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Marcha para a liberdade: dificuldades e ensinamentos Uma análise de Êxodo 13,17-18,27 1

Anderson Francisco Faenello 2

Ao tratar o tema da saída do povo hebreu da terra do Egito, principalmente no que

confere às dificuldades e ensinamentos da caminhada deste povo rumo à terra prometida,

“terra onde corre leite e mel” (Ex 3,8), pensamos em fazê-lo separadamente, tratando por

partes as dificuldades e os ensinamentos. Didaticamente o texto ganharia uma estrutura

melhor, mas, em termos de conteúdo, provavelmente perderia. Dificuldades e ensinamentos

são temas intrínsecos. Os ensinamentos surgem nas dificuldades. As dificuldades da

caminhada pelo deserto vão mostrando, ensinando, quais devem ser os rumos e as bases da

sociedade igualitária a ser construída na terra prometida. Estes temas, aqui, seguem uma

dinâmica de complementação, por isso devem ser trabalhados univocamente.

A estrutura literária da marcha do povo em busca da liberdade, com suas dificuldades

e ensinamentos, é concêntrica, conforme o esquema:

a)

Ataque Egípcio (14,1-31);

b)

A falta de água (15,22-27);

c)

A falta de alimentos (16,1-36);

b)

A falta de água (17,1-7);

a)

Ataque surpresa dos Amalecitas (17,8-16).

A

trajetória é marcada por cinco perigos: dois ataques, egípcio e amalecita; falta de

água, também por duas vezes; e pelo problema central da falta de alimentos. Todos estes

problemas são marcados pelo murmúrio do povo, se não de todos, ao menos por uma parte

dele. Um povo que tem dificuldade em compreender o projeto da libertação e põe Javé à

prova sempre que um novo problema surge.

I - INTRODUÇÃO (13,17-22)

Esta pequena perícope apresenta-se como uma breve introdução. Narra como se deu

a saída do povo do Egito: marchando pelo caminho mais longo. O caminho mais curto da

1 Destacando a leitura, o estudo e a contemplação da Sagrada Escritura, a Igreja do Brasil há 41 anos celebra setembro como o mês da Bíblia. Para este ano, o texto proposto para estudo e aprofundamento é Ex 15,22-18,27. Contemplando a temática proposta, propomo-nos a investigar “as dificuldades e ensinamentos” presentes na caminhada do povo de Deus rumo à terra prometida. Para isso, iniciamos nossa análise ainda no versículo 17 do capítulo 13, deixando-a mais completa. 2 Seminarista da Diocese de Erexim; estudante do 6º semestre de Teologia do Itepa.

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saída do Egito para a entrada na Palestina deveria ser pela costa, entretanto os fatos da tradição contradizem esta tese. Na saída do povo do Egito “Deus não o guiou pelo caminho da Palestina”, mas, longe disso, “fez o povo dar uma volta pelo deserto até o mar vermelho” (13,17-18). O rodeio assegurou a perseverança dos israelitas. Evitou que, se atacados, se arrependessem e voltassem para o Egito.

O povo saiu do Egito carregando sua história, seu passado, representados nos ossos

de José. Moisés, fazendo cumprir o juramento que havia feito, carregou consigo os ossos de José. José foi levado até a terra prometida para dela tomar posse em morte, já que não em vida. A terra do descanso é Canaã e não o Egito.

A presença de Javé junto a seu povo é expressada na “coluna de nuvem” e na

“coluna de fogo”. De dia a coluna de nuvem guiava o povo, não se afastando dele e, à noite, era iluminado pela coluna de fogo que, como a de nuvem para o dia, não se afastava do povo

à noite. O que os garantia caminhada contínua: de dia e de noite. Estes elementos, coluna de

nuvem e de fogo, significam a presença constante do Senhor e a sua guia concreta em cada caso. O que nos faz ver que o projeto do êxodo é um projeto de Javé. Javé quer e deseja o povo liberto, mas é o povo quem precisa redescobrir-se em estado de libertação. Deste modo,

o deserto é o lugar onde o povo deve aprender e amadurecer a vida em liberdade.

