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SAMIZDAT

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15
abril 2009 ano II ficina
abril
2009
ano II
ficina

Prometeu

e o mito da criação da Mulher

SAMIZDAT 15

abril de 2009

Edição, Capa e Diagramação:

Henry Alfred Bugalho

Revisão Geral

Joaquim Bispo

Assessoria de Imprensa Mariana Valle

Autores Carlos Alberto Barros Dênis Moura Giselle Natsu Sato Guilherme Rodrigues Henry Alfred Bugalho Joaquim Bispo José Espírito Santo Léo Borges Marcia Szajnbok Maria de Fátima Santos Mariana Valle Maristela Scheuer Deves Volmar Camargo Junior

Autores Convidados Tulio Rodrigues

Textos de:

Henriqueta Lisboa Hesíodo Machado de Assis

Imagem da capa:

http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/

baburen/prometheus/prometheus.jpg

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Editorial

Mês passado, nós, da Revista SAMIZDAT adotamos uma estratégia de divulgação mais agressiva, o que nos fez atingir um público mais amplo e nos forneceu, pela primeira vez, alguns depoimentos para a Seção do Leitor. Como é sempre feito tendo em vista este nosso leitor, este esforço é recompensado com a certeza de que, aos poucos, o temos cativado ao apresentarmos que há de melhor na Literatura, em língua portuguesa e estrangeira, e também o excelente trabalho desta nova geração de escritores que aci- dentalmente se encontrou na internet. Esta estratégia de divulgação continuará em vigor, man- tendo o verdadeiro espírito das samizdats, que é circular de mãos em mãos, propagando aquilo que merece, ou precisa, ser lido. E também é com grande satisfação que anunciamos a par- ticipação fixa da escritora carioca Mariana Valle, que chegou cheia de energia e já assumiu a assessoria de imprensa da Revista SAMIZDAT.

Henry Alfred Bugalho

Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.

Todas as imagens publicadas são de domínio público, royalty free ou sob licença Creative Commons.

Os textos publicados são de domínio público, com consenso ou autorização prévia dos autores, sob licença Creative Com- mons, ou se enquadram na doutrina de “fair use” da Lei de Copryright dos EUA (§107-112).

As idéias expressas são de inteira responsabilidade de seus autores.

Sumário

Sumário Por quE Samizdat? 6 Henry Alfred Bugalho SEção do LEitor 8 ComuNiCado Samizdat Especial -
Sumário Por quE Samizdat? 6 Henry Alfred Bugalho SEção do LEitor 8 ComuNiCado Samizdat Especial -
Sumário Por quE Samizdat? 6 Henry Alfred Bugalho SEção do LEitor 8 ComuNiCado Samizdat Especial -

Por quE Samizdat?

6

Henry Alfred Bugalho

SEção do LEitor

8

ComuNiCado Samizdat Especial - Humor

10

ENtrEViSta marcos Fernando Kirst

12

miCroCoNtoS

Marcia Szajnbok

18

Henry Alfred Bugalho

18

Carlos Alberto Barros

20

Volmar Camargo Junior

20

Joaquim Bispo

21

rEComENdaçÕES dE LEitura

milorad Pávitch, o engenhoso

22

Henry Alfred Bugalho

autor Em LÍNGua PortuGuESa Frei Simão

24

Machado de Assis

Henriqueta Lisboa: o modernismo remodelado pela timidez

32

CoNtoS duas mulheres, duas Estradas

36

Carlos Alberto Barros

a como está o carapau

40

Maria de Fátima Santos

Chave de ouro 42   Volmar Camargo Junior o atraso da Primavera 44 Joaquim Bispo
Chave de ouro 42   Volmar Camargo Junior o atraso da Primavera 44 Joaquim Bispo
Chave de ouro 42   Volmar Camargo Junior o atraso da Primavera 44 Joaquim Bispo

Chave de ouro

42

 

Volmar Camargo Junior

o

atraso da Primavera

44

Joaquim Bispo

a Busca

48

 

Henry Alfred Bugalho

Piso 23

50

 

José Espírito Santo

o

anômalo

54

Léo Borges

o

amor segundo o Ódio

57

Léo Borges

tentativas de Existência

57

 

Léo Borges

Jogo da memória

58

 

Marcia Szajnbok

o

admirador - Parte 1: as coroas

60

Maristela Deves

autor CoNVidado Sonetos

62

 

Tulio Rodrigues

tradução

 

Hesíodo e a vida do homem comum

64

 

Henry Alfred Bugalho

o

mito de Prometeu - teogonia

66

Hesíodo

tEoria LitErÁria

 

a

arte de trair

70

Henry Alfred Bugalho

CrÔNiCa

Nós, mulheres, as eternas insatisfeitas

74

Maristela Scheuer Deves

 

as incongruências do “né?”

76

Léo Borges

monumento ao vandalismo 78 Joaquim Bispo Livin’ in america: obama, o 44º Presidente Branco 80
monumento ao vandalismo 78 Joaquim Bispo Livin’ in america: obama, o 44º Presidente Branco 80
monumento ao vandalismo 78 Joaquim Bispo Livin’ in america: obama, o 44º Presidente Branco 80

monumento ao vandalismo

78

Joaquim Bispo

Livin’ in america: obama, o 44º Presidente Branco

80

Henry Alfred Bugalho

No Confessionário

83

Mariana Valle

Gauderiadas i

85

Volmar Camargo Junior

Solidão a dois em tempos de crise

86

Giselle Natsu Sato

PoESia Laboratório Poético: a Narração na Poesia 88

Volmar Camargo Junior

meu amor

90

Guilherme Augusto Rodrigues

Palavras inúteis

91

Mariana Valle

Poemas

92

José Espírito Santo

Eterníndia

94

Dênis Moura

saudade

95

Maria de Fátima Santos

SoBrE oS autorES da Samizdat 96

Por que Samizdat? “Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por
Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico,
distribuo e posso ser preso por causa disto”
Vladimir Bukovsky
Henry Alfred Bugalho
inclusão e Exclusão
henrybugalho@hotmail.com
se converte em uma ditadu-
ra como qualquer outra. É a
microfísica do poder.
Nas relações humanas,
sempre há uma dinâmica de
inclusão e exclusão.
O
grupo dominante, pela
própria natureza restritiva
do poder, costuma excluir ou
ignorar tudo aquilo que não
pertença a seu projeto, ou
que esteja contra seus prin-
cípios.
Em reação, aqueles que
se acreditavam como livres-
pensadores, que não que-
riam, ou não conseguiram,
fazer parte da máquina
administrativa - que esti-
pulava como deveria ser a
cultura, a informação, a voz
do povo -, encontraram na
autopublicação clandestina
um meio de expressão.
Em regimes autoritários,
esta exclusão é muito eviden-
te, sob forma de perseguição,
censura, exílio. Qualquer um
que se interponha no cami-
nho dos dirigentes é afastado
Datilografando, mimeo-
grafando, ou simplesmente
manuscrevendo, tais autores
russos disseminavam suas
idéias. E ao leitor era incum-
e
ostracizado.
As razões disto são muito
bida a tarefa de continuar
esta cadeia, reproduzindo tais
obras e também as passando
simples de se compreender:
o
diferente, o dissidente é
perigoso, pois apresenta
alternativas, às vezes, muito
melhores do que o estabe-
lecido. Por isto, é necessário
suprimir, esconder, banir.
adiante. Este processo foi
designado "samizdat", que
nada mais significa do que
"autopublicado", em oposição
às publicações oficiais do
regime soviético.
A
União Soviética não
foi muito diferente de de-
mais regimes autocráticos.
Origina-se como uma forma
de governo humanitária,
igualitária, mas
Foto: exemplo dum samizdat. Corte-
sia do Gulag Museum em Perm-36.
logo

6

E por que Samizdat?

A indústria cultural - e o

mercado literário faz parte dela - também realiza um processo de exclusão, base- ado no que se julga não ter valor mercadológico. Inex- plicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maio- res do que o lucro.

A indústria deseja o pro-

duto pronto e com consumi- dores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mes- mo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado.

E a autopublicação, como em qualquer regime exclu- dente, torna-se a via para produtores culturais atingi- rem o público.

Este é um processo soli- tário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes apa- ratos midiáticos - como TV,

revistas, jornais - onde ele possa divulgar seu trabalho.

O

único aspecto que conta é

o

prazer que a obra causa no

leitor.

Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro lado, concede ao criador uma

liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua pala- vra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros,

é quem recebe os louros por seus acertos.

E, com a internet, os au-

tores possuem acesso direto

e imediato a seus leitores. A repercussão do que escreve (quando há) surge em ques- tão de minutos.

A serem obrigados a

burlar a indústria cultural,

os autores conquistaram algo

que jamais conseguiriam de

outro modo, o contato qua-

se

pessoal com os leitores,

o

diálogo capaz de tornar a

obra melhor, a rede de conta-

tos que, se não é tão influen-

te quanto a da grande mídia,

faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há gran-

des tiragens que substitua

o prazer de ouvir o respal-

do de leitores sinceros, que

não estão atrás de grandes autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos.

Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pós-

modernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição que vise rotular e definir a

orientação dum grupo. São apenas escritores interessados

em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim

a heterogeneidade.

Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de auto- publicação, mas “Samizdat” porque também é um modo

de contornar um processo

de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica mensal, escrita, editada e publicada pelos integrantes da Oficina de Escritores e Teoria Literária. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profis- sionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

www.revistasamizdat.com

sionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais. www.revistasamizdat.com www.revistaamizdat.com 7

www.revistaamizdat.com

7

sionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais. www.revistasamizdat.com www.revistaamizdat.com 7

Seção do Leitor

SEÇÃO DO LEITOR

O leitor da Revista SAMIZDAT também pode colaborar com a elabora- ção da revista. Envie-nos suas sugestões, críticas e comentários.

Você também pode propor ou enviar textos para as seguintes seções da revista: Resenha Literária, Teoria Literária, Autores em Língua Portuguesa, Tradução e Autor Convidado.

Escreva-nos para:

revistasamizdat@gmail.com

8 8

SAMIZDAT SAMIZDAT abril abril de de 2009 2009

http://www.flickr.com/photos/adrianclarkmbbs/3041954566/sizes/l/

Dei uma folheada na Samizdat, número 14 que você enviou por e- mail e achei muito legal. Como não ainda não li nenhum artigo, posso falar do visual, que gostei bastante.

A propaganda da oficina, que evoca uma oficina de trabalho manual ficou muito boa, na minha opinião.

As imagens são sempre muito boas e a entrevista com o Marcelo Duarte do Guia dos Curiosos é uma prova de que vocês tem o "dom".

Principalmente, vocês têm o "dom" de fazer uma coisa linda com "dinheiro zero".

É impressionante!

Naldo Gomes

Queria somente dar os meus parabéns pela revista. Independente- mente do conteúdo (também ele extremamente interessante), o concei- to é espantoso e essencial, revelando um aproveitamento profícuo da internet e de todas as suas potencialidades. A tarefa fundamental do escritor é chegar aos potenciais leitores. É útil, enquanto postura de divulgação, mas é, acima de tudo, ético: o chegar aos leitores tem que estar acima de quaisquer considerações financeiras.

Os parabéns de um novo leitor português

Luis Tereso

Muito obrigado pela informaçäo sobre a revista Samizdat.

Meu português é precário, mas eu estou interessado em praticar. Tambem sempre quis conhecer mais sobre literatura brasileira contem- porânea. Estou pendente com novas atualizações.

Héctor Torres / Editor

FICCIÓN BREVE VENEZOLANA

www.ficcionbreve.org

Comunicado

Comunicado Samizdat Especial Humor 10 10 SAMIZDAT SAMIZDAT abril abril de de 2009 2009 10

Samizdat

Especial

Humor

10 10

SAMIZDAT SAMIZDAT abril abril de de 2009 2009

http://www.flickr.com/photos/billselak/1043526089/sizes/l/

O lugar onde

a boa Literatura

é fabricada

http://www.flickr.com/photos/ooocha/2630360492/sizes/l/

Estamos preparan- do a quarta edição do SAMIZDAT Especial, contemplando o gênero Humor.

1 - Todos os colabora-

dores fixos do E-Zine po- dem participar e sugerir autores colaboradores;

2 - Também serão

aceitos textos enviado vo- luntariamente por autores externos, para as seguin- tes seções do E-Zine:

a - Resenha de Livros;

b - Teoria Literária ou

do Humor;

c - Autor convidado

(prosa ou poesia);

d - Traduções;

e - Crônicas;

f - caricaturas ou char- ges.

3 - Serão seleciona-

dos, ao todo, entre 3 e 5 textos para cada uma das seções acima, mas a edição do E-Zine possui o direito de selecionar mais ou menos obras.

4 - Não há limites

de palavras, mas como se trata duma publica- ção voltada para o meio digital, solicita-se que não sejam enviados tex-

tos mais extensos do que umas 2500 palavras.

5 - Por se tratar duma obra de divulgação, não serão pagos direitos

autorais. A publicação e a distribuição do E-Zine não acarretará, tampouco, em custos para os autores participantes.

6 - A SAMIZDAT Especial - Humor será publicada durante o mês de maio no blog, e na edição em .PDF em 1 de

junho. Por isto, solicita-se aos autores interessados que entrem em contato até o final de abril, atra- vés do e-mail

revistasamizdat@hotmail.com

Indicando, no assunto do e-mail, SAMIZDAT

Especial 4, e em qual se- ção o texto se enquadra (ver item 2).

Abraços a todos,

Equipe da SAMIZDAT

www.revistasamizdat.com

e em qual se- ção o texto se enquadra (ver item 2). Abraços a todos, Equipe

ficina

www.oficinaeditora.org

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Entrevista

marcos Fernando Kirst

Marcos Fernando Kirst

Nascido em Ijuí (RS), Marcos Fernando Kirst cursou Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e trabalhou em vários jornais, entre eles A Ra- zão, em Santa Maria, e Pioneiro, em Caxias do Sul. Atualmente

colabora com a revista Acontece e

o jornal Informante (Farroupilha).

Também desenvolve trabalhos edi- toriais para a editora Belas-Letras, de Caxias do Sul.

