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Parcerias

UnC

UNIVILLE

UNISUL

Comissão Carla Sussenbach Carlos Roberto Rodrigues da Silva Cirene Linzmeier Heyse Flavia Albertina Pacheco Ledur Gilmar Luiz Mazurkiewiski Giovanna Benedetto Flores Marcedes Maria Gevaerd Maria Luiza Milani Nadia Régia Maffi Neckel Nadja de Carvalho Lamas Solange Maria Leda Gallo Viviane Bueno

Maria Luiza Millani | Nádia Régia Maffi Neckel [organizadoras]

Maria Luiza Millani | Nádia Régia Maffi Neckel [organizadoras]

© Maria Luiza Millani e Nádia Régia Maffi Neckel [orgs.] 2013

Depósito legal junto à Biblioteca Nacional, conforme Lei n.º 10.994 de 14 de dezembro de 2004

Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP) Index Consultoria em Informação e Serviços Ltda. Curitiba - PR

C244

Capital social : arte, ciência, cultura e desenvolvimento regional / organizadoras Maria Luiza Millani, Nádia Régia Maffi Neckel .— Curitiba : Kairós, 2013. 280 p.

ISBN 978-85-63806-17-8

1. Capital social (Sociologia). 2. Desenvolvimento social. 3. Arte. 4. Ciência. 5. Cultura. I. Millani, Maria Luiza. II. Neckel, Nádia Régia Maffi. III. Título.

CDD (20.ed.) 306.4 CDU (2.ed.) 304

IMPRESSO NO BRASIL/PRINTED IN BRAZIL

306.4 CDU (2.ed.) 304 IMPRESSO NO BRASIL/PRINTED IN BRAZIL Antônia Schwinden - Coordenação Editorial Ivonete Chula

Antônia Schwinden - Coordenação Editorial Ivonete Chula dos Santos - Editoração Eletrônica

Foto da capa Lauro Benazzi – A Guerra do Contestado

A PresentAção

Este livro Capital social: uma discussão sobre Arte, Ciência, Cultura e Desenvolvimento regional é fruto do IV Seminário Integrado e Interinstitucional, realizado na Universidade do Contestado – Campus Canoinhas, nos dias 29 e 30 de abril de 2010, como uma das etapas integrantes do projeto de pesquisa em cooperação entre as Universidades: UnC (Programa de Mestrado em Desenvolvimento Regional), UNISUL (Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem) e UNIVILLE (Programa de Mestrado em Patrimônio e Sociedade) 1 . Tal projeto debruça-se sobre as relações culturais observando-se, de um lado, como essas relações são definidas e estabelecidas nos campos político, jurídico e administrativo e, de outro, como se estruturam e se expressam diferentes vínculos identitários, perpassando as questões da arte, do patrimônio, dos fazeres artesanais e da comunicação. Os textos desta publicação discutem questões balizadas pelo conceito de Capital Social mobilizado na Arte, na Cultura e na Ciência em uma perspectiva contemporânea. No texto de abertura trazemos a fala do professor Boisier, pesquisador chileno que tem prestado estimada contribuição para as reflexões a respeito do Capital Social e da Cultura nas propostas de desenvolvimento latino-americas, assim como os processos identitários desses países. As discussões aqui presentes foram propostas por pesquisadores reunidos em um núcleo multidisciplinar de diversas instituições de ensino e pesquisa lationo- americas que buscam refletir sobre o desenvolvimento e suas questões tangenciais,

1 Trata-se do projeto “As relações culturais e artísticas e a preservação de patrimônio material e imaterial implicados no desenvolvimento regional de Canoinhas, Florianópolis, Tubarão e Joinville” financiado Pelo Ministério da Cultura e Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES do programa de Apoio ao Ensino e à Pesquisa Científica em Cultura Pró-Cultura – Diretoria de Programas e Bolsas no País – DPB Coordenação Geral de Programas Estratégicos – CGPE – Coordenação de Programas de Indução e Inovação – CII Edital N.º 07/ 2008 – CAPES/MINC PROGRAMA PRÓ-CULTURA – PROJETO INTEGRADO DE PESQUISA ENTRE: UNISUL, UNIVILLE e UnC.

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promovendo uma integração interdisciplinar entre os pesquisadores fruto da (In) contingência da cultura na sociedade. Os textos resultantes das pesquisas e que compõem este livros foram divididos em quatro seções. A primeira seção trata das questões conceituais e aplicadas do Capital social. Os textos reunidos nessa seção procuram refletir sobre o conceito de capital social em sua abrangência teórica e prática desde o agronegócio, passando pelas questões de planejamento urbano e político, até o capital humano e cultural que visam ao desenvolvimento. O desenvolvimento é o resultado de um conjunto de fatores institucionais, culturais, econômicos, tecnológicos, científicos, sociais e políticos que explicita e favorece o processo de organização nos diversos recortes territoriais. Na segunda seção Arte, Cultura e Desenvolvimento os autores buscam refletir sobre as produções artísticas e culturais tanto no âmbito regional quanto no âmbito nacional. Dessa forma a partir das reflexões aqui propostas é possível pensar na arte e na cultura no cenário do desenvolvimento regional em suas múltiplas expressões. Na terceira seção o Histórico e o Político, propõe-se uma reflexão do político do/no Brasil recortado pela mídia jornalística, posições de confronto que nos ajudam a compreender sócio, histórica e ideologicamente os acontecimentos que nos circundam. Na quarta e última seção, trazemos uma discussão sobre as tecnologias no âmbito da educação, do desenvolvimento regional e das técnicas de produção de mercado. Esperamos que estes textos possam contribuir com as questões referentes a Arte, a Cultura, a Ciência e o Desenvolvimento, uma vez que são oriundos de diferentes ancoragens teóricas e frutos de uma diversidade de pesquisas que compreendem o vasto território do Sul do Brasil e da América Latina. Uma vez que a presença do Capital Social alavanca os processos de desenvolvimento materializam a cultura em suas múltiplas expressões. Boa Leitura a todos!

Maria Luiza Milani | Nádia Régia Maffi Neckel Nadja de Carvalho Lamas | Solange Maria Leda Gallo

Canoinhas, outono de 2010

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s UMÁrIo

APRESENTAçãO

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1

CAPITAL SOCIAL, CULTURA E IDENTIDAD EN LAS PROPUESTAS DE DESARROLLO Sergio Boisier

O

11

2

CAPITAL SOCIAL NA AGRICULTURA FAMILIAR: UMA APRECIAçãO SOBRE

SUSTENTABILIDADE NO PROJETO DE AGRONEGÓCIO EM BELA VISTA DO TOLDO-SC Reinaldo Knorek

A

31

3

AS CAPELAS COMO PATRIMÔNIO MATERIAL CULTURAL NA 26ª SDR:

NECESSIDADES E DESAFIOS DO CAPITAL SOCIAL PARA SUA PRESERVAçãO Marcelo Tokarski

51

4

CAPITAL HUMANO E CULTURAL: AS NOVAS TECNOLOGIAS DESENVOLVIDAS PARA A PRESERVAçãO AMBIENTAL LOCAL Filipe de Souza dos Santos, Marcia Moro

75

Arte, CULtUrA e DesenVoLVIMento

85

5 FUNCIONAMENTOS DO ARTÍSTICO: DISCURSO E MEMÓRIA EM GUERRA, PAZ E CONTESTADO DE HELOANA TERPAN Nádia Régia Maffi Neckel

87

6 LENDO FILMES E O POEMINHA DO CONTRA: O FECHAMENTO DO CINEMATOGRÁFICO NA SIMULTANEIDADE DO FÍLMICO Mara Salla

101

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7

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7

CHITA COMO PANO DE FUNDO DA CULTURA POPULAR DO MARANHãO Conceição de Maria dos Santos Pacheco

A

123

8

A

ETERNIZAçãO DA GUERRA DO CONTESTADO PELA VISãO E MãOS DOS

ARTISTAS NO ÂMBITO DA UNC-CANOINHAS Cirene Linzmeier HeyseMaria Luiza Milani

131

9

ELEMENTOS TEÓRICOS ORIENTADORES

139

10

ESTRADA DONA FRANCISCA: A MéMÓRIA DE UMA NAçãO Marilene Teresinha Stroka

143

11

A

EDUCAçãO PATRIMONIAL: UM OLHAR PARA O PATRIMÔNIO HISTORICO

E

CULTURAL

153

Flavia Albertina Pacheco Ledur, Carla Sussenbach, Carlos Roberto Rodrigues da Silva, Claudia Regina Pacheco Portes, Mercedes Maria Gevaerd

153

12

ESTUDOS CULTURAIS E O LUGAR DA PRODUçãO ARTÍSTICA CONTEMPORÂNEA

169

Sandra Devegili, Nadja de Carvalho Lamas

169

13

VIDA COMO OBRA DE ARTE E SUA CONDIçãO TRÁGICA OU PROFANA CONTEMPORANEIDADE Sandro Luiz Bazzanella

A

183

14

O

DISCURSO “SOBRE” O CINEMA DOCUMENTAL

199

Lucio Flávio Giovanella, Solange Leda Gallo

199

o HIstÓrICo e o PoLÍtICo

209

15 OS JORNAIS DA INDEPENDêNCIA: O ESPELHO DA CORTE Giovanna Benedetto Flores

211

16 AS METÁFORAS CONCECPTUAIS SOBRE DESENVOLVIMENTO DIRCURSO LULA:

 

UMA LEITURA DA LÓGICA DISCURSIVA Andréia da Silva Daltoé

225

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teCnoLoGIAs

241

17 SUJEITO, SENTIDOS E EAD Regina Aparecida Milléo de Paula

243

18 TECNOLOGIA SOCIAL COMO FATOR PARA O DESENVOLVIMENTO REGIONAL Gilmar Luis Mazurkievicz

255

19 BIODESIGN, DA INTEGRAçãO DE SABERES À VALORIZAçãO DA CULTURA LOCAL:

UMA EXPERIêNCIA DO MESTRADO EM DESENVOLVIMENTO REGIONAL DA UTFPR . Arminda Almeida Rosa, Clariana M. Werkauser Bressiani, Andréia Mesacasa, Maria de Lourdes Bernartt

265

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1 o CAPItAL soCIAL, CULtUrA e IDentIDAD en LAs ProPUestAs De DesArroLLo 1

sergio Boisier 2

René Descartes falleció en 1650 y en el mundo de la filosofía y de la metodología de la investigación bien se podría decir de él lo mismo que los españoles solían decir del Cid, tan poderoso había sido en vida que ganaba batallas aún después de muerto.

En efecto, el peso del cartesianismo, del método analítico y de la disyunción, ha sido tan enorme que ni aún hoy, en la sociedad del conocimiento, en el umbral de un cambio de paradigma científico (del positivismo al constructivismo y a la complejidad), somos capaces de sobreponernos al rígido marco mental, a los modelos mentales, que el sistema educacional occidental nos inculca y que tiene sus poderosas raíces en el pensamiento de quien afirmase “cogito, ergo, sum”. Vivimos bajo el peso de la noche cartesiana y sólo muy recientemente hemos tomado nota de las restricciones que el método cartesiano impone en el campo de los procesos sociales,

1 Entiendo por “Comunicación”, en el ambiente académico, una nota científica breve dirigida a los

participantes de un evento mediante la cual se da a conocer un punto de vista sobre el tema de la reunión, en carácter menos formal que una presentación rigurosa. Una parte de este texto fue presentada en un Seminario de la CEPAL en el año 2003 (Capital social y programas de superación de la pobreza: lineamientos para la acción). Se utilizan también fragmentos de otro documento publicado en la Revista Territorios # 5, CIDER, 2006, U. de Los Andes, Bogotá, Colombia, con el título: “La imperiosa necesidad de ser diferente en

la globalización”. Esta monografía ha sido preparada para su exposición en el marco del Projeto Integrado

de Pesquisa entre: UNISUL, UNIVILLE e UNC: As Relações Culturais e a Preservação do Patrimonio Cultural

e Imaterial Implicados no Desenvolvimento Regional de Canoinhas, Florianópolis e Joinville, en Brasil, 29

de Abril 2011.

2 Licenciado en Economía por la U. de Chile, Master in Regional Science por la U. de Pennsylvania y PHD en Economía Aplicada, por la U. de Alcalá de Henares, España. Ex Director de Políticas y Planificación Regionales del ILPES. Santiago de Chile, 2011. sboisier@vtr.net

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en su comprensión y en consecuencia en la manera en que se conciben las prácticas de intervención de una sociedad sobre sí misma.

Precisamente en el campo del desarrollo y de los programas para estimularlo seguimos utilizando una rutina originada en Lindblom (1969) 3 conocida en su expresión original como “muddling through”, o “incrementalismo disjunto” en su versión más popular en español, que supone por cierto una visión analítica de las cosas, que nos empuja a privilegiar metafóricamente la suma por encima de la multiplicación, haciéndonos víctimas de una suerte de “síndrome de la suma”, de una preferencia por lo simple, lo aditivo. Como bien lo dice el español Nieto de Alba (1998:97) 4 Hemos llegado a considerar que los fenómenos lineales, predecibles y simples prevalecen en la naturaleza porque estamos inclinados a elegirlos para nuestro estudio, pues son los más fáciles de entender”.

Descartes y sus otros “socios” en el positivismo nos impusieron, queriéndolo

o no, la linealidad, la proporcionalidad, la certidumbre, el empirismo y la disyunción,

y todas estas características del positivismo cartesiano impiden aprehender la realidad social en su complejidad, por lo demás, exponencialmente creciente en la contemporaneidad.

¿Cómo se pueden diseñar intervenciones eficientes, sea para superar la pobreza, o más ampliamente, el subdesarrollo, si no estamos en condiciones de entender la naturaleza, quiero decir, la estructura y la dinámica, del propio desarrollo, o de la misma pobreza? El método analítico permite conocer, pero no permite entender un problema de carácter sistémico porque la disyunción desvanece la propia naturaleza intrínsecamente sistémica del problema. Ni la complejidad ni la sistemicidad de los procesos sociales puede ser develada a partir del positivismo cartesiano.

Desde varios lugares, geográficos y/o funcionales (como por ejemplo, el Instituto Santa Fé, en Nuevo México, o la Association pour la Pensée Complexe, en Paris), se comienza a construir el paradigma de la complejidad, único espacio cognitivo

3 LINDBLOM C.E., “The Science of Muddling Through” en H.I. Ansoff: Business strategy, Penguin, 1969, London.

4 Nieto de Alba U, Historia del tiempo en economía. McGraw Hill, 1998, España.

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donde resulta pertinente ubicar la cuestión del desarrollo, y de su desgraciada contrapartida: el subdesarrollo. Esto no significa que estemos próximos a resolver la incógnita del desarrollo, porque en forma simultánea, al entenderlo mejor en su complejidad, parece alejarse de su propia realización, a menos de que seamos capaces, como sociedad, de dar tremendos saltos cognitivos y también políticos.

Años atrás tuve la osadía de hacer circular una propuesta para considerar el fenómeno del desarrollo como una propiedad emergente de un sistema territorial adaptativo, complejo, dinámico, disipativo y autopoiético (BOISIER; 2003) 5 . No es una propuesta menor como es fácil intuir y sus consecuencias, si pasa las habituales verificaciones de hipótesis conceptuales, pueden ser considerablemente positivas y también considerablemente difíciles de poner en práctica. Pero en cualquier caso pareciera ubicarse en el camino adecuado. Volveré sobre ella en unas líneas.

El capital social, antes que un concepto con pretensiones de teoría (cuestión que me parece un tanto exagerada) es y ha sido una práctica social incrustada en algunas antiguas culturas, como por ejemplo y tal como es señalado por varios autores, en el sudeste asiático, en donde la costumbre de usar créditos rotatorios en un contexto informal es antigua (por ello no debe sorprender demasiado el éxito, loable por cierto, del banquero M. Yunus).

De todos modos es un hecho que ahora es perceptible una moda desarrollista basada en el concepto de capital social, cuyo origen se remonta, según algunos, a J. Coleman (1990) 6 , según otros a R. Putnam (1993) 7 y no falta quien rastree su inicio más atrás, como lo hace C. Román (2001) 8 al señalar al norteamericano Lyda Judson Hanifan 9 , un supervisor de escuelas rurales en West Virginia, quien habría usado el

5 El desarrollo en su lugar, Serie GEOLIBROS, Instituto de Geografía, Pontificia Universidad Católica de Chile, 2003, Santiago de Chile.

6 CoLEMAN, J. social Capital. Foundation of Social Theory, Harvard University Press, 1990, Boston.

7 PUTMAN, R. Making Democracy Work. Civic Tradition in Modern Italy, Pirnceton University Pres.

8 ROMÁN, C. Aprendiendo a innovar: el papel del capital social, Instituto de Desarrollo Regional de Sevilla (FU), 2001, Sevilla, España.

9 HANIFAN, L.J. “The Rural School Community Center”, Annals of the American Academy of Political and social sciences, 1916 # 67.

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término “capital social” por primera vez en 1916 según lo anotase Robert Putnam en su libro Bowling Alone 10 .

No se trata acá de una competencia. Está claro que Coleman, Bourdieu,

Putnam, y Fukuyama, le han dado un importante respaldo intelectual y han ayudado

a transformar una práctica en una pretendida teoría. Pero la moda no se hubiera

impuesto, probablemente, si desde el seno de una de las instituciones pilares del neo-liberalismo – el Banco Mundial – no se hubiese dado la “orden” de validar la confianza interpersonal o capital social como el puente imprescindible para viabilizar

el trickling down o derrame desde el plano macro al plano microsocial, en donde circulan los “bípedos implumes”, en la magnífica expresión de don Miguel de Unamuno para referirse a las personas, legitimando un modelo de política económica sujeto a una importante repulsa mundial. La “orden” se concretó en el conocido documento de C. Grootaert (1998) 11 cuyo título no puede ser más sugerente: Capital

social: ¿el eslabón perdido? Porque es a partir de la difusión de este trabajo que se produce una verdadera avalancha de “papers”, investigaciones empíricas, y programas

y proyectos de intervención.

Hay una suerte de creencia, tal vez subliminal, de haber encontrado nuevamente, porque esto ya ha sucedido en varias oportunidades anteriores, una verdadera piedra filosofal del desarrollo, en el mejor de los casos, o nada más que de la pobreza. Por lo menos para quienes nos hemos especializado en el tema del desarrollo territorial (sería mejor decir en el desarrollo de las personas a través del desarrollo territorial), la piedra filosofal ha sido conocida como, por ejemplo, la teoría perrouxiana de los polos, la teoría northiana de la base exportadora, la teoría perloffiana del mix de dinámica sectorial de las regiones, la teoría friedmanniana centro-periferia, y el variopinto conjunto de teorías actuales listadas por H.W. Armstrong (2002) 12 , entre las cuales por cierto que se encuentra la “teoría” del capital social.

10 PUTNAM, R. Bowling Alone, Simon and Schuster, 2000, New York

11 GROOTAERT, C. Social Capital The Missing Link?, Social Capital Iniciative, 1998, Working series # 3, World Bank, Washington

12 ARMSTRONG, H. W. “European Union Regional Policy. Covergence and Evaluation Evidence” en J.R. Cuadrado-Roura and M. Parellada (Eds.), Convergence in european Union. Facts, Prospects and Policies, SPRINGER, 2002, Berlin.

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Quisiera mencionar al pasar un punto en torno a la “paternidad” del capital social, una criatura intelectual, que al revés de las humanas, puede en efecto reclamar la presencia simultánea de varios progenitores. Llama la atención que se atribuya a Putnam gran parte del mérito en cuestión, lo que está bien ya que éste concepto fue uno de los que Putnam usó para explicar la situación de las regiones italianas, pero se pasa por alto la no menos importante contribución de Putnam a la puesta en valor del concepto de capital cívico (diferente del institucionalismo de North). La confianza de la gente en las organizaciones, su voluntad para participar en los asuntos públicos, su apego a la democracia, la formación de redes cívicas y el derecho a exigir cuenta, son elementos constitutivos del capital cívico, extremadamente importantes para el desarrollo. Una cuestión que se muestra empíricamente significativa en Chile y también en Estados del sur del Brasil (Paraná, Santa Catarina, Río Grande do Sul).

Tomando como ejemplo sólo algunas propuestas – en principio representativas de un espectro más general – que llevan el concepto de capital social al plano empírico, sea como investigación de la cual puedan extraerse recomendaciones de política, como en Durston (1999) 13 , sea como diseño de programas específicos de intervención frente a la pobreza o al subdesarrollo en general, como se observa en Chile (MIDEPLAN;

2002) 14 , o en Brasil (de Franco; 2002) 15 , o que lo llevan desde un plano elemental hasta

el campo sistémico más sofisticado.

El Gobierno de Chile dio a conocer en su oportunidad y a través de la Secretaría

Ejecutiva del Programa “Chile Solidario” (programa ahora en el 2011 reformulado por

el actual gobierno) ejecutado por el MIDEPLAN, el documento programático “Estrategia

de intervención integral a favor de familias en extrema pobreza” (2002) cuyo

basamento conceptual reside únicamente en la creación/reforzamiento de capital social

y de las redes que lo tipifican.

