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SAMIZDAT

www.revistasamizdat.com

16
maio
2009
ano II

ficina
SAMIZDAT 16
maio de 2009

Edição, Capa e Diagramação: Editorial


Henry Alfred Bugalho
Até não muito tempo atrás, a América Latina surgia para
Revisão Geral o imaginário coletivo imersa numa aura de exotismo e reves-
Joaquim Bispo tida de preconceitos e de incompreensão.
Devemos muito ao Boom dos autores latino-americanos,
durante as décadas de 60 e 70, para uma mudança nestes
Assessoria de Imprensa
horizontes: tornar a América Latina, não mais apenas uma
Mariana Valle colônia cultural, mas sim uma importante peça para a reno-
vação da literatura contemporânea.
Autores O Brasil teve um papel coadjuvante neste processo, ape-
Barbara Duffles sar de alguns críticos se adiantarem para incluir Guimarães
Rosa e até Érico Veríssimo como autores do Boom. Mas a
Caio Rudá
verdade é que o brasileiro pouco conhece a literatura que
Carlos Alberto Barros se faz nos países vizinhos, e pouco explorou o gênero que a
Dênis Moura tornou conhecida: o Realismo Mágico.
Giselle Natsu Sato O mês de abril foi bastante simbólico para a América
Guilherme Rodrigues Latina, em vários sentidos: Gabriel García Márquez anun-
Henry Alfred Bugalho
ciou sua aposentadoria, os EUA passou a permitir, depois de
décadas de embargo econômico, que cubanos residentes no
Joaquim Bispo
país possam visitar Cuba e mandar dinheiro para parentes,
José Espírito Santo e Hugo Chávez, presidente da Venezuela, presenteou o atual
Léo Borges presidente dos EUA, Barack Obama, com uma cópia de “As
Maria de Fátima Santos Veias Abertas da América Latina” de Eduardo Galeano, que
Mariana Valle
projetou este livro novamente para as listas dos mais vendi-
dos.
Maristela Scheuer Deves
Esta edição da “SAMIZDAT” é uma homenagem a estes au-
Pedro Faria tores extraordinários, provenientes duma região tão castigada
Volmar Camargo Junior e olvidada.

Autores Convidados Henry Alfred Bugalho


José Guilherme Vereza
Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada
Textos de: a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.
Eduardo Galeano Todas as imagens publicadas são de domínio público, royalty
Gabriel García Márquez free ou sob licença Creative Commons.
Jorge Luis Borges
Os textos publicados são de domínio público, com consenso
Julio Cortázar ou autorização prévia dos autores, sob licença Creative Com-
Mia Couto mons, ou se enquadram na doutrina de “fair use” da Lei de
Copyright dos EUA (§107-112).
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Sumário
Por que Samizdat? 6
Henry Alfred Bugalho

ENTREVISTA
Katia Suman e Claudia Tajes 8

MICROCONTOS
Henry Alfred Bugalho 14
Caio Rudá 14
Joaquim Bispo 15

RECOMENDAÇÕES DE LEITURA
Estados Unidos: A Formação da Nação 18
Guilherme Augusto Rodrigues

Final de Jogo, de Julio Cortázar 20


Henry Alfred Bugalho

Ficções, de Jorge Luis Borges 22


Henry Alfred Bugalho

Putas Assassinas, de Roberto Bolaño 24


Caio Rudá

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA


A Velha e a Aranha 26
Mia Couto

CONTOS
A Pedra do Olho Divino 30
Carlos Alberto Barros

Sonhos de Batata 36
Maria de Fátima Santos

A Luz de Delft 38
Joaquim Bispo
Gêmeos 40
Volmar Camargo Junior

O Livro dos Hereges 44


Henry Alfred Bugalho
As Bases da Criação 46
José Espírito Santo
Juliana e o Coelho 50
Mariana Valle
Misantropia Infecciosa 52
Léo Borges
O Grito de Joana 56
Barbara Duffles
O Admirador - Parte 2: Pesadelo? 58
Maristela Deves
Helena 60
Giselle Sato e Pedro Faria

Autor Convidado
Guisado 62
José Guilherme Vereza

TRADUÇÃO
A Seita de Fênix 64
Jorge Luis Borges
Olhos de Cão Azul 68
Gabriel García Márquez
Cronópios e Famas 74
Julio Cortázar
A Criação 78
Eduardo Galeano

TEORIA LITERÁRIA
Realismo Mágico, a Realidade à mercê da
Literatura 80
Henry Alfred Bugalho

CRÔNICA
O Milagre do Sol 90
Joaquim Bispo
O Fabuloso Destino de Amélie Poulain 93
Giselle Sato

A Visita do Saci 94
Henry Alfred Bugalho

POESIA
Laboratório Poético: um Ser Indefinido 97
Volmar Camargo Junior
Poemação 98
Caio Rudá
Haikais 99
Guilherme Augusto Rodrigues
Sementementalismo 100
Dênis Moura

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT 101


Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico,
­distribuo e posso ser preso por causa disto”
Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho Inclusão e Exclusão se converte em uma ditadu-


henrybugalho@hotmail.com ra como qualquer outra. É a
microfísica do poder.
Nas relações humanas,
sempre há uma dinâmica de Em reação, aqueles que
inclusão e exclusão. se acreditavam como livres-
pensadores, que não que-
O grupo dominante, pela
riam, ou não conseguiam,
própria natureza restritiva
fazer parte da máquina
do poder, costuma excluir ou
­administrativa - que esti-
ignorar tudo aquilo que não
pulava como deveria ser a
pertença a seu projeto, ou
cultura, a informação, a voz
que esteja contra seus prin-
do povo -, encontraram na
cípios.
autopublicação clandestina
Em regimes autoritários, um meio de expressão.
esta exclusão é muito eviden-
Datilografando, mimeo-
te, sob forma de perseguição,
grafando, ou simplesmente
censura, exílio. Qualquer um
manuscrevendo, tais autores
que se interponha no cami-
russos disseminavam suas
nho dos dirigentes é afastado
idéias. E ao leitor era incum-
e ostracizado.
bida a tarefa de continuar
As razões disto são muito esta cadeia, reproduzindo tais
simples de se compreender: obras e também as p ­ assando
o diferente, o dissidente é adiante. Este processo foi
perigoso, pois apresenta designado "samizdat", que
alternativas, às vezes, muito nada mais significa do que
melhores do que o estabe- "autopublicado", em oposição
lecido. Por isto, é necessário às publicações oficiais do
suprimir, esconder, banir. regime soviético.

A União Soviética não


foi muito diferente de de-
mais regimes autocráticos.
­Origina-se como uma forma
de governo humanitária,
igualitária, mas
Foto: exemplo dum samizdat. Corte- logo
sia do Gulag Museum em Perm-36.

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E por que Samizdat? revistas, jornais - onde ele des tiragens que substituam
possa divulgar seu trabalho. o prazer de ouvir o respal-
O único aspecto que conta é do de leitores sinceros, que
A indústria cultural - e o
o prazer que a obra causa no não estão atrás de grandes
mercado literário faz parte
leitor. autores populares, que não
dela - também realiza um
perseguem ansiosos os 10
processo de exclusão, base- Enquanto que este é um mais vendidos.
ado no que se julga não ter trabalho difícil, por outro
valor mercadológico. Inex- lado, concede ao criador uma Os autores que compõem
plicavelmente, estabeleceu-se liberdade e uma autonomia este projeto não fazem parte
que contos, poemas, autores total: ele é dono de sua pala- de nenhum ­movimento
desconhecidos não podem vra, é o responsável pelo que literário organizado, não
ser comercializados, que não diz, o culpado por seus erros, são modernistas, pós-
vale a pena investir neles, é quem recebe os louros por ­modernistas, vanguardistas
pois os gastos seriam maio- seus acertos. ou q­ ualquer outra definição
res do que o lucro. que vise rotular e definir a
E, com a internet, os au- orientação dum grupo. São
A indústria deseja o pro- tores possuem acesso direto apenas escritores ­interessados
duto pronto e com consumi- e imediato a seus leitores. A em trocar experiências e
dores. Não basta qualidade, repercussão do que escreve sofisticarem suas escritas. A
não basta competência; se (quando há) surge em ques- qualidade deles não é uma
houver quem compre, mes- tão de minutos. orientação de estilo, mas sim
mo o lixo possui prioridades
a heterogeneidade.
na hora de ser absorvido A serem obrigados a
pelo mercado. burlar a indústria cultural, Enfim, “Samizdat” porque a
os autores conquistaram algo internet é um meio de auto-
E a autopublicação, como que jamais conseguiriam de publicação, mas “Samizdat”
em qualquer regime exclu- outro modo, o contato qua- porque também é um modo
dente, torna-se a via para se pessoal com os leitores, de contornar um processo
produtores culturais atingi- od­ iálogo capaz de tornar a de exclusão e de atingir o
rem o público. obra melhor, a rede de conta- ­objetivo fundamental da
tos que, se não é tão influen- ­escrita: ser lido por alguém.
Este é um processo soli-
te quanto a da ­grande mídia,
tário e gradativo. O autor
faz do leitor um colaborador,
precisa conquistar leitor a
um co-autor da obra que lê.
leitor. Não há grandes apa-
Não há sucesso, não há gran-
ratos midiáticos - como TV,

SAMIZDAT é uma revista eletrônica


­ ensal, escrita, editada e publicada pelos
m
­integrantes da Oficina de Escritores e Teoria
Literária. Diariamente são incluídos novos
textos de autores consagrados e de jovens
­escritores amadores, entusiastas e profis-
sionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas
literárias e muito mais.

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Entrevista

Katia Suman e Claudia Tajes

SAMIZDAT: Nestes renovando, o público vai de literatura e possui


anos de atividade do mudando. Sempre tem o hábito de leitura, ou
SARAU Elétrico, vocês gente nova aparecendo, quem não tem o hábito,
notaram que tipo de embora haja um grupo mas que busca um in-
mudança, seja por parte de “fiéis” bem expressivo. centivo e uma orientação
dos ouvintes, seja por Mas não consigo detec- inicial?
parte dos artistas parti- tar um tipo de mudança, Claudia: Imagino que
cipantes, em relação ao acho mais fácil falar no seja quem já se interessa
trabalho de vocês? imutável, que é preci- por leitura, e gosta desse
Claudia: Eu, que parti- samente o gosto pela formato que junta litera-
cipo há menos de dois leitura. É isso que leva o tura e diversão na mesma
anos do time, notei que público ao sarau. E é isso noite.
muita gente que me que há em comum entre
conheceu no Sarau e que eles.
não havia lido nada que SAMIZDAT: O Rio
eu escrevi se interessou Grande do Sul pos-
SAMIZDAT: Qual é o sui uma tradição de
pelos meus livros. principal público do grandes autores e de
Katia: As pessoas vão se SARAU: quem já gosta importantes iniciativas

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culturais. A que vocês SAMIZDAT: Como foi bem ou mal escrito?
atribuem este fenôme- que surgiu a idéia do Claudia: Talvez desse
no? projeto? Ele sempre teve pra dizer: desde que as
Claudia: Dizem que a o formato atual? pessoas estejam lendo,
praia do gaúcho é a livra- Katia: A idéia surgiu da não importa o que elas
ria. Acho que eu concor- vontade de ter um espaço estão comprando. Mas
do, ainda mais quando para leituras e comentá- se a gente lê para conhe-
se vê o Sarau e outras rios, para falar de litera- cer ideias bacanas, para
iniciativas até parecidas tura sem ranço acadê- descobrir coisas novas e
com grande público, mes- mico. Desde o começo enriquecer com os tex-
mo em tempo de verão e a idéia era ler, conversar tos que escolhe, então
férias. e encerrar com música. dá uma certa pena ver a
Katia: Acho que tem a Quando pensei na idéia, Bruna Surfistinha venden-
ver com geografia, um veio junto o local: só po- do milhares de livros.
povo mais isolado, tem a dia ser no Ocidente. Por Katia: Faz diferença sim.
ver com o clima, mais tudo que representa, pelo Textos ruins não levam
propenso ao recolhimen- astral. E pensei no Fischer, a nada. Podem até deses-
to, tem a ver com a for- que recém tinha conhe- timular o incauto leitor,
mação histórica, marcada cido e no Frank, que na que não levará adiante a
por peleias e enfrenta- época fazia um lance na experiência da leitura.
mentos. Sei lá, acho que Ipanema, que eu tinha
dá pra ir por aí. inventado, as Crônicas
Frankeanas. SAMIZDAT: Há algum
registro dos encontros?
SAMIZDAT: O livro é Já publicaram - ou pen-
um bicho desconhecido SAMIZDAT: Existe lite- sam em publicar - um
- e amedrontador - para ratura além do livro? livro de memórias do
uma boa parte da po- Claudia: Para mim, o Sarau?
pulação brasileira. Que livro é a expressão má- Katia: Há centenas de
tipo de iniciativas você xima da literatura. E gravações do áudio de
acreditam que pode- mesmo os autores que saraus. Pensamos sim
riam contribuir para surgem na internet, em em publicar um livro.
aproximar as pessoas algum momento, acabam Talvez esse ano, quando
da leitura? publicando seus livros. ele completa 10 anos. O
Claudia: Primeiro, o projeto está caminhando,
colégio poderia rever as SAMIZDAT: Falam mui- mas tem a crise, a maro-
tais leituras obrigatórias e to da baixa qualidade linha que virou tsunami
sugerir aos alunos livros dos livros que vendem e deve dificultar a em-
mais dentro dos interes- muito, e da qualidade preitada.
ses deles, para não trau- ainda pior de algumas Mas vamos tentar.
matizar a criançada com traduções de bestsellers
os clássicos que, se tudo pelas editoras brasilei-
correr bem, todos terão o ras. Sem falar do pro- SAMIZDAT: Que acha-
prazer de ler mais tarde. blema da falta de um ram da versão do Fer-
E projetos como o Sarau público leitor, e ainda nando Meirelles para
certamente aproximam o mais de um público lei- Ensaio sobre a cegueira?
leitor do livro e apresen- tor capacitado, pergun- Claudia: Eu gostei. Mas
tam muitos autores inte- ta-se: desde que esteja sou fã do Fernando Mei-
ressantes para o público. vendendo, faz alguma relles, talvez mais que do
diferença que esteja Saramago. Minha visão

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(ou falta de) é parcial. dono da Jovem Pan, o
Katia: Não vi. Tutinha Amaral, à Play-
boy, em que ele afir-
ma que na rádio dele
SAMIZDAT: [Para a nunca teve jabá, e sim
Claudia] Achei genial o “acordos comerciais”. A
trecho inicial da rese- Katia fez um trabalho
nha feita pelo Fabrício acadêmico - a sua dis-
Carpinejar ao seu A sertação de mestrado...
vida sexual da mulher tá lá no Lattes - precisa-
feia mente sobre esse assun-
A Vida Sexual da Mu- to, o jabá nas rádios FM
lher Feia (2005, Agir, no Brasil. A pergunta: o
136 págs.) já provocou mercado “artístico” fun-
gafes em algumas livra- cionaria sem o jabá?
rias. Algumas pensaram Katia: Funcionaria, claro.
que era auto-ajuda, um E de maneira muito mais
manual prático para as Eu pensei que talvez o saudável, sem o desequi-
mulheres pouco aben- livro pudesse chamar a líbrio de forças entre um
çoadas fisicamente. Ou- atenção, mas fiquei sur- artista independente e
tras acreditaram que se presa com a boa aceita- sem grana e um artista
tratava de uma biogra- ção dele. E mais ainda de uma grande gravadora
fia. Difícil conciliar a por ter tanta gente que se disposta a qualquer coi-
estante biográfica com identificou com o livro. sa para ter seu “produto”
a fotografia de Claudia executado nas rádios, se
Tajes, publicitária gaú- apresentando na TV, nas
cha, bela morena de 42 SAMIZDAT: [também capas dos suplementos
anos e autora de outros para a Cláudia] Antes culturais de jornais e
quatro livros de fic- de escrever um roman- revistas, etc.
ção, Dez quase Amores; ce, em que momento
decide se o protago- Mas a fila anda e o mun-
Dores, Amores e Asse- do está mudando muito
melhados; As Pernas de nista será masculino
ou feminino? Há um rápido. Hoje as grava-
Úrsula e Vida Dura. doras perderam a força,
planejamento para esse
tipo de coisa? perderam grana, os inde-
A pergunta: Como você, pendentes estão cada vez
Claudia: Eu gosto mais mais se impondo e a re-
enquanto autora, per- de protagonistas mascu-
cebeu a receptividade lação de forças se inver-
linos, mas às vezes me teu, a partir da internet e
do público ao romance? faltam ideias (e talento)
Não teve gente queren- da música digital. O jabá
para dar vida a um ho- está em extinção.
do o dinheiro de volta mem. Há pouco comecei
(pensando tratar-se de a escrever sobre um ator
“outro gênero de livro”)? pornô que tem o mem- SAMIZDAT: Encontrei
Claudia: A maior recla- bro pequeníssimo. Acho um dos romances da
mação que eu ouvi foi: que vai ser meu próximo Claudia na íntegra em
pô, me disseram que era livro, um dia. um site para leitura
uma comédia e é um online. Nesse caso, há
livro triste. E acho que é toda a referência aos
mesmo, dá até pra fazer SAMIZDAT: [Geral, mas copyrights, mas ain-
humor com a rejeição, direcionada para a Ka- da assim, não precisei
mas o assunto é amargo. tia]: Li a entrevista do pagar um centavo para

10 SAMIZDAT maio de 2009


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O SARAU ELÉTRICO é um francesa, literatura gaúcha) ou ponsáveis pelo show da noite,
encontro literário-musical que fazer qualquer recorte que seja músicos como Vitor Ramil, Nei
ocorre todas as terças-feiras, apropriado para contemplar Lisboa, Bebeto Alves, Papas da
desde 1999, no bar Ocidente, em autores ainda não visitados. Tudo Língua, Nenhum de Nós, Jú-
Porto Alegre. Já incorporado ao o que sempre rendeu, e continua lio Reny, quartetos de cordas,
calendário cultural da cidade, o rendendo, boa literatura, é tema grupos de chorinho, de samba e
evento reúne, todas as semanas, para o SARAU ELÉTRICO. de rock, mostram a diversidade
um público fiel e disposto a ouvir Os integrantes do SARAU da programação e a simpatia dos
leituras sobre os mais varia- ELÉTRICO intercalam leituras músicos pelo projeto.
dos temas e dos mais diversos de textos relacionados ao tema
autores nacionais e estrangei- com comentários, garantindo
ros. Participam os professores a descontração e o interesse da Participantes fixos:
Luís Augusto Fischer e Cláudio platéia. É dessa forma que, nas Luís Augusto Fischer, professor
Moreno, a escritora Claudia terças-feiras do bar Ocidente, de literatura brasileira na UFR-
Tajes e a radialista Katia Suman. a literatura perde todo e qual- GS, doutor em Nélson Rodri-
O músico Frank Jorge fez parte quer ar distante e incorpora-se à gues, escritor, cronista e jorna-
deste time de 1999 a 2005. vida de Porto Alegre. No meio lista nas horas vagas. Autor de
A principal característica do de tudo, o professor Moreno, vários livros de crônicas, ensaios
SARAU ELÉTRICO é tornar a responsável pela ‘coluna grega”, e contos, com destaque para o já
leitura acessível a todos os pú- narra alguma história extraída clássico Dicionário de Porto-Ale-
blicos através da combinação de da mitologia dos gregos, esta- grês e a premiada novela Quatro
boa conversa, entrevistas interes- belecendo uma improvável, e Negros.
santes, muito humor e informa- sempre divertida, conexão com
ção. O SARAU ELÉTRICO tem o tema da noite. Para encerrar,
mostrado, ao longo de seus quase há sempre um “pocket show” de Claudia Tajes trabalha em cria-
dez anos, que a cultura também artistas locais. ção publicitária, escreveu alguns
pode ser pop. roteiros para televisão e tem 6
O objetivo do SARAU ELÉTRI- livros publicados, entre eles Dez
Os temas são escolhidos a partir CO é incentivar o hábito de ler, (Quase) Amores, As Pernas de
de assuntos do momento (a recuperar a palavra, o bom papo, Úrsula, A Vida Sexual da Mulher
comemoração de alguma obra, o a boa prosa, a poesia, a litera- Feia e Louca por Homem.
aniversário de um lugar, o cente- tura, a letra da canção popular.
nário de um autor, por exemplo), É desse jeito que o SARAU
ou das grandes questões do ho- ELÉTRICO tem contribuído para Cláudio Moreno, professor de
mem –e da literatura: a saudade, espalhar o prazer da leitura. português do Unificado e do
a melancolia, o medo, o sexo, o Em dez anos de atividades, o Leonardo da Vinci, escritor e
amor, entre elas. Gêneros como SARAU ELÉTRICO já realizou cronista. Especialista em mito-
o conto, a crônica, a poesia; cerca de 500 edições, atingindo logia grega. Autor do best-seller
autores da grandeza de Manuel um público de cerca de 40 mil Tróia, entre outros. Mantém o
Bandeira, Baudelaire e Carlos pessoas interessadas em litera- site www.sualingua.com.br
Drummond de Andrade, movi- tura, cultura e educação. Nomes Katia Suman, graduada em Ciên-
mentos (literatura beat, moder- consagrados como Luís Fernan- cias Sociais, mestre em Comuni-
nismo, romantismo) ou épocas, do Veríssimo, Lya Luft, Martha cação, radialista e apresentadora
como os Anos de Chumbo, já Medeiros, Fausto Wolff, Marçal da TV COM.
iluminaram as noites do Sarau Aquino, Fabrício Carpinejar,
Elétrico. Pode-se ainda delimitar Donaldo Schüller, Jorge Furtado,
o tema geograficamente (litera- Moacyr Scliar e tantos outros, já
tura norte-americana, literatura participaram do SARAU. Res-

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lê-lo (eu li só dois ca- leiros contemporâneos, talento de cada um é que
pítulos, tá! prometo que ainda em atividade (i.e., decidem.
vou comprar o livro...). vivos), uma lista dos Katia: Acho que sim.
Que acham disso? cinco melhores escrito- Acho que escrever é uma
Claudia: Por mim, não res de ficção e os cinco habilidade que se pode
precisa pagar nada. Len- melhores poetas? desenvolver.
do já está bom! Claudia: Na ficção, só
Katia: Do ponto de vista medalhões: Rubem Fon-
seca, Dalton Trevisan, SAMIZDAT: Que per-
dos músicos, que é o que gunta deveria ter-lhes
conheço mais, sei que o Marçal Aquino, Moacyr
Scliar, Milton Hatoum e sido feita e não foi,
artista, historicamente, considerando que esta
nunca ganhou dinheiro ainda a Cíntia Moscovi-
ch. Poetas: sou bastante é uma entrevista elabo-
com a venda de discos. rada por aspirantes a
Não ganha aqui, não ga- ignorante no assunto.
Gosto muito do Fabrício escritores?
nha na Europa, nem nos
Estados Unidos. Artista Carpinejar e conheci na Claudia: Tem a clássica:
ganha dinheiro fazendo semana passada, graças existe espaço para tanto
show. Quem ganha di- ao pelotense Vitor Ramil, escritor no Brasil? E eu
nheiro com venda de dis- a poeta de Pelotas Angé- responderia: até acho que
co é a gravadora. Ora, se lica Freitas, que lançou não. Mas não é por isso
assim é, o artista se tiver o livro Rilke Shake em que a gente vai desistir.
uma distribuição grande 2007. Guria muito boa. Katia: Ai, essa eu vou
pirata, ou seja, vender Também leio a poesia das passar.
horrores nos camelôs, minhas amigas Martha
dificilmente vai reclamar Medeiros e Paula Taitel-
da vida. Porque vai ter baum.
muito mais gente queren- Katia: Ficção: Trevisan,
do ver seus shows. Rubem Fonseca, Daniel
Pellizzari, Chico Buarque
de Hollanda. Luis Fer-
SAMIZDAT: E a respeito nando Veríssimo. Poesia:
de copyright, copyleft Adélia Prado, Fabrício
e das licenças Creative Carpinejar, Gonçalo M.
Commons? Tavares (português é
Claudia: Ainda estou em quase brasileiro), Paula Coordenação da entrevista:
fase de consolidar algu- Taitelbaum e Martha
ma coisa. Se não me pa- Medeiros. Volmar Camargo Junior
garem mas distribuírem SAMIZDAT: Oficinas e
meus livros por aí, eu cursos de formação de
ainda me acho no lucro Perguntas feitas por:
escritores ou de “escri-
(é por isso que eu tenho ta criativa”, como por Carlos Barros
que trabalhar tanto em exemplo as do Assis
outra atividade...). Henry Alfred Bugalho
Brasil, funcionam? É
Katia: Sou totalmente a possível ensinar alguém Volmar Camargo Junior
favor. Liberar geral. a escrever, ou tais en-
contros servem para
“descobrir talentos”?
SAMIZDAT: Houve, dia
desses, o “Sarau das Claudia: É possível ensi-
Listas”. Vocês poderiam nar a escrever. A partir
eleger, entre os brasi- daí, a sensibilidade e o

12 SAMIZDAT maio de 2009


12
O lugar onde
a boa Literatura
é fabricada
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ficina
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Microcontos

En búsqueda de Borges
Henry Alfred Bugalho
O cego caminhou pelas ruas, sem ver aquilo que Borges
não via.
Não viu o movimento nos cafés, nem a mais larga
avenida do mundo, nem os edifícios antigos, nem o obe-
lisco, nem a estátua de San Martin; não viu o Aleph, os
dançarinos de tango, os peleadores de faca, nem os heróis
de outrora; não viu as bandeirolas azuis e brancas, nem os
passeadores de cães, nem a Florida inchada de gentes; não
viu labirintos, espelhos, o Mesmo ou o Outro, similitudes
ou tigres.
Buscou Borges nas esquinas, nas mesas das cafeterias,
nas bibliotecas, nas linhas e nas entrelinhas, porém, não o
encontrou.
A semelhança que ele sempre cantou era mentira; só
havia diferença e passar dos anos. O cego não o encon-
trou, pois aquele se escondeu atrás do esquecimento do
tempo.
Buenos Aires era alheia a ele.
De resto, somente um nome e uma reputação.

Um quarto de

http://www.flickr.com/photos/erazmilic/137161208/sizes/m/
loucura
Caio Rudá

O quarto de cima foi cúmplice de todos


os meus pecados. Tantos que cada tijolo
por trás do cimento e daquela pintura suja
de tempo deve guardar um na memória.
Para cada móvel de madeira escura, uma
confissão. Para cada quadro, um pedido:
agonizante, para “O grito”; depressivo, para
um Picasso cujo nome não lembro; e pedidos
ordinários de chuva ou sol para aquelas
obras vagabundas sem assinatura. E na greta
da janela que mal iluminava o ambiente,
morava a esperança de lucidez além daquelas
paredes estreitas.

http://www.journeywithjesus.net/Essays/TheScream.jpg

14 SAMIZDAT maio de 2009


14
Pensamento racionalmente
mágico
Aposta dobrada
Joaquim Bispo

Aurélio era muito racional. Após muitas


cogitações, descobriu como podia ganhar
na roleta: bastava apostar sempre numa cor
– vermelho ou preto – e a cada perda dupli-
car a aposta. Como o casino paga o dobro à
aposta ganhadora, quando ganhasse, embol-
sava; quando perdesse, apostava o dobro. Se
então ganhasse, recuperava a perda anterior,
se perdesse, voltava a dobrar a aposta.
Empenhou o carro por dez mil euros e
avançou, confiante. Começou com dez euros.
Ao fim de uma hora já ganhava duzentos. Ao
fim de três horas, quinhentos. Então saiu uma
série de dez pretos e ele a jogar no vermelho.
Ele não imaginava que já saíram séries de
mais de vinte da mesma cor.
No dia seguinte foi para o emprego de
transportes públicos.

