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Volume 27 • Número 4 • Outubro-Dezembro/2012

Revista Brasileira de Nutrição Clínica

Volume 27 Número 4 Out–Dez/2012

Revista Brasileira de Nutrição Clínica Volume 27 – número 4 Outubro/Dezembro de 2012 Publicação Oficial

Revista Brasileira de

Nutrição Clínica

Volume 27 – número 4 Outubro/Dezembro de 2012

Publicação Oficial Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (SBNPE) Federación Latinoamericana de Nutrición Parenteral y Enteral (FELANPE)

Indexada na base de dados LILACS – Literatura Latino- Americana e do Caribe em Ciências da Saúde

Editor Chefe:

Joel Faintuch

Editores Associados:

Josefina Bressan Mário Cícero Falcão

Corpo Editorial Nacional Antônio Carlos L. Campos Universidade Federal do Paraná – Curitiba/PR Celso Cuckier Universidade Federal de São Paulo – São Paulo/SP Carlos Daniel Magnoni Hospital do Coração – São Paulo/SP Cristina Martins Instituto Cristina Martins de Educação e Saúde – Fundação Pró-renal – Curitiba/PR Dan L. Waitzberg Faculdade de Medicina da USP – São Paulo/SP Eduardo Eiras da Rocha Hosp. Copa D’Or – Clínica São Vicente – Rio de Janeiro/RJ Helvio Chagas Ferro Santa Casa de Misericórdia de Maceió – AL Izaura Merola Faria Instituto da Criança – Curitiba/PR Jonas Moreira Cortez Hospital Porto Dias – Belém/PA José Eduardo Aguilar Nascimento Universidade Federal do Mato Grosso – Cuiabá/MT José Raimundo de Azevedo Hospital São Domingos – São Luiz do Maranhã/MA Lúcio Flávio de Alencar Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira - IMIP – Recife/PE Maria Carolina Gonçalves Dias Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP – São Paulo/SP Maria Cristina Gonzalez Universidade Católica de Pelotas – RS Maria de Lourdes Teixeira da Silva Hospital da Beneficência Portuguesa – São Paulo/SP Maria Isabel T. Davisson Correia Fundação Mário Pena – HC – Belo Horizonte/MG

Odery Ramos Júnior Universidade Federal do Paraná – Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná – Curitiba/PR Paulo Roberto Leitão de Vasconcelos Universidade Federal do Ceará – Fortaleza/CE Rosa Gaudioso Celano Universidade de Taubaté – São Paulo/SP Ricardo Guilherme Viebig Inst. de Gastroenterologia de SP (IGESP) – São Paulo/SP Ricardo S. Rosenfeld Hospital da Lagoa – Rio de Janeiro/RJ Roberto Carlos Burini UNESP – Botucatu/SP Roberto José Negrão Nogueira Universidade de Campinas – Campinas/SP Robson Freitas de Moura Escola Bahiana de Medicina – Salvador/BA Silvio José de Lucena Dantas Universidade Federal do Rio Grande do Norte – Natal/RN

Conselho Editorial Internacional Coordenador:

Angel G - Espanha Membros:

Atalah E – Chile Matos A – Panamá Baptista G – Venezuela Camilo ME – Portugal Carrasco F – Chile Crivelli A – Argentina Culebras JM – Espanha Freund H – Israel García de Lourenzo A – Espanha Klaasen J – Chile Kliger G – Argentina Perman M – Argentina Mendoza L – Paraguai O’Keefe S – USA Grijalba RF – Paraguai Shikora S – USA Sotomayor J – Colômbia Velasco N – Chile Velásquez Alva C – México

Secretária:

Angela Souza da Costa

Revisora Científica:

Rosangela Monteiro

Projeto Gráfico, Diagramação e Revisão:

Sollo Comunicação e Design

Impressão:

Prol

Faintuch J & Ramos O

Faintuch J & Ramos O Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral www.sbnpe.com.br Presidente: Odery Ramos

Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral www.sbnpe.com.br

Presidente:

Odery Ramos Junior

Vice-Presidente:

Robson Freitas de Moura

Primeiro Secretário:

Jorge Carlos Machado Curi

Segundo Secretário:

Valéria Girard F. Alves

Primeiro Tesoureiro:

Cristina Martins

Segundo Tesoureiro:

Silvio Jose de Lucena Dantas

Comitê de Defesa Profissional:

José Eduardo Aguilar Nascimento

Comitê de Nutrição:

Maria Carolina Gonçalves Dias

Comitê de Farmácia:

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Comitê de Enfermagem:

Cláudia Satiko Takemura

Comitê de Pediatria:

Eneida Quadrio de Oliveira Veiga

Comitê de Fonoaudiologia:

Maria de Fátima Lago Alvite

Membros do Comitê Educacional:

Izaura Merola Faria

Rita Medeiros

Denise Van Anholt

Suely Itsuko Ciosak

Letícia Faria Serpa

Mario Jorge Sobreira

Marcelo Gastaldi

Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral

A Revista Brasileira de Nutrição Clínica, ISSN 0103-7196, é órgão oficial de divulgação da Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (SBNPE). Tiragem: 3000 exemplares, distribuídos gratuitamente aos sócios da SBNPE.

Disponível on line: www.sbnpe.com.br

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II

Sumário

Editorial/ Editorial O mercado de trabalho para nutricionistas: qual é o futuro? Job market for dietitians: what is the future? Joel Faintuch, Odery Ramos

211

Artigos Originais/Original Articles

Cálcio, goma guar parcialmente hidrolisada e triacilglicerídeos de cadeia média interferentes na disponibilidade do ferro não-heme em soluções nutrientes

213

Calcium, partially hydrolyzed guar gum and triacylglycerols of medium chain of interfering availability of non-heme iron in nutrient solutions

Luciana Bueno, Julio Sérgio Marchini, José Eduardo Dutra de Oliveira Análise comparativa de fórmulas de estimativa de peso e altura para pacientes hospitalizados Comparative analysis of equations for estimating weight and height for hospitalized patients Elizabete Alexandre dos Santos, Roberta Nemer Camargo, Andrea Zumbini Paulo

Efeito da adição de fibras dietéticas a dietas hospitalares oferecidas a mulheres no pós-operatório de cirurgias obstétricas e ginecológicas Effect of dietary fiber addiction in hospital diets offered to women after surgery of obstetric and gynecological surgeries Sandra Soares Melo, Camila Saueressig, Jaqueline Fuchter Filipi, Daiani Reis, Patrícia Formento

Perfil antropométrico de crianças internadas em uma unidade de pediatria segundo as curvas de crescimento NCHS e OMS 235 Anthropometric profile of children admitted to a pediatric unit according to the NCHS and OMS growth charts Vivian Cardoso Assis, Thais Araújo Cavendish, Maria Hélida Guedes Logrado, Eliane Oliveira Ustra

Artigos de Revisão/Review Articles

Avaliação nutricional subjetiva proposta pelo paciente versus outros métodos de avaliação do estado nutricional em pacientes

oncológicos

Patient-generated subjective nutritional assessment versus other methods of evaluation of nutritional status in oncological patients

218

226

243

Ana Lilian Bispo dos Santos, Rebeca de Castro Marinho, Priscila Nunes Martins de Lima, Renata Costa Fortes Desnutrição em oncologia: revisão de literatura

250

Malnutrition in oncology: literature review Cristiane Amine Smiderle, Carin Weirich Métodos de avaliação da gordura abdominal

257

Methods for evaluation of abdominal fat Marina de Moraes Vasconcelos Petribú, Cláudia Porto Sabino Pinho, Poliana Coelho Cabral, Ilma Kruze Grande de Arruda, Ana Maria de Carvalho Albuquerque Melo A importância dos probióticos na microbiota intestinal humana

264

Importance of probiotics on the human intestinal microbiota Elisandra Salete Stürmer, Samuel Casasola, Maristela Comoretto Gall, Magda Comoretto Gall Contagem de carboidratos aplicado ao planejamento nutricional de pacientes com diabetes melittus

273

Carbohydrate counting applied in the nutritional plan of diabetes mellitus’s patient Bianca da Silva Oliveira, Simone Côrtes Coelho Estado nutricional e diabetes mellitus gestacional Nutritional status and gestational diabetes mellitus Vanessa Meurer Campos, Jean Carl Silva, Silmara Salete de Barros Silva Mastroeni

280

Instruções aos Autores / Instructions for Authors

285

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III

Faintuch J & Ramos O

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E

E Editorial O mercado de trabalho para nutricionistas: qual o futuro? Job market for dietitians: what

Editorial

O mercado de trabalho para nutricionistas: qual o futuro?

Job market for dietitians: what is the future?

Joel Faintuch 1 ,Odery Ramos 2

Mercado de trabalho é uma preocupação altamente individual, como também eminentemente coletiva. É relevante saber que a taxa de desemprego numa determinada ocupação é de apenas 2%, ainda que se o leitor fizer parte desses 2% a notícia nada conterá de auspiciosa. Na mesma medida, se a faixa de salários da profissão se elevou, tal informação é economicamente significativa, com a óbvia exceção daqueles que continuam recebendo a mesma remuneração.

Essas considerações seriam um tanto filosóficas e acacianas se o mundo não vivenciasse transformações tão drásticas e aceleradas. Gerações de “brazucas” e “dekasseguis” investiram anos de luta, respectivamente, nos Estados Unidos da América e no Japão, com retornos compensadores e até espetaculares. Muitos compatriotas se radicaram no exterior e mantêm seu padrão de vida. Ainda assim, quase da noite para o dia o fluxo se inverteu, e hoje o número dos que retornam excede em muito o daqueles que ainda se aventuram lá fora.

O paralelo não é apropriado e os contextos são distintos. Ainda assim, o programa Ciência sem Fronteiras, que já começou a

despejar milhares de discentes de graduação e pós-graduação em instituições estrangeiras de ensino superior, desperta em igual medida paixões e insônias. Ganhará o país? Lucrarão os bolsistas? O desempenho científico e tecnológico do profissional e das instituições nacionais será alavancado? Ou estaremos diante de mera bolha de esperança e otimismo? As dúvidas são tão grandes quanto o porte da iniciativa, e somente o futuro trará em seu bojo as respostas esperadas.

Numa abordagem mais pragmática, como se encontra o mercado de trabalho dos profissionais da nutrição clínica? Neste editorial, serão tecidas algumas considerações específicas para nutricionistas, alicerçadas em recente texto da revista da Associação Dietética Americana, que recentemente mudou de designação 1 . Como as informações relativas ao meio brasileiro são extremamente escassas, as conjecturas aqui apresentadas tanto poderão fazer muito sentido quanto se encontrarem equivocadas. Desde já, ficam colegas nutricionistas e outros interessados convidados a enviar Cartas ao Editor da RBNC, se possível com números e referências, para maior objetividade, aprovando, rejeitando ou comentando a mensagem que se segue.

Números gerais

O Escritório de Estatísticas de Trabalho Americano (U.S. Bureau of Labor Statistics) 2 assinalou, em 2010, que as nutricionistas

americanas recebiam, em média, 53.250 dólares anuais, ou pouco mais que 4.000 dólares por mês. Torna-se difícil comparar com as remunerações brasileiras, por conta de significativas diferenças de custo de vida, impostos, benefícios adicionais, como

férias, 13º salário e FGTS (nenhum desses existente nos Estados Unidos) e investimento prévio (as universidades americanas são geralmente dispendiosas).

Um diferencial é a introdução de internato e residência para nutricionistas em muitas instituições, algo já oficializado e reconhecido pelo “Accreditation Council for Nutrition and Dietetics” da “Academy of Nutrition and Dietetics”, nova designação da antiga “American Dietetic Association”. Retornando ao prisma da empregabilidade, o Escritório prevê um crescimento de 20% nos postos de trabalho até 2020, acima da média americana. Deve-se interpretar com cautela essa previsão, tendo-se em vista a recessão norte-americana e mundial, que em 2010 já se delienava, contudo não se afigurava tão profunda e longeva quanto agora.

Oferta de mão-de-obra No âmbito norte-americano, a crise não gerou redundância de nutricionistas. Ao contrário, relata-se que a demanda mantém- se um pouco maior que a oferta, algo que não parece ser verdade em nosso meio. Com a explosão de escolas superiores brasileiras nas últimas décadas, não há notícia de carência em nenhum setor das profissões da saúde. O que se tornou raridade são postos de trabalho sérios, bem estruturados e com oportunidades de progressão na carreira, porém essa é uma realidade válida para todos recém-formados, não importa a área.

1. Editor da Revista Brasileira de Nutrição Clínica.

2. Presidente da Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral.

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Faintuch J & Ramos O

Demografia Em um país etnicamente diverso como os Estados Unidos daAmérica, onde os hispânicos e os negros são minorias significativas

e,

em geral, economicamente menos favorecidas, a estratificação dos profissionais acentua tal disparidade. Assinala-se, também,

o

envelhecimento dos nutricionistas em atividade, algo certamente decorrente da escassez de mão-de-obra.

