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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS FACULDADE DE EDUCAÇÃO

VIVIANE MENDES DE ANDRADE

UM NOVO OLHAR, UM PASSO Á FRENTE

CAMPINAS

2006

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS FACULDADE DE EDUCAÇÃO

VIVIANE MENDES DE ANDRADE

UM NOVO OLHAR, UM PASSO Á FRENTE

Memorial apresentado ao curso da pedagogia - Programa Especial de Formação de Professores em Exercício nos Municípios da Região Metropolitana de Campinas, como um dos pré-requisitos para conclusão da Licenciatura em Pedagogia.

CAMPINAS

2006

© by Viviane Mendes de Andrade, 2006.

Ficha catalográfica elaborada pela biblioteca da Faculdade de Educação/UNICAMP

An24n

Andrade, Viviane Mendes de Um novo olhar, um passo a frente : memorial de formação / Viviane Mendes de Andrade. -- Campinas, SP : [s.n.], 2006.

Trabalho de conclusão de curso (graduação) – Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação, Programa Especial de Formação de Professores em Exercício da Região Metropolitana de Campinas (PROESF).

1.Trabalho de conclusão de curso. 2. Memorial. 3. Experiência de vida. 4. Prática docente. 5. Formação de professores. I. Universidade Estadual de Campinas. Faculdade de Educação. III. Título.

06--596-BFE

A minha mãe inigualável, teceu meu caráter aos pés de sua máquina de costura, em meio a emaranhados de botões e linha, guerreira, sensível, humilde.

AGRADECIMENTOS

A Professora Celi, que com delicadeza colou com durex minha fantasia de papel crepom;

ainda no parque infantil, rasgada em brincadeira antes da apresentação final de ano;

A Professora Silvana que segurou minhas mãos enquanto me ensinava a escrever;

A Professora Magali, me fez apaixonar pelo teatro e enfrentar minha timidez;

A Professora Gracinha, me escreveu no primeiro concurso de literatura;

A Valéria, na precariedade de uma escola pública, me tornou uma grande esportista;

A Maria Eunice que em meio a uma tragédia pessoal, foi capaz de partilhar carinho e

atenção em suas aulas de estudos socias e ciências;

A Ana lídia e suas aulas de Inglês e o “good afternoon dear teacher” todo princípio de aula;

A Maria Luisa e as aulas de geografia que me ensinaram valores humanos;

A Mônica, no magistério, grande, um grande estímulo;

A Verônica Paternost, extremamente culta, extremamente humilde e generosa;

Ao Fábio e um semestre de reflexões sobre a cultura negra,

Ao Jorge e nossas sessões de poesia, E tantos outros, Ivanda, Alexandra, Marlene, Ana Lúcia, Solange, Rosarinho, Perci

A Lucy o ser humano de coração mais nobre que conheci,

A Márcia (Marcinha), razão pela qual escolhi a pedagogia,

A Helenira, grande mãe, parceira, amiga;

Ao Adriano (in memória) companheiro de todas as horas;

As crianças do CECOIA (em especial as dos anos de 2001-2002) minhas rosas,

A Luciana (Lu) uma amiga como poucas, uma profissional como poucas;

A minha Família pelo exemplo de união e amizade, em especial meu irmão Roberto, pelo

estimulo a leitura e por inúmeros gestos de ternura na minha vida; Aos meus sobrinhos e sobrinhas, cada dificuldade até aqui e está vitória trás um pouco de vocês, serve para que acreditem em seus sonhos, eles são possíveis; Aos amigos do Proesf, pelo grande intercâmbio cultural, As amigas de Creche Benedito cuja convivência me fez guerreira, As crianças da Comunidade Santana, há 14 anos, me ensinando a conviver em equipe.

Se muito vale o já feito, mais vale o

de nós, educadores, se

deixamos de sonhar sonhos possíveis

(

tem que ver com a educação libertadora enquanto prática utópica.

Mas não utópica no sentido irrealizável

no sentido de que é esta

uma prática que vive a unidade dialética, dinâmica, entre a denúncia e o anúncio.

).Utópica (

)

que será (

).Ai

).A

questão dos sonhos possíveis (

PAULO FREIRE

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO

7

8

1.REPENSANDO Á ESCOLA 1.1.Esperenciando a escola

14

2.PAULÍNIA, UMA OUTRA REALIDADE

20

24

3.POR TRÁS DE MEIAS PALAVRAS 3.1.Superando limites

27

3.2.Mais que lamento, superação

29

CONSIDERAÇÕES FINAIS

32

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

38

APRESENTAÇÃO

Assisti recentemente um documentário (sobre o ensinar) com Paulo freire, que apontavam o grande segredo de estar a tantos anos à frente da educação, é que em setenta e quatro anos de vida, sentia a vibração e o coração batendo forte como da primeira vez em contato com seus alunos.Considerei significativo e pensei comigo: que também eu tenha essa visualização e possa sentir o mesmo (e não da boca pra fora ou para vender livros) mas com a mesma verdade que vi refletida naqueles olhos de uma expressividade singular.

Acolho a proposta deste memorial, pois a sua elaboração possibilitou uma rica reflexão acerca da identidade do professor, as concepções de criança e infância, e a possibilidade de evidenciar o “corpo” na escola, que implica acolher a criança em sua subjetividade e complexidade, dentro de uma sociedade disciplinar, propiciando um retorno ao passado de modo a repensar minha constituição docente e as contribuições no decorrer e posteriormente à conclusão do curso de PEDAGOGIA/PROESF.Deste modo contribuiu também para delimitar, esclarecer, iluminar escolhas, e contagiar possíveis leitores.Que essas memórias, essas vivências os seduzam na constituição de professor, pois se constituir professor esta muito além de um certificado que habilite a alfabetizar, lecionar é uma grande aventura. Ser professora, para mim, é de longe a maior experiência que já vivi. Brinco dizendo que se não fosse professora, seria giz ou lousa para ter assegurado o direito de estar em sala de aula e como somos inegavelmente a soma de tudo que vivemos (as primeiras impressões de crianças, os tombos de bicicleta, as brigas de irmãos, as descobertas adolescente, os amores da juventude, as rejeições, as despedidas, os reencontros, as juras de amor eterno e toda sua inviabilidade, as historias infanto-juvenis, ouvidas, lidas; os dias de chuva, de sol, chegadas, partidas, encontros e despedidas) são estes registros da minha vida, que perpassam minha profissão e se centram na pessoa que sou hoje.

REPENSANDO A ESCOLA

Minha trajetória de professora, começa ainda nas brincadeiras de crianças, nas agendas de costura de minha mãe, nas bolsas e sapatos dela emprestadas para as brincadeiras.Têm a ver também com os gibis do Chico Bento e suas narrativas na escola, quando oferecia a maça para a professora (queria também receber uma maça de algum aluno, aquele gesto, mesmo hoje, representa, grande demonstração de afeto) com o com meu avô João e seu sonho em ter uma filha professora e não teve filha mas teve neta, ficaria orgulhoso, tenho certeza. Nasci em uma família de quatro irmãos, de mãe costureira e pai azulejista, criada em um lar católico de valores morais rígidos, principalmente para mim a única filha, que deveria me casar cedo e constituir família, o magistério, seria para ajudar no orçamento da família e estar um período em casa para criar os filhos, faculdade, nem estavam em nossos planos, não é bom que a mulher estude demais, a ela está reservado o papel de mãe e esposa.

Mas as coisas não aconteceriam assim e o magistério mudaria a minha vida definitivamente, tive que optar em ser mãe e esposa (naquele momento) ou me dedicar a ser a melhor professora que me fosse possível.Com a pedagogia no entanto tenho aprendido que ser professor é algo mais. A Pedagogia somada à minha prática docente, vem me tornando mais racional, científica, o que tem me preservado em relação a inúmeros constrangimentos desnecessários, prefiro me calar e ouvir mais o que as pessoas têm a dizer, leio bastante, faço registros do que leio, procuro colocá-las em prática no meu dia a dia, e embora seja vista em meu trabalho como uma técnica capaz de dar respostas acerca das dificuldades que a escola enfrenta, confesso, meus batimentos cardíacos são inaudíveis.Nunca achei tantas soluções, resolvi tantos impasses escolares, alfabetizei tantas crianças, mas confesso que minhas lágrimas são raras, minhas crenças limitadas, vivo rodeada de pessoas, algumas brilhantes, mas confesso, nunca senti tamanha solidão.É como se um “mesmo” rio remássemos em direções contrárias, se pedimos ajuda, somos incompetentes, se admitimos que algum colega nos inspira, somos interesseiros, se reconhecemos que erramos, somos irresponsáveis, falta uma identidade coletiva ao professor enquanto classe, é preciso possuir um olhar mais aguçado, um ouvido apurado e sensibilidade para crescer.