Memória estatística http://www.flickr.com/photos/discopalace/478057069/sizes/o/

Joaquim Bispo

Vítor era um estudioso de estatísticas. Por elas, soube que atirando uma
moeda ao ar mil vezes, saem cerca de quinhentas «caras» e quinhentas «co-
roas». Por isso ele acreditava que quanto maior for uma série de resultados
– seis «caras» seguidas, por exemplo – maior a probabilidade de sair o oposto,
para repor a média de 50%. Resolveu transportar esse conhecimento para
algo rendoso.
Naquele dia, estava no casino à espera de grandes séries. Então, quando
outro jogador perdeu tudo, numa série de dez pretos, fez a sua aposta milio-
nária no vermelho. Saiu preto. Menosprezara aquele capítulo aparentemente
contraditório onde se dizia que a moeda (ou a roleta) não guarda memória
dos lançamentos anteriores e cada resultado tem, exactamente, a mesma pro-
babilidade de sair.

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Aposta forte
Joaquim Bispo

Fernanda estava agitada. Mal podia es-


perar pelo sorteio dos números do Totolo-
to. Nessa semana preenchera dez boletins
cheiinhos – cem apostas. «Esta semana é que
é; não pode falhar» – pensava, sem deixar
transparecer o júbilo prestes a invadi-la.
Quando os números começaram a sair,
sem contemplar os seus, sentiu-se a mulher
mais esquecida por Deus, sem suspeitar que
se Cristo jogasse mil apostas por semana,
desde que nasceu até hoje, só teria ganho o
primeiro prémio, probabilisticamente, umas
sete ou oito vezes. Sem milagres.

Infalível
http://www.flickr.com/photos/asiaticleague/3198159279/sizes/m/

Joaquim Bispo

Gabriel apareceu com um esquema bola-


de-neve. Queria vender três listas, cujos
compradores, por sua vez, venderiam três,
cada um, etc. Quando o nome dele chegasse
ao cimo das listas, receberia um monte de
dinheiro. Alguns colegas de trabalho com-
praram, outros torceram o nariz, argumen-
tando que só os primeiros a entrar no esque-
ma teriam alguma possibilidade de ganhar,
porque, em breve, se esgotaria o universo de
compradores. Mesmo contando com toda a
população do planeta, um dia chegaria em
que milhões de jogadores não conseguiriam
compradores para as suas listas.
Não foi possível esclarecê-lo, antes pelo
contrário. Chegou a comprar listas a si
próprio, enviando dinheiro para o primeiro
da lista. Não perdeu uma fortuna, mas ainda
hoje há quem goze com ele.

http://www.flickr.com/photos/monkeyc/165230047/sizes/l/

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Recomendações de Leitura

Estados Unidos:
A Formação da Nação
Guilherme Augusto Rodrigues

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De maneira clara e podiam ser livres, com
objetiva Leandro Karnal identidade e caracterís- Um detetive...
mostra-nos como surgi- ticas próprias de acordo
ram os Estados Unidos com seus ideais. Desta Uma loira gostosa...
e os porquês de terem vontade foi surgindo e
se tornado o país que é emergindo a maior po-
Um assassinato...
hoje. tência mundial amada e
odiada.
Desfaz mitos explican- E o pau comendo entre
do-nos, de forma simples, “Estados Unidos: A For- as máfias italiana e
por que eles deram certo mação da Nação” é uma chinesa.
­
e outras colônias, como boa leitura para quem
o Brasil, não. Uma das quer conhecer mais sobre
respostas está na colo- este país (mesmo que
nização de povoamento, não goste dele). Mas o
assim, as pessoas iriam autor aparenta tender ao O Covil
para morar e produzir, americanismo, não dando
não explorar riquezas e
degradar o local como
base à sua afirmação, no
começo do livro, de que
dos
na de exploração. Além
disso, o protestantismo
“os que odeiam o país
conhecerão melhor o ini-
Inocentes
visa o lucro e o trabalho, migo e poderão utilizar
repudiando o ócio. Isso este conhecimento para www.covildosinocentes.blogspot.com
fez com que lutassem vencê-lo”.
pelo que acreditavam e
produzissem mais.

Passadas as guerras e
as dinastias Tudor e Stu-
art, muitas pessoas viram
na colônia uma esperan-
http://farm3.static.flickr.com/2132/2224082241_4cb36bd6bc_o.jpg

ça de recomeçar uma
vida melhor. Nesta época,
chegaram os puritanos.
Eles eram disciplinados,
organizados, conserva-
dores, sonhadores e com
ideias revolucionárias.
Lutavam contra a políti- Estados Unidos: A Formação
ca da Inglaterra e assim da Nação do
viraram guerreiros para w
Autor: Leandro Karnal
gr nl
verem o sonho de fun-
át
oa
dar uma nova terra, onde Editora: Contexto, 2005 is d

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Recomendações de Leitura

Final de Jogo,
de Julio Cortázar
Henry Alfred Bugalho

Final del Juego

Autor: Julio Cortázar

Editora: Alfaguara

20 SAMIZDAT maio de 2009


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O primeiro contato 18 contos que integram o friozinho da rua, no
que tive com a obra de a obra em três níveis entanto, algo tão simpló-
Julio Cortázar foi atra- de dificuldade, sendo os rio e descomprometido
vés do romance “Jogo da primeiros de mais fácil quanto vestir uma blusa
Amarelinha” (Rayuela) e compreensão e os úl- torna-se um desafio an-
fui derrotado pelo esti- timos exigindo maior gustiante; algo semelhante
lo denso, quase barroco, esforço hermenêutico do se dá num teatro, durante
pela inusitada estrutura e leitor. um concerto de música
pelo enredo disperso. erudita em homenagem a
Particularmente, não um maestro local; ou ao
A primeira impressão percebi esta gradação se olhar misteriosos pei-
foi de assombro, mas (o que pode sugerir que xes que parecem abarcar
também de uma certa eu não tenha entendido em si toda uma cosmo-
repulsa. Naquela época, direito...), mas é muito logia. Em Cortázar, o real
quatro ou cinco anos evidente o namoro de cotidiano é um umbral
atrás, senti que Cortázar Cortázar com o realismo a nos conduzir para o
estava além da minha ca- fantástico, e principal- mágico e inexplicável.
pacidade como leitor, não mente a intertextualidade
me dizia nada. e a metalinguagem dos Na melhor linha bor-
contos. Quase todos eles geana, mas sem deixar
Então, retornei a ela estão calcados numa sin- de ter sua identidade
pela via indireta dos con- gela realidade cotidiana, própria, Julio Cortázar
tos, através da antologia mas, no desfecho, abrem se tornou um dos gran-
“Final de Jogo”. O estilo as portas para um outro des nomes da literatura
pesado também está pre- universo, por vezes bizar- latino-americana e mun-
sente, mas, pela própria ro e assustador. dial. Fazendo de seus
natureza do gênero conto, livros jogos literários, ele
Cortázar se viu coagido Logo num dos primei- abriu novos horizontes
ros textos, o protagonista
http://www.modernistabooks.com/press/pressrum/bilder_forfattare/cortazar/cortazar_1_300dpi.jpg

a construir enredos mais para a narrativa e foi um


digeríveis. resolve vestir uma blu- dos precursores do pós-
sa de lã para aguentar modernismo literário.
Costuma-se dividir os

http://www.artespain.com/wp-content/uploads/cortazar.jpg

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Recomendações de Leitura

Ficções,
de Jorge Luis Borges
Henry Alfred Bugalho

http://www.life.com/image/50541078

Ficciones

Autor: Jorge Luis Borges

Editora: EMECÉ

22 SAMIZDAT maio de 2009


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Há alguns livros aos sos hermanos, do outro lado Há dois grandes temas
quais sempre retornamos das fronteiras, estão perto e recorrentes em “Ficções”: o
- em busca de inspiração, distantes, ao mesmo tempo. tempo e a imortalidade. Os
deslumbramento, consolo, Excetuando García Márquez personagens, muitas vezes
desconforto. e seu “Cem Anos de Soli- eles próprios escritores e,
Eu poderia citar alguns dão”, de todos os ilustres por vezes, livros, enfrentam
dos que fazem parte da autores de língua espanhola o tempo e almejam a eter-
minha história, como leitor da América Latina só se nidade. Este é o caso dos
e escritor: há “Ulisses” de Ja- conhece os nomes: Vargas contos “Tlön, Uqbar, Orbis
mes Joyce, “Metamorfose” de Llosa, Carlos Fuentes, Ma- Tertius”, “Pierre Menard,
Kafka, “Livro do Desassosse- nuel Puig, Neruda, e Borges, autor do Quixote”, “Exame
go” de Fernando Pessoa. e Borges... da obra de Herbert Quain”,
Jorge Luis Borges é mais “A Biblioteca de Babel”, “O
Estes são livros que, ao Jardim dos caminhos que se
mesmo tempo que me ser- conhecido e reverencia-
do na Itália, por exemplo, bifurcam”, “Funes, O Memo-
vem de inspiração, também rioso” e “O Milagre Secreto”.
significam alguns abismos do que no Brasil. Autores
como Umberto Eco e Italo A passagem do tempo é o
literários, uma espécie de inimigo a ser driblado, a
Olimpo inatingível, algo Calvino buscaram inspi-
ração na obra deste autor morte é o fim de todos os
para invejar e adorar. projetos, mas é na eterni-
argentino. E este é um fato
Poucos autores influen- que não surpreende. Numa dade que a verdadeira obra
ciaram tanto o século XX época em que a Europa se realiza e continua sendo
quanto Jorge Luis Borges, questionava muitos de seus escrita.
e meu interesse pela obra valores seculares, época da A crítica a Borges o
dele surgiu, provavelmente, revolução sexual, do es- acusa de alienado, de fugir
duma das inúmeras refe- truturalismo, do maio de dos temas tradicionais da
rências que fazem a ele: de 68, os europeus estavam Argentina, como os ho-
Foucault a Paulo Coelho, mais próximos da mensa- mens dos pampas, e de ser
todo o mundo cita ou se gem borgiana do que os literariamente reacionário.
remete a Borges quando brasileiros, oprimidos pela No entanto, poucos autores
deseja expressar o espírito ditadura e que se debruça- contemporâneos foram tão
da contemporaneidade ou vam sobre problemas como inovadores quanto Borges,
para conclamar ares de censura, perseguição políti- que se dedicou a um gênero
intelectual. ca e desigualdades sociais. considerado menor, evitan-
Borges é uma autoridade, O universalismo do Borges do obras longas, ao mes-
não apenas em Literatura; ia na contramão do que mo tempo que foi a fonte
a opinião de Borges encer- ocorria no Brasil. inspiradora de inúmeros
ra qualquer debate; Borges E foi logo na primeira romances.
alçou o estatuto de Homero leitura que a obra de Borges Borges é um abismo, e
do século XX, no panteão se tornou, para mim, um quem apreende seu univer-
dos grandes autores. destes abismos literários. so se embrenha em labi-
No entanto, o brasileiro Especialmente o livro de rintos sem fim, assim como
quase não conhece Borges. contos “Ficções”, que traz seus personagens, e deles
Na verdade, o brasileiro algumas das grandes obras- nunca mais se liberta.
quase não conhece a litera- primas do autor.
tura latino-americana. Nos-

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Recomendações de Leitura

Putas Assassinas,
de Roberto Bolaño
Caio Rudá

A despeito do que o seu quase xará mais famo- escolher o que, dentro das
leitor possa imaginar antes so. Enquanto o trabalho do narrativas, é reminiscência
de iniciar a leitura do ar- mexicano tem sido exibido, e o que é invenção. De todo
tigo, “Putas Assassinas” não com relativo sucesso, por modo, a impressão que se
é um livro erótico escrito décadas na TV brasileira, tem é que os 13 contos que
pelo comediante mexicano só agora o chileno se tem compõem o livro são sua
criador do Chaves. Trata-se tornado um conhecido do vida de cidadão do mundo
aqui de uma singular litera- leitor tupiniquim. - nascido no Chile, viajado
tura, escrita por um chileno “Putas assassinas” é uma por México, França e radi-
exilado após o golpe de ficção auto-biográfica. Ou cado por fim na Espanha
Pinochet, cujo nome tam- seria uma auto-biografia - fragmentada e contada
bém é (no) singular: Rober- ficcional? O fato é que Bo- como o que foi ou poderia
to Bolaño. Não é só um s laño parece brincar com o ter sido. Não há dúvidas,
ao fim do nome, contudo, leitor, dando-lhe o míster de portanto, de que a experiên-
que diferencia Bolaño de cia pessoal foi a base para

24 SAMIZDAT maio de 2009


24
sua escrita fluida e cosmo- algum dinheiro aos filhos.
polita. É dessa forma que os Também, intitulava-se um
enredos de Putas assassinas latino-americano, aparen-
revelam uma história de tando ter renegado o Chile
vida rica e intensa, mesmo enquanto pátria, de modo
para quem se deparou com que suas alusões a tal país
a morte precoce aos 50 eram carregadas de ressen-
anos. timentos.
Em suas narrativas, Bo- Outras características, no
laño é o fotógrafo homos- entanto, podem ser assina-
sexual que presencia rituais ladas nesse excelente livro,
http://www.bolanobolano.com/wp-content/uploads/2008/11/roberto-bolano-at-paula-chico.jpg

macabros na Índia. É tam- que se desloca num fio


bém o professor que não cujas extremidades são o
queria dirigir “uma oficina vulgar e o fantástico. Dado
de literatura em nenhum que Bolaño era um escritor
Putas Assassinas
povoado perdido do norte que transcendia classifica-
do México”. É B (Bolaño?), ções, seu trabalho em Putas Autor: Roberto Bolaño
um indivíduo recém-chega- assassinas tem ares muito
Editora: Cia das Letras
do a Barcelona que “assiste peculiares, resultado do
a uma festa de chilenos encontro de uma redação
exilados na Europa”, e é ele cética, do ponto de vista mais famosos da França.”
próprio na narrativa surreal existencial, e humor inve- O segundo revela um
que encerra o livro. javelmente perspicaz. Dois escritor dotado de técnica,
Toda a obra, ou boa parte contos merecem menção por trás da escrita econô-
dela, tem uma atmosfe- destacada: O retorno e mica e objetiva. Bolaño
ra nostálgica, em cujo ar Encontro com Enrique Lihn, aqui é o próprio protago-
encontram-se porções de que apontam passos pelo nista, que vai, em sonho, ao
conformismo e apatia dian- realismo mágico. O primei- encontro do seu contem-
te de uma vida que, embora ro é de uma agudeza ím- porâneo e então falecido
intensa, não significou êxito par e repleto de passagens Enrique Lihn, uma narrativa
pleno. Isso porque Bolaño marcantes, das quais: de único parágrafo e bom
talvez tenha sido uma des- “O costureiro, para minha exemplo do fluxo de cons-
sas pessoas, não sem razão, surpresa, gozou se esfregando ciência.
amargas e taciturnas, para na minha coxa. Nesse mo- “Putas assassinas” é, além
quem o ato de escrever era mento eu gostaria de ter fe- de uma viagem a paisagens
catártico. As referências a chado os olhos, mas não con- estéreis ou tropicais do
poetas e à ditadura chilena segui. Experimentei sensações México, a um Chile imagi-
(e seus subjacentes comen- antagônicas: nojo pelo que nário, uma França não tão
tários ácidos) são temas via, agradecimento por não grandiosa e uma Barcelona
constantes. Estes parecem ter sido sodomizado, surpre- “de senso comum”, uma
ser duas das grandes decep- sa por Villeneuve ser quem jornada pelo psicológico de
ções da sua vida, tendo o era, raiva dos maqueiros por um dos maiores escritores
próprio afirmado que consi- terem vendido ou alugado latinos dos últimos tempos.
derava-se poeta em essência meu corpo e até vaidade por
e passou a escrever prosa ser involuntariamente objeto
apenas para conseguir legar de desejo de um dos homens

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Autor em Língua Portuguesa

A VELHA E A ARA

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Deu-se em época onde

ARANHA
o tempo nunca chegou.
Está-se escrevendo, ainda
por mostrar a redigida
verdade. O tudo que foi,
será que aconteceu? Co-
meço na velha, sua en-
Mia Couto rugada caligrafia. Oculta
de face, ela entretinha
seus silêncios numa
casinha tão pequena, tão
mínima que se ouviam
as paredes roçarem,
umas de encontro às
outras. O antigamente ali
se arrumava. A poeira,
madrugadora, competia
com o cacimbo. A mu-
lher só morava em seu
assento, sem desperdiçar
nem um gesto. Em oca-
siões poucas, ela sacudia
as moscas que lhe cobi-
çavam as feridas das per-
nas. Sentada, imovente,
a mulher presenciava-se
sonhar. Naquela inteira
solidão, ela via seu filho
regressando. Ele se dera
às tropas, serviço de
tiros.

- Esta noite chega


Antoninho. Vem todo de
farda, sacudu.

Para receber António


ela aprontava o vestido
mais a jeito de ser roupa.
Azul-azulinho. O vestido
saía da caixa para com-

http://www.flickr.com/photos/mdu2boy/2710193086/sizes/o/

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por sua fantasia. Depois, uma prova de promessa. no sobrevoo das feridas,
em triste suspiro, a rou- Decidiu-se então a ve- estranharam nem serem
pa da ilusão voltava aos lha surpreender o autor sacudidas. Foi quando
guardos. da maravilha. A partir passos de bota lhe entra-
dessa tarde, seus olhos ram na escuta. Antoni-
- Depressa-te Antoni-
emboscaram o tempo, no nho! A velha esmerava-se
nho, a minha vida está-te
degrau de cada minuto. na sua imobilidade para
à espera.
Esquecida do sono e do que o regresso se com-
Mas era mais as es- sustento, não houve nun- pletasse, fosse o avesso
peras do que as horas. E ca sentinela mais atenta. de um nascer. E lhe vie-
o cansaço era sua única Até que, certa vez, , se ram as dores, iguais, as
carícia. Ela adormecia- escutou um rumor quase mesmas com que ele se
se, um leve sorriso me- arrependido, desses feitos havia arrancado da sua
ninando-lhe o rosto. E para ser ouvidos apenas carne. Encontraram a ve-
assim por nenhum dian- pelos bichos caçadores. lha em estado de retrato,
te. Desconhece-se a data, Por uma breve fresta se ao dispor da poeira. Em
talvez nem tenha havido, injanelava uma aranha. todo o seu redor, envol-
mas num dos seus olha- Era de um verde peque- vente, uma espessa teia.
res demorados, a velha nino, quase singelo. Com Era como um cacimbo,
encontrou um brilho vagaroso gesto a velha a memória de uma fu-
cintilando num canto do foi tirando o vestido do maragem. E a seu lado,
tecto. Era uma teia de caixote. Usava os mais sem que ninguém vis-
aranha. Ali onde apenas lentos gestos, fosse para lumbrasse entendimento,
o escuro fazia esquina, o bicho não levar susto. estava um par de botas
havia agora a alma de negras, lustradas, sem
- Qualquer uma coisa
uma luz, flor em fun- gota de poeira.
vai acontecer!
do de cinza. A velha
levantou-se para mais Era suspeita que ela
olhar o achado. Não bem sabia. Confirmou-se Fonte: http://www.
era a curiosidade que quando as duas, mulher lumiarte.com/luardeou-
lhe puxava o movimen- e aranha, se olharam de tono/miacouto1.html
to. Assustava-lhe a sua frente. E se entregaram
transparência demasiada. em fundo entendimento,
E, de logo, lhe surgiu a trocando muda conversa
pergunta que luz tecera de mães. A velha sentiu
aquele bordado? Não o bicho pedia-lhe que
podia ser obra de bicho. ficasse quieta, tão quie-
Não. Aquilo era trabalho ta que talvez qualquer
para ser feito por espíri- coisa pudesse acontecer.
to, criaturamente. A teia Então ela se fez exacta,
podia só ser um sinal, intranseunte. As moscas,

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28
http://www.timbilamuzimba.com/images/foto_mia2.jpg
Mia Couto é um dos escritores tinha uma “terra-mãe” - tinha A sua linguagem extremamente
moçambicanos mais conhecidos uma “água-mãe”, referindo-se à rica e muito fértil em neologis-
no estrangeiro. António Emílio tendência daquela cidade baixa mos confere-lhe um atributo de
Leite Couto ganhou o nome Mia e localizada à beira do Oceano singular percepção e interpreta-
do irmãozinho que não conse- Índico para ficar inundada. ção da beleza interna das coisas.
guia dizer “Emílio”. Segundo o Iniciou o curso de Medicina ao As imagens de Mia Couto evo-
próprio autor a utilização deste mesmo tempo que se iniciava no cam necessariamente a intuição
apelido tem a ver com sua pai- jornalismo e abandonou aquele de mundos fantásticos, subjacen-
xão pelos gatos e desde pequeno curso para se dedicar a tempo tes ao mundo em que vivemos.
dizia a sua família que queria inteiro à segunda ocupação. Foi Fontes:
ser um deles. director da Agência de Infor- http://pt.wikipedia.org/wiki/
Nasceu na Beira, a segunda mação de Moçambique e mais Mia_Couto
cidade de Moçambique, em tarde tirou o curso de Biologia,
http://lugardaspalavras.no.sapo.
1955. Ele disse uma vez que não profissão que exerce até agora.
pt/prosa/mia_couto.htm

O lugar onde http://www.flickr.com/photos/hidden_treasure/2474163220/sizes/l/

a boa Literatura
é fabricada

ficina
www.revistasamizdat.com 29
www.oficinaeditora.org
Contos

A Pedra do Olho Divino


Carlos Alberto Barros

Em seu costumeiro traba- os reflexos do sol lhe ofus- Algumas folhagens por cima
lho de carpir, Mané Santos caram a visão. “Que diacho disfarçando o local e seu te-
foi interrompido pelo tilintar de pedra brilhante é esta?”, souro já estava devidamente
http://www.flickr.com/photos/wlodi/252462355/sizes/o/
do metal da enxada batendo espantou-se. Tornou a pegar ocultado.
contra algo rígido sob a terra. a enxada. Deu um, dois... três O homem presumia estar
“Mais um pedregulho”, esbra- golpes e lascou um pedaço com algo extraordinário em
vejou. Quando cavoucou ao da rocha, do tamanho de um mãos. Só o que não podia
redor, notou que era maior punho fechado. O fragmento imaginar é que aquela des-
do que imaginava. Cavou assemelhava-se a um dia- coberta o destruiria e, junto
mais, até formar um buraco mante lapidado, porém, de consigo, levaria todo o povo-
de meio metro de diâmetro. forma irregular, o brilho era ado de Água Santa à perdi-
A superfície da pedra se intenso e a superfície extre- ção.
estendia por toda a abertura. mamente lisa. Verificando se
Mané Santos se agachou para ninguém o espiava, guardou
examinar de perto. Soprou a lasca no bolso e tratou de Quando a mulher de
a poeira que se acumulava e devolver a terra ao buraco. Mané Santos viu a pedra