Em outubro de 2008, lançou na

Feira do Livro de Caxias do Sul

o livro infantil O Gato Que Não

Sabia de Nada, que trata de um gato com crise de identidade: não sabe se é gato, se é cachorro ou se faz parte de uma pilha de livros. A aventura, narrada pelo gatinho Bioy, é a estréia de Kirst em livro de ficção. A obra ficou entre as mais vendidas da feira. Na seqüên- cia, o autor integrou a programa- ção de eventos relativos às Feiras de Livros (lançamento, sessões de autógrafos e bate-papos literários) nas cidades gaúchas de Farroupi- lha, Ijuí e Porto Alegre.

Antes desse livro, Kirst participou de antologias, venceu concursos literários e publicou o livro A História nas Estantes – 60 Anos da Biblioteca Pública Municipal Dr. Demetrio Niederauer.

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da Biblioteca Pública Municipal Dr. Demetrio Niederauer. 12 Samizdat: Qual é o maior desafio ao escre

Samizdat: Qual é o maior desafio ao escre- ver para crianças? Marcos Fernando Kirst:

O maior desafio é en- contrar o tom certo. É conseguir escrever sem ser professoral – o que te distancia do público-alvo – e sem escorregar para um tom infantilizado – o que te faz parecer tolo aos olhos deste mesmo público-alvo. Escrever para crianças, na verdade, acaba não escondendo

segredo nenhum a par- tir do momento em que você se propõe a fazer isto de uma forma hones- ta, de espírito aberto, e curtindo narrar da mes- ma forma como imagina que os jovens leitores vão curtir ao ler o que você escreveu. Acho que a sin- tonia acaba acontecendo é aí, na curtição.

Samizdat: O nome do narrador do livro O Gato que não sabia de

nada é uma homena- gem ao escritor argen- tino Bioy Casares, ou é mera coincidência? Marcos Fernando Kirst:

É deliberado. Adolfo Bioy

Casares é um de meus ícones literários, apre- cio muito os contos e romances escritos por ele, assim como também aprecio muito a obra do

grande amigo dele, Jorge Luis Borges. Borges pos- suía um gato chamado Beppo. Quando ganha- mos um gato lá em casa, falei para minha esposa que gostaria de chamá-

lo

que não escrevo com a genialidade de Borges,

pelo menos poderia pas- sar a ter um amigo com

o mesmo nome do que o

dele. No final das contas,

o gato Bioy de verdade

inspirou o gato Bioy do livro. Consegui me asse- melhar a Borges por vias indiretas: assim como ele,

também tenho um amigo chamado Bioy que me inspira na literatura.

de Bioy, pois, uma vez

Samizdat: Gatos são animais imprevisíveis, destruidores e apaixo- nantes. Além de seu próprio gato, há algum “gato de ficção” que o inspirou para criar o Bioy? Marcos Fernando Kirst:

O

universo felino é mui-

to

rico, criativo e sutil.

Gatos têm personalidade própria, não concordo com o conceito de “to- dos os gatos: o gato”, que

induz a pensar que to- dos são iguais e reagem da mesma maneira aos mesmos estímulos. Já tive muitos gatos na vida, e

sei que cada um foi (e é) único. Bioy não foi o pri- meiro gato de estimação

a me inspirar em minhas

criações literárias. Quan- do adolescente e ainda morador na minha Ijuí natal, tinha um gato cha-

mado Fips, que se instala- va no parapeito da janela de meu quarto durante

as tardes quentes e ficava

me observando desenhar

e criar histórias em qua-

drinhos, que eu produzia ajoelhado ao lado da cama, sobre a qual dis- punha folhas em branco

e desenhava com canetas

hidrocor. O Bioy do livro

é basicamente inspirado

no Bioy que reina lá em casa, amalgamado com características de alguns outros gatos que tive. Mas acho ele uma cria- ção única, e vejo que ele se sente, guardadas as devidas proporções, hu- milde mas confortável no mundo felino da ficção ao lado de Tom, Gar- field, Félix, Manda-Chuva, Ronrom (o gato do Pato Donald, lembram?), Mati- nhos (o gato das Aristo- gatas) e tantos outros.

Samizdat: Ainda sobre inspiração: como você escreve ficção? Há uma programação?

Marcos Fernando Kirst:

O ato de produzir fic-

ção está casado com

Kirst: O ato de produzir fic - ção está casado com meu hábito de consumir leitura

meu hábito de consumir leitura desde que me conheço por gente. Des- de criança, lia histórias em quadrinhos e depois

criava minhas próprias histórias, com meus

próprios personagens, meus próprios enredos. Fui crescendo, vieram os livros e comecei a produ- zir narrativas ficcionais. Entre os 14 e os 16 anos, escrevi três livros infan- to-juvenis, um a cada ano. Todos devidamente engavetados, pois eram treinamentos para o que estava por vir. Chegou a juventude e comecei a escrever contos, com os quais, ao longo dos anos, fui ganhando vários prê- mios literários, em Santa

Maria e em Caxias do Sul. Escrever ficção, por- tanto, faz parte de minha essência pessoal. Escrevo muito e engaveto muito. Acredito que agora, com

a maturidade, começa

a chegar o momento

de trazer à luz algumas

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destas coisas, algumas delas após submetidas ao óbvio e necessário pro- cesso de reescrita. Tenho dois romances inéditos escritos há poucos anos esperando a hora de nascerem oficialmente. Estou desenvolvendo dois livros de crônicas temá- ticas, ambos quase finali- zados, e outro juvenil de aventuras também quase pronto. E muitos projetos literários já delineados para irem sendo traba- lhados ao longo dos anos. Produzo ficção sempre que acontece o que cha- mo de “conjunção astral literária favorável”, que se concretiza no momento em que estou com von- tade de escrever, tenho o tempo necessário e surge um tema instigante. São conjunções raras e, quan- do acontecem, procuro aproveitá-las ao máximo.

Samizdat: Com a honro- sa exceção do Menino Maluquinho, a maioria

dos livros para crianças ainda segue a ideologia das fábulas, com uma “moral da história” e

tal

escrever para crianças sem cair nessa panfle- tagem moral? Será que criança curte literatura pela literatura? Marcos Fernando Kirst:

Tenho certeza absoluta de que criança – talvez até mais do que adultos – curte literatura pela literatura. Na verdade, crianças curtem histórias,

Será que dá pra

e não fazem nenhuma

exigência de “moral no final”. Quem exige isto

são os adultos (alguns),

e acabam impondo esta

condição para as artes voltadas às crianças. É a mesma coisa que, no uni- verso adulto, exigir po-

sicionamento e reflexão política nas obras de arte. Arte é arte, e não “tem que” nada. Arte precisa, sim, causar prazer estéti- co, e ponto final. Música, escultura, teatro, cinema, dança, literatura e to- das as artes têm uma só obrigação: tocar a alma, encantar. Se um autor de- sejar usar alguma espécie de arte para passar deter- minada mensagem espe- cífica, ótimo, vá em fren- te, é um formato válido. Mas não é uma exigência intrínseca ao ato de fazer arte. As artes não têm a obrigação de serem enga- jadas a nada. Independen- temente da faixa etária

a que se destinam. Da

mesma forma, a literatura dita infantil tem uma só obrigação: encantar seus leitores. Se conseguir fa- zer isto, estará já fazendo muito, pois estará tocan- do almas, abrindo olhos, revelando universos.

Samizdat: Pensando num público mais juve- nil, o sucesso das séries Harry Potter e Desven- turas em Série parece colar no bom e velho bem contra o mal e no desafio de ler sempre o próximo volume. Você leu essas obras? O que

ler sempre o próximo volume. Você leu essas obras? O que acha delas? Marcos Fernando Kirst:

acha delas? Marcos Fernando Kirst:

Conheço as obras e as-

sisti aos filmes derivados delas, sei do que tratam

e de como seus autores

escrevem. O velho cli- chê maniqueísta do bem

contra o mal permeia a literatura (o cinema e a

televisão também) desde sempre, e não vai mu- dar, pois é uma fórmula de sucesso fácil. Nós, seres humanos, somos maniqueístas, basta ver que julgamos o mundo

a partir de nossa pró-

pria visão pessoal dele, na qual, invariavelmente, nós estamos certos (so- mos o bem) e os outros

e o mundo estão sempre

errados (representam o mal). Por isto, histórias

em que o Bem (os moci- nhos) e o Mal (os vilões) são claramente identi- ficáveis fazem, sempre fizeram e sempre farão

muito sucesso (talvez resida neste aspecto uma das explicações para o sucesso de programas te- levisivos como o Big Bro- ther: as pessoas assistem para tentar classificar os bons e os maus da casa). De qualquer forma, estas obras acabam repassando

valores éticos, o que, no final das contas, é louvá- vel. O fato de serem es- critas de forma a induzir

à continuidade da leitura

nos próximos volumes tem o lado positivo de ajudar a formar o hábito da leitura, o que é muito bom, quando atingido o propósito. Não vejo pro- blemas.

Samizdat: Dizem que o público infantil é bas- tante honesto em rela- ção aos seus gostos: ou uma criança gosta ou não gosta. Como você percebe a receptividade das crianças, seu públi- co-alvo, ao seu livro? Marcos Fernando Kirst:

São honestíssimas quanto

a isto. Tenho tido a enri-

quecedora experiência de realizar bate-papos com crianças em salas de aula em função do livro, e elas são incrivelmente críti- cas, questionadoras. Na maioria das vezes, leram o livro e têm reflexões a compartilhar a respeito da obra, perguntas a fazer que muitas vezes me deixam divertidamente “acuado”. Mas a recepti- vidade tem sido ótima. As crianças lêem o livro

de um fôlego só, sabem a história de cor, conhecem os personagens, e, o mais interessante, querem que as aventuras do gatinho prossigam em mais li- vros.

Samizdat: Faço a mesma pergunta que você fez ao professor Donaldo Schüller: “Como o se- nhor caracteriza o atual momento do mercado editorial brasileiro?” Marcos Fernando Kirst:

Tenho de fazer esta aná- lise sob dois aspectos. Primeiro, na condição de

leitor, o mercado editorial brasileiro jamais viveu período tão fértil. Temos

à disposição, nas livrarias,

livros de todos os tipos, para todos os gostos, traduzidos de todas as partes do mundo. Te- mos à disposição o que há de novo e moderno sendo feito lá fora, assim como os clássicos, muitas vezes com novas tradu- ções e edições revistas e ampliadas. Não dá para

se queixar. Já enquanto

autor, a dificuldade é a de sempre: conseguir colo- car um livro inédito de sua autoria no mercado é uma dificuldade hercúlea. As editoras não apos- tam em desconhecidos, apesar do discurso feito “pró-mídia” de que estão constantemente à procura de novos talentos. Balela. Salvo, é claro, as exceções de praxe. No meu caso, tive a sorte de ter tido

o original do meu livro

infanto-juvenil avalia-

do pela editora caxien- se Belas-Letras e obtido um parecer favorável, que motivou a editora

a apostar em mim e na

obra. Mas é um fato raro dentro do amplo espec- tro do mercado editorial brasileiro.

Samizdat: Procurando por seu nome no Goo- gle, um dos primeiros links é uma crônica/ conto intitulado Uma rapidinha no Caminho

de Santiago, para a zine O Caixote (http://www.
ocaixote.com.br/caixo-

te09/cx09_cronicas_

kirst.html). Esse Marcos Kirst é você ou é outro?

Marcos Fernando Kirst:

É outro, é um homônimo.

Mora em São Paulo, é mais velho do que eu e, inclusive, é parente (pri- mo de meu pai). O nome dele, aliás, é Erlon Marcos Kirst, mas ele está usando só o segundo nome e o sobrenome. Por isso mes- mo é que faço questão de usar sempre meu nome completo: Marcos Fernan- do Kirst, para diferenciar.

Samizdat: Que impor- tância têm os concur- sos na carreira de um novel escritor? Dão-lhe visibilidade, traquejo de escrita, domínio do stress, hábitos de rigor, ou o quê? Marcos Fernando Kirst:

Os concursos servem

principalmente para dar

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um norte mais oficial para a pretensa carreira de um pretenso escritor. Ao ser premiado, teu texto passa, incógnito, pelo crivo de um júri (a

princípio) gabaritado, que o analisou e o classificou tanto por seus méritos literários em si quanto em relação aos demais concorrentes. É a prova de que, afinal, aquilo que você escreve tem algum valor capaz de atingir a leitores que não te conhe- cem. Mostra que você, mal ou bem, iniciante ou não, tem uma voz literá- ria, que fala e consegue ser ouvida por outros. Confere segurança, in- centiva uma pretensão. Mas infelizmente, os concursos, atualmente, muitas vezes, morrem neles mesmos. A impren- sa, via de regra, ignora o trabalho dos vencedores

e raramente as obras pre-

miadas chegam ao públi-

co de forma mais ampla. Noticia-se os vencedores anuais dos concursos com notinhas de rodapé

e pronto, cumpre-se com

a obrigação. A estrada do

pretenso futuro escritor, mesmo com os concur- sos, continuará sendo pe- dregosa. E talvez até seja positivo que seja assim, afinal, nada cai do céu.

Samizdat: Fazendo uma comparação entre seus livros A História nas Estantes – 60 Anos da Biblioteca Pública Mu- nicipal Dr. Demetrio Niederauer e O gato

que não sabia de nada, como você avalia a re- percussão de obras de ficção e não-ficção no público leitor? Marcos Fernando Kirst:

Falo a partir de minha (ainda singela) experiên- cia em termos de pu- blicação de obras (duas, exatamente as que citaste) nestas duas áreas. O pri- meiro livro, lançado em 2007, dirigia-se a um pú- blico específico, interessa- do em conhecer a histó- ria da Biblioteca Pública Municipal de Caxias do Sul. Apesar de que, ao redigir o texto, procurei não produzir uma obra enfadonha e cronológica, pelo contrário: escrevi de forma a transformar a própria biblioteca em personagem, na qual con- vivem e coabitam outros personagens interessan- tes, ou seja, os livros, os

leitores e os funcionários. Apesar de partir das características específicas da biblioteca caxiense, fiz um livro com o qual pode se identificar qual-

quer frequentador de

qualquer biblioteca do país e do mundo. Até por causa do título, a obra ficou mais limitada e, mesmo assim, cumpriu seu papel, o de marcar um momento histórico, alcançando a repercus- são que tinha possibi- lidades de obter dentro da limitação de tema e momento a que se sub- metia. Já o livro ficcional sobre o gato, lançado em 2008, tem alcançado uma

repercussão muito maior, imprevisível, imensurável e indomável, justamente por ser absolutamente universal. Identificam-se com o livro pessoas de todas as idades, não ape- nas crianças, além de dia- logar também com qual- quer pessoa que goste de animais de estimação. O segredo, no entanto, para ambas as obras, tanto as de ficção quanto para as de não-ficção, é, além de encontrar um tema ab- sorvente, conseguir de- senvolver uma narrativa que prenda a atenção do leitor. Acho que consegui alcançar o objetivo nas duas obras.