13 DURSTON, J. “Construyendo capital social comunitario” revista de la CePAL, # 69, 1999, Santiago de Chile.

14 MIDEPLAN. estrategias de intervención integral a favor de familias en extrema pobreza, PROGRAMA CHILE SOLIDARIO, 2002, Santiago de Chile

15 FRANCo, A. de. Pobreza y desarrollo local, 2002, <http//www.iigov.org>.

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Me parece muy claro el trasfondo analítico-cartesiano del enfoque: la pobreza es una parte del problema de la falta de desarrollo y como parte de un todo, la puedo aislar, conocer, (entender jamás) e intervenir sobre esa parte. Otros se encargan

entonces de “otras partes” del problema, por ejemplo, carencias de salud, de educación,

o de lo que sea.

Así como el Dr. Fausto no fue completamente responsable del asesinato de Filemón y Baucis, según la espléndida interpretación de Marshall Berman, ya que era la propia modernidad en su afán homogeneizador la responsable principal del hecho, acá también se puede argumentar que no son los técnicos, sino el peso de la noche cartesiana, la responsable de seguir persiguiendo inútilmente objetivos que están erróneamente concebidos y que por tanto inducen necesariamente intervenciones ineficaces.

Augusto de Franco, Coordinador de la Agencia de Educación para el Desarrollo (en español) y miembro del Consejo de “Comunidad Solidaria” del Brasil y principal impulsor de un enfoque denominado Desarrollo Local Integrado y Sustentable (DLIS) sostiene que: “no se puede alterar este ciclo reproductor de la desigualdad y de la pobreza a no ser interviniendo sistémicamente en el conjunto, a través de la introducción de cambios en el comportamiento de los agentes del sistema que interactúan en términos de competencia y cooperación” (FRANCo; 2002, 5) 16 .

Sin embargo, y a pesar de un excelente y muy bien estructurado discurso acerca de la necesidad de una nueva interpretación del desarrollo, de Franco hace descansar la propuesta DLSI en dos pilares: el capital social y el capital humano, entendiendo éste último como la capacidad emprendedora de las personas, volviendo entonces a una postura analítica-cartesiana, aunque más sofisticada al incluir dos elementos (de un sistema presumiblemente muchísimo más amplio) y al destacar la necesidad de generar sinergia.

Creo que de Franco se entrampa en su propia y atrayente trampa conceptual. Si

la pobreza (no entendida sólo como ingreso insuficiente) es en realidad subdesarrollo

y no una parte de él, si la carencia de oportunidades es en efecto pobreza y al mismo tiempo es una forma de visualizar la falta de desarrollo, entonces se puede decir que la pobreza o la falta de desarrollo es un estado de un sistema complejo, es un atractor

16 FRANCo, A. de. Op.cit.

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que estabiliza el sistema en tales condiciones, en cuyo caso una intervención aislada, basada en el capital social, o en el capital social más el capital humano, o en el capital social más el capital institucional, o combinaciones similares que sumen factores sin agotarlos y sin sinergizarlos no garantiza que el sistema adquiera una nueva y virtuosa dinámica. Como lo plantea por lo demás el mismo de Franco, lo que sucede es que el sistema vuelve a su dinámica anterior apenas cesan las intervenciones externas. Y ello debido a las características intrínsecas de los sistemas complejos.

Más fundado, pero también un tanto alejado ahora de la complejidad es el análisis presentado por J. Durston 17 quien retoma en su investigación sobre capital social en comunidades campesinas en Chile las categorías conceptuales de capital social y de capital institucional, para luego optar por “una definición de capital social centrada en las interacciones sociales más que en las normas y valores”, un enfoque que privilegia el hecho primigenio, ya anotado, de ser el capital social una práctica más que una teoría, por así decirlo. Sin embargo, Durston, en un importante estudio anterior sobre capital social en comunidades guatemaltecas, publicado en la Revista de la CEPAL (DURSTON, 1999) 18 había dejado en claro la necesidad de un enfoque sistémico y complejo para encuadrar correctamente la potencialidad del concepto de capital social y de su construcción.

Distinto es un modelo de desarrollo basado en el funcionamiento de un sistema (territorial por definición ya que el desarrollo sólo puede ser entendido inicialmente en este plano) adaptativo, complejo, dinámico, disipativo y autopoiético, como ya fue anotado en relación a la citada propuesta de Boisier. Se trata de sistemas complejos en virtud de la interacción entre la necesidad autopoiética y la necesidad vital de algunos sistemas, dinámicos y disipativos porque su crecimiento interno resulta del balance entre la eliminación de entropía y la absorción de neguentropía, y porque sólo pueden mantenerse y crecer interdependientemente y adaptativos en tanto el sistema aprende y se auto organiza.

17 DURSTON, J. “El capital social en seis comunidades de Chile: adelantos y desafíos de una investigación en marcha” en Capital social y políticas públicas en Chile. Investigaciones recientes, 2002. CEPAL, Serie de Políticas Sociales, Santiago de Chile. 18 DURSTON, J. Construyendo capital social comunitario, 1999. Op. cit.

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En este modelo, el capital social forma parte de lo que este autor denomina como subsistema subliminal (incluyendo en ello el capital cognitivo, el simbólico, el cultural, el social, el cívico, el institucional, el psicosocial, el humano, el mediático, y el capital sinergético, articulador de los anteriores). El subsistema subliminal es uno de seis subsistemas que, según esta propuesta, serían identificables en todo sistema territorial complejo (se agregan el subsistema de acumulación, el decisional, el organizacional, el procedimental, el axiológico), entre los cuales debe introducirse una sinapsis densa y una energía externa bajo la forma de constructivismo linguístico (conversaciones sociales tendientes a generar sinergía cognitiva).

El capital social es importantísimo como simiente del desarrollo, pero quizás no lo es más que otras formas de capital, material e inmaterial. Su importancia última radica – en el lenguaje actual – en hacer posible una sensible reducción en los costes de transacción y de asociación. Lo importante en definitiva radica en los fenómenos sinápticos y sinergéticos, más que en los factores específicos, por importantes que ellos sean en sí mismos, una idea que ya había expresado con otras palabras A. Hirschmann, décadas atrás.

La confianza interpersonal, en medios de reciprocidad difusa y ejercida para el logro de fines legítimos es algo deseable de fortalecer en atención a sus méritos propios, pero un alto nivel de capital social no garantiza en modo alguno ni la superación de un problema específico ni menos, la superación del subdesarrollo. Si así fuera, muchos países asiáticos se ubicarían entre los más desarrollados y localidades de América Latina en donde las culturas pre hispánicas poseedoras de un alto stock de capital social se mantienen, no mostrarían la postración que muestran. Dicho sea de paso, si no fuese así, la isla de Chiloé en el Sur de Chile constituiría un “enigma de desarrollo”.

1.1 IDentIDAD terrItorIAL: CoMentArIos

Cabe acá entonces introducir más explícitamente la cuestión de la identidad territorial en el marco de la cultura.

Todos nosotros, todos y cada uno de los seis mil quinientos millones de habitantes del globo, y todos y cada uno de los miembros de todas las especies

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animales, somos el resultado de una competencia tremenda en la que participan cientos de millones de actores en cada momento del inicio de la vida: las células masculinas reproductoras. La competencia forma parte de nuestro código genético, en tanto que la cooperación es el resultado de nuestra paulatina socialización y de la adopción de normas morales de conducta.

Si no tuviésemos un código genético que impone a cada individuo características singulares, no seríamos individuos, como probablemente lo diría Humberto Maturana, seríamos parte irreconocible de un agregado, de una masa. Menos aún seríamos personas, una categoría que se basa – entre otras características – en la diferenciación dentro de una sociabilidad. El nombre no es la cosa nombrada solía decir Gregory Bateson 19 ; el nombre sirve eso sí para conferir singularidad, individualidad, diferencia. El llamar Pedro a un individuo no dice nada acerca de la naturaleza de ese individuo, ni siquiera si es humano; el nombre eso sí, diferencia: tú eres Pedro y por tanto no eres Juan ni Manuel ni Estefanía. Por esta razón – la necesidad de la diferenciación – es que el bautismo es la principal liturgia en cualquier práctica religiosa.

Es exactamente lo que sostuvo Pierre Bourdieu mediante su concepto de valor/ capital simbólico.

La globalización – parece inescapable volver a referirse a ella – que, por supuesto, ha acompañado al hombre desde las profundidades del tiempo y no sólo

desde la primera crisis del petróleo en 1973 como algunos ingenuos sostienen, no es

arbitrariamente

ejemplificarse a través de figuras como G. Soros, B. Gates, J. Stiglitz, B. Obama, N. Sarkosy o J. L. Rodríguez Zapatero o tantos otros; no es ni siquiera un resultado, es simple y complejamente la etapa actual de desarrollo del sistema capitalista, la etapa tecnocognitiva de él, que viene a sumarse, como ha ocurrido en el pasado, a las etapas previas: comercial, industrial, financiera, del sistema capitalista. Por tanto la globalización, sistémica como es, opera de acuerdo a sus propias leyes internas de cambio y tiene una direccionalidad establecida y propósitos claros. No es ni buena ni mala: simplemente es.

el

resultado

de

la

perfidia

de

ciertos

personajes

que

podrían

19 BATESON, G. espíritu y naturaleza, Amorrortu eds., 2002:40, Buenos Aires, Argentina.

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Dos procesos internos de la globalización son muy importantes para entender su naturaleza y ambos procesos se relacionan estrechamente con el tema de esta

monografía. Por un lado, como producto de la Revolución C & T (core de la globalización), el ciclo de vida de los productos manufacturados se reduce sistemáticamente a lo largo de una curva exponencialmente decreciente; por otro, el costo financiero en investigación C & T+ i, y mercadeo, se eleva en una curva exponencialmente creciente

al pasar de un producto de generación “n” al de generación “n+1”.

Como todo sistema “vivo”, el sistema capitalista enfrenta el imperativo de su reproducción permanente, para lo cual debe recuperar tan rápido como sea posible sus recursos financieros empleados en el paso anterior; por ello la fase tecnocognitiva del capitalismo lucha por un único espacio de mercado, por el mercado mundial sin restricciones. Al mismo tiempo y como consecuencia de las innovaciones aparejadas

a la Revolución Científica y Tecnológica, con la “tecnología madre” de la microelectrónica

a la cabeza, el sistema reorganiza la producción manufacturera en múltiples territorios de producción, originando la “economía difusa” de Vázquez Barquero, la “economía de geometría variable” de Castells, el post fordismo de Storper y otros, en definitiva, la producción en redes flexibles.

Entonces ahora comenzamos a entender el por qué, por ejemplo, un nuevo disco de boleros de Luis Miguel es lanzado simultáneamente en Ciudad de México, Tokio, Buenos Aires, Paris, y…¡Santiago de Chile!

Claro que si la estructura productiva mundial correspondiese a una súper especialización o a una organización estrictamente monopólica para cada ítem, no

sería necesaria una preocupación por el mercadeo; la oferta se ajustaría a la demanda

a lo largo del tiempo. Pero claro, lo que sucede en la globalización es también un

aumento de oferentes, hay más competencia (sin perjuicio de los procesos de fusión) y el disco de Luis Miguel compite con otros de Bosé, Cabrel, Guerra, Vives, Chico

Buarque y tantos otros boleristas. De ahí la necesidad de un marketing agresivo que diferencie a ojos del consumidor. ¡Vive la différence!

La globalización no sólo transforma la geografía económica; también transforma

la geografía política quizás de manera aún más radical.

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El Estado nacional, creación relativamente reciente de la humanidad, está siendo sometido a presiones que surgen, por así decirlo, desde arriba y desde abajo y lo están transformando en un producto cuya forma final es difícil de dibujar por el momento. Pero a lo menos dos cuestiones son claras, particularmente en Europa: los estados nacionales se desdibujan a favor del surgimiento de un cuasi-Estado supranacional – la Unión Europea – y se desdibujan simultáneamente hacia abajo al surgir cuasi-Estados subnacionales, las regiones 20 . Como se ha dicho en innúmeras oportunidades, las ciudades y sus regiones 21 son los nuevos actores de la competencia internacional, por capital, por tecnología, por mercados y por atraer los modernos factores causales del crecimiento.

¿Qué sucede entonces con la competencia y mercadeo territorial?

El geógrafo Gerard Serbet 22 ha calculado en 5239 el número de “regiones” 23 en todo el mundo. Todas quieren dos cosas: atraer capital, particularmente inversiones que generen un aumento y uso local del conocimiento, atraer el gasto de no residentes (turistas, remesas del exterior) y colocar sus productos transables en los mercados internacionales. Es decir, todos los territorios quieren ser competitivos hacia adentro y hacia fuera. Atraer y vender. ¿Cómo sobresalir en la multitud? El mercadeo puede hacer la diferencia.

Por ejemplo, del total de regiones anotadas, quince de ellas son las actuales regiones chilenas y entre ellas, por lo menos una (Región del Maule) es una importante región productora de vino y todavía más importante productora y exportadora de manzanas. En el rubro vitivinícola enfrenta una dura y amplia competencia de países (y de sus regiones) como Argentina, España, Italia, Francia, Nueva Zelanda, Australia, Alemania, Hungría, Estados Unidos, etc., y en manzanas compite exitosamente con Argentina, Nueva Zelanda, Francia. ¿Cómo lograr posicionarse en las preferencias de

20 Entendiendo por “región” cualquier ciudad y su hinterland con el cual tiene una relación

simbiótica.

21 Lewis Mumford solía referirse a las ciudades como “los artefactos de las regiones” 22 SERBET G., “Mondialization et Geographie”, 2003, Amerique du nord, # 25, Quebec, Canada

23 Serbet no se hizo problemas, simplemente consideró como “regiones” a la primera escala de la división política interna de los países.

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los consumidores con la manzana Gala producida en la región, o con el vino Cabernet Sauvignon Cremaschi-Furlotti de la misma región? Ni siquiera es sencillo responder teóricamente a esta pregunta, porque hoy en día se cuestiona (en España, por ejemplo) si es mejor colocar en el mercado una marca nacional genérica (Wines of Spain) o una denominación específica, (Marqués de Riscal), por ejemplo. Porque no se remite la cuestión sólo a una de precios; entran en juego otros elementos, muchos de ellos de orden cultural.

El Tratado de Libre Comercio entre Chile y los Estados Unidos, por ejemplo, rebajó a cero el arancel de internación en USA de las paltas (aguacates, avocados) chilenas en tanto que las provenientes de México todavía están sujetas a pagos arancelarios y abrió de esta manera, un mercado potencial enorme al producto chileno, derivado de lo cual es un extraordinario aumento en la superficie plantada de paltos (actualmente más de 30.000 hás.). No obstante, se ha puesto en evidencia que el consumo principal de este producto en los Estados Unidos proviene de la enorme comunidad mexicana, la cual, por razones culturales y psicológicas descritas y adscritas al pachuco por Octavio Paz (El laberinto de la soledad), preferirá seguramente comprar el producto mexicano al chileno, aún teniendo en cuenta un diferencial de precios.

La mercadotecnia aplicada a los territorios (ciudades, regiones) es un concepto relativamente nuevo en el quehacer de la economía y posiblemente todavía acuse una base teórica precaria; no obstante su uso crece obligado por las circunstancias. La novedad en este caso, reside en vincular una estrategia de marketing a un territorio considerado como un todo, como un producto conjunto, comercializable en consecuencia en términos de imagen. Cualquier territorio interesado en su propio mercadeo requiere definir: a) su identidad: ¿cómo se define el ente territorial?, ¿en qué espejo se mira?, ¿qué elementos lo identifican?, ¿con quién se compara?, ¿qué utiliza para describirse?; b) su imagen: ¿cómo se percibe el territorio – ciudad o región – más allá de sus fronteras?, ¿cómo lo ven sus propios habitantes?

La más remota base conceptual del mercadeo en general se encuentra en… ¡Aristóteles! En efecto, la retórica aristotélica, el arte de presentar las ideas, se basa, primero, en un ethos, concebido como el conjunto de características propias del sujeto

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que “habla”, que emite un mensaje. Es el ser mismo el que se presenta en sus elementos intrínsecos que lo definen; segundo , el mensaje apela al pathos, a la emoción, a los sentimientos que genera el que habla, y tercero, el mensaje apela al logos, a la razón.

El territorio aparece como un elemento constitutivo de la identidad. Es aquello donde la identidad individual ancla su lugar de expresión y fija sus límites. Los individuos y los grupos existen a través de vivencias de territorialización múltiples. El concepto de identidad está cargado de territorialidad, de lugar propio, de espacio y de pertenencia. Por ejemplo, la identidad local, tal como su nombre lo indica, apela a lo local, lo cual debe ser entendido como una expresión de un espacio y un tiempo determinados. Reconocer un territorio como “propio” implica que éste no sólo representa un espacio físico, sino que en él también se desarrollan prácticas de sociabilidad, en tanto es un lugar en que habitan personas, posibilitándose el encuentro entre ellas.

Identidad como un fenómeno ontológico y también construido y en la construcción de una identidad – actual y futura – varios elementos de la técnica del mercadeo son importantes.

elementos de la técnica del mercadeo son importantes. Figura 1: Los Elementos de la Identidad Regional

Figura 1: Los Elementos de la Identidad Regional Fonte: Boisier, 2011

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Algunos autores conciben una “place identity”, como una sub estructura de la “self identity” de una persona 24 : “Place identity (…) consisting of broadly conceived cognitions, about the physical World in which the individual lives . These cognitions represent memories, ideas, feelings, attitudes, values, preferences, meanings, and cognition of behaviour and experience which relate to the variety and complexity of physical setting that defines the day-to-day existence of every human being”.

Según Reinhard Friedmann 25 , la psicología ambiental desglosa el concepto de identidad territorial en dos procesos parciales: a) el proceso de identificación de un lugar y; b) el proceso de identificación con un lugar. La identificación de alude a la representación psicológica de, por ejemplo, una región, en la imagen de un observador, con lo cual el foco de interés está centrado en los aspectos cognitivos de la relación entre el hombre y su entorno espacial; la identificación con no destaca en primer plano al territorio representado como estructura cognitiva, sino más bien la identidad de una persona que se sienta vinculada o perteneciente a un referente espacial, y que de esta manera está incorporando esta pertenencia en su concepto del yo. Como lo dice un especialista español en referencia al nivel comunal, la identidad tiene tres elementos o dimensiones conceptuales: a) lo que el territorio es (el ser del territorio); b) lo que el territorio dice de sí mismo que es (comunicación de la identidad); c) lo que el público que se relaciona con él cree que es el territorio (la percepción) 26 .

Los elementos básicos de una identidad corporativa para un territorio son, según varios autores, los siguientes:

• Cultura corporativa territorial, cuyos ejes son los valores locales, que se reconocen en los elementos culturales, tales como teatros, museos, exposiciones, bibliotecas, edificios y monumentos patrimoniales, fiestas

24 POHANSKY H. M., FABIAN A.K., KAMINOFF R.: “Place Identity: Physical World Socialization of the Self”, Journal of environmental Psychology, # 3, 1983.

25 R. FRIEDMANN. Hacia el municipio del siglo XXI: Marketing Comunal y reinvención del Municipio, Cuaderno # 6, Centro de Estudios del Desarrollo, CED, 2000, Santiago de Chile.

26 Sanz de la Tejada L. A.: La integración de Identidad y de la Imagen de la empresa, 1994, Madrid (citado por R. FRIEDMANN, op. cit.).

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tradicionales, folklore, etc. La cultura territorial satisface tres funciones:

adaptación, cohesión, e implicación;

• Personalidad y misión corporativa territorial, definida la personalidad como “la comprensión de sí mismo del territorio”. Como se indicó más atrás, es el ethos aristotélico del territorio. La personalidad corporativa del territorio se expresa explícitamente en la formulación de una visión o filosofía (imagen objetivo) que abarca los objetivos, finalidades, potenciales, valores, normas y patrones conductuales de un territorio;

• Instrumentos de proyección de la identidad corporativa territorial, es decir, la capacidad de comunicación de la identidad, que mezcla tres elementos: a) la comunicación corporativa, b) la conducta corporativa y, c) el diseño corporativo del territorio, éste último configurando la identidad visual del territorio.

último configurando la identidad visual del territorio. Figura 2: Identidad Territorial Corporativa Fonte: Boisier,

Figura 2: Identidad Territorial Corporativa Fonte: Boisier, 2011

El diseño corporativo del territorio incluye varios componentes, a saber: la identidad verbal, el nombre del territorio, siendo mucho más que un signo de diferenciación, ya que es también una dimensión esencial de la misma cosa designada.

