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ESBOÇO DE UMA

,

DOGMATICA

KARLBARTH

2006

Capa:

Tradução:

Eduardo de Proença

Paulo Zacarias

Revisão:

Diagramação:

A lceu Lourenço

Z-PwblisJl!lJ

ISBN: 85-86671-69-X

Título Original: Esquisse d' Une Dogmatique - 1946

Proibida a reprodução total ou parcial desta obra, de qualquer forma ou meio eletrônico e mecânico, inclusive através de processos xerográficos, sem permissão expressa da editora. (Lei nO 9.610 de 19.02.1998)

expressa da editora. (Lei nO 9.610 de 19.02.1998) Todos os direitos reservados à FONTE EDITORIAL LTOA.

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Sumário

I. Introdução: A Tarefa da Dogmática

7

II. Crer ÉTer Confiança

 

15

III. Crer Significa Conhecer

25

IV. Crer

É Confessar a

Sua Fé

33

V. Deus Nos Lugares Altíssimo5

43

VI. Deus, O Pai

 

53

VII. O Deus Todo-Poderoso

59

VIII. O Deus

Criador

65

IX. O Céu e a Terra

 

79

X. Jesus Cristo

89

XI. O Salvador e o Servo de Deus

101

XII. O Filho Único de Deus

 

115

XIII. Nosso Senhor

123

XIV. O Mistério e o Milagre do NataL

133

XV. Sofreu

143

XVI. Sob Pôncio Pilatos

 

153

XVII. Foi Crucificado, Morto e Sepultado, Desceu ao Inferno

161

XVIII. Ao Terceiro Dia Ressurgiu dos Mortos

171

XIX. Ascendeu aos Céus, e Está Assentado

À Direita de Deus Pai Todo-Poderoso

177

XXI.

Creio no Espírito Santo

197

XXII. A Igreja, Sua Unidade, Santidade e Universalidade

203

XXIII. O Perdão dos Pecados

215

XXIV. A Ressurreição do Corpo e a Vida Eterna

221

Introdução:

A Tarefa da Dogmática

A dogmática é a ciência pela qual a Igreja, no nível dos co- nhecimentos que possui, justifica para si mesma o conteúdo de sua pregação.

Trata-se de uma disciplina crítica, quer dizer, ins- taurada segundo a norma da Sagrada Escritura e segundo os fundamentos das Confissões de Fé. A dogmática é uma ciência. Em todas as épocas, tem se refletido, falado e escrito interminavelmente sobre aquilo que se deve entender por ciência e não podemos abordar esse problema contentando-nos com uma sim- ples alusão. Darei uma definição de ciência que certa- mente é discutível, mas que pode servir de ponto de partida para nossa exposição. Entendemos por ciência um ensaio de compreensão e de representação, uma busca e um ensinamento relacionados a um objeto e a uma atividade determinados. Nenhum esforço desse gê- nero pode ter a pretensão de ser algo mais do que uma tentativa e, ao dizermos isso acerca da própria ciência, não fazemos nada mais que sublinhar sua dupla natureza:

ela é provisória e limitada. Nos centros onde a ciência é, de maneira precisa, encarada com a maior seriedade, não se cria nenhuma ilusão acerca do que o homem pode fa- zer: ele não está envolvido em um projeto em que se com-

8 - Esboço de lImJ Dogm;íricJ

binam a mais alta sabedoria e a mais refinada arte, pois a ciência caída do céu, a ciência absoluta, não existe. A dogmática cristã é, também ela, um ensaio, uma tentativa de compreensão e de representação; uma tenta- tiva de ver, entender e fixar determinados fatos para reuni-los e organizá-los sob a forma de ensinamento. Em cada ciência encontram-se associados o estudo do objeto e sua aplicação a um campo de atividade, pois, nenhuma ciência se reduz à teoria pura ou somente à prá- tica; a teoria está sempre acompanhada da prática que dela se origina. Também a dogmática se oferece a nós em seu duplo movimento: ela é pesquisa e ensinamento, liga- dos a um objeto e a uma atividade. O sujeito da dogmática é a Igreja cristã. O sujeito de uma ciência não pode ser outro senão aquele que man- tém, com o objeto e a atividade considerados, relações de presença e de familiaridade. Não é, portanto, uma redu- ção lamentavelmente limitativa que impomos à dogmá- tica enquanto ciência quando afirmamos: o sujeito de tal ciência é a Igreja. A Igreja é o lugar, a comunidade à qual são confiados o objeto e a atividade próprios da dogmá- tica, isto é, a pregação do Evangelho. Quando dizemos que a Igreja é o sujeito da dogmática, entendemos que desde o instante em que alguém se ocupe de dogmática, seja para aprendê-la, seja para ensiná-la, esse alguém se encontra dentro do ambiente da Igreja. Aquele que queira fazer dogmática, colocando-se conscientemente fora da Igreja, deve esperar que o objeto da dogmática lhe perma- neça estranho, e de maneira nenhuma se surpreender ao ficar perdido logo nos primeiros passos, ou ao parecer um destruidor. Em dogmática, como em outros assuntos, deve exis- tir familiaridade entre o sujeito da ciência e o objeto que ele estuda, e esse conhecimento íntimo tem aqui por ob- jeto a vida da Igreja. Isso não significa que a dogmática

A Tarefa da Dogmática - 9

possa se contentar em retomar e relacionar elementos de- finidos pela autoridade eclesiástica em tempos antigos ou recentes, de sorte que não teríamos que fazer nada mais que repetir suas prescrições. A própria dogmática católica considera sua tarefa diferentemente. Ao dizer que a Igreja é o sujeito da dogmática, insis- timos em apenas uma exigência: aquele que se ocupe dessa ciência, seja como mestre, seja como discípulo, deve aceitar a responsabilidade de se situar no plano da Igreja cristã e da obra que ela desenvolve; é uma condição sine qua nono Mas que não haja mal-entendidos: trata-se de uma livre participação na obra da Igreja, de uma res- ponsabilidade, assumida pelo cristão nesse domínio par- ticular.

A ciência dogmática é um meio pelo qual a Igreja

justifica para si mesma o conteúdo de sua pregação, no

nível dos conhecimentos que ela possui.

Depois do que acabamos de dizer acerca da ciência, poder-se-ia objetar que ela vai por si mesma. Mas algu- mas concepções relativas à dogmática me obrigam a repe- tir que, de forma alguma, ela é uma ciência caída do céu

sobre a terra. Seria completamente maravilhoso, dir-se-á,

se existisse semelhante dogmática, caída do céu, absoluta.

A isso não se pode responder outra coisa senão: sim, se

fôssemos anjos! Mas, por vontade de Deus, nós não somos anjos e assim é bom que disponhamos de uma dogmática hu- mana e terrestre. A Igreja cristã não está no céu, mas na terra e no tempo; ainda que seja um dom de Deus, ela é um dom inserido nas realidades humanas e terrestres e o que se passa dentro da Igreja corresponde a essas realida- des.

A Igreja cristã vive na terra e na história, guardiã do

bom depósito (2Tm 1.14), que Deus lhe confiou. Gerenci- adora desse bem precioso, ela segue seu caminho através

10 - Esboço de uma Dogmárica

da história, na força e na fraqueza, na fidelidade e infide- lidade, na inteligência ou incompreensão do que lhe é re- velado.

A história desse munc:o se estabelece e se desenrola em histórias relativas à natureza e à cultura, aos hábitos e às religiões, às artes e às ciências, às sociedades e aos Esta- dos. Dentro dessa rede, a Igreja tem também sua história, uma história humana e terrestre, e essa é a razão pela qual não se pode contestar inteiramente o que Goethe disse a seu respeito: ela foi de época em época uma confusão de erros e de violências. Se formos sinceros, nós cristãos, de- vemos concordar que a história da Igreja não tem cami- nhado diferentemente da história do mundo. E dessa maneira nos é dada a oportunidade de falar modesta e humildemente da Igreja e da obra eclesiástica que desen- volvemos aqui sob a forma de dogmática.

A dogmática não pode cumprir seu papel se não permanecer ligada às atuais circunstâncias da Igreja. A Igreja está consciente de seus limites, já que ela se sabe responsável pelo depósito que deve administrar e conser- var, e que é devedora em relação ao único bom Deus que lhe confiou esse bem. Ela nunca será capaz de realizá-la perfeitamente; ao contrário, a dogmática cristã permane- cerá sempre como um conjunto de reflexões, de pesquisas e de descrições relativas, passíveis de erros. Ela tenderá a um saber melhor; outros virão depois de nós, e aquele que é fiel no seu trabalho espera que esses pensem e di- gam melhor aquilo que nós tentamos pensar e dizer. Hoje, devemos fazer nosso trabalho com modéstia e tran- qüilidade, pondo em jogo os conhecimentos de que dis- pomos. Não será exigido de nós mais do que recebemos. Semelhantes ao servo fiel no pouco (Mt 25.23), não nos lamentamos a respeito deste pouco. Não nos é exigido nada além da nossa fidelidade.

A T atera da Dogmática - 11

A dogmática como ciência é chamada para justificar o conteúdo da pregação da Igreja cristã. Não haveria ne- nhuma dogmática, se a tarefa primordial da Igreja não fosse a de anunciar o Evangelho, de dar testemunho da Palavra pronunciada por Deus. Esse dever sempre ur- gente, esse problema colocado para a Igreja desde as ori- gens - o problema do ensinamento, da doutrina, do testemunho, da pregação - permanece como a questão, não para o teólogo ou para o pastor apenas, mas para a Igreja toda: o que realmente temos a dizer nós, os cris- tãos?

Pois a Igreja, sem dúvida nenhuma, deve ser um lu- gar onde ressoa uma palavra que se dirige ao mundo. As- sim, uma vez que a missão da Igreja é anunciar a Palavra revelada por Deus, missão que é, ao mesmo tempo, uma obra humana, desde o começo surge a necessidade de constituir-se uma teologia, ou isso que denominamos, desde o século XVII, de dogmática.

Existe em teologia um problema de fontes (de onde vem a palavra?) e é a disciplina chamada exegese que está encarregada de fornecer a resposta. Por outro lado, é pre- ciso satisfazer-se à questão como: estudar a forma e a con- dução da pregação confiada à Igreja; estamos agora no terreno da teologia prática. Entre as duas, existe a dogmá- tica ou teologia sistemática. A dogmática não pergunta a respeito de onde vem a mensagem cristã, nem como se concretiza, mas apresenta uma questão: o que temos para meditar e para pensar?

Essa questão surgiu, fique bem entendido, tão logo as Escrituras nos ensinaram onde está a fonte, e ela vem acompanhada pela preocupação permanente de não ficar nas declarações teóricas, mas de fazer ressoar concreta- mente essa mensagem no mundo. Falando precisamente a partir da dogmática, deve ficar claro que a teologia não é, por um lado, um mero historicismo, mas uma História

12 - Esboço de lima Dogmática

válida, que penetra a realidade presente, aqui e agora. Por outro lado, a pregação não se deve degenerar em mera técnica.

De fato, em nossos dias, a questão de qual deve ser o conteúdo da mensagem cristã é mais premente do que nunca antes. Todavia, deve-se sublinhar bem que esse problema não pode ser resolvido por um recurso exclu- sivo da exegese ou da teologia prática. É necessário que haja uma dogmática. Quanto à história da Igreja, que se poderia cometer o erro de desprezar, eu devo acrescentar que sua função é enciclopédica: ela tem a honra de ser constantemente requisitada e ocupa um posto legítimo dentro do ensinamento cristão.

A dogmática é uma disciplina crítica. Não se trata, pois, como se acreditou numa ou noutra época, de se prender a quaisquer fórmulas teológicas, antigas ou no- vas, e de se crer que tudo está feito. Pois, se existe uma disciplina crítica que se deva remeter sem cessar ao pro- pósito de sua obra, essa é justamente a dogmática, exteri- ormente determinada pelo fato de que a pregação da Igreja está sempre ameaçada por erros. A dogmática é a verificação da doutrina e da pregação da Igreja; longe de constituir um exame arbitrário, fundado sobre um crité- rio escolhido livremente, é à Igreja que ela vai perguntar sob qual ponto de vist-a normativo ela deverá se colocar. Praticamente, é pela escala da Sagrada Escritura, Antigo e Novo Testamentos, que a dogmática avalia a pregação da Igreja. A Sagrada Escritura é o documento de base que tange ao mais íntimo da vida da Igreja, o documento da Epifania da Palavra de Deus na pessoa de Jesus Cristo. Fora desse documento, nós não temos nada e, onde a Igreja está viva, ela deve sempre de novo se deixar julgar a si própria segundo esse critério. Não se pode tratar de dogmática sem que esse critério permaneça presente e deve-se, sem cessar, voltar à questão do testemunho. Não

A Tarefa da Dogmática - 13

aquele do meu espírito e do meu coração, mas aquele dos apóstolos e dos profetas enquanto testemunho do próprio Deus. Uma dogmática que abandonasse esse critério não seria uma dogmática objetiva. Nós indicamos na tese que abre o capítulo: segundo os fundamentos de suas Confissões de Fé. A Sagrada Escri- tura e as Confissões de fé não estão em um plano idên- tico. Reservamos à Bíblia uma estima e um amor que não temos, no mesmo grau, pela tradição, nem mesmo pelos mais valiosos de seus elementos. Nenhuma Confissão de Fé datando da Reforma ou da época atual pode, da mesma maneira que as Escrituras, elevar-se à pretensão de solicitar o respeito da Igreja. Mas isso não retira nada do fato de que a Igreja es- cuta e aprecia o testemunho de seus Pais. Então, mesmo que nós não encontremos nele a Palavra de Deus como em Jeremias ou em Paulo, ele tem para nós um signifi- cado elevado. Obedecendo ao mandamento "honra teu pai e tua mãe", nós não nos recusaremos a respeitar, seja na pregação, seja na elaboração científica da dogmática, as afirmações de nossos Pais. Diferentemente das Escritu- ras, as Confissões não têm autoridade que obrigue, mas devemos, todavia, levá-las seriamente em consideração e lhes atribuir uma autoridade relativa. Munida desse critério, a dogmática se lança de ma- neira crítica à sua tarefa que é justificar o conteúdo da pregação cristã e da ligação subsistente entre a mensagem que a Igreja deveria publicar e aquela que ela transmite de fato. O dogma é para nós a reprodução, a restituição, pela Igreja, da Palavra de Deus que lhe foi anunciada. A Igreja deve se interrogar incessantemente acerca do grau de correlação, de correspondência, entre o dogma e a mensagem que ela proclama. O objetivo é, pois, muito simples: trata-se de sempre elaborar melhor a pregação da Igreja. O aperfeiçoamento, a precisão, o

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14 - Esboço de llma Dogm;Ítica

aprofundamento do que é ensinado na nossa Igreja, são obras próprias de Deus, mas que requerem um esforço do homem. Uma parte desse esforço é representada pela dogmática.

Falaremos de dogmática de uma forma elementar, obrigados que somos, no curso deste breve semestre de verão, a nos contentar com um esboço. Desse modo, to- maremos como fio condutor um texto clássico, o Símbolo dos Apóstolos. 1

Não existe método obrigatório que seja imposto de antemão à dogmática cristã. Cada um é livre, no mo- mento em que vai abordar esses assuntos, para escolher segundo seu saber e sua consciência o encaminhamento que lhe parecer bom. É verdade que no decorrer dos sé- culos foi engendrado um procedimento que se tornaria, de algum modo, usual; ele consiste em retomar em gran- des linhas o plano do pensamento cristão: Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Isso deu lugar a desenvolvimentos extre- mamente variados que não cessam de se entrecruzar.

Aqui, ainda, nós temos a escolha. Indo pelo mais simples, nos deteremos na Confissão de fé que todos vo- cês conhecem, que é repetida no culto todo domingo. Deixaremos de lado os problemas históricos. Vocês sa- bem que o termo apostólico deve ser posto entre aspas:

esse texto não foi redigido pelos apóstolos; no seu teor atual, ele remonta ao século III e tem sua origem em uma fórmula conhecida e reconhecida pela comunidade de Roma. Em seguida, foi divulgado dentro da Igreja, que o tomou por uma declaração fundamental. Portanto, não é sem razão que nós o consideramos um clássico.

Crer ÉTer Confiança

A Confissão começa por essas duas palavras carre- gadas de significação: "eu creio': Tudo o que nós teríamos a dizer para justificar a tarefa que nos aguarda é coman- dado por esse preâmbulo. Começaremos por três teses, que se aplicam à essência da fé.

A fé cristã é o dom do encontro que torna os homens livres para escutar a Palavra da graça, pronun- ciada por Deus em Jesus Cristo, de maneira tal que eles se atêm às promessas e aos mandamentos dessa Palavra, apesar de tudo, de uma vez por todas, exclusiva e totalmente.

Vimos que a fé cristã, a mensagem da Igreja, consti- tui o fundamento e o objeto da dogmática. Mas de que se trata? Daquilo em que crêem os cristãos e da maneira como eles crêem. Na prática, não se pode separar a forma subjetiva da fé, fides qua creditur, da pregação, pois essa pregação implica necessariamente na presença de ho- mens que escutaram e receberam o Evangelho; homens que, juntos, foram evangelizados. Mas o fato de acreditar- mos pode ser desde logo considerado como secundário

16 - Esboço de uma Dogmática

em relação ao que existe de maior e de autêntico na pre- gação, ao que crê o cristão, isto é, o conteúdo de sua fé; e ao que devemos anunciar, isto é, o objeto da Confissão de Fé: creio em Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

A linguagem popular denomina a Confissão de Fé de "Credo" e essa expressão deve ao menos nos fazer compreender o que nós acreditamos. Dentro da fé cristã trata-se, de uma maneira decisiva, de um encontro.

" diz a Confissão. Tudo depende desse

desse objeto de fé onde vive nossa fé subjetiva. É

Creio "em

",

"em

notável que, à parte desta introdução "creio

não diz nada do aspecto subjetivo da fé. Não foi bom quando os cristãos inverteram esta relação, falando muito

sobre suas ações e sobre a emoção de experimentar aquilo que ocorre no interior do homem, enquanto permane- ciam mudos sobre o que devemos crer.

Ao silenciar sobre o lado subjetivo da fé para falar de seu aspecto objetivo, o Credo se concentra naquilo que para nós é essencial, no que devemos ser, fazer e viver. Aqui igualmente é válida a palavra: "aquele que quiser salvar sua vida, perdê-Ia-á, mas aquele que tiver perdido a sua vida por minha causa, salva-Ia-á" (Mt 16.25). Aquele que quiser salvar e conservar a subjetividade perdê-Ia-á, mas aquele que a abandonar pela preocupação com a ob- jetividade, reencontra-Ia-á. Eu creio: efetivamente é mi- nha experiência, uma experiência humana e um fato, uma forma de nossa existência de homens.

Mas esse "creio" se realiza em um encontro com al- guém que não é um ser humano, mas Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. E no instante em que creio eu me sinto completamente preenchido e tomado pelo objeto de mi- nha fé; o que me interessa não é mais "eu com minha fé", mas aquele em que eu creio. Quando eu penso nele e olho

",

o Credo

Crer É Tcr Confiança - 17

para ele, então sinto que tudo vai melhor para mim.

"Creio em

Nós, os homens, em nosso esplendor e nossa miséria, não

estamos mais sós. Deus vem ao nosso encontro e ele vem

a nós como nosso Senhor e nosso Mestre. Nos bons e nos

maus dias, em nosso desregramento ou nossa honesti- dade, vivemos, agimos e sofremos nessa posição de reen- contro. Eu não estou só. Deus vem ao meu encontro. Em todas as circunstâncias, eu estou com ele. Eis o que signi- fica creio em Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Esse encontro com Deus é o encontro com a palavra da graça que Deus pronunciou em Jesus Cristo. A fé fala de Deus Pai, Filho e Espírito Santo como daquele que vem ao nosso encontro, como objeto de nossa fé. Ela afirma esse Deus que é Uno em si, que foi para nós o Deus único e que foi de novo para a eternidade nos tem- pos em que se realizou sua vontade de amor, seu amor gratuito e incondicional pelo homem, por todos os ho- mens, conforme a sua graça.

Confessar o Pai, o Filho e o Espírito Santo, é dizer que Deus é o Deus da graça. Isso implica em que nós não podemos provocar a comunhão com ele: nós não a cria- mos e não criaremos jamais. Assim como nós não fize- mos por merecer que ele seja nosso Deus, não temos nenhuma pretensão de fazer valer nenhum direito sobre ele. É ele, em sua bondade totalmente gratuita, em sua li- berdade soberana, que desejou ser o Deus do homem, nosso Deus. E isso ele nos diz. Quando Deus diz: minha graça está sobre vós, eis a Palavra de Deus, o conceito central de todo o pensamento cristão. A Palavra de Deus

",

credo

in

, significa: não estou mais só.

é a Palavra de sua graça.

18 - Esboço de lima Dogm,üica

E se vocês perguntarem: onde escutamos essa Pala-

vra de Deus? Eu não posso fazer outra coisa senão mandá-los de volta ao próprio Deus que nos deu a ouvir a sua Palavra. Refiro-me ao coração da Confissão de Fé, ao

segundo artigo do Símbolo 2 : a Palavra da graça, na qual Deus nos encontra, é Jesus Cristo, verdadeiro Deus e ver- dadeiro homem, Emanuel, Deus conosco.

A fé cristã é o encontro com esse "Emanuel", com Je-

sus Cristo e, nele, com a Palavra viva de Deus. Quando chamamos a Sagrada Escritura de Palavra de Deus (nós a nomeamos assim por que é bem o que ela é), pensamos na Escritura como testemunho dado pelos profetas e pe- los apóstolos à única Palavra de Deus, pensamos no judeu

Jesus, que é o Cristo

para sempre. Quando confessamos isso, ao ousarmos chamar a pregação da Igreja de Palavra de Deus, isso deve ser en- tendido como o anúncio de Jesus Cristo, daquele que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem para nossa salva- ção. É nele que Deus vem ao nosso encontro. Quando di- zemos: creio em Deus, significa concretamente: creio no Senhor Jesus Cristo. Eu falei desse encontro como de um dom. É o en- contro pelo qual os homens se tornam livres para escutar a Palavra de Deus. O dom e a libertação são uma só e a mesma coisa. O dom é o dom de uma liberdade, da grande liberdade na qual estão compreendidas todas as outras liberdades. Partindo desse ponto, desejo chegar, no decorrer deste curso, a fazer com que vocês experimen- tem de novo essa palavra de liberdade, que tem sido

de Deus 3 , nosso Senhor e nosso Rei

2.

Vide nota n" XXX.

:).

N. do T.: Cristo em grego significa "ungido", logo: o Ungido de Deus.

Crer É Ter Confiança - 19

usada de maneira tão abusiva e que permanece, contudo, como a mais nobre das palavras.

A liberdade é o grande dom de Deus, o dom do en-

contro com ele. Por quê um dom? E por quê, precisa- mente, o dom da liberdade? É que o encontro de que fala

o

Credo não se produz por coisa alguma. Ele não repousa em uma possibilidade ou uma iniciativa humana, em uma capacidade que nós, os homens, teríamos de encontrar Deus, de ouvir sua Palavra. Caso quiséssemos examinar do que é que somos capazes, nós nos esforçaríamos em vão por encontrar qualquer coisa que pudesse ser nome- ada como uma disposição para ouvir a Palavra de Deus. É

o

imenso poder de Deus que entra em jogo, sem que nós

o

buscássemos por coisa alguma, e que torna possível o

que para nós é impossível. É um dom de Deus, livremente

concedido e sem qualquer preparação de nossa parte, se encontramos a Deus e em nosso encontro com ele ouvi- mos sua Palavra.

A Confissão do Pai, do Filho e do Espírito Santo fala

em seus três artigos 4 de uma realidade e de uma obra ab- solutamente novas, inacessíveis e incompreensíveis a nós outros, homens. E como essa realidade e essa obra de Deus Pai, Filho e Espírito Santo são para nós uma graça de Deus, é ainda uma nova graça que nossos olhos e ouvi- dos estejam abertos para ele. Aqui a Confissão está fa- lando do mistério de Deus e nós ficamos exatamente dentro desse mistério no momento em que ele se ilumina para nós, no momento em que nos tornamos livres para reconhecê-lo e para viver nele. "Eu creio", disse Lutero, "que não é nem por minha razão nem por minhas forças que eu posso crer em Jesus Cristo e chegar a ele". Eu creio,

é a expressão de um conhecimento pela fé, por meio da

20 - Esboço de LIma Dogmática

qual eu sei que Deus não se deixa conhecer a não ser por ele mesmo.

E se posso repetir isto com fé, isso significa que eu louvo e agradeço pelo fato de que Deus o Pai, o Filho e o Espírito Santo é o que é e faz que ele faz, e revelou-se para mim, destinou-se para mim e me destinou para ele. Eu dou graças por ter sido chamado e escolhido, por ter um Senhor que me libertou para ele. É daí que parte a minha fé. O que quer que eu faça, no momento em que eu creio, não tem a menor importância. Mas, o essencial é saber para o que eu fui convidado, e em vista do que fui liber- tado por aquele que pode realizar isso que eu não posso nem iniciar e nem terminar. Estou fazendo uso do dom através do qual o próprio Deus se deu a mim. Respiro; e doravante respiro feliz e livre dentro da liberdade que eu nem conquistei, nem procurei, nem encontrei dentro de mim, mas que me foi dada por Deus quando ele veio a mim. Trata-se da liberdade de escutar a Palavra da graça de maneira tal que o homem possa se ater a essa Palavra e que a considere como digna de fé. O mundo de hoje está repleto de palavras e sabemos o que significa uma inflação de palavras, quando elas per- dem o seu '-alor e cessam de ser reconhecidas. Mas quando se crê no Evangelho, a Palavra reencontra seu crédito e se faz ouvir de tal maneira que aquele que a es- cutar não mais lhe possa escapar. Pelo Evangelho, a Pala- vra recebe seu sentido e se impõe como Palavra. Essa Palavra maravilhosa, na qual crê a fé, é a Palavra de Deus, Jesus Cristo, em quem Deus anunciou aos homens a sua Palavra, de uma vez por todas.

É assim que crer significa ter confiança. A confiança é o,ato pelo qual um homem se abandona à fidelidade de um outro, de quem conhece a aquiescência e do qual aceita as exigências. "Eu creio" significa "tenho confi-

Crer É Ter Confiança - 21

ança". Não é mais em mim mesmo que devo ter confiança; não necessito mais de me justificar, de me desculpar, de me salvar, de preservar a mim mesmo. Esse esforço terrí- vel do homem para se manter a si mesmo e para se atri- buir uma razão a si mesmo, esse esforço se torna um esforço sem sentido. Eu creio, não em mim, mas em Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Torna-se supérflua e caduca a confiança que se atribuía às instituições que se acreditava serem dignas, àquelas pretensas âncoras às quais era ne- cessário se agarrar. Supérflua e caduca igualmente se torna a confiança atribuída a certas divindades erguidas, honradas e invocadas pelos homens em todos os tempos.

Qualquer que seja o nome que se lhes dê, Idéias ou Potências do Destino, elas continuam sendo as instâncias às quais nos entregamos. A fé nos libera da confiança que atribuímos a tais divindades e do temor que elas nos ins- piram, e elimina. as decepções das quais elas são a fonte. Devemos ser livres para ter confiança naquele que merece nossa confiança; ser livres para permanecermos ligados àquele que é fiel e que assim permanece, contrariamente a todas as outras instâncias. De nossa parte, nós não sere- mos jamais fiéis. Nossa rota está semeada por nossas infi- delidades ao próximo e ocorre o mesmo com as divindades deste mundo. Elas não mantêm as suas pro- messas; assim, nunca há nelas a verdadeira paz e luz.

Não existe fidelidade a não ser em Deus. A fé é a confiança que permite que nos mantenhamos nele, nas suas promessas e nos seus mandamentos. Manter-se em Deus é abandonar-se a essa certeza e vivê-la: Deus está aqui para mim. Tal é a promessa que Deus nos faz: eu es- tou aqui, para ti.

Mas essa promessa está acompanhada por um man- damento. Eu não mais me deixarei conduzir por meus próprios pensamentos ou segundo meu bel-prazer; eu re- cebi de Deus uma ordem pela qual devo me conduzir du-

22 - Eshoço de uma Dogmática

rante toda minha existência terrestre. O Credo é sempre Evangelho, é a Boa Nova de Deus para os homens, desse Emanuel, Deus conosco, Deus vindo à nós; simultanea- mente e necessariamente, é uma lei. O Evangelho e a Lei não devem ser separados, constituem uma única entidade no interior da qual o Evangelho é a coisa primordial e a Lei permanece contida na Boa Nova. Visto que Deus é para nós, nos é permitido ser para ele. Visto que ele se oferece a nós, nós devemos, por reconhecimento, dar a ele o pouco que temos para dar.

Agarrar-se a Deus, portanto, sempre significa: rece- ber tudo de Deus e pôr tudo a seu serviço. E isso, a des-

exclusivamente e

totalmente.

É em relação a essas determinações que a fé como confiança deve ser ainda caracterizada. E deve-se estabe- lecer que na fé isso se trata de uma possibilidade, não de uma obrigação, pois desde o instante em que se idealiza a fé, subestima-se a sua grandeza. Essa grandeza não reside no fato de que sejamos chamados a cumprir algo de ex- traordinário, que ultrapassaria as nossas forças. A fé é, so- bretudo, uma liberdade, uma permissão. Aquele que crê na Palavra de Deus deve poder nela se agarrar apesar de tudo aquilo que se opõe a essa Palavra. Não se crê "por causa de" ou "baseado em", mas se é despertado para a fé a despeito de tudo.

