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O QUOTIDIANO MADEIRENSE

O HABITAT. A habitação tornou-se hoje numa aposta preferencial do conforto


humano. Mas nem sempre foi assim por falta dos meios e condições para tal. Numa ilha
como a Madeira, onde os recurso são escassos e desde o início repartidos de uma forma
desigual, é evidente a dicotomia entre pobres e ricos, que tem materialização no habitat
através das furnas e quintas.
O reaproveitamento das concavidades naturais da rocha, o cavar a própria habitação, a
choupana contrastam com a imponência e luxo das quintas servidas de casa do senhor,
dos criados e espaços de diversão como a casa de prazeres. Esta dicotomia está patente
na visão que nos dão os estrangeiros a partir do século XVIII da ilha. Assim no relato da
viagem de Cook em 1768 refere-se que “as casas dos principais habitantes são grandes,
as do povo pequenas”.
No Porto Santo temos as casas com cobertura de salão, isto é, um barro pardo que existe
na ilha e que tem grande aderência. Encontra-se situação semelhante em algumas das
ilhas das Canárias. Estas eram casas térreas de planta rectangular, tendo as paredes de
pedra solta, caiada ou rebocada. Note-se ainda nesta ilha a utilização de troncos e
mastros de navios que davam à costa para o travejamento das casas.
O progresso económico e a disponibilidade dos materiais vão melhorando aos poucos a
qualidade do espaço habitado. O Funchal do século quinze, a vila modesta que ganhou
forma na zona de Santa Maria do Calhau, era constituída de casas térreas,
maioritariamente de madeira e cobertas de colmo. O mesmo se poderá dizer do espaço
urbano que se forma próximo do campo do Duque na Rua dos Mercadores. O temor dos
incêndios levou o senhorio da ilha, o infante D. Fernando, a determinar em 1470 que
todas as casas fossem obrigatoriamente cobertas de palha. Esta medida não agradou a
nenhum dos proprietários, pois tinham de trazer as madeiras do norte e a cal e telha de
fora da ilha. Tardará algum tempo até que esta situação mude e permita uma evolução
na construção das habitações do Funchal. A década de oitenta, momento de plena
afirmação da economia açucareira irá permitir uma avultada distribuição da riqueza com
reflexos imediatos na habitação. Note-se que em 1593 o fenómeno conhecido como
fogo do céu lavrou em cento e cinquenta moradias da cidade por serem de palha e
madeira. A memória disso estará nas ruas da Queimada de Cima e de Baixo.
De entre a nomenclatura mais usual da habitação madeirense podemos distinguir a
furna, a choupana ou palheiro e a casa. O reaproveitamento das furnas, não apenas
como habitação, mas também como armazém e palheiro do gado não é novidade. É a
sobrevivência de uma tradição primitiva cuja técnica chegou à ilha por mão dos colonos
sejam eles portugueses ou das Canárias. Para os primeiros povoadores que chegaram à
ilha este deverá ter sido o primeiro recurso. Mais a importante oferta de madeiras
permitiu depois progredir para as casas de madeira de sobrado. Segundo os cronistas da
época as madeiras da ilha revolucionaram a construção de casas em Lisboa, permitindo
o avanço das casas de sobrado.
A primeira casa construída por Zargo no Funchal, de acordo com Gaspar Frutuoso ao
alto de Santa Catarina onde a sua mulher construiu uma igreja, foi deste tipo. Depois
avançou ao longo da Ribeira e fez construir no Pico da Frias, próximo da capela de S.
Pedro e S, Paulo aquela que foi a primeira habitação de pedra erguida na ilha. E
finalmente assentou morada no alto, no actual espaço da Quinta das Cruzes. Esta sim já
uma habitação sobrada e com excepcionais condições de comodidade. É este o processo
que comanda a evolução da habitação na ilha. Enquanto uns permanecem a viver em
choças ou furnas outros há que conseguem meios para progredir.
As casas de madeira, que depois avançam para a pedra, cobertas de colmo são quase
sempre térreas e de um único compartimento, sendo as divisões feitas em cana vieira ou
esteiras de palha. A cobertura de colmo persistiu no meio rural até a actualidade, sendo
de diferenciar dois tipos: o da chamada casa de Santana que mantém toda a estrutura de
madeira e o de alvenaria e sobrado. Daí Vitorino Nemésio afirmar que esta se confunde
com o palheiro do gado. À casa rural associa sempre uma segunda construção,
normalmente furna, para a cozinha, de modo a precaver contra incêndios, e os anexos
para o parco e gado bovino, isto é o palheiro e chiqueiro. A partir de finais do século
dezanove é visível o progresso da habitação rural, fruto dos proventos do retorno da
emigração. Assim, as casas são de alvenaria e telha e passam a ter várias divisões. A
cozinha é integrada na casa, enriquecida com um forno e uma altaneira chaminé.
Mesmo assim a generalidade destas era ainda muito modesta como faz notar Ronald
Krohn em 1906. As habitações eram terra batida, apresentando as paredes em madeira
ou pedra solta e a cobertura de colmo. Era servida de uma abertura baixa que servia ao
mesmo tempo de janela e porta. No interior escuro, de apenas um compartimento,
podia-se ver uma ou duas camas, uma mesa, uma arca e algum banco corrido e
banquinhos. Próximo estava uma minúscula cozinha e à volta circulavam livremente
galinhas, porcos, pombos e o cão.
Na cidade a evolução da casa é muito mais rápida e procura corresponder às exigências
dos seus ocupantes. Ao lado das casas térreas começam a surgir as de sobrado, de um
ou mais pisos. Nos arruamentos dedicados aos diversos ofícios o rés-do-chão era
dedicado para loja, tenda e oficina, sendo o piso habitado pelo mestre e o sótão pelos
oficiais e aprendizes. O mesmo sucedia com os mercadores de açúcar ou de vinho que
tinham o piso térreo dedicado à loja ou armazém e o sobrado para habitação. Gaspar
Frutuoso em finais do século XVI traça-nos o retrato do burgo funchalense destacando
as casas dos principais. De entre estas merece realce a de João Esmeraldo com “seu
aposento, antigo, muito rico, com casas de dois sobrados e pilares de mármores nas
janelas, e em cima seus eirados com muitas frescuras”.
Como nota John Ovington em 1689 estas “casas são feitas sem grande dispêndio ou
esplendor; nem por fora se distinguem pelo embelezamento artístico nem interiormente
se apresentam ricas de ornamentos e mobiliários; algumas atingem uma razoável altura
mas sem outra característica de grandeza.” O mesmo nota a simplicidade das portas e
janelas e a ausência de vidros, situação que será colmatada no século XVIII, altura em
que surgem também as janelas de guilhotina, de influência inglesa. A influência da
classe mercantil ligada ao comércio do vinho é evidente. Em 1772 J. Forster distingue
as casas dos mercadores ingleses com janelas de vidro. Já Maria Riddel em 1778 nota
que “a maioria dos negociantes tem pequenas casas de campo nas encostas, rodeadas de
jardins e vinhedos o que confere um efeito muito aprazível à paisagem.” Estas últimas
estão na origem das quintas madeirenses.
A quinta madeirense é um espaço único onde se juntam o luxo e opulência dos
aposentos, com o garrido e deslumbre das flores e árvores exóticas e as terras de lavoura
comas latadas onde repousam as videiras. Desde o século XVI que se sabe da sua
existência na meia-encosta sobranceira ao Funchal, sendo locais de veraneio para as
principais famílias que vivem na cidade. Foram os principais locais de acolhimento dos
doentes da tísica no século XVIII, ficando o registo do seu ambiente e riqueza nas
descrições que estes nos legaram.
O século XIX parece que foi o momento em que o madeirense dedicou mais atenção à
sua habitação. Assim o corroboram os testemunhos dos estrangeiros. Em 1819 o autor
de An Historical Sketch dá conta de que “ultimamente tem melhorado a arquitectura das
casas pois os edifícios modernos são geralmente belos, quase sempre construídos de
pedra, rebocados e caiados; a maioria das casas das pessoas nobres são estucadas no
interior e muitas são elegantes e na maior parte dos casos belamente mobiladas à
inglesa”. Ainda no século dezanove um outro pormenor da arquitectura da cidade
chama à atenção dos estrangeiros. São as torres avista navios que se erguem altaneiras
por cima dos telhados. Estas, a exemplo da casa de prazeres e dos balcões, são espaços
de lazer, de namoro, intriga e observação do porto. É de salientar o aprumo que assume
a fachada da habitação ornada de cantarias trabalhadas, tendo a porta principal quase
sempre encimada pelo brasão de armas. No século XVII surgem os óculos para entrada
de luz no rés do chão enquanto na centúria seguinte as janelas são protegidas de
persianas ou tapa-sóis. Os assaltos de ladrões e corsários faziam com que as portas
fossem reforçadas com ferro e as janelas do rés-do-chão gradeadas.
A casa ganha em comodidade e luxo, afeiçoando-se ao gosto inglês. A riqueza gerada
pelo vinho e atracção que este exerceu sobre os ingleses, eis os factores fundamentais
desta aposta no conforto e luxo das casas madeirenses. Os espaços até então exíguos
abrem-se agora em salões de dança, salas de jantar com tectos de estuques pintados e
recheados de cadeiras origem e estilo inglês, contadores da Índia, arcas e caixas. A tudo
isto junta-se as porcelanas da companhias das Índias. Note-se que em finais do século
XVI estas casas, segundo Gaspar Frutuoso, estavam recheadas de móveis importados da
Flandres e outros países, bem como de tapeçarias, sedas e brocados. Um verdadeiro
luxo. Em muitas das quintas e casas de famílias destacadas havia ainda lugar para
cavalariça e os seus inúmeros arreios, bem como espaço para as cadeirinhas, redes e
balanquins, que transportava as donzelas da casa e convidadas nos seus passeios ou as
saraus dançantes.
A arquitectura da ilha apresenta alguns pormenores curiosos. As chaminés de diversos
formatos salientam-se no telhado pela beleza das formas e ornatos. Os beirais são
rematados com pombas, situação que tem paralelo na Estremadura e Beira e nas ilhas
de S. Miguel e Santa Catarina(Brasil). Outro pormenor muito evidente na arquitectura
do espaço urbano está nas torres de ver-o-mar ou avista navios, que para alguns é de
origem árabe e outros afirmam ser de origem italiana. Note-se a sua incidência em
cidades portuárias sendo de referir a propósito a cidade de Cádiz. No Funchal a maioria
das casas que ostenta a referida torre são do século XVIII e ainda hoje persistem
algumas destas a testemunhar o papel destes espaços de observação do mar de
cumplicidade entre os frequentes e dos momentos de lazer. Papel semelhante detém a
chamada casa de prazeres que se situa nas quintas em locais estratégicos virados para o
mar ou a rua próxima. Ainda associada a esta está muitas vezes o balcão e as varandas
cobertos de latadas com as suas folhas e cachos de uvas tornam este espaço aprazível ao
convívio da casa.

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A Mesa e a culinária na História madeirense. No mundo actual a
culinária adquiriu elevado requinte. A sociedade, chamada de consumo, universalizou
os nossos hábitos gastronómicos. Os hipermercados, os restaurantes são a expressão
disso e ninguém os dispensa o acto de comer e beber deixou de ser uma necessidade
fisiológica para se tornar num prazer. O requinte da cozinha, a arte e mestria dos
cozinheiros assim o demonstram.
A mesa transformou-se num espaço importante. À mesa selam-se contratos, decide-se
os destinos de um país, ou celebra-se um evento particular. A nossa culinária não está
alheia a esta realidade. Ele é fruto duma herança europeia dos colonos que lançaram a
semente no século XV e dos demais que foram atraídos pela sua magia e beleza. Os
ingleses são os segundos descobridores da ilha e aqueles que mais influência nos
legaram. A mesa torna-se variada ajusta-se ao paladar dos convivas e à disponibilidade
dos produtos.
A ilha, terra de passagem de gentes assistiu também à movimentação e descoberta do
mundo animal e vegetal. A Madeira foi, na verdade, o espaço de passagem das plantas
do continente Europeu para o novo mundo e vice-versa. Da Europa chegaram os
cereais, a vinha e a cana de açúcar. Os dois primeiros por exigência da cultura cristã. A
América e a África revelaram-se aos europeus na sua exoticidade e variedade dos frutos.
Os descobrimentos peninsulares foram também a descoberta disso.
Aos poucos a mesa europeia tornava-se rica e variada. Cedo o ocidental assimilou
aquilo que foi encontrando. Pimentos, feijão, mandioca, amendoim, chocolate, café,
chá, baunilha, ananás, banana, milho e batata chegam à mesa europeia. As ilhas, e de
modo especial a Madeira são viveiro da sua aclimatação aos solos europeus. A nossa
variedade de frutos é resultado disso. A Banana é conhecida na ilha desde o século XVII
e outros mais frutos tropicais foram chegando e contribuíram paulatinamente para o
alargamento do cardápio. A mais antiga referência surge em 1687 no testemunho de
Hans Sloane, sendo repetido em 1689 por John Ovington. Paulatinamente impõe-se na
dieta alimentar tornando-se numa importante fonte de riqueza da ilha.
A viagem de Vasco da Gama (1497-1499) veio a contribuir para a generalização do
consumo das especiarias, já conhecidas dos europeus, mas só agora com uma rota
segura da sua divulgação. Assim ao tradicional açafrão, a mesa apura-se com as
pimentas orientais. A posição da ilha, o seu protagonismo histórico contribuiu para a
sua afirmação desde o século XV e definiram uma evolução peculiar da mesa. As
ligações da ilha com outras regiões tiveram impacto directo na culinária da ilha. Assim,
a presença dos escravos de Canárias, ou a iniciativa de madeirenses que mantiveram
contactos com este arquipélago é responsável pela presença do gófio ou gofe, isto é uma
farinha de cevada torrada que se consumia com leite de cabra ou de vaca. Sabemos do
seu consumo no século XVIII na ilha do Porto Santo e que as freiras do Convento da
Encarnação o tinha na sua ementa. Do Norte de África terá vindo o cuscuz, a escarpiada
e o bolo do caco.
Os forasteiros, de passagem ou em busca da cura para a tísica pulmonar, isto nos
séculos XVIII e XIX, são os principais divulgadores da nossa gastronomia. Habituados
às laudas mesas reprovam a frugalidade da mesa rural. O gáudio está no Funchal, nos
salões das quintas ou do Palácio do Governador. Assim em 1793 John Barrow saiu da
ilha agradado com a mesa do governador da ilha, D. Diogo Pereira Forjaz Coutinho “a
sua mesa é uma das mais variadas e delicadas e em poucas partes do mundo se poderia
apresentar coisa semelhante. Travessas esplêndidas sustentam animais inteiros; ali
deparei com um porquinho recheado rodeado de laranjas, uma lebre armando um salto,
faisões tentando levantar voo, ornados com a sua vistosa e flamejante plumagem”.
Todos os estrangeiros não se cansam de referir este contraste entre a mesa das famílias
distintas e a da maioria da população. Entre os primeiros estávamos perante a boa mesa
onde os excessos de comida eram frequentes. E as evidências aí estavam. A obesidade
era uma característica deste grupo social e do clero. Rodolfo Schultze em 1864 chama a
atenção para o facto de os jovens das famílias mais importantes, entre os 10 e 14 anos,
tinham a tendência para o peso excessivo. Esta ideia é também corroborada pelos
autores portugueses. Assim Eduardo Grande é peremptório em afirmar que o “regímen
alimentar das classes menos abastadas deste distrito” era pobríssimo, constando quase
sempre de pão, mas de má qualidade.
Mas isto parece ter sido o privilégio de um grupo restrito da sociedade, uma vez que de
acordo com John Ovington em 1689 a alimentação dos madeirenses era muito frugal,
referindo que os pobres no tempo da vindima comiam apenas de uvas e pão. Diz-nos
George Forster que “os camponeses são excepcionalmente sóbrios e frugais; a
alimentação consiste em pão, cebolas, vários tubérculos e pouca carne”. Na verdade a
alimentação consistia em vegetais algum pão, inhame e castanha e os frutos da época.
A mesa madeirense apresentava por vezes alguns pratos estranhos os forasteiros. No
texto editado por J. Payne em 1740 dá-se conta de”um prato de misturas, muito
apreciado pelos naturais composto de peras, passas, pão e ovos, tudo fervido ao mesmo
tempo, com salsa e outras ervas aromáticas”. Noutro prato misturava-se uvas com
nozes, inhame cozido, a que se juntava uma massa frita e melaço.