No Brasil, como sabido, os que defendem as cotas raciais nos exames vestibulares utilizam como argumento precisamente essa subrepresentação da população mestiça, negra e indígena.

Empregos na gestão e na indústria O estudo dá ciência que a proporção de nutricionistas atuando como consultores ou assessores em comércio, indústria e serviços tende ao declínio. Torna-se difícil depreender se tal se deve à retração global desses setores numa economia em recessão, ou se outros elementos ocupam vagas antes reservadas para nutricionistas.

No Brasil, escuta-se muito sobre nutricionistas se estabelecendo, individualmente ou junto a grupos organizados, na montagem de restaurantes, lanchonetes, pizzarias e estabelecimentos do gênero, porém estatísticas são quase inexistentes.

Nutrição clínica No grande país do norte, essa área se encontra em florescimento, notadamente no que tange a subespecialidades com nutrição em moléstias renais, emagrecimento ou pediatria. Enfatiza-se que esse é o terreno onde a titulação e a qualificação profissional são mais requeridas, algo pelo que a SBNPE sempre se bateu.

Ao que consta, o comércio, a indústria e os prestadores de serviços levam mais em conta a experiência empresarial que o diploma de especialista, o que se encaixa na ótica mercantil de tais estabelecimentos.

Educação, ensino e pesquisa A investigação não aborda em profundidade essas atividades, porém na medida em que muitas tarefas rotineiras são padronizadas, sendo subsequentemente delegadas para técnicos e, em grande escala, informatizadas, tende a avultar a busca por indivíduos de alto nível profissional combinado com uma mente analítica. Seriam os professores e planejadores os que

desenham os fluxogramas, interpretam as planilhas de operação e instruem sobre sua utilização. São esperados desdobramentos

e repercussões para formação e atuação de nutricionistas em todos os ambientes, desde a faculdade até à beira do leito.

Não há muito como escapar dessa implacável realidade. No futuro, todas as profissões da saúde perderão parte do seu humanismo e calor humano. Espera-se que somente uma pequena parcela, jamais a totalidade, na medida em que sofrem progressiva tecnicização e robotização.

Ocorrerá uma numerificação do trabalho, com uso e abuso de “tablets”, planilhas e computadores. Para evitar que tal “comoditização” da assistência nutricional gere distorções, riscos e monstruosidades, ao invés de benefícios assistenciais e terapêuticos, crescerá a procura por indivíduos a um tempo versados em atenção primária e gestão à distância.

Trata-se de conciliar o monstro da frieza e insensibilidade mecânica com carinho, valorização humana e orientação personalizada que todos desejam e merecem 3 . Algum gênio efetivamente conseguirá conciliar tais extremos? Não há alternativas cômodas e todos caminhos são pedregosos, o que não significa um chamado para a conformidade e a alienação. De todo modo, resta pagar para ver.

REFERÊNCIAS

1. Rogers D. Dietetics trends as reflected in various primary research projects, 1995-2011. J Acad Nutr Diet. 2012;112(3 Suppl):S64-74.

2. U.S. Bureau of Labor Statistics. Dietitians and Nutritionists. Disponível em: www.bls.gov/ooh/Heal- thcare/Dietitians-and-nutritionists.htm

3. Bogg J. Dr. Jekyll and Ms. Hide. Nature. 2007;447(7140):114.

CITE OS ARTIGOS DA REVISTA BRASILEIRA DE NUTRIÇÃO CLÍNICA NAS SUAS PUBLICAÇÕES.

AS CITAÇÕES ROBUSTECERÃO NOSSAS CHANCES DE INDEXAÇÃO.

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A

A Cálcio, goma guar parcialmente hidrolisada e triacilglicerídeos de cadeia média interferentes na disponibilidade do

Cálcio, goma guar parcialmente hidrolisada e triacilglicerídeos de cadeia média interferentes na disponibilidade do ferro não-heme em soluções nutrientes

Artigo Original

Cálcio,gomaguarparcialmentehidrolisadaetriacilglicerídeos de cadeia média interferentes na disponibilidade do ferro não-heme em soluções nutrientes

Calcium, partially hydrolyzed guar gum and triacylglycerols of medium chain of interfering availa- bility of non-heme iron in nutrient solutions

Luciana Bueno 1 Julio Sérgio Marchini 1 José Eduardo Dutra de Oliveira 1

Unitermos:

Ferro. Cálcio. Fibras na dieta.

Key words:

Iron. Calcium. Dietary fiber.

Endereço para correspondência:

Luciana Bueno Av. Bandeirantes, 3900 - Monte Alegre - Ribeirão Preto, SP, Brasil - CEP: 14048-900. E-mail: lubuenno@yahoo.com.br

Submissão 8 de maio de 2011

Aceito para publicação 21 de outubro de 2011

RESUMO O ferro é um dos nutrientes que a absorção intestinal envolve em vários processos orgânicos, entre os quais a interação com as outras substâncias presentes nos alimentos. Em trabalhos realizados pelo grupo de pesquisa, foi observado que o método in vitro pode demonstrar os efeitos antagônicos e sinérgicos que interferem na dialisibilidade de ferro nas soluções de múltiplos nutrientes que, por meio de um estudo de sobrecarga de ferro, isola o mineral para que pudesse ser realizado o presente estudo. Pelos resultados foi possível verificar que a presença de cálcio e fibras interagiu com o ferro nas formulações nutricionais e nos nutrientes avaliados, reduzindo a sua disponibilidade. Esses fatos demonstraram que o método in vitro de avaliação da biodisponibilidade de ferro pode ser uma ferramenta útil para estimar a disponibilidade de ferro em alimentos e formulações complexas de nutrientes.

ABSTRACT The iron is one of the nutrients that the intestinal absorption involves in several organic processes, such as interaction with the other present substances in foods. We have been verified for the method of the diizability in vitro antagonistic and synergic factors influence in the solutions of iron through an overload of the mineral and the balances confirm the presence of substances like calcium and fibers what they interact with the iron in foods, reducing availability of iron. Those facts show that this method in vitro of appraisal of the bioavailability of the iron is useful and it can be used to estimate of the iron in foods and complexes formulations of nutrients.

1. Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil.

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Bueno L et al.

IntroduçÃo

Estudos de interações entre nutrientes vêm sendo considerados importantes, principalmente em fórmulas

de suplementos nutricionais contendo diversos nutrientes, por serem capazes de formar compostos complexos entre

si devido às suas constituições moleculares, aliadas aos

seus potenciais de ligação química. Uma das formas de

se estudar as interações entre os nutrientes presentes em

uma formulação foi demonstrada por Bueno 1 , que aplicou

a metodologia de superfície de resposta associada ao

método in vitro de determinação da dialisabilidade de minerais para estudar as interações do ferro dialisável com o cálcio, a fibra e os triacilglicerídeos de cadeia média (TCMs) presentes na formulação nutricional. Esses estudos foram conduzidos porque em literatura tem sido demonstrado que a absorção do ferro da alimentação sofre influência de vários nutrientes que podem propi- ciar efeitos inibitórios e promotores, afetando direta- mente a sua biodisponibilidade, tendo esses efeitos potencializados pela oferta de formulações nutricionais múltiplas 1-3 . Assim, o tipo de fórmula dietética pode influenciar o estado nutricional de uma pessoa e/ou provocar o aparecimento de doenças. Recentemente, têm sido elaboradas formulações nutricionais contendo

múltiplos nutrientes, com o objetivo de suprir as necessi- dades nutricionais pela via oral ou enteral de indivíduos enfermos 4 . Dentre essas características, passam a ser importantes os questionamentos quanto às quantidades

e à qualidade dos nutrientes a serem acrescidos nas formulações nutritivas 5-7 .

Os nutrientes que são capazes de inibir a absorção de ferro são fibras, fitatos, oxalatos, fosfatos, cálcio e zinco, presentes em diversos alimentos, como cereais, grãos e verduras. Outros nutrientes que são capazes de facilitar

o aproveitamento do mineral são as proteínas de origem

animal, como cisteína, alimentos fermentados, ácido ascórbico e cítrico 6-8 . Para medir os nutrientes em formu- lações nutricionais e conhecer esses efeitos, os métodos in vitro de avaliação da disponibilidade de ferro, que cons- tituem uma simulação da digestão gástrica e duodenal, podem ser empregados. A proporção do elemento difun- dida através da membrana semipermeável, durante o processo, representa a dialisibilidade do elemento, após um período de equilíbrio, sendo utilizado como estimativa da biodisponibilidade do nutriente 9,10 .

Assim, o objetivo do presente estudo foi avaliar o cálcio, goma guar parcialmente hidrolisada e triacilglicerídeos de cadeia média na disponibilidade do ferro não-heme em soluções de nutrientes.

Método

Material

Foram elaboradas duas formulações A e B, descritos por Bueno 1 que reproduzissem a composição em nutrientes dos produtos utilizados para suplemento nutricional oral ou nutrição enteral (Tabela 1). Para o preparo dessa formulação foi utilizado isolado protéico de soja, malto- dextrina, óleos de canola, milho, lecitina de soja, goma guar parcialmente hidrolisada, misturas de minerais e vitamínicas.

Foi preparada uma solução aquosa contendo 25 mg de ferro elementar e, posteriormente, foram adicionados diversos nutrientes, como: 1) goma guar parcialmente hidro- lisada; 2) mistura salina; 3) mistura vitamínica; 4) cálcio e 5) vitamina C (Tabela 2). Independente da composição nutricional das formulações, a concentração de ferro foi mantida constante em todas as formulações testadas (25 mg). As quantidades dos nutrientes foram alteradas para demarcar os possíveis efeitos do cálcio, fibra e TCM na disponibilidade do ferro.

Tabela 1 – Composição centesimal das formulações A e B.

Componentes

Formulação A

Formulação B

Bueno 1

Proteína Total (g)

Isolado Protéico de Soja

3,10

3,10

13,34

CarboidratoTotal(g)

Maltodextrina

63,10

64,10

59,12

Gordura (g)

TCM

4,50

Óleo de Milho

1,00

7,31

Óleo de Canola

3,50

7,74

Lecitina de soja

3,00

3,00

1,30

Minerais (g)

Mistura salina

4,00

3,00

2,15

Fe (mg)

25,00

25,00

2,50

Ca (mg)

1000,00

800,00

80,00

Vitaminas (g)

Mistura vitamínica

1,00

1,00

4,30

Fibra (g)

Goma guar parcial- mente hidrolisada

25,00

25,00

4,30

Total (g)

100,00

100,00

100,00

Mistura de minerais (4/3g): Mg (15 mg), P (75 mg), K (90 mg), Zn (0,50 mg), I (0,09 mg), Mn (0,11 mg), Cu (0,08 mg), Na (60 mg)

Mistura vitamínica (1g): Vitamina A (500 µgRE), Vitamina D (4µg), Vitamina E (8 mg TE), Vitamina K (40 µg), Vitamina B1 (1 mg), Vitamina B2 (1 mg), Niacina (10 mg), Ácido Pantotênico (5 mg), Vitamina B6 (1,5 mg), Ácido Fólico (150 µg), Vitamina B12 (0,5 µg), Biotina (120 µg), Vitamina C (50 mg)

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Cálcio, goma guar parcialmente hidrolisada e triacilglicerídeos de cadeia média interferentes na disponibilidade do ferro não-heme em soluções nutrientes

 

Tabela 2 – Composição das diferentes formulações utilizadas no presente protocolo de pesquisa.

 

Formulações

Goma guar parcialmente hidrolisada (g)

Mistura salina (g)

Mistura vitamínica (g)

Cálcio (mg)

Vitamina C (mg)

TCM

Solução aquosa de ferro

-

-

-

-

-

 

Solução aquosa de ferro

25

-

-

-

-

 

+

fibra

Solução aquosa de ferro

 

3

   

-

 

+

mistura salina

Solução aquosa de ferro

   

1

-

   

+

mistura vitamínica

Solução aquosa de ferro

     

1000/800

   

+

cálcio (A/B)

Solução aquosa de ferro

       

135

 

+

vitamina C

Formulação A

25

3

1

1000

50

4,5

Formulação B

25

3

1

800

50

 

Digestão e diálise das amostras

As determinações da porcentagem de ferro dialisado nas amostras foram realizadas de acordo com a técnica descrita por Miller et al. 9 e modificado por Luten et al. 10 .

A porcentagem de ferro dialisado foi muito baixa nas formulações A e B, indicando que as quantidades dos nutrientes presentes nas formulações são importantes na bioacessibilidade do ferro em nutrientes.

Determinação do ferro total e dialisado

Para a determinação do ferro total nas soluções aquosas e nas diversas formulações testadas, foram obtidas amostras de 2 g, que foram digeridas com ácido nítrico (HNO3) e peróxido de hidrogênio (H 2 O 2 ) em proporção de 5:1, a 100 ºC, em bloco digestor (Pyrotec®). As amostras (total e dialisada) e das curvas padrões foram feitas Espectofotômetro de Absorção Atômica, marca Shimadzu® modelo AA 6200 (Shimadzu Corporation, Tokio – Japão). As soluções da curva padrão do ferro foram preparadas com o Cloreto Férrico Titrisol Merck9972, nas concentrações de 0,5, 2,0 e 4,0 µgFe/mL.

