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Professora Dra. Maria Lúcia Bertachini Nosella GESTÃO DO CONHECIMENTO E DE PESSOAS PÓS-GRADUAÇÃO NÚCLEO COMUM
Professora Dra. Maria Lúcia Bertachini Nosella GESTÃO DO CONHECIMENTO E DE PESSOAS PÓS-GRADUAÇÃO NÚCLEO COMUM

Professora Dra. Maria Lúcia Bertachini Nosella

GESTÃO DO CONHECIMENTO E DE PESSOAS

PÓS-GRADUAÇÃO

NÚCLEO COMUM

MARINGÁ-PR

2012

Reitor: Wilson de Matos Silva Vice-Reitor: Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de Administração: Wilson

Reitor: Wilson de Matos Silva Vice-Reitor: Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de Administração: Wilson de Matos Silva Filho Presidente da Mantenedora: Cláudio Ferdinandi

NEAD - Núcleo de Educação a Distância

Diretoria do NEAD: Willian Victor Kendrick de Matos Silva Coordenação Pedagógica: Gislene Miotto Catolino Raymundo Coordenação de Marketing: Bruno Jorge Coordenação Comercial: Helder Machado Coordenação de Tecnologia: Fabrício Ricardo Lazilha Coordenação de Curso: Márcia Maria Previato de Souza Assessora Pedagógica: Fabiane Carniel Supervisora do Núcleo de Produção de Materiais: Nalva Aparecida da Rosa Moura Capa e Editoração: Daniel Fuverki Hey, Fernando Henrique Mendes, Luiz Fernando Rokubuiti e Renata Sguissardi Supervisão de Materiais: Nádila de Almeida Toledo Revisão Textual e Normas: Cristiane de Oliveira Alves, Gabriela Fonseca Tofanelo, Janaína Bicudo Kikuchi, Jaquelina Kutsunugi e Maria Fernanda Canova Vasconcelos.

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central - CESUMAR

CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a distância:

C397

Gestão do conhecimento e de pessoas /Maria Lúcia Bertachini Nosella. Maringá - PR, 2012. 83 p.

“Curso de Pós-Graduação Núcleo Comum - EaD”.

1. Educação superior. 2. Globalização. 3.Gestão do conhecimento. 4. EaD. I. Título.

CDD - 22 ed. 378 CIP - NBR 12899 - AACR/2

“As imagens utilizadas neste livro foram obtidas a partir dos sites PHOTOS.COM e SHUTTERSTOCK.COM”.

Av. Guedner, 1610 - Jd. Aclimação - (44) 3027-6360 - CEP 87050-390 - Maringá - Paraná - www.cesumar.br NEAD - Núcleo de Educação a Distância - bl. 4 sl. 1 e 2 - (44) 3027-6363 - ead@cesumar.br - www.ead.cesumar.br

GESTÃO DO CONHECIMENTO E DE PESSOAS

Professora Dra. Maria Lúcia Bertachini Nosella

GESTÃO DO CONHECIMENTO E DE PESSOAS Professora Dra. Maria Lúcia Bertachini Nosella
4 GESTÃO DO CONHECIMENTO E DE PESSOAS| Educação a Distância

APRESENTAÇÃO DO REITOR

APRESENTAÇÃO DO REITOR Viver e trabalhar em uma sociedade global é um grande desafio para todos
APRESENTAÇÃO DO REITOR Viver e trabalhar em uma sociedade global é um grande desafio para todos

Viver e trabalhar em uma sociedade global é um grande desafio para todos os cidadãos. A busca por tecnologia, informação, conhecimento de qualidade, novas habilidades para liderança e solução de problemas com eficiência tornou-se uma questão de sobrevivência no mundo do trabalho.

Cada um de nós tem uma grande responsabilidade: as escolhas que fizermos por nós e pelos nossos fará grande diferença no futuro.

Com essa visão, o Cesumar – Centro Universitário de Maringá – assume o compromisso de democratizar

o conhecimento por meio de alta tecnologia e contribuir para o futuro dos brasileiros.

No cumprimento de sua missão – “promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária” –, o Cesumar busca a integração do ensino-pesquisa-extensão com as demandas institucionais

e sociais; a realização de uma prática acadêmica que contribua para o desenvolvimento da consciência

social e política e, por fim, a democratização do conhecimento acadêmico com a articulação e a integração com a sociedade.

Diante disso, o Cesumar almeja ser reconhecido como uma instituição universitária de referência regional

e nacional pela qualidade e compromisso do corpo docente; aquisição de competências institucionais para

o desenvolvimento de linhas de pesquisa; consolidação da extensão universitária; qualidade da oferta dos ensinos presencial e a distância; bem-estar e satisfação da comunidade interna; qualidade da gestão acadêmica e administrativa; compromisso social de inclusão; processos de cooperação e parceria com

o mundo do trabalho, como também pelo compromisso e relacionamento permanente com os egressos, incentivando a educação continuada.

Professor Wilson de Matos Silva Reitor

Caro aluno, “ ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua

Caro aluno, “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção” (FREIRE, 1996, p. 25). Tenho a certeza de que no Núcleo de Educação a Distância do Cesumar, você terá à sua disposição todas as condições para se fazer um competente profissional e, assim, colaborar efetivamente para o desenvolvimento da realidade social em que está inserido.

Todas as atividades de estudo presentes neste material foram desenvolvidas para atender o seu processo de formação e contemplam as diretrizes curriculares dos cursos de graduação, determinadas pelo Ministério da Educação (MEC). Desta forma, buscando atender essas necessidades, dispomos de uma equipe de profissionais multidisciplinares para que, independente da distância geográfica que você esteja, possamos interagir e, assim, fazer-se presentes no seu processo de ensino-aprendizagem-conhecimento.

Neste sentido, por meio de um modelo pedagógico interativo, possibilitamos que, efetivamente, você construa e amplie a sua rede de conhecimentos. Essa interatividade será vivenciada especialmente no ambiente virtual de aprendizagem – AVA – no qual disponibilizamos, além do material produzido em linguagem dialógica, aulas sobre os conteúdos abordados, atividades de estudo, enfim, um mundo de linguagens diferenciadas e ricas de possibilidades efetivas para a sua aprendizagem. Assim sendo, todas as atividades de ensino, disponibilizadas para o seu processo de formação, têm por intuito possibilitar o desenvolvimento de novas competências necessárias para que você se aproprie do conhecimento de forma colaborativa.

Portanto, recomendo que durante a realização de seu curso, você procure interagir com os textos, fazer anotações, responder às atividades de autoestudo, participar ativamente dos fóruns, ver as indicações de leitura e realizar novas pesquisas sobre os assuntos tratados, pois tais atividades lhe possibilitarão organizar o seu processo educativo e, assim, superar os desafios na construção de conhecimentos. Para finalizar essa mensagem de boas-vindas, lhe estendo o convite para que caminhe conosco na Comunidade do Conhecimento e vivencie a oportunidade de constituir-se sujeito do seu processo de aprendizagem e membro de uma comunidade mais universal e igualitária.

Um grande abraço e ótimos momentos de construção de aprendizagem!

Professora Gislene Miotto Catolino Raymundo

Coordenadora Pedagógica do NEAD- CESUMAR

APRESENTAÇÃO

APRESENTAÇÃO Livro: GESTÃO DO CONHECIMENTO E DE PESSOAS Professora Dra. Maria Lúcia Bertachini Nosella Muitas

Livro: GESTÃO DO CONHECIMENTO E DE PESSOAS

Professora Dra. Maria Lúcia Bertachini Nosella

Muitas reflexões são suscitadas nesta situação nova de mundo globalizado, onde tanto se fala em conhecimento. A emergência de uma sociedade do conhecimento já se anuncia e com ela uma série de disciplinas novas como a nossa, a gestão do conhecimento e de pessoas.

Bem a propósito é de causar estranheza a quantidade e variedade de nossas disciplinas que se apresentam ao estudo neste início de século XXI.

A tônica de nossos tempos é o entrelaçamento profundo entre as várias áreas de estudo e suas temáticas,

todos já ouvimos falar de inter, transdisciplinaridade, transversalidade e outras novidades.

Este fenômeno que demonstra que conhecimento não é compartimentado ou disposto em segmentos estanques é um dado alentador. Daí a repensar a desvalorização (contumaz) das humanidades em face da tecnologia, retomar a ciência como base segura para a prática é um grande passo que já foi dado.

Nossas afirmações se comprovam até pelo título de nossa disciplina: gestão do conhecimento e de pessoas. O nível micro e macro e a novidade do termo gestão (= gerenciamento) correm por conta da contemporaneidade e do surgimento das novas exigências do mundo globalizado.

A revolução da informática que se encontra no bojo da terceira Revolução Industrial (a tecnológica) produziu um mundo novo, uma nova sociedade que já está substituindo a sociedade industrial dos séculos passados.

Pedimos aos nossos acadêmicos que atentem com muito vagar na diferença entre mundialização e globalização, na substituição da preocupação com a exploração pelo cuidado em evitar a alienação. Estes são os principais fios condutores que vêm dos pensadores e que nos ajudarão a superar as velhas diferenças entre esquerda e direita e esclarecerão sobre as características da democracia participativa que não será possível estabelecer dentro do atual modelo representativo.

Esta é a nossa tarefa colegas, uma tarefa complexa e que, ao longo de nosso livro suscitará reflexões e norteará uma filosofia docente para sua práxis eficaz.

Com tal finalidade, visando à informação e formação de um professor-gestor e crítico, capaz de redistribuir

o seu conhecimento para além da troca mercantil, elaboramos o presente livro em três unidades.

8 GESTÃO DO CONHECIMENTO E DE PESSOAS| Educação a Distância

SUMÁRIO

UNIDADE I

SOBRE GESTÃO E SOBRE CONHECIMENTO

SUMÁRIO UNIDADE I SOBRE GESTÃO E SOBRE CONHECIMENTO FUNÇÃO E LUGAR DA GESTÃO NA SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL

FUNÇÃO E LUGAR DA GESTÃO NA SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL

13

DESENVOLVIMENTO E EMPREGABILIDADE

 

15

TRABALHO E QUALIDADE DE VIDA

18

UNIDADE II

 

O

CONHECIMENTO COMO BEM DE CAPITAL

NO CANTEIRO DE OBRAS DO SÉCULO XXI

 

33

PENSADORES DA NOVA SOCIEDADE

38

VIAS PARA O DESENVOLVIMENTO: ENTRE A TERCEIRA E

?

41

A

QUARTA VIA EXISTE E PODE SER A INDICADA PARA O BRASIL

46

ECONOMIA OU SOCIEDADE DO CONHECIMENTO?

49

UM MUNDO MODIFICADO PELA TECNOLOGIA

 

51

A

NEUROCIÊNCIA E A POTÊNCIA DO NOVO

55

UNIDADE III

 

O

BRASIL E A QUARTA VIA

EDUCAÇÃO: O PASSO DEFINITIVO É DADO PELA VIA CULTURAL

67

A

SOCIALIZAÇÃO DA RENDA SERÁ REALIZADA PELA SOCIALIZAÇÃO DO CONHECIMENTO?

72

AFINAL, UMA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO

 

74

EDUCAÇÃO CONTÍNUA OU APERFEIÇOAMENTO CONSTANTE

78

CONCLUSÃO

 

81

REFERÊNCIAS

82

10 GESTÃO DO CONHECIMENTO E DE PESSOAS| Educação a Distância

UNIDADE I

SOBRE GESTÃO E SOBRE CONHECIMENTO

Professora Dra. Maria Lúcia Bertachini Nosella

Objetivos de Aprendizagem

• Situar a disciplina de Gestão do Conhecimento e de Pessoas entre as ciências do século XXI.

• Identificar as condições que propiciaram o aparecimento da disciplina.

• Apresentar o novo século e as novas prioridades de uma sociedade ainda em construção.

• Explicar a mudança ocorrida entre os paradigmas industriais e pós-industriais.

Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:

• Função e Lugar da Gestão na Sociedade Pós-Industrial

• Desenvolvimento e Empregabilidade

• Trabalho e Qualidade de Vida

• Trabalho Prazeroso: Ócio Criativo

12 GESTÃO DO CONHECIMENTO E DE PESSOAS| Educação a Distância

INTRODUÇÃO

INTRODUÇÃO Vivemos tempos turbulentos em que uma impressão de crise e instabilidade perpassa por mentes e

Vivemos tempos turbulentos em que uma impressão de crise e instabilidade perpassa por mentes e

ambientes. A sociedade inteira passa por um processo de revisão e as filosofias se alternam para explicar

e oferecer soluções, tal como aconteceu nos últimos tempos do Império Romano quando epicuristas se contrapunham aos estoicos em suas propostas para o melhor modo de viver.

A disciplina Gestão do Conhecimento e de Pessoas pode parecer uma intromissão neoliberal no cenário

das disciplinas as quais tradicionalmente estamos acostumados a estudar, mas é certamente uma disciplina característica e decisiva para nos conduzir no tortuoso caminho de transição que nos apresenta.

Uma sociedade em transformação, na qual traços do passado ainda resistem em meio aos que o presente

oferece e que já dominam o futuro é, antes de tudo, uma sociedade que tem de ser conhecida, explicada

e decifrada em seus enigmas para que nela possamos atuar com eficácia.

Nesse sentido, vale a máxima que rege os historiadores, conhecer as raízes e estabelecer uma via expressa de três mãos entre passado e futuro ou se render aos ideais dos filósofos gregos: conhecer para atingir a virtude e o Bem, visto que a ignorância parece ser a fonte de todos os males.

Um século novo com seu mundo em construção é muito mais do que um marco ditado pela cronologia:

implica numa decisiva mudança de paradigmas e atitudes presididas por uma racionalidade da qual nenhum setor escapa, principalmente um campo tão importante quanto a educação e a cultura que a preside.

A transição 1 a qual hoje assistimos transpõe limites regionais, nacionais, atinge todo o planeta unido por uma globalização que ampliou o seu alcance de forma desmesurada e exige uma contrapartida na

consciência humana e planetária.

O efeito da mudança gradual de uma sociedade para outra só será percebido ao fim do processo que

irá nos conduzir de uma sociedade do tipo industrial para outra, de características pós-industriais. Mas, certamente podemos nos antecipar a algumas de suas ocorrências para melhor atuar no novo cenário

e isto envolve nossa atuação como docentes do ensino superior e a consequente responsabilidade na construção do nosso século, ainda em seu canteiro de obras .

FUNÇÃO E LUGAR DA GESTÃO NA SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL

É uma praxe da boa didática sempre explicar os conceitos envolvidos por detrás das palavras. E com o termo gestão, núcleo de nossa disciplina, não seria diferente.

O termo gestão tem uma conotação inicial com a administração e isto é explicável uma vez que suas

origens se encontram na obra de Peter Drucker, uma referência como pensador polivalente além de administrador. Porém, o termo se aplica a um campo bem mais extenso do que o da administração de

1 Transição, ou seja, a coexistência entre o velho e o novo, implica sempre em turbulência.

empresas e esta amplitude se explica por seu alcance. A importância da boa gestão é

empresas e esta amplitude se explica por seu alcance.

A importância da boa gestão é tão ampla que o mesmo Peter Drucker aponta o nosso século XXI como o século do administrador em sua obra Sociedade Pós-capitalista 2 , a qual apesar do título contestado por alguns, traz muitas sugestões de gestão, inclusive para a nova escola de nosso século que já venceu sua primeira década. E partem de Drucker muitas indicações importantes para todo aquele que pretender ser um “trabalhador do conhecimento” (knowledge worker) em um processo de educação contínua.

Gerir é sinônimo da ação de gerenciar e se refere ao controle e ações propostas envolvendo um conjunto que pode envolver pessoas, escolas, empresas, serviços, ações, e a gestão eficaz visa mais que à eficiência: tem por meta a aplicação e sobrevivência das ações propostas.

meta a aplicação e sobrevivência das ações propostas. Peter Drucker (1909- 2005) A partir de sua

Peter Drucker (1909- 2005)

A partir de sua nascente administrativa, o termo começou a ter muitas

derivações e uma delas se aplica, hoje, à gestão do conhecimento em conexão com as demais já existentes.

A novidade implícita no uso do termo vem de um novo tipo de sociedade

que está sendo construída e se destina a substituir o antigo modelo de sociedade taylor-fordista a qual no habituamos a viver no século XX. O novo modelo pós-industrial está se impondo com o decorrer dos anos e suas características são o controle indireto, a adhocracia, o toyotismo e o conhecimento no núcleo do capital 3 .

Apesar de muito respeitarmos e adotarmos as linhas mestras do pensamento de Drucker, substituímos o termo pós-capitalista por ele empregado por outro, pós-industrial, mais de acordo com o que vem exposto por autores como Touraine: afinal, o capitalismo não sofreu modificações profundas ou estruturais nem está sendo substituído por outro sistema. O que está ocorrendo é uma mudança, um deslocamento de importância no núcleo do capital, pois o dinheiro está sendo substituído paulatinamente pelo conhecimento como um bem fundamental da nova sociedade. E esta, segundo previsões de Drucker, estará plenamente configurada por volta de 2020 ou no cálculo menos otimista em 2030.

Domenico de Masi, em inspirado artigo, define com propriedade os termos de tal transformação: para ele 4 , a atual sociedade se estrutura com base na informação e este é um dado que leva alguns pensadores, como os da UNESCO, a sugerirem o termo sociedade da informação para a etapa de transição que hoje vivemos.

É o mesmo sociólogo italiano quem aponta os cinco aspectos que definem nossa sociedade (1999, p.33):

O caráter central do saber teórico, gerador da inovação e das ideias diretivas que transferem toda a

A passagem da produção de bens para uma economia onde os serviços assumem a prioridade.

A preeminência de uma classe de trabalhadores formada por profissionais e técnicos.

2

3

4

DRUCKER, Peter Ferdinand. A sociedade pós-capitalista. Tradução de: Jr. MONTINGELLI

Capital será visto aqui na acepção marxista de valor que se autoexpande ou, ainda, todo bem que gere outros bens, renda, patrimônio, produção.

DE MASI, Domenico. Desenvolvimento sem trabalho. 2. ed. Tradução: Eugênia Deheinzelin. São Paulo: Editora Esfera, 1999.

21. ed. São Paulo: Cortez.

ênfase para a criatividade.

ênfase para a criatividade. • A gestão do desenvolvimento técnico e o controle normativo da tecnologia.

• A gestão do desenvolvimento técnico e o controle normativo da tecnologia.

• A criação de uma nova tecnologia intelectual, onde o lugar central cabe ao conhecimento.

As ideias de De Masi sintonizam com as de Drucker, principalmente quando o pai do termo gestão rompe com um mito muito comum no século passado: a ideia de gestão como algo intuitivo, um dom de alguns empresários recebido ao acaso.

Drucker escreveu em 1954 que a grande empresa era a primeira organização em larga escala baseada no conhecimento e que, com ela surgia um novo ator social, o trabalhador do conhecimento. E aproximadamente quarenta anos depois afirmaria que nós caminhávamos para uma sociedade em que o saber seria o recurso chave.

DESENVOLVIMENTO E EMPREGABILIDADE

As colocações dos pensadores são como um mapa da estrada que temos pela frente e por isso merecem ser entendidas em sua sintonia e sequência.

De Masi mencionou um “desenvolvimento sem trabalho”, e Drucker fez notar a categoria do “trabalhador do conhecimento”. O que esta aparente contradição quer nos apontar?

Iniciemos pelo sociólogo italiano que, em 1994, escreveu uma de suas obras focalizando as pessoas que têm no trabalho sua produção de recursos para o sustento familiar.

A tônica do livro é muito clara: neste momento em que o desemprego se apresenta como um monstro ameaçador para toda a humanidade, em todos os mundos, dos desenvolvidos aos emergentes, De Masi usa a lente da História para afirmar que o desemprego é a face visível de um fenômeno mais profundo – a libertação do trabalho.

O trabalho é algo que preocupa a humanidade desde o início dos tempos. Na antiguidade clássica – 330 a.C - Aristóteles escreveu que “se cada instrumento pudesse a uma ordem dada, trabalhar por si, se as lançadeiras tecessem sozinhas, se o arco tocasse sozinho a cítara, os empreendedores não iriam precisar de operários” 5 .

Há algum tempo a humanidade tem se preocupado com o desenvolvimento. Ralf Dahrendorf, por exemplo, escreveu que “a sociedade do desenvolvimento foi também uma sociedade do trabalho. A vida dos homens era construída em torno do trabalho”.

Para este sociólogo alemão, nascido em 1929 na Alemanha 6 , faz-se necessário remodelar os princípios de definição das classes sociais. Afastou-se do princípio marxista da propriedade dos meios de produção, em substituição, o parâmetro do poder e da autoridade.

5 <sinapsesgaia.blogspot.com/

6 Falecido em 2009 é considerado um dos maiores teóricos do liberalismo.

/acumulacao-monetaria-e-trabalho-como.htm>

sobre comentários de Aristóteles em seu livro A Política (330 a.C).

Segundo pensa, as diferenças de poder alimentam o conflito de classes, o que nunca poderá

Segundo pensa, as diferenças de poder alimentam o conflito de classes, o que nunca poderá ser eliminado. No entanto, ele defende que os direitos de cidadania e a igualdade de oportunidades contribuem para controlar o mesmo conflito de classes. Muito dificilmente ocorrerá “a revolução”, pois com a evolução do capitalismo industrial em direção à sociedade pós-capitalista, passam a existir modos aceites de regulação dos conflitos, o que os tornou menos violentos.

Grifamos a expressão pós-capitalista, pois a sintonia com Peter Drucker é visível e para nós é bem mais lógica a expressão pós-industrial, uma vez que se trata, ainda, de um capitalismo tardio e não de um sistema estruturalmente modificado.

Em seu livro A Lei e a Ordem 7 , lemos: “as crises de legitimidade sempre têm algo a ver com a incapacidade das sociedades em criar lealdade a seus valores básicos; se esses valores se tornam autodestrutivos, a crise torna-se aparente”.

