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SÍ LVIO ROMERO (1851­1914)

Machado de Assis 1

S Í LVIO ROMERO (1851­1914) Machado de Assis 1 Vinheta do livro Hist ó ria da

Vinheta do livro Hist ó ria da Literatura Brasileira, de Silvio Romero.

JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS (1839­1908). ­ N ã o era sem raz ã o estud á ­lo precedentemente a T á vora e Taunay, porque os antecedeu nas lides liter á rias; mas como sua evolu çã o foi longa e larga, distendendo­se ap ó s a daqueles, colocamo­lo depois.

O ilustre romancista e poeta era filho do Rio de Janeiro e veio à luz no ano de 1839.

Provinha de pais pobres e atravessou dificuldades em ­eu iní cio:

come ç ou pela arte tipogr á fica.

Esta profiss ã o teve a vantagem de despertar­lhe o gosto liter á rio e p ô ­ lo em rela çã o com os escritores do tempo. Para alguma cousa serve a desfortuna econ ômica. O jovem Machado bem cedo come ç ou a freq ü entar a Petal ó gica, curiosa sociedade de homens de letras, e a livraria de Paula Brito, mesti ç o inteligente, que amparou mais de um estudante, e cuja a çã o benfazeja, naquele sentido, na literatura, mereceria um estudo especial.

1 In: ROMERO, S í lvio. Hist ó ria da literatura brasileira. 5ª Ed. Organizada e prefaciada por Nelson Romero. Rio de Janeiro: Jos é Olympio, 1954. V. 5, pp. 1617­1638.

Tendo come ç ado os seus primeiros ensaios liter á rios aos vinte anos, em 1859, at é aos trinta nada produziu que tivesse s é rio valor.

Suas obras at é 1869 s ã o de ordem t ã o secund á ria, que ele mesmo as ocultava em sua quase totalidade.

É o caso de Desencantos, fantasia dram á tica, de 1861, d' O Caminho

da Porta e d' O Protocolo, de 1863, d'Os das Deuses de Casaca, de 1865, e das pr ó prias Cris álidas, do ano anterior.

É um dec ê nio inteiro de ensaios na com é dia, na poesia, no folhetim,

no conto, n ã o falando numas poucas de tradu çõ es de mera fancaria.

N

ã o

é

tudo;

a d é cada seguinte, que chamaremos o per í odo de

transi çã o, é ainda pouco expressiva.

É l í cito, pois, afirmar que s ó depois dos quarenta anos, s ó depois de

1879, Machado de Assis assumiu nas letras p á trias o lugar em que se viu colocado, porque s ó ent ã o o seu talento achou o fil ã o mais fecundo, e seu esp í rito tomou a atitude significativa que distinguiu.

Iniciando os primeiros passos nas letras em 1859, quer isto dizer que, ao principiar, j á encontrava o romantismo brasileiro em plena flora çã o, quase é l í cito dizer, em franca decad ê ncia.

Sim, os tr ê s marcos mili ários do romantismo p á trio j á tinham sido erigidos pelas m ã os possantes da gera çã o anterior: e esses marcos eram os Suspiros Po éticos de Magalh ã es, em 1836; os Cantos de Gonç alves Dias, dez anos mais tarde, em 1846; o Guarani de Alencar, no dec ê nio seguinte, em

1856.

Ao lado destes chefes de fila, quatro companheiros em é ritos tinham j á dado a lume seus melhores escritos, Porto­Alegre, Macedo, Martins Pena,

Á lvares de Azevedo, estes ú ltimos at é falecidos, havia j á bastante tempo.

Queremos significar que a mocidade passou­a Machado de Assis entre os mo ç os da geração seguinte. Sua camaradagem foi com um grupo de ep í gonos, que é costume a í elogiar demasiado, mas que era de uma mediocridade desoladora.

O per í odo de transi ção na carreira de Machado de Assis (1869­1879) encerra alguns produtos ainda pouco significativos.

É o caso das Falenas em 1869, dos Contos Fluminenses em 1870, de Ressurrei ção em 1872, at é lai á Garcia em 1878, que j á é um belo romance, onde seu talento de observador psic ólogo e de moralista, picado por certa dose de ironia, já se expande brilhantemente.

Abre­se depois a grande fase da maturidade, que durou trinta anos, e onde avultam as Memó rias P ó stumas de Br ás Cubas, Quincas Borba, Pap é is Avulsos, Hist ó rias sem Data, V árias Hist ó rias, Dom Casmurro, Esa ú e Jacó , Relí quias de Casa Velha, Memorial de Aires.

Um estudo, mais ou menos completo, do escritor fluminense – na poesia, no conto, no romance, determinando­lhe o valor nesses dom í nios da produçã o liter á ria, e nomeadamente notando­lhe as qualidades predominantes do esp í rito, no intuito de defini­lo em tra ç os n í tidos, j á n ã o é hoje cousa que se possa fazer sem arredar previamente do caminho certos trope ç os nele postos pela cr í tica ind í gena.

Um desses é a apregoada antinomia entre a primeira e a segunda fase da carreira do ilustre autor, entre a sua antiga maneira e a que depois adotou.

Julgam geralmente que existe um valor quase invade á vel entre os dois per í odos.

A nova maneira de Machado de Assis nã o estava em completa antinomia com o seu passado, sendo apenas o desenvolvimento normal de bons germes que ele nativamente possuí a, naquilo que a nova tend ê ncia teve de bom, e o desdobramento, tamb é m normal, de certos defeitos inatos, naquilo que teve ela de mau.

O psicologismo, mais ou menos ir ônico e pessimista, do autor de Br á s Cubas, prende­se, por mais de uma raiz, ao romantismo comedido e s ó brio, cheio de certas sombras clá ssicas, que o escritor jamais abandonou.

Por outros termos, seu romantismo foi sempre, no meio da barulhada imaginativa e turbulenta dos seus velhos companheiros, pacato e ponderado, com uma porta aberta para o lado da observa çã o e da realidade; seu posterior sistema, que poderemos chamar um naturalismo de meias tintas, um psicologismo ladeado de ironias veladas e de pessimismo

sossegado, tem, por sua vez, uma janela escancarada para a banda das fantasias rom ânticas, n ã o raro das mais exageradas e a éreas.

Toda a obra do escritor é um produto sui­generis, dando­nos o exemplo duma esp é cie de ecletismo maneiroso, ponderado, discreto, em que se refletem as for ç as de um esp í rito valoroso, é certo, por é m fundamentalmente plá cido e tranq ü ilo.

Outro preconceito que é mister arredar, é o de n ã o poder o autor de laiá Garcia ser apreciado pelo crit é rio nacionalista.

Machado de Assis pode e deve ser tamb ém julgado pelo crit é rio nacionalista, que ali á s n ã o reputamos o ú nico crit é rio nestes assuntos; por mais de uma face o poeta das Falenas, o romancista de Ressurrei ção, presta­se à operação e n ã o sai amesquinhado.