II - O ATAQUE EGÍPCIO E A PASSAGEM DO MAR VERMELHO (14,1-31)

A completa conquista da libertação nunca se apresenta como tarefa fácil. Todo o

capítulo 14 apresenta esta dificuldade diante do opressor que não se conforma em perder seus

servos. Assim, o primeiro grande perigo a que enfrenta o povo liberto, mesmo antes de alcançar o deserto, é o ataque do exército egípcio buscando, com isso, impedir a sua saída definitiva. Há, aqui, dois elementos importantes. Por um lado, o rei, que não se sente bem sem os oprimidos, seus escravos, e exclama: “o que é que nós fizemos? Deixamos partir nossos escravos israelitas?” (14,5). E parte em perseguição, para retê-los ainda como escravos. Precisa deles. Precisa de seus serviços. Sem isso não é o grande faraó do Egito. Por outro lado, acontece algo notável no coração dos hebreus. Mesmo Javé lhes dando muitas garantias (simbolizadas nas palavras e na mão orientadora de Deus, bem como em sua presença constante por meio da nuvem e do fogo), o povo, quando o perigo se aproxima, permite o assombro do medo e do fracasso. Deixa escapar esta murmuração contra seu líder: “Será que não havia sepulturas lá no Egito? Você nos trouxe ao deserto para morrermos! Por que nos tratou assim, tirando-nos do Egito? Não é isto que nós dizíamos a você lá no Egito: ‘Deixe-

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nos em paz, para que sirvamos aos egípcios’? O que é melhor para nós? Servir aos egípcios ou morrer no deserto?” (14,11-12). Conforme BALANCIN e STORNIOLO, o povo faz uma acusação grave,

Acusa Moisés, seu líder, de tê-lo conduzido para a morte e não para a vida. A escravidão acomoda, porque não implica em perigos e riscos, desde que se obedeça. A liberdade, porém, acarreta desacomodação, responsabilidade e riscos. O maior perigo é o povo não assumir as responsabilidades que decorrem de sua própria libertação (BALANCIN & STORNIOLO. Como ler o livro do Êxodo, 1990, p. 49).

A maior luta que se trava é em favor da liberdade recém-conquistada. Como mantê- la, já que diante do primeiro obstáculo, a aproximação do exército egípcio, o povo quer voltar atrás, preferindo confortar-se com a escravidão? Moisés busca encorajá-los, dizendo: “não tenham medo. Fiquem firmes, e verão o que Javé fará hoje para salvar vocês. Nunca mais vocês verão os egípcios, como estão vendo hoje” (14,13). As palavras de Moisés mostram que Deus é o aliado que dá eficácia à luta do povo. Javé, então, dá provas de sua força e de seu poder salvífico. Ordena para que os filhos de Israel avancem e para que Moisés “erga a vara, estenda a mão sobre o mar e divida-o pelo meio para que os filhos de Israel possam atravessar a pé enxuto” (14,16). Assim feito, todo o Israel atravessou a pé enxuto e os egípcios, na perseguição, entraram mar a dentro com todo seu exército até que, por ordem de Javé, Moisés estendeu a mão sobre o mar, e as águas se voltaram contra os egípcios, seus carros e cavaleiros (14,21-28). “Os filhos de Israel, porém, passaram pelo meio do mar a pé enxuto, enquanto as águas se erguiam em forma de muralhas, à direita e à esquerda” (14,29). A passagem do mar vermelho representa, não apenas o deslocamento de uma margem à outra, mas traça uma linha divisória entre o mundo da opressão e o mundo da libertação. O plano de libertação corre risco de ser cooptado ou sufocado pelos antigos opressores. Javé, porém, não os deixa desamparados. Age em favor da libertação e também impede que o opressor reconduza os libertados à escravidão. Ainda que paradoxal, este episódio tem profunda motivação, como conclui Croatto:

A conscientização prévia de um processo libertador, e que o põe em movimento, nunca é plena. Só o próprio acontecimento revela todo o seu “sentido”. O exemplo do êxodo é muito significativo. Por isso, o redator sublinha, no final, a atitude de segurança a partir do Acontecimento: “Viu Israel o grande feito operado pelo Senhor contra os egípcios, e temeu o

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Senhor, e acreditou nele e no seu servo Moisés” (Ex 14,31) (CROATTO, 1981, p. 61).