A COZINHA E A SALA DE JANTAR. Esta opulência contrastava com a frugalidade e


o espaço dedicado pelo povo à alimentação. Um casebre coberto de colmo e de chão de
terra batida servia de cozinha, sala de estar e de dormir. Perante isto o espaço deveria
ser bem gerido. A um canto a cama e a caixa, do outro a lareira com os diversos
apetrechos e a “gaiola”, a dispensa que antecedeu o aparecimento dos frigoríficos. Nos
utensílios de cozinha é evidente a sobriedade. Poucos tachos, ausência de talheres e o
recurso às mãos, situação que provoca a admiração e reprovação dos ingleses. No meio
rural a imagem de uma tampa com comida de onde todos tiravam à mão. A loiça era
uma raridade pois muitos dos utensílios eram feitos em madeira, somente na segunda
metade do século XIX começaram a aparecer os instrumentos de cobre e latão.
O forno era uma exigência apenas das casas mais destacadas. Os demais estavam
dependentes do forno público. Este foi no início era propriedade do capitão. Nalgumas
casas solarengas do meio rural apresentavam mais do que um forno em que se cozia o
pão para a família, colonos e criados. António Carvalhal em Ponta Delgada é exemplo
disso, tendo nos seus fornos lugar à cozedura de mais de trinta moios de trigo por ano.
A mesa do governador era um espaço especial de encontro de convivas e de recepção de
visitantes que aportavam ao porto. Deste modo nas recomendações dadas em 1698 ao
Governador D. António Jorge de Mello assinala-se a necessidade de ter uma mesa
grande para comer, a presença de um copeiro e de um cozinheiro. Só assim seria
possível assegurar a imagem de excelência da sua mesa tão celebrada pelos estrangeiros
que tiveram oportunidade de a fruir. O requinte dominava muitas destas mesas o que era
notado por parte dos convidados estrangeiros. Isabella de França insiste no aprumo dos
criados que serviam à mesa, a finura da decoração, dos guardanapos e flores. Até os
pormenores das flores purificadoras embebidas na água. Este pormenor é realçado por
D. Carlota, imperatriz do México que ficou encantada com o uso “de lavar as mãos,
depois de jantar, em bacias cheias de pétalas de rosas”. A contrastar com esta ambiente
estava a casa das famílias importantes do meio rural ou urbano e as quintas dos ingleses.
O fausto era evidente para os forasteiros que não se cansam de o enunciar. A cozinha
liga-se à faustosa sala de jantar. Esta apresentava-se com um espaço amplo coberto por
um tecto ricamente decorado com estuques pintados ou não. A maior na ilha, segundo
Isabella de França em meados do século XIX, era a do Morgado Nuno de Freitas na
Quinta do Carvalhal nos Canhas.
No século dezoito os ingleses trouxeram para a ilha esta valorização deste espaço com
os estuques pintados. A mesa estava sempre a conduzir com o ambiente. Loiças e
porcelanas brasonadas, da companhia das índias, rivalizavam com os apetitosos
conteúdos de acepipes, carne, peixe, doces e frutas. Tudo isto era rematado por toalhas
de linho bordadas e de ramos de flores de garridas cores. Os testemunhos desta
opulência de algumas das mesas madeirenses repetem-se. A imperatriz do México ficou
impressionada com todo este fausto: O jantar foi magnífico. Tudo quanto se encontrava
sobre a toalha, candelabros, centro, desaparecia quase debaixo de uma profusão de
flores, que substituíam graciosamente a riqueza metálica e às quais serviam de
complemento pães e açúcar com diversas bandeirinhas”.
Para muitos dos forasteiros que não tinha a oportunidade de fruir da hospitalidade da
mesa do madeirense ou estrangeiros residentes estavam sujeitos aos poucos espaços
públicos onde se serviam comida. Não podemos falar ainda de restaurantes, mas a
informação que recolhemos das posturas municipais nos séculos XV e XVI falam-nos
desse serviço feito por regateiras, vendeiras, taverneiras e estalajadeiras. No século
XVIII com o advento do turismo os diversos hotéis começaram a disponibilizar alguns
desses serviços. Mesmo assim parece que estávamos perante algo incipiente uma vez
que a maioria dos aristocratas que buscavam a ilha para a cura da tísica faziam-se
acompanhar de cozinheira. Aliás, o primitivo Reid’s Palace Hotel apresentava os
quartos em sistema de aparto-hotel de hoje, uma vez que dispunha de cozinha e anexos
para os criados. Também muitas das quintas madeirenses eram alugadas a estas
forasteiros com louça, roupa e mobília.
Fora da cidade o único espaço de acolhimento e apoio estava nas diversas vendas,
estrategicamente colocadas nos caminhos principais da ilha que passavam pelas
povoações. A venda foi durante muito tempo um espaço de convívio. Era aí que
acudiam os viandantes à procura de guarida e de uma ração de pão para matar a fome.
Os primeiros restaurantes foram uma criação do nosso século. Célebre ficou o Golden
Gate que mereceu de Ferreira de Castro o epíteto da “esquina do Mundo”. A sua
posição estratégica à entrada da cidade, uma vez que primeiro se situou ao princípio da
Avenida Zarco e só depois se transferiu para a actual situação, da fazia-se com que
fosse o ponto de encontro de todos os forasteiros. As casas de chá, como foi o casa da
do Terreiro da Luta (1939), deram o mote para a mudança no sentido da restauração dos
anos sessenta. A afirmação do turismo no após guerra conduziu ao aparecimento destas
infra-estruturas de serviços, como foi o caso da Seta (1966), Cachalote no Porto Moniz
(1969), Romana (1969), o Galo (1970), o Facho (1973) e Cervejaria Coral (1972).

A MESA FARTA E VAZIA. Não é fácil perceber o que caía diariamente na mesa do
homem humilde ou aristocrata. Apenas temos alguns dados avulsos sobre a mesa do
governador, estrangeiros e famílias importantes. Mas, para além deste eventual encontro
com a mesa festiva, podemos acompanhar o quotidiano nos conventos e colégio dos
jesuítas.
O Colégio dos Jesuítas parece apresentar uma das mais fartas mesas da ilha, a que
acolhiam diversas entidades, nomeadamente o governador. O mesmo detinha uma
importante retaguarda com as Quintas do Pico Frias, do Cardo e Grande servidas de
celeiros e adegas. No século XVII a casa das quintas do Cardo e Frias acolhia com
frequência o governador, nomeadamente D. Diogo de Mendonça Furtado (1659-1665),
que parecia ser amante de doces, fruta e queijos alentejanos e flamengos. A ementa de
carnes era variada, sendo servida de galinha, peru, frangos, leitões coelhos, cabritos.,
não faltando a carne de porco e os presuntos.
Através dos livros de receita e despesa podemos acompanhar o dia à dia da mesa
conventual. No eixo de Santa Clara às Mercê e Encarnação estava o melhor da doçaria
madeirense. Para além da doçaria é insistente a presença da carne e peixe, frescos ou
salgados. A galinha assume um lugar de destaque em dias festivos, isto é, no Advento,
Quaresma, Natal, Páscoa e dia de Santa Clara. Ambos eram servidos com pão, por
norma demolhado. Ao nível dos cereais domina o trigo, em que as freiras contam com
os proventos das suas benfeitorias e por vezes socorrem-se da compra. O trigo era
convertido em farinha que estava na origem do pão, bolos, empadas, pastéis, doces e
cuscuz.
No Convento da Encarnação a mesa dos séculos XVII e XVIII era farta. Diariamente as
freiras reuniam-se para duas refeições: o jantar e a ceia. O pão corria todos os dias à
mesa, e por isso havia duas amassaduras, à Quarta e ao Sábado, acompanhado de carne
ou peixe. A carne era aí mais abundante pois a falta de peixe no mercado local não o
facilitava. Mesmo assim o peixe comia-se às quartas, sextas, sábados e dias prescritos
pela Igreja. Isto poderia ser bacalhau, atum sardinha, arenques, pargos e chicharros. Em
dias festivos, como o Natal, a Páscoa e Santa Clara, a mesa era rica e recheada de doces,
isto é, pão de leite, massapão, laranjada, cidrada, coscorões. Era notória uma
diferenciação social da mesa das freiras e dos servos e trabalhadores. A carne de porco e
o milho não ia à mesa das feiras mas estavam sempre presentes na dos criados e
trabalhadores.
A mesa do mundo rural e da gente pobre é pouco conhecida. O pouco que se sabe
resulta do testemunho de alguns estrangeiros. Esta servia-se quase só do que a terra
dava, isto é, frutas, passas de uvas, figos passados e inhame. Na Primavera e no Verão
dominavam as diversas qualidades de frutas, que podiam ir desde a laranja, pêra e maçã,
enquanto no Outono eram as castanhas e as nozes. Consumia-se algum peixe fresco ou
seco, pescado na costa, nas a carne e o pão parecem ser uma raridade. Esta frugalidade
esta presente em todos os testemunhos de autores estrangeiros. Assim na segunda
metade do século XVIII George Forster destaca que “os camponeses são
excepcionalmente sóbrios e frugais; a alimentação consiste em pão, cebolas, vários
tubérculos e pouca carne”, mais o milho americano, o inhame e a batata doce. Esta era
“o principal consumo na alimentação do camponês”. A isto juntava-se o consumo de
peixe fumado ou em salmoura, importado pelos ingleses, que servia de conduto a
inhame, batata e ao pão.
À mesa do povo a carne e o peixe eram escassos. O peixe era maioritariamente
importado, o que demonstra o pouco desenvolvimento da pesca local, baseando-se em
bacalhau dos Estados Unidos e peixe seco, salgado ou em salmoura do Norte da Europa.
De entre este destaca-se o arenque de fumo ou salmoura, muito apreciado pelo povo
como conduto para o pão e batatas. No Norte da Europa o arenque ficou conhecido
como o trigo do mar. Ainda de acordo com Isabella de França o gaiado e o chicharro
eram espécies “raramente comidas por pessoas que não sejam pobres”. Esta situação
ainda perdurava na década de cinquenta do século XX, altura em que as capturas de
pescado de cerca de duas toneladas eram ainda incipientes para satisfazer o consumo e
as industrias de conservas. É de notar que este era pouco variado assentando em atum,
peixe espada, chicharro, carapau e cavala.
A carne parece ser rara e, a ter em conta alguns dos testemunhos de estrangeiros, de má
qualidade. Note-se que durante muito tempo a informação sobre o gado para engorda é
escassa. Isto quer significar que não havia, o que fazia aumentar o preço de venda ao
público da carne e reduzir a possibilidade de consumo por todos os estratos sociais.
Todavia a partir de meados do século XIX é evidente o aumento da carne que se
repercute num aumento da capitação média do consumo. Em 1904 Anna Von Werner
queixa-se que a carne que comeu no Hotel Royal não se podia trincar. É a mesma quem
nos dá conta do ambiente pouco salubre que rodeia a cozinha. Assim refere-nos numa
casa uma velhota que assa castanhas e frita peixe pouco fresco numa frigideirinha com
óleo.
Não havia tradição de criação de gado para engorda e abate o que provoca uma situação
deficitária da oferta dos açougues. Isto foi uma dificuldade permanente desde o século
XV o que levou algumas instituições a solicitarem à coroa a possibilidade de disporem
açougue próprio. Estão nesta situação o Cabido da Sé do Funchal, o Colégio dos
Jesuítas e os conventos. Esta situação permitia que a estes o abastecimento fosse feito
com regularidade estando libertos das regulamentações do mercado. Os açougues
públicos existem desde o século XV e estavam sob a alçada da câmara. O primeiro
matadouro surgiu em 1791 no Cabo do Calhau, sendo transferido em 1825 para a
proximidade da Ribeira de Santa Luzia. Este foi demolido em 1851 mas só em 1941
teremos novo matadouro na margem da Ribeira de S. João que se manteve até a
actualidade.
Papel fundamental assumia o porco na dieta familiar e em torno dele existia um ritual.
Não havia casa onde pelo S. João e Natal não acontecesse a célebre matança do porco.
Com ele conseguia-se a carne salgada, os enchidos e a banha que tornavam mais rica a
dieta alimentar. Era o principal tempero da alimentação A sua importância está bem
patente no recenseamento do gado. Em 1873 temos 23.510 suínos, que entram em
queda no século vinte com 22.772 em 1928, descendo para 16.462 em 1940, para
assumir a retoma em 1950 com 23.046 suínos.
A manteiga tinha também lugar à mesa dos funchalenses mais abastados. Desde a
década de setenta do século XIX que temos notícia da importação desta de Londres,
pois a produção comercial na ilha deverá ter-se iniciado após esta data. A primeira
exportação acontece em 1881 com 129 kg que sobre para 48.124 em 1893. O final do
século é o momento de afirmação da pecuária, permitindo um melhor e mais alargado
uso do leite e derivados na dieta alimentar.

