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Cap a : L e o n a r do M o re i ru e L ucj olu FCl.1Ú

l lus t r u ç â o d n l :~ l p U :"C u r t u gr u fia N ú m ad e ' I u qu a r e !a . scL/200SI. J; : U - -'il . lf v .1 v l o ren u

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d i to r açâo

e l e tr ô ni c a :

T e v t os &. F o r ma s

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Si n di c a to N:u;ional dus Et.lilort.·~ de LI\lW"

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Ra z ão Nôm a d e I orgunizudor Duniel L m s: C h u r l e-

Janeiro: Forense Univc::rsitári:1,2005.

T rad uç ã o d o c a p fru l o "A s p eq u ena s p e r cepçõe s"

ISBN 85-118-0387-7

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I ~!. L+ - R !.· d e

A l in e \ l ; . ,fI . : Yi e i r . r de Ara újo

 

J.

N i e tz s c h e , Fri e d r i c h W i l h t ' l m.

1 8 ~ 4 - 1900. 2 . D el eu z e , Gi l ks .

1 9 ] 5 ·1 99 5 .

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' , R a z â u . -L Filosofia

m o d eru u. L Lin s. Danie! S o a r e s.

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CDD 1 1 1 . 3

Proibido a reprodução

total ou parcial,

de qualquer

ou mecânico, sem permissão

forma

ou por qualquer meio eletrônico

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D e

1 6 1

expressa do Editor

(Lei n" 9 . 6 1 0. de 19 . 2.19 9 8 ) .

Reservados os direitos

de propriedade

desta edição pela

E D I T OR A FO RE NSE U N I VER S I TÁRIA

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htt p:/ / II ' W W . f ore nseu ni vers i ta ria. co m. br

Imp r e sso 11 0 Brasil Prín t r i l i n Bm- I t

\

A p r e s e ntação

Luiz B. L. Orlandi

E s ta apres e ntação q u e r ap e n a s uma c ois a , que o p os sí v e l l ei to r

e x perimente algo cert a mente o corrido com el e algum as ve z e s e m

su a vi da: que e le se di s po n ha a praticar l ance s de l e itur a n ô m a de ,

i

st o é , qu e s e d e i xe b a nha r p or

a qu e l a s v ag as d e le i tur a q u e no s as- ,

s

a l tam e m cer t o s mom e n t o s d e d e s c uido d e nó s me s mo s ou d a s

n

o ss a s obri g a çõe s bu r o c r a t i z a da s . P or q u e d e s e jar i s so? Po rq ue e s -

m o v e r q u an d o , de an t emã o o u e m

f a c e d as primeira s p a l a v r a s, n ão s u b m e tem os o e scr it o a lh eio a u m

/ pr e sun ç o s o ou c ans ad o sei. Le r co m o q ue m c ont e m p la um ros -

to : nã o s ab e m os o qu e p o d e v i r d e u m r os to , p oi s h á i man ê nci a

entre e l e e um a e sp é d ê d e di r e i t o à ex pre s s ã o i nespe rad a . Po r i s so , só q u a ndo s ent i m o s n osso o l h a r i nte n s ific a r-s e com o "o lh a r p e ne-

t r a nt e ",

se s l an c e s tê m a vi rtud e

d e n o s

d i z o t ext o d e J o s é G i l , c o m o

um v e r si nt o ni za d o c o m a

v a riab il id a de d a s " pe qu e n as p e r c e pç õ e s " , é q u e che g a mo s a e nt re -

a l i

o nd e u m "s orr i s o q u e s e qu e r a mi g á ve l ", p or e xe m pl o, p o d e s e r

m o l ecu l a r me nt e s ur p r e en d i d o c omo i m p e rcep t í v e l d e s l i ze " h i pó- cri ta " , Q u e a l e itu ra sej a t a m b é m ass i m : u ma s in t o ni a m u lt ipli ca-

dora d e d es l i zam e nto s .

u sa r a coi s a l i da co m o i n s t r u me n t o

c o mo oca s i ã o de goz o , po u c o i m p o rta , c on ta n to que se l ei a c o m o

q

m a r i n t e i ro . Q ue o l e i tor s e a p ro x i m e d o s te x to s com e ssa a lma

a i l us ó r ia c e r t e z a d e estar d om in a nd o o

ve r d efa sag en s , " de s l ocam e n t os"

q

u e pul s a m

n a r o s t i da d e ,

L e r em e s ta d o d e n oma di s m o ,

i

nt e lectu a l

sej a p ar a

o u pa ra f ru í- i a

u e m p e ga o n d as se m

As Pequenas Percepções

J os é Gil*

1 . E m Diiere nça e repetição, e m qu e s ur g e p e la p rim e i ra v e z a

n oção lei b ni z i ana d e p e que n a s p ercep ç õe s, est a s n ão ce s s a m de se

tor n a r o b jeto d e um t r at a m ent o

pio r ejei t ad as e i de n tif i cadas com o v i r tu a l e c o m o inconscie nt e

( t ra t ar- se - á mesmo d e u m " m ic r oinco n s c i en t e "),

ti va m e nte s u b s ti t u í d a s p e l o " mole c ular " a p a rtir de O an t i - É di p o .

v a go e a mbí guo : de s de o princí-

e l a s ser ã o defini-

Não e xa min a rem os a q ui as r az õe s de tal a b a nd o n o . S e r e to-

mamo s tal no ção é p o rqu e e la no s parece p o der c on t ribuir

con s ti t u içã o de u m a s emi ó tica do infin i ta m ente p eque n o, n e ces-

s á ria à int e li g ibi l idad e d e u m grande nú m e ro d e fen ô m e no s ( e m

m úl t ip l o s d o m í nios , c om o a e s té t ica , a etnologi a , a p s iquiatri a,

r e t ó r i ca). N ã o t en tar é r n o s fa zer n e nhu ma e l abor a ção t eór i ca ; li - mitar - no s - e r nos a mo s trar a pe r t inên c i a d a id é ia de " pe qu e n as percep ções" no c a mpo d a per c ep çã o d a obr a d e a rt e .