Coordenação da entrevista:

Maristela S. Deves

Perguntas feitas por:

Henry Alfred Bugalho

Marcia Szajnbok

Volmar Camargo Junior

Joaquim Bispo

Carlos Barros

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O lugar onde

a boa Literatura

é fabricada

ficina www.oficinaeditora.org

ficina

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microcontos

reprise

Marcia Szajnbok

Cresceu apanhando. Todo santo dia o pai chegava bêba- do, fedendo a cigarro e a perfume barato de puta, tirava a cinta e lascava todo mundo, começando pela mãe e termi- nando sempre nele, o caçula. Nas poucas vezes que tentou se defender, veio logo o tapa na cara e o grito:- Cala a boca! Você é o último que fala e o primeiro que apanha! Anos a fio o ódio fermentando no cadinho do coração,

crescendo, crescendo

veu casar. Na festa de casamento, encheu a cara. Quando foi se deitar com ela, a noiva fez cara de nojo diante do cheiro de cerveja e cigarro. Não teve dúvida: tirou a cinta, e começou a bater ali mesmo, em plena lua-de-mel.

Um

dia arrumou uma moça, resol-

Filho de peixe,

Peixinho é

Um dia arrumou uma moça, resol- Filho de peixe, Peixinho é um gênio da música Henry

um gênio da música

Henry Alfred Bugalho

Ele queria ter sido músico. Aulas de piano quando criança, tocava guitarra com uma bandinha de garagem na adolescência, mas ele cres- ceu e o sonho cedeu espaço à realidade: ele nem era tão bom assim

Mas o filho tinha talento, ao seis anos já ganhava um concurso de música. Um pouco já maiorzinho, trouxe para o pai os cadernos repletos de composições, coisas de gênio. Cheio de inveja, o pai disse:

— Ih, filho, tudo porcaria. Se eu fosse você, largava isto de querer ser músico.

O filho obedeceu. Chateado, mas acreditou no sábio

parecer. Hoje, é mecânico na oficina do pai. Suas composições abarrotam gavetas e baús, porcarias escondidas dum gê- nio.

http://www.flickr.com/photos/15302763@N04/3157820748/

18 SAMIZDAT abril de 2009

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Negócio de família

Pai e filho sentados à mesa de jantar.

Henry Alfred Bugalho

— Você vai ser médico, assim como eu, seu avô, seu bisavô, assim como seus tios e irmãos.

Dia seguinte, na construção abandonada no final da rua, o filho diz para as três colegas da escola:

— Vão tirando a roupa!

— Por quê? — elas retrucam.

Risinho safado do garoto.

Primeira aula de Anatomia.

uma carreira de sucesso

Henry Alfred Bugalho

O

filho era uma bicha. Ator e bicha. Destino pior não

existia. Tinha vergonha dele na rua: o que seus amigos iriam dizer do filho bichola afetada quebrando o pulso e rebo- lando? Expulsou-o de casa aos dezesseis anos e não teve mais notícias. Então, surgiram os rumores e, por fim, a confirmação: o filho seria o protagonista da próxima novela das oito. Toda família se reuniu para assistir ao primeiro capítu-

lo.

Assim que o filho apareceu na tela da TV, o pai, enxu- gando as lágrimas:

— Que orgulho do meu filhão!

Beleza genética

Henry Alfred Bugalho

A mãe, Miss Universo em 1988.

A filha, campeã de boquete universitário em 2009.

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Benjamin Button e seu filho

Carlos Alberto Barros

- Papai, quando crescer, serei como o senhor!

- E eu, como você, meu filho

mais famosos e seus filhos

Volmar Camargo Junior

Hannibal Lecter e seu filho

- Papai, quando crescer, serei como o senhor!

- E eu como você, meu filho

Michael Jackson e seu filho

- Papai, quando crescer, serei como o senhor!

- E eu como você, meu filho

assunto encerrado

Volmar Camargo Junior

- Mãe, quem é esse homem que acabou de sair pela janela?

- É o mesmo que estava no seu quarto ontem à noite.

- M-mãe

n-não tinha ninguém no meu quarto ontem à

noite.

- Exatamente, filhinha. Assunto encerrado.

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20 SAMIZDAT abril de 2009

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alvorada

Joaquim Bispo

O mundo era ermo e inóspito. Os pedregulhos erguiam- se crispados, sobranceiros à aridez dum mar de dunas. As areias estendiam-se, cálidas e mortíferas até ao horizonte. O céu, ofuscante de branco, não concedia qualquer matiz, em toda a abóbada exposta. Só o Sol ardente, a pique, presidia sobre as coisas inanimadas.

Então, nos interstícios da rocha calcinada, numa brecha ínfima, por uma singularidade improvável, formou-se uma nesga de sombra. O espírito da árvore acordou, reconheceu a sua essência e formou um pensamento.

E um manto verde cobriu a terra inteira.

Crepúsculo

Joaquim Bispo

– As informações que recolhi, Grande Kha, indicam que o clima sofreu variações dramáticas nos últimos ciclos. As grandes quantidades de poeiras, fumos, e óxidos de carbono e de enxofre lançadas para a atmosfera, foram imperceptivelmente criando uma capa que, deixando penetrar muita radia- ção, constituía um obstáculo à sua libertação para o espaço. Isso provocou um aquecimento progressivo que fez derreter as calotes polares, aumentou exponencialmente a evaporação dos oceanos, e favoreceu vagas de incêndios que devastaram as florestas das zonas equatoriais e adjacentes. Tanto vapor de água na atmosfera começou a impedir a luz solar visual de chegar ao solo, mas que continuava a deixar penetrar a radiação infra-vermelha. Sem luz solar, a fotossíntese deixou de se fazer. As plantas morreram e os que delas se alimentavam. O calor tornou a vida impossível à maior parte das espécies, até às latitudes polares. Os organismos ficaram literalmente estufa- dos. Neste mundo escuro e escaldante, medram fungos de todas as espécies, que dispõem de muita matéria orgânica em decomposição. Os indivíduos da espécie dominante – os 50 milhões que restam – retiraram-se para junto dos pólos. Chamam Novo Mundo ao continente situado no pólo sul. Creio que estão criadas, enfim, as condições para a nossa instalação.

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recomendações de Leitura

Henry Alfred Bugalho
Henry Alfred Bugalho

Henry Alfred Bugalho

ilorad Pávitch,

m
m
Dictionary of the Khazars Autor: Milorad Pavić Editora: Alfred A. Knopf

Dictionary of the Khazars

Autor: Milorad Pavić

Editora: Alfred A. Knopf

o engenhoso

O termo literatura er- gódica foi cunhado, ini- cialmente, pelo teórico da literatura (apesar de que “ludologista” classificaria melhor sua área de pesqui- sa) Espen Aarseth. Em linha gerais, literatura ergódica remete-se àquela forma narrativa que exige do leitor um esforço não-con- vencional, ou seja, diferente do processo trivial de ler página após página.

Exemplos de obras er- gódicas há vários, desde o livro oracular “I-Ching” até “Fogo Pálido” de Nabokov, mesmo que para, Aarseth, os melhores exemplos do gênero se desenvolveram e predominam no mundo digital, como os jogos de computadores, que através de várias linhas narrativas, possuem o desempenho definido pelas escolhas dos usuários.

22 SAMIZDAT abril de 2009

Na verdade, a literatura sempre namorou com esta ruptura, a despeito de todas as dificuldades que tal es- forço não-trivial implica.

O autor sérvio Milo-

rad Pávitch é um dos que tomou para si a missão de criar obras não-convencio- nais. Praticamente todos seus textos optam por ino- vações técnicas de modo a tornar o leitor mais do que mero receptor, mas uma es- pécie de co-autor, ao decidir quais caminhos prosseguir na leitura.

O primeiro dos roman-

ces de Pávitch, “O Dicioná- rio dos Kazares” não esca- pa desta proposta. Neste romance, Pávitch narra a história dos Kazares, um povo que teria vivido entre os séculos oitavo e décimo na região do Cáucaso, e da mítica conversão deles a uma das três grandes religi-

ões basilares: o cristianismo,

o islamismo, ou o judaísmo.

Apesar de não haver um enredo definível, o livro é composto de três grandes partes, nas quais os Kazares são investigados, através de verbetes como os de uma enciclopédia, à luz destas grandes religiões, e em cada uma destas partes temos

a defesa da conversão às respetivas religiões.

Deste modo, o leitor pode transitar entre as três versões desta enciclopé-

dia, comparando verbetes cruzados, como no caso de Kazares, ou Ateh.

O estilo de Pávitch é bas-

tante alegórico e, por vezes, surrealista. Há profundas referências ao mundo dos sonhos e ao universo sim- bólico, por vezes recaindo em metáforas de difícil apreensão.

Este autor desenvolveu outras obras ergódicas, como “Paisagem Pintada com Chá” composta em for- ma de palavra-cruzada, “O Lado de Dentro do Vento” que pode ser lido tanto do começo ao fim quanto de trás para a frente, “Último Amor em Constantinopla” que possui capítulos nu- merados de acordo com as cartas de tarô e sugere ao leitor que jogue as cartas para saber qual capítulo ler. Mesmo os contos do autor disponíveis online seguem esta orientação, cabendo

ao leitor escolher os ru- mos da história através de hiperlinks (forma conhecida como hiperficção).

A grande contribuição

de Milorad Pávitch reside justamente neste ímpe- to em renovar e explorar os limites da literatura, e encontrar alternativas

criativas para compôr algo interessante, não apenas em conteúdo, mas também formalmente.

Um detetive

Uma loira gostosa

Um assassinato

E o pau comendo entre as máfias italiana e chinesa.

O COvil dos inOCentes

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23

autor em Língua Portuguesa

Frei

24 24

SAMIZDAT SAMIZDAT abril abril de de 2009 2009

Simão

24 24 SAMIZDAT SAMIZDAT abril abril de de 2009 2009 Simão Machado de Assis
24 24 SAMIZDAT SAMIZDAT abril abril de de 2009 2009 Simão Machado de Assis

Machado de Assis

http://www.flickr.com/photos/cactusbones/76928028/sizes/o/

Publicado originalmente em Jornal das Famílias, em 1864, integra a obra “Contos Fluminenses”

I

Frei Simão era um frade da ordem dos Be- neditinos. Tinha, quando morreu, cinqüenta anos

em aparência, mas na realidade trinta e oito.

A causa desta velhice

prematura derivava da que o levou ao claustro

na idade de trinta anos,

e, tanto quanto se pode

saber por uns fragmen- tos de memórias que ele deixou, a causa era justa.

Era frei Simão de caráter taciturno e des- confiado. Passava dias inteiros na sua cela, de onde apenas saía na hora do refeitório e dos ofí- cios divinos. Não conta- va amizade alguma no convento, porque não era possível entreter com ele os preliminares que fundam e consolidam as afeições.

Em um convento, onde

a comunhão das almas

deve ser mais pronta

e mais profunda, frei

Simão parecia fugir à regra geral. Um dos no- viços pôs-lhe alcunha de

urso, que lhe ficou, mas só entre os noviços, bem entendido. Os frades professos, esses, apesar do desgosto que o gênio solitário de frei Simão lhes inspirava, sentiam por ele certo respeito e veneração.

Um dia anuncia-se que frei Simão adoecera gravemente. Chamaram- se os socorros e presta- ram ao enfermo todos os cuidados necessários. A moléstia era mortal;

depois de cinco dias frei Simão expirou.

Durante estes cin- co dias de moléstia, a cela de frei Simão este- ve cheia de frades. Frei Simão não disse uma

palavra durante esses cinco dias; só no último, quando se aproximava o minuto fatal, sentou-se no leito, fez chamar para mais perto o abade, e disse-lhe ao ouvido com voz sufocada e em tom

estranho:

— Morro odiando a

humanidade!

O abade recuou até

a parede ao ouvir estas

palavras, e no tom em que foram ditas. Quanto

a frei Simão, caiu sobre

o travesseiro e passou à

eternidade.

Depois de feitas ao irmão finado as honras que se lhe deviam, a co- munidade perguntou ao seu chefe que palavras

ouvira tão sinistras que

o assustaram. O abade

referiu-as, persignando- se. Mas os frades não viram nessas palavras senão um segredo do passado, sem dúvida importante, mas não tal que pudesse lançar o ter- ror no espírito do abade.

Este explicou-lhes a idéia que tivera quando ouviu as palavras de frei Simão, no tom em que foram ditas, e acompanha- das do olhar com que

o fulminou: acreditara

que frei Simão estivesse doido; mais ainda, que tivesse entrado já doido para a ordem. Os hábi- tos da solidão e tacitur- nidade a que se votara o frade pareciam sintomas de uma alienação mental de caráter brando e pa- cífico; mas durante oito anos parecia impossível aos frades que frei Simão não tivesse um dia reve-

lado de modo positivo a sua loucura; objetaram isso ao abade; mas este

persistia na sua crença.

Entretanto procedeu- se ao inventário dos objetos que pertenciam ao finado, e entre eles achou-se um rolo de papéis convenientemen- te enlaçados, com este rótulo: Memórias que há de escrever frei Simão de Santa Águeda, frade beneditino.

Este rolo de papéis foi um grande achado para

a comunidade curiosa.

Iam finalmente penetrar alguma coisa no véu misterioso que envolvia

o passado de frei Simão,

e talvez confirmar as suspeitas do abade. O rolo foi aberto e lido para todos.

Eram, pela maior parte, fragmentos in- completos, apontamentos truncados e notas insu- ficientes; mas de tudo junto pôde-se colher que realmente frei Simão estivera louco durante certo tempo.

O autor desta nar- rativa despreza aquela parte das Memórias que não tiver absolutamente importância; mas procu- ra aproveitar a que for menos inútil ou menos obscura.

