ponto de referência empírico, considerando-se, em sua visão, que as próprias relações que ela pressupõe são observáveis, ou seja, concretas. Como fontes de informação oficiais, foram utilizadas o Censo Demográfico (1940, 1950 e 1970) e a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 1972 e de 1973, além de pesquisa realizada em Salvador, em 1971. Durante o trabalho, “certos achados empíricos vão dando melhor suporte às idéias anteriormente postas” (p. 20), mas, à medida que novos problemas de ordem teórica são introduzidos, torna-se necessário articular novos pontos de reflexão com a perspectiva inicialmente assumida. As variáveis que foram trabalhadas nas três pesquisas acima mencionadas referem-se, somente à primeira ocupação, embora disponham de resultados sobre a segunda ocupação. Cabe ressaltar que existem critérios para se determinar o trabalho principal (nomenclatura utilizada na PNAD, atualmente, para denominar a primeira ocupação) ou o secundário (nomenclatura utilizada para a segunda ocupação) de cada pessoa e, dentro destes, localiza-se a ocupação exercida pela mesma. Como ressalta o autor, o simples fato de um indivíduo exercer mais de uma ocupação já reforça, por si, as teses defendidas ao longo da sua investigação. A idéia central desta tese é a de que “o trabalhador por conta própria não produz somente bens e serviços para o mercado de bens e serviços mas produz também força de trabalho barata para o capital, colaborando para a produção e reprodução do proletariado em geral” (p. 156).

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Nas estatísticas oficiais do país, tais como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), o trabalhador por conta própria é considerado como unidade de análise, a qual é expressa como uma “empresa” sem empregados. Mas o que Prandi pretende revelar é o fato de que esta categoria de autônomo expressa um trabalhador que se insere no mercado de trabalho em busca de sobrevivência e na forma possível que encontra para tal. Em termos bio-psico-sociais, este pode ser visto como a mesma entidade encontrada quando se analisa a “empresa” sem empregados; no entanto, as perspectivas, por vezes, nos parecem distintas e difíceis de serem conciliadas. O ponto central da análise de Prandi - e que deve sempre ser ressaltado - é do trabalhador que, apesar de seu papel de produtor de bens e serviços para o mercado, o faz em condições desfavoráveis, sendo sua participação na produção capitalista não-imediata. Um ponto de vista importante, também destacado pelo referido autor, ao se referir à figura do trabalhador por conta própria como agente poupador e empreendedor, é o de que este “faz parte tanto da própria história do capitalismo como da ideologia motivadora para o trabalho empreendedor em si, mesmo hoje quando as condições necessárias para permitir o acúmulo de um pecúlio como capital inicial se transformaram profundamente. Em termos de volume deste capital inicial necessário ao empreendedor, as possibilidades de realização como proprietário-empregador de um trabalhador por conta própria são, na melhor das hipóteses, remotas. Sua negação concreta como conta própria se realiza muito mais via assalariamento, o que não impede que certos ideais de trabalho independente persistam. Na impossibilidade de vir a se transformar em empregador, o trabalho autônomo traz em si a oportunidade de negar, pelo menos, a condição de assalariado. Mas o trabalho por conta própria significa também a possibilidade de trabalho para os que não conseguem ser assalariados” (p.

85).

Cacciamali (1990, p.834) enfatiza que, em relação a este período inicial de estudos sobre o informal, as maneiras de mensuração divergiram, apoiando-se “tanto na escolha da unidade de análise – ocupados ou estabelecimentos produtivos -, como nas normas adotadas para extrair o setor informal a partir dessas duas categorias”. São apontadas, entre estas, a diferenciação na análise segundo a contraposição de tipos de atividade tradicionais/modernos, o tamanho do empreendimento determinado pelo número de empregados (de 3 a 22) e da seleção das pessoas ocupadas por níveis de rendimentos baixos (de ½ a 2 salários mínimos). Como ressalta a autora, “o setor

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informal era caracterizado a priori e referido exclusivamente, e de uma forma agregada, aos segmentos mais pobres da população ocupada”. Em relação a este ponto, qual seja, o da pobreza urbana associada ao mercado de trabalho, Coelho e Valladares (1982) realizaram uma análise bibliográfica na qual destacam a trajetória de pensamento sobre esta questão nas grandes cidades latino- americanas. Nesta, é destacada a influência sofrida em vários estudos do denominado “modelo dualista” e da teoria da marginalidade, sobretudo até o início da década de 1970 e posteriormente à teoria da acumulação capitalista, que procurou compreender o processo econômico por meio das formas de organização social da produção. O principal foco de interesse desta resenha bibliográfica salienta os aspectos do mercado de trabalho urbano ligados às atividades de tipo “informal” e ao trabalho não- assalariado. As referidas autoras destacam que, inicialmente, a temática do emprego, que esteve centrada, nos estudos realizados, na discussão dos setores “tradicional” e “moderno” do mercado de trabalho urbano, foi modificada, tendo-se como objeto as diferentes formas de inserção desta população pobre em setores da economia. Esses foram posteriormente denominados de “formal” e “informal”. “Uma nova linha de estudos é paralelamente inaugurada, abordando a problemática do ângulo do trabalho e das distintas formas de organização da produção. Tal perspectiva implicou no abandono da idéia de setores e no privilegiamento da análise das formas produtivas e das relações de trabalho ‘não tipicamente capitalistas’” (p. 5-6). A concepção do setor informal surgiu, sobretudo, a partir das críticas a respeito de um modelo dualista, que apontava a existência de setores diferenciados na economia urbana de países menos desenvolvidos, e também das dificuldades de mensuração e de explicação dos determinantes da pobreza urbana. Sobre a perspectiva dualista, nos estudos realizados nas décadas de 1960 e 1970, Silva (2002, p. 86) destaca que existiam duas variantes. A primeira delas, a “teoria da modernização”, concebia o setor informal como aberto, apesar da maior facilidade de entrada do que de saída. A segunda, surgida um pouco mais tarde, denominada de “teoria da marginalidade”, destacava o setor informal como fechado, ou seja, algumas categorias de trabalhadores terminavam por ter uma inserção produtiva marginal de mais longo prazo.