p ar a a

a

2. A d e s c ri ç ã o q u e se s e g u e se r á f o r ço sa m e nte

e s q ue m á ti ca ,

simpli f i c a d a, r edu z i d a e r ed ut o r a. D er e r-no s -emos a p e n a s n o qu e imp o r ta p ara a n os s a pro p o s ta , a sabe r , o p a p e l d ese mp en h a d o pe -

l a s pequ e n a s p e r c e p ç õe s n o pr o c e s s o p e r c ep t i vo d o o b j eto a rtí s ti -

c o ( d e pr e f e r ê nci a, v i s ua l ).

n e l a

tr ês fases, q ue co r re s p o nd e m

Tom e m os a pe r c e p ç ã o d e u m qu a d r o. Di s tingu i remo s

a tr ê s r e g ime s d o o lha r :

José Gil, professor caredrárico da Universidade Nova de Lisboa, é autor de diversos livros em p ort ug u ê s e francês.

20 R azão Nômade

a) Um a pe rc e p ção tr i v ia l ( ou mer a ment e cognit i v a ) d a s for-

m as ( uma pai s agem , lin h as , fig u ras geométr i cas) . F a s e de recog -

nição,

com por t a sem pr e e l e m e n tos fa mi l ia r e s .

q u a l o

olh a r descobr e outros m o v imentos e o u tras r e lações e n tre a s for - ma s , e n t re a s cores, outros e s paços e lu zes. Tr at a - s e e n tão da

p erc ep ção n ão tr iv i a l d e u m nexo dife re nt e que átr ave ssa os e l e -

m entos p i c t ó r i c os . O olh ar per ce be , n ess e m om ent o,

combinação ou compos i ção d o espaço , dá s c ores e d o te mpo . E m um cert o s e nt i do , p r ecisarí a m os ir mai s l o n ge, po i s o " espec t a d or"

e n t r a n o qu a dro , "tor n a - se p art e d e le ". Te x t os b e l íssi mos d e K an-

d in sk y , em Olhares sobre o passado, d esc re vem ess a s

çõe s e esse sa l to do ol h ar p ara o nív e l não t r i v i a l d as "es t rut u ras"

não a p a r e n tes ou escond i das . N o tem os

con sciê nci a d es s es d o is ní v ei s de p e rce pç ão, e t r ab a lh a a fi m e l e

q u e o o lh ar de sl ize fa c i l m en t e d e um p ara o o utro. Ei s um e l e men -

t o qu e é preciso l evar em co n ta n a t é cn ica - ou " co zin h a" - do a r -

tista , v i sto q u e nada está da d o

ofereçam o be l o ao olha r , co m o d i zia Ka nt .

o u d e a p erc e pção ,

d e uma e s t ra n h ez a

q ue , no en t anto,

b ) A p erce p ção d e u m o u t r o espaço ou " lu ga r ", n o

um a ou tr a

tran s f or m a -

q ue o p in tor tem ple n a

na n atureza pa r a qu e su a s f o rm as

" " -

c) P or fim , em u m a t erc eir a f as e, o que mud a é a pe rc epção d o

conjunto das formas . Mais d es l oca m en t o e n tre a p ercep ç ão t ri v i al

e a não t ri v i a l . P e lo contr á rio, po i s n essa fase ess as m esmas f or m a s

q u e par e cem tri viai s " s e ani m a m " co m uma v i da pr ó pr ia. O o bjet o dei x a de ser " ob jeti va m ente " pe r c ebid o, atr avés - d e suas silhueta s

o u Abschattungen, por q u e cada p e r cepção s i ng u l ar se o f erece por

i n t ei r o ao o l h a r , se m aspe c tos obscuro s ou dissimulados: uma ca -

ban a na pra i a de u ma t e l a de M a l év i tch não po s s u i um a pared e de

f u ndo, m as, a o mes mo t e m p o,

p a red e ( não ve m os a parede e, a o m e s mo te mpo , qu er e m o s vê - I a).

D o r av a n t e , c ada forma va i se in s er i r e m um a mulriplicidade

rual o b t i da p e l o de s loca me nto do n í v e l triv i al p ara o ní v e l perc ep - : ; '. 0 n ão tr i v ial .

v ir -

n ão s e po de fa l a r qu e lh e fal t e e s s a

Ra z ão Nô m a d e

21

Es t e t erc eir o ní ve l de percep ç ão , que p oder í amo s c ham a r de

" e s t ét i co " o u "ar tístico ", co mporta tr ês caracterí s ti ca s e ssen c i a i s. Em pr i meiro l ug a r, tri v ial e n ã o tri v ial co in cidem n esse ní ve l , m a s

de i xa m aberta es s a diferença . O o lhar vê muito b e m a p ai sag em

e l e o s vê

o bjetiva, as cas a s , as árvores, o s camponeses. N o entant o,

" t ransformados, cheios de forç a, como se uma inten s ifi c a ção da s

ormas e d a s cores tivesse s e prod u z ido por conta da coincid ê ncia

f

d

o t riv i al e do n ão t riv i al ( a e s t r u tur a e s c o n dida que agora é v i s í -

v

e l ) . E m s e gund o lu gar , a percepção tri v ial , a i nda que esteja pre-

.

sen t e, dei x a de s er p r egna nt e .