Com relação ao conflito de classes, Dahrendorf não promete uma sociedade em que reine uma igualdade utópica como se pode perceber. Preso pelos nazistas quando tinha quinze anos, talvez aí se origine sua oposição aos regimes totalitários (de direita ou esquerda), o fato de ter-se naturalizado britânico e sua opção pelo liberalismo.

naturalizado britânico e sua opção pelo liberalismo. Ralf Dahrendorf (1929-2009) As promessas de Peter Drucker

Ralf Dahrendorf (1929-2009)

As promessas de Peter Drucker para a sociedade do conhecimento se fundamentam todas em uma alteração básica ocorrida no núcleo do capital e não na derrubada do sistema. Segundo acredita, os ricos serão substituídos pelos sábios e os pobres, pelos ignorantes, uma vez que o dinheiro será substituído pelo conhecimento no núcleo do capital como veremos em um próximo segmento.

no núcleo do capital como veremos em um próximo segmento. As promessas de Peter Drucker para

As promessas de Peter Drucker para a sociedade do conhecimento se fundamentam todas em uma alteração básica ocorrida no núcleo do capital e não na derrubada do sistema.

Segundo pensa, não obstante o seu liberalismo, a competição na sociedade do conhecimento será tão inevitável quanto a própria sociedade do conhecimento.

Drucker escreve que “nunca na história da humanidade houve tantas transformações sociais radicais

7 A Lei e a Ordem, de Ralf Dahrendorf Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1997.

como no século XX” e a sociedade do conhecimento será profícua em elementos modalizadores, mas

como no século XX” e a sociedade do conhecimento será profícua em elementos modalizadores, mas também acrescenta (2002, pp.55 a 57):

A sociedade do conhecimento inevitavelmente se tornará muito mais competitiva do que qualquer

sociedade anterior [

competitivas para o indivíduo do que as sociedades do início do século XX. […] De fato, quanto mais satisfatório é o trabalho qualificado de uma pessoa, mais ela precisa de uma esfera de atividade comunitária independente. No século XXI certamente a agitação e o desafio social, econômico e político prosseguirão, pelo menos nas primeiras décadas. 8

De fato, sociedades desenvolvidas já se tornaram infinitamente mais

].

O que nos resta perguntar agora é o que acontecerá se o trabalho vier a faltar e o desemprego trouxer de retorno o fantasma da fome que tem assolado populações desde a antiguidade até os dias de hoje, em casos extremos das hiperpopulações como é o caso da China e da Índia? Jean Delumeau, em sua obra sobre a História do Medo no Ocidente, coloca a fome como um dos principais terrores da humanidade. 9

a fome como um dos principais terrores da humanidade. 9 Editora : Companhia das Letras Autor

Editora: Companhia das Letras Autor: JEAN DELUMEAU Ano: 2009 Edição: 1 Número de páginas: 672

A qualidade de vida é uma das grandes preocupações dos pensadores nesta transição que vivemos entre duas sociedades, uma se despedindo e outra chegando.

Domenico de Masi, sociólogo italiano, é grande admirador dos gregos, do seu ócio criativo a partir do trabalho intelectual, tarefa destinada aos sábios, vivência que ele considera ideal, principalmente por se revestir de equilíbrio.

Fundamental para estabelecer a comparação entre a sociedade industrial (a nossa) e a pós-industrial (ainda em formação) é o artigo publicado no caderno Empregos da Folha de São Paulo o qual tem por título: O sábio não dá muita importância à carreira 10 . Sua exposição muito clara compara as duas sociedades em suas principais diferenças quanto à estrutura, trabalho, empregabilidade e qualidade de vida.

Reproduzimos aqui suas principais informações:

As empresas foram, por dois séculos, os motores da sociedade industrial, a ponta prolongada que fez de todo o sistema econômico o baricentro e serviu de exemplo para todas as outras instituições. As universidades, as escolas, os museus, os teatros e até as igrejas se apoderaram do organismo industrial taylor-fordista e dos princípios da administração científica, correspondentes às exigências

8 DRUCKER, P. O melhor de Peter Drucker: a sociedade. São Paulo: Nobel, 2002. 9 Ao tornar objeto de estudo o medo, Jean Delumeau, em sua obra de 1978, parte da ideia de que não apenas os indivíduos, mas também as coletividades estão engajadas num diálogo permanente com a menos heroica das paixões humanas. Revelando-nos os pesadelos mais íntimos da civilização ociden- tal do século XIV ao XVIII – o mar, as trevas, a peste, a fome, a bruxaria, o Apocalipse, Satã e seus agentes – o grande pensador francês realiza uma obra valiosa para a historiografia ocidental. 10 Caderno Empregos da Folha de S. Paulo: 21/04/01.

crescentes de padronizar, sincronizar e especializar o trabalho, incrementar a produtividade, centralizar o poder. Ele

crescentes de padronizar, sincronizar e especializar o trabalho, incrementar a produtividade, centralizar o poder.

Ele segue explicando uma estrutura piramidal com base em trabalhadores menos qualificados, os

destinados às tarefas repetitivas, submetidos a controle direto (confinamento e horário rígidos) que se oporá à outra que já começa a existir de trabalhadores do conhecimento submetidos ao controle indireto

e com uma qualidade de vida bem maior. À mobilidade vertical lenta e fidelidade acrítica se substitui a horizontalidade, onde:

Aquilo que interessa à empresa não é a fidelidade e a quantidade de horas passadas no escritório, mas a quantidade e a qualidade de idéias produzidas, a capacidade de realizá-las, a atitude de adaptar-se a situações sempre novas, a velocidade em atualizar-se profissionalmente, uma ótica internacional dos problemas, a capacidade de comunicação, a seriedade, a ética, a estética.

Nos poucos casos em que uma organização conseguiu níveis pós-industriais de convivência, o que se exige do trabalhador é a “criatividade, o carisma, o profissionalismo, a alegria,” e tudo se mede por sua capacidade de “demonstrar fantasia e concretude, flexibilidade e internacionalidade, senso ético e estético, visão global e respeito pela identidade própria e dos outros, equilíbrio e sabedoria”.

A síntese desta comparação entre sociedade industrial e pós-industrial, trabalhador sob controle direto e

outro livre para criar é como se ilustra e explica abaixo:

outro livre para criar é como se ilustra e explica abaixo: E quando um executivo é

E quando um executivo é equilibrado e sábio, não dá muita importância à carreira, o que lhe interessa é a

qualidade do trabalho e a qualidade de vida porque como disse Aristóteles: ”a guerra visa à paz, o trabalho visa ao repouso, as coisas úteis visam às coisas boas”.

TRABALHO E QUALIDADE DE VIDA

De Masi tem uma visão muito especial a respeito do que o futuro nos reserva. Em suas entrevistas e conferências, obras e filosofia, acredita que a qualidade de vida do trabalhador será bem melhor no nosso século XXI. Isto ocorrerá porque as qualidades principais serão o equilíbrio e o afastamento dos extremos,

o que não ocorre com os workaholics 1 1 ou viciados em trabalho tão comuns

o que não ocorre com os workaholics 11 ou viciados em trabalho tão comuns entre os americanos do norte e todos que seguem esse modelo.

Conforme o tema de uma de suas obras básicas: o ócio criativo, esta modalidade de “trabalho” é uma arte que se aprende e se aperfeiçoa com o tempo e com o exercício. Uma de suas crenças básicas é que pode existir uma alienação por excesso de trabalho pós-industrial e de ócio criativo, assim como existia uma alienação por excesso de exploração pelo trabalho industrial. Sobretudo, é necessário aprender que o trabalho não é tudo na vida e que existem outros grandes valores: o estudo para produzir saber; a diversão para produzir alegria; a família para produzir solidariedade etc. 12

Em outra de suas obras – Desenvolvimento sem trabalho – anotam-se interessantes reflexões a partir de um fundamento que sempre envolve as origens greco-clássicas, essenciais para a compreensão da história ocidental. Para o sociólogo nascido em 1938, o sábio não dá muita importância à carreira:

em 1938, o sábio não dá muita importância à carreira: O trabalho na antiguidade greco-romana era

O trabalho na antiguidade greco-romana era executado por escravos, vistos pelo próprio Aristóteles na sua obra “A Política” 13 de 330 a.C como animais falantes ou instrumentos que andam. A escravidão ou o trabalho forçado em sua forma extrema eram considerados algo natural.

em sua forma extrema eram considerados algo natural. Domenico de Masi 1 1 Pessoas viciadas como
em sua forma extrema eram considerados algo natural. Domenico de Masi 1 1 Pessoas viciadas como

Domenico de Masi

11 Pessoas viciadas como um alcoólatra no trabalho, fica sem comer, sem voltar para casa, tudo em nome do seu emprego, composição com o inglês work (= trabalho). 12 <www.mariopersona.com.br/domenico.html>. Acesso em: 03 mar. 2011. 13 ARISTÓTELES. A Política. Tradução de Nestor Silveira Cahve. 6. ed, Atena Ed: São Paulo, 1960. ARISTÓTELES. Política. Tradução do grego, introdução e notas de Mário da Gama KURY. 3. ed. Brasília: UNB, 1997. 317p. ISBN: 85230001109. ARISTÓTELES. Política. Edição bilíngue (português-grego) com tradução direta do grego. Tradução de António Campelo Amaral e Carlos de Carvalho Gomes. 1. ed. Lisboa: Vega, 1998. 668p. ISBN: 972-699-561-2.

Política. Tradução de Roberto Leal FERREIRA. 2. ed. Martins Fontes: São Paulo, 1998. 350p. ISBN: 8533608411 (Obs.: tradução da tradução

francesa).

A “Política” ( Politeia ) divide-se em oito livros, que tratam: da composição da cidade,
A “Política” ( Politeia ) divide-se em oito livros, que tratam: da composição da cidade,

A “Política” (Politeia) divide-se em oito livros, que tratam: da composição da cidade, da escravidão, da família, das riquezas, bem como inclui uma crítica às teorias de Platão, antes seu mestre. Analisa também as constitui- ções de outras polis (cidades-Estado) e, em exercício comparativo, descreve seus regimes políticos. Aristóteles procura também idealizar qual o modo de vida mais desejável para as cidades e os indivíduos e finaliza a obra com os objetivos da educação e a importância das matérias a serem ensinadas.

Aristóteles

a importância das matérias a serem ensinadas. Aristóteles O século XX comporta duas metades quanto ao

O século XX comporta duas metades quanto ao item trabalho: das máquinas simples e automáticas,

como as existentes na cadeia de montagem, que se relacionavam com executivos no contexto de uma

organização científica, e a fase neoindustrial, a partir dos anos 50. O aparecimento do computador e de máquinas como os robôs foi decisivo para uma sucessão de fases que De Masi considera liberatórias.

E, nessa libertação se inclui a fadiga. E como todo bem pode trazer um mal, segundo já afirmava Rui

Barbosa, um mundo que trouxe a necessidade de redesenhar o sistema social e fazer vencer aquilo

que para o sociólogo italiano é o ócio ativo surgiu a partir de 1970 em linhas bem definidas. O jogo inventivo, a introspecção, as ideias como bens, a produção criativa assumiram, num mundo dominado pela tecnologia, a dominação a mão de obra e a “mente de obra” segundo nosso autor. É por isso que para De Masi, na sociedade pós-industrial, os avanços tecnológicos são tão velozes que o equilíbrio entre oferta e procura de trabalho fica definitivamente rompido, criando um crescente acúmulo de mão

de obra em relação às reais exigências da produção. Uma vez que as máquinas se incumbirão de quase

todo trabalho físico, assim como de boa parte do trabalho intelectual do tipo executivo, o ser humano irá guardar para si o monopólio da atividade criativa.

Na visão otimista de De Masi, a riqueza mais bem distribuída, a autodeterminação sobre as tarefas e uma atividade intelectual mais rica em conteúdos permitem que o ser humano dê mais espaço à qualidade de vida e aos espaços de autorrealização. Mas não deixa de assinalar a necessidade de adequação a esse uso mínimo do trabalho humano, o que implica na necessidade de se projetarem novas formas político-

sociais de alocar as tarefas e distribuir a riqueza. Com um uso mínimo de trabalho

sociais de alocar as tarefas e distribuir a riqueza. Com um uso mínimo de trabalho humano, implica a necessidade de se projetarem novas formas “políticas” de alocar as tarefas e de distribuir a riqueza. Só assim será possível resolver problemas como o desemprego e restabelecer o estado de bem-estar social (welfare state) um dos ideais mais caros à sociedade do século passado.

De Masi faz uma comparação entre as épocas onde o dinamismo levou à libertação dos escravos ou a transformação deles em camponeses e artesãos com a tendência atual e tendência corrente da empreitada ou da “terceirização” de algumas atividades - publicidade, propaganda, advocacia, processamento de dados e assim por diante (DE MASI, 2001).

É interessante a citação que nosso autor (2001, p. 29) faz a Adam Smith de que “o trabalho feito por

homens livres acaba sendo mais barato do que aquele feito por escravos”. Afirma ainda que da mesma forma que no fim da Idade Média, a escassez de escravos e a necessidade de trabalhadores motivados levaram à adoção de novas tecnologias e o surgimento do modo de produção protoindustrial em países como a Inglaterra do século XVIII, nossa época apresenta hoje novas condições para o trabalho e possibilitam um novo tipo de trabalhador.

É

aqui que o pensamento do sociólogo se une às ideias do “guru” dos administradores quando alerta para

o

aparecimento da categoria do trabalhador do conhecimento.

E

este, aquele que carrega em si seus próprios instrumentos de produção em sua cabeça, será o maior

ativo com o qual qualquer organização poderá contar, uma vez que dado suas características pessoais poderá sobreviver às próprias organizações que o contratam. E isto para os administradores é a síntese da eficácia, superior à eficiência, da mesma forma que o computador se sobrepôs à máquina de escrever. Na página 44 de sua obra, nosso autor conclui que chegamos a um ponto em que não é mais o trabalho que está criando produtos, mas sim os produtos que estão criando o trabalho.

Finalmente, se a terceira Revolução Industrial, qual seja a tecnológica, levou a sociedade ao desemprego

e à maior disponibilidade para o tempo livre, sem dúvida permitirá a libertação dos homens dos trabalhos

anteriores, sobre controle rígido e direito, sujeitos à permanência no local de trabalho e sanções se tal não acontecer, aquilo que se pode chamar de trabalho alienado.

“Chegou-se então a este ponto: não é o trabalho que está criando produtos, mas são os produtos que estão criando trabalho. Não se trata mais de trabalhar para produzir, mas de produzir para trabalhar” (DE MASI, 1999, p. 58).

De Masi se pergunta se na sociedade do século XXI ocorrerá a libertação dos homens dos trabalhos alienados ou os alienará ainda mais. Afinal, trabalhar sempre menos dispondo de uma riqueza sempre maior acabará por condenar alguns ao desemprego e outros à improdutividade. Para responder a essa questão, a visão otimista de nosso autor pode ser constatada na citação abaixo:

Será dito às pessoas que há o perigo do trabalho vir a faltar em vez de esclarecer que não é mais preciso se matar de tanto trabalhar. Será dito às pessoas que o monstro do desemprego está solto, em vez de explicar como e por que teremos sempre mais tempo livre. As promessas de automação

serão apresentadas como ameaças ao posto de trabalho, tentar-se-á atiçar os trabalhadores para que briguem

serão apresentadas como ameaças ao posto de trabalho, tentar-se-á atiçar os trabalhadores para que briguem entre si pelos raros postos de trabalho que sobraram, em vez de estimulá-los a batalhar juntos por outra realidade econômica (DE MASI, 1999, p. 63).

O autor ainda esclarece que “o desemprego não é apenas uma consequência da crise mundial, é também uma arma para reinstituir a obediência e a disciplina nas empresas” (1999, p. 64), ou seja, fica óbvia a implicação de mudanças, agora uma coisa é certa: ninguém fará carreira na profissão que aprendeu; essa profissão será transformada, simplificada, desqualificada ou meramente suprimida pela microeletrônica. “Todos somos potencialmente um supranumerário”.

Esta última observação do sociólogo pode ser estendida ao magistério e à carreira que abraçamos com entusiasmo, mas que para alguns apresenta muitas dificuldades neste período de transição e acarreta algumas dúvidas.

Para começar a propor algumas soluções, temos de aprofundar nossas reflexões e seguir com as indicações que os autores nos oferecem.

Na revista Newsweek (14 de junho de 1993), sob o título Jobs na capa inteira, frases de efeito alertam:

“trabalhadores do mundo, previnam-se! O futuro terá menos empregos para oferecer à classe média. As carreiras vitalícias serão raras. O treinamento será constante”.

vitalícias serão raras. O treinamento será constante”. Sempre conforme o ideal greco-clássico, De Masi acentua

Sempre conforme o ideal greco-clássico, De Masi acentua sempre a busca do equilíbrio.

Trabalho prazeroso: ócio criativo

Convidado para participar da 11ª Bienal Internacional do Livro (maio/2003), De Masi chegou ao Rio de Janeiro e no Riocentro, onde falou na palestra “O Futuro do Trabalho”, tema de seu livro homônimo publicado pela editora José Olympio.

Em entrevista para Giovanna Mollona 14 , De Masi começa lembrando Confúcio, que no século V a.C afirmava: “escolha um trabalho que você ame e não terá de trabalhar um único dia em sua vida”.

14 Para Domenico De Masi, o Brasil possui “cultura do equilíbrio” 26/05/2003 - 02h31 FOLHA on-line <www.folha.com.br>. Acesso em: 03 mar. 2011.

De Masi falou, ainda, sobre o conceito que o trabalho tem hoje e de como

De Masi falou, ainda, sobre o conceito que o trabalho tem hoje e de como ele é tão valorizado pelas pessoas, mesmo ocupando tão pouco tempo na vida de cada um de nós. “Digamos que uma pessoa viva até os 80 e trabalhe durante 40 anos. Nesta conta, o trabalho ocupa apenas 1/7 da vida adulta. Mesmo que se adote a dupla jornada, o tempo vago é ainda três vezes maior do que aquele gasto trabalhando. Ora, o que fazer com tanto ócio?”, perguntou-se, completando que, mesmo assim, a família e a escola preparam o jovem somente para este 1/7 de sua vida adulta.

Já com relação a sua apreciação favorável de nossa cultura quanto ao trabalho, De Masi começa

classificando os três modelos de civilização encontrados hoje no mundo: o modelo norte-americano com seu fundamentalismo de consumo, e o outro, dos fundamentalistas islâmicos com sua exagerada devoção

à religião.

Refletindo sobre tais extremos, o sociólogo acrescentou que o primeiro modelo é rico em recursos e o

outro tem populações vivendo na mais extrema miséria. O terceiro modelo, chamado de greco-latino inclui

o Brasil e é considerado por ele o melhor deles, uma vez que “exalta a comunicação entre as pessoas, a alegria e a sensualidade, configurando uma cultura de equilíbrio”.

Abordando o tema da empregabilidade que já mencionamos no item anterior, De Masi afirmou que a organização do trabalho não está conseguindo acompanhar o desenvolvimento tecnológico, gerando assim o desemprego. “A tecnologia nos permite a cada dia trabalharmos menos e produzirmos mais, logo para revertemos o desemprego, a solução é reduzir drasticamente a carga horária de modo que todos trabalhem um pouco”.

Suas declarações na Bienal do Livro citada, reúnem seus temas e refletem suas crenças: “Hoje creio ser possível atingir um nível de atividades que misturem diversão, trabalho e estudo ao mesmo tempo. É o ócio criativo!”, e completou: “Para mim, é uma boa notícia saber que hoje trabalhamos menos e produzimos mais. Sou napolitano e, como tal, muito parecido com os brasileiros” 15 .

Reunindo desemprego, empregabilidade e qualidade de vida ele introduz um novo elemento que faz parte do repertório de quase todos os pensadores contemporâneos: a criatividade. Assim, além da mudança na carga horária do trabalhador, De Masi acrescenta a sensível mudança que atingiu o trabalho, que deixou de ser braçal e mecânico para ser cada vez mais um trabalho criativo, intelectual.

Apenas para confirmar tal consideração, lembramos aqui o que recentemente se escreveu sobre a obra O ócio criativo na Revista Digital Art& ISNN 1806-2962- Ano 6 – nº 9 de Abril de 2008 16 : a obra é importante na medida em que se propõe a teorizar sobre o momento atual, a sua inserção histórica, além do assunto da diminuição do tempo de trabalho e o aumento do tempo livre. Pode-se anotar, ainda, que autores que formam a referência bibliográfica do sociólogo são Bertrand Russel, Paul Lafargue, Alvin

15 <www1.folha.uol.com.br/folha/

16 <www.revista.art.br/site-numero-09/

/ult90u33135.shtml>.

/16.htm>.

Toffler, Daniel Bell e Alain Touraine. Bertrand Russel (1872- 1970) A obra “Elogio ao ócio”

Toffler, Daniel Bell e Alain Touraine.

Toffler, Daniel Bell e Alain Touraine. Bertrand Russel (1872- 1970) A obra “Elogio ao ócio” do

Bertrand Russel (1872- 1970)

A obra “Elogio ao ócio” do pensador britânico é uma compilação de textos escrita nos anos 30 do século

passado, que envolve educação, comportamento e, no caso presente, o trabalho. Russel encara como uma das maiores mentiras da sociedade a afirmação de que “o trabalho dignifica o homem” e, em contrapartida, o ócio é o pior de todos os vícios. Ele lembra em seu livro que na Inglaterra do século dezenove, quinze horas era a jornada comum para um homem ou que a ideia de que os pobres devem ter lazer sempre foi chocante para os ricos. E o que é mais importante: afirma que o uso sábio do lazer é produto de civilização e educação.

“Que se proclamem os direitos da preguiça, milhares de vezes mais nobres e sagrados do que os tísicos Direitos do Homem, que as pessoas se obriguem a trabalhar apenas três horas por dia, a mandriar e a

andar no regabofe o resto do dia e da noite”

à Preguiça – publicado em 1880 pretendia ser uma provocação direta aos que proclamavam as virtudes do trabalho.

Estas frases do pequeno livro de Paul Lafargue – O Direito

Lafargue era esquerdista e genro de Marx 17 e pretendia minar o que julgava ser uma cultura favorável ao enriquecimento dos capitalistas e propícia à má qualidade de vida dos trabalhadores. Em busca de

argumentos, ele volta aos filósofos da antiguidade que viam no trabalho a degradação de um homem livre

e aos poetas que cantavam a preguiça como um presente dos deuses 18 .

cantavam a preguiça como um presente dos deuses 1 8 . John Maynard Keynes (1883-1946) 1

John Maynard Keynes (1883-1946)

17 Lafargue morreu num pacto suicida com Elaine Marx, e suas ideias foram enterradas com ele. Paulo Nogueira para <www.diariodocentrodomundo.com.

br/?tag=paul-lafargue

>.

