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SAMIZDAT

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SAMIZDAT 36

abril de 2013

Edição, Capa e Diagramação Henry Alfred Bugalho

Editor de poesia Volmar Camargo Junior

Autores Adriane Dias Bueno André Foltran Andréia Pires Bernardo Lins Brandão Cinthia Kriemler Edweine Loureiro Fabio Guimarães Bensoussan Fabio Ramos Felipe Cattapan Fernanda Vier Guilherme Canedo Henry Alfred Bugalho Japone Arijuane Joaquim Bispo Ju Blasina Lucas C. Lisboa Maraíza Labanca Maria de Fátima Santos Rodrigo Domit Rui Sota Vander Vieira Volmar Camargo Júnior Wilson Franco

Textos de:

Ryunosuke Akutagawa

www.revistasamizdat.com

Imagem da Capa: Watanabe

Tsuna fighting the demon at the

Rashomon, Utagawa Kuniyoshi

ISSN 2281-0668

Editorial

Frequentemente me indago sobre quem são nossos leitores, ou até se há alguém que, de fato, esteja lendo nossas obras. Esta é uma questão genuína, pois, quem escreve, anseia por ser lido. Todavia, alguns dias atrás, encontrei-me, em diferentes ocasiões, com três autores portugueses que partici- param ou ainda participam da SAMIZDAT — Joaquim Bispo, Maria de Fátima Santos e José Espírito Santo — e fiz uma constatação. Esta oportunidade de estar pessoalmente com eles, auto- res que admiro e que fazem parte da minha trajetória como escritor, trouxe à luz um aspecto que muitas vezes passa despercebido. Os leitores são importantes, afinal são o fim de toda Literatura, mas a companhia de nossos pares, daque- les escritores com quem podemos trocar ideias e também angústias, é igualmente fundamental. Dialogo a todo instante com os mestres pretéritos e pre- sentes e cada grande livro é uma lição, mas o contato real com autores reais, com as mesmas indagações e anseios que os meus, com os mesmos obstáculos a serem superados, com as mesmas frustrações e que, assim como eu, alegram-se com as pequenas e sofridas conquistas, insufla-me com um pouco mais de coragem para seguir adiante. Não somos rivais, pois a Literatura não é uma disputa onde um ganha e os outros perdem. Estamos todos neste mesmo barco e, coletivamente, estamos deixando nossos tími- dos legados. E, um dia, se um de nós atingir o cimo, poderemos estar certos que não chegamos lá sozinhos.

Henry Alfred Bugalho

Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.

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As ideias expressas são de inteira responsabilidade de seus autores. A revista adota a ortografia do Novo Acordo Ortográfico. A aceitação da revisão proposta depende da vontade expressa dos colaboradores.

Sumário

Sumário Por quE Samizdat? 8   Henry Alfred Bugalho rEComENdaÇÕES dE LEitura terra das Casas Vazias,
Sumário Por quE Samizdat? 8   Henry Alfred Bugalho rEComENdaÇÕES dE LEitura terra das Casas Vazias,
Sumário Por quE Samizdat? 8   Henry Alfred Bugalho rEComENdaÇÕES dE LEitura terra das Casas Vazias,

Por quE Samizdat?

8

 

Henry Alfred Bugalho

rEComENdaÇÕES dE LEitura terra das Casas Vazias, de andré de Leones

10

 

Volmar Camargo Junior

o

tradutor

13

Fabio Bensoussan

oBra Em LÍNGua PortuGuESa Naufrágio de Sepúlveda

14

História trágico-marítima

21

 

Joaquim Bispo

ENSaio

 

anti-Íon

22

 

Joaquim Bispo

CoNto

 

a alma da Capital

28

 

Henry Alfred Bugalho

monte do bom engano

32

 

Wilson Franco

o

morto

34

Guilherme Canedo

o

vento que faz as dunas mudar de lugar

36

Rui Sota

Ébano e Marfim

38

 

Fernanda Vier

Casquinha de bebê

42

Andréia Pires

a Camélia 44 Maria de Fátima Santos arremate   48   Cinthia Kriemler a quinta
a Camélia 44 Maria de Fátima Santos arremate   48   Cinthia Kriemler a quinta
a Camélia 44 Maria de Fátima Santos arremate   48   Cinthia Kriemler a quinta

a

Camélia

44

Maria de Fátima Santos

arremate

 

48

 

Cinthia Kriemler

a

quinta do meu Pai

50

Japone Arijuane

traduÇÃo

 

Rash ōmon

 

56

 

Ryūnosuke Akutagawa

Num Bosque

 

64

 

Ryūnosuke Akutagawa

CrÔNiCa

 

quotidiano sobre trilhos

72

 

Lucas C. Lisboa

PoESia

 

a

Voz do anjo

76

 

Volmar Camargo Junior

História oral

 

77

 

Volmar Camargo Junior

aquele ser

 

78

 

André Foltran

o

Entremezista do real

79

Fabio Ramos

Nazca

 

80

 

Bernardo Lins Brandão

reate

 

81

 

Maraíza Labanca

a

Boiada

82

Ju Blasina

tropecei, eu que dançava

84

 

Vander Vieira

traça

 

85

Rodrigo Domit

Vozes

86

Felipe Cattapan

Filho da Floresta

87

Edweine Loureiro

multiplamente

88

Adriane Dias Bueno

LaNÇamENto a Cor do Sal, de r afael F. Carvalho

89

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O lugar onde

a boa Literatura

é fabricada

6 SAMIZDAT abril de 2013

ficina www.oficinaeditora.com

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Participe da Revista SAMIZDAT 37 A Revista SAMIZDAT conta com a sua participação para manter
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cados na edição 37 da Revista SAMIZDAT na segunda quinzena de agosto de 2013, no site

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Atenciosamente,

Henry Alfred Bugalho

Editor

Por que Samizdat? “Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por
Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico,
distribuo e posso ser preso por causa disto”
Vladimir Bukovsky
Henry Alfred Bugalho
inclusão e Exclusão
henrybugalho@hotmail.com
logo se converte em uma di-
tadura como qualquer outra.
É a microfísica do poder.
Nas relações humanas,
sempre há uma dinâmica de
inclusão e exclusão.
O
grupo dominante, pela
própria natureza restritiva
do poder, costuma excluir
ou ignorar tudo aquilo que
não pertença a seu projeto,
ou que esteja contra seus
princípios.
Em reação, aqueles que
se acreditavam como livres-
pensadores, que não que-
riam, ou não conseguiam,
fazer parte da máquina
administrativa – que esti-
pulava como deveria ser a
cultura, a informação, a voz
do povo –, encontraram na
autopublicação clandestina
um meio de expressão.
Em regimes autoritários,
esta exclusão é muito eviden-
te, sob forma de perseguição,
censura, exílio. Qualquer um
que se interponha no cami-
nho dos dirigentes é afastado
Datilografando, mimeo-
grafando, ou simplesmente
manuscrevendo, tais autores
russos disseminavam suas
ideias. E ao leitor era incum-
e
ostracizado.
As razões disto são muito
bida a tarefa de continuar
esta cadeia, reproduzindo tais
obras e também as passando
simples de se compreender:
o
diferente, o dissidente é
perigoso, pois apresenta
alternativas, às vezes, muito
melhores do que o estabe-
lecido. Por isto, é necessário
suprimir, esconder, banir.
adiante. Este processo foi
designado "samizdat", que
nada mais significa em russo
do que "autopublicado", em
oposição às publicações ofi-
ciais do regime soviético.
A
União Soviética não
foi muito diferente de de-
mais regimes autocráticos.
Origina-se como uma forma
de governo humanitária,
igualitária, mas
Foto: exemplo de um samizdat. Corte-
sia do Gulag Museum em Perm-36.

E por que Samizdat?

A indústria cultural – e o

mercado literário faz par- te dela – também realiza um processo de exclusão, baseado no que se julga não ter valor de mercado. Inex- plicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maio- res do que o lucro.

A indústria deseja o pro-

duto pronto e com consumi- dores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mes- mo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado.

E a autopublicação, como em qualquer regime excludente, torna-se a via para produtores culturais atingirem o público.

Este é um processo soli- tário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes apa- ratos midiáticos – como TV,

revistas, jornais – onde ele possa divulgar seu trabalho.

O

único aspecto que conta é

o

prazer que a obra causa no

leitor.

Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro lado, concede ao criador uma liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua pala- vra, é o responsável pelo que

diz, o culpado por seus erros,

é quem recebe os louros por seus acertos.

E, com a internet, os au-

tores possuem acesso direto

e imediato a seus leitores. A

repercussão do que escre- vem (quando há) surge em questão de minutos.

A serem obrigados a

burlar a indústria cultural,

os autores conquistaram algo

que jamais conseguiriam de

outro modo, o contato qua-

se

pessoal com os leitores,

o

diálogo capaz de tornar a

obra melhor, a rede de conta-

tos que, se não é tão influen-

te quanto a da grande mídia,

faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há

grandes tiragens que subs- tituam o prazer de ouvir o

respaldo de leitores sinceros,

que não estão atrás de gran- des autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos.

Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pós-

modernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição que vise rotular e definir a

orientação dum grupo. São apenas escritores interessados

em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim

a heterogeneidade.

Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de auto- publicação, mas “Samizdat” porque também é um modo

de contornar um processo

de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica gratuita, escrita, editada e publicada pela novíssima geração de autores lusófonos. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profissionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

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Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais. www.revist asamizdat.com www.revistasamizdat .com 99

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recomendação de Leitura

tE rra dE CaSaS VaziaS de andré de Leones
tE
rra dE
CaSaS VaziaS
de andré de
Leones
Volmar Camargo Junior
Volmar Camargo Junior

Volmar Camargo Junior

Volmar Camargo Junior
Terra de casas vazias André de Leones Rocco, 2013 318 p. R$ 34,50

Terra de casas vazias André de Leones Rocco, 2013 318 p. R$ 34,50

Assim que acabei de ler, pousei o livro nas pernas. Olhei para a capa por um minuto, talvez nem isso. Estava num local público, a trabalho (mas numa situação em que podia pôr minha leitura em dia). Depois desse intervalo de silêncio, senti-me tentado a compartilhar com alguém. Escre- vi numa mensagem de celular, para contar a uma pessoa querida, que sabia o que eu estava lendo.

Terminei de ler Terra de casas vazias. Muito bem escrito. Um rico universo psi- cológico. Personagens bem construídos – que vivem numa espécie de silêncio social difícil de romper. A narrativa acontece muito no imaginário de cada um deles, atravessada pelo peso da solidão em que

se vive, por perdas irrecuperáveis, mas por uns fios de esperança também: a possibi- lidade de existir, viver e cruzar desertos (físicos, como Brasília, um hospital, Israel; e íntimos, como a separação, a doença, os traumas e a morte). Ótimo romance. Mes- mo.

O romance é dividido em cinco partes, com uma brevíssima sinopse abrindo cada uma.

“A primeira parte deste romance é tam- bém intitulada Terra de casas vazias e se passa em 2009. Nela, encontramos Arthur e Teresa. Eles vivem em Brasília. Tentam lidar com uma grande perda. No final, decidem fazer uma viagem.

“A segunda parte de Terra de casas vazias é intitulada Miastenia. Continuamos em Brasília, agora na companhia de Aure- liano e Camila. A pedido de Camila, Aure- liano parou de fumar.

“A terceira parte de Terra de casas vazias é intitulada Presente contínuo. Ela se passa em meados de 1986. A pequena cidade de Silvânia, no Centro-Oeste do Brasil, é o cenário. Arthur vive ali com seus pais, e recebe a visita de Aureliano.

“A quarta parte de Terra de casas vazias chama-se A inutilidade. Nela, somos apre- sentados à mãe e às irmãs de Aureliano e viajamos por São Paulo e Goiânia. A mãe se chama Isadora e as irmãs, Maria Fernan- da e Marcela. Marcela é escritora e, anos atrás, esteve internada numa clínica, onde conheceu Nathalie.

“A quinta e última parte de Terra de casas vazias é intitulada Mar Morto. Acompanhamos Arthur e Teresa em sua viagem a Israel e reencontramos Marcela e Nathalie em Jerusalém. Ao final, lemos um conto de Marcela, passamos rapidamente pelo apartamento de Aureliano e Camila em Brasília e em seguida descemos ao Mar Morto com Arthur e Teresa, e o romance termina.

Em algumas entrevistas sobre este e outros livros, André de Leones diz que esta é uma “narrativa pretensiosa”, diferente de suas outras anteriores, onde apresenta um estilo mais cinematográfico e ágil. Desejoso de que este fosse mesmo de ação mais len- ta, mergulhou na pesquisa dos romances psicológicos, nos clássicos do século XIX e XX. Parece-me ter sido feliz nesse ponto.

A leitura desse romance contrariou mui- to positivamente minhas expectativas (de modo geral, não as crio antes do final da primeira página). Entendi-o, se ainda é pos- sível esse tipo de classificação, como um

Volmar Camargo Junior

romance psicológico: o tempo é difuso, a ação em alguns pontos é anulada e a imer- são da narrativa se dá para o imaginário dos personagens. Longos trechos passam

inteiros, ou quase inteiros, na reflexão dos personagens sobre as coisas, os sentimen- tos, a autoimagem, os eventos passados, as instituições, Deus, os lugares e as impres- sões que eles lhes causam. Esse transbor- damento da imagética para o espaço físico cria uma bonita construção do ambiente:

todos os lugares são desertos. Bonita, e às vezes asséptica, livre de sentimentalismo.

O autor narra a existência desses desertos

como uma constatação.

O fio condutor, a história que “acontece” no romance é a viagem do casal Arthur

e Teresa, de Brasília para Jerusalém, seu contexto e suas implicações, para ambos

os personagens. Como se pode supor, há

uma tristeza longe de ser melancólica, que perpassa suas vidas e suas maneiras de ver e perceber o mundo. Tudo motivado pela perda irrecuperável de um filho. Com isso, outras histórias se desdobram para conhecermos esse contexto, e a transversa- lidade desse sentimento nas vidas de outras pessoas, mais ou menos próximas, desse casal. Assim também sabemos dos seus dramas, as suas perdas, os seus desertos, suas viagens, e suas mudanças geográficas que representam (será? não fiz nenhum esforço exegético nessa leitura) o transcor- rer da vida, dos fluxos da vida, e a travessia desses desertos, e o que se encontra depois da travessia.

Terra de casas vazias é uma leitura mais que interessante para quem pretende come-

çar por algum lugar na literatura em prosa brasileira contemporânea. Segue um excer-

to da primeira parte – não é para exemplo,

mas pode-se perceber muito claramente o tom e a forma empregues por André de Leones.

V., nativo de Cruz Alta, ativo em Rio Grande, é poeta, vendedor de livros, professor não prati- cante, arquivista em formação, pai do Dimitri. Escreveu os blogs Um resto de café frio e O balcão das artes impuras. Escreve o Verbo.

Garoava quando Teresa deixou o pré- dio. A visão através das lentes dos óculos escuros impossibilitada em questão de segundos, o mundo mais e mais emba- çado e disforme. Esperou até que tudo se transformasse em um borrão para tirar os óculos e encaixá-los na blusa, junto ao pescoço. Não precisava deles, na verdade. O dia tão escuro. Em seguida, cobriu a cabeça com o capuz, colocou as mãos nos bolsos da blusa de moletom

e saiu pela calçada. Uma adolescente

cabulando aula. Dia útil para os outros, não para mim. Seus passos eram incer-

tos, como se tivesse bebido um pouco,

e caminhava olhando para o chão, com

medo de tropeçar no pavimento cheio de buracos, rachaduras, poças d'água, entu- lhos. Estava agora a favor do vento, o que não era ruim. O vento investia contra as suas costas e era como se a empurrasse. (Veja: sem raizes aqui.) À esquerda, do outro lado da rua, as árvores do parque ainda se dobravam. Lembravam pessoas se alongando antes de correr num do- mingo ensolarado. Evitou olhar para as árvores. A mesma sensação desoladora que tivera ao observá-las pela janela da sala, de que elas migrariam a qualquer momento. Não queria vê-las ir embora. Ou talvez elas apenas se dobrassem até quebrar. (Tudo se dobra e vai ao chão num estrondo, de um jeito ou de outro, mais cedo ou mais tarde.) Não queria vê-las se dobrando até quebrar. Não queria ver nada, mas um trecho menos acidentado da calçada permitiu que levantasse a cabeça. A cidade ao redor com que interditada, ninguém à vista. O cenário desolado de um filme apocalíp- tico. O mundo acabou: agora, podemos viver. Mas não havia ruínas. Os prédios, inteiros, se repetindo a distâncias regu- lares. Brasília, ora essa. Tudo em Brasília se repete a distâncias regulares. Fim do mundo, mas um apocalipse higiênico que extinguisse a vida humana, não as edificações. Todos os apartamentos va- zios, como os de um prédio terminado e

12 SAMIZDAT abril de 2013

nunca inaugurado. Silenciosa e tranquila terra de casas vazias. Por alguma razão, isso lhe pareceu justo. Deus estala os

dedos e desaparecem os seres, deixando os prédios intactos: concreto deiforme. Justo e agradável, sim. Glória a Deus nas alturas. Ao Senhor, que matou o próprio filho e também o meu. Também o meu. Respirou fundo. Não se sentiu melhor. Qual é a porra do Seu problema? Arran- cando os filhos de suas mães. Disseram a ela que não pensasse nisso. Não pensasse nessas coisas. Não pensasse. Todos, sem exceção. Mas como não? Quando a falta

é o que há. Quando tudo se reduz à au-

sência. Creio Em Deus Pai Todo-Poderos Criador Do Céu E Da Terra E Em Jesus Cristo Seu Filho Ungênito Nosso Senhor etc. Seu Filho Ungênito. Tenta não pensar nisso, disseram. É difícil, quase impos- sível. Mas tenta. Para não enlouquecer. Para se recompor. Para seguir em frente. Você e Arthur. Ele precisa de você. Que infantil, ela penso. Tudo, tudo isso. Do começo ao fim, afora e adentro. Pensar ou não pensar, seguir em frente ou não. Que besteira, que.

Tropeçou.

Uma rachadura na calçada, o tropeço

e ela caindo de joelhos, as duas mãos ain- da nos bolsos. Soltou um gemido, a boca mal se abriu. Não doeu com a testa no chão por muito pouco. Levantou-se com dificuldade. Dois pequenos rasgos na calça. Os joelhos agora poderiam enxer- gar o que estivesse à frente. Dois olhos vermelhos bem no meio das pernas. O moletom preto, quase não se percebia. Algumas lágrimas rolaram, poucas. Mais pelo susto. Esperou que o tremor das pernas passasse. Então, seguiu viagem, mais do que nunca concentrada no chão.

(Qual é a porra do Seu problema?)

(Terra das Casas Vazias, Primeira Parte, capítulo 2, pp. 21-23)

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recomendação de Leitura

Fabio Bensoussan o t radutor
Fabio Bensoussan
o t
radutor

Ersan Üldes levou aos píncaros a má- xima italiana do traduttore, traditore. Em um conto – Professional Behaviour – pu- blicado em 2011 na antologia Best Europe- an Fiction, organizada por Aleksandar He- mon, o autor turco nos conta a história de um tradutor que, indignado com os textos em que trabalha, resolve alterá-los ao seu talante. Assim, por exemplo, inconformado com a morte de um personagem apenas algumas páginas após a sua criação, resol- ve mantê-lo até o fim do romance. A ideia foi um sucesso – os leitores do texto tra- duzido adoraram, e um renomado crítico

chegou a afirmar que o texto (a essa altura,

do tradutor) ombreava Proust e Beckett

autor era mais famoso na Turquia do que em seu país de origem, certamente porque o texto era “melhorado”. O sucesso fez com que nosso tradutor passasse, a cada traba- lho, a ousar ainda mais e, presumivelmen- te, este foi o seu erro. Uma escritora alemã, Judith Wohmann, desconfia do seu método, e escreve um romance, O número Pi: um

O

romance. Um romance imune ao nosso tradutor – e isso lá existe? –, que acaba desmascarado e banido da profissão.

Uma história muito interessante, encon- trando o autor uma oportunidade de usar a ficção para discutir a questão da con- fiabilidade das traduções. Lembro-me, por exemplo, do trabalho de Mamede Mustafá, que acaba de lançar o quarto volume de sua versão d’O Livro das Mil e Uma Noites, traduzido diretamente dos originais. Bem diferente das pudicas versões inglesas do século XIX. E imagino como deve ser tra- duzir Guimarães Rosa para outro idioma. Ou como deve ser diferente ler o Ulysses de Joyce no original.