II

As notas de frei Simão nada dizem do lugar do seu nascimento nem do nome de seus pais. O que se pôde saber dos seus princípios é que, tendo concluído os es- tudos preparatórios, não

pôde seguir a carreira das letras, como desejava,

e foi obrigado a entrar

como guarda-livros na

casa comercial de seu pai.

Morava então em casa

de seu pai uma prima de

Simão, órfã de pai e mãe, que haviam por morte deixado ao pai de Simão

o cuidado de a educa-

rem e manterem. Parece que os cabedais deste de- ram para isto. Quanto ao pai da prima órfã, tendo sido rico, perdera tudo ao jogo e nos azares do comércio, ficando redu- zido à última miséria.

A órfã chamava-se Helena; era bela, meiga

e extremamente boa.

Simão, que se educara com ela, e juntamente vivia debaixo do mesmo

teto, não pôde resistir às elevadas qualidades e

à beleza de sua prima.

Amaram-se. Em seus sonhos de futuro conta-

vam ambos o casamento, coisa que parece mais natural do mundo para corações amantes.

Não tardou muito que os pais de Simão desco-

brissem o amor dos dois. Ora é preciso dizer, ape- sar de não haver decla- ração formal disto nos apontamentos do frade, é

preciso dizer que os re- feridos pais eram de um egoísmo descomunal. Davam de boa vontade

o pão da subsistência a

Helena; mas lá casar o filho com a pobre órfã é que não podiam consen- tir. Tinham posto a mira em uma herdeira rica, e

dispunham de si para si que o rapaz se casaria com ela.

Uma tarde, como esti-

vesse o rapaz a adiantar

a escrituração do livro-

mestre, entrou no escri-

tório o pai com ar grave

e risonho ao mesmo

tempo, e disse ao filho

que largasse o trabalho e

o ouvisse. O rapaz obe-

deceu. O pai falou assim:

— Vais partir para a província de ***. Preci- so mandar umas cartas

ao meu correspondente Amaral, e como sejam elas de grande importân-

26 SAMIZDAT abril de 2009

cia, não quero confiá-las ao nosso desleixado cor- reio. Queres ir no va- por ou preferes o nosso

brigue?

Esta pergunta era feita com grande tino.

Obrigado a responder- lhe, o velho comerciante não dera lugar a que seu filho apresentasse obje- ções.

O rapaz enfiou, abai-

xou os olhos e respon-

deu:

— Vou onde meu pai quiser.

O pai agradeceu men-

talmente a submissão do filho, que lhe poupava o dinheiro da passagem no vapor, e foi muito con- tente dar parte à mulher de que o rapaz não fize- ra objeção alguma.

Nessa noite os dois amantes tiveram ocasião de encontrar-se sós na sala de jantar.

Simão contou a Helena

o que se passara. Cho-

raram ambos algumas lágrimas furtivas, e fica-

ram na esperança de que

a viagem fosse de um

mês, quando muito.

À mesa do chá, o

pai de Simão conver- sou sobre a viagem do rapaz, que devia ser de poucos dias. Isto reani- mou as esperanças dos dois amantes. O resto da noite passou-se em con- selhos da parte do velho ao filho sobre a maneira de portar-se na casa do correspondente. Às dez horas, como de costume, todos se recolheram aos aposentos.

Os dias passaram-se depressa. Finalmente raiou aquele em que de- via partir o brigue. He- lena saiu de seu quarto com os olhos vermelhos de chorar. Interrogada bruscamente pela tia, disse que era uma infla- mação adquirida pelo muito que lera na noite anterior. A tia prescre- veu-lhe abstenção da leitura e banhos de água de malvas.

Quanto ao tio, ten- do chamado Simão, entregou-lhe uma carta para o correspondente, e

abraçou-o. A mala e um criado estavam prontos. A despedida foi triste. Os dois pais sempre

choraram alguma coisa, a rapariga muito.

Quanto a Simão, leva-

va os olhos secos e ar- dentes. Era refratário às lágrimas; por isso mes- mo padecia mais.

O brigue partiu. Si-

mão, enquanto pôde ver terra, não se retirou de cima; quando finalmente se fecharam de todo as paredes do cárcere que anda, na frase pitoresca de Ribeyrolles, Simão desceu ao seu camarote, triste e com o coração apertado. Havia como um pressentimento que lhe dizia interiormente ser impossível tornar a ver sua prima. Parecia que ia para um degredo.

Chegando ao lugar do seu destino, procurou Simão o correspondente de seu pai e entregou- lhe a carta. O sr. Amaral leu a carta, fitou o rapaz e, depois de algum silên- cio, disse-lhe, volvendo a carta:

— Bem, agora é preci-

so esperar que eu cum- pra esta ordem de seu

pai. Entretanto venha morar para a minha casa.

— Quando poderei

voltar? perguntou Simão.

— Em poucos dias, sal-

vo se as coisas se com-

plicarem.

Este salvo, posto na boca de Amaral como incidente, era a oração principal. A carta do pai de Simão versava assim:

Meu caro Amaral,

Motivos ponde- rosos me obrigam a mandar meu filho desta

cidade. Retenha-o por lá como puder. O pretexto da viagem é ter eu ne- cessidade de ultimar al- guns negócios com você,

o que dirá ao pequeno,

fazendo-lhe sempre crer que a demora é pouca ou nenhuma. Você, que

teve na sua adolescência

a triste idéia de engen-

drar romances, vá inven- tando circunstâncias e ocorrências imprevistas, de modo que o rapaz não me torne cá antes de segunda ordem. Sou, como sempre, etc.

III

Passaram-se dias e

dias, e nada de chegar

o momento de voltar à

casa paterna. O ex-ro- mancista era na verdade fértil, e não se cansava de inventar pretextos que deixavam convenci- do o rapaz.

Entretanto, como o espírito dos amantes não

as cartas de Simão iam parar às mãos do velho,

é

menos engenhoso que

que, depois de apreciar

o

dos romancistas, Simão

o

estilo amoroso de seu

e

Helena acharam meio

filho, fazia queimar as

de se escreverem, e deste modo podiam consolar- se da ausência, com presença das letras e do papel. Bem diz Heloísa que a arte de escrever foi inventada por alguma amante separada do seu amante. Nestas cartas juravam-se os dois sua eterna fidelidade.

No fim de dois meses de espera baldada e de ativa correspondência,

a tia de Helena surpre-

endeu uma carta de

Simão. Era a vigésima, creio eu. Houve grande temporal em casa. O tio, que estava no escritório, saiu precipitadamente e tomou conhecimento do negócio. O resultado foi proscrever de casa tinta,

penas e papel, e instituir vigilância rigorosa sobre

a infeliz rapariga.

Começaram pois a es- cassear as cartas ao po-

bre deportado. Inquiriu

a causa disto em cartas

choradas e compridas; mas como o rigor fiscal da casa de seu pai adqui- ria proporções descomu- nais, acontecia que todas

ardentes epístolas.

Passaram-se dias e meses. Carta de Helena, nenhuma. O correspon- dente ia esgotando a veia inventadora, e já não sabia como reter final- mente o rapaz.

Chega uma carta a Simão. Era letra do pai. Só diferençava das ou- tras que recebia do velho em ser esta mais longa,

muito mais longa. O

rapaz abriu a carta, e leu trêmulo e pálido. Conta- va nesta carta o honrado comerciante que a He- lena, a boa rapariga que ele destinava a ser sua filha casando-se com Si- mão, a boa Helena tinha morrido. O velho copia- ra algum dos últimos necrológios que vira nos

jornais, e ajuntara algu- mas consolações de casa. A última consolação foi dizer-lhe que embarcasse

e fosse ter com ele.

O período final da carta dizia:

Assim como assim, não se realizam os meus negócios; não te pude

28 SAMIZDAT abril de 2009

casar com Helena, visto que Deus a levou. Mas volta, filho, vem; poderás consolar-te casando com outra, a filha do con- selheiro ***. Está moça feita e é um bom par- tido. Não te desalentes; lembra-te de mim.

O pai de Simão não

conhecia bem o amor do filho, nem era gran- de águia para avaliá-lo, ainda que o conhecesse. Dores tais não se conso- lam com uma carta nem com um casamento. Era melhor mandá-lo cha- mar, e depois preparar- lhe a notícia; mas dada assim friamente em uma carta, era expor o rapaz a uma morte certa.

Ficou Simão vivo em corpo e morto moral- mente, tão morto que por sua própria idéia foi dali procurar uma se- pultura. Era melhor dar aqui alguns dos papéis escritos por Simão rela- tivamente ao que sofreu depois da carta; mas há muitas falhas, e eu não quero corrigir a exposi- ção ingênua e sincera do frade.

A sepultura que Si-

mão escolheu foi um convento. Respondeu ao

pai que agradecia a filha do conselheiro, mas que daquele dia em diante pertencia ao serviço de Deus.

O pai ficou maravi- lhado. Nunca suspeitou

que o filho pudesse vir

a ter semelhante resolu-

ção. Escreveu às pressas para ver se o desviava da idéia; mas não pôde conseguir.

Quanto ao correspon- dente, para quem tudo se embrulhava cada vez mais, deixou o rapaz seguir para o claustro, disposto a não figurar em um negócio do qual nada realmente sabia.

IV

Frei Simão de Santa Águeda foi obrigado a ir à província natal em missão religiosa, tempos depois dos fatos que aca- bo de narrar.

Preparou-se e embar- cou.

A missão não era na capital, mas no interior.

Entrando na capital, pa- receu-lhe dever ir visitar seus pais. Estavam muda- dos física e moralmente. Era com certeza a dor

e o remorso de terem

precipitado seu filho à

resolução que tomou. Tinham vendido a casa comercial e viviam de suas rendas.

Receberam o filho com alvoroço e verda- deiro amor. Depois das lágrimas e das consola-

ções, vieram ao fim da viagem de Simão.

— A que vens tu, meu filho?

— Venho cumprir

uma missão do sacerdó- cio que abracei. Venho pregar, para que o reba- nho do Senhor não se arrede nunca do bom caminho.

— Aqui na capital?

— Não, no interior.

Começo pela vila de ***.

Os dois velhos estre- meceram; mas Simão nada viu. No dia seguin- te partiu Simão, não sem algumas instâncias de seus pais para que ficas- se. Notaram eles que seu filho nem de leve tocara em Helena. Também eles não quiseram magoá-lo falando em tal assunto.

Daí a dias, na vila de que falara frei Simão, era um alvoroço para ouvir

as prédicas do missioná- rio.

A velha igreja do lu-

gar estava atopetada de povo.

À hora anunciada, frei

Simão subiu ao púlpito

e começou o discurso

religioso. Metade do povo saiu aborrecido no meio do sermão. A razão

era simples. Avezado à pintura viva dos caldei- rões de Pedro Botelho

e outros pedacinhos de ouro da maioria dos

pregadores, o povo não podia ouvir com prazer

a linguagem simples,

branda, persuasiva, a que serviam de modelo as conferências do funda- dor da nossa religião.

O pregador estava a

terminar, quando en- trou apressadamente na igreja um par, marido e

mulher: ele, honrado la- vrador, meio remediado com o sítio que possuía

e a boa vontade de tra-

balhar; ela, senhora esti- mada por suas virtudes, mas de uma melancolia

invencível.

Depois de tomarem

água-benta, colocaram-se ambos em lugar de onde pudessem ver facilmente

o pregador.

Ouviu-se então um grito, e todos correram

para a recém-chegada, que acabava de desmaiar. Frei Simão teve de parar

o seu discurso, enquan-

to se punha termo ao incidente. Mas, por uma

aberta que a turba deixa- va, pôde ele ver o rosto da desmaiada.

Era Helena.

No manuscrito do frade há uma série de reticências dispostas em oito linhas. Ele próprio não sabe o que se pas-

sou. Mas o que se passou foi que, mal conhecera Helena, continuou o frade o discurso. Era en- tão outra coisa: era um discurso sem nexo, sem assunto, um verdadeiro delírio. A consternação foi geral.

V

O delírio de frei Si-

mão durou alguns dias.

Graças aos cuidados,

pôde melhorar, e pareceu

a todos que estava bom,

menos ao médico, que queria continuar a cura. Mas o frade disse positi- vamente que se retirava ao convento, e não houve forças humanas que o detivessem.

O leitor compreende

naturalmente que o ca-

samento de Helena fora obrigado pelos tios.

A pobre senhora não

resistiu à comoção. Dois meses depois morreu, deixando inconsolável

o marido, que a amava

com veras.

Frei Simão, recolhido ao convento, tornou-se mais solitário e tacitur- no. Restava-lhe ainda um pouco da alienação.

Já conhecemos o acon-

tecimento de sua morte

e a impressão que ela causara ao abade.

A cela de frei Simão

de Santa Águeda esteve muito tempo religio- samente fechada. Só se abriu, algum tempo

depois, para dar entrada

a um velho secular, que por esmola alcançou

do abade acabar os seus dias na convivência dos médicos da alma. Era

o pai de Simão. A mãe

tinha morrido.

Foi crença, nos últi- mos anos de vida deste velho, que ele não estava menos doido que frei Simão de Santa Águeda.

FIM de Frei Simão

Fonte: http://www2.uol. com.br/machadodeassis/

30 SAMIZDAT abril de 2009

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu pobre e epilético. Era filho de Francisco José Machado de Assis e de Leopoldina Machado de Assis, neto de escravos alfor- riados. Foi criado no morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Ajudava a família como podia, não tendo freqüentado regular- mente a escola.

“Iaiá Garcia” (1878). Essas obras ainda estão ligadas à literatura romântica e formam a chamada primeira fase de Machado de Assis.

   

Em 1873, o escritor foi nomeado

primeiro oficial da secretaria de Estado do Ministério da Agricul- tura, Comércio e Obras públicas.

 

A

sua carreira burocrática teve

Sua instrução veio por conta própria, devido ao interesse que tinha em todos os tipos de leitu- ra. Graças a seu talento e a uma enorme força de vontade, superou todas essas dificuldades e tornou-

uma ascensão muito rápida, uma vez que, em 1892, já era diretor geral do Ministério da Viação. O emprego público garantiu a esta- bilidade financeira, uma vez que viver de literatura naquela época

 

se em um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.

era quase impossível, mesmo para os bons escritores.