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30
preciosa, não pensou duas chifres com a “putinha da - E a senhora matou o
vezes em intimá-lo: “Tu vai venda”. Mas disto, todos já homem com a única certeza
fazer uma jóia muito linda sabiam. Inclusive, não houve de uma visão?!
com esta pedra. A mulhera- quem não ficasse aliviado - Se eu vi, foi por Deus. E
da de Água Santa vão tudo por, finalmente, ela descobrir. não sou eu quem vai descon-
me invejar”. No dia seguinte, As pessoas preferiam confes- fiar do poder divino.
lá estava com a tal da jóia ao sar-se todos domingos, pela
pescoço. omissão, a ter que revelar - Isso é verdade! O que
a verdade. E o padre era o é de Deus é de Deus. Mas,
Mané Santos, depois de deixa pra lá... E a tal jóia, a
conseguir mais da rocha em mais infeliz de todos: tinha o
peso da consciência propor- senhora ainda tem?
sua escavação secreta, fez
outro colar. “Este tem destino cional à quantidade de fiéis - Eu não uso mais aquela
especial. Uma jóia para outra confessos. Enfim, a mulher porcaria. Senão, fico lem-
jóia”. Escondeu-o dentro da disse que não admitia ser brando do diabo do Mané.
calça e saiu. traída e que só não matava a Mas, já lhe mostro – saiu e,
tal da “putinha” também para em poucos instantes, já vol-
Depois de algumas ho- não acabar de vez com a paz tava com o colar. Erguendo-o
ras, voltou para casa. E qual do povoado. na altura dos olhos, conti-
não foi seu espanto ao ser nuou:
surpreendido pela própria Ninguém foi curioso (ou
mulher empunhando um indiscreto) o suficiente para - Vejo isso e só consigo
facão a lhe ameaçar. “Vem, perguntar à viúva como lembrar do desgraçado cheio
seu filho-duma-rapariga! soube da traição. O único de sangue. Ou naquela “Égui-
Vem, que eu vou lhe mostrar digno de tal feito seria Pedro nha” de perna aberta pra ele.
que ninguém me bota cornos Pitanga, o “grande benfeitor” Após essas últimas pa-
e sai impune!”, e golpeou o de Água Santa. Ele era capaz lavras, a jóia brilhou leve-
homem. Pego de surpresa, das mais incríveis façanhas mente e refletiu a imagem
não conseguiu esquivar-se. com sua lábia e simpatia. da “putinha da venda”. Em
Caído e com a cabeça racha- Quando foi à casa da mu- seguida, mostrou o local
da, ainda conseguiu protes- lher e questionou-a sobre o onde ela trabalhava. A cena
tar: “Ficou maluca, mulher?” ocorrido, esta contou toda apresentava-se como quem
Ao que ela, transfigurada, a história. Falou da desco- estivesse olhando por detrás
respondeu: “Maluca é o Cão, berta do marido, da jóia, da do balcão, sendo que, além
teu infeliz! E eu tô é com ele visão na pedra e do facão. do próprio, via-se dois ho-
no corpo pra te mandar ao Disse que, enquanto olhava mens conversando (também
inferno”, e desferiu mais dois o colar, pensava em como se ouvia a conversa deles) e a
golpes: o primeiro, aparado seu homem era maravilhoso, porta aberta para a rua.
por um braço instintivo; o e de repente, viu-o aparecer
na pedra. Em seguida, viu a Pedro Pitanga, mantendo
segundo, no pescoço, fatal. sua tranqüilidade, disse:
“putinha da venda” de pernas
Em Água Santa, eram abertas, com ele no meio. - A senhora tem uma pe-
comuns estas desavenças Também ouviu os gemidos dra realmente preciosa. Pena
encerradas com morte. Sendo e sacanagens que falavam que lhe traz más lembranças.
que, quando a notícia se um ao outro. Depois disso,
espalhou, ninguém ficou im- - Isto não é mais que um
só esperou para cortar-lhe o estorvo. E agora me aparece
pressionado. Ainda mais se pescoço.
tratando de caso de adultério, mostrando o bar da rapariga!
todos deram razão à mulher Mesmo sabendo das esca- Tenha dó! Se acha tão precio-
do falecido. O que aconteceu, padas de Mané Santos, Pedro sa assim, pode ficar com esta
conforme explicou, é que seu Pitanga não pôde se conter pedra imprestável.
marido estava lhe botando em perguntar: - Olhe, se é para aliviar a

www.revistasamizdat.com 31
tristeza da senhora... eu fico. vel. Quanto mais cavavam, passaram a resolver diversos
Desde muito pequeno, maior se mostrava. Depois de problemas apenas usando o
Pedro Pitanga era conhecido conseguirem algumas deze- artefato. Se alguém dissesse:
por ser empreendedor. Uma nas de pedaços, se entocaram “Vai ter futebol no sábado?”,
de suas empreitadas mais dentro de casa e botaram-se um outro respondia: “Ama-
famosas foi quando trouxe o a trabalhar. Após vários tes- nhã tu me passa uma visão
fruto das pitangueiras para tes, compreenderam todo o que eu lhe digo”. Ou então:
Água Santa. A idéia lhe ren- funcionamento: duas pessoas “Vamos pro forró no Bento?”,
deu meses de zombaria e um possuíam a jóia; a primeira e a resposta: “Mais tarde te
bom prejuízo, já que nem sua pensava na segunda, via a passo uma visão pra confir-
lábia engenhosa foi capaz de imagem desta na pedra, de- mar”. Até o padre resolveu
convencer o paladar dos fre- pois via o cenário; a segunda, aderir à praticidade. Quem
gueses, que odiaram a fruta. por sua vez, tinha na pedra não podia ir à missa no
A despeito dessa frustração, a imagem da primeira, mas domingo tinha a chance de
nunca deixou de investir nas só via o cenário se pensasse assisti-la numa visão. Bas-
novidades – era um homem nela. Entendido o proces- tava pensar no sacerdote e
de mente científica. Quando so, foram à confecção dos pronto, lá estava a imagem
conseguiu a jóia, só pensava colares. No dia seguinte, uma da celebração. Inclusive, as
em como aquele artefato po- grande faixa apareceu em confissões via jóia também
deria trazer benefícios a seu frente à residência: se tornaram freqüentes.
povoado e, claro, como lhe “Conheça a mais nova ma- Outra que logo se adap-
daria algum dinheiro. Antes, ravilha da ciência: A PEDRA tou à novidade foi a “putinha
precisava descobrir os deta- DO OLHO DIVINO! Por um da venda”. Elaborou um útil
lhes do funcionamento, para preço justo, adquira uma lin- serviço de entrega chamado
isso, foi atrás da “putinha da da jóia de habilidades comu- “Visão Rápida”. Quem qui-
venda”. Do pescoço da moça, nicativas!” sesse comprar algo passava
pendia um colar semelhante A sociedade de Pedro uma visão e logo tinha as
ao da viúva. “Foi um presente Pitanga e da viúva estava compras entregues por um
do Manezinho”, disse com formada. Os moradores do ajudante da moça.
um sorriso descarado. povoado se encantaram com Com o tempo, as pessoas
Em sua casa, ao pensar a novidade, e até quem não de Água Santa passaram a
na “putinha”, Pedro Pitanga tinha dinheiro dava um jeito sair pouco à rua. Viam-se
viu a cena do bar novamente de conseguir a Pedra do apenas nos eventos sociais –
refletida na pedra. Foi aí que Olho Divino trocando por missas (vazias), forrós (pou-
entendeu. As duas jóias se um porco ou alguns litros cos), futebol (raro) –, indo ao
comunicavam. Para acioná- de cachaça pura. Na época, trabalho, ou nos serviços de
las, bastava ter uma à mão e não se conhecia telefone, de entrega que seguiram mo-
pensar em quem estivesse de maneira que a comunicação delo no sucesso do “Visão
posse da outra. “A ciência é pelas pedras tornou-se um Rápida”. Não que os mora-
espetacular!”, refletia maravi- sucesso estrondoso. Pedro dores deixassem de se rela-
lhado. E a partir da descober- Pitanga mostrou-se tão feliz cionar, mas faziam isso quase
ta, o mundo de Água Santa com os lucros que até re- que exclusivamente pelas
viveu uma revolução. solveu propor casamento à visões. Alguns nunca haviam
Pedro Pitanga tratou de sócia. “Para a prosperidade conversado antes e passavam
conseguir mais da jóia com dos negócios”, dizia. a ser grandes amigos através
a viúva. Quando viu o ta- A jóia trouxe grandes da jóia. Outros começavam a
manho da mina encontrada mudanças a Água Santa. Os namorar. Havia ainda aqueles
por Mané, pensou: “Estamos habitantes mudaram mui- que ficavam horas e horas da
ricos”. A rocha era inesgotá- tas de suas rotinas diárias e madrugada passando visões,

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quase viciados. Assim, a Pe- - Pelo amor de Deus, mu- pagasse, a mostra era cance-
dra do Olho Divino tornou- lher, eu posso explicar. lada. Acertaram uma estra-
se um utensílio indispensável - Explique, teu cachorro! tégia de só verem a visão no
aos moradores, pelo menos Explique, que depois eu lhe banheiro, para que nenhuma
uma era certo de se encon- enfio o facão no rabo! mulher descobrisse. E assim
trar em qualquer residência. vinha acontecendo há um
- Se acalme! Eu não tenho bom tempo.
Mesmo depois de todos nada com a moça, não... Era
terem suas jóias, Pedro Pitan- só uma visão. No decorrer dos dias,
ga e a esposa-sócia, que pas- Dona Pitanga combinou com
sou a ser chamada de Dona - Ah, então, era só uma as outras moradoras de dar
Pitanga, continuaram lucran- visão, teu filha-duma-égua! fim à história. E, na madru-
do muito: as pessoas começa- Vamos, continue a linda ex- gada da semana seguinte,
ram a comprar para presen- plicação – falou, irônica. enquanto todos os homens
tearem parentes distantes; - Escute, vou lhe falar a encontravam-se em seus
alguns adquiriam grandes verdade. É que a moça faz banheiros, as mulheres se
lotes e revendiam em outros essa apresentação pra ganhar levantaram em silêncio e sa-
povoados; a diocese solicitava uns trocos a mais. Uma vez íram à rua para se reunirem
encomendas a fim de difun- por semana, ela combina um na casa da “putinha”. Portan-
dir a missa via visão para horário e cobra uma taxa dos do armas, invadiram o quar-
vilarejos mais afastados... A homens para se apresentar. to da moça e improvisaram
Pedra do Olho Divino es- Mas, não é maldade, só está uma mostra erótica grupal.
tava saindo de Água Santa ganhando seu dinheiro... Depois da moça ser violen-
e conquistando o mundo. - Não é maldade?! – fez tada com cabos de enxada e
E foi justo nessa época que uma expressão macabra – facões enferrujados, uma a
se iniciou a decadência do Olhe, tu não vai dizer nada uma as mulheres iam arran-
povoado, começando por um do que aconteceu aqui pra cando-lhe pedaços e mos-
assassinato brutal idealizado essa desgracenta e nem pra trando para a jóia. Nenhum
pelas mulheres do lugar. ninguém. Continue vendo dos homens teve coragem de
tua apresentação. E, semana atender aos gritos de socorro
que vem, não deixe de assis- da jovem. Só o que faziam
Além do casal Pitanga, era continuar assistindo a
quem mais lucrou com as tir também. Vai ser muito
melhor... visão, chocados. Meia hora
mudanças foi a “putinha depois, voltaram para suas
da venda”. O que parecia - O que tu vai fazer mu- camas, já com suas mulheres
estranho era como a moça lher? Deixe de bobagem. nelas, dormindo (ou fingindo
ganhava tanto dinheiro se as - Vou voltar a dormir. Se dormir). Em vão, tentavam
vendas eram as mesmas de tu abrir a boca pra alguém, adormecer, enquanto, lá fora,
antes, com a única exceção eu lhe capo – falou, tranqüi- as chamas queimavam a cena
de serem entregues em casa. lamente. do crime. No dia seguinte,
E quem descobriu o mistério nem elas nem eles tocaram
foi justo Dona Pitanga quan- O esquema das apresenta-
ções era conhecido por todos no assunto, mas todos se
do, numa madrugada, flagrou mostraram muito espantados
o marido no banheiro ad- os homens de Água Santa.
Eles pagavam semanalmente com o inexplicável incêndio
mirando sua jóia. A pedra que acabou com a casa da
mostrava a visão da “putinha” para verem a criadora do
“Visão Rápida” em meia hora próspera moça.
nua, fazendo uma apresen-
tação erótica. A reação da de nudez. O acordo era que
mulher foi sair em busca de todos contribuíssem, “para Depois dessa morte, a jóia
seu facão, mas Pedro Pitanga ajudar a moça a sobreviver”, já não era mais vista com
a segurou, implorando: como diziam. Se um só não bons olhos. As pessoas per-

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ceberam que podia ser usada não havia acabado. Os sobre- mo das safadezas dos fale-
com más intenções e, com viventes tinham certeza de cidos maridos. Decidiu que
isso, trazer desgraça ao povo. que, quando o fazendeiro vol- Água Santa seria seu túmulo.
Contudo, essa nova opinião tasse, seria com força total.
não impediu que lutassem “Mas, como continuar sem
para defendê-la quando um Pedro Pitanga?”, era o que se A cena derradeira foi
fazendeiro ambicioso quis perguntavam. A resposta veio única: homens, mulheres
reivindicá-la. O homem da reincidente viúva, Dona e crianças, portando ar-
chegou dizendo que aquelas Pitanga. A mulher amava mas, corriam na direção do
terras eram dele e que, por aquele lugar, foi nele que inimigo. No peito de cada
conseqüência, a mina da jóia fez sua vida, não iria deixar um, brilhava a Pedra do
também lhe pertencia. Foi quem quer que fosse tirar o Olho Divino. À frente, Dona
quando começou o que, pos- que lhe pertencia. Depois de Pitanga comandava o avanço
teriormente, ficou conhecida um discurso inflamado, fa- erguendo seu antigo facão. O
como a Guerra da Pedra. lando de patriotismo, de dig- megafone avisou: “Se continu-
nidade, de honra à alma do arem, abriremos fogo”. Não
Pedro Pitanga ficou indig- pararam. “Parem agora ou
nado com a história do ho- marido e da preciosa Pedra
do Olho Divino, conseguiu atiramos”. A resposta veio da
mem desconhecido e conven- líder: “Povo de Água Santa,
ceu toda Água Santa de não convencer os poucos que res-
taram (que não chegavam a em frente, por nossa jóia!”
cair na conversa. O fazendei-
ro não se abalou e prometeu quarenta, juntando mulheres O massacre foi consuma-
voltar com reforços. Em uma e crianças) a uma última e do: últimos rebeldes mortos;
semana, Pedro já havia arma- heróica defesa de suas terras. poucos do exército feridos.
do todo o povoado, deixando Poucos dias se passaram, Enquanto tiravam os colares
todos preparados para as dos corpos, grandes máqui-
como um curto período de
piores provações. A todo o nas começavam a demolir as
trégua, até que o povo de
custo, iriam defender a Pedra casas. Em poucos dias, não
Água Santa avistou seu novo
do Olho Divino, já considera- se via mais nenhuma cons-
inimigo. Era de se estranhar
da seu patrimônio cultural. trução, apenas uma grande
que os poderes governamen-
área desmatada tendo uma
A Guerra da Pedra foi tais ainda não tivessem se
brilhante rocha sobressaindo
sangrenta, com vários mortos importado com a jóia. Mas,
na superfície. Água Santa
de ambos os lados, porém, os quando resolveram agir,
foi dizimada e, no seu lu-
abatidos de Água Santa eram foram decisivos. O exército
gar, construído um grande
mais numerosos. Ao término chegou com tanques e ca-
laboratório. As pesquisas
de três dias, os homens do nhões. Vários soldados já
procuravam desvendar o
fazendeiro foram expulsos, se colocavam em posição
funcionamento da Pedra do
mas, a um preço muito alto: de batalha. Pelo megafone,
Olho Divino, a fim de desen-
Pedro Pitanga morrera na o comandante informou a
volver novas tecnologias para
frente de batalha. situação: “Em nome da pros-
a indústria de comunicação.
peridade do país, estas terras
Todo o povoado chorou a Algo de que Pedro Pitanga,
serão desabitadas e isoladas.
morte do “grande benfeitor”. como um homem de mente
O local se tornará uma área
E muitos, de tão abalados, re- científica, se orgulharia.
de pesquisas científicas com
solveram fugir para não aca-
acesso restrito. Caso os habi-
bar como o pobre homem. O
tantes não cooperem, temos
padre, intervindo, alertou da
ordem para abrir fogo”. As
inutilidade da guerra e disse
palavras inflamaram o cora-
não ficar para ver o seu final.
ção de Dona Pitanga – nunca
De fato, a Guerra da Pedra sentira tanto ódio, nem mes-

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Ele tinha diante de si
a mais difícil das missões:
cumprir a vontade de Deus ficina
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Henry Alfred Bugalho


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O Rei dos
Judeus
do www.revistasamizdat.com 35
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Contos

Maria de Fátima Santos

Sonhos de batata
Amanheci dentro da caixa de acordar na caixa em que ombro. Cheiram a terra e a

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das batatas. Uma caixa de as guardei, coberta de todos caca de cavalo. De um modo
madeira em ripas mal apara- os lados pelas ditas, ainda muito menos intenso, sinto o
das, que coloquei ontem na remeladas de terra seca. Aqui odor agradável do presunto.
dispensa. Tenho as pernas estou eu amanhecendo entre Tenho a coxa direita assente
encolhidas e o braço direito elas. sobre dois tubérculos, um
debaixo da cabeça. Deitada Olho em volta, quase bocadinho maiores: daqueles
de lado, devo parecer um receando estar tão desper- que costumo escolher para
feto, enroladito entre os tu- ta. A porta da dispensa está assar e comer com molho.
bérculos de cor acastanhada. fechada. Fui eu que a fechei Estou bem acordada, disso
Batatas novas, trazidas por por receio do cão, pois que não duvido, mas não dormi
uma amiga de uma courela pendurei, na noite anterior, a noite inteira neste local,
onde o pai as semeia para umas quantas chouriças e que eu sei que li uma dú-
sua entretenha. Ele não as um osso de presunto numa zia de páginas de um livro
vende: distribui pelos filhos e corda de modo que ficassem e adormeci deitada bem ao
pelos amigos que estão mais fora do alcance do cachorro. meio da cama, com as pernas
por perto. Já pensou, segundo E mesmo assim, fechei a por- tapadas com o lençol, que o
conta a filha, dar aos pobres ta e, por excesso de cuidado edredão de flores encarnadas
da vila, mas diz ele, que pre- ou parvoíce, rodei a chave. escorregara para o chão. Não
fere fazer um bem que lhe E agora, não sei como é que sei como, estou aqui. Tento
fique sem agradeceres e sem saio. levantar-me, mas não me
lembranças. Terá suas razões, Tenho um monte de desloco nem um pedacinho,
o homem, que nunca pelas batatas sobre a minha testa por maior que seja o esforço.
batatas me lembraria dele e duas depositadas na cova Reparo que apenas penso
não fosse dar-se este insólito entre a orelha esquerda e o como gente, que é só isso: no

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resto, sou em tudo igual ao joleira num tic- tic ruidoso mesmo olho que se encan-
vegetal andino com que os que me diz serem saltos altos deia com a luz. Alguém que
Incas alimentavam os filhos. e pontudos os que a dirigem tinha a chave abriu a porta.
Oiço vozes! para o fundo, para o lado da Alguém com uma mão enfei-
Uma mulher fala na cozi- sala, para a porta da rua. tada com anéis baratos que
nha aqui ao lado. Gente na Vou percebendo, com um se espalham pelos dedos e,
minha casa e este meu pé espanto que quase me dá no pulso, várias pulseiras de
esquerdo que não se mexe! medo, que a voz da mulher missangas em tons de verde.
Devo estar presa nalgum é a minha voz, e nem quero Reconheço, sem margem
pesadelo; vou esperar que me perceber que sou eu que me para qualquer engano, a mão
acorde. apresso a sair para a reunião de Beatriz, a minha adorada
Mas não parece sonho: das nove e meia; reconheço- empregada de há vinte anos.
vejo muito bem os dez me, atrasada, afogueada de Eu, que nem me mexo um
chouriços aqui pendurados. noites que são sempre ma- pedacinho, olho a mão que
E conto-os: um, dois, três… drugadas. me parece um monstro, e
dez chouriços de sangue e Sou eu! Constato, confusa percebo que Beatriz não me
mais o osso com pedaços de e incrédula. reconhece enquanto revolve
presunto. Sou eu quem ali está na em minha volta, a apanhar
Escuto, com atenção, a voz. cozinha, batendo o chão num batatas para a sopa. E agarra
Não. Eu não durmo. É passo decidido, e também as duas que eu tinha aninha-
bem real esta mulher quase sou eu aqui, deitada na caixa das no meu ombro, dirigindo
gritando para outro alguém: das batatas, suja de terra da para mim as unhas pintadas
- Podes trazer a roupa apanha e a cheirar a bosta de de verniz azul-bebé com flo-
da cama. Ontem deixei cair cavalo. Empapo a cara com rinhas desenhadas em rosa
tinta no edredão. Esta mania uma lágrima incontida pois choque. Apanha-me com de-
de desenhar na cama. Põe o acredito que é sonho eu ser dos húmidos, um tudo-nada
tira-nódoas antes de meter gente deitada num lençol, gordurosos. As missangas da
na máquina. Faz uma sopa. que as doze páginas do livro, pulseira magoam-me quando
Vai à dispensa e tira bata- nem eu as estive lendo, que ela me agarra pelo pescoço.
tas novas. Podes colocar um são de um mundo que inven- Fico um instante entalada en-
bocado de presunto. to, tal como o edredão com tre dois dedos, que cheiram
A voz vai e vem. A mu- flores em vermelho: imagi- a água de rosas e ao deter-
lher anda, decerto, de um nação de uma batatinha- gente com que lavou o chão.
lado para o outro. Os sola- nova desejosa de conhecer o Depois, caio desamparada no
vancos na voz são de quem mundo. plástico azul de um algui-
está mastigando e bebendo Ou não. dar. Tenho o pé direito com
que lhe noto nos intervalos Talvez seja mesmo eu entorse, mas nem me queixo,
que deixa entre as sílabas, quem ali anda na cozinha e nem choro. Fecho os olhos e
enroladas no que pode ser acaba de bater com estrondo tento convencer-me que de
um pão com doce. a porta, que de outro modo aqui a pouco acordo.
- Até logo. Não chego não se fecharia. Talvez eu me Oiço o respirar compas-
antes das seis. esteja desdobrando em duas: sado do meu cão que dorme
É a mulher que o diz, e aquela pessoa feminina e este debaixo da bancada onde Be-
deve ter olhado um reló- tubérculo redondo e suculen- atriz colocou o alguidar com
gio, talvez para um que ela to acordando, espantado, na as batatas que vai descascar.
tenha no braço, ou para o dispensa, sem saber deslindar Quando a faca começa a
que pulsa certinho no meu se sou mesmo eu, deitada retirar o primeiro pedaço,
micro-ondas, pois que grita, entre batatas. oiço o ruído do meu todo-
em falsete: Um bocado de terra cas- o-terreno que arranca no
- Merda, já estou atrasada! tanha, cai na minha testa e jardim: fui-me embora e
E bate os sapatos na ti- fica bamboleando sobre o deixei-me aqui.

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Contos

A luz de Delft
Joaquim Bispo

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/ea/Jan_Vermeer_van_Delft_003.jpg

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O que vou contar come- meira coisa que fiz foi olhar sadas umas semanas, deixei
çou na semana após o Natal, para o quadro. O carteiro já de ver imagens estranhas a
ao chegar a casa por volta lá não estava. Fiquei aborre- perturbar o recolhimento
das cinco da tarde. Depois cido. Frustrara-se a hipótese da holandesa de Vermeer na
de me pôr à vontade, prepa- de mostrar o fenómeno aos leitura da sua carta.
rei um copo de leite-com- amigos. Logo a seguir, fiquei Quando já dava por certo
chocolate morno, juntei um preocupado. O que quer que que o meu problema esta-
pacote de bolachas recheadas tivesse perturbado a minha va sanado, certa manhã, dei
e fui lanchar para a sala, percepção devia estar em pela falta da própria mulher
enquanto via um episódio do mim e podia ser um grave do quadro. Calculam como
Dr. House. problema de saúde. fiquei! O coração acelerou-se
Foi já no fim do lanche Resolvi fazer umas pes- e quase entrei em pânico. Se
que o vi: o carteiro de Pablo quisas na Net sobre altera- antes era açúcar, o que seria
Neruda, como eu me lem- ções de percepção. Um site agora?!
brava dele no filme, estava francês advertia que níveis Telefonei logo para o meu
mesmo atrás da rapariga que elevados de açúcar no sangue médico que também se mos-
lê uma carta junto a uma podem provocar alucinações. trou alarmado e me disse
janela aberta, na reprodu- Nessa noite, dormi mal. que eu, provavelmente, teria
ção pintada de Vermeer que No dia seguinte, via-se abusado da dieta. Mandou-
tenho por cima da escrivani- uma alcoviteira de Murillo me tomar imediatamente um
nha. Primeiro, fiquei estático, assomando à janela, a falar pacote de açúcar dissolvido
sem saber bem o que pensar. com a rapariga da carta. E em água e que fosse ao con-
Depois, observei as bolachas nos outros dias sucederam- sultório dele no dia seguinte.
e cheirei o leite-com-choco- se outras imagens de menor Tomei o que ele mandou e
late – pareceram-me em bom dimensão: um jarrão azul fiquei pensativo a olhar para
estado! com flores, de Cézanne, junto o quadro deserto. Que intri-
Levantei-me e mirei-o de à fruteira, uma jóia a imitar gante, esta situação!
perto. Estava com aquele ar Lalique no cabelo da jovem, Então, reparei nuns peque-
ingénuo e satisfeito de quem o gato da Olímpia de Manet, nos vultos reflectidos na vi-
finalmente sabe o que são sobre a tapeçaria. Eu sei lá! draça, agora noutra posição.
metáforas. E parecia bem Isto, apesar de eu ter come- Eram-me familiares. Apesar
implantado na camada cro- çado a conter-me nas sobre- de pequenos, não deixavam
mática, como se tivesse sido mesas e a lanchar só fruta margem para dúvidas: eram
pintado ao mesmo tempo fresca. as silhuetas da holandesa
que a mulher. Esquecendo Entretanto, fui ao médico. desaparecida e do carteiro de
o anacronismo do vestuá- Impôs-me uma dieta rigorosa Pablo Neruda, passeando de
rio, não ficava mal de todo sem açúcares e receitou- braço dado numa praça de
no quadro. Aparentemente, me uns comprimidos de Delft!
tinha sido ele a trazer a carta lítio. Disse que devo ter
à jovem holandesa de Ver- Instantaneamente, entendi
uma predisposição genética todo o percurso de aproxi-
meer. visionária que foi potencia- mação e sedução.
«Bem», pensei, «é melhor da pelos excessos da quadra
não dizer nada a ninguém, natalícia. Para eliminar todos No dia seguinte já não fui
sem dormir sobre o assunto». os factores desencadeantes, ao médico. Nunca mais lá
E foi isso que fiz no sofá, a aconselhou-me ainda a parar voltei. Percebi que o amor
meio dum diagnóstico deli- com quaisquer leituras sobre é mais forte que quaisquer
cado do Dr. House. arte durante uns tempos. dietas ou comprimidos. E
encontra sempre o seu cami-
Quando acordei, a pri- O que é certo é que, pas- nho.

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Contos

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Volmar Camargo Junior

Gêmeos
Eram gêmeos, um macho e casa, basta dizer que antes de por um riacho.
uma fêmea. ser uma habitação, o colos- Os órfãos cresceram sem
Ainda bebês, dependentes, sal edifício era um ser vivo, o conhecimento de coisas
dominados pelos ímpetos um autômato dotado da fria como senso comum ou
animais da sobrevivência, e desejada inteligência das auto-limitação. Tudo o que
ficaram órfãos. Viviam em máquinas. Servia aos seus sabiam devia-se somente às
um ambiente que era resulta- habitantes sem a necessidade suas necessidades. Uma vez
do de muitas das aspirações de operação, a casa permane- que não havia uma força
de toda a humanidade. O cia atenta aos movimentos e exterior que lhes ditasse
mundo nunca tomou conhe- desejos dos irmãos gêmeos. as leis que regem o existir,
cimento da maravilhosa casa E além dos bebês, nada mais as crianças eram capazes
em que foram abandonados. era importante. de prodígios. Para nós, tais
As crianças, por sua vez, E, por mais absurdo que capacidades seriam absurdas
jamais souberam que havia nos pareça, essa maravilhosa e maravilhosas. Para eles,
outros seres humanos além habitação abrigava em seu não passavam de respos-
deles próprios. A respeito da interior um bosque cortado tas naturais ao ambiente.

