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A CIDADE COMO LOCUS DA VIDA

RESUMO

Mais de um século após o surgimento das primeiras teorias de planejamento urbano, as cidades ainda nos assombram. O novo milênio parece estar consagrado à busca da solução indispensável sobre como melhorar a qualidade de vida nos assentamentos urbanos, marco indispensável para a questão de como melhorar a qualidade de vida no planeta. Torna-se indispensável buscar outras formas de propor o urbano. Analisaremos a contribuição trazida pela obra da jornalista americana Jane Jacobs (1916-2006), Death and life of great american cities, datada de 1961, crítica que entraria para a história por abalar os princípios estabelecidos pelo urbanismo. Muitas das idéias de Jacobs apresentam novos métodos de abordagem da problemática urbana. Partindo da análise das vertentes de planejamento mais utilizadas na época e por meio da observação de cidades reais, a autora estabelece princípios que visam a conformação de lugares dotados de vitalidade socioeconômica. Refazendo o caminho da crítica de Jane Jacobs e com base no argumento de outros autores, buscaremos compreender suas proposições, que mostram que a natureza ignorada das metrópoles tem muito a nos ensinar. Longe de pretender esgotar a discussão sobre o seu pensamento, esse texto visa explicitar a contribuição da autora quanto a uma nova forma de fazer cidades, pautada pelo seu reconhecimento como grande palco que engendra a vida e a civilização.

A CIDADE COMO LOCUS DA VIDA

INTRODUÇÃO

Mais de um século após o surgimento das primeiras teorias de planejamento urbano, as cidades ainda nos assombram, sem que possamos afirmar compreender sua verdadeira natureza. No entanto, o crescente papel por elas assumido nas discussões ambientais, assim como o aumento incessante da população urbana, parece ter consagrado o novo milênio à busca por essa solução indispensável: como melhorar a qualidade de vida nos assentamentos urbanos, assumindo-os como os locais escolhidos pela humanidade como sua forma de habitar, de viver no espaço?

Discussão cada vez mais urgente, que em última instância, serve como marco indispensável para a questão de como melhorar a qualidade de vida no planeta. Hoje, mais do que nunca, é indispensável buscar outras formas de se propor o urbano.

Nessa investigação, analisaremos a contribuição trazida pela obra da jornalista americana Jane Jacobs (1916-2006), que teria seu primeiro livro, Death and life of great american cities, lançado no ano de 1961. Assumido pela autora como um ataque aos fundamentos do planejamento e da reurbanização então vigentes, o texto entraria para a história como a crítica que abalaria os princípios estabelecidos pela ciência do urbanismo. No entanto, acreditamos que muitas das idéias de Jacobs podem ser consideradas sob outro prisma, por apresentarem novos métodos de abordagem da problemática urbana.

Remetendo-nos à origem da palavra crítica, percebemos que esta advém do grego, sendo a mesma que a da palavra crise, designando o estado de mudança de algo, para melhor ou para pior. Assim, é possível dizer que toda crítica tem início em uma crise. No caso de Jacobs, o que se pretende mostrar é que essa crítica serviu de base para a criação de uma nova forma de se pensar e intervir nas cidades.

Partindo da análise das vertentes de planejamento mais utilizadas na época, tais quais a teoria da Cidade-Jardim e sua continuidade por meio do Planejamento Regional, bem como o Urbanismo Funcionalista e o movimento City Beautiful, mas, sobretudo, lançando mão da observação de cidades reais, a autora estabelece uma série de princípios que visam a conformação de lugares dotados de vitalidade socioeconômica.

Assim, refazendo o caminho da crítica de Jane Jacobs e com base no argumento de outros autores, buscaremos compreender os alicerces das suas proposições. Em sua obra, Jacobs mostrará que a natureza ignorada e desprezada das metrópoles tem muito a nos ensinar. Longe de pretender esgotar a discussão sobre o seu pensamento, esse texto visa explicitar a contribuição da autora quanto a uma nova forma de fazer cidades, pautada pelo seu reconhecimento como grande palco que engendra a vida e a civilização.

1 – A CIDADE COMO ATENTADO À VIDA

Em meados do século XIX, uma série de avanços tecnológicos viria a deflagrar e disseminar a Revolução Industrial. Alcançando, num primeiro momento, a Inglaterra, e espalhando-se, posteriormente, por toda a Europa, esse acontecimento histórico daria ensejo à configuração de um novo tipo de cidade, cujo crescimento avassalador seria viabilizado por meio da produção de bens seriados, assim como pelo aparecimento de novos meios de transporte e de comunicação.