2.1 – O canto triunfal (15,1-21)

O relato da vitória do povo de Israel contra o exército egípcio é seguido pelo hino

que “celebra a Iahweh como o guerreiro que conduziu Israel à vitória no mar, e canta a derrota dos reis que habitavam e governavam a terra de Canaã” (PIXLEY, 1987, p. 110). Não temos condições de fazer longa e profunda análise sobre este hino. Parece-nos, contudo, que se trata de uma forma de louvor que expressa o sentido do grande acontecimento da vitória contra os egípcios e da passagem do mar. É uma ação de graças que, por assim ser, é mais profunda que a súplica, o pedido. O pedido, carregado de desejos, apresenta-se, às vezes, como ilusório. Já o agradecimento, por ser do fato, de algo acontecido, revela-se pleno de sentido. Por isso este cântico evoca Javé como o autor da libertação:

“Vou cantar a Javé, pois sua vitória é sublime:

ele atirou no mar carros e cavaleiros. Javé é minha força e meu canto, ele foi a minha salvação. Ele é o meu Deus: eu o louvarei. Javé é guerreiro, seu nome é Javé. Ele atirou no mar os carros

e a tropa do Faraó.

afogou no mar Vermelho

a elite das tropas:

as ondas os cobriram,

e eles afundaram como pedras” (15,1-5).

O povo, que diante do perigo murmurou contra Javé, desacreditando-o, agora o louva

como o maior, o Magnífico, o autor de maravilhas. “Qual Deus é como tu, Javé? Quem é Santo como tu, ó Magnífico, terrível em proezas, autor de maravilhas?” (15,11). Javé é proclamado rei eterno, pois “Javé reina sempre e eternamente” (15,18). Compreender o projeto do êxodo é compreender Javé como o único Deus, o único rei, o autor de todas as maravilhas.

III – A FALTA DE ÁGUA (15,22-27)

O segundo perigo enfrentado pelos filhos de Israel é a falta de água. O povo partiu do

mar Vermelho em direção ao deserto de Sur. Caminharam três dias sem encontrar água, quando encontraram, em Mara, não puderam beber porque era amarga. Então o povo

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murmurou contra Moisés, dizendo: “o que vamos beber?” (15,24). Seguindo orientação de Javé, Moisés atirou na água um tipo de planta que tornou a água doce.

A água é um elemento vital de primeira instância. A falta de água compromete a

vida. Água e vida possuem, portanto, íntima relação. Mas, se recordarmos a situação dos filhos de Israel diante do sistema opressor do Egito, a água da vida se havia transformado em fonte de morte, escravidão, subjugo, opressão, exploração. No deserto, na condição difícil de um povo que luta pela libertação, a água amarga, de morte, é transformada em água doce, em água de vida. Mas o povo, diante do perigo da escassez de água, “murmurou”. Não é de se estranhar que alguém que esteja há três dias no deserto passando sede se rebele contra seus líderes (Javé e Moisés), que não tem outra resposta aceitável a não ser esta: encontrar água para o povo. Imediatamente Javé aponta a Moisés a maneira de tornar a água de Mara potável, resolvendo o problema da sede e da murmuração. Tudo resolvido? Sim e não. Há um problema real, ao qual os líderes resolvem, não permitindo que o povo desanime e acabe desacreditando no projeto da libertação. Mas há também um problema não resolvido: a murmuração mostra que o povo ainda não assumiu a condição de povo livre. Para isso tem muito a aprender e a amadurecer.

IV – A FALTA DE ALIMENTOS (16,1-35)

A falta de alimentos apresenta-se como o problema central da marcha do povo pela

libertação. O problema da fome é também um problema de primeira ordem, uma necessidade

básica. Sentindo fome, o povo novamente se volta contra seus líderes: “era melhor termos sido mortos pela mão de Javé na terra do Egito, onde estávamos sentados junto à panela de carne, comendo pão com fartura. Vocês nos trouxeram a este deserto para fazer toda esta multidão morrer de fome!” (16,3) 3 .