 

isolamento. São dessa época seus últimos romances “Esaú e Jacó” (1904) e “Memorial de Aires” (1908), que fecham o ciclo realista iniciado com “Brás Cubas”

http://fellipefernandes.files.wordpress.com/2008/07/machado-de-assis.jpg

Entre os 6 e os 14 anos, Machado perdeu sua única irmã, a mãe e

Na década de 1880, a obra de Machado de Assis sofreu uma ver-

o

pai. Aos 16 anos empregou-se

dadeira revolução, em termos de estilo e de conteúdo, inaugurando

o

Realismo na literatura brasi-

como aprendiz numa tipografia e publicou os primeiros versos no jornal “A Marmota”. Em 1860, foi convidado por Quintino Bocaiúva para colaborar no “Diário do Rio de Janeiro”. Datam dessa década quase todas as suas comédias te- atrais e o livro de poemas “Crisá- lidas”.

leira. Os romances “Memórias póstumas de Brás Cubas” (1881); “Quincas Borba” (1891); “Dom Casmurro” (1899) e os contos “Papéis avulsos” (1882); “His- tórias sem data” (1884), “Várias histórias” (1896) e “Páginas

Machado de Assis morreu em sua casa situada na rua Cosme Velho. Foi decretado luto oficial no Rio de Janeiro e seu enterro, acompa- nhado por uma multidão, atesta a fama alcançada pelo autor.

Em 12 de novembro de 1869 casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais. Esse casamen- to ocorreu contra a vontade da família da moça, uma vez que Machado tinha mais problemas do

que fama. Essa união durou cerca de 35 anos e o casal não teve filhos. Carolina contribuiu para

recolhidas” (1899), entre outros, revelam o autor em sua plenitude.

O

espírito crítico, a grande ironia,

O fato de ter escrito em português, uma língua de poucos leitores, tor- nou difícil o reconhecimento inter- nacional do autor. A partir do final do século 20, porém, suas obras têm sido traduzidas para o inglês, o francês, o espanhol e o alemão, despertando interesse mundial. De fato, trata-se de um dos grandes nomes do Realismo, que pode se colocar lado a lado ao francês Flaubert ou ao russo Dostoievski, apenas para citar dois dos maio- res autores do mesmo período na literatura universal.

Fonte: http://educacao.uol.com.br/

o pessimismo e uma profunda re- flexão sobre a sociedade brasileira são as suas marcas mais caracte- rísticas.

Em 1897, Machado fundou a Academia Brasileira de Letras,

 

o

amadurecimento intelectual de

da qual foi o primeiro presidente, pelo que a instituição também ficou conhecida como casa de Ma- chado de Assis. Ocupou a Cadeira N.º 23, de cujo patrono, José de Alencar, foi amigo e admirador.

Em 1904, a morte de sua mulher foi um duro golpe para o escritor. Depois disso, raramente ele saía de casa e sua saúde foi piorando por causa da epilepsia. Os proble- mas nervosos e uma gagueira con-

Machado, revelando-lhe os clás- sicos portugueses e vários autores de língua inglesa.

Na década de 1870, Machado publicou os poemas “Falenas” e “Americanas”; além dos “Contos Fluminenses” e “Histórias da

meia-noite”. O público e a crítica consagraram seus méritos de escritor. Publicou os romances:

 

biografias/ult1789u180.jhtm

“Ressurreição” (1872); “A Mão e

 

a

Luva” (1874); “Helena” (1876);

tribuíram ainda mais para o seu

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autor em Língua Portuguesa

Henriqueta

Lisboa:

o modernismo remodelado pela timidez
o modernismo remodelado pela timidez

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SAMIZDAT SAMIZDAT abril abril de de 2009 2009

“Não haverá, em nosso acervo poético, ins- tantes mais altos do que os atingidos por este tímido e esquivo poeta.”

Carlos Drummond de Andrade

http://www.flickr.com/photos/iainalexander/179318796/sizes/o/

Noturno

Meu pensamento em febre

é uma lâmpada acesa

a incendiar a noite.

Meus desejos irrequietos,

à hora em que não há socorro,

dançam livres como libélulas

em redor do fogo.

In: Prisioneira da Noite (1941)

Esse despojamento

Esse despojamento

esse amargo esplendor.

Beleza em sombras

Sacrifício incruento.

A mão sem jóias

descarnada

na pureza das veias.

A voz por um fio

desnuda na palavra sem gesto.

O escuro em torno

e a lucidez

violenta lucidez terrível

batida de encontro ao rosto

como uma ofensa física.

Na imensidade sem pouso,

olhos duros

de pássaro.

In: A Face Lívida (1945)

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Horizonte

Calendário

Alma em suspiro

Calada floração

pelo encontro

fictícia

do que fica

caindo da árvore

sempre mais longe

dos dias

 

In: Reverberações (1976)

34 34

SAMIZDAT SAMIZDAT abril abril de de 2009 2009

Henriqueta Lisboa

Poetisa mineira considerada pela crítica um dos grandes nomes da lírica modernista, Henriqueta Lisboa nasceu em Lambari, MG, em 1903 e morreu em Belo Horizonte em 1985. Dedicou-se à poesia, ensaios e traduções. Surgin- do no decênio da Semana de Arte Moderna, Henriqueta marcou o seu lugar, em nossas letras. Com Enternecimento, publicado em 1929, de forte caráter simbolista, recebeu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia da Academia Brasileira de Le- tras. Aderiu ao Modernismo por volta de 1945, fortemente influenciada pela amizade com Mário de Andrade, com quem trocou rica correspon- dência entre os anos de 1940 e 1945. Foi a primeira mu- lher eleita para a Academia Mineira de Letras em 1963. Em 1984, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Acade- mia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra.

Henriqueta manteve-se sem- pre atuante no diálogo com os escritores e intelectuais de sua geração e angariou muitos leitores ilustres durante sua vida, dentre eles Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandei-

de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandei- ra, Cecília Meireles. Apesar disso, era uma figura

ra, Cecília Meireles. Apesar disso, era uma figura solitá- ria. Sua poesia busca tangen- ciar o indizível, ultrapassar os limites da palavra e penetrar a essência da poesia. Por isso nos comove tanto, sem recorrer a qualquer artifício sentimental. As palavras vêm para ela como se fossem as próprias coisas, os próprios sentimentos, as próprias sensações. Por essas caracte- rísticas, Henriqueta Lisboa é considerada um dos grandes nomes da poesia em língua portuguesa.

Fonte dos dados biográficos:

http://www.letras.ufmg.br/

henriquetalisboa/

http://pt.shvoong.com/books/

biography/1659839-henrique-

ta-lisboa-vida-obra/

Contos

Contos duas m duas ulheres, Estradas Carlos Alberto Barros 36 36 SAMIZDAT SAMIZDAT abril abril de

duas m

duas

ulheres,

Estradas

Carlos Alberto Barros
Carlos Alberto Barros

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SAMIZDAT SAMIZDAT abril abril de de 2009 2009

http://www.flickr.com/photos/mrhayata/295323435/sizes/o/

Dizia-me haver meses desde que abandonara

seu passado: casa, família, emprego, tudo. Seu único desejo era que a estrada continuasse eterna à sua frente. Quando a en- contrei, naquela rodovia interestadual, ela trazia apenas uma mochila às costas. Eu no carro, ela a pé: duas mulheres em bus- ca de qualquer coisa que não tínhamos. Diminuí a velocidade do automóvel e

a acompanhei. Tentei ser

gentil:

– Segue para onde, co-

lega?

– Sigo. Simplesmente,

sigo.

– Esta estrada é bem

longa

Quer carona?

– Quanto mais longa,

melhor – fez uma pausa e contemplou a paisagem. – Obrigada, mas, continuo a pé. Quero sentir melhor os ares destas bandas.

– Certeza? A mochila não está pesada?

– Não tenho muita

coisa aqui. Só trouxe o que

realmente me faria falta da antiga vida. E ainda sobrou bastante espaço – disse, enquanto sacudia a bolsa.

Insisti no diálogo, até que se tornou uma con- versa agradável. Em certo

ponto, ela parou de andar

e eu desci do carro. Acho

que ela não confiava em mim, mas, como eu não era um homem, pelo me- nos não teve medo de con-

versar. Ficamos sentadas à beira da estrada, e ela começou a contar-me do porquê de estar naquela vida errante, do abandono do passado, da busca por estradas sem fim.

– A vida finge ser gentil conosco – dizia-me –, finge nos fazer felizes, até acre- ditarmos que o mundo está sempre sorrindo para nós.

– E não é assim que

acontece? – perguntei.

– A vida é uma farsa!

Quando achar que ela está

rindo para você, cuidado,

pois ela pode estar rindo

de você. E, normalmente,

é isso o que acontece. Foi

desse jeito comigo.

– Também me sinto

assim às vezes. Por isso

estou na estrada de novo. Mas, pretendo voltar à minha vida. Abandonar

tudo

quase loucura.

– Loucura é descobrir

que esse tudo de que

você fala não passa de

um castelo de ilusões, um teatro de máscaras, uma

comédia grega. E o pior é quando você descobre que

é o palhaço da vez. Riem!

Riem da sua cara sem pie- dade, sem se darem conta de estarem te matando, te fazendo menos que lixo! Isso é a realidade, queri-

da! Esse é o meu tudo que abandonei.

a vida nem sempre

é como queremos – falei,

Isso não é fácil

É

– É

reflexiva. – Mas, sempre há o que se fazer. Sempre há uma nova estrada para se seguir.

– E esta aqui é a minha!

– disse, e então, se levan- tou.

– Mas, toda estrada, um dia, se acaba.

– Se esta se acabar, terão outras. E o que me resta de vida será pouco para

percorrer todas estradas

deste mundo.

Ajeitou a mochila às

costas, como quem se pre- para para recomeçar uma árdua trilha. Eu queria continuar a conversa.

– Será que não há nada

por que valha a pena vol-

tar? – perguntei, ao mesmo

tempo questionando a ela

e a mim mesma.

– Se quiser voltar para

sua vida debochada, volte. Eu sigo por aqui, que meu mundo, agora, é o cami-

nho por onde piso.

Eu estava curiosa. Arris- quei perguntar:

– Mas, o que, afinal, te

aconteceu?

Ela baixou a cabeça e ficou contemplando os

próprios pés por alguns instantes. Como demora- va a se mover, resolvi me aproximar. Quando toquei seu ombro, ela desabou.

Em reflexo, recuei, assus- tada, enquanto que ela abraçava a mochila sobre

o peito e chorava compul-

sivamente.

Fiquei sem saber o que fazer. Pedi que se acal- masse, disse-lhe que esta- va tudo bem, que eu não mais a incomodaria. De repente, gritou:

– Cala a boca! Você não sabe de nada!

Levantou-se, e seu choro se misturou a uma explo- são de ódio. Comecei a ficar com medo.

– Sabe por que riram de

mim? – inquiriu-me, sem deixar que eu respondes- se. – Um tombo! Tropecei no meu próprio pé e caí, como uma criancinha atrapalhada aprendendo a andar.

Diante da confissão, não

consegui deixar de imagi- nar a cena. E o engraçado não era nem tanto o tom- bo em si, mas o fato de ela ter abandonado tudo por isso. Fugir por conta de um tombo? Comecei a achar que estava lidando com uma louca. Dei um sorriso torto, elevando apenas um dos cantos da boca, quase como uma careta de estranhamento

– muito mais pela perple-

xidade em que me encon- trava do que pela graça da situação.

– Isso! Seja mais um a

rir de mim! E que tal rir disto aqui? – gritou e abriu sua mochila. O que tirou de lá me deixou ainda mais confusa e assustada.

– Meu Deus! – exclamei.

– O que é isso?

– Ah, você não sabia

deste detalhe? Assim como todos que riram de mim,

você também não sabia que eu levava ele no meu colo. O meu bebê, meu

filho!

Vi aquilo e senti nojo. Um corpo minúsculo, enrugado, a pele escura, como que cheia de he- matomas, os pequeninos membros retorcidos. Se

o que eu via já fora um

bebê, naquele momento não passava de um feto mal formado em decom- posição, talvez um bicho morto já apodrecendo.

– Foi um acidente! – co-

meçou a se explicar, en- quanto ninava o que dizia

ser seu filho. – Eu caí por cima do pobrezinho. Tão

frágil

o matei! – gritou. – Mas,

agora, eu cuido bem de você, não é, meu anji- nho – falava com carinho, olhando-o.

Tão pequeno

Eu

– Meu Deus! Você é lou-

– eu falava, me

ca

enroscando nas palavras e recuando em direção ao

carro.

Louca

– Você é só mais uma

que ri de mim, sua va- gabunda! Você e o resto

do mundo! Nem aqui, no

meio do nada, eu me livro da hipocrisia de vocês. Mas, eu estou cansada disso! Cansada! – berrou com tanta força que pude ver saliva saltando de sua

boca.

Eu já estava na porta do carro quando ela enfiou a mão novamente na mo- chila. Tirou um revólver e apontou em minha dire- ção. Sem saber ao certo como, já me encontrava abaixada atrás do volante tentando ligar o carro.

– Isso mesmo, vá em- bora! – ela gritava. – Volte para sua vidinha! Hoje, riem de mim, amanhã,

será de você!

Assim que o carro fun-

cionou, acelerei sem olhar

o que havia pelo caminho.

Imaginando que a mulher estava bem para trás, arris-

quei levantar a cabeça. O carro já quase ia fora da

estrada. Trouxe-o de volta

e continuei acelerando.

Quando olhei pelo retrovi-

sor, ouvi o disparo.

A mulher caiu com seu filho ao colo. Dessa vez, teve cuidado para não cair sobre ele. E, dessa vez, nin- guém riu.

Não tive coragem para

voltar. Só fui parar quando

o primeiro posto policial

apareceu. Contei a histó- ria enquanto o choro me

dominava. Depois de tudo, desisti de viajar em bus- ca do que eu não tinha. Naquele momento, meu único conforto era saber que havia um lar ao qual eu podia retornar.

38 SAMIZDAT abril de 2009

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Ele tinha diante de si a mais difícil das missões:

cumprir a vontade de Deus

Henry Alfred BugAlHo

ORei dos Judeus
ORei dos
Judeus
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Contos

 
   
 
Maria de Fátima Santos
Maria de Fátima Santos

a como está o carapau

Ela perguntou apontando

do meu carapau?