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Na "teoria da modernização", a situação de desequilíbrio, apresentada na estrutura do emprego urbano dos países subdesenvolvidos, era percebida como transitória, e o setor informal visto como tendo um importante papel na absorção da mão-de-obra migrante. Esperava-se que esta população, deslocando-se para as cidades, incorporasse paulatinamente os padrões moderno-industriais baseados em um trabalho assalariado, abandonando, cada vez mais, os seus, mais tradicionais. Silva (2002, p. 86) salienta que “um pouco mais tarde, as dificuldades do processo de substituição de importações produziram uma versão menos otimista que, no entanto, utilizava o mesmo quadro de referência e se concentrava nos mesmos problemas. Tratava-se da ‘teoria da marginalidade’ que enfatizava as conseqüências sobre a estratificação social, das dificuldades de superação dos desequilíbrios estruturais identificados (Quijano, 1969, 1998; Machado da Silva, 1971; Kovarick, 1975; Germani, 1975)”. 6 Sem pretender esgotar a literatura existente sobre esta temática e nem mesmo retornar a algumas questões já enfatizadas sobre a origem deste debate na década de 1970, cabe reforçar que, a partir deste período, a interpretação dualista incorpora, de um lado, o reconhecimento de que estes dois setores, denominados como “tradicional” e “moderno”, são inter-relacionados e interdependentes e, por outro, revela, em cada um destes, uma acentuada heterogeneidade interna de sua estrutura produtiva. Coelho e Valladares (1982, p. 6) ressaltam que “esta nova concepção fundamentou as noções de Pobreza Urbana e de Setor Informal, que a partir de então dominaram a literatura sobre o mercado de trabalho”. Cabe ressaltar que esta discussão da abordagem dualista reflete a questão da integração vis-à-vis àquela da não-integração das unidades produtivas na estrutura econômica. Não se pode, assim, deixar de mencionar que, seguindo esta linha de análise econômica, se situaram as pesquisas voltadas para a questão do subemprego, sobretudo até o final dos anos 1960. Estas procuravam ressaltar, em linhas gerais, a questão da

6 Os trabalhos citados são: QUIJANO, Aníbal. “Notas sobre el concepto de marginalidad social”. Santiago, CEPAL, Comissão Econômica para a América Latina, Divisão de Assuntos Sociais, 1966;

QUIJANO, Aníbal.“‘Marginalidad’ e ‘informalidad’ en debate”, in La economia popular y sus caminos en America Latina. Lima, Mosca Azul, 1998; SILVA, Luiz Antonio Machado da. “Mercados metropolitanos de trabalho manual e marginalidade”. Dissertação de mestrado, Museu Nacional/UFRJ, 1971, mimeo; KOVARICK, Lúcio. Capitalismo e marginalidade na América Latina. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1975; GERMANI, Gino. El concepto de marginalidad. Buenos Aires, Ediciones Nueva Vision,

1973.

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subutilização da mão-de-obra, especialmente aquela inserida no mercado de trabalho urbano nos países que tiveram um processo de industrialização tardia.

, década de 1970, como destacam Coelho e Valladares (1982, p. 9) “recomendou a transferência da temática do Subemprego para a de Pobreza Urbana ao se analisar a

economia dos países subdesenvolvidos. Esta alternativa ganhou relevância uma vez que

o conceito de Pobreza Urbana se mostra mais abrangente e menos limitado teoricamente

que o de subemprego”. Isto porque esta concepção traz implícito que “os pobres que trabalham”, como observado no estudo do Quênia, não só o fazem em condições acima de níveis ideais de utilização da mão-de-obra como também porque considera que estes percebem remunerações consideradas abaixo do mínimo necessário para a sua sobrevivência. Seguindo este raciocínio anterior, a substituição de um conceito (subemprego) por outro (pobreza urbana) visava ampliar a captação de várias situações indicativas de um quadro de subutilização, bem como de sub-remuneração da mão-de-obra. Nesta linha de análise, este novo conceito, o da pobreza urbana, teria que contemplar, além de políticas, como a do combate do subemprego, que abrangiam o setor informal, as que buscassem considerar casos existentes no setor formal, que incluem um contingente expressivo de mão-de-obra considerada subutilizada. Sobre a existência de ‘espaços limiares’, ou seja, pouco diferenciados entre si,

1972), elaborado no início da

O relatório do Quênia (EMPLOYMENT

vale lembrar Silva (1971), destacando que este conceito procura apreender a interpenetração de situações de trabalho diversas. Estas se revelam, conforme ressalta o autor, em menor intensidade no interior do denominado mercado formalizado (MF) e na passagem deste para o mercado não-formalizado (MNF), em função das definições formais-legais das categorias, que são essenciais neste mercado formalizado, mas não exclusivas deste. No entanto, “a limiaridade permanece por intermédio dos diversos níveis e tipos de irregularidades e situações semi-legalizadas” (p. 52). Segundo Coelho e Valladares (1982, p. 10), “as pesquisas e estudos realizados por técnicos da OIT e PREALC na África e América Latina e por economistas do IPEA

e do INPES no Brasil deram status a essa nova abordagem”. As autoras destacam que a

problemática do setor informal, discutida pelos economistas do IPEA e do INPES, teve

a sua origem no interesse destes na questão da distribuição de renda e emprego, que se

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constituía em objeto central de estudo pelos economistas, na década de 1970, vinculados ao Ministério do Planejamento. Sob o patrocínio do Instituto de Planejamento da Fundação IPEA, do Programa Regional de Emprego para a América Latina e Caribe (PREALC) e da Fundação

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, “representantes dessas e de outras entidades governamentais e universitárias do Brasil, de organizações internacionais e de diversos países latino-americanos participaram em Brasília, em setembro de 1974, de um encontro em que discutiram temas ligados às políticas de emprego e analisaram metodologias e conceitos atualmente utilizados na obtenção de informações sobre a situação do emprego” (SEMINÁRIO SOBRE SISTEMAS DE INFORMAÇÃO , 1975, p. III).