Pensem nos homens da Bíblia. Eles não se tornaram crentes por causa de uma demonstração qualquer, de uma prova; mas um belo dia eles se viram colocados em uma situação que lhes permitia crer e que lhes obrigava a crer, a despeito de tudo. Fora de sua Palavra, Deus nos está oculto, mas ele se revela em Jesus Cristo. Se nós passamos em frente a ele sem o ver, não devemos nos admirar de não encontrar a Deus, de ir dos erros às decepções, de ver o mundo repleto de trevas. Se acreditamos, devemos crer,

peito

de

tudo,

de

uma

vez por todas,

Crer É Ter Confiança - 23

apesar de tudo, no Deus oculto e, no fato de que ele está oculto, está o apelo necessário para nos lembrar de nossa limitação humana. Nós não acreditamos apoiados em nossa razão ou em nossos próprios recursos. Todo crente autêntico sabe disso bem.

O maior obstáculo à fé é simplesmente essa eterna presunção e também essa angústia que subsistem no nosso coração. Nós não amamos viver pela graça; há sem- pre em nós alguma coisa que se insurge violentamente contra a graça. Nós não amamos receber a graça, nós amaríamos, no máximo, atribuí-la a nós mesmos. A vida humana é feita desse vai-e-vem entre o orgulho e o deses- pero, que apenas a fé pode eliminar. Se contar consigo mesmo, o homem não pode chegar a ela, uma vez que não podemos, nós mesmos, nos libertar do orgulho e da an- gústia. Se formos libertos é graças a uma ação que não de- pende de nós. Quando se tenta condensar tudo o que representa essa força de oposição e de contradição, tem-se uma vaga idéia do que a Bíblia quer dizer quando fala do Diabo. "Deus o disse verdadeiramente?" (Gn 3.1). A Palavra de Deus é verdadeira? Quando se crê, despreza-se esse Di- abo. Mas crer não é um ato de heroismo. Guardemo-nos de fazer de Lutero um herói. Lutero jamais se considerou como tal, mas ele sabia de uma coisa: se devemos comba- ter, afrontar o inimigo, é justamente a título de uma pos- sibilidade atribuída, de uma permissão, de uma liberdade recebida na mais profunda humildade.

Estar na fé: trata-se de uma decisão tomada de uma vez por todas. A fé não é uma opinião que se poderia tro- car por uma outra. Aquele que crê apenas durante um tempo não sabe o que é a fé, pois crer supõe uma relação definitivamente estável. Estar na fé: trata-se de Deus e do que ele fez por nós de uma vez por todas. Isso não evita, por certo, que ocorram enfraquecimentos da fé. Mas,

24 - Esboço de uma Dogm,ítica

considerada em relação ao seu objeto, a fé é uma coisa de- finitiva. Aquele que acreditou uma vez, crê para sempre. Não se assustem com o que digo aqui, mas o considerem como um convite. Por certo, podem-se cometer enganos ou duvidar, mas quem acreditou uma vez, de alguma ma- neira, porta um character indelebilis: pode assegurar-se em pensamento que está salvo. É preciso aconselhar aos que devem combater a incredulidade que não levem muito a sério essa mesma incredulidade. Nada além da fé deve ser levado a sério e se temos uma fé semelhante a um grão de mostarda (Mt 13.31) é o suficiente para que o Diabo tenha perdido a partida.

Em terceiro lugar 5 , fé está relacionada a nós nos agarrarmos exclusivamente a Deus. Exclusivamente por- que Deus é Aquele que é fiel. Existe também uma fideli- dade humana que tem sua origem em Deus e que deve incessantemente nos alegrar e nos fortalecer. Mas o fun- damento dessa fidelidade é sempre a fidelidade de Deus. A fé é a liberdade de se confiar totalmente apenas nele, sola gratia et sola fide. Isso não implica, de maneira ne- nhuma, um empobrecimento da vida humana; ao contrá- rio, todas as riquezas de Deus assim nos são atribuídas.

Para terminar, devemos nos agarrar totalmente à Pa- lavra de Deus. A fé não concerne a um setor particular da vida denominado religioso, ela se aplica à existência em sua totalidade, à exterior como à interior, à corporal como à espiritual, às zonas sombrias como às claras. De- vemos nos confiar a Deus, seja em relação a nós mesmos, seja em nosso comportamento no interesse do outro, da humanidade inteira; em relação ao todo da vida e da morte. Ser livre para uma confiança assim definida é ter fé.

Crer Significa Conhecer

A cristã é a iluminação da razão que permite aos ho- mens a liberdade de viver na verdade de Jesus Cristo e, por esse mesmo caminho, de conhecer, sem risco de errar, o sentido de sua vida, bem como a causa e o fim de tudo o que existe.

Pode ser que vocês fiquem surpresos em ver a razão intervir aqui. É de maneira intencional que faço uso desse conceito. Vale a pena lembrar que o famoso conselho:

"despreza a razão e a ciência, essa suprema alavanca do homem", não vem de um profeta, mas do Mefisto de Goe- the. Cristãos e teólogos têm sido sempre muito mal inspi- rados quando, por entusiasmo ou em nome de suas concepções particulares, acreditaram que deviam se ali- nhar dentro do campo dos adversários da razão. Acima da Igreja cristã, resumindo a revelação e a obra de Deus,

encontra-se a Palavra. 6 "A Palavra se fez carne". O logos (quer dizer o verbo, a razão, a palavra) se fez homem. A pregação da Igreja é um discurso que, muito longe de ser

6.

Em grego, o logos, que significa também a razão. (N.do T.da ed.

francesa).

2(, - Esboço de uma Dogm,írica

acidental, arbitrário, caótico ou ininteligível, pretende ser verdadeiro e procura se impor como tal contra a falsi- dade. Não aceitemos abandonar essa posição perfeita- mente clara! A palavra que a Igreja tem a vocação para pregar não é a verdade em um sentido provisório, secun- dário' mas no sentido primeiro e forte do termo; trata-se do logos que se manifesta e se revela na razão do homem, no seu entendimento, com toda a sua significação e em toda a sua verdade. A pregação cristã está ligada ao logos, à ratio, à razão, fonte da revelação na qual o homem com suas faculdades racionais pode, em seguida, se reencon- trar. Pregação e teologia nada têm a ver com a verborra- gia, o falar em línguas ou a propaganda, incapaz de sustentar suas asseverações. Nós conhecemos bem esse gênero de discursos edificantes, proferidos com muita eloquência e ênfase, mas que - é muito claro! - não resis- tem à simples questão no tocante à verdade do que afir- mam. O Credo cristão assenta-se em um conhecimento. Por toda a parte onde ele é pronunciado e confessado, ele não faz mais que criar esse conhecimento. A fé cristã não é, de maneira nenhuma, irracional, anti-racional ou su- pra-racional. Bem entendida, ela é, ao contrário, racional. A Igreja que recita o Credo e que se apresenta com a pre- tensão inaudita de pregar, de anunciar a boa nova, pode

fazê-lo porque ela entendeu, compreendeu alguma coisa?

e porque ela deseja simplesmente que isso seja compreen-

dido, percebido por outros. Não se pode considerar como

felizes as épocas em que, na história da Igreja, a teologia e

a dogmática pensaram poder separar a gnosis da pistis, o conhecimento da fé. A fé bem compreendida é conheci-

7. Em alemão Vernunfi (razão) vem de uernehmen (compreender,

entender, perceber), assim como entendimento, em francês, vem de entender.

(f\J. cio T da cd. francesa).

Crer Significa Conhecer - 27

mento, O ato pelo qual se crê é também um ato de conhe- cimento. Crer significa conhecer.

Ditas essas coisas, podemos estabelecer que a fé cristã comporta uma iluminação da razão. A fé cristã tem um objeto preciso do qual fala o Credo: é Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A particularidade desse objeto, a particularidade de Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo é, seguramente, a de permanecer imperceptível ao ho- mem entregue a seus próprios meios de conhecimento. Para permitir que o homem o perceba, é necessário nada menos que a intervenção do próprio Deus agindo com plena liberdade e decidindo soberanamente. Entregue às suas próprias forças, o homem poderá, no máximo, se- gundo o grau de suas faculdades naturais, de seu entendi- mento e de sua intuição, reconhecer a existência de um ser supremo, absoluto, de uma potência superior, de uma entidade que domina toda a realidade. Mas tal descoberta não tem nenhuma relação com o próprio Deus. Ela é fruto das intuições e das possibilidades - limites do pen- samento e do esforço do homem, que pode, com certeza, imaginar um ser supremo sem que, apesar disso, tenha encontrado Deus. Descobre-se e conhece-se Deus quando ele se dá a conhecer a si mesmo, dentro da sua in- teira liberdade. Chegaremos mais tarde a falar de Deus, de seu ser e de sua natureza, mas desde já devemos espe- cificar bem que ele permanece sendo sempre aquele que se dá a conhecer em sua livre revelação e não um ser ima- ginado pelo homem e ao qual este último cola uma eti- queta "Deus". A linha divisória entre o verdadeiro Deus e os falsos deuses se estabelece já claramente a partir do problema do conhecimento. Conhecer Deus não se inclui no quadro das possibilidades discutíveis. Deus é o con- teúdo e a soma de toda a realidade tal como esta se revela para nós. O conhecimento de Deus ocorre desde que efe-

28 - Esboço de lima Dogmârica

tivamente ele fale, desde que ele se apresente ao homem de tal forma que o homem não possa deixar de vê-lo e ouvi-lo, desde que, numa situação em que não possui mais o controle e na qual ele se torna um enigma para si mesmo, o homem se vê colocado diante do fato que vive com Deus e Deus com ele, porque Deus se agradou disto. Para que ele tenha conhecimento de Deus, é necessário que tenha revelação divina, sendo o homem ensinado, es- clarecido e persuadido pela intervenção do próprio Deus. Começamos por dizer que a fé cristã nasceu de um en-

contro. Podemos precisar a coisa dizendo que a fé cristã e

o conhecimento que se possa ter existem desde que a Ra- zão divina, o Logos de Deus, dirige sua lei ao seio da ra- zão humana, sendo esta, segundo sua natureza, obrigada

a se conformar a essa lei.

É dentro desse evento que o homem chega ao verda- deiro conhecimento, pois, a partir do fato de que Deus

ocupa seu pensamento, seus sentimentos e seus sentidos,

o homem e sua razão são revelados a si mesmos. A revela-

ção de Deus ao homem é, pois, ao mesmo tempo uma re- velação da verdadeira natureza do homem, que permanece incapaz de provocar o evento que o ilumina e do qual apenas Deus é o autor. Pode Deus ser conhecido? Sim, Deus pode ser conhecido porque ele se dá a conhe- cer e não pode ser conhecido senão por ele mesmo. Esse evento confere ao homem a liberdade, a capacidade, o po- der de conhecer Deus - a coisa permanecendo em si um mistério. O conhecimento de Deus é um conhecimento absolutamente determinado e criado pelo seu objeto, isto é, pelo próprio Deus. Mas isso é precisamente o que é um conhecimento autêntico e, no sentido mais profundo da palavra, um conhecimento livre. Certamente ele perma- nece um conhecimento relativo, encerrado nos limites da criatura. E é para seu sujeito que ele se satisfaz muito par-

Crer Significa Conhecer - 29

ticularmente de falar do tesouro que carregamos dentro dos vasos de barro (2Co 4.7). Nossos conceitos são im- próprios para conter esse tesouro. É impossível não ver que nesse clima toda forma de orgulho está excluída desde logo. O homem permanece sendo o que é, impo- tente, sua razão estando submissa aos limites do estado da criatura. Mas é nesse quadro que convém a Deus se reve- lar. E acontece que aqui, igualmente, é estando louco que

o homem se torna sábio, é sendo pequeno que se torna

grande, e que Deus se revela eficaz onde o homem se re- vela impotente (ICo 1.25; 3.18). "Minha graça te basta!

Pois a minha potência se realiza na tua fraqueza" (2Co. 12.9). Esta palavra se aplica também ao problema do co- nhecimento.

Segundo a tese formulada no começo deste capítulo,

a fé cristã é a iluminação da razão que nos dá a liberdade

de víver dentro da verdade de Jesus Cristo. É essencial para a inteligência da fé cristã compreender que a verdade de Jesus Cristo e o conhecimento dessa verdade referem- se à vida. Assim, isso não significa que, por essa razão, deva-se abandonar a idéia de que a fé é um conhecimento para considerá-la como um conhecimento obscuro, uma experiência ou uma intuição irracional. A fé é verdadeira- mente um conhecimento, ela está ligada ao logos de Deus e, por conseguinte, constitui algo inteiramente lógico. A verdade de Jesus Cristo é, no sentido mais rigoroso da pa- lavra, uma verdade objetiva. Seu ponto de partida, a res-

surreição de Jesus é, segundo os dados do Novo Testamento, um fato que se produziu no tempo e no es- paço. Os apóstolos não se contentaram em descrever e defender uma experiência puramente interior. Eles fala- ram do que viram com seus olhos, do que ouviram com seus ouvidos e do que tocaram com suas mãos. Assim a verdade de Jesus Cristo entra no quadro de uma reflexão

.)0 . Esboço de lima Dogmática

humana absolutamente clara, lógica e livre, precisamente porque ligada a seu objeto. Mas - não separemos as duas coisas - essa verdade diz respeito à vida. Aquilo que se chama ciência, o saber, não saberia o suficiente em si para descrever essa verdade. Para poder compreender ao que isso remete, é necessário voltar principalmente à noção de sabedoria própria do Antigo Testamento, à sophia dos gregos, à sapientia dos latinos. Sapientia se distingue de scientia, sabedoria de ciência, no que ela implica em um saber eminentemente prático que engloba a totalidade da existência humana. A sabedoria é o saber que nos permite viver de fato em uma situação que é a nossa; ela une a prática e a teoria. O segredo da sua eficácia é que ela é aplicável de imediato e governa nossa existência como uma luz sobre o nosso caminho (SI 119.105). Não uma luz qualquer, oferecida para nossa estupefação ou para nossas reflexões, não uma luz que ofereça a ocasião para fazer fogos de artifício - mesmo quando se trate das mais sábias reflexões filosóficas! -, mas a luz que, muito sim- plesmente, ilumina nosso caminho, nossas palavras e nossos atos, que brilha sobre nossos dias de saúde e sobre nossos dias de doença, sobre nossa pobreza e sobre nossa riqueza; que nos acompanha quando acreditamos ver com clareza, bem como quando nos desencaminhamos. Essa luz que não cessa de estar aqui quando tudo se extin- gue e a morte nos sobrevém.

Conhecimento cristão significa viver na verdade de Jesus Cristo. É nele que temos a vida, o movimento e o ser (At 17.28), a fim de que possamos ser nele, por ele e para ele (Rm 11.36). Esse conhecimento coincide, pois, abso- lutamente com o que denominamos a confiança em Deus e em sua Palavra. Não nos deixemos imobilizar quando nos é proposto distinguir, separar, nessa matéria. Não existe confiança real, sólida, autêntica, vitoriosa em Deus

Crer Significa Conhecer - 31

e em sua Palavra que não seja baseada na verdade de

Deus e de sua Palavra, como não existe conhecimento cristão, de teologia, de confissão de fé e mesmo de ver- dade bíblica que não porte ao mesmo tempo o caráter de

verdade viva e real. É preciso que uma e outra, confiança

e conhecimento, vida e fé, sejam incessantemente verifi- cadas, controladas e confirmadas uma pela outra.

E é precisamente porque nos é dado viver como cristãos na verdade de Jesus Cristo, à luz do conheci- mento de Deus que ilumina nossa razão, que podemos conhecer com convicção o verdadeiro sentido de nossa vida, assim como a razão de ser e o objetivo de tudo o que existe. Daí o alargamento prodigioso de nosso horizonte:

compreender dentro de sua verdade o objeto da fé é, nem mais nem menos, tornar-se capaz de conhecer todas as coisas, quer dizer, a si mesmo, o homem, o mundo e a to- talidade do cosmos. A verdade de Jesus Cristo não é uma verdade entre outras, pois ela é a verdade de Deus, a prima veritas, e é ao mesmo tempo a ultima veritas. Não criou Deus todas as coisas em Jesus Cristo CCI 1.16), nós mesmos aí compreendidos? Não existimos senão nele, quer o saibamos ou não, e o universo inteiro não existe senão nele, sustentado pela sua Palavra potente. O conhe- cer é conhecer todas as coisas. Ser tocado e tomado pelo seu Espírito é ser conduzido para dentro de toda a ver- dade (Jo 16.13). Crer em Deus e conhecê-lo torna, pois, impossível a questão do sentido da vida. Ao crer eu vejo o sentido da minha vida, o sentido do meu estado de cria- tura, da minha individualidade com seus limites e seu ca- ráter falível, tributário a cada instante do pecado, mas também do auxílio que Deus me concede ao intervir sem cessar em meu favor, apesar de mim e sem nenh~'mmé- rito de minha parte. Em tudo isso eu conheço e identifico a tarefa que me é atribuída, a esperança que a acompanha

32 - Esboço de lima Dogm,ítica

em razão da graça na qual vivo, a realidade da glória que me está prometida e na qual eu já estou secretamente en- volvido aqui e agora, com toda a fraqueza da minha con- dição presente. Crer é reconhecer que tal é precisamente o sentido de minha vida. O Credo afirma que Deus é a razão de ser e o obje- tivo de tudo que existe. A razão de ser e o objetivo do uni- verso é Jesus Cristo. Eis o inaudito em todo esse assunto: a fé cristã, que implica essa confiança total em Deus e em sua Palavra, esse conhecimento íntimo e profundo da ra- zão de ser e do objetivo de todas as coisas; assim o ho- mem vive, a despeito de tudo que possa ser dito ao contrário, nessa paz que supera todo entendimento (Fp 4.7) e que, nisso mesmo, é a luz que ilumina nosso enten- dimento.

Crer É Confessar a Sua Fé

A cristã é a decisão que aos homens a liberdade de de- clarar publicamente sua confiança na Palavra de Deus e seu conhecimento de Jesus Cristo, tanto na linguagem da Igreja, como na linguagem do mundo, e sobretudo pelas ações e atitudes subseqüentes.

A fé cristã é uma decisão, esse é o nosso ponto de partida neste quarto capítulo. Certamente a fé é um acon- tecimento dentro do mistério da relação entre Deus e o homem, acontecimento que manifesta a liberdade da qual Deus faz uso em direção ao homem, ao mesmo tempo em que lhe oferece essa mesma liberdade. Mas isso não ex- c1ui, bem ao contrário, que a fé se traduza por uma histó- ria, quer dizer, que o homem que crê seja levado a agir através do tempo.

A fé é o mistério de Deus que irrompe em nosso mundo: ela manifesta a liberdade de Deus e a liberdade do homem em ação. Se ela não se traduzir por nenhum

fato - visível e audível - não é fé. Ao falar de Deus, o Pai,

o Filho e o Espírito Santo, o Credo quer significar que o próprio Deus em sua essência, em sua vida profunda, não

é um Deus passivo, inativo, um Deus morto, mas que ele

34 - Esboço de uma Dogmática

existe em uma relação interna, em um movimento que se pode, com fundamento, descrever como uma história, um devir.

Deus não está acima da história. Ele próprio é a his- tória. Por toda a eternidade, concebeu em si mesmo um propósito do qual a Confissão de Fé exprime linhas gerais

e que nossos pais s denominaram decreto da criação,

da

aliança e da salvação. Esse propósito Deus executou, de uma vez por todas, sobre o plano da história na obra e na mensagem de Jesus Cristo, as quais testemunha concreta-

mente o quarto artigo do Símbol0 9 : "padeceu sob Pôncio

Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado

".

A fé é o que corresponde, por parte do homem, a

essa existência e a essa ação de Deus. Seu objeto é esse Deus histórico em sua essência e seu propósito visa, põe em movimento e realiza a história. Uma fé que não seja ela mesma história não é mais a fé cristã, perdeu o seu ob- jeto.

A autêntica fé cristã determina sempre um fenô-

meno histórico: a aparição, entre os homens de uma mesma época e de todas as épocas, de uma comunidade, de uma reunião, de uma comunhão. Mas ao mesmo tempo ela suscita no próprio seio dessa comunidade uma pregação, uma mensagem dirigida ao exterior, em direção ao mundo de fora. Uma luz se acende e "ela ilumina a to- dos os que estão dentro da casa" (Mt 5.15). Em suma: a fé dá nascimento e vida a uma comunidade cuja vocação é a de estar no e para o mundo; e é Israel que surge no meio dos povos, e é a Igreja que se reúne, a comunhão dos san- tos, todos os que constituem o corpo de Cristo. Não que

S.

N. do Ed.: As primeiras gerações dos Reformadores, que sistematizaram estas doutrinas.

9.

Vide nota n° I.

Crer f, Confessar a Sua Fé - 35

Israel e a Igreja sejam um fim em si mesmos, pois estão aqui unicamente para significar a vinda do servidor que Deus suscitou para todos. Há a história, portanto, e aqui é o lugar de falar dessa correspondência entre a ação do homem e a obra que Deus realizou na livre decisão da sua graça. Essa his- tória é possível desde que o homem responda, quer dizer, obedeça. A fé é obediência e não adesão passiva. Obedecer é escolher. Escolher a fé e não a incredulidade, decidir-se pela confiança contra a dúvida, pelo conhecimento con- tra a ignorância. Crer é fazer uma escolha entre a fé e o que não é ela, o erro e a superstição. A fé é o ato de obedi- ência e de decisão pelo qual o homem se apresenta a Deus como Deus o exige. Esse ato implica que se deixe de ser neutro face a face com Deus, que se abandone essa atitude de indiferença e de irresponsabilidade que impede toda decisão verdadeira; que se deixe, enfim, seu próprio uni- verso para ousar escolher e se ligar abertamente, publica- mente. Uma fé que permaneça algo privado, que não se manifeste para o exterior, não será mais do que uma in- credulidade escondida, uma falsa fé, uma superstição. Pois a fé que tem por objeto Deus, o Pai, o Filho e o Espí- rito Santo não pode não se manifestar publicamente.

Dissemos que "a fé cristã é a decisão que dá aos ho- mens a liberdade de declarar publicamente sua confiança na Palavra de Deus". A responsabilidade pública que o cristão assume implica que ele recebeu o direito, a per- missão; quer dizer que ele conhece uma evidente liber- dade. À liberdade de crer e de conhecer, soma-se aquela de se engajar. Impossível separar uma da outra. Uma con- fiança em Deus que pretenda viver sem conhecimento, não seria verdadeira. E o homem transbordante de confi- ança e de conhecimento que não se sinta livre para de-

.)6 . Esbo~'o de uma DognlCÍrica

clará-los publicamente, merece que dele se diga "sua confiança e seu conhecimento não valem nada!" O pró- prio Deus, tal como o confessa a Igreja, não é aquele que, longe de permanecer oculto e de querer existir para si mesmo, saiu do seu mistério e da sua majestade divina para descer e se manifestar dentro da sua criação? Não é aquele que se desvela, que se mostra?

Quando se crê nele, não se pode ter escondidos a graça, o amor, a consolação e a luz que vêm dele, nem guardar para si a confiança que se põe na sua Palavra e o conhecimento que se tem dele.

É impossível que as palavras e os atos do crente per- maneçam palavras neutras, atos que não se comprome- tam. Desde que exista a fé, a glória de Deus (doxa, gloria) deve necessariamente brilhar sobre a terra. Se a glória de Deus não se manifesta de uma maneira ou de outra, se ela pode ser obscurecida ou deformada por nossa própria sa- bedoria ou por nossa fraqueza, deve-se concluir que a fé está ausente e que a consolação e a luz que Deus concede não foram recebidas de fato. A glória de Deus entra no cosmos e seu nome é santificado sobre a terra toda vez que aos seres humanos é dado crer, toda vez que se reúne e se põe em marcha o povo, a comunidade de Deus.

A fé dá ao homem, tal como ele é, com todos os seus limites e sua impotência, em toda a sua perdição e toda a sua loucura, a liberdade real para fazer resplandecer a glória e a honra de Deus, de refletir sua luz incomparável sobre a terra. Não nos é exigido mais do que isso, mas isso nos é exigido. Essa liberdade de testemunhar publica- mente sobre a nossa confiança na Palavra de Deus e sobre nosso conhecimento da verdade que está em Jesus Cristo, isso é O que nos termos da Igreja se chama confessar sua

fé.

Crer É Confessar a Sua Fé - 37

Confessar sua fé é declarar publicamente na lingua-

gem da Igreja, mas é também testemunhar através de de- cisões profanas e, sobretudo, pelas ações e atitudes conseqüentes. Temos aqui, parece-me, as três formas ab- solutamente inseparáveis - impossíveis de se opor umas às outras e que devem ser vistas sempre ao mesmo tempo

- do testemunho cristão, que é em si mesmo uma das ma-

nifestações essenciais da fé. As explicações que se seguem

formam, portanto, um todo indivisível.