Nesses momentos sinto falta da professora menina de antes, pois meu processo de (in) formação passa inegavelmente por uma menina, diferente da mulher que hoje sou. Venho buscando resgatar esse idealismo e minha identidade profissional, percorrendo caminhos de grande crença no ser humano e em paralelo me redescobrindo enquanto mulher, negra, de origem humilde, o que me faz compreender as implicações do que a soma de todo esse histórico significa em minha constituição, as dificuldades de pertencer a um país que nunca acolheu e não acolhe o diferente, ideologia que encontra terreno fértil na escola tal como se apresente hoje e nesse sentido temos muito á fazer, por isso escolhi a pedagogia.

Neste processo de retomada, ao debruçar na historia de meus antepassados, observo que a escravidão deixou marcas profundas difíceis de serem superadas e que serviram também para mostrar, que a cor da minha pele não pode me impedir de correr atrás de meus sonhos, de impedi-los e não será agora.O grande ganho é repensar a minha infância com grande dor, entendendo que:

A infância portanto, é uma categoria que existe no

espaço social em que é estabelecida, negociada,

desestabilizada e reconstruída no decorrer da história

da humanidade, na qual o poder, sob várias formas,

vem coagindo corpos e mentes infantis mediante um mecanismo próprio que é a disciplina (CAMARGO E RIBEIRO, 1999).

O fato da escola e de seus profissionais, terem me oferecido uma identidade branca, a nunca me sentir parte do grupo, convivendo com a sensação de assistir tudo do lado de fora, em meio às princesas, príncipes e bonecas brancas, com características tão diferentes das minhas, procurando incansavelmente nas caixas de lápis de cor uma semelhante a minha, têm pouca relação comigo, e sim com os professores e uma rede educacional, que em nome do clássico, do erudito, me negaram uma infância enquanto negra.Com os estudos sobre a infância pude avançar em reflexões que elucidam a criança negra excluída que fui:

Eu afirmo: se dermos ás crianças à mesma liberdade

para o processo artístico que lhe damos para suas brincadeiras, as crianças chegarão á excelência no

aprimoramento do processo criativo. Na oficina com

as crianças, eu trabalho acreditando no pessoal, no

sentimento de liberdade, no irracional, no natural

orgânico, Sinto alegria em tudo o que as crianças fazem e naquilo que simplesmente trazem consigo (HOLM, 2004).

Esta afirmação me faz precisar o quanto perdi, o quanto me negaram.Nunca tive uma boneca negra quando criança, não me retratei como negra em meus desenhos, e fui refletir sobre essas condições, com um aluno africano que tive, que se retratou negro e me presenteou com o desenho. E ele percebeu minha alegria genuína, tanto que sempre fazia lindos desenhos de crianças negras e me presenteava.Guardo-os comigo até hoje, de um modo singular me remetem a quem eu sou, e alicerçam minha luta por uma escola que inclui e que respeita a pluralidade cultural :

A partir desta perspectiva, qualquer atividade

pedagógica pode ser vista como uma construção social realizada por agentes humanos, na qual a criança o pedagogo e todo o meio da instituição dedicado á primeira infância são entendidos como socialmente constituídos através da linguagem. Entretanto, tal perspectiva também implica que a atividade está aberta à mudança; se optarmos por construir a atividade pedagógica de uma maneira, podemos também optar por reconstruí-la de outra (DAHLBERG, 2003).

O que implica, reflexão, adequação, superação e também, acolhimento, diálogo e respeito as diferentes culturas, superando preconceitos, reconhecendo o direito de cada um.Um dos maiores desafios do Professor, contribuir de forma significativa em uma sala com trinta, trinta e cinco realidades adversas, presas a amarras de um currículo fragmentado e rígido.Será possível? No tempo de meu magistério meus professores diziam, que o professor era um técnico em respostas prontas e certeiras diante de qualquer adversidade.Lembro que constantemente me sentia apavorada, ficava com o coração apertado e não dormia á noite, pois não me via como um mago intelectual, que de genuíno tinha apenas uma enorme disposição em aprender.No entanto já sabia que um diploma não me daria essa garantia.Neste sentido também o magistério enquanto ensino técnico é meio frustrante, tive dúvidas e medo de falhar como professora, de não poder “honrar” com algo que diziam ser uma “vocação”.Só mais tarde entenderia a ideologia dominante por trás de uma palavra tão simples. Mesmo agora, enquanto escrevo, revivo as mesmas dores, as angústias, as insônias, a desolação.Lembro claramente de ver o dia amanhecer dentro de um ônibus ao cruzar a cidade para ir estudar, do medo e da solidão de estar em um ponto de ônibus as 5:15h da manhã, das dificuldades de alimentação, das amigas cuja convivência perdemos em objetivos e jornadas diferentes.Tenho saudades, do riso fácil em tempos de tantas dificuldades, época feliz, um misto de dor, alegria, em meio a todo tipo de adversidade. Tudo isso contribuiu para a professora que sou hoje e pela pedagoga que venho me tornando, entendendo o orgulho de meus pais, que aborrecem meus tios e avós com meus feitos na faculdade.Entendo as perguntas que meus irmãos formulam, acolho a alegria dos meus sobrinhos em ter uma tia professora de professora (é assim que enchergam a pedagogia), pois sonharam algo bem menor para mim e uma faculdade é algo acima de seus maiores sonhos.Através da minha referência, meus irmãos e sobrinhos começam a pensar na graduação como uma meta possível, e não como uma barreira intransponível como era vista até pouco tempo atrás.Isso me faz feliz, e esta alegria é algo que aprendi com minha profissão.Penso que ser professora é compartilhar vitórias, acalentar derrotas, inspirar vidas, é ser feliz com e pelo outro, cada vez mais em um coletivo, cada vez menos em um universo singular.E quando nos abrimos a essa verdade, passado e presente se somam em contrapartida a um futuro que tende a ser idealizado de forma maravilhosa.

Pois:

A obsessão por uma aparência modelar veiculada

midiaticamente também interfere, de forma drástica,

na

vida de comunidades, absorvendo, transformando

e

uniformizando o que as singulariza (

)

Novas

sensibilidades constroem-se. Mas talvez seja possível

pensar que há um empobrecimento na compreensão deste corpo apartado do sujeito que o habita (SOARES, 2003).

A escola, muitas vezes, reforça isso, permeada de preconceitos e omissões, se fazendo de cega, frente às subjetividades de crianças, professores e pais, moldando pessoas.Reconheço que, fui uma criança tímida, calada, assustada e ao mesmo tempo curiosa, comprometida, esforçada.Fui subestimada por ser negra e vir de um lar humilde, como se a cor da pele e condições sociais fossem condições determinantes, para se chegar

à lugar nenhum. Constantemente, alguns professores no ensino fundamental, pegavam meus cadernos para mostrar em reuniões (em meio a falas preconceituosas, acerca de minha raça) era comum conversarem sobre mim, usando termos pejorativos, em sala de aula, na minha frente, sem nenhum tipo de constrangimento.Diziam com este gesto, que se uma negra conseguisse aprender, a turma toda aprenderia.No final do ano pediam meus cadernos, como registro para atestarem sua eficiência enquanto professores.Atitude bem diferente do registro, enquanto documento histórico que enquanto pedagogos somos orientados a fazer, documentação que se configura, uma entre tantas possibilidades pedagógicas, que diz respeito principalmente á tentativa de enxergar e entender o que está acontecendo no trabalho pedagógico e o que a criança é capaz de fazer sem qualquer estrutura predeterminada de expectativas e normas, uma proposta que deve ser aberta, acolhedora e que pode ser retomada a qualquer momento, para não nos perdermos no meio do caminho, uma das inúmeras descobertas que fiz na pedagogia. Presos em seu altruísmo, não sabiam que por trás de um caderno impecável estava

a minha mãe (que eles tinham pouco á ver com minha alfabetização) que escrevia no papel de pão e eu os guardava para em minhas brincadeiras reproduzir, era divertido pois todo papel que ela pegava ela escrevia o nome dos cinco filhos Renato, Ricardo, Roberto,

Rogério e Viviane, sempre me perguntei porque meu nome não tinha a letra erre também e essa foi, na informalidade, uma grande curiosidade e um grande estímulo, que me levou a escrever, aliás foram os nomes dos meus irmãos escritos em papel de pão os primeiros nomes que escrevi.Nesta primeira infância minha mãe e meu irmão Roberto foram indispensáveis, creio que se não fossem por eles, o caminho até aqui, seria muito mais difícil.