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En muchísimos lugares en América Latina, los patronímicos territoriales dan cuenta de la historia o de la geografía lugareña: la toponimia es muy a menudo de origen pre hispánico y se pierde su sentido original, que es preciso recuperar a fin de afirmar la identidad, sobre todo cuando el nombre original es en sí mismo bello o da cuenta de algo bello 27 . Por ejemplo, la ciudad de Loncoche en el Sur de Chile significa en lengua mapudungún “jefe de la tribu”, o el volcán y poblado turístico Antuco, cuyo nombre significa “agua del sol”, por el derretimiento de nieve durante el verano; el logotipo es una herramienta importante en el mercadeo y representa el paso de una identidad verbal a una identidad visual; el logotipo es exactamente “una palabra diseñada” y suele encerrar indicios y símbolos acerca de quién representa; otro elemento del diseño corporativo es el símbolo gráfico del territorio, esto es, una figura icónica que representa el territorio, que lo identifica y distingue y su importancia deriva parcialmente del hecho de ser la memoria visual más fuerte que la memoria verbal. Otros elementos del diseño corporativo tienen que ver con la identidad cromática, con la tipografía, con los escenarios arquitectónicos y con el entorno natural. La “marca”, de acuerdo a algunos especialistas, es más que un símbolo gráfico y un slogan 28 .

En mi propia experiencia 29 he podido apreciar tanto la importancia como las dificultades sociológicas para establecer estos elementos, dificultades que derivan de

27 No siempre es así; probablemente sea difícil encontrar algo más ridículo en este campo que el nombre de un pueblo de la VI Región de Chile: Peor es nada, una situación a la que los lugareños tratan de sacarle provecho fomentando la curiosidad y las visitas de turistas. Un marketing adecuado puede revertir el carácter negativo de una situación.

28 Alberto Borrini, un especialista argentino en mercadeo, escribe en La nación (Buenos Aires, l 19/04/05) que la marca es como un escudo de armas de un territorio y que en el caso argentino debería mostrar una vaca, una espiga, un bandoneón, el glaciar Perito Moreno y una pelota de fútbol y llama la atención al hecho de que Chile ha gastado US $ 300.000 en la creación de un símbolo nacional

29 El autor dirigió en 1990 un Proyecto de Cooperación Técnica de las NN.UU. al Gobierno de la Región del BíoBío (Chile) a fin de ayudar en la preparación de una propuesta de futuro. Por primera vez en el país y en este tipo de asunto, se introdujo el “marketing regional”, como se describe en el libro del autor, El difícil arte de hacer región, 1992, cap. II, Centro de Estudios Regionales Andinos “Bartolomé de Las Casas”, Cusco, Perú. En el año 2000 el autor dirigió un notable experimento social en el Región del Maule (Chile) consistente en un largo ciclo de “conversaciones sociales” con los actores regionales a fin de prepararlos en el diseño de una propuesta de desarrollo y nuevamente hubo oportunidad de explorar

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pequeñas rivalidades prácticamente “parroquiales” o de la falta de conocimiento sobre la propia historia del lugar. En general se trata de una cuestión que debe involucrar un elevado nivel de participación ciudadana para establecer su propio éxito. Un ejemplo pequeño, pero ilustrativo sobre esto: la ciudad La Ligua es una pequeña ciudad (45.000 habitantes) situada 140 kms. al noreste de Santiago de Chile; su base económica descansa desde antiguo en dos actividades: tejidos de lana de alpaca y elaboración de una clase de pastelería (“dulces” de La Ligua) muy apreciada en el país, siendo ambas actividades de alto nivel de empleo local. La propia comunidad ha “inventado” tanto un logotipo como una “idea fuerza” o slogan que se muestra en las carreteras a mucha distancia de la localidad: “La Ligua: endulzando el presente y tejiendo el futuro”.

¿Se puede finalmente definir con cierta precisión el concepto de “mercadeo territorial”?

Desde luego, según Kotler 30 , quien afirma que: “el marketing es la actividad que permite a la organización quedar permanentemente en contacto con sus consumidores (clientes), reconocer sus deseos, desarrollar productos que correspondan a estos deseos y diseñar un programa de información que da a conocer generalmente las metas de la organización” en tanto que Reinhard Friedmann (op.cit.) sostiene que en la praxis sobre marketing territorial se parte de la idea de que el marketing es aplicable a los planteamientos territoriales y que el concepto de marketing puede proporcionar a los gobiernos locales ayudas decisionales importantes.

Matteo G. Caroli 31 sostiene – en su importante texto sobre la materia – que desde el punto de vista estratégico, el mercadeo territorial es: una inteligencia de integración y una inteligencia de fertilización.

En el plano de la integración se concreta en el hecho de que el marketing del territorio (MT en adelante) desarrolla una visión integrada de los diversos elementos de

la cuestión del mercadeo y descubrir las dificultades que se plantean al buscar imágenes por encima de los provincialismos. El experimento se describe en el libro del autor Conversaciones sociales y desarrollo regional, 2001, Editorial de la Universidad de Talca, Chile.

30 KOTLER, P., LEVY S. J. “Broadening the Concept of Marketing”, 1969, Journal of Marketing (citado por R. Friedmann, op.cit.)

31 MATTEO, G. Caroli, 1999, Il Marketing territoriale, FrancoAngeli, Milán, Italia.

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los cuales depende el nivel de atractibilidad de la oferta territorial. En el plano de la fertilización, el MT proporciona los instrumentos operativos y el método mediante el cual es posible valorizar del mejor modo la presión puesta en el ámbito de cualquier área o actividad relevante de la oferta territorial. El gráfico siguiente es adaptado del texto de Caroli (p.102).

gráfico siguiente es adaptado del texto de Caroli (p.102). Figura 3: Inteligencia Desarrollo e Competencia Fonte:

Figura 3: Inteligencia Desarrollo e Competencia Fonte: Boisier, 2011

En su análisis de la demanda y de la oferta territorial, Caroli sostiene – correctamente – que el territorio está constituido por un conjunto de elementos tangibles e intangibles y se caracteriza por la relación existente entre estos elementos. Coincide el autor citado en buena medida con la posición de este autor 32 ; los elementos

intangibles anotados por Caroli son: el “espíritu” del lugar, el sistema de valores civiles

y

sociales, el nivel de competencia del tejido productivo y social, el liderazgo económico

y

social, el grado de madurez social y la distribución del bienestar y, la intensidad del

32 En muchos trabajos este autor ha elaborado su concepción de “capitales intangibles” y el papel de ellos en el desarrollo territorial. Ver por ejemplo, “¿Y si el desarrollo fuese una emergencia sistémica?, Ciudad y Territorio. estudios territoriales, v. XXXV, # 138, 2003, MINFOM, Madrid, España.

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intercambio económico y cultural con el entorno. Estos elementos se combinan con los tangibles: el tejido industrial local y el mercado, el sistema de servicios públicos, la infraestructura pública, la posición geográfica y la morfología, la estructura urbana y el patrimonio inmobiliario, y el patrimonio cultural. Para Boisier, los “capitales intangibles” de un lugar son: el capital cognitivo, el cultural, el simbólico, el social, el cívico, el institucional, el humano, el psicosocial, el mediático, todos los cuales se articulan y se direccionan a través del capital sinergético.

La adhesión al razonamiento analítico reduccionista, sea en términos de diagnósticos, sea en términos de programas, no nos acercará en lo más mínimo al desarrollo, por inconsistencia lógica y por resistencia al cambio. Resulta difícil imaginar un gobierno dispuesto a aceptar un programa de acción basado en la complejidad, ya que ello significaría modificar radicalmente no sólo la manera de pensar sino la propia estructura organizacional del aparato público.

La pobreza es un fenómeno sistémico complejo y el desarrollo lo es más. La complejidad debería llevar a intervenciones más asociadas a crear las condiciones que permiten el surgimiento de emergencias (oportunidades, bienestar, etc.) que a potenciar elementos singulares del sistema, como el capital social.

En vez de confiar ciegamente en una suerte de “solución mágica”, tan propia de Macondo, haríamos nuestra tarea mejor si entendiésemos cabalmente la complejidad de los sistemas que son arrastrados a un atractor fatal: el subdesarrollo. Sería la única manera de zafarnos del largo brazo del cura y filósofo del pueblo de La Haye. El capital social es muy importante, pero, por favor, terminemos con la manía de creer en la magia de los espejuelos y abalorios con los cuales los conquistadores europeos engañaban a los primitivos pobladores de América!!!

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2 CAPItAL soCIAL nA AGrICULtUrA FAMILIAr: UMA APreCIAção soBre A sUstentABILIDADe no ProJeto

De AGroneGÓCIo eM BeLA VIstA Do toLDo-sC

IntroDUção

reinaldo Knorek 1

Relacionar o capital social, como um fator extraordinário, voltado à

sustentabilidade na agroindústria da agricultura familiar, almejando-se, assim, o foco do desenvolvimento local-regional ou ainda dizer que o mesmo é de fundamental importância para o crescimento das atividades na agroindústria familiar. O capital social é fundamental, pois, quando articulado, como é o caso do projeto que configura

a cooperação entre as prefeituras de Canoinhas, Bela Vista do Toldo, Três Barras e a

Universidade do Contestado – UnC, voltados ao desenvolvimento do agronegócio na agricultura familiar, faz do mesmo a sustentabilidade criadora de arranjos institucionais que são moldados pelos atores em ações que almejam obter um maior grau de bem- estar abalizado no sucesso coletivo.

o capital social tem sido empregado na literatura nacional e internacional, em

uma vasta gama de disciplinas, entre as quais: sociólogos, antropólogos, educação, economia, ciências políticas, criminologia, saúde e, de certa forma acentua-se em trabalhos relacionados ao desenvolvimento local-regional. Trata-se de um conceito desafiador, pois se incorpora frequentemente o social como submisso ao capital.

O capital social enfatiza o fato de que formas e relações não monetárias podem ser

1 Doutor em Engenharia de Produção e Sistemas, graduado em Administração de Empresas e Filosofia, professor do programa de mestrado em Desenvolvimento Regional da Universidade do Contestado (UnC) – campus Canoinhas. professorreinaldo@cni.unc.br

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fontes determinantes de poder e de influências ao desenvolvimento e, de modo inclusivo, ao crescimento econômico. Compreender como o capital social se configurou na forma da confiança, do associativismo, da cooperação, da participação e da ação conjunta entre as quatro prefeituras e a universidade, na ação de instalar o agronegócio voltado à agricultura familiar é, sobretudo, dizer que o capital social equivale e é, sobretudo, determinante para o sucesso e na sustentabilidade do projeto. Esse projeto que foi sendo implantado no município de Bela Vista do Toldo, denominado:

Desenvolvimento regional: o agronegócio para a agricultura familiar com sustentabilidade e diversificação produtiva voltada ao fortalecimento das potencialidades dos arranjos produtivos locais para os pequenos produtores inseridos na 26 a SDR, se afirma que a simples existência de capital social não resolverá todos os problemas no direcionamento das ações combinadas, mas que, outros recursos como o capital humano, mediático, institucional associados na propriedade da cooperação e na confiança participativa deverá gerar o desenvolvimento econômico, cultural e social, tanto no âmbito local como no contexto regional. Todavia, é na base teórica do desenvolvimento endógeno que se focalizam, com toda atenção, a questão regional de desenvolvimento. Endógeno na busca de resolver a problemática das desigualdades sociais, das quais a solução pode estar nos melhores instrumentos das políticas públicas aplicadas na base da cooperação, com os ajustes e as correções necessárias para que esses problemas sociais sejam diminuídos dentro do próprio sistema implantado.

O desenvolvimento endógeno tem suas origens na década de 1970, quando

as propostas de desenvolvimento, da base para o topo, emergiram com maior notoriedade na colaboração de dar respostas aos novos enfoques ao problema do crescimento desequilibrado. Nessa trajetória a contribuição da teoria endógena de desenvolvimento identifica alguns fatores de produção que, sobretudo, com o capital social associado ao capital humano, perpetram na diferença do desenvolvimento de um local ou de uma região.

O desenvolvimento regional endógeno se fundamenta na década de 1990,

como um processo que nasceu de dentro do sistema e se amplia continuamente para fora, agregando valores na produção, absorvendo e retendo ganhos excedentes

gerados na economia local, associados com o que vem exogenamente de outras regiões, formando, assim, o desenvolvimento sustentável. Com esse processo

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sistêmico de entradas, processo e saídas, os resultados para a mesma é o sucesso na ampliação dos empregos, produtos, renda e, dessa forma, se configura como um arquétipo de desenvolvimento sustentável. A capacidade de gerar o próprio desenvolvimento, local-regional, condiciona-se a mobilizar fatores produtivos de

potencialidade endógena que faz do capital social empregado pela sociedade organizada

o diferencial entre a sustentabilidade na base regional e a não sustentabilidade, como se destaca na visão de Boisier (1997), a sociedade civil, e nela compreendida as

formas locais de solidariedade, integração social e cooperação, pode ser considerada

o principal agente da modernização e da transformação socioeconômica em uma

região. Portanto uma das chaves para o desenvolvimento, local e regional, reside na cooperação entre atores envolvidos e, também, na própria capacidade institucional voluntária, que pode produzir e motivar o contato entre eles: criando assim condições de gerar o capital social voltado na configuração do desenvolvimento sustentável.

Essa motivação entre atores locais é o que podemos chamar de mobilidade de capital humano, fundamentado evidentemente na cooperação e na associação que, focada no conhecimento individual, levada ao coletivo, pode gerar o desenvolvimento local.

Partindo dessas ideias desenvolvimentistas, o pesquisador Robert Putnam, estudou os distintos aspectos que levaram as diferenças estabelecidas no norte e no sul da Itália. Em suas conclusões, Robert Putnam (2000, p. 162) destaca: “na Itália contemporânea, a comunidade cívica está estritamente ligada aos níveis de desenvolvimento social e econômico” 2 .

2 Putnam estuda duas regiões da Itália: Emila-romana, ao norte e, ao sul a região da Calábria. Essas regiões, no início do século vinte, tinham padrões de desenvolvimento semelhantes, décadas mais tarde, a desigualdade foi notória, tornando o norte com a grande participação política embasadas na solidariedade uma das regiões de maior desenvolvimento da união européia, enquanto que n a região da Calábria, sem o capital social envolvido a mesma manteve-se com características medievais de estilo feudal, isolada e atrasada. Putnam introduz a ideia de que o capital social foi o grande diferencial de desenvolvimento econômico na organização da região. O capital social envolveu as redes de relações, normas de comportamentos, valores, confiança mútua, obrigações, informações e conclui que o capital social, quando é existente em uma região,possibilita a tomada das ações colaborativas das quais é concretizada em desenvolvimento para a comunidade local e, sobretudo disseminada na região.

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Pode-se concluir que a existência de um capital social leva uma região a adquirir habilidades de criar e tornar as associações fundamentadas, na confiança e confiabilidade sustentáveis. A configuração do agronegócio voltado à agricultura familiar, na região da 26ª SDR, tornar-se-á próspera se os cidadãos envolvidos estiverem dispostos a trabalhar de forma colaborativa – organizada em prol da associação voluntária entre as instituições – e, que as políticas públicas, voltadas para uma estratégia de desenvolvimento regional, não podem ser simplesmente configuradas em ações ortodoxas como, por exemplo, a abertura de crédito, incentivos fiscais e investimentos fixos, mas, principalmente, levar em conta a ampliação do capital social como fonte de sustentabilidade do negócio abrigado no território. Será necessário manter e ampliar o acúmulo de capital social na comunidade local e fortalecer assim a auto-organização social, estimulada por práticas de colaboração e cooperação entre os atores que buscam promover soluções aos problemas comuns da região, fundamentalmente na participação e na abertura de diálogos com os atores integrantes na região. Essa deve ser a prática que envolve o projeto de desenvolvimento voltado à agricultura familiar na região da 26ª SDR apresentado neste artigo.

2.1 CoMPreenDenDo o ConCeIto De CAPItAL soCIAL

o conceito de capital social desenvolveu-se por meio de diversas acepções, conexo a algumas criações, teórico-metodológicos, de forma distinta em estudos voltados à análise de desenvolvimento regional. A disseminação desses estudos científicos, principalmente pela academia, tem sua expressão a partir dos anos 80, em especial, pela sociologia e difundidos pelos cientistas políticos e na atualidade por planejadores. Destaca-se que uma das fontes pioneiras é Pierre Bourdieu, sendo um sociólogo da escola francesa, que sistematizou esse conceito. Assim, o conceito de Bourdieu sobre o capital pode ser considerado em sua forma econômica, no campo da aplicação das trocas mercantis, e ele define o capital social como:

Um conjunto dos recursos reais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de inter-reconhecimento e de inter-reconhecimento mútuos, ou, em outros termos, à vinculação a um grupo, como o

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conjunto de agentes que não somente são dotados de propriedades comuns (passíveis de serem percebidas pelo observador, pelos outros e por eles mesmos), mas também que são unidos por ligações permanentes e úteis. (BOURDIEU, 1998, P.67).

O capital social está associado à própria noção de estratégias, pois elas são as que constroem, dentro das redes organizadas, as ligações de investimentos na produção, na transformação, no capital humano, enfim, são utilizadas em prol da inserção de cada membro no grupo, para fortalecer as afinidades e as ações adotadas coletivamente.

Outro pioneiro nessa discussão é Putnam que realiza estudos sobre o capital

social. Ele estuda o grau de confiança existente entre diversos personagens ou atores sociais, destacando o grau de associativismo e a reverência às normas de comportamento cívico dos envolvidos. Esse comportamento está relacionado ao pagamento de impostos e também aos cuidados com as coisas públicas e bens comuns. Como já destacado, que o capital humano é um produto de ações individuais que buscam na aprendizagem e no aperfeiçoamento e, que o capital social se fundamenta nas relações estabelecidas nas obrigações e nas expectativas que ambos desenvolveram nas ideias da confiabilidade e fortalecimento das relações sociais com

o fluxo de informações entre eles, tanto no âmbito interno como no externo, a união

entre o indivíduo e o coletivo é o que irá fazer a diferença nos resultados esperados ao desenvolvimento econômico e social de uma região. Essas relações de confiança favorecem, sobretudo, o funcionamento das normas e sanções aprovadas pelo interesse público coletivo. Formar um capital humano é estimular o indivíduo para arquitetar, no capital social, a coesão de desenvolvimento, na família, na comunidade

e na sociedade em geral.

As raízes do desenvolvimento, no caso de uma nação, segundo Putnam, o êxito está na formação do capital social distribuídos em quatro dimensões: a) os valores éticos dominantes em uma sociedade; b) sua capacidade associativista; c) o grau de confiança de seus cidadãos; e d) a consciência cívica. Com essas quatro dimensões, destaca-e que o capital social, quanto mais ter, maior será o desenvolvimento de uma região ou país: mais crescimento e desenvolvimento. Putnam não ignora o peso das dimensões na macroeconomia, mas destaca a soma deles. O capital social

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significa praticar confiança, solidariedade, reciprocidade e é o próprio exercício da cidadania. Bourdieu (1983) e Putnam (2000) desenvolveram um conceito de capital social individualizados. Para Putnam, é um conjunto de recursos possuídos pelos indivíduos de um grupo formando tanto para o indivíduo como para o grupo. Já, para Bourdieu o capital social é uma consequência das relações sociais que é percebida pelos atores envolvidos que pode ser transformado em outra forma de capital, ele destaca numa forma individualista embutida no coletivo.

Bourdieu define capital social:

Social capital is the aggregate of the actual and potential resources which are linked to possession of a durable network of more or less institucionalizad relationships of mutual acquaintance and recognition – in other words, to membership of a group – which provides each of the members with the backing of the collectivity-owned capital (BOURDIEU, 1983, p. 248-249).

Então, nesse conceito, o capital social é o que agrega os recursos atuais e potenciais dos quais serão unidos a possessão de uma instituição reconhecida, como o agronegócio em Bela Vista do Toldo, pelos sócios desse capital e oferecem apoio necessário ao crescimento que buscam na coletividade.

Para Putnam, o conceito de capital social: “refers to connection among individuals-social networks and the norms of reciprocity and trustworthiness that arise from them” (PUTNAM, 2000, p. 19). Então, ele está se referindo as conexões entre as cadeias de indivíduos e sócios que estabelecem a relação entre às normas de troca e probidade que vai surgir entre eles no decorrer da busca de desenvolvimento.