18 Uma de suas inspirações era O provérbio espanhol que diz: Descansar es salud (Descansar é saúde).

John Maynard Keynes , um dos maiores economistas do século passado, o gênio inglês controvertido

John Maynard Keynes, um dos maiores economistas do século passado, o gênio inglês controvertido que nos anos 30 deu sustentação teórica para intervenções do governo na economia para mitigar crises, vislumbrou um futuro em que as pessoas trabalhariam, como sugerira Lafargue, três horas por dia. Todos, no sonho keynesiano, teriam mais tempo para se dedicar a ocupações como ler, refletir, meditar, filosofar, bebericar com os amigos, namorar, aproveitar a vida 19 .

Daniel Bell (1919-2011) era sociólogo e professor emérito da Universidade de Harvard. Suas obras, tais como “O Fim da Ideologia” ou “O Advento da sociedade pós-industrial” refletem seu afastamento da ideologia marxista ou, como ele próprio definia sua posição marcada pela crença “liberal na política, socialista na economia e conservador na cultura”.

Suas ideias se confirmaram nos tempos atuais, uma vez que previu a transição de uma economia baseada na manufatura para outra, com foco na tecnologia. O papel do Estado que ele considerava “ao mesmo tempo, pequeno demais para os grandes problemas da vida e grande demais para os pequenos problemas da vida” também mereceu seu exame em busca do grau de intervenção ideal, do totalitarismo à “mão indivisível” de Adam Smith.

Em direta conexão com outros pensadores, mostrou as contradições do capitalismo, principalmente no que consistia na valorização do trabalho e da poupança como um dever.

O que Daniel Bell (1919-2011) disse é hoje, em termos gerais, algo completamente banal. Todos nós

que lemos jornais vivemos o que ele descreveu e previu. Ele disse que não iríamos mais viver em sociedades em que o trabalho teria sua centralidade nos moldes até então vigentes. A tecnologia iria

dominar o trabalho e seria cada vez mais substituível. Portanto, o conhecimento envolvido no trabalho

e para o trabalho não seria o conhecimento de técnicas, mas, mais valoroso que as técnicas, seriam os conhecimentos capazes de permitirem o aprendizado de técnicas e as trocas de técnicas. 20

o aprendizado de técnicas e as trocas de técnicas. 2 0 Daniel Bell (1919-2011) Como veremos

Daniel Bell (1919-2011)

Como veremos mais tarde com Touraine, Bell acoplou a isso a ideia de que as grandes doutrinas político- sociais como fascismo, comunismo, social-democracia, liberalismo etc. iriam perder sua capacidade de se fixarem na sociedade; elas não iriam mais, com facilidade, se articular enquanto “ideologias” oficiais de determinados grupos. E mais: ele viu que as disputas que se pudessem ainda chamar de “trabalhistas” iriam deixar de obedecer aos modelos estudados pelos clássicos da sociologia.

Portanto, no momento em que o desemprego é um fato de alcance mundial, uma ameaça que atinge a milhares, De Masi encara o desemprego como a face que um fenômeno mais profundo pode acarretar para a sociedade: a libertação do trabalho.

19 <educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u462.jhtm>. Acesso em: 03 mar. 2011. 20 <docentes.esgs.pt/csh/PSI/docs/SC_A16.pdf>. Acesso em: 03 mar. 2011. Bell, Daniel. S/d. O Advento da Sociedade Pós-Industrial: Uma Tentativa de Previsão Social. Ed. Cultrix: São Paulo.

E essa libertação representa uma transformação pela qual o trabalho e prazer de trabalhar, o

E essa libertação representa uma transformação pela qual o trabalho e prazer de trabalhar, o lazer

produtivo representam. Isto ocorre de uma forma que já foi prevista pelos sábios: “em 1857, isto é, há quase um século e meio, Marx tinha escrito: ‘É chegado o tempo em que os homens não mais farão o que as máquinas podem fazer’ e tinha concluído que o capitalismo, tendendo de forma inexorável para a abolição do trabalho, teria dessa forma provocado sua própria morte.” Ou, ainda,

o trabalho é, pela sua natureza, uma maldição bíblica. Desenvolve-se em lugares indecentemente

Será

que a mitologia do horário, do controle e da hierarquia é realmente produtiva? (Domenico De Masi, em O Estado de S. Paulo, 30 de maio de 1999 21 ).

feios, onde uma pessoa deve passar muito tempo, gastando muita energia, com rituais inúteis

Como se pode perceber, tudo o que De Masi escreve se refere ao trabalho típico da sociedade industrial. Para a próxima, a pós-industrial, na qual o trabalhador faça seus próprios horários, não esteja sujeito a confinamento e ao controle direto em sistema de adhocracia 22 , a qualidade de vida será certamente melhor.

Adhocracia é um termo criado por Warren Bennis e utilizado na Teoria das Organizações 23 , que agora nos permite fazer a conexão com os tempos atuais turbulentos de transição e a solução que para alguns autores parece mais viável.

Popularizada por Robert Waterman, no livro “Adhocracy - The Power to Change”, corresponde ao oposto da burocracia. Enquanto a burocracia coloca a ênfase na rigidez das rotinas, a adhocracia releva a simplificação dos processos e a adaptação da organização a cada situação particular. O mesmo Robert Waterman define-a como qualquer forma de organização que corta com todos os processos característicos das organizações burocráticas relacionados com a pesquisa e análise de novas oportunidades, resolução de problemas e obtenção de resultados.

Considerada mais apropriada para ambientes e situações instáveis, se aplica a qualquer organização que rompa com as normas burocráticas porque pretende detectar novas oportunidades, resolver problemas e obter bons resultados mediante o incentivo à criatividade individual, enquanto caminho para a renovação organizacional.

A adhocracia caracteriza a organização baseada em projetos que se formam para desempenhar uma

atividade, desaparecendo quando esta termina, e seus membros se reagrupando em outras equipes dedicadas a outros projetos tal como ocorre, por exemplo, em firmas de consultoria ou nas agências de propaganda.

Os pensamentos de De Masi não representam as observações de um pensador solitário. Sua sintonia com outros autores como Drucker ou Toffler varia apenas em emoção ou no modo de se expressar que diferenciam latinos de anglo-saxônicos.

Um tópico de relevo é aquele em que Toffler menciona o mesmo que o sociólogo, ou seja, sua citação

21 <api.ning.com/files/FWNCSNFu5lvi6iZZ

22 O termo é aqui usado em oposição a estrutura piramidal em degraus da burocracia (termo weberiano) e se aplica a estrutura de um só degrau, horizonta- lizada por assim dizer.

23 <www.ead.fea.usp.br/

/DesenvovimentoSemTrabalho.doc>.

CONTROVÉRSIA.

/Processo%20de%20Mudança%20Organizacional.pdf>.

ao que os patrões desejavam para ele na sociedade industrial de sua juventude e desejam

ao que os patrões desejavam para ele na sociedade industrial de sua juventude e desejam agora com relação às leituras feitas durante o expediente, por exemplo.

Como De Masi, Toffler estabeleceu que no futuro a sociedade será extremamente dinâmica e mutável

e que as organizações que quiserem sobreviver terão que ser inovadoras, temporárias, orgânicas e

antiburocráticas. Ou, mais ainda, para o futurólogo norte-americano, a adhocracia ou “adocracia” é um sistema temporário, variável e adaptativo, organizado em torno de problemas a serem resolvidos por grupo de pessoas com habilidade e profissões diversas e complementares. Por todas esas características, constitui-se em uma opção à tradicional Departamentalização.

Domenico De Masi acredita que “o contexto no qual vivemos não pode ser considerado uma continuação

da sociedade industrial. E que neste contexto não mudaram só alguns aspectos: mudou todo o conjunto”.

O autor fundamenta suas afirmações baseando-se na coincidência da mudança de três fatores: fontes

energéticas, divisão do trabalho e divisão do poder. Segundo o autor, esta mudança simultânea determinaria “um salto de época” (DE MASI, 2001 p.23).

Com relação a essa ruptura, cita Daniel Bell que localiza este momento no ano de 1956 quando, pela primeira vez, o número de trabalhadores no setor de serviços superou a soma de trabalhadores nos setores industrial e agrícola.

Para que se possa melhor entender as concepções de De Mais, é preciso assinalar que, para o autor,

a sociedade industrial nasceu com a Revolução Industrial dentro do período chamado modernidade, um

salto de época no século XVIII. Ele aponta que as ideias do Iluminismo, tais como a confiança na razão humana para o progresso crescente, a crença num progresso ilimitado a partir da ciência, a descoberta da eletricidade e a criação da máquina a vapor foram os fatores determinantes para a virada.

Configurando a sociedade pós-industrial, De Masi (2001) utiliza também as concepções de Alvin Toffler e

Alain Touraine. A partir de Toffler, cita o desenvolvimento histórico em “ondas”, cada onda correspondendo

a agregação de uma série de condições, onde a mais influente é o desenvolvimento científico e

tecnológico. Juntamente com Toffler, aponta o advento de uma maior subjetividade e acrescenta que esta

provém das múltiplas possibilidades de escolha entre os produtos hiperdiferenciados criados pelos novos modelos produtivos. Restringe, assim, a liberdade a uma liberdade de escolha entre o que é oferecido e

a subjetividade a uma subjetividade de consumo.

A partir de Touraine, De Masi diz que a sociedade pós-industrial se distingue pela “necessidade e

capacidade de projetar o próprio futuro. É a primeira sociedade que não considera que o futuro dependa do acaso, da providência divina ou das circunstâncias” (DE MASI, 2001, p. 123). Ora, mas isso é moderno! Onde fica a tal ruptura entre a modernidade e pós-modernidade? E continua:

Eu coloco a criatividade no centro, onde ele coloca a programação. Se tivesse que definir a

Imagine a

nossa sociedade como um único cérebro que projeta medicamentos, ferrovias, aeroportos e, em relação a cada um destes projetos, procura antecipar para onde vai o mundo nos próximos cinco, dez ou quinze anos. É esta a sociedade que cria. Depois, imagine todos os conselhos administrativos, os

sociedade pós-industrial de outra maneira, eu a definiria como sociedade criativa. [

]

estrategistas, os grandes executivos das multinacionais e some ainda todos os governantes de todos os

estrategistas, os grandes executivos das multinacionais e some ainda todos os governantes de todos os Estados: esta é a sociedade que programa. 24 (2001, p. 124).

Com a ênfase à criatividade e à necessidade de novas formas de organização, as ideias dos pensadores aqui citados nos preparam para uma situação onde o conhecimento representará um bem de capital na medida em que será hegemônica uma sociedade de ideias, fundada na inteligência humana e nos bens intangíveis originários da criação.

Proporcionando a ligação com a unidade seguinte, citamos Alvin Toffler (1928):

O conhecimento sempre foi um fator importante para a criação da riqueza. Mas em nenhum sistema de riqueza anterior o setor de conhecimento representava um papel tão destacado quanto no atual. Hoje assistimos a um crescimento explosivo na quantidade, variedade e complexidade do conhecimento necessário para planejar, produzir e entregar valores em cada mercado. O mercado para dados, informações e conhecimento em si cresce exponencialmente. 25

Parece óbvio que estamos perante uma situação nova e que mudanças de importância estão acontecendo quanto ao modo de produção capitalista ou como quer que o consideremos em sua estruturação básica.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nos currículos das velhas carreiras tradicionais do século XX, Direito, Medicina, Engenharia, Secretariado, Magistério, disciplinas novas se apresentaram a partir das últimas décadas do século XX. Muitas delas se mostraram tão fortemente alimentadas pelas exigências sociais, que se constituíram elas mesmas em novas carreiras, independentes das anteriores.

O Magistério não poderia ficar imune ao impacto da Revolução Tecnológica e ninguém mais do que um

aluno de educação a distância para comprovar tal fato e dar seu testemunho a respeito.

Uma nova disciplina – a gestão do conhecimento e de pessoas – em suas ligações com a administração

é outra manifestação de uma sociedade em mudança.

Para usarmos um termo mais aceito, chamaremos a sociedade que ainda vivemos de industrial, e aquela que estará configurada plenamente nas novas décadas de pré-industrial.

Recorreremos a sociólogos, filósofos, futurólogos, historiadores, para completar o alerta que se fez mais forte a partir de um administrador polivalente: Peter Drucker, a partir da década de 70 do século passado.

Eis os nossos principais tópicos e intenção quando abordamos o que uma nova disciplina pode fazer para uma nova sociedade, ou seja, qual é a função e lugar da gestão na sociedade pós-industrial.

Problemas que angustiaram e ainda angustiam os docentes mais tradicionais perante as TICs envolvem não só o desenvolvimento individual e a empregabilidade, mas também a qualidade de vida.

A conexão entre trabalho e qualidade de vida é outra preocupação que focalizamos, principalmente se

24 DE MASI, D. O Ócio Criativo. 4. ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2001. 336p. 25 EDIÇÃO 8 - OUTUBRO DE 2007 | 03/10/2007 - 06h29min. <epocanegocios.globo.com/

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8>.

atentarmos para o fato de que em níveis industriais (taylor-fordistas) de convivência somos sobrecarregados com

atentarmos para o fato de que em níveis industriais (taylor-fordistas) de convivência somos sobrecarregados com grande carga de aulas e pequenos salários se considerada nossas responsabilidades e as cobranças que vêm do alto.

Finalmente, uma voz otimista, que vê em nosso país um modelo de equilíbrio entre extremos fundamentalistas de consumo e devoção religiosa e uma proposta que remete de volta ao trabalho prazeroso, merece ser considerada. Assim, De Masi nos propõe autoconhecimento e prazer de ser um bom docente, lembrando Confúcio e assinalando as possibilidades abertas pelas novidades do século XXI.

ATIVIDADE DE AUTOESTUDO

Ao final de cada unidade propomos um ou mais textos que consideramos importantes para o entendimento de nossos acadêmicos, uma vez que apresentam informações dispostas como uma síntese ou para maiores esclarecimentos. Como nosso grande focalizado nesta unidade foi o sociólogo italiano Domenico De Masi (1938), nosso primeiro texto para análise contém algumas de suas reflexões principais.

De matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo de 25 de fevereiro de 1999 26

A sociedade do lazer e seu profeta Por Gilberto de Mello Kujawski, escritor e jornalista

A entrevista do professor italiano Domenico De Masi no Roda Viva, da TV Cultura, em janeiro, foi um aconteci-

mento raro, um sucesso total de audiência. Foram tantos os pedidos que, na segunda-feira seguinte, o programa

foi reprisado na integra. As idéias novas lançadas pelo entrevistado a propósito do tempo livre na sociedade pós- -industrial, sua constante fluência e jovialidade na comunicação, sempre em tom ameno e coloquial, cativaram não só os telespectadores como o grupo de entrevistadores, que se mostrou excepcionalmente feliz na formula- ção das perguntas. Entretanto, por razões insondáveis, a imprensa escrita manteve-se omissa. Nenhuma pala- vra, nenhum registro daquele acontecimento cultural que magnetizou o País inteiro na TV. Entenda quem puder. De Masi, professor de Sociologia do Trabalho na Universidade de Roma, consultor de grandes corporações, como a IBM e a Fiat, vê o século 21 dominado não pelo problema do trabalho, e sim pela temática da organiza- ção do ócio (entendido não como ‘’fazer nada”, mas como tempo livre). A sociedade pós-industrial é gerada pela própria sociedade industrial, na medida em que esta aperfeiçoa e difunde seus programas de automatização e informatização do trabalho. A sociedade pós-industrial, esse fenômeno que já começou a existir, troca a produção de bens materiais pela produção de serviços, de informação e de conhecimento. Hoje em dia - diz ele -, o país que conta com muitas indústrias está atrasado. A linha de montagem foi superada. A economia sadia e avançada, segundo De Masi, não é unilateral, e sim diversificada, combinando a função agrícola e a industrial com o lazer. As condições para a construção da sociedade do lazer são: a grande arte, a grande literatura e a grande univer- sidade 27 . O Brasil conta de sobra com os dois primeiros fatores, mas falha no desenvolvimento da universidade na dedicação intensiva e extensiva ao estudo e à pesquisa científica.

A imaginação criadora é importante, mas não basta; tem de se completar pela realização. Fantasia + realização

é a proposta dos grupos de trabalho estudados em seu livro A Emoçâo e a Regra (José Olympio Ed) tais grupos

se constituíram na Europa, entre 1850 e 1950. E difícil deparar com a genialidade individual, mas é viável criar grupos que somem fantasia com realização. Um desses grupos foi a Escola de Biologia de Cambridge, que descobriu o DNA. Os cientistas produziram diversos desenhos da possível estrutura do DNA, a priori, sem base

26 RodaViva, 04 de janeiro de 1999,TV Cultura em <www.ime.usp.br/~is/ddt/mac333/

27 Essa referência ao ensino superior será retomada mais tarde com aprofundamentos.

/DdMasi.html>.

experimental. Na hora de testar aqueles desenhos surgiu a questão: qual deles? A resposta foi:

experimental. Na hora de testar aqueles desenhos surgiu a questão: qual deles? A resposta foi: o mais belo. Testou-se o desenho mais formoso e elegante. E não é que deu certo? O esquema do DNA era aquele mesmo. O episódio serve para destacar a importância do espírito lúdico, do prazer de jogar, sem o qual não se constrói a ciência. De Masi reconhece no desemprego crescente e mundial um perigo sério. Mas entende que a desocupação, que surge como uma ameaça, se revela logo uma oportunidade de reorganizar o trabalho e a sociedade. Para ele, aquelas três etapas da vida que andam separadas, o estudo, o trabalho e o tempo livre, tendem a integrar-se desde já. O tempo livre - diz De Masi - é o tempo do luxo; não da ostentação de riquezas ornamentais, mas da recuperação de alguns luxos hoje perdidos, como o tempo, o espaço, o silêncio, a segurança. Precioso subsídio para as teses do pensador italiano seria a noção do tempo hispânico, forjada por Gilberto Freyre. O mundo desenvolvido, diz Freyre, está dominado pela tensão abominável do tempo anglo-saxônico, o tempo planificado segundo objetivos pragmáticos de utilidade e ganho material, um tempo que nunca é “nosso”, de cada um de nós. mas da empresa. do capital e do trabalho, da sociedade, enfim. Já o tempo hispânico (co- mum a Espanha, Portugal e seus descendentes) é o tempo pessoal, que considero próprio, “meu”. Gilberto fala do cafezinho, do charuto fumado, lentamente, do tempo da cervejaria ou da confeitaria, da conversa gratuita. dos sorvos de vinho do porto das guloseimas, etc. Espanha e Portugal, Brasil e Itália são países que chegaram por último ao festival do desenvolvimento. Talvez porque o pensamento espanhol. A sociologia brasileira e o gênio italiano estejam reservados para brilhar na temporalidade do ócio, do tempo livre, no mundo pós-industrial.

Algumas reflexões sobre o texto

No livro “A emoção e a regra”, aqui citado, De Masi procura estudar o que a criatividade representa no mundo da produção. Para ele, a qualidade maior exigida em nossos tempos é o produto do equilíbrio entre a razão e a emoção, a fantasia e a concretude. Segundo pensa, o segredo contido na fórmula propulsora do progresso no mundo globalizado é a criatividade que se manifesta muito mais como fenômeno de grupo do que da genialidade de indivíduos que trabalham isolados.

Agora, pergunte e responda para você mesmo:

- De Masi nos apresenta um componente fundamental dos profissionais sábios do século XXI. Saberia descrevê-lo em sua essência e elementos complementares?

UNIDADE II

UNIDADE II O CONHECIMENTO COMO BEM DE CAPITAL Professora Dra. Maria Lúcia Bertachini Nosella Objetivos de

O CONHECIMENTO COMO BEM DE CAPITAL

Professora Dra. Maria Lúcia Bertachini Nosella

Objetivos de Aprendizagem

• Expor as novidades que incluem os grandes desafios para o século XXI.

• Identificar pensadores que procuram decifrar os enigmas da esfinge.

• Apresentar a via cultural como o melhor caminho para o desenvolvimento.

• Listar sugestões dos pensadores para o Brasil em seu processo de emergência.

• Esclarecer qual é a diferença entre economia e sociedade do conhecimento.

• Debater sobre os desafios éticos da sociedade da informação.

• Exemplificar com a neurociência em suas ligações com uma possível neuroeconomia.

Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:

• No Canteiro de Obras do Século XXI

• Pensadores da Nova Sociedade

• Vias para o Desenvolvimento: Entre a Terceira e

• A Quarta Via Existe e Pode ser a Indicada para o Brasil

• Economia ou Sociedade do Conhecimento?

• Um Mundo Modificado pela Tecnologia

• A Neurociência e a Potência do Novo

32 GESTÃO DO CONHECIMENTO E DE PESSOAS| Educação a Distância

INTRODUÇÃO

INTRODUÇÃO O Brasil, como veremos nesta unidade, é um país emergente do chamado Terceiro Mundo e

O Brasil, como veremos nesta unidade, é um país emergente do chamado Terceiro Mundo e como tal apresenta possibilidades e recursos que atraem a atenção dos mais desenvolvidos.

Iremos comparar o ensino meramente decorativo e tradicional com aquele que agora se pretende, representado na superação da memorização e elevação a degraus superiores que se apresentam na escalada do conhecimento.

Referimo-nos aqui à capacidade de decompor para entender a realidade, qual seja a análise e a operação mental de recompor tal realidade perante a nossa ótica, fenômeno citado como sendo a síntese. Para isto será necessário ler, entender o que outros disseram ou escreveram em meios mecânicos e eletrônicos e elaborar o nosso próprio pensamento.

Devemos entender ainda as dificuldades que o Brasil apresenta como país emergente, carente de capital, mas, mesmo assim, capaz de atrair investimentos estrangeiros.

Assim, valorizaremos a gestão eficaz do conhecimento, no âmbito individual e nacional, como o fator que viabiliza ou invalida esforços em prol do desenvolvimento científico e tecnológico, sem esquecer a qualidade de vida para os seres humanos envolvidos no processo.