1. A fé nos dá a liberdade de afirmar publicamente nossa confiança e nosso conhecimento, na linguagem pró- pria da Igreja. O que queremos dizer com isso? A igreja teve e tem sua linguagem para ela em todas as épocas. É assim. No desenvolvimento histórico, ela possui sua his- tória particular, sua própria via. Ao confessar sua fé, não pode abstrair essa história. Ela vive em um contexto his- tórico absolutamente preciso que não cessará de lhe im- por uma determinada linguagem. Assim, a fé cristã - e o

testemunho público dessa fé -necessariamente extrairá seu modo de expressão da Bíblia, das línguas da Bíblia, o grego e o hebraico, e das traduções que têm sido feitas, as- sim como da tradição da Igreja, das formas de pensa- mento, conceitos e idéias que a Igreja utilizou no decorrer dos séculos para formular, adquirir, defender e desenvol- ver seus conhecimentos. Existe uma linguagem própria da Igreja. É normal. Ousemos chamá-la por seu nome: o "dialeto de Canaã". Nenhum cristão, chamado a confessar

a fé, quer dizer, chamado para fazer brilhar externamente

a luz que está acesa nele, poderá fazê-lo sem utilizar essa linguagem, que é a sua. Vejamos as coisas como elas são:

desde que se torne necessário exprimir com precisão as coisas da fé, desde que se deva falar de nossa confiança em Deus, em sua Palavra no que ela tem, por assim dizer,

3B - Esboço de lima Dogmática

de específico - e nós devemos bem reconhecer que isso é terrivelmente necessário para que os problemas se tornem claros - devemos de saída falar o dialeto de Canaã! Te- nhamos essa coragem! Pois certas direções, certos conse- lhos e certas exortações não podem ser comunicados aos outros senão nesse "dialeto". Não é necessário ser delicado demais nesse assunto, nem medir excessivamente as pala- vras. "Eu creio", dizemos freqüentemente, "mas minha fé é algo tão íntimo e pessoal que estipulei para mim mesmo uma regra de evitar citar a mínima palavra bíblica, e que sinto um forte embaraço ao pronunciar até mesmo o nome de Deus, isso sem falar de Jesus Cristo, de seu san-

gue ou

admito que possa ter uma fé profunda, cuide somente de tornar-se capaz de declará-la publicamente! Caso contrá- rio, esse pudor de sentimentos que reclama poderia muito bem não ser mais do que o medo dissimulado de

ter de sair de seu estado de neutralidade interior. Pense!" Sem dúvida, uma vez que a Igreja não ousa confessar sua

fé na linguagem que é a sua, ela adquire o hábito de não

confessar coisa nenhuma! Torna-se, então, uma comuni- dade silenciosa, senão muda. A fé, desde que existe, le- vanta imediatamente a questão: não se deve, alegremente

e sem temor, falar a linguagem da Bíblia, exprimir-se

como fez a Igreja no passado e como deve fazer hoje? Forte pela liberdade e segurança que são suas, a fé não deixa de suscitar, por toda a parte e sempre, semelhante linguagem para o louvor e a glória de Deus.

do Espírito Santo

" Eu respondo: "Caro amigo,

2.Mas isso ainda não pode constituir todo o teste- munho da Igreja. Confessar significa ainda mais. Guar- demo-nos de pensar que a confissão de fé não é mais do que uma coisa espiritual, reservada exclusivamente ao domínio da Igreja e consistindo simplesmente em dar

Crer f: Confessar a Sua Fé - 39

uma certa extensão à sua mensagem. A verdadeira mol- dura da Igreja é o mundo, como se pode notar já à pri- meira vista a partir do fato que, dentro de uma aldeia ou dentro de uma cidade, o templo ocupa seu lugar ao lado da escola, do cinema e da estação. A linguagem falada pela Igreja não poderia ter um propósito em si mesma. É necessário perceber que a Igreja está verdadeiramente aqui para o mundo; é preciso que a luz brilhe nas trevas 00 1.5). Assim como Cristo não veio para ser servido, mas para servir, não é conveniente que os cristãos exis- tam simplesmente para eles mesmos. Quer dizer que a fé, que se manifesta exteriormente como uma confiança e como um conhecimento, determina certas decisões no século e que, por constituir um testemunho claro e autên- tico, ela deva poder se traduzir perfeitamente na lingua- gem do Senhor Todo-Mundo, do homem da rua, enfim, na língua daqueles que não têm nem o hábito de ler a Bí- blia nem o de cantar os cânticos, e de quem os meios de expressão e os centros de interesse são absolutamente di- ferentes. É para o mundo que Cristo enviou seus discípu- los e é no mundo que nós vivemos. Nenhum de nós é apenas cristão; todos somos ao mesmo tempo cidadãos desse mundo. O mesmo vale para nossas decisões cristãs, para a tradução de nosso testemunho na língua de qual- quer um. A confissão de fé, com efeito, pretende se apli- car à vida tal qual ela é, às circunstâncias de nossa existência quotidiana com todas as questões teóricas ou práticas que ela nos propõe. Se nossa fé é real, ela deve necessariamente entrar na nossa vida. Em sua forma pu- ramente eclesiástica, o testemunho cristão corre sempre o risco de fazer crer que o crente considere seu credo como algo pessoal e privado e que, no mundo tal como é, são outras as verdades que têm valor. O mundo vive sobre esse mal-entendido e considera o cristianismo como uma

40 - Esboço de lima Dogrn,irica

agradável "magia" pertencente ao "domínio religioso", certamente respeitável, mas que não convém mexer e tudo está dito~ Mas esse mal-entendido pode muito bem

existir entre os próprios cristãos dispostos de bom grado

a fazer da fé seu objetivo, com a condição de não mexer

com ela jamais. Não é de ontem que se tenta apresentar o problema das relações entre a Igreja e o mundo como um problema de boa vizinhança, cada um permanecendo prudentemente nas posições cuidadosamente preparadas,

a despeito de algumas escaramuças que possam acontecer

nos postos avançados. A Igreja não pode considerar esse "acordo de cavalheiros" como definitivo. De seu ponto de vista uma só coisa conta: que seu testemunho possa res- soar igualmente no seio da sociedade que a cerca, dessa vez não no dialeto de Canaã, mas na linguagem mais só- bria e menos eclesiástica que o mundo costuma falar. Trata-se, para a Igreja, de traduzir sua mensagem no es- tilo dos jornais, por exemplo. Trata-se de repetir, de uma maneira profana, o que dizemos com as palavras e a lin- guagem da Igreja. O cristão não deverá temer, portanto, usar de uma fala pouco "edificante". Se ele se sentir inca- paz, que se pergunte se o que se diz dentro da Igreja é sempre edificante! Nós conhecemos bem esse jargão pas- toral e clerical que para as pessoas de fora, produz o efeito do chinês! Tomemos cuidado de não nos isolarmos e de não recearmos falar claro ao mundo. Um exemplo: em 1933, numerosos foram aqueles que na Alemanha soube- ram confessar e viver sua fé de uma maneira profunda e autêntica, e nós louvamos a Deus por isso; infelizmente, esses testemunhos foram de alguma maneira bloqueados pela linguagem que servia para formulá-los. Não se soube traduzir, então, em decisões políticas, o que estava exce- lentemente expresso na língua da Igreja; caso contrário, a Igreja evangélica desse país veria claramente que ela deve-

Crer É Confessar a Sua Fé - 41

ria dizer não ao nacional-socialismo e isso desde o co- meço. E foi assim, então, que não houve, sob a forma inteiramente profana, a verdadeira confissão de fé. Imagi- nemos o que teria acontecido se a Igreja tivesse sabido formular em termos políticos suas convicções espirituais! Ela não foi capaz e as conseqüências estão diante de nos- sos olhos. Um segundo exemplo: hoje, igualmente, exis- tem manifestações de fé cristã séria, autêntica. Estou persuadido de que os acontecimentos atuais elevaram tanto a fome e a sede da Palavra de Deus, que a Igreja está a ponto de viver um momento importante. Mas não é su- ficiente que ela se limite a se corrigir, a se consolidar a si própria e que os cristãos permaneçam uma vez mais entre eles. Em verdade, hoje é indispensável fazer teologia com uma consagração muito maior. Mas, oxalá possamos ver e compreender melhor do que há pouco tempo a necessi- dade de se traduzir em decisões e em tomadas de posi- ções políticas o que se passa no seio da Igreja! Uma Igreja evangélica que pretenda hoje permanecer muda sobre a questão da culpabilidade que os acontecimentos que aca- bamos de viver levantam, ou que simplesmente acredi- tasse poder negligenciá-la, quando esta exige uma resposta em razão mesmo do futuro, se condenaria, desde o princípio, à esterilidade. Da mesma forma, uma Igreja que não compreenda sua vocação em relação às pessoas em aflição, e para a qual o ensinamento e a pregação não correspondam aos problemas levantados pela situação atual, uma Igreja que não se ponha inteiramente no tra- balho de responder à urgência dessa tarefa esmagadora, celebrará o seu próprio funeral. Oxalá cada cristão indivi- dualmente possa ver claramente o que sua fé implica: en- quanto ela não passa de uma espécie de agradável torre de marfim que o dispensa de pensar em outrem, enquanto ela lhe oferece um tipo de álibi fácil e faz dele um ser du-

42 - Esboço de LIma Dogmática

pIo, ela não é autêntica. Por outro lado, não se pode de maneira nenhuma viver dentro de uma torre de marfim! O homem é um todo e não pode verdadeiramente existir senão como um todo.

3-Recordemos enfim a última frase de nossa tese

inicial: pelas ações e atitudes subseqüentes. É intencional-

mente que falo num terceiro ponto, distinto do prece- dente. De que serviria a um homem falar e confessar sua fé na linguagem mais forte que pudesse existir, se não houvesse a caridade? Confessar sua fé, testemunhar, é um ato estreitamente ligado à vida. Crer é ser chamado para arriscar-se. Tudo depende disso.

Deus Nos Lugares Altíssimos

Segundo a Sagrada Escritura, Deus é aquele que está presente, vive, age e se dá a conhecer para nós pela obra que ele determinou e realizou em Jesus Cristo na liberdade de seu amor, ele o Único.

o Símbolo dos Apóstolos, que nos serve de ponto de partida, abre-se com as seguintes palavras: creio em Deus. Nós pronunciamos assim o conceito maior, o termo decisivo do qual o Credo cristão não é mais do que a ex- plicação e o desenvolvimento. Deus é o objeto da fé de que falamos nas nossas últimas aulas. É, sumariamente fa- lando, o conteúdo da pregação da Igreja. Contudo, ocorre que Deus parece ser, de uma maneira ou de outra, uma realidade familiar a todas as religiões e a todas as filoso- fias.

Antes de prosseguir, é necessário, pois, determo-nos um instante para perguntar a nós mesmos: que relação existe entre a palavra "Deus", no sentido em que a em- prega a fé cristã, e naquele que esse nome encobre em to- das as religiões e filosofias de todos os povos e de todas as épocas? Vamos esclarecer a significação habitual desse vocá- bulo fora da fé cristã. Quando o homem fala de Deus, da

44 - Esboço de LIma Dogmática

natureza ou da essência divina, pretende traduzir o senti- mento de nostalgia e de desorientação que ele experi- menta com todos os seus semelhantes e que o empurra para procurar uma unidade entre os seres, uma razão de ser para sua existência e um sentido para o universo. Ele pensa na existência e na natureza de um ser em uma rela- ção mais ou menos coerente com a estonteante diversi- dade de fenômenos e que deveria considerar como a essência suprema que regula e domina toda a realidade. E, se lançamos agora um olhar sobre esse vasto campo de pesquisas, onde se dá livre curso à nostalgia e às hipóteses humanas, nossa primeira impressão é a de uma faculdade de invenção infinitamente diversa, que se conjuga com todas as arbitrariedades e todas as fantasias. De fato, encontramo-nos diante de uma montanha de incertezas e de contradições. Quando, pois, falamos de Deus na moldura da fé cristã, devemos ter em mente que nós não estamos acrescentando mais uma noção a todas aquelas que já existem no inventário religioso da humani- dade. Deus, segundo a fé cristã, não é mais um Deus entre os outros. Ele não pertence ao panteão da piedade hu- mana e da engenhosidade religiosa. Portanto, não é uma questão de se postular no seio da natureza humana a existência de uma tendência uni- versal e inata ao divino, de um conceito geral de Deus que englobaria, num dado momento, o que cremos e confes- samos quando falamos de Deus enquanto cristãos, de tal sorte que nossa fé seria uma fé entre outras, um caso par- ticular dentro de uma regra geral. Um Pai da Igreja disse com razão: Deus non est in genere - Deus não pertence a nenhum gênero! Quando falamos de "Deus", nós, cristãos, podemos e devemos claramente nos dar conta que esse termo signi- fica de imediato o "totalmente Outro" e que estamos ver-

Deus Nos Lugares Altíssimos - 45

dadeiramente libertos da pesada moldura das buscas, das hipóteses, das imaginações, das ilusões e das especulações humanas. Não é questão, não mais, de se pensar que o ho- mem em busca do divino poderia, enfim, depois de muito sofrimento, alcançar um degrau de conhecimento tal que coincidisse praticamente com o conteúdo da fé cristã.

O Deus que a fé cristã confessa não é, à maneira dos deuses deste mundo, um ser que se encontra ou se in- venta, uma divindade que se oferece ao homem ao tér- mino de seus esforços; ele não é o coroamento, seja ele o mais perfeito, de uma procura que pudéssemos iniciar sem mais nada e alcançar por nós mesmos.

É o Deus que, ao contrário, ocupa já e sem retorno o lugar de tudo aquilo que os homens costumavam chamar "Deus" e, que, excluindo de imediato todas as demais pre- senças, exceto a sua, reivindica o privilégio de ser dele so- mente a verdade. Se não se compreende isso, permanece- se incapaz de entender aquilo que a Igreja quer dizer quando confessa: creio em Deus. Trata-se aqui de um en- contro do homem com a realidade a qual ele permanece para sempre incapaz de buscar e encontrar por si mesmo. "O que o olho não viu, o que o ouvido não escutou e o que não subiu ao coração do homem, Deus o revelou aos que o amam" (lCo 2.9). Assim se exprime o apóstolo Paulo a respeito dessa realidade. E não se pode falar dife- rentemente.

Deus, no sentido da fé cristã, tem uma existência absolutamente diferente daquilo que habitualmente se chama o divino. Sua natureza é, portanto, totalmente dis- tinta daquela dos seres que se chamavam "deuses". Nós re- sumimos tudo o que se pode dizer a respeito de Deus, segundo a fé cristã, na expressão: Deus nos lugares altíssi-

46 - Esboço de uma Dogm;ítica

mos. Ela se encontra, como vocês sabem, nas narrativas do Natal (Lc 2.14). É esta pequena frase "nos lugares altís- simos", in excelsis, que eu quero tentar explicar agora. "Nos lugares altíssimos" significa simplesmente, de- pois do que acabamos de dizer: Deus está acima de nós, acima de todas as nossas intuições, de todos os nossos es- forços, de todos os nossos sentimentos, sejam eles os mais sublimes, acima de todos os produtos de nosso espírito, sejam eles os mais admiráveis. E isso significa, em se- guida, como já vimos, que Deus não deposita coisa al- guma de sua razão de ser em nós mesmos e que ele não corresponde a nenhuma disposição ou possibilidade de nossa natureza, mas que ele não existe e nem tem reali- dade, senão em si mesmo. Como tal, ele não se revela a nós através de nossa procura, nossas descobertas, nossos sentimentos e nossos pensamentos, mas exclusivamente por ele mesmo. É precisamente esse Deus que está sentado nos luga- res altíssimos que se tornou tal para o homem, se deu, se fez conhecer a si. Deus nos lugares altíssimos não signi- fica, portanto, que ele não tem nada a ver conosco, que ele não nos concerne, que ele permanece eternamente estra- nho, mas, segundo a fé cristã, isso quer dizer, ao contrá- rio, que ele veio, desceu até nós, que ele se tornou nosso Deus. É o Deus que afirma e prova sua autenticidade, aquele que nossa mão não pode conter e que, precisa- mente por essa razão, tomou-nos pela mão; aquele que, numa palavra, é o único que merece o nome de Deus, à diferença de toda as divindades inventadas e que, radical- mente distinto de tudo o que existe, está contudo ligado a nós. Quando dizemos com o Símbolo dos Apóstolos:

Creio em Deus, é esse Deus que nós estamos confessando. Tentaremos agora formular de uma maneira mais precisa o que acaba de ser dito. Segundo a Sagrada Escri-

Deus Nos Lugares Altíssimos - 47

tura, Deus é um ser presente, vivo, atuante e que se faz co- nhecer. Por essa definição, as coisas se tornam muito diferentes do que seriam se eu tentasse simplesmente apresentar a vocês alguns conceitos relativos a um ser su- premo e infinito. Nesse caso eu estaria fazendo especula- ção. Mais eu não convido vocês a fazer especulação, pois é um método vicioso, uma vez que, longe de conduzir a Deus, esse método não pode senão nos levar a designar sob esse nome uma realidade que não é ele. Deus está presente no Antigo e no Novo Testamento que falam dele. E a definição cristã de Deus consiste simplesmente em di- zer: esses livros falam dele, portanto escutemos o que eles estão nos dizendo. Aquilo que se pode ver e entender nas Escrituras é Deus.

Observemos bem: a Bíblia, Antigo e Novo Testa- mentos, não contém jamais a menor tentativa de provar Deus. Semelhantes tentativas não existem senão fora da Bíblia e por toda parte onde se esquece com quem se está lidando quando se fala de Deus. Elas são familiares para vocês: consistem em postular a existência de um ser per- feito a partir do próprio fato de que tudo o que existe é imperfeito; afirmar que a ordem geral do mundo pressu- põe uma potência ordenadora; partir de nossa consciên- cia moral para afirmar a existência de um ser supremo, etc. Não tenho a intenção de sair em guerra contra essas diversas "provas" da existência de Deus. Não sei se vocês se dão conta de imediato do que elas têm, ao mesmo tempo, de frágil e de trágico. Aplicando-se aos deuses fa- miliares a esse mundo, elas são perfeitamente aceitáveis e, se eu tivesse de entretê-los com essas divindades, não dei- xaria de recorrer às cinco famosas provas da existência de Deus. A Bíblia não conhece esse gênero de demonstração:

48 - Esboço de uma Dogm;itica

para ela, Deus não tem necessidade de ser provado. Ele é quem, de uma extremidade a outra, prova-se por si mesmo: eis-me, diz ele, e a partir do fato que eu existo, vivo e ajo, torna-se inútil provar a minha existência. É com relação a essa demonstração que Deus dá de si mesmo que falam os profetas e os apóstolos. Impossível falar de Deus de maneira diferente dentro da Igreja. Deus não tem nenhuma necessidade de nossas provas. Aquele que se chama Deus, na Sagrada Escritura é insondável, o que quer dizer que ele não pode ser descoberto por nin- guém. Quando se trata dele na Bíblia e ele é referido com uma grande familiaridade, mais próximo de nós do que nós mesmos jamais seremos e mais real que toda outra realidade, isso não ocorre por ser dado a certos homens particularmente religiosos a possibilidade de alcançá-lo, mas porque ele se revelou, ele, o Deus oculto.

Disso resulta que não apenas nós não podemos des- cobrir e provar Deus, mas ainda que ele nos permanece incompreensível. A Bíblia nunca busca definir Deus, vale dizer, fazer com que ele se encaixe em nossos conceitos; mas, quando ela pronuncia seu nome, afirma sem cessar um sujeito que vive, que age, que se faz conhecer por si mesmo, ao contrário da entidade definida pelos filósofos como um ser supremo, infinito, longínquo e pairando so- bre o universo. A Bíblia conta Deus, relata o que ele fez, a história muito precisa realizada neste mundo entre os ho- mens por aquele que se assenta nos lugares altíssimos. Ela assinala a significação e o alcance dessa ação, dessa histó- ria e é assim que prova a existência de Deus e descreve sua natureza. Conhecimento de Deus, segundo a Bíblia e segundo a confissão de fé da Igreja é, pois, conhecimento da sua presença, de sua vida, de sua ação, de sua revelação

Deus Nos Lugares Airíssimos - 49

na obra que ele realizou. Assim, a Bíblia não é um livro de filosofia, mas um livro de história, o livro dos poderosos atos de Deus, no qual Deus se faz conhecido de nós.

I.A Escritura descreve uma obra: a obra da criação. Deus faz surgir ao seu lado uma realidade outra, distinta dele, "a criatura", sem necessidade, na liberdade de seu poder absoluto e na superabundância de seu amor.

2. Uma aliança se estabeleceu entre ele e uma de suas criaturas, entre Deus e o homem. Existe aqui, ainda, uma coisa incompreensível: por que essa aliança entre Deus e o homem, esse homem de quem a Bíblia afirma de uma ponta a outra que é um ingrato, um rebelde, um pe- cador? Apesar disso, sem querer levar isso em conta e se abstendo de endireitar a situação, Deus se dá a si mesmo à sua criatura. E o faz, tornando-se o Deus de um pe- queno povo desprezado do Oriente Médio, Israel. Faz isso, tornando-se um membro desse povo, uma criança e, finalmente, morrendo.

3.Enfim - mas tudo isso não é mais que uma única e mesma obra -, existe a redenção, a revelação da intenção de Deus que ama na liberdade, no que concerne ao ho- mem e ao mundo, o aniquilamento de tudo aquilo que se opõe a essa intenção, a manifestação de novos céus e da nova terra. Tudo isso, um nome o significa e exprime, Je- sus Cristo, o homem em quem o próprio Deus se fez visí- vel e tornou-se ação sobre a terra; Jesus Cristo, o objetivo da história de Israel, em quem a Igreja começa e termina, chave da revelação, da redenção e da nova criação. Toda a obra de Deus está contida nessa única e mesma pessoa. Falar de Deus, segundo a Sagrada Escritura, é necessaria- mente falar de Jesus Cristo.

É dentro dessa obra da criação, da aliança e da re- denção que Deus está presente, vive, age e se faz conhe-

50 - Esboço de uma Dogmática

cer. Não é permitido fazer-se abstração dessa obra quando se quer saber algo da existência e da essência de Deus. Deus em pessoa está presente nessa obra e é preci- samente o sujeito dela. Ele age na liberdade de seu amor. Certamente a palavra liberdade e a palavra amor são con- venientes quando se trata de caracterizar o que ele faz e o q ue ele é. Mas deve-se tomar cuidado para não se cair de novo do concreto no abstrato, da história nas idéias. Eu teria medo de dizer: Deus é liberdade ou Deus é amor, se bem que esta segunda fórmula seja bíblica (lJo 4.8). Nós ignoramos o que seja o amor, nós ignoramos o que seja a liberdade, mas Deus é amor, Deus é liberdade. É dele que temos que aprender sobre uma e sobre outro. Ele é aquele que ama na liberdade. É como tal que se manifesta na obra da criação, da aliança e da redenção. E aqui é que ve- mos em que consiste o amor: essa necessidade do outro como tal, o Deus único deixando de ser só para se unir totalmente à pessoa do outro. Tal é o amor, o livre amor de Deus.

Mesmo sem a criação, Deus não está só. Ele não ne- cessita dela e contudo ele a ama. Esse amor não pode ser concebido senão dentro do absoluto da liberdade divina. O amor de Deus consiste nisso: que Deus o Pai ama o Fi- lho que é, ele mesmo, Deus. Sua obra não é mais do que a manifestação do mistério do seu ser íntimo onde tudo é amor e liberdade.

Quem sabe agora possamos compreender melhor o sentido do nosso título: Deus nos lugares altíssimos. É porque Deus é o Pai, o Filho e o Espírito Santo na obra que ele realizou em Jesus Cristo, que ele está precisa- mente nos lugares altíssimos. Ele, cuja natureza consiste

Deus Nos Lugares Alríssimos - 51

em se abaixar; ele, cuja existência se manifesta no ato de descer ao fundo do abismo; ele, o misericordioso que se à sua criatura a ponto de partilhar a sua decadência mais profunda, é ele o Deus altíssimo. Ele o é, não apesar disso, em virtude de um paradoxo surpreendente, mas devido ao fato mesmo de que ele se abaixe assim. É nesse livre amor que ele está acima de tudo. Ver em Deus uma outra grandeza é não ter compreendido que ele é "total- mente Outro", é, como os pagãos, buscar Deus na infini- dade. Mas ele difere totalmente da idéia que fazemos de nossos "deuses" humanos. Ele chama Abraão, conduz um povo miserável através do deserto, recusa, por séculos in- teiros' deixar-se desconcertar pela infidelidade e desobe- diência desse povo, aceita se tornar um humilde recém- nascido no estábulo de Belém e morrer no GÓlgota. Ele é o Senhor teu Deus. Vocês compreendem o que significa o monoteísmo para a fé cristã? Deus não quer saber nada dessa mania de unidade! Deixemos de lado essa mania do

número um e compreendamos que Deus é o sujeito ao mesmo tempo único e absolutamente distinto de tudo o que existe, radicalmente diferente das divindades ridícu- las imaginadas pelos homens. Quando se compreende isso, não se pode deixar de rir deles, como o faz a Bíblia. Aqui onde o verdadeiro Deus é reconhecido, os ídolos se desmancham na poeira e só ele permanece. "Eu sou o Se-

tu não terás outros deuses diante da mi-

nha face" (Ex 20.2-3). Isso quer dizer: tu não podes ter outros deuses. Tudo o que se chama "deus" ao lado dele não é mais que o reflexo da nostalgia doentia que está in- cubada no coração do homem com desastrosas conseqü-

ências. Nessa perspectiva, o segundo mandamento se

nhor teu Deus

52 - Esboço de urna Dogmâtica

torna muito claro também: "tu não farás imagem enta-

lhada, nem nenhuma representação

rás diante deles e tu não os servirás!". Também é completamente falso postular aqui um conceito filosófico sobre a invisibilidade de Deus, assim como ver aí uma ex- pressão típica da mentalidade israelita. O próprio Deus já fez tudo para se apresentar ele mesmo a nós. Como o ho-

mem poderia querer representá-lo? Dizemos a propósito disso que a arte cristã é certamente movida pelas melho- res intenções do mundo, mas impotente, porque Deus já nos deu a sua imagem. Quando se compreende verdadei- ramente que Deus está nos lugares altíssimos, não se pode mais querer representá-lo quer seja por pensamentos, quer seja por imagens.

tu não te prostra-

Deus O Pai

o único Deus verdadeiro é por natureza e pela eternidade o Pai, origem de seu Filho e, unido a ele, origem do Espírito Santo. Em virtude dessa maneira de ser, ele é, pela graça, o Pai de todos os homens, que ele chama em seu Filho e pelo Espírito Santo para serem seus filhos.

o Deus único, o Altíssimo, é um Pai. Desde que pronunciamos essa palavra, desde que, com o primeiro artigo do Símbolo, nós dizemos Deus, o Pai, devemos logo nos lembrar do segundo artigo: Deus é o Filho, e do terceiro: ele é o Espírito Santo. Os três artigos do Símbolo nos falam a cada vez do mesmo Deus. Não existem aqui três divindades, não há em Deus divisão, ruptura. Longe de afirmar três tipos de "Deus", a Trindade fala, pelo con- trário, estritamente de um único e mesmo Deus. É assim que a Igreja tem interpretado sempre e a própria Escri- tura não nos diz nada de diferente. A Trindade cessa de ser uma construção teórica desde que se queira não sepa- rar os três artigos do Credo e reconhecer que o tema nes- ses três artigos trata do mesmo Deus criando o mundo, intervindo com Jesus Cristo e agindo pelo Espírito Santo, e não de três departamentos divinos que têm cada um seu

54 - Esboço de lima Dogndrica

"diretor"! Nós tratamos com uma só e mesma obra do único e mesmo Deus, mas esta obra é, ela mesma, um mo- vimento. Pois o Deus em quem acreditamos não é um Deus morto, nem um Deus solitário, mas, sendo inteira-

mente o Único, ele não fica, contudo, só em si mesmo, re- colhido em sua majestade divina: a obra que ele realiza, na qual ele nos encontra e que nos permite conhecê-lo, é uma ação dinâmica e viva, por natureza e para a eterni- dade; e para nós que vivemos no tempo da sua graça, ele é

o Deus único em suas três maneiras de ser. A Igreja antiga afirma: Deus é um só em três pessoas. Se tem-se em conta

a significação que esse último conceito recobria para ela,

a Igreja antiga forneceu aqui uma definição inatacável.

Com efeito, em latim e em grego, "pessoa" quer dizer exa- tamente aquilo que tentei indicar pela expressão "maneira de ser". Hoje, o termo pessoa evoca para nós, quase que irresistivelmente, a idéia de uma individualidade. E, nessa acepção, ela não é muito conveniente para exprimir o ser de Deus Pai, o Filho e o Espírito Santo. Calvino disse em algum lugar, não sem ironia, que não era permitido re- presentar o Deus trinitário à maneira da maioria dos pin- tores que se contentam em mostrar sobre a tela três "figuras estranhas". Isso não tem nada a ver com a Trin- dade. Quando a Igreja cristã fala do Deus trinitário, pre- tende dizer que ele é ao mesmo tempo e também o Pai que é o Filho e o Espírito Santo. Trata-se, portanto, por três vezes do único e mesmo Deus, de suas três maneiras de ser, de sua Trindade de Pai, de Filho e de Espírito Santo; tal ele é nos lugares altíssimos e tal ele é em sua re- velação.

É necessário, pois, desde o começo precisar que, afirmando que Deus, o Pai, é "nosso Pai", estamos di- zendo uma coisa válida e justa, correspondendo à sua na- tureza mais profunda, eternamente verdadeira. Deus é o

Deus O

Pai - 55

Pai. Do mesmo modo como quando falamos do Filho e do Espírito Santo. Esse nome de Pai, dado a Deus, não é acidental, um título provisório que nós atribuímos a ele pensando: "porque nós sabemos por experiência o que é um pai humano, é bem natural que nós tenhamos apli- cado a Deus essa idéia; mas fica bem entendido que ela não tem nenhuma ligação com a real natureza de Deus, que é inteiramente outra. Dizer que Deus é um Pai, não tem portanto valor exceto pela ligação com sua revelação, pela ligação conosco. O que Deus é por si mesmo, na eter- nidade, ignoramos. Todavia, agrada-lhe deixar seu misté-

rio e é assim que, para nós, ele é o Pai". Falar desse modo é não ver finalmente o que esse nome nos traz de verdade. Quando as Escrituras e a Confissão de Fé chamam de Pai

a Deus, elas querem dizer que é assim antes de tudo, desde o princípio. É o Pai em si mesmo, por natureza e pela eternidade e, em seguida, a partir daí, ele é o nosso Pai, o Pai de suas criaturas. Não há, pois, que começar uma paternidade humana e, em seguida, por analogia, uma pretensa paternidade divina. O contrário é que é correto: a verdadeira paternidade, a paternidade autêntica e primeira, está em Deus e é ela que funda todas as nossas paternidades humanas. A paternidade divina é aquela da

qual procedem todas as outras. A epístola aos Efésios diz:

"é dele que tira seu nome toda família - em grego patriá -

no céu e sobre a terra" (Ef3.14-15). Estamos bem dentro da verdade, a verdade primeira e fundamental quando, nessa perspectiva radical, reconhecemos Deus como nosso Pai e nos chamamos de seus filhos. Falando de Deus, o Pai, nós exprimimos uma primeira maneira de ser de Deus, que condiciona uma segunda, diferente, mas que lhe é contudo aplicável, já que lhe pertence propria- mente. Deus é Deus sendo um Pai, o Pai de seu Filho, em quem ele estabelece e define de novo, por si mesmo, sua

56 - Esboço ue uma Dogm,írica

qualidade de Deus. Dizemos bem que ele estabelece e de- fine, não que a criou - o Filho foi engendrado e não cri- ado! Todavia, essa relação entre o Pai e o Filho não esgota ainda o mistério de Deus, sua natureza profunda, além de, por outro lado, não ameaçar a unidade divina. Acon- tece que o conjunto Pai e Filho afirma uma terceira vez essa unidade na presença do Espírito Santo. De Deus o Pai e de Deus o Filho, procede o Espírito Santo. Spiritus que procedit a Patre Filioque. É isso que jamais compreen- deram completamente os infelizes representantes da Igreja do Oriente: o Pai e o Filho selando sua unidade no Espírito Santo que a realiza. O Espírito Santo foi cha- mado, às vezes, de vínculo da caridade, vinculum carita- tis. Não é apesar de, mas por causa da presença em Deus do Pai e do Filho que existe unidade. Deus é Deus ao se estabelecer em si mesmo e por si mesmo como Deus, ao mesmo tempo diferente e idêntico a si mesmo em sua di- vindade. E é assim que ele não está só em si mesmo. Em si, porque é o Deus trinitário, existindo a vida em toda a sua riqueza, a ação e a comunhão em toda a sua pleni- tude. Ele é o movimento e o repouso. Nós podemos com- preender assim tudo o que ele é por nós: o Criador que se dá a nós em Jesus Cristo e nos une a ele pelo Espírito Santo; é a obra de sua livre graça, a superabundância de sua plenitude. Superabundância misericordiosa e gra- tuita! Deus não quer permanecer o que ele é em si mesmo e por si mesmo; aquele cuja presença preenche a eterni- dade quer ser para nós. Que Deus, na plenitude de sua pa- ternidade eternal, por pura graça, - não por que é seu "ofício" - queira também ser nosso Pai, é uma verdade so- bre a qual não temos nenhuma influência. Porque ele é o Pai eterno, toda sua obra não pode deixar de levar sua marca. Se ele cria, se ele faz nascer seres que, ao contrário de seu Filho, são distintos dele, se ele aceita existir para

Deus O

Pai - 57

eles, isso não pode significar outra coisa que: ele quer nos fazer participar de sua vida, "a fim de que nos tornemos participantes da natureza divina" (2Pe 1.4). Ao chamar- mos Deus de nosso Pai, nós não dizemos outra coisa. A nós é permitido dar-lhe o nome que ele se dá a si mesmo em seu Filho. Em si mesmo, o homem não é um filho, mas uma criatura de Deus,jactus et non genitus! Essa cri- atura, o homem, está sob todos os aspectos em revolta aberta contra ele, um sem -Deus e, contudo, Deus o chama de seu filho. Se podemos, nós mesmos, nos cha- mar de seus filhos, é unicamente por causa do ato de sua livre graça, por causa de seu aviltamento e de sua miseri- córdia, apesar de nós, por que ele é o Pai e nos dá o poder de participar de sua vida. Nós somos seus filhos em seu Filho e pelo Espírito Santo e, portanto, não porque haja uma relação direta entre Deus e nós, mas porque Deus nos faz participar, a partir de seu próprio movimento, de sua natureza, de sua vida e de seu ser. É assim que o bom grado e a vontade de Deus, o próprio mistério da sua es- sência divina, o mistério da sua relação com seu Filho, contêm, de fato, a chave da sua relação conosco; e que nele, seu Filho, podemos nos chamar seus filhos pelo Es- pírito Santo, quer dizer, pelo mesmo vínculo de caridade que une o Pai e o Filho. É nessa terceira maneira de ser de Deus, o Espírito Santo, que se acha contida nossa vocação segundo a mesma e eternal decisão do Pai. O que Deus é e faz em seu Filho, concerne diretamente a você, vale para você e lhe beneficia. O que é verdadeiro na eternidade, no próprio Deus, torna-se verdadeiro aqui e agora no tempo. De que se trata? Nem mais nem menos que de uma repeti- ção da vida divina, repetição que nós não podemos nem provocar, nem suprimir, que o próprio Deus suscita no mundo que ele criou, vale dizer, fora dele. Glória a Deus nos lugares altíssimos! É isso que estamos dizendo

58 - Esboço de uma Dogm,ítica

quando chamamos Deus de nosso Pai. Mas porque ele não é o Pai somente, mas também o Filho - vale dizer, Deus conosco -, devemos acrescentar também: "paz so- bre a terra entre os homens que ele quer bem".

o Deus Todo-Poderoso

o que distingue a potência de Deus da fraqueza, o que a eleva acima de todos os outros poderes e o que a opõe vitoriosamente à "força em si", é que ela é a potência do direito decorrente do amor que ele fez brilhar em Jesus Cristo. Em conseqüência, a potência de Deus contém, qualifica e delimita todo o domínio do possível e domina absolutamente o conjunto do real.