Minha mãe sempre me elogiava, me fazia refazer o que não estava bom, com delicadeza.Meu irmão trabalhava em uma livraria e dividia o seu salário comprando presentes para mim, em forma de papéis de carta, diários, cadernos, canetas, tudo muito rosa, tudo muito delicado (gestos que lembro com grande emoção pois são provas de que amor se soma à gratuidade) e estes presentes estimulavam minhas idas a escola.A escola é cruel com o aluno carente, ora o desestimulo em sala de aula, as dificuldades de diálogo e a evasão escolar, como se a classe toda afirmasse que “aquele” aluno está no lugar errado, reforça essas questões quando assume uma posição de neutralidade.Acredito que, em meio a tanta hostilidade, só não desisti porque tive professores maravilhosos e por causa da minha mãe, que me obrigava a enfrentar tudo de frente e se me acusavam de algo, me pegava pelas mãos e ia à escola saber o que estava acontecendo.Era comum exigir que a diretora me pedisse desculpas. Assim aprendia a acreditar em mim, a argumentar ao invés de chorar e me sentir culpada pelo que eu não fiz, por coisas que eu não era responsável.Obrigou-me a ir para o centro da cidade de ônibus, sozinha, para as aulas de datilografia e taquigrafia e inconscientemente me ensinou a superar meus medos. Não tive máquina de escrever, tenho computador e facilidade em digitar, devido á prática em “bater máquina”.A partir da postura de minha mãe e do seu exemplo, encaro minhas dificuldades de frente, não exito em pedir desculpas e procurar corrigir meus erros, sou um pouco mais tolerante, estou aprendendo a pedir ajuda e ter voz própria.Hoje, dificilmente alguém me convence a fazer algo em que não acredite.

O corpo é este espaço-tempo que tudo atesta, porque as marcas do que viveu estão nele inscritas; pode, então ser pensado como um dos territórios mais visíveis de conexão entre natureza e cultura. Em sua visibilidade, o corpo permite, alegoricamente, ser interpretado e lido como texto escrito pela sociedade á qual pertence (SOARES, 2003, p.15-190).

Tenho emprestado ao cenário da educação a professora que sou na convicção de que algo de singular, muito significativo me cabe e a pedagogia veio somar as minhas inquietações.Seja por meu histórico de vida, enquanto mulher negra, humilde, seja pela professora preocupada com o descaso com a infância, comprometida com um ensino efetivamente igualitário ou ainda, pelo ser humano por trás da formação acadêmica, preocupada com os rumos neoliberais que o mundo anuncia.

EXPERENCIANDO A ESCOLA

O magistério de antemão me fez guerreira, emprestei essa gana aos meus estágios com um olhar diferente, pensando uma intervenção diferente, nas diferentes realidades de ensino.No Instituto Popular Humberto de Campos, aprendi a me silenciar com grande

dificuldade, o silêncio tem muito a nos dizer e se estivermos atentos, focados, aprendemos no observar. A pré-escola aconteceu na CEMEI, Agostinho Pattaro, onde passei grande parte da minha infância e rever esta escola foi de muita emoção.Tudo esta muito conservado, ainda, a piscina, o túnel de manilha para encanamento, transformado em uma centopéia gigante, os flamboyants, em cuja sombra brincávamos e passávamos horas colhendo sementes.De moderno existem hoje, sala de computação, casa de boneca em tamanho natural,

palco onde eram realizadas nossas apresentações

quiosques gigantescos, casa da árvore

de final de ano ainda está lá, bem preservado, como as minhas memórias. No E.E.P.S.Carlos Gomes, fiz estágio em uma sala destinada aos DM, como eram intituladas as crianças com deficiência mental (mas estudavam ali crianças com todo tipo

de deficiência física também) ficavam em uma sala escondida, apertada, no porão, com

o

horários de intervalo diferentes, vítimas de todo tipo de gracejo e intolerância.Quando adentrávamos aquelas paredes tudo era de uma delicadeza e uma amorosidade singular, a impressão que eu tinha era que a Adriana, então professora da turma, criara uma redoma de vidro, lamentando certa vez, que o mundo ou mesmo a escola fora daquelas quatro paredes não fossem assim.As crianças, eram corajosas e tinham muita sensibilidade.Preparei uma regência na qual contei a história de Monteiro Lobato, do livro comestível em que Visconde querendo instigar o hábito de leitura na Emília preguiçosa, mexia com o imaginário dela atribuindo sabores às páginas dos livros.Apresentei os principais personagens, os retratamos em sulfite, comemos milho cozido, fizemos carimbos com o sabugo e colamos com os grãos para plantio, encerrando a atividade com uma pipocada coletiva.Foi uma experiência única, nossa empatia foi grande e substituía a Adriana, constantemente em suas faltas. Ali aprendi a não menosprezar nem subestimar as pessoas, especialmente se tratando de crianças, independente dos rótulos que costumeiramente lhes são atribuídas.Entre nossas conversas a Adriana confidenciou que tinham crianças que estavam com ela há três anos, e a escola não sabia o que fazer com essas crianças.A orientação recebida era para que não lhes deixassem faltar lápis de cor e folha sulfite.Disse também que foi obrigada a se calar cada vez que defendia melhorias de ensino para as crianças, com ameaças veladas acerca de seu emprego.Em contrapartida ela alfabetizou todos e devolveu à Escola a responsabilidade de pensar em o que fazer com aquelas crianças. No colégio Doutor Tomas Alves, em Sousas, onde comecei a cursar o Magistério (sendo transferida no segundo ano para o E.E.P.S.G. Carlos Gomes) nossos estágios eram um pesadelo.Ninguém queria receber as estagiárias e quando o faziam pareciam nossas inimigas, eram rudes, grosseiras e se sentiam intimidadas.No intervalo, brincávamos com as crianças, batíamos corda para elas pularem, contávamos histórias, pulávamos amarelinha, na quadra, no pátio, no quiosque, espaços neutros em que oferecíamos afeto e era a única coisa que tínhamos liberdade para fazer.O que aprendi ? Que as lições para toda vida não são passadas em lousas ou registradas em páginas de caderno, pelo menos não necessariamente, voltemos nosso olhar despretensioso a educação não-formal, temos muito a aprender. No colégio Maria Alice Colevatti Rodrigues, reencontrei minha antiga Professora de Educação Física, agora como Diretora.Tornei-me uma “espécie de faz tudo”, decoração para festas, painéis comemorativos, correção de cadernos, substituição de professores,