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Deslocavam-se sem o empe- E ela existiu. A incapacidade de ter toda
cilho oferecido pela gravi- Nasceu adulta, mais velha a atenção materna fez com
dade, percorrendo o espaço que eles. Tinha os seios que eles entrassem em atrito.
em qualquer direção. Sendo fartos, era grande, gorda e Munida apenas pelo afeto,
plenamente conscientes da bonita, exatamente como a seu único recurso, a mãe ten-
existência um do outro, co- imaginavam. Por um tempo tou em vão apaziguá-los.
municavam-se sem o esforço sem conta, passaram aninha- De um constante mal-
de emitir sons. Aprenderam dos, aquecendo-se e alimen- estar, a convivência entre os
a compartilhar as sensações tando-se no seio da mãe que três tornou-se insuportável.
e, quando mais experientes, haviam criado. Depois de uma discussão
obstáculos ou distância dei- violenta, os gêmeos, pela pri-
xaram de ser entraves para Entre si, os gêmeos par-
tilhavam tudo. A mãe, en- meira vez desde que recor-
seus sentidos. davam, separaram-se. A mãe,
tretanto, não dispunha das
Brincavam de descobrir mesmas capacidades. Para resignada e impotente, ficou
coisas escondidas acessando conversar com ela, os gême- só.
a memória um do outro. os batalharam até encontrar A casa, que era a máquina
Um dia, durante essa mesma uma linguagem que lhe fosse mais perfeita até então cria-
brincadeira, sobreveio-lhes acessível. E assim que pro- da, sabia em sua inteligência
ao acaso uma lembrança nunciaram a primeira idéia maquinal que a condição de
antiga, de quando saíram da através de um som, perderam sua existência era que preva-
escuridão para a luz. Não a habilidade de comunicar- lecesse a paz entre os gême-
souberam dizer o que era se por pensamento. Pelas os. Caso contrário, quereriam
essa lembrança, mas sabiam limitações espaciais da mãe, escapar de suas dependên-
que eram tão intimamente os irmãos inconscientemente cias, e certamente fariam
ligados por causa dela. Não escolheram não magoá-la, isso. Não intervinha no
havia um nome, mas era quando abusavam de suas modo de viver do prodigioso
como eles: uma fêmea gran- capacidades de voar e de casal, mas era programada
de cujo corpo era fonte de mudar sua posição no espa- para assegurar que nada os
alimento, calor e aconchego. ço sem percorrer a distância perturbasse. Compreendeu
Daquele dia em diante pas- entre dois pontos. Por isso, que aquela nova fêmea, a
saram a cultivar o hábito de caminhavam com a mãe por mãe gerada pelo pensamento
voltar àquele mesmo lugar horas, até mesmo dias, den- dos gêmeos, tinha sido um
da memória para sentirem-se tro do bosque gigantesco. E erro de cálculo, algo impre-
acolhidos pela imensa fêmea em algum tempo, que pode visto e que, por isso mesmo,
desconhecida. O tempo cor- parecer-nos muito breve, os promovia a desordem. Assu-
reu, e as brincadeiras deles gêmeos passaram a ser pes- miu a diretriz de eliminá-la.
já não os entretinham, e o soas comuns, sem nenhum
prazer das carícias mútuas Durante os poucos dias
esforço. que viveu na ausência dos
era um refúgio para o vazio
que crescia à medida que Surgiu então algo com o filhos adotivos, a mãe teve
envelheciam. qual os gêmeos não sabiam de lutar contra o bosque, e
como lidar. Tornaram-se contra a ira da natureza, para
Um dia, desejaram desco- dependentes daquela nova sobreviver. Todos os frutos
brir por que aquela criatura criatura. Precisavam chamar- que coletava para comer
existente apenas em suas lhe a atenção, atrair sua faziam-lhe doer o estômago.
lembranças era-lhes tão atra- aprovação, perceber as coisas A água que bebia do riacho
ente e, a despeito disso, sua como ela. Surgiu o conflito e causava-lhe náuseas e vômi-
ausência causava-lhes sofri- o ciúme entre os irmãos, que tos. Foi picada por insetos,
mento. Juntos, desejaram que há muito já não comparti- teve de esconder-se de pre-
ela existisse. lhavam mais os pensamentos. dadores até que, finalmente,

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caiu de um penhasco que O macho olhava cons- trar o lugar desconhecido
não estivera lá nos dias ante- tantemente para o céu, para além das árvores. Em vão.
riores. as árvores, para os animais, A fêmea sentia-se muito
Os gêmeos estavam mui- e nenhuma dessas coisas mal planando como faziam
to distantes um do outro, respondia ao que ele mental- antes, e por isso, passaram a
sofrendo com a mágoa e mente lhes perguntava: locomover-se outra vez com
outros dos sentimentos que “O que há além desse os pés. Os ciclos inteiros da
nunca tiveram, como sauda- bosque?”. lua passaram oito vezes, e
de e remorso, quando foram a barriga da fêmea, maior
A fêmea olhava para a a cada lua cheia, permitia-
avisados por algo vindo própria barriga. Sentiu que o
das profundezas de seus lhe mover-se cada vez mais
sangue que surgia de dentro devagar. Então, no momento
inconscientes: a mãe estava dela a cada ciclo da lua –
em apuros. Imediatamente em que o casal de consortes-
pois eles conheciam bem a irmãos soube, pela silenciosa
foi-lhes restituído o poder lua, e não sei explicar como
de deslocar-se sem tocar no afinidade que tinham, pa-
isso era possível – parou de raram. A fêmea deu à luz a
chão, e de saberem precisa- vir. Seus seios doíam um
mente onde o outro estava. dois bebes.
pouco, mesmo às carícias
E por todos os lugares que mais delicadas do irmão. E, A casa-máquina sabia exa-
alguma vez estiveram naque- de dentro da única porção tamente o que estava aconte-
le bosque, e em muitos que inacessível de sua intimida- cendo. Programada há tanto
nem eles sabiam existir, em de, a fêmea soube algo que tempo que nem no mais re-
nenhum deles encontraram o macho jamais saberia se moto compartimento de sua
a mãe. Então, pela primeira ela própria não lhe contasse, memória de máquina havia
vez desde que se lembravam, mesmo que ele que fosse o um registro, a casa preparou
sentiram uma dor incapaz mais prodigioso ser existen- tudo. Era o seu dever permi-
de ser contada, ou passível te. A fêmea sentia-se como tir que os irmãos gêmeos, e
de ser reproduzida por quem aquela fêmea estranha que apenas eles, vivessem plena-
não a sofre. habitava um lugar em seu mente suas existências.
Para tentar diminuir a dor pensamento, e que ela e o ir- Eram gêmeos, um macho e
que sentiam, buscaram-se mão fizeram existir. A fêmea uma fêmea.
outra vez. E se acariciaram seria mãe. Ainda bebês, dependentes,
como nunca haviam feito O macho não se conteve dominados pelos ímpetos
antes. de alegria, uma alegria indi- animais da sobrevivência,
O tempo passou, e a mãe zível, que nunca havia senti- ficaram órfãos. Viviam em
tornou-se outra vez uma do, assim que suas mentes se um ambiente que era resulta-
lembrança. Os gêmeos per- comunicaram. E cresceu den- do de muitas das aspirações
cebiam-se muito diferentes. tro dele a absurda vontade de toda a humanidade. O
Por um lado, estavam mais de conhecer os limites de seu mundo nunca tomou conhe-
próximos um do outro. Por habitat. Era uma coisa abso- cimento da maravilhosa casa
outro, sentiam-se cada vez lutamente nova, e sabiam que em que foram abandonados.
mais desejosos de ir até os eram capazes de gerar vida. As crianças, por sua vez,
limites do bosque. Desejavam Estava imbuído de algo que jamais souberam que havia
que além das árvores, talvez sabia ser, mas para o qual outros seres humanos além
depois de onde nascia o rio, não tinha um nome próprio, deles próprios.
existisse o lugar para onde a o que as pessoas comuns
mãe tivesse ido. Porém, desde chamam “paternidade”.
que se recordavam, era a pri- Decidiram partir juntos
meira vez que um desejo seu em busca dos limites, encon-
não se realizava.

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42
O lugar onde
a boa Literatura ficina
é fabricada
www.oficinaeditora.org

http://www.flickr.com/photos/27235917@N02/2788169879/sizes/l/
A Oficina Editora é uma utopia, um não-
lugar. Apenas no século XXI uma ­vintena
de autores, que jamais se ­encontraram
­fisicamente, poderia conceber um projeto
semelhante.
O livro, sempre tido em conta como uma
das principais fontes de cultura, ­tornou-se
apenas um bem de ­consumo, ­tornou-se um
elemento de exclusão ­cultural.
A proposta da Oficina Editora é ­resgatar o
valor natural e primeiro da ­Literatura: de bem
cultural. ­Disponibilizando ­gratuitamente
­e-books e com o ­custo ­mínimo para ­livros
impressos, nossos ­autores ­apresentam
a ­demonstração ­máxima de respeito à
­Literatura e aos ­leitores.

www.revistasamizdat.com 43
Contos

O Livro dos Hereges


Henry Alfred Bugalho

Sei do que sou acusado. lo. Não me estenderei muito e mais malas, mal me re-

http://www.flickr.com/photos/hauntedpalace/2252817977/sizes/o/
Nestes últimos dias, vocês sobre o assunto, mas é notó- cordava do códice. Mas, há
viram quantas mentiras rio que há na minha biblio- um mês, organizando mi-
disseram sobre mim, de que teca a primeira edição de “O nha biblioteca, descobri este
sempre fui um homem vio- Contrato Social” de Rousseau, incrível exemplar e comecei
lento, de que havia ameaçado uma Bíblia do século XII, o a estudá-lo. Talvez vocês não
minha mulher várias vezes manuscrito de Die Welt als saibam, mas o grego bizan-
antes. Mentiras! Mentiras! Wille und Vorstellung de tino não é muito diferente
Vejo a minha cunhada Schopenhauer, entre milhares do koiné, o grego bíblico, do
ali, sentada, me fulminando de outras raridades, inveja qual possuo razoável domí-
com o olhar. Foi o ódio dela para colecionadores ao redor nio.
por mim que me arrastou ao do globo. O material não era muito
tribunal, a querer minha exe- Ano passado, empreendi interessante por si, um relato
cução. Eu a entendo, também uma viagem de negócios a da fundação e queda duma
quereria a mesma coisa se Istambul; vagando pelas ruas seita herética na Capadócia,
minha irmã fosse assassina- da cidade, adentrei um anti- entre os séculos X e XII, que
da; também adoraria ver meu quário. Entre inúmeros arti- acreditava que Jesus fosse,
cunhado morto, se cresse ser gos interessantes, chamou-me na verdade, um enviado de
ele o culpado. a atenção um códice em Satanás. O argumento dos
Mas sou inocente, juro, grego bizantino, com belíssi- hereges não era dos mais
ouçam-me e julguem por si mas ilustrações e iluminuras, convincentes: por ser Satanás
próprios. que adquiri pela bagatela de o senhor do mundo material
cinqüenta libras. (Jó 1: 7), apenas ele poderia
Todos aqui conhecem mi- conceder poder a um mortal
nha reputação como bibliófi- Em meio a tantas aqui-
sições desta viagem, malas para curar doenças, multi-

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plicar alimento, caminhar Tive dificuldades para a biblioteca estando comple-
sobre as águas; para sustentar dormir, atormentado pela tamente iluminada, tive a im-
tal crença, eles se baseavam macabra profecia. A cada dia pressão de estar nas trevas,
num documento apócrifo, que passava, minha angús- um forte cheiro me cercou,
conhecido como “O Evange- tia crescia, oito de março meus pêlos se eriçaram.
lho de Iscariotes”, relatando se aproximava e, em pouco Involuntariamente, minhas
que a traição de Judas Isca- tempo, eu confirmaria ou mãos tremiam, o códice ba-
riotes havia se fundado na não a veracidade da ameaça. lançando nelas. Meus olhos
descoberta de que a trajetória Lembro-me bem daquela encontraram a passagem,
do nazareno não passava data, eu e Margareth acorda- mas esta já não era a mesma.
duma encenação, na tentati- mos cedo e cavalgamos pela “William Turner, estou
va de associá-lo ao Messias propriedade; almoçamos na aqui.”
das profecias torânicas, e casa dos meus sogros, pas-
arrebanhar o apoio da ala Não sei o que me acon-
samos a tarde na biblioteca, teceu, mas, quando voltei a
reformista da comunidade Margareth lendo Jane Austen,
farisaica. Além disto, Judas mim, minhas mãos estavam
eu jogando xadrez com o so- ensangüentadas, o punhal
constatou que havia severas gro. Às sete, retornamos para
distorções da Lei nas prega- birmanês cravado no pei-
casa, ceamos e nos recolhe- to de Margareth, faltando
ções de Jesus, e que muitas mos. Eu estava apaziguado,
delas podiam ser associadas poucos instantes para a
o dia estava quase concluído meia-noite. Se fiz algo, fi-lo
ao culto de Baal. e ninguém, nem nada, havia dominado por alguma força
Apesar de improvável, vindo buscar Margareth. demoníaca. Não sou culpado!
narra-se que os hereges Ouvi o relógio do átrio
foram erradicados por uma O tribunal não acredi-
anunciando, timidamente, tou em palavra alguma de
campanha maciça de assassi- que faltavam quinze minutos
natos coordenada pela Igreja William Turner e o conde-
para a meia noite. Marga- nou à forca.
Ortodoxa. reth dormia tranqüila, por
Pode parecer frívola esta isto, levantei-me e desci até Mas o magistrado deseja-
minha descrição do conte- a biblioteca, procurei pelo va ver o códice mencionado
údo do códice, porém, após códice, mas ele não estava pelo réu. Um oficial foi até
dedicar dias examinando o na prateleira onde eu o havia a propriedade do condena-
exemplar, deparei-me com deixado. Isto me enfureceu, do, vasculhou a biblioteca e
uma sentença inusitada, ninguém tinha autorização encontrou o volume.
descontextualizada, como se para entrar e mexer nos O juiz Smith havia apren-
houvesse sido escrita direta- meus livros; na manhã se- dido koiné com seu pai,
mente para mim. Sem adi- guinte, os criados receberiam padre da Igreja Anglicana e
cionar palavras ou omiti-las, uma bela reprimenda. tradutor, nas horas vagas, de
a tradução da sentença era a Mas logo avistei o códice versículos bíblicos. Abriu o
seguinte: caído no canto da biblioteca, livro aleatoriamente e, por
“William Turner, na oitava aberto. Com ele em mãos, aquelas ironias do acaso,
noite de março, virei buscar tentei encontrar a passagem encontrou a sentença, acom-
tua esposa.” e, quem sabe, zombar dela panhada de calafrios, odor de
agora. Folheei-o, mas não enxofre e trevas:
O pasmo no olhar de
vocês era tal qual o meu conseguia encontrá-la. Eu “Edward Smith, estou aqui.”
assombro. Como meu nome havia marcado a página, mas
aparecia, em grego bizanti- alguém, deliberadamente,
no, num códice medieval? havia feito questão de retirar
E o que significavam tais a indicação.
palavras? Quem viria buscar Foi quando senti uma
minha esposa? Por quê? presença no cômodo. Mesmo

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Contos

As bases da criação
José Espírito Santo

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GÉNESE vezes taciturno e sempre, o polegar erguido em
sempre incompreendido. sinal de assentimento ora
Por muito que disfar- fazia os gestos curtos mas
çassem, consideravam-no Quando fez dezoito veniais com a cabeça.
um monstro e (pior que anos, os pais intercede-
isso) um incapaz. A aten- ram e mediante conheci- Meio-dia em ponto,
ção, a deferência recebida mentos e favores devidos, levaram-no a almoçar à
não era mais que uma moveram as influências tasca do Silva e como era
capa grosseira para a necessárias. A acção de quarta-feira (dia de cozi-
convicção mal disfarçada, amigos de amigos bem do) foram-se a excessos.
enraizada na mente de colocados conseguiu-lhe Vieram de lá bem ates-
todos: aquele seria sem o emprego onde serviria tados, com vontade para
dúvida um ser inferior, como funcionário públi- fazer a sesta e muito, mas
um erro da natureza. co no quinto andar de muito avessos ao traba-
um edifício decrépito: o lho!
Qualquer medição das número treze da Rua das
concretizações nos testes Gáveas, mesmo junto a As coisas não corriam
revelava a verdade nua alguns dos restaurantes mal até aquele dia em
e crua: não conseguia de Fado mais apreciados. que saiu para jantar fora,
estar à altura dos com- beber umas quantas e ou-
panheiros. O corpo frágil vir “blues”. Na sala escura
na morfologia peculiar do bar, mesas baixas e
– constituída pelo tron- A DESCOBERTA DE SI cufos vermelhos acomo-
co, cabeça e pares de PRÓPRIO davam confortavelmente
membros (inferiores e O primeiro dia foi pa- os vários clientes e ao
superiores) - nunca lho cífico e ficou a conhecer canto, guitarra, bateria e
permitiria. a malta lá da repartição sintetizador esforçavam-
se para acompanhar os
Os progenitores foram “Isto até é fácil. Não é berros da vocalista – uma
convocados várias vezes a trabalheira que parece, miudinha de cabelo
para reuniões de esclare- pá” trauteava o Antunes oxigenado decididamente
cimento e a expectativa - alentejano magricelas e pouco madura para fazer
da escola era que com a de bigode quase tão ne- de Bessie Smith
educação e acompanha- gro como o do Vitorino.
mento apropriados, o Ser There ain’t nothing I
http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/image/0702/abellclust_hst_lr.jpg

(era assim que o trata- “O pior é quando o can do, or nothing I can
vam) acabaria por mudar. chefe Pereira dá nos azei- say
Adaptar-se ia e assumiria tes. Mas a gente finge que
gradualmente comporta- é moco, que não ouve, That folks don’t criticize
mentos mais consentâne- damos-lhe um descon- me
os, com padrões sociais to…” continuava o bom E a gaja continuava…
não patológicos. No en- do Vitorino, preocupado
tanto, passaram-se anos e em instruir o neófito nas But I’m goin’ to, do just
o SER foi crescendo sem lides da casa. as I want to anyway
que tivesse ganho tais
E ele concordava, a And don’t care if they
características. Era so-
tudo anuía silenciosa- all despise me
nhador, um idealista por
mente. Ora apresentava

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Pensou como seria caiu na asneira de dizer pá. Deixa-te disso que a
bom que ela se calasse gente aqui é funcionário
por uns instantes. Talvez “É pá, deixa cá ver essa e não tem de fazer existir
por brincadeira, puxou bola para eu dar um o que não existe. Temos
do bloco de notas e dese- chuto como o Cristiano é que fazer existir o que
nhou-a muda, com uma Ronaldo” existe, entendes? Passar
fita grossa a tapar a boca Virou-se para o outro carimbo…”
e bem amarrada a uma fuzilando-o com o olhar.
das colunas de modo E arrematou, matando
Disse qualquer coisa definitivamente a conver-
a não poder dançar. O esquisita de que já não
pandemónio que acon- sa “Além disso, o que é
me lembro bem. Só sei que ganhas com isso de
teceu depois - viu como que o pobre do alenteja-
por magia serem execu- criar? Serve para alguma
no virou-se e, rabo entre coisa? “
tados os seus desejos, a as pernas, enfiou-se atrás
realidade moldando-se da secretária. Nessa tarde
aos seus desenhos - deu- nem daria mais um pio.
lhe certezas quanto ao INTERNAMENTO
desígnio que lhe cabia. No dia seguinte apa-
receu túnica e sandálias, Iam-lhe aturando as
Soube então que todas as
passando o tempo todo madurezas e suportando
tentativas para o demover
(manhã toda) a rabiscar todas as incongruências,
seriam inúteis.
e a distribuir os papéis manias e obsessões até
com desenhos esquisitos. que chegou o dia em que
Disse que tinha descober- foi atingido o limite, caiu
CONFLITOS a gota de água que fez
to algo de novo, que sabia
O cabelo esbranquiçou fazer uma coisa até ali transbordar repentina-
completamente e deixou nunca vista e à qual deu mente o copo. Parece que
crescer a barba, uma o nome “Criar”. uma das criações mais
barba branca e farta, de exóticas – o pequeno
pelos fininhos, que lhe “E como é que funcio- casal de “quase nudistas”
tapava quase totalmente na isso de criar?” pergun- - foi-se à maçã raineta
o pescoço. Desinteressou- tou o Benevides, cheio de que o chefe Pereira reser-
se completamente dos manha, com esperteza vava para comer à hora
temas de conversa habi- beirã. do lanche. O desgraçado,
tuais. Se lhe falavam do quando lhe deu a fome,
“É simples” respondeu. procurou, procurou e
Benfica, retorquia “Terra”. “Imagina uma coisa que
Se lhe falavam de mulhe- nada…
não existe. Pois bem…
res, mostrava enfado e a gente vem e faz com Nessa mesma tar-
respondia “Génese”. Se o que exista. Depois dize- de, chamaram a equipa
interpelavam sobre polí- mos à coisa que fomos constituída pelo psiquia-
tica então fazia cara feia nós que fizemos isso – tra e dois paramédicos.
e proferia enfaticamente que a criámos” O Deus (João de Deus)
“Paz e Bem”. As coisas ainda gritou pela bola
pioraram quando trouxe O outro não parecia lá que nem um desalmado.
a bola para o escritório e muito convencido e argu- Pela Jóia. A sua jóia. Que
o desgraçado do Antunes mentou enfaticamente “É sem ela – foco de todo o

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O lugar onde
seu carinho e atenção - a E, ainda falando, pegou a boa Literatura
vida de nada valia. Mas na coisa com as duas
em vão. Não lhe ligaram mãos e deu-lhe um chuto é fabricada
nenhuma. forte. Mesmo forte…
Amarraram-no e foi
levado na ambulância
velha azul e branca cujo O DESTINO DA JÓIA
cilindro de luz às voltas, A pequena bola azul
sem descanso, identificava foi aumentando gradu-
gravidade do caso e ur- almente de velocidade e,
gência para o transporte. em aceleração contínua,
Objecto amado, a jóia, veria passar veloz a Pro-
a bola azul da qual nun- xima Centauri. Pouco de-
ca se separava, foi coloca- pois chegaria ao sistema
da em cima do tampo da planetário, a esse sistema
mesa, sem qualquer cui- que chamamos “solar”
dado, mesmo ao lado do onde ocuparia posição
pisa-papéis. E ali ficaria, vogando em elipse imagi-

http://www.flickr.com/photos/ooocha/2630360492/sizes/l/
esquecida e só, por vários nária (a terceira). Frustra-
dias. Até que chegou o dos que estavam os pla-
substituto. nos de criação, por falta
de oportunidade (má
O substituto era um sorte o casal ter comido
gajo da Buraca, baixo e a fruta), sobraram apenas
atarracado, adepto faná- as bases, sementes rudes,
tico do FCPê. Sopinha imperceptíveis. E sen-
de massa, metia “xis” em do assim, restava à bola
tudo o que pegava: “Xou permanecer bailando em
xim! Xim Xenhor, já xtá o torno do astro rei e espe-
que me mandou. Ah… rar muito tempo - quase
ora essa, não xateia nada, uma eternidade. Porque
a xente xtá cá é pra enquanto a criação é
ixo…”. O Benevides rápida e normalmente
quando queria entrar consiste em acto decidi-
com ele, perguntava-lhe do e espontâneo, evoluir
sempre como é que se é bem mais complexo e
escrevia chato, se era com exige decididamente mui-
xis ou cê e agá. to mais tempo.
Quando o gajo viu a
jóia, a bola, disse logo
“Atão vomexês tinham
aqui o esférico e não me
diziam nada?” ficina
www.oficinaeditora.org

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Contos

http://www.flickr.com/photos/streetfly_jz/2754265664/sizes/l/
Mariana Valle

Juliana e o coelho
Juliana era casada há E não é que ele era em que dormiria com
cinco anos, mas se sentia mesmo supimpa? Fazia o marido. E quando ele
sozinha. Maurício viajava serviço duplo, atacava chegava em casa, doido
muito a trabalho. Então em todas as frentes. E para matar a saudade da
ela resolveu que merecia assim Juliana se refeste- esposa, recebia um bando
um vibrador. Ao ver um lava todas as noites em de desculpas da mulher
episódio do seriado Sex que Maurício estava fora. já saciada. Um dia era
and the city, decidiu: que- Mas aquele negócio era dor de cabeça, no outro
ria o tal do rabitt, usado tão bom que ela passou a cansaço... Até inventar
pela Charlotte. usá-lo inclusive nos dias que estava “naqueles dias”,

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50
Juliana inventou. Tudo com a minha mulher, eu No dia seguinte, Julia-
para fugir do sexo com tenho que dar um jeito, na não comentou nada,
o marido. Ela era fiel. O você não acha? mas ele percebeu que ela
problema é que agora sua Juliana ficou desespe- estava estranha. Ela não
fidelidade se voltava para rada. sabia o que pensar. “Será
o tal coelhinho. que Maurício descobriu
- Não acredito numa meu segredo? Mas então
Maurício não sabia coisa dessas, Maurício!
mais o que fazer. Já esta- por que ele não comen-
Não acredito! tou nada? Então quem
va subindo pelas paredes.
Chegou até a desconfiar - É muito simples, terá sumido com meu
que a mulher tinha um Juliana. Basta você acabar coelho?” Juliana estava
amante. E foi por isso com essa greve que eu agoniadíssima, mas fazia
que resolveu chegar mais rasgo a boneca. a maior força do mundo
cedo naquela quarta-feira. Juliana não titubeou para não demonstrar.
Pé ante pé, ele entrou e se jogou nos braços de
pela sala e, ao chegar no Maurício com paixão. Na hora de dormir,
corredor, notou a porta Num minuto, a dor de Maurício virou para o
do quarto fechada. Tas- cabeça foi embora. E o lado e nem sequer en-
cou o olho na fechadura reencontro amoroso lem- saiou procurar o carinho
e não acreditou quando brou até aquelas transas da esposa. E foi assim
finalmente desvendou o de início de namoro, de durante um mês inteiro.
segredo de Juliana. Ela o tão apaixonado que foi. Juliana não estava enten-
traía com o coelho. “Ela Quando tudo acabou, dendo nada. “Será que
me paga!”, pensou, enrai- ainda em estado de êxta- ele tem outra? Será que
vecido. se, Juliana cobrou: estou gorda? Por que ele
Um mês se passou e - E a boneca? Não vai não me procura mais?” E
Maurício teve que viajar rasgá-la? num desses dias de in-
para os Estados Unidos a - Claro, meu amor, certezas, Maurício chegou
trabalho. Na volta ao lar, farei isso já. do trabalho feliz da vida.
trazia uma novidade na E, já vestindo o pijama,
bagagem. E foi em cima E assim, com a boneca repetiu o ritual daquele
da cama, de onde Juliana em pedaços e o orgu- dia fatídico. Pousou a
reclamava de sua usual lho restabelecido, Juliana caixinha na cama, tirou
enxaqueca, que Maurí- finalmente pôde dormir o plástico lá de dentro e
cio abriu o presente. De em paz. Mas Maurício rapidamente inflou a bo-
dentro de uma caixinha, ainda não estava com neca. Depois, fez com ela
ele tirou um pedaço de sono. E tinha uma provi- aquilo que não fazia com
plástico colorido, soprou dência muito importante a mulher há um mês e,
dentro dele, e, pouco a a tomar. Levantou-se da quando acabou, se virou
pouco, ele cresceu, até cama em silêncio e cor- para o lado e dormiu
ficar do tamanho de Ju- reu para o armário da como um anjo. Juliana
liana. Maurício então se mulher. Bem ali onde ela não deu um só pio. E
deitou ao lado da boneca, havia escondido o coelho ainda teve que dividir a
e estava prestes a abraçá- mais cedo. Pegou aque- cama com a boneca.
la, quando Juliana soltou le “bicho” com raiva e
um berro: o levou até o tanque da
cozinha. Depois sacou a
- Você não vai fazer caixa de fósforos do bol-
com ela o que eu estou so e tacou fogo no troço.
pensando, vai? Agora sim, ele poderia
- Se eu não posso fazer dormir feliz.

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Contos

Misantropia infecciosa
Léo Borges

http://www.flickr.com/photos/yersinia/357151656/sizes/l/
– Falaram que é uma berço! O menino evita as – Vendeu pouquíssimo.
doença raríssima. Sem- pessoas como se fôssemos No início idolatraram-no,
pre desconfiei. Ele não se leprosos. Ele deve ter parte mas logo caiu no esqueci-
dá com ninguém, só com com o capeta e a história mento.
esses cachorros malditos. dos cães só reforça minha
Vai ver é transmissível por teoria. Desde que seu livro – Isso mesmo. Quem
contato ou, até pior, pelo foi lançado que os ataques leria tal heresia? Cães que
ar! Eu é que não fico mais dos cachorros às pessoas se atacam pessoas impiedosa-
por aqui sem alguma razão tornaram coisa habitual. mente...
– disse uma das mulheres
– O livro que ele es- – Engraçado que dos
da roda, ficando por ali
creveu parece que foi cachorros do vilarejo esse
sem alguma razão.
ignorado pelos intelectuais menino é o único a não
– Também ouvi isso. por conta disso. O que ele fugir...
Um intelectual, aquele que narra é uma trama de ca-
– É mesmo. E os cães
perdeu a mão, diagnosti- chorros brutais que despe-
também não correm dele.
cou a enfermidade como daçam suas vítimas. Coisa
Brincam, até.
sendo doença que vem de absurda!