O povo prefere o lugar da escravidão e da morte ao projeto de Javé, que é de

libertação voltada à vida. Diante das dificuldades, a grande tentação é trair o projeto de libertação e renegar a liberdade já conquistada. Mas há certa justificativa para esta atitude:

dificuldade em dar o passo de deixar para trás as velhas estruturas e construir as novas, como aponta Pixley:

3 Cabe considerar que a afirmação de que a terra da escravidão, terra do Egito, era o lugar “onde estávamos sentados junto à panela de carne, comendo pão com fartura”, é, conforme Pixley, “em primeiro lugar, mentira. Em nenhum país da Antiguidade os camponeses comiam carne nas jornadas de trabalho forçado, exceto em poucas ocasiões de festa. Em segundo lugar, é má intenção recordar o pão do Egito e esquecer-se dos duros trabalhos que provocaram gemidos e precisamente do plano de sair da terra que mana leite e mel” (PIXLEY, 1987, p. 117).

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Eis que o povo, que vencera o tirano para ganhar o direito de construir seu próprio projeto, não tem agora ânimo para agüentar os sacrifícios da passagem para a nova sociedade! No Egito, a vida era dura, mas a estrutura de produção e de circulação de alimentos estava bem estabelecida, de forma que relativamente não havia escassez. Agora Israel se encontra em situação onde ficaram para trás as velhas estruturas e ainda não pôde construir as novas. E daí resulta o perigo da fome. É natural que nesta situação haja a saudade do antigo, se não por ser bom, pelo menos por ser conhecido (PIXLEY, 1987, p. 116).

Javé, tido como aquele que tirou Israel da casa da Escravidão, o Egito, recebe agora a acusação de que seu projeto é um projeto de morte. “Nos trouxeram a este deserto para fazer toda esta multidão morrer de fome!” (16,3). A murmuração no deserto, diante da falta de alimentos, revela, não só a dificuldade em deixar para trás as velhas estruturas, como aponta Pixley, mas também um sentimento de má vontade para com o projeto inteiro da salvação. Javé, deixando de dar atenção à má vontade expressa na murmuração do povo, intervém para resolver o problema da fome: “Javé disse a Moisés: ‘Farei chover pão do céu para vocês: o povo sairá para recolher a porção de cada dia, para que eu o experimente e veja se ele observa a minha lei, ou não” (16,4). Javé responde à necessidade real do povo, mas lhe põe uma condição: a colheita do maná deve obedecer a uma distribuição igualitária. As murmurações do povo chegaram até Javé, e Javé falou a Moisés: “Eu escutei as murmurações dos filhos de Israel. Diga-lhes que comerão carne à tarde e, pela manhã, se fartarão de pão. Assim ficarão sabendo que eu sou Javé seu Deus” (16,12). E assim aconteceu, pela manhã, depois de ter evaporado a fina camada de orvalho que se havia formado, apareceram, cobrindo o deserto, pequenos flocos. Vendo, e não sabendo do que se tratava, os filhos de Israel perguntaram: “Que é isso?” (16,15). Respondeu Moisés:

“Isso é o pão que Javé lhes dá para comer. E são estas as ordens de Javé:

cada um recolha o quanto lhe basta para comer: quatro litros e meio por pessoa, conforme o número de pessoas que se acham na sua tenda”. Os filhos de Israel assim fizeram: uns recolheram mais, outros menos. Quando mediram as quantias, não sobrava para quem havia recolhido mais, nem faltava para quem havia recolhido menos. Cada um havia recolhido o que podia comer (16,16-17).

Na nova proposta de sociedade de Javé, todos têm o mesmo direito aos bens, de tal modo que não faltem nem sobrem a ninguém. Em vista disso, o acúmulo é proibido, “Moisés lhes disse também: ‘Ninguém guarde para a manhã seguinte’” (16,19), pois o acúmulo pode gerar senso de posse e desigualdade. Em outros termos, o acúmulo gera injustiça e exclusão.

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Sem acúmulo todos teriam o suficiente, não faltaria nada a ninguém. Entretanto, o espírito de acumulação ainda estava presente: alguns acumularam para o dia seguinte, mas o que foi acumulado “criou vermes e apodreceu” (16,20). Isso demonstra que um espírito de posse e acumulação não faz sentido numa sociedade que pretenda ser igualitária, participativa, uma sociedade onde tudo deva ser fraternalmente partilhado.