Um belo conto, esse de Üldes – se é que podemos confiar na tradução feita do tur- co para o inglês por Idil Aydogan e Amy Marie Spangler.

Se é que você pode confiar no que eu acabei de escrever.

Fabio Bensoussan

Nasceu no Rio de Janeiro (1973) e hoje mora em Belo Horizonte, com sua esposa e os dois filhos. É procurador da Fazenda Nacional e recentemente começou a escrever contos e a traduzir textos literários. Mantém o blog http://bibliotecadofabio.blogspot. com

obra em Língua Portuguesa

Naufrágio de Sepúlveda

Vou contar-vos a história dos que embarcaram no galeão grande «S. João» quando saiu da Índia em princípios de Fevereiro de 1552.

Nos portos de Coulão e de Cochim recebeu o navio a pimenta com que devia de regressar a Portugal. Não se pode dizer que fosse muita: não passava, com efeito, de uma dúzia de milhares de quin- tais; mas a carga ficou ainda demasiada, pelas outras mercadorias que se embarca- ram. Foi este excesso nos carregamentos uma das grandes causas de tantos naufrá- gios. Junte-se o descuido na construção das naus, e, no caso do «S. João», o péssi- mo estado em que se achavam as velas.

Manuel de Sousa Sepúlveda capitane- ava a nau, e trazia a bordo sua mulher e três filhinhos. Embarcou também Panta- leão de Sá, cunhado de Manuel de Sousa.

Partiram pois a 3 de Fevereiro, e atra- vessaram o Oceano Índico a leste da ilha de Madagáscar, que se chamava então de S. Lourenço. A cinco semanas da parti- da – a 11 de Março – encontravam-se a vinte e cinco léguas, mais ou menos, do famoso Cabo da Boa Esperança. Saltou- lhes o vento na direção da proa, muitís- simo rijo, acompanhado de numerosos

fuzis. Ao cair da noite, o capitão chamou

o mestre e o piloto, e perguntou-lhes que

decisão tomar. Meterem de capa com os papa-figos (responderam eles) e aguarda- rem tempo menos ruim.

Assim se fez. E, vindo arribando des- ta forma, já a uma centena de léguas do Cabo virou-se-lhes o vento para leste-

nordeste, mais forte ainda, obrigando-os

a correr outra vez para sudoeste. O mar,

feito do poente até então, era batido agora do levante: e tornou-se tão grosso

e

desencontrado que a cada balanço que

o

galeão tomava parecia que as vagas o

meteriam no fundo.

Desta maneira se passaram três dias. Ao cabo deles, o vento acalmou; o mar porém ficou tão revolto, e tanto e tanto

trabalhou a nau, que três machos do leme se perderam então. O carpinteiro, quando deu pela perda, comunicou o facto em

segredo ao mestre. Este, como bom oficial

e

bom homem que era, recomendou que

o

não dissesse ao capitão da nau nem a

nenhuma das pessoas que vinham a bor- do, para evitar o alvoroço e o terror.

Saltou ao lés-sudoeste outra vez o ven- to, e cresceu com o temporal. Deixou o

navio de obedecer ao leme, e pôs-se de ló; nisto, viram rasgar-se toda a vela grande,

e voar pelos ares. Acudiu a gente a to-

mar o traquete; não estava ainda tomada

a vela quando se atravessou a nau aos

vagalhões enormes, e recebeu a fúria de três mares grossíssimos, que arrebenta- ram as enxárcias de bombordo. Lançou- se mão de viradores, para com eles se fazerem uns brandais; vendo, porém, que era impossível, decidiram cortar o mastro grande. Já estavam os homens de macha- do em punho quando, com a força do vento, estoirou o mastro. Tudo saltou por estibordo: mastro, gávea, aparelho, enxár- cia. Cortaram esta e o aparelho, e tudo de cambulhada se foi para o mar.

Sobre o pé do mastro que lhes ficara armaram mastaréu com um pedaço de antena, e do outro pedaço fizeram verga

que guarneceram com tiras de velas ve- lhas. Pouco depois, levou-lhes a ventania essa mesma vela, e em breve o galeão se atravessou outra vez. Nesta situação se encontravam eles quando se lhes quebrou

o leme pelo meio. Já a água do mar inva-

dira tudo. O mastro do traquete, com os grandes balanços de um bordo a outro, punha a nau em risco de se lhe abrir o casco, e pareceu-lhes que o melhor era cortá-lo. A isso se dispunham, quando

deu nele um tão grande mar que o que- brou logo pelos tamboretes e o lançou também para o meio das ondas, com o único trabalho de lhe cortarem a enxár- cia.

Sem mastros e sem leme, iam impeli- dos na direção da terra, de que estariam

distantes umas quinze léguas. Lançaram- se, então, a construir um leme de fortuna, e de alguma roupa fizeram velas, com que se dirigissem a Moçambique. Nesses cuidados se gastaram dez dias. Acabado o leme, quiseram metê-lo; não serviu, po- rém, porque não tinha as dimensões que lhe cumpriam. Manuel de Sousa, como já se achassem bem perto da terra, tomou o parecer dos oficiais. Aconselharam estes que se deixassem ir, até se encontrarem com dez braças de fundo; que com esse fundo ancorasse a nau, para lançarem o batel e desembarcarem. Entretanto arria- ram uma manchua com alguns homens, para irem explorar ao longo da costa e escolher o sítio para o desembarque. Já perto da terra, lançaram o prumo; acha- ram aí ainda muito fundo, e deixaram-se ir. Regressaram finalmente os da man- chua, informando haver perto uma boa praia; tudo mais era rocha a pique, onde

se não via modo de salvação.

Trataram, pois, de fazer navegar o ga-

leão para o sítio indicado pelos da man- chua, com os remedos de velas que ha- viam feito. Quando chegaram, lançaram prumo, e viram que tinham fundo de sete braças. Largaram uma âncora nesse fundo

e guarneceram os aparelhos para arria-

rem o batel, com o qual portaram, na direção da costa, uma segunda âncora.

Já a manchua conduzira para a praia Manuel de Sousa, sua mulher e filhos, e uma trintena de pessoas mais (não sem

se virar e se afogarem algumas), quan-

do o vento e o mar cresceram tanto que

impeliram o galeão para cima da terra.

A tempo em que já esta estava próxima,

embarcaram no batel o piloto, o mestre

e cerca de quarenta dos passageiros. Tão

grossas rolavam então as ondas, todavia, que despedaçaram o batel de encontro à

praia, sem no entanto morrer alguém.

Ficaram a bordo umas quinhentas pessoas, das quais duzentos portugue- ses e trezentos escravos. Trataram estes de largar a amarra para se irem assim

aproximando da terra. A quilha assentou; pouco depois, porém, com a força do mar, partiu-se em dois o galeão. Passada uma hora, esses dois troços fizeram-se em quatro. Arrombadas as cobertas, as fa- zendas e as caixas vieram acima, e todos os passageiros que se achavam a bordo se lançaram aos cepos e à caixaria, para flutuarem agarrados neles. Quarenta por- tugueses e uns setenta escravos morreram afogados neste lance; os demais consegui- ram chegar a terra, alguns com ferimen- tos de gravidade. Quatro horas depois, todo o galeão desaparecera desfeito. Na praia acumulavam-se os seus destroços, arremessados pela fúria dos vagalhões.

Determinaram os náufragos manter-se ali, entrincheirados, até que convalesces- sem os mais doentes. Tinham dado com água naquele lugar. Passados dez dias, avistaram num outeiro uns sete cafres, que traziam consigo uma vaca presa. Por acenos, convenceram-nos a descerem até

à praia, e foi o capitão falar com eles, acompanhado por quatro dos portugue-

ses. Significaram por sinais que queriam ferro. Manuel de Sousa, percebendo-os, mandou que trouxessem meia dúzia de pregos, e lhos mostrou. Os cafres che- garam-se mais aos nossos, e discutiram

o preço da sua vaca. Nisto, apareceram

cinco negros em outro outeiro, e começa-

ram a bradar aos sete primeiros que não dessem a vaca a troco de pregos. Foram- se então, levando a vaca, e sem dizerem palavra mais.

Uns dias ainda se mantiveram ali, com muito cuidado e vigilância, levantando-

se o capitão para rondar os quartos três

e quatro vezes durante a noite, o que era para ele trabalho grande. Convalesceram por fim os doentes e feridos; e, vendo todos já aptos a caminhar, chamou-os a conselho sobre o que deviam fazer.

Como não ficara do galeão com que pudessem construir uma jangada, decidi- ram caminhar ao longo das praias até ao rio de Lourenço Marques. Estaria este, ao

que lhes parecia, a umas cento e oitenta léguas daquele local (31º de latitude sul), seguindo sempre a linha da costa; os que lá chegaram, porém, andaram mais que trezentas léguas, pelos muitos rodeios que foram fazendo para passar os brejos

e cursos de água com que iam topando

pelo caminho; depois tornavam à orla do mar; e nisto gastaram cinco meses e meio.

Partiram pois a 7 de Julho (1552). Ia na vanguarda Manuel de Sousa com oiten- ta homens portugueses e escravos, com André Vaz, o piloto, que levava uma ban- deira com um crucifixo erguido, e Dona Leonor em cima de um estrado, que era

carregado por alguns escravos; ao centro,

o

mestre do galeão com a gente do mar

e

as escravas; na retaguarda, Pantaleão

de Sá com o resto dos portugueses e dos escravos, que seriam cerca de duzentas pessoas. Orçava por quinhentas o total.

Caminharam assim durante um mês, com muitos trabalhos, com fomes, com sedes horríveis, porque não tiveram de comer por todo este tempo senão aque- le arroz que do galeão escapara e umas poucas frutas que no mato acharam. Haveriam andado uma centena de léguas (que fariam umas trinta, não mais, ao lon- go da costa), e tinham já perdido umas dez pessoas, que se deitaram no chão por não poderem mais. Um filho bastardo de Manuel de Sousa, de dez ou doze anos, vinha muito fraco por causa da fome; um escravo o trazia com muito custo, e am- bos se deixaram atrasar. Manuel de Sousa não deu por isso, por supor que vinha na retaguarda com seu tio Pantaleão de Sá. Perguntando por ele, e não o encontran- do, ficou como louco. Prometeu que daria quinhentos cruzados a quem voltasse atrás em busca do filho: não houve po- rém quem lhos aceitasse, por se acharem já à boquinha da noite, em que os que se deixavam atrasar os devoravam os tigres

e os leões.

Por vezes, tinham tido que lutar com bandos de cafres. Diogo Dourado, que sempre pelejara como bom cavaleiro, veio a falecer numa dessas brigas. Uma, duas, três pessoas, ficavam por dia na- quelas praias, ou então metidas por meio dos matos, por já não poderem cami- nhar avante. Sabiam que os tigres ou as serpentes as haviam de devorar de aí a pouco, pois os havia ali em grande núme- ro; apesar disso, deixavam-se cair, porque já não podiam andar mais, e rogavam aos outros que os encomendassem a Deus.

Cerca de três meses, já agora, haviam decorrido nessa caminhada em busca do rio de Lourenço Marques, ou seja da Aguada da Boa Paz. Alimentavam-se de frutos, se acaso os achavam, e de os- sos torrados. Quem topava coisa que se pudesse comer e que lhe fosse possível dispensar, vendia-a por preços exagera- díssimos: um quartilho de água por dez cruzados, e por quinze cruzados uma pele de cobra. Comiam mariscos quando passavam nas praias, ou peixe morto que o mar lançava.

Ao cabo deste tempo encontraram um cafre, velho senhor de duas aldeias, que os recebeu com alegria e muito bem. Pediu-lhes o reizete que não passassem dali. Deixassem estar na companhia dele, que trataria de os manter o melhor que pudesse.

Estava o velho em guerra com um rei vizinho, pelo qual passariam os portugue- ses se continuassem o caminho na dire- ção do norte: e desejava por isso o auxílio dos nossos. Afirmava-lhes que se insis- tissem em prosseguir seriam roubados por esse rei; de maneira que, em virtude da ajuda que esperava obter e também do conhecimento que dos portugueses já tinha (por Lourenço Marques e António Caldeira, que ali haviam estado de uma outra vez) trabalhava o cafre quanto po- dia por que se demorassem os náufragos junto dele.

Em se determinar se detiveram seis dias. E, vendo o cafre que Manuel de Sou- sa continuava no desejo de seguir avante, pediu-lhe que o ajudasse, antes disso, com alguns homens da companhia, contra cer- to inimigo que lhes atrás ficara. Pediu o capitão a Pantaleão de Sá que quisesse ir ajudar o rei amigo com uns vinte portu- gueses da companhia. Foi ele, com efeito, com os vinte dos nossos e quinhentos cafres. Retrocederam umas seis léguas, tomaram ao inimigo todo o gado, e trou- xeram-no ao arraial onde estava o rei, com Manuel de Sousa e os companheiros. Gastaram nisto meia dúzia de dias.

Tornou Manuel de Sousa a reunir con- selho. Ficou decidido retomarem a mar- cha até àquele rio de Lourenço Marques, que havia três meses andavam buscando. Ora, a verdade é que já lá se achavam, sem o saberem. Com efeito, o rio que buscavam tem três braços, e Manuel de Sousa e seus companheiros encontravam- se na margem do primeiro. Cegou-os, porém, sua má fortuna, e não quiseram senão prosseguir. Pensou por isso o capitão em tomar sete ou oito almadias que ali viram fechadas com cadeias. O rei cafre, todavia, não lhas queria dar, pelo muito desejo de os ter consigo. Mas Manuel de Sousa tanto instou que o bom do rei, afinal, os deixou servirem-se das almadias e transporem-se nelas à outra margem, onde se ordenaram para cami- nhar. Passados sobre isto uns cinco dias, chegaram à beira do rio do meio, onde sofreram sede por ser salgado. Desejou o capitão mandar buscar água; ninguém o quis, todavia, fazer, a menos de cem cru- zados o caldeirão.

Ao outro dia, perto da noite, aparece- ram uns negros em três almadias. Por uma negra do arraial, que começava a entender o falar dos cafres, fizeram saber aos portugueses que viera ali gente pa- recida com eles, tripulantes de um navio que partira já. Perguntou-lhes o capitão:

quereriam passá-los para a outra banda?

Os negros disseram que no dia seguinte, se lhes pagassem bem.

Ao amanhecer, com efeito, vieram os cafres com quatro almadias, e começa- ram o trabalho combinado, pelo preço de alguns pregos.

No meio do rio, de repente, Manuel de Sousa arrancou da espada, e bradou para os negros:

– Perros, onde me levais?

Os cafres saltaram à água; e os nossos, abandonados, estiveram em risco de se afundar.

Dona Leonor e os que iam com ela pediram-lhe que não fizesse mal aos homens, que com tal se poderiam per- der. Manuel de Sonsa, até ali, fora pessoa conhecida e admirada por sua brandura

e discrição; quem viu aquilo, por isso

mesmo, facilmente concluiu que perdera

o tino, pelas muitas vigílias e cuidados

que naquela jornada padecera. O certo é que dali em diante nunca mais ele pôde governar a gente como até ali havia feito. Chegado à outra banda do rio, queixou- se muito da cabeça. Ataram-lha com

toalhas, e ali se tornaram a juntar todos. Decidiam-se a caminhar, quando se apro- ximou um grupo de cafres. Prepararam- se os nossos para a defesa, cuidando que viriam para os assaltar. Perguntados quem eram e que buscavam, os portugue- ses responderam que cristãos e náufragos,

e rogaram-lhes que os guiassem para um

rio grande que sabiam situado mais além; se tinham mantimentos, lhos trouxessem, pois estavam decididos a comprá-los. Por uma cafra que de Sofala viera lhes disse- ram os negros que os acompanhassem, pois seriam agasalhados pelo seu rei. Deixaram-se pois conduzir por eles, até ao local que lhes haviam dito. Uma vez chegados, mandou-lhes comunicar o rei dos cafres que não entrassem naquele lu- gar e que se fossem postar ao pé de umas árvores, onde lhes enviaria de comer.

E, com efeito, receberam mantimentos

a

troco de uns pregos.

Assim se detiveram uns cinco dias, parecendo-lhes que poderiam ficar ali até

à

chegada de uma nau da Índia, segundo

o

que os negros lhes haviam contado.

O rei, porém, disse-lhes que não pode-

riam continuar juntos, por falta de man- timentos naquela terra. Ficasse o capitão com a mulher e os filhos e alguns dos

companheiros que preferisse; e os outros se repartissem por aqueles lugares. Isto dizia com ruim tenção; não se atrevia, porém, a pelejar com os nossos, pelo medo que tinha das espingardas, de que havia cinco no arraial. Os portugueses entregaram-se à sua fortuna e aceitaram

a ideia do insidioso cafre, esquecidos do conselho daquele rei amigo que tinham anteriormente conhecido.

O negro, assente que os nossos se

repartissem, acrescentou que tinha ali capitães seus, cada um dos quais se en- carregaria de um grupo determinado de portugueses, a fim de os alojar e susten- tar; propunha, porém, que estes abando- nassem as suas armas, porque os cafres, com medo delas, os não tomariam en- quanto as tivessem; e que ele as mandaria meter numa choça, para lhas restituir quando chegasse o navio.

Caíra o capitão, como já sabemos, gra- vemente enfermo, e não respondeu como

o teria feito se se achasse na inteireza do

seu juízo. Prometeu por então que falaria com os seus. Reuniu-os, pois, e disse-lhes que o rio de Lourenço Marques era aque- le mesmo em que agora se viam, segundo André Vaz, o piloto, lhe havia afirmado; que quem quisesse poderia seguir; ele, po- rém, o não podia fazer, por amor de seus filhos e de sua mulher, que vinha debili- tadíssima dos grandes trabalhos, e já sem escravas que lhe assistissem. Sua determi- nação, portanto, era acabar com sua famí- lia, quando disso fosse Deus servido. Pe- dia aos que seguissem seu caminho, e que achassem embarcação de portugueses,

que lhe trouxessem ou mandassem no- vas. Os outros ficassem, e, por onde ele passasse, passariam eles. Para sossegar os negros, todavia, e para não cuidarem que eram ladrões, seria necessário entregarem as armas. Era o que lhes cumpria agora fazer. Mandou portanto que as depuses- sem. Assim fizeram, contra vontade de alguns deles e muito mais de D. Leonor. Porém, ninguém o contradisse senão esta, ainda que de nada lhe aproveitou.

Exclamou ela então:

– Entregais as armas? Pois agora me dou eu por perdida, com toda a gente que aqui está!

Tomaram-nas os negros imediatamente, e logo as levaram para casa do rei.

Mal viram os portugueses desarmados, caíram os cafres sobre os desgraçados, apartaram-nos, bateram-lhes, roubaram- nos, arrastaram-nos por esses matos, cada um deles como lhe cabia em sorte. Che- gados às aldeias, já os levavam completa- mente despidos; e com muitas pancadas os lançavam fora.

A Manuel de Sousa, sua mulher e seus filhos, ao piloto e a umas vinte pessoas, deixaram-nos ficar na companhia do rei, porque traziam joias, pedrarias, dinheiro. Assaltaram-nos, e de tudo os roubaram. Depois, disse o rei a Manuel de Sousa que se fosse em busca dos demais compa- nheiros, que se não arriscavam a nenhum outro mal.

Os dos outros grupos se foram juntan- do. Seriam ao todo umas noventa pessoas. Muito maltratados, despojados de tudo, recomeçaram dessa forma o seu fadá- rio. Cada um, não havendo já quem os comandasse, tomou o caminho que lhe apeteceu. E muitos dos desgraçados se perderam assim.

Manuel de Sousa, com sua mulher, os meninos, o piloto, o contramestre, e alguns companheiros que com eles fica- ram, seguiram aquele grupo dos noventa náufragos.

Ao fim de dois dias, porém, tornaram os cafres, deram neles, e despiram-nos completamente.

Dona Leonor não se deixou despir, defendendo-se às punhadas e às bofeta- das; e então decerto acabaria a vida se não fossem os rogos de Manuel de Sousa, que lhe dizia que todos nascemos nus e que mostrasse resignação à vontade de Deus. Choravam entretanto os dois me- ninos, pedindo comer: e nada havia que lhes pudessem dar…

Vendo-se nua, lançou-se na areia, cobrindo-se toda com os seus cabelos, Fez uma cova e meteu-se nela. Ainda lhe deram uma mantilha rota; porém, nunca mais Dona Leonor se ergueu dali.