E l a passa para o últim o plano ,

e nqu a nto a s r e la ç õ es, qu e a nte s eram n ã o v i sívei s, c h egam a o pri -

m e iro p l ano . E, p or f im, a p e r c epçã o não s e dá m a i s como sim - pl es m e nte cogni t i va o u un i c a ment e se ns o r ia l . Tr a t a - se agora de

uma per c e pção de forças. Cos t umam os d i zer que um quadro

bem - s u cedido

d iría m os qu e é "fraca " ou que não prod u z nenhum " impacto"; t ra -

ta - se d e um a lin g u age m de fo r ças.

Porq u e a qui lo qu e to r na sing u lar essa mari n a de Turner , par a

é "poderos o" ; e de uma tel a que tenha fraca ssad o ,

a l é m

s~ u s " s . ignos" , é uma cert a qua l idade da força que em a n a da t e la . Essa q u alida de t ems L E J - sintens i dade s própria s, suas v e lo c i dades de cor e d e prof u n d idade . Ela po s sui , ao mesmo temp o, m o dul açõ e s infi n i t as da força q u e d e l a se emana , e uma singu l a rid ad e que fa z co m q u e se j a um Tur ner , e q ue dent r e as telas de Turner sej a essa a m ari n a e m que s t ão, e n ão u ma out r a.

De o nde v e m essa dup l a caracterís t ica d a forç a artí s t i c a? O que é uma lin g u agem da s f orças? E por q u e t oda obr a de arte é u m reservatór i o ines go t ável d e força s?

3. Re c o rdemos b r evemen t e (e s uma r i amente) o qu e Leibniz escrev e so bre as p equ e n as percepções, j á que a pe r c e p ção d e um qu adr o reve l a uma d inâmica de p e rcepções mínim as.

O prim e ir o n í ve l t ri vial remet e- nos a r e pre sent açõ e s e fo r ças m acr osc ó pi cas (melh or di z end o, a re presenta ç õ es que ab s or vem

de s u a com p osição , da organização de seu s e lemento s e de

22 R a z ão Nô m ad e

f or ças i mperceptí v ei s) . O r a , quando o o l har d escobr e as r e laç ões

o n exo d a o b ra , surg e um a esp é c i e

dissim u lad as q ue c o n s titu em

d e n u v e m de pe q uena s per c epções q ue pr i m e iro

impregna

en volve e d e p o i s

e t ransfo r m a a s for mas vis í vei s tr i viais ; no f i na l , qua ndo

o

quadro

é p ercebid o n a s in gul ar i dad e d e su a fo r ça , é aind a d e

bl

oc o s de pe q uena s p e r cep çõ e s que pr e c is am os .

um " i n v i s í ve l v i sí -

v e l " , à man e ira de Mer lea u - P onr y com re sp eit o a os t r a ços d e K lee ,

não

q ue é p o s s ív e l que o o lhar não cap tute , ma s qu e e le pr óp r io so fra

uma t r a nsformaçã o. E , so b re tud o, n ão p o dem os n o s fe ch ar n a ca - tegoria da " presença " feno me nol ó g i ca , es te invi síve l qu e a arte tor -

é a presença de a l g o vi s í v e l qu e o o l har ca pt ura n a forç a. Po r -

I s t o é , o que p e rmite d e fi nir a fo r ça c o m o

naria v i sí vel . Estamos d i ante de um outro tip o de fen ô men o .

C

o mo é sa bid o,

Leib ni z

car a~ ter iz a a s pe quen as pe r ce p -

çõ e s p e la aus ê nc ia de c o n s c iê nc ia de s i : e l as são p erc ep ç õ e s s em

a

percepção , m a s a comp a n ha d as

d e c o n s ci ê n cia .

P or n ã o te rem

c

o nsci ên cia d e si , são "ins en síveis " ou "i mperc e ptíveis " ,

ou seja,

inc o n sc iente s . I nc o n sci ent es porqu e m i c ro scó p icas ou p orque , s e

un i d a s u ma s à s o u t ra s, n ã o s e dei x a m d is t i n g u i r . O u a in d a p or -

que , se f raca s o u pou c o i nt ens a s,

di s t in ta de si mesmas. I\;

n ão ch ega m a te r um a p er ce p çã o

L e i b ni z g o s ta d e d a r m u i t os

se ap ag a e m n os s a con sci ê n c ia p or m e io d o h á bi t o e d a r epeti-

e xe m p l os: o bar ulh o d o mo i n ho

qu e

ção . O ba rulh o n ão d eixa de i mpr es s ion a r m e n os a n o ssa a udiçã o ,

m as

e n te . O u o ex empl o do bra d o da s o nda s d o m a r , co mp os to d e ruí -

dos m ú l tipl o s das peq u e n a s o nd as que f az e m p a rt e d e l e . O u vi m os

a p en as o br a d o da g r a n de on da , d a q u a l , e nt re t a nto,

co n sciê nci a s e a p r ee nd ê ss e mos tamb é m a s i m p r e ssõ es sen s í v e i s

m icr oscó pic as da i n f inidad e de ondas p e quena s, d as q ua is n ã o t e -

m o s uma c o n sc iên c ia disti n ta ou c o nsci ê ncia d o tod o .

As p eque na s p erc e p ç õ e s, escr ev e L eib ni z , são p e r cebidas " c on -

fus a men te e m sua s p a rtes e c laram e nte

n o s eu c o nju nto " . A p e r -

n ão o o uvimo s m a is - e le s e t o rnou uma pe rcepç ã o inc o nsci -

n ão ter í amo s

Ra zão Nômad e

2 .- )

c e p ç ã o confusa n ã o p o s sui e le m e n tos s u f i c ien t e s p a ra q u e

p

oss am os d e fi n i - I a,

a i nd a qu e p ossamos

di s t i n gu i-I a

das out ra s . A

i d é i a co n f u s a

nã o s e o p õe à id é i a c l a r a , ma s à id é i a di s t inta.