- Minha puta sem ver- gonha a desfazer no meu peixe. Badalhoca…

Maria do Carmo ri-se à socapa e apreça duas pos- tas. Ela que nem sabe se dormiu ou simplesmente rebolou ainda uma e outra vez debaixo dele, por cima dele, ao lado dele na cama e no soalho e nem sabe mais senão que havia um bidé com suporte de ferro por detrás de um cortinado soprado pela brisa fria que vinha de uma greta da jane-

o peixe e sentindo que era

E ela seguindo, que sem-

a primeira vez que falava

desde há horas. Perguntou

pre a deliciara ouvi-las naquele afã de fazer pela vida. E a mulher do cara-

distraída:

 

- A como está o carapau?

pau fresquinho arrematava

- Dois mil réis, madama.

impropérios na direcção

- respondeu a peixeira e já

ela ia andando

da camisola muito branca

Ela andando e a ven- dedeira com as palavras dependuradas do grito, mais censura que rogo:

-

Venha cá minha cari-

que Maria do Carmo vestira ainda há pouco.

Maria do Carmo a olhar noutra banca uma chaputa de olho arregalado apesar de muito morta. E a ven-

nha de anjo…. Não gosta

dedeira de carapau ainda a chama:

40 SAMIZDAT abril de 2009

la empenada. Ela compran-

do peixe para fazer tempo. Tempo de dizer em casa,

simplesmente:

- Bom dia! Não consegui telefonar. Fiquei por lá.

Um costume de anos:

dormir num hotel se demo- rava mais com uma con- sulta ou estava mau tempo para se fazer à estrada.

Nem se incomodaria a dizer ao marido onde dor- mira. Nem Xavier lho per- guntaria. Mas para isso era preciso que chegasse à hora de outros dias semelhantes. Ao Xavier nem sequer lhe cheirariam os húmus des- sa noite. Talvez sentisse o cheiro a peixe. Ou talvez nem ficasse perto dela o suficiente.

Maria do Carmo com- prou duas postas de cha- puta e recebeu uma nota húmida que esfregou na mão como se fosse outra a humidade que sentia. Sor-

riu-se dela mesma e meteu

a nota na carteira. Olhou de longe a peixeira que agora apregoava carapau vivinho, minhas meninas. A mulher

a

chamar-lhe badalhoca

e

ela que nem lavada dos

humores daquela noite … Sorriu de novo.

Tinha sido um acaso. Fora tomar café na salinha ao lado da sala de audiên- cias. A sala muito cheia. Ela cheirou-lhe a alfazema. Voltou-se em busca des- se odor e ele sorriu-lhe do meio da fragrância de perfume barato e passou-lhe um pacote de açúcar. E ela ficou adoçando o café num

tremor esquecido que era sentir o desejo a percorrer- lhe o corpo. E ele num

sussurro, percebendo:

- Poderemos jantar esta

noite? - assim. Sem mais nem menos.

E a saia dela, uma saia comprida com duas pregas fundas, acusando interio- res muito esquecidos. E ele sorrindo a esperar um sinal positivo:

- Aqui às sete. Está bem para si?

Ela deve ter-lhe acenado um sim antes de voltarem todos à sala de julgamentos.

Às sete estava lá. Esfu- siante.

Não foi decerto ela quem disse que aquele hotel era um local discreto. Ela sim- plesmente terá acedido, toldada a capacidade de de- cidir o que quer que fosse. Era como estaria ela: numa bebedeira. Toda embrulha- da no desejo. Um desejo

desmesurado, intenso. Um desejo de sexo. Simplesmen- te. Assim. Sem mais nem menos.

Colocou o saco com o

peixe no interior da pasta. Os papéis daquele processo ficariam a feder a chaputa fresca. Sorriu. Olhou o reló- gio. Sete e quarenta. Podia ir andando. Parara a fazer tempo na periferia. Em dez minutos estaria no seu bair- ro. Por baixo do casaco de fazenda castanha, a camiso- la branca impecável. Apesar da noite: ela nuazinha numa cama de um hotel de tercei- ra. Uma noite inteira até ser madrugada.

- Às sete?

Foi o que ele perguntou, meio deitado sob o lençol de flanela com flores: azul

desbotado. A tatuagem, mil

novecentos e setenta e dois, sobrando do lençol . E ela rememorando o que tinha lido: Amor de mãe. Escrito por baixo. Não respondeu. Pegou na carteira e saiu do quarto. Nem sequer até mais ou tem um bom dia.

Percebeu isso, quando descia

a escada forrada com um

linóleo às flores. E sorriu-se.

- Bom dia, Maria do Car- mo. Ficaste por lá?

O marido saía de casa

atrasado para uma reunião. Acenou-lhe a sair da gara- gem. Cruzaram-se os dois carros, lado a lado.

O duche limpa-lhe res-

tos de saliva e cordões de

esperma. Maria do Carmo sabe-os onde. Cobre com

as mãos os locais da noi- te. Deixa escorrer a água

e lava-os com sabonete de algas.

Sob o duche morno permanece, amaciado mas desperto, o desejo.

O duche não lhe limpa

tudo.

Maria do Carmo grita por cima do soar da água.

- Às sete.

E ri-se alto enrolando o cabelo molhado na toalha a fazer um turbante.

Contos

Chave de ouro

42 SAMIZDAT abril de 2009

Contos Chave de ouro 42 SAMIZDAT abril de 2009 Volmar Camargo Junior v.camargo.junior@gmail.com
Contos Chave de ouro 42 SAMIZDAT abril de 2009 Volmar Camargo Junior v.camargo.junior@gmail.com

Volmar Camargo Junior

v.camargo.junior@gmail.com

http://www.flickr.com/photos/moriza/486919884/sizes/o/

Alessandra foi a última

a subir no ônibus aquela

quinta-feira. Eram onze da noite, e do campus até sua casa, mais uma hora e meia de estrada. Tudo o que queria era poder sentar- se na poltrona do fundo e esperar o veículo entrar em movimento. De segunda a

sexta, durante esses cinco mil e quatrocentos segun- dos entre a faculdade e sua casa, Alessandra da Silva era Pilar Ortega. *** Pilar acordou-se. A escu- ridão do quarto era a mes- ma, o ar pastoso do verão

e o mosquiteiro, imóveis

como à hora em que se dei- tara. Buscando outra vez re-

laxar, virou-se de lado. Juan estava dormindo de olhos abertos. Sabendo que o sono não regressaria de pronto, levantou-se e foi escrever. Pilar escrevia poemas. A hora feliz de seu dia era quando Juan estava apa- gado e satisfeito, o cão dor- mia e a rua mergulhava no silêncio saboroso que só as ruas provincianas possuem na madrugada. Era como se o mundo caísse num precipício e apenas a mesa,

o abajur, a xícara de leite,

as folhas de papel, a caneta

de tinta preta, a cadeira e ela, Pilar, permanecessem, suspensos no espaço como uma constelação desco- nhecida, jamais vista por ninguém na face da Terra.

E todas as noites, os treze

versos de um soneto incom- pleto vinham-lhe à mente.

Aquele poema falava disso

de ser uma constelação, e

havia anos que tentava a poetisa para ser concluído. Faltava-lhe uma Chave de Ouro – pois é assim que devem terminar os sonetos. Pilar habituou-se a desistir dele. Outros sonetos, meno- res, aglomeravam-se como pequenos sistemas solares, todos nascidos de um poe- ma perfeito e inacabado. O sono veio. Pilar acomodou- se ao corpo de Juan. Não queria acordá-lo. Exausta, dormiu. ***

O ônibus dos estudantes

aproximava-se do final da linha. Alessandra despertou,

desceu despedindo-se do motorista e foi para casa,

imaginar, sozinha, coisas da intimidade de Juan e Pilar.

A noite seguinte era

sexta-feira. Alessandra as detestava, porque os colegas vinham mais falantes que o

habitual. Era-lhe mais peno- so para, no fundo do ôni- bus, relaxar e ser a outra. Mesmo assim, depois de alguns minutos, adormeceu. Abriu os olhos como Pilar.

***

Nas noites de sexta, Juan

jogava futebol society no clube com os colegas da empresa – e com esse acor- do conseguiram manter- se felizes. Pilar cochilou até a meia-noite. Sem que pudesse recordar depois como aconteceu, sentiu o

sopro divino que poria em movimento novamente a constelação de sua poesia.

E, quando lhe perguntaram

depois na primeira entrevis-

ta, disse que foi assim: foi como uma milagrosa força da natureza, dançando com

a música que move o Cos-

mos. Repleta dessa melodia, toda a sua existência então, resumiu-se às dez sílabas poéticas que a levaram ao êxtase, e enfim, a completu- de do soneto surgiu a partir do nada. No furor de ale- gria da criação, Juan chegou do futebol. Pilar jogou-se nos braços de seu homem como fazia ainda no tempo de seus primeiros momen- tos de intimidade. Já era sábado, e aos criadores é reservado o sétimo dia para

o merecido descanso.

*** A estudante acordou num sobressalto. O veículo

pareceu-lhe estar rápido de-

mais, e os gritos vindos das poltronas da frente foram suficientes para alarmá-la. Tudo foi muito rápido: a derrapagem, o guard rail, o barranco, os trezentos me- tros capotando ribanceira abaixo. ***

Alessandra da Silva, vinte

e dois anos, estudante de letras e escritora amadora, faleceu sem ter concluído

a faculdade, e sem escrever

uma única linha do roman- ce que planejou por anos. Pilar Ortega, trinta anos,

poetisa, jamais existiu por- que o romance em que era

a protagonista nunca foi escrito.

Contos

o atraso da

Primavera

44 SAMIZDAT abril de 2009

Joaquim Bispo
Joaquim Bispo
Joaquim Bispo

Joaquim Bispo

Joaquim Bispo
Joaquim Bispo

http://www.flickr.com/photos/vaitu/3075851092/sizes/l/

Há muito, muito tem-

po, quando o Homem vi- via ao ritmo das estações, houve um ano em que a Primavera se atrasou para além do habitual. Passou Março, Abril ia adiantado

e nem sinais dela.

O Verão, lá dos poma-

res que habitava, olhava, olhava e os campos que vislumbrava mantinham- se desolados, gelados, batidos pelo vento. Te- mendo pela eclosão das sementes e preocupado com o que pudesse ter acontecido à Primavera, resolveu procurar o Ou- tono para lhe comunicar

o

que estava a acontecer

e

decidirem o que fazer.

Muniu-se duma coroa de raios solares e pôs-se a caminho. Em breve atin- giu as florestas onde o

Outono vivia. Este, ficou muito preocupado com

o que o Verão lhe con-

tou e sugeriu que fossem falar com o Inverno, que vivia numa gruta rochosa numa montanha a norte. Talvez ele soubesse al- guma coisa ou pudesse ajudá-los a procurar a desaparecida. Pôs pelos ombros uma ampla capa de folhagem castanha, vermelha e amarela e puseram-se a caminho.

Andaram, andaram por campos vazios e silencio- sos e prados de plantas cinzentas e murchas. O vento assobiava gélido e selvagem. A progressão ia-se tornando mais pe-

nosa, por serras escalva- das e desfiladeiros atu- lhados de neve. Ao fim de uns dias, chegaram finalmente à caverna do Inverno.

Entraram. O frio pare- cia mais intenso, o escuro era medonho. Ao fundo de uma galeria, encontra- ram o Inverno agitando as suas asas de morcego sobre o seu manto de

nuvens negras, atarefado

com o funcionamento do enorme fole que soprava os ventos agrestes por so- bre os montes e os vales.

– Inverno! – bradou o

Outono, que era quem tinha mais contactos com ele. – Já viste a Primavera este ano?

O visado virou-se lentamente e, de cabeça baixa, mirou os visitantes por baixo das sobrance- lhas nevadas.

– Ó entes tresloucados,

o que fazeis por estas paragens? Abrigai-vos aí nessa côncava, que não

estais habituados a estes frios.

– Não te preocupes

connosco, que estamos

protegidos – a voz pos- sante e clara do Verão encheu a caverna. – O que nos preocupa é que já estamos a chegar a Maio e ainda não vimos

a

Primavera.

O

Inverno imobilizou

o

fole e aproximou-se

dos visitantes.

– Não te abespinhes,

Verão! Sei que és jovem e sanguíneo mas a hospi- talidade é um dos meus princípios. Sim, já a vi. A pobrezinha está lá dentro, deitada. Mas, descansai um pouco. Sentai-vos.

– Que lhe fizeste, velho

perverso? Abusaste dela?

– a coroa do Verão fais- cava.

O Inverno olhou-o

com indulgência. Juntou uns cavacos e acendeu

uma fogueira.

– Esqueces-te que é

minha filha? – murmu- rou. – Está um pouco atrasada, só isso. A juven-

tude não tem o sentido das responsabilidades! – a sua voz parecia denotar algum desapontamento,

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enquanto lhes servia um ponche quente.

O Outono, mais cor- dato, sorveu um trago e indagou:

– Mas diz-nos, Inver-

no, que se passa com ela para deixar assim as plantas e os animais em completa desorientação?

– Ela esteve no outro

hemisfério, como faz todos os anos, mas desta vez parece que conheceu lá alguém interessante – um tal a quem chamam El Niño – e só voltou há meia dúzia de dias. Vinha exausta e toda alvoroçada, de modo que eu achei melhor ela des- cansar uns dias antes de reiniciar as suas tarefas. Esperai que eu vou cha- má-la!

Enquanto se afastava para a zona mais escura da caverna, o Verão mos- trava-se inquieto:

– Acreditas nele?

– Não sei. Vamos espe-

rar. Mas, se for verdade, acho incrível que a meni- na tenha ficado no bem- bom, para lá da licença, e que, chegada aqui, o papá ainda ache que a filhinha precisa de descansar. Não

é espantoso?

– Claro! Eu acho que

isto não pode continuar! Ou bem que se assumem compromissos ou não!

Pouco depois, entrava

a jovem, deslumbrante

num vestido de pétalas de amendoeira e uma

tiara de flores amarelas

de giesta que acentuavam

o azul celeste dos olhos.

– Oh, que queridos!