OS NOVOS PRODUTOS. Por muito tempo alguns produtos foram identificados com
determinadas regiões. A maça apela-nos à grande metrópole de Nova York, enquanto o
ananás nos recria as paradisíacas ilhas do Havai. Mas tudo terá mudado a partir do
século XVIII. A alimentação progrediu e as ementas universalizaram-se. Os produtos
perderam o selo de identidade de origem e entraram definitivamente no quotidiano. A
mesa do mundo ocidental é igual. As divergências e exoticidade sucedem como
resultado do confronto com outras culturas, como o mundo árabe e as regiões orientais.
A Madeira está situada numa posição estratégica fundamental para acolher as rotas de
migração de plantas e produtos. No século XV foi a ilha que promoveu a expansão das
culturas europeias no mundo atlântico. E de novo a partir do século XVI a descoberta de
novos produtos e frutos com valor alimentar levou a que a ilha servisse de entreposto de
expansão dos mesmos no velho continente. Tudo isto acontece porque a ilha continua a
ser uma área charneira entre os dois mundos e dispunha de uma variedade de
microclimas propícios à fixação de novas plantas e sementes. Aliás, esta singular
condição levou a que nos séculos XVIII e XIX a ilha se transformasse num viveiro de
aclimatação de plantas. Dos inúmeros produtos que chegaram às ilhas dois há que se
afirmaram rapidamente na dieta alimentar. São eles a batata, o inhame e o milho, que no
decurso da segunda metade do século dezanove destronaram rapidamente a hegemonia
dos cereais na dieta alimentar. Em princípios do século XX é ainda visível a expansão
dos produtos hortícolas e dos tubérculos em desfavor dos cereais. Note-se que em 1908
a produção média por hectare era de 15.000 quilos, dando a ilha vinte e cinco toneladas.
A batata é originária do Andes mas foi a Irlanda o principal centro difusor do tubérculo
na Europa. A sua presença na Madeira está documentada a partir de 1760, mas a sua
generalização só aconteceu em princípios do século XIX. A batata doce, também
oriunda da América do sul aparece na Madeira no século XVII, sendo referenciada na
década de setenta do século XVIII como o principal sustento do camponês. Já a batata,
dita semilha para o madeirense, só se generalizou no consumo desde 1845 com a
introdução de uma nova variedade de Demerara. Em 1842 o míldio atacou a batata
irlandesa, provocando uma das maiores mortandades na população dessa ilha. O mais
evidente é que esta situação teve eco noutros espaços europeus, como foi o caso da
Madeira em 1846 e 1847. Tendo em conta que na ilha esta havia adquirido um lugar
dominante na alimentação é fácil de adivinhar as dificuldades daqui resultantes. O
próprio governador, José Silvestre Ribeiro, testemunha desta situação refere em 1847
que a batata era “de há longos anos o alimento principal dos camponeses, e quando as
colheitas eram abundantes, viviam sofrivelmente” isto, porque além deste produto só
tinham para comer “algum inhame e pouco milho”
A crise da batata conduzirá inevitavelmente a uma outra revolução alimentar com a
plena afirmação do milho O Milho, na dieta popular. Sob a forma de pão ou de farinha,
transformou-se rapidamente na base da mesa madeirense na primeira metade do nosso
século. O milho introduzido cedo conquistou a mesa do madeirense, tornando-se, de
parceria com a batata, no sustento preferencial dos madeirenses. Note-se que em 1847 a
ilha produzia apenas vinte moios, tendo necessidade de importar o restante. Em 1841 a
ilha importava 9000 moios de milho e 8000 de trigo, passando em 1852 para cerca de
10.000 de milho e 5500 de trigo. Já nas décadas de setenta e oitenta o milho era a base
da alimentação das populações mais pobres. Em Câmara de Lobos já em princípios do
século o milho dominava a dieta alimentar.
Por diversas vezes a imprensa do tempo de guerra refere-nos que o milho era o principal
alimento do povo. E quase todo ele era importado do estrangeiro, ou das colónias: a ilha
produzia uma ínfima parte daquilo que consumia. O milho era servido de diversas
formas na mesa rural madeirense: papas de milho, milho escaldado e estroçoado. Com a
farinha faziam-se as papas de milho e com o milho pilado com que faziam um caldo
com cebo de carneiro ou boi, ou então umas papas com leite. No “Diário de Noticias”
de 4 de Setembro de 1941 dizia-se:- “0 milho é, há muitos anos, um elemento
fundamental da alimentação das nossas classes menos remediadas. Barato, de fácil
preparação e de forte poder alimentar, nenhum produto da terra o pode substituir ou
sequer igualar”. Dai deverá ter resultado a expressão popular: “Vai-se ganhando para o
milhinho...”.0 milho era o alimento das classes pobres e a sua ausência atingia
principalmente estes, por isso o articulista do D.N. apelava em Agosto de 1943 às
classes mais abastadas, que lhe reservassem este privilégio: - “O milho é o alimento das
classes pobres, das classes populares (...) o milho, repetimos, é o alimento dos pobres:
assim aqueles que o podem dispensar, deixem-no aos pobres -porque para as almas bem
formadas, deve constituir amargura, provocar, impensadamente, as faltas de
alimentação nos lares onde o dinheiro não abunda”. Mais tarde, no Inverno de 1945 em
face de novas dificuldades as páginas do mesmo jornal abriram-se para expressar o grito
plangente ecoado por todos os madeirense em surdina. 0 racionamento de 1 Kg semanal
por cabeça propiciou o seguinte comentário: -“Não era bastante para as necessidades
duma população que tinha afeito a sua economia doméstica ao consumo quase diário
daquele produto.., numa terra onde o milho se podia chamar o pão nosso de cada dia.”
A Madeira tinha necessidade de importar anualmente 13.000 toneladas. Todavia neste
ano de 1941 ainda eram grandes as reservas de cereal e a frequência de embarcações. Os
problemas de abastecimento só começaram a surgir no Outono de 1943, mas já no ano
anterior começou o racionamento e distribuição do milho. Mas aqui, mercê da iniciativa
da Comissão Regulador do Comércio de Cereais, a situação não foi tão gravosa como
havia sucedido no decurso da primeira guerra. A política de intervencionismo
económico definida por Salazar levou à criação em 1954 do grémio do milho colonial
português e em 1938 surgiu a delegação madeirense da Junta de Exportação dos
Cereais, que passou a coordenar todo o processo de abastecimento e fixação de preços
do grão e farinha. Foi seu responsável Ramon Honorato Rodrigues, que em 1962, no
momento de extinção, publicou uma memória sobre os serviços prestados pela junta que
presidiu. Por ai se ficou a saber das dificuldades sentidas nos anos da guerra e da acção
da Junta e Governador Civil para solucionar a situação por meio do racionamento do
milho e da solicitação de carregamento à ordem do governo. Para termos uma ideia das
dificuldades sentidas basta-nos aludir à capitação estabelecida pelo racionamento e
relacioná-la com a média anterior à guerra: entre 1937-39 ela foi de 123 Kg/ano,
enquanto de 1942-44 passou para apenas 80 Kg. Mas houve anos em que a situação se
agravou: por exemplo em Março e Abril de 1945 a ração semanal por cabeça era de
apenas 550 gramas de milho. A partir de 1941 o racionamento foi determinado por
concelho de acordo com o número de cabeças de casal, variando o quantitativo
conforme os stocks disponíveis.

MERCADOS, VENDAS... O pão, elemento fundamental da dieta alimentar,


apresentava-se sob a forma de confecção caseira ou por padeiras de profissão. Em
muitas das casas o forno assume um lugar de prestígio social. E ainda hoje podemos ver
vestígios destes no Bairro de Santa Maria e Corpo Santo. Noutros casos havia os fornos
públicos, servidos por forneiros que cobrava uma percentagem por cada alqueire de pão
cozido. Já no primeiro quartel do século XX a cidade estava servida de um conjunto
variado de padarias que dispunham de pão fresco pela manhã e tarde, permitindo comer-
se o pão fresco a todas as refeições. Com a farinha dos cereais fabricava-se, para além
do pão, o cuscuz, uma espécie de massa granulada, que depois é cozida e acompanha a
carne, o bolo do caco, as mal-assadas, isto é, massa de farinha com ovos cozida no
azeite, o frangolho, uma papa de farinha de trigo estraçoado e o gófio. Temos ainda a
escarpiada, uma massa de farinha de milho cozida em pedra de barro, que se consumia
no século XVIII no convento da Encarnação e que hoje persiste no Porto Santo.
A venda dos produtos necessários à subsistência das populações fazia-se em mercados e
feiras que se realizavam diariamente ou uma vez por semana em espaços determinados,
onde se vendia fruta, peixe e outros mais produtos. Na cidade o mercado desde o século
XV é um espaço de permanente intervenção do município no sentido de facilitar a livre
concorrência, salvaguardar a qualidade dos produtos à venda e o seu justo valor. No
século dezanove testemunham-se três mercados na cidade. O primeiro de D. Pedro,
também conhecido como da feira velha, situava-se entre o Largo dos Lavradores e o
Largo do Poço, mais propriamente nas traseiras da actual alfândega. Era o mercado de
venda de legumes, hortaliças, frutos e outros géneros alimentícios. Foi o principal
mercado da cidade até que em 1 de Dezembro de 1940 abriu ao público o actual
mercado dos lavradores. A este juntam-se os da União, no actual Largo da Feira e o de
São João, no sítio onde hoje está implantado o Teatro Municipal. A venda dos produtos
fazia-se e faz-se em barracas arrematadas à câmara pelos chamados barraqueiros.
O mercado apresentava por norma os produtos da terra, enquanto a venda dava
preferência aos de fora. A oferta dos produtos completava-se com os vendedores
ambulantes ao domicílio. Estes últimos vendiam líquidos, como azeite, vinagre e leite,
hortaliças, aves, lenha e carvão. A figura do leiteiro que ainda hoje sobrevive define
também uma forma de venda de leite fresco ao domicilio. Ademais os interessados
podiam ainda encontrar na cidade vacarias onde se servia o leite fresco, ordenhado no
momento. Era assim na vacaria Burnay no Largo da Sé e da vacaria Sousa na Rua de
João Tavira. A ilha apresentava em 1928 cento e setenta mil vacas de ordenham que
produziam vinte milhões de litros. O Funchal consumia anualmente um milhão e
quinhentos mil litros de leite, o que equivale a cerca de quatro mil litros diários. O
restante leite era usado no fabrico de manteiga e queijo. Em 1928 a produção de
manteiga orçava as mil toneladas, sendo exportada mais de três quartos. Esta situação é
demonstrativa do rápido incremento que teve a actividade na região uma vez que em
1880 a exportação foi de apenas cento e vinte e nove kilogramas.
O abastecimento local fazia-se a partir das mercearias e tabernas. Aí vendia-se em
simultâneo bebidas, nomeadamente o vinho da produção local, géneros alimentícios e
artefactos locais ou de importação. A abertura de um estabelecimento obrigava ao
requerimento da licença que só poderia ocorrer da necessária autorização camarária
depois do pagamento de uma taxa. Ao infractor era atribuída uma pesada multa.
Acrescem ainda outros requisitos que foram regulamentados ao longo do tempo. Assim,
em 1931 a sua localização deveria estar a mais de 500 metros de distância das escolas. E
antes havia-se estabelecido padrões de higiene e sanidade no funcionamento. De acordo
com regulamento de 1946 todos os estabelecimentos comerciais foram obrigados, num
prazo de noventa dias, a ter água canalizada e pia, caso se situassem a mais de 100
metros da canalização pública a obrigação revestia-se na presença de um reservatório de
barro com capacidade para 50 litros. Por outro lado os géneros alimentícios deveriam
ser guardados em prateleiras envidraçadas ou caixas fechadas. Depois foi a proibição a
partir do dia 1 de Junho de vender no mesmo compartimento os géneros alimentícios,
tintas, óleos, guanos, sulfato de cobre e substâncias tóxicas ou nocivas à saúde.

À vereação estava acometida também a tarefa de estabelecer os preços de venda ao


público dos diversos géneros de produção local. Todos os anos entre Outubro e Janeiro
eram estabelecidos preços para todos os produtos colhidos no concelho: vinho, cereais,
cebolas, feijão, favas, batata, carne, laranjas, limões, inhame, vimes, cana doce. As actas
das vereações e as posturas municipais revelam-nos muitos dos problemas resultantes
do abastecimento de bens alimentares e artefactos no mercado madeirense.
Em todos os tempos existiram os espaços abertos ou fechados de venda pública dos
produtos. O correr dos anos apenas fez mudar o seus locais ou a designação, bem como
aperfeiçoou os hábitos de consumo. A par disso é de salientar na cidade e localidades
circunvizinhas outro tipo de venda ambulante que contemplava, não só o leite, como
também,.o azeite, petróleo, hortaliças, aves, cebolas, mel, sorvetes e outros gelados,
carvão vegetal. A década de sessenta demarca um momento importante da evolução das
estruturas de apoio à venda dos produtos alimentares. As vendas perderam actualidade
dando lugar a novas formas de apresentação e venda com os supermercados. Eles são o
princípio da transição para as actuais grandes superfícies, que se iniciou em 1963 com o
supermercado BACH.

À SOBREMESA: DOCES E FRUTOS. Parte significativa do açúcar produzido na ilha,


e mais tarde importado do Brasil, era usado no fabrico de conservas e de doçaria. São
vários os testamentos denunciadores da mestria dos madeirenses no fabrico destes
produtos. Em meados do século quinze Cadamosto refere a feitura de "muitos doces
brancos perfeitíssimos", enquanto em 1567 Pompeo Arditi dá conta da "conserva de
açúcar" que se fazia no Funchal "de óptima qualidade e muita abundância". E, esta
tradição perpetuou-se na ilha para além do fulgor da produção açucareira local pois,
segundo Hans Sloane em 1687, o madeirense produzia "açúcar indispensável aos gastos
caseiros e ao fabrico de doces, indo ainda comprá-lo ao Brasil". Dois anos após John
Ovington refere a indústria da conserva de citrinos que se exportava para França. Tal
como se deduz de um documento de 1469 o fabrico de conservas era indústria
importante para a sobrevivência de muitas famílias, uma vez que ocupava "mulheres de
boas pessoas e muitos pobres que lavraram os açucares baixos em tantas maneiras de
conservas e alfenim e confeitos de que têm grandes proveitos que dão remédio a suas
vidas e dão grande nome a terra nas partes onde vão...". Os livros do quarto e quinto do
açúcar informam-nos sobre o dispêndio que dele se fazia no fabrico de conservas, frutas
seca e marmelada. Nisso gastaram-se cerca de quatrocentas arrobas de açúcar de vários
tipos, sendo na sua maioria para consumo dos proprietários do referido açúcar.

A fama da arte da confeitaria madeirense espalhou-se por toda a Europa e teve o seu
expoente máximo na embaixada enviada por Simão Gonçalves da Câmara ao Papa.
Segundo Gaspar Frutuoso compunha-se de "muitos mimos e brincos da ilha de
conservas, e o sacro palácio todo feito de açúcar, e os cardiais todos feitos de alfenim,
dornados a partes, o que lhes dava muita graça, e feitos de estatura de hum homem".
São vários os testemunhos denunciadores da mestria dos madeirenses no fabrico destes
produtos. Segundo Hans Sloane em 1687 o madeirense produzia "açúcar indispensável
aos gastos caseiros e ao fabrico de doces, indo ainda comprá-lo ao Brasil". Dois anos
depois John Ovington refere a indústria da conserva de citrinos ou cidra que se
exportavam para a França e Holanda. A cidra existia em abundância na Ponta de Sol,
Ribeira Brava, Machico e Câmara de Lobos (Ribeira dos Socorridos), quase
desaparecendo em finais do século XVIII e arrastando inevitavelmente esta industria
para o seu fim.

Um dos factores de promoção desta indústria ao nível das conservas foi a importância
assumida pelo Funchal como porto de escala de abastecimento para a navegação
atlântica. Muitas embarcações aportavam aí com o intuito de se fornecerem de
conservas de citrinos para a sua dieta de bordo. Mas, sem dúvida, o consumidor
preferencial das conservas e doçaria madeirense era a Casa Real portuguesa. D. Manuel
foi o seu consumidor preferencial e aquele que divulgou as suas qualidades na Europa.
Assim ficaram como o seu principal presente, dentro e fora do reino, sendo o seu
exemplo seguido por Vasco da Gama, que também ofertou o xeque de Moçambique
com conservas da ilha. No período de 1501 a 1561 a Casa Real consumiu 1129 arrobas
e 58 barris de açúcar em conservas e frutas secas. A par disso o rei havia estabelecido a
partir de 1520 o envio anual de 10 arrobas de conserva para o feitor de Flandres. Esta
indústria manteve-se por todo o século XVII, suportada com o pouco açúcar da
produção local ou com as importações dele do Brasil. Neste último caso sabe-se que em
1680 foram importadas 2.575 arrobas para o fabrico de casca. Aliás, de acordo com uma
informação dada ao governador da ilha, D. António Jorge de Melo referia-se que "é a
casquinha negócio muito grande porque há ano que se carregam com aquela terra mais
de 20 embarcações de um só doce para o qual é necessário comprar açúcar da terra ou
manda-lo vir do Brasil". A correspondência de William Bolton refere-nos que a
conserva de citrinos estava em grande prosperidade na década de noventa do século
XVII, sendo usada para o abastecimento das embarcações que demandavam a ilha, ou
exportadas para Lisboa, Holanda e França.