O surgimento e a implantação de fábricas nos arredores das cidades atraíram inúmeras levas de camponeses que, visando escapar à situação de miséria existente no campo, acorriam ao meio urbano em busca de trabalho e melhores oportunidades, passando a constituir bairros superlotados e insalubres. As péssimas condições de vida decorrentes das altas concentrações populacionais, do adensamento das construções e da infra-estrutura deficiente – notadamente no tocante ao saneamento ambiental – tornaram-se fonte de grande descontentamento, dando origem à crença na cidade como origem de todos os males sociais, como algo a ser combatido.

As novas cidades levariam, para muitos, à degeneração do corpo, da mente e do espírito humano. Na Inglaterra, país pioneiro na industrialização, pensadores como John Ruskin (1819- 1900) apontariam a cidade como corruptora da moral dos indivíduos. A cidade significava o trabalho desumanizado, sem criatividade e exaustivo, porque atrelado à máquina; era sinônimo da habitação precária, construída sem esmero, de forma arranjada e, muitas vezes, impessoal; implicava em uma vida enferma, passada longe do contato com a natureza e sujeitada à fumaça das indústrias.

Como bem destaca Hall (2005), espalhou-se pelas capitais européias, especialmente por Londres e Berlim, o temor de que os habitantes das cidades fossem biologicamente incapazes, inferiores aos homens do campo – não sendo, como estes, forjados pela vida sadia ao ar livre, estariam fadados à perda de seu vigor, chegando-se a duvidar de sua capacidade de se reproduzir.

Por todos os lados, jornalistas e religiosos, pensadores e políticos, denunciavam os horrores existentes no meio urbano, valendo-se de uma concepção idealizada do meio rural. Ao mesmo tempo, a concentração de miseráveis nas metrópoles era fonte de levantes e distúrbios, a ela creditando-se, ainda, a promoção de vícios e delitos de toda a espécie. Como bem atesta Schorske: “A cidade simbolizava em tijolos, fuligem e imundície o crime social da época” (SCHORSKE, 2000, p. 61).

Assim, é nesse contexto que serão buscadas as primeiras respostas às questões suscitadas pela metrópole, visando, inicialmente, conter seu crescimento e devolver o homem ao campo, onde este disporia de melhores condições para um desenvolvimento sadio. Não por acaso, muitas destas propostas viriam a surgir na Inglaterra, país com ampla tradição de vida

campestre. Tais idéias apresentavam ares profundamente saudosistas: cogitava-se a possibilidade de reversão da sociedade às condições pré-industriais, ignorando-se, dessa forma, a ruptura ocasionada pela revolução tecnológica.

Nessa tentativa de pensar a problemática representada pela cidade, irá se desenvolver o campo do planejamento urbano, como uma espécie de reação aos seus diversos males. A primeira dessas iniciativas surgirá ainda na Inglaterra, com a teoria da Cidade-Jardim de Ebenezer Howard.

2 – AS TENTATIVAS DE REMEDIAR A CIDADE

Ebenezer Howard (1850-1928) publicou seu primeiro livro, To-morrow: A Peaceful Path to Real Reform (Amanhã: Um Caminho Tranqüilo para a Reforma Autêntica) no ano de 1898. Reeditada em 1902, a obra passaria a ser conhecida como Garden Cities of To-morrow (Cidades-Jardins do Amanhã) 1 , dando origem ao epíteto com que ficaria conhecido o conjunto de suas idéias. Taquígrafo de formação, era o que se poderia chamar de reformador social.

Visando uma solução definitiva para o problema das cidades européias, Howard percebeu que os núcleos urbanos possuíam inúmeros atrativos que deveriam ser aproveitados, especialmente no tocante à disponibilidade de empregos, e propôs unir essas facilidades às benesses promovidas pela vida no campo, tais como as melhores condições ambientais e o contato com a natureza. Como forma de evitar o inchaço das grandes metrópoles, ele sugeriu a criação de “constelações de cidades” (Hall, 2005), entremeadas por grandes extensões de terras cultiváveis e cinturões verdes. A maior destas cidades deveria ter no máximo 58.000 habitantes, enquanto as demais não deveriam ultrapassar a faixa dos 30.000. A imagem 01 mostra um diagrama da Cidade-Jardim conforme proposto por Howard na primeira edição de seu livro 2 . Segundo o autor, a implantação dessa proposta seria capaz de promover uma pulverização das cidades grandes e concentradas em várias cidades menores, bem como um repovoamento do campo, então abandonado por seus antigos habitantes.