A coletânea de trabalhos apresentados apontou a necessidade da informação

adequada, confiável e periódica para o planejamento e tomada de decisões na área do emprego. Entre eles, encontrava-se uma síntese dos estudos realizados no PREALC, sobre a medição da subutilização da mão-de-obra urbana em países da América Latina, além de estudo sobre a figura do "biscateiro", associada à "marginalidade" e ao "subemprego". Os trabalhos relativos ao Brasil, constantes no referido Encontro, procuraram

avaliar o Sistema de Informações existente, quanto à sua adequação para a prática de emprego, seguindo o desenvolvimento de estudos e pesquisas que revelassem mais sobre a situação da força de trabalho num contexto em rápida transformação.

A estratégia do governo brasileiro, adotada no 2 o Programa Nacional de

Desenvolvimento (PNUD), tinha como instrumentos principais a política de emprego e a salarial, com o objetivo de alcançar a promoção do bem-estar e a construção de uma sociedade mais igualitária. A perspectiva, conforme anunciada por Élcio Costa Couto, então presidente do IPEA e secretário-geral da Secretaria de Planejamento da Presidência da República, era de que novos empregos fossem gerados distribuídos setorialmente e regionalmente, “de forma a reduzir tanto o ritmo da migração rural- urbana como também aumentar as oportunidades de trabalho no Nordeste, região que sabidamente concentra os maiores problemas sociais do País. É de se esperar, também, que em resposta a esta demanda de mão-de-obra, eleve-se a taxa de atividade na população brasileira reduzindo, portanto, a subutilização de mão-de-obra que

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certamente existe em parcelas da população inativa” (SEMINÁRIO SOBRE

, Silva (2002, p. 85) destaca, no entanto, que a noção de informalidade teve peso expressivo de análises realizadas, sem necessariamente estarem vinculadas às propostas

de políticas públicas, estando sua importância na mediação entre a reflexão acadêmica e

a intervenção prática. A abordagem do setor informal, segundo os economistas do PREALC, é vista em termos de uma análise da estrutura econômica global, com a pressuposição de que o seu surgimento pode ser relacionado ao modelo de desenvolvimento característico dos países latino-americanos nas últimas décadas. Segundo este enfoque, as atividades informais representam um modo de produzir, com características, em geral, como a denominada “facilidade de entrada”; a presença de recursos próprios; as empresas de propriedade familiar; a operação em pequena escala; a mão-de-obra pouco qualificada e os mercados não-regulados e competitivos. Além do mais, o denominado setor informal, neste entender, corresponde a ocupações específicas ou a determinadas atividades econômicas. Atualmente, existe, no entanto, a crítica relacionada ao fato de que deve ser visto com um certo grau de relatividade as condições apontadas como importantes para o funcionamento do informal. Pode ocorrer que cada uma destas não necessariamente se cumpra em sua totalidade, como, por exemplo, a facilidade de entrada, a existência de

recursos próprios e assim por diante. Cacciamali (1993, p. 218) aponta que os estudos empíricos, realizados sobre este tema, revelam que “cada uma dessas condições pode vir

a criar um conjunto de atividades informais, cujas características organizacionais e de

SISTEMAS DE INFORMAÇÃO

1975, p. 3).

funcionamento podem não cumprir as demais condições enunciadas”. Em estudo publicado no final da década de 1970, por meio do PREALC, Raczynski (1977, p. 6) destaca que, nas áreas urbanas dos países pobres, um dos grupos mais importantes, para o qual se deveriam destinar esforços, no sentido de desenvolver as atividades que o constituem, deveria ser o denominado setor informal ou não-formal urbano. Tal procedimento levaria “a um maior nível de emprego, uma distribuição mais igualitária de rendimento e, em médio e longo prazo, uma melhor alocação de recursos”. É ressaltado que, às vezes, este setor informal é denominado também como não- protegido e não-estruturado.

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Neste documento, um dos objetivos do referido autor é o de sistematizar as perspectivas de investigações sobre o setor informal urbano, nas economias em desenvolvimento, observando o conceito e as variáveis utilizadas para defini-lo. Isto porque, entre estas, já havia não só contradições, como também imprecisão de conceitos, ao se tentar postular a existência de um setor formal e de outro informal. Aliado a este fato, há o de que algumas hipóteses cotejadas não apresentavam respaldo empírico, não podendo ser consideradas, como de fato o eram, como comprovações científicas. Tal procedimento suscitava dúvidas quanto à utilidade do enfoque, dificultando a formulação de políticas eficazes. As três perspectivas principais sobre este tema, encontradas por Raczynski, são as de: (a) aparato produtivo; (b) emprego e mercados de trabalho e (c) rendimento e

bem-estar social. De acordo com estas, a unidade de análise adotada é, respectivamente,

a da empresa, a da força de trabalho e a da família. Os dois primeiros recortes (aparato

produtivo e emprego e mercados de trabalho) são os que mais se destacam, ao se analisar a literatura internacional sobre o setor informal, constituindo-se, assim, em nosso objeto preferencial de análise. Sob o enfoque do aparato produtivo, o setor informal é definido como um conjunto de unidades ou de empresas com determinadas características relacionadas à unidade produtiva propriamente dita, como tamanho, forma de organização, além de

outras relacionadas à tecnologia, aos recursos humanos e à forma de inserção no sistema econômico global. “O interesse recai sobre os fatores que limitam e aqueles que estimulam o crescimento e contribuição destas atividades ao produto nacional” (p. 8). Tokman (1987), referindo-se ao informe sobre o Quênia (EMPLOYMENT , 1972), ressalta que as conclusões daquele estudo apontavam que um conjunto significativo de subempregados trabalhava em múltiplas atividades, conseguindo sobreviver em condições desfavoráveis. A partir desta constatação, procurou-se examinar não só o tipo de trabalho realizado, mas também a sua constituição, que ocorria, sobretudo, em operações unipessoais. O trabalho passou a ser identificado como

a unidade de produção. Tendo em vista a perspectiva do aparato produtivo, “é empresa toda entidade que produz, vende ou comercializa bens ou entrega serviços, emprega ou não mão-de- obra, utiliza ou não bens de capital, dispõe ou não de um lugar determinado para desenvolver suas atividades. Também é empresa a atividade que, produzindo para o

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mercado, é realizada por um trabalhador independente ou por um grupo familiar” (RACZYNSKI, 1977, p. 10).