O World Bank (2000) define assim o capital social: “….the rules, norms, obligations, reciprocity and trust embedded in social relations, social structures and society’s institutional arrangements which enable members to achieve their individual and community objectives 3 ”. Então, esse conceito fala de regras, normas, obrigações, reciprocidade e confiança embutidas nas relações sociais, nas estruturas sociais e nos arranjos institucionais que a sociedade permite aos sócios alcançarem tanto no

3 Disponível em: <www.worldbank.org/poverty>. Acessado em setembro 2011.

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individual como nos objetivos da própria comunidade organizada. Boisier 4 (2011) destaca a função do capital social como:

El capital social es lo que permite a los miembros de una comunidad, confiar el uno en el otro y cooperar en la formación de nuevos grupos o en realizar acciones en común. Se basa en la reciprocidad difusa. Una comunidad con elevado capital social alcanza mayores logros con recursos dados. Se reconoce la existencia de capital social en la densidad del tejido social. Es un bien público y por tanto hay una tendencia a sub-invertir en él. (BOISIER, 2011)

Algumas conclusões importante sobre o desenvolvimento endógeno de um territorio, segundo Boisier 5 :

El crecimiento económico de un territorio es función principal de la interacción del sistema con su entorno, del intercambio de energía, información y materia (se trata de un sistema cuasi-aislado). Ello explica que el crecimiento contenga un alto grado de exogeneidad. (BOISIER, 2011)

Boisier 6 destaca que o desenvolvimento territorial está baseado na sinergia do capital social e destaca:

El desarrollo territorial es función primordial de la complejidad del sistema territorial, de la sinapsis y de la sinergía cognitiva. Ello explica que el desarrollo sea siempre un proceso endógeno, necesariamente descentralizado y de escala social y territorial pequeña. (BOISIER, 2011).

O grau de sinergia que envolve o capital social, como mediação do fortalecimento da sociedade, dará o sentido das ações coletivas que estimulam o cidadão a ter opiniões firmes e cobrar, sobretudo, os governantes um melhor desempenho – por meio de políticas públicas – que tornem imprescindiveis essas ações em mudanças:

4 Palestra ministrada por Boisier, no Seminário sobre cultura e Desenvolvimento, dia 30 de abril de 2011, em Canoinhas – SC. Definição em uma das transparências apresentadas na palestra.

5 Palestra ministrada por Boisier, no Seminário sobre cultura e Desenvolvimento, dia 30 de abril de 2011, em Canoinhas – SC.

6 Ibdem.

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se as discussões forem se confirmando, o chamado bom desenvolvimento local pode chegar até ao âmbito do regional.

Para Putnam (2007), a cidadania, o civismo e a democracia estão relacionados ao capital social e, a partir daí, ele desenvolve um conceito de comunidade cívica,

destacando as diferenças entre as regiões que estão relacionadas às raízes histórico- culturais, destacando-se que as mais cívicas são aquelas que são mais organizadas e que estão baseadas na cooperação, confiança, normas de reciprocidade na coletividade

do território. é a confiança social a chave para a cooperação o ganho de desenvolvimento

nas redes de engajamento cívico.

Essas ideias se associam na configuração do capital social como destaca Putnam: 1) Grupos e redes – considera a participação do cooperado em organizações sociais formais e informais, bem como as vantagens dadas e recebidas nestas relações; 2) Rede (Individual) – trata das relações de amizade informal que o cooperado tem em seu cotidiano; 3) Confiança e solidariedade – leva em conta dados sobre a confiança nos relacionamentos interpessoais do cooperado, inter e extrafamiliar; 4) Ação coletiva e cooperação – investiga as relações de trabalho na celula familiar, nos produtos em conjuntos e na punição de ações oportunistas; 5) Informação e comunicação – como se dá o fluxo de informações e a facilidade de comunicação dos cooperados na comunidade e com outras regiões; 6) Coesão e inclusão social – buscar

identificar como se processam as interações entre os cooperados inter e intracooperativa; 7) Autoridade (ou capacitação – empowerment) e ação coletiva – envolve o nível de empoderamento psicossocial dos cooperados e ainda a capacidade dos cooperados de agir agregadamente. Os grupos e redes, a rede individual, a confiança, a ação coletiva, as informações, a coesão e inclusão social e a autoridade são ideias sobre o capital social elaboradas por Putnam (1996) que se espandem nas possíbilidades de aplicação em diversos trabalhos que tentam compreender a influência do mesmo em projetos de desenvolvimento local e regional. A aplicação do capital social se identifica nos impactos sobre a melhora de renda e a influência da ação coletiva na comunidade.

O Banco Mundial, no estudo “Social Capital initiative”, o capital social determina a sustentabilidade de projetos voltados ao desenvolvimento local e regional.

Para Boquero (2003, p. 95), uma diferença importante entre o capital social e outras formas de capital é que o capital social existe em uma “relação social”. Reside

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nessas relações e não no indivíduo sozinho, como é o caso de habilidades que adevém do capital humano. é constituído em coletividades institucionalizadas tais como:

universidades, corporações, governos, associações informais de pessoas em que o conhecimento e as visões de mundo formam-se e são transferidas na coletividade. Capital social não são simplesmente um atributo cultural, cujas raízes só podem ser fincadas ao longo do tempo ao longo da formação de muitos povos e gerações. Ele pode ser criado – desde que haja organizações suficientemente fortes – para sinalizar aos indivíduos as alternativas que eles podem, por meio de seus comportamentos políticos, transportar na coletividade a vontade do indivíduo. Esse envolvimento entre os atores é o que pode ser observado na configuração e na diferença, entre desenvolvimento e estagnação, entre uma região e outra.

2.2 CAPItAL soCIAL: ProJeto Do AGroneGÓCIo CoMo ALAVAnCAGeM PArA o DesenVoLVIMento DA eConoMIA LoCAL-reGIonAL

O projeto da agroindústria familiar, como fonte geradora de riquezas e desenvolvimento regional, destaca-se para as mudanças que pode vir a ocorrer na problemática de todas as atividades agropecuárias, em especial na região do Planalto Norte Catarinense. Essa região apresenta uma realidade de múltiplas dificuldades, tanto no âmbito social como no econômico. Essas dificuldades se conjecturam em dificuldades na produção, industrialização e comercialização dos productos desenvolvidos e produzidos por pequenos agricultores. De certa forma, inclui-se a ação a ser justificada, como relevância prática, o desenvolvimento de uma agroindústria nesse território, pois ela irá contribuir para suprir a necessidade local, dos pequenos agricultores familiares que estão voltados em suas atividades para o desenvolvimento do agronegócio. O fato é que, essas famílias de agricultores necessitam desenvolver sua vocação endógena, ou seja, produzir alimentos e agregar valores para se fortalecer. Fortes, eles podem completar o ciclo da produção, industrialização e comercialização, no sistema agroindustrial de forma sustentável. Com a aplicação de uma ação conjunta entre a Universidade do Contestado, Prefeituras Municipais de Canoinhas, Três Barras, Major Vieira e Bela Vista do Toldo, MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário) e da

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FAPESC (Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina) – para ser estruturada a agroindústria no território da 26 a SDR, de forma organizada. Entrementes, a formação do capital social no agronegócio para esses agricultores familiares, com certeza, irá ser a grande fonte para o desenvolvimento local e regional. Além do mais, ajudará a evitar o êxodo rural, motivado pela falta de oportunidades, do qual essas pessoas almejam num futuro próximo a própria sobrevivência. No mapa n.º 1 o local da instalação do agronegócio em Bela Vista do Toldo-SC.

da instalação do agronegócio em Bela Vista do Toldo-SC. Mapa n.º 1 – localização da 26ª

Mapa n.º 1 – localização da 26ª SDR e da sede da agroindústria.

Muitos são as justificativas do investimento em projetos de instalação de agronegócios voltados à agricultura familiar. Segundo o Relatório – A força da agricultura segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MDA, 2009) relata que o agronegócio diversificado, moderno e eficiente desenvolvido no Brasil elevou o País à categoria de grande fornecedor mundial de alimentos. Mas não é só isso. A alavancagem neste setor de agroenergia, com produção sustentável e de qualidade, conquistou o mercado internacional. O desempenho das safras e da balança comercial se supera a cada ano e em 2008 não foi diferente. No entanto, nos últimos meses, a crise financeira global, iniciada no segundo semestre de 2009, puxou o freio deste acelerado desenvolvimento e trouxe apreensões. Incertezas quanto ao crédito e ao comportamento dos mercados chegaram juntos e o Brasil, sendo o terceiro exportador de produtos agrícolas, com desempenho expressivo e aumentando a cada ano. O relatório destaca que, em 2008, as vendas externas do setor agropecuário resultaram em US$ 71,8 bilhões, 23% a mais do que em 2007, e o agronegócio

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respondeu por 36,3% das exportações totais do País. Esse potencial é sinônimo de liderança que os indicadores para 2010-11 apontam com um acréscimo ainda maior. o Brasil é o maior produtor e o maior exportador de café, açúcar, etanol de cana-de- açúcar e suco de laranja. Lidera o ranking das vendas externas de carne bovina, carne de frango e tabaco. O País já é o principal polo de bicombustíveis obtidos a partir de cana-de-açúcar, e tem tudo para ser, em breve, destaque mundial na produção de combustíveis a partir de óleos vegetais. Destaca-se também na exportação de algodão, milho, frutas frescas, cacau, castanhas, couro e suínos, entre outros. O crédito é o motor da economia e o agronegócio vem se beneficiando com linhas específicas, a taxas de juros controlados e com medidas emergenciais de suporte para os efeitos da crise financeira mundial. A qualidade, a sanidade e a sustentabilidade ambiental do agronegócio brasileiro conquistaram reconhecimento mundial. Mesmo em épocas de desvantagens cambiais e de crises globais, as vendas externas do Brasil cresceram.

Para Couto Filho (2007, p. 21), desde a criação do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) em 1996, os agricultores e agricultoras familiares brasileiros têm recebido crescente atenção das políticas públicas. Essas políticas, diga-se de passagem, construídas com a participação e a legitima representação dos movimentos sociais organizados. Para o autor, o setor público deve promover políticas que permitam o crescimento da atividade. De forma resumida, os municípios, o Estado e a União devem oferecer infraestrutura, assistência técnica e extensão, estudos e pesquisas, fiscalização e controle ambiental, e por fim organizar a comercialização. Não se pode falar de Política Pública sem que sejam tratados outros pontos fundamentais como: a) programas especiais regionalmente localizados; b) desencontros das políticas agrícolas e agrárias; c) falta de uma política específica e substancial de apoio à agricultura familiar; e d) a política agrícola do MERCOSUL e a sua relação com outras regiões.

Para a Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo (MDA, 2008), a associação “é uma sociedade civil sem fins lucrativos, onde vários indivíduos se organizam de forma democrática em defesa de seus interesses”. Pode existir em vários campos da atividade humana e sua criação deriva de motivos sociais, filantrópicos, científicos, econômicos e culturais. A associação é uma maneira de

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participar da sociedade. é muito comum que as pessoas se reúnam para alcançar objetivos que, individualmente, seriam bem mais difíceis ou mesmo impossíveis de ser conseguidos. Gradativamente e em diferentes atividades, organizações não governamentais (ONGs), entidades representativas de categorias profissionais, grupos sociais ou setores produtivos reivindicam sua participação no planejamento. Essa participação é definitiva para influenciar a direcionar os recursos públicos aos projetos desejados pela maioria da população, bem como fiscalizar sua aplicação. Ao mesmo tempo, o associativismo se constitui em alternativa necessária de viabilização das atividades econômicas, possibilitando aos trabalhadores e pequenos proprietários um caminho efetivo para participar do mercado em melhores condições de concorrência. Com a cooperação formal entre sócios afins, a produção e comercialização de bens e serviços podem ser muito mais rentáveis, tendo-se em vista que a meta é construir uma estrutura coletiva da quais todos são beneficiários.

Os pequenos produtores, que normalmente apresentam as mesmas dificuldades para obter um bom desempenho econômico, têm na formação de associações um mecanismo que lhes garante melhor desempenho para competir no mercado. Transformar a participação individual e familiar em participação grupal e comunitária se apresenta como uma alavanca, um mecanismo que acrescenta capacidade produtiva e comercial a todos os associados, colocando-os em melhor situação para viabilizar suas atividades. A troca de experiências e a utilização de uma estrutura comum possibilitam lhes explorar o potencial de cada um e, consequentemente, conseguir maior retorno financeiro por seu trabalho. A união dos pequenos produtores em associações torna possível a aquisição de insumos e equipamentos com menores preços e melhores prazos de pagamento, como também o uso coletivo de tratores, colheitadeiras, caminhões para transporte etc. Tais recursos, quando divididos entre vários associados, tornam-se acessíveis e o produtor certamente sai lucrando, pois reúne esforços em benefício comum, bem como o compartilhamento do custo da assistência técnica do agrônomo, do veterinário, de tecnologias e de capacitação profissional. O conceito de associação de produtores rurais é: “uma sociedade formal, criada com o objetivo de integrar esforços e ações dos agricultores e seus familiares em benefício da melhoria do processo produtivo e da própria comunidade a qual

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pertencem”. Objetivos Desenvolver um projeto coletivo de trabalho. Defender os interesses dos associados.

A foto n.º 1 destaca o prédio da agroindústria da agricultura familiar em Bela Vista do Toldo-SC.

da agricultura familiar em Bela Vista do Toldo-SC. Foto n.º 1- vista da sede da agroindústria

Foto n.º 1- vista da sede da agroindústria em Bela Vista do Toldo. Fonte: Reinaldo Knorek, 2010.

Formar um capital social para esse agronegócio voltado à agricultura familiar é

o grande desafio. Vale (2006) destaca que o capital social representa o conjunto de

recursos enraizados (embedded) em redes sociais, de usufruto de atores (individuais

e coletivos) e resultante de relacionamentos, conexões e laços. Tais recursos garantem a seus detentores informações, permitem acesso a bens valiosos e regam oportunidades ajudando-os na obtenção de resultados pretendidos. Nesse contexto, atores sociais, com conexões capazes de lhes permitir transpor distâncias sociais e estabelecer

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pontes com outros atores e redes (grupos sócias) distintos, gozarão de condições mais privilegiadas. Em um determinado território, uma aglomeração produtiva, o capital social seria representado pelo conjunto de recursos inserido nas conexões e laços à disposição de atores aí presentes, vinculados entre si e com o “resto do mundo” e condicionados à natureza dos empreendimentos (individuais e coletivos) que são capazes de praticar.

Produzir, industrializar e comercializar de forma cooperada e reunir esforços para reivindicar melhorias em sua atividade e à comunidade, além de melhorar a qualidade de vida e participar do desenvolvimento de sua região, devem ser características das associações rurais que, geralmente, são formadas por grupos de vizinhos que, pela proximidade e pelo conhecimento, se agrupam para discutir problemas comuns. E isso faz a formação de um capital social sustentável. Ao buscarem soluções em conjunto, evoluem para decisões mais definitivas, aperfeiçoando a parceira, inicialmente informal, para uma forma de união organizada e associativa, onde terão maiores chances de sucesso. Para tanto, a participação democrática e a ajuda mútua são os princípios fundamentais, sem os quais as associações perdem sua razão de existir, já que defendem os interesses e anseios da maioria. O mutirão – que antes ocorria como uma ação eventual de colaboração entre amigos – se transforma num método, os membros da associação passam a trabalhar juntos e (ou) de forma complementar, tanto na fase produtiva como na comercial. As vantagens das associações que se organizam e garantem um processo participativo, tendo como principal objetivo o permanente interesse do grupo, tendem a prosperar. Ao atingirem suas metas, novos horizontes se estabelecem, impulsionando suas atividades.

Abramovay (2006) indica que a visão do desenvolvimento territorial pela óptica do “embeddedeness”, ou seja, o enraizamento ou imersão, se revela um recurso analítico adequado para compreender os dois elementos centrais para o sucesso das experiências de desenvolvimento, que são os mecanismos de cooperação entre atores e o papel dos mercados.

A coesão territorial apóia-se em formas de cooperação que correspondem à capacidade de diferentes grupos em oferecer os padrões em torno dos quais a interação social se estabiliza. Os participantes de qualquer mercado procuram, permanentemente,

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estabilizar suas relações ou, em outras palavras, reduzir ao mínimo os riscos que ocorrem pelo fato de estarem expostos ao sistema de preços. Os protagonistas dos mercados não são fundamentalmente maximizadores de lucro vivendo num mundo atomizado em que as oportunidades são aproveitadas sob a forma de um leilão permanente estabelecido entre participantes anônimos e impessoais. (ABRAMOVAY, 2006, p. 32)

De fato, quando se busca o desenvolvimento local-regional, fala-se do território

a ser desenvolvido do qual inspira grandes estudos de discussões; sobre as

características do mesmo e do enraizamento ou imersão (embeddedness) das atividades econômicas em contextos, espaços ou ambientes sociais marcados pelas fortes relações de proximidade e interconhecimento: fundamenta a formação do capital social para esse envolvimento. Sob as perspectivas culturalistas de Putnam (2000), os estudiosos da sociologia econômica afirmam que as relações entre os atores são socialmente construídas e negociadas, formando estruturas, hierarquias e lutas sociais por poder. O território rural, as perspectivas de imersão e as relações econômicas não são simplesmente um conjunto de fatores naturais de dotações humanas capazes de determinar as opções de localização das empresas e dos trabalhadores; eles se constituem por laços informais, por modalidades de cooperação, que é o ponto fundamental do capital social. Certamente, no que tange ao momento da cooperação entre os líderes dos municípios inserido neste projeto, a definição dos produtores que farão parte do negócio e o apoio da universidade serão determinantes para o sucesso ou fracasso da agroindústria. Dentro desse contexto devem ocorrer fatores como a inovação tecnológica endógena que surgem como maximização das estruturas a serem montadas em busca dos lucros a ser conseguido, o capital humano, ou seja, o estoque de conhecimentos dos agentes econômicos, e os arranjos institucionais, incluindo a política governamental e as organizações da sociedade civil. Isso é fundamental no crescimento econômico e contínuo da renda per capita em qualquer sistema econômico. é nesse ponto que se insere o papel fundamental exercido por

atores sociais que comandam as políticas de desenvolvimento, tais como: as citadas prefeituras, o MDA, a 26ª SDR e a Universidade do Contestado-UnC. Contudo, é aberta

a discussão em que na teoria o crescimento endógeno constitui-se para a legitimidade

da endogeização territorial, mas que a partir de ações concretas, com investimentos

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localizados, o crescimento econômico pode ser visível no território. A forma de cooperação e de parceria desenvolvida entre os atores citados pode sim, de certa maneira, ser o ponto forte de alavancagem para o desenvolvimento da agroindústria.

Esse ponto forte – a cooperação e a formação de parcerias – ficou evidenciado

e

se destacou com a realização, no dia 19 de novembro de 2010, em Canoinhas, do

II

Seminário sobre Ferramentas de Desenvolvimento: os desafios do agronegócio na

região da 26ª SDR. Nesse seminário foi discutido o agronegócio voltado à agricultura familiar e as atividades das prefeituras como apoio ao desenvolvimento e a sustentabilidade dessa atividade. Foram mais de 150 pessoas participantes, entre agricultores, prefeitos, sindicalistas, vereadores, secretários de agricultura, mestrandos do Programa de Mestrado em Desenvolvimento Regional e Público em geral discutir e compreender os desafios do agronegócio na região. À medida que as economias vão se consolidando, observa-se que tende a ocorrer um processo de interdependência entre setores e territórios com seus segmentos produtivos, e é nesse momento que novos padrões passam a ser ditados pelos atores mais dinâmicos da economia. A produção agrícola e pecuária tem como principal objetivo obter lucro ou ganhos quantitativos pelo aumento de produção e produtividade. Nessa ideia de cooperação para se desenvolver uma agroindústria da qual muitos farão parte, é evidente que os

atores, quando obtiverem lucros agregados em seus produtos, entrarão na dinâmica da economia que é circular a produção e aumentar cada vez mais a produtividade e, sobretudo, o ganho da qualidade desses produtos: cooperação e dinâmica de mercado levam ao desenvolvimento. Neste contexto de produção, dinâmica da economia, inovação e ampliação do leque de produtos produzidos com a agregação de valores à produção in natura que surge na literatura especializada a terminologia de agribusiness ou agronegócio.

Agronegócio abrange a produção agropecuária propriamente dita (produção vegetal, produção animal, e as atividades vinculadas ao extrativismo), as atividades situadas a montante da produção agropecuária (indústria de insumos, máquinas e equipamentos, estrutura de financiamento à produção, instituições de pesquisa) e as atividades situadas à jusante da produção rural (setor de transporte, beneficiamento, armazenamento, estruturas de atacado e varejo incluindo os restaurantes e bares). (ARBAGE, ALEXANDRO, 2006, p. 184)

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Todas essas empresas fazem parte do sistema chamado agribusiness ou agronegócio. Desenvolver a partir das experiências dos produtores, cooperação entre municípios e universidade e estruturação do agronegócio é, sobretudo, a maneira de consolidar a região do vale do Canoinhas como um território endogenamente agrícola

e que passa a ser um novo território de agronegócios com novas empresas e novas formas de crescimento da economia local.