A inspiração nacionalista n ã o é, ao que se repete vulgarmente, a que é mais pegada à vida nacional. Se assim fora, n ã o ter í amos dado import â ncia a Á lvares de Azevedo, Laurindo Rabelo, Aureliano Lessa, Varela, Castro Alves, Tobias Barreto, que, entre os româ nticos, est ã o na primeira fila dos poetas, j á n ã o falando no velho Cl á udio da Costa, que ocupa o primeiro posto entre os clá ssicos.

O esp í rito nacional n ã o est á estritamente na escolha do tema, na elei çã o do assunto, como se costuma supor.

N ã o é mais poss í vel hoje laborar em tal mal­entendu. O car áter

nacional, esse quid quase indefin í vel, acha­se, ao inverso, na í ndole, na intui çã o, na visualidade interna, na psicologia do escritor. Tomasse um eslavo, um russo, como Tolstoi, por exemplo, um tema brasileiro, uma hist ó ria qualquer das nossas tradi çõ es e costumes, havia de trat á ­la sempre como russo. Isto é fatal. Tomasse Machado de Assis um motivo, um assunto entre as lendas eslavas, havia de trat á ­lo sempre como brasileiro, queremos dizer, com aquela maneira de sentir e pensar, aquela vis ã o interna das cousas, aquele tique, aquele sestro especial, se assim nos podemos expressar, que s ã o o modo de representa çã o espiritual da intelig ê ncia brasileira.

N ã o h á livro menos alem ã o pelo assunto do que o Faust; nã o existe

outro mais alem ã o pelo esp í rito. O tema é universal, é humano, a execuçã o é germ ânica.

Machado de Assis n ã o sai fora da lei comum, n ã o pode sair, e ai dele se sa í sse. N ã o teria valor. Ele é um dos nossos, um genuí no representante da sub­ra ç a brasileira cruzada.

Seus romances, seus contos, suas com é dias encerram v á rios tipos brasileiros, genuinamente brasileiros, e ele n ã o ficou, ao jeito de muitos dos nossos, na decora çã o exterior do quadro; mais penetrante do que muitos desses, foi alé m, e chegou at é a criaçã o de verdadeiros tipos sociais e psicol ó gicos, que s ã o nossos em carne e osso, e essas s ã o as cria çõ es fundamentais de uma literatura. Que tal é aquele Luiz Garcia, aquele Antunes, aquela Valé ria, aquele Procó pio Dias, aquela Estela, todos estes s ó no pequeno livro de Iaiá Garcia?

Que v êm a ser aquele Carlos Maria, aquele Freitas, aquele Palha, aquela Fernanda, aquele Te ó filo, aquela Tonica, aquele Camacho, e esse

impag á vel major Siqueira, todos dessa extensa galeria de silhouettes que se

Ser á

preciso lembrar o Diplomático, esse curioso Rangel, que é um modelo do gê nero, ou certos tipos de Alienista, e da Galeria p ó stuma, t ã o brasileiros em tudo?

chama Quincas Borba? Nos contos ent ã o a messe é ainda maior

Como poeta, o autor de Br ás Cubas publicou quatro cole çõ es de versos: Cris álidas em 1864, Falenas em 1869, Americanas, em 1875, Ocidentais 2 . Sã o obras muito corretas; mas algum tanto frias.

A í ndole do talento de Machado de Assis n ã o era a de um apaixonado

e ardente poeta.

Faltava­lhe a imagina çã o vivace, alada, r á pida, apreensora, capaz de reproduzir as cenas da natureza ou da sociedade, e da í a sua incapacidade descritiva e seu desprazer pela paisagem.

A poesia do not á vel fluminense, pondo de parte certa fei çã o patri ó tica.

que se acha nas Americanas, tem tr ê s notas capitais: uma sonhadora e

2 H á uma edi ç ã o de todos estes livros num volume – Poesias completas, 1901.

pessoal, outra humorista e docemente irô nica, a terceira de certa curiosidade por cousas estranhas, por quadros afastados e peregrinos.

O livro onde melhor se acham juntas essas tr ê s notas é o das Falenas.

A primeira se encontra em Prelú dio, Ruí nas, Musa dos olhos verdes,

Sombras

Elvira

a segunda est á em Menina e mo ça, Lágrimas de cera, P álida

a ú ltima naqueles oito quadrinhos imitados da poesia chinesa 3 .

As duas primeiras feiçõ es s ã o as mais distintas, e por elas é que deve ser principalmente apreciado.

N ã o é um temperamento robusto. de órg ãos abertos para o mundo

exterior a receberem e a entornarem­lhe n'alma as sensa çõ es fortes, variadas, intensas e mult í plices da natureza e da vida universal.

N ã o conhece essa intimidade com os grandes fenô menos externos, a

camaradagem com as á rvores e os animais, a embriaguez pelas fortes cenas das montanhas, dos mares. dos campos, das matas; nem a efus ã o inebriante do espet á culo dos c é us imensos ou profundos, ou sombrios. ou brilhantes, Ou borrascosos, ou azuis, ou estrelados; nem as cenas inef á veis das manh ã s e das tardes tropicais, as mil cambiantes da paisagem, a eloq üê ncia infinita e muda, o quebranto intraduzí ve1 das noites calmas e estivais.

As sensações que nele predominam s ã o as da vis ã o, porque de prefer ência s ã o desse g ê nero as imagens que emprega; mas o colorido é sem intensos brilhos; o desenho anguloso e desigual; nada de fortes descri çõ es, de amplos quadros, de vigorosas cenas, de reprodu çõ es realistas do mundo.

Se n ão há amplamente a cor, a luz, n ã o h á tamb é m o contorno, a pl á stica, a tateação das formas, doces, puras, r ítmicas.

N ã o existe tamb é m o som, a mú sica, a soletra çã o indefiní vel que os

sonhadores pante í stas sentem emanar de tudo, evolar de todas as cousas.

O poeta é plá cido; tudo se lhe afigura tranqüilo, tudo assume fei çõ es

de quieto asilo a seus olhos. N ã o h á em nossa l í ngua autor de versos que abusasse mais destas palavras.

3 Nas Cris á lidas, as poesias do primeiro g ê nero s ã o principalmente: Musa consolatrix, Estela, Visio, Aspira çã o, Versos e Corina; do segundo, Os arlequins, As ventoinhas; do terceiro, Alpujarra.

A poesia para ele é uma abstrata mans ã o, onde habitam a esperança

e a saudade, é um ref úgio tranq ü ilo, um sossegado asilo, terra pura e

santa, onde h á um suave remé dio para os tristes, onde a musa verte seus

b á lsamos e converte as l á grimas em p é rolas, onde se transforma o viver,

acalma­se a tristeza, a dor se abranda e cala, canta a alma e suspira; enfim,

alguma causa de compar á vel à Alemanha por que sonhava a ing ê nua mo ç a, amante de Andr é Roswein, no drama Dalila de Octave Feuillet!

O estilo nas composi ções de lirismo narrativo e à s vezes nas de fei çã o

humor ística é seguro, correto, l ímpido, p ô s to que demasiado s óbrio e pouco abundante.