Preocupados por minha causa! – beijou ambos, ao mesmo tempo que lhes fazia uma festinha no rosto. – Estava cansadíssi- ma. Foram umas férias e tanto! Fiz falta?

Posta a conversa em dia, a Primavera des- pediu-se. Com as suas asas brancas elevou-se nos ares, sob o olhar embevecido do trio. As nuvens negras rasgaram- se e dissiparam-se, o

céu azul apareceu e o

Sol beijou os prados, os

pomares e os bosques. Do alto, começaram a cair pétalas de todas as cores que esvoaçavam e pousavam delicadamente sobre todas as plantas. Os talos esqueléticos onde

elas tocavam começaram

a lançar rebentos que se

abriam em folhas e flo- res. Cheiros adocicados flutuavam ao sabor da brisa suave. Nuvens de abelhas, besouros e gafa-

nhotos cruzavam os ares em azáfamas surpreen- dentes. Passarada de to- dos os tamanhos e cores revoluteava a alimentar-

se, a acasalar, a construir ninhos. Os seus inúmeros

chilreios misturavam-se com as cegarregas de gri- los e cigarras e o coaxar das rãs.

A temperatura era ago- ra fresca mas amena, os campos fervilhavam de cores e vida e os homens estavam felizes. Atrasa- da mas fulgurante, tinha chegado a Primavera.

[Conto publicado, em Maio de 2007, na revista CAIS – revista vendida na rua pelos sem-abrigo portugueses, de cuja venda guardam 70% e que cons- titui o seu modo de subsis- tência temporário]

46 SAMIZDAT abril de 2009

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O lugar onde

a boa Literatura

é fabricada

O lugar onde a boa Literatura é fabricada ficina www.oficinaeditora.org A Oficina Editora é uma
ficina www.oficinaeditora.org

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Literatura é fabricada ficina www.oficinaeditora.org A Oficina Editora é uma utopia, um não- lugar. Apenas no

A Oficina Editora é uma utopia, um não-

lugar. Apenas no século XXI uma vintena de autores, que jamais se encontraram fisicamente, poderia conceber um projeto semelhante.

O livro, sempre tido em conta como uma das principais fontes de cultura, tornou-se apenas um bem de consumo, tornou-se um elemento de exclusão cultural.

A proposta da Oficina Editora é resgatar o

valor natural e primeiro da Literatura: de bem cultural. Disponibilizando gratuitamente e-books e com o custo mínimo para livros impressos, nossos autores apresentam

a demonstração máxima de respeito à Literatura e aos leitores.

www.revistasamizdat.com

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Contos

 

A Busca

 
Henry Alfred Bugalho henrybugalho@gmail.com

Henry Alfred Bugalho

Henry Alfred Bugalho henrybugalho@gmail.com

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Sir Morton de Buckin- ghamshire não era um homem das Ciências, mas o último fascículo de Proce-

edings of the Royal Acade- my of London, deixado — acidentalmente? — em sua escrivaninha por um amigo,

o

havia intrigado.

conhecida, que ocuparia to- dos os espaços do Universo, desde a vastidão do espaço

sideral até o vazio entre a matéria física. O éter era o medium por onde as ondas eletromagnéticas e lumi- nosas se propagavam, do

ele descobriu a origem da palavra, remontada aos gre- gos, filósofos naturais, que

recorreram a este conceito para fundar a existência do mundo físico. Surgiu-lhe a idéia de escrever um romance:

O artigo principal dis- sertava sobre o éter e suas propriedades. A questão básica, aparentemente, era entender como a luz se pro- pagava no espaço. Segundo

a

ton, o éter era uma subs- tância, a quinta substância

compreensão de Sir Mor-

mesmo modo que o som se propaga no ar. Mas não eram as pro- priedades físicas do éter que interessavam Sir Mor- ton, e sim este misterioso caráter de permear todas as

coisas, de estar por detrás do mundo visível. Numa rápida pesquisa,

Um filósofo sarraceno obtém, pelas mãos de pe- regrinos do Ocidente, uma cópia da META TA FUSIKA de Aristóteles. Deslumbrado com os horizontes apre- sentados pelo sábio grego, este filósofo mouro inicia

48 48

SAMIZDAT abril de 2009

a redação duma obra em

defesa do conceito de éter (a quintessência), adequado aos valores islâmicos. Con- tudo, quando o califa desco- bre o conteúdo do trabalho do filósofo, que, em muitos aspectos, distorce a teologia do Corão, ele bane de suas terras o erudito.

Condenado a vagar pelo

mundo, o filósofo passa

a reconhecer nas várias

culturas a necessidade desta essência primeva do mun- do. Torna-se alquimista e, moldando a quintessência, obtém a elevação espiritual.

No entanto, logo no pri- meiro parágrafo, Sir Morton se deparou com severas dificuldades. Ele pouco co- nhecia da cultura islâmica

para se arriscar a escrever uma obra longa verossímil; as críticas a seu último li- vro, ambientado na Turquia, haviam sido inclementes,

e ele não queria repetir o mesmo erro. Por isto, ele mudou al- guns elementos da trama.

O filósofo sarraceno foi substituído por um monge taoísta, recolhido nas mon- tanhas Huangshan, absorto pela missão de compreen- der o Tao, a relação entre os cinco elementos — metal, madeira, fogo, água e terra — e a grande dualidade do mundo, yin e yang. Por algum grande acaso, numa das circunstâncias de descer à vila para adquirir víveres para o mosteiro,

o monge conhece uma

britânica, tutora do filho do governador local, e se apaixona. A eterna mutação que ele havia aprendido no I-Ching se tornava fato:

dum dia para o outro, o monge era diferente, todo seu mundo havia mudado.

Eles consumam seu amor. Todas as noites, ele desce a íngreme montanha e se esgueira para dentro do palácio do governador. A ocidental e o oriental se confundem sob os lençóis, a perfeita união do yin e do yang.

A tutora ensina inglês e

latim ao monge. Supre-o com livros, para que ele

possa praticar os novos idiomas enquanto estiverem distantes, ela na vila, ele no mosteiro. Um destes livros, que a tutora nem sabia que estava entre suas coisas, é a história dum filósofo sar- raceno obcecado pela obra de Aristóteles. O filósofo é expulso de suas terras pelo Califa e se torna alquimista.

O monge se vê espelha-

do na história: obcecado pelo Tao, expulso de sua paz pelo amor duma mu- lher, encontra na comunhão

espiritual e física com ela sua libertação. No entanto, este enre- do parecia ser conhecido. Sir Morton não conseguia se recordar de onde havia surgido a inspiração. Vas- culhou sua interminável biblioteca à procura deste único livro que lhe teria inculcado tão peculiar enredo. Abandonou a redação de seu romance, obcecado pela busca desta obra singu- lar. Meses se passaram, seu editor pressionando-o para que ele lhe entregasse um manuscrito, senão o con- trato seria revogado. Mas

nada mais importava a Sir Morton, nada o acalmaria a não ser achar sua fonte de inspiração. Dias, semanas, meses, perdido entre mon- tanhas de livros, tirou das estantes todas as obras e folheou-as uma a uma.

Atolado em dívidas, ele dilapidou seu patrimônio; desfez-se de suas terras, de seus imóveis, dispensou a criadagem, vendeu o coche, penhorou as jóias da famí- lia. Por fim, até dos livros teve de se desfazer. Com seus últimos tostões no bolso, Sir Morton em- barcou num navio e viajou até Cingapura. Haviam cruzado a costa do Sri Lanka quando uma devastadora tormenta os apanhou em alto-mar e o navio naufragou. Sir Morton se agarrou aos destroços e, após boiar por dois dias, acabou des- pertando numa praia deser- ta.

Primeiro, desesperou-se. Sozinho num mundo desco- nhecido e virgem, tal qual Robinson Crusoé, que havia lido na infância. Aos poucos, foi encon- trando nas margens desta ilha — ou continente, não o sabia — despojos do naufrá- gio. Entre eles, uma caixa de livros. Sua única distração num mundo sem cultura. E qual não foi sua sur- presa ao descobrir, entre os livros umedecidos, aquele que o havia inspirado na redação de sua última obra. Era a história dum roman- cista inglês que encontra sobre sua escrivaninha um periódico científico abor- dando o conceito de éter,

e que decide escrever uma obra sobre isto. Sozinho, numa ilha de-

serta, livro aberto nas mãos, Sir Morton gargalhou. Ele era Sir Morton, um roman- cista inglês, mas também um filósofo sarraceno, um monge taoísta, e Sir Morton,

o náufrago que descobre a

si mesmo.

Contos

Piso 23

50 50

SAMIZDAT SAMIZDAT abril abril de de 2009 2009

José Espírito Santo
José Espírito Santo

Foto: Henry Alfred Bugalho

A

DESCOBERTA

O

dia estava chuvoso

quando Américo Nunes imobilizou o pequeno Prius um pouco à frente do rectângulo traçado

no asfalto. Antes de sair, ligou o dispositivo mó- vel de forma a consultar

a agenda diária e, acto

involuntário, fez uma careta – para além das tarefas de rotina e do re- latório do projecto, tinha uma daquelas reuniões

difíceis com o Silva. “Bem, não serve de muito ficar

a matutar nisso. Depois

logo se vê o que é que ele

quer desta vez” pensou, ao sair porta fora para a rua fria.

Do outro lado, espe- rava-o um edifício “Foz” imponente nos seus oi- tenta metros de altura, os vários pisos apoiando-se como pilha de paralelipí- pedos rodando ao longo de estrutura helicoidal invisível. De mala na mão esquerda, segurou o guarda-chuva e percor- reu rapidamente os me- tros que o separavam da passadeira. Esperou pelo verde e atravessou.

“Bom dia António” dis- se quase sem olhar, en- quanto cruzava o espaço que o separava do “hall”.

O porteiro sorriu e es-

boçou um aceno. “Sempre

gentil, o engenheiro. Não

é como essa geração mais

nova, uns abotoadinhos emproados que entram com pressa, sempre a olhar a direito não se dignando a dar um cum- primento”.

Após subir os vinte e dois pisos, chegou fi-

nalmente ao escritório

e abriu a porta. O seu

espaço de quinze metros

quadrados tinha uma

decoração moderna, a secretária vazia e impe- cavelmente arrumada,

o ecrã de LCD apagado,

o “laptop” morto a um

canto, por debaixo. Sen- tou-se e correu as cor- tinas; parou um pouco, observando a paisagem. Podia ver o manto azul do enorme estuário, os bandos de gaivotas em voo rasante, a superfície sendo sulcada por caci- lheiros e pelos “hover- crafts” que fazem ligação com o Barreiro. Á direita, filas de automóveis pre- enchiam o tabuleiro da ponte outrora chamada de “Salazar” e que o pós- revolução renomeou para “25 de Abril”. A mesma ponte que o povo sempre conheceu simplesmente como a “Ponte sobre o Tejo”.

Ligou o computador e ficou por ali mergulha- do em trabalho a manhã toda. Tão absorto que nem deu pelo passar do tempo e só desviou os

olhos da tela quando um

nocturno de Chopin ir- rompeu do Nokia, inter- rompendo repentinamen- te o silêncio. Atendeu.

“Sim? Ah, és tu, Ro- drigues. Então já vão a descer? Bem, hoje não vos faço companhia. É o meu dia de vegetariano, desin-

toxicação…”

Após mais uns minu- tos, olhou para o reló- gio digital que marcava “quarto para a uma”, vestiu de novo a gabardi-

ne, armou-se do guarda- chuva e saiu. Chegado ao hall, chamou o eleva- dor para levá-lo até ao piso térreo. Após uns segundos, a luz acendeu marcando a chegada da cabine. Porta “D”. Depois de entrar, olhos postos no painel de comandos, preparava-se para car- regar no zero quando o espírito analítico e “olho clínico” se aperceberam que algo estava errado.

“Hei

isto não estava

ali. Vinte e três? Como

é possível?”A atenção

fixava-se agora no círculo

com os algarismos embu- tidos.

“Como vinte e três se o prédio só tem vinte

e dois andares?” Ele sa-

bia. Após cinco anos de trabalho diário naquele local, conhecia o edifício razoavelmente bem.

Chegou ao átrio ainda intrigado, murmurando

para si mesmo: “ Vinte e três? Piso vinte e três?”

O “Ponto V” era um espaço acolhedor com uma estátua gorda de Buda à entrada e as qua- tro paredes decoradas de cores vivas. Sempre

vestido de grupos de pessoas jovens e bonitas

a misturar conversas em

voz baixa, educada, par- tilhando o espaço sonoro com a música de fundo instrumental, raramente asiática e quase sempre

Jazz. Desfrutou o sabor do bife de seitan chaman- do mentalmente parvos

a todos aqueles que con-

fundem vegetariano com coisa descolorida e fraco sabor. Depois, terminou a refeição com a sobremesa deliciosa: uma bavaroise de amoras recheada com molho de iogurte.

De volta à cabine do elevador, estava já para sair e retornar ao escri- tório quando decidiu - ia esclarecer a coisa de uma vez por todas. Premiu o botão sentindo imediata- mente um leve trepidar, sinal de que o dispositi- vo se tinha colocado em movimento. Após uns breves segundos, o trans- porte imobilizou-se e as portas abriram.

Em frente, o “hall”. Similar, demasiado igual ao que tinha no seu piso. O mesmo candeeiro, os

mesmos quadros com “marketing” de empresa, o mesmo tapete turco e, ao balcão, uma alma gémea de Sara, a secretária de cabelo loiro curto, corta- do “à escovinha”, a teclar rapidamente. Consultava algo e o telefone fora do bocal era indício de que,

algures, um cliente espe- rava por resposta.

Estranho. Como podia estar ela ali se a tinha acabado de avistar no

cerca de trinta minutos, desvaneciam-se os deta- lhes, todas as imagens. Ficava a sós com as vá- rias divisões de paredes brancas e nuas e a porta do elevador que haveria de o trazer de volta. Mas nada disso o impediu de passar a fazer as visitas rotineiramente. Tornara- se um vício.

As coisas na empresa pioraram. Primeiro foi o relatório de projecto que

piso de baixo? Sem saber

o

Silva “chumbou” e que

bem o que fazer, atirou

o

mesmo “Silva” mandou

um “Olá Sara.” que ela não ouviu. Indiferente

que fosse alterado. Que enviaram então ao cliente

à sua presença, desviou

os olhos da tela e a mão

direita voltou a pegar no bocal.