Este é o objetivo de consolidar o agronegócio nos municípios da 26 a SDR, desenvolvendo, equipando e organizando um agronegócio para agricultores familiares,

construindo o associativismo e cooperativismo garantirá o desenvolvimento territorial

e a sustentabilidade deles. O capital social mobilizado neste projeto beneficiará 80

famílias diretamente em cada um dos quatro municípios envolvidos e aproximadamente 1500 pessoas indiretamente na região da 26 a SDR. De certa maneira, essa realidade apresentada nesses números, necessariamente, precisa ser alterada para mais. Os valores financiados pela FAPESC totalizam um montante de R$ 128.845,00, dos quais R$ 32.910,00 se destinam ao custeio da pesquisa e R$ 96.935,00 correspondem ao valor para compra dos equipamentos da agroindústria. Também há a contrapartida das prefeituras de Canoinhas, Três Barras, Major Vieira e Bela Vista do Toldo, cujo valor é de R$ 15.000,00. A universidade nesta parceria entra com uma contrapartida de R$ 45.000,00. O MDA financiou a construção da sede com R$ 140.000,00 e, está um acréscimo demais investimentos na ordem de R$ 91.000,00 para garantir o início da produção da agroindústria. O projeto tem por objetivo geral: Promover o desenvolvimento

local-regional por meio do agronegócio – completando o ciclo produção, industrialização, comercialização – voltado à sustentabilidade e diversificação produtiva da agricultura familiar, fortalecendo assim a potencialidade dos arranjos produtivos locais para pequenos produtores inseridos na 26 a SDR. Para que tal objetivo seja atingido, destacam-se os objetivos específicos: 1) Fomentar o setor produtivo agropecuário para a agroindústria; 2) Edificar a instalação de uma unidade agroindustrial para ser um instrumento de geração de emprego e renda voltado a novas oportunidades de trabalho da agricultura familiar no âmbito local-regional da 26 a SDR; 3) Incentivar e apoiar os pequenos produtores nas atividades de produção, inovação, desenvolvimento científico

e tecnológico aliados à gestão, transferência de tecnologias, promoção do capital humano, desenvolvendo a natureza mercadológica, por meio da educação, cultura e

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treinamento dos pequenos produtores rurais associados à agroindústria; 4) Promover a produção, industrialização e comercialização da produção da agricultura familiar de forma sustentável; 5) Elaborar um diagnóstico dos produtos comercializados na região 26ª SDR; 6) Elaborar um diagnóstico das potencialidades de produção da agricultura familiar na região da 26 a SDR; 7) Identificar a capacidade de diversificação da agricultura familiar na região da 26 a SDR; 8) Promover a feira livre como canal de comercialização dos produtos produzidos na agroindústria da agricultura familiar na região da 26ª SDR; 9) Estimular e capacitar os pequenos produtores rurais para produção associada voltados à agregação de valores dos seus produtos para a agroindústria; 10) Sensibilizar os pequenos produtores rurais para que desenvolvam a consciência organizacional de trabalhos associativista-cooperativista na região 26ª SDR. Entrementes, o capital social a ser construído na forma da cooperação entre os atores envolvidos será o grande diferencial, tanto no momento da sua implementação como no que tange à própria sustentabilidade do negócio. A razão desse capital social já produziu resultados com a implantação de uma cooperativa entre os atores envolvidos neste projeto: Cooperativa de Fortalecimento da Agricultura Familiar do Planalto Norte Catarinense – CooPerFAP em Bela Vista do Toldo, no dia 30 de junho de 2011.

ConsIDerAçÕes FInAIs

A perspectiva do desenvolvimento endógeno rural no território da 26ª SDR e da edificação do capital social, formado na cooperação, vem evoluindo de vários segmentos da sociedade, de forma expressiva, desde a construção da sede da agroindústria, em Bela Vista do Toldo, com o projeto de equipar e instrumentalizá-la, será determinante para a sustentabilidade do agronegócio familiar. Muitas das ações que deverão ser efetivadas no projeto terão o apoio da Universidade do Contestado e dos governos dos municípios de Canoinhas, Bela Vista do Toldo, Major Vieira e Três Barras. Os formuladores de políticas que, por muitas razões buscam o desenvolvimento de territórios, especialmente os rurais, precisam, de certa forma ser refinados e aprofundados por novas pesquisas: tanto na área técnica como na forma de gestão dos negócios. Exatamente o que está sendo configurado neste projeto: ações

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inovadoras para a região e norteada para o desenvolvimento econômico de forma sustentável. A teoria do capital social inovada por Putnam (1993; 2000) presume, segundo o autor, que quanto mais relacionarmo-nos com outras pessoas, mais confiamos nelas, e vice-versa. (PUTNAM, 1995b, p.665). Essa ideia de formar parcerias para projetos interinstitucionais, muitos problemas defrontado com os atores políticos de diversas formas como, por exemplo: o partidarismo, o territorialismo e as paixões discursivas em torno das potencialidades locais dos quais todos querem ser os propulsores das ideias, são questões que envolvem muito mais relações e envolvimentos para ser compreendidas como uma sinergia de ligação entre poderes. Mas, sobretudo, o capital social envolvido está criando a sinergia necessária para que o projeto seja sustentável em todo o seu processo de formulação como de desenvolvimento: é do local que emergem o capital social para o crescimento econômico e o desenvolvimento da comunidade de forma sustentável do qual o sucesso ou fracasso se estabelecerão. Neste sentido, o capital social oferece uma maneira nova e excitante de revitalizar as pesquisas em desenvolvimento de um território com vocação endógena, voltado à agricultura familiar e se manifestará em desenvolvimento na promoção da justiça e da solidariedade institucionalizada. Por fim, destaca as ideias de BOQUERO (2003): o capital social como instrumento de “empowerment” das pessoas para agirem coletivamente e que essa força de cooperação gere mecanismos democráticos eficientes com qualidade, em que as demandas de grupos tradicionalmente excluídos não sejam mais esquecidas, e ao mesmo tempo tais experiências fortaleçam o conceito de cidadania: desenvolver as pessoas na cooperação para o crescimento sustentável.

reFerênCIAs

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3 As CAPeLAs CoMo PAtrIMÔnIo MAterIAL CULtUrAL nA 26ª sDr:

neCessIDADes e DesAFIos Do CAPItAL soCIAL PArA sUA PreserVAção

IntroDUção

Marcelo tokarski 1

Este texto é mais especulativo do que conclusivo, diante do debate que se abre

ao tratar-se das interações entre cultura e desenvolvimento. Procurar-se-á demonstrar

a importância de ações coordenadas, por parte das várias esferas de governo e da

sociedade civil dos municípios que compõem a 26ª SDR 2 , no sentido de se construírem ações que visem à preservação do seu patrimônio cultural, notadamente, aqui, o patrimônio arquitetônico singular das antigas capelas de madeira. Tais capelas, antes maioria, são hoje poucas, mas importantes representantes de uma época. Emblemáticos exemplares de saberes e fazeres construtivos e artísticos que correm risco de se perder; perda esta inestimável e que pode ser evitada. A preocupação pela preservação

de tal patrimônio cultural não pode ser entendida como fruto de um possível sentimento de saudosismo ou apego às “coisas do passado”, mas sim, o “fator cultural”, como uma das facetas do desenvolvimento, saindo de um ostracismo 3 , pois por muito tempo

a cultura foi considerada muito mais como um fator com capacidade de atrapalhar do que ajudar no desenvolvimento (HERMET, 2002).

Atualmente, parece haver um descaso, por parte da sociedade local, no tocante à preservação do patrimônio cultural local e regional, salvo ações singulares e

1 Administrador e Turismólogo, Especialista em Planejamento Turístico e Mestrando em Desenvolvimento Regional.

2 Secretaria de Estado do Desenvolvimento Regional, que abrange seis municípios: Bela Vista do Toldo, Canoinhas, Irineópolis, Major Vieira, Porto União e Três Barras.

3 Aqui, entendido como isolamento, proscrição e (ou) banimento.

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localizadas de algumas comunidades, e, também de algumas pessoas, seja por conscientização da importância desta preservação, seja pelo apreço que tais pessoas

e (ou) comunidades têm pelos seus patrimônios.

A existência de capital social, aqui entendido como catalisador sinérgico de ações por parte da sociedade, segundo Robert Putnam, “características da organização social como confiança, normas e sistemas que contribuam para aumentar a eficiência da sociedade, facilitando as ações coordenadas” (PUTNAM, 2000), poderá ser de fundamental importância para que se realizem ações coordenadas regionalmente que visem à preservação de importante parcela do patrimônio cultural material da região

citada, com vistas ao desenvolvimento de atividades relacionadas ao turismo cultural

e, estas, como possíveis fatores de retroalimentação de processos de desenvolvimento

regional sustentável, ao se valorizar a identidade cultural regional, alavancando o sentimento de pertença da população, dotando-a de mecanismos de defesa de sua cultura, diante dos desafios da globalização.

No decorrer do presente texto, com a apresentação dos subsídios para a reflexão sobre o tema, pretende-se construir a base da defesa argumentativa acerca da importância da preservação do patrimônio cultural, suas possibilidades turísticas, a necessidade de um capital social mais ativo para a necessidade apontada de tal preservação e possíveis implicações inerentes ao estímulo da valorização da identidade, por meio do turismo cultural, como fator de desenvolvimento regional, além de termos/ conceitos conexos com o de “capital social”, inclusive o de “sustentabilidade político- institucional”.

Portanto, compromissado com a alteração deste cenário atual, que pode pôr em risco a conservação do patrimônio material cultural regional, o texto a seguir respalda teoricamente discussões a respeito da temática apresentada.

3.1 PAtrIMÔnIo MAterIAL CULtUrAL e IDentIDADe

Definir cultura é tarefa difícil, pois há vários entendimentos, a partir de uma visão antropológica, Linton afirma que: “Os seres humanos devem seu predomínio

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atual, em parte, a seu equipamento mental superior, mas ainda mais às ideias, hábitos

e técnicas que lhes foram transmitidos pelos seus ancestrais”. Mais adiante, esse autor descreve que:

A cultura de qualquer sociedade consiste na soma total e a organização de ideias, reações emocionais condicionadas e padrões de comportamento habitual que seus membros adquiriram pela instrução ou pela imitação de que todos, em maior ou menos grau, participam. (LINTON, 2000, p. 279)

Segundo esse mesmo autor, a curiosidade e o deleite de criar e conhecer coisas novas seria um dos fatores de desenvolvimento cultural da espécie humana, quando afirma “a raiz do desenvolvimento cultural humano está, provavelmente, mais na capacidade que o homem tem de aborrecer-se de que nas suas necessidades sociais ou naturais” (LINTON, 2000). Procurarei demonstrar, mais adiante, a relação desta afirmativa com as razões/motivações do Turismo Cultural.

Na abordagem entre cultura e desenvolvimento, mesmo as autoridades

financeiras internacionais parecem ter despertado para a importância do cuidado com

o respeito a ela, em 1998, James Wolfensohn, presidente do Banco Mundial, na

Conferência “A Cultura no Desenvolvimento Sustentável”, afirmou: “Temos que respeitar as raízes das pessoas em seu próprio contexto social. Temos que proteger a herança do passado. Mas também temos que estimular e promover a cultura viva em todas as suas múltiplas formas.” (apud HERMET, 2002, p. 88).

Conforme o Ministério da Cultura, no Plano Nacional de Cultura, “A cultura é constitutiva da ação humana, seu fundamento simbólico está presente em qualquer prática social”, afirma também, que “economia e desenvolvimento são aspectos da cultura de um povo”, aqui entendendo-se que ela pode ser parte de processos propulsores da criatividade, gerando inovações econômicas e tecnológicas e a diversidade cultural produz variados modelos de geração de riqueza que devem ser reconhecidos e valorizados. (MinC, PNC, 2008).

Ao se abandonar uma possível forma elitista de se pensar a cultura, pode-se dizer que, antes de ser um refinamento ou sofisticação, a cultura seria uma condição de produção e reprodução da sociedade (MENESES, 2002).

[

53

]

o conceito de cultura complementa o de sociedade, neste caso, entendendo-se como um conjunto de indivíduos que se identificam como membros de um grupo social. (MARTINS, 2003).

Em vários autores, encontram-se estudos que apontam para as relações entre patrimônio cultural, turismo e identidade.

Na obra “Turismo, Cultura e Identidade”, encontra-se interessante texto do qual pode-se depreender que a valorização do patrimônio cultural pode ser entendido com a tomada de consciência social de um grupo com referência a alguma ou a algumas manifestações culturais próprias. (AGUIRRE, apud MARTINS, 2003) No mesmo capítulo, tem-se um embasamento preciso de tais implicações:

De todas as formas, tomando o patrimônio em sentido amplo, na hora da verdade estão ali materializados: as tradições, os costumes, os modos de ser e de viver, mas, sobretudo, em cultura material, técnicas, artefatos, etc., nos quais estão os testemunhos reais, palpáveis das mais diversas culturas. (MARTINS, 2003, p. 45.)

Para o mesmo autor, identidade se relaciona com a memória coletiva, exterior

ao indivíduo “[

comunidade, cidade, país pertence. Mas essa identidade não é “petrificada”, quando se relaciona à execução de papéis sociais, sendo assim, a identidade é uma construção também do próprio homem, logo, pode ser alterada.” (MARTINS, 2003). A relação entre o desenvolvimento turístico e a valorização da identidade local/regional será abordada mais a frente.

O homem nasce, vive e morre sabendo a que grupo, família,

]

Complementando, a identidade pode ser identificada como o sentimento de pertencer a algo, ao se pensar o ser humano como um ser simbólico, que sente afinidades por um pertencimento, seja a um grupo, seja um local.

Para o Programa de Regionalização do Turismo – Roteiros do Brasil, a cultura é

pensada como a totalidade ou o conjunto da produção de uma sociedade e o patrimônio

o conceito de patrimônio

cultural entendido até a metade do século passado como sinônimo de obras de arte consagradas e monumentos, tem sido redefinido atualmente, sendo pensado em seus

aspectos materiais e imateriais (tangíveis e intagíveis)” (MTur, 2008, p. 57)

cultural, tem um significado abrangente e atualizado “[

]

[

54

]

Como o objetivo deste texto é o de demonstrar a importância da preservação e valorização do patrimônio cultural arquitetônico das capelas erigidas, em sua maioria, nas primeiras décadas do século anterior, na região da 26ª SDR, e seu possível aproveitamento turístico e de ações educativas que reforcem a identidade cultural da população, ater-se-á aos aspectos inerentes ao patrimônio cultural material.

As regiões devem descobrir o seu potencial e suas vocações, pois caso exista algum tipo de patrimônio, provavelmente, sempre deverá existir, este necessita ser preservado e valorizado, mas tendo sempre a participação da comunidade, envolvendo-a nos projetos e dando-lhe voz, pois, como afirma Guy Hermet: “Para que façam seu um projeto, é preciso sempre que possam personificar nele seus desejos, antes de concordarem em empregar nele seus esforços”. (HERMET, 2002, p. 99)

Ao se pensar na identidade como algo que se relaciona com a memória coletiva, exterior ao indivíduo, deve-se observar que essa memória envolve outras referências individuais e guarda de forma particular os fatos da sociedade inerente a esse indivíduo (LEVY-STRAUSS apud MARTINS, 2003). Complementando, pode-se afirmar que o indivíduo recorre a este conjunto de referências para recuperar ou manter a sua identidade, seu sentido de pertencer, resgatando a sua história, sobretudo neste período de globalização, em que o individual se perde no padrão (MARTINS, 2003). Ainda na mesma discussão, a autora Margarita Barreto explica que manter sua identidade seria, então, algo essencial para que os indivíduos sintam- se seguros, unidos por laços extemporâneos a seus antepassados, no contexto de um território 4 , de hábitos e costumes que lhe transmitam segurança, indicando-lhes suas origens, auxiliando-os a poderem se referenciar, dentro do rol das diversidades (BARRETO, 2000).

Aqui, pode-se pensar no potencial que o desenvolvimento do turismo cultural tem, como ferramenta auxiliar na preservação de patrimônios culturais ameaçados, pois, com a perda destes, poderiam perder-se ícones de identidade cultural da região.

“O território é o espaço ocupado por uma pessoa ou grupo, é aquele no qual se vive e se experimenta sua existência concreta e cotidiana”. (MARTINS, 2003, p. 44)

4

[

55

]

3.2

tUrIsMo, DesenVoLVIMento reGIonAL e CAPItAL soCIAL

A fim de se entender o seu caráter multidisciplinar, deve-se ter em conta que o turismo tem várias definições, além de envolver em seu estudo vários segmentos do conhecimento humano, tais como: Psicologia, Economia, Sociologia, Educação, Administração, Direito, Marketing, Antropologia, Geografia, História etc. Oscar de La Torre, autor mexicano, descreve o turismo como sendo:

fenômeno social que consiste no deslocamento voluntário e temporário de indivíduos ou grupos de pessoas que, fundamentalmente por motivos de recreação, descanso, cultura ou saúde, saem de seu local de residência habitual para outro, no qual não exercem atividade lucrativa ou remunerada, gerando múltiplas inter-relações de importância social, econômica e cultural. (BARRETO, 2003, apud Mtur, 2009, p. 49)

[

]

Buscando aprofundar as implicações do desenvolvimento da atividade turística, tendendo à defesa do turismo cultural, apoia-se na obra de Panosso Netto, na qual, estabelece-se que o sujeito do turismo é o ser humano:

não é somente um objeto, mas sim um sujeito em

construção, em contínua formação. Assim, o turismo pode ser visto também como a busca da experiência humana, a busca da construção do “ser” interno do homem, fora de seu local de experiência cotidiana, não importando se ele está em viagem ou se já retornou, pois esse ser continua a experienciar, a recordar e a viver o passado, independentemente do tempo cronológico. (PANOSSO NETTO, 2005, p. 30)

Podemos dizer que turista [

]

Para se entender a diferenciação entre o turismo cultural e os demais segmentos, pode-se buscar entendê-lo pelas suas motivações, que podem ser classificadas em duas grandes segmentações, o turismo motivado pela busca de atrativos naturais e o turismo motivado pela busca de atrativos culturais. Pode-se, assim, compreender o turismo cultural como todo turismo em que a primordial atratividade baseia-se em algum aspecto da cultura humana, podendo este ser o artesanato, a história, o cotidiano, uma apresentação/evento cultural (BARRETO, 2000)

No rol das propostas e diretrizes do Plano Nacional de Cultura, podem ser encontradas interessantes conexões entre a preservação do patrimônio cultural nacional, apoiados pelo desenvolvimento do Turismo Cultural Sustentável, valorizando

[

56

]

a diversidade, pois o mesmo afirma que deve-se “realizar programas de incentivo e fomento para a valorização e qualificação de centros históricos, espaços urbanos e

áreas rurais detentoras de patrimônio cultural” (MinC, 2008, p

da importância do turismo cultural, afirma que deve-se “desenvolver e aplicar métodos de gestão do patrimônio material e imaterial em que sua proteção e interpretação alimentem a identificação de novos produtos de turismo cultural”. Além das diretrizes citadas anteriormente, vale destacar:

). Como reconhecedor

Incentivar modelos de desenvolvimento turístico que respeitem as necessidades e os interesses dos visitantes e populações locais, garantindo a preservação do patrimônio, a difusão da memória sociocultural e a ampliação dos meios de acesso à fruição da cultura;

Realizar campanhas e programas integrados com foco na informação e educação do turista para difundir o respeito e o zelo pelo patrimônio material e imaterial dos destinos visitados;

Instituir programas integrados que preparem as localidades para a atividade turística por meio do desenvolvimento da consciência patrimonial, formação de guias e de gestores. (MinC, PNC, 2008, p. 93)

Além do citado acima, na mesma obra apresenta-se que é importante que se apoie e se zele pelo turismo baseado nas festas, tradições e crenças do povo brasileiro.

A preocupação com os impactos negativos, que o desenvolvimento da atividade turística pode trazer, é pertinente, mas tais impactos podem ser mensurados e evitados com o uso racional de ferramentas de planejamento:

o fortalecimento da educação patrimonial pode se tornar um fator de incremento ao turismo interno no país. A experiência democrática das expressões culturais representa atualmente um elemento imprescindível ao enriquecimento das trocas entre residentes e visitantes, além de contribuir para o desenvolvimento socioeconômico e a continuidade das manifestações que caracterizam as identidades locais. é preciso assegurar que os valores e o patrimônio das comunidades não se tornem meros reféns dos empreendimentos turísticos e dos interesses comerciais. (MinC, 2008, p.53)

[

57

]

Após o exposto acima, pode-se afirmar que, atualmente, desde que se sigam as boas prátices, planejadas e desenvolvidas por profissionais especializados na área do turismo e com a participação democrática da comunidade, deve-se abandonar o pré-conceito de que os patrimônios culturais não devam ser “turistificados”, mas sim, usados como potenciais ferramentas do desenvolvimento regional.

o desenvolvimento regional, não entendido apenas como crescimento econômico, tem, na cultura, uma de suas facetas, pois relaciona-se, também, a processos de mudanças sociais. (SIEDENBERG apud DALLABRIDA, 2010). Já Souza vai mais além, quando afirma:

Com efeito, para quem de fato quiser levar a sério a convicção de que o termo ‘desenvolvimento’, no essencial, e devidamente despido de sua carga ideológica conservadora (etnocêntrica 5 e capitalistófila 6 ), deve designar um processo de superação de problemas sociais, em cujo âmbito uma sociedade se torna, para seus membros, mais justa e legítima, o reducionismo embutido na idéia de ‘desenvolvimento econômico’ precisa ser energicamente recusado. (SOUZA, 2002, p. 18. Grifo no original)

na realidade, o

desenvolvimento social, a justiça, a igualdade, a democracia e a proteção do meio ambiente contam tanto quanto o crescimento” (HERMET, 2002, p.81).