O vocabul ário n ão é dos mais ricos, mas é escolhido e de bom cunho.

Manh ã de inverno é um caso desses; Menina e mo ça é outro. Ou ç am as quadras da primeira:

"Coroada de né voas, surge a aurora Por detr ás das montanhas do oriente; Vê ­se um resto de sono e de pregui ç a, Nos olhos da fant á stica indolente.

Né voas enchem de um lado e de outro os morros Tristes como sinceras sepulturas, Essas que t ê m por simples ornamento Puras capelas, l ágrimas mais puras.

A

custo rompe o sol; a custo invade

O

espaço todo branco; e a luz brilhante

Fulge atrav é s do espesso nevoeiro, Como atrav é s de um v é u fulge o diamante.

Vento frio, mas brando, agita as folhas Das laranjeiras ú midas da chuva; Erma de flores. curva a planta o colo,

E o chão recebe o pranto da vi ú va.

Gelo n ão cobre o dorso das montanhas, Nem enche as folhas tr ê mulas a neve;

Galhardo mo ço. o inverno deste clima Na verde palma sua hist ó ria escreve.

Pouco a pouco dissipam­se no espaço As né voas da manh ã; j á pelos montes Vão subindo as que encheram todo o vale:

Já se v ão descobrindo os horizontes.

Sobe de­todo o pano: eis aparece Da natureza o espl ê ndido cenário;

Tudo ali preparou c'os s ábios olhos

A suprema ci ê ncia do empres ário:

Canta a orquestra dos p ássaros no mato

A sinfonia alpestre, – a voz serena

Acorda os ecos t í midos do vale:

E a divina comé dia invade a cena."

É o velho estilo do romantismo.

N ã o ficou, por é m, preso a essa escola o nosso poeta;nos ú ltimos anos

sacrificou em aras parnasianas. A esta ú ltima fase pertencem duas pequenas peç as, Cí rculo vicioso e Mosca azul, que muitos sabem de cor.

Eis aqui o Cí rculo vicioso:

"Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:

– "Quem me dera que fosse aquela loura estrela.

Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!" Mas a estrela, fitando a lua, com ci ú me:

–"Pudesse eu copiar­te o transparente lume, Que, da grega coluna à gó tica janela, Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!" Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

– "Mí sera! tivesse eu aquela enorme, aquela

Claridade imortal. que toda a luz resume!"

Mas o sol. inclinando a r útila capela:

– "Pesa­me esta brilhante aur é ola de nume Enfara­me esta azul e desmedida umbela Por que não nasci eu um simples vagalume?"

É correto e bem feito incontestavelmente. Machado de Assis ficar á , por é m, como prosador, como quem mais fundo, no Brasil, penetrou no romance e no conto os abismos d'alma humana. N ã o é pequena gl ó ria, como vamos j á ver.

O estudo da parte mais not ável da obra liter á ria de Machado de Assis,

no romance e no conto, deve ser feito em seus elementos capitais: o estilo, o humour, o pessimismo, os caracteres. A an á lise destes quatro aspectos da

obra far á conhecer a fundo o homem e o escritor. Comecemos pelo estilo.

O estilo de Machado de Assis n ão se distingue pelo colorido, pela for ç a

imaginativa da representa çã o sens í vel, pela movimenta çã o, pela abund â ncia, ou pela variedade do vocabul á rio. Suas qualidades mais eminentes s ã o a corre ção gramatical, a propriedade dos termos, a singeleza da forma.

O nosso romancista nã o tem grande fantasia representativa. Em seus

livros de prosa, como nos de versos, conforme deixamos notado, falta completamente a paisagem, falham as descri çõ es, as cenas da natureza, t ão abundantes em Alencar, e as da hist ó ria e da vida humana, t ã o not áveis em Herculano e em E ç a de Queiroz.

O estilo de Machado de Assis, sem ser notado por um forte cunho pessoal, é a fotografia exata do seu esp í rito, de sua í ndole psicol ó gica indecisa. Correto e maneiroso, nã o é vivace, nem r útilo, nem grandioso, nem eloq ü ente. É plá cido e igual, uniforme e compassado. Sente­se que o autor

n ão disp õ e profusamente, espontaneamente, do vocabul á rio e da frase. V ê ­ se que ele apalpa e tropeç a, que sofre de uma perturba çã o qualquer nos órgã os da linguagem.

Machado de Assis repisa, repete, torce e retorce tanto suas id é ias e as palavras que as vestem, que deixa­nos a impress ã o dum tal ou qual tartamudear. Esse vezo, esse sestro, tomado por uma cousa

concienciosamente praticada, elevado a uma manifesta çã o de gra ç a e humour, era o resultado de uma lacuna do romancista nos órg ãos da palavra.

É abrir ao acaso qualquer livro do prosador fIuminense. Seja o mais antigo de seus volumes de contos, e logo na primeira p á gina:

"Era conveniente ao romance que o leitor ficasse muito tempo sem saber quem era Miss Dollar. Mas, por outro lado, sem a apresentação de Miss Dollar, seria o autor obrigado a longas digressõ es, que encheriam o papel sem adiantar a aç ão. N ão há hesitaç ão poss í vel: vou apresentar­lhe Miss Dollar.

Se o leitor é rapaz e dado ao gê nio melancó lico, imagina que Miss Dollar é uma Inglesa p álida e delgada, escassa de carnes e de sangue, abrindo à flor do rosto dous grandes olhos azuis e sacudindo ao vento umas longas tran ças louras. A mo ç a em quest ão deve ser vaporosa e ideal como uma cria ção de Shakespeare; deve ser o contraste do roast­beef brit â nico, com que se alimenta a liberdade do Reino­Unido. Uma tal Miss Dollar deve ter o poeta Tennyson de cor e ler Lamartine no original; se souber o portuguê s deve deliciar­se com a leitura de Camõ es ou os Cantos de Gonç alves Dias. O chá e o leite devem ser a alimentação de semelhante criatura, adicionando­se­lhe alguns confeitos e biscoitos para acudir às urgê ncias do est ô mago. A sua fala deve ser um murmúrio de harpa e ó lia; o seu amor um desmaio, a sua vida uma contempla ção, a sua morte um suspiro.

A figura é po é tica, mas não é a da hero ína do romance.

Suponhamos que o leitor n ão é dado a estes devaneios e melancolias; nesse caso imagina uma Miss Dollar totalmente diferente da outra. Desta vez ser á uma robusta Americana, vertendo sangue pelas faces, formas arredondadas, olhos vivos e ardentes, mulher feita, refeita e perfeita.Amiga da boa mesa e do bom copo, esta Miss Dollar preferir á um quarto de carneiro a uma p áqina de Longfellow, cousa natural íssima quando o est ô mago reclama, e nunca chegar á a compreender a poesia do p ôr­do­sol. Ser á uma boa mãe de famí lia, segundo a doutrina de alguns padres­mestres da civiliza ção. isto é , fecunda e ignorante.