Todas as dosagens foram feitas em triplicatas e os dados são apresentados como médias e desvios padrão.

resultados

Na Tabela 3, pode-se observar que a porcentagem do ferro dialisado foi muito baixa quando se adicionou fibra e cálcio na solução aquosa de ferro, enquanto que a adição da vitamina C aumentou a porcentagem do ferro dialisado.

Tabela 3 – Média e desvio padrão da porcentagem de ferro dialisado na solução aquosa pura ou acrescida por diversos componentes e nas formulações A e B.

Formulações

Ferro dialisado (%)

Solução aquosa de ferro

70,00 ± 6,00

Solução aquosa de ferro + fibra

1,00 ± 0,01

Solução aquosa de ferro + mistura salina

2,00 ± 0,06

Solução aquosa de ferro + mistura vitamínica

25,00 ± 0,12

Solução aquosa de ferro + cálcio (A)

0,80 ± 0,02

Solução aquosa de ferro + cálcio (B)

0,70 ± 0,02

Solução aquosa de ferro + vitamina C

90,00 ± 3,00

Formulação A

0,70 ± 0,02

Formulação B

0,80 ± 0,01

Formulação descrita em Bueno 1

7,00 ± 0,40

dIsCussÃo e ConClusÃo

Estudos dessas formulações analisadas pelo método in vitro, cujo alcance da metodologia está em demons- traram a solubilidade de ligação química das moléculas de acordo com a sua afinidade por elétrons, resultaram em 0,70 ± 0,02 e 0,80 ± 0,01% de dialisibilidade de ferro, respectivamente, para as formulações A e B. Uma

solução aquosa de 25 mg de ferro mostrou dialisibilidade de 70 ± 6%. Na mesma solução de ferro em que foi adicionado o ácido ascórbico houve aumento para 90

± 3% de ferro dialisável, confirmando a sua influência

positiva na absorção do ferro, pela capacidade de alte-

ração da solubilidade do ferro em simulação da condição digestiva humana. Com a adição de fibras à solução de ferro, o valor do ferro dialisado foi de 1,00 ± 0,01%. Isso demonstrou que a fibra tem capacidade de ligação com átomos de hidrogênio, devido a sua baixa energia de ativação e, por consequência, não são capazes de formar compostos organometálicos. Com diferentes quantidades de cálcio, 800 e 1000 mg/L, os valores de ferro dialisados diminuíram para 0,80 ± 0,01% e 1,30

± 0,02%, demonstrando forte interação do cálcio na

dialisibilidade do ferro.

Van Dyck et al. 11 estudaram a influência dos compo- nentes nutricionais de formulações múltiplas na dialisibili- dade de ferro e concluíram que interferem negativamente as fibras, fitatos e cálcio. Azevedo 12 mostrou que as proporções de cálcio e ferro, variando de 50:1 a 60:1, e os componentes de fibras interferem fortemente na dialisibili- dade de ferro em formulações múltiplas. As porcentagens de ferro dialisado nessas formulações foram de 2,34 a 9,67%. Essas formulações enterais para a porcentagem

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Bueno L et al.

de ferro foram classificadas de três maneiras, sendo baixa disponibilidade para o ferro, < 5% de ferro dialisado; média disponibilidade, de 5 a 8%, e boa disponibilidade, > 8%. Bueno 1 mostrou que a solução enteral deveria conter na formulação 10 g/L de fibra, 0 (zero) de TCM, 320 mg/L de cálcio e 10 mg/L de ferro, para apresentar dialisabilidade de 7% de ferro. Ou seja, nessa mistura complexa de nutrientes, a biodisponibilidade de ferro estimada por modelagem matemática seria de 7% do ingerido, correspondente a 0,7 mg/L.

As interrelações entre os nutrientes acontecem pela composição química e molecular dos compostos, que acabam sofrendo alterações em sua solubilidade, além disso, pelo seu potencial de afinidade de elétrons e capa- cidade de ligação química são capazes de formarem entre si complexos insolúveis. A adição das fibras nas fórmulas múltiplas em nutrientes traz benefícios devido às suas características funcionais para a saúde dos pacientes que são submetidos a terapia nutricional 13,14 . Por outro lado, estudos relacionados à ação da fibra em minerais devem

ser relevantes, uma vez que a absorção desses pode ser afetada 5,15,16 . Gupta et al. 17 , ao avaliarem a biodisponibili- dade de cálcio e ferro em vegetais folhosos, pelo método in vitro de diálise, concluíram que os componentes presentes na estrutura química desses alimentos, como fibras, oxalatos, taninos e ácido fítico, são os principais interfe- rentes da biodisponibilidade de ferro. A biodisponibilidade de diversos minerais medidos pelo consumo habitual de alimentos, como trigo, arroz, milho e soja, na população chinesa, demonstrou que as quantidades de fitatos nesses alimentos propicia a formação de compostos insolúveis

e diminui a biodisponibilidade do ferro 9 . Em cereais

matinais fortificados ou não, a interação da absorção do ferro foi diminuída na presença de fibras e de outros tipos de alimentos, como o café e o leite, provavelmente pela

presença de cafeína e cálcio 18 . Kapsokefalou et al. 19 , ao compararem a solubilidade e a dialisibilidade de diversas fontes de ferro (pirofosfato, 2-glicinato, glutamato, lactado e sulfato ferroso) em amostras de leite com adição prévia de ácido ascórbico, observaram que os produtos para lactentes com menores quantidades de proteína total e cálcio na composição apresentaram disponibilidade em torno de 62% maior para o ferro que dos leites indicados para crianças maiores. Velasco-Reynold et al. 20 obser- varam in vitro que, em refeições hospitalares, os minerais magnésio e cálcio sofrem interações nos alimentos devido

a sua similaridade química, e que esses nutrientes devem

ser avaliados quanto ao seu aproveitamento dietético e seus níveis séricos nas pessoas que recebem essas refei- ções compostas.

A presença de cálcio, goma guar parcialmente hidro- lisada e triacilglicerídeos de cadeia média para o ferro

não-heme nas soluções de múltiplos nutrientes avaliados no estudo e ainda, comparados aos trabalhos anteriores de Bueno 1 , demonstrou que esses nutrientes são inter-

ferentes na disponibilidade de ferro. O efeito de altas concentrações desse nutriente pode acarretar prejuízo

à saúde de indivíduos, em comparação a formulações

previamente estudadas e, em seguida, confirmados

com os nutrientes isolados em soluções aquosas, poten- cializando esse efeito interferente pelas quantidades de nutrientes e, diretamente, podendo-se questionar

o impacto disso no aproveitamento desses nutrientes

quando ingeridos pelas pessoas em formulações múlti- plas 17-20 . As soluções de múltiplos nutrientes podem ter baixa biodisponibilidade para o ferro, que pode ser afetado, entre outros, pela oferta de fibras e do cálcio nas formulações avaliadas, que comprometem o ferro por meio das interações nutriente-nutrientes 1,2 . O método in vitro, que simula a condição digestiva humana por meio da digestão gástrica e duodenal, se mostrou capaz de medir as influências do ferro nessas formulações e em soluções aquosas com nutrientes isolados.

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local de realização do trabalho: Laboratório de Espectrometria de Massas, Departamento de Clínica Médica, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil.

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217

A

A Artigo Original Santos EA et al. Análise comparativa de fórmulas de estimativa de peso e

Artigo Original

Santos EA et al.

Análise comparativa de fórmulas de estimativa de peso e altura para pacientes hospitalizados

Comparative analysis of equations for estimating weight and height for hospitalized patients

Elizabete Alexandre dos Santos 1 Roberta Nemer Camargo 2 Andrea Zumbini Paulo 3

Unitermos:

Antropometria. Peso corporal. Altura.

Key words:

Antropometry. Body weight. Body height.

Endereço para correspondência:

Elizabete Alexandre dos Santos Av. Barro Branco, 113 - Jabaquara – São Paulo, SP, Brasil - CEP: 04324-090 E-mail: elizabetea@yahoo.com

Submissão 28 de março de 2011

Aceito para publicação 7 de outubro de 2011

RESUMO Introdução: Pacientes acamados necessitam de métodos de avaliação nutricional alternativos pela impossibilidade de aferição do peso e da altura. Nesse caso, são utilizadas fórmulas de estimativa, como as propostas por Chumlea et al. 11 , que são as mais utilizadas atualmente. Porém, em 2008, Rabito et al. 12 validaram e recomendaram duas novas fórmulas para estima- tiva de peso e altura, respectivamente, baseadas em indivíduos adultos e brasileiros. Objetivo:

Analisar e comparar as fórmulas propostas para estimativa de peso e altura, com o peso e altura real aferido de pacientes hospitalizados. Método: A amostra constitui-se de 30 pacientes, com idades entre 19 e 58 anos. Para a análise das fórmulas de estimativa, foram aferidas as seguintes medidas antropométricas: peso, altura, circunferência do braço, circunferência do abdome, circunferência da panturrilha, altura do joelho e semi-envergadura. Resultados: Dos pacientes analisados, 83,3% apresentavam HIV/AIDS e 16,7%, outras patologias. Verificou-se, no presente estudo, uma forte relação entre as medidas antropométricas e o peso e altura estimados pelas fórmulas. Nos pacientes analisados, os resultados obtidos pela fórmula de Rabito et al. 12 chegaram mais próximos do peso real dos pacientes. Em relação à altura, as fórmulas de Chumlea et al. 11 chegaram mais próximas do valor real. Conclusão: Mais estudos devem ser realizados com uma amostra maior de pacientes, de preferência brasileiros e adultos. Na prática, deve ser utilizada a fórmula que melhor se adeque à rotina hospitalar, tendo como principal objetivo a recuperação e a manutenção do estado nutricional do paciente.

ABSTRACT Introduction: Bedridden patients require alternative methods of nutritional assessment by the impossibility of measuring weight and height. In this case, equations are used to estimate as those proposed by Chumlea et al. 11 , that are most currently used. However, in 2008, Rabito et al. 12 validated and recommended two equations to estimate weight and height, respectively, based on Brazilian and adults persons. Objective: Analyze and compare the proposed equations for estimating weight and height, with the real weight and height measured fromhospitalized patients. Methods: The sample consisted of 30 patients, aged from 19 and 58 years. In order to analyze the equations, weight, height, arm circumference, abdominal circumference, calf circumference, knee height and half-arm span were measured. Results: Of the studied patients, 83.3% had HIV/ AIDS and 16.7% another diseases. It was found in this study a strong relationship between anthro- pometric measures and weight and height estimated by the formulas. In the analyzed patients, the results obtained by the Rabito et al. 12 formula came closest to the real weight of the patients. In relation to height, Chumlea et al. 11 formulas came closest to the real value. Conclusion: More studies should be conducted with a larger sample of patients, preferably Brazilian and adults. In practice should be used the equation that best suits the hospital routine, with the main objective the recovery and maintenance of nutritional status of the patient.

1. Nutricionista, Graduada pelo Centro Universitário São Camilo, Aprimoranda em Nutrição Hospitalar pelo Instituto de Infectologia Emílio Ribas, São Paulo, SP, Brasil.

2. Nutricionista, Especialista em Nutrição Clínica pelo Centro Universitário São Camilo, Suplente da Coordenadora do Programa de Aprimoramento em Nutrição Hospitalar do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, São Paulo, SP, Brasil.

3. Nutricionista, Mestre em Ciências da Saúde pela UNIFESP-EPM, Diretora Técnica do Serviço de Nutrição e Coordenadora do Programa de Aprimoramento em Nutrição Hospitalar do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, São Paulo, SP, Brasil.

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218

Análise comparativa de fórmulas de estimativa de peso e altura para pacientes hospitalizados

Introdução

No ambiente hospitalar, é muito comum que os pacientes

sofram com a deterioração do seu estado nutricional. O

paciente hospitalizado é nutricionalmente vulnerável devido

a uma série de fatores, decorrentes de mudanças na ingestão

alimentar após a internação, ou pela presença de um estado catabólico relacionado à doença em curso¹.

O estado nutricional de pacientes hospitalizados influi

diretamente em sua evolução clínica 2 . A desnutrição é frequentemente encontrada em hospitais e estudos demons- tram que 40% dos pacientes encontram-se desnutridos no momento da admissão e cerca de 75% perdem peso durante

o período de internação. Dessa forma, a detecção precoce

do risco nutricional e da desnutrição pode ser decisiva para

a sobrevida do paciente 3,4 .De acordo com Kondrup 5 , a causa primária da desnutrição em hospitais é a demanda aumen- tada ou modificada das necessidades nutricionais decorrentes da doença e, ao mesmo tempo, da redução do apetite.

Assim, para a oferta de um suporte nutricional adequado,

a avaliação do estado nutricional é imprescindível, sendo

importante que o profissional tenha acesso a técnicas rápidas

e de baixo custo e a métodos precisos que forneçam um diagnóstico confiável 6 .