O fabrico do açúcar começava em Março mas só em Agosto havia dele disponível para
distribuir às conserveiras que fabricavam a casca e conserva. A partir daqui eram mais
trinta dias de árdua tarefa até que o produto estivesse disponível para a exportação. Da
existência ou não de açúcar, da sua qualidade dependia a disponibilidade para o fabrico
destes derivados, que activavam o comércio com as praças do Norte da Europa, donde
nos províamos de cereais e manufacturas. Esta era uma indústria muito instável,
dependendo das possibilidades de oferta de açúcar brasileiro e da procura do produto
acabado pelos mercadores europeus. A correspondência particular de alguns
mercadores, como é o caso de Diogo Fernandes Branco e W. Bolton, testemunha de
forma evidente esta realidade. Diz o último em 7 de Agosto de 1697: "Pensou-se fazer
uma grande quantidade de conserva de citrinos mas muitos fabricantes desistiram por
não saberem se os barcos os viriam buscar".

São vários os testemunhos denunciadores da mestria dos madeirenses no fabrico destes


produtos. Segundo Hans Sloane em 1687 o madeirense produzia "açúcar indispensável
aos gastos caseiros e ao fabrico de doces, indo ainda comprá-lo ao Brasil". Dois anos
depois John Ovington refere a indústria da conserva de citrinos ou cidra que se
exportavam para a França e Holanda. A cidra existia em abundância na Ponta de Sol,
Ribeira Brava, Machico e Câmara de Lobos(Ribeira dos Socorridos). Um dos principais
factores de promoção da indústria das conservas foi a importância assumida pelo
Funchal como porto de escala de abastecimento para a navegação atlântica. Muitas
embarcações aportavam aí com o intuito de se fornecerem de conservas de citrinos para
a sua dieta de bordo. Mas, sem dúvida, o consumidor preferencial das conservas e
doçaria madeirense foi, no início, a Casa Real portuguesa e, depois, as cidades do Norte
da Europa.

No fabrico das conservas e doces variados merecem a nossa atenção as freiras do


Convento de Santa Clara, da Encarnação e Mercês. Aliás em 1687 Hans Sloane referia-
se de forma elogiosa aos doces e compotas que comeu no Convento de Santa Clara, e ao
referir que "nunca vi coisas tão boas". Num breve relance pelos livros de receita e
despesa do Convento da Encarnação, Misericórdia do Funchal, e Recolhimento do Bom
Jesus, constata-se as assíduas despesas com a compra de açúcar da ilha ou do Brasil
para o consumo interno. A Misericórdia do Funchal para além das esmolas que recebia
em açúcar ou marmelada, consumia açúcar que comprava. Do primeiro tanto se poderia
dar aos doentes ou vender para fora. Em 1636 gastaram-se 6.180 réis na compra de 3
arrobas de açúcar para os doces da procissão das Endoenças. Ademais são conhecidas
outras despesas na compra de abóbora, ginjas, peras, marmelos para o fabrico de doce.
Em 4 de Junho de 1700 a Misericórdia do Funchal gastou 101.500 réis na compra de 34
arrobas para o fabrico de doces a serem consumidos ao longo do ano. Para o período de
1694 a 1700 a mesma instituição gastou 634.400 réis na compra de 227 arrobas de
açúcar e 14 canadas de mel.

Maior e mais assíduo foi o consumo de açúcar no Convento da Encarnação. Aí, de


acordo com o registo mensal dos gastos com as compras de produtos para a dispensa do
convento pode-se ficar com uma ideia da sazonalidade do consumo da doçaria. No caso
deste convento destacam-se a Quinta-Feira de Endoenças e o Natal. Nesta última
festividade distribuía-se a cada freira, para a Consoada, 8 libras de açúcar. Além disso
parte significativa do açúcar de várias qualidades, era usado para o "tempero do comer"
e fazer conserva. No total despenderam-se 190 arrobas de açúcar por estes vinte e dois
anos para um total aproximado de seis dezenas de recolhidas.

Extintos os conventos quase que também desapareceu a tradição da doçaria. No século


XIX a doçaria teve divulgação através das pastelarias. Um das mais famosas foi a
Pastelaria Felisberta criada em 1837 na Rua da Carreira. Também ficou célebre a
doçaria da panificação Blandy na rua do Hospital Velho. Uns anos mais tarde, Isabella
de França, continuava deslumbrada com a cozinha doce da ilha. Nos anos vinte a cidade
estava servida de onze confeitarias. Hoje, o único testemunho que resta dessa
importante industria do doce madeirense é o bolo de mel. O alfenim manteve-o a
tradição dos ex-votos das festas do espírito Santo na ilha Terceira, único local onde
ainda persiste esta tradição.
No século XIX eram também muito apreciados os sorvetes e doces gelados feitos com
neve trazido do alto das montanhas para o Funchal. Ficou famosa a casa de Baxixa, tal
como o testemunha John Dix. Este fabricava os melhores sorvetes, servindo-se da neve
que recolhia da casa de gelo das montanhas. Todavia a partir de 1867 o fabrico de gelo
por John Peyne & Son com água das Fontes de João Diniz, tornava mais fácil o fabrico
de sorvetes. Na década de vinte persistem ainda duas fábricas de gelo que continuarão
por muito tempo a deliciar a gulodice dos amantes dos refrescos de Verão.
Mas a sobremesa não se resumia apenas à rica doçaria, pois que a ilha desde o começo
do povoamento sempre se mostrou terra fértil onde medrava todo o tipo de árvores de
fruta. Primeiro foi o domínio daquelas conhecidas na Europa e depois a partir do século
XVI, as exóticas de África e América. Enquanto as primeiras se anicham nas áreas
acima dos 300 m de altitude as segundas preferem as zonas ribeirinhas e soalheiras. A
mais antiga referência que temos é da banana, referida em 1552 por Thomas Nichols,
mas a lista é variedade, incluindo-se o abacate, ameixas, amoras, anonas, goiabas,
mangos, ananás, araçá, maracujá. Esta variedade de frutas sempre servida à mesa na sua
época não era de agrado de todos os forasteiros. Maria Carlota da Bélgica em 1860 não
era adepta de bananas, goiabas e maracujás, reclamando de um “odor infecto” e um
“sabor horrível”.

DA COPA À TABERNA. Os líquidos também corriam nas fartas mesas. O vinho era
permanente na ração diária dos conventos e Colégio dos Jesuítas, servindo-se para tal da
produção aquele que provinha das suas terras. Este foi durante muito tempo o líquido
presente à mesa. Na mesa das famílias pobres bebiam-se apenas a água-pé nos dias
próximos da vindima. Mesmo assim a maioria dos testemunhos dos estrangeiros insiste
na sobriedade dos madeirenses no consumo de bebidas alcoólicas. No princípio do
nosso século a generalização do fabrico de aguardente e a sua abundância conduziram
ao despoletar do consumo desta bebida. O consumo foi de tal forma elevado que a
Madeira recebeu o epíteto de ilha da aguardente. Esta situação reportou inegáveis
prejuízos para a saúde pública pelo que se tomaram medidas limitativas do seu
consumo. De acordo com Rodolfo Schultze em 1864 os madeirenses tinham preferência
pelo consumo de vinho misturado com água ou cerveja.
Consumia-se ainda cerveja, ginger-beer(limonada de gengibre) e água mineral. No
século XIX os ingleses viriam a alterar este hábito ao introduzirem a cerveja. A primeira
fábrica foi implantada na ilha por João Park em 1840, a que se sucederam outras na
década de cinquenta, como foi o caso da de Victorino José Figueira (1856) e José de
Freitas(1859). Temos alguns dados sobre a produção de cerveja. O primeiro produzia
326 hectolitros de cerveja branca e preta e 58 de ginger beer, já o segundo apresentava
340 de cerveja branca e preta e 60 de ginger beer. Mas muitos estrangeiros preferiam a
cerveja importada tal como nos refere Rudolfo Schultze em 1864, todavia esta
concorrência da cerveja inglesa e alemã não afectava a madeirense, muito apreciada
pelos locais e considerada de superior qualidade.
Em 1872 H. P. Miles fundou a Atlantic Brewery e em 1890 Manuel Alves de Araújo
surge com a fábrica Leão. A primeira, que produzia água de soda, limonada gasosa e
cerveja, apresentava o equipamento adequado ao engarrafamento já avançado em
relação às demais mas que ainda estava muito longe das actuais linhas de
engarrafamento. Em 1908 em duas unidades do Funchal fabricava-se 666 hectolitros de
cerveja branca e preta e 118 de ginger beer. Nesta data uma cerveja custava 30 réis
enquanto um ginger beer ficava pelos 20 réis. A crise da década de trinta obrigou à
fusão de todas as pequenas industrias numa só unidade industrial, dando lugar à
Empresa de Cervejas da Madeira que hoje domina o mercado local. Mesmo assim esta
não conseguia satisfazer as necessidades dos apreciadores de cerveja, uma vez que nos
inícios da década de cinquenta a ilha importava 29.520 litros de cerveja. Fora do
Funchal temos notícia de uma fábrica de refrigerantes na Ribeira Brava, que funcionava
em 1955 e de um outra em 1909 no Porto Santo, propriedade de João Augusto de Pina
para engarrafamento da água da fontinha.
O restrito grupo de bebidas alarga-se à cidra, ou vinho de peros que era muito apreciada
na ilha em princípios do século XX. Isto é testemunhado pelo número de lagares em
toda a ilha, assinalando-se em 1908 dezoito. Hoje a tradição desta bebida persiste no
Santo da Serra. Todavia nesta época a bebida mais apreciada era a aguardente. O seu
consumo era excessivo, sendo considerado um problema de saúde pública pelas
autoridades. O consumo começou a divulgar-se em princípios do século XIX por
influências das tropas inglesas que por duas vezes ocuparam a ilha.
A subsistência das populações foi gerada de pequenas indústrias no sector alimentar
cuja dimensão foi proporcional ao movimento demográfico e às inovações técnicas. Em
1862 estas eram ainda incipientes uma vez que apenas foi arrolada uma fábrica de
massas no inquérito industrial, mas em 1928 a situação é distinta. Assim para além de
sete fábricas de massa temos duas de gelo, quatro de bolachas, cinco de refrigerantes e
onze confeitarias.

AS FOMES. Pode-se afirmar que a Madeira viveu sempre sob o espectro permanente da
falta de cereal, indispensável para manter a dieta dos madeirenses. As dificuldades no
abastecimento das casas e padarias da cidade eram permanentes e mais se agravavam
em momentos de crise de produção na ilha e nos mercados açoriano e canário, os seus
principais abastecedores. Tudo isto porque a produção local foi, por mais de dois
séculos, um quarto do consumo local.
A fome foi uma constante da história da ilha. Os primeiros momentos manifestaram-se
já no século XV, pois em 1466 e 1485 a sua ameaça pairou na então vila do Funchal. O
século XVI manteve-se sob o mesmo espectro com dois momentos de evidência em
1523 e 1545. Pior seria a situação em princípios do século XVII. A presença de uma
força espanhola, conhecida como força do presídio, fez aumentar o consumo de cereais
e agravar as dificuldades de abastecimento. O resultado disso foram os motins de 1600,
1602 e 1627, que culminaram em 1695 com a perseguição a William Bolton, um dos
principais intervenientes no comércio de cereais e farinhas dos Estados unidos, acusado
pelos madeirenses de especulação. Nos séculos XVIII e XIX.
A dependência da ilha aos mercados externos era extremada e agravava-se em
momentos de guerra. Era isso que acontecia em 1815 em que “a carestia dos viveres
ocasionada pelas tristes revoluções do mundo”, Na verdade e guerra americana
conduziu ao corte do mercado abastecedor de milho e farinhas. A falta de pão levava o
madeirense a socorrer-se de tudo o que pudesse enganar a fome. Assim na década de
setenta do século XVIII esta falta supria-se, segundo o Governador Manuel de Saldanha
de Albuquerque, com raízes, flor de giesta e frutos silvestres. Idêntica situação viveu a
ilha na década de quarenta do século XIX em que a tragédia da fome foi atacada pelo
governador civil, José Silvestre Ribeiro, Com obras de emergência.
O século XIX pode bem ser considerado como o das fomes. A primeira sucedeu em
1815 mas foi em 1847 que a palavra assumiu o seu carácter mais violento. A morte
colheu alguns e os poucos inhames existentes eram cobiçados de todos. Em Santana,
por exemplo montara-se vigilância às culturas e inhames. Em Santa Cruz um homem foi
morto quando roubava alguns inhames para enganar a fome dos familiares. Teme-se por
motins populares e um assalto aos armazéns da cidade, mas tudo isto foi contornado
pela política hábil do governador, José Silvestre Ribeiro, que montou um sistema de
sopa pública. No Porto Santo a fome estava sempre presente no quotidiano dos seus
moradores. Em 1769 tivemos uma das primeiras grandes fomes, mas foi na primeira
metade do século dezanove que estas se sucederam de uma forma constante. Os anos de
1802, 1806, 1815, 1823, 1829, 1847 e 1855 são os momentos de maior nota. Esta
situação levou Rui Nepomuceno(1994) a afirmar que as crises de subsistência foram a
constante mais destacada da História da Madeira.
No século XX as dificuldades não desaparecem. A crise económica das décadas de vinte
e trinta reflectiu-se na dieta alimentar dos funchalenses e provocou a tão celebrada
revolta da farinha em Fevereiro de 1931. Mesmo assim as maiores dificuldades estavam
para acontecer no período da segunda guerra mundial. As dificuldades foram redobradas
na década de cinquenta. Note-se que a ilha apenas produzia 11% do trigo e 6,4% do
milho consumidos na ilha, o que agravava a dependência ao mercado estrangeiro e
nacional. Deste modo Ramon Honorato Correa Rodrigues(1953-1955) dá conta do
quadro pouco animador da alimentação madeirense, nomeadamente do meio rural,
sendo notório o deficit de proteínas, gorduras e calorias. Neste período a incidência dos
produtos da dieta alimentar estava na batata, batata doce e no milho.
A dependência alimentar da ilha parece uma situação irresolúvel. Os limitados recursos
da ilha em contraste com o surto demográfico são os responsáveis desta situação. Deste
modo na década de cinquenta a ilha tinha necessidade de importar mais de quarenta mil
toneladas de cereais. De acordo com os valores disponíveis a ilha necessitava de
importar mais de 90% do milho e farinhas consumidos. A distribuição do consumo
variava entre a cidade e o campo, assim de acordo com a capitação anual o funchalense
consumia 110 kg de trigo por ano e 80,5 de milho, já no meio rural esta rondava os 43
de trigo e 41,6 de milho. Isto resulta do facto de o homem do campo poder dispor de
outros suplementos alimentares fruto da sua actividade agrícola.
A actual culinária madeirense é herdeira desta tradição cultural dos colonos europeus,
das aportações dos forasteiros e rotas marítimas. Os cereais perduram sob a forma de
pão ou diferentes formas de cozinhado. O milho conhece-se hoje mais como frito do
que como papas. A batata persiste na mesa. E a sobremesa é hoje a mais requintado e
rica, quer em aromas e sabores. Tudo isto é obra da Natureza e do Homem.

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FESTA E DIVERSÃO. Os arraiais madeirenses são a componente mais
evidente das nossas festas e romarias. De todos os que adquirem maior brilhantismo são
os que têm lugar nas romarias tradicionais, que é como quem diz Nossa Senhora do
Monte, Senhor Bom Jesus de Ponta Delgada, Nossa Senhora do Loreto, Nossa Senhora
do Rosário, Senhor dos Milagres(...). A devoção popularizou-se ao longo dos últimos
cinco séculos, de modo que estas romarias são momentos de grande movimentação das
gentes. Primeiro a pé, pelos caminhos íngremes que ligavam a ilha de Norte a Sul. Os
meses de Julho, Agosto e Setembro são os de maior devoção e festividades. O clima, as
tarefas agrícolas (apanha dos cereais, a vindima) favoreciam a movimentação das
gentes, mesmo quando a orografia da ilha os atraiçoava. A pé ou a cavalo todos se
deslocavam para o Monte ou Ponta Delgada. Note-se que em meados do século XIX a
preocupação do pároco em deslocar a data da romaria do Santo da Serra com medo das
primeiras chuvas de Setembro.