NO CANTEIRO DE OBRAS DO SÉCULO XXI

Quando se trata de um referencial teórico, metodológico e institucional que possa reunir a maioria dos pesquisadores e profissionais em exercício, nada excede o valor das ciências humanas ou das “humanidades” 28 como preferem os franceses.

das “humanidades” 2 8 como preferem os franceses. Ultimamente tem assumido relevo a questão do fim

Ultimamente tem assumido relevo a questão do fim das humanidades, ciências básicas ao alento do humanismo. Insere-se no debate a obra O fim das humanidades, de Eugénio Lisboa 29 . Do excerto oferecemos aqui sua introdução, bem como a esclarecedora ilustração que acompanha o artigo “O Eugênio sabe das coisas”:

28 As ciências humanas ou humanidades são as disciplinas que tratam dos aspectos do homem como indivíduo e como ser social, tais como a filosofia, so- ciologia, ciência política, antropologia, história, linguística, pedagogia, economia, administração, contabilidade, geografia humana, direito, arqueologia, teologia, psicologia entre outros. 29 <dererummundi.blogspot.com/ /o-fim-das-humanidades.html>

Para que servem os estudos humanísticos? A pergunta, embora pareça absurda, tem a sua pertinência
Para que servem os estudos humanísticos? A pergunta, embora pareça absurda, tem a sua pertinência

Para que servem os estudos humanísticos? A pergunta, embora pareça absurda, tem a sua pertinência quando, por todo o mundo e também em Portugal, se parece assistir, cada vez mais, à redução das Faculdades de Letras ao estatuto de simples e utilitárias escolas de línguas. Para quê a literatura? De que serve? Para quê a História, a Arte, a Filosofia? Como verme daninho, o utilitarismo estreito e o economicismo, a propósito e a despropósito, infiltram-se insidiosamente no espírito dos burocratas da Educação e dos empresários da investigação e tudo corroem, como cancro incontrolável e sinistro. 30

Logo, apesar do evidente primado da tecnologia e dos saberes a ela relacionados, de tal maneira que tememos pelo valor da ciência, percebemos agora que vozes já se levantam, como a de Michel Serres quando afirma categoricamente que todas as ciências (ou conhecimentos) 31 estão em pé de igualdade. E acrescenta que as humanidades têm um imenso tesouro a oferecer às outras ciências, exatas ou biológicas, as quais ele chama de “ciências duras”. 32 Séculos antes dele, Leonardo da Vinci, o genial renascentista 33 , considerava e a mesma idéia:

renascentista 3 3 , considerava e a mesma idéia: Fonte: Amanda Franco No livro “ As

Fonte: Amanda Franco

No livro “As chaves do século XXI” de Jerome Bindé, encontramos algumas reflexões preciosas principalmente porque resulta da compilação das “Conferências do Século XXI” organizadas pela UNESCO e coordenadas pelo autor. No prefaciador, Koïchiro Matsura, diretor-geral da organização, fala

30 <dererummundi.blogspot.com/ /uma-carta-de-eugenio-lisboa-enviada.html>

31 BINDÉ, Jérome. As chaves do século XXI. Instituto Piaget, Porto Alegre/São Paulo, 2002.

32 Ciências duras são as orgânicas e inorgânicas como as biológicas e exatas diferentes das superorgânicas.

33 Leonardo da Vinci (1452-1519), gênio universal e pintor da Mona Lisa, um dos quadros mais famosos do mundo. O grande mote do trabalho de Leonardo, quer como artista, quer como inventor e cientista, foi a observação criteriosa da natureza. Seus cadernos são um imenso laboratório de pensamento. Nas notas, estudos e rascunhos dedicados à hidráulica, ao voo dos pássaros, ao movimento dos gatos, encontra-se um acurado explorador da natureza. Sua inteligência mecânica ainda hoje impressiona todos os que examinam seus desenhos de engrenagens. A comparação de imagens obtidas nos moder- nos aparelhos de tomografia computadorizada com seus desenhos sobre anatomia oferece uma espécie de revelação: Leonardo acertou com exatidão espantosa detalhes sobre a posição do feto no interior do útero. <www.netsaber.com.br/biografias/ver_biografia.php?c=1153>. Acesso em: 04 mar. 2011.

dos “desafios inéditos” que se colocam à humanidade no dealbar de um novo século. Diz

dos “desafios inéditos” que se colocam à humanidade no dealbar de um novo século. Diz ele: “O mundo e a aventura humana parecem mais ricos de potencialidades, mais complexos, mais interdependentes, mas igualmente, sem dúvida, mais incertos do que nunca. Torna-se cada vez mais necessário libertarmo-nos desta força centrífuga provocada pela aceleração considerável do ritmo das evoluções, uma vez que o progresso a que nos referimos pode facilmente tomar um aspecto ameaçador e deixar de ser humano. 34

A referência ao humanismo e os autores respaldados pela posição destes sábios e conceituados

especialistas (Ilya Prigogine, Stephen Jay Gould, Edgar Morin, Philippe Sollers, Jean Baudrillard, Gianni Vattimo, Alain Touraine, Federico Mayor, e outros) apresentam ao leitor alguns dos desafios e problemas que se colocam ao homem e à humanidade no novo século: o futuro incerto, a suerpopulação mundial,

as

biotecnologias, a poluição e ameças ao meio ambiente, o desenvolvimento sustentado, o problema

da

fome, as formas de energia, o patrimônio, tudo isto misturado com a literatura, as artes, as paixões, a

inteligência artificial, a educação, a net, a construção da paz, a pobreza e a exclusão. Como diz Morin, no seu artigo, “tudo depende de nós, somos nós que temos de construir”. 35

As mudanças radicais que a ciência sofreu ao longo do século passado e o impacto da terceira Revolução

Industrial, a tecnológica, trouxe por resultado a economia do conhecimento. O resgate do saber e a ênfase aos recursos cognitivos são o eixo da nova atividade humana e de uma dinâmica social que se pretende construtora de uma sociedade do conhecimento.

A grande intenção do autor, em sintonia com a UNESCO 36 , é a de propiciar uma “chave” que abra a porta para um desenvolvimento “inteligente, humano e sustentável”, qual seja a construção de sociedades que partilhem o conhecimento 37 , logo uma das questões fundamentais abordadas no livro é o que se pode esperar da educação.

Considerando-se, ainda, que as propostas da UNESCO e as metas para o milênio constrastam diretamente com as ideias propagadas do Banco Mundial em relação à prioridade que deve ser emprestada ao ensino fundamental (em detrimento do nivel superior) acresce-se de importância o conhecimento da obra.

Uma sociedade baseada nas inteligências que geram ideias e onde o conhecimento representa um bem de capital será certamente uma sociedade bem diferente daquela do século XX e para a qual já nos encaminhamos.

Para melhor ilustrar o compromisso firmado durante a Cúpula do Milênio (setembro/2000), apresentamos os oito macro-objetivos que se pretende alcançar até 2015 e eles são, na apresentação de Yuri Vasconcelos, Liane Alves e Elisa Correa com ilustrações de Adriana Leão, os que se seguem:

34 Para Matsura, estamos rumo às sociedades do conhecimento e em tais sociedades do aprendizado, não deve haver excluídos, pois o conhecimento é bem que deve ser acessível a todos, uma condição fundamental do humanismo.

35 <www.wook.pt ›

36 Em apresentação da própria UNESCO lê-se: a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência, a Cultura (UNESCO) nasceu no dia 16 de novembro de 1945. A UNESCO trabalha com o objetivo de criar condições para um genuíno diálogo fundamentado no respeito pelos valores comparti- lhados entre as civilizações, culturas e pessoas. O mundo requer urgentemente visões globais de desenvolvimento sustentável com base na observância dos direitos humanos, no respeito mútuo e na erradicação da pobreza. Temas esses que estão no cerne da missão da UNESCO e em suas atividades. 37 Para construir as sociedades do conhecimento, a UNESCO enfatiza dimensões como: liberdade de expressão, o acesso universal à informação e à educação, <unesdoc.unesco.org/images/0015/001540/154082por.pdf>.

› Sociologia>.

36 GESTÃO DO CONHECIMENTO E DE PESSOAS| Educação a Distância
36 GESTÃO DO CONHECIMENTO E DE PESSOAS| Educação a Distância
I n f o g r á f i c o - Macro-objetivos que se
I n f o g r á f i c o - Macro-objetivos que se

Infográfico - Macro-objetivos que se pretende alcançar até 2015

É evidente que objetivos deste alcance para o mundo só seriam possíveis em uma época

É evidente que objetivos deste alcance para o mundo só seriam possíveis em uma época em que, de forma bem evidente, estivessem “progressivamente se apagando as fronteiras dos velhos Estados-nações, com aquilo que isto significa como resistências socioculturais e implicações tecno-econômicas”. 38

PENSADORES DA NOVA SOCIEDADE

O conhecimento assume o lugar de palavra-chave ao lado do termo gestão. Autores como Roberto Kurz

criticam a dimensão exagerada que alguns emprestam ao conhecimento, como se fosse este uma grande novidade do nosso século, o que implicaria em sua ausência nos séculos anteriores.

Isto implicaria num total desconhecimento da evolução da humanidade e numa imperdoável ignorância do que a Grécia clássica representou para o pensamento ocidental.

Aliás, é esse mesmo o título com que Kurz encima suas observações: “a ignorância da sociedade do conhecimento”. 39 Começa afirmando que toda sociedade é definida pelo tipo de conhecimento do qual

dispõe e isto vale para todos os tipos de conhecimento, no natural ao religioso, ou para a reflexão teórico- social. E observa que “espantoso deve parecer que há alguns anos esteja se disseminando o discurso da ‘sociedade do conhecimento’ que chega com o século 21; como se só agora tivessem descoberto

o verdadeiro conhecimento e como se a sociedade até hoje não tivesse sido uma ‘sociedade do conhecimento’. E enfatiza:

Conhecimento é poder - trata-se de um velho lema da filosofia burguesa moderna, que foi utilizado pelo movimento dos operários europeus do século 19. Antigamente conhecimento era visto como algo sagrado. Desde sempre homens se esforçaram para acumular e transmitir conhecimentos.

As colocações de Kurz, acompanhadas em sua sequência, nos levam a perguntar sobre a diferença entre informação e conhecimento e, além disso, como se poderá equacionar a aplicação econômica do conhecimento.

Uma primeira questão que nos apresenta, portanto, perante esse verdadeiro big bang em torno do conhecimento é: já estamos numa sociedade do conhecimento ou transitamos para ela?

Kurz e, muito mais do que ele, Peter Drucker, os pensadores da UNESCO, nos dão uma primeira indicação para a resposta: não estamos ainda numa sociedade do conhecimento, embora alguns usem precipitadamente tal designação. Mas a sociedade pós-industrial será certamente do conhecimento na medida em que se demonstrará, sobretudo, como uma sociedade de ideias, dominada pela inteligência humana ajudada pela artificial.

Em videoconferência do ano 2.000 publicada no Caderno Empregos da Folha de São Paulo 40 , Peter Drucker é explícito ao considerar a expressão sociedade do conhecimento muito pretensiosa. Em seu lugar, prefere adotar, como designação para a transição que atravessamos, a expressão “economia do

38 LALLEMENT, Michel. História das idéias sociológicas, trad. de Ephraim F.Alves, Vozes: Petrópolis, 2004. 39 <obeco.planetaclix.pt/rkurz95.htm>. Acesso em: 04 mar. 2011. Robert Kurz é sociólogo e ensaísta alemão, autor de “Os Últimos Combates” (ed. Vozes) e “O Colapso da Modernização” (ed. Paz e Terra). Ele escreve mensalmente na seção “Autores”, do Mais! Folha de São Paulo. A tradução do artigo coube a Marcelo Rondinelli. 40 Caderno de empregos da Folha de São Paulo, (12/04/01, 2001, p.10).

conhecimento”.

conhecimento”. Esta fase pode ser também conhecida como uma sociedade de informação, ou seja, um estágio

Esta fase pode ser também conhecida como uma sociedade de informação, ou seja, um estágio onde, no dizer de Drucker, a informação é seu primeiro e mais precioso bem, que permite a passagem para uma nova sociedade onde predominará a educação contínua ou permanente.

No mencionado artigo, o pensador menciona as novas responsabilidades de um estudante no século

XXI e começa pela informação, pois ela se encontra entre as maiores exigências da nova sociedade em

gestação.

O foco é a informação, reitera, e parte da constatação de que as transformações da revolução da

informática tornaram um número ilimitado de informações de forma acessível para todos em nível mundial, donde vem a idéia “globalizado”. É esse autor que nos apresenta o “trabalhador do conhecimento” como força de trabalho crítica em oposição aos fast thinkers ou pensadores superficiais.

oposição aos fast thinkers ou pensadores superficiais. Comentando o estado do pensamento francês, Pierre Bourdieu

Comentando o estado do pensamento francês, Pierre Bourdieu afirma que

a situação de crise faz parte de uma problemática que atinge a Europa em

geral. E tem uma explicação pronta para isto: a sua causa maior é “a multiplicação dos falsos intelectuais produzidos pelos meios de comunicação”. Aprofunda-se no tema quando reitera que esses “intelectuais “mediáticos” acabam prejudicando - ou ao menos ocultando - o trabalho dos

“verdadeiros pensadores” e isto ocorre porque “eles tornam mais difíceis o pensamento e a ação pública de quem tem realmente algo interessante a dizer”. É por isso que caracteriza a obra desses autores fast thinking, ou seja, “seus livros são exemplos de um pensamento superficial, descartável

e cheio de jargões incompreensíveis”. Por isso, enfim, considera como um

perturbador sintoma da crise, “da impossibilidade crescente de estabelecer

um canal de comunicação eficiente com o grande público, de forma a transmitir os resultados das

pesquisas sociais sérias”. 41

Pensamentos rápidos e superficiais são de fácil aceitação porque as reflexões mais profundas exigem um esforço bem maior. Unindo essa crítica à mídia e a outras que faz com relação à televisão, Bourdieu escreveu na sua obra “Sobre a televisão” cento e quinze páginas de exposição analítica sobre a produção e seleção de notícias e o modo pelo qual esses mecanismos de produção de informação atingem o telespectador. O que se visa sempre é à audiência, logo ao patrocínio e aos grandes lucros a serem proporcionados por programas tendentes a alienar ou até diminuir a inteligência dos telespectadores, como é o caso do Big Brother. 42

A educação também ocupa lugar central em seu pensamento e ele menciona de forma clara que “se

nós aprendemos algo na escola, é como obter informação” e, mais do que isto, “aprendemos a depender

41 <www.recensio.ubi.pt/modelos/ /sinopse.php3?

<www.tribunes.com/tribune/alliage/37

/semir.htm>.

42 A esse respeito recomendamos ler o artigo de Dulce Critelli: Exposição sem registro e sem virtudes. Fonte: Folha de S. Paulo de 29.04.04 - Caderno Equilíbrio.

da informação” (2001, p. 4). Ainda, além da responsabilidade pela própria informação, o trabalhador do

da informação” (2001, p. 4). Ainda, além da responsabilidade pela própria informação, o trabalhador do conhecimento terá que se responsabilizar por sua educação contínua, setor que ele admite como o mais importante e de maior crescimento nos próximos trinta anos.

Drucker recomenda como uma medida de aprendizado eficaz perguntar-se sobre o que se precisa aprender “para continuar adquirindo novas habilidades, novos conhecimentos, novos hábitos” e assim crescer e se desenvolver mais depressa do que o seu cargo, a economia, a sociedade que encaminha para o conhecimento.

Essas são as implicações do conhecimento como um bem de capital à disposição dos indivíduos para a ascensão social, tudo passando pela informação e também pela escola. E como isto acontece?

Basta pensar nos degraus básicos da escalada do conhecimento: lemos, memorizamos, mas para que o conhecimento aconteça em sua forma de pensamento crítico é preciso realizar operações mentais mais complexas como as análises e sínteses. A consciência crítica provém daquele trabalho persistente, planejado, do naturalista que apesar de todas as objeções do camponês encaminha a águia, criada para ser galinha, incentivando-a a galgar os espaços para os quais nasceu tal como se lê na fábula contada por Leonardo Boff. 43

tal como se lê na fábula contada por Leonardo Boff. 4 3 Boff é teólogo, escritor

Boff é teólogo, escritor e professor de ética da UERJ e termina sua fábula de maneira emblemática a respeito do poder da educação: “existem pessoas que nos fazem pensar como galinhas. E ainda até pensamos que somos efetivamente galinhas. Porém é preciso ser águia. Abrir as asas e voar. Voar como as águias. E jamais se contentar com os grãos que jogam aos pés para ciscar.” 44

E este é um conselho válido em especial para países do Terceiro Mundo como o nosso. Quando o Banco Mundial recomenda ênfase à educação fundamental, está queimando uma etapa fundamental do encaminhamento para a consciência crítica e ignorando a potência do ensino superior que apenas a maior atenção e investimento poderá transformar em poder.

Analisando a orientação neoliberal das políticas educacionais propostas pelo Banco Mundial para o Brasil, por exemplo, não podemos deixar de pensar em sua submissão aos interesses do capital internacional.

De que outra forma entenderíamos recomendações como as que se seguem:

1) focalização do gasto público no ensino básico, com ênfase no ensino fundamental; 2) descentralização do ensino fundamental, o que vem sendo operacionalizado mediante o processo de municipalização do ensino; 3) estímulo à privatização dos serviços educacionais e à criação de verdadeiras indústrias em torno das atividades educacionais; 4) ajuste da legislação educacional no sentido da desregulamentação

43 Leonardo Boff, pseudônimo de Genézio Darci Boff (Concórdia, 14 de dezembro de 1938), teólogo brasileiro, escritor e professor universitário, notabilizou- -se pela Teologia da Libertação no Brasil. Foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos, mas foi condenado ao silêncio e deixou o hábito. É respeitado pela sua história de defesa pelas causas sociais e atualmente debate também questões ambientais. 44 <recantodasletras.uol.com.br› Todos › Artigos

dos métodos de gestão e das instituições educacionais, garantido ao governo central maior controle e

dos métodos de gestão e das instituições educacionais, garantido ao governo central maior controle e poder de intervenção sobre os níveis de ensino (via fixação de parâmetros curriculares nacionais, por exemplo), mas sem que ele mesmo participe diretamente da execução de tais serviços. 45

VIAS PARA O DESENVOLVIMENTO: ENTRE A TERCEIRA E

Desde já é forçoso notar que a melhor via que se apresenta para o desenvolvimento é a cultural e hoje esta se apresenta mais promissora do que o caminho econômico, tão marcante para a sociedade industrial.

Os pensadores da sociedade industrial, dos quais o mais genial e nunca superado foi Karl Marx (1818- 1883), decifraram os problemas da sociedade industrial. Marx é forçoso ao afirmar que suas análises permanecerão para sempre incontestáveis quanto às análises do capital e do sistema que dele se origina, com todas as suas características e mazelas. A exploração do trabalhador (proletário) pelos detentores do capital (proprietários) é uma das mais centrais de suas teses.

(proprietários) é uma das mais centrais de suas teses. Atualmente outros pensadores procuram por caminhos neste

Atualmente outros pensadores procuram por caminhos neste momento de transição intersociedades. Não que a exploração tenha desaparecido de nossa sociedade, muito pelo contrário, procura novas formas de agir e até de mistificar de forma ideológica suas intenções reais. Mas, como veremos com Touraine e outros, o que se impõe conhecer e superar no nosso mundo atual, globalizado, é o conceito de alienação.

No capítulo em que trata as contradições do social, Lallement é explícito ao abordar as teorias críticas que se apresentam “depois de Marx” (2004, p. 197). Reconhecendo que a obra de Marx “constitui por si só um continente intelectual que foi e continua sendo explorado de múltiplas maneiras” (2004, p. 198).

Lallement cita pensadores marxistas heterodoxos de grande importância para o pensamento atual como George Lukács (1885-1971), que refletia sobre fenômenos como a alienação e a falsa consciência. O autor húngaro acreditava que a sociedade capitalista tem a tendência de transformar os seres e as coisas em simples mercadorias, promovendo o esquecimento e a perda do sentido da vida.

Antonio Gramsci (1891-1937), que amargou uma década nas prisões de Mussolini por suas ideias, ”

considerava que “o Estado, o direito, a ideologia, a escola, a religião, a cultura

ser vista como “instrumentos de poder cuja eficácia provém exclusivamente da dominação econômica ou da pura coerção, mas também da moral, da cosmovisão e do senso comum veiculado na sociedade”

enfim uma totalidade deve

45 <www.histedbr.fae.unicamp.br/

/verb_c_banco_mundial_%20e_

educacao%20.htm>.

(LALLEMENT, 2004, p. 199). É de Gramsci uma das frases mais expressivas e para nós

(LALLEMENT, 2004, p. 199).

É de Gramsci uma das frases mais expressivas e para nós fundamentais sobre a educação humana:

segundo pensava, o mundo seria um lugar bem melhor quando todos fossem educados como se destinassem a serem governantes. Este filósofo e político italiano, fundador do partido comunista italiano, foi para Paolo Nosella 46 um pedagogo da emancipação das massas.

Realmente, como se nota pela frase que recordamos, Gramsci “atribuía à escola a função de dar acesso

à cultura das classes dominantes, para que todos pudessem ser cidadãos plenos” 47 . Talvez pela força

deste pensamento Paolo Nosella acredite que “os horizontes socialistas podem afastar da humanidade a ameaça de uma barbárie trágica e definitiva”. 48

Reforçada por uma política pública eficaz, socialista ou de outra orientação, a verdade é que vários autores sérios atribuem à via cultural toda a capacidade de transformar a sociedade em algo menos excludente e desigual. Michel Serres, um filósofo liberal, tem uma outra frase que, se conjugada ao pensamento de Gramsci, nos mostra outro ângulo da questão: “o conhecimento não obedece às leis da troca mercantil” e exemplifica: se tenho determinada importância e dou a alguém, fico mais pobre para que outro se enriqueça. Mas no caso da distribuição do conhecimento, ninguém se empobrece e toda a sociedade tem a ganhar. Assim, continua:

Já envelhecido, nosso mundo das comunicações está parindo, neste momento, uma sociedade pedagógica, a das nossas crianças, onde a formação contínua acompanhará, pelo resto da vida, um trabalho cada vez mais raro.As universidades à distância, em toda a parte e sempre presentes, substituirão os campi, guetos fechados para adolescentes ricos, campos de concentração do saber. Depois da humanidade agrária vem o homem econômico, industrial; avança uma era, nova, do conhecimento. Comeremos saber e relações, mais e melhor do que vivemos a transformação do solo e das coisas, que continuará automaticamente (SERRES, 1995, p. 55). 49

Demonstrando claras conexões com o pensamento dos autores que acreditam na educação contínua ou

permanente (Drucker, De Masi entre outros) ou com as ideias de Alvin Toffler sobre a evolução em ondas, Serres lembra também das conexões democráticas que a tecnologia possibilita por meio da educação

a distância e as possibilidades do ensino superior. E comenta, de forma implícita, que nossa sociedade industrial está cedendo lugar à outra.