Já não ser á do mesmo sentir o leitor que tiver passado a segunda mocidade e vir diante de si uma velhice sem recurso. Para esse, a Miss Dollar verdadeiramente digna de ser contada em algumas paginas, seria uma boa Inglesa de cinq üenta anos, dotada com algumas mil libras esterlinas, e que, aportando ao Brasil em procura de assunto para escrever um romance, realizasse um romance verdadeiro, casando com o leitor aludido. Uma tal Miss Dollar seria incompleta se não tivesse ó culos verdes e um grande cacho de cabelo grisalho em cada fonte. Luvas de renda branca e chap é u de linho em forma de cuia. seriam a última demão deste magní fico tipo de ultramar.

Mais esperto que os outros, acode um leitor dizendo que a hero í na do romance não é nem foi Inglesa, mas Brasileira dos quatro costados,e que o nome de Miss Dollar quer dizer simplesmente que a rapariga é rica.

A descoberta seria excelente, se fosse exata; infelizmente nem esta nem as outras s ão exatas. A Miss Dollar do romance não é a menina româ ntica, nem a mulher robusta, nem a velha literata, nem a Brasileira rica. Falha dessa vez a proverbial perspicá cia dos leitores. Miss Dollar é uma cadelinha galga."

Percebe­se que n ã o h á nativa flu ência na l í ngua, nem movimento nas id é ias; é alguma cousa que nã o vem de fonte copiosa e prec í pite, por é m que escorre docemente como um veio pouco abundante, posto que l í mpido e suave. É que tal essencialmente é o esp írito do romancista. Pouco vasto, possui em alto grau a facilidade da reflex ã o. Com um punhado de id é ias pouco extensas, com um vocabul á rio que n ã o é dos mais ricos, faz muitas e repetidas voltas em torno dos fatos e das no çõ es que eles lhe deixam na inteligê ncia, orientada por um imperturb á vel bom­senso, que lhe supre a imaginação e ajuda a observa çã o que n ã o deixa de ser not á vel. O cultivo dos bons mestres da l í ngua forneceu­lhe certas formas de constru çã o e de frase que lhe imprimem ao estilo a graciosidade da corre çã o e apuro gramatical, na falta de outras qualidades mais brilhantes.

É um distinto prosador pela corre çã o, pela simplicidade, pela propriedade das imagens, pelo adequado das compara çõ es, pelo apropriado dos qualificativos.

Ele é o artista da frase m é dia, cadenciada, medida, onde a palavra é catada com peculiar interesse, o qualificativo é esmerilhado com especial apuro; onde certos e determinados voc á bulos entram como indispens á vel ornato.

Citaremos uma de suas mais belas p á ginas.

É quando descreve, em Quincas Borba, o passeio matinal de Carlos Maria, o c éptico e meio blas é Carlos Maria, no dia do seu noivado. Eis aqui esse misto de velado humorismo e discreta poesia:

" – Ainda bem que se casa! repetiu o Rubi ão.

Não se demorou o casamento: tr ês semanas. Na manh ã do dia aprazado, Carlos Maria abriu os olhos com algum espanto. Era ele mesmo que ia casar? N ão havia dúvida; mirou­se ao espelho, era ele.

Relembrou os últimos dias, a r ápida marcha dos sucessos, a realidade da afeiç ão que tinha à noiva, e, enfim, a felicidade pura que lhe ia dar. Esta derradeira idé ia enchia­o de grande e rara satisfa ção.

Ia­as ruminando ainda, a cavalo, no passeio habitual da manhã; desta vez escolhera o bairro do Engenho­Velho.

Posto se achasse costumado aos olhares admirativos, via agora em toda a gente um aspecto parecido com a noticia de que ele ia casar.As casuarinas de uma chá cara, quietas antes que ele passasse por elas, disseram­lhe cousas mui particulares, que os levianos atribuiriam à aragem que passava tamb é m, mas que os sapientes reconheciam ser nada menos que a linguagem nupcial das casuarinas.

P ássaros saltavam de um lado p;ra outro, pipilando um madrigal.Um casal de borboletas, – que os jap õ es t ê m por s í mbolo da fidelidade, por observarem que, se passam de flor em flor, andam quase sempre aos pares, – um casal delas acompanhou por muito tempo o passo do cavalo, indo pela cerca de uma chá cara que beirava o caminho, voltando aqui e ali, l épidas e amarelas.

De envolta com isto, um ar fresco, cé u azul, caras alegres de homens montados em burros, pesco ços estendidos pela janela fora das diligê ncias,

para v ê ­lo e ao seu garbo de noivo. Certo, era dif í cil crer que todos aqueles gestos e atitudes da gente, dos bichos e das árvores, exprimissem outro sentimento que n ão fosse a homenagem nupcial da natureza.

As borboletas perderam­se em uma das moitas mais densas da cerca. Seguiu­se outra chá cara, despida de árvores, port ão aberto, e ao fundo, fronteando com o port ão, uma casa velha, que encarquilhava os olhos sob a forma de cinco janelas de petoril, cansadas de perder moradores. Tamb é m elas tinham visto bodas e festins; o s é culo ainda as achou verdes de novidade e de esperança.

Não cuideis que esse aspecto contristou a alma do cavaleiro. Ao contr ário, ele possuí a o dom particular de remo ç ar as ruí nas e viver da vida primitiva das cousas. Gostou at é de ver a casa velhusca, desbotada, em contraste com as borboletas t ão vivas de há pouco.

Parou o cavalo; evocou as mulher que por ali entraram, outras galas, outros rostos, outras maneiras. Porventura as pr óprias sombras das pessoas felizes e extintas vinham agora cumpriment á­lo tamb é m, dizendo­ lhe pela boca invis í vel todos os nomes sublimes que pensavam dele. Chegou a ouvi­las e sorrir.

Mas uma voz estr í dula veio mesclar­se ao concerto: – um papagaio, em gaiola pendente da parede externa da casa: "Papagaio real, para "

Portugal: quem passa? Currup á. pap á. Grrr

As sombras fugiam, o

cavalo foi andando. Carlos Maria aborrecia o papagaio, como aborrecia o macaco, duas contrafaçõ es da pessoa humana, dizia ele.

Grrr

– A felicidade que eu lhe der ser á assim tamb é m interrompida? reflexionou andando.

Cambaxirras voaram de um para outro lado da rua e pousaram cantando a sua l íngua pr ópria: foi uma reparação. Essa l í ngua sem palavras era inteligí vel, dizia uma por ção de cousas claras e belas. Carlos Maria chegou a ver naquilo um s í mbolo de si mesmo. Quando a mulher, aturdida dos papagaios do mundo, viesse caindo de fastio, ele a faria erguer aos trilos da passarada divina, que trazia em si, idé ias de ouro, ditas por uma voz de ouro. Oh! como a tornaria feliz! Já a antevia ajoelhada, com os braços postos nos seus joelhos, a cabe ça nas mã os e os olhos nele, gratos, devotos, amorosos, toda implorativa, toda nada."

Eis a í : é o quadro mais completo, como pintura e descri çã o, que se encontra em toda a obra de Machado de Assis, em que ele mais habilmente juntou a imaginação, a poesia e o humour, em que mais docemente casou a natureza exterior a uma situa çã o d'alma humana.