Há,

e

n tão ,

i d é ia s ( o u p e r ce p ç õ e s)

s i m u lta n ea men te

c l a ra s e co nfu s a s;

c

l aras p o rq u e

p o s s ue m

a o meno s

u m e l e m ento

q u e p er m ite

d i s -

" ring ui -la s

d

a s o u tr as,

m a s n ão e l eme nt os

s u f i c i e n tes

p a r a q u e s a i - ( caso da s

b a m o s

ún i c a s id é i as c lar as e d i s tin t as) .

o qu e e l a s c o nt ê m :

o qu e p e rm i t i r i a

d e f i n i - I as

A p erce p ção

d o b r a d o d a g r an d e

ond a é c l a ra e c o n f u sa;

c lara

po rq ue p od e mo s d i st i n g u i- I a

o n f u s a porqu e qu e a co mp õe m

c

n ão pode m o s (a qu a n t id a de,

l h os d a s ond as p e quen a s ) .

da p e rce p ç ã o

d e u m o u tro

ba r ulh o

sepa rar c l a r a m e nt e

os e l e m ento s

a i nte n s i dad e ,

a fo r m a

dos b a ru -

e

L

e i b ni z t a m b é m

d e s c r eve u ,

p o rém,

u m outro

t i p o d e p e qu e -

n as p erce p ções, s e m di f e re n c i á- I a s

p ri as ao r u ído d o m o inh o e d a s o n d as p e q u e n a s .

a

fu n ç ão d e p a ss ag e m

d

e m a ne ir a

n íti d a d aqu e l a s

a s se g ur am,

pr ó -

A l é m d e fo r m a r

ain da ,

s m acro p e rc e p ç ões ,

a s p e q u e na s pe r c e p ç õe s

entr e as du as ma c r o p e r c e pç ões .

a

C

om o

s e s a be, n a mô n a d a ,

n a qu a l s ó e x i s t em

ap e r c ep ções ,

perce p çõ e s e ap e t içõe s, e st as úl ti ma s m a rc am

o m ov i men to

de

t

r a n s i ç ão

e nt r e as p e rc e pçõ es.

E sse m ov im ento

é pr o voca d o

p or

um a f orç a , e s u a p e r c e p çã o

h

m e s m o qu a n do n ã o n o s a p e r ce b e mo s d e le . O p r in c í pi o

nu i d a d e

t ê n ci a d a s p e q u e n as p e r ce p ções.

é ga r a ntida p el as p e qu e n as percep ç ões :

d as p ercep ç ões ,

á um a

co nt i n u i d a d e

- p s i c o l ó g i c a ,

a b s olu t a no m ov i m ento

m as t a m b é m

m e t a fí s i c a

de co n t i -

- se a p ó i a n a e x i s -

I

ss o s i g n i f i c a

di z e r qu e p o d e m o s

r e un ir em um a o u t r a ca t ego -

r

c

co m o c o m pon ent e s

inter s t i c i a i s,

p e q u e n as p e r cep çõ es

i a as p e q u e n as

r o p e r c e p ç ão

p e r c ep çõ e s qu e g a r a n t e m

à o ut r a .

a p a s s a ge m

Nã o se t r a t a m a i s de pe q u e n as

d e uma m a - p erc e p çõe s ,

do br a d o d a gr an d e o n d a ,

m as d e p er c e p çõe s

evoca : i n f i n i t a s

de scr i t a s n os f e n ô m e n o s

q u e L e i b ni z

m a rc a m a t r a n s i ç ã o

e n t r e a v i g í l i a e o so n o ,

2

4

R azão Nô mad e

ent r e a c or d a est e n di da e a cord a r e laxa d a d o a r co . Entre as d uas

m ac r ope r cepções passamos p or um a in fin id a d e de estados int e r -

m ed iá r i os a os qu a i s c o r respo nde uma inf ini dad e d e perc ep ções infinit es imais .

E ssas pe qu ena s percepções d i fe r em d a s pr ec e d e n tes p orq u e

n ão c o m p õem n en hu ma m a c r o p er cep ção

niz as descreve no P ref iici o aos Novos e n sa i os s o b r e o entendimen to huma n o : "São e l a s [as p e quenas p er cep ções] qu e fo r m a m ess e não

s ei o q uê , es se s go s t o s , e ss a s imagen s ; da s q ual id ad e s d os s entid o s ,

c l aras no co nju nt o , ma s conf u sas nas p artes, essa s im p ressões q ue os corpos vizi nh os provocam em nós , q u e envo l vem o infinit o ,

essa l iga ç ã o qu e c a d a ser pos sui co m o r e s t o d o uni v e rso . Po de m os dizer q u e, por conse q üência de s sas p e q uen as percepções , o pr e - sente es t á pl e n o do fu t ur o e car r egado do pa s sado, que t u do é

(crO}lTIVOlCl. TICI.\lTCI., como diz i a H ipó cr ates), e q u e , n a menor d as

s ub s tân cia s , os ol h os tã o pene t r antes qu a nto os o lh os d e D eu s po - deriam ler toda a s ucessão das co i sas d o u nive r so. "

v i síve l . Ei s c omo L eib -

As pe q uenas percepções ass e g u r am t a m bém a co n tinu id ad e

en tr e a co n sc i ê nc ia e o inc onsc ie n t e , c o nt i nui d ade

percepções das m ônadas. Há infinitos gra u s de consciência po r- que há u m a infinidade de e stados i n term e di ári o s - d esde a qu e le das m ônad a s "to d as n u as", da M o nad ol ogia, n o qu a l a c ons ciên c ia

é cap t ura d a p o r u ma e sp é cie d e tu rb il hão e d e vertige m , a t é os es- tados de p e rcepção c lara e d i s tin ta q u e ex c l u em toda confusão .