além de aulas para a turma de aceleração, que eram crianças com atraso na alfabetização, ou seja adolescentes que não sabiam ler nem escrever, o único inconveniente, era que eu tinha que ler o cronograma da professora da turma e cumpri-lo a risca. Aprendi que professor tem que ser aberto, não é o detentor do poder e sobrecarregada, pedia ajuda, observava, fazia amizades e grandes aprendizados.Às vezes sentia vontade de largar tudo, me parecia estar sendo explorada e ao persistir, pelas crianças (ninguém queria assumir a turma, já tinham passado por três professoras eventuais) às experiências me fortaleciam e conquistei o respeito da equipe.Quando o estágio acabou, pediram para que eu ficasse. No colégio E.E.P.G. Hilton Federici vivenciei a maior de todas as experiências.Retornei como estagiária, depois como professora eventual, onde deixei minha adolescência e meus professores amigos, que iam às minhas festas de aniversário, tem coisa mais gostosa?E dividindo a sala de professores com meus amigos de trabalho, me emocionei ao relembrar, o olhar delas sobre mim, o orgulho, a amizade, a admiração, as palavras de carinho, as lembranças das minhas peripécias infantis.Vimos fotos dos arquivos da escola, lamentamos os amigos falecidos, reencontramos outros perdidos na memória, revi antigos escritos meus dos concursos literários, caminhei por antigos espaços, colhi trechos da minha vida.Ventava bastante e os ypes rosas estavam floridos, como sempre foram, senti saudade de um tempo inocente e simples, que não volta mais. Concluído o curso do magistério, terminou meu contrato como eventual e tinha a convicção de que mudaria o mundo, tudo contribuía para isso, a juventude, a liberdade, às amizades feitas, os professores que alimentaram meus sonhos desde menina e hoje tantos anos passados, sinto falta dessas crenças “emocionais”, regidas apenas por meus batimentos cardíacos. Começava uma outra jornada (a luta por um trabalho fixo como professora). Extremamente injusta e quando conseguíamos aulas, eram em lugares longínquos e extremamente violentos, lugares que ninguém queria estar, as melhores localidades ficavam com professores com vinte anos ou mais de profissão, com uma pontuação elevada, já que á cada mês de trabalho soma-se pontos, valiosíssimos na hora da atribuição e quando saímos do magistério essa pontuação é nula. Dois anos depois comecei como professora auxiliar do infantil, da Escola do Sítio do Faz de Conta, onde deveria facilitar as intervenções educacionais da professora da turma, separando materiais com antecedência, preparando crachás, pastas para serem

guardadas as pinturas das crianças, potes com tintas, auxiliá-los no transporte de um ambiente a outro, instalar vídeos, transportar televisão e ajudar na hora do lanche. As crianças tinham grande afinidade comigo, assim não demorou muito para que eu estivesse trocando fraldas, achava desnecessário o debater das crianças que não queriam ser trocadas pelas serventes da unidade. Não sei precisar o equilíbrio para exercer o pedagógico em meio às crianças a serem trocadas, sei que ao escolher a educação infantil estava implícito o educar e o cuidar, em minha pequenez venho fazendo isso, com criticidade, sabendo minha função.Sayão dirá:

Que cuidar do corpo da criança pequena faz parte da necessidade que todas elas tem de serem atendidas em sua singularidade, independentemente de classe social, gênero, etnia ou credo religioso, porque isso se constitui em um elemento cultural esta na base da formação humana problematizar o cuidado e a educação como principio indissociável e norteador do trabalho pedagógico nas instituições voltadas para as crianças de 0 a 6 anos (SAYÃO, 2003).

Concluindo o curso de Pedagogia/ Proesf, pela Unicamp repenso o equivoco de minhas intervenções enquanto professora, e o peso de carregar essa mentalidade de uma escola sentimental, disseminada no magistério, do professor faz-tudo, faz tanto que esquece sua função de ensinar. Assumindo a postura de “mãezona”, mesmo cheia de boa intenção, não nos posicionamos como professoras que devem sem perder o foco estimular conhecimentos, e esta neutralidade, prática comum, na educação infantil, contribui par que nesses espaços persistam exatamente essas crenças; da professora com características maternais, que descrevi acima, que cuidando da criança como “mãe”, não tem espaço para discutir o pedagógico, produzindo um currículo oculto e no qual se chega através de várias relações e percursos de diversos agentes, descaracterizando a intervenção pedagógica e ação educativa.

A professora da turma desenvolvia um trabalho significativo e não podia parar para trocar fraldas, tinha um conteúdo curricular a cumprir, e com esse posicionamento era mal vista pelos pais.Quanto a mim, estava no meio do fogo cruzado, sem saber exatamente o que fazer.Relembrando essas experiências percebo que o magistério não dá conta acerca da complexidade da infância e a pedagogia busca respostas em constantes pesquisas. Comecei a trabalhar em período integral, ganhando pouco, o diferencial da escola é que as crianças eram de diferentes nacionalidades, seus pais vinham ao Brasil prestar serviços temporários nas multinacionais ou com bolsas de estudos para mestrado ou doutorado nas nossas universidades.Assim, convivi com crianças Francesas, Italianas, Americanas, Africanas, Espanholas, Argentinas, com as mais diversas religiões, Batistas, Muçulmanos, Judeus, Protestantes, Católicos, Ateus, num intercâmbio cultural indescritível, famílias belíssimas que deixaram saudades ao retornarem a seus paises de origem. Assumi a recreação das crianças que ficavam na escola o dia todo, minha proposta era a de confeccionar uma atividade para ser levada para casa, o que deu muito certo.Construímos uma cabana em tamanho natural para ouvirmos histórias, com bambu e saco de estopa, fizemos vara de pescar com jornal e saíamos para pescar nos tanques de areia, confeccionamos porta-retratos de papelão, porta treco com latinhas de refrigerante e demos vida através de inúmeros brinquedos a uma infinidade de garrafas pet, desenharam, íamos a biblioteca, assistiram a filmes de arte, estourávamos pipocas e tivemos à tarde da pipa.

Se a cultura infantil se fizesse sobretudo pela mãe

estrangeiros a obra do

sincretismo seria muito mais forte do que é (

se nos cânticos infantis a influência de antigos romances hispânicos ou portugueses. Mas as significações antigas desapareceram e agora aqui, se quisermos compreender as novas funções do folclore infantil, precisaremos estudar o grupo de brinquedo como grupo social, sua natureza e seu papel parecem que o cuidado virou tabu não pelo caráter sagrado

mas talvez por seu caráter profano

que agrega (

) nota-

preta ou pelos pais (

)

)

porque historicamente ligado ao corpo é esquecida,

negada, subsumido (BASTIDE, 2004).

Uma amiga indicou-me para trabalhar no Colégio Notre Dame, essa proposta trazia a possibilidade de uma faculdade, um salário melhor além de uma série de outros benefícios. A proposta de trabalho não era diretamente ligada ao colégio Notre Dame e sim a uma entidade assistencial mantida pelo colégio, auxiliando nas dificuldades dos alunos de diferentes idades e em diferentes matérias.Desconhecia o conceito de educação não- formal (como brilhantemente tenho aprendido com a Solange neste último semestre na faculdade), da sua importância e papel social e me sentia perdida sem saber ao certo o que fazer.

Educação não-formal, embora obedeça também a uma estrutura e a uma organização e possa levar a uma certificação (mesmo que não seja essa a finalidade), não se atem à fixação de tempos e locais, sendo flexível na adaptação dos conteúdos de aprendizagem, e comprometidos com a subjetividade de cada grupo concreta, específico (SIMSON, 2001).

Mas o diferencial nesta proposta de trabalho, era o histórico de vida daquelas crianças em situação de risco, e seu exemplo de superação.Sem garantias, com alguns preconceitos aceitei a função e estudava muito paralelamente ao meu trabalho, para de fato contribuir com meus alunos.Esses estudos prévios me deram maior segurança, maior flexibilidade, iniciativa, estimulo para intervir. Em meio a tantas vidas ressigificadas na entidade, perdemos algumas crianças para a prostituição, para a vida rentável do crime.A cada criança desligada da entidade, era uma dor profunda. A noite freqüentava o curso pré-vestibular na moradia da Unicamp, era um curso para carentes, com alunos de graduação da universidade, que nos fizeram acreditar em nós mesmos e na possibilidade de cursar uma faculdade. Aprendi muito naquele breve período de tempo, tanto no pré-vestibular como no Centro Comunitário Irmão André (o CECOIA) a entidade a qual me referi acima, com aquelas crianças carentes.Consegui vencer a resistência e a rebeldia gratuita delas, olhando nos olhos, estendendo as mãos, abrindo meus braços, emprestando meus ouvidos.

A emoção cabe á tarefa de unir os indivíduos entre si

por

meio das suas relações mais orgânicas e intimas,

e

essa confusão deve ter, como posterior

conseqüência , as oposições e os desdobramentos dos

quais poderão, gradativamente, surgir as estruturas da consciência. Diz também: (Nas) emoções, que são

a exteriorização da afetividade, sustentam-se

treinamentos gregários, forma primitiva de comunhão

e de comunidade. As relações que estas possibilitam

refinam os seus meios, fazendo destes, instrumentos de sociabilidade cada vez mais especializados (WALLON,1973, p.138).