Falemos agora do humorismo e pessimismo do nosso romancista.

Depois da muta ção por que, de 1870 em diante, foi passando o esp í rito dos intelectuais brasileiros, sob a influ ê ncia partida da escola de Recife, houve certo grupo de ­rom ânticos que nã o tiveram a coragem de atirar fora a velha bagagem e tomar outra nova, entrando nesse renovamento do pensar nacional pela cr í tica, e come ç aram a se mostrar amuados, displicentes, ir ônicos, desgostosos, rebuscados, misteriosos e pessimistas.

Impotentes j á , pela idade, de tomar um partido definido entre as grandes correntes filos ó ficas que dividiam o s é culo, materialismo, positivismo, evolucionismo. monismo transform ístico, hartmanismo, ficaram a burilar frases com o ar enigm á tico de faquires, falando em nome de n ã o sabemos que cousas ocultas que fingiam saber.

Neste singular grupo Machado de Assis foi chefe de fila.

Ele sentiu tamb é m, numa certa hora, o desgosto que, em momento psicol ó gico, se apoderou d'alma brasileira. Mas sentiu­o de­leve.

Pap é is Avulsos, Várias Hist ó rias, Br ás Cubas. Quincas Borba

amostras desse humorismo pacato, desse pessimismo vistoso e intencional, que atacou o espí rito p úblico,

s ã o

antes que ele tomasse gosto e jeito para passar adiante.

O humour, nestas condi çõ es, n ã o é natural e espont â neo; é um capricho, uma cousa feita segundo certas receitas e manipulaçõ es.

Ora, o humour n ã o é artefato que se possa imitar com vantagem; porque ele s ó tem real merecimento quando se confunde com a í ndole mesma do escritor.

O humorista é porque é e porque n ã o pode deixar de ser. Dickens,

Carlyle, Swift, Sterne, Heine foram humoristas fatalmente, necessariamente;

n ão podia ser por outra forma. A í ndole, a psicologia, a ra ç a, o meio tinha de faz ê ­los como foram.

Tomaz Hood, Fielding, Richter, ou qualquer dos citados acima, ningu ém de bom­senso pode acreditar que escrevessem as Americanas, Helena, Iai á Garcia, A Mão e a Luva, Ressurreiç ão, Cris álidas, isto é , seis livros onde tudo poder á existir, menos o genuíno humour, seis livros que representam um grande mortalis oevi spatium do nosso autor, sem que este desse, de longe ou de perto, o menor sinal de ocultar em si o esp írito mefistof é lico dos humoristas de ra ça.

O Machado de Assis dos ú ltimos anos era fundamentalmente o mesmo ecl é tico de trinta ou quarenta anos atr á s: meio cl á ssico, meio rom ântico. meio realista, uma esp é cie de juste­milieu liter á rio, um homem de meias tintas, de meias palavras, de meias id é ias, de meios sistemas, agravado apenas pelo vezo humor í stico, que n ã o lhe ia bem, porque n ã o ficava a car áter num â nimo t ã o calmo, t ã o sereno, t ã o sensato, t ão equilibrado, como era o autor de Tu s ó, tu, puro amor.

A manifesta ção mais aproveit á vel de seu talento foi certa aptid ã o de

observa ção comedida e a capacidade de a revestir, em suas obras, de uma forma correta e pura.

A princí pio o poeta e romancista diluí a por tudo aquilo certo lirismo, doce, suave, tranqüilo; depois teve veleidades de pensador, de fil ó sofo, e entendeu que devia polvilhar os seus artefatos de humour, e, à s vezes, de cenas com pretensã o ao horr í vel.

O temperamento, a psicologia do not á vel brasileiro nã o eram os mais

pr ó prios para produzir o humour, essa particular íssima fei çã o da í ndole de

certos povos. Nossa raç a em geral é incapaz de o produzir espontaneamente.

Nossa ra ç a produz facilmente o c ô mico, que se n ã o, deve confundir com o humour.

O c ô mico ri pelo gosto de rir, porque em tudo sabe farejar o grotesco.

O humorista ri com melancolia, quando devia chorar; ou chora com chiste,

quando devia apenas rir. A situa çã o é diversa e mais complicada do que a do esp í rito simplesmente c ô mico.

Como quer que seja, n ão se encontram em Machado de Assis os caracter í sticos do humorista descritos pelos mestres da cr í tica.

N ã o tinha aquela visualidade subjetiva da contradi çã o entre o ideal e a

realidade no mundo e no homem, que o for ç asse constantemente à nota

art í stica do humour.

N ã o tinha aquela efusã o cont í nua da sensibilidade, que tal estado d'

alma determina. N ã o possu í a aquela particular superioridade de julgamento

dos homens e das cousas, e descambava quase sempre, em seus ú ltimos livros, para o pessimismo, que n ã o é o humorismo, e algumas vezes talvez para uma esp é cie de misantropia, cousa por outro lado tamb é m diversa do pessimismo.

Se se pode tomar Lawrence Sterne como o tipo de escritor humorista e os seus livros como modelo do gê nero, n ã o h á no mundo das letras dois homens mais dessemelhantes do que o autor de Ressurreiç ão e o de Tristram Shandy, e n ã o existem obras mais diferentes do que as do autor ingl ês e as do brasileiro.

Sterne era um misto singular de volubilidade e paix ã o, de sentimentalismo e leviandade. Pastor protestante e crente na sua religiã o, era um perp é tuo namorado, metido em aventuras apaixonadas que o levaram quase ao del í rio. Filho de militar ingl ê s, conheceu a vida da caserna e das guarni ções de cidade em cidade; de fam í lia burguesa, e mais tarde pastor d' aldeia, tendo passado pela Universidade, p ô s­se em contacto com a m é dia da sociedade, onde s ã o mais tenazes as recorda çõ es e mais variados os tipos.

Da í a grande fonte em que se abeberava a sua imagina çã o travessa, o seu car áter inconstante, a sua í ndole vers á til.

Por isso é que encheu Tristram Shandy e a Viagem Sentimental de tantas cenas que s ã o verdadeiros prod ígios d'arte humor í stica e conseguiu criar dois tipos dos mais originais da literatura universal. Algumas destas cenas, como a histó ria de Le Fê vre, a morte de Yorik, os dois asnos, o asno morto de Nampont, e o de massa­p ã o, a mosca do irm ã o de Tristram, s ã o,

no dizer dos mestres, verdadeiras obras­primas. Quanto aos tipos, isto é , os dois manos Shandys. s ã o dois caracteres animados, duas cria çõ es cheias de realidade, de movimenta ção, de for ç a, de vida, em suma, que parecem dois entes tomados ao natural, tipos representativos de duas classes de seres humanos, sem abstra ção, e na mais completa espontaneidade da exist ê ncia.

Nem o nosso sensato, manso, criterioso e t ímido Machado se pareceu com Lawrence Sterne, nem ele jamais ideou nada, que lembre os dois irm ã os Shandys,

Lancemos r á pidos olhares sobre o pessimista, que se quis manifestar especialmente nas Memó rias de Br ás Cubas, no Quincas Borba e em Dom Casmurro.