Desenvolvimento é uma palavra de ordem de nosso mundo. Com ele, se preocupam os países do Primeiro Mundo, Segundo e Terceiro Mundo e todos se sentem desesperançados no Quarto Mundo. Adotando o sistema capitalista ou permanecendo no socialismo científico ainda que atenuado, sendo os desenvolvidos que querem se manter assim ou emergentes que aspiram à ascensão ao mundo dos privilegiados, o desenvolvimento é uma meta salvadora para populações inteiras.

O Brasil se encontra entre os emergentes do Terceiro Mundo capitalista, bem como a Índia e o México. Aquela que está se encaminhando para ser a maior potência do planeta – a China – está no Segundo Mundo e parece estar superando a condição de emergente.

46 NOSELLA, Paolo. A escola de Gramsci. 3. ed. rev. ampl. São Paulo: Cortez, 2004.

47 Márcio Ferrari (novaescola@atleitor.com.br).

48 Revista HISTEDBR On-line, Campinas, n.19, pp. 147 - 151, set. 2005 - ISSN: 1676-2584.

49 Michel Serres. A Lenda dos Anjos. São Paulo, Aleph, 1995; p. 55.

Com a ilustração de Amanda Franco que se segue, propomos uma questão: - Qual a
Com a ilustração de Amanda Franco que se segue, propomos uma questão: - Qual a

Com a ilustração de Amanda Franco que se segue, propomos uma questão:

- Qual a via que aparece como a evidente possibilidade de “emergência” para o nosso país? A resposta aparecerá no transcurso de nosso trabalho, mais adiante.

aparecerá no transcurso de nosso trabalho, mais adiante. A condição de emergente é demarcada por uma
aparecerá no transcurso de nosso trabalho, mais adiante. A condição de emergente é demarcada por uma

A condição de emergente é demarcada por uma característica: trata-se de um país que não tem capital suficiente para se desenvolver, mas apresenta riquezas e condições favoráveis aos investimentos estrangeiros.

Assim, conforme a ideologia que lhes dá origem, pode-se destacar caminhos para o desenvolvimento. Um deles, a chamada Terceira Via, é uma corrente de pensamento que teve origem nas propostas das sociais-democracias europeias da segunda metade do século passado e hoje se encaminha para uma revisão conciliadora entre direita e esquerda.

Examinemos o que Marrach afirma sobre esse assunto:

O neoliberalismo torna-se ideologia dominante numa época em que os EUA detêm a hegemonia

exclusiva no planeta. É uma ideologia que procura responder à crise do estado nacional ocasionada de interligação crescente das economias das nações industrializadas por meio do comércio e das novas tecnologias. Enquanto o liberalismo clássico, da época da burguesia nascente, propôs os

direitos do homem e do cidadão, entre os quais, o direito à educação, o neoliberalismo enfatiza mais

os direitos do consumidor do que as liberdades públicas e democráticas e contesta a participação

do Estado no amparo aos direitos sociais. 50

Visto desta forma, pela ótica dos críticos desta política econômica que parece ser prejudicial à educação pública e favorável aos interesses privados, Marrach considera que o neoliberalismo “representa uma regressão do campo social e político e corresponde a um mundo em que o senso social e a solidariedade atravessam uma grande crise”. Trata-se, ainda, de uma ideologia neoconservadora e por isso tem tanta aceitação nos países “avançados”, nos quais “o cidadão foi reduzido a mero consumidor”, e, paralelamente,

50 Artigo disponível em <http://www.cefetsp.br/edu/eso/globalizacao/neoeducacao1.html>, baseado no livro: “Infância, Educação e Neoliberalismo”. Celestino A. da Silva Jr. - M. Sylvia Bueno - Paulo Ghiraldelli Jr. - Sonia A. Marrach - pp. 42-56 - Cortez Editora - São Paulo – 1996.

cresce no Brasil e em outros países da América Latina. Entre seus pressupostos está aquele

cresce no Brasil e em outros países da América Latina. Entre seus pressupostos está aquele de que

a economia internacional é autorregulável e capaz de distribuir benefícios pela “aldeia global”, sem a

intervenção do Estado. Finalmente, “enquanto o liberalismo tinha por base o Indivíduo, o neoliberalismo está na base das atividades do FMI, do Banco Mundial, dos grandes conglomerados e das corporações internacionais”, ou seja, “a liberdade que postula é a liberdade econômica das grandes organizações, desprovida do conteúdo político democrático proposto pelo liberalismo clássico”.

Stuart White expôs suas ideias no Nexus Debate de 09 de julho de 1998 e enumerou os valores do

pensamento daqueles que acreditam que a terceira via envolve um compromisso entre a oportunidade

e a responsabilidade e num amparo mútuo visam ao bem-estar de comunidade. O sincretismo entre

direita e esquerda aparece com relação aos bens básicos, como educação, emprego, renda e riqueza (a

oportunidade) e com a responsabilidade cívica própria do socialismo. Entre eles, a prioridade à iniciativa e propriedade privada se alterna com o papel do Estado e, segundo pensam seus teóricos, por uma questão

de justiça será do governo a função de fazer cumprir as obrigações que derivam dessas responsabilidades

básicas. O Estado não deverá ser a “mão invisível” recomendada por Adam Smith, mas sim uma mão firme e segura que encaminhe o interesse privado na direção da prioridade do bem público e coletivo.

O pensamento da “terceira via” é definido “não apenas por um conjunto de compromissos normativos,

mas por uma série de novas ideias a respeito de como organizar ações coletivas para assegurar esses compromissos”, tais como:

“O Estado como garantidor, mas não necessariamente como provedor”, a “receptividade a algumas formas de ‘mutualismo’ e um novo pensamento a respeito de como gerir as finanças públicas”. Na fórmula encontramos, ainda, uma política social centrada no emprego e um igualitarismo com base na riqueza.

Seguindo com Stuart White na versão da Terceira Via,

os objetivos distributivos da esquerda tradicional não podem ser atingidos por meio da redistribuição da renda, ou mediante a política solidária de salários, mas por meio de uma ação mais concertada para mudar a distribuição inicial da riqueza e talento produtivo, que as pessoas trazem ao mercado num primeiro momento. 51

O ponto de partida das reflexões dos pensadores da corrente como Anthony Giddens (do King’s

College e da London School of Economics) pode ser traduzido pelo provérbio polonês: “o Capitalismo é

a exploração do homem pelo homem, já o Comunismo é o inverso”. A proposta de Giddens 52 giraria em

torno de uma social-democracia modernizada, onde a desestatização e a desprivatização permitissem

a ampla participação da sociedade civil na regulação dos mercados e para estabelecer uma justiça que vise à menor exclusão social.

51 <nutep.adm.ufrgs.br/pesquisas/tvia3.htm>. Acesso em: 04 mar. 2011. O texto foi traduzido pelo professor Eugênio Lagemann (PPGA/UFRGS) e sintetizado pelo Prof. Luis Roque Klering (PPGA/UFRGS) e Bel. Laura Szuhanszky (CNPq / UFRGS). 52 Giddens (1938) é um sociólogo britânico considerado por muitos como o mais importante entre os filósofos sociais contemporâneos, com mais de vinte livros publicados ao longo de duas décadas.

Alain Touraine Anthony Giddens tem seu nome ligado de forma pioneira às “usinas de ideias”,

Alain Touraine

Alain Touraine Anthony Giddens tem seu nome ligado de forma pioneira às “usinas de ideias”, onde

Anthony Giddens tem seu nome ligado de forma pioneira às “usinas de ideias”, onde ele debate soluções para os problemas climáticos no ano de 2010 53 . O sociólogo britânico expõe regularmente suas visões por meio de contribuições ao Think tank Policy Network do Reino Unido. 54 Outros acadêmicos que contribuíram para esse pensamento foram Robert Putnam, Ian Winter e Mark Lyon, entre diversos.

A

Terceira Via procura afastar a ideia que os mercados chegam naturalmente e por si mesmos ao equilíbrio

e

pleno emprego sem qualquer regulação.

Outro pensador inglês, Simon Szreter, do St. John’s College, Cambridge, procura um conceito básico para

o que entende ser o principal alicerce econômico e social da Terceira Via: o capital social, cujo principal ingrediente seria a educação, com sistemas educacionais absolutamente prioritários.

Pode-se lembrar a iniciativa da “usina de ideias”. Na versão original inglesa, as think tanks são organizações que produzem pesquisas, análises e conselhos, sendo orientadas para os mais diversos temas (de domésticos a internacionais) e tendo por objetivo a tentativa de executar decisões bem informadas em políticas públicas, por exemplo. Sua filiação pode ocorrer quanto a partidos políticos, governos, corporações privadas e independentes com relação ao financiamento, grupos de interesse etc.

Tais instituições podem servir de fonte entre as comunidades acadêmicas e aqueles que tomam as principais decisões de governo, o interesse público representando a principal meta das pesquisas e o alvo das sugestões.

Segundo Hector Leis do Instituto Millenium, o “conceito de think tank faz referência a uma instituição dedicada a produzir e difundir conhecimentos e estratégias sobre assuntos vitais – sejam eles políticos, econômicos ou científicos”. Estes são assuntos sobre os quais, em instâncias habituais de elaboração (Estados, associações de classe, empresas ou universidades), “os cidadãos não encontram insumos para pensar a realidade de forma inovadora”. Por isto, os think tanks, “não fazem o menor sentido em sociedades tradicionais, onde os problemas e as soluções são sempre os mesmos por definição”. 55

A Terceira via, finalmente, pode ser vista como uma tentativa europeia de amenizar os aspectos negativos

da globalização, sobretudo do ponto de vista social. No que diz respeito à educação, antecipamos que

o principal papel da educação neste processo é o de fazer os alunos pensarem. Mas, o que significa

“pensar”?

Pensar é aprender a ser livre, responsável e honrado. Pensar é esforço e inconformismo, para com

o mundo e também para consigo mesmo. Pensar é duvidar e criticar, não de forma altaneira ou

presunçosa, senão por desejo do bem comum. Pensar é ter o tempo de poder fazê-lo. Pensar não

é repetir ou reproduzir. Pensar é ativar o que de nobre há no ser humano, porque pensar e também

sentir e intuir. A frase de Descartes não está de todo certa: não se trata de “penso, logo existo”, mas penso, logo vivo. Viver é encontrar seu próprio caminho e evitar permanentemente a tentação do fácil. O fácil é não pensar. 56

53

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55

56

Lord Anthony Giddens’ keynote at World Climate Solutions 2010 ¼ vídeo do YouTube.

Bill Clinton e outros políticos ilustres do século XX eram adeptos da Terceira Via e confiavam no poder das ideias.

<www.imil.org.br/ /o-que-significa-um-think-tank-no-brasil-de-hoje/>.

Extraído de El café de los filosofos muertos, Nora K. e Vittorio Hösle. Anaya. Madrid, 1998, p. 9.

Antecipando mais ainda; “a escola precisa se transformar, portanto num “ Think Tank ”, ou

Antecipando mais ainda; “a escola precisa se transformar, portanto num “Think Tank ”, ou melhor, o importante deles, no intuito de se transformar em uma grande central de ideias”. 57

A QUARTA VIA EXISTE E PODE SER A INDICADA PARA O BRASIL

Em posição ainda mais atual, existem aqueles que mencionam uma Quarta Via e que esta poderia ser representada por países como o Brasil.

Alain Touraine (1925), o mesmo que acredita que hoje não se trata mais do debate entre esquerda e direita, mas sim da composição de uma nova ideologia, tem posições bem definidas quanto à contemporaneidade. Para ele, por exemplo, o neoliberalismo 58 está levando a União Europeia ao fracasso.

5 8 está levando a União Europeia ao fracasso. Para ele, a Europa tem se demonstrado

Para ele, a Europa tem se demonstrado débil para enfrentar os Estados Unidos no campo da hegemonia mundial que ainda lhe pertence desde o sucesso do movimento globalizador e da derrocada da URSS (hoje CEI) na década de 90. 59

Quanto à realidade contemporânea, preconiza que é preciso restabelecer prioridades que possam levar a uma defesa mundial contra os ataques dos especuladores. Enfatiza que em todo o mundo se experimenta

a necessidade de devolver ao trabalho a parte do produto social que dele foi retirada pelo capital. Trata- se, ainda, de restabelecer o vínculo entre a função financeira e as funções de produção, impedindo as ações do mundo financeiro que visem unicamente ao seu máximo benefício em termos de lucro quanto ao investimento e ao crédito.

em termos de lucro quanto ao investimento e ao crédito. Num encontro em Lisboa, Jorge Nascimento

Num encontro em Lisboa, Jorge Nascimento Rodrigues e Ruben Eiras entrevistaram aquele a quem chamam de “sociólogo europeu das rupturas” e iniciam apresentando uma de suas principais reflexões:

para ele, os movimentos sociais recentes demonstraram que a ideia de globalização é uma construção ideológica e que, por isso mesmo, não é inevitável.

Touraine, o arauto que deu

nome à sociedade industrial e a pós-industrial, explica seu momento de transição. Realmente, o professor,

a partir de 1969, quando escreveu A Sociedade pós-industrial, se colocou em sintonia com pensadores

Em uma de suas mais importantes obras “Como sair do liberalismo60 ,

57 <www.leonildocorrea.adv.br/lucci>. Texto de Elian Alabi Lucci - Editora Saraiva.

58 Sobre o neoliberalismo como política econômica do mundo globalizado recomendamos textos de Sonia A. Marrach.

59 Artigo do sociólogo Alain Touraine (foto) publicado no Clarín, 31-05-2010. A tradução é do Cepat. Fonte: UNISINOS.

60 Como sair do liberalismo de Alain Touraine. Bauru (S.P), Edusc, 1999.

como Daniel Bell ou Peter Drucker, anunciando uma era de descontinuidade. Também apresenta grande concordância

como Daniel Bell ou Peter Drucker, anunciando uma era de descontinuidade. Também apresenta grande concordância com Alvin Toffler principalmente em sua obra O choque do futuro na denúncia explícita das rupturas.

Com sua obra, Touraine se propõe à tomada de consciência do que se pode fazer perante aquele que considera o surgimento de novos autores sociais. Para ele, está claro que estamos perante um regresso das consciências quanto às possibilidades de agir. Preconiza que na economia internacionalizada tal como se apresenta hoje é possível – sobretudo necessário – aumentar a intervenção do Estado e viabilizar a defesa das culturas nacionais e regionais contra o globalismo ideológico e cultura.

Touraine se insurge principalmente contra o pensamento único em escala global e, nesse sentido, afirma que de início gostaria de se desvencilhar do termo globalização. Aliás, é uma tônica de alguns pensadores franceses propor o termo mundialização ao invés da globalização, apontando as diferenças entre ambos.

No Correio dos Açores de Américo Natalino de Viveiros 61 , tem-se muito clara a oposição que Touraine quer demonstrar entre os dois fenômenos socioeconômicos e culturais. Assim:

mundialização é um processo de aproximação entre homens quotidianamente inseridos em espaços geográficos diferentes. Aproximação que pode assumir múltiplas formas: da viabilidade de contacto pessoal à comunicação escrita; da troca de mercadorias produzidas por uns e outros à troca de informações etc.

Este processo teve início nos primórdios da humanidade e, ao contrário da globalização, é inevitável. Já a “globalização é a maneira como a sociedade atual, etiquetada de ‘aldeia global’, está condicionada pelo poder econômico” 62 . Neste sentido, é apenas uma fase da mundialização caracterizada pelo reforço da ideologia neoliberal que se impôs para o mundo desde a década de 90.

Os movimentos antiglobalização apresentam a disposição de retomar o otimismo social e a descobrir uma nova cena. É por isso que pensadores como Touraine optam pela chamada quarta via e se levantam contra a economia globalizada e sua política econômica neoliberal. 63 E, sugerindo a mundialização no lugar da globalização, vai contra o esquerdismo nostálgico ou os pragmáticos da Terceira Via.

Para os defensores da quarta via, necessita-se de atores autônomos na cena social e que estes, bem alimentados de ideias, tenham a capacidade de exercer influência nas principais decisões que ocorram quanto à vida pública.

Uma das propostas mais repetidas da quarta via diz respeito à educação e nesta uma modalidade que nos diz respeito diretamente: a educação a distância. A tele-educação faz parte da sociedade pós-industrial uma vez que faz uso do controle indireto, anulando o espaço físico e o confinamento próprios de uma sala de aula formal. Distingue-se da modalidade taylor-fordista que ainda preside a escola tradicional porque permite que o estudante faça o seu autoestudo, acrescentando flexibilidade quanto à dimensão temporal na mesma forma que sanciona a separação espacial entre o professor e o seu aluno.

61 LISBOA, 03 DE MAIO DE 2009. Autor: Manuel Santos Graciosa Costa.

62 <www.correiodosacores.net/view.php?id

63 Destaque-se o artigo: Neoliberalismo e Educação de Sonia Alem Marrach, do Livro: Infância, Educação e Neoliberalismo. Celestino A. da Silva Jr. - M. Sylvia Bueno - Paulo Ghiraldelli Jr. - Sonia A. Marrach.

> - Portugal -

Todas essas inovações que serão abordadas em item especial dizem respeito às novas tecnologias de

Todas essas inovações que serão abordadas em item especial dizem respeito às novas tecnologias de comunicação e informação que tiveram início na Revolução da Informática da década de 90 do século passado, quando o uso do computador se uniu às telecomunicações.

A educação apoiada pelas novas tecnologias tem na banda larga o seu maior aliado atualmente, uma vez

que a internet é o veículo para tal comunicação múltipla cujas possibilidades superaram tempo e espaço em seus ambientes virtuais de aprendizagem

Guardadas as diferenças de alcance entre a educação ambiental e a proposta do desenvolvimento sustentável, suas premissas fazem parte do receituário da quarta via para muitos de seus defensores.

Sociólogos como Alain Touraine e Farhad Khosrokhavar 64 chegaram à constatação de que o indivíduo hoje, sob a pressão do interesse pessoal e da autossatisfação dos detentores do poder econômico, está se voltando apenas para si e não para os outros e muito menos para o meio ambiente. Tornar-se sujeito de seu destino não significa excluir as outras realidades, tais como a alteridade e o planeta. Urge, ainda, buscar um novo sentido para a via, dentro de um panorama holístico que envolva a natureza como parceira.

A educação ambiental dentro da ecologia, para Edgar Morin a grande ciência do século XXI, envolve

um processo participativo e coloca o educando no papel central de uma aprendizagem ativa que busca o diagnóstico dos problemas ambientais e guia na busca de algumas soluções.

A grande meta é fazer do educando um agente transformador, consciente das depredações causadas à

natureza pela mentalidade antropocêntrica que, aliada ao capitalismo, conduziu o planeta ao estado febril em que se encontra. Nem é preciso lembrar da desertificação, do esgotamento dos recursos hídricos, do aumento de furacões, vendavais, enchentes, do efeito estufa, da destruição parcial da camada de ozônio, para termos uma ideia dos efeitos de uma tal mentalidade. E a alternativa ecocêntrica e o respeito ao biocentrismo pode oferecer uma possibilidade transformadora, agora que a natureza não suporta mais

o modelo de desenvolvimento do tipo industrial.

A reciclagem e a preservação da vida em todas as suas formas, o planejamento de áreas urbanas e

rurais que evitem os desastres como todos nós estamos acostumados a presenciar e que assumiu formas aterrorizadoras na região serrana do Rio de Janeiro podem ser listados entre as condutas de urgência que nos apresentam.

Tais são as fórmulas de cidadania que caberão a nós, professores, elucidar e comunicar aos nossos estudantes neste século XXI.

Os autores da quarta via criticam os modelos atuais e a terceira via, observando que, na Europa e muito mais nos Estados Unidos o que se observa é a ausência de uma fórmula humanista, numa sociedade de puro consumo. Concordando com que já se apontou com De Masi, Touraine afirma que “a globalização econômica significa que se criou um sistema econômico mundial fora do alcance de qualquer poder”,

64 Trata-se de um professor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris que também foi professor visitante em Yale (EUA). Faz parte da nova intelectualidade do Irã, é multiculturalista e influenciado pelo marxismo e pensamento ocidental.

e, mais, que “ninguém pode controlar o sistema financeiro”. 6 5 É por isso que

e, mais, que “ninguém pode controlar o sistema financeiro”. 65 É por isso que a educação ocupa lugar de destaque como um caminho apontado pela quarta via.

ECONOMIA OU SOCIEDADE DO CONHECIMENTO?

As transformações ocorridas no sistema capitalista não nos autorizam a considerar modificações estruturais, ainda que Drucker empregue a terminologia de sociedade pós-capitalista, como já assinalamos, em discordância. A sociedade do conhecimento ainda não se instalou de forma definitiva nem o capitalismo terminou na chamada era pós-industrial. As alterações que substituiram o dinheiro pelo conhecimento e o fizeram se definir como capital não trouxeram o fim do sistema, ainda que tenham promovido a citada eclosão de uma busca pelo conhecimento.

Amanda Talhari Franco ilustra com muita propriedade essa passagem:

I- Sociedade Industrial

com muita propriedade essa passagem: I- Sociedade Industrial II. Sociedade Pós-industrial Como percebemos, na primeira,

II. Sociedade Pós-industrial

I- Sociedade Industrial II. Sociedade Pós-industrial Como percebemos, na primeira, o núcleo do capital é o

Como percebemos, na primeira, o núcleo do capital é o dinheiro. Já na segunda, será o conhecimento. Tais configurações, no entanto, não são suficientes para desatrelar os indivíduos da ordem comandada pelo capital.