Emprestei meu coração e meu profissionalismo e recebi em troca respeito, reconhecimento, admiração, amigos.Aprendi com aquela equipe fantástica a ouvir e ser paciente, qualidades que eu não tinha e também a convicção de que era hora de dar continuidade aos meus estudos.

Fiquei no Cecoia dois anos, inegavelmente os melhores anos da minha vida, como profissional da educação e como ser humano, superando a meus julgamentos preconceituosos.Nunca consegui romper os laços, com a entidade, meu coração ficou aprisionado e eles inspiram a minha vida. Passei em um concurso público em Paulínia, duas coisas pesaram em minha decisão: primeiro, não estava ajudando as crianças nas questões dos conteúdos de física, química e matemática e isso estava me incomodando, segundo, poderia ingressar em uma faculdade e voltar como especialista, prestando assessoria à entidade.Foi o que eu fiz.

PAULÍNIA, UMA OUTRA REALIDADE

Assumi meu cargo de Educadora Infantil na Creche Benedito Dias de Carvalho Júnior no dia três de março de 2002, não tinha turma e ocupava a função de volante, uma espécie de faz tudo dentro da unidade.Com três meses passados, me ofereceram uma turma, crianças de três anos, e assumi esse novo desafio dentro de uma realidade totalmente diferente, com seus lados positivos e negativos como não poderia deixar de ser. No final do respectivo ano, prestei vestibular para a Unicamp, passei na primeira fase, mas não na segunda, decidida e com um salário que me permitiria cursar uma faculdade particular, prestei o vestibular para a universidade São Marcos com campus em Paulínia, passei em primeiro lugar e comecei a freqüentar às aulas.Quando já cursava o quinto semestre fui aprovada para o Proesf e vim para a Unicamp, um sonho, agora palpável. A experiência dos anos estudados na Universidade São Marcos, trouxeram serenidade para um recomeço, criticidade e segurança para questionar minha prática docente.Tenho avançado mais, tenho aprendido que a realidade da pré-escola hoje é a soma de um processo histórico que denuncia o descaso com a infância.Conhecendo o passado, temos compreensão para mudar o presente ou reescrevê-lo e que os fatos não estão todos dados temos muito à fazer, muito trabalho pela frente.

Sabemos ser muito difícil pensar e refletir sobre as pràticas cotidianas quando estamos imersos nos rituais que desenham nossos tempos e espaços.Talvez haja necessidade de buscar formas e possibilidades outras em linguagens como poesia, clara e cristalina, para descrever outras formas para o dia-a-dia, escolar ou não, tendo por tarefa a coragem de desbravar, de ousar ser diferente (Park, p.88, 2001).

Com esse olhar apurado percebo em Paulínia algo de singular em seu sistema político, que recai inegavelmente na rede educacional, em especial na Creche e diretamente no profissional que presta serviço à unidade. Meu primeiro impacto foi com as inúmeras dificuldades de diálogo entre professoras e direção.No convíveo entre educadoras e volantes, inviabilidade na falta de um estatuto do magistério, informações desencontradas a respeito das leis para a Educação Infantil, o perigo do regimento interno no qual as professoras não têm acesso e a creche ainda constitui um espaço onde prevalece às relações de mando e submissão, onde pedagogas cuidam da higiene pessoal das crianças enquanto pessoas não habilitadas à educação infantil estão á frente das salas de aula. Nestas unidades são atribuídos cargos “desfio de função” sem o menor respaldo legal, justificado apenas por questões de afinidade; permeia nestes espaços o regime de certificação que determinam suas chances de escolher a unidade, o período e a faixa etária das crianças ou seja berçário, maternal ou infantil.Presença vale ponto, qualquer tipo de falta perdem-se os mesmos, não existe acidente de trabalho ou seja machucou-se, o funcionário é penalizado perdendo pontos, qualquer contrariedade às imposições da diretora lhe rendem ameaças de “remoção compulsória” em que o funcionário é mandado para outra unidade escolar, de preferência o mais longe possível da unidade escolhida, já que é uma forma de retaliação e o Setor de Creches a fim de justificar a “mudança de unidade” de dada professora faz circular nas demais, uma declaração sem muitos detalhes do ocorrido, mas deixando clara a questão da remoção, para que a mesma sirva de exemplo

do que o Setor é capaz.Se a profissional não se “der bem” nesta nova unidade, deve-se demiti-la por justa causa.Na realidade demissões nunca aconteceram, mas o medo quanto à perda do emprego é tão grande, que serve de terreno fértil para todo tipo de retaliação, ameaça, constrangimento e a indefinição a nível estadual (pois embora existam leis que de sustentação ao trabalho de professor de educação de 0 a 6 anos não há órgão que efetivamente as façam cumprir) e municipal de normas trabalhistas acerca do papel do educador de creche e de uma sustentabilidade legal para que o professor tenha maior autonomia, tem servido a esses propósitos, embora exista um belo discurso de democracia e igualdade de oportunidades, haja vista que todo funcionário da creche (cozinheiro, jardineiro, serventes) recebe o mesmo salário. Passando por essa experiência de expropriação de saberes e essa política do silenciamento, articulado ás leituras do Proesf, tenho uma visão mais clara sobre todo o contexto histórico que envolve o desprestigio do Professor e o mito reservado a infância, não podemos perder de vista que a fabricação histórica e social das práticas educativo- pedagógicas e assistenciais das instituições de educação infantil, sempre esteve muito próximo daquilo que cada momento histórico construiu, reservou e atribuiu para o que é ser criança e ter infância:

No Brasil, o atual processo de escolarização das crianças pequenas, de quatro a seis anos, ao mesmo tempo em que anuncia a decidida inserção da criança na cultura, o reconhecimento de sua cidadania como um sujeito de direitos, pode vir a ser uma maneira de captura e de escolarização precoce no sentido da disciplinarização, normalização e normatização do corpo, das palavras e gestos, na produção de um determinado tipo de aprendiz trazendo, portanto, uma rejeição á alteridade e a diferença que as crianças anunciam enquanto tais (ABRAMOWICZ, 2003 p.14).

Não há como valorizar a infância silenciando o professor. Minhas vivências na unidade articulada à Pedagogia, sinalizam as dicotomias e as oposições que percorrem as historias das crianças e da infância e conseqüentemente dos professores:

Dessa forma, no Brasil, ás pré-escolas designam escolas de crianças pequenas e de uma classe social com mais possibilidades econômicas e as creches são os equipamentos destinados ás crianças pobres e ás classes populares. Dois perfis diferentes de profissionais atuam nesses dois ramos de educação infantil duas redes distintas, uma delas, até recentemente, a cargo da Secretaria da Promoção Social. As pré-escolas, de maneira geral, funcionam em meio período; as creches, em período integral.Há também, diferenças na formação das profissionais e no nome atribuído a essas trabalhadoras de mesma função:professoras, para as pré-escolas; pajem, crecheiras, monitoras, auxiliares de desenvolvimento infantil, etc, para as creches (ABRAMOWICZ, 2003).

Diferentes profissionais atuam nesse espaço e cumprem as funções de cuidar e educar; eixos distintos, que poderiam ser interdependentes e que ainda geram subdivisões, exclusão e passividade.

Confirma-se por toda à parte e regra que se estabelece, que quanto menor a criança a se educar, menor o salário e o prestígio profissional de seu educador e menos exigente o padrão de sua formação prévia (Campos, 1999, p.127).

Neste sentido minha prática educativa enquanto professora de creche vem ilustrar essa reflexão e contribuir na discussão da importância do professor.Quem é o profissional de educação de 0 a 6?Como ele vem sendo constituído e como gostaríamos que o fosse? A quem ele serve ou melhor a que tipo de educação serve?

De que tipo de vida tal escola é sintoma? Quais forças ativas e reativas forjaram tal perspectiva de escola e com que interesse, no interesse de qual tipo de vida? Não há dicotomia entre escola e vida, infelizmente, talvez, e a pergunta que se impõe é:como em nossas ações cotidianas servimos para construir o modelo de escola que aí esta? Lutar contra as forças que forjam esse modelo não é uma prática simples nem fácil e não é uma luta só interna á escola (ABRAMOWICZ, 2003).