A única exceção para um pequeno acúmulo é em vista do dia de sábado, garantido

por Javé como o dia do descanso. “E Moisés falou: ‘é exatamente isso que Javé ordenou:

amanhã é sábado, um descanso completo reservado a Javé. Cozinhem o que quiserem cozinhar e fervam o que quiserem ferver; separem o que sobrar e reservem para o dia seguinte’” (16,23). Não se trata, porém, de um acúmulo propriamente dito, pois no sábado o

maná não cai. Neste fato há um sentido que vai além: o povo livre tem direito ao descanso, e este descanso é traduzido para o âmbito da vivência pessoal, social, comunitária e familiar.

O sábado marca a passagem de uma vida escrava para uma vida liberta: todos têm

direito ao descanso, e o dia de Javé é o dia em que o povo se refaz dentro do projeto da libertação e da vida. Na véspera do sábado todos devem recolher quantidade dupla de maná, pois o povo tem o direito de comer também no dia de descanso. “Recolham durante seis dias, pois no sétimo, que é sábado, não o encontrarão” (16,26). Alguns que saíram no sábado para buscar maná não o encontraram, e foram reprimidos por Javé, que dirigiu-se a Moisés dizendo: “até quando vocês se negarão a observar meus mandamentos e leis?” (16,28). E proibiu que o povo saísse de seu lugar em dia de sábado. Assim, “no sétimo dia o povo descansou” (16,30). Um comentário conclusivo demonstra que o maná foi constante durante todo o período da travessia de Israel pelo deserto. “Os filhos de Israel comeram maná durante quarenta anos, até chegarem à terra habitada. Comeram o maná até chegarem à fronteira de Canaã” (16,35). Isso confirma que a necessidade que provocou a murmuração foi uma necessidade permanente da vida do povo no deserto. E a resposta de Javé foi equivalente com esta necessidade.

V – NOVAMENTE FALTA ÁGUA (17,1-7)

O problema da falta de água volta a assombrar o povo. O povo novamente se volta

contra seus líderes com a seguinte murmuração: “Dê-nos água para beber” (17,2). Moisés busca desconversá-los questionando-os: “Por que vocês discutem comigo e colocam Javé à prova?” (17,2). Mas os filhos de Israel, diante da necessidade de água, põem os líderes à

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prova: “Por que você nos tirou do Egito? Foi para matar de sede a nós, nossos filhos e nossos animais?” (17,3). Sempre que surge um novo problema o povo reclama sua condição e, pondo à prova seus líderes, reivindica solução. Moisés, representante do povo junto a Javé e vice-versa, representante de Javé junto ao povo, é sempre responsabilizado pelo problema, dificuldade a que o povo precisa enfrentar. Diante de cada problema, e deste não diferente, o povo se arrepende de ter saído da escravidão do Egito. Responsabiliza Moisés por sua morte iminente. Como nos casos anteriores, Moisés passa a queixa para Javé. Esta atitude de Moisés é identificada por Pixley como uma busca de inspiração divina para propiciar a vida fora do Egito, como ele próprio afirma: “quando Moisés refere o problema a Iahweh, está reconhecendo que houve inspiração divina na busca de condições que propiciaram a vida fora do Egito e que, portanto, não é correta a atitude de voltar para o Egito ou lamentar a saída” (PIXLEY, 1987, p. 123). Javé atende seu povo, não o deixa desamparado. Indica a Moisés como deve proceder para resolver o problema: “Passe à frente do povo e tome com você alguns anciãos de Israel; leve com você a vara com que feriu o rio Nilo; e caminhe. Eu vou esperar você junto à rocha de Horeb. Você baterá na rocha, e dela sairá água para o povo beber” (17,5-6). Javé responde à murmuração do povo com seu líder, Moisés, oferecendo-lhe água para matar a sede. E o faz publicamente, na frente dos representantes do povo, os anciãos de Israel. O povo tem dificuldade de compreender que “se Iahweh moveu o povo para lutar e sair de condições mortíferas, era para que ele vivesse e não morresse” (PIXLEY, 1987, p. 123). Diante desta incompreensão é que surge a dúvida: “Javé está no meio de nós, ou não?” (17,7). Dúvida esta que dá nome ao lugar: “Massa e Meriba” – provação e disputa, contestação, respectivamente (cf. PIXLEY, 1987, p. 124).