Antes de tudo, uma nota que se nos antolha indispens á vel: nó s os brasileiros n ão somos em grau algum um povo de pessimistas. Em nossa alma nacional, em nossa psicologia é tnica n ã o se encontram as tremendas tend ê ncias do desalento mó rbido e de resigna çã o consciente diante da mis é ria, da mesquinhez, do nada incur ável da exist ê ncia humana.

Nas ra ç as arianas, a que supomos levianamente pertencer de­todo, mas a que de­fato s ó pertencemos em limitad í ssima parte, nas ra ç as arianas, s ó entre ind ú s e eslavos, os psic ó logos das na çõ es t êm encontrado insistentemente t ã o desoladoras tend ê ncias. Entre germ ânicos, gentes essencialmente en é rgicas, n ã o se d á o fato, senã o, por assim dizer, esporadicamente e de modo exterior, sem alcance s é rio. Tal o caso de um Schopenhauer, de um Hartmann, de um Taubert, a quem erroneamente alguns juntam, sem a m í nima raz ã o, Frederico Nietzsche, que era exatamente o contr á rio de um pessimista. O mesmo se pode dizer dos latinos com seu T á cito antigo, ou seu moderno Leopardi. N ó s brasileiros somos faladores, desrespeitadores das conveni ê ncias, assaz irrequietos, at é onde nos deixa ir nossa ing ê nita apatia de meridionais, mas n ão somos pessimistas, nem nos agrada o terr í vel desencanto de tudo, sob as formas desesperadoras dos nirvanistas à Buda ou à Schopenhauer.

Em nosso mundo ocidental os poucos verdadeiros pessimistas, os desabusados de tudo e de todos, irremediavelmente condenados a sofrer a imensa dor inapag á vel das desilus õ es, mais do que desilus õ es, verdadeira condena ção e prisã o da vida, s ã o sempre seres completamente

desequilibrados, como era Baudelaire, como era Ed. Poe, como era em parte Flaubert, como era o pr ó prio Schopenhauer.

N ã o era este precisamente o caso de Machado de Assis. Seu esp í rito

era velado, discreto, tranqüilo; mas era doce e comunicativo. N ã o andava carregado de sombras; usava de bons mots, de trocadilhos, de calembures; ria facilmente, posto que com certa reserva; sentia­se que nã o se entregava de­todo, nã o abria largamente todas as portas d'alma à curiosidade estranha; mas dava a impress ã o da calma, da serenidade.

Alguns explicam o pessimismo pela hiperestesia. Muitas vezes tal aumento consider á vel da sensibilidade conduz apenas ao humour, como foi o caso de Dickens e de Heine; ou à simples melancolia, como em Chateaubriand ou Lamartine; ou ao mero cepticismo, como em Musset e SheIley. E muitas vezes a hiperestesia, at é levada ao excesso do del írio de persegui ção, como em Rousseau, chega, ao trav é s da melancolia, a um acentuado otimismo. E, ainda mais, n ã o é raro um esp írito equilibrado, sadio, como o de Voltaire, vir a chegar, como nota final de sua concep çã o do mundo, a conclusõ es pessim í sticas. É este tamb é m o caso de Vigny. H á , pois, duas esp é cies de pessimismo, um, profundo, irredut í vel, que é tanto da cabe ça como do coração, e aparece quando se d á a conjun çã o do desmantelo da sensibilidade com certas tendências do esp í rito e da cultura filos ófica do indiv í duo; é o de Schopenhauer, Baudelaire, Leopardi, Flaubert, Byron et reliqui; outro, s ó da cabeç a, sem grandes ra í zes, meramente especulativo e sem chegar a tremendas crises que envolvam o cora çã o; e desta esp é cie é o de VoItaire e Machado de Assis.

A quest ã o do pessimismo tem de esmiu ç ar o problema da sensibilidade e da intelectualidade dos escritores, lado subjetivo do assunto, e, ao mesmo tempo, a a ção das perip é cias, das press õ es da sociedade sobre

eles, lado objetivo do fenô meno. S ó com um estudo, assim completo, sobre cada autor, poder­se­ia conhecer a natureza de sua intui çã o pessim í stica ou

n ão sobre o mundo e a exist ência.

Pelo que toca aos vaiv é ns da sociedade. bem se v ê como eles atuam diversamente sobre os homens e da í a variedade de casos que se nos deparam.

Existem os grandes felizes otimistas, o que é natural; os grandes felizes que se d ã o ao luxo de ser pessimistas, o que n ão deixa de ser muitas vezes bem singular; há os grandes sofredores pessimistas, o que é explic á vel; os grandes desgra ç ados que t ê m a generosidade de se mostrar otimistas, o que merece peculiar aten çã o. Mas a lista ainda est á bem longe de ser completa: há os sofredores. que, por circunst â ncias v á rias da sensibilidade e da intelig ência, chegam a certo pessimismo apenas teor é tico, esp é cie de protesto para uma mais perfeita organiza çã o das cousas.

Neste grupo é que se h á ­de colocar o nosso Machado de Assis.

N ã o se pode contestar nele o pessimismo, mais acentuado ainda do

que o seu humorismo; mas assim como este se agravou inutilmente em suas

ú ltimas obras com certas fó rmulas meramente convencionais, tamb é m o

seu pessimismo da ú ltima fase tem alguma cousa de exterior.

H á uma nota nas Memó rias de Br ás Cubas e noutros dos mais

recentes livros de Machado de Assis, que deve ser assinalada para completa apreciação de sua personalidade: a colora çã o de horr í vel que imprime em alguns de seus quadros.

Falta neste ponto a Machado um n ã o sabemos qu ê que é uma esp écie de impavidez na loucura, qualidade possu í da pelo grande Ed. Poe e de que é um medonho exemplo o seu Gato preto, ou um certo tom grandioso e é pico que estruge nalgumas p áginas da Casa dos Mortos de Dostoiewsky, capazes de emparelhar com algumas cenas de Dante.

Mas em l í ngua portuguesa ningu é m, no g ê nero, se elevou t ão alto quanto Machado, nem no Brasil, nem em Portugal, conv é m afirm á ­lo.

Resta, para completar o perfil do ilustre brasileiro, apreci á ­lo como criador de caracteres ou tipos. Mas, por esta face, poucas linhas bastar ã o. Machado de Assis n ã o conseguiu criar um verdadeiro e completo tipo vivo,

real, ao gosto e com a mestria dos grandes g ênios inventivos das letras. Tem, sim, alguns esbo ç os, muito bem feitos, quer gerais, quer brasileiros, mas

n ão passam de esbo ç os. N ã o existe um s ó que tenha entrado na circula çã o

com a assinatura da vida. O mesmo deu­se com Macedo, Manuel de Almeida, Franklin T á vora, Escragnolle Taunay, Bernardo Guimar ã es, Agr á rio de Meneses, e com o pr ó prio Alencar. Este logrou apenas criar tr ê s

nomes, Iracema, Peri e Moacir, que se tornaram populares; mas s ó os nomes, como j á ponderamos.