Os estudos realizados no Proesf vêm me ajudando a responder essas questões, me fortalecendo. Na unidade venho me tornando porta voz de minhas parceiras de trabalho, não falando por elas, mas instigando-as a ler e a falarem por si, muitas coisas mudaram, mas a resistência ainda é grande, e a desinformação é o maior de todos os males, em tempos neoliberais.

POR TRÁS DE MEIAS PALAVRAS

A realidade docente vem mostrando no cenário escolar, uma visão de creches como órgãos de assistência social, tal qual no meu magistério dez anos atrás, embora revestidos com um amplo discurso de inclusão que vai dizer que a creche é escola.

Pela lei, a educação infantil é um nível de ensino e isso trás conseqüências aos profissionais que atuam nesta área (NASCIMENTO, 1993). E neste sentido a LDB, vai dizer que O fato de ter sido definida como um nível de ensino implica uma série de normatização próprias á instituição escolar (ART.30). Que devem se concretizar na prática.

O que acontece no entanto é bem o oposto nestes espaços, centram-se toda a atenção para o serviço social, com uma estrutura voltada exclusivamente à saúde do corpo (e o bem cuidar) na verdade o que a creche como unidade escolar possibilitou, foi apenas maior autonomia às diversas secretarias que sem nenhuma coesão, executam suas próprias regras e as faz cumprir à qualquer preço. Historicamente, os prejuízos ao sistema educacional e à população brasileira têm sido inúmeros, do sucateamento das escolas à desvalorização profissional se configurando em sua maioria como espaço de segregação social num crescente. Sujeitados às regras impostas sem a mínima sustentabilidade legal a critério de direções, secretarias e prefeituras pouco ou nada comprometidas com as crianças o que supostamente surgiu para dar maior liberdade, aprisiona.Correntes neoliberais possivelmente apontarão o professor como grande causador de todos os males da educação, reforçadas cotidianamente pelo senso comum.Estas questões não são de agora e nem sem um propósito bem definido pelas políticas neoliberais amplamente divulgadas nas escolas cada vez mais precocemente

Percebe-se uma nítida intenção dos profissionais em justificar a todo o momento que “nós não cuidamos; nós educamos e cuidamos” o que á levou a estranhar

a insistência na rejeição do cuidado como, algo

associado á educação, não é possível apagar de imaginário nacional a herança deixada pela escravidão e pelos processos de colonização, o que

se reflete na desvalorização do trabalho exercida por mulheres no cuidado na educação das crianças pequenas (WADA, 2002).

Neste sentido a academia nos alerta para a questão da multiplicidade de significados implícitos no cuidar e/ou educar, bem como na dificuldade de entendimento e de definições mais claras acerca disto, reafirma e configura o que o campo acadêmico denomina “indissociabilidade” entre cuidar e educar (só que enquanto elucida algumas questões produz divergências entre a produção acadêmica e as praticas

Este fato propicia que a base da formação de suas profissionais esteja voltada para a realização de inovações importantes para a construção de políticas sérias e de uma pedagogia da educação infantil, efetivamente comprometida com a infância.Assim precisamos nos centrar no que realmente nos diz respeito e afetam nosso trabalho e esta tarefa, embora pareça simples se torna dificílima por estar tão intrínseco em nós o reproduzir falas alheias, por agirmos conforme normas e condutas aos quais muitas vezes nos são contrários, o que representa assumir nossa passividade e omissão enquanto professor. Recentemente em um trabalho na disciplina de Gestão Escolar aqui na academia o professor afirmou, que já sabemos exatamente as inviabilidades do trabalho do professor, em maior e menor gral e que a questão é outra, implica em como não sermos passivos, omissos e se estamos dispostos a correr riscos ao nos posicionarmos.Posicionamento que deve ser embasado em leis, não cabe ao senso comum. Acrecentou-me que o problema não se resolverá com atos solitários e heróis aleatórios que a luta é coletiva e que não podemos, na luta pelo pão de cada dia nos darmos ao luxo de solitários brigarmos com grandes corporações, sejam elas quais forem.Se o interesse é comum, a luta deve ser coletiva e as abordagens inteligentes. Fui assolada por um desestimulo sem precedentes, pois agir solitário amedronta, mas esperar um movimento coletivo parece ainda mais difícil, principalmente em Paulínia com suas leis próprias. Há uma luta micropolítica que tem que ser travada incansavelmente e cotidianamente e talvez assim a escola e possa estar a serviço de uma nova modalidade de pensamento, privilegiando ás inventividades, as criações, as produções das diferenças, as novas formas de pensamento.Como? Se o professor, agente indispensável nesse processo, exerce papéis secundários, terciários e assim vai.Como? Se medidas como essa passam inevitavelmente por um professor bem diferente dos que se apresentam (do que somos, temos nos tornado).

SUPERANDO LIMITES

Começamos a compreender que o fascismo só deu

certo porque cada um alimentava as secreções fascistas; ele só deu certo porque existia uma micropolítica que o alimentava cotidianamente

diria ainda que é

muito fácil ser antifascista no nível molar, sem ver o

fascista que nós mesmos somos, que entretemos e nutrimos, que estimamos com moléculas pessoais e coletivas (DELEUZE; GUATTARI, 1996, p.92).

(DELEUZE; GUATTARI, 1980) (

)

Enquanto Diversas instituições educacionais usam o artifício de que as informações desencontradas em relação as diferentes funções de um mesmo educador infantil se dão pela complexidade e indefinição que tal educador exige e pelo fato de até recentemente, a creche estar a cargo da secretaria da promoção social (o que consiste na indefinição da creche como escola) paralelamente o professor, de educação infantil vai perdendo a sua função.Essas diferenças são constitutivas e substantivas na medida em que forjam territórios existenciais educativos e um tipo de profissional passa a ser privilegiado e esta é outra questão, trata-se de privilegiar (supostamente aquele com um perfil de professor pré-determinado.Que perfil é este? Quem define esse perfil?) um sobre o outro e não possibilitar uma equalização. Para assegurar o direito a uma identidade profissional enquanto educador infantil, o professor precisa se mobilizar, o que não lhe será atribuído gratuitamente e o preço é o do comprometimento, da leitura, da pesquisa, do contágio aos colegas conquistando condições de olhar nas “entrelinhas”, condenando essas práticas cegas que oferecem a criança, atendimento multifacetado. Os órgãos responsáveis, são os mesmos que vão a mídia, destacar o número de crianças atendidas em um sistema de educação inclusivo, onde todos têm acesso e são bem vindos, mantendo obscuras as discussões frente à precariedade das instituições, as superlotações em vista das vagas reduzidas, bem como às dificuldades e indefinições quanto ás políticas públicas, aos orçamentos e outros indicadores que revelam uma

situação desfavorável, apesar do alento dos que têm sonhado e agido para reverter esse quadro, interferindo nesse processo para a garantia de uma educação infantil de qualidade. Nesta perspectiva de retomada continua em aberto as questões desse “novo profissional”, que enquanto agente social e formador de opinião, têm que saber a quem serve, que relações reproduz, que saberes o norteia. Atendendo ao sistema capitalista amplamente excludente, rejeita-se ao sistema dos direitos (e a partir deste ponto é fundamental que se entenda, o que se aponta por ter direitos) significando prioritariamente posicionar-se contrário ao sistema como se apresenta hoje.Cabe a necessidade de dialogar sobre as diferenças, a toda e qualquer instituição escolar, inclusive a de educação infantil, tão desprestigiada, mas que pode responder com segurança questões acerca da infância, encurtando caminhos. Diferenças (respeito ao outro diferente de mim) que façam diferenças, pois há na atualidade o discurso à tolerância, a inclusão indistinta, e o que ocorre cotidianamente são, a produção de diferenças a serviço da ampliação do capital, quando na realidade, marcar diferenças significa buscar o dissenso e não o consenso dentro de uma perspectiva igualitária, em face de uma gestão democrática.