A avaliação do estado nutricional tem como objetivo identificar os distúrbios nutricionais, possibilitando uma intervenção adequada, de forma a auxiliar na recuperação e/ou manutenção do estado de saúde do indivíduo e deve preferencialmente ser realizada nas primeiras 24 horas de internação hospitalar 7 . Diversos métodos podem ser utilizados para avaliar o estado nutricional, como: antro- pometria, parâmetros bioquímicos, consumo alimentar, exame físico e avaliação subjetiva global 8 . Dentre esses métodos, a antropometria é um dos mais utilizados para verificar as alterações nutricionais que ocorrem frequen- temente em pacientes hospitalizados. Trata-se de um dos indicadores diretos do estado nutricional e apresenta as vantagens de não ser invasiva, de fácil execução, baixo custo e alta confiabilidade. Porém, sofre interferência em sua acurácia em situações limítrofes do estado nutricional, como na presença de ascite ou edema e exige a padro- nização de procedimentos e a manutenção periódica dos equipamentos 9 .

O peso é a medida antropométrica mais simples e

habitualmente aferida. É a soma de todos os componentes corpóreos e reflete o equilíbrio protéico-energético do indi- víduo. A altura é bastante utilizada para o cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC), das necessidades energéticas e de alguns métodos de determinação da composição corporal 9 . Assim, por meio do peso e da altura é possível obter o IMC, que é o indicador mais simples do estado nutricional, sendo essencial para o diagnóstico nutricional inicial do paciente,

para a escolha de medidas terapêuticas a serem utilizadas

e para a monitorização do estado de saúde de indivíduos, principalmente daqueles hospitalizados 6,8 .

Porém, algumas situações podem necessitar de métodos de avaliação nutricional alternativos, pela impossibilidade de mensuração do peso ou da altura 10 : pacientes acamados que não deambulam (devido a procedimentos cirúrgicos de grande extensão, ou devido a algumas patologias), indiví- duos amputados e politraumatismo 9 . Dessa forma, algumas fórmulas de estimativa são propostas pela literatura para que se possa obter o peso e a altura desses pacientes.

Atualmente, as fórmulas mais utilizadas para estimar

o peso e altura de indivíduos acamados são as propostas

por Chumlea et al. 11 , porém essas fórmulas foram criadas tendo como referência indivíduos americanos e, portanto, de acordo com Rabito et al. 12 , não se aplicariam a indiví-

duos brasileiros, diante da diversidade étnica presente em nosso país. Assim, esses mesmos autores desenvolveram, no ano de 2006, cinco fórmulas para estimativa de peso

e altura, baseadas em indivíduos adultos, brasileiros. Em

2008, Rabito et al. 13 realizaram um novo estudo com obje- tivo de validar as equações desenvolvidas e compará-las às equações já descritas por Chumlea et al. 14,15 . As equações desenvolvidas anteriormente foram validadas e duas delas foram recomendadas para estimativa de peso e altura, visto que essas equações poderiam ser facilmente utilizadas e sua significância estatística foi alta para a amostra de indivíduos brasileiros estudados 13 .

Portanto, tendo em vista que o peso e a altura de pacientes

hospitalizados são utilizados não somente para o diagnóstico nutricional e para o cálculo das necessidades nutricionais do paciente, mas também para a prescrição de medica- mentos nas doses adequadas, torna-se necessário que as fórmulas propostas por ambos os autores sejam analisadas

e comparadas.

O objetivo do presente estudo é analisar e comparar as

fórmulas propostas pela literatura para estimativa de peso

e altura, com o peso e altura real aferidos de pacientes hospitalizados.

Método

Trata-se de um estudo epidemiológico, de caráter trans- versal, realizado no Instituto de Infectologia Emílio Ribas (IIER-SP), no período de maio a outubro de 2010.

A amostra constituiu-se de 30 pacientes adultos, inter-

nados nas unidades de internação do Instituto, de acordo com os critérios de inclusão e exclusão. Foram considerados critérios de inclusão: pacientes deambulantes, idade acima de 19 anos e abaixo de 59 anos (adultos); não ser gestante ou puérpera; não possuir edema, ou anasarca; não possuir

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Santos EA et al.

membros amputados; não possuir doenças hepáticas, não possuir linfomas ou tumores sólidos e não estar com hidra- tação intravenosa.

Inicialmente foi realizado um levantamento no prontuário médico dos pacientes e na ficha de triagem nutricional, a fim

de se obter o diagnóstico, a idade, e verificar a presença de fatores que pudessem excluí-los do estudo. Em seguida, os pacientes que se enquadraram nos critérios de inclusão foram abordados em seus leitos e questionados se realmente pode- riam deambular e permanecer em pé para a mensuração do peso e para a realização das medidas antropométricas. Assim, os pacientes selecionados foram esclarecidos sobre

o

estudo e sobre os procedimentos da coleta e assinaram

o

Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Em

seguida, foram coletadas as seguintes medidas antropomé-

tricas: peso, altura, circunferência do braço, circunferência do abdome, circunferência da panturrilha, altura do joelho

e semi-envergadura.

O peso foi aferido em uma balança analógica, com capacidade máxima de 130 kg e divisão de 100 g, com os indivíduos descalços, usando roupas leves (camiseta e calça fornecidas aos pacientes pelo próprio hospital).

A altura foi aferida com auxílio de um estadiômetro fixo ao chão, com extensão de 2,05 m, dividido em centímetros

e subdividido em milímetro, com esquadro acoplado a uma

das extremidades. O paciente deveria ficar em pé, descalço, com os calcanhares juntos, costas retas e os braços esten- didos ao longo do corpo 8 .

Para obtenção das circunferências, da altura do joelho e da medida da semi-envergadura, foi utilizada uma fita métrica inelástica graduada em centímetros, com extensão de 150 cm.

A circunferência do braço (CB) foi realizada com o

paciente em pé e medida no braço não dominante. O braço do paciente foi flexionado em direção ao tórax, formando um ângulo de 90º. Foi localizado o ponto médio entre o acrômio e o olécrano e solicitou-se ao paciente que ficasse com o braço estendido ao longo do corpo com a palma da mão voltada para a coxa. Em seguida, contornou-se o braço com a fita métrica no ponto marcado de forma ajustada,

evitando-se a compressão da pele ou folga 8 .

A circunferência do abdome (CA) foi mensurada com o

paciente em pé, de forma ereta, olhando para frente e com os braços estendidos paralelamente ao corpo, com as palmas da mão voltadas para ele. Foi localizado o ponto médio entre

a última costela e a crista ilíaca do lado direito e do lado

esquerdo do corpo. Em seguida, a fita métrica foi circun- dada ao redor do corpo, mantendo-a justa, sem comprimir os tecidos e a leitura foi feita no momento da expiração 8,16 .

A circunferência da panturrilha (CP) foi aferida com o

paciente sentado, com a perna esquerda formando um ângulo de 90º com o joelho. A mensuração foi realizada

na maior porção da região da panturrilha, sem comprimí- la e com a fita em posição perpendicular em relação à panturrilha 16 .

A altura do joelho (AJ) foi medida na perna esquerda,

com o paciente sentado, em posição supina, de maneira a formar um ângulo de 90º entre o joelho e a coxa e entre

o pé e a perna. Em seguida, posicionou-se a fita métrica e

mediu-se a distância entre a cabeça da patela (rótula) e a

base do calcanhar 6,16 .

A medida da semi-envergadura (SE) foi realizada com o

paciente em pé, com o braço esquerdo formando um ângulo de 90º com o corpo. Dessa forma, localizou-se a ponta da clavícula

direita, na incisura esternal. O paciente deveria estender o braço esquerdo em posição horizontal alinhado com os ombros, com

o pulso reto. Com a fita métrica, passando paralelamente à

clavícula, mediu-se a distância entre a linha mediana na incisura esternal até a ponta do dedo médio 6,17 .

Após a obtenção das medidas antropométricas foram calculados os pesos e as alturas estimadas dos pacientes com

as fórmulas de Chumlea et al. 11 e Rabito et al. 12 (Tabelas 1 e 2). Em seguida, foi calculado o Índice de Massa Corporal (IMC), com o peso e a altura reais, quanto com as medidas estimadas, por meio da fórmula: IMC=Peso (kg)/Altura (m²) e

a classificação do estado nutricional foi feita de acordo com os pontos de corte preconizados pela Organização Mundial de Saúde (WHO) 18 , para ambos os gêneros.

Todos os dados coletados e valores obtidos por meio das fórmulas foram transcritos para uma tabela elaborada no software Excel ® 2007 e assim foram verificadas as medidas antropométricas encontradas, bem como os valores obtidos após a aplicação das fórmulas de estimativa. Dessa forma, foram feitas as médias das variáveis e, posteriormente, as análises percentuais dos dados encontrados. O estudo foi iniciado após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), sob o protocolo de número 24/10.

Tabela 1 – Descrição das equações para estimativa de peso comparadas neste estudo, São Paulo, 2010.

Equações para estimativa de peso (kg)

Chumlea et al. 11

Gênero Feminino:

19-59 anos (Negra) = (AJ X 1,24) + (CB x 2,97) – 82,48

19-59 anos (Branca) = (AJ X 1,01) + (CB X 2,81) – 66,04

Gênero Masculino:

19-59 anos (Negro) = (AJ X 1,09)+ (CB X 3,14) – 83,72

19-59 anos (Branco) = (AJ X 1,19) + (CB X 3,21) – 86,82

Rabito et al. 12

0,5759 (CB) + 0,5263 (CA) + 1,2452 (CP) – 4,8689 (G) – 32,9241 Sendo:

G= Gênero

Gênero masculino = 1

Gênero feminino= 2

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220

Análise comparativa de fórmulas de estimativa de peso e altura para pacientes hospitalizados

Tabela 2 – Descrição das equações para estimativa de altura comparadas neste estudo, São Paulo, 2010.

Equações para estimativa de altura (m)

Chumlea et al. 11

Gênero Feminino:

19-59 anos (Negra) = 68,10 + (1,86 X AJ) – (0,06 X id*)

19-59 anos (Branca) = 70,25 + (1,87 X AJ) – (0,06 X id*)

Gênero Masculino:

19-59 anos (Negro) = 73,42 + (1,79 X AJ)

19-59 anos (Branco) = 71,85 + (1,88 X AJ)

Rabito et al. 12

63,525 – 3, 237(G) – 0, 06904 (id*) + 1, 293 (SE)

Sendo:

Gênero masculino = 1

Gênero feminino= 2

*id= idade

resultados

Foram analisados 30 pacientes, sendo 10 (33,3%) do gênero feminino e 20 (66,7%) do gênero masculino (Figura 1). A média de idade foi de 38 anos. A caracterização dos pacientes de acordo com a idade e parâmetros antropomé- tricos é apresentada na Tabela 3.

No que se refere às doenças dos pacientes anali- sados, 83,3% apresentavam HIV/AIDS e 16,7%, outras doenças, dentre elas meningite e dengue, por exemplo (Figura 2).

Em relação às medidas antropométricas necessá- rias à aplicação das fórmulas, verificou-se no presente estudo forte relação entre a circunferência do braço e

o peso estimado na fórmula de Chumlea et al. 11 . Ou

seja, quanto maior a CB, maior foi o peso estimado e vice-versa. Isso pode ser observado quando analisamos

o maior e o menor valor de CB encontrados e os respec-

tivos pesos obtidos com a fórmula (Tabela 4). O mesmo ocorreu com a fórmula de Rabito et al. 12 em relação à CP: quanto maior a CP, maior o peso estimado (Tabela 5). A AJ e a semi-envergadura relacionaram-se com a

altura estimada obtida pelas fórmulas de Chumlea et al. 11 e Rabito et al. 12 , respectivamente (Tabelas 6 e 7).

A CA foi a única medida antropométrica que não se

relacionou com o peso e com a altura dos pacientes analisados.

A diferença média de peso para mais ou para menos foi

de 6,14 kg com a fórmula de Chumlea et al. 11 e de 3,20 kg, com a fórmula de Rabito et al. 12 . A diferença média de altura para mais ou para menos foi de 0,03 cm com a fórmula de Chumlea et al. 11 e de 0,05 cm com a fórmula de Rabito

et al. 12 . Assim, observou-se que nos pacientes analisados os

resultados obtidos pelas fórmulas de Rabito et al. 12 chegaram mais próximos do peso real dos pacientes. Por outro lado, no

se refere à altura, as fórmulas de Chumlea et al. 11 chegaram mais próximas do valor real. Isso pode ser verificado quando as médias de peso e altura reais e estimadas são observadas (Figuras 3 e 4).