Ao se discriminar as características apresentadas pelas unidades componentes do

informal, estar-se-ia procurando conceituar este setor a partir das mesmas e, por conseguinte, estas seriam opostas àquelas pertencentes ao setor formal. No entanto,

pode-se questionar a pertinência dos elementos classificatórios adotados, usualmente, na definição de unidade informal de produção.

O primeiro destes, tal como já relacionado, refere-se ao fato de que,

normalmente, seria denominado como informal, a empresa que fosse composta por um trabalhador independente, ou seja, por trabalhadores por conta própria ou também denominados autônomos, que não contratam mão-de-obra ou que, quando o fazem, é somente em caráter esporádico. No entanto, este critério não pode ser considerado como característica exclusiva de definição da unidade informal. Isto porque algumas empresas compostas por trabalhadores independentes são também encontradas no âmbito das atividades formais. Cabe ressaltar, ainda, que, nas estatísticas oficiais domiciliares do país (tais como o Censo Demográfico, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD, a Pesquisa Mensal de Emprego – PME e a Pesquisa Informal Urbana – ECINF), da Fundação IBGE, este tipo de trabalhador pode ter sócios e/ou ajuda de trabalhadores não-remunerados. Mas se, momentaneamente, na data da pesquisa, contratar mão-de-obra (no caso, empregados), passa a ser considerado não mais como trabalhador autônomo, mas como empregador. Um segundo critério tido como definidor de uma unidade de produção informal, seguida por vários estudos a este respeito, é o relativo ao tamanho ou escala de operações de uma empresa. Segundo este, esta seria composta não só por trabalhadores independentes (autônomos ou por conta própria), mas também por unidades de produção pequenas (podendo ser considerada como pequena uma unidade que ocupe entre 3 a 50 pessoas) 7 . Pode-se questionar que, dentro desta perspectiva do aparato produtivo, se o citado critério é importante na classificação das unidades informais, a problemática pode se reduzir, conforme destaca Raczynski (1977, p. 11), somente à concorrência entre as grandes e pequenas empresas. Além do mais, deve-se ressaltar que esta noção

7 A classe de pessoas ocupadas em uma pequena unidade produtiva é também variável, como apontado por outros autores, como Cacciamali (1990), podendo se situar entre 3 a 22 pessoas.

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de ‘tamanho’ é ambígua, pois, como bem enfatizado por Silva (1971, nota 9, p. 25) “não há relacionamento necessário entre, por exemplo, o valor da produção, a área do estabelecimento e o volume de capital, ou entre este e o número de empregados, etc.”. É também apontada, além da forma de organização, a diferenciação existente entre as unidades formais versus as informais, o fato de que nas organizações formais predominam critérios de maximização de lucros, enquanto nas informais existe a influência de considerações sócio-familiares. Este critério de tamanho é utilizado, atualmente, em estatísticas oficiais do país, como é o caso da Pesquisa da Economia Informal Urbana (ECINF) da Fundação IBGE, na qual o conceito do informal adotado refere-se às características das unidades econômicas, entendidas como unidades produtivas, seguindo recomendações internacionais (CONFERENCIA INTERNACIONAL DE ESTADÍSTICOS DEL TRABAJO, 1993). O setor informal é entendido como composto por todas as unidades econômicas, as quais podem ser tanto a atividade principal como secundária de seus proprietários (os trabalhadores por conta própria ou os empregadores com até cinco empregados) moradores de áreas urbanas. Uma terceira característica, considerada importante na unidade de produção informal, é, em geral, a escassa qualificação profissional da mão-de-obra, que teria uma associação direta com a tecnologia empregada. Além do mais, Raczynski (1977) aponta que, para outros autores, o que está em pauta não é a qualificação ou a não-qualificação, mas a sua natureza, que difere nas unidades produtivas informais e nas formais. Nas unidades produtivas informais, o trabalho tende a ser artesanal na produção de um bem e/ou prestação de serviço, envolvendo, de forma global, atividades não só de produção como também as referentes, entre outras, à administração e à supervisão. Nas unidades formais predominam os processos de produção em cadeia, com a especialização de tarefas dentro de um conjunto, sendo as exigências requeridas na produção de um bem e/ou prestação de serviço realizadas de forma excludente e diferenciada. Outros critérios também são adotados para estabelecer a definição de uma unidade de produção informal, em contraponto com a da unidade formal. Um deles diz respeito, de um lado, ao fato de, na unidade informal, se ter uma organização muitas vezes difusa, com um caráter pessoal, estabelecida por meio de relações, familiares, de parentesco ou de amizade, o que se reflete em uma divisão do trabalho menos nítida. Por outro lado, a unidade formal apresenta uma organização mais definida, com uma