Os companheiros, quando a viram as- sim e ao seu bom capitão, por piedade e vergonha se afastaram um pouco. E disse ela ao piloto, com voz fraquíssima:

– Bem vedes como estamos, André Vaz. Percebeis que não podemos passar daqui; aqui acabaremos os nossos peca- dos. Ide vós embora. Fazei por vos salvar, e encomendai-nos a Deus. Se puderdes ainda chegar à Índia, – e a Portugal, em algum tempo, – contai como foi que aqui ficámos.

Eles, vendo que não lhes podiam dar socorro, lá se foram errando por esses matos, em busca de remédio para as suas vidas.

Ficaram com Manuel de Sousa e com sua mulher o contramestre do galeão e algumas escravas que os acompanhavam. Destas últimas se salvaram três, que con- seguiram chegar a Goa. Por elas se soube, mais tarde, como morreu D. Leonor.

Manuel de Sousa, ainda que maltra- tado do entendimento, não esquecia a necessidade de comer de sua mulher e de seus filhos; e, estando ainda manco de uma ferida que os cafres lhe fizeram numa perna, entrou pelo mato a buscar frutas. No regresso, achou Dona Leonor

muito enfraquecida, assim de fome como de chorar. Um dos meninos morrera já,

e por suas mãos o enterrou na areia. No

dia seguinte tornou ao mato, em busca de fruta. Quando voltou, Dona Leonor e o menino estavam mortos. Em redor, chora- vam e gritavam umas cinco escravas.

Apartando as escravas, foi sentar-se o marido junto dela, com o rosto apoiado numa mão. Esteve assim a olhá-la, por meia hora, sem chorar nem dizer palavra. Por fim ergueu-se, escavou a areia com a ajuda das servas, e enterrou-a a ela e ao seu filhinho. Todo esse tempo se conser- vara mudo.

Depois de enterrada Dona Leonor, e sempre calado, embrenhou-se no mato e desapareceu.

Os que de toda a companhia conse-

guiram salvar-se seriam uns oito por- tugueses, catorze escravos e três das escravas que acompanhavam a dama no momento da sua morte. E, andando por ali sem nenhuma esperança de chegarem

a terra de gente cristã, sucedeu que um

navio, em que ia um parente de Diogo de Mesquita, foi ter àquele rio para comprar marfim. Tendo notícia de portugueses perdidos, mandou procurá-los, resgatan- do-os pelo preço de algumas contas, que seria de dois vinténs por cada um. Em- barcaram, pois, e chegaram a Moçambi- que a 25 de Maio de 1553.

(Este relato foi redigido por autor anó- nimo, talvez sobre informações de Álva- ro Fernandes, guardião da nave, e pela primeira vez impresso cerca de 1554. Camões, em três estâncias do Canto V de “Os Lusíadas”, põe o Adamastor a profeti- zar o acontecimento.)

História trágico-marítima

Joaquim Bispo

Chama-se “História Trágico-Marítima”

à «colecção de relações e notícias de nau-

fragios, e successos infelizes, acontecidos aos navegadores portuguezes», reunida por Bernardo Gomes de Brito, e publicada em dois tomos em 1735 e 1736. Relatava 12 eventos marítimos trágicos ocorridos entre 1552 e 1602 na rota da Índia. Outros três tomos estariam previstos, mas não saíram. Mais tarde, foram compiladas outras 6 rela- ções com a mesma tipologia. Algumas das relações, sobretudo as doze originais, foram sendo reimpressas ao logo do tempo, sofren- do geralmente atualizações ortográficas, mas também depuramentos de estrutura.

Calcula-se que, na segunda metade do século XVI, uma em cada quatro naus envia-

das à Índia naufragou. As causas prendiam-se com o frenesi de ganância que atravessava

a sociedade portuguesa. No final do século

cerca de «1/4 (360.000) da população andava embarcada ou estava diretamente envolvida nos negócios da navegação». Uma só viagem podia enriquecer qualquer dos membros da expedição. O próprio aspeto dos navios e a sua qualidade náutica alteraram-se, tradu- zindo a pressão económica sobre as técnicas de construção: «O bojo das naus alargou, cresceu a altura; era preciso que a capacida- de aumentasse.» A carreira da Índia transfor- mou-se num sorvedouro de vidas e fazendas.

Se o naufrágio ocorria longe da costa,

o mar “comera a nau” e dela nada mais se

sabia. Foi a maior parte dos casos. Mas se

algum grupo de náufragos lograva salvar-se,

o relato do sucedido, quase sempre pela mão

pouco letrada dum sobrevivente, era impres- so em folhetos avulsos, criando um subgéne- ro literário característico, raras vezes cuidado

no estilo, mas sempre intenso de realismo. Aí se apontavam as causas dos naufrágios: «a largada fora da época regulada pelas normas; as excessivas dimensões e a má construção dos navios, utilizando madeiras inadequadas

e calafetagem insuficiente; o exagero das car-

gas e a sua má distribuição; as tempestades,

a deficiência das bombas de água, a carência

de velas sobressalentes; a inexperiência, a ig- norância e a incapacidade dos pilotos; os ata- ques de inimigos.» Aí «se encontram os mais extraordinários relatos das horas dramáticas do naufrágio e da dolorosa peregrinação dos escapados à morte, percorrendo léguas

e léguas através de terras» desconhecidas e

inóspitas, «tragados pelas feras, padecendo fo-

mes e sedes, traições e ataques dos indígenas,

roubados, escarnecidos, maltratados e sujeitos

a mil vexames.»

Então, «quando o ser humano tomba no abismo da desgraça e da miséria, despoja- do de todos os seus bens e inexoravelmente posto frente a frente com a morte, ele mos- tra», em plena transparência de alma: «o

orgulho, a arrogância, a cupidez, o egoísmo»,

a

mesquinhez, a barbaridade. Mas também

o

altruísmo e a renúncia, caldeando com o

heroísmo a brutalidade frequente.

A descrição direta, quase jornalística, dos

eventos funestos, carregada de realidade, emana uma força dramática que a ficção, tantas vezes salpicada de artificialismos literários, tem dificuldade em atingir. Estes relatos inclementes constituem o reverso si- nistro/sórdido da «visão épica/heroica do co- mércio, da conquista e da navegação perpe- tuados nas “Décadas” e nos “Lusíadas” e pode ser considerada como uma antiepopeia dos Descobrimentos», contribuindo talvez para

o sentir nostálgico e fatalista da alma lusa,

sensível no Fado, e «que fez dizer a Fernando Pessoa: “Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!”»

Sites consultados:

– http://purl.pt/191

– http://cvc.instituto-camoes.pt/navega-

port/f04.html

– http://www.esas.pt/jaca/docs/HTM.pdf

– http://www.bocc.ubi.pt/pag/madeira-

angelica-historia-tragico-maritima.pdf

– www.vidaslusofonas.pt/manuel_sepulve-

da.htm

Ensaio Joaquim Bispo anti-Íon Timandro: Ora vivam, Íon e Clistes! Há tempos que vos não
Ensaio
Joaquim Bispo
anti-Íon
Timandro: Ora vivam, Íon e Clistes! Há
tempos que vos não via. Por onde tendes
andado?
Clistes: E eu só perdi para o aedo de
Egina. Em onze concorrentes.
Íon: Viva! Estivemos nas festas do Epidau-
ro, onde pusemos à prova os nossos dons.
Timandro: Então estais de laurel. Fico
muito feliz, por vós. Dizei-me: o que vos fez
enveredar por essas tão belas ocupações?
Qualquer um consegue ser rapsodo ou aedo?
Clistes: Viva!
Timandro: Ah, sim; ouvi dizer que o
concurso de rapsodos é muito apreciado e
concorrido. Também há concurso de aedos?
Íon: Não, de modo algum. É o dom com
que se nasce. A excelência que ponho nas
minhas atuações e que faz chorar os que me
ouvem é um dom com que nasci.
Clistes: Sim; e dos mais importantes. Eu
concorro sempre.
Timandro: Ah, sim? Dize-me: já em crian-
ça sabias recitar Homero?
Timandro: E que tal vos saístes?
Íon: Eu venci o concurso de rapsodos.
Íon: Sim, mas só pequenos trechos. Aos
poucos é que fui dominando a extensa obra
http://www.flickr.com/photos/nemomemini/4353356112/

do génio.

Timandro: Então o dom com que nasceste era pequenino?

Íon: Sim, posso dizer que sim. Felizmente que o meu tio Perilo era um apaixonado por Homero e não descansou enquanto não me pegou o gosto. Recitava-me frequentemente as mais emocionantes passagens da Odisseia.

Timandro: Queres dizer que se não tives- ses um tio que te estimulou o gosto pelas epopeias homéricas talvez esse pequeno dom com que nasceste tivesse murchado?

Íon: Nem mais. Estou muito agradecido ao meu tio.

Timandro: De bem pouca valia é um dom

que não se usa. Imagina que nasceste com

o dom do auriga e que o deixaste estiolar.

Como saberias que tinhas nascido com ele?

Íon: Provavelmente, nunca o saberia.

Timandro: Então, é possível que nasçamos com muitos dons que não desenvolvemos e, portanto, nem deles tomamos consciência.

Íon: Assim deve ser, como dizes.

Timandro: E tu, Clistes, nasceste com o dom de fazer e cantar poesia ao som da lira?

Clistes: Depois do que disseste, creio que não; só comecei a gostar do fino vibrar das cordas da lira quando me apaixonei por

Magide, filha de Macário. Nessa altura é que

a musa se apoderou de mim.

Timandro: Então, segundo Íon, não devias ter dom, porque não nasceste com ele.

Clistes: Tenho, tenho. Componho com facilidade e toco e canto com gosto.

Timandro: Desculpai, se insisto: esse dom que, de uma maneira ou de outra, tendes é que vos levou à vitória, mas também traba- lhais para conseguir tais êxitos, presumo, ou o dom é suficiente?

Íon: Não, eu estudo incessantemente Ho- mero. É preciso conhecer o seu pensamento em profundidade e não só decorar-lhe as pa- lavras. E recito partes da Ilíada todos os dias.

Timandro: Queres dizer que nasceste com um dom que foi sendo aperfeiçoado com

trabalho!

Íon: Sim, pode-se dizer isso.

Timandro: Então, o que mais contribuiu para te levar à vitória, o trabalho que puseste no estudo ou o dom?

Íon: Ambos. O dom com que nasci – ou

que aprendi com o meu tio – forneceu-me

o

interesse pela representação das epopeias;

o

trabalho dá-me a competência no conhe-

cimento de Homero. Mas nada disto seria suficiente para empolgar a assistência se não fosse o que Clistes já referiu. Aliás, ainda ontem tive esta mesma conversa com Sócra- tes que me provou que eu estou fora de mim quando faço emocionar a audiência.

Timandro: Sócrates é sábio.

Íon: Sócrates estranhou que, falando Ho- mero, Hesíodo e outros poetas dos mesmos assuntos – guerra, relações entre os homens e destes com os deuses, e dos deuses entre si, e da genealogia dos heróis e dos deuses – eu só saiba falar e interpretar bem as palavras de Homero e não saiba nem goste de falar dos outros poetas.

Timandro: Por que achas que isso aconte-

ce?

Íon: Eu pensava que era porque Homero fala das mesmas coisas, mas muito melhor que os outros poetas, mas Sócrates conven- ceu-me de outra coisa.

Timandro: E o que disse ele?

Íon: Que se eu sei reconhecer que Homero fala melhor que os outros, mas das mesmas coisas, eu também deveria saber falar bem dos outros poetas.

Timandro: Aparentemente

Íon: Acontece que não sei falar dos outros

e aborrece-me mesmo ouvir falar deles. Ora,

Sócrates diz que isso significa que o que eu digo de Homero não advém de conhecimen- to, mas de outra causa.

Timandro: Sócrates é sábio. Não ignora, certamente, que é possível falar das mesmas coisas mas de modos totalmente distintos, as- sim como é possível representar Zeus como Fídias o fez, ou como o fazem outros esculto- res menores.

Íon: E, na verdade, Homero é inexcedível.

Timandro: Não considerou Sócrates que sempre viveste “rodeado de Homero” e que estudas Homero afincadamente e não os outros poetas, e que, por isso, é lógico que o conheças melhor e o prefiras?

Íon: Não. A interpretação dele é a de que estou possuído por uma força divina, quando o recito.

Timandro: Curioso! O caso é tal que seja necessário recorrer a explicações tão poten- tes?

Íon: Sócrates diz que a mesma musa que inspirou Homero, quando ele compôs a sua obra, transmite a sua influência para mim e de mim para a audiência.

Timandro: A musa! Sócrates é sábio, mas, como ele próprio está sempre a dizer que nada sabe, é natural que muitas vezes se tenha reconhecido em erro e se precate de equívocos futuros. De cada vez que oiço in- vocar as musas como explicação de alguma coisa humana, lembro-me sempre do mau teatro.

Íon: Como assim?

Timandro: As ações de uma peça devem estar encadeadas numa relação de causa e efeito, de modo que cada uma seja a resul- tante lógica e necessária dos acontecimentos anteriores. Uma peça assim encadeada tem verosimilhança – os espectadores reveem-se nela, como na vida. Uma má peça, pelo con- trário, quando não consegue criar desenlaces consequentes com o nó que a trama enredou, recorre ao deus ex machina, dando um fim abrupto à história, não congruente com o fio da narrativa, o que desagrada sobremaneira aos espectadores.

Íon: A mim agrada-me que, pelo menos em certos momentos, eu seja instrumento do divino.

Timandro: Isso evita-te, certamente, seres desafiado por aqueles que são da mesma opinião que Sócrates. Os que te consideram instrumento do divino poderão travar a in- veja com a desculpa de que não se consegue competir com o divino. Por um momento, vislumbrei a possibilidade de Sócrates te invejar.

Íon: Não creio. Mas os teus remoques a Sócrates é que me parece indiciarem alguma dor de cotovelo…

Timandro: Sem dúvida! Quem me dera que o meu filosofar tivesse a acutilância e a profundidade do jeito de filosofar do feioso. Mas, voltando ao nosso tema: e tu, Clistes, também sentes a possessão da musa?

Clistes: Compor poesia é deveras misterio- so. Não sei onde vou buscar as palavras e as personagens que me surgem. Acredito que é a musa que mas insufla, como num sopro.

Timandro: Dize-me!: surgem-te palavras e personagens desconhecidas?

Clistes: Não; todas as palavras são por mim conhecidas, mas aparecem-me organiza- das de uma maneira tão sensata e harmonio- sa que me surpreendo que tenha sido eu a gerá-las, naquele encadeamento. Já as perso- nagens são mais difíceis de caraterizar. Todas elas me são desconhecidas naquela forma.

Timandro: Naquela forma? Já as conheces sob outra máscara?

Clistes: Cada personagem parece-me uma mistura de outras, que conheço das epopeias; de heróis, de deuses, de homens.

Timandro: Então dirias que elas já exis- tiam em ti, como as palavras que referiste? Isso significaria que não houve qualquer “sopro” exterior e que tudo é criado no teu espírito.

Clistes: Sim, mas, nas formas e atributos com que me surgem, são-me totalmente

inesperadas.

Íon: Também me surpreendo com as palavras que saem da minha boca, quando estou no estrado. Sócrates disse que os belos louvores que teço a Homero não são devi- dos a uma techné que pudesse ser atribuída ao meu mérito, mas ao privilégio exterior concedido pela musa; que eu falo sem nada compreender. Senti-me humilhado.

Timandro: Sócrates é o mais sábio filósofo da Grécia, o que não quer dizer que não pos- sa vir a mudar de opinião em relação a al- gumas das convicções que agora mantém. Há quem diga que a imaginação é “uma amálga- ma de perceção e julgamento” e que implica sempre a presença da perceção. Não aceitas que a inspiração seja um estado de exaltação emotiva que atinge a alma do poeta que, qual tecedeira a escolher os fios coloridos de lã para compor tapetes sempre diferentes, usa um caráter deste, uma fisionomia daquele, um atributo de outro, para compor uma per- sonagem inesperada?

Clistes: Assim poderá acontecer.

Timandro: Esclarece-me uma dúvida que me assaltou agora. Se estivermos atentos e formos honestos connosco, reparamos que a genealogia dos deuses varia conforme as regiões, como Afrodite, que para uns nasceu de Zeus e Díone, e para outros é filha exclu- siva de Urano. A questão é a seguinte: nesses teus momentos de criação, já criaste algum deus ou, ao menos, modificaste os atributos de deuses ou heróis?

Clistes: Envergonho-me de o dizer, mas já. Quando não me lembro bem da história de algum, componho-a com o que me parece

Joaquim Bispo

melhor. Uma peripécia em que Dioniso é raptado por centauros foi criada por mim. E já criei um deus – Metaro – que é filho de Hefesto e que quando quer vigiar os homens incorpora nas estátuas de bronze.

Timandro: Era o que eu pensava. Não me custa admitir que Hesíodo é que criou a maior parte dos nossos deuses. Há um filó- sofo em Abdera – Demócrito – que diz que não há deuses nenhuns. No fundo, a nossa vida não se alteraria muito sem a sua exis- tência. Não há dúvida, no entanto, que tor- nam a nossa vida menos monótona e sempre nos sentimos mais acompanhados, que a solidão é funesta.

Íon: Na verdade; mas cá estamos nós, rapsodos, aedos, poetas, dramaturgos e atores para tornar a vida mais empolgante.

Timandro: Por outro lado, há um abismo entre a situação do artista que considera a sua obra manifestação de uma entidade exterior – e, portanto, nenhuma responsabi- lidade e mérito tem nela –, e a situação de outro artista que, atuando sem o pressuposto de influências metafísicas, considera a obra sua, com tudo o que isso implica: batalhar por ela, pôr nela todo o seu esforço, não se entregar à preguiça, sabendo que só o seu trabalho a fará emergir. Agora, dize-me, Íon:

preferes ser o títere manipulado por uma improvável divindade, ou o autor da admirá- vel arte que move a alma das multidões?

Íon: Se pões as coisas nesse pé…

Fonte (emulada na forma e contestada nas teses): PLATÃO, Victor Jabouille (tradução), Íon, Lisboa, Editorial Inquérito, Lda., 1988.

Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007. Integra várias coletâneas resultantes de concursos lite- rários dos dois lados do Atlântico e colabora na revista Samizdat desde o número 7.

Contacto: episcopum@hotmail.com

26 SAMIZDAT abril de 2013

“Íon”, de Platão

Joaquim Bispo

“Íon” é um pequeno livro de Platão (427 a.C. – 347 a.C.), sob a forma de diálogo. Os persona- gens são Íon, um rapsodo, isto é, um artista que vai às festividades de cada cidade, recitando poemas épicos à população, e Sócrates, o cele- brado filósofo da Grécia antiga, especialista em diálogos argutos nos quais, através de perguntas bem dirigidas, leva o interlocutor a refletir, a admitir a fragilidade das próprias opiniões, e a chegar a conclusões corretas, supostamente as teses do próprio Sócrates.

«Nos diálogos ditos “socráticos” ou da juven- tude, de que “Íon” faz parte, Platão transmite as ideias e os métodos do Sócrates histórico.» «Do ponto de vista literário e filosófico, são discus- sões filosóficas com estrutura dramática. Com Platão, adquiriram o estatuto de género literá- rio independente.»

O tema da obra “Íon” gira à volta da origem do talento na interpretação, e da inspiração na génese da poesia. Após a habitual barragem de perguntas, o próprio Íon reconhece que a excelência da sua atuação se dá por inspira- ção divina e não por qualquer arte ou ciência próprias, aceitando que também a obra do bom poeta tem a mesma origem, o que menoriza o respetivo trabalho.

Rejeitando a tese do gozo que Platão, em muitos diálogos de juventude, parece ter em «contradizer e ridiculizar as opiniões dos seus adversários», que explicação haverá para que defenda uma ideia ultrapassada pela sua época, e que validade terá a questão no nosso tempo?