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– Curioso tudo isso. ponto de fazê-lo interceder trital. Segundo ele, esta psi-
Esses animais da nossa pelo sacrifício do animal. copatia estava intimamente
circunscrição já mutilaram A corte deferiu e, mais ligada aos ataques dos cães.
inúmeros paredros. que isso, ampliou a deci- De acordo com estudiosos
são, permitindo que outros locais, estes seres pareciam
– Vai ver foram os per- cachorros fossem mortos. querer defender o menino,
digueiros que transmitiram Muitos, a pedradas na pra- sendo que, na realidade,
esse cancro pro coitado do ça central. O objetivo do o elemento ultrajante em
jovem escritor... ato em público foi chocar toda aquela história era
o menino, mostrar que mesmo Andrews.
– Pode ser. Ele já foi
seu amor por bestas-feras
atendido pelos médicos? “A matilha marcial”,
era uma afronta aos bons
costumes e ao agradável inicialmente, nasceu como
– Até onde sei, não de-
convívio outrora reinante um livro festejado pela eli-
ram jeito. A verdade é que
no vilarejo; amor este que te. Quando souberam que
o mal que se instalou em
tomava viés ainda mais quem o escrevera fora um
Andrews não afetou a sua
dramático com a aversão menino, congelaram. Como
pele, rins ou cotovelos. A
que Andrews demonstra- poderia? Tentaram, mas
coisa se manisfestou mes-
va ter das pessoas. Afinal, não conseguiram cooptá-
mo foi em seus pensamen-
ele não mantinha relações lo para o grupo. Com isso,
tos...
nem mesmo com outros a inveja sobre o fantástico
– Que esquisito! Como garotos de sua idade. jovem corroeu-lhes o ego.
é mesmo o nome dessa Somou-se a isso o estra-
doença terrível? – ousou Andrews, esgueirado nho incidente envolvendo
perguntar outra fofoqueira, atrás da cortina de seu os cães de rua que passa-
fechando o rosto com as quarto, observava o burbu- ram a atacar, sem motivo
mãos em concha, como se rinho na rua sabendo que aparente, os intelectuais,
isso a livrasse da contami- falavam dele. Sabia que arrancando-lhes pedaços
nação. nesses momentos entravam do corpo. A carreira de
em cena o debate sobre Andrews foi, então, associa-
– Ninguém sabe ao cer- sua repulsa ao ser humano da ao satanismo.
to... uma virose... e o conflito deste senti-
mento com a sagacidade As edições encalharam.
– Misantropia infeccio- literária que ele demons- Ninguém mais queria
sa – explicou o nobre que trara ter. Um menino que saber do livro e Andrews
perdera o pavilhão auri- escreve livros deveria estar acabou conseguindo o que
cular, mas não a audição. junto dos homens cultos queria quando viu tanto
– A doença é rara, mas sua da cidade e não ao lado de papel junto: criar um forro
característica principal é cachorros hostis e malchei- para os cães que dormiam
a insensatez. Ao deixar de rosos. Os bichos estavam ao relento pelas ruas do vi-
ser tratada com o rigor ne- sendo massacrados mais larejo. Ao contrário do que
cessário, pode levar a um por represália ao isola- muitos pensavam, Andrews
estado completo de igno- mento em que o jovem jamais se deprimiu com a
mínia não apenas o hospe- prodígio se metera do que queda das vendas. Comu-
deiro como quem com ele propriamente pelo fato dos nicava-se por literatura,
manteve contato. intelectuais estarem sendo mas não fazia questão que
mordidos. fosse ouvido. Seu trabalho
Apesar de também não exauria-se em si mesmo,
ser médico, o honrado Os pais do menino pouco importando a ex-
homem acreditava que emudeceram quando ouvi- pectativa dos fãs ou a re-
possuía conhecimento sufi- ram um ilustre decano da cepção dos críticos. Foi sua
ciente para comentar sobre sociedade, este sem o pé irmã quem quis mostrar
o problema que afligia An- direito, dizer que a misan- para o mundo o potencial
drews. O cão que decepara tropia de seu filho deveria do irmão. Levou rascunhos
sua orelha tinha afetuoso ser encarada como grave de “A matilha marcial”
vínculo com o garoto e problema de soberania dis- para o soberbo dono da
isso marcou o aristocrata a

www.revistasamizdat.com 53
gráfica local – sujeito este mente com aleijados – era outra utilidade eles possuí-
que viria a perder o nariz algo, acreditavam, que lhes am? Andrews viu que teria
alguns dias depois. Ao ler emprestava grande status. de usar muita imaginação
a obra crua, o sofisticado nesta nova obra. Não para
homem teria exclamado: Andrews foi para o inventar persuasivos cães
“magnífico!”. O que ele não pátio brincar com alguns falantes, mas para conse-
sabia é que, após a publica- dos cachorros enquanto guir dar algum sentido à
ção, os ataques sangrentos pensava na confecção de vida dos intelectuais.
começariam. outro livro para prover
algum acalanto às súplicas As pessoas souberam
A irmã, acompanhando da irmã. Teria de ser um que Andrews estava prepa-
toda aquela situação, dizia livro obediente aos ditames rando novo livro e especu-
para Andrews: mercantis: quanto mais lavam se nesta nova versão
contrário aos padrões do os cães seriam dóceis,
– Você pode não falar jovem escritor viesse, mas domesticáveis e obedientes.
com ninguém, pode não comercializável seria. Algo A mais feliz de todas era
querer conversar com que abastecesse com eterno a irmã, que agora tinha
ninguém, pode ser vetor entretenimento as mentes certeza de que ficaria rica.
desta doença, mas eu não daquela cidade e que, com O grupo dos intelectuais
o discrimino. Sei, mais que isso, fizesse dinheiro jorrar aplaudiu a idéia, pois viu
todo mundo, que você é in- para a família. No novo que o incrível menino es-
teligente e pode provar sua arranjo os cães não po- tava amadurecendo, apa-
vocação. Escreva outro li- deriam ser ferozes. Deve- rentemente parando de se
vro. Um livro decente, que riam ser mansos, tal como misturar com cães fétidos
prenda as pessoas de tal declarava o líder religioso, e, principalmente, dando
forma que elas não consi- cuja metade do abdômen mostras de que pretendia
gam se afastar das folhas. fora dilacerada por um já se unir à classe, deixando-a
Um livro diferente deste esperado ataque canino: “os mais forte, quiçá com
primeiro, que era bom, mansos é que herdarão o possibilidades de se tornar
mas cujo teor violento não Reino dos Céus!”. potência política.
agradou aos formadores
de opinião. Que sirva de Decidiu que iria além: Quando os papéis de “A
estímulo a nossa situação os cachorros-personagens matilha quimérica” ficaram
de poucas possibilidades. não atuariam somente prontos, a irmã foi corren-
Nossa família carece de como fofos coadjuvantes, do levá-los para o soberbo
recursos, você sabe. Preci- seriam o motor da mudan- editor sem nariz que, ao
samos ganhar dinheiro e ça, agiriam como verda- ver o material, exultou: “es-
estar perto da nata social. deiros insignes, trajando plêndido!”. Teve certeza de
Você não pode desperdiçar cartolas e fraques. E foi aí que todos, assim como ele,
este talento com cachorros que surgiram os primeiros leriam. Só não sabia que
raivosos! problemas. O menino teve não parariam mais de ler.
dificuldade para iniciar o
Ele não respondia. O livro por não saber exa- A irmã foi a primeira a
asco que sentia dos huma- tamente quais as atribui- ter acesso à obra pronta.
nos chegava à irmã com ções dos nobres e ilibados Sentou-se na cadeira da
pouca intensidade. Com cidadãos de destaque. Qual sala e submergiu na admi-
ela, o sentimento predo- era o papel deles na socie- rável trama com grande
minante era de pena. Dó dade? Não curavam, pois atenção. Não parou mais.
daquela menina magra e não eram médicos. Não
de andar curvado que que- – Andrews, sua irmã
construíam pontes, pois
ria ser atraente e elegante gostou mesmo do livro! Ela
não eram engenheiros.
como as amigas abastadas. acreditou em você e você
Não faziam doces, pois não
Muitas dessas namoravam provou que estava certa:
eram confeiteiros. Além
os intelectuais da cidade, está relendo “A matilha
de afirmar que os ou-
porque isto – apesar do quimérica” pela quarta
tros estavam doentes, que
incômodo que sentiam por vez. Ele será um sucesso!
seriam misantropos, que
estarem lidando intima- Com as vendas dessa obra

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pagaremos nossas dívidas! não largavam o exemplar fogueira com os exempla-
– disse a mãe com uma nem mesmo para comer. res restantes de “A mati-
felicidade incontida. O transporte público virou lha quimérica”. Passaram
um caos com os motoris- a acusar Andrews de ter
Andrews não comenta- tas absortos em sua leitura contaminado a região com
va. Limitava-se apenas a ir infinita. O mendigo não sua satânica misantropia
brincar com os cachorros pedia mais esmolas, pois infecciosa e concluíram
na pracinha onde antes alguém lhe dera o incrível que a praga derradeira não
eram executados. O livro livro e ele agora se nutria eram os cachorros selva-
saiu rápido das livrarias e de quimeras. A dançarina gens, mas simples folhas de
virou coqueluche. Todos não se apresentava mais, papel com mágicas letras
liam e reliam. Andrews maravilhada que estava impressas.
foi chamado para o meio com a obra de Andrews.
intelectual e recebeu a Aposentados abandonaram – O que está escrito
medalha de nobreza. Teve os dominós e passavam os nesse livro, pelo amor de
seu rosto fotografado e es- dias nos bancos da praça, Deus? – quis saber uma
tampado nos jornais. Mas sob sol ou chuva, mer- mulher que perdera a filha,
mantinha sua introspecção, gulhados no “A matilha leitora morta por carência
que agora era classificada quimérica”. de vitaminas, debruçada
como uma simples “timi- sobre a página cento e
dez”. A misantropia do – Andrews, sua irmã quatro, após sua ducentési-
garoto, de acordo com os está há dias lendo seu ma trigésima nona leitura
homens de grande cultura, livro ali na sala! Ela não se consecutiva. Assim como
fora curada. alimenta e está definhando. os demais, esta também foi
Não fala mais com nin- para o sepulcro agarrada
Alguns sevandijas que guém. Todos que leram, às folhas.
adulavam o pequeno escri- ainda estão lendo. Vira-
tor queriam compartilhar ram zumbis. O que você Quando lhe pergunta-
seu brilho, ainda que para fez com nosso povo, meu vam coisas desse tipo, ele
isso precisassem abraçar a filho? – perguntava o pai, apontava para o livro em
hipocrisia com desfaçatez. chorando. cuja capa havia a estampa
de doces cães engravatados
– Seu livro é muito O pai de Andrews, antes cumprimentando homens.
bom! – disse um dos ba- pobre, ficou rico. Antes “Leia-o” dizia Andrews com
juladores. Andrews sabia feliz, ficou triste. O que era o olhar e saía de perto
que ele mentia porque, se um livro abençoado estava para poder conversar com
de fato tivesse mesmo lido, se tornando catastrófico. seus cachorros. Ele só se
certamente ainda o estaria Os milhares de leitores comunicava com os hu-
fazendo. sucumbiam. Nem mesmo manos por meio de textos
operários munidos com e, desta vez, parece que
Todos os leitores perma-
pás e alicates conseguiam muitos não queriam mais
neciam sendo isso: leito-
fazer os obcecados fãs parar de escutá-lo.
res. Liam, reliam e liam
soltarem as encadernações
outras dezenas de vezes.
das mãos. Os poucos inte-
Abandonaram seus traba-
lectuais que sobreviveram
lhos e muitos começaram
viram o quão perigoso era
a perecer de fome, pois
aquela literatura e fizeram

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Contos

http://www.flickr.com/photos/indrasensi/1774025759/sizes/l/

Barbara Duffles

O grito de Joana
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O. fez um esforço tão de um só lampejo, escan-
Henry Alfred Bugalho
grande para abrir os carou os olhos até quase A
GUI
Nova York
olhos. Pareciam colados, enroscarem-se cílios e
como se há muito não sobrancelhas.
ousassem piscar. Puxou
pela memória e não se Neste exato momento para Mãos-de-VAca
lembrou da última cena entendeu o desespero de
que viu antes de sentir as Joana; ela gritou faz tanto,
O Guia do Viajante Inteligente
pálpebras descerem seu mas o tempo passou e a
pano preto, indicando voz dela tinha razão. As- www.maosdevaca.com

o fim do espetáculo. O. sombrado com o que viu,


sentia que, se quisesse, O. sentiu a vista turvar-se
poderia abrir os olhos de lágrimas, até que fe-
de novo. Mas o grito de chou os olhos. Desta vez,
Joana ecoou em seus ou- por tempo indeterminado
vidos como aviso, era um e por escolha própria:
grito sem nexo e gutural, nunca mais iria enxergar,
mas ele o ouviu como fosse o que fosse. Joana
prenúncio. Fazia tempo estava certa. “Mantenha-
que aquele grito havia os fechados. Mantenha-se
saído da boca de Joana, são”. Era o que dizia para
mas, O. sabia bem, vozes O., que a obedecia cega-
são eternas, repetem-se mente, em pleonasmo.
exaustivamente na cabe-
ça de quem tapa com as
mãos os ouvidos.
Texto originalmente publi-
cado no blog “Não Clique”

“Não abra os olhos”, era


o significado daquele gri-
to, vindo daquela Joani-
nha espevitada que voe-
jou-lhe a vida por muitos
anos e agora vinha pou-
sar-lhe no nariz. Mas O.
tinha os olhos fechados
há muito, tanto que nem
lembrava o porquê. Igno-
rou o ruído joanístico e

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Contos

O Admirador
Parte 2: Pesadelo?
Maristela Scheuer Deves

http://www.flickr.com/photos/electricblizzardphotos/3206968259/sizes/l/

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A noite fora horrí- distrair-se, pegou o jor- meu Deus!, deveria es-
vel, com pesadelos nos nal e começou a folheá- tar enlouquecida à sua
quais poemas de amor se lo, detendo-se aqui e ali procura. Correu ao te-
transformavam em tétri- para ler algo que parecia lefone e recolocou-o no
cas canções de despedida mais interessante. Sem gancho, na intenção de
junto a túmulos recém- conseguir concentrar-se discar para a casa dos
cobertos. E ela as ouvia na leitura, já ia fechar pais. Antes que o fizesse,
de dentro do túmulo, de- a publicação quando no entanto, ele tocou. Do
baixo da terra. Acordou seus olhos bateram num outro lado, em vez de al-
quando tentava gritar que anúncio, colorido, ao pé gum conhecido aflito por
estava viva, e a primeira de uma página: a comu- saber se estava bem, uma
coisa que percebeu foi o nicação de seu próprio voz rouca, desconhecida e
insistente odor das flo- falecimento. algo risonha: “O enterro
res – o que só contribuiu será às 17h.” O fone foi
O jornal só não caiu
para aumentar a sensa- parar no chão, com um
de suas mãos porque ela
ção de irrealidade. “Estou estrondo, enquanto a ca-
ficou congelada. Olhan-
ficando louca”, repetiu beça começava a rodar. A
do para sua foto (tirada
para si mesma. Forçou-se página do jornal, aberta
na noite da formatura,
a sair da cama e prepa- sobre a mesa, confirmava.
recordou), questionou-
rou um café, embora não Seria no Cemitério Muni-
se se não estava, ainda,
tivesse apetite. Decidi- cipal.
sonhando. Mas o papel
damente, não iria traba-
áspero em suas mãos Deixando-se cair ela
lhar nesse dia. Há quase
não deixava dúvidas: ele mesma numa cadeira,
uma semana não o fazia,
estava ali, e, em destaque, ficou mais de meia hora
apavorada demais desde
o anúncio fúnebre em sem conseguir pensar em
que as coroas fúnebres
sua homenagem, assinado nada. Por fim, forçou-se
passaram a persegui-la
pelos “amigos que nunca a sair daquela letargia e
também na empresa.
a esquecerão”. Rindo his- olhou no relógio: 9h. Fal-
Terminava de comer tericamente, pensou nos tavam oito horas, então,
seus ovos mexidos quan- telefones – se eles não para o seu próprio sepul-
do percebeu o jornal do estivessem desligados, tamento. Deveria ir ao
dia enfiado sob a porta. a essa altura deveriam cemitério? E o que fazer
“Estranho”, pensou, lem- estar tocando sem parar, até lá?
brando que normalmente em busca da confirmação
(continua no mês que
precisava buscá-lo na cai- da notícia.
vem...)
xa de correspondência do
A mãe! A sua mãe,
andar térreo. Querendo

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Contos

Giselle Sato e Pedro Faria

Helena http://www.flickr.com/photos/karenhorton/3293753177/sizes/o/

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Helena queria muito, al e começou a enfiar os Ninguém gosta de trai-
por vingança ou prazer, envelopes na caixinha. A ção. O vulto aproximou-
provar o gosto de outra mulher escancarou a por- se da casa. Deu a volta e
boca. Cansada demais, ta, nua e com um sorriso entrou pela garagem, que
humilhada, uma sombra provocante. estava aberta.
vagando pelo casarão
Há muito trocavam A traição não seria
decadente. Ela não sabia
olhares, o máximo de perdoada. Não mesmo. A
nada, casou aos dezoito
intimidade aconteceu no porta da sala foi aberta.
com um homem com
Natal quando timidamente,
idade para ser seu pai. Seis O insulto seria vinga-
ela entregou o envelope
anos se passaram e havia- do. O machado caiu pelo
com a gorjeta. Tocou com
se tornado empregada e menos sete vezes.
a ponta dos dedos as mãos
eventual mulher.
finas da moça tão bonita O grito veio na primei-
Cheirando a desinfetan- e maltratada. Agora eram ra, que levou embora uma
te e cloro, sempre vestin- apenas os dois e aquela perna.
do trapos e esfregando o urgência doída.
A segunda levou um
chão encardido. Naquele
Havia o perigo de se- braço.
dia seria diferente, espe-
rem surpreendidos e logo
rou que o marido saísse e A terceira levou a outra
estava dentro dela. Mo-
pegou o sabonete compra- perna.
vimentando-se apressado,
do às escondidas. Foi uma
pretendia gozar e deixar A quarta levou o outro
delícia usar o aparelho de
aquele lugar o mais rápido braço.
barbear dele para depilar
possível. Não contava que
as pernas, axilas e virilha. A quinta cortou uma
ela fosse tão gostosa, não
Riu enquanto cegava a das coxas.
imaginava tanta doçura,
gilete, ele sempre gritava
perdeu a noção do tempo. A sexta levou um dos
que era homem “da antiga”
A visão do corpo largado ombros.
e não admitia plásticos.
em cima da mesa, comple-
A banheira ficou cheia tamente à mercê de seus A sétima pôs o macha-
de pêlos e ela nem se desejos era irresistível. do enterrado no abdômen.
importou. Usou um resto O olhar injetado da
Repetia baixinho o
de colônia e sorriu para o morte caiu sobre o cartei-
nome, apaixonado e bei-
espelho amarelado. Nada ro.
jando Helena, dentro de
naquele lugar prestava. Do
Helena, aspirando o per- E em seu último suspi-
encanamento às panelas
fume de Helena... Helena... ro, ele disse o nome dela.
herdadas da sogra, tudo
Helena... Helena... Agora começaria tudo
era sucata. Lixo. O carteiro
chegou na hora habitu- ******* novamente...

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Autor Convidado

GUISADO José Guilherme Vereza

http://www.flickr.com/photos/jlastras/2803605981/sizes/o/

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62
Beberam tanto que saíram abraçados pela madrugada.
Foi Zé Barreto quem teve a idéia.
- Vamos comer um guisado lá em casa.
- Tá de porre, Barretinho. Não vai encontrar nem a frigideira.
- Deixa que a Rosinéia cuida disso.
- Rosi... o quê?
- Rosinéia. De forno e fogão. Deixa comigo, Carlinhos.
- E se sua mulher acordar?
- Dinorá? Não acorda nem com meu ronco.
Fome danada de guisado. Entraram no apartamento. Sapato na mão, pé ante pé. Um fazendo sinal
de silêncio para o outro.
Zé Barreto deu três toquinhos na porta do quarto de Rosinéia.
- Hoje não, Seu José. Desceu as regra.

José Guilherme Vereza nasceu e se criou no Rio,


mas mora em São Paulo por razões afetivas e pro-
fissionais. É publicitário de longa data, redator e
escritor sempre, professor por paixão em aprender.
Diretor Executivo da 11/21 Propaganda SP, é autor
do livro 30 Segundos - Contos Expressos (Publit
2007), além de textos para teatro e televisão. Tem um
blog (www.30segundos.blog.br), é colunista do www.
bolsademulher.com.br e colaborador do www.mun-
domundano.com.br. Leitor voraz, cinéfilo arregalado,
pensador inquieto, botafoguense incorrigível, famili-
ólatra convicto e amigo incondicional dos amigos.

O lugar onde http://www.flickr.com/photos/hidden_treasure/2474163220/sizes/l/

a boa Literatura
é fabricada

ficina
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www.oficinaeditora.org
Tradução

Jorge Luis Borges


tradução: Henry Alfred Bugalho

A Seita de Fênix
64 SAMIZDAT maio de 2009
64
Aqueles que escrevem tirando esta espécie de em um meio judaico se
que a seita de Fénix teve ubiquidade, muito pouco pareçam aos judeus não
sua origem em Heliópolis têm em comum uns com prova nada; o inegável é
e a derivam da restaura- os outros. Os ciganos são que se parecem, como o
ção religiosa que se suce- charlatães, caldeireiros, infinito Shakespeare de
deu à morte do reforma- ferreiros e adivinhadores Hazlitt, a todos os homens
dor Amenófis IV, alegam da boa sorte; os sectários do mundo. São tudo para
textos de Heródoto, de só exercem felizmen- todos, como o Apósto-
Tácito e dos monumentos te as profissões liberais. lo; dias atrás, o doutor
egípcios, mas ignoram, Os ciganos configuram Juan Francisco Amaro, de
ou querem ignorar, que um tipo físico e falam, Paysandú, ponderou sobre
a denominação de Fénix ou falavam, um idioma a facilidade com que se
não é anterior a Hrabano secreto; os sectários se acriollavam.
Mauro e que as fontes confundem com os de-
É dito que a histó-
mais antigas (as Saturnais mais e a prova é que não
ria da seita não registra
de Flávio Josefo, digamos) sofreram perseguições. Os
perseguições. É verdade,
só falam da Gente do ciganos são pitorescos e
mas como não há gru-
Costume, ou da Gente do inspiram os maus poetas;
po humano no qual não
Segredo. Já Gregorovius os romances, as estampas
figurem os partidários da
observou, nos coventículos e os boleros omitem os
Fênix, também é certo que
de Ferrara, que a menção sectários... Martín Buber
não há perseguição ou ri-
da Fénix era raríssima na declara que os judeus são
gor que estes não tenham
linguagem oral; em Gene- essencialmente patéticos;
sofrido ou executado. Nas
va, tratei com artesãos que nem todos os sectários o
guerras ocidentais e nas
não me compreendiam são e alguns abominam o
remotas guerras da Ásia
quando inquiri se eram pateticismo; esta pública
verteram seu sangue se-
homens da Fénix, mas que e notória verdade basta
cularmente, sob bandeiras
admitiram, em seguida, para refutar o erro vulgar
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/31/L%C3%A9on_Bakst_001.jpg

inimigas; de muito pouco


serem homens do Segre- (absurdamente defendido
lhes vale indentificarem-se
do. Se não me engano, por Urmann) que vê em
com todas as nações do
o mesmo acontece com Fênix uma derivação de
orbe.
os budistas; o nome pelo Israel. Conjetura-se mais
qual o mundo os conhece ou menos assim: Urmann Sem um livro sagrado
não é o que eles pronun- era um homem sensível; que os congregue como
ciam. Urmann era judeu; Ur- a Escritura a Israel, sem
mann frequentou os sectá- uma memória comum,
Miklosich, numa página
rios na judiaria de Praga; sem esta outra memória
bastante famosa, compa-
a afinidade que Urmann que é um idioma, dis-
rou os sectários de Fénix
sentiu prova um fato real. persos pela face da terra,
aos ciganos. No Chile e
Sinceramente, não posso diversos de cor e de tra-
na Hungria, há ciganos,
concordar com esta as- ços, uma só coisa, o Se-
e também há sectários;
serção. Que os sectários gredo, os une e uni-los-á

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até o fim de seus dias. cera ou a goma-arábica. se desprezam ainda mais.
Certa vez, além do Segre- (Na literatura se fala de Gozam de muito crédito,
do, houve uma lenda (ou limo; costuma-se usar este em troca, aqueles que de-
talvez um mito cosmogô- também). Não há templos liberadamente renunciam
nico), mas os superficiais dedicados especialmente ao Costume e logram
homens da Fênix a esque- à celebração deste culto, um comércio direto com
ceram e hoje só guardam mas uma ruína, um sotão, a divindade; estes, para
a obscura tradição de um ou um saguão são consi- manifestarem este comér-
castigo. De um castigo, de derados lugares apropria- cio, fazem-no com figuras
um pacto ou de um pri- dos. O Segredo é sagrado, da liturgia e assim John of
vilégio, porque as versões mas não deixa de ser um the Rood escreveu:
diferem e apenas deixam pouco ridículo; seu exer-
Saibam os Nove Fir-
entrever o veredicto de cício é furtivo e ainda
mamentos que o Deus É
um Deus que assegura a clandestino, e os adeptos
deleitável como a Cortiça
uma estirpe a eternidade, não falam dele. Não há
e o Limo.
se seus homens, geração palavras decentes para
após geração, executam nomeá-lo, mas se entende Mereci em três con-
um rito. Comparei os que todas as palavras o tinentes a amizade de
informes dos viajantes, nomeiam, ou, melhor di- muitos devotos da Fénix;
conversei com patriar- zendo, que inevitavelmen- consta-me que o Segredo,
cas e teólogos; posso dar te o aludem, e assim, no a princípio, lhes pareceu
fé que o cumprimento diálogo, eu havia dito uma frívolo, penoso, vulgar e
do rito é a única prática coisa qualquer e os adep- (o que é ainda mais estra-
religiosa que observam os tos sorriram, ou se inco- nho) incrível. Não se con-
sectários. O rito constitui modaram, porque senti- formavam em admitir que
o Segredo. Este, como já ram que eu havia tocado seus pais houvessem se re-
indiquei, se transmite de o Segredo. Nas literaturas baixado a tais práticas. O
geração em geração, mas germânicas, há poemas raro é que o Segredo não
o uso não requer que escritos por sectários, cujo se tenha perdido há tem-
as mães o ensinem aos sujeito nominal é o mar po; a despeito das vicissi-
filhos, nem tampouco os ou o crepúsculo da noite; tudes do orbe, a despeito
sacerdotes; a iniciação ao são, de algum modo, sím- das guerras e dos êxodos,
mistério é tarefa dos in- bolos do Segredo, ouço re- chega, tremendamente, a
divíduos mais baixos. Um petir. Orbis terrarum est todos os fiéis. Alguém não
escravo, um leproso ou speculum Ludi reza um vacilou em afirmar que já
um pedinte se fazem de adágio apócrifo que Du é instintivo.
mistagogos. Também uma Cange registrou em seu
criança pode doutrinar Glossário. Uma sorte de
outra criança. O ato, em horror sagrado impede a fonte: http://
si, é trivial, momentâneo e alguns fiéis a execução do books.google.com/
não requer descrição. Os simplíssimo rito; os outros books?id=7vUfapNfESkC
materiais são a cortiça, a os desprezam, mas eles