VI – ATAQUE SURPRESA DOS AMALECITAS (17,8-16) A história do ataque surpresa dos amalecitas não é como as quatro histórias que a precederam. “Não é reflexão sobre o perigo da contra-revolução e a maneira como Iahweh e Moisés responderam a este perigo” (PIXLEY, 1987, p. 124). O conteúdo do texto parece pretender recordar a perpétua inimizade entre Israel/Javé e Amalec. O texto assim reza:

Os amalecitas foram e atacaram Israel em Refidim. Então Moisés disse a Josué: “Escolha certo número de homens e saia amanhã para combater os amalecitas. Eu ficarei no alto da colina com a vara de Deus na mão”. Josué fez o que Moisés havia dito, e saiu para combater os amalecitas. Entretanto,

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Moisés, Aarão e Hur subiram ao topo da colina. Enquanto Moisés ficava com as mãos levantadas, Israel vencia; quando ele baixava as mãos, Amalec vencia. Ora, as mãos de Moisés já estavam pesadas; então eles pegaram uma pedra e a colocaram aí, para que Moisés se assentasse. Enquanto isso, Aarão e Hur sustentavam os braços de Moisés, um de cada lado. Desse modo, as mãos de Moisés ficaram firmes até o pôr-do-sol. Josué derrotou Amalec e sua tropa ao fio da espada. Então Javé disse a Moisés: “Escreva isso num livro como memória e diga a Josué que eu vou apagar a memória de Amalec debaixo do céu”. Depois, Moisés construiu um altar e lhe deu o nome de “Javé minha bandeira”, dizendo: “Uma certa mão se levantou contra o trono de Javé: haverá guerra de Javé contra Amalec de geração em geração” (17,8-16).

Há que se fazer algumas considerações sobre este texto. Num primeiro plano pode-se associar o ataque dos amalecitas como um símbolo dos obstáculos que dificultam a construção de uma sociedade justa. O povo, em sua caminhada rumo à liberdade e à vida, sempre de novo encontrará esses obstáculos, que são vencidos com a participação de Javé. Mas há que se considerar também que desta vez o povo luta e possui organização militar. No ataque egípcio são montadas estratégias de fuga e aniquilamento do inimigo sem confronto direto. Agora, porém, há um exército que luta, liderado por um novo personagem, Josué, que parece ser um chefe militar de Israel, e defende o povo pelo fio da espada. Pode-se concluir disso que Israel já possui uma organização de defesa. E a vitória contra Amalec é apresentada como resultado do poder que inspirava nos guerreiros israelitas a mão de Moisés postado em cima da colina. O acontecido deve ser escrito em um livro, isto é o que Javé determina. Assim, todas as gerações tomariam conhecimento da supremacia de Javé com relação a Amalec. E Javé passa a ser a bandeira dos filhos de Israel. Isto é o que fica inscrito no altar que Moisés construiu em honra a Javé: “Javé minha bandeira”. E o relato encerra reafirmando o conflito entre Javé e Amalec.

VI – INÍCIO DE UMA NOVA ORGANIZAÇÃO SOCIAL (18,1-27) Este capítulo pode ser dividido em duas partes. Do início até o versículo 12, descrevendo a ratificação do êxodo pelo sacerdote de Madiã, Jetro, sogro de Moisés, e do versículo 13 ao 27, quando Jetro propõe a Moisés uma descentralização do poder.

6.1 – Ratificação do Êxodo (18,1-12) O relato inicia descrevendo que Jetro, sogro de Moisés, havia tomado conhecimento do feito de Javé em favor dos filhos de Israel. “Jetro, sacerdote de Madiã e sogro de Moisés,

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ficou sabendo de tudo o que Javé havia feito com Moisés e com seu próprio povo Israel: como Javé havia retirado Israel do Egito” (18,1). E Jetro vem agora encontrar-se com Moisés:

“acompanhado da mulher e dos filhos de Moisés, Jetro foi encontrar-se com ele no deserto onde estava acampado, junto à montanha de Deus” (18,6). Jetro traz consigo a mulher e os filhos de Moisés.

A volta da mulher e dos filhos de Moisés mostra que a fase mais difícil já passou. E

as palavras de Jetro, sogro de Moisés, são uma grande confissão de fé. Alegre com os benefícios que Javé havia feito em favor de Israel, disse Jetro: “Seja bendito Javé, que libertou vocês do poder dos egípcios e do Faraó. Ele arrancou este povo do poder do Egito. Agora eu sei que Javé é o maior de todos os deuses, pois quando eles tratavam vocês com arrogância, Javé libertou o povo do domínio egípcio” (18,10-11).