Eis porque preferimos chamar ao momento da sociedade de informação de capitalismo “tardio”, segundo reflete Mandel 66 (1982). A expressão cabe muito bem para a demonstração de que estamos numa fase capitalista onde ocorre uma prodigiosa expansão do capital a zonas que até então não tinham sido convertidas em mercadorias, como é o caso do conhecimento ou, até, dos trabalhadores do conhecimento, inseridos na designação de “capital humano” aqui já mencionado.

Jameson 67 (1999) considera o capitalismo como o modo de produção mais elástico e adaptável que já surgiu na história humana em sua capacidade de superação das crises cíclicas. Para esse autor, as soluções possibilitadas pela tecnologia são a principal fórmula para “salvar” o capitalismo. Segundo escreve, a ordem social vigente eliminará aos poucos as crises, encontrando soluções técnicas para todas as contradições, integrando as categoriais sociais rebeldes e evitando explosões contestatórias. Talvez

65 <massote.pro.br/2010/ 66 MANDEL, Ernest. O capitalismo tardio. São Paulo: Editora Atlas, 1982. 67 12 JAMESON, Fredric, 1999. Cinco teses sobre o marxismo atualmente existente, pp. 187-195. In: Wood EM & Foster JB (orgs.). Em defesa da história:

marxismo e pós-modernismo. Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro.

seja por esta posição que muitos enxergam, sob a teoria da racionalidade tecnológica a emergência

seja por esta posição que muitos enxergam, sob a teoria da racionalidade tecnológica a emergência de uma nova estrutura de dominação sempre comandada pelo capital.

Comentando a atual fase em que vivemos, a UNESCO diz que o conceito de sociedade de informação está desatualizado e errado.

De acordo com Barreto (2005) 68 , é um erro confundir a sociedade da informação com a sociedade do conhecimento. Segundo consideram, a sociedade do conhecimento contribuirá para que o indivíduo se realize em sua realidade vivencial. Compreenderá, entre outras, configurações éticas, culturais e dimensões políticas diversas daquelas que caracterizam a sociedade da informação.

A sociedade da informação, por outro lado, ainda está limitada “a um avanço de novas técnicas devotadas

para almoxarifar e transferir, o que pode ser uma massa de dados indistintos para aqueles que não têm as competências necessárias para se beneficiarem deste tecnoespaço”.

Ser a sociedade industrial trouxe tecnologias como as do vapor, eletricidade, motor a combustão próprias da primeira (1760) e segunda (1870) Revolução Industrial, a sociedade da informação é um produto da terceira Revolução Industrial, a tecnológica. Esta inclui as tecnologias emergentes da microeletrônica e da telecomunicação no sentido de processar e reunir estoques de dados relacionados, visando a uma eventual transferência destes dados.

Enfatiza que em nenhum momento a sociedade da informação pretendeu ser responsável pelo conhecimento gerado na sociedade, sendo apenas “uma tecnoutopia e nunca uma utopia para um conhecimento social ampliado” e seu significado é simples e limitado comparado ao vigor dinâmico de uma ação completada de conhecimento”. 69

Fica claro que a sociedade da informação é apenas uma etapa preparatória da sociedade do conhecimento. Este tema se amplia quando visitamos o site de Jorge Werthein, representante da UNESCO no Brasil, onde trata dos aspectos éticos da sociedade da informação como a marca da UNESCO no debate global. 70

A título de aprofundamento, inserimos algumas destas observações:

O livre trânsito de informação e conhecimento é um dos componentes que permitem tornar efetivo o

mandato da UNESCO de contribuir para a paz no mundo por meio da colaboração entre as nações”.

Esse preâmbulo que explica uma das metas do órgão da ONU se faz acompanhar de uma afirmativa:

“a UNESCO incentiva as inúmeras aplicações das novas tecnologias de informação e comunicação,

apoiando sistematicamente as políticas públicas voltadas para essa área, ao mesmo tempo em que estimula uma posição crítica e construtiva com relação à contribuição dessas novas tecnologias para o desenvolvimento.

Mas, ao mesmo tempo em que declara seu incentivo, alerta que a euforia provocada pela atual sociedade da informação não deve impedir a busca de soluções para a preocupação causada por esse novo fenômeno. Entre os desafios da sociedade da informação se encontram os desafios éticos.

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Aldo 69 Barreto traz implícita a diferenciação entre sociedade da informação e do conhecimento. 70 Artigo publicado, em 3 de setembro de 2003, no Observatório da Sociedade da Informação, de responsabilidade do Setor de Comunicação e Informação da UNESCO no Brasil.

68 Barreto. DeMediaWikiMetodista, <encipecom.metodista.br/

/Unesco_diz_que_conceito_de_sociedade_da_

E estes desafios são inúmeros, repartindo-se entre o campo cultural, o legal ou os de

E

estes desafios são inúmeros, repartindo-se entre o campo cultural, o legal ou os de natureza psicológica

e

filosófica:

Alguns observadores chegam a formular os desafios éticos da sociedade da informação como uma busca por formas de enfrentar uma múltipla perda: perda de qualificação, associada à automação, e desemprego; de comunicação interpessoal e grupal, transformada pelas novas tecnologias ou mesmo destruída por elas; de privacidade, pela invasão de nosso espaço individual e efeitos da violência visual e poluição acústica; de controle sobre a vida pessoal e o mundo circundante; e do sentido da identidade, associado à profunda intimidação causada pela crescente complexidade tecnológica. 71

O

novo “ludismo” também é listado: é próprio da tecnologia virtual disseminar na sociedade um simulacro

de relacionamento como substituto de interações face a face. Existem também alegações contra a usurpação que o capital faz do direito de definir a espécie de automação desejada em um processo que

“desqualifica trabalhadores, amplia o controle gerencial sobre o trabalho, intensifica as atividades e corrói

a solidariedade” 72 , conduzindo ao avanço do desemprego. E aqui retornamos ao aspecto que é ressaltado de maneira otimista por De Masi.

UM MUNDO MODIFICADO PELA TECNOLOGIA

otimista por De Masi. UM MUNDO MODIFICADO PELA TECNOLOGIA A intensificação das atividades ou a velocidade

A intensificação das atividades ou a velocidade com que as transformações acontecem são abordadas pelo autor franco-italiano Paul Virilio (1932). Arquiteto e urbanista de formação, dedicou grande parte de seus estudos à análise do impacto social de revolução tecnológica no mundo contemporâneo e ao conceito de velocidade.

Entre suas obras, encontram-se A insegurança do território (1976), Estética do desaparecimento (1980), A máquina de visão (1992) e A arte do motor (1993) e, no que nos interessa, Velocidade e Política, A bomba da informática e Cibermundo: a política do pior. 73

Especialista em questões estratégicas, é um dos principais ensaístas sobre os meios de comunicação,

a “guerra da informação” e o mundo cibernético. Nos últimos anos, vem se

notabilizando como uma voz cética, quase uma nova dissidência, frente a uma sociedade exageradamente informatizada e onde o cidadão é vítima de um constante bombardeio ao qual considera (des)informacional.

tratando de temas como

Para bem entender Paul Virílio, é preciso voltar no tempo cinquenta anos e acompanhar as palavras novas que surgiram a partir desta data, uma vez que o vocabulário ligado à tecnologia está sempre incorporando palavras. A palavra cibernética surgiu com o livro de Norbert Wiener (1939) 74 , matemático do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA), com um subtítulo: “Teoria geral do comando e da comunicação no animal e na máquina”. Ele defendia que os fenômenos biológicos e máquinas possuem o mesmo sistema de operações e chamou a sua tese de cibernética, baseado na palavra grega kybanetiké que significa timoneiro. A palavra ciber, por sua vez, vem do grego kubernaô, que significa governar.

71 Werthein se refere à perda do sentimento de controle sobre a própria vida ou à perda da identidade. 72 <unesdoc.unesco.org/images/0015/001540/154056por.pdf>. Acesso em: 04 mar. 2011.

73 VIRILIO, Paul. Velocidade e Política. Trad. Celso Mauro Paciornick. <www.scribd.com/ Paulo, 1999. Cibermundo: a política do pior. Lisboa: Teorema, 2000. 74 Em outra fonte aparece 1948.

/resumo>

- A BOMBA INFORMÁTICA. Estação Liberdade, São

Norbert Wiener foi o primeiro a teorizar todo um conjunto de ideias e de técnicas

Norbert Wiener foi o primeiro a teorizar todo um conjunto de ideias e de técnicas que emergiram, paralelamente, nos finais dos anos 30 e durante a Segunda Grande Guerra Mundial: teoria dos jogos, teoria dos sistemas, teoria da informação, primeiros computadores etc. Por extensão, o termo CiberMundo, passou a designar qualquer sistema mecânico simulando os comportamentos complexos dos seres vivos:

robôs (ou ciborgues), programas informáticos «inteligentes», capazes, por exemplo, de autoaprendizagem ou de adaptação. Dentro deste contexto, surgem outros termos como ciberespaço, da autoria do escritor de ficção científica William Gibson e, posteriormente, cibersociedade, cibereconomia e, até, cibercafés.

Dos videogames às criações virtuais mais sofisticadas, o nosso mundo se faz ciber, numa mistura homogênea entre o «Real» e o «Virtual», a ponto de não sabermos, às vezes, em qual deles nos encontramos.

O entendimento de Paul Virilio sobre a vivência do tempo é muito interessante e explica muito bem as dificuldades de adaptação que muitos de nós experimentamos perante o ciberespaço que domina na atualidade.

As relações entre tecnologia e sociedade da informação são encaradas mais pelo lado negativo do que pelo positivo deste autor, partindo uma espécie de economia política da velocidade.

Paul Virilio (1932) apresenta em suas obras uma série de reflexões relacionadas com a concepção de História e, com as noções de tempo, espaço, velocidade, corporeidade, sendo que cada uma delas por si só tem um papel primordial para o entendimento das vivências humanas consideradas em seu contexto mais amplo.

A velocidade é a surpresa absoluta. Partindo desta constatação, Virilio define: quem controla a velocidade controla tudo, do espaço à informação. Neste movimento, a História perde espaço, o humano fica subjugado à vertigem da aceleração, e a velocidade e o movimento destroem o tempo. Em sua reflexão sobre a implosão da História, ele focaliza um “Estado de urgência”, onde “parar significa morrer”.

Para Virilio, o que mais acontece é a imediatização de tudo, o direto, o aqui e agora.

No momento em que se é ameaçado por uma cibernética social, pelas telecomunicações, pela Internet e pela automatização da interatividade, é necessário que haja uma economia política da velocidade como há uma economia política da riqueza e da acumulação. Senão, não poderemos resistir a esta poluição das distâncias que é imperceptível e invisível 75 .

Perante a “presentificação da História”, o que ocorre é a “amputação do volume do tempo” e ocorre a imposição de um novo conceito de espaço e velocidade. Com isso, ocorre a hiperconcentração do tempo real que caminha para desenquadrar o homem da tridimensionalidade temporal e tudo se transforma numa espécie de presente-ausente, pois na matéria não existe o virtual.

Num tal cenário o cidadão comum, aquele que se deslumbra com tudo o que vai surgindo de novo, se deixa levar pelo vórtice da aceleração, adotando determinados comportamentos e hábitos que influem

75 <periodicos.incubadora.ufsc.br/index.php/emdebate/article/download/

/417>.

em sua vivência pessoal e social.

em sua vivência pessoal e social. Talvez que seja por isso que Virilio considera a informática

Talvez que seja por isso que Virilio considera a informática uma “bomba” surgida em tempos de mundialização (ele também prefere este termo à globalização).

Virilio se apresenta, então, como um crítico da cultura de massas e analisa de forma especial ações e discursos de vários dirigentes mundiais (os Estados Unidos estão sempre em foco), além de mencionar que ao lado do estreitamento da geografia entre os países certamente ocorre uma guerra informacional.

Flusser 76 é citado por ele, pois esse autor lembra que se antes vivíamos em função dos textos – a textolatria - agora vivemos em função das imagens, uma nova idolatria própria da “tecnolatria” ou do viver para e pela tecnologia, qual seja, a tecnociência.

Enfim, para Virílio a digitalização do mundo tem causado uma perda de identidade, o desaparecimento do “local” diante do “global”. Acrescenta que perdendo seu sentido de auxílio à humanidade, a tecnociência desumaniza e padroniza, e substitui a vida e o senso do real por meio de uma “tecnolatria” doentia e irrefreável própria de uma realidade perturbadora e pede a todos nós que “não nos tornemos criaturas sem-face frente às telas digitais, conectados e totalmente avessos ao mundo sensível”. 77

É possível, ainda, lembrar Manuel Castells, pesquisador espanhol, autor de “Era da informação78 ou ainda a Francis Fukuyama quando denuncia o quanto o primado da tecnologia sobre o humanismo pode ser prejudicial ao afirmar que quanto mais avançamos em tecnologia, mais nos expomos a regredir em humanismo.

Fukuyama entra no terreno da crítica quando afirma sobre nosso mundo atual:

a imperturbável vitória do liberalismo econômico e político sobre todos os seus concorrentes significa “não apenas o fim da Guerra Fria, ou da consumação de um determinado período da história, mas o fim da história como tal; isto é”, o ponto final da evolução ideológica da humanidade e a universalização da democracia liberal ocidental como forma final do governo humano. 79

Na conexão entre tecnologia e promessas do neoliberalismo, Fukuyama aborda um tema que para nós, professores, tem suas ramificações no terreno da educação e da pedagogia, tema que abordaremos em item específico dada a sua importância.

76 Vilém Flusser, judeu nascido em Praga (1920) procura pelas relações entre a língua e a imagem técnica no contexto da pós-história. Entre outras obras, escreveu Pós-história: vinte instantâneos e um modo de usar. São Paulo: Duas cidades, 1983.

77 <aosugo.wordpress.com/

/2008/manuel_cas-

78 CASTELLS, Manuel. A Era da Informação: economia, sociedade e cultura, vol. 3, São Paulo: Paz e terra, 1999, <www.tv1.com.br/ tells_biografia.aspx>.

79 FUKUYAMA, Francis. Nosso futuro pós-humano: conseqüências da revolução da biotecnologia, trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro, Rocco,

/virtualidade-real-do-cibermundo-sobre-a-bomba-

informática>.

2003.

Manuel Castells Para Castells (1942), um dos principais pensadores da influência da tecnologia da informação
Manuel Castells Para Castells (1942), um dos principais pensadores da influência da tecnologia da informação

Manuel Castells

Para Castells (1942), um dos principais pensadores da influência da tecnologia da informação na sociedade,

o desafio que se apresenta para os homens do século XXI é reequilibrar a relação entre a tecnologia e a sociedade. Se vivemos numa era de superdesenvolvimento tecnológico e de subdesenvolvimento social

e institucional, necessitamos de mudanças urgentes, como pessoas e como sociedade. Sem isso, o

extraordinário potencial tecnológico que ele aponta como fonte de uma criatividade sem precedentes poderá se converter em fonte de autodestruição.

O pensador ibérico assim se expressa porque o humanismo é o grande valor que tem de ser preservado

para que ocorra o melhor para a humanidade neste século XXI. Eis aí um tema ao qual voltaremos com maior ênfase em nossa próxima unidade, uma vez que no modelo industrial de sociedade os abusos antropocêntricos e capitalistas foram tão grandes que estão ameaçando o equilíbrio da vida no planeta. Assim, para nós, docentes de qualquer nível, ainda que relevemos a importância do ensino superior, o humanismo deve ser a meta prioritária, nosso norte filosófico e linha condutora de nossa transposição didática que, além da informação, inclui a formação do educando.

Dentro das perspectivas que se abrem para a sociedade do conhecimento, que, segundo Drucker, estarão perfeitamente configurada entre 2020 e 2030, existem problemas éticos, econômicos e políticos por resolver.

Os obstáculos ligados ao maior ou menor volume de capital, bem que gera outros bens, renda, produção patrimônio ou ainda, um valor que se autoexpande para Karl Marx, ocupam um lugar central.

O homem, como se pode perceber por meio da representação de Amanda Franco, é um ser integral,

com uma mente que vitaliza e movimenta o corpo e uma energia que, na antecedência de tudo, gera a disposição e dinamiza o conjunto.

Esta é a concepção holística (do grego holos = todo) que vem sendo estudada por pedagogos como Moacir Gadotti e se expressa num novo olhar dirigido também para a educação.

“Entre as teorias surgidas nesses últimos anos, despertaram o interesse dos educadores os paradigmas holonômicos, ainda mal definidos”, escreve Gadotti (2003, p.275) 80 . Mas cita entre seus principais autores Edgar Morin, em obras como O enigma do homem “onde se insurge contra a razão produtivista e a racionalização moderna” e exalta o cotidiano, o pessoal, a singularidade além da iniciativa, criatividade,

80 GADOTTI, Moacir. História das Idéias pedagógicas. Ática: São Paulo, 2003.

a utopia, a imaginação, a emoção. Os autores da corrente “recusam uma ordem que aniquile

a utopia, a imaginação, a emoção. Os autores da corrente “recusam uma ordem que aniquile o desejo, a paixão, o olhar, a escuta” (GADOTTI, 2003, p. 275).

Para um holista, o homem tem uma energia que move sua mente e esta, por sua vez, move o seu corpo.

Uma das interpretações que se dá para o enigma do homem pode ser vista e interpretada na ilustração de Amanda Franco que abaixo se insere. Repare bem nos itens que unem cérebro e estômago, numa relação óbvia entre as nutrições necessárias ao desempenho físico e intelectual do HOMEM:

necessárias ao desempenho físico e intelectual do HOMEM: A inteligência emocional é parte de uma parceria

A inteligência emocional é parte de uma parceria que se faz cada vez mais citada em estudos como os

de Howard Gardner (1943) - (teoria das inteligências múltiplas), onde o psicólogo cognitivo e educacional identifica sete tipos de inteligência: lógico-matemática, linguística, espacial, musical, cinemática, intrapessoal e interpessoal. Mais recentemente, Gardner expandiu seu conceito acrescentando à lista a inteligência naturalista e a inteligência existencial.

Na sua obra Estrutura da Mente de 1983, Gardner prega a ideia de que todos temos tendências individuais – áreas de que gostamos ou nas quais somos competentes – e que tais tendências podem ser englobadas em função das inteligências listadas acima. Transportadas tais noções para a prática

pedagógica é preciso, agora, lembrar que o aluno não é uma máquina de aprender, tampouco o professor

é uma máquina de ensinar.

O estudante tem de ser considerado em seu todo e, a partir daí, projetar todas as estratégias que visam tornar cada vez mais eficaz e produtivo o processo de ensino-aprendizagem. Nesse sentido, aulas diferentes das tradicionais (como a aula operatória) ou pesquisas em torno da neurociência se fazem cada vez mais requisitadas.

A NEUROCIÊNCIA E A POTÊNCIA DO NOVO

Entre potência e poder existe a diferença que vai da possibilidade à concretização. O novo pode despertar desconfiança principalmente entre os conservadores resistentes, mas suas promessas podem fazer a diferença entre a teoria e a prática bem-sucedida.

A neurociência é mais uma das áreas acadêmicas modificadas ao impacto da tecnologia. Antes do

A neurociência é mais uma das áreas acadêmicas modificadas ao impacto da tecnologia. Antes do

desenvolvimento de tecnologias como a ressonância magnética funcional era chamada de psicobiologia cognitiva, revelando assim as suas ligações com a psicologia e o conhecimento.

assim as suas ligações com a psicologia e o conhecimento. Definida como o estudo científico dos

Definida como o estudo científico dos mecanismos biológicos subjacentes à cognição, tem um foco específico nos substratos neurais dos processos mentais e suas manifestações comportamentais. O questionamento sobre como as funções psicológicas e cognitivas são produzidas no circuito neural incluem estudos clínicos de psicopatologia em pacientes com déficit cognitivo.

Luz Inácio 81 faz a conexão entre a neurociência e o processo de aprendizagem. Assim, a neurociência investiga o processo de como o cérebro aprende, retém, lembra, desde o nível molecular e celular até às áreas corticais, assim como os padrões de atividade neural que correspondem a determinados estados e representações mentais.

Quanto à neurociência cognitiva, é fundamental notar que o ensino bem-sucedido provoca alterações na taxa de conexão sináptica, envolvendo a função cerebral. É aí que entram os currículos em sua composição ou que se adentra pelas observações de Edgar Morin quanto à escola matar a curiosidade dos alunos. E também se faz necessário notar o quanto a capacidade de motivar, seu método de ensino, didática, o contexto que reúne família, escola e comunidade podem ser decisivos para o processo educativo.

Luz Inácio também se refere aos currículos e à aplicação da neurociência à educação quando escreve que se faz necessário desenvolver currículos sob medida, para atender fraqueza ou excelência dos alunos quanto ao processo de ensino-aprendizagem. E é explícita: “A aprendizagem e a educação estão intimamente ligadas ao desenvolvimento do cérebro, o qual é moldável aos estímulos do ambiente. Os estímulos do ambiente levam os neurônios a formar novas sinapses”. Dessa forma, a autora explica a aprendizagem como o processo pelo qual o cérebro reage aos estímulos do ambiente, ativando sinapses, tornando-as mais “intensas”. E, em consequência, estas se constituem em circuitos que processam as informações, com capacidade de armazenamento molecular.

É evidente que todos estes fatores interagem com as características do cérebro dos indivíduos. E se

81 Entre outros títulos, •PhD em Administração de Empresas pela Flórida Christian University (EUA) •PhD em Psicologia Clínica pela Flórida Christian Uni- versity (EUA) •Psicanalista e Diretora de Assessoria Geral da Sociedade de Psicanálise Transcendental. •Mestre em Administração de Empresas pela USP. •Especialista em Estratégias de Marketing em Turismo e Hotelaria pela USP, MBA em Gestão de Pessoas e Especialista em Informática Gerencial.

o indivíduo tem borboletas no estômago como se representa na ilustração da Amanda, ou seja,

o indivíduo tem borboletas no estômago como se representa na ilustração da Amanda, ou seja, se a

alimentação não é adequada, isto afeta o cérebro da criança em idade escolar. Logo, se a dieta é de baixa qualidade, o aluno não responde adequadamente à excelência do ensino fornecido, esta é uma premissa bem conhecida de todos os professores, com ênfase ao ensino fundamental onde a merenda é essencial.