Por fim, realizou-se a classificação do estado nutricional por meio dos valores de IMC real e estimado. Verificou- se que os valores de IMC baseados no peso e na altura estimada, pela equação proposta por Chumlea et al. 11 , superestimaram o número de pacientes desnutridos. Os valores de IMC baseados na equação proposta por Rabito et al. 12 superestimaram o número de pacientes eutróficos. Ambas as equações subestimaram o número de pacientes com sobrepeso (Tabela 8).

o número de pacientes com sobrepeso (Tabela 8). Figura 1 - Percentual de pacientes analisados de

Figura 1 - Percentual de pacientes analisados de acordo com o gênero, São Paulo, 2010.

Tabela 3 – Caracterização dos pacientes de acordo com a idade e parâmetros antropométricos, São Paulo, 2010.

Variáveis

Média

Mínimo-Máximo

Idade (anos)

38

19,00-58,00

Peso aferido (kg)

61,18

38,00-89,80

Altura aferida (cm)

1, 69

1,48- 1,86

IMC real (kg/m²)

21,36

13,18- 28,99

CB (cm)

25,20

17,50- 33,50

CA (cm)

78,82

56,00- 101,50

CP (cm)

33,25

25,00- 41,00

AJ (cm)

51,17

43,00- 56,00

SE (cm)

82,68

70,00- 92,00

Peso estimado (Chumlea et al. 11 )

55,04

27,37- 88,01

Peso estimado (Rabito et al. 12 )

57,98

32,89- 85,40

Altura estimada (Chumlea et al. 11 )

1,66

1,47- 1,77

Altura estimada (Rabito et al. 12 )

1,63

1,44- 1,76

IMC estimado (Chumlea et al. 11 )

19,91

9,98- 30,26

IMC estimado (Rabito et al. 12 )

21,61

12,08- 28,83

estimado (Rabito et al. 1 2 ) 21,61 12,08- 28,83 Figura 2 - Percentual de pacientes

Figura 2 - Percentual de pacientes analisados de acordo com o diagnóstico, São Paulo, 2010.

Rev Bras Nutr Clin 2012; 27 (4): 218-25

221

Santos EA et al.

Tabela 4 – Relação entre CB e peso estimado pela fórmula de Chumlea et al 11 , São Paulo, 2010.

Paciente

CB

Peso estimado

Maior valor

35 cm

88,01 kg

Menor valor

17,5 cm

27,37 kg

Tabela 5 – Relação entre CP e peso estimado pela fórmula de Rabito et al. 12 , São Paulo, 2010.

Paciente

CP

Peso estimado

Maior valor

41

cm

85,40 kg

Menor valor

25

cm

32,89 kg

Tabela 6 – Relação entre AJ e altura estimada pela fórmula de Chumlea et al. 11 , São Paulo, 2010.

Paciente

AJ

Altura estimada

Maior valor

58

cm

1,77 m

Menor valor

43

cm

1,47 m

Tabela 7 – Relação entre SE e altura estimada pela fórmula de Rabito et al. 12 , São Paulo, 2010.

Paciente

SE

Altura estimada

Maior valor

92

cm

1,76 m

Menor valor

70

cm

1,44 m

92 cm 1,76 m Menor valor 70 cm 1,44 m Figura 3 - Comparação entre as

Figura 3 - Comparação entre as médias de peso real e estimado nos pacientes analisados, São Paulo, 2010.

real e estimado nos pacientes analisados, São Paulo, 2010. Figura 4 - Comparação entre as médias

Figura 4 - Comparação entre as médias de altura real e estimada nos pacientes analisados, São Paulo, 2010.

Tabela 8 – Estado nutricional de acordo com o IMC real e estimado, São Paulo, 2010.

 

IMC Real

IMC Estimado Chumlea et al. 11

IMC Estimado Rabito et al. 12

Desnutridos IMC < 18

7

(23,3%)

10

(33,3%)

7

(23,3%)

Eutróficos IMC entre 18,5- 24,99

15 (50%)

14

(46,7%)

16 (53,3%)

Sobrepeso IMC entre 25- 29,99

8

(26,7%)

6 (20%)

7

(23,3%)

dIscussão

Deve-se destacar que, no presente estudo, mais de

80% dos pacientes avaliados possuem HIV/AIDS. Nesses indivíduos, um bom estado nutricional é fundamental, pois auxilia na manutenção do sistema imunológico, protegendo o organismo contra possíveis infecções 19 . A avaliação do estado nutricional nesses pacientes tem como objetivo a identificação de possíveis distúrbios nutricionais, utilizando- se principalmente de métodos objetivos, como a avaliação

antropométrica 20 .

Embora ainda não tenha sido criado e padronizado um protocolo específico para a avaliação nutricional de pacientes com HIV/AIDS, o monitoramento da evolução de parâmetros antropométricos, como peso, IMC, circun- ferência do abdome e pregas cutâneas, pode trazer informações úteis para o diagnóstico precoce de altera- ções morfológicas secundárias à terapia antirretroviral,

tendo em vista que essas alterações corporais têm sido

frequentemente relatadas, especialmente no que se refere à redistribuição da gordura corporal 21, 22 .

De qualquer forma, independente da presença do HIV/ AIDS, todo paciente hospitalizado deve ter seu diagnós- tico nutricional realizado adequadamente. Os resultados deste estudo demonstraram que a fórmula que chegou mais próxima do peso real dos pacientes foi a proposta por Rabito et al. 12 . Sabe-se que o peso é de grande importância na prática clínica devido à sua utilização na avaliação do gasto energético e à sua associação com morbimortalidade 6 . A fórmula de Chumlea et al. 11 foi a que chegou mais próximo da altura real dos pacientes, sendo essa medida de suma importância, visto que é essencial na determinação do estado nutricional.

No presente estudo, a avaliação do estado nutri- cional por meio do IMC real e estimado apresentou dife- renças significativas. As fórmulas de ambos os autores subestimaram o número de pacientes com sobrepeso. Porém, a fórmula de Chumlea et al. 11 superestimou o número de pacientes desnutridos e a de Rabito et al. 12 , de eutróficos. Os dois extremos do IMC estão associados com maior risco de morbimortalidade: o IMC abaixo da normalidade está associado com morte por tuberculose,

Rev Bras Nutr Clin 2012; 27 (4): 218-25

222

Análise comparativa de fórmulas de estimativa de peso e altura para pacientes hospitalizados

câncer pulmonar e doença pulmonar obstrutiva crônica, sendo IMC igual a 12 kg/m 2 considerado limite mínimo para sobrevivência humana. O IMC alto relaciona-se com morte por doenças cardiovasculares, diabetes e câncer 23 .

Rezende et al. 6 realizaram um estudo com 98 homens saudáveis, com idades entre 20 e 58 anos, com objetivo

de avaliar a validade de fórmulas preditivas de peso e de

altura e a composição corporal. Foram utilizadas as fórmulas propostas por Chumlea et al. 11,24 para indivíduos idosos e adultos e verificou-se que o peso estimado diferiu significan-

temente do peso aferido. Apenas a equação de estimativa

de altura validada para homens brancos adultos mostrou-se

adequada. Tanto a medida de envergadura quanto a de semi-envergadura resultaram em superestimação da altura

aferida. Além disso, realizou-se a classificação do estado nutricional pelos valores de IMC real e estimado, e verificou-

se que os valores de IMC baseados na altura estimada,

tanto pela medida de envergadura e de semi-envergadura quanto pela equação proposta para idosos por Chumlea et al. 24 , superestimaram o número de indivíduos com baixo peso e eutróficos e subestimaram o número de indivíduos com sobrepeso.

Em estudo realizado por Sampaio et al. 25 , na Divisão

de Saúde da Universidade Federal de Viçosa (MG), com

objetivo de comparar diferentes fórmulas de estimativa

de peso e de altura com as medidas reais em pacientes

adultos e idosos em um hospital, foram utilizadas a fórmulas propostas por Chumlea et al. 14,24 . Observou-se que não houve diferença significativa nas medidas reais e estimadas de peso entre os pacientes adultos. Já quanto à altura, verificou-se uma diferença bastante significativa, segundo ambas as fórmulas, evidenciando que as mesmas não se equivalem. Tal diferença repercutiu no IMC, que também apontou diferença estatística.

Dock-Nascimento et al. 26 realizaram um estudo com

os seguintes objetivos: calcular as medidas estimadas pela

fórmula de Chumlea et al. 15 , avaliar a correlação dessas

medidas com as reais e identificar o estado nutricional utilizando tanto as medidas estimadas quanto as reais em 150 pacientes internados em tratamento de câncer. Os resultados deste estudo demonstraram que tanto a altura quanto o peso estimado foram semelhantes à medida real.

O uso do peso e da altura estimada, para determinar o

diagnóstico nutricional dos pacientes estudados, levou a um aumento no percentual de pacientes desnutridos. Tanto para o cálculo do IMC quanto para a relação envolvendo o peso habitual, o número de pacientes desnutridos foi maior do

que quando o peso e a altura real foram utilizados.

No que se refere às medidas antropométricas, como citado anteriormente, a CB e a CP relacionaram-se como

peso dos pacientes. A medida da CB têm sido um indicativo do estado nutricional em indivíduos de diferentes faixas

etárias. Essa medida é bastante útil na presença de ascite

e edema, representando a soma das áreas constituídas

pelos tecidos ósseos, muscular e gorduroso do braço 27 . Contudo, em função de sua inespecificidade, a utilização

de tal medida como fator único de avaliação do estado nutricional pode não apontar de maneira objetiva a quan- tidade de gordura ou de massa magra desse segmento corporal 28 .

A CP, de acordo com a WHO 18 , é aquela que fornece a medida mais sensível da massa muscular nos idosos. É particularmente recomendada na avaliação nutricional de pacientes acamados e deverá ser consi- derada adequada quando a circunferência for igual ou superior a 31 cm para homens e mulheres 29 . Também pode ser utilizada em adultos, porém estudos devem ser realizados para avaliar a aplicabilidade dessa medida, nessa faixa etária.

Por outro lado, a AJ e a semi-envergadura relacionaram-

se com a altura dos pacientes analisados. A AJ é considerada

uma, medida confiável, pois é fácil de mensurar, esteja o indivíduo sentado ou em uma posição reclinada, indepen- dente da sua mobilidade 30 .

A envergadura corresponde à maior distância entre as pontas dos dedos médios de cada mão, medida com os braços esticados na horizontal, e tem sido bastante utili- zada na avaliação nutricional de adultos com idades entre 18 e 50 anos e em idosos hospitalizados 31 . A medida da semi-envergadura tem sido utilizada como uma alterna- tiva de altura em alguns estudos epidemiológicos, prin- cipalmente entre idosos. Essa medida tem sido incluída em instrumentos de avaliação nutricional para identificar pacientes em risco de desnutrição quando a mensuração da altura não é possível. Entretanto, ainda não está claro se a semi-envergadura deve ser utilizada na ausência da altura real dos pacientes 31 .

Cape et al. 17 realizaram estudo com objetivo de avaliar se a AJ seria uma medida mais adequada do que a envergadura na determinação da altura e do IMC em um grupo de pessoas idosas sul-africanas (idade maior ou igual a 60 anos). Os autores observaram que as medidas da AJ relacionaram-se mais com a altura do que a envergadura, sendo que o IMC calculado a partir da altura obtida com a envergadura tendeu a classificar os idosos como “baixo peso”. Portanto, conclu- íram que a medição da altura do joelho seria um método mais preciso e adequado para determinar a altura de pessoas idosas. Em contrapartida, Hirani e Mindell 31 realizaram um estudo com objetivo de avaliar as diferenças entre a altura real/mensurada e a medida de semi-envergadura em uma população de idosos (idade igual ou acima de 65 anos) e

Rev Bras Nutr Clin 2012; 27 (4): 218-25

223

Santos EA et al.

investigar o impacto do uso dessa medida quando utilizada no cálculo do IMC. Os resultados obtidos mostraram que

a altura real foi menor do que a medida da envergadura

na faixa etária de 70 a 74 anos em homens e em todas as idades no grupo de mulheres. O IMC obtido por meio da altura real não diferiu significantemente do IMC encontrado por meio da envergadura. Porém, a prevalência de baixo peso foi menor quando o IMC foi calculado utilizando a altura real das mulheres com idade maior ou igual a 65 anos.

É muito importante que se leve em consideração as dificuldades encontradas tanto nas fórmulas propostas por Chumlea et. al. 11 , quanto nas propostas por Rabito et al. 12 As fórmulas de Chumlea et al. 11 são baseadas em indiví- duos americanos e a mensuração da altura do joelho pode estar comprometida, pelo fato de pacientes acamados com membros inferiores imobilizados não poderem flexionar a perna. Portanto, nesse caso, a medida poderá ser feita da maneira incorreta. Além disso, a presença de edema em membros superiores pode ser um entrave no uso da fórmula,

já que o valor de CB não será o real.

As fórmulas propostas por Rabito et al. 12 são válidas por serem baseadas em indivíduos brasileiros, porém também apresenta suas limitações. A mensuração da circunferência do abdômen e da semi-envergadura podem ser difíceis de serem realizadas, pois o paciente acamado muitas vezes não consegue se movimentar. Além disso, seria necessário mais de um profissional para auxiliar no momento da mensuração, o que muitas vezes não é viável. A presença de ascite, edema ou imobilidade em membros inferiores também podem difi- cultar o uso da fórmula.