66 SAMIZDAT maio de 2009


66
Jorge Luis Borges brilhantes e polêmicos escritores
"Não criei personagens. Tudo da América Latina.
o que escrevo é autobiográfico. Inventando um novo tipo de regio-
Porém, não expresso minhas nalismo, acrescentou uma pers-
emoções diretamente, mas por pectiva metafísica da realidade,
meio de fábulas e símbolos. Nunca mesmo em temas como o subúrbio
fiz confissões. Mas cada página portenho ou o tango. Nesta fase
que escrevi teve origem em minha escreveu "Cuaderno San Martin"
emoção". e "Evaristo Carriego". Mas logo
O escritor Jorge Luis Borges nas- se cansou desses temas e começou
ceu na capital argentina, Buenos a especular sobre a narrativa fan-
Aires. Bilíngüe desde a sua infân- tástica, a ponto de produzir duran-
cia, aprendeu a ler em inglês antes te duas décadas, de 1930 a 1950,
que em castelhano, por influência algumas das mais extraordinárias
de sua avó materna de origem ficções do século, nos contos de
inglesa. "Historia Universal de la infâmia"
(1935); "Ficciones" (1935-1944) e
Aos seis anos disse a seu pai que
"El Aleph" (1949), entre outras.
queria ser escritor e aos sete
escreveu, em inglês, um resumo de Em 1937, Borges foi nomeado
literatura grega. Aos oito, inspira- diretor da Biblioteca Pública
do num episódio de "Dom Quixo- Nacional, o que foi seu primei-
te" de Cervantes, fez seu primeiro ro e único emprego oficial. Saiu
conto: "La Visera Fatal". Aos nove nove anos depois, indignado com
anos, traduziu do inglês "O Prín- a inclinação fascista que estava
cipe Feliz" de Oscar Wilde. tomando a Argentina.
Em 1914, devido à quase ceguei- No que se refere ao amor, o caso
ra total, seu pai decide passar mais quente do escritor argentino
Em 1967, Borges casou-se com
uma temporada com a família na foi com Estela Canto, que de-
uma amiga de infância, Elsa As-
Europa. Em Genebra, Jorge es- pois lançou o livro de memórias
tete. O casamento durou três anos
creveu alguns poemas em francês "Borges a Contraluz". Ele conta
e acabou com Borges fugindo de
enquanto estudava o bacharelado em sua biografia que a pediu em
casa, sem coragem para discutir
(1914-1918). Sua primeira publi- casamento. Moderna e liberada
a separação. Sua mãe, Leonor,
cação registrada foi uma resenha para a época, Estela respondeu:
morreu em 1975. Seu segundo
de três livros espanhóis para um "Eu aceitaria, Georgie, mas não
casamento foi com a sua ex-aluna
jornal de Genebra. podemos casar sem antes dormir
Maria Kodama que se tornou sua
juntos". Borges ficou assustado e
Em 1919, mudou-se para a secretária particular em 1981.
desapareceu.
Espanha e publicou poemas e Kodama era de origem japonesa
manifestos na imprensa. Em Aos 50 anos, o escritor já havia
e tornou-se a herdeira de seus
1921, retornou a Buenos Aires e perdido parcialmente a visão.
direitos autorais.
redescobriu sua cidade natal, na Com o passar dos anos, quando
Em 1983, Borges publicou no
efervescência dos anos 20. Nesse a cegueira se fez completa, sua
diário "La Nación" de Buenos
clima escreveu seu primeiro livro mãe, Leonor, passou a cuidar dele,
Aires o relato "Agosto 25, 1983",
de poemas, "Fervor em Buenos lendo e escrevendo o que ditava.
em que profetizava seu suicídio.
Aires", publicado em 1923. O reconhecimento literário de
Perguntado depois porque não
A partir de 1924, publicou algu- Borges se solidificou em 1961 com
havia se suicidado na data anun-
mas revistas literárias e, com mais a conquista do prêmio concedido
ciada, respondeu: "Por covardia".
dois livros, "Luna de Enfrente" pelo Congresso Internacional de
Borges afirmava freqüentemente
(poesia) e "Inquisiciones" (en- Editores, que dividiu com Samuel
o seu ateísmo e falava da solidão
saios), ganhou em 1925 a reputa- Beckett. Logo receberia também
como uma espécie de segunda
ção de chefe da jovem vanguarda prêmios e títulos por parte dos
companheira.
de seu país. Nos anos seguintes, governos da Itália, França, Ingla-
fonte: http://educacao.uol.com.br/
ele se transformou num dos mais terra e Espanha.
biografias/ult1789u221.jhtm

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Tradução

Olhos de Cã

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68
ão Azul
Então, fitou-me. Acredito
que me olhava pela primeira
vez. Mas logo, quando deu a
volta por detrás da luminária
e eu continuei sentindo por
sobre o ombro, às minhas
costas, seu olhar esquivo e
oleoso, compreendi que era
eu quem a olhava pela pri-
meira vez. Acendi um cigar-
Gabriel García Márquez ro. Traguei o fumo áspero e
tradução: Henry Alfred Bugalho forte, antes de fazer girar a
cadeira, equilibrando-a sobre
uma das pernas posteriores.
Depois disto, vi-a ali, como
se houvesse estado todas as
noites, parada junto à lumi-
nária, olhando-me. Durante
breves minutos fizemos nada
mais do que isto: Olhamo-
nos. Eu a olhava desde a
cadeira, equilibrando em
uma das pernas posteriores.
Ela, de pé, com mão grande
e quieta sobre a luminá-
ria, olhando-me. Via-lhe as
pálpebras iluminadas como
todas as noites. Foi então
que recordei o de sempre,
quando lhe disse: “Olhos de
cão azul”. Ela me disse, sem
retirar a mão da luminária:
“Isso. Já não o esqueceremos
nunca”. Saiu de órbita, sus-
pirando: “Olhos de cão azul.
Escrevi isto por toda a parte”.
Eu a vi caminhar até
o toucador. Vi-a aparecer
na lua circular do espelho,
olhando-me agora ao final
de uma matemática ida e
volta da luz. Vi-a prosseguir
fitando-me com seus grandes
olhos de cinza incandescente:
olhando-me enquanto abria a
caixinha laminada de nácar
rosado. Vi-a empoar o nariz.
Quando terminou de fazê-lo,
fechou a caixinha e voltou
a se pôr de pé e caminhou
novamente até a luminária,
dizendo: “Temo que alguém
sonhe com esta casa e mexa
em minhas coisas”; e esten-
deu sobre o lume a mesma

http://www.flickr.com/photos/77682540@N00/2623969513/sizes/o/

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mão grande e trêmula que quietos no corpete: “Porque Então, quando o sangue me
ficara aquecendo antes de está com a cara voltada para golpeia por dentro, é como
sentar-se ao espelho. E disse: a parede”. Então, fiz girar se alguém estivesse me cha-
“Você não sente frio”. E eu a cadeira. Tinha o cigarro mando com os nós dos dedos
lhe disse: “Às vezes”. E ela me apertado na boca. Quando no ventre e sinto meu pró-
disse: “Deve senti-lo agora”. parei diante do espelho, ela prio som de cobre na cama.
E então compreendi porque estava outra vez perto da É como se fosse como você
não havia conseguido ficar luminária. Agora tinha as disse: de metal laminado”.
sozinho na cadeira. Era o mãos abertas sobre o lume, Aproximou-se mais da lumi-
frio que me dava certeza de como duas asas abertas de nária. “Eu gostaria de ouvi-la”,
minha solidão. “Agora sin- galinha, assando-se e com o disse. E ela disse: “Se alguma
to”, eu disse. “E é incomum, rosto sombreado por seus vez nos encontrarmos, ponha
porque a noite está quieta. próprios dedos. “Acho que o ouvido nas minhas costelas,
Talvez me tenha enrolado vou ficar resfriada”, disse. quando eu estiver dormin-
o lençol”. Ela não respon- “Esta deve ser uma cidade ge- do sobre o lado esquerdo, e
deu. Começou outra vez a lada”. Voltou o rosto de perfil me ouvirá ressonar. Sempre
se mover até o espelho e e sua pele de cobre a verme- desejei que o faça alguma
rodopiei em direção a ela. lho se tornou repentinamente vez”. Ouvi-a respirar fundo,
Sem vê-la, sabia o que esta- triste. “Faça algo contra isto”, enquanto falava. E disse que
va fazendo. Sabia que estava disse. E ela começou a se durante anos não havia feito
outra vez sentada diante do despir, peça por peça, come- nada diferente disto. Sua vida
espelho, vendo minhas costas çando por cima; pelo corpete. era dedicada a me encontrar
que haviam tido tempo para Eu lhe disse: “Vou me virar na realidade, através desta
chegar ao fundo do espelho para a parede”. Ela disse: frase identificadora: “Olhos
e ser encontradas pelo olhar “Não. De qualquer modo, me de cão azul”. E, pela rua ia
dela que também havia tido verá como me viu quando dizendo, em voz alta, que
o tempo exato para chegar estava de costas”. E não havia era uma maneira de dizê-lo
ao fundo e regressar (antes acabado de falar quando já à única pessoa que poderia
que a mão tivesse tempo de estava desnuda quase por entender:
iniciar a segunda volta) até inteiro, com o lume lam- “Eu sou aquela que che-
os lábios que estavam agora bendo-lhe a comprida pele ga em seus sonhos todas as
untados de carmim, desde a de cobre. “Sempre quis vê-la noites e lhe digo isto: Olhos
primeira volta da mão diante assim, com o couro da barri- de cão azul”. E disse que ia
do espelho. Eu via, à minha ga cheio de profundos furos, aos restaurantes e dizia aos
frente, a parede lisa que era como se lhe houvessem sido empregados, antes de orde-
como outro espelho cego de feitos a pauladas”. E antes nar o pedido: “Olhos de cão
onde eu não a via — senta- que eu me desse conta que azul”. Mas os empregados lhe
da às minhas costas — mas minhas palavras se haviam faziam uma respeitosa reve-
imaginando-a onde estaria se tornado torpes diante de rência, sem que houvessem
em lugar da parede houvesse sua nudez, ela ficou imóvel, se lembrado nunca terem
sido posto um espelho. “Te aquecendo-se na órbita da dito isto em seus sonhos.
vejo”, eu lhe disse. E vi na luminária e disse: “Às vezes, Depois escrevia nos guarda-
parede como se ela houvesse acredito que sou metálica”. napos e inscrevia com a faca
erguido os olhos e houvesse Guardou silêncio por um no verniz das mesas: “Olhos
me visto de costas na cadeira, instante. A posição das mãos de cão azul”. E nos vidros
ao fundo do espelho, com a sobre o lume variou leve- embaçados dos hotéis, das
cara voltada para a parede. mente. Eu disse: “Às vezes, estações, de todos os edifícios
Depois, eu a vi baixar as em outros sonhos, acreditei públicos, escrevia com o in-
pálpebras, outra vez, e ficar que você não era senão uma dicador: “Olhos de cão azul”.
com os olhos quietos em seu estatueta de bronze no canto Disse que uma vez chegou a
corpete; sem falar. E voltei a de algum museu. Talvez por uma farmácia e identificou
dizer-lhe: “Te vejo”. E ela vol- isto você sinta frio”. E ela o mesmo cheiro que havia
tou a erguer os olhos desde disse: “Às vezes, quando ador- sentido em sua casa, uma
seu corpete. “É impossível”, meço sobre o coração, sinto noite, depois de ter sonhado
disse. Eu perguntei por quê. que o corpo se torna oco e comigo. “Deve estar perto”,
E ela, com os olhos outra vez a pele como uma lâmina. pensou, vendo o piso limpo

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e novo da farmácia. Então, reluziram sobre o lume. “Eu
aproximou-se do atendente gostaria de tocá-lo agora”,
e lhe disse: “Sempre sonho disse. Ela levantou o rosto
com um homem que me diz: que havia estado fitando
‘Olhos de cão azul’”. E disse o lume: levantou o olhar
que o vendedor a havia fita- ardente, assando-se assim
do e lhe disse: “Na realidade, como ela, com suas mãos;
senhorita, você tem os olhos e eu senti que me viu, no
assim”. E ela lhe disse: “Pre- canto, onde continuava
ciso encontrar o homem que sentado, mexendo-me na
me disse em sonhos a mesma cadeira. “Nunca havia me
coisa”. E o vendedor começou dito isto”, disse. “Agora digo,
a rir e foi para o outro lado e é verdade”, disse. Do outro
do balcão. Ela continuou ven- lado da luminária, ela pediu
do o piso limpo e sentindo o um cigarro. A bituca havia
cheiro. E abriu a bolsa, e se desaparecido de meus dedos.
ajoelhou, e escreveu no piso, Havia me esquecido que es-
em grandes letras vermelhas, tava fumando. Disse: “Não sei
com o batom: “Olhos de cão porque não consigo me lem-
azul”. O vendedor voltou de brar por onde escrevi”. E eu
onde estava. Disse-lhe: “Se- lhe disse: “Pela mesma razão
nhorita, você sujou o piso”. que não poderei me lembrar,
Entregou-lhe um pano úmi- amanhã, das palavras”. E ela
do, dizendo: “Limpe-o”. E ela disse, triste: “Não. É que, às
disse, ainda perto da luminá- vezes, acredito que a isto
ria, que passou toda a tarde também sonhei”. Pus-me de
ajoelhada, lavando o piso e pé e caminhei até a lumi-
dizendo “Olhos de cão azul” nária. Ela estava um pouco
até quando as pessoas se mais para lá, e eu sabia que,
reuniram à porta e disseram caminhando com os cigarros
que estava louca. e os fóforos na mão, não pas-
Agora, quando acabou de saria da luminária. Estendi-
falar, eu continuava no canto, lhe o cigarro. Ela o apertou
sentado, equilibrando-me na entre os lábios e se inclinou
cadeira. “Eu tento me lembrar para alcançar a chama, antes
todos os dias da frase com que eu tivesse o tempo para
que devo encontrá-lo”, disse. acender o fósforo: “Em al-
“Agora acredito que amanhã guma cidade do mundo, em
não a esquecerei. No entanto, todas as paredes, têm de
sempre digo o mesmo e sem- estar escritas estas palavras:
pre me esqueço ao despertar ‘Olhos de cão azul’”, disse. “Se
quais são as palavras com amanhã me lembrasse delas,
que posso encontrá-la”. E ela iria buscá-lo”. Ela levantou
disse: “Você mesmo as inven- outra vez a cabeça e já tinha
tou desde o primeiro dia”. a brasa acesa nos lábios.
E eu lhe disse: “Inventei-as “Olhos de cão azul”, sugeriu,
porque vi seus olhos cinzen- lembrando-se, com o cigarro
tos. Mas nuncas me lembro caído sobre o queixo e um
delas na manhã seguinte”. E olho meio fechado. Aspirou
ela, com os punhos fechados depois o fumo, com o cigarro
sobre a luminária, respirou entre os dedos, e exclamou:
fundo: “Se pelo menos pudes- “Isto já é outra coisa. Estou
se me lembrar agora em que ficando com calor”. E o disse
cidade estive escrevendo”. com a voz um pouco débil e
fugaz, como se não o hou-
Seus dentes apertados vesse dito de fato, mas sim

http://dayya.files.wordpress.com/2008/05/untitledsalvador-dali.jpg

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como se o houvesse escrito fiquei olhando-a subitamente. pouco a porta e um arzinho
num papel e houvesse apro- Olhei-a de cima a baixo e frio e tênue me trouxe um
ximado o papel do lume en- ainda era de cobre; mas não cheiro fresco de terra vegetal,
quanto o lia: “Estou ficando”, mais de metal duro e frio, de campo úmido. Ela falou
e ela houvesse ficado com o mas de cobre amarelo, bran- outra vez. Eu dei a volta, mo-
papelzinho entre o polegar e do, maleável. “Gostaria de vendo ainda a porta montada
o índice, virando, enquanto tocá-la”, voltei a dizer. E ela em dobradiças silenciosas, e
se consumia e eu acabava de disse: “Poria tudo a perder”. lhe disse: “Acredito que não
ler: “...com calor", antes que Eu disse: “Agora não importa. há corredor algum aqui fora.
o papelzinho se consumis- Bastará que viremos o tra- Sinto o cheiro do campo”.
se por completo e caísse ao vesseiro para que voltemos E ela, um pouco distante já,
chão enrugado, diminuído, a nos encontrar”. E estendi disse-me: “Conheço isto mais
convertido em insignificante a mão por cima da luminá- do que você. O que acontece
pó de cinza: “Assim é me- ria. Ela não se moveu. “Poria é que lá fora há uma mulher
lhor”, disse. “Às vezes, tenho tudo a perder”, voltou a dizer, sonhando com o campo”.
medo de vê-la assim. Tre- antes que eu pudesse tocá-la. Cruzou os braços sobre o
mendo junto à luminária”. “Talvez, se você der a volta lume. Continuou falando: “É
Víamo-nos há vários anos. por detrás da luminária, des- essa mulher que sempre de-
Às vezes, quando já estáva- pertaríamos sobressaltados, sejou ter uma casa no campo
mos juntos, alguém deixa- quem sabe em qual parte e nunca pôde sair da cidade”.
va cair lá fora uma colher do mundo”. Mas eu insisti: Eu me lembrava ter visto
e despertávamos. Pouco a “Não importa”. E ela disse: a mulher em algum sonho
pouco, fomos compreenden- “Se virássemos o travesseiro, anterior, mas sabia, já com a
do que nossa amizade estava voltaríamos a nos encontrar. porta entreaberta, que dentro
subordinada às coisas, aos Mas você, quando despertar, de meia hora tinha de descer
acontecimentos mais simples. terá esquecido”. Comecei a para o café-da-manhã. E dis-
Nossos encontros termina- me mover até o canto. Ela fi- se: “De toda maneira, tenho
vam sempre assim, com o cou atrás, aquecendo as mãos que sair daqui para acordar”.
cair de uma colher na ma- sobre o lume. E eu ainda Fora, o vento soprou por
drugada. não estava perto da cadeira um instante, depois ficou
quando ouvi-a dizer, às mi- quieto e se ouviu a respi-
Agora, junto à luminária, nhas costas: “Quando acordo
fitava-me. Eu me lembrava ração de um dormente que
à meia-noite, fico rodando na acabava de dar a volta na
que antes também havia me cama, com os fios do traves-
fitado assim, desde aquele cama. O vento do campo
seiro queimando-me o joelho cessou. Já não havia mais
remoto sonho no qual girei e repetindo até o amanhecer:
a cadeira sobre suas pernas cheiros. “Amanhã, eu a reco-
‘Olhos de cão azul’”. nhecerei por isto” disse. “Eu a
posteriores e parei diante de
uma desconhecida de olhos Então parei com a cara reconhecerei-a quando vir na
cinzentos. Foi neste sonho contra a parede. “Já está ama- rua uma mulher que escreve
que lhe perguntei pela pri- nhecendo”, disse, sem fitá-la. nas paredes: ‘Olhos de cão
meira vez: “Quem é você?” E “Quando deram as duas, eu azul’”. E ela, com um sorriso
ela me disse: “Não me lem- estava acordado, e isto faz triste — que era um sorriso
bro”. Eu lhe disse: “Mas acre- muito tempo”. Eu me dirigi de entrega ao impossível, ao
dito que nos vimos antes”. E até a porta. Quando tinha inalcançável —, disse: “No
ela disse, indiferente: “Acre- pegado a maçaneta, ouvi entanto, não se lembrará de
dito que alguma vez sonhei outra vez sua voz igual, inva- nada durante o dia”. E vol-
com você, com este mesmo riável: “Não abra esta porta”, tou a pôr as mãos sobre a
quarto”. E eu lhe disse: “É disse. “O corredor está cheio luminária, com o semblante
isso. Já começo a me lem- de sonhos difíceis”. E eu lhe obscurecido por uma névoa
brar”. E ela disse: “Que curio- disse: “Como você sabe?” E amarga: “É o único homem
so. É certo que nos encontra- ela me disse: “Porque há um que, ao despertar, não se lem-
mos em outros sonhos”. momento estive ali e tive bra de nada do que sonhou”.
que retornar quando desco- 1950
Deu duas tragadas no ci- bri que estava adormecida
garro. Eu ainda estava parado sobre o coração”. Eu tinha a fonte: http://www.lajiribilla.co.cu/2007/
diante da luminária, quando porta entreaberta. Movi um n306_03/elcuento.html

72 SAMIZDAT maio de 2009


72
Gabriel José García Márquez cubana Prensa Latina. Em 1960,
nasceu em Aracataca (Colômbia), García Márquez mudou-se para
e foi criado na casa de seus avós a Cidade do México e começou a
maternos, que iriam influenciar escrever roteiros para cinema. No
o futuro literato com as histórias ano seguinte, publicou “Ninguém
que contavam. O avô, coronel Escreve ao Coronel” e, em 1962,
Nicolas Márquez, veterano da “O Veneno da Madrugada”, que
guerra civil colombiana (1899- ganhou o Prêmio Esso de Roman-
1902), narrava-lhe suas aventuras ce, na Colômbia.
militares, e a avó, Tranquilina Em 1966, segundo depoimento do
Iguarán, relatava fábulas e lendas escritor mexicano Carlos Fuentes,
que transmitiam sua visão mágica quando voltava do balneário de
e supersticiosa da realidade. Acapulco para a Cidade do Méxi-
García Márquez, ou simplesmente co, García Márquez teve o mo-
Gabo, completou os primeiros mento de inspiração para escrever
estudos em Barranquilla e Zipa- o romance que ruminava há mais
quirá, onde teve um professor de de uma década. Largou o empre-
literatura, Carlos Julia Calde- go, deixando o sustento da casa e
rón Hermida, que desempenhou dos dois filhos a cargo da mulher, países ricos ao continente.
papel marcante em sua decisão Mercedes Barcha. Isolou-se pelos O escritor retornou ao jornalismo
de se tornar um escritor e a quem 18 meses seguintes, trabalhan- em 1999, quando passou a dirigir
dedicaria seu romance “O Enterro do diariamente por mais de oito a revista “Cambio”. Em 2002,
do Diabo” (1955). Por insistência horas. No ano seguinte, publicou publicou “Viver Para Contá-la”,
dos pais, Márquez chegou a ini- aquele que seria sua obra mais co- primeiro volume de sua auto-
ciar o curso de direito na Univer- nhecida, “Cem Anos de Solidão” biografia. Entre outras obras de
sidade Nacional, em Bogotá, mas (1967) - unanimemente uma obra- destaque, García Márquez é o
logo enveredou para o jornalismo, prima da literatura em língua autor de “Crônica de uma Morte
assumindo uma coluna diária no espanhola. Anunciada” (1981), “O Amor
recém-fundado jornal “El Univer- Com o sucesso, mudou-se para nos Tempos do Cólera” (1985),
sal”. Nunca se graduou. Barcelona, Espanha, onde per- “O General em Seu Labirinto”
Nessa época, final da década de maneceu até 1975, passando (1989) e “Notícias de um Seqües-
1940, publicou seus primeiros temporadas em Bogotá, México, tro” (1996). O último romance
contos, “La Tercera Resignación” Cartagena (Colômbia) e Havana. que publicou, em 2004, intitula-
e “Eva Está Dentro de su Gato”. Em 1981, voltou para a Colômbia. se “Memórias de Minhas Putas
Consagrou-se na carreira jorna- Acusado pelo governo de colabo- Tristes”.
lística ao ingressar na redação de rar com a guerrilha, exilou-se no Alguns de seus textos foram
“El Espectador”, onde se tornou o México. Nesse período, publicou adaptados para o cinema, como
primeiro crítico de cinema do jor- novos romances, livros de contos e “Eréndira”, de 1983, estrelado
nalismo colombiano e depois um antologias de sua produção jorna- por Cláudia Ohana e dirigido
brilhante cronista e repórter, que lística e de ficção. por Ruy Guerra, e “O Amor nos
exerceu influência na vida cultural Em 1982, recebeu o Prêmio Nobel Tempos do Cólera”, de 2007,
do país. Em 1955, viajou para a de Literatura. Segundo se soube dirigido pelo inglês Mike Newell,
Europa como correspondente do posteriormente, a premiação foi e com a participação de Fernanda
jornal, após a publicação de uma disputada com o escritor inglês Montenegro.
extensa reportagem, “Relato de Graham Greene e o alemão Gün-
um Náufrago”, que desagradou ao ther Grass. Diante da Academia
governo do general Roja Pinillas. Fontes: Banco de Dados/Folha
Sueca e de quatrocentos convi- de S. Paulo e edição comemora-
No final dos anos 50, de volta às dados, pronunciou o discurso “A tiva dos 40 anos de “Cien Años
Américas, trabalhou em Caracas Solidão da América Latina”, ques- de Soledad”, Madrid, 2007, Real
(Venezuela), em Cuba, onde pas- tionando os estereótipos com que Academia Española - via: http://
sou seis meses, e em Nova York, os latino-americanos eram vistos educacao.uol.com.br/biografias/
dirigindo a agência de notícias na Europa e a falta de atenção dos ult1789u87.jhtm

www.revistasamizdat.com 73
Tradução

Cronópios e Famas
Julio Cortázar
tradução: Henry Alfred Bugalho

http://www.flickr.com/photos/deboni/2959228565/sizes/o/

74 SAMIZDAT maio de 2009


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Instruções para chorar
Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo
por isto um pranto que não ingresse no escândalo, nem que insulte o sorriso com sua
comparação e torpe semelhança. O pranto médio ou ordinário consiste numa contração
geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e ranhos, estes últimos
ao final, pois o pranto acaba no momento em que alguém se assoa energicamente.
Para chorar, dirija a imaginação para si mesmo, e se isto lhe resulta impossível por
haver contraído o hábito de acreditar no mundo exterior, pense em um pato coberto de
formigas ou nestes golfos do estreito de Magalhães nos quais ninguém entra, nunca.
Chegado o pranto, tapará com decoro o rosto usando ambas as mãos com a palma
para dentro. As crianças chorarão com a manga da blusa contra o rosto, e de preferência
num canto do quarto. Duração média do pranto, três minutos.