Pelo adjetivo "Todo-poderoso", o Símbolo 10 enuncia uma qualidade de Deus, uma perfeição daquele que ele denomina Deus, o Pai. É a única que ele menciona. Mais tarde, quando se tentou falar de Deus de uma maneira sistemática e descrever o seu ser houve menos concisão. Falou-se de sua asseidade (isto é, de seu ser enquanto de- pendente de nada além de si mesmo), de sua infinitude no tempo e no espaço, de sua eternidade. Acrescentou-se, em seguida, sua santidade e sua justiça, sua misericórdia e sua paciência. É preciso prestar muita atenção quando se aplicam assim a Deus os conceitos humanos: eles não podem ser justificáveis, exceto a título indicativo, sem a

60 - Esboço de uma Dogmárica

pretensão de compreender o ser do próprio Deus. Porque Deus é incompreensível. Não se trata, por conseguinte, de definir, por exemplo, sua santidade ou sua bondade a par- tir das idéias que temos de santidade ou de bondade; es- ses dois atributos não podem ser definidos a não ser a partir do próprio Deus, daquilo que ele é. Ele é o Senhor, ele é a verdade. É indireta e secundariamente que sua pa- lavra pode ser retomada por lábios humanos. No lugar e na posição de todas as qualificações que podem ser utili- zadas para descrever a natureza de Deus, o Símbolo dos Apóstolos não usa mais que uma única palavra: o adjetivo Todo-poderoso, servindo como qualificativo para o subs- tantivo "Pai". Essas duas palavras devem ser interpretadas uma pela outra: o Pai é o Todo-Poderoso, o Todo-Pode- roso é o Pai.

Deus é Todo-poderoso. Isso significa, a prinCIpIO:

ele é potência. Potência quer dizer poder, recurso, virtua- lidade em relação a uma dada realidade. Toda realidade dada, determinada e subsistente pressupõe um poder fundador. A respeito de Deus nos é dito que ele tem esse poder de criar, de determinar, de manter; mais, que ele tem onipotência, isto é, que ele tem tudo em sua mão e constitui a medida do conjunto do real e do possível. Não existe realidade da qual ele não seja ao mesmo tempo a possibilidade. Nada de possibilidade, nada de poder sus- cetível de limitar ou de impedir sua ação. Ele pode tudo o que quer. Poder-se-ia, então, também descrever a potên- cia de Deus como a expressão de sua liberdade. Deus é absolutamente livre. Isso implica a eternidade, a ubiqüi- dade e a infinitude. Ele tem a potência sobre toda a cadeia de possíveis conteúdos no tempo e no espaço e dos quais ele é o fundamento e a medida. Ele é sem limites. Tudo isso a filosofia pressente corretamente, mas nós estamos ainda muito longe da realidade que implica esse conceito

o DeLIs Todo-Poderoso - 61

de onipotência divina. Existem muitos fenômenos aos quais facilmente se prestam os atributos da potência ou da onipotência divina e que não têm nenhuma ligação com a onipotência de Deus. Conservaremos, então, as de- finições gerais.

Nossa tese inicial indica três graus: a potência de Deus se distingue da fraqueza, ela ultrapassa todos os ou- tros poderes e ela se opõe, vitoriosamente, à "força em si".

A potência de Deus se distingue de todas as formas

de fraqueza. A fraqueza pode, com efeito, dispor de uma certa potência e o impossível de uma certa margem de possibilidade. Mas Deus não é de nenhuma maneira fraco nesse sentido, sua potência é real, efetiva. Ele não pode ser aquele que nada poderia nem aquele que não poderia tudo, mas ele se distingue de todas as outras potências porque ele pode tudo o que ele quer. Falar de impotência de Deus é muito simplesmente ter esquecido que se fala dele. Representar-se Deus como um personagem longín- quo, fora do mundo, é com certeza ter mudado de objeto, é imaginar um ser qualquer, fraco e impotente. Deus não tem nada de uma sombra, de um fantasma inofensivo; ele é o contrário da impotência.

Essa potência de Deus ultrapassa todos os outros po-

deres. Esses outros poderes ou potências exercem sobre nós uma pressão aparentemente muito mais forte do que o próprio Deus. Eles parecem ser as únicas coisas reais. Contudo, Deus não faz parte das potências deste mundo, ele nem mesmo é a mais alta, mas ele as ultrapassa infini- tamente, ele é o Rei dos reis, o Senhor dos senhores, cujo poder nada limita nem condiciona. De sorte que todas es- sas outras potências, que como tais existem certamente, encontram-se por definição sob seus pés. Elas não sabe- riam lhe fazer concorrência.

G2 - Esboço de uma Dogm,ítica

E eis o último ponto, que é o mais importante por- que o mais suscetível de dar lugar a toda sorte de confu- sões: Deus não é a 'força em si". É muito sedutor imaginar Deus como a soma de todas as potências reunidas, de fazê-lo, no sentido neutro e abstrato, um sinânimo do ser, da liberdade, do poder, da força em si. Seria Deus, dentro dessa perspectiva, a "condensação" daquilo que os latinos chamavam potentia? Constatamos que se tem falado dessa maneira com muita freqüência e que é extrema- mente tentador para o espírito considerar a potência em si como um domínio sagrado, como a verdade última e a chave do mistério do ser. Quem não se lembra de Hitler falando de Deus e chamando-o de "Todo-Poderoso"? Ora, o "Todo-Poderoso" não é Deus e não é o caso de se partir da idéia de onipotência para se definir Deus. Falar de "Todo-Poderoso" é expor-se ao terrível perigo de pas- sar ao largo de Deus. Invocar ao "Todo-Poderoso" ou "a potência em si" é abrir o abismo, liberar o caos, chamar o diabo. Não há precisamente melhor definição do diabo do que a que consiste em imaginar um poder em si, neu- tro, independente, soberano. É isso que a Bíblia chama de

caos, o tohuwabohu 11 que Deus abandonou e rejeitou quando criou os céus e a terra. A antítese de Deus, o pe- rigo que não cessa de ameaçar sua criação, é precisamente esse ataque, essa ofensiva impossível do livre-arbítrio, da potência em si, buscando se impor e dominar como tal. Desde que a potência em si reivindique a honra e o res- peito, desde que ela entenda ser autoridade e ditar o di- reito, estamos em face da "revolução do niilismo". A

II. N. do T.: Em hebraico no original. Tohuwabohu é a expressão que se en- contra no segundo versículo do Gênesis e refere-se à situação da terra no princípio da sua criação, podendo ser traduzida por vazia e vaga, conforme a Bíblia de Jerusalém, ou mesmo por o deserto e o vazio numa tradução mais literal.

o Deus Todo-Poderoso - 63

potência em si não é outra coisa senão o nada e quando ela se desencadeia e busca se impor é a revolução e não a ordem que ela traz. A potência em si é o mal, o fim de tudo. Ela tem contra si a potência de Deus, a única que é verdadeira. A potência de Deus não somente a ultrapassa, mas ainda é contra ela. Deus diz não à revolução do nii- lismo. Mas é um não vitorioso, ou seja, a intervenção de Deus provoca o mesmo fenômeno que o sol dissipando a bruma: a potência em si perde todo o seu poder e toda sua realidade. Desde o instante em que ela é desmasca- rada em todo o seu horror, ela é privada do respeito que

se lhe manifestou. Os demônios fogem. Deus e a potência

em si se excluem mutuamente. Deus significa o possível, a

potência em si, o impossível.

Mas em que medida Deus se opõe à força em si, em que medida ultrapassa todos os outros poderes e em que

medida se distingue de todas as formas da impotência? A Sagrada Escritura nunca fala da potência de Deus, de suas manifestações e de suas vitórias, separando-a do direito.

A potência de Deus é, de um ponto a outro, uma potência

de direito. Ela é, não potentia, mas potestas, vale dizer, po- tência legítima, fundada no direito.

Mas o que é o direito? Retomando o que já foi dito, podemos afirmar que a potência de Deus é a do direito porque ela é a onipotência de Deus, o Pai. Vamos lembrar aqui como falamos do vínculo que une o Pai e o Filho, dessa vida de Deus que, longe de ser solidão é, ao contrá- rio, movimento, mudança, comunhão íntima. Portanto, a onipotência de Deus é, conforme o direito, a potência da- quele que, em si mesmo, é o amor. Tudo o que ameaça o amor - a solidão e a afirmação de si mesmo - constitui uma injustiça e permanece sem poder real. Deus o re- nega. O que ele aprova é a ordem conforme a que reina nele mesmo entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A po-

64 - Esboço de uma Dogll1,itica

tência de Deus é uma potência de ordem. A potência de Deus é boa, santa, justa, misericordiosa, paciente. Por fim, o que distingue a potência de Deus da impotência é que aquela é a do Deus trinitário.

Essa potência é a do amor que foi iluminado e reve- lado livremente em Jesus Cristo. É, pois, ainda a obra de Deus que nos vai servir de critério do possível e do real. O conteúdo de todo poder, de toda virtualidade, de toda li- berdade' coincide exatamente com o que Deus é e faz. A potência de Deus não é uma potência neutra, anónima; pedir a ele, por exemplo, que faça com que dois e dois se- jam cinco é infantil e sem propósito, porque atrás de questões desse gênero se esconde precisamente uma idéia abstrata do "poder". E uma potência suscetível de mentir cessaria de ser real. Ela não seria mais que impotência, potência de negação, pretendendo dispor de tudo se- gundo a sua vontade. Ela não tem nada a ver com Deus, vale dizer, com a potência real. A potência de Deus é uma potência autêntica; como tal, ela está acima de tudo. "Eu sou o Deus Todo-poderoso, anda em minha presença e sê íntegro" (Gn 17.1). É esse "Eu" que define o Deus Todo- poderoso e, portanto, a própria onipotência. "Todo poder me foi dado no céu e sobre a terra" (Mt 28.18). É a ele, Je- sus Cristo, que todo o poder foi dado. É portanto na obra de seu Filho que a onipotência de Deus se torna visível e viva, enquanto potência salutar e boa. E é desse modo que Deus é o conteúdo, a definição e a limitação de todos os possíveis; transcendente no sentido em que ele domina absolutamente o conjunto do real; imanente no sentido em que ele habita toda forma do real - ele, o Sujeito eterno que pronuncia sua Palavra e realiza a sua obra se- gundo seu desejo de amor e para o nosso bem.

o Deus Criador

b'm se fazendo homem, Deus manifestou e atestou que ele não quer existir unicamente para si nem ficar solitário, Para o mundo distinto dele, ele concede propriamente a realidade, a liberdade e uma maneira de ser. Sua Palavra é a força que anima todo ente criado. Deus suscita, mantém e dirige toda criatura para que ela manifeste sua glória, da qual o homem é chamado a ser a testemunha ativa pela sua posição no centro da criação.

Creio em Deus, o Pai Todo-poderoso, criador do céu e da terra. Quando nós abordamos esse ponto de Credo cristão, nós não saberíamos suficientemente nos dar conta de que nos encontramos aqui, igualmente, face ao mistério da fé, que implica na intervenção da revelação divina como única garantia de nossos conhecimentos. O primeiro artigo do Símbolo, não é uma espécie de átrio dos gentios, um tipo de área de entendimento preliminar, onde cristãos, judeus e pagãos, crentes e não-crentes, pu- dessem se encontrar e reconhecer com uma certa unani- midade a existência de um Deus criador. A significação dessa última expressão, como, por outro lado, aquela da

66 - Esboço de uma Dogm;ítica

própria criação, permanece tão misteriosa para nós, ho- mens, quanto todas as outras afirmações do Credo. Não nos é muito mais fácil crer no Deus criador do que crer na concepção de Jesus Cristo pelo Espírito Santo e no nascimento virginal. É falso pretender que a declaração relativa a Deus criador nos seria por assim dizer, direta- mente acessível e que apenas o conteúdo do segundo ar- tigo necessitaria de uma revelação especial. Encontramo- nos, ao contrário, nos dois casos, colocados diante do mistério de Deus e sua obra, e há apenas uma única e mesma abordagem.

Com efeito, o Símbolo não fala do mundo ou, em todo o caso, ele não o cita senão de passagem quando menciona o céu e a terra. Não está dito: "Eu creio no mundo criado", nem mesmo: "Eu creio na obra da cria- ção". Está dito: "Eu creio em Deus, o criador". E tudo o que está afirmado a respeito da criação, depende desse único e mesmo sujeito divino. É sempre a mesma regra: Deus é o sujeito agente, todo o resto é predicado. Aqui, como alhures, toda a ênfase se apóia no conhecimento de Deus cuja obra não pode ser compreendida senão a posterior, a partir do sujeito criador.

a Credo fala do Deus criador e, em conseqüência, fala de sua obra, a criação do céu e da terra. Por pouco que nós sejamos sérios, vemos claramente que não se trata aqui de um domínio, de alguma maneira, acessível à reflexão ou à intuição humana. As ciências naturais po- dem excitar nossa imaginação e nossa sede de saber ao nos propor diversas teorias para a evolução, ao fazer dan- çar diante dos nossos olhos os milhões de anos no decor- rer dos quais o universo se teria formado pouco a pouco; mas quando elas teriam conseguido chegar à origem do mundo tal como é? Continuidade é bastante diferente deste começo absoluto, com o qual os conceitos de Cria-

o Deus Criador - 67

dor e de criação se relacionam. Certamente é um erro ca- pital falar de um mito da criação. O mito pode, no máximo, constituir um paralelo à ciência exata, pois a sua função também consiste em pensar no que é e será sem- pre.

O mito trata dos problemas inevitáveis e eternos co- locados para o homem de todas as épocas pela existência da vida e da morte, do sonhar e do acordar, do nasci- mento e da morte, do dia e da noite, do amanhecer e do entardecer, etc. Tais são os temas do mito. O mito consi- dera o mundo, por assim dizer, a partir de seus limites, mas trata-se do mundo já existente. Não existe mito da criação pela simples razão de que a criação como tal, per- manece inacessível ao mito. É assim, por exemplo, com o mito babilônico da criação, onde estamos claramente tra- tando com um mito sobre crescimento e decadência, que não tem conexão alguma com Gênesis 1 e 2. Pode-se, no máximo, afirmar que o texto de Gênesis conservou al- guns traços mitológicos. Mas a maneira pela qual a Bíblia os utiliza é sem paralelo na mitologia. Se tivermos de dar um nome ao relato bíblico ou classificá-lo dentro de um gênero literário, pode-se falar de saga.

Em Gênesis 1 e 2, a Bíblia fala de acontecimentos que escapam ao nosso conhecimento histórico. Mas ela está falando com base em um conhecimento e se reme- tendo a uma história. A característica dos relatos bíblicos da criação é que eles estão estreitamente ligados à história de Israel, vale dizer, à história da ação de Deus desencade- ada pela sua aliança com o homem. Segundo o Antigo Testamento, essa história começa já com a criação do céu e da terra. Os dois relatos da criação são, um e outro, ex- pressamente ligados ao tema de todo o Antigo Testa- mento: o primeiro mostra a aliança na instituição do

(,8 - Esboçc de uma Dogm,ítica

Shabat; O segundo a mostra como continuação da obra de criação.

É impossível separar o conhecimento do Criador e

de sua obra da ação de que o homem é o objeto da parte de Deus. É somente quando nos é apresentada a interven-

ção operada em nosso favor por Deus em Jesus Cristo,

que podemos conhecer a pessoa do Criador e o sentido de sua obra. A criação é a analogia temporal, distinta de Deus, do que se passa no próprio Deus, vale dizer, do mistério em virtude do qual ele é o Pai de seu Filho. O mundo não é Filho de Deus, ele não é "engendrado", mais criado. Contudo, a ação de Deus como criador somente pode ser compreendida, do ponto de vista da fé cristã, como um eco, um reflexo, uma imagem provinda da rela- ção interna e profunda que existe entre Deus, o Pai e Deus, o Filho. E é a razão pela qual o Símbolo dos Após-

tolos atribui a obra da criação ao Pai. Isso não significa que apenas o Pai seja o criador, mas não deixa de subli- nhar essa analogia entre a criação e a relação viva que une o pai e o Filho. O conhecimento da criação é o conheci- mento de Deus e, por conseqüência, conhecimento de fé, no sentido mais rigoroso e mais exclusivo. Ela não é uma espécie de antecâmara onde a teologia natural pudesse ter livre curso. Como pretenderíamos reconhecer a existên- cia do Pai se ele não nos tivesse sido revelado de antemão

cm seu Filho? Nós não saberíamos extrair a idéia de um

Deus criador a partir da existência do mundo como tal,

em

toda a sua diversidade. O mundo tal como é, com to-

dos

os seus pesares e alegrias, jamais poderá ser para nós

mais do que um espelho obscuro, mais que uma ocasião de exprimir nosso otimismo ou nosso pessimismo; ele permanece incapaz de nos fornecer o mínimo conheci- mento do Deus criador. Ao contrário, cada vez que o ho- mem quis partir das coisas criadas - o céu estrelado

o Deus Criador - 69

acima dele, sua própria imagem no fundo de si mesmo - para atingir a verdade, ele não conseguiu mais do que in- ventar um ídolo. Se Deus pode ser conhecido para, em se- guida, ser reconhecido dentro da criação que se torna assim um canto de louvor à sua glória, é porque ele não pode ser buscado e encontrado em outro lugar que não naquele onde ele está realmente: em Jesus Cristo. Pela en- carnação, Deus tornou manifesto e digno de fé o fato de que ele é o Criador do mundo. Não há dois tipos de reve- lação.

o artigo do Credo que fala do Criador e de sua obra quer afirmar que Deus não existe para ele mesmo, mas que ele fez surgir uma realidade distinta e diferente de si, o mundo. De onde o sabemos? Não temos já todos nos perguntado se todo esse universo que nos rodeia não se- ria mais do que, finalmente, uma aparência, um sonho? Não aconteceu a vocês de, por vezes, experimentarem uma dúvida absolutamente radical - não a propósito de Deus, o que seria uma bobagem! - mas a propósito da re- alidade da existência de vocês? De se perguntar se a vossa vida inteira não seria uma ilusão e se o que nós chama- mos de real não seria nada mais do que "o Véu de

Maya",12 isto é, irreal? E pensar que a única coisa que nos resta a fazer é deixar de sonhar o mais rápido possível a fim de entrar no "nirvana" de onde saímos? A afirmação da criação é o oposto dessa atitude de desespero. De onde podemos saber, com toda a verdade, que uma tal atitude é absurda, que a vida não é um sonho, mas uma realidade, que eu sou eu mesmo e que o mundo existe? A fé cristã não conhece senão uma resposta: ela afirma com o se- gundo artigo do Símbolo, que foi do agrado de Deus tor-

70 - Esboço de uma Dogm;írica

nar-se um homem, que em Jesus Cristo nós lidamos com o próprio Deus, o Criador feito criatura, com Deus que viveu como todos nós na moldura de nosso tempo e de nosso espaço, entre nós, em tal lugar, em uma tal época. Se isso é justo, se é bem verdade que Deus estava em Cristo e se esse axioma do qual tudo depende não é um logro, então existe um lugar onde podemos encontrar e conhecer a criatura. Com efeito, se é exato que o Criador se tornou ele mesmo criatura, se Deus se fez homem - e o conhecimento cristão começa com essa afirmação - Jesus Cristo nos entrega o segredo do Criador e de sua obra, o segredo da natureza, e esse é o conteúdo do primeiro ar- tigo. A partir do fato de que Deus se fez homem, não é mais possível colocar em dúvida a existência da criatura. Quando olhamos para Jesus Cristo e compreendemos que ele viveu nossa vida, aqui, essa existência nos é anunciada como Palavra de Deus; essa Palavra concerne ao Criador, ela concerne à sua obra e à parte mais surpreendente dessa obra: o homem.

Segundo a fé cristã, o mistério da criação não reside, em primeiro lugar, como o pensam aqueles que os salmos chamam os "insensatos" (SI 14.1), na questão relativa à existência de uma causa primeira que se chamaria Deus, pois, na interpretação cristã, não poderíamos pressupor a existência do mundo para se perguntar em seguida se po- deria existir também um Deus. Mas nosso único ponto de partida é Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. E é daqui que surge, em seguida, o grande problema cristão! Seria verdade que Deus não deseja ser um Deus para si, mas que chama o mundo para uma existência independente, de tal sorte que nós existimos como seres distintos ao lado e fora dele? Aqui está o enigma. Aquele que busca, mesmo que um pouco, conhecer Deus, compreendê-lo e contem- plá-lo tal como ele se revela a nós "nos lugares altíssimos",

o Deus Criador - 71

no seu mistério, na sua onipotência, na sua trindade, não pode deixar de se surpreender ao constatar que nós exis- timos e que o mundo existe fora e ao lado dele. Deus não tem nenhuma necessidade de nós, ele não tem nenhuma necessidade do universo, do céu e da terra. Ele mesmo é sua própria riqueza. Ele possui a plenitude da vida, ele detém toda a glória, toda beleza, toda bondade, toda san- tidade. Ele é auto-suficiente. Ele vive da sua própria beati- tude. Por que, então, o mundo? Tudo é plenamente nele, o Deus vivo. Como pode ele ter alguma coisa ao lado dele, alguma coisa da qual não necessita? Tal é o enigma da cri- ação. E eis a resposta da doutrina da criação: Deus, que não tem nenhuma necessidade de nós, criou o céu e a terra, me criou a mim mesmo, "sem que eu fosse digno, pela sua pura bondade e misericórdia paternal. Eu devo, por todos esses benefícios, bendizê-lo e render-lhe gra- ças, servi-lo e obedecê-lo. É isso que eu creio firme- mente". Vocês compreendem, através dessas palavras de Lutero, o aturdimento do crente em face da criação, este maravilhamento diante da bondade de Deus, que não quer ficar solitário, mas deseja que ao lado dele, uma ou- tra realidade exista?

A criação é uma graça: diante de uma tal afirmação se quereria poder ficar imóvel no medo, no tremor e no conhecimento. Deus confere a esse que não é ele o privi- légio de existir e lhe concede uma realidade própria, uma maneira de ser e uma liberdade. A existência da criatura, ao lado de Deus, tal é o grande enigma, tal é o milagre in- compreensível, a questão fundamental à qual nos é pe- dido e permitido responder, tal é o verdadeiro problema existencial, radicalmente distinto do enganoso e seguro problema: existe um Deus? Que exista um universo, eis o inaudito, eis o milagre da graça de Deus. Não é para nós um perpétuo motivo de aturdimento o ser e o ver os se-

72 - Esboço de lima Dogmática

res? Eu posso existir, o mundo pode existir, ainda que seja- mos, um e outro, distintos de Deus, ainda que nos não sejamos Deus, nem um, nem o outro. O Deus altíssimo, o Deus triúno, o Deus Todo-poderoso, o Pai, não é um ti- rano, ele concede o ser ao que não é ele, ele o deixa ser; mais, ele lhe dá o ser. Nós existimos, o céu e a terra exis- tem na sua pretensa infinitude, porque Deus concede existência. Tal é a grande afirmação desse primeiro artigo.

Mas dizer que Deus concede o ser ao mundo, lhe dá

a sua realidade, sua maneira de ser e sua liberdade, signi- fica precisamente, contra as afirmações reiteradas do panteísmo, que o mundo não é Deus. As coisas são tais que nós não somos Deus, mas que estamos perpetua- mente expostos à tentação perniciosa de "querer ser como Deus". Do mesmo modo, não é o caso de seguir as espe- culações da gnose antiga ou nova, afirmando que o que a Bíblia denomina o Filho de Deus, nada mais é, em defini- tivo, do que o mundo criado, ou que o universo é, por es- sência, gerado por Deus. Não se trata ainda de considerar

o mundo como uma emanação de Deus, comparável a um

rio que teria sua fonte nele. Nesse caso, não se poderia mais falar de criação, mas somente de um movimento vi- tal, saído de Deus e exprimindo seu ser. Criação significa

outra coisa, uma realidade diferente de Deus. Enfim, o mundo não deve ser compreendido como uma simples manifestação de Deus, o qual não seria, finalmente, mais do que uma idéia. Deus, que é o único real, o único essen-

cial e o único livre, é uma coisa, o céu e a terra, o homem

e o universo sendo outra, que não deve ser confundida

com Deus, mas que não existe senão por Deus. Essa reali- dade diferente não é, pois, autônoma: não existe de um lado, o mundo e de outro, Deus, como duas realidades in- dependentes, Deus não sendo para nós mais do que uma divindade distante e ausente, de sorte que haveria dois

o Deus Criador - 73

reinos, dois mundos separados: de um lado, o mundo, com sua própria estrutura e leis e, de outro, em algum lu- gar mais longe, Deus, seu reino e seu universo próprios,

se prestando às nossas mais ricas descrições, nos ofere- cendo mesmo uma via de acesso na qual o homem pode- ria ser considerado "em marcha" em direção aos cumes.

O mundo assim compreendido não seria a criação de

Deus, não lhe pertenceria inteiramente nem estaria fun-

damentado nele.

Não; o que Deus confere ao mundo é a realidade de criatura, a natureza da criatura, e a liberdade de criatura, uma existência apropriada à criação, o mundo. O mundo não é uma aparência, o mundo existe, mas existe en- quanto criatura. É-lhe permitido existir ao lado de Deus.

A realidade que Deus lhe confere, repousa sobre uma cre-

atio ex-nihilo, sobre uma criação a partir do nada. Deus faz surgir uma realidade diferente dele aqui onde não ha- via nada, nenhuma matéria primeira. Se existe um uni- verso, se nós mesmos existimos pela única operação da graça divina, não podemos nos esquecer um só instante que na origem de nossa existência e da existência do uni- verso, há não somente uma ação, mas uma criação de

Deus. Tudo o que existe fora de Deus permanece constan- temente subtraído por ele ao nada. A maneira de ser que Deus concede à criatura significa ser dentro do tempo e dentro do espaço; o fato de possuir um começo e um fim,

de vir a ser para cessar de ser. Para toda criatura, há um

tempo em que ela não era ainda e um tempo em que ela não será mais. Há, portanto, uma pluralidade de seres. Há

o passado e o presente, o imediato e o distante. Dentro da passagem de um para outro, o mundo encontra suas duas dimensões: o tempo e o espaço. Deus é eterno. Isso não quer dizer que não há nele o tempo, mas que trata-se de um tempo diferente do nosso que, finalmente, não é

74 - Esboço de lima Dogm;írica

nunca um verdadeiro presente e para o qual o espaço sig- nifica sempre separação. Para Deus, o tempo e o espaço são livres de limites sem os quais para nós eles permane- cem impensáveis. Deus é o Senhor do tempo e do espaço. A partir do fato que ele é a origem dessas duas formas da realidade, ele escapa à limitação e à imperfeição insepará- veis do estado de criatura.