Para apoio destes romeiros abriram-se caminhos, construíram-se casas de romeiros


junto dos templos de devoção. Algumas destas construções, geminadas com as igrejas,
são, ainda hoje, visíveis. A par disso, havia, entre todos, um espírito de solidariedade
para com estes. O bispo, nas suas visitações, recomendava ao município a recuperação
dos caminhos e proibia os pastores de manter o gado na serra sobranceira. Esta é, pelo
menos, a ideia que retemos da romaria da Ponta Delgada. Os moradores acolhiam -nos
dando-lhes, por vezes, guarida. Depois, com o avanço da rede de estradas a partir da
década de quarenta, estes deram lugar os excursionistas. As filas intermináveis de
"Horários" e "abelhinhas". A abertura de estradas facilitou o contacto e acabou com o
isolamento, mas, em contrapartida, veio retirar o bucolismo dos romeiros, que
calcorreavam a ilha de norte a sul à busca do santo de sua devoção para retribuir a graça
concedida. Não mais se ouviu ecoar as cantorias dos romeiros. O rajão, o machete e as
castanholas emudecerem e nas serras da Encumeada e do Paúl apenas se ouvirá o
murmúrio do vento. A tradição ainda testemunha a vivência dos romeiros. O folclore
preservou muitos desses despiques e cantorias dos Romeiros.

O folguedo ou arraial, no espaço vizinho da igreja/capela do orago é efémero. Dura


quarenta e oito horas. Mas, para que isso aconteça há todo um trabalho engenhoso e arte
na criação das flores ou dos tapetes para a procissão. Os enfeites, de alegra-campo e
loureiro, contrastam com o garrido das flores e o vermelho da Cruz da Ordem de Cristo
que flutua nas bandeiras. O progresso trouxe mais luz e o feérico da cor, fazendo-os
prolongar pela noite fora. A luz eléctrica, a partir da década de quarenta, veio
revolucionar o arraial. Aqui, para além da oferta de um variado conjunto de barracas de
comes e bebes, onde pontua a espetada, temos a feira para venda dos produtos da terra
ou de fora. Este é um momento de encontro, devoção e partilha da riqueza arrancada à
terra. A festa do orago era um momento importante na vida das gentes da localidade. Ao
divertimento e devoção juntam-se os contratos, negócios e, mesmo, o tempo para as
aventuras. Afinal, o arraial era um momento único em que todos se encontravam
irmanados pela devoção ao santo padroeiro.

A romaria de Ponta Delgada assume especial significado. Primeiro porque o lugar se


situa lá longe na encosta norte obrigou o madeirense a um grande esforço de calcorrear
a ilha para expressão da sua devoção. Depois pela dimensão que assumiu em toda a ilha,
o que conduzia a que no princípio de Setembro todos estivessem virados para a encosta
norte. As longas caminhadas por entre as montanhas reforçam o carácter lúdico destas
manifestações e apresentavam-se como momentos de grande animação, de encontro de
gentes, de troca de amizades. A devoção ao senhor Bom Jesus começou por ser
particular e resultou da origem de um dos principais povoadores do lugar de Ponta
Delgada. Foi Manuel Afonso Sanha, oriundo de Braga, quem trouxe para aqui o culto
ao Senhor Bom Jesus, ao construir em 1470 nas suas terras uma capela da mesma
invocação. O culto ao senhor Bom Jesus espalhou-se rapidamente a toda a ilha. A sua
invocação em momentos de dificuldade e a necessidade de agradecer a benesse
alcançada através do "pagamento da promessa" conduziu paulatinamente à sua
afirmação. Assim no decurso do séculos XVI e XVII é manifesta a importância desta
romaria no calendário religioso da ilha, levando o bispo a recomendar medidas no
sentido de reparar os caminhos que de toda a ilha dão acesso ao local de Ponta Delgada.

Na Madeira o calendário das festas e estabelecido de acordo com o ano 1itúrgico e


agrícola, sendo no primeiro que esta realidade tem a sua máxima expressão: enquanto
estas celebram os principais momentos da vida da igreja e dos santos, as segundas
demarcam o período das colheitas de um determinado produto, que cativava a vira das
gentes da ilha ou da localidade em que têm lugar. As últimas são de criação recente,
tendo algumas surgido nas duas últimas décadas da cereja, das vindimas, ao pêro e da
maça, enquanto as primeiras remontam aos primórdios da ocupação da zona. Os iniciais
povoadores da Madeira, maioritariamente do norte de Portugal, trouxeram impregnado
ao corpo as tradições religiosas e festividades do calendário litúrgico. Foi desta forma
que se delinearam os arraiais e romarias, que preenchem o tempo de lazer ao
madeirense, expressos na afirmação dos santos populares (Santo António, S.doäo,
S.Pedro) e importantes romarias (Bom Jesus-Braga/P.Delgada, N.S.do Loreto-Italia/A.
Calheta, N.S. dos Remedios-Lamego/Quinta Grande ), a que se vieram juntar as
festividades, genuinamente madeirenses (N.S, do Monte, Senhor dos Milagres, N.S.
do Rosário). Estas últimas emergiram, de um modo geral, envoltas num misto de lenda
e fervor religioso o que contribuiu para a sua perpetuação e afirmação às gerações
vindouras.

Para o madeirense o momento festivo mais importante e de maior significado e sem


duvida o NATAL, que se demarca como o ponto de chegada e partida do calendário
litúrgico. A prova disso esta patente na afirmação deste momento: o NATAL
madeirense é a FESTA. Em lugar secundário surgem as festividades ao longo do ano
com particular incidência na época estival; note-se que a maioria destas tem lugar nos
meses de Junho a Setembro. O clima favorece essa concentração na época estivai e era
preocupação da Igreja concretiza-las antes das primeiras chuvas de modo a que fosse
numeroso o grupo de romeiros ;assim sucedia ,em meados do século dezanove com a
romaria do Santo da Serra, deslocada da data habitual por causa do medo das primeiras
chuvas de Setembro. Mas aqui e necessário distinguir as romarias das demais festas aos
oragos, enquanto estas últimas assumem uma dimensão vivencial restrita à localidade
enquanto as remais são vividas por toda a população. Há num misto de devoção na
igreja, e os folguedos ou arraial, no espaço circunvizinho. As promessas, com todo o
seu ritual martirologico, a acção intercessora ao santo são os elementos devedores desta
manifestação.

A romaria, para alem do tradicional pagamento da promessa ao patrono, expressa em


valor pecuniário ou numa homenagem fervorosa, e um momento decisivo para o
encontro das gentes da ilha, aproveitado por muitos para o estabelecimento de contratos,
troca e venda de produtos e, por vezes, uma fugaz aventura amorosa. Deste modo as
principais romarias da ilha demarcavam o ritmo de vida dos nossos avoengos e
actuaram como mecanismo unificador da vivencia religiosa e do quotidiano, que essa
dispersão populacional, resultante da orografia da ilha. Em face disto estas ,para alem da
sua importância na expressão da religiosidade do madeirense, destacam-se como
momentos de afirmação de uma excessiva sociabilidade que conduzira a definição
uniformizadora deste modo de ser que caracteriza o madeirense. Estas romarias tinham
lugar na época estival, após as colheitas da cana de açúcar, ao cereal ou ao vinho, o que
permitia essa ventura, por terra e por mar, ao encontro do orago protector. Estas
festividades estavam devidamente calendarizadas: em Agosto era a festa de Nossa
Senhora do Honre, em Setembro N. S. do Loreto no Arco da Calheta e o Bom Jesus da
Ponta Delgada e em Outubro encerravam-se as romarias com o Senhor dos Milagres em
Machico. Para além das casas de acolhimento ,conhecidas como as casas dos romeiros,
estas manifestações deixaram marcas na toponímia da ilha, são os caminhos dos
romeiros, o curral dos romeiros, a atestar essa frequência.

As dificuldades de comunicação, nomeadamente na vertente norte da ilha, não


impediram que os romeiros afluíssem em grande número as festividades do Senhor
Bom Jesus; por terra ou por mar, a pé ou a cavalo todos convergiam para esta
manifestação ritual. Desde o século dezassete que este santuário ao norte ficou a marcar
a nova aposta da reforma tridentina, ganhando uma dimensão particular na religiosidade
do madeirense. Oeste modo no primeiro domingo de Setembro a pequena povoação de
Ponta Delgada recebia inúmeros romeiros do sul e do norte, que para ai se dirigiam a
cumprir as suas promessas. A sua passagem era anunciada pelos cantares e músicas
apropriadas que davam ao ambiente serrana do norte da ilha uma animação inaudita. A
pr0pr~a igreja]a tomou algumas medidas no sentido de facilitar esse movimento,
aconselhando as autoridades municipais os necessários cuidados na manutenção dos
caminhos ou punhado os proprietários de gado com excomunhão, pois conforme refere
o Dispo em 1706 sucediam-se, por vezes, desastres mortais, devido à queda de pedras
provocadas pelas cabras que pastavam nos precipícios sobranceiros aos caminhos do
lado de S. Vicente e Boaventura.

A partir da segunda metade ao século dezanove o emigrante regressado do Hawaii,


Demerara, Brasil, Venezuela, Africa do Sul e Austrália reforça a animação destas
festividades, dando-lhe uma nova dimensão; este era o festeiro, que reconhecendo a
protecção do santo prestava a sua farta homenagem. Estas passaram a ser o momento
para a visita aos familiares ou o regresso dessa promissora aventura ;a animação festiva
passou para o exclusivo controle do emigrante, dependendo o seu brilhantismo da
disponibilidade financeira: e o emigrante quem paga as despesas dessa realização,
assumindo aqui este acto uma forma de devoção ao santo patrono do sucesso alcançado.
A ostentação da riqueza amealhada manifesta-se, por vezes, no número de lâmpadas
acesas, no fogo queimão, nas bandas de música e, mais recentemente, nos conjuntos de
ritmos modernos. Na verdade, hoje a realidade e outra e ao madeirense são oferecidas
inúmeras formas de diversão que colocam em piano secundário as festas e romarias;
primeiro a rádio(1948), depois a televisão(1972) e as hodiernas formas de diversão
urbana com as discotecas(1973) quase que as apagaram.

Uma breve incursão ao processo histórico da ilha revela-nos que os nossos avos não
reservavam a sua esfusiante alegria apenas para as festividades religiosas. O madeirense
na sua labuta diária soube manter-se em perfeita harmonia com o meio que o rodeará
,expressando uma natural alegria, patente nas danças e cantares que animaram o seu
quotidiano; todos os momentos eram aproveitados nesse domínio, sendo o árduo
trabalho amenizando com os diversos cantares - canção da erva, da ceifa, dos
borracheiros(...)- repetidos nas romarias. O ritmo desses cantares trouxe-o o batuque dos
escravos africanos que vieram para a ilha desde meados do século XV para o trabalho
na serra do açúcar. Muitas destas manifestações surgem na ilha com os primeiros
colonos, resultando a sua variedade da múltipla origem desses. Mas um facto e
dominante, a avassaladora presença das manifestações rituais do norte de Portugal, local
de origem do maior grupo de povoadores: as danças, os nomes das principais romarias
vão buscar ai a sua origem. Assim sucedeu com a devoção do senhor Bom Jesus de que
foi transplantada para Ponta Delgada por Manuel o Sanha, o mesmo sucedendo com a
N.S. dos Remédios de o que se implantou na Quinta Grande. A par disso o aos santos
populares mantêm a tradição lusíada, o mesmo sendo com as demais festividades que
demarcam o calendário litúrgico: o Carnaval, corpus Christi e o Natal.

Não é fácil definir a data precisa em que as principais madeirenses tiveram o seu inicio,
pois faltam-nos comprovativos. As romarias da actualidade -Monte, Loreto, Ponta
Delgada, Rosário e Machico- sabe-se que são muito antigas, ligando-se aos principais
povoadores. Os venerados são os seus principais intercessores. Além das festas dos
oragos os demais momentos festivos que fogem ao calendário litúrgico de que se
destaca o nascimento de um príncipe ou o regresso do capitão à ilha. Estas tinham lugar
no Funchal e ai atraíam números forasteiros dos mais recônditos locais da ilha.

As romarias, marcadamente rurais, desviavam os romeiros do burburinho urbano e


conduziam-nos ao encontro da natureza. Eram elas que estabeleciam o ritmo de vida e
quotidiano das gentes, actuando como elos de ligação e convergência das diversas
freguesias; ao fervor religioso, expresso nas promessas e devoção. Alguns dos contratos
tinham como prazo a data dos santos populares ou as mais destacadas romarias. Note-se
que o S. João foi durante o século quinze a data de início dos mandatos no município
funchalense, mantendo-se a tradição nos Açores até época tardia. Gaspar Frutuoso
refere, a este propósito, que em S. Roque do Faial sé realizava a 8 de Setembro uma das
mais importantes romarias da ilha, onde para alem da imprescindível devoção e folgares
se aproveitava o momento para a troca de produtos, numa feira improvisada. Aliás esta
tradição de associar as feiras e mercados às romarias não é novidade tendo sido trazido
pelos colonos oriundos do norte de Portugal, onde eram frequentes. Em 1853 Isabella de
França descreve-nos de forma sucinta a romaria de Santo António da Serra, através da
animação e devoção do arraial, da presença dos romeiros, que descreve como uma
"palhaçada". Deste modo as romarias, para além da dimensão religiosa, destacam-se
como momentos de afirmação de uma excessiva sociabilidade, padronizadora do modo
de ser que define o madeirense.

Com o tempo algumas das romarias, como esta de S. Roque do Faial ficaram esquecidas
e outras apareceram a disputar a sua posição, pois apenas as do Monte, Ponta Delgada,
Loreto e Machico continuaram a pautar o ritmo das festividades e
devoção madeirenses. Nas a romaria de N. S. do Monte a 15 de Agosto foi e sem
sombra de dúvida, a maior festividade madeirense; ela atraiu a devoção de todos os
madeirenses mercê da eficaz protecção que exerceu sobre ele, quando solicitada. Ao
longo do século XVII o madeirense colocou-se sob a sua protecção, implorando a sua
intercessão para fazer cessar a seca(1627 a 1695) ou a peste (1686) . Em 1803 ,em face
do aluvião que assolou a cidade recorreu-se mais uma vez à sua protecção passando, a
partir de então à condição de padroeira menor da cidade. Tais condições favoreceram a
perpetuação e afirmação do seu culto e a sua passagem à diáspora madeirense; desde o
planalto de Cubango em Angola(1885) às Ilhas Havai(1902),passando, mais tarde, pelos
Estados Unidos da América, Africa do Sul e Austrália ,esta festa manteve-se como um
dos poucos elos de ligação à terra de origem.

0 século vinte deu um novo colorido às festividades e romarias; o arraial ganhou em luz
mas perdeu em animação e forma peculiar de afluência dos forasteiros; os caminhos e
casas dos romeiros ficaram ao abandono e não mais se ouviu ecoar os seus cantares
cadenciados por entre as encostas da ilha. A par disso as romarias adaptaram-se aos
novos desafios do progresso, que lhe retiraram o carácter bucólico; a estrada facÀ1itou
o acesso e o romeiro que passou a um passivo excursionista. Em síntese poder-se-á
afirmar que o madeirense fez transbordar a sua alegria nessas manifestações festivas,
distribuídas ao longo do ano, e que hoje são um dado adquirido da vivência dos nossos
avoengos e de todos nós, actuais e lidimos representantes desta tradição

O período estival era definido como o momento de maior actividade no campo e na


cidade; era a época das colheitas que ocupava todos sem excepção e que quase
paralisava o burgo. Esta situação é muito antiga e tem origem no período de interrupção
das actividades administrativas e judiciais para que as gentes sé pudessem dedicar
inteiramente às colheitas. Já nas Sete Partidas de Afonso X de Castela e depois nas
Ordenações régias ficou estabelecida a paragem por um período de dois meses. Os
vereadores abandonavam a vereação e iam para o campo fazer as suas colheitas; na
realidade toda a animação estava ai, onde se concluía a safra do açúcar, se iniciavam as
ceifas que depois davam lugar às vindimas.