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clara divisão de trabalho e atribuições que refletem a organização hierárquica estabelecida, sem a presença de traços pessoais, como pode ocorrer na unidade informal. Em associação com este traço de definição, encontra-se aquele, já mencionado, sobre a racionalidade econômica, que define para as unidades formais um papel significativo na maximização de lucros, diferenciado do encontrado das unidades informais, nas quais há a interveniência de fatores sócio-econômicos. “Neste nível descritivo das unidades produtivas, a distinção formal-informal representa formas organizativas específicas. Sem dúvida, a simples enumeração de características, sem uma análise de como elas se inter-relacionam e condicionam, não é suficiente para inferir a organização do trabalho típica de um e outro setor”. Segue acrescentando, em função de estudos examinados na década de 1970, que “o estado atual das investigações não permite ainda determinar as características organizacionais necessárias e/ou suficientes para estabelecer a informalidade ou formalidade de uma empresa” (RACZYNSKI, p. 14). A preocupação em se delimitar, de modo claro, os critérios definidores da formalidade ou da informalidade, tais como tamanho, mão-de-obra empregada, tecnologia, qualificação da força de trabalho, estrutura organizacional e produtividade, permanece até hoje nos estudos que tentam estabelecer, em função das variáveis mencionadas, um quadro nítido a este respeito. Mesmo que, a partir desta década, vários estudos tenham procurado analisar um perfil nítido do fenômeno da informalidade, existem questões que persistem relacionadas ao inter-relacionamento entre os campos formal e informal. Esta inter-relação dificulta o delineamento dos contornos do formal e do informal, estando referida não só às transações comerciais de bens e serviços, aos deslocamentos de mão-de-obra entre estes, mas também à influência da estrutura do rendimento de um setor sobre a do outro. Além deste fato, uma produção empírica adequada será sempre um retrato parcial da realidade, satisfatório ou não, dependendo da qualidade dos instrumentos utilizados nesta produção, que estão, por sua vez, atrelados ao quadro de referência utilizado. Neste sentido, uma medição adequada deve garantir uma correspondente produção de evidência empírica. Em termos do enfoque do aparato produtivo, pode-se apontar que os critérios normalmente usados para diferenciar o setor formal e o informal, dizem respeito: (a) ao tamanho das unidades produtivas, distinguindo que as pequenas empresas são as

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informais; (b) à legalização das empresas, entendendo que as que não estejam registradas, sejam as informais; (c) ao salário pago nas empresas, concluindo-se que as empresas são consideradas informais se este estiver situado abaixo do mínimo legal; (d) à contribuição social, havendo a determinação de que as empresas que não a realizam são as informais. É necessário destacar que estas características não têm sido consideradas necessariamente aplicáveis como um todo, pois, conforme anteriormente mencionado, há a necessidade de se verificar as inter-relações por estas apresentadas e suas conseqüências para a delimitação da organização do trabalho que seria específica de um e de outro setor. Sob a perspectiva do emprego e dos mercados de trabalho, o setor informal é definido, em geral, como um subconjunto da população economicamente ativa e/ou das ocupações. Neste caso, o foco central é o do emprego e a absorção da mão-de-obra aliada à distribuição das oportunidades existentes de ocupação e à adequação entre os fatores condicionantes da oferta e da demanda de trabalho. Tendo em vista o referido enfoque, o setor informal tem sido encarado como um mercado de trabalho de fácil entrada, com uma força de trabalho percebendo baixos rendimentos e com uma escassa qualificação. Entretanto, esta condição relacionada à facilidade de entrada irá depender, no caso da contratação de mão-de-obra no setor informal, não só de fatores associados à pressão da força de trabalho em busca de emprego, como também dos interesses envolvidos por aqueles que são membros das unidades produtivas informais. Além deste fato, a hipótese de facilidade de ingresso dos trabalhadores no setor informal tem implícita uma associação entre a perspectiva de emprego e dos mercados de trabalho com a exposta anteriormente, qual seja, a do aparato produtivo, tendo em vista que as empresas informais absorveriam mão-de-obra do mercado de trabalho correspondente. “No caso dos trabalhadores dependentes, a facilidade de entrada encontra-se relacionada com a probabilidade de ser contratado; depende, portanto, do ritmo de absorção da força de trabalho nestas atividades e dos critérios de seleção ou discriminação dos empregadores. No setor formal, o ritmo de contratação da mão-de-obra depende da demanda por produtos, da acumulação de capital e da tecnologia das unidades produtivas” (RACZYNSKI, p. 20). Em geral, os critérios operacionais mais adotados desde o início dos estudos da informalidade, segundo a perspectiva do emprego e dos mercados de trabalho, são os relacionados à classificação da força de trabalho em categorias, que dizem respeito ao

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que seria hoje denominado pelas estatísticas como posição na ocupação (empregado, trabalhador por conta própria, empregador, não remunerado etc.), a qual é, muitas vezes, complementada com a informação sobre o tamanho da unidade produtiva na qual se insere o trabalhador. Neste sentido, denominam-se como pertencendo ao mercado de trabalho informal aqueles trabalhadores que são, em geral, por conta própria, não- qualificados e vinculados às pequenas empresas; segundo o critério do nível de salários, os com baixa remuneração, (ou seja, os que recebem abaixo de salário mínimo legal estabelecido), bem como os que, segundo a condição de acesso à contribuição para a previdência social e de benefícios sociais, não usufruem de tais benefícios. Raczynski (p. 8) ressalta que as três perspectivas, quais sejam, (a) aparato produtivo; (b) emprego e mercados de trabalho e (c) rendimento e bem-estar social “são complementares, no sentido de que a segmentação da economia urbana em nível do aparato produtivo condiciona a que se observa no mercado de trabalho, e vice-versa, e estas duas por sua vez incidem sobre aquela que vigora na distribuição do rendimento e do bem-estar social”. Um ponto importante, que nos aproxima da questão investigada, ou seja, da avaliação das variáveis estatísticas, que são selecionadas como importantes para uma correspondente e adequada produção de evidência empírica, em relação ao problema da investigação da informalidade, é o fato de que, de um lado, esses enfoques, muitas vezes, se entremeiam ou se superpõem. Por outro lado, qualquer que seja a perspectiva adotada, os critérios que permitem definir os contornos do informal, freqüentemente, estão pouco explícitos, dificultando uma avaliação do que é e do que não é heterogêneo. Na perspectiva que privilegia os mercados de trabalho (formal e informal), muitas vezes, as variáveis ou dimensões que os delimitam, que estão relacionadas às suas características, não são, com exatidão, configuradas. Da mesma forma, os fatores que determinam a expansão ou não destes mercados, elos existentes entre estes etc. não são, freqüentemente, conhecidos. Ante os pontos levantados, cabe o questionamento das diferenças, que demonstrariam, na verdade, a heterogeneidade e a segmentação nas diversas perspectivas apresentadas: aparato produtivo, mercados de trabalho e rendimento e bem-estar social. Raczynski considera que, mais importante do que verificar as discrepâncias quantitativas entre estas, seria apurar as descontinuidades nítidas e permanentes em cada uma destas. Tais análises implicariam em verificar o fenômeno