Martins Pena foi um pouco adiante e chegou a criar alguns paradigmas, esp é cies de moldes de indiv í duos das classes populares, mas puramente abstratos. Tais s ã o o do juiz­de­paz toleir ã o, o do novi ço endiabrado, o do irmão das almas velhaco e outros assim, como verdadeiras categorias sociais, n ã o como homens vivos a moverem­se na vida di á ria. Tanto é isto verdade que de tais indiv í duos ningu é m se lembra dos nomes pr ó prios e apenas vagamente das a çõ es. Macedo, como tamb é m j á foi lembrado, deu­nos o Capit ão Tibé rio. figura viva, que vai, por ém, sendo esquecida. Os tipos de Machado de Assis, quer gerais e humanos, quer mais particulares e brasileiros, n ã o lograram entrar na circula çã o tradicional.

Alguns dos indicados nas p á ginas atr á s s ã o bem interessantes; mas

n ão chegam a ser verdadeiras figuras que se gravem na mente do pú blico para sempre.

É in ú til estudar o comedió grafo e o cr í tico. N ã o tinha individualidade poderosa em nenhuma dessas especialidades. Suas com é dias s ã o contos dialogados sem vida aut ônoma, sem as vantagens da novel í stica.

Suas cr í ticas s ã o ainda contos, menos a espontaneidade da narrativa. Machado, neste ú ltimo terreno, n ão tinha a habilidade de descrever um car áter, ao gosto de Sainte­ Beuve, Taine, Macaulay, Renan, Faguet, Hennequin; nem possu í a a destreza precisa para labutar entre as id é ias e manter­se potente no meio do intrincado das doutrinas e sistemas, qualidade m áxima de Scherer. Devemos concluir, insistindo sobre o poeta, o contista, o romancista, especialmente estes dois ú ltimos.

Os melhores trechos de seus livros s ã o aqueles em que revela as qualidades de observador de costumes e de psicologista, aqueles em que d á entrada a cenas de nosso viver p á trio, de nossos usos e sestros sociais.

Infelizmente, n ã o s ã o abundantes os casos do g ê nero. Mas peguemos das pr ó prias Memó rias P ó stumas de Br á s Cubas e apreciemos pequenos quadros de nossa vida brasileira.

Aqui est á um, quando, no cap. X, Cubas fala de seu batizado e padrinhos:

"Item, n ão posso dizer nada do meu batizado, porque nada me referiram a tal respeito, a não ser que foi uma das mais galhardas festas do ano seguinte, 1806; batizei­me na igreja de São Domingos, uma terç a­feira de mar ço, dia claro, luminoso e puro, sendo padrinhos o Coronel Rodrigues de Matos e sua senhora. Um e outro descendiam de velhas famí lias do Norte e honravam deveras o sangue que lhes corria nas veias, outrora derramado na guerra contra Holanda. Cuido que os nomes de ambos foram das primeiras coisas que aprendi; e certamente os dizia com muita gra ça, ou revelava algum talento precoce, porque n ão havia pessoa estranha diante de quem me não obrigassem a recit á­los.

– Nhonhô , diga a estes senhores como é que se chama seu padrinho.

– Meu padrinho? é o Excelent í ssimo Senhor Coronel Paulo Vaz Lobo

Cé sar de Andrade e Sousa Rodrigues de Matos; minha madrinha é a Excelent í ssima Senhora D. Maria Luí sa de Macedo Resende e Sousa Rodrigues de Matos.

É muito esperto o seu menino, comentavam os ouvintes.

– Muito esperto, concordava meu pai; e os olhos babavam­se­lhe de

orgulho, e ele espalmava a mão sobre a minha cabe ç a, fitava­me longo tempo, namorado, cheio de si.

Item, comecei a andar, não sei bem quando, mas antes do tempo. Talvez por apressar a natureza, obrigavam­me cedo a agarrar às cadeiras, pegavam­ me da fralda, davam­me carrinhos de pau. – Só s ó , nhonhô , s ó s ó , dizia­me a mucama. E eu, atra ído pelo chocalho de lata, que minha mã e agitava diante de mim, l á ia para a frente, cai aqui, cai acol á; e andava, provavelmente mal, mas andava, e fiquei andando."

É delicioso, como cor local e veracidade de observa çã o.

Mais outro, tamb é m copiado ao vivo de nossos costumes do tempo da escravid ã o. É do cap. XI:

"Cresci; e nisso é que a famí lia n ão interveio; cresci naturalmente, como crescem as magnó lias e os gatos. Talvez os gatos s ão menos matreiros, e com certeza, as magnó lias s ão menos inquietas do que eu era

na minha inf ância. Um poeta dizia que o menino é pai do homem. Se isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.

Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino diabo”; e verdadeiramente n ão era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabe ça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, n ão contente com o malef ício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, n ão satisfeito da travessura, fui dizer à minha mã e que a escrava é que estragara o doce “por pirra ça”; e eu tinha apenas seis anos. Prudê ncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava­lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava­o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, – algumas vezes gemendo, – mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um – “ai, nhonhô !” – ao que eu retorquia: – “Cala a boca, besta!” – Esconder os chap é us das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscõ es nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de um gê nio indó cil, mas devo crer que eram tamb é m express õ es de um esp írito robusto, porque meu pai tinha­me em grande admira ção; e se às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia­o por simples formalidade: em particular dava­me beijos."

Outro, finalmente, aqui inserimos que traz a pintura dos tempos escolares,. na é poca dos chamados mestres r égios. O tra ç o é firme, posto que demasiado s ó brio:

"Unamos agora os p é s e demos um salto por cima da escola, a enfadonha escola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas, apanhá­las, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias, onde quer que fosse prop ício a ociosos.

Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as li çõ es

á rduas e longas, e pouco mais, muito pouco e muito leve. Só era pesada, a

Ó palmat ó ria, terror dos meus dias pueris, tu

que foste o compelle intrare com que um velho mestre, ossudo e calvo, me incutiu no cé rebro o alfabeto, a pros ó dia, a sintaxe, e o mais que ele sabia, benta palmat ó ria, t ão praguejada dos modernos, quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as minhas ignor âncias, e o meu

palmat ó ria, e ainda assim

espadim, aquele espadim de 1814, t ão superior à espada de Napole ão! Que querias tu, afinal, meu velho mestre de primeiras letras? Li ção de cor e compostura na aula; nada mais, nada menos do que quer a vida, que é das últimas letras; com a diferença que tu, se me metias medo, nunca me meteste zanga. Vejo­te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinelas de couro branco, capote, len ço na mão, calva à mostra, barba rapada; vejo­te sentar, bufar, grunhir, absorver uma pitada inicial, e chamar­nos depois à lição. E fizeste isto durante vinte e trê s anos, calado, obscuro, pontual, metido numa casinha da Rua do Piolho, sem enfadar o mundo com a tua mediocridade, at é que um dia deste o grande mergulho nas trevas, e ningué m te chorou, salvo um preto velho, – ningué m, nem eu, que te devo os rudimentos da escrita.