1 As traduções dos títulos das obras seguem as versões oferecidas pela tradução de Pérola de Carvalho para a obra de Peter Hall: Cidades do Amanhã: uma história intelectual do planejamento e do projeto urbanos no século XX. São Paulo: Perspectiva, 2005. 2 Ainda segundo Hall (2005), este diagrama, em sua forma integral, foi retirado da versão de 1902 e reproduções posteriores da obra de Howard, prejudicando a compreensão da proposta defendida pelo autor.

Imagem 01 – Diagrama completo da cidade-jardim. Fonte:

Imagem 01 – Diagrama completo da cidade-jardim. Fonte: http://www.urbanidades.arq.br/bancodeimagens/displayimage.php?album=5&pos=1

A concepção da Cidade-Jardim estava, ainda, diretamente calcada no reconhecimento das possibilidades surgidas com a disseminação dos novos meios de transporte e de comunicação, tais como a ferrovia e o telefone, constituindo, eles próprios, elementos indutores de uma urbanização dispersa no território – tema que se tornaria recorrente também entre os defensores do Planejamento Regional, vertente que pode ser considerada como uma espécie de desdobramento do ideário da Cidade-Jardim.

Os demais esteios da teoria howardiana estavam assentados na propriedade coletiva da terra, gerenciada na forma de cooperativa, no crescimento limitado das cidades e seu zoneamento, bem como no lastro econômico proporcionado pela existência de uma indústria no perímetro urbano.

Desse modo, essas constelações de cidades poderiam se desenvolver de forma auto- suficiente – seus cidadãos viriam a prosperar, teriam bons empregos, cultivariam a terra e disporiam de ambientes adequados para viver. A gestão coletiva da terra garantia que, com as melhorias efetuadas e a decorrente valorização do solo, o lucro seria revertido para os proprietários. A divisão dos usos assegurava a salubridade dos locais de moradia, apartados dos inconvenientes oriundos, sobretudo, das indústrias, uma vez que estas eram necessárias para a dinamização econômica do meio urbano, enquanto a limitação de crescimento impediria o adensamento excessivo – quando alcançada a quantidade-limite, outro núcleo seria criado, em comunicação com o primeiro.

A proposta de Howard representa, certamente, um avanço em termos de compreensão das cidades, pois se pauta pela consideração de seus principais atributos. No entanto, na medida em que propunha a fragmentação das grandes cidades em pequenos núcleos, a teoria da Cidade-

Jardim termina por desprezar a verdadeira natureza da metrópole, que constitui seu principal atrativo: as oportunidades quase ilimitadas de crescimento surgidas justamente pela concentração de milhares de pessoas, responsáveis pela diversificação econômica, de necessidades e de gostos.

Howard acreditava ser possível manter essas vantagens em núcleos pulverizados. Entretanto, tais possibilidades, na Cidade-Jardim, se veriam seriamente ameaçadas, tanto pela limitação populacional quanto pelo zoneamento, fator restritivo da mistura de usos. Como destacado por Jacobs (2003), a teoria da Cidade-Jardim se constituiria em um método bastante eficiente de eliminar a metrópole. Ela exemplifica bem a questão ao observar as características inerentes às áreas centrais dos núcleos urbanos:

Todos sabem que uma quantidade imensa de pessoas concentra-se nos centros das cidades e que, se não houvesse tal concentração, não haveria centro urbano que se prezasse – certamente não com a diversidade típica dos centros (JACOBS, 2003, p. 222).

Não obstante, o ideal da Cidade-Jardim serviria como base para o planejamento de cidades em todo o mundo, embora, muitas vezes, de maneira bastante diversa daquela pensada por seu criador. Os rebatimentos tornaram-se comuns na forma de projetos de subúrbios-jardim, cidades-satélites ou cidades-dormitório – apesar da ênfase da teoria howardiana na auto- suficiência dos núcleos urbanos, aparentemente, era mais prático resolver as demandas populacionais no âmbito das metrópoles já existentes.