Importa, talvez, observar o que diz

Guy Hermet: “[

]

Contribuindo para a fundamentação sobre desenvolvimento regional, Dallabrida afirma que este é “um processo de mudança estrutural empreendido por uma sociedade organizada territorialmente, capaz de promover a dinamização socioeconômica e a melhoria da qualidade de vida de sua população” (DALLABRIDA, 2010, p.111).

Buscando-se fundamentar a importância da cultura e da identidade, como fatores de desenvolvimento regional/territorial, intencionando demonstrar tal relação, apoia-se nas palavras de Scott:

Ao integrar os interesses da comunidade territorial, o território permite que seja concebido como agente de desenvolvimento, sempre que seja possível manter e

5 Refere-se a uma visão de mundo “ocidental”, capitalista e eurocentrista.

6 Favorável/fundamentada no capitalismo.

[

58

]

desenvolver a integridade de interesses territoriais nos processos de desenvolvimento e mudança estrutural. é uma concepção que reforça a importância da cultura e da

identidade territorial local nos processos de desenvolvimento [ DALLABRIDA, 2010, P. 128)

(SCOTT apud

]

Ao se pensar numa região, como sendo formada por municípios, deve-se pensar, também, na cooperação entre estas unidades administrativas, como importante fator de desenvolvimento regional, Dowbor afirma:

Programas intermunicipais: Embora tradicionalmente se considere que quando um problema extrapola os limites de uma prefeitura deveria ser discutido com autoridades de governo estadual ou central, tornou-se evidente que a cooperação e coordenação intermunicipais podem produzir resultados imapctantes. (DOWBOR, 1998, p. 299, grifo no original).

Como cada unidade municipal, na região compreendida pela 26ª SDR, possui

um gestor cultural, seja ele em cargo específico para tal e (ou) a pessoa que chamou

à si esta responsabilidade, pode-se citar aqui, num esforço demonstrativo do ambiente

favorável que pode haver, para o desenvolvimento de algum projeto conjunto de preservação do patrimônio material cultural desta região, o resultado de recente pesquisa que apontou que a maioria dos gestores culturais, desta região, faz uma estreita relação entre turismo, economia e desenvolvimento local e (ou) regional (BOELL, MILANI e BIRKNER, 2010). Na referida pesquisa, 79% dos gestores identificam

a preservação do patrimônio cultural como potencial fator de preservação da história e

da cultura e atrelam isso ao desenvolvimento de produtos turísticos. No mesmo artigo, demonstra-se que 57% dos gestores culturais entrevistados, ao serem indagados sobre qual a relação entre cultura e desenvolvimento regional, responderam que isso

se daria pelo potencial turístico de cada localidade, região ou território. (BOELL, MILANI

e BIRKNER, 2010).

Ao se pensar nesses dados, parece haver um ambiente favorável à preservação do patrimônio material cultural, na região da 26ª SDR. Não se discutirá, aqui, o grau de autonomia administrativa e financeira que cada gestor teria à sua disposição, para implementar ações com vistas à preservação do patrimônio, mas sim, a importância da existência de capital social, regional, para a efetivação de tais ações.

[

59

]

Se ações que envolvam uma certa “sinergia regional”, ou como descrito na introdução deste artigo, como a existência de capital social, entendido como catalisador sinérgico de ações por parte da sociedade, cabe a tentativa de explicar o significado de capital social, no texto de Linton, aborda-se interessante relação com a cultura:

Toda sociedade tem como fundamento um agregado de indivíduos. Uma das principais funções da cultura é transformar este agregado em sociedades, pela organização das atitudes e do comportamento dos seus membros. A cultura dá esta organização,

proporcionando padrões para as atitudes de e comportamento, e técnicas para adestrar os indivíduos no exercício habitual destes padrões. A cultura assegura ainda mais a continuidade da vida social, proporcionando técnicas de inibição de tendências

individuais que poderiam interferir com a cooperação [

Ao se falar em cultura, talvez importe se pensar nas resistências que podem haver às mudanças, principalmente no âmbito das instituições desenvolvidas para gerir a nossa reprodução social, entre elas, empresas, órgãos de governo, OnG’s 7 , sindicatos, etc. Deva-se pensar na resistência cultural à própria mudança, bem como na possibilidade da existência de um conjunto de fatores que tendem à inércia, tais como, lutas por poder e prestígio, além de interesses corporativos, que fazem com que instituições possam ficar inertes, mesmo que seus membros estejam cientes e concordem com as mudanças objetivadas (DOWBOR, 1998).

]

(LINTON, 2000, p. 390)

Mudanças demandam a existência de certo nível de capital social, pois exigem esforços, cooperação, confiança, instituições participativas e estoques de capital social (PUTNAM, 2000). Pensando no capital social, de uma determinada região, como sendo a capacidade de vários segmentos institucionais desta sociedade, instâncias de governo, organizações da sociedade civil, atuarem de forma coordenada e sinérgica, a fim de resolver os problemas de sua região, não se deve esquecer da importância da participação popular nestes processos, sem apatia, que pode ser exemplificada na afirmação de MARTINS (2003, p. 25): “A falta de compromisso com a comunidade da qual se faz parte e a não integração nas mudanças que acontecem ou venham a acontecer nela são reflexo da apatia de um povo que pensa o Estado como pai distante, cuidando de todos os problemas.”

Abordando uma possível relação entre capital social e sustentabilidade

a

sociocultural,

a

apatia

popular

poderia

ser

revertida

em

participação,

pois

7 Organizações não governamentais.

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60

]

“sustentabilidade sociocultural implica o reconhecimento da contínua necessidade de mecanismos de mediação entre as partes interessadas no desenvolvimento da comunidade” (Mtur, 2008, p. 103). Além desta afirmação, pode caber outra: “Assegura que o desenvolvimento aumente o controle das pessoas sobre suas vidas, preserve a cultura e os valores morais da população e fortaleça a identidade da comunidade.” (Idem, p. 43).

Finalizando o entendimento relacionado ao termo capital social, acredita-se que a necessidade de se realizar fecunda ação objetivando a preservação de importante parcela do patrimônio material cultural, citar-se-á um texto que explica sustentabilidade político-institucional: “Assegura a solidez e a continuidade das parcerias e dos compromissos estabelecidos entre os diversos agentes e agências governamentais dos três níveis de governo e nas três esferas de poder, além daqueles atores situados no âmbito da sociedade civil” (Mtur, 2008, p. 43).

O constructo textual, apresentado até aqui, pretende-se embasador do despertar de ações regionais sinérgicas e emblemáticas, objetivando resgatar, valorizar, preservar e revitalizar ícones do patrimônio cultural material da região da 26ª SDR, trazendo à tona as reais possibilidades de tais patrimônios, futuramente, transformarem-se em atrativos turísticos e, como tal, serem ferramentas de desenvolvimento, ao se pensar na geração de renda conexa. Reforçando as conceituações de capital social, pensando nas possíveis diferenças regionais, mesmo no tocante a “estoques” deste elemento, pode-se citar Dallabrida, quando este afirma que “as abordagens sobre capital social explicam as diferenças dinâmicas de desenvolvimento local, regional ou territorial, segundo o capital presente nos territórios, o que resulta num maior ou menor dinamismo socioeconômico-cultural”. (DALLABRIDA, 2010). No final deste artigo, abordar-se-á especulações sobre esta afirmativa.

Conceituado capital social, suas implicações no desenvolvimento de uma sociedade parecem determinantes e indissociáveis, além de ser fator primordial de facilitador ou dificultador de projetos e ações que visem ao desenvolvimento.

Para se reforçar a importância da preservação do patrimônio cultural material da 26ª SDR, apresentarão-se imagens de parcela deste.

[

61

]

3.3

AMostrAGeM De IMAGens De CAPeLAs AntIGAs DA reGIão DA 26ª sDr

As imagens das capelas que podem ser visualizadas neste artigo, todas de autoria do autor, situam-se nos municípios de Bela Vista do Toldo, Canoinhas, Irineópolis, Major Vieira, Porto União e Três barras, todos localizados no Estado de Santa Catarina e pertencentes à região administrativa da 26ª SDR.

Esses municípios, em sua maioria, têm nas atividades agrícolas, boa parcela de sua renda e apresentam baixos níveis de IDH, se comparados com os demais municípios da Região Sul do Brasil. Nos mesmos, o elemento étnico eslavo, polonês e ucraniano é predominante, ao lado de descendentes de alemães, italianos, portugueses, espanhóis, sírio libaneses, japoneses e os descendentes dos caboclos 8 , pioneiros nesta região.

Facilmente distinguíveis, nas imagens que serão apresentadas a seguir, são os elementos culturais ucranianos, pois suas capelas são singulares e representativas de sua cultura. Nas demais, não se destacam diferenças de cunho étnico, pois foram erigidas por fiéis de suas comunidades, misturando elementos dos povos que as construíram. Como representantes de um catolicismo rústico e de presença anterior, nesta região, destacam-se as pequenas capelas, grutas e pocinhos ditas de ‘São’ João Maria 9 , que demandam estudo mais aprofundado e relacionam-se com os fatos contemporâneos à Guerra do Contestado 10 . Tanta diversidade e significação, podem atrair interessados em conhecê-las e estudá-las, seja pelo interesse histórico-cultural, seja pela questão estética ou como atrativos extras, inseridos num roteiro turístico regional. Tais considerações, tratar-se-ão ao final deste artigo.

8 Mistura do elemento indígena autóctene, com elementos portugueses, espanhóis e africanos.

9 Com historicidade, foram três os monges que, cada um em épocas diferentes, percorreram o Sul do Brasil, com grande repercussão na região do Contestado. Em ordem cronológica: João Maria D’Agostinis, João Maria de Jesus (na verdade, Anastás Marcaf) e José Maria de Santo Agostinho (na verdade, Miguel Lucena de Boaventura). No imaginário popular, todos foram ‘São João Maria’. (TONON, 2010) 10 Conflito Social do início do século XX, considerado, por muitos autores, como um dos maiores movimentos populares da história do Brasil.

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62

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A seguir, um mostruário das imagens coletadas em inventário regional, realizado pelo autor, entre os anos de 2006 a 2010:

realizado pelo autor, entre os anos de 2006 a 2010: Figura 1. Capela de S. J.

Figura 1. Capela de S. J. M. na localidade de Bonetes, Canoinhas, SC.

Figura 2. Detalhe do cemitério em anexo, Bonetes, Canoinhas, SC.

Figura 3. Capela de S. J. M. em de Paciência dos Neves, Canoinhas, SC.

Figura 4. Gruta de S. J. M. em Serra dos Borges, Bela Vista do Toldo, SC.

Figura 5. Cruzeiro de S. J. M. em Rio do Tigre, Canoinhas, SC.

Figura 6. Cruzeiro de S. J. M. em Fazenda Evasa, Canoinhas, SC.

Figura 7. Bandeira do Divino, em Paciência dos Neves, Canoinhas, SC.

Figura 8. Detalhe de altar na capela de S. J. M. na localidade de Sta. Emídia, Rio D’Areia do Meio, Canoinhas, SC.

Figura 9. Altar da capela de S. J. M. em Tira Fogo, Bela Vista do Toldo, SC.

Figura 10. Altar na Gruta de S. J. M., em S. dos Borges, Bela Vista do Toldo, SC.

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63

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Figura 11. Detalhe da capela de S. J. M. em Tira Fogo, Bela Vista do

Figura 11. Detalhe da capela de S. J. M. em Tira Fogo, Bela Vista do Toldo, SC.

Figura 12. Interior da capela de S. J. M. na localidade de Sta. Emídia, Rio D’Areia do Meio, Canoinhas, SC.

Figura 13. Gruta de Sta Emídia, dedicada à S. J. M., na localidade do mesmo nome, em Três Barras, SC.

Figura 14. Detalhe de um pocinho de S. J. M., anexo à capela em Sta Emídia, Rio D’Areia do Meio, Canoinhas, SC.

Como se pode observar nas imagens acima, alguns elementos parecem ser constantes e característicos, nestes locais sagrados, representantes da fé em S. J. M. (São João Maria). Nas figuras 1 e 3, observa-se a simplicidade arquitetônica, talvez representativa das condições socioeconômicas dos que as erigiram. Nas figuras 4 e 13, o interessante é a adoração que os seguidores de S. J. M. fazem das grutas onde os monges costumavam se abrigar. Já nas figuras 5 e 6, pode-se observar a similaridade no cuidado dos populares, ao proteger o local, sagrado para eles, com cercas. Nas Figuras 7 e 11, destacam-se elementos inerentes às capelas de S. J. M. a presença constante de cruzes, bandeiras do Divino e cruzeiros; muitas dessas capelas foram erigidas com a intenção de proteger os cruzeiros erigidos pelos monges e (ou), com certo grau de certeza, pelas afirmações dos moradores entrevistados, essas cruzes e

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cruzeiros são, no mínimo, contemporâneos à passagem dos monges. Os altares desse locais sagrados possuem um similaridade e características inerentes à práticas que podem ser reconhecidas como sincretismo religioso, pois, além da presença constante de imagens do monge S. J. M. 11 , encontram-se, também, representações da pomba do Divino Espírito Santo e demais imagens do catolicismo, seja este o antigo, contemporâneo das tradições anteriores à chegada dos primeiros sacerdotes franciscanos á região, ou de tradições mais recentes, como crucifixos, estatuetas de São Sebastião, Nossa Senhora Aparecida, algumas, com a sua parte superior arrancada. Finalisando, na figura 14, visualiza-se um pocinho de S. J. M., com uma estrutura, erigida pelos fiéis, para a proteção de suas águas, consideradas milagrosas pelos seguidores dessa tradição religiosa. Lembrando que, muitas das capelas de S. J. M., foram erigidas com a finalidade de proteger cruzeiros, grutas e (ou) pocinhos. Tais estruturas, com esse conjunto de elementos e características singulares, somente são encontradas no Sul do Brasil. Só isso já pode ser considerado ao se pensar em sua proteção e possível uso, como atrativos culturais e (ou) religiosos.

Nas imagens a seguir, podem ser observados vários aspectos interessantes do ponto de vista cultural, arquitetônico e (ou) pictóricos. Nas figuras 15, 21, 26, 28, 29 e 30, destacam-se os elementos culturais eslavo-ucranianos, tanto do rito ortodoxo quanto do rito católico-ucraniano, com vários e singulares símbolos de sua cultura.

11 A imagem mais famosa e usada, pelos fiéis, é a do monge João Maria de Jesus, retratada, provavelmente, pelo fotógrafo Claro Jansson.

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Figura 15. Capela antiga de madeira, do rito católico-ucraniano, em Legrú, Porto União, SC. Figura

Figura 15. Capela antiga de madeira, do rito católico-ucraniano, em Legrú, Porto União, SC.

Figura 16. Capela católica antiga, de madeira, em estilo norte-americano, no IBAMA, em Tres Barras, SC.

Figura 17. Capela católica, de madeira, em São Sebastião do Timbózinho, Irineópolis, SC.

Figura 18. Capela católica, em alvenaria, em Rio dos Pardos, Canoinhas, SC.

Figura 19. Capela católica antiga, de madeira, em Pinheiros, Canoinhas, SC.

Figura 20. Capela católica antiga, de madeira em São Roque, Major Vieira, SC.

Figura 21. Antigo cemitério da uma capela do rito ucraniano-ortodoxo, em 1º plano uma cruz ortodoxa, na localidade de Xaxim, Porto União, SC.

Figura 22. Capela católica, de madeira, em São José do Maratá, Porto União, SC.

Figura 23. Capela católica antiga, de madeira, na localidade de São Miguel/Rio D’Areia do Meio, Canoinhas, SC.

Figura 24. Interior da capela de São Miguel, Rio D’Areia do Meio, Canoinhas, SC.

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Figura 25. Interior da capela luterana do distrito de Marcílio Dias, Canoinhas, SC. Figura 26.

Figura 25. Interior da capela luterana do distrito de Marcílio Dias, Canoinhas, SC.

Figura 26. Capela antiga de madeira, do rito ucraniano-ortodoxo, em 1º plano o cemitério anexo, na localidade de Xaxim, Porto União, SC.

Figura 27. Interior da capela católica, erigida em pedras e alvenaria, na comunidade de Aparecida, Canoinhas, SC.

Figura 28. Capela, do rito católico-ucraniano, antiga, de madeira, na localidade de São Demétrio, Rio D’Areia do Meio, Canoinhas, SC.

Figura 29. Detalhe do altar e do interior da capela de rito católico-ucraniano em Legrú, Porto União, SC.

Com uma arquitetura singular e fortemente influenciada por elementos norte- americanos, a capela de Nossa Sra. Aparecida (Figura 16), localizada na sede da FLONA/IBAMA, também merece visitação e cuidados em sua conservação. Na figura 17, visualiza-se a frente da Capela de São Sebastião do Timbózinho, considerada, segundo alguns pesquisadores, como sendo o 2º maior templo, em madeira, do Estado de Santa Catarina. Nas figuras 18n e 19, pode-se comparar o estilo arquitetônico e observar a semelhança entre as duas construções, apesar de uma ser erigida em alvenaria e a outra, em madeira, talvez, os primeiros templos em alvenaria, nesta região, seguissem o mesmo estilo/planta dos de madeira, sendo

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utilizado, apenas, materiais diferentes na construção. A capela de São Roque, em Major Vieira (Figura 20), é um exemplo da beleza e singularidade arquitetônica dos templos erigidos em madeira, na região da 26ª SDR e da importância em se haver ações de preservação dos mesmos, pois este é o último, de vários, que existiam, neste estilo, naquele município, bem como na referida região. As semelhanças no estilo arquitetônico dos templos, requereriam um estudo mais aprofundado, bem como vários aspectos aqui abordados, mas pode-se observar, como nas figuras 22 e 23, a semelhança, apesar da distância entre eles, mais de 100km, em dois municípios distintos. Já na figura 24, observa-se a riqueza pictórica que pode ser encontrada em vários dos templos, principalmente os mais antigos, as figuras 27 e 29 bem representam tal riqueza cultural e arquitetônica. Na figura 25, apresentando uma menor variedade pictórica, mas nem por isso pode ser considerado menos belo, visualiza-se o interior de um típico templo luterano, onde a cultura desta tradição religiosa apresenta singularidades e despojamento.

As imagens apresentadas, neste trabalho, são apenas uma amostragem do inventariado, pelo autor, em pesquisa realizada nos municípios que compõem a 26ª SDR, mas que podem representar parcela significativa da riqueza cultural ameaçada, quer pela falta de conscientização das comunidades, quer pelo descaso de algumas autoridades ou pela falta de recursos, sejam humanos e (ou) financeiros, além de tecnológicos especializados, para a sua adequada preservação.

Uma ação de grande porte, com vistas à preservação de tais riquezas, parece tarefa de consenso regional, que demandaria um bom nível de capital social e esforço sinérgico, para tal, como será descrito ao final deste trabalho.

ConsIDerAçÕes FInAIs

Após a visualização das imagens anteriores, parece inegável o valor histórico, cultural e estético dos locais apresentados, urge aqui, informar que estes são muito mais, apenas uma parcela foi apresentada. Então, o que poderia estar “faltando” para que tais belezas e locais possam vir a ser, num futuro não muito distante, locais de

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]

visitação turística? Além do seu papel de locais sagrados, o que não é a tônica do presente trabalho, os aspectos simbólicos, pictóricos, étnicos, arquitetônicos, entre muitos outros, poderiam justificar, plenamente, um grande projeto de preservação e posterior aproveitamento deste rico patrimônio cultural, conjuntamente com os demais patrimônios laicos, ou não religiosos, que resistem, quase sempre, heróicos e singulares, distribuídos pelos seis municípios que compõem a 26ª SDR, muito destes, fadados ao completo desaparecimento, seja pela ação do tempo, pela falta de recursos financeiros e (ou) tecnológicos, seja pela especulação imobiliária e a falta de conscientização da comunidade regional, além de que, “através das edificações arquitetônicas podemos encontrar o valor histórico e a identidade de um povo, que necessita de um conhecimento mais amplo para preservar a nossa herança cultural”, como bem lembraram Sussembach e Gevaerd, (2010, p. 162), na obra Cultura: faces do desenvolvimento.