Enfim, a liberdade que Deus dá à criatura significa:

existe uma contingência, uma possibilidade de ação da criatura, vale dizer, uma liberdade de decisão, um certo poder de ser. Mas essa liberdade não pode ser mais do que aquela própria ao estado de criatura que quer que nós não tenhamos nossa realidade em nós mesmos e que nós sejamos ligados formalmente às categorias do tempo e do espaço. Visto que essa liberdade é real, ela é limitada, de uma parte pelas leis que regem o universo e, de outra parte, pela soberania de Deus. Pois nós não somos verda- deiramente livres a não ser porque Deus, o Criador, é, ele mesmo, infinitamente livre. Toda liberdade humana não é mais que um reflexo imperfeito da liberdade divina.

A criatura está ameaçada pela possibilidade - exclu- ída para Deus e para ele somente - do nada e da ruína. Ela não pode pretender subsistir em sua maneira de ser a menos que Deus o queira. Caso contrário haverá por to- dos os lados a irrupção do caos. Por si mesma, a criatura não saberia nem subsistir nem escapar ao caos. E a liber- dade de decisão tal qual Deus a confere ao homem, não é a de escolher entre o bem e o mal. O homem não é, no pensamento de Deus, o asno de Buridan. Com efeito, o mal não entra no quadro das possibilidades próprias às criaturas de Deus. A liberdade de decisão dada ao ho- mem, consiste em liberdade para escolher o único Ser a quem a criatura de Deus pode escolher, em louvar Aquele que a criou, em cumprir a sua vontade - isso significa: li-

o DeLIs Criador - 75

berdade de obedecer. Mas trata-se de decisão em liber- dade. E é aqui que aparece o perigo. Se acontece de a criatura fazer um outro uso de sua liberdade que não o único uso possível, se ela pretender sair de seu papel e de sua realidade, vale dizer "pecar", se separar de Deus e de si mesma, ela não poderia mais do que cair, na seqüência de sua desobediência - sua queda sendo coincidente com a impossibilidade mesma dessa desobediência, com essa eventualidade para sempre excluída da própria criação! A partir de então, ela não pode mais estar dentro do espaço e do tempo a não ser para sua desgraça, sua existência no quadro do passado, do presente e do futuro significando a infelicidade. É a queda dentro do nada. Poderia ser dife- rente? Se abordo esse tema, é unicamente para mostrar que esse vasto domínio que nós chamamos o mal, a morte, o pecado, o diabo e o inferno, não é criação de Deus, mas, ao contrário, é o que está excluído pela pró- pria criação, aquilo para o que Deus diz não. E se existe uma realidade do mal, não pode ser senão esta realidade ao mesmo tempo excluída e negada, à qual Deus voltou as costas e que transpôs ao criar o mundo e ao criá-lo bom. "E Deus viu tudo o que havia criado, e eis que isso era muito bom': O mal não foi criado por Deus e não possui a qualidade de criatura; se se desejar a qualquer preço de- fini-lo evitando uma fórmula puramente negativa, deverá ser dito que ele nada mais é que a potência do ser que surge sob o efeito do "não" pelo qual Deus barra a rota ao nada!

Não nos é permitido buscar trevas onde tudo é luz. Deus é o Pai da luz. Uma vez que nos pomos a falar de um Deus absconditus caímos na idolatria. É Deus, o Criador, que concede à criatura seu ser. E tudo o que é, tudo o que tem realidade, não existe fora da graça de Deus.

76 - Esboço de lima [)ogndtica

A Palavra de Deus é a força que permite a todas as criaturas serem o que elas são. Deus as criou, as governa e as mantêm para servir de teatro à sua glória. A esse res- peito, eu gostaria ainda de precisar alguns pontos concer- nentes ao fundamento e o fim da criação, os quais são, em definitivo, uma só e a mesma coisa.

o fundamento da criação é a graça de Deus. Que exista uma graça de Deus é o que se impõe a nós de uma maneira viva e efetiva em sua Palavra. No momento em que Deus fala e falou dentro da história de Israel, em Je- sus Cristo e dentro da sua Igreja, no momento em que diz sua Palavra hoje e que a dirá amanhã, a criação foi, é, e será. O que existe não existe por si mesmo, mas pela Pala- vra de Deus, por causa dessa Palavra, dentro do sentido e em conformidade à intenção dessa Palavra. Deus suporta todas as coisas, ta panta, pela sua Palavra (Hb 1.2; cf. Jo 1.1 ss e CI 1). Tudo foi criado por ele, por causa dele. A Palavra de Deus, tal como está atestada na Sagrada Escri- tura, a história de Israel, de Jesus Cristo e de sua Igreja, eis o que está primeiro na ordem das realidades; o mundo com todas suas luzes e sombras, seus abismos e seus cumes, vem em segundo. É pela Palavra que o mundo é. Que reviravolta de todos os nossos hábitos de pensar! Não nos deixemos perturbar pela dificuldade que possa surgir para nós por causa de nossa concepção habitual do tempo! O mundo veio a existir, foi criado e é carregado pela criança nascida na manjedoura de Belém; pelo ho- mem que morreu na cruz do Gólgota e ressuscitou no ter- ceiro dia. Tal é a Palavra criadora da origem de tudo o que existe. É aqui que se encontra o sentido, o fundamento da criação, e é por isso que a Bíblia se abre com as palavras:

"No princípio, Deus criou os céus e a terra. E Deus disse:

" Desde as primeiras palavras desse estranho

primeiro capítulo da Escritura, Deus fala essa linguagem

"Que haja

o Deus Criador - 77

atordoante! Que não se veja aí uma palavra mágica, ope- rando uma espécie de encantamento universal, mas, an- tes, que se siga palavra a palavra o texto bíblico que nos mostra como tudo surgiu dessa Palavra que estava no princípio: a luz, o céu e a terra, as plantas e os animais e, por fim, o homem.

Se nos perguntarmos agora qual é o objetivo da cri- ação, a quais fins correspondem o universo, o céu, a terra e todas as outras criaturas, eu não conheço senão uma resposta: tudo isso deve servir de teatro à glória de Deus. Que Deus seja glorificado, tal é o sentido de toda a reali- dade. Doxa, gloria, vem de um verbo que significa sim- plesmente: ser desvelado, manifesto. Deus quis se tornar visível dentro do universo e, nessa perspectiva, a criação é um ato plenamente significativo: "Eis que tudo era muito bom". A despeito de todas as objeçães que possam ser le- vantadas contra a realidade do mundo, sua excelência consiste indiscutivelmente no fato que ele é chamado para ser o teatro da glória de Deus, e o homem, a ser a testemunha dessa mesma glória. Não nos é permitido procurar, antes de tudo, conhecer o que é o bom em si para em seguida protestar quando constatamos que o mundo não corresponde a essa definição. O universo é bom por causa do objetivo pelo qual Deus o criou. "Tea- tro da glória de Deus, theatrum gloriae Dei", diz Calvino. De sua parte, o homem admitido no seio desse concerto de louvores é uma testemunha, uma testemunha ativa e não passiva, no sentido de que ele deve contar o que viu. Tal é a natureza do homem, tal é sua faculdade essencial:

ser testemunha das obras de Deus. E tal propósito de Deus o "justifica" por ter criado o mundo.

o Céu e a Terra

a céu é a parte da criação incompreensível para o homem, a terra é a que ele pode compreender. a próprio homem é a criatura posta no limite do céu e da terra. A aliança entre Deus e o homem dá o seu sentido e seu objetivo, seu fundamento e seu valor ao céu e à terra bem como a toda criatura.

o Símbolo fala do "Criador do céu e da terra". Essas duas grandezas tomadas isoladamente e no seu conjunto, podem ser consideradas como objeto daquilo que se con- vém chamar doutrina cristã da criação. Contudo, elas não saberiam coincidir com uma imagem do universo qual- quer que seja, saída da reflexão humana mesmo que se deva reconhecer que nelas se refletem alguns elementos de uma antiga cosmologia. Não é o papel da Sagrada Es- critura, nem o da fé cristã que nos ocupa neste momento, elaborar ou defender uma ou outra representação precisa do mundo. A fé não é, de maneira nenhuma, ligada a uma certa imagem do universo, antiga ou moderna. Numero- sas são as teorias cosmológicas que se encontram no seu caminho, no curso dos séculos. E os cristãos estiveram sempre muito mal aconselhados quando acreditaram de-

80 - Esboço de uma Dogm,ítica

ver considerar um ou outro sistema como a expressão adequada do pensamento da Igreja a propósito da criação encarada sem referência à Palavra de Deus. A fé cristã é absolutamente livre em relação a todas as cosmologias que possam existir, o que significa: livre em relação a to- das as tentativas de explicação do real conduzidas se- gundo o critério e com os recursos das correntes científicas que predominem em um ou outro momento da história. Enquanto cristãos, nós não saberíamos acei- tar deixar-nos alienar por uma teoria desse gênero, não importa qual, seja antiga ou, ao contrário, que tenha to- dos os atrativos da novidade. Sobretudo, não temos o di- reito de ligar a causa da Igreja a uma ou outra concepção do mundo. Uma concepção do mundo implica algo mais do que uma simples imagem do mundo, no sentido em que ela subentenda uma certa interpretação filosófica e metafísica do homem. Oxalá a Igreja e os cristãos não queiram se deixar levar por esse terreno tão perigosa- mente vizinho da "esfera religiosa"! A Bíblia, no que ela tem de decisivo, o Evangelho de Jesus Cristo, não nos diz, em nenhum lugar que temos de adotar essa ou aquela concepção de mundo. Toda tentativa de compreender o real a partir de nós mesmos, de buscar chegar ao fundo da realidade para chegar a um sistema de mundo com ou sem Deus, é um empreendimento do qual estamos defini- tivamente dispensados enquanto cristãos. Se acontecer de vocês encontrarem tal tentativa, mesmo cristã, eu os aconselho a colocarem-na, sem hesitar, entre parênteses. No atual clima intelectual da Alemanha, essa advertência merece ser dada duas vezes em lugar de uma! Com efeito, o termo "concepção de mundo" (Weltanschauung) não existe em nenhum outro idioma além do alemão, como também o termo "Blitzkrieg", e quando os anglo-saxões, por exemplo, desejam empregá-lo, eles se deparam com a

o

Céu c a Terra - 81

impossibilidade de encontrar um equivalente exato em sua própria língua e devem se limitar a transcrevê-lo!

É impressionante que o conteúdo da criação seja de-

signado pela expressão "o céu e a terra". "No princípio,

Deus criou os céus e a terra

nada mais do que retomar essa afirmação com a qual se abre a Bíblia. É-nos permitido, contudo, perguntar se os dois conceitos "o céu e a terra" são completamente ade- quados ao seu objeto, isto é, à descrição da criação. Em seu Pequeno Catecismo, Lutero tentou resolver a dificul-

dade, dizendo: "Eu creio que Deus me criou assim como a

todas as outras criaturas

a terra pelo homem e muito particularmente, pelo "eu". Essa alteração ou, se quisermos, essa ligeira correção do Credo é certamente legítima. Pois ela também nos remete

'a criatura da qual fala essencialmente o Símbolo, a saber:

o homem. Mas então porque a confissão de fé procede di- ferentemente' porque ela fala do céu e da terra e não do homem? Deve-se seguir Lutero ou deve-se, talvez, ver nessa omissão do Credo a prova de que ele considera o homem em uma altura tal que não vê nenhuma necessi- dade de mencioná-lo? Não deveríamos simplesmente compreender que, ao falar, como faz, do céu e da terra, o Símbolo está designando de uma maneira profundamente original o quadro natural que acontece de ser o do ho- mem? A omissão do homem não constituiria aqui uma maneira muito significativa de falar indiretamente dele? O céu e a terra definem um cenário destinado a uma ação muito precisa e da qual, em nosso ponto de vista, o ho- mem ocupa o centro. Não teríamos nós aqui, uma descri- ção da criação precisamente em função do homem? Em todos os casos, fica entendido que o céu e a terra não constituem realidades independentes que se poderiam compreender e explicar por si mesmas, mas que, com a

" O Credo não faz, portanto,

"

Ele substituiu, assim, o céu e

82 - Esboço de uma Dogndtica

presença significativa do homem no seu centro, o cosmos provém de Deus, pertence a Deus e deve ser considerado dentro da perspectiva do Símbolo como a soma de toda a realidade criada em relação com a vontade e a ação divi- nas. É aqui que aparece a diferença fundamental que se- para qualquer outra concepção de mundo do ponto de vista da Sagrada Escritura e da fé cristã. Toda concepção de mundo implica que se tome seu ponto de partida do existente como sendo ele mesmo a sua própria razão de ser, para alcançar gradualmente a idéia da divindade; a Escritura, ao contrário, fala do céu e da terra, portanto do homem, unicamente no quadro de uma relação: "Eu creio em Deus, criador do céu e da terra". O genitivo mostra claramente que acreditamos, não na criação, mas em Deus, o Criador.

O céu é a parte da criação incompreensível para o homem, a terra é a parte que é compreensível para ele. In- cluo aqui o que o Credo Niceno fala como invisibilia e vi- sibilia. Tentei traduzir essas duas expressões "coisas visíveis" e "coisas invisíveis" pelos termos "compreensí- vel" e "incompreensível': Quando a Escritura - da qual re- tomamos aqui a terminologia - fala do céu, ela não quer dizer simplesmente aquilo que temos o costume de no- mear assim, o céu atmosférico e mesmo estratosférico, mas uma realidade criada, que domina absolutamente o nosso "céu" puramente físico. O homem da antigüidade e, particularmente, o habitante do Oriente Próximo repre- sentava o mundo visível como inteiramente recoberto por uma enorme abóbada chamada firmamento. Essa abó- bada constituía, em relação ao homem, o começo do do- mínio celeste, invisível. Acima do firmamento se encontrava um imenso oceano, separado da terra pelo fir- mamento. Além desse oceano, enfim, haveria o próprio céu, o verdadeiro céu, formando o trono de Deus. Se estou

OCéueaTerra-83

dando esses detalhes, é unicamente para mostrar a repre- sentação em algum tipo "cosmológico" que se encontra por detrás do conceito bíblico de "céu". Trata-se de uma realidade que se opõe ao homem e o domina absoluta- mente, mas que, ela também, está na ordem das coisas cri- adas. Tudo o que está além do que escapa ao homem e se opõe a ele, assustando-o e exaltando-o alternadamente, não deve ser confundido com Deus. A presença do inin- teligível acima de nós não é, de maneira nenhuma, a pre- sença do próprio Deus: é a presença do céu, simplesmente. Chamá-lo Deus é divinizar a criatura, da mesma maneira que o assim chamado "homem primi- tivo", que adora o sol. São muito numerosos os filósofos que, nesse sentido, renderam culto à criatura. O limite imposto à nossa inteligência não passa entre Deus e nós, ele passa entre o que o Símbolo chama de céu e de terra. Existe, no seio do mundo criado, essa realidade que consti- tui para nós um puro mistério: o céu. Se ela não é o pró- prio Deus, ela faz parte de sua criação. Observemos, de passagem, que o fato mesmo de ser uma criatura com- porta em si um profundo mistério, o mistério do ser, fonte incessante de terror e de alegria. É de maneira ho- nesta que os filósofos e os poetas de todos os tempos pro- curaram exprimir esse mistério. É-nos permitido, enquanto cristãos, igualmente, saber essas coisas, conhe- cer os altos e baixos da existência humana; sim, a vida tal como é comporta já toda sorte de mistérios e feliz o ho- mem que sabe "que há mais coisas entre o céu e a terra do que pode sonhar nossa vã filosofia!" A criação possui, pois, uma estrutura celeste, misteriosa para o homem, mas que não representa, contudo, nada a temer nem a ve- nerar como algo de divino. Nós estamos postos em um mundo que comporta essa realidade; essa dimensão do céu nos lembra, sem cessar, sob a forma de parábola, uma

84 - Esboço de uma Dogndrica

presença completamente diferente, a de Deus, o Criador do céu e da terra, de tal maneira, contudo, que não con- fundamos jamais o signo com a coisa significada.

No lado oposto do céu, a parte superior da criação, se encontra a terra, o mundo de baixo, cujo conteúdo nos

é compreensível. É a parte da criação situada no interior

do limite que circunscreve o domínio onde nós podemos ver, ouvir, sentir, pensar, contemplar, no sentido mais am- plo. É toda essa esfera, submetida ao poder do homem, aí compreendido o mundo da inteligência e da intuição, que o Símbolo chama de terra. No interior dessa moldura ter- restre, por outro lado, está compreendido aquilo que o fi- lósofo denomina o domínio da razão e das idéias. Nesta parte inferior se pode discernir igualmente as diferenças de valor, por exemplo, entre os objetos sensíveis e os obje- tos inteligíveis, mas eles permanecem limitados a esse mundo. É dessa mesma esfera terrestre que o homem tira sua origem: Deus forma o homem da poeira da terra (Gn 2.7). O mundo do homem, o teatro de sua existência e de sua história ao mesmo tempo que o de seu fim natural ("retornarás ao pó"), tal é a terra. Se o homem possui, contudo, uma outra origem e um outro fim que não esse,

é unicamente por causa da aliança, instituída por Deus

entre ele e sua criatura. É, pois, falar da graça, quando ve- mos no homem mais do que um ser terreno, de quem a terra é o lugar natural e o céu é o limite. Não existe mundo humano in abstracto. O homem estaria enga- nando a si mesmo, recusando-se a reconhecer que esse mundo que ele compreende, se acha limitado por um ou- tro mundo que ele não compreende. Nós devemos estar agradecidos porque sempre existiram poetas, crianças e também filósofos para fazer sensível a existência deste li- mite superior. Esse mundo terrestre não é realmente mais que um aspecto da criação. Contudo, não mais que o céu,

OCéueaTerra-85

a terra não saberia nos dar posse sobre o domínio de

Deus; é isso o que nos ensinam os dois primeiros manda- mentos: "Tu não farás imagem entalhada, nem nenhuma outra representação das coisas que existem no alto dos

céus e em baixo sobre a terra

cia sobre a terra ou acima no céu que mereça nosso temor ou nosso amor.

o próprio homem é uma criatura situada no limite do céu e da terra, ele está sobre a terra e sob o céu. Ele é o ser capaz de compreender seu meio natural, o mundo aqui em baixo; é-lhe permitido ter a posse sobre ele pelos seus sentidos e pela sua inteligência, numa palavra, do- miná-lo: "Eis que tu tens tudo posto sob seus pés!" (SI 8.6). É, dentro do quadro que lhe é próprio, o ser livre por excelência. Mas ele permanece colocado sob o céu: face à face com os invisibilia, as coisas invisíveis, incompreensí- veis e inacessíveis à sua razão, ele permanece absoluta- mente impotente e dependente. O homem toma verdadeiramente consciência de sua condição de criatura terrestre na mesma medida em que ele reconhece sua ig- norância no que concerne ao mundo celeste. Parece que, no limite que é o seu, ele tenha por função indicar o mundo do alto e o de baixo, de ser um signo de seu pró- prio destino, em função de uma relação que ultrapassa in- finitamente essa que é figurada pelo complexo céu-terra.

O homem é, no quadro da criação, o lugar onde a criatura

se realiza completamente na superação de si mesma. O homem é o ser capaz de dar livremente a Deus o louvor

" Não há nenhuma potên-

que lhe é devido.

Nós não teríamos, contudo, dito nada ainda, se não acrescentássemos logo que é a aliança entre Deus e o ho- mem que dá seu sentido e sua finalidade, seu fundamento

e seu valor ao céu, à terra, assim como a toda criatura. Di- zendo isso, parecemos forçar um pouco o conteúdo obje-

86 - Esbo~-o de lima Dogm;\rica

tivo do primeiro artigo do Símbolo. Mas isso não é mais do que uma aparência. Pois mencionar a aliança de Deus

e do homem, é falar de Jesus Cristo. Essa aliança não é um

elemento secundário, sobreposto de alguma maneira, ela coincide, de fato, com a própria criação. Desde que o criou, Deus começou a se ocupar do homem. Pois tudo o que existe está a tal ponto subordinado à existência do homem que nisso já se pode ler a intenção de Deus, tal como ela se manifestará efetivamente no mistério da ali- ança em Jesus Cristo. Por conseqüência, não somente essa aliança coincide com a criação, mas, ainda, ela a precede no tempo. Antes da criação do mundo, antes da existên- cia do céu e da terra, há a decisão, o decreto de Deus afir- mando sua vontade de comunhão com o homem, tal como ela se realizou de uma maneira incompreensível e perfeita em Jesus Cristo. Também, quando procuramos a razão de ser e o objetivo de tudo o que existe é, de imedi- ato, dessa aliança entre Deus e o homem que devemos nos lembrar.

Se voltamos agora à criação tal como tentamos des- crevê-la ao falarmos do céu e da terra, com a presença do homem no limite desses dois grandes domínios, certa- mente nos será lícito afirmar, sem parecer muito temerá- rio e sem que nos acusem de ceder à especulação, que existe a mesma relação entre o céu e a terra e entre Deus e

o homem no seio da aliança, de tal sorte que o simples ato da criação constitui em si um signo único e decisivo, o

signo do desejo eterno de Deus. Coexistência e encontro do alto e do baixo, do inteligível e do ininteligível, do fi- nito e do infinito, eis a criação. Isso tudo é o mundo. Ou,

a partir do fato mesmo de que esse mundo comporta efe-

tivamente um alto e um baixo que não cessam de se opor; do fato de que, dentro de cada um de nossos suspiros,

dentro de cada um de nossos pensamentos, dentro de

o

Céu e a Terra - 87

cada uma de nossas expenencias de viventes, o céu e a terra estão sempre presentes, se confrontam, se atraem e se repelem sem cessar de formar um todo, nós constituí- mos, pela nossa simples existência de criaturas, um signo, uma demonstração e uma promessa da destinação final de toda a criação: esse encontro, essa intimidade, essa co- munhão e, em Jesus Cristo, essa unidade perfeita do Cria- dor e da criatura.

Jesus Cristo

o objeto e o centro da fé cristã é a Palavra idêntica à ação pela qual Deus, por toda a eternidade, decidiu para nosso bem se tornar homem em Jesus Cristo, tornou-se efetivamente no tempo e o ficará pelos séculos dos séculos. A obra do Filho pressupõe, assim, a do Pai e implica a do Espírito Santo.

Com este capítulo, abordaremos o centro mesmo da Confissão de fé, como se pode julgar já ao primeiro golpe de olhos pelo lugar considerável que ocupa o segundo ar- tigo. Existe, aqui, mais que uma questão de redação. Já na introdução, quando se tratou da fé e em nossa primeira parte, quando falamos de Deus, o Pai Todo-poderoso, Criador do céu e da terra, não fizemos mais que remeter constantemente a esse centro. Nossa explicação do pri- meiro artigo teria carecido totalmente de pertinência se não o tivéssemos incessantemente apoiado, por antecipa- ção, no segundo. Este ultimo, não é simplesmente a se- qüência do primeiro e o prefácio do terceiro, mas sim a fonte luminosa que esclarece um e outro. Historicamente, aliás, provou-se que o Credo cristão provém de um texto primitivo mais curto e mesmo de uma formula efetiva-

90 - Esboço de LIma Dogndtica

mente breve, que coincide, quanto ao essencial, com o conteúdo do atual segundo artigo. Supõe-se mesmo que a confissão de fé da Igreja primitiva era constituída por es- tas simples palavras: "Jesus Cristo (é) o Senhor". O pri- meiro e o segundo artigos não teriam sido acrescentados senão mais tarde a esse núcleo central. O processo histó- rico não se deveu ao simples acaso. Mesmo de um ponto de vista puramente objetivo, não é sem significação o fato de saber que o segundo artigo é historicamente a fonte dos outros. É cristão aquele que confessa o Cristo. E uma confissão de fé cristã tem por objeto Jesus Cristo, o Se- nhor.

É a partir desse centro decisivo, e como uma ex- plicação complementar, que se deve compreender as afirmações do Símbolo relativas a Deus, o Pai, e a Deus, o Espírito Santo. Os teólogos cristãos fizeram uma má escolha cada vez que procuraram edificar diretamente e no abstrato uma teologia do Deus criador, apesar de todo o respeito e seriedade com que eles se empenha- ram nisso.

O mesmo deve ser dito sobre aqueles que tenta- ram partir de uma teologia do terceiro artigo, de uma teologia do Espírito, da experiência espiritual, por opo- sição à do Deus criador. Poder-se-ia talvez encontrar uma explicação da teologia moderna, tal como a en- tende Schleiermacher, no fato de que a partir de certas premissas próprias dos séculos XVII e XVIII, ela teria se tornado unicamente uma teologia do terceiro artigo; ao declarar-se do Espírito Santo, ela se acreditava auto- rizada, sem se dar conta de que o terceiro artigo não é mais que uma explicação do segundo, uma maneira de precisar o que Jesus Cristo significa para nós. É a partir de Jesus Cristo somente que nós podemos tentar ver e compreender do que se trata, dentro da ótica cristã,

JeSllS Cristo - ') 1

quando abordamos o grande problema - que não deixa de nos aturdir e que só podemos formular correndo os mais graves riscos de errar - da relação entre Deus e o homem. Temos apenas uma resposta para esse pro- blema: Jesus Cristo.

Dessa maneira, não podemos compreender a rela- ção entre a criação, a criatura, a existência, de uma parte, e a Igreja, a redenção, Deus, de outra, partindo de uma verdade geral ou dos dados da História das reli- giões, mas unicamente a partir da relação que exprime a pessoa de Jesus Cristo. É nele que nos discernimos o

que significa: Deus acima do homem (r· o artigo) e Deus

com o homem (30 artigo). É porque o segundo artigo, a cristologia, é a pedra de toque de todo conhecimento de Deus, no sentido cristão da palavra, o critério de toda teologia. "Dize-me qual é a tua cristologia que eu te di- rei quem tu és". É aqui que os caminhos se separam, é aqui que se precisam as relações entre a teologia e a fi- losofia, entre o conhecimento de Deus e o conheci- mento do homem, entre a revelação e a razão, entre o Evangelho e a Lei, entre a verdade divina e a verdade humana, entre o domínio da alma e o do corpo, entre a fé cristã e a política.

É aqui que tudo se torna brilhante ou obscuro, claro ou confuso. Nós estamos no centro. E, por mais fora de alcance, misterioso, difícil que possa nos pare- cer esse centro, podemos afirmar sem medo: doravante tudo se torna extremamente simples, elementar, infan- til. Sim, no momento mesmo em que, como professor de teologia sistemática, meu dever é gritar a vocês:

"Atenção! Isso é sério: ou bem fazemos ciência ou bem caímos nas piores bobagens!" acontece que me vejo en- tre vocês como um monitor de escola dominical diante

92 - Esboço de uma Dogm;ítica

de seus pequenos alunos, com uma mensagem que um garoto de quatro anos poderia já compreender: "Em um mundo perdido, Cristo desceu - Cristãos, rejubilai- vos!"

o centro de que falamos é a Palavra que atua ou, se preferirmos, a ação da Palavra de Deus. Desde logo, tenho de chamar a atenção de vocês para o fato de que nesse centro vivo da fé cristã, a oposição tão freqüente entre palavra e ação, doutrina e vida, não tem nenhum sentido. Pois a Palavra, logos, aqui se identifica com a obra, ergon, Verbum coincide com opus. Por tratar-se de Deus e do próprio coração da nossa fé, essas diferenças que nos parecem tão interessantes e essenciais são, não apenas supérfluas, mas ainda perfeitamente absurdas. Deus fala, Deus age, Deus ocupa o centro de tudo: a verdade se traduz em ato, o ato se manifesta com a força da verdade. A Palavra é ação, uma ação tal que é, ela mesma Palavra, revelação.

Quando pronunciamos o nome Cristo não é o simples suporte verbal de uma realidade superior (o platonismo não intervém aqui!). Trata-se, sob esse nome e sob esse título, da sua pessoa mesmo. Não de uma pessoa fortuita, de um "fato histórico acidental" como entende Lessing, por exemplo. As verdades eter- nas da razão, eis o tipo de fato histórico "acidental"! As- sim, o nome de Jesus Cristo não serve para designar um produto da história humana. Os homens sempre acredi- taram ter feito uma grande descoberta quando conse- guiram demonstrar que Jesus Cristo não podia deixar de ser o ponto culminante de toda história. Achado me- díocre, na verdade! Mesmo a história do povo de Israel não saberia se prestar a uma tal demonstração. Certa- mente, a posteriori, é lícito e mesmo necessário afirmar:

; mas

nesse homem, nesse povo, a história se realizou

Jesus Cristo - 93

ela o fez seguindo uma linha absolutamente nova e es- candalosa do ponto de vista dos fatos históricos! Lou- cura para os gregos, escândalo para os judeus! (1 Co 1.23) Enfim, o nome de Jesus Cristo não esconde um postulado do homem, não designa o produto de seus desejos mais nobres nem o tipo de redentor criado pela sua inquietude. O homem nem é capaz de reconhecer por si mesmo sua inquietude e seu pecado. É-lhe neces- sário primeiro conhecer Jesus Cristo: é em sua luz que

nós vemos a luz que nos revela nossas próprias trevas. Todo conhecimento que mereça esse nome, segundo a

fé cristã, provém do conhecimento de Jesus Cristo.