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em um dado momento do tempo e a permanência de segmentos da população ao longo do tempo. Destaca que uma outra versão se encontra expressa no debate ocorrido entre a relação que deveria existir entre a variância dentro de cada setor (formal e informal) e a variância entre os mesmos. Sobre este aspecto, é preciso ressaltar estudo apresentado no início da década de 1980 (SOUZA; SILVA, 1981, p. 691), no qual os autores pretendem investigar duas hipóteses comumente realizadas: “a primeira afirma que a mobilidade entre os setores informal e moderno é negligível. Esta hipótese é comum a várias das teorias sobre dualismo no mercado de trabalho. Mas não é essencial para caracterizar o dualismo, pois este pode ocorrer devido apenas à rigidez salarial do setor moderno”. A segunda delas refere-se à hipótese que “descreve o setor informal como tendo uma estrutura ocupacional pouco diferenciada e, mais importante, cujos empregos são distribuídos independentemente da educação e experiência dos trabalhadores. Estas variáveis seriam irrelevantes, a primeira porque os empregos nunca requerem maior escolaridade e a segunda porque a elevada rotatividade da mão-de-obra e a reduzida possibilidade de promoção retiram as vantagens usualmente atribuídas à experiência”. Souza e Silva (1981) utilizaram, para verificar estas hipóteses, no caso brasileiro, os dados da PNAD de 1973, que contempla, em suplemento deste mesmo ano, informações sobre o tema da mobilidade social. Em função dos resultados obtidos, os autores ressaltam, em suas conclusões, que houve rejeição das hipóteses existentes na literatura sobre o dualismo no mercado de trabalho. Isto porque se constatou, de um lado, a existência de uma extensa mobilidade inter-setorial, o que, por conseguinte, levaria “a rejeitar uma componente importante de algumas teorias, dualistas: a segmentação dos mercados de trabalho”. Por outro lado, foi destacado que “não apenas encontramos uma ampla diferenciação na estrutura ocupacional do setor informal como, e mais importante, ficou patente que educação e experiência desempenham um papel inequívoco na obtenção de maior status ocupacional dentro do setor informal” (p. 732). A importância desses resultados para uma política educacional é enfatizada pelos autores, tendo em vista que a educação é fundamental, no sentido de possibilitar a ampliação das oportunidades individuais de trabalho, pois poderia propiciar a mobilidade inter-setorial e um status ocupacional mais elevado para os que permanecem no setor informal.

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Souza e Silva fazem, ainda, considerações importantes, ao questionarem se serão obtidos resultados semelhantes no futuro. Entre estas, enfatizam, de um lado, que, de forma geral, a intensidade da mobilidade inter-setorial depende da taxa da urbanização e da taxa e do padrão do crescimento econômico. Além do mais, afirmam que, em função de o processo de urbanização encontrar-se atrelado à migração rural-urbana, a taxa de urbanização deve diminuir, fazendo com que o mesmo ocorra, em termos relativos, com os fluxos migratórios. De outro lado, salientam que a repercussão da introdução de modernas tecnologias no campo pode trazer conseqüências, no sentido de acelerar a liberação de mão-de-obra. As citadas conclusões permanecem importantes e atuais, mostrando a importância do denominado setor informal na absorção da mão-de-obra e a necessidade imperiosa de uma política que procure contemplar, cada vez mais, a capacitação da mão-de-obra, para que esta possa estar mais apta a ser inserida no mercado de trabalho, como vemos a seguir: “de qualquer forma, deve-se esperar um menor crescimento do setor moderno no futuro próximo. O crescimento do setor informal depende, de um lado, dos fluxos migratórios e de outro da ampliação das vagas no setor moderno. Portanto, não se deve esperar um decréscimo acentuado no seu tamanho relativo. Daí, a importância de políticas que venham a aumentar a renda dos seus participantes como as políticas educacional e de treinamento” (p. 733). Na busca de se tentar compreender como os estudos realizados sobre a informalidade vêm procurando associar as concepções teóricas às representações concretas do mesmo, apresenta-se, abaixo, um quadro referente à década de 1970, semelhante, de forma geral - mas não em todos os aspectos (tais como o peso do status migratório, que era outrora fortemente associado à informalidade) - com o que é utilizado, até hoje, como base de análise desta informação.

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Quadro I - Estudos sobre o setor informal urbano na América Latina

   

Definição operacional do setor

Variáveis consideradas para caracterizar o

Tamanho

País, cidade

Fonte de informação

do setor

 

setor

Paraguai,

Pesquisa

Setor autônomo:

Ramo de atividade.