Como afirmado explicitamente, no início e durante este trabalho, o mesmo é de caráter especulativo e não conclusivo, mas objetiva, de forma teórica e acadêmica, despertar o Capital Social da região citada para que se empreendam medidas urgentes

a fim de que não se perca, ainda mais, do patrimônio cultural regional, ora por descaso, ora por desconhecimento, seja por parte das autoridades, seja por parte da comunidade regional como um todo, salvo raras exceções. Pois que o desenvolvimento, muitas vezes confundido, apenas, com a ideia de expansão econômica quantitativa, e que não pode ser assim entendido, como apresentado durante este trabalho, reforça-se aqui, nas palavras de Dallabrida, quando este afirma que:

considerando a concepção de desenvolvimento, não só há uma relação entre

economia, cultura e desenvolvimento. A dimensão econômica e a cultura, juntamente com as dimensões social, política, espacial, ecológica e tecnológica, são elementos constitutivos dos processos de desnvolvimento. (DALLABRIDA, 2010, p. 121)

] [

Como poderiam ser mais valorizado e, por consequência, melhor preservado,

o patrimônio cultural da 26ª SDR? O que falta, identificação da sua própria população,

com os seus ícones, baixo nível de sentimento de pertença, a este território? Cuidadosa investigação parece ser necessária, pois, como diz Milani:

[

69

]

Para conhecer uma realidade e nela sua identidade, a qual ao mesmo tempo mantém e transforma seu sentimento de pertence, é preciso desvelar os interferentes provenientes da miscigenação étnica, religiosa, filosófica e ideológica e os reflexos da globalização do mundo atual, que dão um traço plural à identidade.(MILANI, 2010, p. 240)

Dentro das possibilidades investigativas aqui apresentadas, a abordagem do tema não se esgotaria apenas num ensaio teórico, necessário parece que se aprofunde tal estudo, seja de forma bibliográfica, seja de forma empírica, mas que deve ser abordado, futuramente, de forma mais oportuna.

Como possível “caminho” a ser explorado de forma prática, como desafio à uma ação sinérgica e coordenada regionalmente demonstrando, assim, a existência de certo nível de Capital Social na região da 26ª SDR, o autor sugere o uso do patrimônio cultural, aqui de forma mais explícita, o arquitetônico/material, como possível ferramenta de desenvolvimento, seja na valoriação/preservação do referido patrimônio, seja na sensibilização/conscientização, da população regional, no tocante a uma possível “alavancagem/reforço” de sua identidade e sentimento de pertença e, inegavelmente, aos ganhos econômicos/geração de renda, também elementos do desenvolvimento regional. Importa, aqui, desvencilhar-se de qualquer preconceito inerente à utilização de patrimônios culturais, para fins de projetos culturais e turísticos voltados à geração de renda.

Muito se tem falado na problemática da “comercialização da cultura”, mas, como já foi anteriormente colocado, as próprias diretrizes atuais do Plano Nacional de Cultura apontam no sentido inverso, na valorização da cultura, não a transformando em mero “produto”, mas sim, em atrativo que pode e deve ser usado, com responsabilidade e planejamento, dando sustentabilidade à sua preservação. Doutor em Psicologia Social José Clerton de Oliveira Martins, assim o expressa:

Algumas críticas já foram feitas ao processo de transformação do legado cultural transformado em bens de consumo. No contexto regional, no qual a história é uma

grande desconhecida, os feitos heróicos do povo ficam enterrados no esquecimento e sobrepostos aos valores das classes dominantes, enquanto o povo, de forma geral, desconhece todo o seu processo em decorrência de um cotidiano voltado para a

sobrevivência dura [

]

(MARTINS, 2003, p.46).

[

70

]

Reforçando a importância de se desenvolver o turismo, com vistas à preservação do patrimônio cultural de determinada região, não se deve esquecer de que o ambiente que é voltado ao turista também o é para os residentes, em seus momentos de lazer, e sendo pensado e planejado desta maneira é que ele pode ser sustentável, auxiliando na preservação de ruas, cidades, até mesmo propiciando o incentivo à encenações de feitos históricos e até de guerrilhas (MARTINS, 2003). Complementando tal afirmação, o mesmo autor afirma:

Desta forma, as populações terão a oportunidade de entender o seu passado, resgatando assim suas referências históricas, que, fatalmente, as remeterão às suas identidades, ou gerarão curiosidades e buscas de conhecimento mais profundos, que contribuirão de

alguma forma para uma rememorização da identidade. [

O fenômeno do turismo sai

da exploração e chega à valorização do fazer e ser local, partindo do homem local. Isso agrega outros fatores/valores que levarão, em breve o turismo regional a uma sustentabilidade. (MARTINS, 2003, p.46)

]

Cabe aqui, reforçar que a ideia central não é a busca do lucro, mas sim, a de prover formas de tornar esse patrimônio, cultural, sustentável “a idéia não é manter o patrimônio para lucrar com ele, mas lucrar com ele para conseguir mantê-lo.” (BARRETO, 2003, p. 17). Atividades geradoras de renda, por exemplo, podem ser desenvolvidas pela comunidade, em especial pelos jovens e mulheres, relacionadas à gastronomia e ao artesanato. Os menos flexíveis poderão não ver em curto prazo possibilidades de investimento local, mas observa-se que, onde o turismo se desenvolve, de uma forma ou de outra, dá-se o despertar de uma consciência de lugar, de “ser local” e do despertar de um sentimento de orgulho, de se pensar em “cuidar melhor do seu lugar”. (MARTINS, 2003)

Finalizando, ao se pensar nos desafios que um mundo globalizado impõe às regiões, parece importar que se desenvolvam ações no sentido de se preservar culturas e identidades, na tentativa de se contrapor à avalanche da mundialização, pois, como bem lembra Hall (2002, p. 14) “As sociedades modernas são [ ] sociedades de mudança constante, rápida e permanente” e, no afã de se preservar ícones de uma possível identidade regional que, com isso poderia “retro-alimentar” o processo de desenvolvimento territorial/regional da referida região que, neste esforço acadêmico, apresentou-se o turismo como potencial ferramenta para tal

[

71

]

mas, que na visão do autor, tal possibilidade somente se concretizará se houver uma “concertação” regional, pois a responsabilidade por tal ação não é exclusiva dos governos (federal, estadual ou municipal), as da sociedade organizada como um todo. Deveriam empresários, profissionais liberais, organizações não governamentais, artistas, líderes religiosos, pesquisadores, instituições de ensino, sindicatos e demais comunidades organizadas, se comprometer com a implantação e com os resultados advindos, demonstrando, assim, se não a existência de um capital social regional, pelo menos, uma boa dose de interação participativa da sociedade e a busca de uma alternativa de desenvolvimento.

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[

73

]

4 CAPItAL HUMAno e CULtUrAL: As noVAs teCnoLoGIAs DesenVoLVIDAs PArA A PreserVAção AMBIentAL LoCAL

Filipe de souza dos santos 1 Marcia Moro 2

O desenvolvimento é intangível, porém por meio de planejamento e do uso de tecnologias apropriadas, que respeitem os aspectos históricos e culturais locais e

preservando o meio ambiente, pode-se maximizar o potencial das regiões. Para auxiliar nesse processo entra em cena o Capital Humano, mediante de investimentos na educação, o Capital Cognitivo (pesquisas), na formação de agentes empreendedores

e no respeito à cultura local e ao meio ambiente, visa-se a melhorias significativas na vida das pessoas, buscando uma sociedade justa e de qualidade. Mas o que é necessário para a criação das tecnologias de preservação ambiental? Qual é o investimento feito?

A preocupação com o meio ambiente é assunto nas conferências realizadas pela ONU para o século XXI, que têm como base o documento criado na Rio 92, a Agenda 21. O seu sucesso depende em grande parte dos países desenvolvidos, para que por meio de planejamento e de medidas preventivas se possa promover a diminuição da poluição, desenvolvendo novas tecnologias que auxiliem neste

processo e, para tanto, entram em cena o Capital Social, Humano, Cultural, Cognitivo

e o Econômico.

1 Formado em Geografia pela Fafi-União da Vitória, residente em São Mateus do Sul-PR, cursando mestrado em desenvolvimento regional da UnC. 2 Formada em Matemática pela Unicentro-Guarapuava, residente em São Mateus do Sul-PR, cursando mestrado em desenvolvimento regional da UnC.

[

75

]

4.1

CAPItAL soCIAL, HUMAno e CULtUrAL, PreserVAção e DesenVoLVIMento

O desenvolvimento encontra-se atrelado às decisões tomadas pelos agentes envolvidos, por intermédio daqueles que representam o país, uma união entre o Capital Social e o Estado. é pelas suas decisões que se promove o aumento da capacidade ou das possibilidades de crescimento local, é um processo contínuo que necessita de tempo, condições e apoio da sociedade, e para promovê-lo não existe uma receita a ser seguida, pois cada região tem suas particularidades. Para Lima e Oliveira (2003), pensar em desenvolvimento regional é, antes de tudo, pensar na participação da sociedade no planejamento contínuo, na maximização do seu potencial local e na distribuição dos frutos desse processo de crescimento.

Capital social é definido como as características de organização social, tais como confiança interpessoal, normas de reciprocidade e redes solidárias, que capacitam os participantes a agir coletivamente e mais eficientemente, na busca de objetivos e metas comuns. (PATTUSSI et all., 2006, p. 1543)

Para Oliveira (2002), “o desenvolvimento deve ser encarado como um processo complexo de mudanças e transformações de ordem econômica, política e,

Uma economia sustentável é essencial para que

uma região evola, ao respeitar suas particularidades vemos que as regiões respondem de acordo com a sua cultura e com a importância que ela dá à promoção dos agentes empreendedores locais. Tudo depende dos conceitos adotados para definir metas que promovam o potencial humano; visa-se a um desenvolvimento que altere a qualidade de vida das pessoas, na procura pela modernidade. Para tanto, transformações por meio de inovações auxiliam na melhora da sociedade.

principalmente, humana e social (

)”.

Boisier (2000), ao analisar o crescimento que ocorre nas regiões, diz que este deve ser convertido em desenvolvimento e para isso são necessários estudos, planejamentos, estratégias de implantação, controle do mesmo e da análise dos resultados, o Capital Humano. Ressalta que este processo se dará em longo prazo e que cada sociedade tem suas características próprias, logo, devem ser tratadas de maneira diferente.

[

76

]

Para Vargas (2008), “as mudanças econômicas das últimas décadas têm

gerado uma sociedade na qual o principal recurso é o conhecimento (

Cognitivo, assim como o desenvolvimento, é intangível. O ser humano tem capacidade e potencial para criar, inovar e destruir, está sempre em busca de novas tecnologias, o que veremos é como as tecnologias podem ser criadas para a preservação ambiental.

O Capital

)”.

No mesmo sentido, Fitz-enz (2001) apud Schultz, ao falar de sua preocupação com a situação precária das nações subdesenvolvidas, destaca que o meio para superar essa crise é focar no conhecimento, esse recurso, o conhecimento gerado, torna-se um dos principais da atualidade.

) (

representados por ativos físicos como: terra, dinheiro, máquinas etc. e passou a reconhecer o valor de outros elementos intangíveis, como habilidades e conhecimento dos empregados, capacidade de inovação, administração de processos internos, valores e normas coletivas da organização, redes de relacionamentos, carteira de clientes, pesquisa e desenvolvimento, tecnologia, marcas, franquias etc. Os elementos intangíveis têm sido denominados na literatura de capital intelectual (CI), ativos

a fonte de riqueza deixou de se concentrar essencialmente nos fatores econômicos

intangíveis, ativos de conhecimento, recursos intangíveis ou simplesmente intangíveis

(

).

(VARGAS, 2007, p.16)

Assim, o ser humano tem capacidade e potencial para criar tecnologias, mas para isso necessita de meios, além do aspecto cognitivo desenvolvido por uma organização inteligente, criativa e inovada, necessita de investimentos, Edvinsson e Malone (1998) definem que “toda capacidade, conhecimento, habilidade e experiência individual dos empregados e gerentes estão incluídos no termo Capital Humano”.

Somos espectadores e protagonistas de uma extraordinária velocidade no desenvolvimento dos mais variados ramos do conhecimento humano, rapidez esta representada especialmente pelos sucessivos aprimoramentos e inovações nos campos científico e tecnológico. Inseridos nesse contexto de mudanças e transformações técnicas, sociais e econômicas, acentua-se a importância de descobrir novas metodologias que forneçam condições para que essas áreas se desenvolvam ( (BORTOLOTTI, 2003, P.15)

Ao falar em desenvolvimento, Boisier (2004) diz que este deve ser estabelecido respeitando cinco dimensões: a paz, a economia, a justiça, o meio ambiente e a

[

77

]

democracia. Desse modo, os projetos ambientais que têm como propósito promover

a proteção e a preservação dos recursos naturais, deve respeitar os aspectos históricos

e culturais da região, através de uma educação que estimule a criação sem destruir, que ensine a desenvolver métodos de produção que não agridam a natureza.

Então, ao promover o Capital Humano temos condições intelectuais de desenvolver projetos e tecnologias de proteção ambiental, falta apenas o interesse dos empresários em investir e aplicar este trabalho, posição que na conferência realizada em 2009 pela ONU já ficou clara.

4.2 MeDIDAs PArA A PreserVAção AMBIentAL, teCnoLoGIAs e DesenVoLVIMento

A grande preocupação da oNU, no momento, é a preservação ambiental mundial. Os países de primeiro mundo se desenvolveram industrialmente sem se preocupar com os impactos ambientais, sem políticas de prevenção da poluição. Os grandes empresários preocupados apenas com o lucro não estão interessados em financiar estudos para a criação de novas tecnologias que auxiliem a minimizar esse problema. A vida dos seres humanos na sociedade capitalista se faz:

Se, por um lado, o espaço geográfico produz-se em função da reprodução da vida humana, por outro lado, permite o desenvolvimento da produção capitalista. A Cidade aparece como a justaposição de unidades produtivas, através da articulação entre os capitais individuais e a circulação geral. Ela permite a integração de diversos processos produtivos (centros de intercâmbio e serviços; mercado de mão-de-obra, etc.), implicando uma configuração espacial própria a garantir a fluidez do ciclo do capital (CARLOS, 2001, p. 41).

No sistema capitalista, ao explorar, esgotam o potencial biológico das regiões (exemplo as indústrias madeireiras), quando atingem um pico onde os lucros são reduzidos procuram outra região, o Capital Humano é apenas visto como mão de obra barata.

[

78

]

No ano de 1972, a Organização das Nações Unidas estabeleceu algumas regras sobre a questão ambiental para todo o mundo, a partir daí iniciou-se um processo de criação de estratégias para uma possível Gestão Ambiental. Desde então foram muitas as Conferências para debater temas relacionados ao meio ambiente, principalmente entre os países mais ricos do mundo, os quais são os mais poluidores.

Com a assinatura da Agenda 21 no Rio de Janeiro em 1992, foram preestabelecidos alguns planos de ação para serem implementados para que se conseguisse um plano de desenvolvimento comprometido com a preservação ambiental. Nessa ocasião, 172 países assinaram esse acordo, que permitiu a criação de políticas de sustentabilidade que não comprometessem a qualidade de vida das populações futuras.

As conferências atuais para o meio ambiente têm como base esse documento mas, no momento em que ele foi feito, a meta era reduzir apenas 5% dos gases lançados pelos países entre 2008 e 2012. Já no final do ano de 2009, na Conferência

de Copenhague, as autoridades de diversos países reuniram-se para discutir sobre as emissões de gases causadores do efeito estufa e sua possível diminuição em nível global. As propostas dessa conferência são a de redução, até o ano de 2020, de 25%

a 40% na emissão de gás maléficos à sociedade, assim como à natureza.

Os Estados Unidos nos últimos anos alegaram que se fossem reduzidas suas emissões de gases, a economia norte-americana seria muito prejudicada. Porém mais recentemente o presidente Barack Obama sugeriu que seu país teria de diminuir as emissões em até 80% até o ano de 2050.

Ao longo dos tempos as mudanças climáticas estão se tornando cada vez mais frequentes e alguns autores alegam que isso se deve à ação humana no espaço. Em longo prazo, alterações são uma ameaça constante, e em alguns locais a degradação do meio ambiente é cada vez maior, principalmente onde as políticas são menos eficazes e por falta de recursos o seu Capital Cognitivo é baixo.

A Educação Ambiental tem a tarefa de mostrar que com a utilização racional

dos recursos naturais pode-se produzir sem agredir; ela será o vínculo entre a sociedade

e as tecnologias, afinal sem o apoio e a confiança do Capital Social pouco ou nada

[

79

]

poderá ser feito. Ainda, o Capital Humano, o agente inovador, que passa a desenvolver tecnologias viáveis para a sociedade na qual está inserido, deve respeitar a cultura local, utilizando elementos presentes em seu meio. Logo, aquele que tem potencial econômico e que está cercado de tecnologia de ponta ou até mesmo o que trabalha com material reciclável pode criar tecnologias que preservem o meio ambiente.

Já na América do Sul, onde a ONU prevê consequências cada vez mais devastadoras ao meio ambiente, boa parte dos recursos desses países deverá, nos próximos anos, ser destinada para o aumento da fiscalização, assim como a criação e uso de tecnologias que possam auxiliar na minimização dos impactos ambientais.

Daly (1974) assinala, porém, que a criação de algumas tecnologias podem vir

a se tornar um problema.

(

tecnologia: certamente o crescimento econômico pode continuar indefinidamente (

O alegado ‘crescimento exponencial da tecnologia’ ( que sua solução (DALY,1974, p.18).

)

maníacos pelo crescimento (

)

normalmente oferecem um sacrifício ao deus da

)

é mais parte do problema do

Daly (1974) propõe então que as mudanças na produção tecnológica sejam qualitativas, para que se possam economizar os recursos naturais preservando assim

o meio ambiente.

Começa-se a perceber então a importância do apoio mundial e local para a criação de novas tecnologias que auxiliem na diminuição da poluição. Todos os países devem investir em seu Capital Humano na busca de soluções para a melhora da qualidade de vida da sua população. Para Cappelletti citado por Kropotkin, a luta pela vida e o apoio mútuo são fatores que estão em um mesmo nível na evolução, firmados pelo livre acordo em que o homem representa sua sociabilidade, portanto, o apoio do Capital Social torna-se essencialmente necessário.

Algumas ideias discutidas em Copenhagen para a preservação ambiental por meio de tecnologias são: a compostagem com o biogás; o aquecimento solar; a utilização de prédios abandonados para atividades as mais diversas como sociais e culturais; ações de Educação Ambiental nas escolas.

[

80

]

Palsule (1994) cita que, na Europa em Borlange (Suécia), uma cidade pequena de cerca de 50.000 habitantes tem aproximadamente 90% de suas casas aquecidas por energia renovável com biogás que é oriundo do lixo produzido e pela água quente que é liberada pelas indústrias.

Em locais abandonados após a Segunda Guerra Mundial, como em Leipzig na Alemanha, houve uma ação cooperativa de cunho ecológico para que ocorresse uma ocupação de velhos prédios, renovando a cidade, além de se fazer uma coordenação para o uso racional da água, o cuidado com as construções, a utilização da energia com responsabilidade e o uso dos transportes coletivos de qualidade ofertados para toda a população diminuindo a poluição.

Essas ações que foram implantadas na Europa podem e servem de modelo para outras regiões, muito embora as diferentes realidades e a insuficiência de recursos financeiros possam interferir diretamente neste processo. Deve-se, portanto, fazer o possível com os recursos presentes em cada região, mas, para isso, precisa-se de pessoas criativas que disponibilizem o seu tempo como agentes criadores, executores e que com o apoio e a compreensão da sociedade durante este processo, que levará tempo, possa-se tornar possível a preservação da identidade da região. Afinal, como se diz, na natureza nada se perde nada se cria, tudo se transforma.

As políticas de preservação com a utilização de novas tecnologias obtidas pelo Capital Humano são elementares para que o desenvolvimento possa ocorrer em um determinado local. Lucas (1988) identificou falhas principalmente na igualdade e disponibilidade de tecnologias entre os países ricos e pobres. Segundo ele, se a mesma tecnologia estivesse disponível em todos os países, o Capital Humano não seria privilégio dos países ricos, portanto, os avanços tecnológicos são possíveis desde que haja investimentos na área cognitiva (educação).

Para Mendonça (2004):

Somente as ações desenvolvidas do ponto de vista da holisticidade da temática é que conseguem apresentar resultados satisfatórios no tocante as tentativas de recuperação e preservação dos ambientes degradados locais, regionais ou planetário – a biosfera (MENDONçA, 2004, p.70).

[

81

]

O equilíbrio ambiental depende das políticas que serão implementadas na região, havendo realmente a participação governamental. Para tanto, é necessária uma maior e melhor fiscalização, pois as tecnologias disponíveis são extremamente atrasadas e poluidoras, a população, a sociedade civil organizada, precisa discutir e exigir que as questões ambientais sejam atendidas a priori e por fim a sua região pode vir a se tornar referência nas questões ambientais.