Mesmo o primeiro artigo adquire um sentido in- teiramente novo quando o lemos sob a perspectiva da fé em Jesus Cristo. Ele confessa o Deus criador do céu e da terra, o Deus eterno, inacessível, oculto, incompreensí- vel' cujo mistério domina absolutamente mesmo aquele do mundo celeste. E eis que o segundo artigo confessa uma verdade aparentemente contraditória, em todos os casos completamente insólita, da qual somente o con- teúdo do primeiro é que nos dá a dimensão do caráter paradoxal e enigmático: Deus toma uma forma, um nome ressoa, um ser humano toma o lugar do Altíssimo diante de nós! Deus Todo-poderoso parece ter perdido sua onipotência.

Nós falamos de sua eternidade, de sua ubiqüidade.

E eis-nos mergulhados no tempo, em face de um evento

temporal e localizado, de um acontecimento particular

na trama da história humana, de um fato cujo contexto

é o começo de nossa era em um lugar bastante definido

no globo terrestre. Depois de Deus, o Pai, tal como o confessa o primeiro artigo, o mesmo Deus provindo da misteriosa unidade de seu ser, se apresenta sob a figura do Filho. Doravante, Deus é esse Outro nele mesmo, ao

94 - Esboço de lima Dogmâtica

mesmo tempo idêntico e distinto. Ao passo que o pri- meiro artigo do Símbolo descreve o Criador como o ab- solutamente distinto de tudo o que existe, e a criatura como soma de todos os seres distintos do ser de Deus, o segundo significa: o Criador se tornou ele mesmo cria- tura. Ele, o Deus eterno, tornou-se não a soma de todas as criaturas, mas sim uma criatura.

Ele que, por toda a eternidade, decidiu para nosso bem tornar-se homem em Jesus Cristo, tornou-se ho- mem efetivamente no tempo e permanecerá sendo pe- los séculos dos séculos. Eis Jesus Cristo. Já me ocorreu de citar o nome da romancista inglesa Dorothy L. Sayers que, como se diz, voltou-se para a teologia com um interesse notável. Em um pequeno escrito, ela mos- tra o caráter insólito, "interessante", inaudito dessa no- vidade: Deus se fez homem. Imagine-se, um belo dia, na primeira página de um jornal! Sim, trata-se de uma novidade verdadeiramente sensacional que relega todas as outras à última página! É esse fato, absolutamente perturbador, incomparável e único em seu gênero, que constitui o centro do cristianismo.

O complexo Deus-homem cedeu lugar a toda sorte de combinações, em todas as épocas da história. Por exemplo, a mitologia conhece a idéia da encarna- ção. O que distingue a mensagem cristã da mitologia, qualquer que seja é que, para esta última, a encarnação é, no fundo, a expressão de uma idéia geral, de uma ver- dade universal. O mito continua dominado pelo ritmo dos fenômenos, a sucessão do dia e da noite, da prima- vera e do inverno, da vida e da morte; para o mito, a re- alidade tem um caráter intemporal, infinito. O Evangelho de Jesus Cristo não tem nada em comum com o mito. Ele se distingue, já de um ponto de vista formal, pelo fato de que se inscreveu plenamente den-

JeSllS Crisro - 95

tro da história: ele afirma que na existência de tal ho- mem particular, Deus se encarnou de tal maneira que a existência desse homem e a de Deus são uma só e mesma coisa. A mensagem cristã está, nesse ponto de vista, plenamente inserida na trama da história. É pre- ciso considerar-se em conjunto, no mesmo momento, a eternidade e o tempo, Deus e o homem, para compre- ender o que realmente significa o nome de Jesus Cristo! Jesus Cristo é a realidade da aliança entre Deus e o ho- mem. É apenas referindo-se a ele que podemos falar, com o primeiro artigo, de Deus nos lugares altíssimos, porque então nós conhecemos o homem pela aliança que o liga a Deus: em sua pessoa concreta, enquanto ele é esse mesmo homem. Da mesma maneira, quando o terceiro artigo nos fala de Deus no homem, de Deus trabalhando por nós e em nós, poderia se tratar aqui de uma ideologia, de uma lição de entusiasmo, de uma descrição da vida interior do homem, de suas experiên- cias e de suas aspirações, da projeção do que se passa em nós quanto a uma divindade imaginária que se chama Espírito Santo. Mas quando observamos a ali- ança que Deus realmente concluiu conosco, homens, sabemos que não se trata disso. Nos é lícito falar com segurança da realidade do Espírito Santo, em razão mesmo dessa aliança que proclama que Deus, para to- dos os homens, se fez homem em Jesus Cristo.

homem, é para teu bem que Deus se encarnou e é teu sangue que corre nas veias do Filho de Deus". Tal é a mensagem do Natal. Nós tentamos marcar os três aspectos. Primeiramente o acontecimento histórico: o tempo que é o nosso, possui um centro que se constitui na chave; com todas as suas contradições, seus cumes e seus abismos, nossa história se vê colocada dentro de uma determinada relação com Deus. No centro de

96 - Esboço de uma Dogm,hica

nosso tempo está esse acontecimento decisivo: Deus se fez homem para nosso bem. Mas o caráter único desse acontecimento, nos obriga a reconhecer que ele não po- deria ser um simples acidente, um fato histórico entre

outros. Somos levados a vê-lo como o acontecimento por excelência desejado por Deus por toda a eterni- dade. Sob esse segundo aspecto, a mensagem do Natal nos remete ao primeiro artigo do Símbolo; ela afirma o vínculo entre a criação e a redenção. Nos é possível, desde logo, pensar no Deus criador cuja existência pre- cede absolutamente a das suas criaturas, fazendo abs-

tração

manifesta no

Deus é inseparável dessa forma temporal. Mesmo do ponto de vista da eternidade, não há outro Deus além desse cuja vontade se encarnou dentro do aconteci- mento histórico de sua ação e de sua Palavra. Tudo isso não tem nada a ver com a especulação. A pregação de Jesus Cristo não é uma verdade entre outras. É a ver- dade. Nosso pensamento, uma vez orientado para Deus, não pode fazer abstração do nome de Jesus Cristo. En- fim, há o terceiro aspecto da mensagem do Natal, "Deus que em toda a eternidade decidiu, para o nosso bem, tornar-se homem em Jesus Cristo, o permanecerá pelos séculos dos séculos". O fato de seu caráter histórico, o fato que ela se manifestou no quadro do espaço e do tempo, a aliança ou se preferirmos, a unidade de Deus e

se

curso da história. A vontade eterna de

da

sua

vontade

tal

como

ela

se

cumpre

e

do homem, não é uma verdade passageira. Jesus Cristo é o rei cujo reino não terá fim. "Jesus Cristo é o mesmo hoje, ontem, eternamente" (Hb 13.8). Tal é nossa situa- ção diante de Deus. Ele nos rodeia verdadeiramente por todos os lados, em Jesus Cristo. Impossível escapar-se- lhe. Impossível também sucumbir dentro do nada. In- vocar Jesus Cristo é se comprometer sobre um caminho

Jesus Cristo - 97

seguro. "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" 00 14.6). Trata-se de um caminho que atravessa os tempos

e cujo centro é o próprio Jesus Cristo; a origem desse

caminho não se perde na noite da história, ela corres- ponde exatamente ao que é. Enfim, esse caminho não conduz à escuridão, pois que todo o futuro diante de nós porta esse mesmo nome: Jesus Cristo. Jesus Cristo é

o que foi, o que é e o que vem, como o exprime o fim do

segundo artigo: ''''De onde virá para julgar os vivos e os

mortos". Ele é o Alfa e o Ômega (Ap. 1.8), o princípio e

o fim. Quando podemos, com o Símbolo, confessar o nome de Jesus Cristo, isso significa que nós encontra- mos Aquele que, mesmo se o ignorarmos, nos tem in- teiramente dentro de sua mão.

Tudo isso, nós o dissemos, é "para nosso bem". É preciso sublinhar. A aliança de Deus, sua revelação em Jesus Cristo, não é simplesmente um milagre, um mis- tério interessante, digno de nossa mais séria atenção. Claro que é isso também, mas com certeza não teremos compreendido nada se nós imaginamos poder fazer disso um objeto de pura contemplação intelectual. Mesmo que pretenda se apoiar no Novo Testamento in- teiro e dar lugar aos mais belos discursos, o conheci- mento puro, a gnose, seria apenas um bronze que ressoa, um címbalo que retine. A palavra de Melan- chton é completamente justa (Loci communes, 1521), a despeito do uso abusivo que se tem feito na teologia

moderna: Hoc est Christum cognoscere, beneficia Christi

cognoscere. Em particular, o erro de Ritschl e de sua es- cola consistiu em repudiar completamente o mistério da encarnação para apresentar o Cristo unicamente sob o aspecto de um ser excepcional, de quem o homem pode obter certos benefícios no sentido em que eles re- presentam para ele um certo "valor". Ora, não se pode

98 - Esboço de uma Dogmática

falar abstratamente dos benefícios de Cristo. É preciso conhecê-los concretamente para poder reconhecê-los.

Se existe benefício, ele está única e exclusivamente dentro desse fato da revelação: Deus se fez homem, ele se fez homem para o nosso bem. Assim somos auxilia- dos. A partir do fato de que esse ato de Deus foi feito para nós, seu reino já está aqui. Pronunciar o nome de Jesus Cristo é reconhecer que alguém se ocupa de nós e que nós não estamos perdidos. Jesus Cristo é a salvação do homem apesar de tudo o que possa ensombrar sua vida, inclusive o mal que provém dele mesmo. Não existe nenhum mal que já não esteja mudado em bem pelo evento da encarnação de Deus. Finalmente, nada mais resta a fazer do que redescobrir sem cessar que isto é assim. Nossa vida não é mais um sombrio enigma. Nós vivemos para Aquele que, desde antes do nosso nascimento, foi misericordioso para conosco. Se é verdade que nós vivemos longe de Deus, se é verdade que nós somos inimigos e rebeldes, ainda é verdade que Deus nos preparou o caminho da reconciliação muito antes que entrássemos em luta contra ele. E se é verdade que, a respeito de seu distanciamento de Deus, o ho- mem não pode ser considerado mais que um ser deses- peradamente perdido, é ainda infinitamente mais verdadeiro que Deus agiu, age e agirá por nós de tal sorte que ele terá, para toda perdição, uma salvação preparada. Tal é a fé para a qual somos chamados na Igreja, pelo Espírito Santo.

Acontece que todos os nossos motivos de queixa, mas também tudo aquilo de que possamos ser acusados com razão, todos os suspiros dos homens, todas as suas lamentações e seus desesperos - dos quais não contes- tamos a legitimidade - se distinguem radicalmente de todas as formas de amargura no seguinte: é que, reduzi-

JeSLlS Cristo - 99

dos ao nosso papel de acusados ou de acusadores, nossa força para protestar reside no fato de que nos reconhe- cemos como objetos da misericórdia divina. É unica- mente quando nos é dado medir a profundidade do que Deus fez por nós que podemos tomar consciência da nossa miséria. Pois quem conhece a real miséria do ho- mem senão aquele que conhece a autêntica misericór- dia de Deus? A obra do Filho pressupõe a do Pai e implica a do Espírito Santo como conseqüência. O primeiro artigo indica a origem, o terceiro a finalidade de nossa marcha. O segundo é o caminho onde nos é dado andar pela fé e que estende diante de nós a obra de Deus em toda a sua plenitude.

o Salvador e o Servo de Deus

o nome de Jesus e seu título, o Cristo, designam a pessoa e a obra do homem, objeto de escolha divina, em quem se encontra manifesta e cumprida, a missão pro- fética, sacerdotal e real do povo de Israel.

o segundo artigo do Símbolo se abre por dois ter- mos de origem estrangeira e que comandam todo o seu conteúdo: Jesus Cristo. O primeiro é um nome próprio que designa um indivíduo em particular, o segundo é um título que caracteriza a sua função. Ao pronunciarmos esse nome e esse título, "Jesus, o Cristo", somos colocados de imediato no contexto da história e da linguagem do povo de Israel. Eis, pois, bem delimitado o assunto que vai nos ocupar agora: Jesus, nascido em Israel, esse ho- mem particular cuja função precisa consiste em manifes- tar e cumprir o ser e a missão desse povo. Desde o início, as coisas assumem uma fisionomia muito particular, a partir do fato de que o nome "Jesus" pertence à termino- logia hebraica: Jesus é, com efeito, o equivalente de Josué, um nome que se encontra com muita freqüência no An- tigo Testamento, e, notadamente num caso, com um certo relevo. Em troca, o título "Cristo" é de origem grega ou, mais exatamente, a tradução do termo hebraico "Messias"

102 - Esboço de uma [)ogm;ítica

que quer dizer: o ungido. Acontece, pois, que o complexo "Jesus Cristo" já é, por si mesmo, o indício de um certo movimento histórico. Que um judeu, que um israelita, que um hebreu de nome Jesus seja o Cristo, eis o que já constitui um certo corte da história, de uma história que passa através de um pequeno povo, Israel, para emergir entre os gregos, vale dizer, no mundo. Não se pode disso- ciar o nome de Jesus Cristo para reter somente um de seus componentes. Jesus Cristo não seria mais ele mesmo se não estivesse, em sua pessoa, o Cristo, oriundo de Is- rael, idêntico ao judeu Jesus. Inversamente, o judeu Jesus não seria ele mesmo se não existisse, na sua função, o Cristo de Deus, atestando no seio dos povos e no coração da humanidade, o mistério e o alcance da vocação de Is- rael. Para poder compreender toda a significação do nome de Jesus Cristo, é preciso considerá-lo sempre com essa dupla significação particular e universal. Uma vez que se esqueça de um em favor de outro, acontece que se estará falando, na realidade, de algum outro.

O nome próprio de Jesus significa literalmente:

"Yahvé (o Deus de Israel) ajuda!" O título de Cristo, de Messias, servia para designar, entre os judeus do tempo de Jesus, o homem dos últimos tempos, esperado por Is- rael e designado para fazer brilhar aos olhos de todos a glória de Deus, ao mesmo tempo oculta e prometida a seu povo. Designava o homem chamado para libertar os ju- deus da miséria e da opressão e que, ele mesmo oriundo de Israel, devia reinar sobre os povos. E quando Jesus de Nazaré aparece e prega, quando, saído de um humilde vi- larejo da Galiléia, ele emerge em plena história de Israel - essa história de que, desde sempre, Jerusalém parece ter o dever de anunciar a realização - nós aprendemos que, sob essa misteriosa figura, na pessoa do filho de José, é o es- perado Messias, o homem dos últimos tempos que está

o Salvador e o Servo de Deus - 103

aqui; é como tal que Jesus se apresenta e é como tal que é reconhecido. Acontece que, entre todos os que portavam o nome de Jesus (Deus ajuda, Salvador), muito comum na época, só um concretiza em sua pessoa, porque tal é do agrado de Deus, a realização da promessa divina. E, ao mesmo tempo, essa realização concerne ao destino de Is- rael, e marca a realização e a revelação de sua vocação es- pecífica no seio da história universal para todos os povos, para o conjunto da humanidade. É significativo que a Igreja primitiva não tenha falado de Jesus, o Messias, mas sim de Jesus Cristo: é a porta aberta para o mundo. Con- tudo, o nome judeu de Jesus permanece, atestando que é de Israel que a salvação se estende para o mundo inteiro.

Talvez vocês achem estranho que eu insista dessa maneira no nome de Jesus e no seu título. É que, no povo de Israel, como de resto em toda antigüidade, os nomes e os títulos não tinham, como é o caso hoje, um caráter pu- ramente exterior e fortuito. Assim, o nome e o título de Jesus Cristo exprimem realmente algo, eles constituem, no sentido mais concreto, uma revelação. Não é, pois, questão de ver aí um simples signo exterior, um chama- mento, um ornamento arbitrário. Lembremo-nos, é o anjo que declara a Maria: "Tu lhe darás o nome de Jesus" (Deus ajuda, Salvador, Soter em grego!) (Mt 1.21). Da mesma maneira, o título "Cristo", longe de ser uma adjun- ção acidental, pertence ao homem que ele designa em vir- tude de uma necessidade interna. É impossível dissociá-lo do nome que o qualifica; ao contrário, deve-se dizer que o homem que porta esse nome é feito para portar esse tí- tulo. Não se trata de uma dualidade entre o nome de um personagem e sua vocação. É desde o nascimento que Je- sus foi coroado com o título de Cristo, de sorte que sua pessoa não existe sem seu título, nem seu título existe sem a sua pessoa. Ele é o Josué por excelência, o Deus

104 - Esboço de uma Dogm,ítica

"que ajudà' porque foi escolhido para realizar a obra e a função do Cristo o servo de Deus, oriundo de Israel, no seu ofício profético, sacerdotal e real.

É preciso que nos detenhamos aqui para sublinhar a importância do fato de que é dentro da pessoa concreta do homem Jesus Cristo que se realiza e se manifesta a missão específica desse povo único que é o povo de Israel,

o povo judeu. Cristo, o servo de Deus para todas as na- ções, e Israel, o povo do qual é oriundo, não podem ser separados; são duas grandezas ligadas indissoluvelmente pelo tempo e pela eternidade. Israel não é nada sem Jesus Cristo e, inversamente, Jesus Cristo não seria Jesus Cristo sem Israel. Portanto, é preciso que comecemos por olhar Israel para podermos ter uma visão correta de Jesus Cristo.

Israel, o povo do Antigo Testamento, é o povo da aliança. Sua história é a da aliança que Deus conclui com ele sob formas sempre renovadas. É no contexto de Israel que esse conceito insólito de uma aliança entre Deus e o homem nasce e se encontra em seu verdadeiro lugar. E é porque essa aliança é a de Deus com o povo de Israel que não se pode confundi-la com uma idéia filosófica, uma idéia geral. Longe de sermos solicitados por uma idéia, com efeito, encontramo-nos postos diante do fato de que Deus chamou Abraão no meio dos povos para se ligar a ele e à sua "posteridade" (Gn 17.7). Toda a história do Antigo Testamento e, por conseguinte, toda a história do povo de Israel, coincide exatamente com a da aliança de Deus com o seu povo, desse povo com esse Deus que se chama Yahvé. Tendo reconhecido que a fé cristã se dirige

a todos os povos e que o Deus que ela prega é o Deus do

mundo inteiro, nós não devemos nos esquecer que o ponto de partida dessa mensagem universal, englobando todos os homens, é uma ação particular de Deus, ação in-

o Salvador e o Servo de Deus - 105

sólita e que nos parece terrivelmente arbitrária pela qual ele se torna o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. De sorte que a pedra de toque de toda ação de Deus entre os ho- mens deve ser sempre de novo esta ação particular do Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. O povo de Israel, tal como aparece no Antigo Testamento, o chamado povo eleito, posto à parte, com todos os seus enganos e todas as suas fraquezas, objeto incessante do amor e da misericór- dia de Deus, mas também dos seus julgamentos mais ra- dicais, é a figura histórica da livre graça de Deus para todos nós. Mas não se trata somente de um fato histórico:

a livre graça de Deus brilhando sobre Israel, sobre os ju- deus, não é uma coisa que os cristãos de hoje, oriundos do paganismo, possam considerar com um certo desliga- mento sob o pretexto de que ela não lhes diz respeito. De fato, nós não estamos "livres" da história de Israel! Um cristão que dissociasse completamente a Igreja da Sina- goga mostraria com isso que ele não compreendeu nem uma, nem outra. Por toda parte onde se pretendeu erguer um muro entre a Igreja e o povo judeu, a comunidade cristã se viu diretamente ameaçada. Pois essa é toda a rea- lidade da revelação divina que assim se renega implicita- mente; desde então, por pouco que tal filosofia ou tal ideologia venha a se impor, assiste-se ao advento de um cristianismo do tipo helênico, germânico ou outro. (Re- conhecemos, a esse respeito, que existe desde há muito tempo um "cristianismo helvético" que não vale nada mais que seu equivalente germânico!).

Vocês conhecem o episódio que exprime mais per- feitamente o significado do povo judeu? Frederico II um dia pediu a seu medico pessoal, o suíço Zimmermann, originário de Brugg, na Argóvia: "Diga-me, Zimmer- mann, você pode me dar uma só prova a favor da existên- cia de Deus?" E o outro responde: "Senhor, os Judeus!"

106 - Esboço de llma Dogm,üica

Ele quis dizer com isso: caso se queira uma prova absolu- tamente visível, evidente para todos e irrefutável da exis- tência de Deus, é para os judeus que se deve olhar. Pois, é um fato, os Judeus existem ainda hoje. Às centenas, as pe- quenas nações do Oriente Próximo desapareceram da cena histórica, todas as antigas tribos de origem semítica se dispersaram ou desapareceram na massa dos outros povos; só, dentre todos, esse pequeno povo subsistiu. E quando se fala de semitismo ou de anti-semitismo, é nesse pequeno povo que se pensa, miraculosamente pre- servado, com as particularidades físicas e intelectuais que o fazem reconhecido e nas quais se baseia para afirmar de qualquer um: um não-ariano, um meio, um quarto de não-ariano"! Sim, caso se deseje absolutamente uma prova da existência de Deus, não se deve buscar mais longe! Pois, na pessoa de um judeu é um testemunho que nós encontramos, o testemunho da aliança de Deus com Abraão, Isaac e Jacó e, pois, com nós todos! Mesmo quem não compreenda a Bíblia pode aqui literalmente ver uma lembrança.

E não vêem vocês no que reside todo o verdadeiro alcance teológico, toda a significação intelectual e espiri- tual disso que foi o movimento do Nacional-socialismo? Não é no fato de que ele foi, desde o começo, violenta- mente anti-semita, não é precisamente dentro da nitidez demoníaca com a qual afirmou sem cessar: o Judeu, eis o inimigo? Sim, sem nenhuma dúvida, o inimigo de uma tal empresa não poderia ser outro que não o judeu. Pois é no seio do povo judeu que se conservou, viva e real, até este dia, a revelação de Deus no que ele tem de único e escan- daloso para a razão.

Foi Jesus, o Cristo, o Salvador e o Servo de Deus, quem cumpriu e tornou manifesta a missão do povo de Israel, foi ele quem realizou a aliança selada entre Deus e

o Salvador e o Servo de Deus - 107

Abraão. Assim, quando a Igreja declara sua fé nele, reco- nhece-o como o Salvador e o Servo de Deus para nós e para todos os homens, incluída a imensa multidão dos que não têm nenhum vínculo direto com o povo de Israel, ela o faz não apesar do fato de que Jesus foi um judeu (como se existisse nisso alguma coisa de infamante!). Nem se poderia também dizer que, depois de tudo, se Je- sus Cristo é judeu, é por um simples acaso histórico e que ele poderia muito bem ter nascido de um outro povo. Isso seria um erro grave. A rigor devemos ao contrário afir- mar que esse Jesus Cristo que nós, cristãos, oriundos do paganismo, chamamos nosso Salvador e em quem sauda- mos a realização da obra de Deus para nós, foi necessaria- mente um Judeu. É impossível passar ao largo desse fato, inseparável da manifestação concreta de Deus, de sua re- velação. Jesus Cristo é, com efeito, ao mesmo tempo a re- alização da aliança de Deus com Abraão, Isaac e Jacó e a realidade desta aliança - e não o inventor de uma idéia a respeito desta ou daquela forma de aliança - cuja realiza- ção e realidade é a razão de ser e o objetivo de toda a cria- ção, vale dizer, de tudo o que existe em distinção a Deus. O problema de Israel é, sendo inseparável do problema de Cristo, o problema da existência. O homem que tem ver- gonha de Israel tem vergonha de Jesus Cristo e, por isto mesmo, de sua própria existência.

Eu me permiti sublinhar a existência dessa questão em razão mesmo do caráter fundamentalmente anti-se- mita do Nacional-socialismo. Não é por acaso, com efeito, que aqui mesmo na Alemanha, nós pudemos escu- tar o famoso slogan: Judá, eis o inimigo. É possível, bem entendido, lançar semelhante slogan, certas circunstân- cias podem mesmo tornar a coisa necessária, mas que se preste atenção então ao que se faz! Atacar Judá é atacar em sua base a própria obra de Deus e sua revelação sem

108 - Esboço de lima Dogmática

as quais muito simplesmente não existe nada. Sim, é a própria obra de Deus e toda sua revelação que foram pos- tas em questão pelo que se passou na Alemanha sob o reino do Nacional-socialismo e de seu anti-semitismo ra- dical; e isso não somente no plano das idéias e das teorias, mas dentro da própria vida, no plano dos acontecimentos quotidianos. Certamente pode-se afirmar que um tal conflito fosse inevitável, mas então que não se fique atur- dido pela maneira como ele terminou. Um povo - e esse era o outro aspecto do Nacional-socialismo - que se de- clara eleito e se apresenta pelo critério absoluto de toda verdade, acaba por se chocar, cedo ou tarde, com o verda- deiro povo eleito. Já essa simples pretensão constituiu, an- tes mesmo que fosse questão de anti-semitismo, uma negação radical de Israel, vale dizer, de Jesus Cristo e, fi- nalmente, do próprio Deus. O anti-semitismo é uma forma de ateísmo ao lado do qual o ateísmo corrente tal como se encontra, por exemplo, na Rússia, é uma coisa bem anódina. Pois o ateísmo na base do anti-semitismo toca em realidades, quer seus iniciadores e seus represen- tantes estejam conscientes disto ou não. Logo ele se vê em conflito com o próprio Cristo. Teologicamente falando - não faço política aqui - semelhante empresa devia neces- sariamente ecoar e se desmoronar. Há aqui uma rocha contra a qual vêm se quebrar todos os assaltos do homem, por mais potentes que eles sejam. Pois a missão do povo de Israel, sua vocação profética, sacerdotal e real é idên- tica à vontade de Deus e à sua obra de salvação tais como se acham cumpridas e manifestadas em Jesus Cristo.

Mas qual é, então, justamente essa missão de Israel que pressupõe toda a Bíblia quando ela fala da escolha desse povo, de seu caráter único, de sua existência à parte? Ela consiste em representar Deus no seio da huma- nidade. Israel só existe na medida em que completa essa

o Salvador e o Servo de Deus - 109

missão temível: ser uma comunidade, um povo, uma hu- manidade a serviço de Deus no mundo. Não é, pois, para sua própria glória nem para satisfazer seu orgulho nacio- nal que esse povo foi posto à parte, mas sim para os ou- tros povos, para ser seu servo. Ele é o mandatário de Deus sobre a terra. Está encarregado de anunciar a sua palavra:

essa é a sua missão profética. Ao mesmo tempo ele deve testemunhar por toda a sua existência que Deus não se li- mita a falar, mas que intervém ele mesmo e se sacrifica:

essa é a sua missão sacerdotal. Enfim, através de sua im- potência política, precisamente, ele deve atestar entre os povos a soberania de Deus sobre todos os homens: essa é sua missão real. A humanidade necessita desse triplo tes- temunho. É essa missão particular de Israel, sob seus três aspectos, que o Antigo Testamento quer colocar sob nos- sos olhos quando celebra a fidelidade de Deus a esse pe- queno povo cuja existência está constantemente salvaguardada. Sua missão profética aparece mais parti- cularmente através de certos personagens cujo protótipo, depois de Abraão, é Moisés, o fundador da unidade israe- lita, ao qual sucedem essas figuras tão espantosamente di- versas que são os profetas. Mas, ao mesmo tempo, através da existência do Tabernáculo, do Templo e dos sacrifí- cios, pode-se ver se definindo o segundo aspecto desse testemunho: o aspecto sacerdotal. É durante o reinado de Davi que aparece de uma maneira exemplar a missão de Israel: ser o representante da soberania de Deus sobre a terra. Contudo - e isto nos concerne diretamente - é fi- nalmente no homem, Jesus de Nazaré, oriundo de Israel, indissoluvelmente ligado a Israel, que se cumpre em todo o seu rigor a missão confiada a esse povo.

A missão de Israel deve ser considerada como ple- namente revelada e cumprida em Jesus Cristo. É porque, ao longo de toda história desse povo, ela permaneceu, de

1 1() - Esboço de LIma Dogm,ítica

início, oculta e sem efeito. Quando se deseja ler atenta- mente o Antigo Testamento, se percebe de imediato e quase a cada página, que esse livro não se preocupa nem um pouco em exaltar Israel como "raça" ou nação. Ao contrário, a imagem que ele dá do homem israelita é ex- traordinariamente pouco edificante: é a de um ser que se opõe constantemente à escolha e à vocação da qual é ob- jeto, que se mostra indigno de sua missão e que, precisa- mente porque recusa a graça que lhe é feita, se vê sempre sob os golpes do julgamento de Deus. História medíocre, essa do povo de Israel, que caminha de catástrofe em ca- tástrofe, por causa de suas repetidas infidelidades. A infi- delidade só pode significar a infelicidade e a ruína, conforme o anuncia ou confirma a pregação dos profetas. E qual é o resultado dessa história lamentável? A profecia cessa e não resta a esse povo mais que uma lei escrita, marcada pela esterilidade. O templo de Salomão, que simbolizava a esperança de Israel e sua missão sacerdotal, não é mais que ruína e cinzas. E o que ocorreu com a reino de Davi? Quanto pesar para todos os israelitas pen- sar em tudo o que eles perderam sob os golpes do julga- mento de Deus, cujo amor foi sempre tão mal- recompensado. E quando enfim aparece o Messias que eles esperaram durante tão longo tempo, eles o crucifi- cam, confirmando por esse ato supremo o que tinha sido sua atitude no curso de toda a sua história. Eles vêem nele um blasfemador, eles o entregam aos pagãos e a Pilatos, para que ele seja pendurado no madeiro. Eis Israel, eis o povo eleito, eis o que ele faz da sua escolha, da sua mis- são: ele se julga e se condena a si próprio. O anti-semi- tismo vem tarde demais! A sentença sobre Israel já está pronunciada e comparados a essa sentença, todos os ou- tros julgamentos conduzidos sobre esse povo são insigni- ficantes. Daí se segue que a missão desse povo tenha se

o

Salvador c o Servo de Deus - 1 11

tornado caduca? Não, pois o Antigo Testamento não se cansa de afirmar: a escolha de Deus é coisa séria, ela per- manece eternamente válida. O homem, tal como Israel no-lo mostra, é e permanece, a despeito de tudo, o eleito de Senhor, seu mandatário no mundo. A fidelidade de Deus triunfa sobre a infidelidade. E é assim que em tudo sendo uma demonstração viva da indignidade do ho- mem, Israel torna-se ao mesmo tempo o sinal da livre graça de Deus, a qual, sem querer levar em consideração nossa atitude nos dá o benefício de um prodigioso "ape- sar de tudo". O homem não é mais que objeto da miseri- córdia divina e desde que ele queira ser mais do que isso,

deve

necessariamente

protestar contra

a existência

do

povo

de

Israel.