Segundo Krishnamurti Jareski:

A inspiração do poeta pelas Musas é ad- mitida sem reservas pela conceção grega da poesia, mas, a partir do «século V a.C., podem ser encontradas referências explícitas ao poeta como poietés (fabricante/poeta), ou seja, pos- suidor de uma téchne.» «No tempo de Sócrates, os poetas eram denominados como sophoí (sábios), assim como os médicos, engenheiros, entre outros, e a habilidade desses poetas era compreendida como resultante de uma téchne (arte/saber fazer).» «A poesia, assemelhada ao artesanato, seria o produto final de uma ação consciente daquele que logra o adequado ajuste de palavras e sons musicais, à maneira de um

arquiteto, sendo o poeta digno de honra e respeito, por conferir imortalidade à glória dos mortais.»

«A tendência da crescente identificação do poeta como um technítes não foi capaz de erradicar o antigo retrato da poesia como uma dádiva divina, e o “Íon” de Platão deve ser visto como uma tomada de posição do filó- sofo perante essas duas conceções da poesia, que aparentam ser antitéticas.» «Platão rompe parcialmente com as tradicionais conceções de poesia da época» «sustentando a possibilidade de uma ligação direta com as Musas, capaz de anular temporariamente as faculdades intelecti- vas do homem.»

A pretensa sapiência dos poetas fora exa- minada por Sócrates, confrontando-a com a de políticos e artesãos, que também tinham reputação de sábios. Verificou, dececionado, que «os poetas eram capazes de dizer muitas coisas belas, mas eram incapazes de prestar contas do que diziam, pois nada sabiam a respeito dos assuntos de seus poemas. Falhavam em interpretar o pensamento (diánoia), que forma a essência da mensagem poética, o que indicava não ser oriunda de um pensamento inteligente. Sócrates concluiu que, assemelhados aos adivinhos e aos profetas, os poetas pronun- ciavam muitas coisas verdadeiras e belas em suas obras, mas não por sabedoria, e sim por uma espécie de disposição natural (phýsei), um estado de inspiração.»

O “Íon”, de Platão, põe em relevo a oposição entre a pretensa sabedoria do poeta e a então nascente sapiência do filósofo. A sua autentici- dade foi posta em dúvida no séc. XIX. Goethe, em particular, repele a incongruência dos tra- ços dos personagens: Íon, por um lado, de uma tacanhez inefável e, por outro, um Sócrates de uma malevolência pouco habitual.

Vincando a atualidade da questão, «a histó- ria da literatura ocidental testemunha o abismo que separa os verdadeiros poetas – capazes de, eventualmente, aliarem força de expressão a uma imensa facilidade descritiva –, daqueles cujas criações deixam transparecer o esforço para lograr fins artísticos preconcebidos.»

Principal sítio citado:

http://www.marilia.unesp.br/Home/RevistasE-

letronicas/Kinesis/20_KrishnamurtiJareski.pdf

Conto

a a

lma da Capital

Conto a a lma da Capital Henry Alfred Bugalho 28 28 SAMIZDAT abril de 2013 SAMIZDAT
Henry Alfred Bugalho
Henry Alfred Bugalho

Henry Alfred Bugalho

Henry Alfred Bugalho

28 28

SAMIZDAT abril de 2013

SAMIZDAT abril de 2013

Minha coroa quase nunca falou sobre meu pai, e eu, em respeito ao padrasto, que me criou como a um ver- dadeiro filho, também não tocava neste assunto.

Conviver não é fácil, pois às vezes magoamo-nos uns aos outros sem nem termos intenção.

No entanto, ao avisar minha mãe que me mudaria para Brasília para assumir um cargo no funcionalismo público, os olhos dela se encheram de lágrimas, ela segurou delicadamente minhas mãos entre as delas e me puxou para a sala.

— Seu pai teria orgulho de você.

— Sim, eu sei

— Promete que se cuida? Ouvi no

rádio sobre os atentados nas bancas de jornal. Os ânimos estão à flor da pele.

www.revistasamizdat.com

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29 29

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Não vá se envolver com politicagem, meu filho, nem com estes grupos radi- cais.

Eu ri, um pouco nervoso. Não en- tendia nada de política, nem me inte- ressava o comunismo, apesar de vários amigos da universidade terem levado borrachada da cavalaria em protestos. Eu não estava nem aí para o Figueiredo. A minha diversão eram os filmes do Chuck Norris, Bruce Lee e James Bond, nada muito intelectualoide, e Marx nunca havia dado as caras por minhas prateleiras. Tudo que mais me impor- tava era a minha garota, e eu estava deprê pacas por deixá-la pra trás.

— Não se preocupe, mãe — respondi,

enquanto ela me abraçava com força.

— Sabe, foi lá que conheci seu pai

— Em Brasília?!

— Sim, era um dos peões que ergueu

aquela cidade, isto, vinte anos atrás. Vindo do sertão baiano, pele queimada do sol e olhos cor de grafite. Um bai- ta homem, eu lhe digo! Daqueles que pareciam saídos das histórias de jagun- ços e cangaceiros. Muitos tinham medo dele, um sujeito calado e que nunca sorria, trabalhando incansável do nas- cer ao pôr do sol. Meu noivo e ele logo se tornaram os melhores amigos, unha e carne, como se diz. Na hora do almo- ço, eu levava a marmita para os dois no canteiro de obra e seu pai falava que, assim que juntassem um dinhei- rinho, ele e meu noivo abririam uma sociedade no Rio de Janeiro e ficariam ricos. Aquela era a época dos sonhos, meu filho, mesmo que todos nós esti- véssemos comendo o pão que o diabo amassou. É o progresso atropelando os fracos para que os fortes fiquem ainda mais poderosos. Não estou certa de quando reparei que seu pai me olhava com outros olhos, desejando-me, mas

sei que também me apaixonei por ele. Ninguém manda no coração, e todo

o jovem é capaz de fazer loucuras

quando está apaixonado. Uma manhã, seu pai me chamou num cantinho e me disse: “Quero encontrar você mais

tarde”. E foi na escuridão, no meio das obras, no esqueleto do que viria a ser

o Palácio do Planalto, que eu e seu pai

nos amamos, cheios de medo que os capatazes nos flagrassem.

— E o seu noivo?

— Não sabia de nada, a princípio.

Até que os boatos começaram a circu- lar entre os peões e a notícia chegou aos ouvidos dele. Meu noivo era pacífi-

co, um santo, não quis acreditar no que escutava. Mas, uma noite, com a pulga atrás da orelha, ele foi atrás de mim na construção e nos pegou juntos. Um rebuliço! Seu pai puxou uma peixeira

e só não matou o meu noivo porque

não deixei. Não queria nenhum morto por minha culpa, não sou assim. Juntei minhas trouxas e fui de vez pra casi- nha de seu pai. Ele e meu noivo não se falaram mais, apesar de trocarem olha-

res atravessados quando se esbarravam.

E eu morria de medo que por um ato

de vingança eles ainda se matassem. Seu pai se isolou ainda mais, todos o evitavam e ele virou um homem amar- go. Era no meu seio, na escuridão da noite, que ele sussurrava para mim que me amava e que, quando possível, cai- ríamos no mundo e seríamos felizes, como casal algum jamais foi.

E minha mãe enxugou com um len- cinho a lágrima que lhe deslizava pela face.

— Já estava tudo certo e em uma

semana partiríamos de Brasília rumo

a Salvador, onde um amigo de seu pai

havia lhe arranjado um emprego. Então

o andaime onde trabalhava meu antigo

noivo tombou. A amizade entre eles falou mais alto e seu pai correu para acudir, segurando o amigo pelo braço. “Não vou te soltar”, ele disse, mas os dois despencaram trinta metros abai- xo. Foi um milagre, muitos disseram, porque meu noivo se salvou ileso, nem um arranhão, enquanto seu pai caiu de cabeça e morreu no ato. Uma semana antes de irmos embora, dá para acredi- tar?

— E o que aconteceu depois? — per- guntei.

— Meu noivo veio e me consolou.

“Ele era um homem bom”, ele me disse, “um verdadeiro amigo”. Eu respondi:

“Estou grávida

está morto. O que será da minha vida?”. Eu chorava. Meu noivo se ajoelhou diante de mim e jurou: “Vou cuidar de você até o fim de seus dias. Confie em mim”. Parecia até cena de filme.

E o pai do meu filho

— Meu padrasto? — perguntei.

— Sim, filho, ele sempre cumpriu a promessa, nunca deixou de me amparar e, com o tempo, voltei a amá-lo como antes. Viemos para o sul, você nasceu e fomos muito felizes até agora.

A luz vermelha do entardecer atra- vessava as cortinas e iluminava o rosto de minha mãe. Era a primeira vez que transparecia a dor íntima que ela havia ocultado por tantos anos.

Henry alfred Bugalho

— E você pensa nele?

— Todo o santo dia. Nem todo o

tempo do mundo apaga o verdadeiro amor. E tem você, com o olhar pro- fundo e cinzento do seu pai, como um retrato vivo do homem que conheci vinte anos atrás. Ele era um verdadeiro brasileiro, não daqueles que usam ter- nos e fazem leis, ou que estão sentados em poltronas de couro fumando charu- tos. Era daqueles brasileiros que põem a mão na massa, que erguem os prédios de luxo nos quais jamais poderão ha- bitar, que constroem as capitais onde trabalharão os políticos que não dão a mínima pra gente simples como nós. Ele era a alma do nosso país, e morreu trabalhando para nos dar um futuro.

No ônibus, a caminho para a capital, refleti muito sobre esta história. Eu era jovem quando minha mãe me revelou este segredo e, desde então, vi o fim da ditadura, meia dúzia de presidentes passarem pelo Planalto e maracutaias e escândalos sem fim. No entanto, sem- pre que caminho pelas ruas da cidade, penso que por aquelas veias corre o sangue do meu sangue, daquela classe de heróis anônimos que são a argamas- sa do mundo, cujas insignificantes vi- tórias cotidianas jamais serão contadas nos livros de História. Como minha mãe havia dito: a alma de nosso país.

Curitibano, formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Literatura e História. Autor dos romances “O Canto do Peregrino”, “O Covil dos Inocentes”, “O Rei dos Judeus”, da novela “O Homem Pós-Histórico”, e de duas coletâ- neas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fundador da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca” e do “Nova York, Bairro a Bairro”, cidade na qual morou por 4 anos, e do “Curso de Introdução à Fotografia do Cala a Boca e Clica!”. Após uma temporada de um ano e meio em Buenos Aires e outra de oito meses na Itália, está baseado, atualmente, em Madri, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha.

http://www.flickr.com/photos/dsoltesz/3576177210/

Conto

monte do bom engano Wilson Franco
monte do bom engano
Wilson Franco

Parece que vai chover.

não me importava. Ou me importava, mas me importava como um incômodo, como se todos fossem um estorvo. Como se não entendessem nada, e se metessem em meu caminho.

Sentia isso em relação a você, também.

É triste, dói admitir, mas eu sentia. E ao

longo de todo o tempo, tudo o que soube foi de meus projetos, dos prazos e desafios, do objetivo sempre alhures, sempre tão

necessário e inadiável; e você, e seu corpo,

e sua voz, me chegavam como algo incom-

preensível, algo estranho; eu gostava – não

chegava a amar, creio que era, e talvez ainda seja incapaz de amar – gostava de tê-la comigo, mas assim que partia eu me sentia enfraquecido, como quem perdeu um tempo que não poderia perder, como quem estava sendo seduzido e tivesse de se defender.

Talvez você ficasse feliz hoje se soubes- se que eu comprei essa casa; talvez ficasse feliz se soubesse que eu me animo quando

Você adorava quando estávamos aqui e chovia, lembra? Ficava animada à espera do momento em que a chuva cessaria, quando poderíamos sentar na varanda e apreciar as cores, os sons, os cheiros.

Acho que você sabia que eu não perce- bia muito do que a encantava, não sabia?

Sabia que eu não me importava muito, e em muitos momentos estava perdido em meus pensamentos?

Eu às vezes me arrependo – olho para mim mesmo hoje e penso que deveria ter feito as coisas de forma diferente. Mas como poderia? Mesmo hoje, se me esfor- çasse muito e me pusesse na mesma situ- ação, se tentasse pensar com a cabeça que tinha à época, como poderia ser diferente?

Eu não percebia, então, que era rude. Sabia que muitas pessoas diferentes me diziam de muitas formas diferentes que eu deveria ser diferente. Disso eu sabia; mas

chove, e quando a chuva cessa eu sento à varanda e fico lá, tentando ver a beleza das cores e cheiros e sons que só você via.

Mas eu não vejo nada.

Hoje eu bati no funcionário que traba- lha aqui. Ele queria me ajudar a cuidar do gramado, pelo que eu entendi – ele fala muito rápido e quase não o entendo; sei que estava andando pelo gramado, que hoje parece um matagal, quando ele me alcan- çou. Perguntou se eu conhecia os equipa- mentos, se queria que ele ajudasse a cui- dar do gramado, talvez quisesse que eu o

pagasse para fazê-lo, não sei, sei que ele fa- lava rápido e abria o braço em um amplo gesto de “olha só essa zona” e perguntava o que eu faria, e eu dizia que estava tudo sob controle e que estava pensando no assun- to, e então ele disse que o Maurício teria cuidado do gramado já duas semanas antes

e eu lhe dei um bofetão.

Eu não sei por que dei um bofetão no

moço (eu não decorei o nome dele, sei que tem um “ides” no fim). Por que eu bati

nele?

Talvez ele vá embora, junte sua família

e deixe a casinha dele, deixe o matagal e a casa e o pomar e a varanda aos cuidados do velho louco que eu estou me tornando. Talvez seja melhor assim.

Ou talvez ele se esgueire até meu quarto pela madrugada e corte meu pescoço com seu facão.

Talvez seja melhor assim.

Acho que estou me prolongando demais; escrevi porque queria te agradecer, Bel. Passamos pouco tempo juntos, e depois de mim você certamente encontrou para si uma vida melhor, com alguém que saiba

Wilson Franco

te ouvir, saiba cuidar de você e estar ao seu lado. Alguém que saiba te querer. Mas eu queria que você soubesse – ainda que saiba que não vai saber, já que não sei se está viva ou onde mora e guardarei esta carta na gaveta quando terminá-la – que eu te queria; te queria muito. Eu só não sabia querer, e por isso me descuidava e trope- çava e trocava as coisas de seus lugares e fazia tudo errado.

Mas eu te queria, Bel; eu te queria muito.

Eu queria poder pedir desculpas ao Aristides, ou Benevides, ou Alcides; queria

dizer-lhe que não sei porque bati nele, que não sei cuidar do matagal, e também não sei porque comprei essa casa no meio do nada e deixei toda minha vida para trás. Queria dizer a ele que não sou um “doutor”

e que esses livros que entulham todas essas

caixas são só tijolos de uma fortaleza que construí de mim para mim.

Queria que chovesse, e que a chuva parasse, e eu sentasse à varanda e pudesse, ao menos uma vez, apreciar toda a bele- za do sol entre as nuvens iluminando o gramado, do cheiro da grama e das árvores molhadas, do som do vento passando entre os galhos; queria sentir isso tudo, e que isso tudo entrasse em mim e me fizesse dizer como num suspiro “como isso tudo é bonito”.

Como você dizia.

Queria, Bel, que você estivesse comigo,

e que eu pudesse, com você, sentir todo o

sentido que você me faz depois que te per- di. Queria não estar sozinho, tão sozinho.

A qualquer momento vai chover, Bel. Mas não sei se isso é muito bom.

Natural de São Paulo, cresceu em Valinhos, interior do estado, retornando à capital paulista aos 18 anos. Mestre em psicologia, atua como psicanalista, acompanhante terapêutico, pesquisador e escritor. Mantém o blog http://errancias.wordpress.com, que alimenta com produções literárias, acadêmicas e textos opinativos.

http://www.flickr.com/photos/t3mujin/1865046016/

Conto

http://www.flickr.com/photos/t3mujin/1865046016/ Conto Guilherme Canedo o morto 34 SAMIZDAT abril de 2013

Guilherme Canedo

o morto

Um homem morreu nesta ma- nhã e ouve-se daqui de casa e de todo o prédio os gritos melancó- licos da família do apartamento ao lado. Todos, inclusive eu, que- rem saber o que está acontecendo, todos sentem-se de certa forma atingidos e abalados pelos espas- mos da morte. O pensamento está vivo e a morte, como dizia minha falecida avó, que Deus a tenha, mora ao nosso lado. Os pelos do corpo arrepiam-se, certo amargo apodera-se da nossa boca quando sabemos que alguém partiu dessa pra melhor e tudo o que nos resta, acredito que como consolo, é alisar com a ponta dos dedos o velho crucifixo de prata e rezar, rezar bastante, para que Santa Rita de Cássia nos livre desse mal. Amém.

Tudo pareceu parar naquele instante de gritos e súplicas ma- tinais. O trânsito pareceu menos trânsito, o mar pareceu mais brando e o vento parou de so- car as janelas de vidro. O mundo finalmente havia respirado, puxou do fundo sua essência para se revelar vivo. Seria Deus agindo? Aquilo parecia comum, não se- ria a primeira pessoa a morrer,

Guilherme Canedo

porém aquilo era diferente, era

triste demais, pois todos rezavam

e agradeciam pelo acontecido

ocorrer do lado de lá da parede.

Eu me senti mais solitário do que de costume, tudo se torna tão instintivo quando esse perfume

de rosas mortas passa beirando pela medula. Arrepiam-se os pe- los, a alma se agita, fica mexida de liquidificador, são neblinas, silêncio e só. A gente passa a entender um pouco de tudo ou um pouco de nada ou tanto faz. O que precisamos saber mesmo

é que somos a poeira esquecida

debaixo do tapete, pode demorar, mas um dia alguém nos acha e deixa o chão limpo. É assim o princípio da vida. A eternidade que dura o tempo de um abraço, um encontro.

Eu sentia pena em saber que al- guém partiu assim tão de repente, mas o que eu podia fazer? Nada. Dizem os sábios que existe um

princípio básico pra tudo e o bá- sico de cada um é ter que sobre- viver e foi o que eu fiz. Quando

a morte veio até mim e me per-

guntou se eu gostaria de morrer, respondi-lhe: “Eu não, mas posso te indicar alguém”.

Nascido no interior do Rio de Janeiro, Miguel Pereira, 26 anos, é jornalista e químico. Mora, hoje, na capital, onde trabalha para ter o que comer no final do mês. Não sabe dizer muito sobre si próprio, mas sabe dizer muito sobre o que gosta.

http://www.flickr.com/photos/aftab/4145635080/

Conto

Rui Sota
Rui Sota

o vento que faz

as dunas

o vento que faz as dunas mudar de lugar
o vento que faz as dunas mudar de lugar

mudar de

lugar

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SAMIZDAT abril de 2013

SAMIZDAT abril de 2013

Hoje faço 41 anos e acordei assim; desconforto intenso, suores, dificul- dade em respirar, sensação de sufoco, opressão e dor no peito. Sinto tam- bém algum desequilíbrio e tonturas. Tenho medo de perder o controlo sobre os meus atos, e angústia é a palavra que mais me persegue quando procuro a resposta.

São 11 horas e chove intensamente. Espreito através do vidro da janela e o céu está escuro, parece fim do dia. O vento sopra com força. O vento, esse vento que faz as dunas mudarem de lugar.

Visto os calções e a camisola com o número 1 nas costas, calço as botas com pitons, ponho as chuteiras, agar- ro nas luvas e na bola e saio para a rua. Dirijo-me a um local descampa- do e espero pela restante equipa. Não percebo porque teimam em estacio- nar os carros perto de mim e me olham com ar estranho.

Não encontro a resposta. A respos- ta levou-a o vento.

Quando estava em casa, espreitei através do vidro e chovia. Na rua nem uma gota de água, nem uma poça, e o sol está mais quente do que quando saí. Vou-me apercebendo aos

rui Sota

poucos… olho em redor e o que pensava ser o campo de jogos é um parque de estacionamento. Um grupo de miúdos – por entre gritos e garga- lhadas – chama-me a atenção. Estou vestido de soccer, sozinho, no parque entre os carros estacionados. Sinto-me ridículo e quero regressar a casa.

Não encontro a resposta. A respos- ta levou-a o vento.

Tremo descontroladamente, enfio- me na cama e tapo a cabeça com o edredão. Cerro os olhos com força e preparo-me para o tormento da noite. Talvez o medo da morte me abando- ne.

De manhã espreito através do vidro

e está um sol radiante. Escolho um

blazer fino de algodão, pego na pasta com documentos de trabalho e saio

para a rua mas percebo que o cenário

é diferente daquele que vi da minha

janela. Chove intensamente, as pessoas

vestem gabardine e lutam de guarda- chuva em punho contra o vento.