Aproximou-se mais e foi então que reparou na data: Quinze de Janeiro de 2009. Amanhã.

O PLANO É ELABORA-

DO

O insólito só o é quan- do ainda não totalmente absorvido pelas malhas da rotina. Embora não obtivesse qualquer expli- cação racional, habituou-

se a ter por certa aquela

viagem ao futuro. As possibilidades eram limi-

tadas – não era visto nem

podia interagir, era mero espectador. Além disso,

o tempo de que dispu-

nha em cada visita era igualmente escasso. Após

e que o cliente não acei- tou. Seguiram-se outros desastres. Sempre que

o chefe metia a colher,

a coisa descambava. As

reuniões tornaram-se in- suportáveis. Estava já para enviar o currículo para outras empresas quando lhe surgiu a ideia. Porque

não tinha pensado nisso antes? Se tinha aquela viagem para o “amanhã”, apesar de ser um mero observador, poderia fazer hoje que o amanhã in- cluísse algo digno de ser visto. O plano que nasceu nesse preciso momento era muito simples: Sa- bendo que o sorteio do Euromilhões é efectuado ao fim da tarde de sexta- feira, Sábado bem cedo

voltaria ao escritório e obteria os números cer- tos. Depois, bastava dei-

52 SAMIZDAT abril de 2009

O lugar onde

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xar sobre a secretária o pequeno “Post It” com a

chave mágica. Se fizesse isso, sabia que teria então

o tempo necessário para

fazer a viagem na sexta

e descobrir os números

certos antes de jogar.

O PLANO É COLOCA- DO EM PRÁTICA

No dia do sorteio, efectuou alguns prepara- tivos, o mais ousado dos quais foi materializado pela apresentação de “Powerpoint” com mon- tagens do Silva actuando com outros espécimes do mesmo sexo e expe- rimentando as posições menos decorosas. Alo- jou-a no servidor e pro- videnciou para que fosse enviada para os postos de trabalho da empresa no fim do processamento “batch” de Domingo.

Passou o resto da ma- nhã a fingir que estava trabalhando. Um pouco antes da hora de almoço,

sentiu que estava chegado

o momento e dirigiu-se

então para o elevador. Tudo estava certo, o

botão vinte e três, aquele que apenas ele via, espe- rava-o e, mal tocado, fez

o mecanismo obedecer às

suas ordens. No entanto, ao chegar ao seu escritó- rio, esperava-o uma se- cretária vazia – nem sinal

de “Post It”. Desanimado

e sem entender o que se

tinha passado, decidiu-se pelo almoço.

Atravessou a estrada ainda intrigado “Que raio,

o que se terá passado?

Bem, mas ainda estou a tempo, ainda há tempo.

É

servidor para retirar a coisa. Ninguém descobri- rá e para a semana volto a tentar…”

Mais intrigado ficou o condutor de TÁXI com a visão: o maluco atravessa- va no vermelho, alheio a tudo, mesmo em frente à grelha do seu automóvel. A colisão foi inevitável.

Três horas e quatro costelas partidas depois, ei-lo que acorda e per- gunta aos seres de bata branca e máscara:

“Onde estou? Que me aconteceu? Que dia é hoje?”

só entrar de novo no

A resposta veio, calma

e segura.

“Sabe… Teve muita sorte. Muitos foram desta para melhor por muito

menos. Que raio lhe deu para atravessar no ver- melho e nem reparar no trânsito? Teve realmente muita sorte. Se tudo cor- rer bem, terá alta já na

terça-feira. Da parte da tarde.”

é fabricada

realmente muita sorte. Se tudo cor- rer bem, terá alta já na terça-feira. Da parte da

ficina

a boa Literatura

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Contos

 
 
Léo Borges

Léo Borges

 

o anômalo

Uma aula de antro-

 

pologia nunca me saiu da cabeça. Foi quando

que queriam tomar seus empregos. Preconceito? Que nada. Estavam apenas

ao contrário, mantidas e propagadas. As conseqü- ências dos atos advindos de uma cultura precon- ceituosa são normalmente discriminatórias e violen- tas, mas tanto o precon- ceito quanto a influência retórica que o suporta são amplos e sutis, delicados como a própria hipocrisia humana.

a

professora comentou

sobre como o preconceito procura brechas no fa- migerado “politicamente correto” para se perpetuar. Ela citara o exemplo de jovens alemães que espan- cavam tunisianos, turcos e marroquinos com a ideo-

logia de que estavam sen- do cívicos, isto é, inibindo

exercendo um ato sobe- rano, digno de defesa da pátria.

O respaldo em ques- tão é necessário para que não haja uma conduta violenta sem fundamento. Assim, tudo é justificado convenientemente e as raízes do preconceito não são abordadas e muito menos discutidas, mas

a

presença de estrangeiros

Nessa mesma aula a professora ainda comen- tou sobre um suposto

54 54

SAMIZDAT abril de 2009

episódio ocorrido entre neonazistas tupiniquins e europeus. A polícia havia descoberto uma conexão entre eles em que os tais novos nazistas brasileiros solicitavam aos congê- neres da Europa verbas para que pudessem dar continuidade ao combate

contra os negros, índios e homossexuais no Brasil.

O bando europeu achou

a idéia bastante interes-

sante e apoiou o trabalho. Entretanto, não liberou o dinheiro por um entrave burocrático sinistro: na lista de execrados dos nazis do Velho Continen-

te apareciam também os

latino-americanos.

A biologia evolutiva es- pecula que o ser humano

é

um animal naturalmen-

te

preconceituoso. Nesse

sentido, a experiência

cultural apenas encobre tal característica que, de acordo com essa tese, foi essencial para a nossa sobrevivência e evolução.

O ranço discriminatório é

impossível de ser extirpa- do, mas a maneira como lidamos com ele poderia ser abordada de outra forma, já que o modo superficial com que é tratado – principalmente em campanhas e projetos

governamentais –, além de não eliminar o problema,

o deixa latente, acuado

em algum ponto da sub- consciência esperando uma chance para emergir.

De acordo com a Anti-Defamation League (organização americana que combate ações pre- conceituosas) até os seis anos de idade praticamen- te metade das crianças já proferiu algum termo pejorativo em detrimento de alguém que não pos- suísse traços semelhantes aos seus. Sem cerimônia,

algumas delas apontam

diferenças e, não raro, achincalham parentes obesos ou pessoas que te- nham algum detalhe que não lhes pareça comum. Diante disso, são admoes- tadas por seus pais, que, por sua vez, na luta para melhor se ajustarem a uma digna conduta so- cial, compartilham um sentimento que forja uma

noção de justiça – frágil ante sua essência –, que visa, com alguma nobreza, conter a sanha racista da qual somos portadores.

Mas foi conversando com conhecidos num bar que tirei algumas con- clusões sobre a profundi- dade da coisa. Começou quando alguém comentou sobre o capítulo de uma novela. Um dos presentes, ao ser inquirido, simples- mente disse que não as- sistira porque não possuía televisão em casa. Bom, o espanto (meu inclusive)

foi geral, pois em prin- cípio pensamos que ele não tinha recursos para isso e houve um efême-

ro sentimento de dó em

relação ao cara (primeiro

conceito concebido sem

esclarecimento). Mas logo

se viu que ele não tinha

TV porque não queria ter

TV, e não por não ter di- nheiro para comprar. De pena, o sentimento passou

a ser de perplexidade em

rota migratória para o inconformismo (segundo conceito concebido sem base fática). Como al- guém poderia não querer ter um aparelho de TV hoje em dia?

Segundo uma sentença

proferida recentemente pelo 2º Juizado Especial Cível de Campos, no Norte do Estado do Rio

de Janeiro, é, realmente,

impensável alguém ficar

sem este tipo de aparelho em casa. Não é um ele- trodoméstico supérfluo, como bem deixou claro

o juiz na sentença do

caso de um homem que reclamou da longa espera pelo conserto de sua TV.

O magistrado disse que

“o aparelho é conside- rado essencial aos lares brasileiros”, e citou ainda, como referência, o fato de

o pobre indivíduo ficar sem poder assistir “jogos do Flamengo e o ’Big Bro- ther Brasil’” (Processo nº:

2008.014.010008-2). Ou seja, o nosso camarada que desprezava o singelo eletrodoméstico contra- riou, ainda por cima, uma decisão jurídica.

Ele argumentava que não tinha o aparelho por

não gostar de ver televi- são, de não gostar do que

a TV exibe. E não queria

gastar dinheiro para ver

a barbárie nos telejornais

ou as assépticas tramas novelísticas. Não queria ver seriados, programas de auditório e talk shows. Sua alegação era a de que

filmes ele via no cinema; esportes ele ia ao estádio. Notícias? Lia jornal ou acessava a internet (cujo computador ficava em ou- tro cômodo que não o seu quarto, conforme frisava).

O sujeito começou, então,

a ser visto como um ere-

mita e muitos passaram,

a partir daí, a boicotá-lo

nas conversas, mesmo com provas irrefutáveis de que ele possuía plena condição de debater qual- quer assunto. E esse era o seu diferencial: gostava de

viajar, de ler, de interagir,

se recusando a participar

como pólo passivo - sen- tado, mudo e sonolento

– diante de um ruidoso aparelho de TV.

Uma senhora comentou entusiasmada que achava “muito bacana” a atitude dele, mas que não tinha “coragem de fazer o mes- mo”. Aqui podemos obser- var como é interessante o termo “coragem” em- pregado por ela. É como se ficar sem TV fosse um vertiginoso salto em queda-livre sem a prote-

ção de uma grade televi- siva. Um outro freqüen- tador da roda comentou, posteriormente, que acre-

ditava que esse “Sem-TV” era algum tipo de “metido

a intelectual”, que queria

passar a imagem de “alter- nativo”, mas que no fundo era, sim, “um anômalo”. Ele usou essa palavra com uma sinceridade aterra- dora. Seria anomalia uma pessoa não querer gastar uma grana num aparelho de TV? A máquina de consumo não iria gostar se muitas pessoas agissem como ele, pois algumas

lojas e indústrias teriam

de enxugar seus quadros

e demitir. O Poder Judi-

ciário também iria ter de rever suas decisões. Tudo por causa de um anôma- lo irresponsável que não quis comprar um televi- sor, aparelho este que já existe, inclusive, em mo- delos ultrafinos, de plas- ma ou LCD, podendo ser adquiridos em módicas prestações.

É. O tal sujeito que relutava em ter um apa- relho de TV talvez fosse mesmo um anômalo, pe-

dante, subversivo, indolen- te, desrespeitador, um ele- mento altamente nocivo

à engrenagem capitalista,

essa mesma que seduz as crianças com o Papai Noel de gorro vermelho, todo encasacado no verão de 42 graus brasileiro, exibindo os “pleistei-

chons” a preço de banana no canal de compras da TV por assinatura. Mas, o que mais me intrigou nisso tudo não foi o fato de termos entre nós um indivíduo que resistia em comprar um aparelho de televisão, mas como aqui- lo, discretamente, transtor- nou o comportamento dos demais. As pessoas nitida- mente, nos encontros em que ele estava presente, não abordavam mais as- suntos que pudessem criar algum possível embara- ço (terceiro preconceito enraizado). Outros, que faziam a vez de defenso- res do Homem Sem-TV

(como se ele precisasse de advogados), diziam que ele estava certo mesmo, que a programação da TV apenas cria na cabeça do espectador necessidades supérfluas, que proliferam injustiças e “idiotizam a massa”. O cidadão em questão não desenvolvia o assunto quando estava no centro do debate. Ficava sem jeito, pois não queria ser um “anômalo”, um bi- cho de circo dos horrores por não ter uma simples televisão. Queria apenas conversar. Desde que não fosse sobre o último capítulo de alguma nove-

la, pois sobre isso ele não teria a mais vaga idéia.

56 SAMIZDAT abril de 2009

Contos o amor segundo o Ódio Léo Borges Acima de tudo, falso. Utiliza-se de ardil
Contos
o amor segundo o Ódio
Léo Borges
Acima de tudo, falso. Utiliza-se de ardil para a conquista;
sob outro meandro, para o sexo. Não existe em forma pura,
sendo que, mesmo o de mãe, dito incondicional, subordina-
se ao fator sanguíneo. Conheço sua postura mesquinha, mas
o tolero por vivermos em interseção. Quem acredita que o
sente, carrega-me na alma. Quem promove a guerra, ama.
Esta, sim, a verdadeira demonstração de afeto, de importância
ao outro, onde se corrige o diferente, mostrando seu erro e
servindo-lhe com a verdade. Certo está que seu antônimo
não sou eu; somos da mesma fonte. O contrário do Amor,
como ele se recusa a admitir, é a Indiferença.
tentativas de
existência
Léo Borges
Maria das Dores relutava em viver tantos anos com o
mesmo nome. Cada revés na vida era merecedor de uma
nova graça para apagar as cicatrizes.
Quando terminasse de receber os castigos de seus pais,
seria Cândida; após descobrir que fora traída pelo amor de
sua vida, seria Ângela; depois de ser demitida do emprego de
secretária, seria Virgínia.
E já programara que seu último nome refletiria a cor clara
das águas, o azul de um céu límpido e pacífico, redenção aos
80 anos de uma mulher sofrida. Mas seu filho Antenor, que
prometera que quando virasse José a ajudaria, voltou atrás
ainda Jônatas.
Tampouco a auxiliou o neto, Luiz, outrora Caio. O ocaso
chegou sem maiores alardes e, então, a solidão companhei-
ra deixou que a anciã pulasse do oitavo andar, impedindo,
assim, o nascimento de Celeste.
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Contos

 
 
Marcia Szajnbok
Marcia Szajnbok

Marcia Szajnbok

Jogo da memória

Jogo da memória

Como dois vetores que se anulam, iam pela rua, mesma direção, sentido contrário. O encontro dos olhares não durou mais que a metade de um instante.

Ele: Quantos anos faz

É uma área difícil, sabe?

que terminamos a escola? Uns vinte? (Não acredi-

O mercado

blá-blá-blá

(Meu deus! Quem é?).

to

Ela não se lembra de

mim?!).

Ele: Pois é nosso país

Coisas do

Veja você, eu

Ela: Por aí Quem é?).