O Verão era sinónimo de redobradas canseiras, para uns, e mudança de actividade, para
outros. Todavia este movimento apresentava ocasiões propicias ao lazer; era nessa
época que sé realizavam as tradicionais romarias, cujo roteiro coincidia, amiudadas
vezes, com o processo de transmigração da mão de obra braçal para as colheitas. E a par
disso essas actividades agrícolas eram sempre acompanhadas de folias com activa
participação dos senhores, escravos e jornaleiros. Lembremo-nos que inúmeras
manifestações do nosso folclore têm ai as suas origens. Era também no período estival
que tinham lugar as festividades mais representativas que se realizavam na ilha;
primeiro a procissão do Corpus Christi no Funchal, com participação das gentes de toda
a ilha e depois as romarias das freguesias rurais. Estas últimas eram, segundo Isabella de
França "o único divertimento da gente do campo". A sua realização estava ordenada de
acordo com o calendário religioso e agrícola, estabelecendo um roteiro em toda a ilha;
primeiro as da vertente sul a culminar a safra do açúcar e o período da ceifa, depois as
do norte a concluir as vindimas. Têm tradição as festas de Nossa Senhora do Monte (15
de Agosto), Senhor Bom Jesus (10 Domingo de Setembro) cuja celebração remonta aos
primórdios da ocupação da ilha; enquanto a primeira chamava dos romeiros ao Funchal.
a segunda fazia-os percorrer léguas sem fim para atingir a longínqua freguesia do norte
da ilha. Todavia Gaspar Frutuoso refere que no século dezasseis a romaria mais
importante era a que se realizava a 8 de Setembro na freguesia do Faial em honra de
Nossa Senhora da Natividade; esta era uma oportunidade para a folia mas também para
a realizaçãode uma feira para venda dos produtos agrícolas.

A dança e o canto eram os aspectos mais fulgurantes destas manifestações lúdicas dos
dias santificados e dos oragos, únicos momentos de repouso para as gentes da ilha. Era a
Igreja quem estabelecia os momentos de lazer e de trabalho, sendo os primeiros
definidos como os domingos e dias santificados. Nestes dias, livres e escravos, estavam
libertos do trabalho e disponíveis para orar a Deus. Apenas um conjunto limitado de
ofícios e de tarefas tinham permissão de se fazerem nesses dias. Tal como o referiam as
ordenações do reino eram três as férias estabelecidas para as gentes do reino:"primeira e
mayor he aquella ,que devem guardar por honra e reverência de Deos e dos seus Santos;
a segunda hé por honra dos Reys e Príncipes da terra, que não reconhecem superiores; a
terceira he por prol comunal de todos como em os dias em que colhem pam e vinho".
Nos dois primeiros casos eram os dias assinalados pela igreja e monarca em que todo o
cidadão estavam proibido de trabalhar devendo participar nos actos litúrgicos ou
festejos, enquanto no segundo compreendia os dois meses da colheita dos cereais e
vinho, sendo consideradas as férias judiciárias e administrativas, isto é durante esse
período paravam os tribunais e as instituições para que os seus funcionários pudessem
participar nas colheitas.

Ao madeirense restavam ainda as festas civis, consideradas no segundo caso,


estabelecidas pelo capitão e demais autoridades da ilha; o nascimento de um príncipe, a
coroação de um rei, o regresso do capitão à ilha eram motivo para comemorar. Estas
eram as festividades profanas; de raiz urbana sem data estabelecida, que consistiam em
jogos de canas, touradas e lutas corpo a corpo em que participavam gentes de toda a
ilha. Mas aos poucos essa tradição foi-se perdendo e essas manifestações deram lugar a
outras como o teatro, a ópera. Apenas o clero tinha da possibilidade de passar um
período de férias; tal como o referem as constituições sinodais do Funchal de 1578, o
beneficiado ou ecónomo tinha direito a quarenta dias de ausência aos ofícios para sua
"recreação",enquanto o bispo poderia ausentar-se por dois meses do seu episcopado.
Esta situação foi estabelecida nos primórdios do cristianismo tendo sido confirmada
pela sessão XXIV do concílio de Trento. A par disso a exposição do corpo desnudo não
era admitida nesta sociedade; a indumentária não serve apenas pela moda mas também
pela necessidade de cobrir o mais possível o corpo. Deste modo a ostentação dos corpos
desnudos na praia era uma situação impossível para os nossos avós. O homem e a
mulher temiam a apresentação do seu corpo desnudo, o pudor imposto pela Igreja e
reforçado pelas normas de conduta social foram a palavra de ordem até época recente só
então o ser humano redescobriu o seu corpo e teimou em revela-lo ao mundo que o
rodeia.

As interdições estabelecidas pela Igreja à exposição higiene do corpo vieram juntar-se


as posturas camarárias proibitivas dos banhos na praia e ribeiras do Funchal, Machico
Porto Santo; de acordo com a postura da Câmara do Funchal de 26 de Julho de 1839
estava proibido aos funchalenses o banho de mar nus» só se permitindo em calças ou
camisa, "até abaixo do joelho" os seus infractores sujeitavam-se a uma pesada coima de
mil réis. Hoje, ao invés, tornou-se moda o topless e as praias de nudismo. Diz-se que os
primeiros que se banharam nas águas límpidas da ilha foram João Gonçalves Zarco e
seus companheiros quando em 1420 se refugiaram nas águas refrescantes do mar para
fugir ao calor infernal do incêndio que se ateou na floresta da ilha; segundo Cadamosto
estiveram no mar "mergulhados até à garganta dois dias e duas noites, sem comer nem
beber, pois que de outra maneira teriam morrido". Nas este banho foi a preceito com
todas as vestes que traziam no corpo. Já em 1850 se referia nos anais do município da
ilha do Porto Santo que as suas praias eram propicias aos banhos de mar mas que não
atraíam forasteiros por falta de conduções e os naturais estavam limitados pelas
posturas. Na realidade a sua revelação como uma estância balnear é do nosso século.
Estranhamente vimos num texto de Giulio Landi de cerca de 1530, que os naturais do
norte da ilha da Madeira tinham por hábito "ir à praia"; não sabemos se com isso
entendia o autor o ir-se a banhos ou a um mero passeio para desfrutar da aragem
marinha e contemplar o imenso mar.

DO PALCO À TELA: TEATRO, CIRCO, ÓPERA E CINEMA. A


representação dramática é anterior ao aparecimento dos teatros no século XVIII. As
igrejas, as procissões religiosas foram por muito tempo os espaços predilectos de
representação teatral de carácter religioso. Note-se que a Misericórdia celebrava o seu
dia a 1 de Julho com representações de comédias e autos retirados da Bíblia. O mesmo
sucedia em muitas das igrejas e conventos da ilha. Estas representações causavam
algum escândalo o que leva o prelado funchalense, D. Jerónimo Barreto a estabelecer
em 1578 um travão.

O século XVIII, certamente fruto das reprimendas da igreja transporta esta manifestação
por o exterior da igreja. A primeira terá ocorrido em 1718 no Convento de Santa Clara
quando o Governador e Capitão-General João de Saldanha da Gama saiu da ilha. A
primeira notícia a uma casa de representação sucede em 1776 João Rodrigues Pereira
fez construir a Casa da Ópera do Funchal no local de outra que havia incendiado.
Passados dez anos temos referência a dois teatros: a Comédia Velha e o Teatro
Grande(1780). Já o século XIX pode ser considerado o grande momento do teatro, do
circo e da ópera. Surgiram novas casas de espectáculo que mantiveram uma actividade
permanente trazendo à ilha personalidades de destaque do belo canto, concertos, récitas
e festas de beneficência, circo e teatro. Ao mesmo tempo surgiram várias sociedades
dramáticas dedicadas a promover a representação e à construção de espaços adequados
para tal: Concordia(1840), Talia(1858).

No século dezanove o Teatro Grande(1780), próximo da Fortaleza de S. Lourenço, era


considerado o principal centro de diversão, por acolher as mais famosas companhias
europeias, como foi o caso da do S. Carlos em 1808. A aposta das autoridades no
entanto foi sendo adiada e mantinha-se a insistente reclamação da imprensa e forasteiros
pela falta de uma casa de espectáculos. O Funchal era uma cidade cosmopolita que
fervilhava de forasteiros de passagem ou doentes em busca da cura para a tísica. As
diversões eram poucas e estes queixavam-se da falta de teatro, ópera ou outras diversões
europeias que eram substituídas pelos passeios a pé ou de barco, pic-nics. Perante isto
foi preocupação de vários governadores, desde José Silvestre Ribeiro, em avançar com
este projecto todavia só na década de oitenta a pertinácia do Doutor João da Câmara
Leme venceu a inércia das autoridades centrais. Assim em 25 de Fevereiro de 1880
constituiu-se a Companhia Edificadora do Teatro Funchalense, mas a decisão da sua
construção por parte de câmara só ocorreu em 9 de Fevereiro de 1882 e passados cinco
anos abria a suas portas ao espectáculo com o nome de Teatro D. Maria Pia. Com a
República passou a ser chamado de Manuel de Arriaga(em 1911) mas face à recusa do
mesmo ficou como o Teatro funchalense, até à sua morte em 1917. Já na década de
trinta com Fernão Ornelas em Presidente da Câmara passou para Baltasar Dias, como
forma de homenagem ao maior dramaturgo madeirense do século XVI.

A partir dos anos trinta o teatro passa a funcionar como uma sala regular de projecção
de cinema. A arte cinematográfica havia vencido as artes dramáticas. O prelúdio disto
aconteceu em 1863 com o cosmorama universal, o antecedente do animatógrafo. Note-
se que a primeira apresentação do animatógrafo ocorreu aqui em 1897. A partir daqui
outras experiências se seguiram com o cinema mudo que ganharam a adesão do público.
Os filmes eram exibidos de mistura com espectáculos musicais. Todavia só a partir de
1907 ocorre o lançamento do cinema em termos comerciais. A popularidade do cinema
levou à construção de pavilhões e novas salas de projecção que vieram juntar-se ao
Teatro Municipal e Teatro Circo. O primeiro quartel do século vinte as sessões de
cinema alternam com os espectáculos de variedades, mas paulatinamente o fascínio do
cinema acaba por atrair o público.

BIBLIOGRAFIA SOBRE O TEATRO E CINEMA: Rui Santos, A


Construção do Teatro D. Maria Pia, Funchal, 1994. IDEM, Crónicas de Outros
Tempos, Funchal, 1996. João Maurício Marques, Os Faunos do Cinema Madeirense,
Funchal, 1997. Luís Francisco de Sousa Melo, Rui Carita, 100 Anos do Teatro
Municipal Baltazar Dias, Funchal, 1988. Fernando Augusto da Silva, Elucidario
Madeirense, 3 vols, Funchal, 1967(entradas: teatro). A. A. Sarmento, Teatros Antigos
na Madeira, in DAHM, vol. VII, nº.37. Abel Marques Caldeira, O Funchal no Primeiro
quartel do século XX, Funchal, 1964. Francisco de Sousa Melo, Um Formoso Theatro,
Atlantis, nº.8, 1986, 293-96. IDEM, O Theatro Concordia, Atlântico, 11, 1987, 227-232.
IDEM, Cavalinhos, Palhaços e outros tais, Islenha, 7, 1990, 47-51.IDEM, Teatro
Municipal. Compasso de Espera, Islenha, 14, 1994, 32-36. Jorge Valdemar Guerra, A
Casa da Ópera do Funchal, Islenha, 11, 1992, 113-149.

O FOLCLORE E A HISTÓRIA. De acordo com Carlos Santos as


cantigas e bailados “São como que a presença do passado, atrás da qual é possível ver
em espírito o panorama comovente da terra virgem; é ouvir ainda as enxadas moiras e
algarvias a rasgar-lhe a carne até aí pura de contactos humanos; é assistir ao poético
ressurgimento das vilas e aldeias como fogachos da vida, de cor e de movimento; é
passar ao convívio dos nossos avôs nas duras azafamas de dar vida a coisas mortas, com
todo o seu sabor medieval; é sentir com eles a sensação do desconhecido. É nosso dever
defendê-los e honrá-los não consentindo nem arremedos de investigando nem que
esfarrapem o que ainda possa meter de ancestral e muito menos os amortalhem com
excrescências, detestáveis e falsas; é nosso dever fazer reintegrar os camponeses no que
é verdadeiramente seu, tradicional e histórico e despertar-lhes o já muito abalado
entusiasmo pelas suas cantigas e bailados”.

Tal como afirma Eduardo Clemente Nunes (1948-49), o Folclore nasce de forma
espontânea "da alma popular, cria-se por influência da natureza física e psicológica do
meio ambiente, traduz a origem e índole atávica das populações, repercute-se na
sensibilidade colectiva e tem força de continuidade por força da tradição". Esta deve ser
a nossa predisposição quando nos atrevemos a perscrutar os murmúrios dos nossos
avoengos através da tradição. A principal dificuldade com que se depara um
investigador da cultura popular, é a falta de testemunhos orais ou escritos que se
afirmem como adequados instrumentos de trabalho. Ela raras vezes se serve da escrita.
A oralidade é a sua forma de expressão e de perpetuação. Por isso, esta memória não
encontra nas sociedades abertas grandes condições de subsistência. A oralidade parece
ser adversa ao progresso sistemático das vias de contacto e transmissão da cultura
tradicional. Assim, cada porta que se abre é uma mais via para que esta memória
colectiva desapareça. Tenha-se em conta a abertura motivada pelos meios de
comunicação nos últimos vinte anos. Antes disso temos a apontar o aparecimento da
rádio (em 1948 da rádio privada e desde 1967 a Emissora Nacional) e da Televisão
(1972).

Na Madeira, a grande abertura começou com os vapores costeiros e veio a concretizar-


se em pleno, a partir da década de trinta do nosso século, com o rasgar das primeiras
estradas. O progresso é aqui prejudicial à tradição cultural que é assaltada pela
inevitável padronização de comportamentos. Hoje a ilha está aberta ao mundo e são
raros os nichos dessa ancestral memória colectiva. Por isso, o método de observação
directa é cada vez mais uma técnica em vias de extinção. Para além do testemunho
directo através do rastreio da oralidade, há que buscar outras fontes de informação. E,
aqui, todos os recursos são poucos. Os depoimentos de estrangeiros, nomeadamente
ingleses, que nos visitaram, sempre sedentos de singularidades, são fundamentais. Eles
surgem sob a forma de textos e gravuras

Para muitos, é ponto assente que os instrumentos - rajão, machete, viola - são criação
madeirense, enquanto as danças e cantares - charamba e mourisca.... - buscam as suas
origens remotas aos escravos negros da Costa da Guiné ou mouriscos. Com isto
esquecemo-nos da ancestral ligação ao continente pelos primeiros colonos. De opinião
diferente é Carlos Maria Santos que, após um estudo aturado sobre as danças, cantares
e instrumentos, não hesita em afirmar que "o Povo madeirense não soube criar as suas
canções, mas adoptou as melodias que apareceram ou caíram em moda, inovando dá-
nos uma lição de história: "Embora a tradição sirva, de certo modo, de pilar ao edifício
de História não satisfaz absolutamente ao investigador honesto, sempre ávidos de bases
seguras assente em afirmações". É esta permanente necessidade de duvidar de verdades
feitas que leva o investigador à procura das raízes recônditas, através do recurso ao
método comparativo. É, ainda, o mesmo autor que anota a dificuldade de conhecer em
profundidade as origens e percurso histórico do folclore madeirense. A tarefa é
espinhosa, uma vez que nas crónicas não ficou nada: "foi preciso reconstrui-lo adentro
das vagas alusões deixadas por alguns escritores e depois de demorada e paciente
investigação, em virtude de estarem hoje tão misturados que é quasi impossível separa-
los".