Não encontro a resposta. A respos- ta levou-a o vento. Esse vento que faz as dunas mudarem de lugar.

Rui Sota (Lisboa, 17.Abril.1957)

Tenho uma licenciatura em psicologia clínica mas é na música que a imaginação se transforma em escrita. As minhas short stories parecem faixas de um CD de música sem tempo. São comparáveis aos andamentos de uma suíte e foram escritas ao som das 6 suítes para violoncelo de Bach.

“O vento que faz as dunas mudarem de lugar” é uma das short stories que constituem as “Doze histórias para um arco-íris que nunca apareceu nas festas de sábado à noite”, ainda não publicado.

A escrita é uma vontade antiga mas só agora chegou o momento de poder divulgar alguns dos meus trabalhos. Tenho em preparação “3 histórias que perseguem um final feliz”, que refletem um conteúdo mais elaborado e mais extenso.

http://www.flickr.com/photos/missnita/707938150/

Conto

Ébano e

marfim

http://www.flickr.com/photos/missnita/707938150/ Conto Ébano e marfim Fernanda Vier 38 SAMIZDAT abril de 2013
Fernanda Vier

Fernanda Vier

No começo era só pele. Mais que isso, era pica, amor de pica, aquele que sempre fica, frasezinha infame

mas que tem lá sua verdade. Era um negro alto forte lindo, uma coisa. Vi

e pensei na mesma hora, vou levar

esse negão pra minha cama custe o que custar. Cheguei perto da orelha dele e disse, voz sexy, estou procu- rando alguém pra preencher minha cota, quer se candidatar? Ele se virou sorrindo, me perscrutou até o dedão do pé e voltou, quantas vagas? Só uma, é pegar ou largar, respondi.

Se há quem ainda acredite na tese de que grandes amores não surgem de uma trepada casual, saiba que eu inventei a antítese. Não levou dois meses pro Roni ir morar no meu jo-

tacá. Que aliás foi todo redecorado, gastei os tubos colocando no chão

e nas paredes coisas pretas e bran-

cas, eu queria uma casa toda preta e branca, porque era a coisa mais bo- nita do mundo a minha pele bran- quíssima junto à dele escuríssima e eu quis que tudo à nossa volta tives- se esse contraste maravilhoso, uma coisa assim meio Seal e Heidi Klum, meio ebony and ivory da música de Stevie Wonder e Paul McCartney, li- ving together in perfect harmony. Eu quis até comprar um piano de cauda, mas ele não deixou, primeiro porque teríamos de escolher entre

o piano e a mesa de jantar, segun-

do porque iríamos à bancarrota. (O fato de nenhum de nós dois tocar piano não era importante.) Mas eu

estava obcecada pela ideia do pre- to e branco, estava completamente apaixonada e ficava toda arrepiada só de vê-lo entrando no meu jotacá em seus jeans desbotados e a camisa clara colada à pele marrom escura luminosa, quando eu poderia ima- ginar que ia ter um homem desses morando comigo, dormindo na mi- nha cama e me comendo toda santa noite.

Minha mãe achou a maior graça quando levei o Roni na casa dela, eu nem queria levar mas ela me incomodou tanto, como é que eu podia estar vivendo com um cara

e ela não conhecê-lo, já fazia três

meses e tal e coisa. Minha mãe é separada do meu pai e vive sozinha muito bem obrigada segundo ela mesma, já teve um que outro namo- rado porque é bonita que só vendo

e a homarada cai em cima, mas ela

raramente se interessa porque vive

sozinha muito bem obrigada. Só que daí ela vive me importunando querendo saber se estou namorando ou pelo menos dando pra alguém e principalmente de que gênero é esse alguém, mamãe morre de medo que eu vire lésbica porque ficou sabendo um dia por uma amiga minha mui- to da linguaruda que eu tive uma fase meio duvidosa em que comecei

a achar que nunca mais ia querer

saber de pau. Mas essa fase passou, isso é fato. Pensei sinceramente que

ela ia ficar orgulhosíssima em me ver com um homem como o Roni,

ela que só quer que eu seja feliz e toda aquela conversa de mãe. Toda- via eu saí de lá com uma sensação esquisita de que a dona Eleonora entendeu que eu só estava me di- vertindo com o Roni, tipo assim, entendi, enquanto tu esperas apare- cer alguém que valha a pena vais te ocupando com esse daí, nada mal, bem melhor do que ficar sozinha. Ela ficou o tempo todo com um sorrisinho no canto do lábio, mali- cioso, não olhava o Roni de frente e deu um jeito de terminar a reunião rapidinho porque tinha marcado manicure para logo mais.

Com minhas amigas não era mui- to diferente, elas me davam beliscões e piscadelas e faziam caras e bocas escondidas atrás dos cabelos, algu- mas cochichavam em meu ouvido coisas como, mas esse aí, hein, até eu, na cama deve ser um negócio. E era mesmo, mas quando eu explica- va que aquele era o relacionamento mais sério de toda minha vida elas arregalavam uns olhos gaguejantes e mudavam de assunto, como se não quisessem supervalorizar o proble- ma, que nem se faz com criança teimosa.

Seis meses morando juntos de- pois minha mãe resolveu aparecer no meu jotacá e quase caiu pra trás quando viu que tudo estava preto e branco. Menos a cara dela, que fi- cou vermelha. O que faz esse Roni, ela perguntou. Trabalha num res- taurante, eu respondi. É garçom, ela

afirmou. Não, é o gerente, rebati. Ela engasgou um pouco e disse que ge- rente de botequim qualquer um era. Eu disse que não era botequim e sim um restaurante e perguntei por que ela estava querendo saber aque- las coisas. Ela me olhou e disse que eu não podia estar levando aquilo a sério. Aquilo o quê, indaguei. Tu sabes. Não sei. Sabes sim. Não sei, não. Para de fazer isso comigo. Eu não estou fazendo nada, mamãe. Es- tás me forçando a falar. Se não falar, nunca vou saber. Tu sabes muito bem. Não sei. Sabes. Não sei, por- ra! Eu odeio palavrão. Então ótimo, porra, caralho, cacete, o que afinal tu queres, mamãezinha? Já vi que não dá pra conversar contigo, quando ficar mais calma, me avisa.

Nessa mesma semana convidei dois casais mais chegados para jan- tar no meu jotacá porque já era mais que tempo de o Roni fazer parte da turma. Preparamos juntos um monte de guloseimas e oferece- mos vinho tinto da melhor qualida- de. Eu estava extasiada porque meus amigos pareciam estar curtindo a companhia do Roni e ele a deles e eu só pensava que não queria nunca mais ficar longe desse homem. Meio bêbada eu olhava pra ele e tinha quase vontade de chorar de tanto amor que sentia, queria gritar e es- pernear pra que todo mundo sou- besse que aquele era o grande amor da minha vida, baita clichezão que eu pensava que nunca ia acontecer

comigo porque meus amores sem- pre tinham sido mais ou menos descartáveis e eu nunca tinha sofri- do muito por amor, só um pouco, nunca muito. Mas com o Roni só de imaginar que ele pudesse me deixar eu já queria cortar os pulsos.

No meio desse devaneio o mari- do da minha amiga Denise, já bem entorpecido de vinho como todos nós estávamos, bradou que nego

quando não caga na entrada caga na saída. Estavam falando do Obama, acho. Eu não estava acompanhando

a discussão. Mas nessa hora todo

mundo calou a boca e por uma infeliz coincidência o CD que es- tava tocando terminou e o silêncio ficou quase insuportável. Dava pra

sentir os corações batendo, o sangue pulsando em cada veia. Isso durou assim uns cinco segundos mas pa- receu eterno. Engraçado como as mulheres sentem vergonha por seus maridos e querem salvar situações como essa, porque foi a pobre da Denise quem primeiro tentou que- brar aquele iceberg dizendo, não é bem isso o que o Rogério quis dizer,

é só uma frase boba, praticamente

um provérbio, não significa que ele

Fernanda Vier

realmente pense dessa forma, né, Rogério? Ele concordou rindo ama- relo, imagina, é isso mesmo, não tem nada a ver. O Roni nem deu bola, ele mesmo mudou de assunto, mas nossos amigos logo se lembraram de que tinham compromissos no dia seguinte, que teriam de acordar cedo e tal, e se despediram prometendo que o próximo jantar seria na casa de um deles.

Depois de lavar a louça e limpar a sujeira do jantar, Roni e eu deitamos de costas na cama, lado a lado. Eu disse vem cá, e ele veio. Não falamos sobre aquele episódio porque real- mente não tinha importância. Éra- mos a branca e o negro e aos meus olhos não havia nada fora de lugar nisso, ao contrário, o encaixe era perfeito como nas teclas do piano. Mas para sempre seria um exercício de esquecer todo o resto.

é gaúcha e vive em Porto Alegre. É formada em Comunicação Social pela UFRGS e estuda Letras - Português e Literatura na PUCRS. Trabalha como revisora e redato- ra. É aluna da Oficina Literária do escritor Charles Kiefer desde março de 2010. Em 2012, seu conto “Heranças” tirou o 1º lugar no I Concurso Universitário de Literatura Latino-Americana, promovido pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri e pela Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvi- mento.

Conto

Casquinha de bebê Andréia Pires
Casquinha de bebê
Andréia Pires
Conto Casquinha de bebê Andréia Pires http://www.flickr.com/photos/mgstyer/6143102734/ 42 SAMIZDAT abril de 2013

http://www.flickr.com/photos/mgstyer/6143102734/

Essa história é do tipo comum, que acon- tece todo dia em algum lugar enquanto ninguém repara. O que há de relevante em relatar são os jeitos de ver, de não ver e de fazer de conta que não se viu, das pessoas envolvidas na trama. Boa parte dos casos não se comenta por aí nem em casa com os mais chegados. Todo mundo sabe, por dentro, mas não se toca no assunto em voz alta. No máximo em cantos de olhos percebe-se uma piadinha, a manifestação de desconfiança, uma confirmação. Eventualmente um caso ou outro escapa da fumaça de silêncio e respinga, vai parar nos jornais, na tevê aber- ta, causando comoção nacional e a vontade geral de barbarizar.

Mãe de segunda viagem, a Mariana sabia

exatamente o que era parir, mas estava apre- ensiva com a filha mais velha, nascida cinco anos e três meses antes. A caçula chegaria em alguns dias, bolsa do bebê organizada e

o quarto amarelo pronto para o retorno da

maternidade. Não sabia ainda quem cuidaria da Roberta durante a maratona do hospital. Queria sua mãe do lado, do pronto-socorro

à

observação, do marido fazia questão, com

o

pai e os sogros, falecidos, só poderia contar

mentalmente. Sem irmãos e parentes próxi- mos, antes de recorrer à amiga do peito e a babás, o cunhado precisava ser opção.

Um cara superlegal, o Luis. Finalmente permaneceu em um trabalho decente e há

bom tempo largou as noitadas de segunda

a segunda, e dizia andar calmo com a mu-

lherada. Queria se ajeitar e fazer família, como manda o figurino. Antes de conhecer

o marido a Mariana se encantou pelo Luis

num barzinho

na sabe que convém manter uma distância formal do cunhado, aquele querido. Pois o Luis tinha uma folga longa para tirar e seria um prazer ficar com a Roberta enquanto o resto da família esperava, in loco, a Clarissa vir à luz. Fica sossegada, cunhada. Roberti- nha e eu nos damos muito bem. Tem iogurte

Quando lembra disso, Maria-

andréia Pires

na geladeira, folhas em branco e lápis de cor, devedê da Galinha Pintadinha. Vai dar tudo certo. Mais aliviada a Mariana ficou.

Contrações e estrelas de dor. Mariana chegou ao hospital quase meio-dia de uma

quinta-feira e saiu no fim da tarde de terça. Previa parto normal, recuperação rápida, e as filhas juntinhas em dois tempos. Destino atravessado, o bebê veio de cesariana depois de quase um dia de força feita pelos corre- dores. Veio. Rosada e cheia de cabelos. Ainda bem. Já em casa, as máximas em 30 graus na região, dizia a moça da previsão do tempo,

a mãe preparava o banho da pequena com a

ajuda da Roberta. Filha, olha bem a maninha,

não deixa que ela role na cama, vou buscar

a toalha e já volto, tá? Tá. O bebê remexia as pernas no ar e tinha ainda no corpo resquí- cios da camada esbranquiçada e gordurosa típica dos que acabam de nascer.

Custou a acreditar no que viu quando

voltou ao quarto. Roberta, estás beliscando

a tua irmã? Eu não, mãe. Tô tirando a cas-

quinha. Como assim, filha? Isso é da pele da maninha, não se tira, porque dói. Some sozinho, com o passar dos dias, conforme o bebê vai crescendo e tomando banho. Tira, sim. O tio Luis explicou que é carinho. Mas acho que ele tava fazendo errado. Intrigada e antevendo o pior, Mariana quis saber. Como assim, Rô? É, assim, mãe. Ele me ensinou essa brincadeira, de tirar casquinha, mas eu não tinha casquinha nenhuma, então ele me esfregava e me ensinava a fazer esse carinho diferente. Depois era a minha vez de tirar a casquinha dele, só que ele também não tinha casquinha. Daí eu fazia igual: esfregava. Dá calor, mãe. É bom. Tu já brincou de casqui- nha? Pasma, Mariana buscou detalhes. E ele te esfregava onde, Rô? Como? Assim, mãe, aqui, ó, mostrava a filha apontando o fundi- lho das calças. Vou ensinar o tio Luis a fazer direito, mãe. Da maninha ele vai conseguir tirar a casquinha.

Nasceu em Rio Grande, cidade ao sul do Rio Grande do Sul, é jornalista, mestre em história da literatura e autora do livro de contos De solas e asas. Integra o Co- letivo Fita Amarela, colabora semanalmente com contos ao jornal Diário Popular e publica o que escreve, em primeira mão, no blog www.desolaseasas.blogspot.com.

Conto

Conto Maria de Fátima Santos A Camélia 44 SAMIZDAT abril de 2013
Maria de Fátima Santos

Maria de Fátima Santos

Conto Maria de Fátima Santos A Camélia 44 SAMIZDAT abril de 2013

A Camélia

Conto Maria de Fátima Santos A Camélia 44 SAMIZDAT abril de 2013

Maria Emília a entrar numa loja da Avenida.

A saia pregueada quase lhe tapa

a perna. Arredondara, ela que fora

esguia e magra. Ela aumentada de carnes na montra que a multiplica ao infinito.

Dezenas de si, ali espelhadas.

Mas Maria Emília não se olha. Maria Emília olha, sim, as camélias.

Flores prateadas a decorar vesti- dos.

Uma camélia simples. Uma flor de enfeitar decotes.

Um adereço caricato se o tivesse ela naquela tarde em que saía do

liceu com o caderno azul debaixo do braço. Estava fresco, e colocara por cima do vestido um casaquinho de malha vermelho abotoado até junto do pescoço com uma fiada de botões pequeninos. Nenhuma camé- lia rematando nesse dia em que fez

o exame. Distinção, estava escrito na

pauta. E ela andando sem saber para onde: o mundo a desabar e no en- tanto aquela nota grande.

Não tinha camélia, então.

Nenhuma camélia que pudesse multiplicar-se em muitas, muitas flores, um mar de flores, cada uma igual à flor que usou na noite do baile sobre o vestido azul.

Um vestido de veludo com decote largo.

Fizera-o a costureira que ia às quintas: “para os arranjos”, era como

http://www.flickr.com/photos/biggertree/5527154619/

dizia a sua mãe. Vinha sempre nesse dia, a menina Aninhas, duas fiadas de dentes pequeninos e uns óculos de míope. A costureira de- bruçava o nariz adunco sobre cada tecido. Foi ela que lhe fez o vestido que levou ao baile. O vestido de veludo a roçar-lhe os pés tinha uma camélia prateada enfeitando o deco- te. Uma flor de papel encerado com duas folhas verdes a servir de supor- te a um fecho prateado em cabeça de alfinete.

A flor ali desdobrada em dezenas, centenas, talvez milhares, e outros tantos seios sobrando de decotes redondos e bicudos e quadrados. E Maria Emília olhando as mamas que nem eram as que ela levara ao baile do liceu, essas que espreitavam mui- to tímidas no decote do vestido de veludo.

E nem naquele mar de flores havia uma camélia que fosse igual à que ela pusera nessa noite, indecisa entre colocá-la no seio ou junto ao ombro.

Não ficara em nenhuma gaveta. Nem a tinha deixado nos sacos que não couberam no fazer das ma- las. No dia em que o navio apitou no porto, Maria Emília tinha-a pre- gado no vestido verde. Nem pensava então que poderia não voltar.

Não mais tornar a ver o redondo da baía e nem mais cheirar o odor da terra e do corpo das gentes. “O cheiro do amor”, assim diria Maria Emília mais tarde. Disse-o apenas

quando percebeu o que queria dizer essa interjeição. Já se lhe engordara a perna esguia, aquela que cruza- va e descruzava, nos tempos de ser dia antes de uma coisa importante, como seja um exame ou ter sido pedida em casamento.

Maria Emília fazendo listas de convidados sentada na mesa de pau- preto, a mesma em que decorava nomes, fazia intermináveis resumos, resolvia equações.

Dezenas, centenas de mesas com um mata-borrão cor-de-rosa no tampo e os cadernos da escola. E os convites em papel rosado com um rebordo doirado em volta.

Centenas, milhares de imagens, entre um mar de camélias.

Letras e mais letras. Tintas azuis. Riscos de vermelho sublinhando. Pá- ginas e páginas de coisas que esque- ceu. Caligrafias entre si tão diversas como o podem ser as suas pernas, agora, e nos tempos em que regres- sava das matinés de cinema e ficava dançando no quarto, nua em frente do espelho. Letras redondas ou bicu- das, todas elas a sua caligrafia.

E a camélia dependurada no deco- te de um vestido que nem é de ve- ludo azul e nem é um vestido verde, mas tão só um vestido enfeitado com uma flor semelhante multipli- cada em infinito pelas leis da Física.

Nunca mais ela a recordara.

A flor de papel encerado

multiplicando-se como numa sala de espelhos de uma qualquer tenda de feira.

E ela que não entra na loja.

Ela e a camélia no decote do vesti- do verde.

Ela e a camélia no veludo azul do vestido de baile.

Ela e o mata-borrão e a mesa de pau-preto e os cadernos e as letras que escreveu.

Ela e uma flor de laranjeira diluí- da na cor de um vestido de noiva.

Ela dizendo até um dia destes sem saber que era até para sempre.

Tudo muito antes de se lhe terem arredondado pernas e ancas, e as maminhas, que lhe saem agora in- discretas de todos os decotes.

A ponta dianteira de um sapato envernizado, muito brilhante e mui- to encarnado. Mil, duas mil biquei- ras refletidas. Maria Emília olha o bico de sapato vermelho que não faz parte da história, mas está por acaso na montra da loja onde irá entrar depois de um entretanto, menos que

maria de Fátima Santos

um segundo, mais fugaz que um instante, em que olha, para além do vidro, uma camélia que decora o vestido num manequim com olhos de safira.

Um passo, e o corpo de Maria Emília aciona o sensor, e o vidro abre-se em duas metades. Ela a en- trar na loja junto com um arrepio que é o de sentir que a sua vida se cortou assim tal e qual. Um dia, a sua vida foi cortada em duas, e uma delas ficou abandonada lá num lugar tão longe, num lugar que não tem retorno.

Maria Emília ainda muito esbelta apesar dos anos, apesar dos quilos, sobretudo na anca e na barriga da perna. E nas mamas.

Maria Emília em tarde de com- pras.

Maria Emília no interior da loja pisa, com o andar preciso do tacão das botas, aquele desassossego que foi ela a olhar, através do vidro, a camélia que enfeita um vestido na montra.