57% dos

Assunção

de domicílios

trabalhadores por conta própria; traba- lhadores em empresas com menos de 5 pessoas, trabalhadores ocasionais e domésticos

Categoria na

ocupados

(PREALC,

PREALC, 1973

ocupação,

de

1974)

idade, educação, status migratório, rendimento. Tipo de trabalhador (remuneração fixa,

Assunção

 

flutuante, ocasional)

República

Censo de População (1970) e pesquisa de mão-de-obra (1975)

Produtividade do setor econômico:

Ramo de atividade, ocupação, tipo de trabalhador (remuneração fixa, flutuante, ocasional). Rendimento-pobreza

22 a 24% do emprego urbano do país

Dominicana

(OIT,

inferior a 50% da produtividade média

1975)

 

El Salvador,

Pesquisa demográfica e de mão-de-obra na área metropolitana de San Salvador, PREALC 1974, dados censais e um censo dos vendedores do centro da cidade

Setor informal: ocu- pados no serviço doméstico; trabalha- dores ocasionais; trabalhadores por conta própria com menos de 13 anos de educação e ocu- pados em empresas de até 4 pessoas

Idade, sexo,

46% dos

San Salvador

educação,

ocupados

(PREALC,

status migratório,

de San

1975)

ramo de atividade,

Salvador

rendimento.

Análise mais

detalhada de vendedores do setor informal.

Peru

Censos, pesquisas de mão-de-obra, contas

Categoria na ocu- pação e tamanho da unidade produtiva:

Rendimento, tendências através

53% da PEA em Lima 62% da PEA em outras cidades 37% do ren dimento to- tal de Lima 40%do ren- dimento total de 8 cidades

(Webb,

1975)

 

do tempo.

nacionais e outras fontes secundárias

unidades com menos de 5 pessoas, traba- lhadores por conta própria não profis- sionais e técnicos

Ramo de atividade. Categoria na ocupação, migração, sexo, idade, educação.

57

Equador

Pesquisa de Domicílios, 1968

Rendimento: inferior ao salário mínimo

Ramo de atividade. Categoria na ocupação. Status migratório. Idade, sexo, educação, posição no domicílio, tipo de trabalhador (remuneração fixa, flutuante, ocasional.

52% da PEA urbana algo maior nas cidades do interior do que em Guayaquil e Quito

(PREALC,

1976)

   

Brasil,

Pesquisa de mão-de-

Setor não protegido:

Posição no domicílio,

31% da da PEA da cidade

Belo Horizonte

obra da área metropo-

PEA total registrada

idade, sexo.

(Merrick,

litana especialmente desenhada para estu- dar a estrutura dos mercados de trabalho e tabulações espe- ciais sobre migração e participação econô- mica do Censo de População de 1970

no Censo menos os que trabalham nas unidades produtivas que contribuem para a seguridade social, os professores libe- rais, os empregados do setor público e os empregadores de uni- dades de mais de 5 pessoas

Taxa de participação econômica. Rendimento familiar. Status migratório. Educação. História ocupacional de chefes do domicílio

1976)

 

Argentina

Entrevistas semiestru- turadas a trabalha-

Trabalhadores por conta própria somente do ramo têx- til e de confecções

Tamanho do capital. Natureza dos vínculos com empresários capi- talistas.

Não tem por objetivo estimar o tamanho do setor

Schmukler

1976

dores por conta pró- pria na indústria têxtil e de confecções

Venezuela

Informe de uma

Setor não-organizado:

Atividade econômica, sexo, idade e educação

44%da força de trabalho urbana total 40% da ft de Caracas 47% da ft de zonas urbanas menores

(Pereira e Zink,

missão organizada

empresas com menos

1976)

pelo Banco Mundial,

de 5 pessoas empregadas;

1975

trabalhadores por conta

 

própria sem educação

universitária e serviço

doméstico

Bogotá

Pesquisa de domicílios de rendimento sócioeconômico médio e baixo (menos de 500 pesos de 1971)

Setor informal: ausência ou quase inexistência de trabalho assalariado. Classifica as unidades produtivas em que trabalha a PEA em 4 tipos segundo tamanho

Análise comparativa dos 4 tipos tipos de unidades produtivas. . Ramo de atividade. .Características da estrutura ocupacional. . Especialização produ-

15% das

(Ofisel, 1976)

unidades de produção são do tipo 1; 28% do tipo 2; 31% do tipo 3 e 25% do tipo 4.

 

58

   

e grau de organização. Os tipos 1 e 2 se aproximariam do setor informal.

 

tiva. .Divisão do trabalho.

.

Intensidade de explo-

ração via fator trabalho. .Condições de trabalho.

 

Compra de insumos. . Venda de produtos. . Qualificação e salários.

.

Colômbia,

Estudo antropológico de:

 

Número e tipo de uni- dade; de onde obtém

Não tem por objetivo estimar o

Bogotá

(Peattie, 1976)

a) Unidades produtivas em um bairro marginal. b) Ocupações especí- ficas típicas do setor:

vendedores ambu- lantes do centro da cidade.

insumos e preços destes; a quem vendem

(mercado) e como fixam os preços. Formas de organização e propriedade. Rendimento.

tamanho do setor

 

Contabilidade-planifi-

cação. Relação economia da empresa e economia familiar. Licenças. Organização-controle das ruas.

Chile

Diversas fontes secun- dárias: Contas Nacio- nais, Censos de popu- lação 1970, Censo Industrial 1967, pesquisa na pequena indústria 1967, pesquisa de orçamentos familiares 1967 e de rendimentos 1969 e outras. Pesquisa em estabele- cimentos comerciais formais e informais de produtos alimentícios em Ñunoa, 1976.

Não explicita a definição operacional do setor.

Ramo de atividade.

42% do emprego urbano e 29% do emprego total do país. 21% da produção urbana e 17% da produção total do país. 19% do valor agregado.

(Tokman, 1977)

Intercâmbios comerciais entre setor informal, formal e rural.

Estabelecimentos

pequenos versus

 

Competição entre os estabelecimentos.

supermercados.

Formas de organização

 
 

e

limitantes tecnológicas. Sálarios-rendimentos. Preços-insumos. Preços-produtos.

Fonte: RACZYNSKI, Dagmar - El sector informal urbano: interrogantes y controversias. Santiago: PREALC 1977. 56p. págs. 40-43.