A mesma dificuldade se nos depara quando pretendemos encontrar nos acervos


documentais a vivência do íncola através das suas danças e cantares. O raro testemunho
credível disso é dado por Gaspar Frutuoso para a festa de Nossa Senhora do Faial,
considerada lugar de peregrinação. Do Monte e da Ponta Delgada nada se diz. Mas tal
silêncio não é sinónimo de inexistência. Na verdade, nem sempre as actuais exigências
do investigador coincidem com a ideia que os nossos avoengos faziam daquilo que
deveria constar na memória histórica. O quotidiano não fazia parte disso. Os raros
testemunhos são particulares e surgem-nos através de cartas e diários. Mesmo assim
estes são poucos e só ganham algum interesse nos séculos XVIII e XIX, com os de
autores estrangeiros, nomeadamente ingleses. A habilidade do historiador, ou
investigador, está em descobrir essa realidade implícita no acervo documental, tal como
o demonstra a experiência da historiografia francesa.

A ilha, pela sua geografia, define-se como uma forma singular de mundividência. A
insularidade é a sua expressão, evidenciada na vida, história e mentalidade islenha. A
ilha é, também, um cadinho da tradição e cultura. O isolamento, definido pela linha de
água do litoral, é o mecanismo que favorece a tradição e dá forma a este cadinho que a
preserva. Deste modo, não será por acaso que os primeiros passos da investigação do
Folclore tiveram as ilhas como palco. E, se tivermos em conta que aquilo que sucedeu
nestas ilhas foi um processo de descobrimento e ocupação, não podemos alhear-nos da
cultura do povoador que, depois, se moldou às novas condições.

Uma das insolúveis questões da História das ilhas prende-se com a origem geográfica
dos primeiros colonos que as povoaram. A etnogenia das gentes insulares é ainda
motivo de polémica e não se vislumbra qualquer solução. Note-se que a revelação deste
enigma é fundamental para o tema que nos ocupa. Rastrear as origens das gentes é o
mesmo que ir ao encontro das suas ancestrais tradições e definir o mosaico das
múltiplas aportações culturais, de que hoje somos herdeiros. O colono que pela primeira
vez pisou o solo, não sofria de amnésia e na sua bagagem constava, para além da
utensilagem agrícola, a tradição cultural. Mais, se tivermos em conta que as ilhas
estavam desabitadas, não estaremos perante fenómenos de assimilação, sendo a herança
cultural fruto, em primeiro lugar, desta aportação e da sua acomodação ecológica, que
define as suas especificidades. Aliás, Eduardo Pereira, no caso da música popular
madeirense, não hesita em afirmar que ela "é mais de adaptação que de criação
regional”.

A História não só nos abre os caminhos para a busca da ancestralidade de nossa cultura,
como nos propicia os meios para desvendar certas opções do passado recente. Já o
referimos, que foi na primeira metade do nosso século que mais se avançou no
conhecimento e divulgação do nosso folclore. Mas, também, neste momento a cultura
popular ficou exposta aos maiores atentados que, ainda, hoje se reflectem naquilo que se
nos oferece. Note-se que este foi um momento importante na História Contemporânea
das ilhas. O protagonismo da luta politica pela autonomia gerou o discurso cultural da
diferença, a consciência insular ou arquipelágica. Este movimento é o inverso do
oitocentista. Esta primeira incursão e discurso da cultura popular pretendia definir as
suas especificidades. A estas sucederam-se outras que oscilam entre o discurso
regionalista, uma componente fundamental da autonomia, e a definição da
ancestralidade peninsular. A Madeira não é mais uma parte do todo, mas sim uma
região com uma identidade sócio-cultural diversa. A isto associa-se, depois, o discurso
do Secretariado Nacional de informação com o Portugal tópico, construído na
diversidade folclórica. Neste contexto insere-se, por exemplo, o estudo de Carlos M.
Santos sobre o traje e a decisão do Governador civil em 1933 ao estabelecer o traje
riscado como o tópico a usar pelas floristas.

A presença na Madeira de um significativo número de escravos de Canárias, Norte de


África e Costa da Guiné deverá ter propiciado, ao nível social e material, múltiplas
aportações ao quotidiano madeirense. É comum apontarem-se inúmeras influências
deste grupo nas tradições, nomeadamente no folclore e na alimentação. Esta ideia, ainda
que hoje se tenha generalizado, não resulta de uma investigação cientifica mas sim de
meras observações empíricas ou suposições. Parece-nos que ainda não ultrapassamos a
fase do lirismo abolicionista, da segunda metade do século XIX, que marcou o
pensamento e a investigação contemporâneos sobre o escravo.

A Etnografia é prenhe neste tipo de observações. No campo do folclore regional, as


músicas e as danças que não se enquadram no filão português são, imediatamente,
associadas a este grupo. Por isso, algumas, que definem a tipicidade do folclore
madeirense, são apresentadas como resultado da presença dos escravos: o charamba, o
baile pesado, a mourisca, a canção de embalar e o baile da meia volta, são
universalmente aceites pelos folcloristas madeirenses como resultado desta hipotética
aportação cultural dos escravos. A maior parte dos autores que o defendem têm como
mira a situação da escravatura do Brasil. Todavia, aqui ela assumiu proporções muito
diferentes das que adquiriu no arquipélago madeirense. A forma de dominação e
sociabilidade daí decorrentes favoreceram no Brasil a manutenção nas senzalas dos usos
e costumes das terras de origem. Os dados avulsos sobre o quotidiano dos escravos
permitem-nos questionar algumas falsas visões em que se filiam nas explicações dadas
para a origem das danças e cantares. O escravo -- negro ou berbere -- era, então, um
filão em permanente descoberta. O colono europeu parece, por este modo, ter esquecido
as suas tradições quando sulcou o Atlântico...!

Avaliar o contributo de uns e outros, eis a tarefa espinhosa que nos espera, a
historiadores e estudiosos do Folclore. Uma primeira ideia se impõe. Na Madeira a
escravatura foi algo diferente daquilo que sucedeu no Brasil. A dispersão geográfica das
áreas arroteadas, o reduzido número de escravos por proprietário e as limitações ao
espaço de convívio social, não favoreceram este tipo de convivência. Ainda, na
Madeira, tendo em conta as limitações impostas pelas posturas à circulação dos
escravos após o sino de correr, parece-nos difícil, senão impossível, encontrar um
momento para eles se divertirem em conjunto, com as suas danças e cantares. Mais, será
possível encontrar entre o reduzido número de escravos de cada senhor um grupo da
mesma etnia ou cultura, capaz de recriar as suas danças e cantares? Desta forma apenas
lhes restavam os momentos de folia estabelecidos para o proprietário, a que certamente
não deviam ser alheios: com os jogos de canas, as touradas e lutas.

O escravo é parte integrante da sociedade madeirense, não existindo para ele qualquer
separação ou delimitação espácio-social. O mundo do escravo entrecruzava-se com o do
livre. A dimensão reduzida do arquipélago, associada à forma de estruturação da
sociedade e economia fizeram com que esta simbiose se concretizasse em pleno. Os
regimentos régios, as posturas municipais, insistiam na necessidade de controlo, no
acanhado espaço de convívio, do escravo, no sentido de evitar qualquer situação
propiciadora da revolta. Estamos perante um processo de assimilação forçada, que deixa
pouca margem de expressão à cultura dominada. Perante isto, o escravo estava
amarrado ao quotidiano do senhor e só se poderia desprender-se dele em condições
especiais e mediante o seu consentimento. O escravo nesta sociedade só existe em
relação ao proprietário, pois era ele quem lhe atribuía a sua posição na estrutura social.
Desde o nome, que o identifica, é profissão, que ocupa, no dia a dia, e ao cumprimento
dos preceitos religiosos, a figura do proprietário está omnipresente. No caso das
escravas a ligação é mais estreita, servindo elas muitas vezes de concubinas.

Em todo esta problemática há uma questão fundamental que tem sido preterida pelos
estudiosos e defensores das aportações africanas à cultura madeirense. A Africa foi e
continua a ser um mosaico de culturas. Por isso, defender o contributo africano implica
a busca desta diversidade cultural, que é como quem diz, da origem geográfica e Étnica
dos escravos que vieram para a Madeira. A Costa da Guiné, um dos principais mercados
fornecedores de escravos para a Madeira, é, também, como sabemos, um autêntico
mosaico de culturas e etnias. Esta ideia é tida em conta por todos os estudiosos da
aportação cultural negra às regiões aonde chegaram os africanos. Somente entre nós este
tipo de comportamento é esquecido. Por tudo isto, podemos afirmar que estamos
perante um campo ainda em aberto a aguardar um tratamento cuidado pelos
investigadores. Por exemplo, o alargamento da investigação ao período final da
permanência do fenómeno na ilha poderá propiciar-nos novos dados capazes de
justificarem o desenvolvimento dos rastos e que poderão testemunhar, ainda hoje, a sua
presença na sociedade madeirense. Às possíveis reminiscências da presença dos
escravos na ilha podemos ainda colocar outras questões. A evolução da escravatura
desde o século XV até à sua abolição não foi unilinear e não é entendida por muitos. Na
Madeira é evidente a sua incidência nos primeiros cem anos de ocupação, até que foi
chegado o momento da sua maior procura pelo mercado americano. Para a maioria dos
eruditos esta realidade é ignorada, sendo a escravatura negra ou mourisca uma constante
da História da ilha.

Há ainda muito a fazer e a repensar sobre as aportações culturais da população escrava à


sociedade e cultura madeirenses. A sua definição e permeabilidade às influências
externas devem ser feitas num correcto enquadramento histórico. Só assim estaremos
em condições de afirmar que o actual folclore madeirense é a manifestação sincrética de
múltiplas influências e da evolução no tempo. Definir uma e outra situação é tarefa do
investigador, a quem se depara um vasto campo a desbravar. Tudo se misturou, por uma
poção mágica, dando origem às múltiplas manifestações das danças e cantares que
ritmaram as tarefas agrícolas, e ficaram a evidenciar a transbordante alegria do incola
nas festas populares e de homenagem aos oragos e santos da sua devoção. A emigração
não é um fenómeno novo no mundo peninsular, mas sim uma das constantes da sua
História. A expansão quatrocentista fez alargar horizontes e propiciou o primeiro
movimento transnacional. Os colonos quatrocentistas são emigrantes como aqueles que
no presente século venceram o oceano rumo à América. Como eles foram portadores de
uma cultura. No destino recriaram o seu torrão natal, moldando o seu lar, espaço de
convívio de acordo com as suas origens. Mas, não ficaram alheios aquilo que os rodeia,
pelo que o produto final acaba por ter uma manifestação de sincretismo que dá corpo à
alteridade. Sucede, assim, hoje mas não ficou de fora no passado.

Na Madeira a alteridade expressa-se na imagem do mourisco e negro, resultado da sua


presença na ilha, como escravo, ou dos múltiplos e assíduos contactos na costa
Africana. Mesmo assim a cultura dominante é europeia porque também o europeu
domina a sociedade. Deste modo, quando pretendemos explicar as tradições da
comunidade emigrante, será lógico buscá-la nas influências resultantes do contacto com
outros povos e culturas, ou antes, naquilo que levaram agarrado ao corpo e na sua "mala
de cartão". É esta abertura de perspectivas que deve fazer parte da nossa prática de
investigador do social no passado e presente. O estudo destes aspectos da cultura
madeirense ainda tem um longo caminho a percorrer. Para além das múltiplas
influências que marcaram os domínios particulares da música, dança e instrumentos
musicais, falta ainda conhecer como evoluir nos últimos cinco séculos. Os instrumentos
que dão a musicalidade necessária aos cantares são a viola de arame, o rajão, a
braguinha e a rabeca, a que se juntaram o adufe, as castanholas, o briquinho e os
ferrinhos. Note-se que a maioria dos estudiosos é peremptória em afirmar que não existe
um folclore musical madeirense, uma vez que tudo o que sobrevive tem as marcas da
sua matriz continental ou das influências árabes. O xaramba, o bailinho das
camacheiras, a mourisca, a chama-rita e nas canções alusivas ao trabalhoa(da feiteira,
ceifa, do trigo, da erva, da carga, da repisa e dos borracheiros). O mesmo sucede com as
danças e bailados que ainda hoje encontram similares no Minho e Algarve. A única
excepção é o bailinho das camacheiras. No Porto Santo o aspecto mais saliente está no
baile da meia-volta. Note-se que muitas destas danças, como foi o caso da mourisca e
dança das espadas, tiveram como palco a procissão do Corpo de Deus, sendo dançadas
pelas diversas corporações. A dança das Espadas persistiu na Ribeira Brava mas hoje
caiu em desuso.

Durante muito tempo as danças e cantares só eram audíveis e visíveis no seu quadro
natural, isto é, nos arraiais e diversos momentos do labor agrícola. Todavia o século
dezanove foi sentida a necessidade simultânea de estudo e recriação como espectáculo.
A primeira vez que isto aconteceu foi na primeira feira organizada pelo Governador
Civil, José Silvestre Ribeiro, na Praça Académica em 1850, onde um grupo de
camponeses com trajes antigos dançaram o baila a la moda. Esta manifestação perdurou
por cerca de dez anos com estas tão características danças. A mesma dança foi de novo
recreada em 1898 por um grupo de crianças. A partir de então em muitos dos bailes e
espectáculos estava presente aquele que ficou conhecido com o baile dos vilões.
Paulatinamente a cultura popular vinha adquirindo uma dimensão importante no lazer
dos funchalenses. Em 1901 el-rei D. Carlos foi saudado com um arraial madeirense e
em 1920 os festejos do quinto centenário do descobrimento da Madeira as danças a la
moda e o bailinho das camacheiras. A partir da década de trinta manteve-se esta forte
participação do folclore nos actos mais importantes de acolhimento de visitantes e desde
1936 nas festas da cidade e das vindimas(1938), com grupos das diversas freguesias
rurais. Neste época é evidente a intervenção de Carlos Santos, eminente estudioso do
folclore, na coordenação e aconselhamento de alguns grupos da cidade.
A primeira presença do baile das camacheiras nos festejos urbanos data de 1929, mas só
dez anos após surge identificado como o Rancho Folclórico da Camacha e apenas em
1949 surge o Grupo Folclórico da Casa do Povo da Camacha. Os cinquenta e sessenta
foram demarcados pela criação de diversos grupos folclóricos: Livramento(1958), Boa
Nova(1965), do Funchal(1966), do Porto Santo(1966), de Santana(1974),
Santana(1976) Gaula(1978)e Porto da Cruz(1978). Na década de oitenta os Serviços de
Extensão Rural imprimiram uma nova dinâmica das Casas do Povo, com a aposta no
desenvolvimento sócio-cultural das populações rurais, esteve na origem e criação de
grupos folclóricos em quase todas as freguesias da ilha: Ribeira Brava(1980), Ponta de
Sol(1981), Campanário(1982), Machico(1982), Santa Cruz(1982), Ponta do
Pargo(1985), S. Vicente(1986), Curral das Freiras(1988), Quinta Grande(1988),
Prazeres(1988), Porto Moniz(1989). Por outro lado a partir 1985 deu-se início ao
Festival Regional de folclore, a que em 1989 se associou as 24 Horas a Bailar. Desde
então esta manifestação tem sido o motivo para discussão e estudo dos aspectos do
Folclore e quotidiano rural, com expressão na revista Folclore que se publica nesta
ocasião.