Aposentada de professora de Física e Química, Maria de Fátima Marques Correia Santos, nasceu em Lagos, Portugal, em 1948. Edita poesia no seu blog tristeabsurda e prosa no blog repensando. Colabora no blog e na revista eletrónica Samizdat. Integra um grupo que realiza, em Lagos e arredores, tertúlias de literatura dita. Em 2009 pu- blicou o Papoilas de Janeiro, um livro de textos em prosa. Com poesia esparsa em vá- rios livros em co-autoria, integra os Volumes II (2007) e VII(2012) das antologias ditas Cinco Poetas de Lagos. Tem participado em concursos literários e oficinas de escrita. Em 2012 um conto seu foi selecionado pelo júri dos novos talentos FNAC literatura e está publicado por essa editora. Nos intervalos da escrita gosta de desenhar e publica alguns dos resultados dessa sua atividade no blog intimarte

http://www.flickr.com/photos/ferran-jorda/3397521923/

Conto

http://www.flickr.com/photos/ferran-jorda/3397521923/ Conto Cinthia Kriemler arremate 48 SAMIZDAT abril de 2013

Cinthia Kriemler

arremate

Escuto o uivo do cão e por um

momento quero voltar e abraçá-lo

e lhe dizer que eu também preciso

gritar. Mas se eu me virar sei que nossos olhares se encontrarão em solidão e ele vai me pedir que o leve comigo. Não posso. Não que- ro enganar o cão. Ele sabe. Lambeu tantas vezes meu rosto aguado de tristeza. Deitou-se em cumplicida- de enquanto eu maquilava de afeto as máscaras. Foi um cão fiel. Ca- minhou ao meu lado, saltou feliz, abanou o rabo e latiu à porta. Mas foi também um amigo de silêncios

prestados. Para onde vou não se leva um cão fiel. Apenas a carcaça dos erros e a pressa de esquecer o que é supérfluo: amor, decência, humani- dade. Adeus, cão. Agora que fechei

a porta entre nossos destinos, tudo

fica mais fácil. O caminho hoje está molhado. Eu prefiro assim. Não gosto quando os sapatos roubam

o pó vermelho da estrada. Nem de

deixar pegadas rasas que qualquer vento apague. Quando chove tudo é diferente. A caminhada afunda na abundância do barro e a terra se abre a um gozo de estocadas. É bom que ir seja em dia de chuva. Talvez

Cinthia Kriemler

eu também chova se ainda souber. Talvez eu tente desfazer o nó que desoxigena meu peito. Talvez eu só sinta saudade. Do armário cheio de roupas compradas para ir onde nunca fui. Da estante com santos, duendes, budas e patuás exaustos de me negar pedidos. Da risada estri- dente dos filhos que não tive. Do verde intenso roubado a uma janela aberta. De cada homem ao meu lado sob o lençol do dia seguinte. Do cão. Talvez. Mas de uma coisa tenho certeza: quero gritar entre a agonia e o livramento. Porque é bom que ir seja em som. É justo que a alma se esvazie num vômito barulhento. Até que o ritus se complete. E tudo seja paz ou nada. Antes de tanto, porém, um arremate. Preciso de alguém que me faça um último favor. É que me esqueci de mandar soltar o cão. Se ninguém abrir a porta, ele vai mor- rer sozinho. De fome, de sede, de abandono. O cão, não.

Contista, cronista e poeta. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca” (Editora Patuá, 2012). Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de contos. Mem- bro da Academia de Letras do Brasil, Seccional DF, do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Graduada e pós-graduada em Comunicação Social. Analista Legislativo na Câmara dos Deputados.

Conto

Conto a quiNta do m Eu Pai

a quiNta do m

Eu Pai

Conto a quiNta do m Eu Pai Japone Arijuane http://www.flickr.com/photos/rosino/3966868826/ 50 SAMIZDAT abril de
Conto a quiNta do m Eu Pai Japone Arijuane http://www.flickr.com/photos/rosino/3966868826/ 50 SAMIZDAT abril de
Japone Arijuane

Japone Arijuane

http://www.flickr.com/photos/rosino/3966868826/

Bem sei

E longe de aqui

Quanto me sorria

O que nunca vi!

Fernando Pessoa

Era dia

O mês era novembro, eu estava pres-

tes a entrar de férias, lá em casa não se falava nada senão a tão propalada viagem; definitivamente iria conhecer

a quinta do meu pai, que se localizava

bem lá no interior; bastava só a última reunião de chumbou-e-passou, bastava só o senhor professor diretor da turma dar seu último show, para eu e o meu pai seguirmos viagem, apesar de eu não ter dúvidas algumas sobre o resultado.

Meu pai era um homem cúmplice com a vida, senhor das suas vontades, homem de palavras e de terra; assim que havia marcado a viagem, assim deveria ser, pois teríamos que logo voltar para passar o natal em família, como era habitual. O entusiasmo da viagem não era só pela viagem em si, mas o Zeca, o trabalhador que cuidava tudo da quinta, era este a real atração da viagem. Todos na minha casa já o haviam conhecido e reconhecido o seu

mérito humorístico, seu jeito respeitoso

e guerreiro; como me contavam cómi-

cos todos os membros da minha famí-

lia; eu era o único que não tinha nada

a dizer quando o assunto era Zeca, só

por esta razão, vezes foram tantas em que mantive-me mudo na mesa do jantar – não imaginam quantas foram as vezes que comecei um jantar mudo

e acabei sem falar nada. E aquela situa-

ção era, para meu ser infantil, curiosa e bem agastadora; a curiosidade era meu nítido estado infantil naqueles dias, uma bengala talvez, na qual eu apal- pava as conversas no jantar, vivia cego de ansiedade de conhecer o tal Zeca e as suas aventuras; como contavam-me,

desde as perigosas caças de animais ferozes, as corridas no campo, até as piadas pelo seu sotaque, de como pro- nunciava diferentemente o seu Portu- guês do nosso. Lembro-me quando meu pai em pleno jantar o imitava – Padrão Chá tó bronto, bara zair –, e a gargalha- da na mesa, até eu ria, mesmo sabendo que ria de mim mesmo.

Aquela viagem era para mim a oportunidade de participar nas con- versas do jantar, de fazer parte da minha família na hora que realmente éramos uma família, unida no papo e pelo papo; como já disse, meu pai era firme e convicto, e fazia questão que naquela hora, que ele dizia ser sagrada; desligar a televisão e congregar todos:

meus dois irmãos e minhas duas irmãs, minha mãe e eu; apesar de, por esta prática severa do meu pai, a vizinhança chamar-nos nomes.

Aquele dia meu pai chegou com uma pressa fora do comum, eu que estava empolgado nos típicos afazeres dig- nos da minha idade, palpitava o meu pequeno coração; quando minha mãe chamou-me eu já estava esperando, lá fui eu, minha irmã adiantou-me – vão viajar hoje –, empolguei-me ainda mais. Minha irmã preparou-me um banho, minha mãe arrumava a nossa conjunta mala; enquanto meu pai tomava café, fui certificar se as minhas queridas botas castanhas estavam arrumadas. O carro veio até na nossa rua, como meu pai havia dito antes que iríamos de bo- leia do tio Beni; lá estava a boleia. Ain- da hoje lembro-me a ternura do beijo que minha mãe plantou-me na testa e o sorriso estampado no meu e no rosto do meu pai. Lá fomos com o motorista- tio-Beni, amigo da nossa família e de longos domingos de mukapata e fran- go a zambeziano e mucuane servido à mesa. Pelo vidro, conseguia ver meus amigos, alguns tristes, outros nem por

isso. Pelo caminho, num lugarejo cha- mado Nicoadala, meu pai comprou-me muita fruta, desde bananas, laranjas e ananases.

A quinta ficava tão longe da mi- nha cidade, eu adormeci, também pela minha curta estadia na vida. Quando despertei, aliás, meu pai acordou-me e serviu-me um quarto de frango e ba- tatas fritas e uma Coca-Cola em lata,

e meu pai disse: come logo!, logo, logo,

já lá estaremos com o tio Zeca. Aquele nome voltou a vibrar nas entranhas da minha curiosidade, fiquei em silêncio

e sorridente ia devorando a marmita

que de certeza minha mãe havia feito, deduzi pela tigela; em fração de segun- do devorei-a!, que criança resiste a um frango a zambeziana e batatas fritas, aliás, que moçambicano?!

A claridade já se extinguia, no reló-

gio eletrónico no pulso do meu pai, o ponteiro curto e grosso apontava para

o número cinco. Chiou no asfalto de

saibro, o travar dos pneus; lembro- me até hoje do cheiro a pneu frisado. Parou o Toyota Hilux. Meu pai disse:

chegamos; eu desfazendo-me da sone-

ca, não acreditei. Teríamos que andar?, quando exteriorizei a inquietação, meu pai acenou a cabeça em jeito de ne- gação. No fundo vinha um senhor de calções caqui e uma camisa de mangas muito compridas, que a cor parecia ou- trora ser branca. Meu pai despediu-se do motorista-tio-Beni, na mesma crença de voltarem a ver-se na então cidade de Quelimane; e o homem solitário que vinha do atalho chegou a nós; esboça- ram com a mão os mútuos cumpri- mentos, eu já deslumbrado pela paisa- gem, não ouvi categoricamente nada no que haviam falado. Carregou a mala

e o plástico de frutas. Lá íamos num

atalho serpenteado, na minha frente desenhava-se um espaço quase infinito, no meio dele uma casa do tipo dois,

em procissão coletiva desfilavam num

vaivém sereno seres vivos, desde gali- nhas, patos, cabritos, dois seres que não descortinava a espécie, quando a dis- tância despedia-se vi então que eram dois petizes na minha idade; os corpos nus quase que, como quem nunca havia usado uma camisa, apresentavam-se intrinsecamente parecidos com a cor vermelha do mesmo chão que pisavam. Meu pai suspirou, foi então que enten-

di

que havíamos chegado. Corri para

o

interior do quintal da casa, os dois

miúdos estalaram-se onde se encontra- vam, tímidos e atónitos olhavam para mim como quem vê o que não pode nem tocar. Lá doutro lado da casa meu pai conversava com o senhor que nos ajudou com a mala. Ecoou meu nome no poente, meu pai chamou-me.

– Vem, tira essa roupa e calça as

botas!

– Sim, pai. – Já no traje apropriado

para lambuzar, retornei ao quintal. Veio uma senhora, que logo depois se pron- tificou em fazer lume, meu pai disse:

– Esta é a tia Deolinda, a mulher do

tio Zeca. – Olhando para a recém-apre- sentada, meu pai disse: – Este é o fa- moso Emme. – A senhora que já estava alegre com a nossa presença tornou-se mais ainda.

– Pai, e o tio Zeca? – Lá vim eu com

a curiosidade que me movia.

– Já vem…

– Foi para onde?

– Já vem! – A ansiedade tomou conta

de

todos meus sentidos. Eles olhavam-

se

ironicamente sorridentes, e este cli-

ma deles deixava-me ainda mais agasta- do. Foi quando a mulher disse:

– Magi Zeca não está a si sendir pem….

– Está doente? – questionou meu pai.

– Sim

magi é aguela toensa que se

, anta com eli…

– Pai, a tia está dizer o quê? – Con-

fesso que não entendia nada do que a tal tia falava.

– O tio Zeca está com umas febres,

nada grave, até que anda mesmo assim.

*****

Já era noite; no interior a noite vem tão cedo e em compensação o dia também vem tão cedo. O sono já me castigava, nem deu para perceber a falta da televisão, das conversas no jantar, esqueci-me de tudo aquilo e fui me deitar, meu pai veio a cobrir-me e deu-me um beijo na testa. Quando a soneca emprestava-me seus dotes, ouvi vozes na sala, na qual uma delas era, sem dúvidas, do meu pai; não possuía um domínio auditivo apurado, muito menos forças para sair e confirmar, fiquei como imagino eu que as pessoas ficam nas vésperas da morte, só ouvin- do choros dos familiares ao fundo. Mas consegui ouvir que conversavam era sobre uma provável enfermidade, daí deduzi que fosse o Zeca e a sua suposta febre ambulante. E ouvia vozes naque- le sotaque no qual me dizia ser dele, o mesmo idêntico ao da tia Deolinda; neste mesmo sotaque o suposto Zeca falava incumbido de uma tamanha in- credulidade; dizia que por ali não havia médico que o curasse, seja tradicional ou moderno; nenhum deles conseguia curar sua ínfima febre. Que na semana passada havia se feito presente no posto médico, e os comprimidos que trouxe de lá não valiam nada, mesmo assim tomou-os, mas nada! Frisava e as pala- vras trilhavam nos meus ouvidos como erguidos de tédio, desespero e assom- bração.

– Patrau agui não há hosbital, aquele

toctor ali no bosto não sapi nata, nata mesmo!

As vozes sussurrando criando uma

espécie de canção de embalar nos meus ouvidos. Veio a dona Deolinda. Os dois miúdos. O tal senhor que suponho ser

o Zeca, todos de mãos dadas, trajados

de branco, eu no centro do círculo que fazia clamando cânticos, semelhantes aos que ouvia na igreja quando lá fosse com minha mãe; meu pai na varanda com uma chávena nas mãos. Em segui- da veio o tio Beni. A minha mãe. Mi- nhas irmãs. Meus irmãos. Meus colegas da escola. Ficamos todos entretidos naqueles cânticos.

– Emme… Emmerson! Acorda,

acorda! Aqui as coisas começam tão cedo, tão cedo para todos. Quando des- pertei, vi-me sorrindo. Humor que dei- xou meu pai atónito. Contei-lhe sobre

a dança e as roupas; ele riu-se, procurei saber do Zeca, ele disse:

– Come é que você sonhô com ele se não o conheces ?

Fiquei pensativo e descobri que a cara que vinha no sonho era do senhor que ajudou-nos com a mala. Quando disse ao meu pai ele riu-se ironicamen- te. Então questionei sobre as vozes on- tem na sala, ele confirmou, e se estava mesmo de febres; disse que sim, mas que ele não acreditava na cura e por esta razão não iria se curar.

– Cura-se alguém quando o mesmo

acredita? – questionei eu, lá veio a dis- sertação do meu pai:

– Filho, a fé é a fonte para o sucesso

e o segredo para qualquer mudança.

Quando temos fé atraímos energias positivas e forças suficientes para mu- dar qualquer coisa que seja. Os nossos objetivos são atingidos quando primei- ro temos fé que podemos atingir. A fé, meu filho, é o que nos move, é o que faz-nos crer que iremos passar o natal lá em casa com e em família, apesar de estarmos aqui tão longe de casa e do

tempo.

– Então, pai, porque que você não dá

fé ao Zeca, para ele curar? – Abrasou-

me e disse:

– Vamos para a sala, isto é uma questão individual !

– Mas se pai individualmente ter fé

então o senhor de caqui a chamar-me, lá fui.

– Menino vôce não pote brincar com

agueles

Levei um tempo para descodi-

ficar e

– Porque não?

– Agueles são do mado voce é ta

em fazer com que ele tenha a dita fé,

citate

Gueres basseiar? Gonhecer a

ele pode curar, não pode?

guinta?

– Pensando bem, até que sim; vamos

ver. Agora vamos matar o bicho, a dona

Deolinda já preparou qualquer coisa.

Lá fomos nós, no pequeno-almoço, a mesa recheada e ornamentada a ali- mentos sucedâneos aos que consumí- amos na cidade, típicos daquela terra, desde a mandioca, batata-doce, feijão jogo, inhame – a minha favorita –, abó- boras e muito mais; meu pai fez o chá para mim, já no meio do banquete, vi

o senhor de calças de caqui, fitei-o nos olhos, então confirmei que era o mes-

mo do sonho; – Pai

– Não se fala de boca cheia, quantas vezes vou repetir isso ?

Levava um recipiente na mão. Veio até a nossa mesa, poisou o recipiente na mesa que tinha por aí dois litros, e saiu; no interior, um líquido coagula- do de cor de leite, meu pai puxou um copo e bebeu, quando terminei o inha- me, saí correndo aos arredores da casa procurando a aquele rosto. Vi os dois miúdos do sonho trajados a mesma maneira na qual os vi ontem quando cheguei; eles chutavam uma bola feita de trapos; juntei-me e fui chutando o monte de trapos, de seguida eles pa- raram, percebi que era talvez pelas minhas botas que eles temiam que as mesmas os aleijassem. Descalcei-as e pendurei num pau que ali está espeta- do. Quando já estávamos no auge dos chuta-chuta, eu já bem sujo e assoado, os meus novos amigos puseram-se a correr, eu não entendi quando virei e vi

tio Zeca

?

– Bassar? – Aquela foi um questão

além de ingénua e inocente, pois, re- almente eu não percebia nada do que estava ele ali a dizer.

– Gonhecer a sona, antar, ver bassa-

rinhos no mado. – Aí fiz um exercício enorme e entendi. E aceitei o mais puro convite que o senhor me fazia. E ele prosseguiu:

– O Patrau sapi, ele é quem disse.

– Você é o Zeca?

– Nata

Zeca esta doente

Lá fomos, furamos a mata, no verda- deiro corta-mato, ele sempre fazendo questão de ensinar-me o nome das árvores e frutas e passarinhos que ali encontrávamos, eu comportando-me como quem é levado pela primeira vez a conhecer uma grande cidade. O ar era puro, realmente puro, eu nunca havia sentido, em toda minha tão curta vida, vontade de viver e pensei: parecia que esse lugarejo descobria-se pra mim, pois a fragrância, a fumaça é algo sem descrição qualquer. Um cenário exó- tico; trilha sonora feita de chilreares de pássaros, grilos, quando a ramagem ia roçando as verdíssimas folhas cria- va um deslumbramento jamais visto e sentido por mim, só então eu percebia porque que meu pai gostava da terra. Paramos para comer qualquer coisa; nada de hamburger, sandes e coca-cola, comemos frutas tão deliciosas que o sabor nega provável descrição. Eu nun- ca imaginara da existência de sabores

semelhantes; ali ficamos horas e mais horas, conversando e nos entendendo naquela forma de falar com melodia no sotaque. De falar como quem não quer e acaba falando tudo.

– Aquilo que o tio trouxe na mesa

do mata-bicho que parecia leite, o que

era?

– Porque dizes que parecia ?

– Porque se fosse leite de certeza ab- soluta o pai iria servir para mim!

– Menino esperto!, tens razão, era aquilo kabanga.

– Kabanga?

– Sim

Cerveja tradicional, feita por

farelo de milho, e deixada fermentar por alguns dias.

Ficamos no papo ao ar e a contem- plar o céu tão lindo por aquela parte da terra. No dia seguinte lá estava eu, entretido nos mesmos passeios, conheci a floresta e os seus segredos, os pássa- ros e os seus voos, as frutas, suas plan- tas e caroços, a terra e a sua magia, os montes e montanhas, as plantações.

****

A quinta localizava-se no Gurúè, terra do verde. Só hoje, vinte anos de- pois, sei disso e lembro-me do impacto que aquela viagem teve na minha vida, lembro-me que ali ficamos e passa- mos o natal e o ano novo, tudo porque houve uma chuva que rompeu a prin- cipal estrada, mas pra mim estava tudo bem ficar ali por aquele tempo inde- terminado; foi realmente o lado feliz da minha infância. Lembro-me hoje

Japone arijuane

de tudo como se de ontem se tratasse. Lembro-me quando chovia e a terra sorria de gengivas vermelhas e soer- guia-se do alto dos montes e timbrava

o eco do grito de liberdade da labuta

nas plantações de chá que se fazia num

silêncio absoluto e absurdo, e depois da chuva, uma fumaça que exalava a típi- ca fragrância daquele chão encarnado

a sangue e suor e misturava-se o meu

crer e fé na penitência dos seres que circundavam-me adentro da terra que me testemunhava.

Lembro que só no último dia, depois de testemunhar a conversa de despe- dida do meu pai e o senhor de calças caqui e meu companheiro de voltas ao mota, foi onde fiquei sabendo que ele, aquele homem forte, de estatura bai- xa, tão sábio e hospitaleiro, tratava-se mesmo do tal tio Zeca, e que na mesma conversa agradecia pelos comprimi- dos que meu pai havia lhe dado e que, segundo ele, o curaram de verdade. No mesmo dia esbarramos-nos no escuro da noite a dentro, a volta a Quelimane fez em imergir uma revolta dos deuses que habitavam em mim.