As idéias de Howard tomariam outro caráter a partir das formulações do chamado Planejamento Regional, bastante popular, sobretudo, nos Estados Unidos, por meio do qual se alastraria uma visão de planejamento de grandes áreas, conformadas a partir de constelações de cidades-jardins distribuídas ao longo do território, tendo por base a aplicação do conceito de Região, tomado de empréstimo à geografia pelo biólogo Patrick Geddes (1854-1932). A imagem 02 mostra a famosa seção de vale desenhada por Geddes, em que ele relaciona as características culturais dos povos às características naturais presentes em seus locais de origem.

naturais presentes em seus locais de origem. Mineiro Lenhador Caçador Pastor Camponês Jardineiro

Mineiro

Lenhador

Caçador

Pastor

Camponês

Jardineiro

Pescador

Imagem 02 – A Seção de Vale. Segundo Hall (2005), a essência do esquema regional de Geddes. Fonte: HALL, Peter. Cidades do Amanhã. 2005.

A ênfase na desconcentração e dispersão das cidades ganharia novo fôlego com a utilização desse conceito. Era preciso planejar em grande escala, levando em consideração as relações apresentadas pelos lugares entre si. Conforme dito antes, eram também levadas em conta as possibilidades surgidas com as novas tecnologias, bem como suas implicações no modo de vida das pessoas e no funcionamento das cidades. A esse respeito, Hall (2005) cita Lewis Mumford (1895-1990), grande entusiasta do Planejamento Regional, segundo o qual “( ) qualquer projeto elaborado no sentido de concentrar as pessoas em áreas da grande-cidade vai chocar-se às cegas com as oportunidades que o automóvel oferece”, com destaque também para o papel desempenhado pelo telefone, o rádio, o serviço de correios e a eletricidade nessa mudança de paradigmas.

Do reconhecimento das possibilidades e implicações da máquina, o planejamento urbano

passaria rapidamente à apologia das novas invenções. Caberia ao Urbanismo Funcionalista levar às últimas conseqüências o apelo à tecnologia – um novo tempo sobreviera às cidades, gerando

mudanças irreversíveis em seu modo de vida: tornava-se, portanto, necessário considerar tais avanços como premissas para a construção de espaços inteiramente novos. A arte de edificar ancorada no passado mostrava-se insuficiente em suas respostas. O novo momento histórico exigia soluções sem precedentes.

Nesse sentido, podemos encontrar na Carta de Atenas, documento síntese das discussões do 3º Congresso Internacional de Arquitetura Moderna – CIAM, datado de 1933, os princípios constitutivos do Urbanismo Funcionalista. De forma esclarecedora, o texto afirma que

A era do maquinismo introduziu técnicas novas, que são uma das causas da desordem e da confusão das cidades. É a ela, no entanto, que é preciso pedir a solução do problema (Carta de Atenas, 1933).

O redator do texto, o arquiteto Le Corbusier (1887-1965), seria um dos grandes

propagadores da nova doutrina, por meio de projetos como o da Ville Radieuse (1933), proposto

para Paris. Como pode ser visto na imagem 03, largas avenidas ortogonais e grandes edifícios construídos em série substituem a malha irregular e compacta da metrópole.

Imagem 03 – Justaposição do plano da Ville Radieuse à malha da cidade de Paris.

Imagem 03 – Justaposição do plano da Ville Radieuse à malha da cidade de Paris. Fonte: http://strates.revues.org/document5573.html.

Uma vez mais, as cidades existentes deveriam ser descartadas – porém, não mais visando sua pulverização em cidades menores, mas sim a liberação do solo mediante o expediente da verticalização das moradias, propiciado pelas novas técnicas de construção. No terreno liberado, seriam locados grandes espaços verdes e equipamentos culturais e de entretenimento. Sob o mesmo enfoque pregado pela Carta de Atenas, visava-se, simultaneamente, ao atendimento das necessidades de habitação e lazer dos moradores, numa escala que variava desde a satisfação de demandas do bairro até as da cidade, prevendo-se ainda sua integração com a região.

Outros aspectos previstos pela Carta, a serem contemplados pelo planejamento, diziam respeito às demandas de trabalho e circulação, observando-se a correta disposição das atividades no meio urbano, mediante seu zoneamento, de modo a garantir o bem-estar dos habitantes e a estabelecer a melhor relação quanto à distância percorrida e tempo despendido, promovendo-se o uso dos modos de transporte mais eficientes.