Portanto, sendo a avaliação do estado nutricional de extrema importância para a determinação das condutas clínico-nutricionais, deve-se ter muita cautela ao utilizar esti- mativas. Valores incorretos nas estimativas podem contribuir para erro no diagnóstico e na conduta terapêutica. Nesse caso, há maior risco de adoção de uma conduta equivocada, interferindo diretamente na saúde do indivíduo, principal- mente, daqueles hospitalizados 6,32 .

conclusão

Sendo a avaliação nutricional fundamental no atendi- mento às necessidades de pacientes hospitalizados, torna- se imprescindível que as fórmulas de estimativa de peso e altura sejam avaliadas. A superestimação de pacientes com desnutrição e a subestimação de pacientes com sobrepeso, são fatores que podem acarretar prejuízos na recuperação do paciente, seja pelo excesso ou pela falta de um suporte nutricional adequado.

Tendo em vista que as fórmulas de ambos os autores apresentaram resultados positivos na estimativa de peso e altura respectivamente, não é possível afirmar qual fórmula

seria a mais indicada. Atualmente as fórmulas propostas por Chumlea et al. 11 são as mais utilizadas, porém outros estudos devem ser realizados com uma amostra maior de pacientes, de preferência brasileiros e adultos. Na prática hospitalar, o ideal é que sejam utilizadas as fórmulas que melhor se adequem à rotina diária, de acordo com a equipe e materiais disponíveis, tendo sempre como objetivo a evolução favorável do estado nutricional do paciente.

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Rev Bras Nutr Clin 2012; 27 (4): 218-25

225

A

A Artigo Original Melo SS et al. Efeito da adição de fibras dietéticas a dietas hospitalares

Artigo Original

Melo SS et al.

Efeito da adição de fibras dietéticas a dietas hospitalares oferecidas a mulheres no pós-operatório de cirurgias obstétricas e ginecológicas

Effect of dietary fiber addiction in hospital diets offered to women after surgery of obstetric and gyne- cological surgeries

Sandra Soares Melo 1 Camila Saueressig 2 Jaqueline Fuchter Filipi 2 Daiani Reis 3 Patrícia Formento 3

Unitermos:

Fibras na dieta. Constipação intestinal. Obstetrícia.

Key words:

Dietary fiber. Constipation. Obstetrics.

Endereço para correspondência:

Sandra Soares Melo Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI. Laboratório de Nutrição Experimental - LANEX Bloco 27, Térreo, Rua Uruguai, 458, Centro - Itajaí, SC, Brasil - CEP:

88302-000.

E-mail: ssmelo@gmail.com

Submissão 11 de setembro de 2011

Aceito para publicação 28 de novembro de 2011

RESUMO Introdução: As fibras dietéticas destacam-se por seu papel na prevenção da síndrome de constipação intestinal. Em adição ao baixo consumo de fibras, as cirurgias obstétricas e ginecológicas podem influenciar a ocorrência do sintoma de constipação no período pós-operatório. Objetivo: Avaliar a eficácia de dietas acrescidas de fibras dietéticas em mulheres no período pós-operatório de cirurgias obstétricas e ginecológicas. Método: A pesquisa contou com 116 participantes e foi realizada em um Hospital Maternidade privado do Estado de Santa Catarina. Os protocolos dietéticos incluídos no estudo consistiram em: dieta padrão/branda (Grupo Controle), dieta padrão acrescida de módulo de fibras (Grupo Fibra Suplemento) e dieta padrão rica em fibras provenientes dos alimentos (Grupo Fibra Alimento) ofertadas durante três dias de internação. As variáveis analisadas foram: hábitos alimentares, ingestão hídrica, hábito intestinal, uso de medicação e exercício físico. Resultados: Os tratamentos dietoterápicos não exerceram influência estatisticamente significativa na melhora do hábito intestinal pós-operatório, porém reduziram os sintomas de distensão e propiciaram liberação de flatos. Observou-se que a ingestão hídrica durante a internação apresentou tendência estatística na regularização do hábito intestinal. Conclusão: Identificaram-se dados relevantes à evolução dos protocolos hospitalares para melhor hábito intestinal pós-cirúrgico, tais como: ingestão hídrica adequada e dieta rica em fibras provenientes dos alimentos. Por amenizar sintomas de distensão abdominal, esta prática resultou em um maior conforto durante o período de permanência hospi- talar. Estudos adicionais devem ser realizados, a fim de verificar a melhora do habito intestinal em populações com maior permanência em âmbito hospitalar.

ABSTRACT Background: Dietary fiber noted for its in preventing constipation syndrome. In addition to low intake of fiber, obstetric and gynecological surgery may influence the occurrence of symptoms of constipation in the postoperative period. Objective: To evaluate the efficacy of increased dietary fiber diets in women in the post-surgical obstetric and gynecological surgeries. Methods: The study involved 116 participants and was accomplish in a private Maternity Hospital in the State of Santa Catarina. The dietary protocols included in the study were: standard diet/soft (Control Group), standard diet plus fiber module (Fiber Supplement Group) and standard diet rich in fiber from food (Food Fiber Group) offered during the three days of hospitalization. The variables analyzed were dietary habits, water intake, bowel habits, medication and exercise. Results: The dietary treatment did not influence statistically significant improvement in bowel habits after surgery, but reduced the symptoms of bloating and facilitated release of flatus. It was observed that water intake during hospitalization, presented statistical trend in regulating bowel habits after surgery. Conclusion: It was identified relevant data for the development of hospital protocols to better post-operative bowel habits, such as adequate fluid intake and diet rich in fiber from food. For ease symptoms of bloating, this practice resulted in greater comfort during hospitalization. Additional studies should be performed to verify the improvement in bowel habits in populations with a longer stay in hospital.

1. Docente do Curso de Graduação em Nutrição da Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, Doutora em Ciência dos Alimentos pela Universi- dade de São Paulo – USP, Itajaí, SC, Brasil.

2. Acadêmica do Curso de Graduação em Nutrição da Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, Itajaí, SC, Brasil.

3. Nutricionista graduada pela Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, Itajaí, SC, Brasil.

Rev Bras Nutr Clin 2012; 27 (4): 226-34

226

Efeito da adição de fibras dietéticas a dietas hospitalares oferecidas a mulheres no pós-operatório de cirurgias obstétricas e ginecológicas

INTRODUÇÃO

A constipação intestinal funcional (CIF) é uma síndrome

decorrente dos distúrbios da motilidade enterocolônica. Apresenta elevada prevalência na população mundial, com um percentual que varia, de acordo com os locais e tipos de inquéritos utilizados para diagnóstico, entre 2% a 27% da população 1-3 .

Para melhor entendimento, foram estabelecidos critérios que facilitam seu diagnóstico, que incluem: ritmo intestinal com menos de três evacuações por semana, sensação de dificuldade para evacuar, fezes pequenas e endurecidas e sensação de evacuação incompleta 4,5 .

Embora usualmente não represente risco à vida, a CIF pode provocar grande desconforto nos portadores e reper- cutir negativamente na sua qualidade de vida e no seu desem- penho pessoal 6,7 . Dentre as complicações decorrentes dessa síndrome, cita-se distensão abdominal, vômitos, agitação, obstrução e perfuração intestinal, além de outras pouco elucidadas até o momento 8 .

O quadro normalmente está associado à menor ingestão

alimentar, à falta de resíduos dentro do cólon, à perda da

mobilidade, à fraqueza das musculaturas abdominais e pélvica e ao uso de medicações 9 .

Dieta pobre em fibras pode não ser tomada como causa, mas como fator contribuinte da constipação intestinal 10 . Por outro lado, a dieta quando acrescida de fibras aumenta a frequência de defecação e resulta em eliminação de fezes mais macias 11 . Estudos demonstram que suplementos fibrosos são eficazes e parecem não ter efeitos adversos 11 .

No ambiente hospitalar, a dieta exerce grande impor- tância, por garantir o aporte de nutrientes ao paciente internado e, assim, preservar seu estado nutricional, por seu papel coterapêutico em doenças crônicas e agudas e também por ser uma prática que desempenha um papel relevante na experiência de internação 12,13 .

O acompanhamento dietoterápico desses pacientes é de

fundamental importância, uma vez que o estado nutricional está diretamente associado à resposta orgânica ao trauma, ao íleo pós-operatório e à recuperação 14 . É necessário conhecer o estado nutricional pré-operatório do paciente para delinear a melhor conduta pós-operatória 15 .

Recomendações atuais suportam o uso de fibras alimen- tares em nutrição clínica, quando não houver contraindica- ções, mas existem poucas informações sobre quais os tipos e combinações de fibras que possam fornecer benefício relevante em certas populações de pacientes 16 .

Diante do exposto, a presente pesquisa teve como objetivo avaliar a eficácia de dietas hospitalares acrescidas de fibras dietéticas sobre o hábito intestinal hospitalar de mulheres no pós-operatório de cirurgias obstétricas e ginecológicas.

MÉTODO

A presente pesquisa se caracterizou como sendo de

intervenção controlada.

A população de estudo foi constituída por mulheres na

condição pós-operatória atendidas em um Hospital Mater- nidade privado do Estado de Santa Catarina, no período de março a julho de 2011.

Para o cálculo de estimativa da amostra, considerou-se

o total de mulheres decorrentes de cirurgias obstétricas e

ginecológicas, dentre elas parto cesáreo e histerectomia, respectivamente, atendidas no período de 1 de fevereiro a 31 de agosto de 2010. Com auxílio do programa Epi Info 6.04, calculou-se intervalo de confiança de 95%, com erro de 5% e prevalência de desfecho de 50%, totalizando 108 mulheres, com acréscimo de 10% para possíveis perdas. Contabilizou-se um total de 116 mulheres no período da coleta de dados.Os critérios de exclusão foram mulheres com idade inferior a 18 anos ou que estivessem fazendo uso de laxantes, sob prescrição médica, em âmbito hospitalar.

A demanda menor de outras cirurgias obstétricas e gine- cológicas realizadas no Hospital e Maternidade, bem como

a rápida alta hospitalar das pacientes em procedimentos

cirúrgicos, como, por exemplo, a curetagem, foi critério importante para a escolha das cirurgias estudadas. Portanto,

a pesquisa incluiu duas cirurgias, cesárea e histerectomia,

sendo estas as mais recorrentes na instituição participante do estudo.

O projeto foi submetido à aprovação pelo Comitê de

Ética em Pesquisa (CEP) do Hospital e Maternidade privado do Estado de Santa Catarina envolvido no estudo e pelo CEP da Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, sob o parecer consubstanciado 443/10.

Somente após a aprovação deste, foi solicitada a assina- tura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) pelas participantes do estudo, realizado de acordo com as normas da resolução estabelecida pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS 196/1996), que normatiza as pesquisas realizadas com seres humanos na área da saúde.

As pesquisadoras realizaram abordagem às mulheres

para realizar a coleta de dados com a posterior apresentação

do projeto, destacando seu objetivo, importância e o quanto

a pesquisa poderia auxiliar na implementação de protocolos

dietéticos hospitalares que possam beneficiar pacientes em cirurgias obstétricas e ginecológicas.

Após assentimento por parte das mulheres, estas assi- naram o consentimento de participação do sujeito. Após essa etapa, fez-se a aplicação do questionário.

Os procedimentos realizados com as pacientes nesse período, dentre outras variáveis, consistiram em avaliar a função intestinal. Utilizaram-se três instrumentos com validade

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227

Melo SS et al.

e confiabilidade previamente testadas pela literatura, base- ados na utilidade clínica e de pesquisa, como base para elaboração de um questionário clínico. Separadamente foi elaborado um questionário de frequência alimentar.

Esses instrumentos são o The Bristol Stool Scale 17 , que avalia características das fezes por meio de classificação visual em setes tipos distintos, Constipation Assessment Scale 18 , que provê graduação de sintoma e Constipation Risk Assessment Scale 19 , que avalia fatores de risco, tais como mobilidade e ingestão de líquidos.

No questionário, solicitou-se a informação de dados pessoais e clínicos da paciente, bem como dados de iden- tificação, condição fisiológica (idade fértil, pré-menopausa,

menopausa, pós-menopausa), existência de doença prévia e/ou atual, ingestão hídrica diária pregressa e atual, prática de atividade física pregressa, hábito intestinal pregresso

e a caracterização da consistência das fezes (amolecida,

normal, cíbalos), frequência pregressa de consumo de alimentos fontes de fibras (consumo diário/semanal/não consome), propensão à constipação intestinal, uso de laxantes anteriormente e no período da internação, satis- fação com a dieta oferecida, rejeição a algum alimento constituinte da dieta, presença de sintomas como vômitos, náuseas, flatulência, distensão abdominal, dor abdominal, azia, refluxo, se havia conseguido evacuar no período pós- operatório, em caso afirmativo, solicitava-se a descrição das características das fezes.