Luz Inácio é explícito ao apresentar as características fundamentais da neurociência cognitiva que “utiliza vários métodos de investigação (por ex.: tempo de reação, eletroencefalograma, lesões em estruturas neurais em animais de laboratório, neuroimageamento), a fim de estabelecer relações cérebro e cognição em áreas relevantes para a educação”. E acrescenta que tal “abordagem permitirá o diagnóstico precoce de transtornos de aprendizagem” e “exigirá métodos de educação especial, ao mesmo tempo a identificação de estilos individuais de aprendizagem e a descoberta da melhor maneira de introduzir informação nova no contexto escolar”.

Para isto, recomendam-se investigações localizadas para averiguar aspectos tais como atenção, memória, linguagem, leitura, matemática, sono, emoção, cognição, tudo no intento de se contribuir para a melhor educação.

Contudo, os laços entre neurociência e educação ainda estão se estreitando e apresentam controvérsias. Bruer (2002) argumenta que a neurociência possivelmente nunca contribuirá para a educação devido à desarticulação de conhecimentos entre as duas áreas, mas com isto não concorda Connell (2004). O pesquisador da Universidade Harvard argumenta que, introduzindo o “nível de análise” com agregação

da neurociência computacional, eliminam-se as fronteiras específicas. Assim, a neurociência, psicologia

e ciências cognitivas somadas à educação, trazem novo enquadramento e integração destas áreas do conhecimento.

A ênfase ao ambiente é importante e merece ser relevada: “o aprender e o lembrar do estudante ocorre

no seu cérebro”, logo, “conhecer como o cérebro funciona pode contribuir positivamente para a prática educativa”. Ressalte-se que “a aprendizagem e a educação estão intimamente ligados ao desenvolvimento do cérebro, o qual é moldável aos estímulos do ambiente”(Fischer & Rose, 1998) 82 .

Para concluir este item e contribuir para o conhecimento da neurociência, apresentamos, de acordo com Luz Inácio, aqueles que ela cita como princípios fundamentais para potencial aplicação no ambiente de sala de aula:

A saber:

1. Aprendizagem e memória e emoções ficam interligadas quando ativadas pelo processo de

Aprendizagem. A Aprendizagem sendo atividade social, alunos precisam de oportunidades para discutir tópicos. Ambiente tranquilo encoraja o estudante a expor seus sentimentos e ideias.

2. O cérebro se modifica aos poucos fisiológica e estruturalmente como resultado da experiência.

Aulas práticas/exercícios físicos com envolvimento ativo dos participantes fazem associações entre

experiências prévias com o entendimento atual.

82 Os autores citados são: Bruer, J. T. (2002). Avoiding thepediatrician’s error: how neurocientists can helpeducators (and themselves). Nature Neuroscience supplement, 5:1031-1033.). Connell, M. W. (2004). A response toJohn Bruer’s bridge too far. AERA Annual Conference Abstract, San Diego, CA, 32p. Fischer, K. W., Rose, S. P. (1998). Growth cycles of the brain and mind.Educational Leadership, 56(3):56-60.

3. O cérebro mostra períodos ótimos (períodos sensíveis) para certos tipos de aprendizagem, que não

3. O cérebro mostra períodos ótimos (períodos sensíveis) para certos tipos de aprendizagem, que

não se esgotam mesmo na idade adulta. Ajuste de expectativas e padrões de desempenho às características etárias específicas dos alunos, uso de unidades temáticas integradoras.

4. O cérebro mostra plasticidade neuronal (sinaptogênese), mas maior densidade sináptica não

prevê maior capacidade generalizada de aprender. Os estudantes precisam sentir-se “detentores” das atividades e temas que são relevantes para suas vidas. Atividades pré-selecionadas com possibilidade de escolha das tarefas aumenta a responsabilidade do aluno no seu aprendizado.

5. Inúmeras áreas do córtex cerebral são simultaneamente ativadas no transcurso de nova experiência

de aprendizagem. Situações que reflitam o contexto da vida real, de forma que a informação nova se “ancore” na compreensão anterior.

6. O cérebro foi evolutivamente concebido para perceber e gerar padrões quando testa hipóteses.

Promover situações em que se aceite tentativas e aproximações ao gerar hipóteses e apresentação de evidências. Uso de resolução de “casos” e simulações.

7. O cérebro responde, devido a herança primitiva, às gravuras, imagens e símbolos. Propiciar

ocasiões para alunos expressarem conhecimento através das artes visuais, música e dramatizações.

Finalizando, a referida autora conclui que “a neurociência oferece um grande potencial para nortear a pesquisa educacional e futura aplicação em sala de aula”. Acrescenta que pouco se publicou para análise retrospectiva, mas que apesar disto, “faz-se necessário construir pontes entre a neurociência e a prática educacional”, uma vez que “há forte indicação de que a neurociência cognitiva está bem colocada para fazer esta ligação de saberes”. 83

A herança genética, o ambiente, a informação e a formação contribuem para o desenvolvimento da

inteligência do indivíduo e, neste sentido, nenhuma faixa etária pode ser negligenciada. Nós, professores

do nível superior, encontraremos muito mais facilidade em nossa tarefa educativa – informativa e formadora

– se desde o início tiverem sido implantadas as bases necessárias a este processo com vistas à ampla dotação do educando. E isto envolve não negligenciar nenhum ano da vida das crianças para o bem do adulto que está se construindo.

Aloísio Araújo, economista, professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), defende a inclusão de investimento público para sustentar programas de educação infantil para crianças nos primeiros anos de vida e seu alerta tem um fundamento: ”segundo a neurociência” afirma, “é de zero a quatro anos que

se forma o cérebro humano”.

Sua proposta gira em torno da criação de programas de educação precoce pelo governo nas suas mais diversas esferas - federal, estadual e municipal - capazes de propiciar às crianças mais pobres um acompanhamento de qualidade, reduzindo o fosso que separa os estudantes brasileiros ao ingressarem no ensino básico. “Isso vai garantir maior retorno para o crescimento econômico sustentado, com maior distribuição de renda, nos próximos 20 anos”, disse Araújo ao Valor Econômico. 84

O tema “Educação e Desenvolvimento Econômico” foi o escolhido por Araújo em palestra comemorativa dos 80 anos da faculdade de economia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Segundo afirma, ampliar a faixa da educação no Brasil é um grande desafio, uma vez que a maior parte das crianças brasileiras é de famílias com renda inferior a cinco salários-mínimos, geralmente as que têm

83 <www.artigos.com/ /educacao/ neurociencia educacao 84 Por Vera Saavedra Durão (Rio Valor Econômico de 15 de outubro de 2010).

maior número de filhos, e garantir um acompanhamento para a faixa de zero a três

maior número de filhos, e garantir um acompanhamento para a faixa de zero a três anos será uma tarefa que não exigirá gastos elevados.

Segundo seus cálculos, os gastos para tocar um investimento deste tipo não são muito grandes. Hoje,

o país conta com uma população de crianças de zero a quatro anos de 13,4 milhões (10,6 milhões

de zero a três anos), segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) 2009.

Para atingir pelo menos 20% deste contingente infantil seria necessário aos cofres públicos gastar

o equivalente a 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB), estimado por ele em R$ 4 trilhões para 2011, o que daria cerca de R$ 20 bilhões.

Os estudos do professor foram inspirados nos trabalhos do prêmio Nobel de economia de 2000, James Heckman que implantou o ensino precoce nos Estados Unidos, na época do presidente Lyndon Johnson (anos 60), tal medida de combate à pobreza foi bem-sucedida porque “as crianças que participaram dos programas especiais de pré-escola não só tiveram indicadores de comportamento social melhores, como menores índices de gravidez na adolescência e de encarceramento, além de melhores salários” 85 .

Mas a ingerência do capital e a necessidade de investimentos em educação é um dos pontos nevrálgicos quanto à ascensão do nosso país ao primeiro mundo desenvolvido. 86

Demerval Saviani 87 , um dos nomes mais respeitados entre os docentes brasileiros, notabilizando-se pela seriedade de suas preocupações com os rumos tomados pela democracia brasileira em suas bases constitucionais e políticas públicas, credita a má qualidade do ensino ao baixo investimento e a falta de prioridade para a educação. E vê no PDE uma boa iniciativa, por se preocupar com a qualidade, mas critica o fato de o Estado estar sempre procurando fugir as suas responsabilidades, dividindo-as com outras esferas sociais, notadamente as privadas.

E tal como se fez notar quanto ao IDH nacional, credita à educação a força motriz da economia e fazendo comentários sobre a carência de nosso país quanto a este setor. Pensando assim, Saviani se une a pensadores como Serres, Hobsbawm, Alvin Toffler e propõe a educação de qualidade como a base sem

a

qual não ocorre o desenvolvimento em geral do país.

O

foco de suas ideias constitui uma reflexão crítica e contextualizada sobre política, democracia e

sociedade, apontando para a instituição primordial de todo o processo educativo, qual seja, a escola, local de atuação dos agentes pedagógicos.

São importantes as conexões entre os saberes, a disponibilidade de capitais para o investimento em educação, as novidades trazidas pela ciência que hoje já se escreve até sobre uma neuroeconomia.

Partindo do conceito de gestão originário das organizações, as autoras abordam a gestão do conhecimento

e afirmam que esta pode ganhar várias interpretações, ainda que de maneira genérica pode-se

afirmar que são práticas de gestão organizacional voltadas para a produção, retenção, disseminação, compartilhamento e aplicação do conhecimento dentro das organizações, bem como para promover o

85 <https://conteudoclippingmp.planejamento.gov.br/

86 Quanto ao item educação, puxando o IDH (Índice de desenvolvimento humano) de nosso país para baixo, inseriremos estudo a parte com questões e comentários. 87 Professor aposentado da Universidade de Campinas foi um dos vencedores do Prêmio Jabuti de 2008 (na área de educação), com o livro História das idéias pedagógicas no Brasil (Autores Associados, 2007).

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educacao-para-criancas-ate-4-anos-diz-professor-da-fgv/>.

intercâmbio de experiências com o mundo externo (NONAKA E TAKEUCHI, 1997) 8 8 . O

intercâmbio de experiências com o mundo externo (NONAKA E TAKEUCHI, 1997) 88 .

O termo economia baseada no conhecimento que vimos empregado por Drucker é recente e significa

que uma economia voltada ao conhecimento propicia criação, acumulação e disseminação de novos

conhecimentos; a conexão entre as comunidades de conhecimento (thinks tanks?) por meio de redes

a fim de trocas e, finalmente, o surgimento de uma cultura marcada pela demanda de “cérebros de

conhecimento”. Finalmente, uma proliferação de novos produtos e serviços baseados em inovação e criatividade.

Atenção a estas palavras: inovação e criatividade, pois elas surgiram sempre, cada vez mais e em relação ao desenvolvimento baseado na via cultural como quer Michel Serres e aparecem em artigos como

o de Elói Souza Garcia para o Jornal de ciência 89 , onde se refere à ciência, inovação, invenção, como fundamentais ao progresso de um país.

Já a criatividade faz parte do repertório de Toffler que apresenta o conhecimento como uma riqueza revolucionária e o século XXI como um século das ideias criativas. Bill Gates é o maior exemplo para aqueles que apontam que a riqueza não está mais nas invenções materiais e se deslocou definitivamente para o terreno da inteligência.

Numa tal economia, é maior a fração de investimento em ativos intangíveis se comparados ao capital físico, o que novamente nos remete a Drucker que quando afirma que o trabalhador do conhecimento é o maior ativo com quem qualquer organização pode contar. Finalmente é de se notar que “as organizações da economia do conhecimento reorganizam o trabalho para permitir capturar, estocar, combinar e compartilhar o conhecimento através de novas práticas de gestão do conhecimento”.

Nossas autoras que participaram do IV SEGeT – Simpósio de Excelência em Gestão e Tecnologia de 2010 90 concluem seu artigo lembrando que os modelos mentais afetam cada aspecto de nossa vida

pessoal e profissional e que se a economia-padrão não levava em conta emoções, crenças e valores com

a contribuição da neurociência por meio da neuroeconomia.

muitas das escolhas que não obtiveram sucesso poderiam ser explicadas, por exemplo, uma escolha poderia ser feita pelo modelo mental do sujeito, contrariando todos os indicadores que se apresentavam, pois a representação mental da escolha preferida condiz com a representação de mundo que este sujeito tem 91 .

a representação de mundo que este sujeito tem 9 1 . 8 8 NONAKA, I. TAKEUCHI,

88 NONAKA, I. TAKEUCHI, H. Criação de Conhecimento na Empresa. Rio de Janeiro. Editora Campus – 14. edição, 1997.

89 O citado artigo fará parte de nossos fóruns.

90 O "Simpósio de Excelência em Gestão e Tecnologia" (SEGeT) é um Evento de natureza científica, envolvendo apresentações de artigos, pôsteres e pales- tras, que será editado em sua 3ª versão, tendo recebido artigos de várias regiões do Brasil e palestras com autoridades política e acadêmica.

91 <www.aedb.br/seget/

Fica estabelecido, portanto: - Estamos em transição para uma sociedade pós-industrial, mas ainda temos características

Fica estabelecido, portanto:

- Estamos em transição para uma sociedade pós-industrial, mas ainda temos características de modelo industrial, ainda somos submetidos à exploração do capital e dele dependemos para os investimentos como é o caso da educação nacional.

- A atual fase conhecida como sociedade da informação ou de economia do conhecimento é dominada pelas tecnologias da informação e comunicação – TICs – e suas especificidades negativas e positivas motivam o debate entre os pensadores.

- O domínio da ciência, invenção e tecnologia é fundamental para o desenvolvimento dos indivíduos e das nações.

- Perante o primado da tecnologia já começam a se levantar críticas lembrando a necessidade de humanismo e esse acrescenta um novo tipo ao modelo clássico, pois o modelo industrial está amea- çando a saúde do planeta e a sobrevivência do homem em sua “casa”, qual seja, a natureza.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A emergência do conhecimento como bem de capital e a certeza de que a sociedade do século XXI será

uma sociedade de ideias compõem o quadro que coloca a educação no topo das prioridades do século

XXI.

Isto já se anunciava em 1970 mediante os princípios admitidos pela UNESCO para a ação educativa e também faz parte integrante das metas do milênio.

Expor as novidades do século XXI em toda sua complexidade e identificar os pensadores que, com suas ideias pretendem decifrar o enigma do homem, como se propõe explicitamente Edgar Morin, é o centro desta unidade que deixamos para seguir com sua continuação.

Uma das maiores certezas deste início de século parece apontar a via cultural e não mais a via econômica como o melhor caminho para o desenvolvimento.

Apesar disto, ainda estamos em uma época de transição para uma sociedade do conhecimento e a fase que atravessamos – sociedade da informação – também é conhecida como economia do conhecimento.

A via cultural e a educação são apontadas, então, como o melhor caminho, a famosa quarta via que já

se anunciava com os thinks tanks da terceira. Contudo, os desafios de toda ordem, inclusive os éticos, se apresentam como um grande obstáculo para a plena construção de uma sociedade de ideias ou do capital intelectual como a maior riqueza.

O sistema capitalista continua, ainda que “tardio” como apontam alguns autores e as políticas educacionais,

afetadas por ele ou, na maior parte das vezes, conduzidas.

Para países emergentes como o Brasil que ainda têm carência de capital, mas são atraentes ao investimento estrangeiro, o canteiro de obras do século XXI parece promissor. A quarta via, aquela que se refere principalmente à educação de qualidade em um mundo modificado pela tecnologia, parece ser

a melhor para o nosso país. Unindo conhecimento e potência do novo e colocando o

a melhor para o nosso país.

Unindo conhecimento e potência do novo e colocando o humanismo em pé de igualmente ou até superior

à tecnologia por se tratar do humano, novidades como a neurociência estão se impondo.

Suas descobertas e sugestões de novas estratégias quanto à aprendizagem, todas baseadas no funcionamento de nosso cérebro, podem proporcionar novo alento para professores desanimados pelo desinteresse dos alunos ou pela excessiva cobrança dos superiores. Mas, como sempre, existe a possibilidade de inter-relações, de onde alguns autores se referirem a uma neuroeconomia.

Como tudo se liga e existe um elo que faz a conexão entre a sala de aula e as políticas públicas que norteiam o sistema educacional de um país, cabe agora, numa terceira unidade, um exame mais detalhado sobre tais realidades.

unidade, um exame mais detalhado sobre tais realidades. ANTROPOCENTRISMO 1. Antropocentrismo vem do grego anthropus

ANTROPOCENTRISMO

1. Antropocentrismo vem do grego anthropus que significa homem e conjugado kentron também do grego, signi- fica o homem no centro de tudo. No que diz respeito à visão de mundo, o antropocentrismo que vem autorizado no livro do Gênesis faz o homem se considerar dono da natureza e tudo o que nela existe está a seu dispor. 92 Logo, é uma concepção que considera que a humanidade deve permanecer no centro do entendimento dos humanos, isto é, tudo no universo deve ser avaliado de acordo com a sua relação com o homem. Esta concepção

se encaixa a maravilha com o sistema capitalista cuja mentalidade se norteia pelo lucro e que encara tudo o que se apresenta no planeta como um recurso natural para o homem usar e abusar.

O domínio humano sobre as criaturas inferiores forneceu um tipo de analogia mental em que se basearam vários

arranjos políticos e sociais. Atribuições de características animais aos seres humanos também justificavam a ex- ploração do negro, às mulheres, aos pobres, loucos. Assim, a desumanização de tais indivíduos era pré-requisito necessário para se justificar os maus tratos que sofriam. Descrever um homem como bicho significava dizer que ele devia ser tratado como tal.

2. BIOCENTRISMO Bios ou vida no centro é a concepção dos povos pré-letrados que têm uma concepção diferente do antropocen- trismo que tão bem serve ao modo de produção capitalista por sua ideia de que tudo nos pertence e pode nos trazer lucros. Os indígenas dos quais desconhecemos o modo cultural, bem diferente do nosso, têm outra concepção: que

fazem parte da natureza, que a Terra é sua mãe, os animais seus irmãos e tudo o que nos cerca faz parte da existência do homem como o sangue que une todas as criaturas. Com nossa visão preconceituosa, consideramos os índios selvagens, primitivos e tudo é dito de forma pejorativa, para acentuar nossa superioridade de civilizados. Mas Karl Marx bem disse que “civilização é apenas um estágio tecnológico mais avançado” e apenas isto, nada

a ver com humanidade, direitos de ser humano, inteligência, capacidade de sobreviver.

Os índios são pré-letrados porque não tinham escrita no momento da chegada dos brancos à América no século XV. Mas isto não os torna preguiçosos: sua noção de trabalho, lazer, visão de mundo é outra e não obedece aos

92 26. E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.

ditames do capitalismo. Um trecho muito interessante do pastor calvinista Jean de Léry 9 3

ditames do capitalismo. Um trecho muito interessante do pastor calvinista Jean de Léry 93 que acompanhou os franceses quando invadi- ram o Rio de Janeiro nos ilustra a matéria:

- O índio não entendia por que os brancos, desde sua chegada ao Brasil, precisavam cortar tanta madeira (o pau-brasil). “Seria para levá-la a algum deus?” Perguntou certa vez um índio tupinambá, num diálogo ocorrido em 1558. O branco explicou que a madeira seria levada para um homem para o outro lado do oceano. Ele tinha que fazer tinta com ela e depois tingir muitos tecidos para depois vendê-los. O índio, porém, não entendeu para que vender tanto tecido e acumular tantos bens. “Esse homem não morre?” Indagou ele novamente. O branco respondeu que sim, morria, mas que acumulava bens para deixá-los a seus descendentes quando morresse. O índio con- cluiu perplexo:

Sois grandes loucos [ Trabalhais tanto para acumular riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem! Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que, depois de nossa morte, a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados.

]

os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados. ] ATIVIDADE DE AUTOESTUDO A partir da leitura

ATIVIDADE DE AUTOESTUDO

A partir da leitura do tópico saiba mais, reflita e responda:

Destas duas concepções opostas, o homem do século XXI terá de optar na direção de uma terceira: a concepção ecocêntrica. Você saberia defini-la?

93 O francês Jean de Léry veio para o Brasil em 1556 e viveu entre os índios. Ao voltar para a Europa, publicou um livro narrando sua viagem. “A Dança dos Índios Tupinambás”.

UNIDADE III

O BRASIL E A QUARTA VIA

Professora Dra. Maria Lúcia Bertachini Nosella

Objetivos de Aprendizagem

Maria Lúcia Bertachini Nosella Objetivos de Aprendizagem • Apresentar a educação como o passo decisivo para

• Apresentar a educação como o passo decisivo para a ascensão cultural.

• Socializar o conhecimento promoverá como resultado final a socialização da renda?

• Contornos da sociedade do conhecimento do século XXI.

• O professor como gestor do conhecimento e a educação superior.

• Determinar as exigências e prioridades da educação contínua.

• Procurar dados importantes na constituição da Cidade Educativa.

Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:

• Educação: o Passo Definitivo é Dado pela Via Cultural

• A Socialização da Renda será Realizada pela Socialização do Conhecimento?

• Afinal, uma Sociedade do Conhecimento

• Educação Contínua ou Aperfeiçoamento Constante

INTRODUÇÃO

INTRODUÇÃO Eis-nos chegados a um tempo em que a educação se apresenta como o passo definitivo

Eis-nos chegados a um tempo em que a educação se apresenta como o passo definitivo para o

desenvolvimento dos indivíduos, sempre com vistas ao coletivo útil ao país. Os pensadores aqui abordados serão retomados em suas insistentes observações sobre o conhecimento e seu valor para a humanidade.

A tudo isto encima a escola como a instituição mais poderosa para “educar” logo “conduzir” (do latim

duco) das novas às velhas gerações, uma vez que o mote do século é a educação contínua.

Na sociedade produzida pela revolução tecnológica e dominada pelo poder das TICs, o poder das ideias

se apresenta como o vento que moverá a quarta onda, a da inteligência. Toffler, de quem nos apropriamos da terminologia, aponta as maravilhas da ciência e da biotecnologia e chega a imaginar um tempo onde

a biologia se emancipa da tecnologia.