Como se pode notar, há diversos pontos de semelhança com o ideário da Cidade-Jardim e do Planejamento Regional, não tendo o Urbanismo Funcionalista ficado alheio às suas proposições. Porém, como mencionado anteriormente, o papel dado à tecnologia na criação dos novos espaços se modificaria substancialmente.

Com a destruição das cidades européias protagonizada pela Segunda Guerra Mundial (1939-1945), surgiria a oportunidade perfeita para a instituição dos princípios apregoados pelo Urbanismo Funcionalista. Como nos mostra Hall (2005)

Toda uma geração estava na expectativa da chamada: a geração que, saída das forças armadas, ingressara nas escolas inglesas de arquitetura, finalmente determinada a criar o admirável mundo novo. (HALL, 2005, p. 258)

Fato que é também atestado por Choay (1996) – segundo a autora, embora as iniciativas do novo urbanismo dominassem a cena na Europa já a partir da década de 1920, elas só foram significativamente aplicadas após a guerra, devido à necessidade de reconstrução dos lugares

arrasados. Assim, de maneira inesperada, a doutrina da tabula rasa via-se posta em prática:

graças à dimensão do conflito, era preciso refazer, rapidamente, cidades inteiras, o que só seria possível graças à produção em série e à conseqüente padronização. Os novos projetos traziam a marca inconfundível da máquina, consolidando uma nova dimensão estética que encontraria aí plena expressão.

Por todos os lados, multiplicavam-se os clamores pela modernização das cidades. E, assim, não tardaria para que a geração do pós-guerra, tomada de entusiasmo pela tecnologia, passasse a “ultracorbusiar Corbu” – inspirados pelo mestre e por outros arquitetos emblemáticos do período, surgiriam projetos que ajudariam a sedimentar uma espécie de “tradição da novidade” (Hall, 2005).

Ao mundo novo corresponderia um homem novo – idéia que ganhou força através da máxima eternizada por Corbusier: Arquitetura ou Revolução. Na busca pela ordem, eficiência e bem-estar da vida urbana, era necessário acabar com o caos reinante nas grandes cidades e nesta campanha, empenharam-se os planejadores. Não se tratava de transformar os lugares existentes – e sim de refazê-los. Mas em nenhum momento cogitou-se se isso realmente agradaria àqueles que habitavam tais espaços.

3 – “LIVREM-SE DA ARTIFICIALIDADE” 3

Por breves instantes, vamos nos deter numa pequena alegoria de modo a ilustrar as proposições deste artigo.

No filme A.I. – Artificial Intelligence (I.A – Inteligência Artificial), lançado em 2001, é contada a história do robô-menino David, dotado por seu criador com a capacidade de amar como “um menino de verdade”. Abandonado por sua mãe humana, em certo ponto da narrativa, David é aprisionado e levado para a “Feira de Carne – Celebração da Vida”, local onde os robôs – notadamente os de geração ultrapassada – são levados para serem destruídos, num misto de show de rock e arena circense claramente inspirado nos espetáculos romanos.

Na seqüência filmada, as máquinas são apreciadas pela multidão em seu caráter de simulacro, substituto perfeito do ser humano, porém desprovidas dos sentimentos e de apreensões relativas à velhice e doenças e, sobretudo, à morte, condições essenciais que configuram uma noção de humanidade. No entanto, no momento em que David é levado ao extermínio, sua disposição de implorar por sua vida desperta a compaixão da platéia, cujas manifestações passam a se identificar com o que consideram ser somente uma criança, exigindo sua libertação.

3 “Purge yourselves of artificiality”. Do filme A.I. – Artificial Intelligence (na versão em português, I.A. – Inteligência Artificial). Lema da Feira de Carne – Celebração da Vida, arena onde os robôs eram levados para serem destruídos.

Na base do argumento defendido, está a rejeição a “não-vida”, encarnada num “ser artificial”, capaz de imitar a vida, mas não de provê-la – considerado ofensivo à dignidade humana, anti-natural e, portanto, mentiroso em seu âmago. Notavelmente, a tecnologia que consegue se inserir nos parâmetros aceitáveis de “naturalidade” encontra aceitação.