Pode m os , então , co n side r a r do is t i po s d e p equ e na s p erc ep - ções : a ) as percepções in fin i tes i ma i s , i m p e r ceptív e is , v isto que são pequenas d emai s para serem perceb i da s . Temos um a ~ on s ciênci a subl i m i na r d e las, co m o a que l a qu e a co mpanh a o baru l ho d a s o n-

da s pe q ue n a s; b) a s peq u enas

c o nt i nui d ades apa r e n tes en t re as p erc ep çõe s. D e fato , a inda que a

que s tã o não s e j a t ra t a d a por Le i b n i z , n ão p o d e mo s r e duz i r esta ca -

t eg o ria à p r i me ira , em n ome do c o n t i nu um, cujo te c ido é f ormad o

n a esc a l a d a s

percepçõe s , qu e recobre m a s des-

\

Ra zã o Nô m ade

2 5

precisamente p e la s p e q uena s p e r ce p ções. M a s i sso r emet e a u m a

di

s cus s ão s obre o con tinuum n o ca mp o d a d o ut rin a l ei b nizia n a -

o

que não nos i ntere s s a no m o m ent o.

e ss a questã o, em todo ca so , p ara a l a r g ar a

noção de pequena percep ç ão, f a z endo com que el a não dep e nd a mais unicamente da difer e nça de escala. Dito de outra m a ne i ra ,

enquanto Leibniz não dist i ngue a percepção comum d a pequena percepção, graças à escala de grandeza que as separa (pr ovo cand o outras linhas dist i ntivas ) , tentaremos definir a percepçã o mínim a por sua natureza, muito d i ferente desta da macropercepçã o.

Tomemos um rosto e , sobre esse rosto, um sorriso . O so r riso se quer amistoso e, entretant o , percebemos nele um "não sei o quê" que nos revela exatam e nte o contrário: ele esconde uma a nt i -

paria profunda, mesmo uma hostilidade. T o davia , ap ena s um olhar penetrante captura o desloc a mento ent r e aquil o que o so r r i - so pretende exprimir e o que realmente exprime. Ess e de s loca- mento é percebido graças à s pequenas percepções: tr at a-se de um sorriso "impercepti ve lmente " h i p ó crita.

Uma análise s imple s most r aria que o deslocament o se estabe- lece entre o conre x to t hab i tual d a s linhas de rosto que a com p a - nham e s se sorriso e um n o v o conte x to criado p o r uma í nfim a mudança de um ou dois e le mentos ; mudança não sufic i entemen-

te grande para que a qualidade do sorriso se altere de m an eira per -

ceptível e já bastante e f ic a z para fa z er surgir uma dif e rença d e conte x~Q_ que perturbe ( " i mperc e ptiv e lmente " ) a p erc epção do

s o rriso "J '?ito de o utra f o r ma, as pe qu e nas p ercepçõe s na s cem de um deslocamento entr e d ois cont ex t o s : I com efeito, a s o m br a que nasceu nesse sorriso não rem e te a um o - utro sorriso qu e se d issimu -

laria por trás de uma apar ên ci a, m a s a uma ~iferença in t e r na su r -

gida na prÓpria_ J9

interna - que se dissolve em uma diferença entre doi s co nte x tos :

um, habitual , tornado v irtu a l; o outro, no v o , tornad o a t u al- nã o

4. Aproveitemo s

l ma d o s orri s o sincero. O rá , ess a diferen ça

t e m fo rma v is í vel , j á que essa " sombr a " de s orriso pa ração , um a d ife r e n ç a, u m v azio .

é a p enas uma se-

E nt retant o , " p e rc e bemos " al guma coi s a que se prende ao s or -

ri s o v i sível . C ham e m o -Ia de o con t o rn o d e u m vazi o .

Se t o m a rmos o exe mp l o de uma pa l avra que repentinamente acumu l a pequenas perc e p ç ões q u e lhe invertem o sent i do, tería - mos um d e slocamento en t re doi s conte x tos (de entonações, de

g e stos , d e so n s , m es m o d e s i t uaçõe s globais de enuncia ç ão ) e o b t e - ríamo s p e quenas per cepções de sil ê nci o , de separações entre as pa- la vr a s o u as frases , ou entr e os con tex tos . A sombra imperceptí ve l

( e , no e nt a nto , pe r cebida ), l ançad a s o br e essa palavra , pode r ia ser chamada de o cont o r no do s i l ê nc i o .

O que supõe que capturaríamos mais do que u ma seqüência

i s o lada de peq u enas percep çõ e s; capturaríamos quase uma forma

( u m "co ntorno"). Precisaríamos dizer que se trata , pro v isoriamen- te , da f o rma de uma ausência.

C omo di z Le i bniz , as p equena s percepções são " essas impres -

' ,'

sõ e s d os co rpo s v i z inhos q u e envolvem o infinito ". Elas compõ e m

nu v e ns o u "po ei r as" (ex pr e s s ão d e Le ibn iz) . Preferimo s chamar es-

a s po e i r a s d e atrnosjeras. Poi s a s p equenas percepçõe s fornecem imp res sõ e s c o n fusas mas g lobais , em constante movimento . E, antes d e com p or macrope r cepções - antes que a s miríades de pig - mento s de a marelo e ' de a zul que se ag it am se misturem para definir o v erde - , há uma espécie de tendência anunciada e pres -

s

t::

s entid a n o turbilhão d a s p e q u enas

E ssa tend ê nc i a é, n a ve rdade , um a força . Ela possui um a in -

t ens id a de e um a d i r eç ã o . P ercebem o s a naturez a da força n a at-

mo sfe ra que já anunci a o que v ai s e mostrar do pont o de v ista da

m acro p ercepção. No e nt an to, em su a indeterrninaç ã o , a atmo s fe-

r aj á poss ui um v e tar , um quant um int e nsivo, um tônus .

percepções : is s o é a atmosfera ,

P r ecisaríamos diz er

que a atmosfera desenha a forma da força .