Hoje sei, e como sei o mágico pene- trante africano que sobrevoa a minha memória de viagem a Zambézia, de viagem a mim, de revisitar o meu lado da memória mais africano de ser o que sou.

de nome oficial Japone Matias Lourdel Caetano Agostinho, no mundo literário conhecido por Japo- ne Arijuane. Membro ativo e fundador do Movimento Literário Kuphaluxa, e da Revista Literatas onde é colunista. Além de Poeta é Contista, Romancista e Ensaísta. Zambeziano. Formando em Ciências de Comunicação, habilidades em Publicidade & Marketing, na Escola Superior de Jornalismo. “Escrevo desde que aprendi a escrever; mas, mesmo assim continuo aprendendo”.

tradução

Rashōmon

tradução Rashōmon Ryūnosuke Akutagawa trad.: Henry Alfred Bugalho 56 565656 SAMIZDAT abril de 2013

Ryūnosuke Akutagawa

trad.: Henry Alfred Bugalho

Isto ocorreu numa certa tarde. Um baixo servo estava sob o Portão Rashōmon, aguardando a chuva pa- rar. Debaixo do largo portão, não ha- via ninguém além dele. Em um dos grandes pilares circulares cuja tinta vermelha estava descascando em al- guns pontos, havia apenas uma cigarra solitária. Por o portão se localizar na Avenida Suzaku, você poderia esperar normalmente duas ou três pessoas lá, aguardando que a chuva desse uma trégua. Mas não havia mais ninguém além dele.

Veja, durante os últimos dois ou três anos ocorreu uma série de desastres em Quioto: terremotos, redemoinhos, incêndios e fome. A capital estava ruindo de muitos modos diferentes. De acordo com velhos registros, estátuas e

altares budistas foram destruídos e suas madeiras, lacadas de vermelhão e folha- das a ouro e prata, foram empilhadas nas beiras da estrada e vendidas como lenha. Desnecessário dizer que, com

a capital nestas condições, não havia

ninguém para consertar o portão e, de

fato, ninguém chegou a pensar nis- to. Tirando vantagem deste estado de

negligência, raposas e texugos passaram

a viver lá. Ladrões moravam lá. Eventu-

almente, até se tornou costumaz levar corpos não-reclamados e despejá-los lá. Então, após o pôr do sol, as pessoas ficavam assustadas e ninguém ousava pôr os pés perto do portão na escuri- dão.

Em seu lugar, um grande bando de corvos se amontoou lá. Durante o dia, incontáveis pássaros podiam ser vistos sobrevoando em círculos, enquanto cro- citavam nas altas telhas ornamentais do telhado. Eles se pareciam com sementes de gergelim espalhadas, particularmen- te quando o céu sobre o portão ficava avermelhado ao crepúsculo. Os corvos

vinham, é claro, para bicar a carne dos corpos mortos no topo do portão. Hoje,

contudo, talvez porque fosse tarde, nem um único pássaro podia ser avistado. Mas você podia ver suas titicas bran- cas, grudadas em blocos nos degraus de pedra, que estavam ruindo em alguns lugares, com longas ervas brotando das rachaduras. O servo, vestindo um qui- mono azul-marinho desbotado por ter sido lavado demais, sentou-se no sétimo

e último degrau da escadaria de pedra.

Ele assistiu à chuva a cair, enquanto brincava com uma grande espinha na sua bochecha direita, perdido nos pró- prios pensamentos.

Há pouco, escrevi, “Um baixo servo estava aguardando a chuva parar”. Con- tudo, mesmo se a chuva parasse, ainda assim o servo não teria nada para fazer. Normalmente, é claro, o esperado seria

que ele retornasse à casa de seu mestre, mas ele havia sido dispensado do servi- ço de seu mestre quatro ou cinco dias atrás. Como escrevi antes, neste tempo,

a cidade de Quioto estava se deterio-

rando de várias maneiras diferentes. Que este servo houvesse sido dispen- sado por seu mestre, que havia empre- gado-o por tantos anos, era meramente outro pequeno efeito colateral deste declínio. Então, ao invés de dizer “um baixo servo estava aguardando a chuva parar”, teria sido mais apropriado di- zer, “um baixo servo, pego pela chuva, não tinha para onde ir, e não sabia o que fazer”. O clima daquele dia servia para abalar ainda mais o humor deste servo do período Heian. A chuva ha- via começado a cair pouco depois das quatro da tarde e não dava sinais que cederia. Por ora, o principal na mente do servo era como ele ganharia a vida amanhã — como ele superaria aquela “situação desesperada”. Enquanto tenta- va organizar seus devaneios, ele ouvia

pensativamente o som da chuva caindo na Avenida Suzaku.

A chuva engolfou Rashōmon e rajadas de chuva vindas de longe açoitavam o portão com tremendo ruído. As trevas da noite gradualmente pousaram, e se você olhasse para cima, poderia pare- cer como se as grandes e tenebrosas nuvens estivessem suspensas desde a beira das telhas que se estendiam para fora do telhado do portão.

Para que ele pudesse, de alguma ma- neira, sair desta “situação desesperada”, talvez o servo tivesse de pôr de lado sua moral. Se ele se recusasse a fazer coisas que pensava serem moralmen- te questionáveis, então poderia acabar morrendo de fome sob a cobertura de um muro de barro ou na beira da estrada. Então, ele seria trazido para este portão, para ser descartado como um cão. “Se eu estiver disposto a fazer o que for necessário para sobreviver ” Seus pensamentos davam voltas em sua cabeça incontáveis vezes, e eles haviam finalmente chegado aqui. Mas este “se” sempre permaneceria uma mera hipó- tese. Pois apesar de o servo reconhecer que ele teria de fazer o que fosse para se virar, ele não tinha coragem para le- var esta sentença à sua inevitável con- clusão: “Estarei destinado a tornar-me um ladrão”.

O servo espirrou, e levantou-se pesa-

rosamente. Quioto — tão fria à noite — já estava fria o suficiente para que ele desejasse ter uma fogueira. O vento e as trevas sopravam com inclemên- cia por entre as colunas do portão. A cigarra que estava sentada na coluna vermelha havia partido há muito.

O servo contraiu sua cabeça em seu

peito, ergueu os ombros — coberto pelo

quimono azul que vestia sobre suas finas roupas interiores amarelas — e

olhou ao redor do portão. “Se houver um lugar onde eu não seria incomoda-

um lugar

onde eu não seria visto

onde aparentemente eu pudesse dormir

confortavelmente toda a noite

eu passaria a noite lá”, ele pensou. Por sorte, em seguida, ele avistou uma am- pla escadaria vermelha que conduzia à torre no topo do portão. As únicas pes- soas que ele poderia encontrar lá em cima já estariam mortas! Então, o servo, cuidadoso para que sua simples espada de punho de madeira não escorregasse de sua bainha, pisou no degrau inferior com sua sandália de palha.

do pelo vento ou pela chuva

um lugar

então,

Poucos minutos depois. Na metade da subida pela larga escadaria conduzindo ao topo da torre do portão, o homem segurou a respiração e, engatinhando como um gato, olhou cautelosamente para cima. A luz de um fogo brilhou

sobre o lado direito do rosto do ho- mem desde o topo da torre. Foi naquela mesma face com a espinha vermelha cheia de pus no meio da barbicha. O servo havia tomado por certo que todos ali em cima já estariam mortos. Mas quando ele subiu mais dois ou três degraus, viu que não somente alguém havia acendido um fogo lá, como pa- recia que moviam o lume de um lado

a outro

modo que a fraca luz amarela oscilava nas teias de aranha dependuradas em

cada canto e fenda do telhado. Um fogo

aceso

deste portão

tratava de uma pessoa comum.

O servo esgueirou-se para o último degrau da íngreme escadaria, seus pés tão silenciosos quanto os de uma la- gartixa. Ele endireitou seu corpo tanto quanto podia, esticou o pescoço o má- ximo possível e cuidadosamente espiou

Ele poderia afirmar isto pelo

nesta noite chuvosa

e no topo

Certamente que não se

dentro da torre. Como diziam os ru- mores, um grande número de corpos havia sido descartado na torre, mas o lume não era tão brilhante quanto es- perava, então ele não conseguia distin- guir quantos havia. Mesmo a luz sendo fraca, o que ele sabia era que alguns dos corpos estavam vestindo quimonos e outros estavam nus. Previsivelmente, entre os corpos havia tanto homens quanto mulheres, misturados entre os mortos. Os corpos se pareciam tanto com bonecas de barro que você pode- ria duvidar que qualquer um deles um dia houvesse vivido. Com suas bocas escancaradas e seus braços abertos, eles estavam espalhados desordenadamente pelo chão. E enquanto as partes supe- riores de seus corpos — como seus tor- sos e ombros — apanhavam um pouco da tênue luz, as partes inferiores esta- vam obscurecidas, e os corpos estava eternamente silenciosos como mudos.

O servo instintivamente cobriu seu nariz do fedor pútrido dos corpos em decomposição. Mas, no instante seguin- te, sua mão baixou de seu rosto. Uma forte emoção havia roubado quase completamente seu sentido de olfato.

Foi naquele momento que o servo primeiro vislumbrou uma pessoa aga- chada entre os corpos. Era uma ema- ciada velhinha grisalha num quimono vermelho-crepúsculo. A velha carregava uma tocha de pinho acesa e escrutina- va o rosto de um dos corpos. Julgando pelo comprimento de cabelo em certos pontos, era provavelmente o corpo de uma mulher.

Por um momento, movido por seis partes de medo e quatro partes de curiosidade, o servo se esqueceu até de respirar. Emprestando uma frase dos escritores de crônicas de antigamen- te, ele se sentiu como se “os cabelos em sua cabeça e os pelos do corpo

houvessem engrossado”. A velha fin- cou a haste da tocha no vão entre as tábuas do chão. Ela posicionou ambas as mãos na cabeça do cadáver, e como um macaco catando piolhos em sua cria, ela começou a arrancar do corpo mechas do cabelo longo, uma por uma. Os cabelos pareciam estar saindo sem muito esforço.

Cada vez que ela arrancava aqueles cabelos, o servo ficava um pouco menos amedrontado. E cada vez que ela ar-

rancava aqueles cabelos, o ódio intenso que agora ele sentia por esta mulher ficava um pouco mais forte. Não — provavelmente seja um equívoco dizer que ele a odiava, per se. Pelo contrá- rio, era uma repulsão contra todas as formas de maldade, que se fortalecia

a cada minuto. Naquele momento, se

alguém novamente levantasse a questão que o servo havia pensado sob o por- tão — se ele preferia morrer de fome ou tornar-se um criminoso — o servo quase certamente escolheria morrer de inanição, sem um grama de arrepen- dimento. Como a tocha da velha que estava cravada entre as tábuas do chão, era assim quão ardentemente o cora- ção do homem queimava contra toda a maldade.

O servo não sabia, é claro, porque

a velha estava puxando os cabelos do

corpo, então, racionalmente, ele não tinha como saber se isto era imoral ou não. Mas, para este servo, nesta noite chuvosa, no topo deste portão, puxar os cabelos de uma mulher morta era um pecado imperdoável. É claro, o servo havia se esquecido que, até muito re- centemente, ele próprio estava conside- rando tornar-se um ladrão.

O servo esticou as pernas e, subita-

mente, pulou, sem aviso, para cima das escadas. Ele correu até a mulher, sua mão na empunhadura de madeira de

sua espada. Desnecessário dizer que a mulher levou um baita susto.

Assim que a velha viu o servo, ela saltou como se ela houvesse sido dispa- rada por uma balesta.

— Você! O que está fazendo? — gritou

o servo.

Ele permaneceu firmemente no cami-

nho da velha, enquanto ela tropeçava nos corpos numa frenética tentativa de escapar. A velha tentou empurrá-

lo para o lado. Mas o servo ainda não

tinha intenção de deixá-la partir, e ele

a empurrou de volta. Por um momen-

to, os dois se engalfinharam entre os corpos, sem dizer palavra. Mas o des- fecho desta batalha era evidente desde

o princípio. No final, o servo agarrou o braço da velha e a subjugou até o chão.

O braço dela, como uma perna de

frango, era apenas pele e ossos.

— O que você estava fazendo? Bem, o

que você estava fazendo? FALE! Se você

não me contar, você receberá ISTO!

O servo empurrou a velha para longe dele e, subitamente, sacou sua espada e empunhou o pálido aço branco diante dos olhos dela. Mas a velha nada disse. As mãos dela tremiam incontrolavel- mente, seus ombros se erguiam en- quanto ela ofegava. Os olhos dela esta- vam tão arregalados que pareciam que saltariam para fora das órbitas, mas ainda assim, como uma muda, ela per- manecia obstinadamente em silêncio. Vendo isto, o servo então compreendeu que ele tinha a vida desta mulher na palma de sua mão. Quando ele consta-

tou isto, seu coração, que estava quei- mando tão ferozmente com ódio, acal- mou-se, até que tudo que restou foram

os sentimentos de orgulho e satisfação

que vêm de um trabalho bem feito. O

servo olhou de cima para a mulher, baixou o tom de voz e disse:

— Eu não sou um oficial do depar- tamento de polícia, ou algo do gênero. Sou apenas um viajante que estava passando sob o portão, alguns momen- tos atrás. Então, não vou amarrá-la ou qualquer outra coisa assim. Mas seria melhor se você me dissesse o que esta- va fazendo no topo deste portão agora mesmo.

A velha de olhos esbugalhados abriu-

os ainda mais, e encarou a face do ser-

vo. Ela olhava para ele com penetrantes olhos vermelhos de uma ave de rapina. Então, seus lábios — tão enrugados que eles eram quase uma parte de seu nariz

— se moveram, como se ela estivesse

mascando algo. Podia-se ver seu pontu- do pomo de adão movendo-se em sua garganta magra. Então, daquela gargan- ta, veio a esganiçada voz ofegante que soava como o mugido de uma vaca.

— Estou pegando este cabelo…

estou pegando o cabelo desta mulher para… Bem, pensei em fazer uma peruca.

O servo estava desapontado que a

resposta da velha fosse tão inespera- damente tola. Com o desapontamento, todos aqueles velhos sentimentos de ódio e desprezo voltaram, inundando- o. E, de alguma maneira, ele deveria ter transmitido aqueles sentimentos para a velha. Com os cabelos que ela havia roubado do corpo ainda agarrados em uma mão, ela respondeu numa ranídea voz rouca:

— Entendo. Bem, talvez seja imoral

arrancar os cabelos dos mortos. Mas

estes corpos aqui em cima — todos eles

— são somente daquele tipo de pessoas

que você não teria se importado. Na verdade, esta mulher cujo cabelo eu estava arrancando alguns momentos atrás — ela costumava cortar cobras em pedaços de doze centímetros, secá-los, e

saía para vendê-los no acampamento da guarda do príncipe coroado, dizendo que era peixe desidratado. Se ela não houvesse morrido na praga, provavel- mente estaria indo lá agora. E, ainda assim, os guardas diziam que o peixe desidratado desta mulher era saboro- so, e eles sempre o compravam para acompanhar o arroz. Eu não penso que o que ela fazia era imoral. Se ela não houvesse feito isto, teria morrido de fome, então ela fez o que tinha de fazer. E esta mulher, que compreendeu tão bem estas coisas que devemos fazer, provavelmente me perdoaria por aquilo que estou fazendo a ela também.

A velha disse algo mais ou menos

neste sentido.

O servo pôs sua espada de volta na

bainha e descansou sua mão em sua empunhadura enquanto ouvia sem simpatia a história dela. Certamente, enquanto ele ouvia, sua mão direita cuidava da espinha purulenta em sua bochecha. Enquanto ouvia a história dela, ele sentiu fortalecendo-se dentro dele a coragem que lhe havia faltado sob o portão alguns momentos antes. Ela o estava guiando na direção com- pletamente oposta da coragem que ele teve quando subiu o portão e agarrou a velha. O servo não mais debatia se deveria morrer de fome ou tornar-se um ladrão. Do modo como ele se sen- tia agora, a ideia de morrer de fome era virtualmente inconcebível.

— Isto é definitivamente verdade — o servo concordou, zombando, quando ela terminou de falar. Ele deu um passo adiante e repentinamente afastou sua mão direita da espinha. Agarrando a mulher pelo colarinho, ele disse a ela, num tom sarcástico:

— Bem, então você não me condena-

rá se eu tentar roubar suas roupas. Se

eu não fizer isto, veja bem, eu também morrerei.

O servo rapidamente despiu a mulher de seu quimono. Ela tentou agarrar-se à perna dele, mas ele a chutou violenta- mente para o meio dos corpos. A en- trada para a escadaria estava a apenas cinco passos de distância. Num piscar de olhos, o servo correu para descer pela íngreme escadaria e para as trevas, carregando o quimono vermelho-cre- púsculo debaixo do braço.

Por um instante, a velha ficou deitada lá como se estivesse morta, mas pouco tardou antes que ela erguesse seu corpo nu de entre os corpos. Resmungando, ela rastejou para as escadas, para a luz de sua tocha ainda acesa. Ela pôs a cabeça na porta da escadaria e olhou para baixo do portão, seu curto cabelo branco dependurado de cabeça para baixo. Mas, lá fora, somente as insondá- veis trevas da noite.

Para onde o servo foi, ninguém sabe.

--

O final original deste conto era: “O servo já havia enfrentado a chuva e havia se apressado para Quioto para começar a trabalhar como ladrão”.

Ele foi subsequentemente mudado para outro final com o mesmo signifi- cado.

Por fim, o final foi alterado para:

“Para onde o servo foi, ninguém sabe”.

tradução

Num

Bosque

62 62

SAMIZDAT abril de 2013

SAMIZDAT abril de 2013

Num Bosque 62 62 SAMIZDAT abril de 2013 SAMIZDAT abril de 2013 Ryūnosuke Akutagawa trad.: Henry

Ryūnosuke Akutagawa

trad.: Henry Alfred Bugalho

o depoimento de um lenhador questionado por um alto-comissário da polícia

Sim, senhor. Certamente, fui eu quem encontrou o corpo. Esta manhã, como o usual, fui cortar minha cota diária de cedros, quando encontrei um corpo num bosque numa várgea nas montanhas.

A localização exata? Por volta de

uns 150 metros para fora da estrada Yamashina. É um bosque de bambu e cedros fora do caminho.

O corpo estava estendido de bru-

ços vestido num quimono de seda azulado e uma touca com pregas do estilo de Quioto. Um único ferimento de espada havia atravessado o peito. Os caules de bambus caídos ao redor estavam manchados com salpicos de sangue.

Não, o sangue já não estava mais es- correndo. A ferida havia secado, acre- dito. E também uma mosca-varejeira estava presa lá, dificilmente notando meus passos.

O senhor me pergunta se eu vi uma

espada ou algo do gênero? Não, nada, senhor. Encontrei apenas uma corda nas raízes de um cedro próximo. E bem, além da corda, encontrei um pente. Isto é tudo. Aparentemente, ele deve ter lutado antes de ser assassi- nado, porque a grama e os caules de bambu caídos haviam sido pisoteados por todos os lados.

“Um cavalo por perto?” Não, senhor. É difícil o bastante para um homem entrar, ainda mais para um cavalo.

http://www.flickr.com/photos/torek/7147799255/

www.revistasamizdat.com

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o depoimento de um monge budista

viajante questionado por um alto- comissário da polícia

A hora? Sem dúvida, foi por volta

do meio-dia, senhor. O desafortunado homem estava na estrada de Sekiya- ma para Yamashina. Ele andava em direção a Sekiyama com uma mulher acompanhando-o a cavalo, que, desde então, descobri ser a esposa dele. Um lenço pendendo do cabelo dela escon- dia a vista de seu rosto. Tudo que vi foi a cor de suas roupas, um vestido lilás. Seu cavalo era um alazão com uma bela crina.

A altura da dama? Oh, por volta de

um metro e trinta e cinco. Como sou um monge budista, reparei pouco nos detalhes dela. Bem, o homem estava armado com uma espada, bem como

um arco e flechas. E eu me lembro que ele carregava mais ou menos umas vinte flechas na aljava.

Jamais poderia esperar que ele se depararia com tal destino. Verdadei- ramente a vida humana é tão evanes- cente como o orvalho da manhã ou um relâmpago. Minhas palavras são inadequadas para expressar meus pe- sares por ele.

o depoimento de um policial

questionado por um alto-comissário da

polícia

O homem que prendi? Ele é um no-

tório bandoleiro chamado Tajomaru. Quando eu o prendi, ele havia caído de seu cavalo. Ele estava gemendo na ponte em Awataguchi.

A hora? Era nas primeiras horas da

noite passada. Para os registros, pos- so dizer que no dia anterior eu havia

tentado prendê-lo, mas infelizmente ele escapou. Ele estava vestindo um quimono de seda azul-escura e uma grande espada sem adornos. E, como o senhor percebe, ele conseguiu em algum lugar um arco e flechas.