Voltemos, agora, ao âmbito do urbanismo. O que se verificou, mais adiante, foi uma crítica massiva ao caráter supostamente mecanicista do planejamento. A ênfase na função passou a ser associada ao maquinismo e à produção de espaços desérticos, frios e impessoais, despossuídos de referências para os habitantes das cidades. Como nos diz Choay (1979), um planejamento higiênico e uma distribuição racional do espaço, por si só, provaram não ser capazes de gerar uma impressão ou sensação de vida.

A partir dos primeiros questionamentos, iniciados na década de 1950 no âmbito do próprio CIAM, especialmente pelos jovens arquitetos do chamado Team X, passando pelas críticas de Jane Jacobs, do arquiteto americano Robert Venturi (1925-) e da vertente italiana, representada por Aldo Rossi (1931-1997), começa a ganhar força, nos Estados Unidos e na Europa, a discussão sobre a valorização dos modos de viver tradicionais e vernaculares.

Em 1964, é realizada pelo Museum of Modern Art – MoMA, de Nova York, uma exposição intitulada Architecture Without Architects (Arquitetura Sem Arquitetos), em que são mostradas construções de povos ancestrais, que apresentam uma riqueza formal e de recursos que em muito ultrapassa a pobreza de certos locais urbanizados da modernidade. No ano seguinte, em seu artigo intitulado A city is not a tree, outro arquiteto americano, Cristopher Alexander (1936-), taxaria de artificiais as cidades deliberadamente criadas por projetistas e planejadores.

Diversas outras frentes surgirão ainda nas décadas de 1960 e 1970. Nessa época, ganham destaque certos movimentos inseridos no campo artístico, relacionados com a Revolução Cultural, tais como os Situacionistas, que defendem a importância da subjetividade e o papel da arte em oposição à passividade e alienação dos habitantes das metrópoles. Também emergem com bastante força as discussões sobre a preservação do meio ambiente, que adquirem visibilidade política a partir da década de 1980.

A ênfase mais recente nas discussões sobre a “espetacularização” das cidades e sobre a cidade “descarnada” revela uma busca desenfreada da contemporaneidade pela dimensão humana em toda a sua extensão. Esse “interesse súbito” pela figura do homem poder ser visto também no avanço de ciências como a Antropologia, na hipertrofia do campo da memória, no fascínio pelo vivido, no predomínio das técnicas relativas à História Oral, como a coleta de depoimentos, e ainda, na crescente apologia da diferença. Tomando de empréstimo o termo

cunhado pelo físico Marcelo Gleiser, poderíamos dizer que o “humanocentrismo 4 ” impera na atualidade.

Nessa necessidade de afirmação, nos deparamos com a nova face desse medo mais profundo, o medo do inumano, representado pela máquina. Em termos de criação de espaços, esse medo se ressente da perda de qualidade do viver habitual nas cidades. Confrontadas com a ingerência de suas vidas, as pessoas se viram presas do temor de virar mais um dente em uma imensa engrenagem e reagiram furiosamente.

É curioso notar que já em 1889, o arquiteto austríaco Camillo Sitte (1893-1903), em sua clássica obra Der Städtebau nach seinen künstlerichen Gründsatzen (A Construção das Cidades Segundo Seus Princípios Artísticos) aponta a perda de qualidade dos espaços da modernidade, devido à desconsideração dos recursos compositivos utilizados pelos antigos para conformar lugares belos e aprazíveis para seus usuários, na configuração de ruas e praças.

Desta feita, reforça também o imperativo da presença do homem para dar vida a estes espaços. Mesmo não estabelecendo maiores discussões a tal respeito em sua obra, o autor reafirma a necessidade de que os lugares sejam utilizados, preenchidos com as atividades humanas.

Tido como passadista, Camillo Sitte é alvo freqüente de leituras equivocadas. No entanto, um olhar mais atento demonstra suas verdadeiras intenções, visando tirar partido dos procedimentos tradicionalmente empregados pela arte de construir, adequando-os às exigências da vida moderna. Sitte acreditava que esses preceitos não eram incompatíveis com a nova realidade representada pela revolução tecnológica. De acordo com suas próprias palavras,

Nem a vida moderna, nem a ciência técnica moderna permitem que se copie servilmente a disposição das cidades antigas. Temos de reconhecê-lo, se não nos quisermos abandonar a um sentimentalismo sem esperanças. Os modelos dos antigos devem reviver hoje, e não como cópias conscienciosas; é examinando o que há de essencial em suas criações e fazendo sua adaptação às circunstâncias modernas que podemos atirar, num solo aparentemente estéril, um grão capaz de germinar de novo. (SITTE, 1992, p. 125)

A análise feita por Sitte do espaço “desqualificado” e “desumanizado” da modernidade será empreendida, cerca de 70 anos mais tarde, por Jane Jacobs, em seu livro Death and life of great american cities, ganhando novos contornos. Por meio da observação do “funcionamento das cidades na prática” a autora se propõe a investigar os princípios do planejamento e as iniciativas de reurbanização capazes de promover a vitalidade das cidades.