Instruções-exemplos sobre a forma de ter medo

Em um povoado da Escócia vendem-se uma camisa, cai um velho almanaque que


livros com uma página em branco perdida se desfaz, desfolha-se, cobre a roupa branca
em algum lugar do volume. Se um leitor com milhares de sujas mariposas de papel.
desemboca nesta página ao dar três horas
da tarde, morre.
Sabe-se de um caixeiro-viajante a quem
começou a doer o pulso esquerdo, justa-
Na praça de Quirinal, em Roma, há um mente debaixo do relógio de pulso. Ao
ponto que conheciam os iniciados até o arrancar-se o relógio, jorrou sangue: a feri-
século XIX, e a partir do qual, com a lua da mostrava a marca de uns dentes muito
cheia, se vê moverem-se lentamente as es- finos.
tátuas dos Dióscuros que lutam com seus
cavalos empinados.
O médico termina de nos examinar e
Em Amalfí, ao terminar a zona costeira, nos tranquiliza. Sua voz grave e cordial
há um molhe que adentra o mar e a noite. precede os medicamentos, cuja receita ago-
Ouve-se ladrar um cão para mais além do ra escreve, sentado à sua mesa. De quando
último farol. em quando, ergue a cabeça e sorri, conso-
lando-nos. Não é de se preocupar, em uma
Um senhor está espalhando pasta de semana estaremos bem. Ajeitamo-nos em
dentes na escova. De súbito, vê, deitada de nosso assento, felizes, e olhamos distraida-
costas, uma diminuta imagem de mulher, mente ao redor. De súbito, na penumbra
de coral ou talvez de miolo de pão pinta- debaixo da mesa, vemos as pernas do mé-
do. dico. Havia erguido as calças até as coxas,
e veste meias de mulher.
Ao abrir o guarda-roupa para apanhar

Textos extraídos da obra “Historias de Cronopios y Fa-


mas” de 1962.
fonte: http://www4.loscuentos.net/cuentos/other/1/3/

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Julio Cortázar múltiplas formulações. É assim
que sua narrativa constitui um
(Bruxelas, 1914 - Paris, 1984)
questionamento permanente da
Escritor argentino. Nascido em
razão e dos esquemas convencio-
Bruxelas, filho de pais argen-
nais de pensamento.
tinos, aos quatro anos, Julio
Cortázar se mudou com eles O instinto, o azar, o gozo dos
para a Argentina, para morar na sentidos, o humor e o jogo
província andina de Mendoza. terminam por se identificar com
a escrita, que é, por sua vez, a
Depois de completar seus estu-
formulação do existir no mundo.
dos primários, cursou magistério
As rupturas de ordem cronoló-
e letras e durante cinco anos foi
gica e especial tiram o leitor de
professor rural. Posteriormen-
seu ponto de vista convencional,
te, foi para Buenos Aires e, em
propondo-lhe diferentes possibi-
1951, viajou a Paris com uma
lidades de participação, de modo
bolsa. Ao término dela, seu tra-
que o ato de leitura é convocado
balho como tradutor da Unesco
a completar o universo narrati-
lhe permitiu permanecer definiti-
vo.
vamente na capital francesa.
Tais propostas alcançaram suas
Nesta época, Julio Cortázar já
mais perfeitas expressões nos ro-
havia publicado em Buenos Aires
mances, especialmente em “Jogo
o livro de poemas “Presencia” à cerimônia de posse presiden-
da Amarelinha”, considerada
com o pseudônimo de Julio cial de Salvador Allende e, mais
uma das obras fundamentais da
Denis, o poema dramático “Los tarde, foi a Nicarágua para
literatura em castelhano, e em
reyes” e a primeira de suas nar- apoiar o movimento sandinis-
seus contos, entre eles “Casa
rativas breves, “Bestiário”, nas ta. Como personagem público,
tomada” e “A baba do diabo”,
quais admite a profunda influên- interveio com firmeza em defesa
ambos adaptados ao cinema, e
cia de Jorge Luis Borges. dos direitos humanos e foi um
“O perseguidor”, cujo protago-
A literatura de Cortázar parte nista evoca a figura do saxofo- dos promotores e membros mais
do questionamento essencial, nista negro Charlie Parker. ativos do Tribunal Russell.
aproximando-se de reflexões Como parte deste compromisso,
Rapidamente, Julio Cortázar se
existencialistas, em obras de escreveu inúmeros artigos e li-
converteu numa das principais
marcado caráter experimental, vros, entre eles “Dossiê Chile: O
figuras do chamado “Boom” da
que o tornam um dos maio- livro negro”, sobre os excessos
literatura hispano-americana e
http://www.archipelagobooks.org/archimages/julio%5B1%5D.jpg

res inovadores da língua e da do regime do general Pinochet,


desfrutou de reconhecimento in-
narrativa em língua castelhana. e “Nicarágua, tão violentamente
ternacional. À sua sensibilidade
Como em Borges, suas narra- doce”, testemunho da luta sandi-
artística somou-se sua preocu-
tivas mergulham no fantástico, nista contra a ditadura de Somo-
pação social: identificou-se com
mesmo sem abandonar de todo a za, no qual está o conto “Apoca-
os povos marginalizados e esteve
referência à realidade cotidiana, lipse em Solentiname” e o poema
muito próximo dos movimentos
fato que faz com que suas obras “Notícia aos viajantes”. Três
de esquerda.
sempre tenham uma dívida em anos antes de morrer, adotou a
aberto com o surrealismo. Neste sentido, a viagem a Cuba, nacionalidade francesa, mas sem
em 1962, significou uma expe- renunciar a argentina.
Para Cortázar, a realidade
riência decisiva em sua vida.
imediata significa uma via de
Graças a sua conscientização
acesso a outros registros do real,
política e social, em 1970 se
onde a plenitude da vida alcança
deslocou ao Chile para assistir

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Tradução

http://www.flickr.com/photos/antiguadailyphoto/3159358207/sizes/o/
Eduardo Galeano
tradução: Henry Alfred Bugalho

A Criação
A mulher e o homem so- lavam e armavam muito Fonte:
nhavam que Deus os estava alvoroço, porque estavam Eduardo Galeano, Memo-
sonhando. loucos de vontade de nas- ria del fuego I. Los naci-
Deus os sonhava, en- cer. Sonhavam que no mientos, Casa de las Améri-
quanto cantava e agitava sonho de Deus a alegria era cas, La Habana, 1988.
suas maracas, envolto em mais forte que a dúvida e o
mistério; e Deus, sonhando, Eduardo Galeano, Memo-
fumo de tabaco, e se sentia ria del fuego II. Las caras y
feliz e também estremecido os criava, e cantando dizia:
las máscaras, Casa de las
pela dúvida e pelo mistério. — Rompo este ovo e Américas, La Habana, 1990.
Os índios makiritare nasce a mulher e nasce o
homem. E juntos viverão Eduardo Galeano, Memo-
sabem que, se Deus sonha ria del fuego III. El siglo del
com comida, frutifica e dá e morrerão. Mas nascerão
novamente. Nascerão e viento, Quinta edición, Siglo
de comer. Se Deus sonha Veintiuno Editores, México,
com a vida, nasce e dá nas- voltarão a morrer e outra
vez nascerão. E nunca mais 1987.
cimento.
deixarão de nascer, porque
A mulher e o homem a morte é mentira.
sonhavam que no sonho de fonte: http://www.patria-
Deus aparecia um grande grande.net/uruguay/edu-
ovo brilhante. Dentro do ardo.galeano/memoria.del.
ovo, eles cantavam e bai- fuego/index.html

78 SAMIZDAT maio de 2009


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Eduardo Hughes Galeano Apesar da clara inspiração e diferente do usual, tal qual
(Montevidéu, 3 de setembro relevância histórica da obra, feito em “As Veias Abertas da
de 1940) é um jornalista e o próprio escritor nega ser América Latina”.
escritor uruguaio. um historiador. Seu último Eduardo Galeano, foi agra-
Suas obras já foram tradu- livro, “Espelhos”, também ciado com o título de primeiro
zidas em diversas línguas. é baseado em fatos históri- cidadão ilustre do Mercosul.
Costuma escrever seus livros cos, expondo-os de maneira
no formato de pequenas his-
tórias que contempla desde
assuntos políticos relevantes
na história da América Latina
até assuntos simples, como
o cotidiano e o futebol. Ga-
leano é comparado a John
Dos Passos e Gabriel García
Márquez.
Uma de suas obras de maior
relevância política e impor-
tância é “As Veias Abertas da
América Latina”, livro em que
relata o que considera a ex-
ploração sofrida pelas nações
latino-americanas, desde a
formação dos impérios his-
pânico e português, passando
por uma influência inglesa e
estadunidense, por meio de
um arrocho imposto pela eco-
nomia internacional (Divisão
Internacional do Trabalho),
até os dias de hoje.

O lugar onde
a boa Literatura
é fabricada

ficina
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www.oficinaeditora.org
Teoria Literária

Realismo mágico
a realidade à mercê da Literatura
Henry Alfred Bugalho

80 SAMIZDAT maio de 2009


80
A Revolução Cubana,
em 1959, inseriu a América
Latina no panorama global.
No quintal de sua casa,
os EUA assistiram à insta-
lação de um regime co-
munista, que representaria
uma potencial porta de
entrada da URSS no país.
Na intrincada dinâmica da
Guerra Fria, Cuba se tornou
uma importante peça no
jogo, mas, além dos aspec-
tos geopolíticos, fez com
que os olhos do mundo se
voltassem para a cultura
latino-americana. Como
sempre, os ianques precisa-
vam conhecer seus inimigos
para derrotá-los.
Podemos considerar este
evento como o início do
Boom da literatura latino- Ernesto “Che” Guevara e Fidel Castro, dois líderes da Revolução

http://www.freedomarchives.org/images/Fidel_Che.jpg
americana, quando autores Cubana: o evento histórico que atraiu a atenção mundial para a Amé-
como Cortázar, Garcia Mar- rica Latina e que tornou Cuba um modelo ideológico para os países
subdesenvolvidos; associado ao início do Boom latino-americano.
quez, Vargas Llosa, Carlos
Fuentes e Alejo Carpentier O mágico na Literatura que os autores eram pesso-
despontaram no cenário as como outras quaisquer e
literário internacional e se O aspecto extraordinário buscavam em suas épocas e
tornaram as estrelas da vez. e fantástico sempre este- no comportamento de seus
ve presente na Literatura. contemporâneos a inspira-
Para compreendermos
Desde a relação íntima
http://www.flickr.com/photos/jb1/2198322192/sizes/o/

ção, no entanto, a verdade


este fenômeno, e também
entre deuses e homens de pertencia a um plano su-
sua vertente mais marcan-
Homero, onde as divindades perior, algo próximo a um
te — o chamado “realismo interferiam na vida munda- platonismo literário, no qual
mágico”, ou “fantástico” —, na, participavam ativamente a verdade sempre estaria
devemos, antes de tudo, dos eventos, o sobrenatural para além do que os olhos
dividir estes dois termos, e o inexplicável foram in- enxergavam — o Livro do
“realismo” e “mágico”, en- corporados pela Literatura Mundo sempre nos reme-
contrarmos suas origens e utilizados para expressar tia ao Livro do Universo, o
e correlacioná-los ao uso uma verdade maior. microcosmo como manifes-
feito pela literatura latino- A realidade, tal qual, for- tação do macrocosmo.
americana. necia os elementos básicos Fosse no contexto clássi-
da narrativa literária, posto co, com o panteão grego ou

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romano, fosse no contexto
cristão, com uma divindade
todo-poderosa, a tradição li-
terária expressou, em vários
momentos, suas mensagens
através do fantástico: Dante
desceu aos infernos, con-
duzido pelo poeta romano
Virgílio, para se encontrar
com sua Beatrice; as lendas
do ciclo arturiano apresen-
taram cavaleiros em busca
do mítico Santo Graal; em
Rabelais, os gigantes Gar-
gântua e Pantagruel atraves-
savam a França, guerreando
e festejando, e partiram em
busca de Théleme, uma
abadia fictícia onde pode-
riam encontrar a verdade;
Fausto entregou a alma a
Mefistófeles em troca da
sabedoria.
De fato, o fantástico não
permeava apenas as obras O realismo na Literatura
ficcionais, mas também nar-
rativas que se pretendiam É impossível de se de-
verídicas. Em Heródoto, o terminar o momento exato
extraordinário estava pre- em que a razão passou a
sente todo o tempo, mes- ter a primazia. No entanto,
clado a eventos históricos, é evidente que entre o final
e a própria Bíblia propaga do século XV e o come-
tradições orais calcadas ço do século XVIII, houve
no fantástico, tais como os profundas transformações
milagres e ressurreição de nos saberes, na cultura e
Jesus. na política da civilização
ocidental.
E esta predominância do
mágico não era um proble- As grandes navegações
ma para autores e leitores, significaram uma mudança
até o Racionalismo entrar nos planos político e eco-
em cena e, como afirmou nômico, enquanto que nos Topo: a descida de Dante ao
Descartes, daquele ponto campos especulativos, as re- Inferno.
em diante só se poderia flexões de René Descartes,
confiar no “certo e indubi- as descobertas de Copérni-
Acima: René Descartes, filósofo e
tável”, e não mais em meras co, Galileu e Newton, trou- matemático considerado o inaugu-
fantasias (Meditações Meta- xeram uma cisão com os rador do Racionalismo.
físicas, 1641). conhecimentos de outrora.

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82
Obviamente que esta imaginário são antagônicos.
profunda revolução intelec- Esta foi uma tendência
tual se disseminaria pelo que se acentuou com o pas-
mundo ocidental e influen- sar dos anos, a ponto que,
ciaria as Artes e a Literatu- nos séculos XVII e XVIII,
ra. É durante este período o realismo já predomina-
http://department.monm.edu/classes/honr210/doreburningtombs.jpg

que a Renascença euro- va. Em “Robinson Crusoé”,


péia atingiu seu auge, com considerado o primeiro
expoentes como Leonardo romance inglês, há uma
Da Vinci, Miquelângelo e ausência total do fantástico.
Rafael, na Itália, e Albre- Daniel Defoe escolheu um
cht Dürer, na Alemanha. homem comum, com uma
Enquanto que, na Espanha, vida comum, mas diante
despontou aquele que seria, duma situação incomum
na opinião de Foucault (As — o naufrágio. Contudo, as
Palavras e as Coisas, 1966), soluções do romance são
o primeiro escritor moder- plausíveis em comparação à Acima: Dom Quixote e Sancho
no, Miguel de Cervantes. realidade. Pança na visão de Pablo Picasso.
A obra de Cervantes Para a literatura moder-
é, neste sentido, bastante na, além da verossimilhan- Abaixo: Robinson Crusoé, o nau-
intrigante, ao observamos ça interna, a escrita tam- frágo que se tornou o símbolo do
sua construção: Dom Qui- bém precisava se aproximar homem moderno.
xote é um senhor que, por do real. Balzac e Dickens
causa da leitura excessiva foram dois mestres nes-
de romances de cavalaria, te campo: eles recriaram
decide ele próprio se tor- ficcionalmente situações e
http://faculty.uml.edu/enelson/images/Descartes.jpg

nar um cavaleiro andante. caracteres de suas cidades


A realidade da Espanha de — Paris de Balzac e Londres
Dom Quixote não corres- de Dickens, se não eram
ponde em nada ao mundo cópias exatas, eram retratos
dos livros que ele lia, o que minuciosos do mundo em
não o impede de visuali- que viviam.
zar, em sua imaginação ou
delírio, gigantes, cavaleiros O Naturalismo, durante
inimigos, belos corcéis e o século XIX, significaria a
princesas, quando tudo não hipérbole do realismo e, na
passa de moinhos de vento, figura de Émile Zola, bus-
viajantes pegos de surpresa, cou reproduzir a realidade
pangarés e moças desden- em sua imundície, relevan-
tadas. do um determinismo cien-
tífico.
O personagem Quixote
não pertence a dois mun- Após séculos de domínio
dos que se tocam, como os do mágico, a Literatura oci-
heróis das épocas anteriores, dental se dobrou à realida-
mas sim a dois universos de.
que se repelem. Em “Dom
Quixote”, a realidade e o

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Kafka e o mundo Não é à toa que Nietzs- Topo à esquerda: Franz Kafka,
inexplicável che se tornaria referência autor de “Metamorfose” e “O
para toda uma geração fu- Processo”.
Mas a transição para o tura de pensadores e artis- Acima: Friedrich Nietzsche, arau-
século XX expôs as fragili- tas e apontaria para novos to da contemporaneidade, destrui-
dades da razão. rumos criativos. dor de ídolos e inspiração para
inúmeros filósofos e escritores do
Nietzsche talvez tenha Nas Artes e na Literatu- século XX.
sido o primeiro grande ra, a virada para o século
intelectual a identificar a diante de sua representa-
XX foi de profundas trans-
razão como deturpadora, ção. Artistas como Picasso,
formações e de acirrado
em oposição aos sentidos. Kandinsky, Dalí, Braque, se
ataque à tradição. Durante
A razão distorceria a rea- descolam do realismo e re-
a primeira metade do sécu-
lidade, ao tentar unificá-la criam a realidade de outra
lo, incontáveis movimentos
em conceitos e buscar uma maneira. O mesmo fenôme-
de vanguarda proliferaram
essência para as coisas. no também ocorreria em
pela Europa e Estados Uni-
outros campos artísticos,
O filósofo alemão retraça dos, imbuídos dum único
como na música, na escul-
o domínio da razão desde compromisso: arrastar a
tura, na fotografia, e princi-
Sócrates até seus tempos, Arte para fora de seu con-
palmente na literatura. Este
sob a inquestionável influ- formismo, testar seus limi-
foi o momento de buscar o
ência de Kant e Hegel, e tes e renová-la.
real na finitude do Homem,
desfere golpes letais contra É neste ponto que a reali- dentro de sua própria psi-
o pensamento ocidental. dade novamente se encolhe que e do tempo intangível.

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Proust, Joyce, Breton, Sartre, O modernismo europeu e Prisma e Proa. Dedicou-se,
Camus, Virginia Woolf, Sa- os acólitos latinos no início de sua carreira
muel Beckett, entre outros, literária, à poesia, mas seria
assumiram a linha de frente Tais vanguardas moder- durante a maturidade que
deste embate contra a tradi- nistas se disseminaram pelo ele produziria suas mais
ção e conduziram a litera- mundo, alcançando inclusi- importantes obras, em
tura a novos patamares. ve a América Latina. prosa, entre elas “Ficções”
Em 1922, ocorreu no e “O Aleph”, isto durante as
Distante dos grandes
Brasil a Semana de Arte décadas de 1930 e 1950.
centros culturais e dos
movimentos estéticos, Franz Moderna, que tornou pú- As narrativas de Borges
Kafka foi um destes autores blica toda uma geração de são permeadas de parado-
artistas brasileiros, como xos, intertextos, referências
que incorporaram o espírito
Tarsila de Amaral, Di fictícias e muitas vezes
de seu tempo e, através de
Cavalcanti, Anita Malfatti, abordam o processo de
sua escrita, apresentou pos-
Brecheret, Villa-Lobos, Má- criação literária. Leitor de
sibilidades criativas inéditas
rio e Oswald de Andrade,
e restaurou a presença do O argentino Jorge Luis Borges in-
para citar alguns. Obvia-
fantástico. Nas obras de Ka- fluenciou toda a geração seguinte
mente estimulados pelas
fka, o real e o mágico vol- vanguardas européias, eles de escritores latino-americanos
taram a se tocar, o segundo com seus contos extraordinários e
assumiram o compromisso
invadindo o primeiro duma com sua peculiar visão da Lite-
de digerir as propostas de ratura: encerrada em si mesma,
maneira assustadora, não revolução artística e regur- autônoma e regida por suas pró-
mais com a naturalidade gitá-las com a voz e identi- prias leis.
dos tempos antigos, mas dade brasileiras.
sim com a aporia da era
Algo semelhante também
industrial.
ocorreria em outros países
Em “Metamorfose”, por da América Latina e, na
exemplo, obra na qual o Argentina, Jorge Luis Borges
protagonista Gregor Samsa seria um dos autores que
desperta tornado um inseto acompanharia a onda dos
repugnante, o inexplicável modernistas.
só é acentuado pelo ab-
surdo de que, mesmo me-
tamorfoseado num bicho, Borges, o criador de
tudo que o personagem labirintos
mais deseja é se levantar e
ir trabalhar, para não rece- O argentino Jorge Luis
ber um esporro do chefe. Borges é uma grande som-
bra pairando sobre a litera-
De maneira abrupta e, tura latino-americana. Por
de certo modo, violenta, o décadas, foi quase impossí-
fantástico reassumiu sua vel escapar de sua influên-
posição. Com a crise da ra- cia.
zão, o mundo não precisava
Primeiro, ele pertenceu
mais de explicação.
ao movimento ultraísta
argentino e fundou algumas
revistas, como Cosmópolis,

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Kafka, Edgar Allan Poe e comprometimento político que talvez condense melhor
Joyce, Borges condensou e também pelo equivocado o espírito da literatura do
o espírito duma geração apoio ao governo peronista Boom, “Cem Anos de So-
em crise e sublimou este e ao golpe militar de Pino- lidão”, de Gabriel García
esfacelamento da noção de chet no Chile. Márquez, de 1966.
verdade e referência em Em 1960, a obra de Bor- Na obra “Spanish Ameri-
seus contos. ges já havia sido traduzida can Fiction”, o pesquisador
Não é acidentalmente para inúmeros idiomas e Donald L. Shaw apresenta
que, posteriormente, Borges era acolhida pela crítica e as seguintes características
seria acolhido pelos teó- público internacional. da literatura do Boom:
ricos estruturalistas, que Este escritor, que durante
encontrariam em seus tex- praticamente toda a vida “1. O desaparecimento do
tos a expressão desta cisão, lutou contra problemas velho romance “criollista”, ou
deste corte epistemológico. de visão e morreu com- “telúrico”, de tema rural, e o
O universo de Borges não pletamente cego, enxergou surgimento do neo-indigenis-
era utópico, posto que não mais longe do que muitos mo de Asturias e Arguedas.
apresentava um mundo de seus contemporâneos, e
idealizado, nem distópico, já traçou o caminho para a 2. O desaparecimento do ro-
que não representava uma geração seguinte, que con- mance “engajado” e o surgi-
outra realidade decadente e quistaria o mundo com mento do romance “metafísico”.
opressora, mas sim parató- suas histórias extraordiná- 3. A tendência a subordinar a
pico (Foucault, no prefácio rias. observação à fantasia criadora
de “As Palavras e as Coisas”), e à mitificação da realidade.
no qual, em alguns casos,
4. A tendência de enfatizar
nem as regras físicas da O Boom e seus aspectos ambíguos, irracionais
nossa realidade vigoravam, estilhaços e misteriosos da realidade e da
tal qual ocorre no conto
personalidade, desembocando,
“Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” Num intervalo de pou- às vezes, no absurdo como me-
ou na antologia “O Livro cos anos, vários autores da táfora da existência humana.
dos Seres Imaginários”, América Espanhola publica-
escrito em parceria com ram seus livros e se torna- 5. A tendência a desconfiar do
Margarita Guerrero. ram sucesso de vendas e conceito de amor como supor-
te existencial e de enfatizar, em
Para Borges, a literatura crítica.
troca, a incomunicabilidade e
era um “orbe autônomo”, Há pouco consenso sobre a solidão do indivíduo. Antir-
descolado da realidade, e qual livro teria inaugurado, romantismo.
onde tudo é possível de de fato, a geração do Boom,
acordo com a vontade do mas “O Jogo da Amareli- 6. A tendência a desprover
autor. nha” de Julio Cortázar é de valor o conceito de morte
num mundo que, por si só, é
Esta falta de engajamento, um forte candidato, ao lado
infernal.
que transparecia neste ideal de “A Cidade e os Cachor-
duma literatura voltada ros” de Mario Vargas Llosa, 7. A revolta contra toda a es-
para a própria literatura, ambos publicados em 1963. pécie de tabu moral, sobretudo
seria o calcanhar de Aqui- Numa sucessão vertiginosa, aqueles relacionados à religião
les de Borges, cotado várias vieram as principais obras e à sexualidade. A tendência
vezes para receber o prê- de Carlos Fuentes — “A paralela a explorar a tenebro-
mio Nobel, mas repudiado Morte de Artemio Cruz” e sa magnitude de nossa vida
por causa de sua falta de “Aura” — e aquele romance secreta.

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8. Um emprego maior de já haviam sido explorados,
elementos eróticos e humorís- em separado, pelo romance
ticos. modernista, mas a verdadei-
9. A tendência a abandonar ra novidade foi o tom e a
a estrutura linear, ordenada engenhosidade dos autores
e lógica, típica do romance latino-americanos.
tradicional (e que refletia um Julio Cortázar, em en-
mundo concebido como mais trevista a Joaquin Soler
ou menos ordenado e com- Serrano, tentou reverter a
preensível), substituindo-a por imagem de que o Boom
outra estrutura baseada na não passava duma manobra
evolução espiritual do prota- editorial. Segundo Cortázar,
gonista, ou com estruturas que ele e outros expoentes do
refletem a multiplicidade do Boom haviam iniciado suas
real. carreiras literárias com difi-
10. A tendência a subverter o culdade, publicando peque-
conceito de tempo cronológico nas tiragens independentes
linear. e conquistando os leitores
de maneira espontânea.
11. A tendência a abandonar
os cenários realistas do roman- Não há razão para du-
ce tradicional, substituindo-os vidarmos desta afirmação,
por espaços imaginários. mas também não podemos
questionar o papel do mer-
12. A tendência a substituir
cado editorial. As editoras,
o narrador onisciente em Três mestres do realismo mágico
como quaisquer outras em-
terceira pessoa por narradores latino-americano.
presas capitalistas, visam o
múltiplos ou ambíguos.
lucro e, para tanto, buscam Topo à esquerda: Mario Vargas
13. Um emprego maior de agregar autores e obras em Llosa.
elementos simbólicos.” seus catálogos que maximi- Topo à direita: Julio Cortázar.
zem tal lucro. Os primeiros Acima: Carlos Fuentes.
a identificar o fenômeno
Muitos destes elementos

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“Cem Anos de Solidão”, do co- Elena Poniatowska, António
lombiano Gabriel García Márquez Skármeta, Gustavo Sainz e
é considerado como o apogeu do Manuel Puig — em mui-
Boom. O autor recebeu o Nobel de
tos casos, com uma escrita
Literatura em 1982.
tipo exportação, visando o
acabaram coagidos a se in- público internacional, que
serir nas temáticas e formas já sabia o que esperar da
adotadas pelos autores do literatura latino-americana.
Boom, sob o risco de serem
Além destes, na contra-
rechaçados como párias.
mão do realismo mágico,
O próprio Cortázar aler- surgiu um grupo de es-
tou sobre os perigos de se critores, encabeçados por
considerar que todo escri- Alberto Fuguet, agregados
tor latino-americano seria, pelo movimento McOndo,
naturalmente, um grande uma corruptela do nome da
prosador, e que o sucesso cidade fictícia de Macondo,
entre os autores latinos de alguns e o orgulho não criada por García Márquez.
foram as casas editoriais deveriam ofuscar as possi-
Fuguet define McOndo
espanholas, mas, sem dúvi- bilidades criativas.
assim:
da, a entrada no mercado
Foi no rastro do Boom,
norte-americano foi funda-
ou em oposição a ele, que
mental para a propagação e “(...) Chegamos a pensar que
a geração literária seguinte
consolidação do Boom. a América Latina era uma
teve de encontrar sua iden-
Em 1970, os EUA e o tidade. invenção dos departamentos
mundo já haviam sido de espanhol das universidades
conquistados pela literatura norte-americanas. Saímos para
hispânica da América. No Pós-Boom e a geração conquistar McOndo, e só des-
entanto, considera-se que McOndo cobrimos Macondo. Estávamos
o final do Boom, e a con- em sérios problemas. As árvo-
sequente transição para a Este artigo não esta- res da selva não nos deixavam
geração pós-Boom, tenha ria completo se não nos ver a ponta dos arranha-céus.
ocorrido exatamente nesta detivéssemos, por alguns (...)
época, quando os abusos do instantes, para observar os O nome (marca-registrada?)
regime castrista em Cuba efeitos do Boom. Os au- McOndo é obviamente um
começaram a abalar a con- tores exponenciais, como chiste, uma sátira, uma brin-
fiança da intelectualidade Cortázar, García Márquez, cadeira. Nosso McOndo é tão
na experiência comunista Vargas Llosa e Carlos Fuen- latino-americano e mágico
na América. tes continuaram escrevendo, (exótico) quanto o Macondo
Contudo, sem dúvida, o e fazendo sucesso, mesmo real (que, no final das contas,
Boom significou a inserção após o término do Boom. não é real, mas sim virtual).
da literatura latino-ameri- E adotando várias das Nosso país McOndo é maior,
cana no cenário interna- técnicas e/ou características superpovoado e cheio de con-
cional, ao mesmo tempo da narrativa deles, alguns taminação, com rodovias, me-
que se projetou como uma outros autores consegui- trô, tv-a-cabo e subúrbios. Em
maldição para as gerações ram romper a barreira do McOndo, há McDonald’s, com-
vindouras de escritores da anonimato, entre eles Isabel putadores Mac e condomínios,
América Espanhola, que Allende, Laura Esquivel, além de hotéis cinco estrelas