Você diz que este arco e estas fle- chas se parecem com aqueles que pos- suía o homem morto? Então Tajomaru deve ser o assassino. O arco preso com tiras de couro, a aljava preta laqueada, as dezessete flechas com penas de falcão — tudo isto estava em sua posse, creio.

Sim, senhor, o cavalo é, como o senhor diz, um alazão com uma bela crina. Um pouco adiante da ponte encontrei o cavalo pastando à beira da estrada, com suas longas rédeas pendendo. Certamente, foi um ato da Providência ele ter sido derrubado pelo cavalo.

De todos os ladrões rondando Quioto, este Tajomaru é o que mais tem dado pesares às mulheres da cidade. No último outono, uma es- posa que vinha para a montanha da Pindora do Templo Toribe, presumi- velmente para pagar uma reverência, foi assassinada, junto com uma garota. Suspeitou-se que foi perpetrado por ele. Se este criminoso assassinou o homem, você não poderia imaginar o que foi feito com a esposa do homem. Faça favor, senhor, em investigar este problema também.

o depoimento de uma velha questionada por um alto-comissário da polícia

Sim, senhor, aquele cadáver é o homem que desposou minha filha. Ele

não vem de Quioto. Era um samurai na cidade de Kokufu, na província de Wakas. Seu nome era Kanazawa no Takehiko, e tinha vinte e seis anos. Ele era de uma disposição gentil, então estou certa que ele nada fez para pro- vocar a raiva dos outros.

Minha filha? O nome dela é Ma- sago, e tem dezenove anos. Ela é uma jovem espirituosa e alegre, mas es- tou certa que ela nunca conheceu outro homem excetuando Takehiko. Ela tinha uma pequena face oval, de compleição escura, com uma pinta no canto de seu olho esquerdo.

Ontem, Takehiko partiu para Wakasa com minha filha. Que má sorte que tais coisas tenham tido tal final infeliz! O que aconteceu com mi- nha filha? Estou resignada em dar por perdido meu genro, mas o destino de minha filha me deixa doente de pre- ocupação. Por tudo que há de mais sagrado, não deixe de olhar sob uma única pedra para encontrá-la. Odeio o ladrão Tajomaru, ou como for o nome dele. Não apenas meu genro, mas mi-

nha filha

foram afogadas pelas lágrimas.)

(As últimas palavras dela

Confissão de Tajomaru

Eu o matei, mas não a ela.

Para onde ela foi? Não saberia dizer. Ó, espere um minuto. Nenhuma tor- tura me fará confessar o que não sei. Agora que as coisas chegaram a este ponto, não esconderei nada de você.

Ontem, um pouco depois do meio- dia, encontrei aquele casal. Exata- mente quando uma lufada de vento soprou e ergueu o lenço dela, en- tão tive um vislumbre de seu rosto.

Instantaneamente, ele foi coberto novamente. Esta pode ter sido uma razão; ela se parecia com Bodhisattva. Naquele momento, tomei a decisão de capturá-la, mesmo se tivesse de matar seu homem.

Por quê? Para mim, matar não é uma questão de muita consequência quanto você deve pensar. Quando uma mulher é capturada, seu homem tem de ser morto, de qualquer manei- ra. No assassinato, uso a espada que carrego comigo. Acaso sou o único que mata pessoas? Você, você não usa suas espadas. Você mata pessoas com seu poder, com seu dinheiro. Às vezes, você as mata com o pretexto de traba- lhar para o bem delas. É verdade que elas não sangram. Elas estão no ápice de suas saúdes, mas você as mata da mesma maneira. É difícil dizer quem

é o pecador maior, se é você ou se sou eu. (Um sorriso irônico.)

Mas seria bom se eu pudesse captu- rar a mulher sem matar seu homem.

Então, tomei a decisão de capturá-la,

e fazer o meu melhor para não matá-

lo. Mas isto estava fora de cogitação na estrada Yamashina. Então, tratei de atraí-los para as montanhas.

Foi bastante fácil. Tornei-me com- panheiro de viagem deles, e lhes disse que havia um outeiro na montanha acima, que eu o havia escavado e en- contrado muitos espelhos e espadas. Prossegui dizendo-lhes que havia en- terrado as coisas num bosque atrás da montanha, e que gostaria de vendê-las por um baixo preço a qualquer um que se importasse em tê-los. Então você vê, a ganância não é terrível? Ele estava começando a ser convencido por minha lábia sem dar-se conta disto. Em menos de meia hora, eles

estavam conduzindo seu cavalo para a montanha comigo.

Quando chegamos diante do bos- que, eu lhes disse que os tesouros estavam enterrados nele, e pedi a eles que viessem conferir. O homem não teve objeções, ele estava cego pela ganância. A mulher disse que aguar- daria montada no cavalo. Era natural que ela dissesse isto, ao ver o denso bosque. Para dizer-lhe a verdade, meu plano havia funcionado como eu desejava, então entrei no bosque com ele, deixando-a sozinha para trás.

O bosque é somente de bambus por um bom trecho. Uns quarenta metros adiante havia um souto de cedros. Era um ponto conveniente para meu propósito. Abrindo caminho através do bosque, eu lhe disse uma mentira plausível que os tesouros estavam en- terrados debaixo dos cedros. Quando lhe falei isto, ele abriu seu laborioso caminho para o cedro esguio visível através do bosque. Após um tanto, os bambus rarearam, e chegamos onde o número de cedros crescia numa car- reira. Assim que pisamos lá, agarrei-o pelas costas. Por ele ser um guerreiro treinado, portador de uma espada, ele era bastante forte, mas foi pego de surpresa, então não havia salvação para ele. Logo, eu o amarrei às raízes de um cedro.

Onde consegui uma corda? Feliz- mente, por ser um ladrão, eu tinha uma corda comigo, pois preciso de uma para escalar um muro a qual- quer momento. É claro que foi fácil impedi-lo de gritar enchendo a boca dele com folhas caídas de bambu.

Quando me livrei dele, fui até sua mulher e pedi a ela que viesse e o visse, porque ele parecia ter ficado

subitamente doente. Desnecessário dizer que este plano também funcio- nou bem. A mulher, sem o seu chapéu de palha, veio para dentro do bosque, para onde eu a conduzi pela mão. No instante em que ela avistou seu ma- rido, ela sacou uma pequena espada. Eu nunca havia visto uma mulher de temperamento tão violento. Se eu

estivesse desprevenido, teria recebido um golpe no meu flanco. Esquivei-me, mas ela continuou desferindo golpes contra mim. Ela poderia ter me ferido profundamente ou me matado. Mas eu sou Tajomaru. Consegui desarmá-

la da pequena espada sem sacar a

minha. A mulher mais espirituosa é indefesa sem uma arma. Finalmente, eu poderia satisfazer meu desejo por ela sem tirar a vida de seu marido.

Sim

sem tirar a vida dele. Eu não

queria matá-lo. Eu estava prestes a sair correndo do bosque, deixando para trás a mulher em prantos, quando ela agarrou freneticamente meu braço. Em rotos fragmentos de palavras, ela

me pediu para que seu marido ou eu morresse. Ela disse que era pior do que a morte ter suas vergonhas conhe- cidas por dois homens. Ela grunhiu que queria ser a esposa daquele que sobrevivesse. Então, um desejo furioso de matá-lo me dominou.

(Sombria excitação.) Contando-lhe desta maneira, sem dúvida devo pa- recer mais cruel do que você. Mas

isto porque você não viu o rosto dela. Especialmente seus olhos incendia- dos naquele momento. Assim que a

vi olho no olho, eu queria fazer dela

minha esposa mesmo se fosse para ser atingido por um raio, como você poderia imaginar. Naquela hora, se eu não tivesse outro desejo além da

luxúria, certamente eu a teria nocaute- ado e fugido. Então, não teria mancha- do minha espada com sangue. Mas, no momento que encarei o rosto dela no bosque escuro, decidi não partir sem matá-lo.

Mas eu não queria recorrer a mé- todos injustos para matá-lo. Eu o desamarrei e disse-lhe para duelar comigo. (A corda que foi encontra- da nas raízes do cedro é a corda que derrubei naquela hora.) Furioso com

raiva, ele sacou sua grossa espada. E rápido como pensamento, ele preci- pitou-se ferozmente contra mim, sem dizer uma palavra. Não preciso lhe dizer como a luta se desenrolou. O

vigésimo-terceiro golpe

lembre-se disto. Ainda estou impres- sionado com este fato. Ninguém sob o sol jamais chocou espadas comigo por vinte golpes. (Um sorriso jubiloso.)

Quando ele caiu, eu me virei para ela, baixando minha espada ensan- guentada. Mas, para minha grande surpresa, ela havia desaparecido. Tentei imaginar para onde ela teria fugido. Procurei por ela no souto de cedros. Escutei, mas ouvi apenas o som dos gemidos da garganta de um homem morrendo.

Assim que começamos a duelar, ela deve ter corrido pelo bosque para chamar por ajuda. Quando pensei nisto, decidi que era questão de vida ou morte para mim. Então, rouban- do a espada dele, o arco e as flechas, corri para a estrada da montanha. Ali, encontrei o cavalo dela pastando si- lenciosamente. Seria um mero desper- dício de palavras dizer-lhe os detalhes posteriores, mas antes de entrar na cidade eu já havia me desfeito da es- pada. Esta é toda minha confissão. Sei

por favor,

que minha cabeça será suspensa em correntes de qualquer maneira, então me imponha a penalidade máxima. (Uma atitude desafiadora.)

A confissão de uma mulher que veio até o templo Shimizu

Aquele homem no quimono de seda azul, depois de me forçar a entregar- me a ele, riu sarcasticamente enquan- to olhava para meu marido amarrado. Quão horrorizado devia estar meu marido! Mas não importava quan- to ele debatia-se em agonia, a corda feria-o ainda mais. A despeito de mim, corri cambaleante para o lado

dele. Ou melhor, tentei correr até ele, mas o homem instantaneamente me nocauteou. Somente naquele momen- to vi uma luz indescritível nos olhos de meu marido. Algo que não pode

ser exprimido

calafrios ainda agora. Aquele olhar instantâneo do meu marido, que não podia falar uma palavra, revelou-me todo seu coração. O brilho nos olhos dele não era de raiva nem de pesar apenas uma luz fria, um olhar de aversão. Mais atingida por seu olhar

do que pelo golpe do ladrão, eu gritei

os olhos dele me dão

e

caí inconsciente.

No decorrer do tempo, voltei a mim

e

descobri que o homem em seda azul

havia partido. Vi apenas meu mari- do ainda preso às raízes do cedro. Ergui-me das folhas de bambu com

dificuldade e olhei no rosto dele; mas

a expressão em seus olhos ainda era a mesma de antes.

Subjacente ao frio desdém em seus

olhos, havia ódio. Vergonha, pesar e

raiva

Não sei como expressar meu

coração naquela hora. Titubeando de pé, fui até meu marido.

— Takejiro — eu disse a ele — como

ocorreram tais coisas, não posso viver

com você. Estou determinada a mor-

rer

Você viu minha vergonha. Não posso deixá-lo viver assim.

Isto foi tudo que consegui dizer. Ele continuou me encarando com aversão e desprezo. Com meu coração despe- daçado, procurei pela espada dele. Ela devia ter sido pega pelo bandido. Nem sua espada nem o arco e as flechas podiam ser vistas no bosque. Mas felizmente havia uma pequena espada aos meus pés. Erguendo-a sobre mi- nha cabeça, eu disse uma vez mais:

— Agora me dê sua vida. Eu o se- guirei logo após.

Ao ouvir estas palavras, ele moveu os lábios com dificuldade. Como sua boca estava cheia de folhas, é claro que sua voz não podia ser ouvida. Mas, num vislumbre, compreendi suas palavras. Desprezando-me, seu olhar apenas dizia, “mate-me”. Nem cons- ciente ou inconscientemente, cravei a pequena espada através do quimono lilás em seu peito.

Novamente, nesta hora, devo ter desmaiado. Quando consegui olhar para cima, ele já havia dado seu úl- timo suspiro ainda amarrado. Um

feixe de tênue luz do sol resplandeceu através do souto de cedros e bambus, iluminando seu rosto pálido. Engolin- do meus soluços, desamarrei a corda

de seu corpo morto. E

teceu comigo depois não tenho mais forças para contar-lhe. De qualquer modo, eu não tinha forças para mor- rer. Cortei minha própria garganta com a pequena espada. Lancei-me no

mas você deve morrer também.

o que acon-

lago ao pé da montanha, e tentei me matar de várias maneiras. Incapaz de tirar minha própria vida, ainda vivo em desonra. (Um sorriso solitá-

rio.) Insignificante como sou, devo ter sido esquecida até pelo mais piedoso como Kwannon. Matei meu próprio marido. Fui violentada pelo bandido.

O que posso fazer? O que eu pos-

so… Eu… (Gradualmente, soluços violentos.)

a história do homem assassinado, como foi narrada através de um médium

Depois de violentar minha espo- sa, o ladrão, sentando ali, começou a

proferir palavras reconfortantes a ela.

claro que eu não podia falar. Todo

meu corpo estava amarrado com for-

ça na raiz de um cedro. Mas, ao mes-

mo tempo, eu piscava para ela muitas vezes, como se dissesse “não acredite

no ladrão”. Eu queria passar tal senti- do a ela. Mas, minha esposa, sentada deprimida nas folhas de bambu, fitava

o próprio colo. Aparentemente, ela

escutava as palavras dele. Eu agoni- zava pelos ciúmes. Enquanto isso, o ladrão prosseguia com sua lábia as- tuta, de um assunto a outro. O ladrão fez, finalmente, sua ousada proposta indecorosa.

— Como sua virtude foi manchada, você não se dará mais bem com seu marido, então por que não se tornar minha esposa, ao invés disto? Foi meu amor que me fez ser violento com você.

Enquanto o criminoso falava, minha esposa erguia o rosto como num tran- se. Ela nunca pareceu tão linda como naquele momento. O que minha bela

É

esposa respondeu a ele enquanto eu

estava sentado preso ali? Estou perdi- do no espaço, mas nunca pensei na resposta dela sem queimar com raiva

e ciúmes. Verdadeiramente, ela disse:

— Leve-me com você aonde quer que você vá.

Este não é todo o pecado dela. Se isto fosse tudo, eu não estaria tão atormentado nas trevas. Quando ela estava partindo do bosque como se estivesse num sonho, sua mão na do ladrão, ela empalideceu subitamente, apontou para mim amarrado na raiz do cedro e disse:

— Mate-o! Eu não posso desposá-lo enquanto ele viver.

“Mate-o!”, ela gritou muitas vezes, como se houvesse enlouquecido. Mes- mo agora estas palavras ameaçam arremessar-me de cabeça no abismo

sem fundo das trevas. Acaso tal odio- sa coisa já saiu de uma boca humana antes? Acaso tais palavras malditas já atingiram o ouvido humano, uma vez sequer antes? Mesmo uma vez

tal como

nio.) Diante destas palavras, o ladrão empalideceu. “Mate-o”, ela gritava, agarrando-se ao braço dele. Olhando-

a demoradamente, ele não respondeu

sim nem não

derar sobre a resposta dele antes que ela fosse nocauteada sobre as folhas

de bambu. (Novamente, um grito de escárnio.) Ele cruzou os braços em silêncio, olhou para mim e disse:

— O que você fará com ela? Você a

matará ou a salvará? Você tem apenas

de menear a cabeça. Matá-la? — so- mente por estas palavras eu poderia perdoá-lo por seu crime.

(um súbito riso de escár-

mas pouco pude pon-

Enquanto eu hesitava, ela berrou e

correu para as profundezas do bosque. O ladrão instantaneamente tentou agarrá-la, mas fracassou até mesmo em apanhar as mangas dela.

Depois de ela ter fugido, ele pegou minha espada e meu arco e flechas. Com um único golpe, ele cortou uma das minhas amarras. Lembro-me de seus resmungos, “meu destino é o próximo”. Então, ele desapareceu no bosque. Tudo ficou em silêncio depois disto. Não, escutei alguém choran- do. Desatando o restante de minhas amarras, ouvi com atenção, e percebi que era do meu próprio choro. (Longo silêncio.)

Ergui meu corpo exausto da raiz do cedro. Diante de mim estava a peque- na espada que minha esposa havia deixado cair. Eu a peguei e a cravei em meu peito. Uma golfada de sangue subiu até minha boca, mas não senti dor alguma. Quando meu peito co- meçou a esfriar, tudo estava silencioso como os mortos em suas covas. Que silêncio profundo! Nem um único cantar de pássaros podia ser ouvido no céu sobre esta cova no vale das montanhas. Apenas uma luz solitá- ria errava nos cedros e na montanha. Pouco a pouco, a luz se tornou gradu- almente mais tênue, até que os cedros e o bambu desapareceram da vista. Deitado lá, fui envolvido num profun- do silêncio.

Então, alguém se aproximou de mim. Tentei ver quem era. Mas as tre- vas já haviam me envolvido. Alguém este alguém tirou delicadamente a pequena espada do meu peito em sua mão invisível. Ao mesmo tempo, mais sangue fluiu para minha boca. De uma vez por todas, mergulhei nas trevas do espaço.

Ryunosuke Akutagawa (Akutagawa Ryu- nosuke); (1 de março de 1892 - 24 de julho de 1927) foi um escritor japonês ativo no Japão durante o período Taishô. Ele é considerado o “Pai do conto japonês”, e é famoso por seu estilo e suas histórias ricas em detalhes que exploram o lado negro da natureza humana. Cometeu suicídio aos 35 anos de overdose de veronal.

Ryunosuke Akutagawa nasceu no distrito Kyôbashi de Tóquio, a terceira criança e único

filho de Toshizô Niihara e Fuku Niihara (nasci- da Akutagawa). Ele recebeu o nome de “Ryuno- suke” (“Filho Dragão”) porque supostamente ele nasceu no Ano do Dragão, no mês do Dragão, no Dia do Dragão, e na Hora do Dragão. Sua mãe enlouqueceu logo após seu nascimento,

e ele foi adotado e criado por seu tio mater- no, Akutagawa Doshô, de quem ele recebeu

o nome de família Akutagawa. Ele mostrou

interesse por literatura chinesa clássica desde a mais tenra idade, bem como pelos trabalhos de Mori Ôgai e Natsume Sôseki, ambos populares durante sua infância.

Ele entrou na Primeira Escola Superior em 1910, tornando-se colega de Kan Kikuchi, Kume Masao, Yamamoto Yuzô e Tsuchiya Bun- mei, todos os quais futuramente tornar-se-iam autores famosos. Ele começou a escrever ao entrar na Universidade Imperial de Tóquio em 1913, onde estudou literatura inglesa.

Quando ainda estudante ele propôs casa- mento a uma amiga de infância, Yayoi Yoshi- da, mas sua família adotiva não aprovou a união. Em 1916 ele contraiu núpcias com Fumi Tsukamoto, com quem casou em 1918. Tiveram três filhos: Hiroshi Akutagawa (1920- 1981) foi um ator famoso, Takashi Akutagawa (1922-1945) foi morto quando era um recruta estudante na Birmânia, e Yasushi Akutagawa (1925-1989) um compositor famoso.

Após sua graduação ele ensinou por um curto período na Escola de Engenharia Naval em Yokosuka, Kanagawa como um instrutor de língua inglesa, antes de decidir dedicar-se exclusivamente à escrita.

Carreira literária

Em 1914, Akutagawa e seus amigos da es- cola reanimaram o jornal literário Shinshichô (“Novas Correntes de Pensamento”), publicando traduções de William Butler Yeats e Anatole France junto com seus próprios trabalhos.

Akutagawa publicou seu primeiro conto Rashomon no ano seguinte na revista literária Teikoku Bungaku (“Literatura Imperial”), quando ainda um estudante. A história, baseada num conto do século XII, com um profundo drama psicológico, foi em grande parte descartado pelo mundo literário, com exceção do famo- so autor Natsume Sôseki. Encorajado por este apoio, Akutagawa considerou-se a partir de então discípulo de Sôseki, e começou a visitar o

autor nas suas reuniões do seu círculo literário que ocorria toda quinta-feira. Foi também nesta época que ele começou a escrever haiku sob o haigo (nome literário) Gaki.

Estas reuniões o levaram a escrever Hana (“O Nariz”, 1916), que foi publicado no Shinshi- cho, e novamente louvado por Sôseki. Aku- tagawa seguiu com uma série de contos am- bientados no Japão do período Heian, período Edo e iní