Israel depende

totalmente

e exclusiva-

mente de Deus. Está para sempre reduzido a recorrer a

ele somente. Leiam os Salmos: "Tu sozinho

não pode mais que escutar Deus que lhe fala e cuja sobe- rania domina-o constantemente, quaisquer que sejam suas tentativas para lhe escapar. E é quando a missão de Israel se cumpre com todo o seu rigor, isto é, por ocasião da crucificação de Jesus de Nazaré, que se pode compre- ender, enfim, o mistério desse povo. Pois quem é, então, esse Jesus crucificado senão, ainda uma vez, esse mesmo Israel pecador e ímpio, Israel, o blasfemador? Mas, dora- vante, ele se chama Jesus de Nazaré. Se considerarmos agora a história desses dois milênios onde o judeu apa- rece sem cessar como um milagre e um absurdo, como um obstáculo que desencadeia o ódio dos povos - e cada um poderia colocar aqui seu pequeno refrão anti-semita! -, o que pode ser essa história estranha senão a confirma- ção da rejeição de Israel, tal como Deus a manifesta no Gólgota, mas também da escolha desse povo ao qual Deus permanece fiel, através de todas as vicissitudes? Podemos afirmar isso porque essa fidelidade de Deus triunfou so-

" O homem

112 - Esboço de lima DognLítica

bre O Calvário. Onde Deus esteve mais perto de seu povo senão no Gólgota? Onde esteve ele, através desse povo, mais fortemente do lado de todos os homens, de todos os povos? Vocês pensam que estaria em nosso poder excluir os judeus da fidelidade de Deus? Vocês acreditam verda- deiramente que poderíamos privá-los dela? A fidelidade de Deus com relação a Israel é precisamente a garantia de sua fidelidade com relação a nós, com relação a todos os homens.

Mas é preciso virar a página. Jesus Cristo é o coroa-

mento e a realização de Israel. Se voltarmos ao Antigo Testamento, não deixamos de encontrar nele igualmente, por toda a sua extensão, homens que, apesar de sua re- volta e de sua perdição, sabem, às vezes - coisa impressio- nante -, reconhecer sua escolha. Mas essa espécie de eco fiel, de resposta da piedade, longe de provir do próprio Is- rael, é um fruto renovado da graça de Deus. Com efeito, a graça, desde que está aqui, obriga os homens a louvar a Deus contra sua vontade e a fazê-los entender a resposta que não pode deixar de suscitar neles, como um simples reflexo, a luz que os visitou. Há uma graça dentro do jul- gamento. O Antigo Testamento a testemunha não como uma qualidade do homem israelita, mas como um mila- gre de Deus. É apesar das virtudes e dos pecados desse povo que sua história contém sempre os testemunhos que

se abrem por estas palavras: "Assim fala o Eterno

" (Is

43.1). Não são mais que respostas, ecos do milagre da fi- delidade de Deus. O Antigo Testamento fala de um "re- manescente". O que distingue esse remanescente não é a virtude ou a piedade, mas o fato de ter sido chamado. Ele contém os pecadores mantidos no freio pela graça, pecca-

tores justi.

A revelação atinge seu ponto culminante na existên- cia de Jesus de Nazaré. Jesus é oriundo de Israel, nascido

o Salvador e o Servo de Deus - 113

da Virgem Maria e, contudo, ele vem de outra parte, do alto; como tal, ele revela e cumpre a aliança. Israel não um doente que se recupera, é aquele que ressuscita dos mortos. Desde que Jesus aparece, é o julgamento de Deus que brilha; este julgamento vai ao encontro de todos aqueles que o homem pronuncia contra si mesmo, ele lhes retira sua última aparência de realidade. A fidelidade de Deus triunfa no oceano da miséria e pecado humanos. Deus tem misericórdia do homem. Este se liga a ele no mais íntimo de seu ser. Ele jamais deixa de atrair com cordas de amor povo infiel. E eis que este homem de Is- rael, não por sua natureza, mas por um milagre da graça, de novo se ergue em Israel, triunfa da morte é elevado à direita de Deus!

Israel é, no fundo, a projeção da livre graça de Deus. Ele forma o quadro do acontecimento decisivo onde, dentro da sua relação com o homem, Deus se torna visí-

vel: a ressurreição de Jesus Cristo. O homem aparece dora-

vante dentro da luz da glória de Deus. Tal é a graça, o fruto da condescendência de Deus para com o homem. E

o

lugar desse evento é o homem Jesus, oriundo de Israel.

E

a conseqüência desse evento que ilustra uma vez mais o

caráter positivo da graça, é essa extensão prodigiosa da

aliança de Abraão a todos os outros homens.

"Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura" (Mc 16.15). Tal é a graça: sua natureza é se es- tender, ir do particular ao geral. Mas, porque a salvação vem dos judeus, esse povo está não somente sob o golpe do julgamento, mas também sob o benefício da graça. A graça que repousa sobre Israel, enquanto povo eleito e chamado, é visível até os nossos dias na Igreja, que é es- sencialmente composta por judeus e pagãos. Na epístola aos Romanos, capítulos 9-11, o apóstolo Paulo não se cansa de dizer que não há uma Igreja de judeus e uma

114 - Esboço de uma Dogmática

Igreja de pagãos, mas que a Igreja é a comunidade única de homens oriundos de Israel e de pagãos. Essa dupla ca- racterística é constitutiva da Igreja e longe de sentir ver- gonha, ela deve considerar como um título de glória o fato de contar em seu seio com descendentes autênticos de Abraão. A existência de cristãos de origem judaica é a marca visível da unidade do povo de Deus que, visto de um lado, se chama Israel, e, de outro, Igreja. E se existe ainda, ao lado da Igreja uma Sinagoga que tira sua exis- tência da rejeição de Jesus Cristo e da vã ambição de con- tinuar a história de Israel, de fato, já há muito terminada, não podemos ver aí mais do que um tipo da Igreja, como sua sombra através dos séculos; como tal, ela continua a participar, quer queira quer não, do testemunho dado a Deus e à sua revelação. A videira não está morta. O que conta, é que Deus a plantou, é o que ele fez nela e o que ele lhe deu; e tudo isso tornou-se manifesto em Jesus Cristo, o homem oriundo de Israel.

o Filho Único de Deus

A revelação de Delis /lO !Il)rflL:11I }t:sus Cristo é compulsória e exclusiva e se traduz por uma ação plenamente salutar, porque Jesus Cristo não é um ser diferente de Deus, mas o Filho único do Pai, isto é, o próprio Deus vivo, sua graça, sua verdade e sua onipotência em pessoa; como tal, é o único verdadeiro Mediador entre Deus e todos os homens.

Eis-nos chegados à questão relativa à verdadeira di- vindade de Jesus Cristo. De fato, no ponto em que chega- mos, a resposta a essa questão não deixa mais dúvida. Tentemos apenas perceber em que termos essa reposta se impõe a nós.

Ao longo de nossa exposição, temos constantemente topado com o conceito de revelação ou da Palavra de Deus. Trata-se do ato pelo qual Deus se faz conhecer, da mensagem que ele mesmo nos dá. No mundo existem nu- merosas revelações, oráculos e mensagens se arrogando a qualidade de "Palavras de Deus". Trata-se, pois, de saber - e nós iremos tomar posição quanto a isso - em que me- dida isso que nós mesmos entendemos aqui por revelação

11 (, - Esboço de uma Dogm,írica

de Deus se impõe e deve ser aceito como tal. É certo que a história da humanidade no seu conjunto como a dos indi- víduos particulares é fértil em eventos de toda natureza, capazes de nos fazer sentir "uma presença misteriosa" que se impõe a nós de maneira irresistivel, nos subjuga e não nos deixa mais. Nós poderíamos facilmente ilustrar a coisa. A vida humana é como que pontuada de "revela- ções", quer se trate de amor, quer de potência, quer de be- leza, etc. Porque seria necessário, então, que isso que aqui denominamos revelação de Deus, ou seja, o evento coin- cidente com a vinda de Jesus Cristo, fosse uma revelação exclusiva? A essa questão (sobre o "absolutismo" do cris- tianismo, veja Troeltsch), deve-se responder: de fato, esta- mos cercados por muitas outras "revelações" mais ou menos compulsórias ou legítimas. Mas do ponto de vista da fé cristã nós temos o direito de afirmar que lhes falta uma autoridade última, absoluta, indiscutível. Pode-se percorrer a surpreendente diversidade, deixando-se vez por outra iluminar, convencer ou subjugar; não é menos verdade que nenhuma delas possui esse supremo poder de impedir que aquele que elas capturaram por um ins- talHe, se desprenda em seguida, tal como um homem que, depois de ter visto seu reflexo num espelho, continue seu caminho e imediatamente esqueça o que viu. É evidente que um elemento capital falta a esse tipo de revelações: a força compulsória. Não que elas sejam impotentes, insig- nificantes, ineficazes, mas, e é aqui que a fé cristã nos força a reconhecer, elas são, enfim, apenas revelações da grandeza, da potência, da bondade e da beleza tal como essas existem nesta terra criada por Deus. A terra está plena de glória e magnificência. Ela não seria nem a cria- çâo de Deus, nem o quadro que ele fixou para nossa vida, se ela não estivesse repleta de revelações. Os filósofos, os poetas, os músicos e os profetas de todos os tempos o sa-

o Filho Único de Delis - 117

bem. Portanto, falta a essas revelações, próprias da terra, a autoridade capaz de prender definitivamente o homem. O homem pode atravessar o mundo inteiro sem se sentir preso a nada. Mas, poderiam se tratar de revelações celes- tes, quer dizer, revelações do mundo invisível e incompre- ensível que nos rodeia por todos os lados e exerce sobre nós uma pressão contínua. Quantos motivos de espanto, de encantamento, existem nesse imenso domínio e nos escapam! O que seria o homem sem essa presença cons- tante do mundo celeste acima de sua cabeça? Contudo, as revelações que se pode obter ali, pertencem também à or- dem da criação: elas não possuem a autoridade derra- deira. Falta-lhes algo. Todo o domínio celeste permanece, como o terrestre, submisso à contingência. Ele se apre- senta para nós como embaixador extraordinariamente brilhante de um grande monarca; contudo, nós sabemos que ele não é esse monarca, mas somente o seu mensa- geiro. É assim com todas as potências do céu e da terra, com todas as suas "revelações". Sabemos que existe ainda "alguma coisa" acima delas. Por mais formidáveis que elas pudessem ser, mesmo que elas alcançassem a enverga- dura da bomba atômica, elas não seriam capazes de nos prender em última instância, nem nos subjugar definiti-

vamente. Si fractus illabitur orbis, impavidum ferient rui-

nae! (Horácio). A humanidade não demonstrou, mais de uma vez, através desses últimos anos de guerra, que ela permanece invulnerável aos piores acontecimentos? Na verdade, fora do próprio Senhor, não há senhor capaz de partir o coração do homem. Impassível, a humanidade atravessa todas as ruínas e pode resistir a todas as potên- cias deste mundo.

Quando, pois, a Igreja cristã fala de revelação, não é dessas manifestações terrestres ou celestes, por mais altas que sejam elas, que ele quer falar e sim da potência que se

118 - Esboço de uma [)ogmârica

encontra acima de todas as potências, quaisquer que se- jam; numa palavra, trata-se da revelação do próprio Deus

e não da revelação de um divino cá de baixo ou lá de

cima. Se, pois, a verdade que é o objeto desta conversação,

a saber, a revelação de Deus em Jesus Cristo, tem um ca-

ráter compulsório e exclusivo, se ela é verdadeira e total- mente salutar, é porque ela não destaca uma realidade diferente e separada de Deus, celeste ou terrestre, mas sim

o ser íntimo de Deus, a própria pessoa de Deus Altíssimo,

criador do céu e da terra do qual nos fala o primeiro ar-

tigo do Símbolo. Nas inumeráveis passagens onde Jesus de Nazaré (que a Igreja primitiva reconheceu e declarou como sendo o Cristo) é chamado o Senhor (Kyrios), o Novo Testamento não faz outra coisa senão retomar o termo "Yahvé" pelo qual o Antigo Testamento designa o

próprio Deus. Esse Jesus de Nazaré que atravessa das ci- dades e vilas da Galiléia, e sobe a Jerusalém, onde foi acu- sado, condenado e crucificado, é o Eterno (Yahvé) de quem fala o Antigo Testamento, é o Criador, é o próprio Deus. Um homem como todos nós, pois, situado no tempo e no espaço, possui todos os atributos de Deus, sem deixar, contudo, de ser homem, isto é, plenamente criatura. O próprio Criador se torna, sem enfraquecer em nada sua divindade, não um semi-deus, não um anjo, mas muito simplesmente, muito realmente, um homem. Eis o que quer dizer a Confissão de fé quando afirma que Jesus Cristo é o Filho único de Deus. Ele é o Filho de Deus, isto

é, Deus no ato soberano pelo qual ele dispõe de si mesmo.

Esse Deus que dispõe assim de seu ser, esse Filho único de Deus, é esse homem particular, Jesus de Nazaré. Porque Deus não é somente o Pai, mas também o Filho, porque seu ser íntimo é o lugar desse movimento continuo (ele é Deus, mas, dentro do próprio ato de seu ser, ele é o Pai e o Filho), ele tem a faculdade de ser, ao mesmo tempo, o

o filho Único de Deus - 119

Criador e a criatura, como é, ao mesmo tempo, o Pai e o Filho. Porque essa ação, essa revelação de Deus é a obra do Filho eterno de Deus ela ocupa, em completa legitimi- dade, um lugar absolutamente único em relação ao con- junto da criação. Sim, porque aqui, o próprio Deus intervém, porque esta criatura é seu Filho, o aconteci- mento que se efetiva no homem Jesus de Nazaré possui um caráter compulsório, exclusivo e plenamente salutar. Ele se distingue de todos os outros acontecimentos que se produzem ao nosso redor e que são também, bem enten- dido, um efeito da vontade e do desejo de Deus. A revela- ção e a ação de Deus em Jesus Cristo não são um efeito qualquer da sua vontade, mas o próprio Deus intervindo na criação.

No ponto em que chegamos, me parece bastante in- dicado dar a palavra à Igreja do século IV que, no con- texto da controvérsia relativa à divindade de Cristo, se exprime assim: "Cremos num só Senhor, Jesus Cristo, Fi- lho único de Deus, nascido do Pai antes de todos os sécu- los, luz de luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado e não criado, de uma mesma substância que o Pai e por quem tudo foi feito, que, por nós, homens, e por

nossa

d.C). Não faltaram vitupérios contra essa fórmula ao longo dos séculos e vocês encontrarão, certamente, du- rante seus estudos, numerosos sábios e mesmo professo-

res que não compreendem e deploram profundamente que a Igreja tenha podido chegar aqui. Eu gostaria que agora vocês se lembrassem um pouco dessas lições e to- massem um tempo para refletir um instante. Pois, todos

esses ataques contra o que se chama "ortodoxià' fazem re-

aos quaIS, mesmo

a mente pensar nos

salvação, desceu dos céus

" (Credo Niceno, 381

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120 - Esboço de uma Dogm,itica

que se lhes atribua um mínimo de cultura, devemos recu- sar juntar-nos. Sim, há algo de bárbaro nos insultos pro- feridos contra os Pais da Igreja antiga. Parece-me que, mesmo sem ser cristão, deve-se ter um pouco de respeito para reconhecer a envergadura das tentativas teológicas deles, em particular no problema que nos ocupa. Houve a presunção de que as fórmulas do Símbolo de Nicéia não fossem bíblicas. Mas há muitas verdades, reconhecida- mente necessárias e boas que não estão formuladas com todas as letras na Bíblia. A Bíblia não é um livro de recei- tas, é um documento único da revelação divina. É preciso que a revelação nos fale de maneira que possamos com- preendê-la. Em cada época, a Igreja viu-se na obrigação de responder ao que lhe era dito na Bíblia. Ela viu-se obrigada a fazê-lo, cada vez, com uma outra língua e com outras palavras, diferentes daquelas da Escritura. O texto de Nicéia é uma dessas respostas da Igreja que foram tes- tadas em combate. Nesse caso, em particular, era absolu- tamente necessário que fosse conduzido esse combate por

um iota 14 : Jesus Cristo era o próprio Deus ou um simples herói celeste ou terrestre? Não se tratava de uma questão qualquer, vê-se; mas nesse iota é o Evangelho como um todo que estava em jogo. Ou bem seria com o próprio Deus que nos relacionaríamos em Jesus Cristo, ou bem com uma criatura. A história das religiões conhece à pro- fusão seres divinos ou semi-divinos. Lutando até o san- gue sobre o ponto que nos ocupa, a teologia antiga sabia, pois, o que fazia.

Certamente esse combate não foi sempre tão edifi- cante; ele se misturou bastante com o "humano". Mas será

1<1. N. do Ed.: É o nome da menor letra do alfabeto grego, usada aqui para significar um detalhe que alguns poderiam considerar sem im- portância (cf. uso semelhante por Jesus em Mt 5.18).

o Filho Único de Delis - 121

que esse lado desagradável merece tal interesse? Cada um sabe que os próprios cristãos não tiveram nunca a preten- são de ser e não são anjos. Não é lícito, quando uma ques- tão essencial está em jogo, invocar, com um grande gesto abençoado, a paz, a paz a qualquer preço; deve-se, ao contrário, empenhar todas as forças em um combate que deve ser mesmo levado até o fim, sem se considerar nin- guém. Graças a Deus, os Pais do século IV por mais ab- surdos, mais humanos, mais pedantes que possam nos parecer hoje, não temeram conduzir um tal combate. To- das as suas fórmulas queriam dizer uma só e a mesma coisa: é que o Filho único nascido do Pai antes de todos os séculos, luz de luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, não é uma criatura, mas o próprio Deus, da mesma substância (e não de substância semelhante) que o Pai, Deus em pessoa. "Por quem tudo foi feito e quem por nós,

desceu dos céus". Desceu a nós: eis Jesus

os homens (

Cristo. E eis como a Igreja antiga o viu, eis como ele se impôs a ela e o testemunho que ela deu a ele na sua Con- fissão de fé, e que nos chama também a uma confissão se- melhante. É ainda possível, quando se compreende isso, deixar de aderir ao grande consensus da Igreja? Que in- fantilidade permanecer em lamentações estéreis a propó- sito da ortodoxia e da teologia gregas! Isso não tem nenhuma ligação com a questão em si. E se as circunstân- cias que cercaram a redação dos antigos símbolos cristãos não foram sempre "edificantes", não será porque tudo o que empreendemos nós, os homens, permaneça forçosa- mente sujeito à caução, repleto de confusão e de insufici- ência? Mas é muito importante passar por isso para atingir um resultado mesmo que pouco claro e perti- nente. Dei providentia et hominum confusione!

Muito simplesmente e muito praticamente, o con- teúdo dos antigos símbolos deve nos permitir ver com

)

122 - Esboço de lima Dogm:ítica

clareza; ao confessar a sua fé no Filho de Deus sob a forma que se conhece, os homens de Nicéia puseram o dedo sobre o que distingue e distinguirá sempre a fé cristã disso que se chama religião. Nós temos ligação com o próprio Deus e não com quaisquer deuses. É próprio da fé cristã nos fazer "participar da natureza divina" (2Pe 1.4). Do que se trata, de fato? Do acontecimento pelo qual Deus se aproximou de nós a tal ponto que, pela fé, nós participamos de seu ser. Jesus Cristo é, pois, o Mediador entre Deus e os homens. É dentro dessa perspectiva que tudo deve ser interpretado: Deus se põe no nosso nível para nos elevar ao dele. Que um tal milagre devesse se produzir e se tenha efetivamente produzido, eis o que nos faz medir nosso pecado e nossa miséria em toda a sua verdadeira profundidade. É sobre esse milagre inaudito, esse acontecimento que nos ultrapassa totalmente, que a Igreja e toda a cristandade têm os olhos postos. Deus se deu ele mesmo a nós. E é por isso que toda palavra, toda proposição cristã tem algo de absoluto, o que não seria possível às outras palavras humanas. A Igreja não tem "opiniões", pontos de vista, convicções, ela não se deixa levar por uma idéia. Ela crê e ela afirma sua fé, quer dizer, ela fala e age a partir da mensagem fundada em Cristo que ela recebe do próprio Deus. Daí o caráter exclusivO de seu ensinamento, de suas consolações e de suas exorta- ções das quais toda a força procede não dela mesma, mas do acontecimento prodigioso pelo qual Deus quis ser para nós, em Jesus Cristo, seu Filho único.

Nosso Senhor

A exislêllCÚZ do /wmern Jesus Cristo é, em virtude da sua divindade, a decisão soberana sobre a existência de todo homem. Ela está baseada no fato de que, pela dispensação de Deus, este Alguém representa tudo e, portanto, tudo está ligado e subjugado a este Alguém. Sua comunidade sabe disso. E é isto que deve ser proclamado ao mundo.

Perguntei a mim mesmo se, ao invés destas senten- ças, simplesmente não copio a explanação de Martinho Lutero sobre o segundo artigo: "Creio que Jesus Cristo, verdadeiro Deus nascido do Pai na eternidade, e também verdadeiro homem nascido da Virgem Maria, é meu Se-

nhor

completo do artigo segundo. Se olharmos para o texto, talvez pareça, exegeticamente, um ato arbitrário, porém, seguramente, um ato arbitrário de um gênio. Afinal, Lu- tero, na verdade, não fez mais do que remontar ao mais original e mais simples vocabulário do Credo, Kyrios Jesus Christos, Jesus Cristo é o Senhor. Ele comprimiu e redu- ziu a este denominador tudo o que está declarado no se- gundo artigo. Na sua formulação a verdadeira Divindade

".

Nestas palavras, Lutero expressou o conteúdo

124 - Esboço de uma Dogmática

e a verdadeira humanidade se tornam o predicado deste

sujeito. A obra completa de Cristo é a obra completa do

Senhor. A declaração integral que este Senhor nos propõe

é de que sejamos sua possessão; "para que eu viva sob ele

no seu reino e o sirva", porque ele é meu Senhor, que "me redimiu quando estava perdido e condenado, adquiriu- me, livrou-me de todos os pecados, da morte e do poder do mal". E a promessa cristã, na sua integralidade, está di-

recionada para "que eu o sirva em retidão eterna, inocên- cia e glória", de acordo com sua glória. A integralidade se torna uma analogia da exaltação de Cristo.

Não queria iniciar esta exposição desta parte do Credo sem chamar sua atenção enfaticamente para o texto de Lutero. Mas vamos tentar trazê-la para bem perto da nossa própria linha de pensamento. O que se quer dizer quando dizemos que Jesus Cristo é nosso Senhor? Cos- tumo parafrasear, dizendo que a existência de Jesus Cristo é a soberana decisão sobre a existência de todo ho- mem. Uma soberana decisão foi tomada sobre nós, ho- mens. Se estamos conscientes dela e lhe fazemos justiça, isto é outra questão. Temos a declaração de que ela foi to- mada. Esta decisão não tem nada que ver com um des- tino, uma determinação neutra e objetiva do homem, que poderia, de alguma forma, ser lida da natureza e história do homem; porém esta decisão soberana sobre a existên- cia de todo homem consiste na existência do homem Je- sus Cristo. Porque ele é, foi e será, esta decisão soberana é imposta sobre todo homem. Você se lembra que, no iní- cio da nossa aula, enquanto era exposto o conceito de fé, decidimos que a fé cristã deve ser vista absolutamente como uma decisão do homem, que é tomada à vista de uma decisão divina. Quando dizemos que Deus é nosso Senhor e Mestre, como cristãos não estamos pensando, à semelhança de todo misticismo, como algo divino e des-

Nosso Senhor - 125

conhecido e de certa forma indefinível e final, que paira sobre nós como um poder e nos domina. Porém, estamos pensando da figura concreta, o homem Jesus Cristo. Ele é nosso Senhor. Uma vez que ele existe, Deus é nosso Se- nhor. Precedendo toda existência humana, como um a priori, assim é a existência de Jesus Cristo. É isto que a Confissão de fé cristã nos diz. O que significa esta prece- dência dele? Não deixe a idéia de uma precedência tem- poral ser proeminente. Ela aconteceu, mas acabou, há este grande histórico perfeito, no qual o senhorio foi esta- belecido sobre nós, nos anos 1-30 na Palestina - porém, não é este o caso. Quando a precedência temporal ad- quire sua importância, é devido à existência deste homem preceder nossa existência em virtude da sua incompará- vel importância. Ele precede nossa existência em virtude da sua autoridade sobre nossa existência, no poder da sua divindade. Voltemos ao que dizíamos na última aula. Agora podemos ver o que se queria dizer quando dizía- mos que a existência deste homem é, em palavras simples, a existência do próprio Deus. É nisto que constitui o valor deste homem, que é o conteúdo da sua vida, que é seu po- der sobre nós. Uma vez que Jesus Cristo é o único Filho gerado por Deus, "de uma substância com o Pai", por- tanto, também de sua natureza, seu ser humano, é um acontecimento no qual a decisão soberana está consu- mada. Sua humanidade é, na verdade, humanidade, a es- sência de toda humanitas. Não como um conceito ou idéia, mas como uma decisão, como história. Jesus Cristo é o homem, e a medida, a determinação e limitação de todo ser humano. Ele é a decisão quanto ao propósito e objetivo de Deus, não somente para ele, mas para todo homem. É neste sentido que a Confissão cristã chama Je- sus Cristo "nosso Senhor".

126 - Esboço de uma Dogmárica

Esta soberania, decisão régia em Jesus Cristo, está fundamentada sobre o fato de que pela disposição de Deus este único homem representa todos. Está funda- mentada, isto é, esta decisão soberana de Deus - ou seja,

o senhorio de Jesus Cristo - não é um ato cego de poder em si mesmo voltado para nós, homens. Você se lembra como falamos da onipotência de Deus e como sublinhei a declaração de que "o poder em si mesmo é maligno; que o poder pelo poder é o Diabo". O senhorio de Jesus Cristo não é poder pelo poder. Quando a igreja cristã confessa que "Creio que Jesus Cristo é o Senhor", portanto, não está pensando numa lei cega pairando ameaçadoramente sobre nós, não em um poder histórico, não em um des- tino ao qual o homem está exposto indefeso, diante do qual sua percepção final consistiria apenas em reco- nhecê-lo como tal; mas ela está pensando no próprio se- nhorio do seu Senhor. Seu senhorio não é apenas

potentia; ele é potestas. Ele se torna reconhecível para nós como ordenança não apenas de uma vontade insondável, mas como ordenança de sabedoria. Deus é justo e sabe o que está fazendo, assim ele é nosso Senhor e quer ser co- nhecido e reconhecido por nós como tal. Evidentemente, esta base do senhorio de Cristo nos conduz ao mistério. Eis algo objetivo, uma ordem que está acima de nós e se- parada de nós, uma ordem à qual o homem deve sujeitar- se, a qual deve reconhecer, a qual ele deve apenas ouvir e obedecer. Como poderia ser de outra forma, uma vez que

o próprio senhorio de Cristo já foi fundado e consiste no

poder da sua Divindade? Onde Deus é rei, o homem só pode prostrar-se e adorar. Mas adorar na presença da sa- bedoria de Deus, da sua justiça e santidade, do mistério da sua misericórdia. Esta é a reverência cristã diante de Deus e o louvor do cristão para Deus, do serviço cristão e

Nosso Senhor - 127

obediência. A obediência está no ouvir e o ouvir significa receber a palavra.