Chamava­se Ludgero o mestre; quero escrever­lhe o nome todo nesta

p ágina: Ludgero Barata, – um nome funesto, que servia aos meninos de

eterno mote a chufas. Um de nó s, o Quincas Borba, esse ent ão era cruel com

o pobre homem. Duas, tr ê s vezes por semana, havia de lhe deixar na

algibeira das cal ças, – umas largas cal ç as de enfiar –, ou na gaveta da mesa, ou ao p é do tinteiro, uma barata morta. Se ele a encontrava ainda nas horas da aula, dava um pulo, circulava os olhos chamejantes, dizia­nos os últimos nomes: é ramos sevandijas, capadó cios, malcriados, moleques. – Uns tremiam, outros rosnavam; o Quincas Borba, por é m, deixava­se estar quieto, com os olhos espetados no ar.

Uma flor, o Quincas Borba. Nunca em minha inf â ncia, nunca em toda

a minha vida, achei um menino mais gracioso, inventivo e travesso. Era a

flor, e n ão j á da escola, senão de toda a cidade. A mãe, viúva, com alguma coisa de seu, adorava o filho e trazia­o amimado, asseado, enfeitado, com um vistoso pajem atr ás, um pajem que nos deixava gazear a escola, ir caç ar

ninhos de p ássaros, ou perseguir lagartixas nos morros do Livramento e da Concei ção, ou simplesmente arruar, à toa, como dois peraltas sem emprego.

E de imperador! Era um gosto ver o Quincas Borba fazer de imperador nas

festas do Esp í rito Santo. De resto, nos nossos jogos pueris, ele escolhia

sempre um papel de rei, ministro, general, uma supremacia, qualquer que fosse. Tinha garbo o traquinas, e gravidade, certa magnificê ncia nas

Suspendamos a pena; não

adiantemos os sucessos. Fujamos sobretudo desse passado t ão remoto, t ão

atitudes, nos meneios. Quem diria que

coberto, ai de mim! de cruzes f únebres."

Trechos como estes, repetimos, s ã o felizmente raros nos livros do

c é lebre escritor, e é pena que o sejam.

Era um filã o que ele devia profundar esse do car áter brasileiro com suas virtudes e defeitos. Sua obra seria mais variada e mais profunda. Com tr ê s ou quatro paletadas o emé rito estilista sabia, quando queria p ôr de p é um sujeito e faz ê ­lo mover­se à nossa vista.

E com estas notas voltamos a um dos pontos donde part í ramos. O

autor de Dom Casmurro pode e deve ser tamb é m apreciado pelo crit é rio

nacionalista.

O nisus central e ativo de Machado de Assis era de brasileiro, e como

tal se revelava no car áter essencial de sua obra de mesti ç o e at é em v á rias roupagens exteriores, quando assestava a observa çã o mais diretamente para as cousas p á trias.

Cremos poder defini­lo em poucas palavras:

Machado de Assis n ã o era um sat í rico; a mais superficial leitura de

qualquer de suas obras mostra­o logo à s primeiras p á ginas. N ã o era um

c ômico, nem como dizedor de pilh é rias, nem como criador de tipos e

situa çõ es engra ç adas e equ í vocas. N ã o era tamb ém plenamente um misantropo, um dé traqué . N ã o lembra, pois, nem Juvenal, nem Martins Pena, nem Moli è re, nem de­todo Baudelaire, ou Poe, ou Dostoiewsky. N ã o era, finalmente, da raç a dos humanit á rios propagandistas e evange1izadores de povos ao gosto de Tolstoi. Era, antes, uma esp é cie de moralista complacente e doce, eivado de certa dose de contida ironia, como qualidade nativa, que de quando em quando costumava enroupar nas vestes de um peculiar humorismo, aprendido nos livros, e a que dava tamb ém por vezes uns ares de pessimismo intencional.

O que era seu, o que existia no seu esp í rito, como qualidades naturais, como bases de seu temperamento, vinham a ser o talento da an á lise psicoló gica, uma espont â nea simpatia pela dignidade humana, a facilidade de generalizar os fatos e as id é ias, o que tudo d á ao complexo de sua obra certo sainete moralizante, que o humour e o pessimismo n ã o t êm

for ç a de apagar. Possu í a, por certo, uma dose ing ê nita de ironia; mas esta

n ão podia nunca extravasar­se tumultu á ria e envenenadora, por ser sofreada pela timidez fundamental do temperamento do escritor.

Tal a razã o pela qual se deve afirmar a unidade da obra do poeta e do romancista atrav é s de seus trinta volumes de produ çã o, de seus cinq ü enta anos de trabalho. Mostra certamente em si vivos sinais de evolu çã o e progresso; mas esses nã o se fizeram como s í ntese de suas primeiras revela çõ es na arena das lides espirituais, e sim como normal continua çã o e desdobramento delas.

O progresso consistiu no melhor manejo da linguagem, na maior corre çã o do estilo, no mais apurado da observa çã o, no mais penetrante da an á lise, em algum alargamento das id é ias. N ã o se fez no sentido de transformar um tranqü ilo e apaziguado car áter num tremendo e despejado praguejador pessimista.

É verdade que a tranq ü ilidade da velhice n ã o era mais a dos anos juvenis em que o poeta escreveu as Cris álidas e os seus primeiros contos. A pr ó pria quietude de seu temperamento levou­o ao uso da introspec çã o, da medita ção solit á ria e absorvente dos espet á culos do mundo subjetivo, que é sempre misterioso. A sua tranq ü ilidade da velhice n ã o era como a das linfas mansas e rasas que espelham os c é us azulados por entre folhas e flores; era a tranqü ilidade das á guas profundas que ocultam os grandes abismos.

No coração do not ável fluminense é bem de crer que s é rias dores tenham tamb ém passado, deixando l á os sinais que nã o se apagam. S ã o as estalagmites coadas gota a gota na gruta dos sofrimentos.

Elas deviam l á estar e a obra do romancista deixa­as ver aqui e al é m no travo da frase, no lancinante dos conceitos. Mas tudo s ó brio, comedido, temperado pela brandura ing ê nita do homem. Quando, pois, o escritor d á largas ao seu pr ó prio temperamento, produz as melhores e mais espont â neas p á ginas de seus livros; quando se entrega aos preceitos e regras que aprendeu nas obras alheias, aos tiques que foi adquirindo aos poucos, resvala, algum tanto, para o extravagante e gera os tipos incertos de suposto humorismo, como Br ás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro e quejandos.

Para tudo dizer sem mais rodeios: Machado de Assis é grande quando faz a narrativa s ó bria, elegante, l í rica dos fatos que inventou ou copiou da

realidade; é menor, quando se mete a fil ó sofo pessimista e a humorista engra ç ado. 4

4 Vide de S í lvio Romero – Machado de Assis, Rio de Janeiro, 1897. – As p á ginas aqui consagradas ao ilustre fluminense s ã o uma condensa ç ã o do citado volume.