O "não se i o quê " que c a pturam os

mosf era pr eci s a , a f or m a de uma fo r ça que atra v ess a as pequ e na s

no sorriso ami s toso é uma at -

'

p e r c e p ções . E se a so mb ra do so rri so e sb oça o co n torno

zi o, é ju s ta m ent e a forma d esse c on t o rn o

d a f o r ça.

d e u m va -

qu e n os re m e t e à f o r ma

5. B i n s w ang e r e Te ll e nbach, d e po i s D e l e u ze

e G uatt a ri , se i n-

te ress a ram p e la noção d e a tmo sf e ra . Pr ec i semos, e n tão , a l g u n s as-

p ec tos d e t a l n o ç ão .

Se a atm os fera é fei ta d e t e nsõ es e n tre m i cro p e rcep çõe s é p o r -

de a f e to qu e abr em os cor po s. Na

ve r da d e , é o co rp o q u e "perce b e" a a tm os fer a , s ua de n sida d e, s u a

qu e resu l ta d e in vest i m e nt os

p or o s i dade, s u a r ar e fa ç ão, se u te o r de aco lh i m e n to o u d e ex c l u são,

s u a v e loc id a d e d e t r ansfor m ação, s u a ru gos id ad e o u , às vezes, seu

av e lud a do q ue n os a t ra i c o m o u ma d o en ça . Se o c o r p o per c e b e to -

d

as e ssas mo d ul a ções da fo r ça é po r q u e es t á a b er t o, o u sej a , s u as

p

ró pr i a s forças en t r ar am e m c o n ta to com a s f or ças d a at mo s f e ra .

P o i s a at mo s f era ind u z à abe rtu r a dos c o rpos , co n vi d a nd o à o sr no -

se. E l a co n st itui um m ei o q u e i mpr eg n a i me di a tam e nt e

qu e brando a ba r re i ra qu e sep a r a o i nt e r io r do ex t e r i o r , um c orpo de outr o co r po , o s co r pos e as co i s as .

o s corpos ,

E is o q u e a disti n gue n i tidam e n te

do conte xto q u e é v i s í ve l e d e s i gn o s , que é sern i o ti zá - ela se e s te nd e e m u m c o n -

r ed u tí ve l a u m c o nju n t o d e r e l a ç ões o u

ve l . A a t mo s f e r a é in f r a - s emi ó t ica ,

ti n uu m. C o mpr e e nd e mo s , en tã o , q ue o ínfi m o d esl ocame nt o d os

c o ntextos p o d e pro du z i r pe qu e n as pe r ce p ções: a tr av é s da f r a tur a ,

as s i m a b e r t a , exal a m fo r ças ra p i d a m e nt e captada s p e l a s forças do

c orp o . Há toda u ma

di nâm i ca d a as ma s e d o exter i or e do i n terior

("um in te ri or c o e x t e n sivo a o ex te rio r " , di z D e l e u ze) : a reve r são

do

es p a ç o i n t eri o r para a s u pe r fíc ie

da p e l e, a d i l a ta ção d o e s paço

do

c

o r po (v i rtu a l , p ro l o n gan d o o s lim i t es d o co rp o p ara a l é m da

p

e l e) , o i n ve s tim en to e a qu as e-in s cri ç ão

d os afeto s n a s c o i s as e

n

os cor pos.

A q u a s e-i n scriçào

o u , ma i s pre c i s am e n t e ,

a c ri a ção d e

um m e i o - ent re a s co i sas e o s co r pos q u e pe rte ncem a e le, já q ue a at mo sfera é a é rea . O s c o r po s e s t ã o s ern i - abe r tos na a tmo s fe r a . O

/

2

8

R azã o N ôm a d e

i

n v est i me nto afe ti v o não se a p l ic a e xc l u s i v a mente a um o b j et o de-

t

e r minado : " está n o a r " . (M a s u ma at mo s fera p o de se f orm a r e n -

t

r e d o i s co r pos, c omo

n o e nc an to , no c a r i s ma , na s e d u ç ão , na

i

nflu ê n c i a d e manei r a g e r a l , o u n a s i m p l es a m i z a de . M a s então é

p or qu e ess e s corp o s se d iss i p ar a m n as r nu l t i pli c id a de s d e " par t í c u -

las" ou singu l a rida de s q u e co n s t i tu e m agora a a tmo s f era . A d o ra -

_ mos se r a fet ados em m i l pon tos .)

Ago r a p o d e mos co mp r ee nder o que ac o n tece q ua nd o, na p er -

c e pção d e um quad ro , de s c ob ri m o s as - es t r utu r as e s c o ndida s s ob

a s fo rm as t r ivia i s. D e r epen t e, um des l o ca men to s e est a b e le c e en -

t r e e s sas f orm as e o s eu no v o c on t e x to (q u e nã o é mai s o d a p aisa-

gem s i mp le sm e n t e

corp o s e m outr o s e s pa ç o s e o utra s r e l açõe s (que permanecem , no

e n ta nt o , q u a se q ue i nalteradas) : da se par aç ão entr e os doi s con tex -

t os j orra m in f in i ta s p e q u e n a s p er ce p çõe s que c o mpõ e m uma ar :

m o sf era vibrátil. O q u adr o s e e nc heu de vi d a . C apturamo s s u a

( q u e

po t ênci a p rec i s a, a for ma d e s ua s f o rç a s , is to é , a curv a tura

v i s í v el ) . E i s as mesmas casas e o s m esmos

n

ã o p o ssu i t raçado f ig ural v i s í v e l ) que o m ovi mento d as p eque n as

p

e rce pções e sb o ç a n a at m o s fe ra.