Todos já conhecemos a máxima de que a escola se iguala a uma prisão, ou seja, na sociedade disciplinar há uma lógica de controle, o que faz as instituições ficarem parecidas umas com as outras (na rigorosidade), por isso o patrão reverberava e se parecia com o professor, com o coronel; o diretor da escola reverbera no diretor de presídio, no gerente da indústria, etc. Em vários trabalhos de pesquisas, em dissertações e teses sobre educação aparecem descrições da crise da escola, que é contada molercularmente em suas políticas de disciplinamento, de silenciamento, de aprendizagem, de formação de professores e isso não é novidade assim como o fato de que na verdade o trabalho com as crianças de creche está referido ás forças, que se hegemonizam em determinado momento histórico e que impõem ao estado às funções que deveriam desempenhar em relação á infância, aos pobres, aos negros, aos deficientes (ABRAMOWICZ, 2003, p.19).

Pesquisas educacionais flagram e ao mesmo tempo denunciam uma tristeza escolar, um estranhamento, em muitos casos, entre professores e alunos, professores e direção, direção e secretarias, secretarias e municípios, divulgados em grande parte na mídia que atuam como estratégias para desviar o assunto e manter a atuação do professor na obscuridade e no anonimato as lutas que são travadas cotidianamente, tanto pelos alunos quanto pelas professoras pela sobrevivência na escola, ou mesmo um diálogo mais eficaz. E o que temos visto é um modelo de imobilidade, quietude, em um processo com o qual nós professoras, principalmente de educação infantil, vivemos a mesma situação e somos silenciadas também.Essas pesquisas podem ser sinalizadores para uma histórica retomada e valiosas intervenções no contexto escolar.

MAIS QUE LAMENTO, SUPERAÇÃO

Cursar o PROESF/Unicamp foi também um divisor de águas, demarcou irremediavelmente minha prática docente.As pessoas remetem ao “status” da universidade

e se esquecem que a infra-estrutura e os profissionais são o diferencial da universidade.O

universo de informações, o direcionamento e a aposta em anônimos é que faz da instituição

o que ela é.Agora entendo a determinação do governo Federal em centrar a pedagogia

como um importante pilar educacional, é necessário e urgente profissionais que em sua singularidade emprestam voz e corpo a uma coletividade democrática com conhecimento de causa e autonomia, que não se permitam calar nem tão pouco ser meros reprodutores do falar e fazer alheios. Assim para falarmos em favor da infância, como especialistas que somos, temos que conhecê-la.Que terminologia é esta? Basta ser criança para ter infância? O que a história diz acerca disto? Que papel ela tem reservado às crianças? E a família? A escola?

As idéias e representações em torno da infância devem considerar as constantes transformações nas condições de existência, apontando para uma pluralidade de modos de ser criança (SAYÃO, 2003).

E a realidade brasileira e mundial (com a globalização e o neoliberalismo)? Quem é o profissional que atua nesta contramão? Que somam em menor e maior escala suas peculiaridades regionais? É possível assistir tudo do lado de fora? É possível se eximir de responsabilidades? E tantos isto e aquilo, e tantos porquês e tantas leituras, tantas idas e vindas, tanta imprecisão e covardia.E ainda assim é tempo de superação, não de lamento. Só superamos o que não nos serve mais, o que nos impede o caminho, o que tem que ser deixado para trás para se enxergar o horizonte. Ora se não entendemos a que está implícito, o que e ter infância, no mínimo nossas tentativas de acerto e intervenções serão dificultadas e a recíproca também é verdadeira.Um primeiro passo seria ampliar as reflexões acerca das diferenças entre o universo adulto e o infantil.

É preciso reconhecê-los há entre o mundo dos adultos e das crianças como que um mar tenebroso, impedindo a comunicação. Não basta prestar-se a

para poder estudar as crianças é

seus brinquedos (

preciso tornar-se criança, penetrando além do círculo mágico que dela nos separa, em suas preocupações,

suas paixões, é preciso viver o brinquedo (FERNANDES, 2004).

)

Falamos sobre criança,convivemos com elas,é comum literaturas específicas à cerca da educação infantil e gênero,no entanto falamos sobre elas e acima delas e por elas,não para elas ou com elas,ou ainda por meio delas.E este desprestigio a infância fica registrado no alerta de Florestan Fernandes, que brilhantemente chama nossa atenção, acerca da Infância enquanto cultura infantil deixada de lado. Observo que sabemos pouco sobre o corpo das crianças pequenas, e este pouco, adentra o território (nos é repassado) de algumas disciplinas reconhecidas como “disciplina somática” (precisamos avançar neste sentido), boa parte dessas disciplinas tem como objeto de estudo, o corpo compreendido como matéria, como unidade desvinculada do social, concepção essa que penetrou fortemente no campo cientifico e na pedagogia de um modo geral, dificultando, a compreensão de que o corpo é totalidade e expressa subjetividade através da apreensão de elementos da cultura, tendo sempre em mente a corporalidade como expressão da totalidade de humano, por isso a preocupação na definição de critérios para um atendimento em creches que respeite os direitos fundamentais da criança.

Direito à brincadeira, á atenção individual, a um ambiente aconchegante, seguro e estimulante, contato com a natureza, á higiene e saúde, a alimentação sadia, a desenvolver sua curiosidade, imaginação e capacidade de expressão, ao movimento em espaços amplos, á proteção, ao afeto e amizade, a expressar seus sentimentos, a especial atenção durante seu período de adaptação á creche, a desenvolver sua identidade cultural, racial, religiosa (MEC/COEDI,

1995).

E a discussão acerca do cumprimento ou não de tais “direitos” nos remete novamente as questões colocadas no início deste trabalho, ao repensar a escola e as concepções dos professores que nela atuam.Quem é a criança? Temos aqui um paradoxo e enquanto nossa sociedade continuar centrada no adulto, vendo a criança como um vir a ser, onde sua individualidade mesma deixa de existir, sendo vista como potencialidade e promessa, presa no passado, ao mesmo tempo em que projetada no futuro, perdendo seu caráter histórico, faremos pouco por elas e por nós enquanto sujeitos da educação. A resolução desse paradoxo, pelo menos ao nível do conhecimento, arrisco surgir, só pode vir de uma contribuição interdisciplinar, não podemos imaginar um individuo se desenvolvendo em vazio sócio-cultural.Ajudada pelas ciências sociais (sobretudo Sociologia, Psicologia e Antropologia) seremos capazes de identificar as semelhanças e diferenças do conceito do que implica ser criança, bem como a responder às necessidades sociais que tal processo exige, atentos às diferentes leituras e conceituações acerca da infância. Aprendemos que:

A aplicação do termo lazer à infância, está ligado creio eu, á dominação exercida sobre a cultura da criança, como o “furto” do seu componente lúdico, há um descompasso entre o discurso oficial, que se desenvolve nesse sentido. E a restrição de tempo e espaço para a criança, acaba reduzindo a cultura infantil, praticamente ao consumo de bens culturais, produzidos não por ela, mas por ela, segundo critérios adultos, contribuindo para a transformação do brinquedo em “mercadoria” e para o comprometimento da evasão do real, que possibilita a imaginação de novas realidades. É o desrespeito á cultura da criança, chegando mesmo à inibição da sua manifestação, e a contribuição da escola nesse sentido (MARCELLINO,1990).

Considerar a igualdade provocada pelo furto do lúdico na cultura da criança é denunciar a relação de dominação existente, que a condena ao isolamento, desconsiderando-a como parte da sociedade, através desta lógica torpe da produtividade que impera na nossa sociedade, que associa o lúdico como improdutividade, cada vez mais precocemente, como temos visto.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As impressões de menina ficam por aqui, assim esse memorial é também uma despedida e um recomeço.Surge uma profissional graduada, com reflexões apuradas, questionamentos atuais, muitas considerações á fazer, com intervenções possíveis, concretas, que se somam ao cenário de educação infantil, na intenção de fazer dele mais que um observatório especial pelo qual estudar a evolução da criança, e sim a elaboração de uma “especificidade própria” na atenção colocada sobre os aspectos relacionais na educação da criança. Desta forma às ensinaremos que uma tarefa pode ter várias soluções, que em cada atividade reside um desafio que nunca tem uma “única” resposta definida. Em conseqüência á esta análise e busca, tenhamos claro que ás crianças são as mesmas de outrora em sua subjetividade e fragilidade, mudam-se os “olhares” que a sociedade lhes atribuem ou deixam de atribuir e conseqüentemente esta reflexão se estende a escola, em seu acesso (ou não) a todo indivíduo e seus debates acerca da inclusão intrínsecas a questões de raça, etnia e gênero, que seguem ainda a ordem social vigente de privilégios ao homem branco, rico, perfeito (físico), adulto.