A confissão de fé de Jetro revela o Deus Javé como o Deus verdadeiro, o único capaz

de libertar o povo. Esta confissão de fé tem ainda a função de indicativo do rumo da história:

o projeto histórico legítimo é aquele que processa a libertação para mais vida, e este é o projeto de Javé, os demais projetos são alienantes e geram morte.

6.2 – Nova organização do poder (18,13-27) Moisés é o líder por excelência do povo. O povo recorre a este líder máximo a fim de que resolva seus problemas, e espera por isso, se preciso, o dia todo, como nos apresenta o texto: “no dia seguinte, Moisés sentou-se para resolver os assuntos do povo. Ora, o povo procurava por ele desde o amanhecer até à noite” (18,13). Jetro, ao ver isso, condena este procedimento por sua insuficiência: é demasiado pesado para Moisés, e terminará por esgotar a ele e ao povo.

O sogro de Moisés viu tudo que ele fazia pelo povo e disse: “O que é que

você está fazendo com o povo? Por que está sentado sozinho, enquanto todo o povo o procura de manhã até à noite?” Moisés respondeu ao sogro: “O

povo me procura para que eu consulte a Deus. Quando eles têm alguma questão para resolver, me procuram para que eu a resolva e para que eu explique os estatutos e as leis de Deus”. O sogro de Moisés replicou: “Mas

o que você está fazendo não está certo. Você está matando, tanto a si

mesmo como ao povo que o acompanha. É uma tarefa muito pesada, e você

não pode fazê-la sozinho” (18,14-18).

A organização do poder em vista das decisões indica uma centralização por parte de

Moisés. Esta é a grande denúncia que faz Jetro, sogro de Moisés, criticando este procedimento não apenas por sua insuficiência, mas também por razões políticas, como demonstra Pixley:

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Os israelitas se tinham rebelado contra uma sociedade em que o faraó era tirano e que podia arbitrariamente decidir a sorte do povo. A nova sociedade na terra que mana leite e mel deveria montar-se sobre estruturas políticas mais populares. Sem embargo, o povo busca as soluções do máximo líder do seu movimento de libertação, e, com isto, pensam ter as decisões de Deus. Não é que não existissem expressões do poder popular. Desde o começo do movimento participam os anciãos. Mas não se mencionam os anciãos neste texto sobre a administração da justiça. Surge ambiguidade no processo revolucionário, que começa a cobrir com legitimidade revolucionária um sistema centralizado de poder judicial. Não é sistema classista, porque o centro não vive da exploração de uma classe subordinada, mas tampouco é poder que nasce do povo (PIXLEY, 1987, p.

130).

Diante destes limites, Jetro sugere a Moisés uma descentralização do poder. Precisando recorrer somente a Moisés, ele próprio, como líder, pode não aguentar, e o povo corre o risco de não ser bem atendido ou até de ser injustiçado. Diante disso, Jetro, sogro de Moisés, propõe uma nova organização social: o exercício da justiça e do governo de uma forma partilhada.

Aceite meu conselho, para que Deus esteja com você: represente o povo diante de Deus e apresente junto de Deus as causas dele. Ensine a eles os estatutos e as leis; faça que eles conheçam o caminho a seguir e as ações que devem praticar. Escolha entre o povo homens capazes e tementes a Deus, que sejam seguros e inimigos do suborno: estabeleça-os como chefes de mil, de cem, de cinqüenta e de trinta. Eles administrarão regularmente a justiça para o povo: os assuntos graves, eles trarão a você, os assuntos simples, eles próprios resolverão. Desse modo, vocês repartirão a tarefa, e você poderá realizar a sua parte. Se você fizer assim e Deus lhe der as instruções, você poderá suportar a tarefa, e o povo voltará para casa em paz

(18,19-23).