Para avaliar o efeito das fibras dietéticas nas pacientes, foram oferecidos três tipos de dietas para diferentes mulheres, ocorrendo alteração na prescrição da dieta no sistema Tasy, programa de gerenciamento hospitalar onde são feitas as prescrições eletrônicas, conforme atingido

o total de pacientes de cada grupo. A dieta referente a

cada grupo foi ofertada no período em que as pacientes permaneceram no ambiente hospitalar, correspondendo há três dias, sendo que a coleta dos dados foi realizada no terceiro dia da internação.

Os protocolos dietéticos incluídos no estudo consistiram em: dieta padrão/branda (Grupo Controle), dieta padrão acrescida de módulo de fibras (Grupo Fibra Suplemento)

e dieta padrão rica em fibras provenientes dos alimentos (Grupo Fibra Alimento).

O módulo de fibras alimentares utilizado é formado por um mix de fibras (6 tipos), constituído principalmente por

fibras solúveis (60%) – frutooligossacarídeos (FOS), inulina

e goma arábica e fibras insolúveis (40%) - polissacarídeo de soja, celulose e amido resistente.

Para a dieta padrão, rica em fibras provenientes dos alimentos, houve modificação no modo de preparo dos legumes, substituindo o emprego da cocção pela oferta de alimentos crus. Em adição, ocorreu a substituição do pão

branco pelo pão integral, rico em fibras. O módulo foi adicio- nado em um suco de frutas e acrescido à dieta duas vezes ao dia, servido no almoço e no lanche da tarde, separado em duas porções individuais de 7,5 g cada, totalizando 15

g ao dia.

Os cálculos dos nutrientes das dietas foram realizados com a ajuda do Software Diet Win e comparados com os valores de recomendação estimada de energia 20 , a fim de

obter conhecimento acerca da quantidade de fibras presentes,

e se essas estavam adequadas à recomendação vigente. De

acordo com os cálculos realizados acerca do conteúdo de fibras, a dieta padrão/branda ofereceu diariamente 8,28g, a dieta padrão acrescida de módulo de fibras ofertou 19,68g de fibras, sendo que 8,28g consistiam na dieta padrão e 11,4g referia-se ao módulo, e a dieta padrão rica em fibras provenientes dos alimentos ofereceu 20,81g.

Conforme a recomendação estimada de energia 20 , a ingestão de fibras dietéticas deve ser no valor de 25g diárias. A dieta rica em fibras provenientes dos alimentos atingiu 83,24% da recomendação vigente, seguida pela dieta padrão acrescida de módulo de fibras (78,72%), e a dieta padrão/branda, com 33,12%.

Após o término da pesquisa, os resultados foram dispo- nibilizados ao Hospital e Maternidade por meio da apresen- tação dos resultados ao grupo médico e pela elaboração e exposição de um folder informativo sobre o papel das fibras dietéticas na dieta hospitalar.

Os dados coletados na pesquisa foram tabulados com auxílio do programa Microsoft Excel 7.0. A análise estatís- tica foi realizada utilizando-se o teste Qui-quadrado para variáveis qualitativas, considerando-se significativas as associações com p< 0,05. Para a realização desse teste foi utilizado o programa GraphPad versão 3.0.

Para viabilizar a análise estatística, as frequências de consumo semanal ou não consumo do questionário de frequência alimentar foram unidas em uma só categoria.

RESULTADOS

Foram estudadas 116 mulheres submetidas a procedi- mentos cirúrgicos (obstétricos e ginecológicos), com tempo médio de permanência em âmbito hospitalar de três dias, sendo distribuídas nos três grupos: Grupo Controle (n=41, 35,34%), Grupo Fibra Suplemento (n=39, 33,62%) e Grupo Fibra Alimento (n=36, 31,03%).

Os Grupos foram compostos por uma amostra acima do número estimado, devido à inclusão de margem de segurança para possíveis perdas amostrais no decorrer da pesquisa. Entretanto, no presente estudo, não ocorreram perdas dos dados, sendo contabilizadas todas as partici- pantes da pesquisa.

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228

Efeito da adição de fibras dietéticas a dietas hospitalares oferecidas a mulheres no pós-operatório de cirurgias obstétricas e ginecológicas

A Tabela 1 apresenta os dados de identificação e clínicos da totalidade das mulheres participantes do estudo. Os dados clínicos encontrados são semelhantes entre os três grupos estudados. Observou-se que a idade média foi próxima entre os três grupos, tendo prevalência de mulheres adultas jovens. A maior parte das mulheres encontrava-se em idade fértil e submeteu-se a procedi- mentos cirúrgicos obstétricos (cesárea). Baixo percentual de indivíduos referiu a presença de doenças pregressas (n=12, 10,34%) e/ou atual (n=21, 18,10%). Dentre as mais citadas, destaca-se: hipotensão (n=2, 16,66%) como doença pregressa, e doença atual, a diabetes gestacional (n=5, 23,81%).

Observou-se associação estatisticamente significativa (p=0,0425) entre tratamento dietético e propensão à cons- tipação intestinal pregressa.

Embora sem associação estatisticamente significativa,

observou-se na caracterização dos grupos de estudo que

o Grupo Fibra Alimento apresentou maior percentual

(52,78%) de mulheres ingerindo menos de dois litros de água por dia, contrariamente ao Grupo Fibra Suplemento, que referiu ingerir mais de dois litros de água por dia

(58,97%).

Ressalta-se que, das 116 mulheres estudadas, 47 (40,52%) relataram a prática de algum tipo de atividade física. Dentre as 47 mulheres, 31 (65,96%) afirmaram não serem propensas à constipação intestinal. Resultado semelhante foi encontrado no grupo que não praticava atividade física, 69 (59,48%), sendo que 49 (71,01%) mulheres referiram não ter propensão à constipação intestinal.

Dentre as atividades mais citadas destacam-se cami- nhada (n=14, 29,79%), musculação (n=5, 10,64%) e hidroginástica (n=4, 8,51%). Entretanto, não se observou

associação estatisticamente significativa (p=0,6305) entre

a prática de atividade física e o hábito intestinal durante

a internação.

Observou-se, nos prontuários, que a totalidade das mulheres estava fazendo uso de medicamentos no âmbito hospitalar. Dentre os mais utilizados, destaca-se: Cetopro- feno (n=116, 100%), Metoclopramida (n=114, 98,27%), Dimeticona (n=112, 96,55%) e Dipirona Sódica (n=112,

96,55%).

A Tabela 2 caracteriza os hábitos alimentares pregressos da população participante do estudo. Ressalta-se que o

consumo alimentar habitual pregresso não influenciou estatisticamente o hábito intestinal pregresso (p=0,9992),

a ingestão hídrica habitual pregressa (p=0,2171) e o uso pregresso de laxantes (p=0,4226).

A Tabela 3 apresenta os dados de associação entre

ingestão hídrica diária atual e hábito intestinal pós-operatório

das mulheres participantes do estudo.

Embora sem diferença estatisticamente significativa (p=0,0707), verificou-se que mulheres que atingiram ou ultrapassaram a recomendação de ingestão hídrica diária maior ou igual a 2 litros tiveram maior tendência de evacu- ação no período pós-operatório.

Quando consideradas somente as mulheres com ingestão hídrica adequada, não se observou associação estatística (p=0,3285) entre o tratamento dietético e o hábito intestinal atual, sugerindo que a ingestão de água é um importante fator a ser considerado no pós-operatório.

A Tabela 4 apresenta os dados de associação entre

tratamento dietético recebido com a presença ou ausência de distensão abdominal e flatulência de mulheres no período pós-operatório de cirurgias obstétricas e ginecológicas avaliadas no estudo.

Observou-se tendência estatística (p=0,0626) entre o

tratamento dietético e a presença de distensão abdominal, sendo que o Grupo Fibra Alimento apresentou menor número de indivíduos com distensão, seguido pelo Grupo Fibra Suplemento, em relação ao Grupo Controle. Ressalta-se que

a

maior parte da amostra referiu distensão abdominal após

o

procedimento cirúrgico.

Em relação ao tratamento dietético e presença ou ausência de flatulência os dados foram associados estatis- ticamente. O Grupo Fibra Alimento exibiu maiores percen- tuais de sintomas de flatulência, seguido pelo Grupo Fibra Suplemento, em relação ao Grupo Controle.

A Tabela 5 apresenta os dados de associação entre os

diferentes tipos de dietas administradas no hospital e o hábito intestinal no período pós-operatório de cirurgias obstétricas

e ginecológicas das participantes do estudo.

Não se observou associação estatisticamente significativa entre os três tratamentos dietéticos administrados e o hábito intestinal atual. Ressalta-se que, das 116 mulheres estudadas, 22 (18,96%) relataram ter alguma dificuldade/receio de evacuar em âmbito hospitalar.

Das 116 mulheres estudadas, 109 (93,96%) disseram estar satisfeitas com a dieta recebida e 80 (68,96%), não

apresentar aversão a nenhum alimento constituinte da dieta,

e dentre as que mencionaram aversão (n=36; 31,03%), o

alimento mais citado foi sopa (n=5; 13,88%), seguido por abóbora (n=4; 11,11%) e chuchu (n=4; 11,11%).

A Tabela 6 apresenta os dados de associação entre o

hábito intestinal pregresso e hospitalar no período pós- cirúrgico das participantes do estudo. Observou-se que não houve associação estatisticamente entre os grupos.

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Melo SS et al.

Tabela 1 – Dados de identificação e clínicos de mulheres no período pós-operatório de cirurgias obstétricas e ginecológicas de um Hospital Maternidade privado de Santa Catarina, março/julho de 2011.

 

Grupo Controle n=41

Grupo Fibra Suplemento n=39

Grupo Fibra Alimento n=36

Total n=116 (100%) Valor de p

Idade (média/dp)

33,49 (6,96)

30,18 (5,93)

30,18 (5,93)

30,80 (6,19)

Condição fisiológica n (%)

     

p=0,2256

Idade fértil

36

(87,80)

37

(94,87)

36

(100,00)

109

(93,96)

Pré-menopausa

4

(9,75)

2

(5,13)

 

6

(5,17)

Menopausa

1

(2,44)

 

 

1

(0,86)

Doença pregressa n (%)

     

p=0,9810

Presença

4

(9,75)

4

(10,25)

4

(11,11)

12

(10,34)

Ausência

37

(90,24)

35

(89,74)

32

(88,89)

104

(89,65)

Doença atual n (%)

     

p=0,1984

Presença

4

(9,75)

8

(20,51)

9

(25,00)

21

(18,10)

Ausência

37

(90,24)

31

(79,49)

27

(75,00)

95

(81,90)

Procedimentos cirúrgicos n (%)

     

p=0,1557

Cesárea

37

(90,24)

37

(94,87)

36

(100,00)

110

(94,83)

Histerectomia

4

(9,75)

2

(5,13)

 

6

(5,17)

Propensão à constipação intestinal pregressa n (%)

     

p=0,0425

Sim

10

(24,39)

18

(46,15)

8

(22,22)

36

(31,03)*

Não

31

(75,61)

21

(53,85)

28

(77,78)

 

Ingestão hídrica pregressa n (%)

     

p=0,5338

< 2L

21

(51,22)

16

(41,02)

19

(52,78)

56

(48,27)

2L

20

(48,78)

23

(58,97)

17

(47,22)

60

(51,72)

Legenda: DP = desvio padrão Os dados estão apresentados em colunas, perfazendo 100% da população avaliada em cada grupo e no total da população. Houve associação estatisticamente significativa entre os grupos em relação à propensão à constipação intestinal pregressa.

Tabela 2 – Caracterização de consumo alimentar pregresso de mulheres no período pós-operatório de cirurgias obstétricas e ginecológicas de um Hospital Maternidade privados de Santa Catarina, março/julho de 2011.

 

Grupo Controle n=41

Grupo Fibra Suplemento n=39

Grupo Fibra Alimento n=36

Total n=122 (100%)

Frutas

       

Diário

31

(75,61)

28

(71,79)

26

(72,22)

85

(73,28)

Semanal

10

(24,39)

8

(20,51)

10

(27,78)

28

(24,14)

Não consome

 

3

(7,69)

 

3

(2,59)

Vegetais

       

Diário

33

(80,49)

23

(58,97)

27

(75,00)

83

(71,55)

Semanal

8

(19,51)

15

(38,46)

6

(16,67)

29

(25,00)

Não consome

 

1

(2,56)

3

(8.33)

4

(3,45)

Pão integral

       

Diário

11

(26,83)

9

(23,08)

11

(30,56)

31

(26,72)

Semanal

12

(29,27)

13

(33,33)

13

(36,11)

38

(32,76)

Não consome

18

(43,90)

17

(43,59)

12

(33,33)

47

(40,52)

Aveia/trigo/linhaça

       

Diário

5

(12,19)

4

(10,26)

4

(11,11)

13

(11,21)

Semanal

17

(41,46)

11

(28,21)

12

(33,33)

40

(34,48)

Não consome

19

(46,34)

24

(61,54)

20

(55,56)

63

(54,31)

Leguminosas

       

Diário

15

(36,58)

18

(46,15)

10

(27,78)

43

(37,07)

Semanal

25

(60,98)

20

(51,28)

25

(69,44)

70

(60,34)

Não consome

 

1 (2,44)

1

(2,56)

1

(2,78)

3

(2,59)

Os dados estão apresentados em colunas, perfazendo 100% da população avaliada em cada grupo e no total da população. Não houve associação estatisticamente significativa entre os grupos.