P

o d e ríam os c o nt in f i ar a des c r i ção t e n t a nd o

ded i c a r à

c

o mp l e xi dad e

d a pe rcepçã o art í s ti c a . P o deríamo s

nos m os tra r , por

e

x e m p l o , c o m o na t er ce i r a fa s e , na fas e e m q ue c ess a o de s lo c a -

m

e n t o e n tr e o s co nt e x tos, a f o rm a d a s for ça s s e t o rna f orça da s f or -

m

a s ; e co m o ess a i n v e rsão j a mai s s e com p leta , como a forç a

das

forma s i nv e rte o s eu g i ro , d e novo e n ec es sa riam e n t e , n a f o rma d as

o r ç a s , r e c on st i t uind o a a t m o s f e r a e o d e s l oc am ento e n t re O tri vi a l

f

e

o nã o t r i v i a l ; c om o ess e m o v imen t o d e os c i l ação s e ac e l e ra, tor-

n

a n do - s e qua se ins ta ntâne o ,

e c om o se qu e bra ou se e s t ab ili z a de -

f in i ti va me nte ;

com o e s p ect a d or

os m ose " materi a l ": o a fet o d o m a t e r i a l se m is tur a ao a f e to i n vest i -

( o q u e D u c h amp j á h a v ia d e s c r ito co mo uma

como a capt u r a d a a t m o s f er a indu z a u m a o s m os e

d o p e l o a rt i st a ou p e l o "obs er v ador " ) ; e com o e s s a osm os e produz

R

a z ã o Nô mad e

2 9

um d ev i r -for m a i nt e n si v o - i sso (

uma fo r ça.

o a arn r c a _C . ê ~

- : : : :

- : -: - ~; : , : :

Pr e ferimo s e vocar um o ut ro p r o bl em a: s e a per cep çã o da OO f

d

e a rt e é an tes d e t ud o c ap t urada p e lo cont orno d e um v azio ou

p

e l o c o n t orn o d e um s il ê nc i o

- de o nde j orra a for m a s i n gu l ar d e

u

m a f o r ç a - : - ' ent ã o é pr eciso

e nt e nd e r e ss a os m ose e s tética ( que .

chama rí amos t radicional m en t e de " comunicaçã o " ) c o m o t r a n s fe-

r ê ncia e mistura de v a z io s .

Primeiramente , qu er em os p re cisar que a form a d e um a f o rça sup õ e o contorno de um v a z io . P o r não pos s uir traçad o f i gura l , e l a

c o nstitui a qua l idad e in ten s iv a p ró pri a à atmosfer a d o qu a dr o. E l a não d e limita um contorn o (nem s e encontra encerr a d a n e le ). Pe l o

cont rário , em seu espaç o s ingular, não encontra bord a s (por que há s empre o infinito na p er cepç ão estética), ain d a qu e s ej a s em pre limitad a a partir do e x teri o r (p e l o objeto que e st á no e spaço ob j e - ti v o ; e p e la s figuras t r i v iai s que n ão dei x am de s e r vistas) . Se a re s - peito da forma trat a - se ag or a de u m a f o rça e não de uma figura, é

p o rque e ntr e a nã o -d e l imitação i n t e r n ad a a t m osfer a e s eu s lim i te s

e x t e rn os s e e s tende u ma fa ixa v a z i a, u m a se p aração n ão v isí v e l : o

i n t erva lo que ma r c a a a ut o no m ia

su i um a " f orm a " . O int e r v a lo é o

de um a di s tância ( qu e d es t a ca a a t m o s f era

s ua pe rcepção tri v ial ). É e s s e v azio qu e ab r e t en s õ e s qu e p ovoa m a

pa r a do xa l d e um a força q u e pos -

co nt or no do v a z i o , qu e

é o v azio

inten s i va do q u adr o de

a tmo s fera ; e é po r que e l e sep a r a a fo r ça das for mas t ri v ia i s e d a s r e -

present açõ es

di sso l ve nd o a e n e r g i a) qu e t a l f o rç a tem uma forma , a f orma de

um v a zio de formas ( qu e p a rte da se paração e ntre do is c o n te x t o s) . D aí, então , a intensidad e p u r a , co n c entrada, a m p lifica d a , " s a t u r a -

da ",

" f or ma " .

d a força que c o nf e r e t o d a a pregnância perce p r iv a à s u a

( que p o ss u em um po der entr ó pico , absorv end o

e

Maso qu e é esse v a z i o? É pr e cis o di z er qu e esse v az i o -

um a

di f erença, um int e r v al o , algo irr epres entado - é o q ue se a cha " i n s -

30 R azã o Nô made

/

crito" na obra co m o não - inscrição . É o l ug ar de um a não -i ns-

crição.

O que é uma não - in s cri ç ão? Tal id é ia vem d e F erenczi , e s ere -

m os ba s t ant e brev e s a o e vocá - I a . Há t ra uma s p s íquico s tã o in -

t e n s o s que p r o v oc a m

consciênci a e do i n cons c ient e. o traum a n ã o se inscrev e . No seu lu- .

gar su r g e u m " branco p síqu i c o " . De outra m a neir a , no que d i z re s - :

pe i I O à u ; nsfe r ê n c ia

ocupo u dess a noçã o de " b ra nc o psíquico " . A d i fic u l d ade do ana- lis ta , i n si s t e Ferenc z i , s urge da ausênc i a d e qualquer t raço do trau -

ma , a t é me s mo no inc o nsci e n t e .