59

Em relação ao problema investigado, qual seja, a realidade observada e as

estatísticas que a procuram retratar, percebe-se em um dos estudos pioneiros

p. 5) que o quadro existente no Quênia contrasta

profundamente com o que se traduz nas aproximações estatísticas. Os problemas crescem, seja na mensuração da força de trabalho, seja na mensuração do emprego. Em relação à força de trabalho, o problema reside em sua definição, tendo em vista ser esta uma questão difícil, dado que as oportunidades são limitadas para o emprego, particularmente para as mulheres. Nesse aspecto, as estatísticas são incompletas, pois, apesar de abranger a maior parte do emprego assalariado e do auto-emprego nas firmas mais organizadas, não contemplam uma série de assalariados e de pessoas auto- empregadas, que são categorizadas como pertencendo ao ‘setor informal’. Silva (2002, p. 90) salienta que “a configuração do debate sofre uma profunda transformação ao longo dos anos 1980. O crescimento do desemprego e a crise da social-democracia, a expansão de atividades empresariais e de uma economia de mercado, já anteriores ao desmonte final da URSS, a acelerada expansão da força de trabalho no setor de serviços e sua importância cada vez maior para a acumulação (Offe, 1989a e 1989b) 8 , tanto em âmbito global, quanto nacional, tudo isso vinha provocando efervescência na controvérsia sobre os usos sociais do trabalho”. O quadro, apresentado por Silva, ilustra que, na imagem da social-democracia, havia uma evidência, baseada em uma tendência real, de que o pleno emprego seria uma meta viável. No entanto, a noção da informalidade era retratada mais em função do que não era, do que por uma unidade interna dos fenômenos aos quais esta categoria poderia estar referida. A percepção sobre a realidade das social-democracias européias, que era tomada como parâmetro, não o deveria ser, pois mesmo que a informalidade porventura existisse nesses países, a realidade encontrada em países considerados “subdesenvolvidos”, de “capitalismo dependente” ou “periféricos” era outra. Nestes últimos, o assalariamento não se constituía no ponto central na inserção dos trabalhadores na atividade econômica, sendo este restrito ou mesmo precário, não só do ponto de vista da regulação e proteção estatal das relações de trabalho quanto em termos de sua participação na produção econômica.

(EMPLOYMENT

,1972,

8 Os trabalhos citados são: OFFE, Claus. Capitalismo Desorganizado. São Paulo, Brasiliense, 1989a e Trabalho e sociedade. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1989b, 2 vols.

60

Silva (nota 43, p. 91) ressalta que se tratava “de uma construção coletiva que se revelou tão complexa quanto frágil, tendo sido muito afetada pelo pessimismo que marcou a experiência da crise dos anos 80. Em linhas gerais, as mudanças no enquadramento analítico e na relevância cognitiva da informalidade estão relacionadas à perda de confiança na viabilidade histórica do pleno emprego, tanto como um padrão abstrato de referência para entender as formas de uso social do trabalho, quanto como cimento ideológico da legitimidade política e como critério de planejamento. De fato, à medida que os problemas de absorção produtiva do trabalho avolumavam-se nos países centrais, estes deixavam de representar parâmetros, transformando-se, eles também, em objeto de análise da ‘informalidade’ do trabalho. Retomando a metáfora do jogo de espelhos, a noção de informalidade não se determinaria mais como uma imagem invertida; trata-se, agora, de uma regressão de reflexos sobre reflexos que desfoca seu conteúdo, ao mesmo tempo em que generaliza seu uso e multiplica as tematizações particulares nas quais ela aparece”. Em linhas gerais, na década de 1980, a idéia que prevalecia, a respeito do conceito sobre informalidade, era a de que este setor seria formado como resultado da exclusão de um determinado contingente da população do mercado de trabalho formal. Neste caso, a dinâmica do processo informal de trabalho esteve sempre associada àquela do mercado de trabalho capitalista, que, em momentos de crise econômica, expulsava uma parcela da população das relações de trabalho denominadas formais. A partir deste processo, tal segmento da força de trabalho foi visto como marginalmente inserido na economia capitalista, bem como no processo de integração social. Cacciamali (1990, p. 834) destaca, comparando com os primórdios dos estudos realizados sobre o tema, que o conceito de dicotomia foi re-nominado, ou seja, de tradicional/moderno para formal/informal, conforme foi anteriormente destacado. No entanto, ressalta que “a maior parte das análises sobre o tema continuaram a adotar uma abordagem dual-estática que confronta com os processos dinâmicos e muitas vezes muito velozes, do produto e do emprego dos países em desenvolvimento. Muitos estudos, além do mais, continuaram a interpretar os dois setores como sendo independentes um do outro, o que nitidamente, contraria as observações do mundo real. Neste contexto, o setor informal é ainda associado aos segmentos mais pobres da população ocupada sem levar em conta as formas de inserção do trabalhador na produção, o que violenta e descaracteriza o próprio conceito de informalidade exposto

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no trabalho original 9 . Assim, a maior parte das análises a partir, e em virtude, deste quadro de racionalização concluía que o setor informal tendia a desaparecer com o crescimento econômico”. Segundo a autora, conforme ressaltado neste estudo, tal afirmação “não possui respaldo lógico ou sustentação empírica”. Meneleu Neto (1993, p. 830), ao utilizar os dados da pesquisa do SINE/CE (Sistema Nacional de Emprego/ Ceará), corrobora também este pensamento, quando aponta um crescimento da ocupação informal já no período de 1986 a 1992, na medida em que se expandia o desemprego, revelando que aquela apresentava um movimento anticíclico ao da economia. Ao destacar que o crescimento do informal advinha não só da crise como também da recuperação da economia, o autor ressalta que “esta aparente contradição resulta, em grande parte, da atual amplitude do conceito do informal, que engloba categorias típicas de estruturas ocupacionais com resquícios pré-capitalistas – o informal tradicional – e novas categorias que, na ausência de caracterização mais precisa, são colocadas no informal, e desse modo inflacionando os indicadores de informalidade. No primeiro caso, o informal cresce com a crise, mas no segundo ele