Atualmente o uso indiscriminado dos recursos naturais está exercendo forte pressão sobre a diversidade biológica; verifica-se a possibilidade de mobilidade dos meios e das práticas para a implementação de novas regras para a preservação ambiental. A começar pela Educação Ambiental, que terá como tarefa transmitir a

viabilidade da utilização racional dos recursos, será o instrumento que irá assessorar

e apoiar a criação de novas tecnologias. Portanto, ela será o vínculo entre a sociedade

e as tecnologias, uma vez que sem o apoio e a confiança do Capital Social pouco ou nada poderá ser feito.

ConsIDerAçÕes FInAIs

os dados elementares do desenvolvimento são a liberdade, a criatividade e a responsabilidade, atrelados a eles temos o Capital Humano, a cultura local, o agente empreendedor mediante inovações tecnológicas. Cada região se desenvolve de acordo com suas necessidades e regras, não se pode estabelecer um padrão e tampouco definir um limite de tempo para sua execução, o desenvolvimento é intangível, mas visa à melhoria da qualidade de vida da população, ou pelo ponto de vista econômico, aumenta o poder aquisitivo da sociedade.

As políticas ambientais estão sendo cada vez mais discutidas, porém são muitas as divergências de informações. Atualmente é cada vez mais importante a presença de políticas públicas e de tecnologias que promovam a preservação ambiental. Com os debates realizados nas Conferências Ambientais, a preocupação por parte de todos hoje é maior, mas a sustentabilidade não está garantida.

[

82

]

As relações entre sociedade e o meio ambiente devem ser sustentáveis e, apesar de cada local possuir culturas diferentes, de as pessoas viverem em realidades diversas, estas podem criar e usar tecnologias diferentes desde que atinjam o objetivo proposto. Pois o ser humano tem a capacidade de criar alternativas para que se possa desenvolver uma região preservando.

Atualmente o uso indiscriminado dos recursos naturais está exercendo pressão forte sobre a diversidade biológica. Se queremos equilíbrio e um futuro de qualidade, devemos assumir um compromisso com a natureza.

Logo, o Capital Econômico é o agente financiador e o Capital Humano é a ferramenta que vai atrelar desenvolvimento/tecnologia/preservação, pela via do Capital Cognitivo, o conhecimento avança e é ampliado por meio das pesquisas que visam despertar a consciência para a responsabilidade ambiental correta. Para tanto, a cultura deve ser respeitada e promovida para que as gerações futuras recebam um local que garanta uma boa qualidade de vida, e isso é tarefa de todos, governo e sociedade.

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84

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Arte, CULtUrA e DesenVoLVIMento

5 FUnCIonAMentos Do ArtÍstICo: DIsCUrso e MeMÓrIA eM GUerrA, PAZ e ContestADo De HeLoAnA terPAn

IntroDUção

Nádia Régia Maffi Neckel 1

Pretendo mobilizar neste texto o dispositivo teórico-analítico da Análise do Discurso (AD), que, no meu entendimento, especializa a compreensão de diferentes materialidades significantes. Apesar do fato que a AD, em seus primeiros percursos, ocupou-se principalmente de materialidades verbais como, por exemplo, o discurso político. No entanto, é preciso considerar que a própria episteme constitutiva dessa (des)disciplina, dessa disciplina de entremeio, reclama diferentes materialidades constitutivas dos sentidos e dos sujeitos. Sempre em constante deslocamento.

Fora, justamente nesse escopo teórico, tecido no deslocamento da linguística, do materialismo histórico e da psicanálise, que a AD se constitui num terreno fértil para se pensar nos gestos de interpretação próprios do artístico.

A formulação Discurso Artístico (DA) está cunhada nas formas de funcionamento do discurso pensadas por orlandi

O discurso lúdico é aquele em que seu objeto se mantém presente enquanto tal (enquanto objeto, enquanto coisa) e os interlocutores se expõem a essa presença, resultando disso o que chamaríamos de polissemia aberta (o exagero é o non sense). O discurso polêmico mantém a presença do seu objeto, sendo que os participantes não se expõem, mas ao contrário procuram dominar seu referente, dando-lhe uma direção,

Doutora em Linguística pela Unicamp/SP, Mestre em Ciências da Linguagem pela Unisul/SC, Graduada em Artes Cênicas pela UFSM/RS. Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem Unisul e curso de Artes Visuais da UnC.

1

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87

]

indicando perspectivas particularizantes pelas quais se o olha e se o diz, o que resulta

na polissemia controlada (o exagero é a injuria). O discurso autoritário o referente está ausente, oculta pelo dizer, não há realmente interlocutores, mas um agente exclusivo, o que resulta na polissemia contida (o exagero é a ordem no sentido em que se diz “isso

é uma ordem”, em que o sujeito passa a instrumento de comando). (1987, p.15)

Nessa esteira, penso o DA como predominantemente: lúdico e polissêmico. Lúdico por seu funcionamento de preponderância em expor interlocutores ao jogo, ao múltiplo de sentidos, ao contar com a errância dos sujeitos, sujeitos e sentidos se constituindo mutuamente sempre no movimento. Tal funcionamento reclama a polissemia aberta como constitutiva. Assim, a noção de DA rompe epistemologicamente com a rigidez metodológica e a redução estilística.

A perspectiva discursiva na interpretação do artístico é capaz de compreender

a produção e os deslocamentos de sentidos do/no corpus de análise, considerando

tanto o processo criativo quanto o processo discursivo. Orlandi (1984) nos apresenta exemplarmente a diferença entre segmentar (modo de tomar a linguagem de forma nuclear) e recortar (pensando a linguagem em sua materialidade discursiva). O recorte é aqui compreendido como o “naco”, o “naco” da “ferramenta 2 ” discursiva (escopo teórico) do no corpus. Lembrando que o procedimento de análise se dá no batimento do dispositivo teórico com o dispositivo analítico. Assim, as noções tomadas da AD,

a posição do analista e o corpus contribuem para a formulação do dispositivo

analítico. Daí dizer que a análise é sempre formulação, gesto de interpretação via dispositivo teórico.

é pensando nessa posição teórica que formulamos a noção de tessitura e

tecedura para operar nos dispositivos de análise de diferentes materialidades significantes inscritas no artístico.

A Tecedura está na trama dos discursos, no espaço das redes de memória, espaço

próprio das heterogeneidades discursivas e da contradição. A noção de tecedura é

Referência a expressão utilizada por Leandro Ferreira durante o IV SEAD – UFRGS – Porto Alegre, setembro 2009. “caixa de ferramentas” da AD, referindo-se aos conceitos fundantes do nosso dispositivo teórico.

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cunhada na imagem metafórica de uma teia, numa teia invisível que nos envolve por completo. E, é nessa teia que somos tecidos discursivamente. No caso da imagem, Tecedura representa a rede de filiações da memória a outras imagens e (ou) materialidades, às quais nem sempre temos acesso, pois tal teia é tramada pelos esquecimentos constitutivos (1 e 2) formulados por Pêcheux. E, tomamos por Tessitura, a estrutura da própria das diferentes materialidades discursivas ancoradas no artístico em seus modos de funcionamento. Tomamos metaforicamente Tessitura do conceito de funcionamento musical, como aquilo que ordena o andamento, os compassos, as notas, etc. Assim como no funcionamento musical, a Tessitura estaria para a estrutura do dizer (visual/sonoro/gestual/ verbal). A tessitura se mostra na circulação do movimento parafrástico, o que recuperaria uma memória marcada e mostrada pela heterogeneidade discursiva. (NECKEL, 2010, p. 143)

Dessa posição de batimento é possível especializar os gestos de leitura/ interpretação de diferentes materialidades significantes e suas imbricações. Assim, é possível pensar no estatuto das palavras, das imagens, da gestualidade, da sonoridade não mais de forma dicotômica, tomando e velha proposição verbal/não verbal e, sim, a materialidade significante em seu próprio funcionamento – tessitura – e em sua imbricação determinada por sua rede de filiações (Memória discursiva) – tecedura.

Proponho olhar mais detidamente para a formulação de imbricação material. Lagazzi nos ensina que o trabalho analítico discursivo se faz na “intersecção de diferentes materialidades”, na “imbricação material significante” (2004, 2009). Tomamos a noção de imbricação material na ordem da estrutura e do acontecimento para compreender o funcionamento do artístico.

Se o discurso se constitui na relação língua – história, Lagazzi (2011) propõe que falar do discurso como a relação entre a materialidade significante e a história faz-se necessário para poder concernir o trabalho com as diferentes materialidades e reiterar a importância de tomarmos o sentido como efeito de um trabalho simbólico sobre a cadeia significante, na história. Materialidades prenhes de serem significadas. Materialidade que a autora compreende como o modo significante pelo qual o sentido se formula.

é mobilizando os conceitos acima enunciados que proponho olhar para o corpus em questão delineando uma análise discursiva de três produções artísticas de Heloana Terpan: “Guerra”, “Paz” e “Contestado”, todas de 2010.

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A região conhecida como a “Região do Contestado” deve essa nominação a

uma luta sangrenta pela posse das terras contestadas ocorrida em 1912. Guerra fomentada pelo poderio estrangeiro ocasionou inúmeras mortes em condições desiguais. Entre as subvenções oferecidas pelo governo brasileiro para a Brazil Railway Company, estava a desapropriação de terras, 15 km para cada lado da ferrovia, quase sete mil km de extensão.

Entre os jogos de poder econômico e políticos desenhados sobre o tabuleiro brasileiro, estava deflagrado o conflito entre os Jagunços do Contestado (proprietários das terras, armados com facões de madeira) e o exército brasileiro e seu aparato bélico sustentado pelo capital estrangeiro.

Quanto às questões estéticas, na iconografia do Contestado há certa predileção pela reprodução parafrástica da figuração em inúmeras produções artísticas que tematizam o conflito. Nas imagens, aqui analisadas também é possível observar a reescrituração das armas, do combate, do trem e das araucárias, porém, a artista o faz por meio de um jogo compositivo. Pretendo debruçar meus argumentos sobre essa relação lúdica própria da arte e exarcebada na estética contemporânea.

5.1 o CorpUs ContestADo

Nesse sentido, ao considerarmos uma produção artística no processo de análise, contamos com as condições de produção da obra. Tais condições são de ordem histórica – ideológicas e sociais.

Trabalhar com a noção de historicidade faz com que pensemos na história não como algo do passado, mas como constante construção, e que mesmo fatos passados continuam ressoando nos acontecimentos presentes, pois acontecimentos discursivos são tecidos nos acontecimentos históricos.

é nesse contexto que apresento o corpus escolhido para a análise discursiva a

qual me proponho a tecer. Cabe ressaltar que o interesse por tais produções vem ao

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encontro dos objetivos de pesquisa do projeto “As relações culturais e artísticas e a preservação de patrimônio material e imaterial implicados no desenvolvimento regional de Canoinhas, Florianópolis, tubarão e Joinville” desenvolvido em parceria pelas IES – UnC – Unisul – Univille do qual esta produção teórica faz parte, assim como o seminário que a originou.

Discursivamente vejo nessas produções um acontecimento interessante, a força e o peso histórico do conflito do Contestado textualizado e, por que não dizer, texturizado pela estética contemporânea no qual o jogo lúdico da arte se instala e o DA se potencializa. Vejamos as produções em discussão:

o DA se potencializa. Vejamos as produções em discussão: Figura 1: Guerra – Heloana Terpan 2010

Figura 1: Guerra – Heloana Terpan 2010 Fonte: Neckel (2010), Catálogo da Exposição Itinerante Artes Visuais do Contestado

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Figura 2: Paz – Heloana Terpan 2010 Fonte: Neckel (2010), Catálogo da Exposição Itinerante Artes Visuais do Contestado

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Figura 3: Contestado – Heloana Terpan 2010 Fonte: Neckel (2010), Catálogo da Exposição Palavras-imagens que

Figura 3: Contestado – Heloana Terpan 2010 Fonte: Neckel (2010), Catálogo da Exposição

Palavras-imagens que se imbricam e se transmutam. O que de fato é imagem? O que de fato é palavra? A textualização/composição destas obras desfazem dicotomias verbal-não verbal e mergulham na imbricação da materialidade significante.

a distinção do verbal e não verbal não tem sentido: é o nível do significante, aquele que Lacan chama de o simbólico. O simbólico não é a linguagem 3 . Seria preciso dizer sobretudo que a linguagem é simbólico realizado, com a condição de concebê-lo simplesmente como um certo registro de materialidade em que se podem inscrever,

(

)

materialmente, as relações de significante com significante e não sob a modalidade do verbal e do não-verbal. é preciso acrescentar que, se a linguagem é do simbólico

realizado em formas e substâncias (

). (HENRY, 1992 p.164)

3 Linguagem aqui tratada pelo autor como verbal – ato falho ele mesmo faz distinção.

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As produções há pouco apresentadas, também podem ser consideradas produções contemporâneas se considerarmos o tempo cronológico em que foram produzidas. Mas, se além disso, considerarmos a discursividade, a historicidade em que foram produzidas, é preciso presentificar as condições de produção. Lamas (2009), ressalta que em particular na arte contemporânea os parâmetros não são rigidamente definidos. Os conceitos investigados são indicados pelo próprio trabalho enquanto está sendo instaurado. Há um investimento pessoal na elaboração do trabalho artístico e uma reflexão cujas referências advêm desse trabalho.

No processo analítico da AD, o dispositivo teórico sustenta o desenvolvimento de um dispositivo analítico. Este, por sua vez, é determinado pelo recorte do analista. Dito de outro modo, os resultados de uma análise são relativos à articulação das condições de produção do corpus, com a posição do analista.

A

AD se interessa pela linguagem tomada como prática: mediação, trabalho simbólico,

e

não como instrumento de comunicação. é ação que transforma, que constitui

identidades. Ao falar, ao significar, eu me significo. Aí retorna a noção de ideologia, junto

à idéia de movimento. Do ponto de vista discursivo, sujeito e sentido não podem ser

tratados como já existentes em si, como a priori, pois é pelo efeito ideológico elementar que funciona, como se eles já estivessem sempre lá. (ORLANDI, 1998, p. 28).

é desse movimento de constitutividade de sujeitos e sentidos que pensamos o funcionamento do discurso artístico. Um discurso que se dá predominantemente por sua forma lúdica operando sempre nas franjas do dizer, no vazamento polissêmico. O jogo entre paráfrase e polissemia se acentua. Jogo no qual a polissemia mostra sempre sua força abrindo-se à interpretação. Sempre em processo.

Tomamos então o conceito de Tessitura como a estrutura própria de diferentes materialidades discursivas ancoradas no artístico em seus modos de funcionamento. A tessitura se mostra na circulação do movimento parafrástico, por meio da estrutura da matéria significante, o que recuperaria determinados recortes da memória. Temos, então, nas composições apresentadas tessituras próprias da pintura ancoradas no artístico em seus modos de funcionamento: formas – cores- pontos – linhas – texturas – palavras etc. Palavras? Mas a estrutura que vemos não é de uma pintura? A palavra aqui vaza de sua tessitura verbal para ser uma forma pictórica. é no batimento e cores, letras, formas que a potência visual instala seu jogo polissêmico.

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Nesse ponto é importante elucidar como pesamos memória do ponto de vista discursivo, por isso, trago as palavras de Pêcheux:

A memória, por sua vez, tem suas características, quando pensada em relação ao discurso. E, nessa perspectiva, ela é tratada como interdiscurso. Este é definido como aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente. Ou seja, é o que chamamos de memória discursiva: o saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada de palavra. (PêCHEUX 1999, p. 31)

A sustentação da “tomada de palavra”, da tomada de gestualidade, da

pincelada etc. é o que sustenta a possibilidade de dizer, a produção de sentido em determinadas condições.

Como dito anteriormente, se considerarmos a categoria de pintura, o que temos

é uma pintura contemporânea, tanto por sua cronologia quanto por sua estética. Aqui

a tecedura é reclamada pela tessitura, pois, ao considerarmos as marcas pictóricas, temos uma profusão de linhas e cores, predominantemente cores quentes e o uso do preto. Marcas pictóricas e memórias da pop art. Nas formas temos a geometrização,

o deslocamento entre o figurativo e o abstrato, a transmutação de formas.

é na esteira da transmutação de formas instalada pelo jogo polissêmico da

poiética da artista que chegamos ao acontecimento discursivo nesse discurso artístico. Contudo é preciso considerar que, ao falarmos em materialidades significantes, não consideramos elementos isolados. Pois o conceito de materialidade significante carrega consigo o conceito de relação. Temos, então, no conceito de materialiadade imbricados à instância plástica (estrutural) e à historicidade (materialidade histórica).

Como temática das produções temos o Contestado como acontecimento histórico. Mas no gesto de interpretação da artista instala-se o acontecimento discursivo. A pintura reclama tanto a memória histórica quando a memória discursiva que se tece na imbricação dos fatos históricos, dos movimentos artísticos, do percurso poético da artista, dos possíveis espectadores das obras. Há aí um deslocamento interessante. Quanto se tenta recuperar uma memória iconográfica de outras produções artísticas do/sobre o Contestado o que se encontra são inúmeras imagens que primam

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pela figuração, reproduções em diferentes poéticas de imagens documentais sobre a Guerra do Contestado.

Nas produções aqui analisadas, temos um movimento contrário à figuração, pois é pela abstração de formas e palavras que a artista interpreta o Contestado. Não nega a recuperação histórica, porém não se faz refém dela.

Dessa forma, é que posso afirmar que para apontar as marcas interdiscursivas faz-se necessário verificar a filiação histórica – ideológica e social. Se não considerarmos o histórico-ideológico-social, ficamos na instância estrutural – icônico-semiótica – intertextual. é na relação de confronto entre arte e história, entre figuração e abstração, entre pintura e texto que se instalam tessituras singulares que reclamam as teceduras histórias e artísticas. Tais acessos podem, parafraseando Pêcheux (1999), “perder o trajeto de leitura”, pois os esquecimentos constituem o processo de interpretação.

5.2 A AnÁLIse MoVIMentos Do ArtÍstICo

Ao considerarmos nosso recorte: o Funcionamento do Artístico: Discurso – Memória, na produção de sentidos em “Guerra” – “Paz” – “Contestado”, trazendo-as como um acontecimento discursivo tateamos pelas relações de confronto e contradição do/no discurso de/sobre arte que tematizam o Contestado. Temos ai atravessadas as formações discursivas da Arte Contemporânea, da História do Contestado confrontadas no funcionamento lúdico e polissêmico do Discurso Artístico.

A interlocução, o jogo entre artista e público são exarcebados na estética contemporânea. Pois nas produções contemporâneas as leituras já não são de cunho contemplativo dotado de passividade e sim, retomam etimologicamente o termo contemplare e o olhar se põe em ação. é preciso jogar para ler.

Nessa triologia sobre o Contestado, a artista HeloanaTerpan, inscrita nas condições de produção da pintura contemporânea produz um dizer articulado pela tessitura pictórica de que é própria de sua poiética, mas, que, ao mesmo tempo,

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mobiliza uma tecedura na rede de memórias, tanto da arte contemporânea quanto da produção simbólica do Contestado.

Trata-se de um processo identitário, afetado pelas características mestiças da pintura moderna e contemporânea. Os signos cromáticos e sensoriais são de um apelo contundente e nos pegam no jogo lúdico do Discurso Artístico INTERLOCUçãO.

Nosso olhar precisa passear pelas formas, cores, texturas e pelos objetos, investigando cada curva, cada linha, cada movimento e pincelada da artista. é pelo percurso desse labirinto visual que somos levados a compreender formas que nos lembram signos linguísticos, porém, estes signos estão transmutados em imagens.

Na obra PAZ com seus tons azuis esverdeados como que um apelo de esperança e desejo dos caboclos do Contestado (discriminadamente chamados de jagunços pelo poder dominante), somos levados a provar desse sentimento de esperança e desejo de paz como que uma lacuna na história. Os elementos pictóricos não são apenas tinta. As formas visuais são palavras e as palavras imagem, imagens: bandeira, notas de dinheiro, o dourado, formas estilizadas. Formas que não são formas, palavras que não são palavras. Marcas que se escondem e se mostram no jogo discursivo do artístico. Os dizeres em curso. Linearidade opaca.

A linearidade “tranquila” do azul é quebrada pela vermelhidão da GUERRA. Seus tons avermelhados e linhas retas nos jogam nos sentimentos dos homens, que sem opção, tiveram de pegar em armas improvisadas para contestar o que de direito era seu. A pintura contemporânea que contesta a pintura temporal da historiografia do Contestado.

Enquanto no “Paz” nosso olhar horizontalizava-se como que um desejo de vislumbre da paz, aqui nosso olhar verticaliza-se, o dourado o amarelo e o vermelho entrincheirados entremeiam-se nos símbolos de poder, religiosidade e luta, textualizados nas formas estilizadas, das armas, das batalhas e das crenças.

Na obra CONTESTADO, o vermelho da guerra, o azul da paz encontram o arco- íris de cores e a profusão de formas que nos deixam ver para além da palavra, as representações icônicas da região contestada e sua história mestiça, que na imbricação dos acontecimentos sociais, econômicos e ideológicos nos transformam no povo que

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somos. Somos parte dessa cultura. Somos peças desse tabuleiro de xadrez do j