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construídos com dinheiro ca, reforçando a imagem latino-americano foi muito
lavado e gigantescos shopping coletiva que já se formava, mais influente na Europa,
centers. Em nosso McOndo, desde sempre, do subconti- arrebanhando autores como
assim como em Macondo, tudo nente americano: florestas, Saramago, Italo Calvino e
pode acontecer, claro que, no selvagens, macacos e xama- Umberto Eco, do que no
nosso, quando a gente voa, é nismo. Brasil.
porque anda de avião ou está Entendo que, pelos li-
Talvez a crítica de
muito drogado. A América mites de um artigo como
McOndo seja drástica de-
Latina, e de algum modo, A este, que tentou abarcar um
mais, contudo, não deixa de
América Espanhola (Espanha e
ter sua pertinência. lapso temporal imenso (ao
todo o EUA latino) nos parece contrário do recomendável
tão realista mágico (surrealista, para trabalhos acadêmicos,
louco, contraditório, alucinante) do recorte, do estudo de
Conclusão
quanto o país imaginário onde caso), haja uma tendência
as pessoas levitam ou predi- a um certo reducionismo
O realismo mágico foi a
zem o futuro, e os homens e a algumas generalizações
via de acesso que o mun-
vivem eternamente. Aqui, os indesejáveis. Também é
do teve da América Latina.
ditadores morrem e os desapa- inevitável que muitos au-
Grandes autores se consa-
recidos não retornam. O clima tores importantes, tanto do
graram durante o período
muda, os rios desembocam, a pré e pós-Boom, quanto do
do Boom, e moldaram toda
terra treme e Dom Francisco próprio Boom, não tenham
uma percepção da litera-
sido mencionados, mas
coloniza nossos inconscientes. tura e da cultura latino-
isto é, em parte, uma falha
(...)” (McOndo, 1996) americana.
da minha própria leitura,
O Brasil teve pouca já que preferi me ater aos
Alberto Fuguet e seus importância neste processo. autores com os quais tive,
McOndianos se precipitam Alguns teóricos conside- pelo menos, algum tipo de
em direção à realidade, ram Guimarães Rosa como contato.
um dos autores do Boom,
renegando um passado que,
mas isto me parece um
para eles, era de ilusão,
equívoco. Apesar de alguns
alienação e de mitificação
elementos de realismo má- Para saber mais:
da América Latina como
gico na obra de Guimarães FUGUET, Alberto, Prólogo libro
uma terra mágica e exóti- Rosa, acredito que ele esteja McOndo - http://www.marcosy-
marcos.com/macondo.htm
intimamente vinculado ao
realismo social que predo- The Cambridge History
mina na Literatura Brasilei- of Latin America, vol. X
ra desde a década de 30 até - http://books.google.com/
books?id=3NiCQFfSGIkC
hoje.
Há poucos autores de Entrevista de Julio Cortázar
realismo mágico no Brasil, a Joaquin Soler Sorrano, 1977
- http://www.zyntag.com/tags/
e quase todos são de ver- video/Dgfr5k9dzfw/
tente borgeana, de índole
quase parasitária. O Boom SHAW, Donald L., The Post-
boom in Spanish American
Alberto Fuguet e a geração Fiction - http://books.google.
com/books?id=ZutRjqaSQlAC
McOndo: por uma América Latina
sem estereótipos, revelando as Latin American Boom (Wiki-
angústias e problemas urbanos. pédia) - http://en.wikipedia.org/
wiki/Latin_American_Boom

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Crônica

O Milagre do Sol
Joaquim Bispo

http://www.flickr.com/photos/pagedooley/3344239832/sizes/l/

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Nas nossas sociedades as cores do arco-íris… os ma cor. Tudo perto e longe
muito afastadas dos tempos nossos rostos ficavam ora tinha mudado, tomando a
bíblicos, sentimos, por vezes, vermelhos, ora azuis, ora cor de velho damasco ama-
a nostalgia de viver situações amarelos. (…) Ao fim de relo. As pessoas pareciam
como a de Abraão ver entrar dez minutos, o Sol retomou que sofriam de icterícia e
três anjos tenda adentro, ver o seu lugar, da mesma ma- lembro-me de uma sensação
Cristo dar de comer a cinco neira que dali tinha descido, de divertimento ao vê-los tão
mil pessoas com cinco pães sempre pálido e sem lumino- feios e repulsivos. A minha
e dois peixes ou assistir à sidade.» mão estava da mesma cor.
revelação do anjo Gabriel a Outra testemunha disse: Então, de repente, ouviu-
Maomé. Nos nossos tempos, «O Sol começou a bailar e a se um clamor, um grito de
não acontecem milagres – dada altura pareceu deslocar- agonia vindo de toda a gente.
todos aconteceram há muito se do firmamento e em rodas O sol, girando loucamente,
tempo e só tomamos co- de fogo, precipitar-se sobre parecia de repente soltar-se
nhecimento deles por fontes nós.» do firmamento e, vermelho
secundárias. A manifestação como o sangue, avançar
Outra, ainda: «coisa mais
do sobrenatural mais recente ameaçadoramente sobre a
espantosa era poder olhar
que conheço é a aparição da terra como se fosse para nos
para o disco solar por muito
Virgem aos pastorinhos em esmagar com o seu peso
tempo, brilhando com luz e
Fátima, Portugal. E só Lúcia enorme e abrasador. A sensa-
calor, sem ferir os olhos ou
garantiu que viu. Aconteceu, ção durante esses momentos
prejudicar a retina. [Durante
no entanto, um fenómeno foi verdadeiramente terrível.»
este tempo], o disco do sol
extraordinário relatado pelos
não se manteve imóvel, teve
jornais e assistido por muitas
um movimento vertiginoso, Como eu gostaria de lá ter
das cinquenta mil pessoas
não como a cintilação de estado, mas isso aconteceu
presentes: o milagre do sol,
uma estrela em todo o seu há quase cem anos. Conver-
na sequência da aparição de
brilho, pois girou sobre si sando sobre este assunto com
13 de Outubro de 1917.
mesmo num rodopio louco. uma tia devota, ela disse-me
Segundo uma testemunha
Durante este fenómeno que há pessoas que afirmam
que na altura tinha nove
solar, que acabo de descrever, presenciar um milagre do
anos, «eu olhava fixamente o
houve também mudanças de sol semelhante, durante a
astro; pareceu-me pálido e
cor na atmosfera. Olhando procissão de Santo António,
privado da sua deslumbrante
para o sol, notei que tudo a 13 de Junho, em Lisboa.
claridade; dir-se-ia um globo
se escurecia. Olhei primeiro Fiquei alvoroçado com a
de neve girando sobre si
para os objectos mais perto e possibilidade de assistir a um
mesmo. Depois, subitamente,
depois estendi a minha vista fenómeno tão prodigioso e,
pareceu descer em zigueza-
ao longo do campo até ao na data indicada (há uns dez
gue, ameaçando cair sobre
horizonte. Vi que tudo tinha anos), lá estava eu integrado
a Terra. (…) Durante os
assumido cor de ametista. Os na procissão, atento, quer à
longos minutos do fenómeno
objectos à minha volta, o céu ambiência celestial, quer à
solar, os objectos colocados
e a atmosfera, eram da mes- humana. Junho em Lisboa,
perto de nós reflectiam todas

www.revistasamizdat.com 91
às cinco da tarde é quente.
A procissão movia-se deva-
gar em frente da Sé. Então,
comecei a ouvir algumas
pessoas – uma aqui, outra ali
– a chamar a atenção para
o sol, a apontar, a dizer que
viam o sol a girar. Uns e ou-
tros olhavam, tentando ver o
fenómeno. O entusiasmo não
era grande. Olhei também, de
relance. O sol era uma bola
de fogo, como habitualmente,
perigoso para os olhos como
sempre. O «milagre do sol» de cionista:
Então, julguei compreen- 1917 tem aspectos difíceis «Não há conflito entre
der tudo. Eu estava farto de de enquadrar numa única ciência e sobrenatural. Se
assistir a milagres do sol, explicação. Há até quem fale houvesse fantasmas, fadas,
cada vez que jogava ténis em Ovnis. Eu, por mim, fico duendes, a ciência teria de os
quando, tendo que acompa- dividido. Por um lado, gosto investigar. O problema não é
nhar alguma bola alta, dava de cultivar uma atitude de da ciência, mas do Universo
com os olhos no sol: a minha abertura, conforme aprendi que nos calhou, que não veio
retina ficava maculada com do astrónomo francês do equipado de sobrenatural.»
uma mancha, onde o sol século XVIII, Laplace:
a queimara e, durante um «Estamos tão longe de
bocado, uma mancha com a Fontes:
conhecer todas as forças da
mesma forma e de uma cor Natureza e suas múltiplas Seomara da Veiga Ferreira,
arbitrária, sobrepunha-se a modalidades de acção, que As Aparições em Portugal
tudo o que eu olhava. Para seria pouco filosófico ne- dos Séculos XIV a XX, Reló-
mim, aquela gente estava a gar a existência de certos gio d’Água, 1985.
queimar a retina irrespon- fenómenos apenas porque http://pt.wikipedia.org/
savelmente, e foi isso que não podem ser explicados wiki/O_Milagre_do_Sol
disse a algumas pessoas, no estado actual dos nossos
http://www.fatima.org/
levemente receoso de que conhecimentos.»
port/essentials/facts/pmiracle.
me considerassem herege.
Por outro, irritam-me as asp
Ninguém ficou escandaliza-
explicações de base sobre-
do ou irritado, talvez só um
natural, que, até agora, só
pouco pesaroso de que o seu
nos fizeram perder tempo
desejo não se concretizasse.
precioso na compreensão do
Eu próprio fiquei um pouco
Universo. Gostei do que ouvi
desapontado, embora não
há dias a um cientista evolu-
esperasse outra coisa.

92 SAMIZDAT maio de 2009


92
Crônica

http://www.moviemachine.nl/images/movies/amelie_poulain015.jpg
Giselle Natsu Sato

O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN


- Jean Pierre Jeunet
Le Fabuleux Destin d'Amelie A vida crua ficou lá trás, Montmartre onde começa
Poulain - Jean-Pierre Jeunet esquecida em uma esqui- a trabalhar como garçone-
Tudo em Amélie é perfei- na qualquer. Hoje é dia de te. Certo dia, encontra no
ta sincronia. Aceitando o que Amélie. O importante, não banheiro de seu apartamento
a vida oferece, sem maiores é contar uma história coe- uma caixinha com brinque-
preocupações: viver é o de- rente, o objetivo é despertar... dos e figurinhas pertencentes
safio diário. O resto é conse­ Cenários lindos de Paris, o ao antigo morador do apar-
qüência. Descobrindo segre- encando das botinas velhas e tamento. Decide procurá-lo
dos e devolvendo esperança pesadas de Amélie. Como se e entregar o pertence ao seu
em gotas de lembranças. o calçado, fosse o único fio dono. Ao notar que ele chora
Caixinha de surpresas, pe- que prendesse a personagem de alegria ao reaver o seu
dacinhos de vida recortados. à terra. Ele está lá, para que objeto, a moça fica impres-
Olhar inesperado, surpreso e ela não flutue, qual balão sionada e remodela sua visão
inocente. Resguardando so- colorido... do mundo.
nhos de menina e brincando O filme inspira o melhor A partir de então, Amélie
de ser mulher. Amélie traz da fantasia, o doce mais gos- se engaja na realização de
descobertas, romance, jeito toso, beijos e abraços perdi- pequenos gestos a fim de
frágil e atitudes expressivas. dos. Nostalgia. Finais felizes e ajudar e tornar mais felizes
O que existe neste filme sons que despertam a mágica as pessoas ao seu redor. Ela
tão sutil e inexato? Talvez de estar viva. O filme perfei- ganha aí um novo sentido
a personagem seja a brisa to para qualquer estado de para sua existência. Em uma
fresca que esperamos a vida humor. O dom de ser agra- destas pequenas grandes
inteira. O sopro que nunca dável na medida certa. Como ações ela encontra um ho-
chega; sempre adiado e no fi- um café, no bistrô da rua mem por quem se apaixona
nal permanece desconhecido. pequena, cheiro de canela, à primeira vista. E então seu
Vontade de sair passeando açucar e infância. destino muda para sempre...
pelas cidades, ruas e aveni-
das. De amar e ser amada. A Sinopse:
canção que toca o coração é
som de chuva, ninho de pas- Amélie sai do subúrbio
sarinhos, flores e carinho. para o bairro parisiense de

www.revistasamizdat.com 93
Crônica

A Visita do Saci
Henry Alfred Bugalho

http://www.flickr.com/photos/jmarconi/1164617430/sizes/o/

94 SAMIZDAT maio de 2009


94
Sempre que ocorria de Maurício de Souza, dia ou dois, íamos tam-
alguma discussão em é um mito tradicional bém para o sítio dela,
casa por causa de co- do folclore brasileiro: o onde preparávamos um
mida - quem comeria a negrinho perneta, gorro churrasco e podíamos
última bolacha do pa- vermelho e cachimbo pescar.
cote, ou a última fatia na boca. Dizem as len-
As crianças - eu, mi-
de pizza, ou o bife que das que ele adora rou-
nha irmã, primos e pri-
havia sobrado -, minha bar pertences das pes-
mas - ficávamos todas
mãe ressuscitava uma soas e que faz tranças
acomodadas num dos
história de sua infân- nas crinas de cavalo; é
quartos da velha casa
cia. um menino travesso.
de madeira e dormía-
Contava ela que, Assim, toda a vez que mos em beliches. Logo
quando criança, du- sumia alguma coisa em ao chegarmos lá, al-
rante um jantar, houve casa, eu e minha irmã guém comentou, ao ver
uma briga entre ela imediatamente repe- a tinta descascada na
e as irmãs por causa tíamos a sabedoria de porta do nosso quarto:
duma coxa de frango. vovó:
— Olha, parece a
Minha avó interveio,
— Foi o Saci. figura do Saci.
mas nenhum consenso
foi possível. No entanto, Não se tratava de E realmente parecia
depois de muito arran- acreditar ou não na muito mesmo: da cin-
ca-rabo, minha mãe e existência dele, mas tura para cima, havia
as irmãs descobriram sim porque era algo uma silhueta na tinta
que a coxa de frango que fazia parte de nossa descascada que mostra-
havia desaparecido. criação e que era um va o quadril, os braci-
tanto engraçado, mas nhos, a cabeça, o capuz
— Foi o Saci — sen-
isto até a viagem que e até o cachimbo. Era o
tenciou minha vó — o
fizemos para o sítio de Saci, só que sem perna
Saci viu a briga e veio
vovó. (onde a tinta não havia
pra instaurar a desor-
descascado ainda).
dem. Viajar para o interior
não era o meu progra- Ninguém deu muita
Quem não conhece
ma favorito, mas era a importânci ao fato, no
a figura do Saci não
obrigação de todo Na- entanto, à noite, após
deve ter tido infância.
tal e Ano-Novo. Du- todos terem ido dormir,
Personagem presente
rante a maior parte do ouvimos um sussurro
nas obras de Montei-
tempo, permanecíamos no nosso quarto das
ro Lobato, na série de
na casa da minha avó crianças; era minha
TV “Sítio do Pica-Pau
na cidade, mas, por um prima nos chamando:
Amarelo” e até em gibis

www.revistasamizdat.com 95
— Gente, olha lá pra Especularam que havia
porta! sido vovó quem havia
saído, à noite, para ir
E, como era de se
ao banheiro (que era
esperar, havia a silhue-
no quintal), mas ela
ta descascada do Saci,
jurou de pés juntos que
contudo, havia dois
não tinha acordado de
novos elementos: agora
madrugada. Portanto,
ele tinha a perna única
indubitavelmente, era o
e, aparentemente, saía
Saci quem havia entra-
fumacinha do cachim-
do.
bo dele.

Todos ficamos apa-


vorados, afônicos, tre- Pareidolia é um ter-
mendo embaixo dos mo usado para definir
lençóis. este tipo de fenômeno
psicológico, quando a
De quando em quan-
mente interpreta cer-
do, alguém, que estava
tos dados como sendo
de olhos fechados, per-
significativos e os rela-
guntava:
cionam a outros.
— Ele ainda está lá?
Pode até ser isto que
Então um de nós era ocorreu naquela noite,
obrigado a enfrentar o mas como nos conven-
medo e constatar que cer que não havíamos
o Saci ainda estava lá, visto, de fato, o Saci, ou
fitando-nos, fumando que não era obra dele
seu cachimbo. o sumiço da coxa de
frango de minha mãe?
Na manhã seguinte,
este foi o assunto em Isto porque a expli-
casa, todos pondo a cação mais plausível
mão no fogo ao afir- nem sempre é a melhor
marem que tinham explicação.
realmente visto o Saci
durante a noite. Para
reforçar nossa certeza,
a porta de casa havia
sido encontrada aberta.

96 SAMIZDAT maio de 2009


96
Poesia

Laboratório Poético:

um ser indefinido
Volmar Camargo Junior

Incógnita
um diabinho empoeirado se esgueirava

http://www.flickr.com/photos/paperpariah/2417142640/sizes/o/
entre as pernas das cadeiras
debaixo das camas, à hora do banho

encurralou-se num canto da casa


com esses dois dedos
sem querer, esmaguei-o

morreu, uma pena, sem nenhum esforço

morreu, desgraçado, sem dizer a que veio

Fera (Vermelho-gente)
tinge-te, fera, de vermelho-gente
quente troféu vivo de tua caça
dure a tua raça, fera, eternamente

rola e delicia-te, fera, sente


gente parda, preta ou pálida
retalhada, é rubra inteiramente

caça, persegue, retalha, devora

sê por dentro e por fora, inteira, vermelho-gente

www.revistasamizdat.com 97
Poesia

Poemação
Caio Rudá

http://simonerossi.files.wordpress.com/2009/03/mela-magritte-21.jpg
I.
O poema é uma maçã
que despenca da árvore,
ao sopro do vento, e
chega, seu único propósito,
ao chão.

II.
Me admira o homem
com sua astúcia
fazer da maçã
objeto não de único objetivo.

A maçã é, pois, um subjeto


que alimenta
que ornamenta
ou que apenas apodrece no
chão.

98 SAMIZDAT maio de 2009


98
Poesia

Haikais Guilherme Augusto Rodrigues

Ah! E no outono
abre uma tímida rosa http://www.flickr.com/photos/rheinland1977/458847518/sizes/l/

revela-se a vida.

Uma mulher pulcra


vem e sonolenta, deita-se
à noite sepulcra...

www.revistasamizdat.com 99
Poesia

Sementementalismo
Dênis Moura

Escrevi este soneto para um amor


Que me causou tanto sonho quanto dor...

Observo a noite de teus olhos vida


E o dia de teu constante sorriso;
O Sol canela de teu corpo liso
Aquecendo o meu, esta terra árida.

Tuas palavras como chuva cálida


E o teu ser com quem familiarizo
A substância do sentir faz vívida
A semente que em nós materializo.

http://www.flickr.com/photos/10202475@N02/2439540698/sizes/o/
E o Sol aquece e a chuva lhe modera;
E entre o dia e a noite se pondera
Em juntos vivermos unicamente.

Que vivamos tal tão eternamente


Como o dia, a noite, o Sol e quem dera
A chuva, o ar e a vida da semente.

100 SAMIZDAT maio de 2009


100
SOBRE OS AUTORES DA

SAMIZDAT
Edição, diagramação e capa

Henry Alfred Bugalho


Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em
Estética. Especialista em Literatura e História. Autor
de quatro romances e de duas coletâneas de contos.
Editor da Revista SAMIZDAT e um dos fundadores
da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia
Nova York para Mãos-de-Vaca”. Mora, atualmente, em
Nova York, com sua esposa Denise e Bia, sua cachor-
rinha.
henrybugalho@gmail.com
www.maosdevaca.com

Revisão

Joaquim Bispo
Ex-técnico de televisão, xadrezista e pintor amador,
licenciado recente em História da Arte, experimenta
agora o prazer da escrita, em Lisboa.

episcopum@hotmail.com

www.revistasamizdat.com 101
Assessoria de imprensa

Mariana Valle
Por um amor não correspondido, a carioca de
Copacabana começou a poetar aos 12 anos. Veio o
beijo e o príncipe virou sapo. Mas a poesia virou sua
amante. Fez oficina literária e deu pra encharcar o
papel com erotismo. E também com seu choro. Em
reação à hipocrisia e ao machismo da sociedade.
Atuou como jornalista em várias empresas, mas foi
na TV Globo onde aprimorou as técnicas de reda-
ção e ficção. E hoje as usa para contar suas próprias
histórias. Algumas publicadas em seu primeiro livro
e outras divulgadas nos links listados em seu blog
pessoal: www.marianavalle.com

Coordenação de Entrevista

Volmar Camargo Junior


Inconformado com a própria inaptidão para di-
zer algo sem ser através de subterfúgios, abdicou de
parte de suas horas diárias de sono, tentando domar
a sintaxe e adestrar a semântica. Depois de perambu-
lar pelo Rio Grande do Sul, acampou-se na brumosa,
fria, úmida, às vezes assustadora – mas cercada por
um cenário natural de extrema beleza – Canela, na
Serra Gaúcha. Amargo e frio, cálido e doce, descen-
dente de judeus poloneses, ciganos uruguaios, indí-
genas missioneiros, pêlos-duros do Planalto Médio,
é brasileiro, gaúcho, e, quando ninguém está vendo,
torcedor do Grêmio Futebol Porto-alegrense. Autor
dos blogs “Um resto de café frio” e “Bah!”.
v.camargo.junior@gmail.com
http://recantodasletras.uol.com.br/autores/vcj

102 SAMIZDAT
102 SAMIZDATmaio
maiode
de2009
2009
102
Colaboração

http://www.photoshoptalent.com/images/contests/spider%20web/fullsize/sourceimage.jpg
Caio Rudá
Bahiano do interior, hoje mora na capital. Estuda
Psicologia na Universidade Federal da Bahia e espera
um dia entender o ser humano. Enquanto isso não
acontece, vai escrevendo a vida, decodificando o enig-
ma da existência. Não tem livro publicado, prêmio,
reconhecimento e sequer duas décadas de vida. Mas
como consolo, um potencial asseverado pela mãe.

Barbara Duffles
Jornalista, escritora e roteirista, é autora do livro
“Não Abra” e do blog “Não Clique”. Apesar das nega-
tivas, esta carioca quer, sim, ser lida - como todo es-
critor. Tem dias de conto, de crônica e de pílulas sem
sentido. Suas paixões: cinema e livros com cheiro de
novo - se bem que adora se perder nos sebos da vida.

Carlos Barros
Paulistano, filho de nordestinos, desenhista desde
sempre, artista plástico formado, escritor. Começou
sua vida profissional como educador e, desde então,
já deixou seu rastro por ONG’s, Escolas e Centros
Culturais, através de trabalhos artísticos e pedagó-
gicos – experiências que têm forte influência sobre
seus escritos. Atualmente, organiza oficinas de ilus-
tração para crianças, estuda pós-graduação em Histó-
ria da Arte e escreve para publicações na internet.
carloseducador@hotmail.com
http://desnome.blogspot.com

www.revistasamizdat.com 103
Dênis Moura
Paulistano de pia, cearence de mar e poeta de
amar. Viaja tanto o céu estrelado quanto o ciberes-
paço, mais com bits de imaginação que com telescó-
pios. Pensa que tudo se recria a cada Big Bang, seja
ele micro, macro ou social. Luta pela justiça, a paz e
a igualdade, com um giz na mão e uma pistola na
outra. É Tecnólogo a sonhar com Telemática social,
com a democracia participativa eletrônica, onde o
povo eleja menos e decida mais. Publica estes dias
sua primeira obra, um Romance de Ficção Científi-
ca, e deixa engavetadas suas apunhaladas poesias. É
feito de bits, links e teia pra que não desmaterialize,
o clique, o blogue e o leia!

Giselle Sato
Autora de Meninas Malvadas, A Pequena Baila-
rina e Contos de Terror Selecionados. Se autodefine
apenas como uma contadora de histórias carioca.
Estudou Belas Artes, Psicologia e foi comissária de
bordo. Gosta de retratar a realidade, dedicando-se
a textos fortes que chegam a chocar pelos detalhes,
funcionando como um eficiente panorama da socie-
dade em que vivemos.

Guilherme Rodrigues
Estudante de Letras na Universidade do Sagrado
Coração, em Bauru, onde sempre morou. Nutre gran-
de paixão por Línguas, Literatura e Lingüística, áreas
a que se dedica cada vez mais.

José Espírito Santo


Informático com licenciatura e pós graduação na
Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa,
trabalha há largos anos em formação e consultoria,
sendo especialista em Bases de Dados, Sistemas de
Gestão Transaccional e Middleware de “Messaging”.
A paixão pela escrita surgiu recentemente, tendo no
ano de 2007 produzido os livros “Esboços” (contos) e
“Onde termina esta praia” (poesia). Vive com a fa-
mília em Alverca, uma pequena cidade um pouco a
104 SAMIZDAT
104 SAMIZDATmaio
maiode
de2009
2009
104 norte de Lisboa, Portugal.
Léo Borges
Nasceu em setembro de 1974, é carioca, servidor

http://www.photoshoptalent.com/images/contests/spider%20web/fullsize/sourceimage.jpg
público e amante da literatura. Formado em Comu-
nicação Social pela FACHA - Faculdades Integradas
Hélio Alonso, participou da antologia de crônicas
“Retratos Urbanos” em 2008 pela Editora Andross.

Maristela Deves
Gaúcha nascida na pequena cidade de Pirapó, co-
meçou a sonhar em ser escritora tão logo aprendeu a
ler. Escreve principalmente contos nos gêneros misté-
rio, suspense e terror, além de crônicas.

Maria de Fátima Santos


Nasceu em Lagos, Algarve, mas tem Angola, onde
viveu a adolescência, como a sua mãe-terra. Licen-
ciada em Física tem sido professora de Física e Quí-
mica. Com poemas em vários livros, em co-autoria,
é às pequenas histórias, que lhe voam no teclado,
que chama “meus contos”. O blog Repensando (www.
intervalos.blogspot.com ) tem sido seu parceiro e
motivador na escrita dos últimos anos. Escreve pelo
gosto de deixar que as palavras vão fazendo vida.
Escreve pelo gozo.

Pedro Faria
Estuda Matemática na Universidade Estadual do
Rio de Janeiro, músico amador e escritor quando dá
na telha. Nascido e criado no Rio.

www.revistasamizdat.com 105
Também nesta edição, textos de

Barbara Duffles José Espírito Santo

Caio Rudá Léo Borges

Carlos Alberto Barros Maria de Fátima Santos

Dênis Moura Mariana Valle


http://www.flickr.com/photos/elizacole/335268220/sizes/o/

Giselle Natsu Sato Maristela Scheuer Deves

Guilherme Rodrigues Pedro Faria

Henry Alfred Bugalho Volmar Camargo Junior

Joaquim Bispo
106 SAMIZDAT maio de 2009
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