Partindo da crítica ao planejamento vigente em sua época, ela demonstra a série de pressupostos equivocados que se tornaram referência para a elaboração de planos e modelos urbanos, com base no ideário da Cidade-Jardim (propagado, como vimos, pelo Planejamento Regional), do Urbanismo Funcionalista e, por fim, do Movimento City Beautiful.

4 Ver artigo do autor intitulado “Raridade não é milagre”. Folha de São Paulo, Caderno mais!, página 6, domingo, 19 de julho de 2009.

Tendo falado a respeito das primeiras, resta-nos destacar o papel dessa última teoria na definição efetuada por Jane Jacobs de sua City-Garden Beautiful Radieuse (algo como Cidade- Jardim Monumental Radiosa), espécie de síntese das premissas do planejamento urbano do período – segundo a autora, tornou-se parte integrante desse ideário o expediente de construção de centros monumentais, amplamente utilizado pelo Movimento City Beautiful.

A mescla dos preceitos apontados por Jacobs toma a forma de um mantra, em que se repetem o uso dos centros administrativos, dos empreendimentos verticais, das áreas verdes e do zoneamento, estabelecendo uma espécie de senso comum do planejamento de cidades. Sua crítica permanece válida, como se pode observar a partir das políticas públicas brasileiras de nossos dias.

4 – A CIDADE COMO LOCUS DA VIDA

Como muitos autores de sua época, Jane Jacobs parte da crítica ao urbanismo moderno, ajudando a deflagrar a crise do planejamento. No entanto, embora se destaque o papel crucial de seus questionamentos, pouco ou nenhum espaço é dado às propostas que ela elabora, efetuando um conjunto de sugestões sobre como promover a revitalização das áreas urbanas.

Mostrando-se favorável à existência do planejamento enquanto prática ancorada na cidade real, é preciso que se diga que Jane Jacobs nunca concorreu para o esvaziamento desse campo. Muitas de suas observações antecipariam debates extremamente atuais. Sua defesa da metrópole como ente que reúne as condições mais favoráveis à prosperidade da civilização humana adquire contornos únicos quando observamos que no âmbito da conferência internacional Habitat I, realizada pela ONU em 1976,

as cidades, especialmente as megacidades, eram vistas (

a ser evitada a qualquer preço, e que todas as políticas ali recomendadas redundavam na máxima: fixar a população no campo para evitar o êxodo rural e, por conseguinte, o inchaço das cidades (Agenda 21 Brasileira: Bases para discussão, 2000, p. 36).

como uma desgraça

)

A partir da década de 1990 se solidifica, no âmbito da Habitat II, datada de 1996, uma mudança significativa na compreensão da cidade como ambiente apropriado à vida comum do homem.

Nos anos 90, portanto, houve uma mudança expressiva de inflexão na abordagem da problemática urbana e sua relação com o mundo rural. As principais razões para essa mudança podem ser atribuídas a dois fatores irrefutáveis: a) o fracasso das políticas de fixação da população rural em todo o mundo, independentemente do contexto político ou econômico; b) a efetividade do fato de que a cidade parece ser a forma que os seres humanos escolheram para viver em sociedade e prover suas necessidades (Agenda 21 Brasileira:

Bases para discussão, 2000, p. 36).

Em seu livro, Jane Jacobs já apontava para o fato, dizendo que

É tolice negar o fato de que nós, norte-americanos, somos seres urbanos vivendo numa economia urbana – e, no processo de negação, perder também todas as

zonas rurais verdadeiras das regiões metropolitanas, como tem acontecido constantemente (JACOBS, 2003, p. 243).

Na verdade, ela percebeu que quanto mais populosa a cidade se tornasse, mais compacta ela deveria ser, de modo a garantir que o espaço urbano fosse otimizado e qualificado, dotado de todas as coisas necessárias a sua urbanidade: equipamentos públicos, áreas verdes, sistemas de transporte eficientes etc., conservando os ambientes naturais em sua integridade.