Rev Bras Nutr Clin 2012; 27 (4): 226-34

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Efeito da adição de fibras dietéticas a dietas hospitalares oferecidas a mulheres no pós-operatório de cirurgias obstétricas e ginecológicas

Tabela 3 – Associação entre ingestão hídrica diária atual e hábito intestinal hospitalar em mulheres no período pós-operatório de cirurgias obstétricas e ginecológicas de um Hospital Maternidade privado de Santa Catarina, março/julho de 2011.

 

Evacuou n (%)

Não evacuou n (%)

Total n (%)

< 2 litros

8

(30,77)

46

(53,49)

54

(48,21)

2 litros

18

(69,23)

40

(46,51)

58

(51,79)

Total

26

(100,00)

86

(100,00)

112

(100,00)

Análise estatística: Teste Qui Quadrado, valor de p = 0,0707. Os dados estão apresentados em colunas, perfazendo 100% da população avaliada em cada grupo e no total da população.

Tabela 4 – Associação entre tratamento dietético recebido e presença ou ausência de distensão abdominal e flatulência em mulheres no período pós-operató- rio de cirurgias obstétricas e ginecológicas de um Hospital Maternidade privado de Santa Catarina, março/julho de 2011.

 

Grupo Controle n=41

Grupo Fibra Suplemento n=39

Grupo Fibra Alimento n=36

Total

Com distensão n(%)

33

(80,49)

26

(66,67)

20

(55,55)

79

(68,10)

Sem distensão n(%)

8 (19,51)

13

(33,33)

16

(44,44)

37

(31,90)

Com flatulência n(%)

15

(36,58)

26

(66,67)

25

(69,44)*

66

(58,90)

Sem flatulência n(%)

26

(63,41)

13

(33,33)

11

(30,55)

50

(43,10)

Análise estatística: Teste Qui Quadrado, valor de p = 0,0626 para distensão abdominal Análise estatística: Teste Qui Quadrado, valor de p = 0,0047 para flatulência

Tabela 5 – Associação entre tratamento dietético recebido e o hábito intestinal hospitalar em mulheres no período pós-operatório de cirurgias obstétricas e ginecológicas de um Hospital Maternidade privado de Santa Catarina, março/julho de 2011.

 

Controle n=41

Fibra Alimento n=39

Fibra Suplemento n=36

Evacuou n (%)

10

(24,39)

9 (23,08)

7 (19,44)

Não evacuou n (%)

31

(75,61)

30

(76,92)

29

(80,56)

Total n (%)

41

(100,00)

39

(100,00)

36 (100,00)

Análise estatística: Teste Qui Quadrado, valor de p = 0,8674 Os dados estão apresentados em colunas, perfazendo 100% da população avaliada em cada grupo e no total da população.

Tabela 6 – Associação entre o hábito intestinal pregresso e o hábito intestinal pós-cirúrgico em mulheres no período pós-operatório de cirurgias obstétricas e ginecológicas de um Hospital Maternidade privado de Santa Catarina, março/julho de 2011.

Hábito intestinal pregresso

Evacuou n (%)

Não evacuou n (%)

Total n (%)

1 a 6 dias

9

(34,62)

29

(32,22)

38

(32,76)

Diário

17

(65,38)

61

(67,78)

78

(67,24)

Total

26 (100,00)

90

(100,00)

116

(100,00)

Análise estatística: Teste Qui Quadrado, valor de p = 0,8189 Os dados estão apresentados em colunas, perfazendo 100% da população avaliada em cada grupo e no total da população.

DISCUSSÃO

As fibras alimentares estão envolvidas na redução de risco

e no tratamento de diversas alterações do trato digestório 21 . Dentre os principais distúrbios, destaca-se a constipação intestinal, que é uma queixa comum em atendimento médico primário ou especializado 22,23 .

Nota-se maior prevalência de constipação entre mulheres 2,3 . Embora a explicação exata para essa diferença permaneça incerta, entre os fatores envolvidos citam-se os danos causados

à musculatura pélvica e à sua inervação decorrentes de partos e

cirurgias ginecológicas 24 , além de idade superior a 40 anos 3,24 .

Em estudo populacional conduzido em Roraima por Domansky 25 , com 2162 indivíduos, observou-se padrão

intestinal normal em 87% dos entrevistados e prevalência de padrão intestinal constipado em 12%, sobretudo em mulheres.

No presente estudo, quando questionadas sobre propensão à constipação intestinal, 31,03% das mulheres responderam afirmativamente a esse item.

As causas da constipação na gravidez são provavelmente

de origem multifatorial, sendo que fatores dietéticos e o estilo de vida desempenham um papel, porém, fatores hormonais

e alterações mecânicas também são importantes 26 . Dentre

essas alterações, citam-se a diminuição da pressão da cárdia,

a presença de estase biliar e a diminuição da velocidade do trânsito do intestino delgado 4,27-29 .

Rev Bras Nutr Clin 2012; 27 (4): 226-34

231

Melo SS et al.

Alguns autores 30,31 relacionam o surgimento de consti- pação à concentração plasmática de motilina, por influência da progesterona na gravidez, um polipeptídio intestinal que estimula a contração das fibras lisas do intestino. Parece haver também influência da somatostatina na regulação da motilidade na gestação 30,31 .

Após a cesárea, o próprio procedimento cirúrgico pode favorecer ou agravar os sintomas ou, então, a dor na cicatriz operatória intensifica as queixas 32-34 .

Estudo realizado por Vieira et al. 35 revelou o diagnóstico de constipação presente em 45% das puérperas, relacionado principalmente à ingestão insuficiente de fibras e líquidos.

Dados semelhantes são encontrados na histerectomia, sendo que a prevalência de constipação após esse procedimento é de 37%, não importando a técnica cirúrgica utilizada 36 .

Gant et al. 37 afirmam que, para evitar a constipação puer- peral, é fundamental a deambulação precoce e o consumo de dieta regular, ocorrendo a restauração da normalidade intestinal, tanto de pós parto normal quanto cesariano.

Desse modo, no estudo em questão, sugere-se que o percentual de mulheres com constipação intestinal foi similar ao da literatura consultada e que procedimentos cirúrgicos ginecológicos e obstétricos, tais como cesárea e histerec- tomia, podem influenciar, agravando esse sintoma.

No presente estudo, a prática de atividade física pregressa não exerceu influência na melhora do hábito intestinal no período pós-operatório.

Rodriguez et al. 38 comentam que não existem evidências científicas do papel da atividade física para a melhora do quadro de constipação. Mas, conforme descrito por Cota e Miranda 25 , o exercício físico promove motilidade intestinal, mudanças hormonais, melhora do tônus muscular da muscu- latura pélvica e abdominal, auxiliando a eliminação das fezes após a atividade realizada.

Desse modo, sugere-se que a realização de atividade física não exerceu influência significativa sobre o hábito intestinal de mulheres no período pós-operatório, possivelmente pelo fato das mulheres que realizavam atividade física terem interrompido sua prática, devido à gestação e/ou internação, motivo pelo qual os efeitos da atividade física não puderam ser observados sobre o hábito intestinal das pacientes do presente estudo, visto que, para trazer benefícios, a atividade física deve ser contínua, de intensidade moderada e frequência adequada.

No entanto, outros fatores como uso de medicamentos que diminuam a motilidade intestinal e uma dieta inadequada são susceptíveis a desempenhar papel na constipação 39 .

Dentre os medicamentos mais utilizados em âmbito hospi- talar, destaca-se o Cetoprofeno, analgésico antiinflamatório não esteróide, utilizado pela totalidade da população estu- dada, podendo gerar, dentre outros sintomas, flatulência e

constipação 40 . Ressalta-se que a totalidade da população utilizou medicamentos, sendo que a frequência de utilização dos medicamentos foi similar entre os grupos.

No presente estudo, o consumo alimentar habitual de alimentos fontes de fibras não influenciou estatisticamente o hábito intestinal pregresso. Jaime et al. 41 não encontraram associação significativa entre prevalência de constipação e consumo de alimentos fontes de fibras, visto que, dos indivíduos constipados e não constipados de sua amostra, 37,97% e 43,8%, respectivamente, referiram frequência de ingestão desses alimentos de 1 a 2 vezes por dia, enquanto 16,46% e 17,72% da amostra, respectivamente, relataram frequência de 1 a 2 vezes por semana.

As mulheres participantes da presente pesquisa que atin- giram ou ultrapassaram a recomendação de ingestão hídrica diária atual de pelo menos 2 litros tiveram maior tendência de evacuação no período pós-operatório.

No estudo de Jaime et al. 41 , ao estabelecerem associação entre a ingestão de líquidos e surgimento de constipação intes- tinal funcional, não foi encontrada diferença estatisticamente significativa e, observaram que, dos indivíduos constipados e não constipados, 84,81% e 80,17%, respectivamente, possuíam ingestão inferior a sete copos de água por dia. Complementando, estes autores descrevem que é recomendada uma ingestão de pelo menos oito copos por dia de líquidos, como água e sucos, por exemplo, pois exercem papel no peso e maciez das fezes, além de contribuírem para o aumento do número de reflexos gastrocólicos e proporcionar lubrificação intestinal.

Contrariamente, Müller-Lissner et al. 42 referem que aumentar a ingestão de líquidos não exerce efeito importante sobre a função do cólon e não é recomendada para tratar a constipação, a menos que haja evidência de desidratação.

Porém, de acordo com os resultados encontrados no presente estudo, sugere-se o consumo de pelo menos 2 litros de água por dia 43 , visto que a ingestão influenciou positivamente o hábito intestinal hospitalar, possivelmente pela característica de auxiliar na formação do bolo fecal, facilitando o movimento peristáltico.

Ao ser analisada a eficácia do tratamento dietético recebido durante os três dias de internação sobre o hábito intestinal hospitalar, verificou-se que os grupos não apresentaram dife- renças estatisticamente significativas entre si. Belo et al. 44 , ao avaliarem 64 adultos, de ambos os sexos, hospitalizados no setor de traumatologia do hospital por 15 dias, que ao 7º dia de internação começaram a apresentar sintomas de constipação intestinal, observaram redução de 78% sobre a constipação quando oferecida dieta laxativa acrescida de goma-guar, em comparação à dieta laxativa padrão. Ressalta-se que a gravidez foi considerada critério de exclusão do estudo.

Tramonte et al. 45 , ao avaliarem pacientes que possuíam trânsito intestinal lento ou disfunção do assoalho pélvico,

Rev Bras Nutr Clin 2012; 27 (4): 226-34

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Efeito da adição de fibras dietéticas a dietas hospitalares oferecidas a mulheres no pós-operatório de cirurgias obstétricas e ginecológicas

verificaram resposta negativa à suplementação de 30g de fibras diariamente, enquanto que pacientes sem distúrbios de motilidade tiveram melhoras nos sintomas de constipação, sugerindo que as fibras alimentares podem agir de maneiras diferentes, dependendo do grupo populacional tratado.

Para tal achado no presente estudo, sugere-se a dificuldade

e receio de evacuação no hospital como possível fator de inter-

ferência na melhora do hábito intestinal, como também fatores psicológicos associados, receio pela sutura realizada na cirurgia

e por estarem em um local diferente ao que estão habituadas, e

atuação dos hormônios da gestação, refletindo na diminuição dos movimentos peristálticos. Outro fator contribuinte pode ser pelo fato de as dietas ofertadas não terem alcançado a ingestão

diária recomendada de fibras, bem como o curto período de permanência hospitalar das pacientes.

Da totalidade da população, 56,90% e 68,10% apresen- taram flatulência e distensão abdominal, respectivamente. Tais dados são similares aos encontrados por Braz e Justi 46 , ao avaliarem 53 puérperas, 30 delas com parto cesariano, os quais verificaram por meio de entrevistas realizadas com as pacientes, 7,69% de diarreia; 30,76% de constipação intestinal e 61,53% de flatulência.

Observou-se que o tratamento dietético com alimentos fontes de fibras (Grupo Fibra Alimento), seguido pelo Grupo Fibra Suplemento, resultou em menores percentuais de distensão abdominal e, consequentemente, maiores percentuais de flatulência. Resultados semelhantes foram encontrados por Takahashi et al. 47 , ao observarem aumento significativo da flatulência quando utilizada fibra goma-guar parcialmente hidrolisada em mulheres constipadas.

Alguns autores sugerem que o aparecimento e a intensidade de sinais e sintomas abdominais aumentam proporcionalmente com o incremento na quantidade de fibras consumidas 47,48 .

Sugere-se, na população que recebeu Dieta Fibra Alimento,