é p o ssível le -

vá -Ia pa ra outros domínios . P or ex e mplo , ao próprio c e r ne da v i da soc i a l . O horror das im a ge ns dos ma ss acr e s , v isto s na tele v isão , ra -

r am e n te se i n sc rev e m - ain da que e la s nã o dei x em de ter s eu s efei -

tos : É po r q u e , c uri osament e , e l a s sider a m , no se n t ido de F erenczi ,

u l t r a p ass a m o l imiar atual d e t o le r ância ao sofrime n to, mas tam- bé m por q u e as condiç õ es m i di á tic a s d e comunicação das imagens pro v o cam uma an es t e sia dia nt e das im a gens d o sofr i mento do s out r o s. Ass istimos a e l a s, e a quilo que deveríamos e x pe r imentar

n ã o é ma i s experimen t ado . N ão é m ais o trauma o q ue si dera, so -

m o s nós que já estamos, d e ante m ã o , siderad os e a nestesiados, im.uuzados c o ntra o s traumas e a violênc i a. Tor n a m o - n o s bran -

c os ps íquic os ; o u m e l hor , p r aias cada v ez mais e x tensas de bran c os psíq u i c os in va dem no s s a c o n s ci ên c i a e n os so inconsciente .

u m e f eito de s id e ração. T ud o se a paga da .

e à c o n t ratransferê n cia,

P i e r re F é l ida

T ransforma n do - se es s a i déia de n ã o-i n s c rição,

T r a t a - s e de um f a to ba n a l e ba s tante ó bv i o . Po dería mos p artir

d e p e quenos f e nômenos t ã o s u t i s quant o aqu e l e q u e W alter Ben -

a m i n descrev i a quand o , a o fa l ar do s t ranspo r tes pú bl ic o s, no t ava

que, s em dúvida a l guma, o s ser e s h u m a nos jama is conseguiàm se m a n t er s ent a d o s um e m f ace do outr o , s em se fala r , p o r mui t o te mpo. O n ã o - evento , a e vap oração do s e n t id o , a não - i n s criç ã o s e to r n a r am c onstantes na vi da co t idiana d o hom e m oci de nt a l .

j

R

a zão N ô made

31

Voltemos à a r te. O q u e é , e n t ã o, e s s e lu gar v az io cu j a f o rma da força, graças às pequen as p e r ce p ç õ e s , comp õe um " c on t o rn o " : O

que é o conto r no

inscrição. E isso não signi fi ca que a ob r a d e a r te i ns cr e v a o q u e foi apagado como inscriçã o , m as qu e e la inscre v e o l u g a r perdi d o d a não-inscrição.

A arte inscreve o lugar da não-inscrição, ab r e- o , ce r ca- o e o

define. O que nos toca em uma tragédia de Sófo c le s nã o é a no ssa

" i dentificação" com os p e rsonag e ns, mas a a b ertura , em nós, d e

múl t iplos possíveis (que eventualmente con d uze m a u m d e- vir-personagem) . (Em p re g amos " p ossível" aq u i em um s e n t ido l i- geiramente diferente do "v irtual " de leuzean o; em to d o c a so , n o sentido de um devir-outr o p rópr i o à singular idad e . )

do v a zi o o u d o si l en cio? É o lu g ar d a nã o -

O lugar dess e s possív ei s, o mo vi mento que p e rm i t i r á os d e vi -

res-outro reais, traça seu con torno : e i s a i ns c ri çã o do lu ga r d a não-inscrição. En tão, a pe ç a de S ófocles não é m a i s d o que o jo g o das inscrições possíveis , o u d os múltiplos de v ires-out ro q u e se d e s - dobram a partir desse l u g a r.

Então, o qu e u ma o b r a d e arte ap resen t a d e in v i sível? N ada que não vejamo s . N em a ausên ci a do visível , nem m e smo sua

não-inscrição . A e xt r [Í n a p resença p erceptiva da s form a s , o re le vo

das cores , a p len i tud e

da s superfíc i e s e dos vol umes ex tr aem s u a

pregnância do m o viment o i nvisí v el d e forças q ue inscr e v em um branco (a não-in s crição). P ois esse l ugar nã o é o ne gativo d e u m território visíve l , determi n áv e l , m a s o es p aç o pos iti vo "d e senh a - do" p or f o rças e d o q u al e l as em a n a m . O br ilho i ntenso e ex tr aor -

dinário das cores de B o n nard v em d e u m m ovim ent o que n os faz

entrar n o quad r o e nquant o ele entra em n ós , gerand o n o sso s p en -

samentos

e n o ssas em o çõe s. Gr a ç a s à sua po tê nci a , e le n os obrig a a

de s cobrir possívei s insuspeitado s , s u sc itand o movime n to s de e s-

paço que perturbam noss o conhec i men t o e nossa v id a .

Em suma, a o insc r e v er o lug ar da não-inscrição , nã o s e trat a

de p reencher um v azi o ou de traç ar fronteira s pa ra a q u ilo q ue nã o

32 R azão Nô m a d e

as possu i, o u a ind a de definir o in def in ido, m as d e t raçar um pla -

n

o de m ovi m e n to;

n ão um a s up e r f í c i e d e i nscr i ção, mas a área de

u

ma ci r c ul ação inf i n ita de fo rça s , em qu e o p ossível se reú n e ao i n -

init o .

f