Gostaria de tentar e indicar esta base do senhorio de Cristo resumidamente. A declaração de abertura diz que esta decisão soberana está baseada no fato de que este Unigênito da dispensação de Deus representa todos. O mistério de Deus, e dessa forma, o de Jesus Cristo, é que ele, o Unigênito, este homem, pelo seu ser Único - não uma idéia, mas Único que é totalmente concreto neste tempo e lugar, um homem que carregou um nome e vem de um lugar, e que, como todos nós, tem um histórico de vida no tempo - não apenas existe por si mesmo, mas é Único para todos. Você pode tentar ler o Novo Testa- mentú do ponto de vista deste "para nós". Pois a existência inteira deste homem, que permanece no centro, é deter- minado pelo fato de que ela é uma existência humana, re- alizada e cumprida não apenas dentro do seu próprio referencial e com seu próprio significado em si mesmo, mas para todos os outros. Neste homem único Deus vê todo homem, todos nós, como se através de um espelho. Através deste meio, através deste Mediador somos conhe- cidos e vistos por Deus. Desta forma, podemos e devería- mos entender a nós mesmos como homens vistos por Deus nele, neste homem, como homens feitos conhecidos para ele. Ante seus olhos na eternidade Deus mantêm os homens, cada homem, nele, neste Unigênito; e não ape- nas diante dos seus olhos, mas amados e eleitos e chama- dos e feitos sua possessão. Nele, desde a eternidade, ele se amalgamou a si mesmo a cada homem, a todos os ho- mens, ao longo de todo o espectro que abrange o ser cri- ado como homem, através da miséria humana até a glória prometida ao homem. Tudo que se refere a nós é decidido nele, neste único homem. É à semelhança deste Único, à semelhança de Deus, após a qual o homem foi criado ho-

128 - Esboço de uma DogmáricJ

mem. Este Único em sua humilhação carrega o pecado, a perversidade, a estupidez, o sofrimento e a morte de to- dos. A glória deste Único é a glória que foi intencionada para todos nós. Para nós sua intenção é que podemos servi-lo em eterna justiça, inocência e bem-aventurança, uma vez que ele ressuscitou, vive e governa na eternidade. Assim é a sabedoria da dispensação de Deus, esta coesão de cada homem e todos os homens com o Único; esta é, visto assim para falar de cima, a base do senhorio de Cristo.

E agora a mesma coisa vista do lado do homem. Uma vez que esta dispensação de Deus existe, uma vez que iniciamos nesta coesão, uma vez que Jesus Cristo é o único homem e permanece diante de Deus em nosso fa- vor, e nós nele somos amados, sustentados, conduzidos e gerados por Deus, somos propriedade de Jesus Cristo, por obrigação estamos ligados nele, este Proprietário. Ob- serve bem que esta nomeação de nós para ser sua propri- edade, esta conexão de nós para ele não possui em primeira instância algo como uma moral ou mesmo uma qualidade religiosa, mas ela repousa sobre um estado de obrigações, sobre uma ordem objetiva. O elemento moral e religioso é a cura posterior. Evidentemente, o resultado necessariamente também incluirá um elemento de mora- lidade e religião. Porém, no primeiro caso o fato é sim- plesmente que pertencemos a ele. Em virtude da dispensação de Deus o homem é propriedade de Cristo, não apesar de, mas na sua liberdade. Pois assim como o homem conhece e vive sua liberdade, ele vive na liber- dade que lhe é oferecida e criada para ele pelo fato de que Cristo intercede por ele na presença de Deus. Esta é a grande boa ação de Deus, anunciada nisto, que Jesus Cristo é o Senhor. É a divindade desta boa ação, a divin- dade da misericórdia eterna que, antes de existirmos ou

Nosso Senhor - 129

pensarmos nele, fomos buscados e achados nele. Nesta misericórdia divina que também é para nós a base do se- nhorio de Cristo e que nos libera de todos os outros se- nhorios. É esta misericórdia divina que exclui o direito de todos os outros senhores falarem e torna impossível esta- belecer outra autoridade ao lado desta autoridade e outro senhor ao lado deste Senhor, e ouvi-lo. É esta eterna mi- sericórdia, na qual esta dispensação sobre nós está inclu- ída, que torna impossível recorrer ao passado o Senhor Jesus Cristo para outro senhor e contar mais uma vez com o destino, história ou natureza, como se fossem estas coisas que, na verdade, tivessem nos dominado. Uma vez que vimos que a potestas de Cristo está baseada na mise- ricórdia de Deus, bondade e amor, somente então aban- donamos todas as reservas. Então a divisão entre a esfera religiosa e outras esferas cessa. Cessamos de separar entre corpo e alma, entre serviço de Deus e política. Todas estas separações cessam, pois o homem é um, e como tal está sujeito ao senhorio de Cristo.

A comunidade sabe que Jesus Cristo é nosso Se- nhor, isto é conhecido na igreja. Mas a verdade "nosso Se- nhor" não depende do nosso conhecimento ou reconhecimento, ou da existência de uma congregação onde ela é entendida e tem sua expressão; é porque Jesus Cristo é nosso Senhor que ele pode ser conhecido e pro- clamado como tal. Mas ninguém conhece como uma ob- viedade que todos os homens têm seu Senhor nele. Este conhecimento é uma questão da nossa eleição e chamado, uma questão da comunidade reunida junto pela sua Pala- vra, uma questão da Igreja.

Citei a exposição de Lutero do segundo artigo. Al- guém poderia objetar esta exposição, onde Lutero faz do "nosso" Senhor um "meu" Senhor. Evidentemente, não me aventuraria a fazer disto uma acusação contra Lutero;

130 - Esboço de uma Dogm;írica

pois esta concentração de Lutero sobre a exposição indi- vidual adquire uma urgência e um peso extraordinário. "Meu Senhor!" - através desta confissão O todo alcança uma realidade e existencialidade fantásticas. Mas não de- vemos perder de vista o fato de que, em concordância com a expressão aceita do Novo Testamento, a Confissão diz, "nosso Senhor". Da mesma forma que na Oração do Senhor, oramos no plural, não como uma multidão, mas em companheirismo. A confissão "nosso Senhor" é a con- fissão daqueles que são chamados em sua congregação para serem irmãos e irmãs, com a comissão geral para en- frentar o mundo. São aqueles que conhecem e confessam Jesus Cristo como a pessoa que ele é. Eles o chamam "nosso" Senhor. Mas uma vez que estamos cientes de que existe tal lugar de conhecimento e confissão, devemos olhar mais uma vez para fora, para a cena completa; e não devemos considerar o "nosso Senhor" em qualquer sen- tido limitado, como se a congregação dos cristãos tivesse seu Senhor em Jesus Cristo, mas outras assembléias e co- munidades tivessem outros senhores. O Novo Testa- mento não deixa dúvidas para o fato de que existe apenas um Senhor e este Senhor é o Senhor do mundo, Jesus Cristo. É isto que a comunidade tem de pregar para o mundo. A verdade e realidade da Igreja pertence ao ter- ceiro artigo. Mas este tanto pode ser dito aqui, que a co- munidade de Jesus Cristo não é a realidade que existe por si mesma; ela existe porque tem uma comissão. O que ela conhece ela tem de dizer ao mundo. "Deixe sua luz bri- lhar diante dos homens" (Mt 5.16). Fazendo isto, sendo como era desde o princípio, a única e viva advertência contra o mundo, a proclamação da existência do Senhor, dessa forma não levantando falsos reclamos para si mesma, por sua fé ou seu conhecimento. Não, Jesus Cristo é o Senhor.

Nosso Senhor - 131

Entretanto, aqui também o Credo de Nicéia tem feito pouco progresso comparado com o Credo dos Após- tolos - assim chamado, unicum dominum, o sole Senhor. Expressar e proclamar isto é a comissão da Igreja. Entre os cristãos e na congregação devemos considerar o que é chamado o "mundo", como a priori nada mais do que o domínio, do que aqueles homens, que devem ouvir isto mesmo, e além disso, de nós. Tudo o mais que concebe- mos que conhecemos sobre o mundo, todas as manifesta- ções de incredulidade são proposições secundárias e não nos preocupam fundamentalmente. O que interessa e nos preocupa como cristãos não é que o mundo está onde nós estamos, que ele fecha seu coração e cabeça à fé, mas sim- plesmente isso, que estes homens são pessoas que devem ouvir de nós, para quem nós podemos proclamar o Se- nhor.

Neste ponto eu gostaria, a propósito, de responder a pergunta que se me tem colocado várias vezes durante es- tas semanas: "Você não está ciente de que há muitos dos que estão sentados nesta classe que não são cristãos?" Sempre sorrio e digo: "Isto não faz nenhuma diferença para mim". Deveria ser completamente temeroso se a fé dos cristãos objetivasse a separação e separasse uns dos outros. Ela é, na verdade, o motivo mais forte para reunir homens e ligá-los todos juntos. E o que os liga, simples- mente e desafiadoramente, ao mesmo tempo, a comissão que a comunidade tem para proclamar sua mensagem. Se considerarmos a questão mais uma vez do ponto de vista da comunidade, isto é, do ponto de vista daqueles que se- riamente desejam ser cristãos - "Senhor, eu creio: ajuda- me na minha descrença!" (Mc 9.24) - devemos lembrar que tudo dependerá não de o cristão pintar para o não- cristão em palavra e ação um quadro do Senhor ou uma idéia de Cristo, mas sobre seu sucesso em, com suas pala-

132 - Esboço de uma Dogm,ítica

vras humanas e idéias, apontar o próprio Cristo. Pois esta não é a concepção dele, não o dogma de Cristo que é o Senhor verdadeiro, mas ele que é confirmado na palavra dos Apóstolos. Diga-se a todos os que se consideram crentes: Que nos seja concedida não fundamentar uma imagem, quando falamos de Cristo, um ídolo cristão, mas em toda nossa fraqueza apontar Aquele que é o Senhor e assim, no poder da sua Divindade, a soberana decisão so- bre a existência de todo homem.

o Mistério e o Milagre do Natal

A verdade da concepção de Jesus Cristo pelo Espírito Santo e seu nascimento da Virgem Maria nos conduz à verdadeira Encarnação do verdadeiro Deus, realizada na sua manifestação histórica, e lembra a forma especial através da qual este início do ato divino da graça e revelação, que aconteceu em Jesus Cristo, foi distinguido de outros acontecimentos humanos.

Chegamos agora a um dos pontos, e talvez, na ver- dade, ao ponto, no qual sempre, e até mesmo em larga es- cala na comunidade cristã, somos insultados. Talvez seja a sua experiência também, uma vez que esteve pronto a seguir a explanação até aqui, embora ocasionalmente constrangido quanto a saber onde isto nos levará; você é levado ao assunto repentinamente pelo que está para vir agora - e que não é minha invenção, mas a Confissão da Igreja! Não vamos ficar apreensivos, mas tendo cami- nhado até aqui em paz relativa, queremos abordar esta se- ção da mesma forma, pacificamente e objetivamente, a seção "concebido pelo Espírito Santo, nascido da Virgem Maria". Aqui também nosso interesse deve ser simples-

134 - Esboço de uma [)ogm,írica

mente a verdade; mas também devemos nos aproximar com muita reverência, para que as questões que nos dei- xam apreensivos, como "devemos acreditar nisto?", não seja a última, mas que talvez mesmo aqui possamos res- ponder um "Sim" com muita alegria.

Temos de tratar com o início de uma série completa de pronunciamentos sobre Jesus Cristo. O que estivemos ouvindo até agora foi a descrição de um sujeito. Todavia, agora ouvimos uma quantidade de definições - conce- bido, nascido, padecido, crucificado, sepultado, desceu, subiu novamente, assentou-se à direita de Deus, por esta

que descrevem uma ação ou um

evento. Estamos interessados com a história de uma vida, começando com geração e nascimento como qualquer vida humana; uma vida inteira notavelmente comprimida em uma pequena palavra "padeceu", uma história de pai- xão e, finalmente, a confirmação divina desta vida em sua Ressurreição, sua Ascensão e ainda a conclusão formidá- vel que, devido a tudo isso, ele voltará para julgar os vivos e os mortos. Ele, que vive e age, é Jesus Cristo, o Filho de Deus, nosso Senhor.

Se quisermos entender o significado de "concebido pelo Espírito Santo e nascido da Virgem Maria", sobre- tudo devemos tentar ver que estas duas declarações for- midáveis asseguram que o Deus da livre graça tornou-se homem, um homem real. A Palavra eterna se fez carne. Este é o milagre da existência de Jesus Cristo, a vinda do Deus dos altos céus até nós - o Espírito Santo e a Virgem Maria. Este é o mistério da Natividade, da Encarnação. Nesta parte, a Confissão da Igreja Católica faz o sinal da cruz. E nos mais variados cenários, compositores têm re- produzido este et incanatus est. Este milagre celebramos anualmente, quando celebramos o Natal.

razão ele voltará

o Mistério c o Milagre do Natal - 135

Se este milagre devo compreender Então permaneça reverente meu espírito

Tal in nuce é a revelação de Deus; podemos apenas compreendê-la, somente ouvi-la como início de todas as coisas.

Porém não há nenhuma dúvida aqui sobre a con- cepção e o nascimento em geral, mas de uma concepção e nascimentos específicos. Por que concebido pelo Espírito Santo e porque nascido da Virgem Maria? Por que este milagre especial que se pretende expresso na Encarnação? Por que o milagre da Natividade anda lado a lado com o mistério da Encarnação? Uma declaração noética é colo- cada, por assim dizer, ao lado de uma declaração ontoló- gica. Se na Encarnação tratamos com o elemento em si, aqui tratamos com o símbolo. Os dois não podem ser confundidos. O elemento envolvido na Natividade é ver- dadeiro por si mesmo. Contudo, ele é relembrado, ex- posto no milagre do Natal. Porém, seria injusto concluir que, embora "apenas" um símbolo esteja envolvido, isto signifique que se possa subtraí-lo do mistério. Deixe-me alertá-lo contra isto. É raro na vida ser capaz de separar forma e conteúdo.

"Verdadeiro Deus e verdadeiro homem". Se conside- rarmos em primeiro lugar esta verdade cristã básica à luz de "concebido pelo Espírito Santo", a verdade evidente é que o homem Jesus Cristo simplesmente tem sua origem em Deus, isto é, ele deve sua origem na história ao fato de que Deus em pessoa tornou-se homem. Isto significa que Jesus Cristo é, na verdade, homem, verdadeiro homem, mas ele não é apenas um homem, não somente um dom extraordinário ou um homem especialmente orientado, para não dizer um super-homem; mas, enquanto homem,

136 - Esboço de uma Dogm,üica

ele é o próprio Deus. Deus é um com ele. Sua existência começa com a ação especial de Deus; como homem ele está fundamentado em Deus, ele é verdadeiro Deus. O su- jeito da história de Jesus Cristo é, portanto, o próprio Deus, tão verdadeiro quanto é um homem que vive, sofre e age. Tão seguramente quanto está envolvida nesta vida, da mesma forma esta iniciativa humana tem seus funda- mentos no fato de que nele e através dele Deus tomou a iniciativa. Deste ponto de vista não podemos deixar de dizer que a Encarnação de Jesus Cristo é análoga à cria- ção. Mais uma vez Deus age como criador, mas agora não como o Criador a partir do nada; pelo contrário, Deus adentra a criação e cria juntamente com ela um novo co- meço, um novo começo na história e, além do mais, na história de Israel. Na continuidade da história humana um ponto se torna visível no qual o Próprio Deus apressa- se ao encontro da criatura e se torna um com ela. Deus se fez homem. Desta forma esta história começa.

Agora, temos de virar a página e nos achegar à se- gunda declaração expressa relacionada a isto, quando di- zemos "nascido da Virgem Maria". O fato realçado é que estamos na terra. Há uma criança humana, a Virgem Ma- ria; assim como enviado por Deus, Jesus também veio deste ser humano. Deus deu-se a si mesmo uma origem humana terrena, este é o significado de "nascido da Vir- gem Maria". Jesus Cristo não é "apenas" o verdadeiro Deus; isto não seria encarnação verdadeira - nem é ele um ser intermediário;. ele é um homem como todos nós, um homem sem restrição. Ele não apenas se assemelha conosco; ele é o mesmo que nós. Como Deus é o sujeito na vida de Jesus Cristo, assim o homem é o sujeito nesta história, porém, não no sentido de um sujeito sendo in- fluenciado, mas de um homem que está na ação. O ho- mem não se torna um marionete neste encontro com

o Mistério e o Milagre do Natal- 137

Deus, mas se há humanidade genuína, aqui está, onde o próprio Deus se fez homem.

Isto configuraria o círculo que pode ser visto aqui; isto é, a verdadeira divindade e verdadeira humanidade em completa unidade. No Concílio de Calcedónia, em 451, a Igrej a tentou cercar esta unidade contra todos os equívocos; contra a unificação monofisista, que resultou do assim chamado docetismo, que estava fundamental- mente desapercebido de qualquer humanidade verda- deira em Cristo Deus se fez homem apenas aparentemente - e contra a tentativa nestoriana de au- mentar a distância entre Deus e homem, que queria sim- plesmente separar, e segundo a qual a divindade de Cristo pode ser considerada a todo instante como separada da sua humanidade. Além disto, esta doutrina retoma um erro mais antigo, aquele dos assim chamados ebionitas. A partir destes ebionitas o caminho conduz aos arianos que desejaram entender Cristo simplesmente como uma cria- tura especialmente exaltada. O Concílio de Calcedónia formulou a tese de que a unidade é "sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação". Talvez você esteja inclinado a descrever isto como "teólogos abandonados" ou como "escaramuças de clérigos". Todavia, em todas es- tas disputas a preocupação nunca foi deixar o mistério de lado, como se quiséssemos por esta fórmula resolver a questão racionalmente; mas os primeiros esforços da Igreja eram - e isto que a torna digna de nossa atenção - conduzir os olhos dos cristãos de uma forma adequada a este mistério. Todas as outras tentativas foram tentativas para solucionar o mistério dentro de uma capacidade de compreensão humana. O próprio Deus e o homem miste- rioso, isto podia ser entendido; até mesmo a única coinci- dência deste Deus e deste homem na forma de Jesus poderia ser explicada. Mas estas teorias, contra as quais a

1.~8 - Esboço de lima Dogmitica

igreja primitiva se voltou, não atentam para o mistério. Mas a ortodoxia primitiva estava interessada em unir ho- mens sobre este centro, e ao homem que recusasse acredi- tar deveria ser ignorado; mas nada deve ser diluído aqui; este sal não deve perder seu sabor. Eis a razão da grande aplicação de esforços pelos primeiros concílios e teólogos. Há uma grosseria de nossa parte, nos dias de hoje, como resultado de uma intelectualidade de alguma forma bár- bara, dizer que eles foram "muito longe" naqueles dias, ao invés de sermos gratos pelo trabalho fundamental que então realizaram. Você não precisa, evidentemente, subir ao púlpito e recitar esta fórmula; mas você deveria assu- mir a questão como absolutamente fundamental. A cris- tandade tem visto e estabelecido o que está envolvido no milagre da Natividade, ou seja, a unia hypastatica, a uni- dade genuína do verdadeiro Deus e do verdadeiro ho- mem no único Jesus Cristo. E somos convidados a nos agarrar a isto.

Certamente, todos vocês agora observam que, nes- tas expressões "concebido pelo Espírito Santo" e "nascido da Virgem Maria", algo especial ainda está sendo manifes- tado. A declaração é de uma procriação e de um nasci- mento raros. A isto dá-se o nome de nativitas Jesu Christi. Um milagre leva ao mistério da verdadeira divindade e da verdadeira humanidade, o milagre desta procriação e deste nascimento.

O que se quer dizer com "concebido pelo Espírito Santo?" Não significa que o Espírito Santo é suposta- mente o pai de Jesus Cristo; em sentido restrito, apenas a negação está declarada através dela, de que o homem Je- sus Cristo não tem pai. Em sua procriação não acontece o início da existência humana, mas sua humana existência inicia na liberdade do próprio Deus, na liberdade na qual o Pai e Filho são um na ligação do amor, no Espírito

o Mistério c o Milagre do Natal - 139

Santo. Assim, quando olhamos para o início da existência de Jesus, na verdade estamos olhando para o profundo da Divindade, na qual o Pai e Filho são um. Esta é a liber- dade da vida mais íntima de Deus, e nesta liberdade a existência deste homem começa em 1 a. C. Por este acon- tecimento, pelo próprio Deus muito concretamente ini- ciar neste ponto consigo mesmo, este homem que de si mesmo não estava capacitado ou propenso, pode não apenas proclamar a Palavra de Deus, mas por si mesmo ser a Palavra de Deus. No meio da velha humanidade, a nova se inicia. Este é o milagre do Natal, o milagre da procriação de Jesus Cristo sem um pai. Isto não tem nada que ver com os mitos narrados em diversos lugares na história da religião, mitos de procriação de homens por deuses. Não temos nada que ver com este tipo de procria- ção. O próprio Deus assumiu-se como Criador e não como um parceiro desta Virgem. A arte cristã de tempos mais remotos tentou reproduzir este fato, isto é, de que não havia nenhuma questão de um evento sexual. E tem sido bem confirmado que esta procriação se concretizou especialmente pelo ouvido de Maria, que ouviu a Palavra de Deus.

"Nascido da Virgem Maria". Mais uma vez e agora de um ponto de vista humano, o macho é excluído. O ma- cho não teve nenhuma participação neste nascimento. O que está envolvido aqui, se você preferir, é o ato divino de julgamento. Para o que agora se inicia, o homem em nada contribuiu através da sua ação e iniciativa. O homem não está simplesmente excluído, pois a Virgem está presente. Mas o macho, como agente específico da ação humana na história, com sua responsabilidade no direcionamento da espécie humana, deve agora retirar-se para segundo plano, com a impotente figura de José. Esta é a resposta cristã à questão da mulher: aqui, a mulher permanece ab-

140 - Esboço de uma Dogm,üica

solutamente em primeiro plano, além disso, virgo, a Vir- gem Maria. Deus não escolheu o homem em seu orgulho e em sua rebeldia, mas o homem em sua fraqueza e hu- mildade, não o homem em seu papel histórico, mas o ho- mem na fraqueza de sua natureza assim representada pela mulher, a criatura humana que pode confrontar Deus apenas em palavras, "Sou serva do Senhor; que aconteça comigo conforme a tua palavra" (Lc 1.38). Esta é a coope- ração humana nesta questão, isto e apenas isto! Não deve- mos pensar no mérito da existência desta serva nem tentar mais uma vez atribuir poder à criatura. Mas Deus tem visto o homem em sua fraqueza e em sua humildade, assim como Maria expressou o que somente a criação pode expressar em seu encontro. Assim Maria o fez e as- sim, portanto, a criatura diz "Sim" para Deus, como parte da grande aceitação que chega ao homem da parte de Deus.

o milagre do Natal é a forma atual do mistério da união pessoal de Deus com o homem, a unia hypostatica. Repetidas vezes a igreja cristã e sua teologia tem insistido que não devemos postular que a realidade da Encarnação, o mistério do Natal, tinha que, por absoluta necessidade, tomar a forma deste milagre. A verdadeira Divindade e a verdadeira humanidade de Jesus Cristo em sua unidade não dependem do fato de Cristo ter sido concebido pelo Espírito Santo e nascido da Virgem Maria. Tudo o que podemos dizer é que foi do agrado de Deus deixar o mis- tério real e tornar-se manifesto em sua forma. Nova- mente, isto não pode significar que contra esta forma fatual do milagre estamos como que livres para afirmá-lo ou não, subtrair algo e dizer que temos ouvido, mas que temos reservas, que esta questão pode estar em outra forma para nós. Talvez entendamos melhor a relação da questão e forma, que está presente aqui, dando uma

o Mistério e o Milagre do Natal- 141

olhada na história, familiar a todos, da cura do paralítico:

"Mas, para que vocês saibam que o Filho do homem tem

na terra autoridade para perdoar pecados

pegue a sua maca e vá para casa" (Mc 2.10, 11). "Para que

vocês saibam

virginal deve ser também entendido. O que está em ques- tão é o mistério da Encarnação como a forma visível do milagre. Entenderíamos mal Marcos 2, se quisermos in- terpretar em sua leitura que o milagre principal foi o per- dão dos pecados e o milagre corporal apenas um incidente. Uma coisa obviamente pertence necessaria- mente à outra. Da mesma forma deveríamos dar um alerta, também, contra considerar o milagre da nativitas à parte, e aderir ao mistério como tal. Uma coisa deve ser dita definitivamente, que, toda vez que as pessoas querem fugir do milagre, uma teologia vem como ajuda, que ces- sou de entender e também de honrar o mistério, e tem, pelo contrário, se esforçado em exorcizar o mistério da unidade de Deus e homem em Jesus Cristo, o mistério da graça livre de Deus. Por outro lado, onde este mistério se faz entendido e onde os homens evitam qualquer tenta- tiva da teologia natural, uma vez que eles não têm neces- sidade dela, o milagre chega para ser graciosamente e alegremente reconhecido. Ele se torna, podemos dizer, uma necessidade interna neste ponto.

Levante-se,

";

desta forma o milagre do nascimento

Sofreu

A vida de Jesus Cristo não é um triunfo, mas uma humi- lhação, não um sucesso, mas uma falha, não uma alegria, mas sofrimento. Por esta mesma razão ela revela a rebelião dos homens contra Deus e a ira de Deus contra o homem, que se segue necessariamente; mas ela também revela a misericórdia na qual Deus se envolveu nos negócios próprios do homem e conseqüentemente em sua humilhação, falha e sofri- mento, para que, dessa forma, não necessitassem ser mais da alçada do homem.

No Catecismo de Calvino podemos nesta passagem ler a extraordinária conclusão que na Confissão a vida de Jesus é ignorada até a Paixão, porque o que aconteceu nesta vida até à Paixão não pertence à "substância da nossa redenção". Tomo a liberdade de dizer que aqui Cal- vino está errado. Como pode alguém dizer que o resto da vida de Jesus não é substancialmente para nossa reden- ção? Neste caso qual seria seu significado? Uma narrativa meramente supérflua? Penso que está envolvido na vida completa de Jesus algo que recebe seu início no artigo "ele

144 - Esboço de uma Dogmática

padeceu". Em Calvino temos um exemplo prazeroso ante os nossos olhos, de alunos de um grande mestre sempre vendo melhor do que ele; pois no Catecismo de Heidel- berg, composto pelos discípulos de Calvino, Olevian e Ursino, a Questão 37 pergunta: "O que tu entendes pela pequena palavra 'sofrer'?" "Que ele durante todo o tempo da sua vida na terra, mas especialmente ao fim disso, car- regou em seu corpo e alma a ira de Deus contra o pecado de toda a raça humana". A favor da visão de Calvino pode, claro, ser aduzido que Paulo, e as epístolas do Novo Testa- mento em geral, raramente referem-se a esse "todo o

tempo" da vida de Cristo, e que os apóstolos também, se- gundo Atas, parecem ter mostrado consideravelmente pouco interesse na questão. Para eles, aparentemente, apenas uma coisa sobressaia, que, traído pelos judeus, ele estava liberado para os gentios, foi crucificado e ressurgiu da morte. Mas se os cristãos da igreja primitiva estavam com seu olhar tão completamente concentrado no Cruci- ficado e Ressurreto, isto não é para ser tomado como ex- clusividade, mas de forma inclusiva. O fato de que Cristo morreu e ressurgiu é uma redução da vida completa de Je- sus; mas nisto devemos também ver seu desenvolvi-

mento.

título

A

vida

completa

de

Jesus

vem

sob

o

"padeceu".

Este é um fato extremamente surpreendente, para o qual não temos sido preparados diretamente pelo que tem sido dito. Jesus Cristo, o Filho único de Deus, nosso Senhor, concebido pelo Espírito Santo, nascido da Virgem Maria, verdadeiro Filho de Deus e verdadeiro filho do ho- mem - qual a relação destas coisas com o desdobramento de toda a sua vida sob o signo de que ele "padeceu"? Podí- amos esperar algo diferente, algo resplandecente, triun- fante, bem sucedido, jubiloso. De qualquer forma, não ouvimos uma palavra disso, mas, predominante na pleni-

Sofreu

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tude de sua vida, a asserção de que "ele padeceu". Na ver- dade, é a última palavra? Não podemos negligenciar como esta vida completa termina: no terceiro dia ele res- surge da morte. Assim, a vida de Jesus não é completa- mente desprovida de um sinal da alegria vindoura e da vitória vindoura. Não sem motivo tanto é dito sobre glo- rificação e, não sem motivo há a figura da alegria do casa- mento tantas vezes mencionada. Embora, certamente, não é sem admiração que várias vezes ouvimos Jesus cho- rando, mas nunca que ele riu, e há ainda para ser dito que continuamente através do seu sofrimento houve uma es- pécie de centelha de alegria na natureza à sua volta, em crianças e, sobretudo, de alegria em sua existência e em sua missão. Ouvimos mais uma vez que é dito que ele se regozijou sobre o fato de que Deus havia ocultado este co- nhecimento do sábio, mas revelado aos ingênuos. Assim nos milagres de Jesus há triunfo e alegria. Cura e alegria aqui irrompem na vida dos homens. Parece que se tornou visível quem está agindo. Na história da Transfiguração, na qual é relatado que os discípulos viram as vestes de Je- sus mais alvas do que a neve, o que na terra é perfeita- mente possível, este outro algo, a questão da sua vida - podemos também dizer, seu início e origem - se tornam visíveis por antecipação. Bengel está indubitavelmente certo quando diz dos Evangelhos antes da Ressurreição que podemos dizer de todas estas histórias de Jesus que eles spirant resurrectionem. Mas, mais do que isso, não podemos, na verdade, dizer. Há uma fragrância do início e do fim, uma fragrância de Divindade triunfante que está na ação.

Mas o tempo presente da sua vida está, na verdade, sofrendo desde o início. Não há dúvida de que para os evangelistas Lucas e Mateus a infância de Jesus, seu nasci- mento e a manjedoura em Belém, já estavam sob o signo