MUSICA E BANDAS FILARMÓNICAS. A partir da segunda metade do século a


música filarmónica teve um grande incremento na Madeira. A primeira banda de música
surgiu no Funchal em 1850 e ficou conhecida como a Filarmónica dos Artistas
funchalenses. A segunda que temos conhecimento foi a Filarmónica Recreio União
Faialense que surgiu no Faial em 1855. A década de setenta marca o incremento de
novas bandas em toda a ilha: C. de Lobos(1872), Calheta(1874), S. Jorge(1877),
Camacha(1873), Ribeira Brava(1875). O interesse por este tipo de música ganhou a
adesão da população madeirense. Na cidade os desfiles e assaltos de Carnaval não
dispensavam a sua presença, os domingos e dias festivos contavam com exibições no
passeio público e as tradicionais romarias ganharam mais animação com a sua presença.
Deste modo o período de finais do século XIX e princípios do seguinte é definido por
um aumento do número de bandas em toda a ilha. Para este período assinalam-se mais
cinco no Funchal(1898, 1913, 1920, 1923, 1933), C. de Lobos(1910), Calheta(1923), P.
Do Pargo(1911), Santana(1926), Arco de S. Jorge(1933), Camacha(1887, 1922),
Ribeira Brava(1912), Campanário(1923).

BIBLIOGRAFIA: Eduardo Clemente Nunes, "Património Artístico", in DAHM, 1948-


49, p.249, Horácio Bento de Gouveia,"A telefonia matou o rajão", in Canhenhos da
ilha, Funchal, s.d., pp.21-23. J. Barrow, A voyage to cochinchina in the years 1792 and
1793..., London,1806; Thomas E. Bodwich, Excursions in Madeira and Porto Santo...,
London, 1825; Lady E. Stuart Wortley, A visit to Portugal and Madeira, London, 1854;
Isabella de França, Jornal de uma visita à Madeira e Portugal 1853-1854, Funchal,
1970; Ellen M. Taylor, Madeira. Its scenery and how to See, London, 1882; Mariana
Xavier da Silva, Na Madeira. Offerenda, Lisboa, 1884; A. Brexel Biddle, The Madeira
Islands, London, 1900; J. E. Hutcheon, Things seen in Madeira, London, 1928. Maria
dos Remédios Castelo-Branco, "Testemunhos de viajantes ingleses sobre a Madeira", in
I CIHM, vol. I, Funchal, 1990, 198-245; Idem, "Perspectivas americanas da Madeira",
in II CIHM, Funchal, 1990, 453-478; António Ribeiro Marques da Silva, "Notas sobre o
quotidiano madeirense. sécs. XVII e XXXIX", Diário de Notícias, Funchal, 1 de Julho a
21 de Setembro. Rebelo Bonito, As mouriscas. I. Influxo Árabe na Coreografia Popular,
in DAHM, vol. V, nº.28, 1958, 39-42. Platão Vovtch Waksel, Alguns Traços da história
da Música na Madeira, DAHM, 1948-49, p.33, Vol. V, nº.27, 1953. Francisco de
Lacerda, Folclore da Madeira e Porto Santo, Lisboa, 1993 Adolfo Coelho, Exposição
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bailados da ilha. Estudo do folclore musical da Madeira, Funchal, S.D. IDEM, Tocares
e Cantares da ilha. Estudo do Folclore Musical, Funchal, 1937. IDEM, Da Etnografia e
do Folclore. A Mourisca, DAHM, vol.II, nº.11, 1952, 23-25. IDEM, Da Etnografia e do
Folclore. O Baile da Cortesia, DAHM, vol.III, nº.14, 1953, 13-14. Visconde do Porto da
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Madeira. Novas Datas, Xarabanda, 2, 1992, 41-42. João Nelson Veríssimo, A Festa do
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Bandas Filarmónicas: Vitor Sardinha, As Bandas filarmónicas no Coreto do Nosso
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Breves Apontamentos, Diário de Notícias-Revista, Funchal, 16 de Outubro de 1994.
O Vestuário e a Moda. Desde Adão e Eva que o homem sentiu a necessidade
de cobrir o corpo. Esta necessidade levou o homem a procurar todos os meios, produtos
e técnicas para conseguir os tecidos e as cores mais ajustadas ao seu gosto.
Paulatinamente aquilo que havia surgido como uma necessidade torna-se numa
exigência de fausto e luxo. Isto conduz-nos ao aparecimento dos acessórios e da moda.
O traje é um dos temas que, nos últimos tempos, tem merecido um tratamento deste
tipo. Rastreia-se testamentos e mais documentação. Compilam-se apenas as peça,
retirando-as do seu contexto e esquecemo-nos de perguntar: quem faz testamento?
Quantos destes chegaram até nós? E, além disso, ignoramos que o traje, mais do que
uma necessidade, é uma forma de distinção. Mas, nem sempre é assim. Os senhores, por
exemplo, evidenciam-se pelo luxo exibido pelos seus criados nos desfiles e festas.

Tal como afirmou Carlos M. Santos "legitimo é duvidar da generalização do chamado


traje regional da Madeira e mesmo da sua ancestralidade, como testemunha a
diversidade verificada em diversas freguesias". Mesmo assim, o autor, ainda que avesso
a imagem de um "traje regional", define a saia riscada como a imagem de marca do
trajo madeirense. Vivia-se uma época de regionalismo exacerbado e era necessário criar
uma imagem de marca, vendável a turista. Estamos perante uma contingência da Época
e do Estado Novo. Foi esta a preocupação do governador civil em 1933 com as festas de
fim de ano. Mesmo assim o autor parece não estar equivocado no seu modelo, pois esta
era uma dominante desde o século XVIII. Acresce ainda que a partir do século XVIII
foi evidente uma uniformização do traje.

As culturas da cana de açúcar e da vinha permitiram à ilha uma ligação com o mundo
europeu e seus centros produtores de tecidos: Inglaterra, Flandres e cidades-estado
italianas. aliás às ilhas está ligada uma fase importante na evolução da industria têxtil
europeia, com a expansão da área de cultivo do pastel e apanha da urzela, plantas com
grande importância na tinturaria. A Madeira ficou conhecida pelos genoveses, no século
XV, como a ilha do pastel. Note-se, ainda, que o comércio do vinho em mãos dos
ingleses definiu uma política peculiar: os adiantamentos. O mercador inglês adiantava
ao lavrador os alimentos, artefactos e tecidos a troco do vinho, na altura da vindima.
aliás, fala-se de assíduas trocas, entre os madeirenses e os marinheiros ingleses, de
passagem, ou os soldados do presídio de 1801, de peças de vestuário por vinho. Este era
escasso, sendo poucas as oportunidades para as classes populares arrumarem o seu
enxoval.

No caso da Madeira a indumentária dos primeiros colonos confunde-se com os locais de


origem destes. Mas aos poucos o panorama começa a mudar de acordo com as posses de
cada um das disponibilidades de matérias primas e corantes e, acima de tudo, das
ligações aos mercados de panos e tecidos da Europa. Aqui o luxo é sinónimo de
importação de tecidos e de agravamento da situação económica com a saída de
numerário pelo que se sucederam inúmeras pragmáticas a combater o luxo. No Porto
Santo o luxo foi considerado no século XVIII como a principal causa de
empobrecimento da população pelo que o Capitão e Governador Geral, João António de
Sá Pereira decidiu proibir o envio de panos finos, sedas e jóias. Medidas semelhantes
foram estabelecidas em 1780 nas posturas de Machico que militam mais pela
necessidade de demarcar as classes sociais. Deste modo o vestuário e os adornos são
uma forma de diferenciação social. Em 1793 John Barrow refere que os pedintes
madeirenses cuidavam da sua aparência, usando o melhor fato, por vezes, com cabeleira
e espadim.
O vestuário do homem integrava as bragas, a camisa, gibão, sainho, calças, pelote, saio,
jaqueta, roupeta ferragoulo, tabardo, capa. A isto juntava-se o calçado de sapatos em
bico e botas de couro. Para cobrir a cabeça temos as carapuças. A mulher usa como
roupa interior a camisa e fraldilha e um vestido que cobria todo o corpo. O calçado era
semelhante ao do homem, apenas na cabeça acontecia um especial cuidado que as
diferenciava. As crianças das famílias pobres da cidade e meio rural parece que tinham
sido esquecidas quanto à indumentária. Os mais pequenos andavam totalmente nus e os
outros vestiam-se de apenas uma camisa branca todo esburacada.
O enxoval de uma casa por norma era muito modesta reduzindo-se a poucas peças de
vestir, de abafo e dormir. Esta situação resultava do preço dos tecidos e dos parcos
meios das famílias pobres. Perante isto restava-lhe pouco que vestir e a moda era
palavra vã. A indumentária resumia-se ao fato de ir à missa e ao de trabalho. O segundo
vestia-se até se romper e mesmo assim era remendado. Deste modo procurava-se
disfarçar os remendos com casacos(as) compridos(as). A estas peças juntavam-se a
carapuça, considerada de origem africana, e raras vezes os sapatos. Os adornos não
faziam parte deste enxoval. Todavia na casa das famílias mais destacadas a situação era
distinta. As festas, os saraus dançantes, os piqueniques eram momentos de exibição da
moda, seguindo os modelos franceses e ingleses com tecidos importados. A isto
juntava-se a riqueza dos adornos diversos. Este contraste é bastante evidente para os
forasteiros.
A partir do século dezoito temos informações muito claras sobre a indumentária da
cidade e do meio rural. As descrições e gravuras dos visitantes estrangeiros são um
testemunho precioso desta realidade. Assim o traje do vilão era baseado numa jaqueta
sem mangas que cobria uma camisa de estopa grosseira, calções de linho apertados a
partir do joelho, a que se juntava na cabeça uma carapuça e botas de cano dobrado. Esta
descrição condiz com o testemunho de J. Foster(1772) e inúmeras das gravuras
conhecidas. Já no meio urbano o povo vestia-se à imitação da burguesia e nobreza,
sendo a distinção na qualidade dos tecidos e presença de adornos. John Barrow em 1792
diz-nos que os lojistas e trabalhadores mecânicos vestiam chapéu, sapatos e meias e um
casaco comprido para esconder os remendos das calças, trajando as mulheres de fato
negro e capacete na cabeça.
O século XIX inicia uma revolução no modo de vestir, optando-se pela simplicidade e
aspecto prático da indumentária, ao mesmo tempo que se iniciou a caminhada para a
uniformização do vestuário. Ao mesmo tempo impõe-se a moda vinda de França que
apenas conquista adeptos entre as classes abastadas, uma vez que o traje popular
continua a manter as mesmas cores e formas. Assim o homem veste camisa branca de
linho ou estopa, calções e colete, carapuça e bota chã. Os calções e colete podem ainda
ser de cores distintas mas a tendência é para o branco. A indumentária da mulher
consistia de camisa, saia listada, corpete, capa, carapuça e bota chã.
Alguns testemunhos dos autores nacionais e estrangeiros atestam que o vestuário não
era uniforme. A ideia de “farda” parece ser recente. Vestia-se de acordo com as
disponibilidades das lojas de fazendas que procuravam adequar-se às modas trazidas
pelos ingleses. Por outro lado estas descrições são fruto de uma mera observação dos
sítios visitados, não uma visão global de toda a ilha. Apenas três destes textos mostram
esta evidência. Em 1772 o ilhéu, segundo George Forster, vestia do seguinte modo: Os
trabalhadores no Verão, usam calças de linho, camisa grosseira, um grande chapéu e
botas; alguns trajavam um casaco curto de tecido e uma grande capa que muitas vezes
trazem dobrada, ao braço. As mulheres usam saia, corpete curto ou casaquinho, bem
justos às suas formas, o que constitui um vestido simples e muitas vezes nada
deselegante. Também possuem curta mas ampla capa e as solteiras atam os cabelos ao
alto da cabeça, não usando qualquer véu. No século XIX temos dois outros
testemunhos distintos sobre o modo de vestir. Em 1812 Nicolau Caetano Pitta: as
mulheres do campo usam saias azuis debruada com vermelho, um capote curto,
geralmente vermelho ou azul claro, justo ao corpo, os quais formam uma vestimenta
simples e às vezes não deselegante, e uma capa curta vermelha debruada com uma tira
azul e um barrete pontiagudo azul; as que são solteiras amarram o seu cabelo no alto
da cabeça, sobre a qual algumas não usam cobertura. Os trabalhadores usam calças de
linho, uma camisa grosseira, um barrete azul, botas brancas, jaqueta curta feita de
tecido azul e no Inverno usam geralmente capas compridas, as quais, quando não
chove levam sobre o ombro.
Em 1840 Paulo Perestrelo da Câmara nota o aspecto particular do traje madeirense o
que desperta a atenção estrangeira: Os trajes dos camponeses são muito diversos de
outro qualquer país, e os estrangeiros principalmente notão-lhe um gosto bizarro e
extravagante. Consiste pois, em um par de ceroulas largas, franzidas, mui curtas, que
só chegão do embigo acima do joelho, muito semelhante aos calções turcos; chamão-
lhe cuecas e em geral são de serapilheira da parte do Norte, e de pano de linho na do
Sul; botas de canhão, amarellas, com um bico arrebitado, como o das sandálias
chinesas; uma camisa de pano de linho, um gibão de cor e um funil de pano azul com
um bico comprido, com duas orelhas, o qual unicamente tapa a coroa da cabeça. O
traje das mulheres também não deixa de ser curioso e simples. Começa por quasi nunca
usarem de calçado senão nas igrejas ou em ocasiões de festejos; um saiote que pouco
lhe desce dos joelhos, de uma fazenda de lã fabricada no país a que chamão mafaruje,
tingida com casaca de amoreira; um colete de cor mui pequeno, por fora da camisa,
uma capinha encarnada, e igual funil ao que usão os homens, ainda diminuto, o qual
para se sustentar na cabeça é necessário ser preso com alfinete ao cabelo. Chamão-lhe
carapuça.

TRAJE: A. Marques da Silva, Indústrias Caseiras da Madeira. A Tecelagem, in Mensário das Casas do
Povo, nº.122, 1956. A. Marques da Silva, Indústrias Caseiras da Madeira. Indumentária Popular, in
Mensário das Casas do Povo, nº.124, 1956. J. Leite de Vasconcelos, Leiteiro e Carapuças da Madeira,
Boletim de Etnografia, nº.1, 1920. Carlos Agrela, Notas Etnográficas. O Traje, AHM, V, 1937. Eugénio
de Andréa Cunha de Freitas, Indumentária de uma Fidalga Madeirense no século XVIII, AHM, VI, 1939.
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Xarabanda, nº. 8, 1992, IDEM, Os Trajos usados na Freguesia de Campanário no século XVIII,
Xarabanda, nº.9, 1992. Idem, O Trajo na Freguesia de Nossa Senhora do Calhau- século XVIII,
Xarabanda, nº.1, 1992, IDEM, Os Trajos na Freguesia de Machico no século XVIII, nº.2, 1992. IDEM,
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da Madeira de Carlos Santos. Uma avaliação crítica, Xarabanda, no especial, 1993. IDEM, Os Trajos na
freguesia do Caniço no século XVIII, Xarabanda, nº.4, 1993. IDEM, Os Trajos usados na freguesia da
ribeira Brava no século XVIII, Xarabanda, nº.5. João Adriano Ribeiro, O Trajo na Madeira, Elementos
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