Aliás, o fator tecnológico é tão imperante que chega a obscurecer a ciência ou a trazer entraves para o humanismo. Visto em suas raízes e acepção clássica ou retomada com vistas à ecologia, o humanismo

é algo que pode ser desenvolvido de maneira convincente na escola, pela educação que é o meio mais poderoso para todas as finalidades.

Os desafios éticos da sociedade do século XXI, portanto, são inúmeros e as novidades (como a neurociência) também. 94 A todas estas instâncias do saber que movem atitudes – as ideias estão movendo o mundo – o ensino superior, sob a correta e eficaz gestão, poderá construir o mundo melhor.

E isto significará estar acima das direitas e esquerdas, neoliberalismos e socialismos, Estados-nação e xenofobia nacionalista, numa guinada humanista e “mundializada”, onde as democracias sejam fruto da participação dos cidadãos conscientes. E a alienação seja o grande mal por combater, tanto entre as pessoas comuns, de outras profissões e com maior cuidado ainda entre nós, docentes do século XXI.

Nosso objetivo nesta unidade é levá-lo a refletir sobre a importância da educação como forma de

emancipação do indivíduo e também como forma de impulsionar uma sociedade. Refletir ainda sobre

a importância da formação contínua para estar sempre atento às mudanças que ocorrem em nossa

sociedade, uma vez que atualmente tais mudanças acontecem em uma velocidade muito maior, pois as

informações circulam de maneira extremamente ágil.

EDUCAÇÃO: O PASSO DEFINITIVO É DADO PELA VIA CULTURAL

Michel Serres, Drucker, Toffler, De Masi entre outros, apontam com unanimidade para a via cultural como

o melhor caminho para o desenvolvimento e para a supremacia do conhecimento como bem de capital. A

conexão é tão forte que os mais entusiastas adeptos do sistema apontam a existência do capital humano como a tônica do século.

Entre os extremos, o meio-termo parece ser a melhor opção e o conselho vem de vinte e três séculos atrás, da matriz greco-clássica. Logo, é preciso reconhecer o papel da educação (e da escola) para os

94 Fonte:<http://www.webartigos.com/articles/18395/1/O-Papel-do-Educador-no-Seculopagina1.html#ixzz1DeQgT82x>. Acesso em: 04 mar. 2011.

indivíduos e o papel do conhecimento para a educação. Quanto ao primeiro item, o alerta

indivíduos e o papel do conhecimento para a educação.

Quanto ao primeiro item, o alerta inicial vem de Edgar Morin, uma palavra de respeito quando se trata do tema.

O papel da educação é de nos ensinar a enfrentar a incerteza da vida; é de nos ensinar o que é o

conhecimento, porque nos passam o conhecimento, mas jamais dizem o que é o conhecimento. […] Em outras palavras, o papel da educação é de instruir o espírito a viver e a enfrentar as dificuldades do mundo. 95

Em conexão com essa ideia central aparece o papel do educador e se percebe a íntima conexão entre humanismo e educação, a mesma conexão que nos fez ressaltar a impropriedade de desconsiderar as ciências humanas ou humanidades como preferem os franceses.

Edgar Morin é um dos grandes expoentes do pensamento complexo. Nesse sentido escreveu, a pedido da Organização das Nações Unidas, o que chamou de Os sete saberes necessários à educação do futuro. Com eles procura mostrar o erro e a ilusão como uma das cegueiras mais pertinentes do conhecimento, a necessidade de estabelecer nossas identidades em um clima de ética que compreenda o gênero humano. Para ele, o conhecimento racional e limitado não consegue abarcar a complexidade do mundo e provoca repulsa nos estudantes por seu caráter fragmentário, tão prejudicial quanto o totalizador. Segundo pensa, tantos requisitos tornam a busca do conhecimento “um esforço infinito”, mas tem uma certeza inicial: se o ser humano é a um só tempo físico, biológico, psíquico, cultural, social e histórico 96 “a condição humana deveria ser o objeto essencial de todo o ensino”. 97

O século XXI deverá abandonar a visão unilateral que define o ser humano pela racionalidade

(Homo sapiens), pela técnica (Homo faber), pelas atividades utilitárias (Homo economicus), pelas necessidades obrigatórias (Homo prosaicus). O ser humano é complexo e traz em si, de modo bipolarizado, caracteres antagonistas:

Sapiens e demens (sábio e louco)

Faber e ludens (trabalhador e lúdico)

Empiricus e imaginarius (empírico e imaginário)

Economicus e consumans (econômico e consumista)

Prosaicus e poeticus (prosaico e poético). (2000, p. 58) 98

Uma das páginas mais visitadas sobre Edgar Morin é aquela em que afirma de forma taxativa que a escola mata a curiosidade do aluno. E assim se manifesta porque acredita que instigar a curiosidade da criança é a melhor forma de despertá-la para o hedonismo de conhecer, ou seja, para o prazer de chegar ao conhecimento, ao saber.

Na edição 168 da Revista Escola da Abril, de 10 de fevereiro de 2006, lê-se importante discussão sobre gestão escolar trazendo ideias do pensador Edgar Morin, o mesmo que afirma que estamos ainda em um buraco, presos entre o que foi e o que virá. A matéria começa apresentando que vivemos em um mundo “complexo e interligado” no qual a profusão de informações nos faz mudar de planos a cada hora, não é aceitável uma escola que ainda teime “em ensinar certezas e conhecimentos que parecem únicos

95 MORIN, Edgar - Os sete Saberes Necessários à Educação do Futuro. 3. edição. Brasília: Cortez, 2001.

96 Trata-se do novo olhar holístico que também será abordado nesta unidade.

97 MORIN, Edgar. Para Sair do Século XX, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

98 Cultura e barbárie europeias. Trad. Daniela Cerdeira. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

e absolutos”. É assim que se apresenta a necessidade de uma nova escola, sob nova

e absolutos”. É assim que se apresenta a necessidade de uma nova escola, sob nova direção onde se

coloque o ser humano e o planeta no centro do ensino. Ou nas próprias palavras do autor, a reforma mais ampla que pode começar em cada sala de aula obedece a novos paradigmas, tais como: “é preciso

aprender sobre a condição humana, a compreensão e a ética, entender a era planetária em que vivemos

e saber que o conhecimento, qualquer que seja ele, está sujeito ao erro e à ilusão”.

Propondo uma reforma de currículos, adverte que na forma como as disciplinas estão estruturadas só servem para “isolar os objetos do seu meio e isolar partes de um todo”. Nesse sentido, “eliminam a desordem e as contradições existentes, para dar uma falsa sensação de arrumação”. É preciso que educação rompa com este estado de coisas, “mostrando as correlações entre os saberes, a complexidade da vida e dos problemas que hoje existem”. E termina: caso isto não ocorra, a escola se manterá para sempre “ineficiente e insuficiente para os cidadãos do futuro”. 99

Como adendo ao que já foi dito sobre a desvalorização das humanidades, principalmente entre nós brasileiros, e como parte de um fenômeno global, Morin acredita que a literatura e as artes deveriam ter mais destaque no ensino, uma vez que alentam o sentido do humano e em sua dimensão histórica, psicológica, social, filosófica encaminham o estudante no caminho do conhecimento autônomo e capaz de decifrar épocas, culturas, encontrar-se a si mesmo em seus próprios desígnios.

É uma sugestão deste autor para os professores-gestores da nova escola:

Eles podem partir da problemática do estudante e fazer um programa de ensino cheio de questões que partissem do ser humano. O polivalente pode mostrar aos pequenos como se produz a cultura da televisão e do videogame na qual eles estão imersos desde muito cedo. Já a escola que trabalha com os jovens deve dedicar-se à aprendizagem do diálogo entre as culturas humanísticas e científicas. É o momento ideal para o aluno conhecer a história de sua nação, situar-se no futuro de seu continente e da humanidade. Às universidades caberia a reforma do pensamento, para permitir o uso integral da inteligência 100 .

Morin se percebe, aqui, em perfeita sintonia com Serres sobre a igualdade entre as ciências e o papel da educação – logo da escola – no resgate do humanismo.

educação – logo da escola – no resgate do humanismo. Eric Hobsbawm é um historiador marxista

Eric Hobsbawm é um historiador marxista reconhecido internacionalmente como um dos maiores pensadores do século XX. Um estudioso sobre o processo que envolve as tradições, seus livros retratam

99 <revistaescola.abril.com.br/

100 <www.espacoacademico.com.br/

/escola-mata-curiosidade-425244.shtml>.

/59bertonha.htm>.

a realidade contemporânea em cores fortes e reflexões incisivas. Em sua obra Era dos Extremos,

a realidade contemporânea em cores fortes e reflexões incisivas.

Em sua obra Era dos Extremos, o breve século XX (1914-1991) 101 , Hobsbawm se refere especificamente à Revolução Cultural, a partir da página 314, e suas observações coincidem, por exemplo, com autores não marxistas a respeito das modificações ocorridas a partir de 1991, com o advento da globalização, a queda da URSS e a hegemonia norte-americana sobre o mundo com sua política neoliberal:

Talvez a característica mais impressionante do fim do século xx seja a tensão entre esse processo de globalização cada vez mais acelerado e a incapacidade conjunta das instituições públicas e do comportamento coletivo dos seres humanos de se acomodarem a ele. É curioso observar que o comportamento humano privado teve menos dificuldade para adaptar-se ao mundo da televisão por satélite, ao correio eletrônico, às férias nas Seychelles e ao emprego transoceânico.

Comentando a Terceira Revolução industrial e o fato de que atualmente os controles diretos (família, escola, igreja, fábrica) estão controlando menos que os controles indiretos (televisão, internet), Hobsbawm segue com seus comentários:

A terceira transformação, em certos aspectos a mais perturbadora, é a desintegração de velhos padrões de relacionamento social humano, e com ela, aliás, a quebra dos elos entre as gerações, quer dizer, entre passado e presente. Isso ficou muito evidente nos países mais desenvolvidos da versão ocidental de capitalismo, onde predominaram os valores de um individualismo associai absoluto, tanto nas ideologias oficiais como nas não oficiais, embora muitas vezes aqueles que defendem esses valores deplorem suas consequências sociais.

Conforme Hobsbawm, essa sociedade, formada por um conjunto de indivíduos egocentrados e sem outra conexão entre si, em busca apenas da própria satisfação (o lucro, o prazer ou seja lá o que for), estava sempre implícita na teoria capitalista. E é visível que em suas obras e entrevistas recomenda a existência de um novo sistema de valores que misturem o novo e o velho e isto se refere tanto às gerações como à tradição e inovação.

Em uma de suas entrevistas, Hobsbawm chega a afirmar que a Índia é um emergente que pode estar melhor dotado que o Brasil para o progresso, centrado no fato de que o país milenar respeita e conserva suas tradições e não se rende ao colonialismo cultural de países como os Estados Unidos tal como tem acontecido no Brasil.

Os receios que a globalização provoca quanto à soberania dos países têm aparecido em várias matérias da net 102 , bem como uma certa redescoberta de Marx perante os abusos neoliberais que pretendem desmontar a educação pública.

Essa posição tem seu equivalente no desmonte ou ênfase ao papel do Estado nas políticas públicas adotadas pelos países.

A esse respeito Hobsbawm afirma que existe um grande equívoco quando se pensa que o Estado Nacional

está perdendo importância porque ele se mantém importante perante as questões sociais, culturais. O que se releva, porém é que “em questões econômicas, o Estado Nacional se mistura com o que é, hoje, uma economia essencialmente transnacional”. 103

101 Trad. de Marcos Santarrita. 2. ed, Companhia das Letras, S. Paulo, 1996.

102 12 set. 2009, <luciano-candeia.blogspot.com/ 103 <navedahistoria.blogspot.com/

/pensando-com-hobsbawm.html>

<navedahistoria.blogspot.com/

/entrevista-com-eric-hobsbawm.html>.

Para Hobsbawm, a análise marxista ocorre neste período de crise e acontece porque “ele previu,

Para Hobsbawm, a análise marxista ocorre neste período de crise e acontece porque “ele previu, em 1848, muito mais do mundo moderno do que qualquer outro” e isto tem atraído a atenção de um grande número de pensadores para o seu trabalho.

“Se a crise ambiental global não for controlada, e o crescimento populacional estabilizado, as perspectivas são sombrias”, afirma este historiador. Ou, ainda que os efeitos das mudanças climáticas possam ser estabilizados, “produzirão enormes problemas que já são sentidos, como a crescente competição por recursos hídricos, a desertificação nas zonas tropicais e subtropicais, e a necessidade de projetos caros de controle de inundações em regiões costeiras”. Tais observações de Hobsbawm se enquadram em suas análises sobre a crise ambiental e coincidem com aqueles que, como Morin e outros (vide artigo do Jaguaribe) apontam que a sociedade industrial está sendo responsável pelos danos causados ao planeta

e à vida humana em sua “casa”.

Hobsbawn acrescenta que o historiador pode falar apenas das circunstâncias herdadas do passado. Cita que como dizia Karl Marx: a humanidade faz a sua própria história. “Como a fará e com que resultados, muitas vezes inesperados, são questões que ultrapassam o poder de previsão do historiador” 104 . E para responder a toda esta problemática, fica claro a todos que buscam respostas entre os pensadores que a educação ambiental é um ramo de ponta na educação do século XXI, mais que uma ciência emergente, uma necessidade de sobrevivência.

Sobre a crise que ora atravessa a democracia representativa, juntamente com os princípios herdados do liberalismo via Revolução Francesa, Hobsbawm também se manifesta em obras como A Era dos Impérios (1875-1914) 105 .

À pergunta se ainda valem os princípios da Igualdade, Liberdade, Fraternidade como um norte liberal para

todos no Ocidente, Hosbsbwm responde:

Mas, de certa forma, estas palavras resumem as

aspirações de muita gente comum no mundo todo. O fato de tais aspirações terem sido formuladas numa frase que se tornou clássica demonstra que a Revolução Francesa ainda é importante, como parte da política.

isto não chega a existir muito - lamento dizer

A respeito da ideia de nacionalismo estar condenada à morte perante um Estado supranacional fruto da

globalização, o historiador responde que:

a ideia de nacionalismo vem passando por mudanças. Mas não morreu. Contudo, não terá a importância central que tinha no século dezenove, quando inclusive o desenvolvimento econômico era largamente baseado na fundação de estados nacionais suficientemente grandes. E, isto não se referia necessariamente a estados étnicos ou linguísticos, no sentido em que o nacionalismo é identificado hoje. 106

104 Eric Hobsbawm: uma conversa sobre Marx, revoltas estudantis e a nova esquerda Posted on February 04, 2011 by luciouberdan www.mst.org.br › proibido estudar! 105 São Paulo: 3. ed., Paz e Terra, 1992.

106 <www.histedbr.fae.unicamp.br/

/periodo_imperial_intro.html>.

› É

A SOCIALIZAÇÃO DA RENDA SERÁ REALIZADA PELA SOCIALIZAÇÃO DO CONHE- CIMENTO? Uma das grandes promessas
A SOCIALIZAÇÃO DA RENDA SERÁ REALIZADA PELA SOCIALIZAÇÃO DO CONHE- CIMENTO? Uma das grandes promessas

A SOCIALIZAÇÃO DA RENDA SERÁ REALIZADA PELA SOCIALIZAÇÃO DO CONHE- CIMENTO?

Uma das grandes promessas do século novo é que a socialização da renda poderá ser alcançada por meio da socialização do conhecimento. Ao examinar o quadro brasileiro, nos deparamos com um cenário negativo quanto a itens importantes.

Assim, nosso país apresenta um dos piores quadros mundiais no que diz respeito à concentração de renda 107 com a questão social consequente. Dados estatísticos são convincentes, ou seja, para cada dólar que os 10% mais pobres recebem, os 10% mais ricos recebem 68. O Brasil ganha apenas da Guatemala, Suazilândia, República Centro-Africana, Serra Leoa, Botsuana, Lesoto e Namíbia. 108

Notamos na unidade anterior que, em seu esforço para emergir, o Brasil tem de contar com um IDH (Índice de de Desenvolvimento Humano) próprio de país desenvolvido. E o que seria preciso para isto?

O IDH divulgado pela ONU 109 procura aferir o avanço de uma população não apenas pela dimensão econômica oferecida pelo PIB (Produto Interno Bruto), mas também por outras informações obtidas com características sociais, culturais e políticas que podem ser assim resumidas:

Além de computar o PIB per capita, depois de corrigi-lo pelo poder de compra da moeda de cada país, o IDH também leva em conta dois outros componentes: a longevidade e a educação. Para aferir a longevidade, o indicador utiliza números de expectativa de vida ao nascer. O item educação é avaliado pelo índice de analfabetismo e pela taxa de matrícula em todos os níveis de ensino. A renda é mensurada pelo PIB per capita, em dólar PPC (paridade do poder de compra, que elimina as diferenças de custo de vida entre os países). Essas três dimensões têm a mesma importância no índice, que varia de zero a um 110 .

Segundo dados divulgados pelo PNUD (Programa das nações unidas para o desenvolvimento), nenhum país avançou mais que o Brasil no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) desde 1975. A despeito de integrar o time das dez nações mais desiguais do planeta, o Brasil conseguiu, em 26 anos, ganhar 16 posições e chegar em 2001 como 65º colocado na lista que compara as condições de vida em 175 países dos cinco continentes. Foram dez posições nas décadas de 70 e 80; duas nos anos 90; e quatro entre 2000 e 2001, informa a edição 2003 do Relatório do Desenvolvimento Humano Mundial 111 .

107 Concentração de renda é o processo pelo qual a renda, proveniente de lucro, de salário, de aluguéis (rent) e quasi-rents (como os juros oligopolísticos) - e de outros rendimentos, converge para uma mesma empresa, região ou grupo privilegiado de pessoas.

108 <pt.wikipedia.org/wiki/Concentração_de_renda>.

109 O Índice for iriado por Mahbub ul Haq com a colaboração do economista indiano Amartya Sen, ganhador do Prêmio Nobel de Economiade 1998, o IDH pretende ser uma medida geral, sintética, do desenvolvimento humano.

110 <www.dhnet.org.br/dados/idh/idh/idh_entenda_oqe.pdf>.

111 O Globo, 08/07/2003, <www.observatoriodaimprensa.com.br/

Porém, é necessário anotar o dado decepcionante: é o fator educação que puxa o Brasil

Porém, é necessário anotar o dado decepcionante: é o fator educação que puxa o Brasil para baixo,

o grande obstáculo a transpor para um país que almeja a emergência para o mundo desenvolvido, o chamado Primeiro Mundo.

Os resultados referentes à área da educação no Brasil puxaram para baixo a colocação do país no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). O Brasil ficou na 73ª posição entre 169 países avaliados. No entanto, se o IDH levasse em conta apenas a questão da escolaridade, a posição do país no ranking mundial passaria de 73 para 93.

Segundo o coordenador do Relatório de Desenvolvimento Humano Brasileiro, Flávio Comim, países como

o Peru e a Guatemala podem ser mais pobres em termos de renda, mas são mais avançados no sistema educacional. 112

A charge de Lila acompanha a matéria do 15º núcleo do CPERS (CENTRO DOS PROFESSORES DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL):

(CENTRO DOS PROFESSORES DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL): <www.cpers15nucleo.com.br/index.php?id=not748> A

<www.cpers15nucleo.com.br/index.php?id=not748>

A falta de leitura e o letramento na sequência da alfabetização são alguns dos problemas que se

apresentam para os brasileiros, um país onde, segundo se observa, a interpretação dos textos ocorre de maneira muito deficitária. E entre os principais problemas enfrentados pelo país, de maneira geral, está sua condição de emergente, um país que ainda carece de disponibilidade de capitais e os investimentos em educação ainda não atingiram o patamar satisfatório.

No Globo Educação de 16 de março de 2010, lê-se que o investimento em educação chega a 4,7% do PIB quando seria necessário um percentual muito maior. Autores nacionais como Demerval Saviani ou visitantes ilustres como Eric Hobsbaswm apontam que apesar de terem crescido em preocupação, os investimentos em educação no Brasil ainda precisam ser melhor distribuídos e aplicados.

E se o intuito é o encaminhamento da direção da uma democracia sem exclusão e maior igualdade

de oportunidade, para Saviani “as características da democracia atual com suas classes dominantes e dominadas, reforça e escola como aparelho ideológico do Estado” 113 . Como este é um importante ponto de discussão entre os pensadores contemporâneos: a crise da democracia representativa e um novo

112 <www.gestaouniversitaria.com.br/index.php?

113 SAVIANI, D. Escola e Democracia. Campinas: Autores Associados, 2005.

educacao-puxa-idh-do-brasil

>. Baixo

modelo, novas reflexões serão geradas pelo tema. Demerval Saviani (1943) Filósofo e pedagogo brasileiro

modelo, novas reflexões serão geradas pelo tema.

modelo, novas reflexões serão geradas pelo tema. Demerval Saviani (1943) Filósofo e pedagogo brasileiro

Demerval Saviani (1943) Filósofo e pedagogo brasileiro

<pt.wikipedia.org/wiki/Demerval_Saviani>

Saviani credita a má qualidade do ensino ao baixo investimento e à falta de prioridade para a educação.

E vê no PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação) uma boa iniciativa, por se preocupar com a

qualidade, mas critica o fato de o Estado estar sempre procurando fugir às suas responsabilidades, dividindo-as com outras esferas sociais, notadamente as privadas.

O foco de suas ideias constitui uma reflexão crítica e contextualizada sobre política, democracia e

sociedade, apontando para a instituição primordial de todo o processo educativo, qual seja, a escola, local de atuação dos agentes pedagógicos.

AFINAL, UMA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO

Drucker (2001) afirma que a próxima sociedade será a sociedade do conhecimento, na qual o conhecimento será o recurso primordial e os trabalhadores do conhecimento serão o grupo dominante na força de trabalho. Em consonância com esse pensador, Toffler credita à quarta onda, a onda da inteligência e do poder das ideias, a transformação definitiva para a sociedade pós-industrial. Este autor é tão otimista que imagina a possibilidade de uma quinta onda, quando a biologia se tornar independente da tecnologia. Mas, este tema pertence à futurologia e apenas podemos imaginar quão inúmeros serão seus desafios éticos.