Infelizmente, demorou bastante para que isso fosse percebido, não se chegando a implantar em larga escala essa visão. Os modelos de crescimento das cidades seriam cada vez

mais baseados na cidade desconcentrada, cada vez mais favorecidos pela criação de rodovias e

a expansão do uso do automóvel, gerando os já conhecidos problemas de tráfego e de

encarecimento da infra-estrutura, assim como a excessiva antropização do solo e a perda dos recursos naturais pela invasão dos ecossistemas, questões que ganham força com a constatação da ameaça à própria vida do planeta, hoje tão discutidas pelos ambientalistas.

As iniciativas cada vez mais constantes de recuperação das áreas centrais e preenchimento dos vazios urbanos, conformando uma nova política de utilização do solo das cidades, também viria a reforçar a tese de Jacobs, em que pesem suas muitas controvérsias.

Ainda no tocante ao uso do automóvel, a autora dedicaria um dos capítulos de seus livros à questão, o de número 18, intitulado “Erosão das cidades ou redução dos automóveis”. Embora essa fosse uma crítica já existente na época, Jane Jacobs propõe medidas como a criação de restrições a veículos em certas áreas, de modo a desestimular sua utilização, uma vez que, segundo ela, “quanto mais espaço se der aos carros nas cidades, maior se tornará a necessidade do uso dos carros e, conseqüentemente, de ainda mais espaço para eles” (JACOBS, 2003, p.

391).

Ela cita o exemplo da proibição de automóveis no Washington Square Park, em Nova York, em vigor a partir de 1958, como um exemplo bem-sucedido de interrupção de um processo de “retroalimentação positiva” – sob influência da população local, uma rua de tráfego ao lado do parque teria sido fechada aos pedestres, sem se propor nenhum tipo de alargamento das vias perimetrais, o que teria acarretado a diminuição do tráfego de forma generalizada na área.

Não é preciso mencionar que as demandas atuais por novos sistemas de transporte urbanos, baseados nos veículos de massa ou nos meios alternativos, como a bicicleta, provariam que ela tinha razão.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir de 2008, inverte-se um quadro planetário que perpassou milênios da história do homem:

pela primeira vez, o mundo exibe maior número de pessoas morando em áreas urbanas do que em áreas rurais.

Ao mesmo tempo, nunca esteve tão presente a discussão sobre a falência do modelo de planejamento e consumo empregado hoje pelos diferentes povos, que implica em degradação ambiental, pobreza, desigualdade social e perda da qualidade de vida nos assentamentos humanos. A fé na cidade como agente civilizador nunca esteve tão severamente abalada. Como afirma Hall (2005), no final do seu livro, pode ser que as cidades estejam ainda no mesmo lugar de quando começaram. Talvez porque nos tenha faltado compreender sua verdadeira natureza.

Porém, eis que ancorado nessas questões e no esteio dos grandes eventos de escala mundial, assiste-se ao retorno da discussão sobre a criação da cidade ideal. Momento mais que propício, portanto, para discutirmos o que fazer a respeito de nossas cidades atuais, sobre como torná-las lugares melhores, que propiciem crescimento e felicidade a seus habitantes, em suma, investir na cidade que queremos, buscando compreender a que temos.

Em sua época, Camillo Sitte afirmou: “Aqueles que se entusiasmam com as boas causas e crêem nelas o bastante devem se convencer de que o nosso tempo ainda pode criar obras de beleza e de bondade” (SITTE, 1992, p. 10). O maior dom humano, esse é o ensinamento final do filme Artificial Intelligence, é a habilidade de buscarmos os nossos sonhos.

É preciso reafirmar a potência da arquitetura e do urbanismo, de sua contribuição possível à construção de espaços dignos de se viver. Nesse sentido, Jane Jacobs apresenta um grande legado, mostrando que a cidade possui uma ordem outra, diferente, em nada inferior e sim mais complexa, com a qual se deve aprender, a fim de se instaurar essa forma distinta de planejamento, propondo uma nova forma de se pensar e fazer o urbano.

Se tem uma lição que a História nos ensina é que podemos tudo que quisermos, tudo que formos capazes de imaginar. Nossas cidades serão aquilo que sonharmos e procurarmos realizar nelas, com elas e para elas, desde que isso sirva para melhorar a nossa vida, para nos trazer felicidade.

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