A proposta de Jetro é o esboço de uma “democracia popular”, uma “política participativa”, ou seja, o poder político é participado de modo a representar os interesses do povo. Evita-se, com isso, que o líder seja arbitrário e que o povo seja acomodado, esperando simplesmente que o líder resolva seus problemas. A participação do povo torna-se efetiva quando este tem a chance de ver suas decisões ratificadas pelo seu líder. E Moisés aceita esta proposta, como segue o texto:

Moisés aceitou o conselho do sogro e fez o que ele havia dito. Escolheu em Israel homens capazes e os colocou como chefes do povo: chefes de mil, de cem, de cinqüenta e de dez. Eles administravam regularmente a justiça para o povo: os assuntos complicados, eles passavam para Moisés; e os simples, eles próprios resolviam. Depois, Moisés despediu-se do povo, e este voltou para sua terra (18,24-27).

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O que Jetro propõe é uma solução burocrática. Percebendo o problema da

ineficiência da administração da justiça, ele propõe uma maneira de torná-la mais eficaz. “Como em toda burocracia, o poder desce da cúpula, e não como esperaríamos de um movimento popular, em que deveria subir da base” (PIXLEY, 1987, p. 131).

A proposta de Jetro consiste numa descentralização da liderança. Moisés é a

autoridade máxima, o líder por excelência, mas deve nomear pessoas de sua confiança para ajudar na administração da justiça. Estas pessoas passam a ser responsáveis pelos casos mais simples, somente os mais difíceis caberão a Moisés. Moisés assume a função de consulta a Deus, de instruir seus escolhidos nas leis de Deus e a resolução dos casos que seus escolhidos não conseguirem resolver. Moisés se reservará, portanto, à representação do povo diante de Deus, bem como às instruções de Deus ao povo. As decisões corriqueiras de casos menores caberão agora aos juízes por ele nomeados. Concluindo com Pixley, esta nova sociedade:

Não se trata de sociedade de classes como a do Egito, pois Moisés não tira proveito do trabalho dos israelitas nem tem poder para fazê-los executar trabalhos forçados. É antes uma organização revolucionária e burocrática. Revolucionária, porque rechaça a sociedade de classes, buscando realizar as leis de Iahweh, o libertador. Burocrática, porque, na administração da justiça, o poder provém de cima para baixo, do líder Moisés aos juízes nomeados por ele (PIXLEY, 1987, p. 132).

VII – CONSIDERAÇÕES FINAIS

O acontecimento do êxodo, em seu conjunto, apresenta-se como experiência

salvífica de Israel. É na caminhada pelo deserto, diante das dificuldades, que este povo vai entendendo a salvação em termos de libertação. A finalidade da libertação era ir para a “terra onde corre leite e mel” (Ex 3,8). Contudo, ao sair da terra da opressão, terra do Egito, o povo entrou, no deserto, lugar de dificuldades, a tentação de voltar atrás. É um povo liberto, mas que ainda precisa aprender a viver a liberdade, sem construir uma nova opressão, sem cair nos antigos vícios ou estabelecer entre eles as relações que comumente eram estabelecidas entre eles e o faraó. Diante disso, inicia-se uma nova fase, a fase “pós-revolucionária” do processo. Uma nova sociedade, com novas relações, precisa ser construída. Toda a história da caminhada do povo pelo deserto enfatiza uma experiência de Deus como salvador no plano terrestre, intimamente relacionado com o campo político e social. Na relação com Deus Javé, Deus único e libertador, são possíveis novas organizações,

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novas relações. Deus é entendido como salvador, porque atua na história dos homens. E

salvação equivale a libertação, por isso Deus é definido pelo êxodo como Deus libertador. Daí

que a libertação é vista, conforme Croatto, como “o centro do querígma bíblico” (CROATTO,

1981, p. 67).

REFERÊNCIAS BIBLIOFRÁFICAS:

BÍBLIA SAGRADA. Edição Pastoral: Paulinas, 1990.

BALANCIN, Euclides M. & STORNIOLO, Ivo. Com ler o livro do Êxodo: o caminho para a liberdade. São Paulo: Paulinas, 1990.

CROATTO, Severino. Êxodo: uma hermenêutica da liberdade. Trad. J. Américo de Assis Coutinho. São Paulo: Paulinas, 1981.

. A relevância sócio-histórica e hermenêutica do êxodo. Concilium, Petrópolis:

Vozes, n. 209, p. 133-141, 1987.

GRANZER, Matthias. O projeto do Êxodo. São Paulo: Paulinas, 2004.

PIXLEY, George V. Êxodo. São Paulo: Paulinas, 1987. (Grande Comentário Bíblico).