No Brasil, e atual processo de escolarização das crianças pequenas, de quatro a seis anos, ao mesmo tempo em que anuncia a decidida inserção da criança na cultura, o relacionamento de sua cidadania como sujeito de direitos, pode vir a ser uma maneira de escolarização, normalização e normatização do corpo, das palavras e gestos, na produção de um determinado tipo de aprendiz trazendo, portanto, uma

rejeição a alteridade e ás diferenças que as crianças anunciam enquanto tais. A partir deste ponto é fundamental entender o que se aponta por terem direitos. Deveria significar prioritariamente poder marcar e afirmar diferenças. Diferenças que façam diferenças, pois há na atualidade o discurso da tolerância às diferenças e produção de diferenças a serviço da ampliação do capital. Ou seja, marcar diferenças significa buscar o dissenso e não o

talvez a escola pudesse estar a serviço

de uma nova modalidade de pensamento, privilegiando as inventividades, as criações, as produções das diferenças; as novas formas de pensamento, pois sabemos que, em relação às inventividades, as crianças têm muito que dizer, se as ajudarmos nisto (ABRAMOWICZ, 2003).

consenso (

)

Entretanto a exemplo do que os autores, ABRAMOWICZ, BASTIDE, CAMARGO, CAMPOS, DAHLBERG, DELEUZE, FERNANDES, FREIRE, GUATTARI, HOLM, LEVINE, MANTOVANI, MARCELINO, NASCIMENTO, PARK, RIBEIRO, SAYÃO, SIMSON, SOARES, WADA, WALLON, embora de modos diferentes evidenciaram, ao longo deste memorial, contribuindo para repensarmos, retomarmos, recriarmos nossas práticas culturais, nos alicerçam na crença de que o entendimento intercultural recíproco pode encorajar o maior desenvolvimento da educação

infantil e da alta qualidade em todo os contextos sociais. O que requer um comprometimento sério, em infra-estrutura, recursos financeiros, qualificação profissional. Na educação infantil é indispensável um ambiente de aprendizagem recíproco, com profissionais de educação comprometidos com a infância dissociada dos padrões adultos, atentos às entrelinhas oculta no binômio cuidar e educar, conscientes de sua função, que não pode e nem deve ser confundido com maternagem, trabalho doméstico ou puericultura. Profissional este, atento a sua identidade acima dos “ditos femininos” que afirmam historicamente que o que qualificam as práticas das professoras é a naturalidade com que cuidam, o gostar dos pequenos e a vocação feminina que julgam ter toda mulher indistintamente (assim toda mulher constitui-se professora o que sabemos não ser verdade) e seguem evidenciando e reforçando estas questões preconceituosas, ao invés de contribuírem concretamente para uma educação infantil de boa qualidade, assegurando profissionais com “intencionalidade” educativa. Sabemos que é uma luta contínua, pois se trata de uma mudança cultural, comportamental e de mentalidade e isso demanda tempo.Mas faz-se necessária e urgente pois nos possibilitará desmistificar o que nossa sociedade e suas políticas neoliberais tem atribuído a nós professoras.Nesse sentido e:

A partir desta perspectiva, qualquer atividade pedagógica pode ser vista como uma construção social realizada por agentes humanos, na qual a criança o pedagogo e todo o meio da instituição dedicado á primeira infância são entendidos como socialmente constituídos através da linguagem. Entretanto, tal perspectiva também implica que a atividade está aberta à mudança; se optarmos por construir a atividade pedagógica de uma maneira, podemos também optar por reconstruí-la de outra (DAHLBERG, 2003). Debate que oferece a possibilidade de construir novos significados e assim fazendo superar limites, tanto nas representações como no cotidiano de nossas ações educativas. Espero ter contribuído no sentido de trazer ao cenário educacional infantil este olhar sensível em que as crianças devem aprender a pesquisar, a ter confiança em si

mesmas e a ter coragem de se por a trabalhar em coisas novas, onde elas não devem ser preparadas para “um” tipo determinado de vida; devem sim, receber ilimitadas oportunidades de crescimento. Aprendi que ter a mente aberta para experimentar, para investigar, para estar no desconhecido é necessário deixar de subestimar as crianças em constante aprendizado e interação, dentro e fora do ambiente escolar, propondo uma nova mentalidade em relação às interações entre adultos e crianças e entre elas em si, pois ao contrário do que a escola evidencia:

As interações entre crianças de idade diversa podem ser benéficas para as menores no interior do grupo e podem fazê-las progredir em sua atividade ( ) através das quais a criança maior pode ajudar as outras (

Que nós professores sejamos facilitadores deste processo atentos á rigorosidade do currículo e as peculiaridades de cada unidade escolar, principalmente as de educação infantil, no sentido de assegurarmos as crianças esses espaço livre de interação. Que tenhamos subentendido que esta postura implica um professor atuante, participativo, político, no sentido de que não abre mão em ter assegurado sua especificidade profissional, o que sabemos ser particularmente difícil para as professoras de creche.Atitude determinante no processo de devolver ao professor maior autonomia. Para tanto surge no debate, a exemplo das escolas Italianas, a sugestão quanto ao registro do material e das relações que se estabelecem no interior da sala de aula, através da chamada “documentação pedagógica” .Visto como um instrumento vital para a criação de uma prática pedagógica reflexiva e democrática na medida em que assume a responsabilidade pela construção dos nossos significados e nos possibilita chegar ás nossas próprias decisões sobre o que esta acontecendo, dentro da sala de aula.Contribuindo ainda para o projeto democrático das instituições dedicadas á primeira infância (uma nova legitimação na sociedade) na medida em que proporciona os meios para os pedagogos e outros profissionais da educação se envolverem no diálogo e na negociação sobre o trabalho pedagógico (agora visível e democrático) conscientes, atentos á nossas ações:

Conseqüentemente, quando documentamos, somos co-construtores das vidas das crianças e incorporamos nossos pensamentos implícitos do que consideramos serem ações valiosas em uma pratica pedagógica. A documentação nos diz algo sobre como construímos as crianças, assim como nós mesmos como pedagogos (DAHLBERG, 2003).

Essas observações dizem respeito principalmente ao fato de nosso sistema escolar, estar adaptada a um conjunto de padrões pré-determinados que dizem respeito historicamente ao sistema vigente, que não privilegia a autonomia do professor. Acolher com sensibilidade a “visibilidade do corpo”:

Falar da visibilidade do corpo, portanto, é falar de um lento processo civilizador, da lenta e complexa mudança de sensibilidade, da tolerância ou intolerância por atitudes e práticas humanas, de uma consideração cada vez mais eloqüente que confere ao corpo uma importância sempre mais alargada (SOARES, 2003).

Implica acolhermos a criança em sua subjetividade, sem menosprezar sua bagagem cultural anterior á escola, acerca de tudo que foi dito e ainda centrando-nos na escola que queremos reformular, implica emprestarmos a essa causa nosso melhor pensamento, levando a um intercâmbio rico e fértil no grupo e estimulando algo novo, inesperado, impossível de ser criado por uma (única) pessoa, no sentido da expressão Italiana “IO CHI SIAMO” (O eu que nós somos) o que implica ainda, pensar em uma pedagogia viva, ativa na escola, sentida com todo o corpo. Experenciar a “visibilidade do corpo”, o que nos remete a novas inquietações pois não temos um histórico escolar que nos tenha permitido adentrar o universo da sensibilidade.

Propostas recentes, grandes desafios que se mesclam e que devem ser pensadas no momento atual, com seus problemas atuais, (pois nenhuma estratégia educacional pode ser transplantada de um cenário cultural para outra, sem reflexão e debate, sem adaptações) buscando superações e soluções também atuais, sem perder de foco o momento histórico ao qual estamos construindo. Neste e tantos outros sentidos, inegavelmente a Unicamp/Proesf por meio de uma pedagogia com características tão próprias, contribui de forma decisiva.Após a poda muitas árvores darão frutos, pois o tempo certo já nos foi dado.

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